FOLHA DE SP - 10/06
A melhor notícia do plano Dilma 2 de investimentos é que ele existe e pode ser tomado sem contraindicações, como aquelas que envenenaram e mataram parte do plano Dilma 1, tais como tabelamentos de rentabilidade.
De início, sua única maluquice é o Trem do Peru, oficialmente "Ferrovia Bioceânica", obra que ligaria o Brasil central ao Pacífico, bancada por capitais chineses, projeto que pode se autodestruir nos próximos anos, tal e qual seu primo fantástico natimorto, o trem-bala.
Do que se trata? O governo vai vender ou conceder a empresas privadas o direito de explorar estradas, ferrovias, portos e aeroportos, a serem construídos, ampliados ou reformados. Na maior parte, pretende-se melhorar as condições de transporte da produção agropecuária do Centro-Oeste e do Sul para os portos do Sudeste e do Norte.
O plano parece enorme, "pacote de R$ 198 bilhões". Mesmo nos desejos do governo, porém, as empresas investiriam apenas um terço disso, R$ 69 bilhões, durante os anos de governo Dilma. Dá uns R$ 17 bilhões por ano. Apenas no primeiro trimestre, uma arrebentada Petrobras investiu esse tanto. O governo, com todas as suas inépcias, investiu R$ 77 bilhões no ano passado.
Esses R$ 17 bilhões equivalem a 0,3% do PIB. A magra taxa de investimento do Brasil anda pela casa de 20% do PIB. Enfim, 20% do valor do "pacote" iria para o Trem do Peru, o Bioceânico, por ora mistura de Fitzcarraldo com Ferrovia do Aço.
Isto posto, aparadas as marquetagens Brasil Grande, não é pouco. Cada real investido nessas obras tende a induzir outros investimentos, de fornecedores aos de gente que deve imaginar oportunidades de negócio, dada a infraestrutura melhor. De resto, mesmo que valores sejam algo fantasiosos, convém ter planos que vão além deste governo.
O plano será bom enquanto durar. Para tanto, precisa de dinheiro, que virá se houver projetos e garantias variadas. Projetos de viabilidade econômica (muitos inexistentes) e cronogramas. Garantia de que o investidor não será espoliado. De que o retorno será compatível como custo do investimento. Dos critérios da licitação. De que haverá uma agência governamental para dar respaldo a esses compromissos. De que agências do governo não atrasem a permissão e a conclusão das obras.
"Falta combinar com Ibama, Funai, TCU e procuradores", no dizer de um empresário, embora as empresas muita vez façam projetos porcos em termos regulatórios e se digladiem na Justiça por derrotas nos leilões.
O plano Dilma 2 de investimentos desmancha, a princípio, estatismos errados do plano Dilma 1. Condiciona, por exemplo, a concessão de mais empréstimos subsidiados do BNDES à capacidade da empresa concessionária de levantar mais dinheiro no mercado, via debêntures, um investimento facilitado por ter desconto de imposto.
Mas o interesse de empresas e investidores em debêntures, daqui e de fora, dependerá de retorno e garantia de que as obras não vão emperrar em burocracias ou outras maluquices. Logo, regulação boa é essencial para haver dinheiro bastante para tirar os planos do papel.
O governo diz que "estão sendo desenvolvidos mecanismos de redução do risco regulatório". Logo, ainda não existem.
quarta-feira, junho 10, 2015
E por que não eu? - ROBERTO DAMATTA
O GLOBO - 10/06
Isso mesmo: o antropologista e cronista lido com afeto e desdém é candidato ao cargo deixado vago pelo infausto e malogrado Joseph ‘Sepp’ Blatter
Eis uma pergunta que todo mundo faz. De minha parte, digo apenas, com humildade, como manda a boa norma do colunismo impresso, que ela serve para ironizar esses tempos paradoxais de brutal enriquecimento fácil, ilícito e legitimo.
Afora isso, a pergunta pode ser usada para expressar profunda ambição ou quixotesca fantasia. Por que não sou rei, Sinatra ou Karl Marx? Não comi Brigitte Bardot ou fui escolhido para presidir uma estatal?
