sexta-feira, janeiro 22, 2016

BC se descredencia ao sinalizar submissão - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 22/01

Tombini poderia ter defendido a manutenção dos juros com argumentos técnicos, mas errou na comunicação e reforçou a imagem de um funcionário do Planalto



O desastre para a imagem do Banco Central de Alexandre Tombini, e, por tabela, do governo Dilma Rousseff, não se deve apenas a uma inusitada nota divulgada pelo presidente da instituição, na terça, no início da reunião de dois dias do Conselho de Política Monetária. A gravidade do fato está no conjunto da obra. Isso, não bastasse a liturgia do cargo limitar declarações sobre o Copom. Mais exótico ainda foi soltar a nota na abertura da reunião do conselho, periodicamente realizada para avaliar a taxa básica de juros da economia, a Selic, se ela deve ser recalibrada ou não.

Curto, o comunicado de Tombini considerava “significativas” as revisões das estimativas do FMI para a evolução da economia brasileira este ano e em 2017, publicadas naquele dia: de uma recessão de 1% para 3%, e de um crescimento de 2,3% para estagnação.

Nenhuma novidade. O presidente do BC, com acesso fácil a toda sorte de indicadores, não deveria ficar surpreso. O relatório Focus, elaborado semanalmente pelo próprio Banco Central com estimativas dos maiores departamentos de análise do mercado, já apontava na mesma direção.

Por que alardear o já sabido? A interpretação corrente foi que Tombini se sentiu obrigado a justificar formalmente a decisão de propor no Copom manter os juros em 14,15%, depois de ter indicado que o BC apertaria a política monetária, apesar da recessão. Uma das indicações estava na carta aberta ao ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, exigência legal quando o BC não evita que a inflação estoure o teto da meta.

A atitude patética funcionou como um bumerangue e atingiu o próprio Tombini e o BC, por reforçar a ideia de que o Banco Central jamais teve autonomia desde que Dilma assumiu a Presidência. E nunca terá. Causa avarias também no governo, ao realçar sua faceta intervencionista.

Foi lembrado que o BC de Tombini começou a cortar juros em 2011, em Dilma 1, quando a inflação não estava dominada. A Selic chegou a 7,12%, sob aplausos do PT e entre sorrisos no Planalto, mas as taxas tiveram de voltar a subir em 2013. A inflação jamais voltou à meta de 4,5%, nem a economia chegou a um crescimento sustentado, justificativa “desenvolvimentista” para menos juros.

A imagem de um BC submisso é reforçada pela pressão explícita do PT contra a política monetária, alvo também do ex-presidente Lula. E Tombini poderia ter feito tudo dentro do rito normal, pois até mesmo economistas ortodoxos defendiam a manutenção da Selic, temerosos da “dominância fiscal”, situação em que os juros altos, por aumentarem muito os gastos públicos, perdem eficácia como terapia anti-inflacionária.

Reforça-se, cada vez mais, a imperiosidade de um programa sério de corte de despesas públicas, para tirar o país deste beco sem saída. A situação se agrava porque, não bastasse o governo não ter compromisso confiável com um efetivo ajuste fiscal, o BC parece ter perdido de vez as condições de ancorar os preços.

Golpe de misericórdia - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 22/01

Perguntaram a Aristóteles a diferença entre história e literatura. A história, respondeu o mestre grego, olha os fatos. Mostra a realidade. No presente, o que os homens são e fazem. No passado, o que foram e fizeram. A literatura lida com os mesmos acontecimentos. Mas os mira com olhar diferente. Revela o que os homens gostariam de ser e de fazer. Ou o que gostariam de ter sido ou de ter feito.

Vem à tona a sabedoria do filósofo estagirita em razão dos malabarismos do governo brasileiro. Como se usasse os óculos de lentes verdes de Oz e desembarcasse no País das Maravilhas, a presidente Dilma Rousseff teima em apresentar enredos que não conversam com a verdade. Ao contrário das obras de ficção, falta-lhes coerência interna - pacto não escrito estabelecido entre autor e consumidor. Um finge que diz a verdade. O outro finge que acredita.

A história ficou clara na campanha eleitoral. Discursos e imagens marqueteiros iam de encontro à verdade escancarada nos hospitais, nas escolas, nos transportes, nas estradas, na segurança. Esperava-se que a vitória nas urnas representasse o retorno ao mundo real. A indicação de Joaquim Levy para o comando da economia justificou a esperança. Mas, boicotado pelos próprios petistas, o ministro abandonou a pasta.

Nelson Barbosa ficou longe de apontar rumo para a falta de rumo nacional. Em Davos, no primeiro dia oficial do Fórum Econômico Mundial, ele apostou no ovo ainda na barriga da galinha. Contou com a volta da CPMF para o reequilíbrio das contas públicas. Inspirou-se, por certo, na Lei Orçamentária Anual (LOA), em que figura o imposto que taxa a movimentação financeira como se estivesse em vigor.

O governo prevê aprová-lo até maio para ser cobrado em setembro. Se a ficção coincidir com a realidade, a arrecadação deve atingir R$ 10 bilhões, cujo montante ajudaria o cumprimento da meta de superavit primário de 0,5% do PIB em 2016. O condicional impressiona, mas não convence. Dilma Rousseff precisa de um choque de realidade.

Em 2015, o país perdeu 1,5 milhão de postos de trabalho - o pior resultado desde o início da série histórica em 1992. A taxa de desemprego, hoje superior a 8%, poderá fechar 2016 em acima de 12%. O deficit primário deverá chegar a R$ 68,2 bilhões.

Após encolher cerca 4% no ano passado, a economia, como um todo, ficará 3,5% menor, conforme projeção do FMI. A inflação encerrou 2015 em 10,67% e segue em ritmo ascendente. A taxa de juros em 14,25% torna o valor do crédito exorbitante, o que desestimula os investidores. No ambiente de incertezas, o Executivo resiste aos cortes necessários na máquina pública para frear o aumento do deficit fiscal. Persistir nesse roteiro é levar o Brasil à falência e torná-lo a Grécia da América Latina.

A desmoralização do BC - EDITORIAL O ESTADÃO

ESTADÃO - 22/01

Ao manter em 14,25% a taxa básica de juros, o Banco Central (BC) comprometeu sua credibilidade, o ativo mais importante da autoridade monetária. O presidente da instituição, Alexandre Tombini, terá muita dificuldade para contestar a humilhante versão corrente no mercado. Segundo todas as aparências, a decisão sobre os juros foi determinada pela presidente Dilma Rousseff, interessada em afrouxar a política econômica para reconquistar popularidade. Numa versão ainda mais desmoralizante, o episódio teria marcado uma vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da cúpula do PT. Até agora inúteis contra a Operação Lava Jato, as pressões do partido seriam muito eficazes quando aplicadas sobre o BC.

Tombini chocou o mercado ao indicar, na véspera da decisão, uma reviravolta na estratégia de combate à alta de preços. Durante um mês e meio dirigentes do BC haviam deixado clara a intenção de elevar os juros na reunião de janeiro do Comitê de Política Monetária (Copom).

O compromisso com uma política severa foi reafirmado na carta enviada ao ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, com a explicação sobre o enorme desvio da inflação, em 2015, em relação à meta de 4,5%. Tombini reiterou, no texto, a disposição dos membros do Copom de tomar as medidas necessárias para conter a alta de preços, independentemente das demais políticas da área econômica. A carta ressaltou o efeito inflacionário do desajuste das contas do governo.

Durante semanas predominou no mercado a expectativa de uma alta de juros de meio ponto porcentual, justificada tanto pela persistência de uma inflação elevada como pela insegurança sobre a evolução das contas públicas neste ano. Como levar a sério um orçamento aprovado e sancionado com a previsão de receita de um tributo inexistente, o imposto sobre o cheque? Como acreditar nas promessas de ajuste de um governo gastador, populista e com um currículo de enormes desmandos na área fiscal?

Com a imagem de seriedade restaurada, gradualmente, a partir de 2013, quando foi retomada com algum empenho a política de combate à inflação, o BC permaneceu, até há poucos dias, como um raro fator de segurança num ambiente governamental de incompetência e de irresponsabilidade. Também isso acabou.

A reviravolta foi anunciada de forma escandalosa na véspera da decisão sobre os juros. Uma breve nota divulgada pelo BC resumiu um comentário de Tombini sobre a atualização das projeções globais do Fundo Monetário Internacional (FMI). Segundo o comentário, as mudanças na avaliação do cenário brasileiro, com estimativa de contração econômica de 3,5% neste ano e de crescimento nulo no próximo, haviam sido significativas.

A piora das expectativas em relação ao Brasil foi considerável, mas nada surpreendente, quando se considera a deterioração das condições políticas e econômicas desde o fim do ano. Surpreendente, mesmo, foi a divulgação do comentário do presidente do BC, como se a sua reação imediata fosse indispensável e normal. Não era, especialmente na véspera de uma deliberação do Copom, quando deve prevalecer a regra do silêncio.

Só havia uma explicação plausível: Tombini tentava justificar uma decisão contrária àquela indicada anteriormente. O recurso ao FMI para fundamentar a mudança foi especialmente estranho. O Fundo estaria mais informado a respeito do Brasil do que o BC? Poderia haver argumentos técnicos a favor da decisão, mas foram inutilizados com esse lance.

O comentário de Tombini concentrou-se nas previsões para o Brasil, mas a ênfase mudou no comunicado distribuído depois da reunião do Copom. Para justificar a manutenção da taxa de 14,25%, os autores do texto mencionaram a “elevação das incertezas domésticas e, principalmente, externas”. A ênfase se deslocou para as incertezas externas, nem sequer mencionadas na declaração de Tombini. Insegurança internacional certamente existe, como indicam os tombos das bolsas de valores, mas, apesar disso, o FMI projeta para a economia global crescimento continuado em 2016 e 2017, com desempenho imensamente melhor que o do Brasil. Terá o BC aderido ao costume da presidente Dilma Rousseff de atribuir os males brasileiros às perversidades de um mundo cruel? Seria a cereja no bolo da desmoralização.

quinta-feira, janeiro 21, 2016

Nem Mineirinho surfa essa onda do atraso - MARCO ANTÔNIO ROCHA

ESTADÃO - 21/01

Otimismo versus pessimismo é tema perfeitamente oportuno neste momento. E não apenas porque um novo ano está começando. Isso é normal em todos os anos, quando estão começando. As pessoas, acho que no mundo inteiro, pelo menos no mundo do calendário gregoriano, tendem a aderir ao pessimismo ou ao otimismo nas passagens de anos – e a fazer prognósticos sobre o ano que entra.

Mas este ano é especial no Brasil.

A economia brasileira está no fundo do poço. Pior do que isso. Está sem ninguém que aponte uma saída minimamente viável. Segundo pesquisa recentemente divulgada pelos jornais, atribuída ao Pew Research Center, abrangendo 40 países, 87% dos brasileiros acham que a economia vai mal e apenas 13% pensam que vai bem.

Mas na cabeça das pessoas as coisas não parecem tão mal assim. Outros dados da mesma pesquisa mostram que 66% dos brasileiros acham que a economia vai melhorar nos próximos 12 meses, 13% acham que vai ficar igual e 21% acham que vai piorar. Digamos, pois, que uma maioria de brasileiros olha a economia com certo otimismo e uma minoria, 34%, ou não crê ou está pessimista. É um contingente nada desprezível. Mas é claro que, se 2015 tivesse terminado com a economia em crescimento, mesmo que pequeno, esse contingente seria menor.

A quantidade de pessimistas e de otimistas, medida por pesquisas, tem, no entanto, menor importância do que os sentimentos que envolvem as pessoas e que as pesquisas não medem: desesperança e descrença, além da frustração. A frustração em amplas camadas da população que pensavam ter tirado o pé da lama nos governos do PT deve ser acabrunhante. Somam-se a ela os sentimentos de desesperança e descrença diante do quadro político atual. Nas TVs, o que se vê, com o início dos horários de propaganda eleitoral, é o mesmo discurso vazio de gente sem a menor categoria para liderar ou animar quem quer que seja ou de quem já passou pelo poder e não tem mais nada a dizer ou a propor. É o ramerrão costumeiro sobre promessas ou planos inviáveis. Sem falar no desanimador panorama dos que já estão encastelados no poder, no Legislativo ou no Executivo federais, e que se entregam à gafieira de salão em torno de Eduardo Cunha, Dilma Rousseff, Michel Temer e do agora mais novo suspeito na Lava Jato: Jaques Wagner.