No meu caso, informo, sem deblaterar, que sou candidato a presidente da Fifa.
Isso mesmo: o antropologista e cronista lido com afeto e desdém é candidato ao cargo deixado vago pelo infausto e malogrado Joseph “Sepp” Blatter.
Minhas qualificações? São extraordinárias.
Ei-las:
1. Entendo de futebol desde 1947, quando, em Juiz de Fora e São João Nepomuceno, terra do melancólico supercraque Heleno de Freitas, de quem namorei uma sobrinha, descobri o campeonato local e o carioca. E comecei a ler as revistas esportivas que recebia pela rede ferroviária, da Leopoldina.
Desse conjunto de leituras e de discussões acaloradas, memorizei times inteiros e listas de campeões nacionais e sul-americanos. Em paralelo, fiz, como todo entendido, pesquisas densas sobre a vida de jogadores. Sabia onde tinham nascido, em que clube jogaram e, eis um dado básico para qualquer pedagogia do futebol, sabia de suas magicas e intangíveis habilidades. Quem chutava com os dois pés? Em que posição melhor atuavam? Quem engolia frango ou perdia pênaltis? Quem era temperamental ou frio como foi o caso de Danilo e Didi. Não se falava em dinheiro porque o futebol, embora profissionalizado, permanecia com uma forte dose de amor e amadorismo. Como o problema da Fifa, mas também o da arte, da ciência, da religião e, sobretudo, da economia e do populismo político é a grana, minha candidatura chega para conter o descalabro e erradicar bandalheiras. É isso que, dentro do padrão Fifa, prometo ofecerer.
2. Qualquer presidente tem que saber perder e ganhar e ninguém melhor do que “um Fluminense”, como eu, sabe fazê-lo. O futebol, o cinturão do meu pai e a escova de cabelo de mamãe, bem como o seu piano, ensinaram-me que o futebol é uma mistura de certeza e incerteza ao lado de transparência e técnica, o que quase sempre conduz a resultados contrários à vontade do torcedor. Por isso, ele é uma escola de democracia e um exercício permanente de frustração. Então, pergunto: haverá maior aprendizado para a presidência da Fifa do que essa convivência com a frustração ao longo de sofridos e gostosos 68 anos de amor pelo que chamávamos, com ares de suprema intelectualidade, de “esporte bretão”?
2. Ademais, fui jogador! Vi jogando a malfadada seleção de 1950, tal como privei com Heleno de Freitas em São João Nepomuceno quando lhe passei um taco na sinuca do Cida e com ele vivi um baile de carnaval no Clube Democráticos. Amarrava minhas chuteiras imitando no estilo do Heleno e aprendi o seu uso dentro e fora do campo, quando as usávamos em casa, na escola e na igreja, despertando protestos no paciente padre Geraldo, que jogava segurando a sua inseparável e sagrada batina. Canhoto, fui ponta-esquerda do reputadíssimo time do Ginásio de São João Nepumuceno e imbatível do juvenil do Sport Club Juiz de Fora e, muito embora jamais tivesse feito um mísero gol, sei bem as agruras dos atacantes quando eles encontram um defensor disposto a quebrar-lhes a perna como quem toma um sorvete.
3. No quesito experiência administrativa, tenho altas credenciais. Organizei, ao lado do Mario Roberto Zagari, o campeonato são-joanense de futebol de botão e, em seguida, um imaginário torneio internacional. Em ambos, o Carlyle, meu center-foward — jogador fabricado de um botão do sobretudo de papai —, foi o artilheiro. Sagrou-se como o melhor goal-keeper o Oderban do Mario Roberto. Feito de chumbo e caixa de fósforo pintada de verde, ele foi um craque capaz de rebater incólume nossos terríveis chutes com pelotas de miolo de pão. Escalamos, no final do torneio, um selecionado brasileiro imbativel. Incapaz de tomar de 7 (pelo amor de Deus...) dos germânicos.