“Sei que tivemos um ano difícil, mas estou otimista com 2016. Acredito na força do nosso povo e na agenda que traçamos para o País”, disse a chefa da Nação na sua mensagem de ano-novo ao povo brasileiro. “A agenda de reformas do Estado vai aprofundar a democracia e fortalecer as bases do crescimento sustentável.”

A crença na força do nosso povo e a crença na hipótese de o Brasil ser maior que as crises são o refrão de quem não tem mensagem e tem a obrigação de parecer otimista.

Mas, talvez, se ela recitasse ou apresentasse a “agenda que traçamos para o País” e esmiuçasse os passos concretos que o seu governo pretende dar neste ano para conseguir atravessar a turbulência, estabilizar pelo menos a economia e desanuviar o nó político que a impede de governar, o do seu impeachment, talvez conseguisse incutir algo do seu declarado otimismo “com 2016” na alma dos brasileiros que a ouviam.

Mas nada disso se ouviu. Nenhum pormenor que pudesse ser levado a sério. Essa pessoa que nos dirige vem prometendo o futuro e entregando o atraso desde que tomou posse pela primeira vez. E sob seus pés ou asas rolam os maiores escândalos de corrupção, de desrespeito à coisa pública e de desatinos administrativos de que se tem notícia.

Pode ser que o Brasil seja forte e grande o bastante para surfar essa onda perversa e sair dela como o campeão Adriano de Souza, o Mineirinho. Mas, francamente, está muito difícil. E, do jeito que este governo deixa o País, 2016 talvez seja um problema bem menor do que os anos seguintes.

Ora, sejamos marxistas - EUGÊNIO BUCCI

ESTADÃO - 21/01

Na semana passada, 105 advogados, vários deles com clientes indiciados na Operação Lava Jato, divulgaram um manifesto contra o juiz Sergio Moro. Em sua “carta aberta em repúdio ao regime de superação episódica de direitos e garantias verificado na Operação Lava Jato”, acusaram promotores, policiais, juízes e “a mídia” de “menoscabo à presunção de inocência”. Despertaram a ironia de articulistas, o repúdio de integrantes do Ministério Público, o desprezo silencioso de outros advogados e o aplauso público ou discreto de dirigentes do PT.

Uma vez mais ficou explícita a unidade disciplinada entre o discurso dos causídicos que defendem os interesses dos empreiteiros tornados réus e o discurso dos petistas de alta patente, que, quando defendem o governo (pois de vez em quando o atacam), alegam tratar-se de um governo de esquerda. As diferenças ideológicas que havia entre os dois discursos – o do PT e o das empreiteiras – desapareceram como enxurrada engolida pela boca de lobo. As megaconstrutoras de ultradireita, viciadas em dinheiro público, e o partido nascido à esquerda, das greves do ABC, já foram antípodas. Agora cantam em dueto. São duas mãos que se lavam em águas enlameadas.

Descartada por absurda a hipótese de que as empreiteiras se tenham convertido ao socialismo utópico, façamos a pergunta inevitável: esse partido é mesmo de esquerda? Será de esquerda o dueto entre o PT que não gostava do capital e o capital que não gosta de concorrência? Será uma “aliança tática”? Será que, no imaginário da nomenklatura, a perfeita simbiose se justifica para combater “inimigos de classe” mais “reacionários” e mais fatais, como repórteres mal remunerados, delegados de polícia e magistrados de primeira instância? Será que, comparados ao reportariado, os empreiteiros são assim tão “progressistas”? Serão eles os mais fiéis “companheiros de viagem” na marcha rumo ao fim da exploração do homem pelo homem?

Falemos sério. O mais provável não é nada disso. O mais provável é o mais horrível. Já não é o lobby das construtoras que se apressa a socorrer o caixa eleitoral dos companheiros, mas a máquina dos ex-sindicalistas que adere a um modo de produção parasitário (um híbrido promíscuo entre a acumulação primitiva e o capitalismo de Estado), ao qual dá sustentação reverencial, como quem ampara a galinha dos ovos de ouro (ou como quem venera um totem).

Aquilo que a olhos otimistas não passa de desvios infelizes a manchar a trajetória de uma organização partidária combativa talvez não seja apenas isso, quer dizer, talvez não seja meramente uma sucessão de incidentes desabonadores, mas a manifestação de um caráter histórico que até outro dia se ocultara. Aquilo a que damos o nome genérico de corrupção não seria, enfim, um deslize criminal episódico, mas uma determinante estrutural; não seria uma traição da política, mas a mais acabada expressão da política de colaboração de classe entre uma legenda de retórica trabalhista e uma burguesia inculta e retrógrada. Não, não estamos falando de uma colaboração de classe qualquer, mas de um pacto sem lei no qual a rapinagem do erário, em lugar de evento excepcional, é o método.

Em resumo: o que tem o aspecto de desvio não é bem um desvio, um ato que escapou do campo da ação política, mas a realização material da política, a política em sua matéria mais irredutível.

Se for verdadeira essa hipótese, os sinais do discurso petista estão todos invertidos. O encadeamento dos governos que aí estão há 13 anos, que esse discurso insiste ser de esquerda, seria o oposto. Não terá sido para tornar viável uma agenda de inclusão social que alguns se deixaram aliciar pelo capital selvagem. O que parece ter acontecido é o contrário: foi para tornar viável um modelo de poder que passava pela subtração prolongada – deslocando o centro do Estado para uma órbita estranha ao interesse público – que se fez necessário acenar com benefícios aos eleitores pobres. Os tais programas de distribuição de renda e de combate à pobreza não teriam sido uma política pública inclusiva, mas uma concessão equivalente ao custo de manutenção do modelo.

Não que políticas públicas de combate à pobreza constituam um vício em si mesmas. Elas são justas e dramaticamente necessárias no Brasil. O que fez delas uma manobra oportunista, ineficaz e infértil não foi o seu conteúdo, mas o caráter do modelo de poder que as acionou. Elas não traduziram uma estratégia de resgate dos pobres, mas de instrumentalização deles.

É triste. O PT não é Itabira ou Orlândia, mas se reduz aos poucos a uma fotografia na parede. Como dói. A verdade que se vai decantando na imagem machuca os olhos. Haverá futuro? Não é provável, a menos que as vozes vivas que ainda resistem nas cercanias do partido enunciem respostas públicas, destemidas, objetivas e materiais sobre sua tragédia ética e sua farsa.

Em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, Karl Marx lembra que a primeira revolução (burguesa) de Napoleão libertou os camponeses da semisservidão e os transformou em pequenos proprietários de terra. Não por solidariedade, mas porque o poder por trás das guerras napoleônicas dependia de varrer o feudalismo (a servidão) para patrocinar o capitalismo. Poucos anos depois do que parecia ter sido uma conquista, os tais pequenos proprietários se deram mal. Marx anota: “A forma ‘napoleônica’ de propriedade, que no princípio do século 19 constituía a condição para libertação e enriquecimento do camponês francês, desenvolveu-se no decorrer desse século na lei da sua escravização e pauperização”.

A estrela do PT chegou a reluzir como a via de promoção dos desassistidos, mas não os libertou da pobreza. O projeto de classe parece que foi outro. Os empreiteiros, que não são marxistas, sabem muito bem por quê.


Crise lá, crise cá e os juros do BC - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 21/01

O tumulto na finança mundial ofereceu motivo de última hora para o Banco Central manter os juros na mesma. Não seria preciso pretexto, caso a conversa do BC fosse melhor. De resto, a muvuca financeira começou na virada do ano; a reviravolta do BC, na terça de manhã.

Na nota obscura em que anunciou sua decisão, o BC pareceu dizer que levou em conta a recessão horrenda e "...a elevação das incertezas domésticas e, principalmente, externas".

Citou ainda as "perspectivas de inflação". Isso quer dizer que o BC fez contas novas e descobriu que o IPCA vai cair? Ou que, por ora, é melhor dar um tempo, ficar parado e tolerar o risco de IPCA ir a 8% ou 10% em 2016?

Quanto às "incertezas domésticas", elas por ora não auguram boas coisas para a inflação, embora um desastre recessivo maior possa deprimir salários e preços. É isso?

Quanto à situação externa, a coisa está, sim, meio sinistra. Mas o que preocupa o BC? Além do mais, dadas a decisão de ontem e a desordem mundial, para onde vai o dólar?

Nos dias de medo, o pessoal do dinheiro grande lá fora desanda a falar num palavreado hiperbólico. Coisas como "não vai ser 2008, mas pode ser como 2001-02", lembrança do estouro da bolha de ações das empresas de tecnologia da moda e da contabilidade criminosa nos EUA. Há quem fale de "credit crunch", seca de crédito, quando bancos reduzem empréstimos à míngua, por medo de calotes.

Os menos exagerados relembram 2013. Então, os donos do dinheiro tiveram reação histérica à mera menção de que os juros subiriam nos EUA, o que viria a ocorrer só no final de 2015. Há quem lembre também a crise europeia de 20011-12.

Não há clareza a respeito dos motivos da derrocada nos mercados financeiros. Há mal-estar com a decadência do ritmo chinês, que prejudica o crescimento e a capacidade de pagamento de países "emergentes" e/ou muito dependentes de commodities. Há a derrocada do petróleo, que arrebenta alguns emergentes e pode levar petroleiras à falência.

O risco de quebra de petroleiras seria um motivo mais específico do medo, mas pode se tratar de apenas um bom chute, pois o problema ainda é nebuloso. Bancos e outros credores sofreriam um baque, claro. De qual tamanho? Se a finança estima que a coisa vai ser feia, pode começar a se livrar de outras dívidas mais arriscadas, derrubando preços em vários setores e secando alguns canais de crédito.

A moeda chinesa pode ser um problema. A China padece de fuga de capitais. A fim de evitar desvalorização maior de sua moeda, o yuan, o país vende reservas (dólares). Para fazê-lo, enxuga a quantidade de dinheiro na praça doméstica, o que não pega muito bem para uma economia que pretende evitar redução maior do crescimento.

Caso desista da estratégia, deve haver desvalorização do yuan e, de pronto, algum tumulto no mercado, dadas as consequências (algum impacto no comércio mundial, desvalorizações nos países do entorno chinês etc.).

Há, enfim, um medo vago de que se puseram trilhões na especulação com negócios e países de risco, ora mal das pernas, trilhões oferecidos a juro menor que zero pelos BCs. Por aqui, não temos vaga ideia de como o nosso BC relaciona esse tumulto à nossa crise.

Vale qual? - CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O GLOBO - 21/01

Por que as pessoas não querem se endividar nem para investir nem para consumir? Porque não sabem como será o amanhã


Por que a presidente Dilma não foi a Davos neste ano? Uma boa resposta: para não criar atrito com os movimentos sociais, os sindicatos e a esquerda em geral, que estão em Porto Alegre celebrando o Fórum Social.

Mas há outra explicação: Dilma estaria muito desconfortável nos Alpes suíços, e não por causa do frio. Ocorre que a presidente fez um longo discurso em janeiro de 2014, lá mesmo, dando lições de como sair da crise e garantindo que seu governo continuaria intransigente no controle da inflação e no equilíbrio das contas públicas, sem descuidar do incentivo ao crescimento.

Hoje teria que gastar todo o seu tempo tentando explicar como as coisas podem ter dado tão errado. A economia brasileira, que já não vinha bem, entrou na rota do desastre justamente naquele ano de 2014.

Dilma mudou três vezes o seu discurso.

A ortodoxia de Davos foi logo abandonada. Na medida em que a campanha avançava, a presidente fazia o diabo para ganhar e mudou para a plataforma Porto Alegre. Um assessor da candidata Marina comentou, lá pelas tantas, que o estado deplorável das contas públicas exigia um choque fiscal.

Dilma definiu: choque fiscal é cortar tudo para pagar juros aos bancos.

Banco Central independente? Isso é pauta dos bancos, cravou a presidente.

Logo, nada de ajuste, nem de elevar os juros, já que essas duas políticas seriam pró-ricos.

A terceira mudança, uma volta a Davos, se deu após a vitória. A presidente convocou um ortodoxo para a Fazenda, Joaquim Levy, que começou a fazer a... “pauta dos bancos”.

Mas como Dilma é uma “esquerdista com mais conteúdo ideológico”, como disse Lula, ontem, a presidente embarcou no ajuste contrariada. Acabou que o próprio governo sabotou essa política econômica, a tal ponto que Levy não teve alternativa senão pegar o boné.

Agora, também como disse Lula, Dilma precisa apresentar rapidamente a pauta do crescimento. E, de fato, a presidente está falando em turbinar o crédito, por exemplo, via bancos públicos.

Nessa confusão, nenhum caminho deu certo. A tal política de estímulo ao crescimento terminou em inflação acima dos 10% e uma recessão de 4% — dois recordes, duas realizações efetivamente inéditas. E isso com os juros na Lua. O ajuste a meia boca e logo interrompido deixou um... aumento de impostos.

Aliás, outro dia a presidente disse que precisava de mais impostos porque, com a atividade econômica muito baixa, cai a arrecadação de tributos. Ora, é o contrário, não é mesmo? Se as empresas já enfrentam queda de vendas, tendo que cortar gastos e empregos — aumentar a carga tributária pode ser o tiro fatal.

Aquela lógica só funciona para um governo que não quer cortar os gastos nem fazer qualquer reforma. Só tomando mais dinheiro do contribuinte conseguiria equilibrar as contas. Dá-lhe CPMF.

Mas esse mesmo governo promete dar em troca o alívio do crédito. Não vai dar certo, de novo.

Não é que esteja faltando crédito. As empresas e as pessoas é que não querem tomar dinheiro emprestado. Como notou o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, certamente fonte autorizada e também amigo do governo, a demanda por crédito hoje “é quase inexistente”.

E por que as pessoas não querem se endividar nem para investir, nem para consumir? Simples. Porque não sabem como será o dia de amanhã. Mas sabem que do jeito que está, a coisa vai mal.

Vale qual política econômica? A do aumento do gasto público, em suas diversas modalidades? Essa, o pessoal já sabe, terminou em completo desastre.

A outra, tipo Davos, mal andou e já foi abandonada. Ok, volta-se a Porto Alegre. Qual a chance de dar certo algo que já deu muito errado?

Coloque em cima disso o risco político e se entende por que a previsão para este ano é de outra recessão.

LULA E OS JORNALISTAS

O ex-presidente disse ontem que vai processar “todo mundo”. No caso, trata-se dos jornalistas que, em sua avaliação, publicam mentiras sobre ele, Lula, sua família, seus amigos, seu partido.

Tem esse direito.

A liberdade não exclui a responsabilidade. O jornalista pode publicar o que quiser, mas se veicular calúnia, injúria ou difamação, o ofendido tem todo o direito de ir aos tribunais.

Míriam Leitão e eu processamos — e já obtivemos uma primeira vitória — o funcionário do Palácio do Planalto que alterou nossas biografias na Wikipedia, incluindo trechos ofensivos e mentirosos.

O problema é que Lula quer processar “todo mundo” porque acha que tudo que sai desfavorável a ele, como as denúncias da Lava-Jato, é mentira. E se fosse assim, ele devia começar processando o procurador Deltan Dallagnol e o juiz Sérgio Moro, assim como todos os delatores.

Os jornalistas sérios só estão contando o que ouvem aqui e ali.

Política externa do BC - MATIAS SPEKTOR

FOLHA DE SP - 21/01

Nesta semana, o presidente do Banco Central golpeou o que restava de credibilidade na política econômica com um vaivém de expectativas que gerou desconfiança generalizada no Brasil e no exterior. Fiel a seu estilo, Dilma arrematou: "O BC não é uma instituição independente".

A conta desse experimento malfadado cairá nas costas de quem depende de salário e emprego. É possível que o governo chegue ao fim do mandato com uma economia menor e mais empobrecida do que encontrou ao assumir as rédeas.

O problema, no entanto, não se esgota aí. Os vaivéns do BC também estão tendo sérias consequências sobre as relações exteriores do país.

Responsável por 48% do PIB da América do Sul, o Brasil é o maior investidor, credor e consumidor da vizinhança. A Bovespa é a principal e mais líquida das Bolsas de Valores sul-americanas, ao passo que o real desenvolveu nessas duas décadas uma zona de influência a seu redor.

Quando o Brasil exporta crise para seus vizinhos, termina importando problemas graves. Afinal, a América do Sul é hoje essencial para a saúde da economia brasileira. A dependência com os vizinhos é mútua.

Num momento em que todos os países da vizinhança padecem de um contexto global de juros em alta e de preços de commodities em baixa, a crise brasileira pode ser explosiva.

O Banco Central deveria estar emitindo sinais claros que permitissem a governos estrangeiros ter o tempo para mitigar os impactos negativos da crise. Sem isso, o que resta é desconfiança numa região da qual dependemos.

Este governo é o que é, e não parece que vai mudar de toada. Mas é hora de começarmos a imaginar as linhas básicas da diplomacia financeira que será necessária para recolocar o Brasil nos trilhos quando tivermos a próxima transição presidencial.

A prioridade absoluta é reconhecer que o Banco Central é uma das instituições públicas de maior impacto sobre as relações exteriores. Portanto precisa ter os instrumentos para gerir sua realidade de forma inteligente.

O BC possui hoje dez escritórios no país, mas nenhum no exterior. Não conta com um embaixador itinerante para explicar suas posições no exterior nem costuma convidar representantes de bancos centrais estrangeiros para sessões do Copom (Comitê de Política Monetária).

Quase toda a cooperação técnica que o BC oferece na atualidade vai para África, Cuba e Suriname, não para a América do Sul, onde o impacto da política monetária é mais sentido. Não há mecanismos para gerir a interdependência.

É hora de começar a conceber uma diplomacia financeira equipada para valer.

"Pombini" de volta - MERVAL PEREIRA

O Globo - 21/01

A decisão do Banco Central de não subir os juros pode até mesmo ser sustentada tecnicamente, mas é inegável que o seu presidente, Alexandre Tombini, cometeu uma barbeiragem na condução do anúncio oficial, reavivando a desconfiança que fez o mercado apelidá-lo de “Pombini”, em referência à sua submissão à presidente Dilma.

Os “pombos” são mais condescendentes, enquanto os “falcões”, mais agressivos, estão sempre prontos a tomarem medidas radicais, se necessário. Tombini tornou-se “Pombini” nas mãos da presidente Dilma, durante o período em que ela resolveu levar os juros a taxas históricas mais baixas sem que houvesse condição para isso.

Em abril de 2013, a taxa Selic chegou à mínima histórica de 7,25%. A partir daí, a política voluntarista de queda dos juros teve que ser abandonada diante da realidade inflacionária, e a taxa voltou aos dois dígitos nas reuniões de novembro de 2013, no sexto aumento consecutivo, que depois continuaram até a taxa chegar aos 14,25% de hoje.

Tombini, na decisão de ontem, não quebrou apenas a tradição de membros do BC não se pronunciarem nos dias de reunião, para não dar margem a especulações, como deixou de lado abruptamente o objetivo de conter a inflação no teto da meta inflacionária neste ano, para depois trazê-la ao centro no ano seguinte.

Após uma audiência fora da agenda com a presidente Dilma, negada oficialmente, mas verdadeira para todas as versões brasilienses, o presidente do Banco Central aproveitou a revisão dos números do FMI para se pronunciar extemporaneamente sobre o documento, insinuando que os novos números teriam influência na direção oposta ao que havia sido sinalizado pelo Banco Central até aquele momento.

Não há dúvida de que os números ruins do FMI, piores do que o próprio mercado estava prevendo para este ano — queda de 3,5% do PIB —, poderiam justificar uma reanálise dos dados, mas não havia razão para que Tombini anunciasse isso ao mercado financeiro em meio à reunião que decidiria a trajetória dos juros.

Além do mais, a surpresa com que as autoridades monetárias brasileiras foram apanhadas indica que não havia segurança sobre os números que estavam usando para tomar decisões. O ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, disse ontem em Davos que os números do FMI são só “projeções”, e que a economia brasileira pode voltar a crescer antes do que o FMI prevê, mas o fato é que “Pombini” os levou tão a sério que quebrou diversas regras para anunciar a mudança de rota.

A autonomia do Banco Central, considerada fundamental para dar credibilidade à política monetária de qualquer governo, já era vista pelo mercado financeiro como próxima do inexistente, e agora temos a prova concreta de que a presidente Dilma interfere como quer nas decisões do Banco Central, não encontrando resistência em “Pombini”.

Até mesmo as informações dando conta de que o Palácio do Planalto não gostara da nota de Tombini, pois ela poderia dar a entender que houvera interferência de Dilma na decisão, mostra que o presidente do Banco Central não está conseguindo nem mesmo fazer o jogo de cena necessário nesses casos.

Na ânsia de justificar uma mudança de estratégia, agora voltada mais para o nível da atividade econômica, Tombini revelou sua fraqueza diante da presidente, ainda mais porque, dias antes, na carta em que justificou o não atingimento da meta de inflação, o Banco Central reafirmara que sua missão estava focada em combater efeitos da alta da inflação.

Muitos economistas criticavam a tendência do BC de aumentar mais ainda os juros, alegando que a recessão da economia só seria piorada com a medida. Mas há outros economistas, como Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, que acham que a recessão não é justificativa para não subir os juros. Ele considera que o país cometeu o mesmo erro em 2011, ao reduzir os juros para combater os efeitos da crise europeia, e acabou tendo uma recessão muito maior.

Arroubo retórico - ROGÉRIO GENTILE

Folha de SP - 21/01

Advogados de acusados pela Operação Lava Jato iniciaram uma guerra política a fim de tentar compensar as dificuldades jurídicas ocasionadas pelas delações contra os seus clientes.

Repetindo a estratégia malsucedida da época do mensalão (quando o alvo era Joaquim Barbosa), divulgaram uma carta acusando os investigadores e o juiz Sergio Moro de promoverem uma espécie de "inquisição" –"em que já se sabe, antes mesmo de começarem os processos, qual será o seu resultado".

O exagero argumentativo dos advogados, no entanto, diz mais sobre a debilidade de suas causas do que o próprio insucesso, até aqui, ao menos, da maioria dos recursos impetrados nos tribunais superiores.

O advogado Técio Lins e Silva, que defende um ex-diretor da Odebrecht, chegou a dizer que a Operação Lava Jato é pior do que a ditadura militar. "Estou falando de uma arbitrariedade como nunca se viu no Brasil", afirmou àFolha.

Para contrapô-lo, contudo, basta relembrar o que disse anos atrás sobre a ditadura militar o próprio Técio Lins e Silva, que advogou para presos políticos e conseguiu, literalmente, salvar a vida de vários deles.

"O AI-5 proibiu o habeas corpus para crime político. Você era preso e não podia mais recorrer."; "A lei permitia ao policial decretar a prisão por trinta dias e a incomunicabilidade por dez."; "O preso sumia, era difícil localizá-lo. Muitos nunca mais foram achados."; "Vários clientes ficavam presos encapuzados."; "Ela ficou tantas horas no pau de arara que teve uma ruptura no nervo ciático poplíteo externo, que é o que faz o pé dar sustentação ao corpo."

É possível que a Lava Jato tenha cometido ilegalidades –cabe à própria Justiça analisá-las.

De qualquer modo, ainda que isso seja verdade, a comparação com a ditadura é descabida e grosseira. Mais do que um trivial abuso retórico de advogado, o que houve foi um desrespeito às vítimas do regime militar.