4. No plano ético, sou um pleiteante sem máculas, apesar de alguns ruídos que o espírito da má-fé tem circulado a meu respeito. Dou, então, meu honesto testemunho: neste campeonato maior, cobramos ingresso mas não houve propina. Apenas achamos justo “tirar” uns trocados a mais no último jogo. A maior parte da arrecadação, porém, permitiu comprar as lâmpadas do nosso estádio: a sala de jantar lá de casa.
Enfim e sem maiores “deblatrações”, sou candidato a substituir o Blatter. Mais: se for eleito, prometo instituir o recall — esse instrumento que o nosso sistema político mais necessita e que sequer foi cogitado pelos nossos impecáveis líderes do Parlamento.
Isso mesmo: o antropologista e cronista lido com afeto e desdém é candidato ao cargo deixado vago pelo infausto e malogrado Joseph ‘Sepp’ Blatter
Eis uma pergunta que todo mundo faz. De minha parte, digo apenas, com humildade, como manda a boa norma do colunismo impresso, que ela serve para ironizar esses tempos paradoxais de brutal enriquecimento fácil, ilícito e legitimo.
Afora isso, a pergunta pode ser usada para expressar profunda ambição ou quixotesca fantasia. Por que não sou rei, Sinatra ou Karl Marx? Não comi Brigitte Bardot ou fui escolhido para presidir uma estatal?
No meu caso, informo, sem deblaterar, que sou candidato a presidente da Fifa.
Isso mesmo: o antropologista e cronista lido com afeto e desdém é candidato ao cargo deixado vago pelo infausto e malogrado Joseph “Sepp” Blatter.
Minhas qualificações? São extraordinárias.
Ei-las:
1. Entendo de futebol desde 1947, quando, em Juiz de Fora e São João Nepomuceno, terra do melancólico supercraque Heleno de Freitas, de quem namorei uma sobrinha, descobri o campeonato local e o carioca. E comecei a ler as revistas esportivas que recebia pela rede ferroviária, da Leopoldina.
Desse conjunto de leituras e de discussões acaloradas, memorizei times inteiros e listas de campeões nacionais e sul-americanos. Em paralelo, fiz, como todo entendido, pesquisas densas sobre a vida de jogadores. Sabia onde tinham nascido, em que clube jogaram e, eis um dado básico para qualquer pedagogia do futebol, sabia de suas magicas e intangíveis habilidades. Quem chutava com os dois pés? Em que posição melhor atuavam? Quem engolia frango ou perdia pênaltis? Quem era temperamental ou frio como foi o caso de Danilo e Didi. Não se falava em dinheiro porque o futebol, embora profissionalizado, permanecia com uma forte dose de amor e amadorismo. Como o problema da Fifa, mas também o da arte, da ciência, da religião e, sobretudo, da economia e do populismo político é a grana, minha candidatura chega para conter o descalabro e erradicar bandalheiras. É isso que, dentro do padrão Fifa, prometo ofecerer.
2. Qualquer presidente tem que saber perder e ganhar e ninguém melhor do que “um Fluminense”, como eu, sabe fazê-lo. O futebol, o cinturão do meu pai e a escova de cabelo de mamãe, bem como o seu piano, ensinaram-me que o futebol é uma mistura de certeza e incerteza ao lado de transparência e técnica, o que quase sempre conduz a resultados contrários à vontade do torcedor. Por isso, ele é uma escola de democracia e um exercício permanente de frustração. Então, pergunto: haverá maior aprendizado para a presidência da Fifa do que essa convivência com a frustração ao longo de sofridos e gostosos 68 anos de amor pelo que chamávamos, com ares de suprema intelectualidade, de “esporte bretão”?
2. Ademais, fui jogador! Vi jogando a malfadada seleção de 1950, tal como privei com Heleno de Freitas em São João Nepomuceno quando lhe passei um taco na sinuca do Cida e com ele vivi um baile de carnaval no Clube Democráticos. Amarrava minhas chuteiras imitando no estilo do Heleno e aprendi o seu uso dentro e fora do campo, quando as usávamos em casa, na escola e na igreja, despertando protestos no paciente padre Geraldo, que jogava segurando a sua inseparável e sagrada batina. Canhoto, fui ponta-esquerda do reputadíssimo time do Ginásio de São João Nepumuceno e imbatível do juvenil do Sport Club Juiz de Fora e, muito embora jamais tivesse feito um mísero gol, sei bem as agruras dos atacantes quando eles encontram um defensor disposto a quebrar-lhes a perna como quem toma um sorvete.