O asceta de Garanhuns - EDITORIAL O ESTADÃO

Estadão - 21/01

“Se tem uma coisa que eu me orgulho, neste país, é que não tem uma viva alma mais honesta do que eu. Nem dentro da Polícia Federal, nem dentro do Ministério Público, nem dentro da Igreja Católica, nem dentro da Igreja Evangélica. Pode ter igual, mas mais do que eu, duvido.” Lula continua achando que o brasileiro é idiota. Reuniu ontem blogueiros amigos para um café da manhã em seu instituto e, a pretexto de anunciar que vai participar “ativamente” do próximo pleito municipal, aderiu pessoalmente – já o havia feito por intermédio de seu pau-mandado Rui Falcão – à campanha promovida por prósperos advogados e seus clientes, apavorados empresários e figurões da política, para desmoralizar a Operação Lava Jato, que procura acabar com a impunidade de poderosos corruptos.

Lula conseguiu escapar penalmente ileso do escândalo do mensalão e, por enquanto, não está oficialmente envolvido nas investigações sobre o assalto generalizado aos cofres públicos. Os dois casos juntam-se numa sequência das ações criminosas que levaram dinheiro sujo para os cofres do PT e aliados e “guerreiros” petistas como José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares para a cadeia.

O que é inacreditável é que, como presidente da República e dono do PT, Lula não tivesse conhecimento do mensalão e do petrolão que desfilavam sob seu nariz. Assim, é notável o atrevimento – talvez mais estimulado pelo desespero do que por sua índole de ilusionista – com que o personagem, que ficou rico na política, se apresenta como monopolista das mais prístinas virtudes.

Só mesmo alguém empolgado pelo som da própria voz e pelas reações da plateia amiga cairia no ridículo de se colocar como referência máxima e insuperável em matéria de honestidade. “Pode ter igual, mas mais do que eu, duvido.”

Apesar de inebriado com as próprias virtudes, Lula encontrou espaço para a modéstia – infelizmente de braços dados com a mendacidade, que alguns chamam de exagero retórico – ao se referir ao combate à corrupção. Fez questão de dar crédito a sua sucessora, deixando no ar a pergunta sobre a razão pela qual os petistas esperaram oito anos, até que o chefão deixasse a Presidência, para se preocuparem com os corruptos: “O governo criou mecanismos para que nada fosse jogado embaixo do tapete nesse país. A presidente Dilma ainda será enaltecida pelas condições criadas para punir quem não andar na linha nesse país”. E arrematou, falando sério: “A apuração da corrupção é um bem nesse país”.

Lula não se conforma, no entanto, com a mania que os policiais e procuradores têm de o perseguirem, obstinados pela absurda ideia fixa de que ele tem alguma coisa a ver com a corrupção que anda solta por aí: “Já ouvi que delação premiada tem que ter o nome do Lula, senão não adianta”. Ou seja, os homens da Lava Jato ou da Zelotes não vão sossegar enquanto não obrigarem alguém a apontar o dedo para o impoluto Lula. Mas, confiante, o chefão do PT garante que não tem o que temer: “Duvido que tenha um promotor, delegado, empresário que tenha coragem de afirmar que eu me envolvi em algo ilícito”.

Lula falou também sobre a fase mais financeiramente próspera de sua carreira política, quando, depois de ter deixado o governo, na condição de ex-presidente faturou alto com palestras aqui e no exterior patrocinadas por grandes empresas. Explicou que é comum ex-chefes de governo serem contratados para transmitir suas experiências ao mundo. Quanto a palestrar no exterior para levantar a bola de empreiteiras que para isso lhe pagam regiamente, Lula tem a explicação que só os mal-intencionados se recusam a aceitar: “As pessoas deveriam me agradecer. O papel de qualquer presidente é vender os serviços do seu país. Essa é a coisa mais normal em um país”.

De fato, é muito louvável que um ex-presidente da República se valha de seu prestígio para “vender” os serviços e produtos de grandes empresas brasileiras aptas a competir no mercado internacional. Resta definir quando essa benemerência se transforma em tráfico de influência.

“Nesse país”, porém, qualquer um que manifeste dúvidas em relação à absoluta integridade moral do asceta de Garanhuns é insano ou mal-intencionado.


Credibilidade em declínio - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 21/01

Entre os vários fatores que contribuíram para a crise política e econômica que o país vive, pesou a falta de credibilidade do Executivo. As contradições têm sido a tônica do governo Dilma desde 2011. A previsão de que a queda forçada dos juros para 7,25%, em 2012, não se sustentaria ante o descompasso entre as políticas monetária e fiscal, se confirmou. Desde então, a inflação vem aumentando a cada mês, o que forçou o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) a elevar a taxa Selic na tentativa de conter o índice do custo de vida em patamar civilizado.

A decisão não surtiu o efeito esperado. O ano de 2015 fechou com inflação de 10,67%, resultado dos reajustes dos preços administrados, como combustível, energia, transporte, com forte impacto nos gastos dos setores público e privado. O desemprego passou de 8% e deverá superar 12% até o fim de 2016. O país está em recessão.

O esforço da equipe econômica, sob o comando do então ministro Joaquim Levy, de corrigir o deficit fiscal e realinhar o Brasil na rota de crescimento fracassou. Os cortes sugeridos nas despesas e nos programas de governo não tiveram boa acolhida no Executivo e menos ainda entre aliados no Congresso. Os gastos seguem sem o devido lastro financeiro.

Agora, a falta de confiança chega ao Banco Central. Pressionado pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e pela presidente da República, o presidente da instituição, Alexandre Tombini, protagonizou episódio sem precedentes na semana de reunião do Copom, quando os integrantes ficam em silêncio como estratégia de controle das expectativas de mercado.

Às vésperas do encontro, por meio de nota, Tombini sinalizou que o comitê levaria em consideração as projeções do Fundo Monetário Internacional. A declaração em si não teria tanta importância se não tivesse sido dada um dia depois de ele ter sido chamado ao Palácio do Planalto. O FMI previu que a economia brasileira encolherá 3,5% neste ano e ficará estagnada até 2017.

Para o mercado, que esperava alta de 0,5 ponto percentual da taxa Selic, o comportamento de Tombini indica subordinação aos interesses políticos do Executivo, que não deseja alta de juros. A decantada autonomia do BC escorreu pelo ralo. Ou seja, a perda de credibilidade do Executivo contamina a autoridade monetária e amplia as incertezas em relação ao compromisso de trazer a inflação para o centro da meta no próximo ano - promessa nunca cumprida desde 2012.

A essa altura, aumentar ou não a taxa Selic em 0,5 ponto percentual passou a ser o menor dos problemas. O grande nó é a descrença nas autoridades. Quem em sã consciência se arriscaria a investir no país cuja política monetária e econômica está submetida aos interesses do partido da situação? Quem buscará crédito a preços exorbitantes para expandir uma unidade produtiva ante tantas incertezas?

A falta de credibilidade ganha peso extraordinário e se torna o pior adversário do governo. É hora de reconhecer que, sem conter gastos, pôr fim às mordomias e eliminar o excesso de cargos que abrigam apaniguados e outros penduricalhos, o país seguirá atolado no pântano da estagnação econômica, com graves e profundos danos a toda a sociedade.


COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

JAPONÊS DA FEDERAL TEM MOTIVOS PARA VISITAR LULA

Desde a da primeira fase da Lava Jato, os investigadores acumulam motivos para promover a visita do “japonês da Federal” ao ex-presidente Lula, deixando de considerá-lo apenas “testemunha” ou “informante”. A primeira citação a Lula no esquema, já em 2014, foi de Ricardo Pessoa (UTC), chefe do cartel de empreiteiras, que disse ter dado R$2,5 milhões roubados da Petrobras à sua campanha de 2006.

ELE SABIA DE TUDO
Em seus primeiros depoimentos, o doleiro Alberto Youssef, estopim do escândalo do Petrolão disse que Lula “sabia de tudo”.

FIM DA PICADA
A revelação mais recente é de Nestor Cerveró: Lula foi bancado com R$50 milhões desviados de contratos da Petrobras em Angola.

DEDOS EM TUDO
Fernando Baiano, o operador do PMDB, contou que foi Lula quem mantinha Cerveró no cargo. E depois o indicou à BR Distribuidora.

EM ‘FAMIGLIA’
Amigão de Lula, José Carlos Bumlai articulou um contrato para o Grupo Schahin na Petrobras, com objetivo de pagar um empréstimo ao PT.

DILMA AGUARDA PARA SE VINGAR DO VICE TEMER
O encontro entre a presidente Dilma Rousseff e o vice Michel Temer, a primeira desde a crise do impeachment no final do ano passado, não representa bandeira branca. Pelo contrário. Ela adiou a reunião por duas vezes porque queria encontrá-lo após a denúncia contra o ex-ministro Geddel Vieira Lima. Temer verificou que a “tramoia” tem digital do governo e do presidente do Senado, Renan Calheiros.

MENTOR DA AÇÃO
Aliados de Temer dizem que a ação contra Geddel foi orquestrada pelo ministro Jaques Wagner (Casa Civil), que aprendeu a odiar o baiano.

AMIGO DE TODOS
Relatório da Polícia Federal revela uma série de mensagens trocadas entre Geddel e o ex-presidente da OAS Aldemário “Léo” Pinheiro.

OUVIDO MOCO
Apesar de contrariado, Temer não acusou o golpe. Cordialmente, encontrou-se com Dilma e a aconselhou a ouvir os aliados.

ELE NÃO LÊ, NÃO OUVE, NÃO VÊ
Lula desafiou “promotor, delegado, empresário, amigo ou não amigo” a acusá-lo de envolvimento “em algo ilícito”. Ele não deve nem ler jornais, tampouco se informar das acusações que já pesam contra ele.

VERGONHA
Em 2002, a taxa de desemprego era de 12,6% e no primeiro ano da era PT variou para 12,3%. Em dez anos, a taxa foi reduzida para 5,4% no Brasil. E em só 18 meses Dilma desfez os 12 anos de redução.

PLENA LOROTA
Em agosto de 2014, Dilma conclamou que o Brasil se encontrava em “pleno emprego”, ou seja, com menos de 5% de desemprego em média, em todo o País. Em menos de dois anos, o desemprego dobrou.

AGENDA
O Conselhão de Dilma, que teve dois membros presos na Lava Jato e não se reúne desde o início da operação, já definiu a pauta da primeira reunião: reforma fiscal. O encontro deve ocorrer até o fim deste mês.

CONVITE CHANCELADO
Michel Temer avalizou o convite para André Moura (PSC-SE) ingressar no PMDB. Temer está incomodado com o governador Jackson Barreto, que chamou os adeptos do impeachment de “inimigos do Sergipe”.

ORELHA QUENTE
Na véspera de se reunir com a presidente Dilma, o vice Michel Temer recebeu, no Jaburu, o desafeto da petista, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O ministro peemedebista Eduardo Braga (Minas e Energia) e o senador Valdir Raupp (PMDB-RO) também apareceram na reunião.

NA PONTA DO LÁPIS
O Planalto aposta na reeleição de Leonardo Picciani para líder do PMDB. Dos 67 deputados, o garotão tem apoio de 30 e espera ganhar mais cinco com a oferta de um ministério. Outros 30 estão contra ele.

ADVERSÁRIO DE PESO
Os peemedebistas dizem que Hugo Motta (PB) tem mais força do que um deputado mineiro na disputa pela liderança da bancada. Sua candidatura tem apoio de Eduardo Cunha e de Michel Temer.

DESGOVERNO DILMA
Dilma sacramentou o desgoverno: as taxas da economia, emprego, ações da Petrobras e até o dólar atingiram os níveis pré-era PT.

quarta-feira, janeiro 20, 2016

Viva o companheiro da Al-Qaeda - GUILHERME FIUZA

REVISTA ÉPOCA

Há um colaborador da al-Qaeda dando aulas no ensino público brasileiro. Não, não é alguma figura misteriosa suspeita de alguma coisa. É um terrorista condenado - repetindo: condenado - na França por planejar ataques desses que esfacelam centenas de vidas. Pois bem: o professor de física Adlène Hicheur, argelino naturalizado francês, dá aulas na Universidade Federal do Rio de Janeiro, como revelou a reportagem de ÉPOCA. Adivinhe o que fez o governo Dilma Rousseff diante dessa bomba?

Adivinhou: o governo popular informou que vai averiguar o caso, sem precipitações, para esclarecer exatamente do que se trata etc. Ou seja: vai proteger o exterminador. Quem deu a boa notícia foi o insubstituível José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça e dos gatunos do petrolão e do mensalão. Joaquim Barbosa chegou a pedir a demissão do ministro, porque já estavam demais os flagrantes de sua coreografia com os réus daLava Jato. Como é inocente, esse Joaquim Barbosa. Quem iria demitir Cardozo?
Não há ninguém para fazer isso. Quem teria autoridade para fazê-lo está sob proteção do próprio, no vistoso balé com o Supremo Tribunal Federal e a Procuradoria-Geral da República para segurar de pé um governo podre. Governo podre este que concedeu uma bolsa para o terrorista da al-Qaeda trabalhar no Brasil.

Novamente faz-se necessário repetir: o governo brasileiro concedeu uma bolsa do CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico ao companheiro explosivo. Veja o professor da UFRJ trabalhando pelo desenvolvimento científico e tecnológico com o membro da al-Qaeda Fênix da Sombra, aceitando montar uma unidade terrorista na França: "Se sua proposta se trata de uma estratégia precisa (como trabalhar no seio da casa do inimigo central e esvaziar o sangue de suas forças), é preciso então que eu revise o plano que havia preparado."
Como se vê, o Brasil não pode abrir mão de um cientista dessa categoria. É interessante observar que, em dado momento da conversa do valoroso professor da UFRJ com o companheiro Phenix Shadow (o nome original), é mencionada a estratégia de provocar a "recessão econômica" em seus alvos capitalistas. Aí fica tudo definitivamente claro. O governo Dilma não pode demitir um professor da al-Qaeda que faz exatamente o mesmo trabalho realizado pelo PT nos últimos 13 anos: provocar a recessão econômica. É bem verdade que o PT tem sido muito mais eficiente que a al-Qaeda, mas o terrorista está aqui para aprender.

Seria, portanto, uma total incoerência a demissão do professor Adlène Hicheur do ensino público federai. A Petrobras acaba de anunciar um corte orçamentário que causará perda de R$ 260 bilhões no PIB. Ou seja: o PT também trabalha para esvaziar o sangue das forças do inimigo -estão todos falando a mesma língua. A única diferença é que nas mensagens entre os companheiros da al-Qaeda tudo é "se Deus quiser" ou "graças a Deus", e entre os companheiros petistas é tudo graças a Lula (não precisam dizer se Lula quiser, porque ele quer).

O caso do acolhimento do professor terrorista pelo governo Dilma é altamente didático sobre o cenário político brasileiro. O negócio é este mesmo: espalhar células "anticapitalistas" pelo sistema (todos com crachá de bondade progressista) para esvaziar o sangue das instituições e tomar conta delas, para então depená-las. Como o Brasil está constatando, quanto maior a crise econômica provocada pelos companheiros, menor a força da sociedade para deter o avanço de seus crimes. A cereja do bolo é a crise orçamentária na Polícia Federa!: se a Lava Jato parar por falta de verbas, eles chegarão ao crime perfeito.

Enquanto isso, os delinquentes do bem vão para as ruas de São Paulo e outras capitais depredar os símbolos do capitalismo e paralisar as vias públicas — caminhando e cantando e esvaziando o sangue do inimigo, que não pode tocar nos pimpolhos porque eles carregam bandeirolas estudantis (falsas). Já têm até hino da MPB. Está clara a correlação?

Se não estiver, continue esperando eles terminarem o assalto. Lula e Dilma não são réus porque têm o manto protetor da lenda coitada. Não toquem no professor da al-Qaeda - ele também é um coitado lutando contra o monstro capitalista. Até que não exista mais sangue para ser chupado.


Tons de Tombini - MÍRIAM LEITÃO

O GLOBO - 20/01

Normalmente, o FMI fica atrás nas previsões, é mais lento nas correções, porque dentro de cada país é que se sabe mais precisamente o que está acontecendo. Ontem o Fundo reduziu a previsão do PIB do Brasil de -1% para -3,5% este ano e para 2017 caiu de 2,3% para zero. Ficou junto com os mais pessimistas. Normalmente, o BC dá sinais e os segue. Mas ontem Alexandre Tombini mudou o tom no primeiro dia do Copom.

Normalmente, o mercado forma consensos. Mas nada está normal nos últimos tempos. Os economistas estão divididos, como a coluna mostrou ontem. A partir da declaração de Tombini, de que as projeções do FMI serão levadas em consideração na reunião, houve uma mudança na curva de juros e nas previsões do que vai acontecer hoje. Quem achava que os juros subiriam 0,5% passou a aumentar a probabilidade de 0,25%. E há os que acham que o BC pode nem mexer nos juros.

O Brasil teve o maior corte nas previsões do PIB que o FMI fez, mostrando que o país está indo na contramão. A previsão do Fundo é de que a economia global terá um crescimento de 3,4% este ano e de 3,6% no ano que vem. Enquanto as estimativas para a economia mundial sofreram pequenos cortes em relação ao relatório de outubro do ano passado, de 0,2 ponto em ambos os anos, para o Brasil os números caíram 2,5 pontos e 2,3 pontos respectivamente.

Não há consenso no mercado financeiro de que a alta de juros, neste momento, seja o melhor remédio para combater a inflação. Cresce entre os economistas o receio de que mais juros terão apenas efeitos negativos porque aumentarão o custo da dívida interna e o risco-país. Isso pressionará o dólar e a própria inflação. O problema é que os sinais do Banco Central nos últimos meses foram sempre no sentido de refutar essa teoria e indicar que a alta de juros aconteceria para levar a inflação ao centro de 4,5% no ano que vem.

Há apenas 12 dias, no dia 8 de janeiro, o Banco Central enviou carta aberta ao Ministério da Fazenda para explicar as razões de a inflação ter estourado o teto da meta em 2015. No último parágrafo, afirma que “adotará as medidas necessárias de forma a assegurar o cumprimento de objetivos do regime de metas, ou seja, circunscrever a inflação aos limites estabelecidos pelo CMN, em 2016, e fazer convergir a inflação para a meta de 4,5% em 2017.” Essa foi apenas uma de várias demonstrações de alta da Selic nos últimos meses.

Por isso, a nota divulgada ontem pelo presidente do BC, Alexandre Tombini, mexeu tanto com o mercado financeiro. A interpretação foi que Tombini deixou a porta aberta para não subir os juros ou fazer um movimento de alta menor, de 0,25 ponto.

O FMI trata de previsões do mundo todo, por isso nunca é de se esperar que ele esteja mais adiantado do que os outros, seja para prever crescimento ou queda. Desta vez ele se alinhou com os que recentemente aumentaram a previsão de recessão. Há alguns bancos e consultorias que já chegaram à previsão de queda do PIB de 3,5%, mas a mediana do Focus está em 3% e há grandes instituições projetando até abaixo de 3%.

O Banco Central já fez reuniões difíceis, mas esta é talvez a mais complicada dos últimos tempos. A inflação está em dois dígitos, o que não acontecia há 13 anos, e a previsão é de um segundo ano de estouro da meta. Todo o manual de política de metas manda subir os juros. A recessão está entrando em seu segundo ano e as projeções são de que a redução será quase tão forte quanto a de 2015. Com o PIB em queda livre não se pode subir os juros sob pena de aumentar a intensidade da queda. Um indicador encomenda uma decisão do Banco Central exatamente oposta ao que o outro exige. Não será uma decisão fácil para um BC que, além de tudo, nunca teve autonomia para agir e que, a cada reunião, tem que provar que tomou decisão de forma independente.

***
A Secretaria de Educação do Rio mandou um comunicado, a propósito da coluna de domingo, na qual havia críticas à decisão de cortar na merenda escolar. A Secretaria informa que a decisão foi revista e os alunos terão merenda quente nos cinco dias. Difícil este momento para os gestores. É preciso saber onde cortar e onde gastar.

As relações incestuosas de um empreiteiro - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 20/01

Mensagens trocadas pelo presidente afastado da OAS, Léo Pinheiro, recuperadas pela Lava-Jato, denunciam um reprovável conflito de interesses


Iniciada em março de 2014, a Operação Lava-Jato já reuniu o maior acervo da Justiça brasileira em provas, depoimentos, denúncias sobre um esquema de desvio de dinheiro público. Tudo proporcional ao tamanho do que foi saqueado pelo lulopetismo e aliados, a Petrobras. E material continua a ser acumulado, o qual, depois de servir para instruir processos contra inúmeros acusados, será rica fonte para pesquisas e estudos sobre vários aspectos deletérios de como a política e os negócios se misturam no Brasil, longe da opinião pública e dos instrumentos de fiscalização do Estado — em funcionamento na Lava-Jato, felizmente.

Até agora, entre os vários personagens que afloraram no escândalo, destaca-se Léo Pinheiro, presidente afastado da OAS, e cujas mensagens resgatadas de seus telefones celulares pela Polícia Federal revelam uma ampla rede de interesses.

Ao lado de Marcelo Odebrecht, de Ricardo Pessoa, da UTC, entre outros investigados, Léo Pinheiro surge nas investigações como alguém com grande capacidade de articular-se com políticos, autoridades do Executivo e do Judiciário, distribuir e obter favores.

Do círculo de conhecimento do empreiteiro, estão, ou estavam, o ex-presidente Lula, a quem jocosamente chama de “Brahma”, o indefectível Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e, entre outros mais, o atual ministro-chefe da Casa Civil, o ex-governador da Bahia Jaques Wagner (PT) — onde está a sede da empresa —, que inspirou a criatividade de Pinheiro ao ser apelidado por ele de “Compositor”, referência ao músico alemão.

O que transparece de trocas de mensagens entre o empreiteiro, políticos e assessores é que o limite entre a defesa de interesses públicos, por parte de autoridades, e pessoais foi largamente ultrapassado.

Noticiou-se que o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em uma das viagens ao Brasil, teria defendido a oferta da Boeing para substituir os ultrapassados jatos de interceptação da FAB, negócio afinal arrebatado pela sueca Saab. Mas não consta que Biden tenha pedido à Boeing favores para amigos e para ele mesmo, numa escrachada troca de favores.

No convívio descuidado entre empreiteiros e governantes brasileiros, a história tem sido outra, denuncia a Lava-Jato. A OAS de Léo Pinheiro finalizou o prédio em que a família Lula tem um tríplex no Guarujá. Até mesmo Rose, Rosemary Noronha, amiga do ex-presidente, é citada na troca de recados como se houvesse algo que Pinheiro pudesse ajudá-la pessoalmente.

Lula também fez incontáveis gestões a favor de projetos dessas empreiteiras brasileiras. Tudo muito defensável. Menos o fato de o presidente receber por palestras dadas em eventos das mesmas empreiteiras, e tampouco encaminhar pedidos de favores a pessoas próximas.

Este é um aspecto de todo esse escândalo que precisa ser esclarecido, para ajudar na moralização da vida pública brasileira.

Arroz, feijão e inflação - PEDRO FERREIRA E RENATO FRAGELLI

VALOR ECONÔMICO - 20/01

No intuito de minorar o desastre eleitoral petista previsto para o pleito municipal deste ano, Lula e o PT têm defendido a retomada imediata do crescimento econômico. Sem que antes se equacione o problema do endividamento público explosivo, essa aventura não apresenta a menor chance de sucesso.

A história econômica brasileira registra várias experiências fracassadas de adiamento do combate à inflação, no intuito de se promover o crescimento de curto prazo. Em 1963, quando as medidas anti-inflacionárias adotadas pelo Plano Trienal começaram a gerar um inevitável desaquecimento, João Goulart concedeu reajustes para o salário mínimo e aos servidores, inviabilizando o plano de Celso Furtado. A inflação retomou sua trajetória ascendente, enquanto o PIB tomou o rumo descendente.