3. No quesito experiência administrativa, tenho altas credenciais. Organizei, ao lado do Mario Roberto Zagari, o campeonato são-joanense de futebol de botão e, em seguida, um imaginário torneio internacional. Em ambos, o Carlyle, meu center-foward — jogador fabricado de um botão do sobretudo de papai —, foi o artilheiro. Sagrou-se como o melhor goal-keeper o Oderban do Mario Roberto. Feito de chumbo e caixa de fósforo pintada de verde, ele foi um craque capaz de rebater incólume nossos terríveis chutes com pelotas de miolo de pão. Escalamos, no final do torneio, um selecionado brasileiro imbativel. Incapaz de tomar de 7 (pelo amor de Deus...) dos germânicos.
4. No plano ético, sou um pleiteante sem máculas, apesar de alguns ruídos que o espírito da má-fé tem circulado a meu respeito. Dou, então, meu honesto testemunho: neste campeonato maior, cobramos ingresso mas não houve propina. Apenas achamos justo “tirar” uns trocados a mais no último jogo. A maior parte da arrecadação, porém, permitiu comprar as lâmpadas do nosso estádio: a sala de jantar lá de casa.
Enfim e sem maiores “deblatrações”, sou candidato a substituir o Blatter. Mais: se for eleito, prometo instituir o recall — esse instrumento que o nosso sistema político mais necessita e que sequer foi cogitado pelos nossos impecáveis líderes do Parlamento.
A odisseia do poder militar - MARIO CESAR FLORES
O Estado de S. Paulo - 10/06
O preparo militar brasileiro vai de mal a pior. Projetos vistos pelas Forças Armadas como importantes – a exemplo do monitoramento da fronteira terrestre e do mar sob jurisdição brasileira, da configuração de uma força de submarinos convincente, da renovação da defesa aérea – avançam vagarosamente ou não avançam e a indústria de interesse para a defesa titubeia, insegura. Não há esperança de melhora significativa desse quadro, ao menos no futuro breve. Em 2015 a participação militar equivale a 1,3% do Orçamento-Geral da União e já foi anunciado um contingenciamento de 24,8% do seu montante não compulsório, que corresponde a acerca de um quarto do total! Resultado: cortes e mais atrasos, as três Forças lutando pela sobrevivência atribulada de seus projetos corporativos.
Por que essa situação? Existem razões conjunturais impositivas. Em realce, hoje, as constrições da restauração da saúde fiscal (sem ela não haverá solução...) e a pressão das muitas necessidades nacionais prementes. Mas a condução do tormento conjuntural é prejudicada por uma razão estrutural influente: a inexistência de um ideário político-estratégico básico sobre defesa nacional e temas afins, compreensível e convincente – em suma, um delineamento dos cenários político-estratégicos plausíveis e verossímeis de necessidade de poder militar como instrumento de persuasão/dissuasão e para emprego efetivo. Sem ele se continuará a tropeçar na insuficiência de recursos e na complexa “dosagem” dos sacrifícios conjunturais.
Dos anos 1930 a 1988, período matizado pelo autoritarismo, esse ideário conceitual básico era formulado e mantido “entre quatro paredes” pelo Conselho de Segurança Nacional (Conselho de Defesa Nacional nos últimos anos) em seu Conceito Estratégico Nacional sigiloso. Hoje talvez devesse sê-lo pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (uma hipótese, poder-se-ia imaginar outras) com a colaboração de instituições cujas atividades têm que ver com o tema. A sanção do Congresso Nacional, representação do povo, é imprescindível.