Em agosto de 1979, ao substituir o ministro Simonsen, Delfim Neto tentou retomar o crescimento, a despeito da pressão inflacionária decorrente do segundo choque do petróleo. A aventura dobrou o nível de inflação, tendo sido revertida após um ano com catastróficos resultados sobre o PIB a partir de 1981. Em 1986, após substituir o ministro Dornelles, Funaro adotou medidas expansivas. Seis meses depois, quando a inflação mensal atingiu 14%, lançou o Plano Cruzado que fracassou em menos de um ano.

O que atualmente impede a economia brasileira de crescer é a incerteza causada pelo crescimento explosivo da dívida pública e pela fragilidade do quadro político. Enquanto a receita tributária cai devido à recessão, a despesa pública continua a crescer por causa da indexação de boa parte dos gastos. Diante da elevada taxa real de juros atual de 6% ao ano, o superávit primário necessário para estabilizar a relação dívida/PIB teria que atingir 3% do PIB, isto sob a hipótese irrealista de que o PIB voltasse a crescer a 2% ao ano. Mas a proposta orçamentária para 2016 prevê superávit de apenas 0,5%, e mesmo esse número modesto parece impossível de ser alcançado.

Diante do crescimento explosivo da dívida, o governo só consegue rolar os títulos que vencem ao aceitar pagar uma elevada taxa de juros. Tentativas voluntaristas de baixá-la levariam ao encurtamento do prazo médio de vencimento, agravando a instabilidade.

A retomada do crescimento exigiria aumento de investimentos. Mas o empresário que hoje considera a possibilidade de investir sequer consegue calcular a taxa de retorno do projeto, dada a instabilidade política e a certeza que novos impostos serão criados durante o prazo de maturidade do empreendimento. Por que correr os riscos inerentes à produção ante a confortável alternativa de receber 6% ao ano aplicando em títulos públicos? Em vez de investir no negócio, as empresas abertas recompram ações no mercado em baixa.

Enquanto a sociedade brasileira não negociar politicamente quem pagará o custo do ajuste, via menores serviços e transferências, ou maiores impostos, o país continuará paralisado. Do ponto de vista de ajuste fiscal, o ano de 2015 foi praticamente perdido. Mas, pelo menos, a correção de preços relativos - câmbio e preços administrados artificialmente contidos durante o período pré-eleitoral - foi iniciada, gerando uma inevitável pressão de custos que levou a inflação a 10,7%. Para que esse patamar de inflação não se perpetue, é preciso que os salários nominais não acompanhem a inflação, desarmando-se a pressão de custos, e que o governo não re-introduza, como vem anunciando, mecanismos de estímulo para economia. Aquecer a economia agora perpetuaria o patamar inflacionário de 2015, aumentando as incertezas.

Diante do rito estabelecido pelo STF, a derrota do impeachment ficou mais provável, e teoricamente Dilma Rousseff teria assim uma oportunidade de se redimir dos erros crassos da Nova Matriz Econômica. Uma vez confirmada no cargo, ela poderia tentar implantar reformas estruturais, entre elas a reforma da previdência. O estabelecimento de uma idade mínima para a aposentadoria, com uma adequada regra de transição, poderia ser apresentada como medida necessária para garantir a sobrevivência dos programas de maior impacto sobre os mais desfavorecidos, como o Bolsa Família. Uma adequada campanha poderia explicar à população que a idade mínima não atinge os mais pobres, pois estes não conseguem se aposentar por tempo de contribuição, mas sim por idade, pois trabalham muitos anos na economia informal.

Somos, entretanto, bastante céticos de que haverá espaço político para qualquer ajuste mais profundo durante os próximos três anos. O PT já anunciou com todas as letras ser contra qualquer reforma estrutural e clama por políticas de estímulo ao crescimento. Os demais partidos da base de apoio ou vão na mesma direção ou estão mais preocupados em sobreviver à Operação Lava-Jato. Assim, apesar dos anúncios recentes do novo ministro da fazenda, é muito pouco provável que o governo leve ao Congresso uma proposta de reforma previdenciária ou qualquer proposta de ajuste mais séria.

Além disto, os sinais têm sido contraditórios: ao mesmo tempo em que o BC indica aumento dos juros, o Ministério da Fazenda anuncia expansão do crédito dos bancos públicos. O primeiro quer conter a demanda e recuperar sua reputação, o segundo quer expandir a demanda, ajudando o PT nas eleições de outubro. Como Nelson Barbosa já mostrou ter maior poder político, tudo indica que a segunda linha de ação prevalecerá e que teremos pela frente uma política feijão com arroz que buscará estimular o crescimento da economia tentando manter a inflação sob controle. Esse é um filme ruim que já vimos no passado. Não há final feliz, a inflação ganha no final.

Pedro Cavalcanti Ferreira e Renato Fragelli Cardoso são professores da Escola de Pós-graduação em Economia da Fundação Getulio Vargas

O FMI e o Brasil da propina - EDITORIAL O ESTADÃO

ESTADÃO - 20/01

A corrupção brasileira é destaque, mais uma vez, no cenário da economia global – uma realização indiscutível da administração petista. A Petrobrás é a única empresa citada nominalmente nas novas projeções econômicas do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgadas ontem. Pelos novos cálculos, a economia brasileira encolherá 3,5% neste ano e terá crescimento nulo em 2017. Para a atividade global, as estimativas indicam expansão de 3,4% em 2016 e de 3,6% no próximo ano. As previsões do FMI são agora piores que as do mercado nacional: contração de 2,99% em 2016 e crescimento de 1% em 2017, segundo a última pesquisa Focus do Banco Central (BC).

Os economistas do FMI rebaixaram quase todas as projeções publicadas em outubro, mas as perspectivas do Brasil continuam entre as piores. Houve recuo de 0,2 ponto nas estimativas para o desempenho global neste ano e no próximo. No caso do Brasil, os cortes das previsões chegaram a 2,5 e 2,3 pontos. A mudança da percepção – para pior – também foi acentuada entre os analistas nacionais do setor privado e do governo. A mudança é explicável, em boa parte, pelo aumento das incertezas políticas e pelos tropeços da política econômica.

A piora das projeções globais foi em parte ocasionada pela observação de menor dinamismo entre os emergentes. “Em termos de composição por país, as revisões são amplamente explicadas pelo Brasil, onde a recessão causada pela incerteza política, no meio dos continuados efeitos da investigação sobre a Petrobrás, tem-se mostrado mais funda e mais prolongada do que antes se esperava”, escreveram os autores do relatório do FMI. O escândalo da Petrobrás já havia sido citado em documentos do FMI e do Banco Mundial. O assunto está virando lugar-comum nas avaliações da economia brasileira.

A situação brasileira é citada também de forma negativa quando se explica a piora das projeções para a América Latina e o Caribe. Pelos novos cálculos, o produto bruto da região diminuirá 0,3% em 2016 e crescerá 1,6% em 2017. Ou seja, agora se projeta contração econômica para os latino-americanos e caribenhos, “apesar do crescimento positivo na maior parte dos países”. Explicação: “Isso reflete a recessão no Brasil e em outros países em dificuldades econômicas”.

Os outros países são o Equador e a Venezuela. O primeiro sofre as consequências da desvalorização do petróleo e da alta do dólar, usado como moeda nacional. O segundo também é prejudicado pela redução dos preços do petróleo, mas seu principal problema é, obviamente, a política bolivariana.

A Venezuela está em recessão desde 2014, com números bem piores que os brasileiros, e sua inflação chegou à casa de 140% ao ano. Seu comércio interno foi desarranjado pela intervenção do governo, faltam dólares para a importação de bens de consumo essenciais e indústrias são forçadas a paralisar a produção, de tempos em tempos, por falta de matérias-primas e componentes. Também o desastre venezuelano afeta as estatísticas da região, mas o peso dos números brasileiros é muito maior.

Na reunião anual do FMI, em outubro, um dirigente do FMI mencionou de forma elogiosa, numa entrevista coletiva, o dinamismo recente da economia paraguaia, favorecido, segundo ele, por uma política econômica prudente. Entre os principais problemas enfrentados pelos paraguaios, nos últimos tempos, o funcionário incluiu as políticas dos maiores vizinhos, numa referência óbvia a Brasil e Argentina. Os dois países têm sido os grandes entraves à integração global do Mercosul. A derrota eleitoral do kirchnerismo, com a eleição de Maurício Macri para a presidência da Argentina, cria alguma expectativa de mudança na política do bloco.

Mas continua muito arriscado apostar na conversão do governo petista para uma diplomacia econômica mais pragmática, voltada para uma integração mais eficaz no comércio e nas cadeias internacionais de produção. Defensor dessa integração, o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy deixou o governo em dezembro, pressionado pelo PT e desprestigiado pela presidente Dilma Rousseff.

Na ratoeira - ALEXANDRE SCHWARTSMAN

Folha de SP - 20/01

Uma crítica comum à aplicação do regime de metas para a inflação no Brasil refere-se à "insistência no ano-calendário", isto é, à necessidade de atingir a meta no final de um ano, em vez de se concentrar em períodos mais longos, faltando-lhe "paciência". Sempre que vejo esse comentário me ponho a pensar: em que planeta vive quem afirma tal atrocidade?

Não é sequer necessário lembrar que o BC não entrega a inflação na meta desde 2009; basta notar que há cerca de um ano o BC prometeu convergência para o final de 2016, prazo devidamente prorrogado para 2017. Ano-calendário onde, cara-pálida?

Isto dito, elevar o prazo de convergência da inflação à meta não é necessariamente errado, mas, se há benefícios nessa estratégia, há também custos, e a decisão requer que ambos sejam considerados, posição que geralmente escapa ao pessoal do espaço sideral.

Digamos, por exemplo, que, dado um desvio muito significativo da inflação, o BC decida esticar o período de convergência de um ano para três. Para facilitar, suponhamos que a inflação inicial seja 9%, a meta, 3%, e que o BC decida reduzir a inflação em 2% a cada ano. Assim, o objetivo no primeiro ano seria 7%, caindo para 5% no segundo e, finalmente, 3%.

Mantendo as coisas simples, vamos também supor que as expectativas de inflação se ajustem a essa trajetória. Assim, a expectativa para o primeiro ano seria o equivalente a 2/3 da inflação passada (6%) e 1/3 da meta (1%), isto é, 7%.

Já se o BC decidisse por um período de convergência de seis anos (1% por ano), ainda supondo credibilidade, as expectativas seriam 5/6 da inflação passada (7,5%) e 1/6 da meta (0,5%), isto é, 8%.

Assim, quanto mais extenso for o período de convergência, tanto maior será o peso dado à inflação passada na formação de expectativas, ou seja, mais indexada se torna a economia.

Concretamente, esse processo deve ser uma das razões (se não a principal) para a resistência crescente da inflação à queda. Quanto mais os reajustes de salários e preços se baseiam na inflação passada, mais persistente se torna a inflação e mais custosa, do ponto de vista de desemprego e queda do produto, passa a ser sua redução.

Isso coloca o BC diante de um dilema. Caso tente reverter o processo, optando pela convergência mais rápida, terá de pagar um custo, em termos de atividade econômica, maior do que pagaria se mantivesse a estratégia de queda lenta da inflação, a menos que consiga convencer a todos de que, como a convergência será rápida, não será mais necessário reajustar preços e salários com base na inflação passada.

Por outro lado, agentes sabem que o BC, dado seu passado, se preocupa com os custos da desinflação e estaria propenso, de forma oportunista, a estender o período de convergência mesmo se todos passassem a crer que a inflação cairia rapidamente.

Nesse caso, simplesmente não acreditariam em promessas de convergência rápida e seguiriam reajustando preços e salários com base na inflação passada.

Incapaz, portanto, de se comprometer com a queda rápida da inflação, só resta ao BC seguir com a estratégia gradualista. Isso torna o combate mais difícil hoje do que era no passado e será ainda mais complicado quanto mais demorarmos em tratá-lo.

O BC se colocou na ratoeira e não faz ideia de como escapar dela.

O Banco Central na contramão. De novo - CRISTIANO ROMERO

VALOR ECONÔMICO - 20/01
Quando decidiu comentar as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) para o crescimento da economia brasileira neste e no próximo ano, o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, atendeu a uma brutal pressão do Palácio do Planalto, que não quer ver o Comitê de Política Monetária (Copom) elevando a taxa básica de juros (Selic) na reunião desta quarta-feira. Ao afirmar que são "significativas" as revisões feitas pelo Fundo, que ficou mais pessimista, Tombini deixou claro que o Copom desistiu de elevar a Selic neste momento. Trata-se de mais um capítulo da triste história de perda de institucionalidade do BC na atual gestão e de deterioração da qualidade da política econômica do país.

Por que o presidente do BC se surpreendeu justamente agora? Ora, o boletim Focus, que colhe para o Banco Central as projeções de mais de cem instituições financeiras, acadêmicas e de classe, já vinha mostrando há algum tempo que a mediana das projeções aponta para uma queda superior a 2,5% no Produto Interno Bruto (PIB) em 2016. No último boletim, divulgado segunda-feira, a mediana está em 2,99%. Para 2017, o Focus prevê alta de 1%, enquanto o FMI revisou sua projeção de crescimento de 2,3% para zero.

As projeções do Fundo são mais acuradas que as realizadas no Brasil? O que se sabe desde sempre é que os cálculos da instituição são bastante defasados. Em seu comentário, Tombini chamou atenção para o fato de o FMI ter atribuído a fatores "não econômicos" as razões para a "rápida e pronunciada deterioração das previsões". Foi preciso, então, que uma entidade estrangeira advertisse o presidente do BC do Brasil dos efeitos da crise política na atividade econômica?

É curioso porque no último ano Tombini, em conversas reservadas, atribuiu mais de uma vez à "dominância política" a tragédia econômica brasileira. Não se tenha dúvida, por conseguinte: o presidente do Banco Central esteve com a presidente da República e esta lhe ordenou que mantenha os juros onde estão ou até que os reduza.

Uma característica marcante da gestão de Tombini é que desde 2011, alegando razões diversas, ele protelou para o ano seguinte a busca da meta de inflação. Ainda que a conquista da meta, em algumas ocasiões da história do regime de metas, tenha sido postergada para o momento seguinte, no caso da atual administração os adiamentos apenas acarretaram aumento das práticas de indexação e, portanto, do custo de desinflação, uma herança certamente maldita para a próxima geração.

Em 2015, primeiro ano do novo mandato de Dilma Rousseff, parecia que as coisas seriam diferentes ao menos no BC. Tombini e sua equipe voltaram a seguir o regime de metas. Ao observar o modelo, retomaram o ciclo de aperto monetário porque a inflação, mesmo com a economia em recessão, não parava de crescer. Contrariando opiniões inclusive de economistas de perfil ortodoxo, Tombini se preparava, neste momento, para elevar os juros.

A razão é simples: o modelo do Banco Central mostra uma deterioração que, se não for revertida, resultará numa inflação persistentemente acima da meta. O plano de Tombini era fazer um discurso duro quanto à necessidade de combater as pressões inflacionárias e trabalhar para levar o IPCA o mais próximo possível de 6,5% em 2016 e de 4,5% em 2017 - sabendo que não conseguiria lograr sucesso, mas indicando o caminho.

Quando calibra a taxa de juros, o Copom olha para o hiato do produto, a distância que separa o PIB efetivo do potencial. A princípio, a forte queda da atividade econômica e, portanto, do PIB efetivo indicaria um cenário desinflacionário, de abertura do hiato, especialmente quando se observa o que ocorreu nos três primeiros trimestres de 2015. No ano passado, o PIB pode ter recuado 4%, com queda de 9% da absorção doméstica no último trimestre.

O problema é que, também no quarto trimestre, a taxa de investimento (a Formação Bruta de Capita Fixo, isto é, os gastos das empresas e do setor público com máquinas, equipamentos e construção civil) pode ter caído algo como 25%. Quando isso ocorre, reduz-se o potencial de expansão do PIB, o que ajuda a fechar o hiato do produto.

Instituições do mercado que replicam o modelo do BC revelam que, desde a divulgação do último Relatório de Inflação (RI), em dezembro, a projeção de inflação do cenário de referência - aquele no qual a autoridade monetária se ampara para calibrar os juros - piorou. No RI, o IPCA projetado para 2016 é de 6,2%. Aplicando-se o modelo do BC, essa projeção já teria saltado para 6,9%, uma rápida deterioração. No caso de 2017, o salto é de 4,8% para 5,4%.

No cenário de mercado, captado pelo boletim Focus, as expectativas também se deterioraram rapidamente: para 2016, a inflação esperada já é de 7%, ante 6,3% projetados em dezembro; em relação a 2017, os números são 5,2% e 4,9% respectivamente. Além das projeções e das expectativas, o cenário para a taxa de câmbio piorou desde dezembro. O que melhorou foram as estimativas para preço do petróleo e das commodities em geral.

As expectativas também se deterioraram nas medidas de inflação implícita com que o mercado trabalha nas negociações das NTN-Bs, títulos de longo prazo indexados à inflação. Nesses papéis, a inflação implícita está acima de 8,5% para 2016. A pedido desta coluna, uma gestora fez uma interpolação das expectativas contidas nesses papéis para os próximos anos e constatou que a inflação mais baixa, até 2022, é 7,8%.

Se olhasse para seus parâmetros, o Copom teria que aumentar os juros hoje, o que parece uma excrescência e de fato é - se o BC não tivesse procrastinado a sua tarefa nos últimos cinco anos, a inflação não estaria em dois dígitos, uma infâmia, dado que o país não cresce e a carestia corrói a renda justamente dos salários mais baixos e daqueles que vivem de programas de transferência, como o Bolsa Família; os juros também seriam bem menores.

Ao atender sem protestos a meros desígnios políticos, o BC perde institucionalidade - deveria mirar-se no exemplo de instituições como o Tesouro Nacional, que, mesmo sem independência, mostrou ao país do que a tirania é capaz. O resultado da subserviência traduz-se em números: a inflação média anual e mensal da atual gestão é bem superior à dos oito anos do governo Lula - respectivamente, 7,07% e 0,57%, ante 5,79% e 0,47%.

Deixa comigo... - ROBERTO DAMATTA

O GLOBO - 20/01

Dizer num solene manifesto que é uma injustiça prender os ladrões do petrolão promove a dúvida



‘Que eu faço”, “Resolvo”, “Não vou contar”, “Falo com ele”, “Pago”. Complementando, o “deixa comigo” reafirma confiança. É uma expressão reveladora de como as palavras — além de criarem e balizarem o mundo, garantem compromissos — “fazem coisas”, como aprendi com o filósofo John Longshaw Austin. Há uma obrigação na promessa. O mesmo ocorre quando digo “deixa comigo!”.

Mas tudo depende do contexto, senão casar num palco seria um casamento “de verdade”. Mas, em certos momentos, o elo entre o falar e o fazer nivela as distâncias. Falar de sexo é em, certas situações, fazer sexo. Do mesmo modo, os sacrilégio assustam.

Romualdo Flores, católico fervoroso e amigo do coração, ficava chocado ao ouvir as blasfêmias espanholas de Manolo Rivera, um pensador com quem debatemos conflitos intestinos que iam das guerras civis ao soturno incesto da corrupção federalizada num seminário internacional sobre a calúnia realizado em Santander, Espanha.

A calúnia faz com a que o absurdo abafe a verdade. Ela promove a dúvida. “Eu sabia...”, diz o lado maldoso do seu coração ao ouvir a aleivosia. Anunciada com veemência, ela intriga porque, como a propaganda, muitos precisam da mentira e do absurdo. Ademais, tudo o que é impresso ou pronunciado em voz empolada ganha um viés de veracidade. Recentemente, um conhecido foi caluniado, e logo descobri que a aleivosia tinha a capacidade de parir um monte de dúvidas. Como o caluniado era velho e honesto, não era sicofanta e dizia o que pensava, não teria ele realmente cometido o crime denunciado pelo caluniador? Quem, afinal seria o f.d.p — o caluniador ou a vítima? Eis o absurdo que faz com que a calúnia “pegue”. Dizer num solene manifesto que é uma injustiça prender os ladrões do petrolão promove a dúvida que até hoje fratura o território que divide bandidos bilionários enriquecidos pelo assalto às instituições públicas, cujas penas deveriam ser o dobro das de desdentados ladrões de galinha.

Jogar com o oposto de um caráter ou reputação é um elemento perturbador, pois equivale a arrancar uma máscara. O puritano santimonioso é revelado como um pedófilo; um professor de antropologia é denunciado como preconceituoso. Nada foi mais chocante para alguns meninos da minha geração do que descobrir a sexualidade do pais, sobretudo da mãe, cujo nome era sagrado.

Pelo mesma lógica, nada pode ser mais decepcionante do que descobrir que o partido nascido dos trabalhadores e liderado por um operário apaixonou-se perdidamente pelos muito ricos e a eles entregou as riquezas do país. Parece uma caluniosa ficção mas, infelizmente, é verdade.

Daí o mal-estar das reversões morais quando projetos de melhorar o mundo são profanados. A verdade nua e crua — que obriga o mais covarde a tomar uma atitude — produz um efeito semelhante ao da calúnia: essa hipermentira. Prender ladrões do bem comum é como condenar um pai comprovadamente incestuoso. O autorroubo ou a autossabotagem é a negação que tipifica o bandido-político e o neurótico clássico estudado e desvendado por Freud. Qual é a lógica por trás de governantes que batem a carteira do povo que governam?

Se os papéis públicos exigem coerência, como resolver essa multidão de atos desonestos que assolam o país? Um pensador com mais inteligência do que o malogrado cronista diria que essa desonestidade tem, de um lado, um laço profundo com o gigantismo centralizador das esferas de poder; e, do outro, a fé ou a crença em formulas que resolveriam o Brasil. A crença não depende de experiência. Muito pelo contrário, quanto mais ela é rechaçada pelos fatos e pela vida, mais nela se deve acreditar. O crítico absoluto dos outros é um sujeito perdido no labirinto da sua arrogância. Como o soldado que marcha de passo errado.

“Deixa comigo”, dizem as crenças e os amigos de fé dos logros que promovem uma potente solidariedade. Num plano menos visível, porém, o “deixa comigo” é a devolução de um favor. Trata-se do fechamento de um ciclo de reciprocidades que filtram permanentemente valores e ideais. Se os ideais exigem uma sincera e difícil impessoalidade, o favor dos “deixa comigo” tudo perdoa em nome dos companheiros a quem se deve a devolução de um gesto de simpatia na forma de alguns milhões de dólares.

Volto ao começo.

O “deixa comigo” é primo da impunidade. Afinal, tudo passa, e o povo, também sem memória, esquece.

— Acertamos na mosca comprando uma refinaria superfaturada.

— Mas, e se descobrirem?

— Não vão descobrir.

— Mas... e se descobrirem?

— Estamos juntos e cobertos pelo gabinete. Ademais, temos os ritos do processo.

PS: o que diz “deixa comigo” está livre, leve e solto. Acaba de chegar de Miami cheio de lembrancinhas para a família. Já o preocupado passa uma temporada na Papuda, lendo a Bíblia.

Roberto DaMatta é antropólogo

Vai indo que eu não vou - VINICIUS TORRES FREIRE

Folha de SP - 20/01
Em um texto menor que cinco tuítes, dez linhas, o presidente do Banco Central deixou ontem muita gente perplexa ou indignada. Pode ser também que tenha posto fogo no último mapa, ou GPS algo bichado, da política econômica.

Na véspera de uma decisão importante do BC, Alexandre Tombini meio disse "esqueçam o que escrevi" nos últimos meses sobre a taxa básica de juros. Ainda que não o tenha feito, causou um salseiro problemático.

Tombini insinuou que o aumento da taxa de juros, se algum, será menor do que o previsto pelos donos do dinheiro grosso e seus porta-vozes, crença baseada no que o BC afirmava fazia uns seis meses. O pretexto da nota foi a previsão do FMI para o crescimento da economia do Brasil, revisado para baixo, para o ritmo desastroso já sabido de todo mundo.

E daí? Faz diferença, no universo paralelo das pessoas que se ocupam das conversas sibilinas do BC, muitas das quais têm enorme influência no preço do dinheiro. Na falta de rumo certo, é mais provável que tenhamos mais inflação ou inflação mais resistente, difícil de abater.

A economia está desorientada. O governo tem uma meta de gastos em que ninguém acredita. Não há planos de médio ou longo prazo; os de curto prazo são rumores e causam desconfiança. Além de governo na pindaíba e do tumulto político, a economia mundial contribui para nos desnortear.

Em suma, não se sabe bem o que será de gasto público, juros, inflação e câmbio. Sim, é o que parece, estamos à deriva ou quase. E o BC com isso?

Pelo menos desde 2009, o BC vai e volta no anúncio do que pretende fazer de inflação e, pois, taxas de juros. É da vida e responsabilidade dos BCs adaptar-se a reviravoltas econômicas e financeiras. É boa hora para elevar juros rapidamente, causar desemprego e, em tese, baixar logo a inflação? É o caso de ir mais devagar com o andor?

Desde 2009, o BC em geral escolheu o jeitinho, anunciando que levaria a inflação à meta em prazo mais dilatado (dois anos, em vez de um, digamos, para simplificar). Estivesse ou não errado, seja lá o motivo, a inflação não voltou à meta. Uma reviravolta ou duas pode não dar muito problema. Sete anos de juras desfeitas causam descrédito, claro, e acomodação com inflação maior, mais difícil, custosa, de abater.

No início de 2015, o BC disse outra vez "agora vai": a inflação baixa à meta de 4,5% ao ano em 2016 nem que a vaca tussa (então esperava-se IPCA entre 7% e 8% em 2015). Dados os desastres da economia, IPCA viajando a 10%, aceitou-se outra mudança de planos BC: inflação na meta em 2017. Era sinal de aumento de juros.

Ao avisar por onde e em qual ritmo vai, o BC evita acidentes e, se tem crédito, até faz seu trabalho com menos custo (menos juros). O BC dizia até anteontem que estava indo por um caminho. Ontem sugeriu que talvez não vá, com pretexto bisonho.

É verdade que as estradas já estava arruinadas ou obstruídas. Temos uma recessão histórica de quase 4% e do PIB e inflação de 11%, rara combinação desastrosa. Há mesmo muita gente razoável, de ideias de resto divergentes, para quem elevar a taxa de juros agora é inócuo ou até piora a inflação.

Agora, a confusão é geral: inclui o BC, que não sabe o que faz ou passa essa impressão.

Tudo mudou, menos Marina Silva - ELIO GASPARI

Folha de SP - 20/01
Marina Silva está de volta. Se o Tribunal Superior Eleitoral cassar os mandatos de Dilma Rousseff e Michel Temer, o Brasil terá uma eleição presidencial neste ano e Marina poderá lembrar que sua candidatura não contém pesticidas, glúten, nem menções na Lava Jato. Mesmo que isso não aconteça, o grau de deterioração do sistema partidário chegou a um ponto que Marina será uma candidata altamente competitiva em 2018. Seu novo partido é jovem e virgem, pois nenhuma roubalheira chegou a quilômetros de distância da ex-ministra do Meio Ambiente de Lula.

Depois de passar algum tempo em silêncio, Marina reaparece condenando o movimento pelo impeachment de Dilma (que empossa Temer) e defendendo a intervenção do TSE. Numa entrevista ao repórter Marcelo Leite, a professora expôs a concepção "marineira" dos problemas nacionais oferecendo uma esperança, ela. Reapresentou a barafunda retórica que contribuiu para a ruína de sua campanha em 2014.

Definiu-se como "sustentabilista progressista", condenou o uso de rótulos e classificou seu partido como um "experimento" de superação do PT e do PSDB, que rotula como social-democratas. A Rede seria um partido tradicional, de massas e de quadros. Ele busca "um modelo de desenvolvimento que seja sustentável nos seus aspectos econômico, social, ambiental, cultural, político, ético e até mesmo estético".

Essa construção pode dizer tudo, ou nada. Marina exercitou um velho hábito: diz o que não é, mas não diz o que é. Como o freguês que entra num restaurante, lê o menu e diz o que não quer comer. Não quer uma "perspectiva de terra arrasada" porque busca "uma nova síntese". Não quer "megaestruturas para ficar fazendo política como muitos vinham fazendo". Não quer hegemonia nem a sacralização do seu partido. Diante da confusão geral, Marina Silva diz que "o primeiro dever de casa que temos de fazer é trabalhar de fato no programa, de estabelecer prioridades".

Chega-se assim ao programa Marina.

Na eleição de 2014, em menos de três meses, ela teve um desempenho tão espetacular quanto melancólico. Depois da morte de Eduardo Campos, em agosto, conseguiu uma ascensão fulminante, ultrapassando Aécio Neves e liderando as pesquisas para o segundo turno com dez pontos de frente sobre Dilma Rousseff.

Teve duas adversidades: seu escasso tempo no horário gratuito na televisão (dois minutos) e a barafunda de seu programa de governo. Nele apresentava propostas econômicas racionais e saídas políticas visionárias, como a "democracia de alta intensidade" com a convocação de plebiscitos. Em setembro, os adversários começaram a atacá-la e, nos últimos dias da campanha, Aécio recuperou-se, deixando-a fora do segundo turno, mas com 20 milhões de votos.

Marina cometeu o erro de acreditar que poderia se eleger com propostas indecifráveis, vagas ou mesmo conflitantes. Foi obrigada a recuar, mas pode-se dizer tudo dela, menos que tenha mentido com a grandiosidade pertinaz de Dilma Rousseff.

Na sua versão Rede, a ex-ministra corre o risco de reviver um episódio ocorrido há décadas. Um sociólogo de fala desconexa terminou sua exposição e o divertido deputado gaúcho Temperani Pereira cumprimentou-o: "Saiba que diante de suas palavras estou incorrobúvel e imbafefe".

Renan perde força - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 20/01

A tentativa aparentemente frustrada do presidente do Senado, Renan Calheiros de se tornar presidente nacional do PMDB, ou indicar o substituto de Michel Temer, retira-lhe o trunfo político com que pretendia defender seu mandato, acossado por vários processos.

Tudo indica que o PMDB está se acertando por dentro para manter uma unidade pelo menos formal, que lhe permita negociar com o PT em condições de igualdade. Dono das maiores bancadas da Câmara e do Senado, o PMDB dividiu-se nos últimos meses diante da hipótese de impeachment da presidente Dilma, mas agora volta a se unir em torno de Temer para não perder a força política.

Hoje o vice se encontrará a sós com a presidente, num ambiente menos hostil de parte a parte, cada um com sua prioridade: Dilma precisa de apoio na Câmara para que o processo de impeachment não tenha prosseguimento, e Temer precisa da unidade para se manter na presidência do partido.

O senador Renan Calheiros, em mais um movimento para reforçar seu apoio à presidente Dilma, começou uma negociação interna para derrotar Temer na convenção de março, mas, além dos seis processos a que responde, Renan passou a ser citado em várias delações premiadas como receptador de propinas da Petrobras, da subsidiária BR Distribuidora e da Transpetro, onde um apaniguado seu, o ex-senador Sérgio Machado reinou por 12 anos.

As condições políticas para comandar o partido esvaíram-se diante da constatação de que novas denúncias devem ser apresentadas contra ele proximamente. No momento, ao que tudo indica, o presidente do Senado está mais empenhado em se defender das acusações do que em tentar aumentar seu poder dentro do partido, que, aliás, já foi maior. Mesmo por que a maioria do PMDB prefere se afastar do PT, e não se reaproximar mais dele, como pretende Calheiros.

O presidente do Senado, aliás, faz isso não por afinidades ideológicas com o petismo, mas em interesse próprio. Está convencido de que a proximidade com o governo lhe traz benefícios nos processos a que responde. Se se convencer de que não tirará vantagens concretas dessa aproximação, pode aderir ao impeachment se o ambiente político se alterar a partir do primeiro trimestre, quando o desemprego ameaça ser desastroso.

No processo mais perigoso para Renan, ele luta para se beneficiar da prescrição da pena. O Procurador-Geral da República de então, Roberto Gurgel, denunciou o senador Renan Calheiros pela prática dos crimes de peculato, falsidade ideológica e uso de documento falso, com base no inquérito nº 2593 do Distrito Federal, sobre o rumoroso caso de uma amante do senador que recebia pensão de uma empreiteira.

O inquérito data de 2007, quando Calheiros teve que renunciar à presidência do Senado para não ser cassado, mas a denúncia só foi apresentada em 2013. Gurgel alegou que a demora se deu devido estar assoberbado pelo mensalão, o que não parece razoável. Essa demora poderá redundar na extinção da punibilidade dos crimes de falsidade ideológica e uso de documento falso, devido à ocorrência da chamada “prescrição retroativa”.

À época vigiam os parágrafos primeiro e segundo do artigo 110, do Código Penal, que rezavam, respectivamente: “§ 1º A prescrição, depois da sentença condenatória com trânsito em julgado para a acusação, ou depois de improvido seu recurso, regula-se pela pena aplicada”, § 2º “A prescrição, de que trata o parágrafo anterior, pode ter por termo inicial data anterior à do recebimento da denúncia ou da queixa”. Mesmo a lei tendo sido alterada para definir que não pode, em nenhuma hipótese, "ter por termo inicial data anterior à da denúncia ou da queixa”, vale o que ela dizia à época.

As penas previstas para os tipos penais de falsidade ideológica – tratando-se de documento público – e uso de documento falso, de natureza particular, são de um a cinco anos de reclusão, e se a pena de cada um daqueles crimes não exceder a quatro anos, será o bastante para a prescrição retroativa operar. Já a pena do crime de peculato é bem mais severa: dois a doze anos de reclusão. Se a pena aplicada for no máximo de quatro anos, o raciocínio é o mesmo. Resta saber qual será a atitude do Supremo Tribunal Federal, cujo plenário deverá julgá-lo por ser presidente do Senado.

terça-feira, janeiro 19, 2016

Lambuzados de óleo - GUSTAVO PATU

Folha de SP - 19/01

O país viveu para ver Fernando Collor, outrora belzebu do neoliberalismo e da corrupção, receber de Lula da Silva, seu antagonista nas eleições presidenciais de 1989, generosas fatias do comando de uma subsidiária da Petrobras em troca do apoio do PTB, a sigla trabalhista de Getúlio Vargas nos tempos da gênese da estatal.

Também se pode testemunhar, sob o governo da desenvolvimentista, intervencionista e estatista Dilma Rousseff, a gigante petroleira, depauperada, promovendo um plano de "desinvestimentos" –ou, em outras palavras, de privatização de parte de seu patrimônio.

Duas versões disputam, na arena política, a narrativa dos desmandos da administração petista. Do lado dos adversários, afirma-se que o partido instituiu uma inédita corrupção sistêmica, organizada a partir da cúpula, voltada a um projeto de poder hegemônico; de sua parte, o PT culpa os vícios do presidencialismo nacional, nos quais teria se lambuzado, para usar o termo do ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner (ele próprio, agora, sob o fogo do noticiário).

Entre uma tese e outra, há circunstâncias a considerar. Uma delas, os governos Lula e Dilma foram contemporâneos, por mera obra do acaso, de preços historicamente elevados do petróleo, que permitiram investimentos recordes e, igualmente, oportunidades excepcionais para desvios e propinas na Petrobras.

Somem-se a isso os números ilusórios da autossuficiência de combustíveis e a descoberta das reservas do pré-sal, simbolizadas pelas fotos de Lula com as mãos lambuzadas de óleo, evocando Vargas.

Tratava-se de riqueza efêmera, mas farta o suficiente para tentar qualquer governo, independentemente das demandas de sua coalizão partidária. Mais que uma reforma política, faltaram padrões mínimos de governança para impedir a gestão irresponsável da estatal.