A Política de Defesa Nacional e a Estratégia Nacional de Defesa, hoje vigentes, aproximam-se do ideário aventado, mas foram formulados em processo “fechado” similar ao do passado (a diferença é que seus textos são acessíveis ao público) e não orientam com simplicidade e clareza o preparo militar. Resultado: não contam com o apoio que decorreria de uma ainda que superficial aferição do pensamento nacional a respeito, foram aceitos tranquilamente pelo poder político e pela sempre crítica mídia, que não lhes atribuíram atenção simplesmente porque entendem que “não são para valer”. Atendem à cultura do planejamento inerente aos militares, mas não implicam concordância convicta e compromisso. Não se trata, aqui, de questionar preceitos do produto vigente, mas o fato é que sua aceitação indiferente a fragiliza como orientação do preparo militar e de seus problemas conjunturais.
O esquema esboçado – ou algo de natureza similar – serviria de inspiração para o preparo militar lato sensu. Prepará-lo para o quê? Bastar-nos-ia uma Guarda Costeira para o controle rotineiro do mar sob jurisdição brasileira, um Exército parapolicial (uma Gendarmeria...) para o controle da fronteira terrestre e atividade anticrises, uma Guarda Nacional Aérea para o controle do nosso espaço aéreo? Ou o País deve estar atento às vicissitudes do mundo (particularmente, ainda que não apenas, da nossa região) e do Brasil nelas, adequando seu preparo militar em coerência com os cenários estratégico-operacionais dessas vicissitudes?
Temos condições de nos conduzir no esquema cogitado? Improvável.
O povo é apático ao uso do poder militar em sua dimensão clássica e o vê essencialmente sob as perspectivas parapolicial e – eventualmente – de defesa civil. Mídia, universidades e outras instituições, como são, por exemplo, o Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da USP e o Centro Brasileiro de Relações Internacionais, tangenciam o assunto; a própria Escola Superior de Guerra procede de forma semelhante (o Instituto Pandiá Calógeras talvez possa ser um embrião da diferença, mas ainda é cedo para uma afirmação otimista). Parece haver uma convicção nacional generalizada de que seria “pecado” pensar e falar concretamente em defesa militar num país de propensão pacifista!
Mais grave: falta à viabilidade bem-sucedida do processo exatamente seu quesito mais importante, a presença da política – no caso, em particular, do Congresso Nacional –, que deve conferir-lhe chancela nacional. A condução do processo pode (talvez só possa) ser feita por órgão do Poder Executivo, com a colaboração adequada, mas o Congresso precisa avalizá-lo, modificando seu resultado quando for o caso e comprometendo-se criteriosamente a dar-lhe consistência real. A aprovação indiferente, em consonância com a indiferença nacional e refletindo-a, no pressuposto de que não se trata de algo que exija convicção e compromisso, é um erro político que não ocorre em países de política interna saudável e de presença internacional convincente. Defesa nacional é responsabilidade de todos, obviamente grande do poder político, o poder militar é instrumento relevante, mas não é seu titular exclusivo.
Existem no nosso mundo político pessoas com o preparo cultural/intelectual adequado para a condução correta do tema, mas são sufocadas pelo dia a dia político que modela suas preocupações e atividades. No contexto político atual é improvável que isso mude.
A persistir a ausência de amparo conceitual básico, o preparo militar brasileiro e, com ele, o desenvolvimento tecnológico e a implementação da indústria de interesse da defesa continuarão condicionados pelos humores da (in)disponibilidade de recursos, concedidos, não concedidos e cortados sem considerações sobre os reflexos na defesa nacional.
O preparo militar brasileiro vai de mal a pior. Projetos vistos pelas Forças Armadas como importantes – a exemplo do monitoramento da fronteira terrestre e do mar sob jurisdição brasileira, da configuração de uma força de submarinos convincente, da renovação da defesa aérea – avançam vagarosamente ou não avançam e a indústria de interesse para a defesa titubeia, insegura. Não há esperança de melhora significativa desse quadro, ao menos no futuro breve. Em 2015 a participação militar equivale a 1,3% do Orçamento-Geral da União e já foi anunciado um contingenciamento de 24,8% do seu montante não compulsório, que corresponde a acerca de um quarto do total! Resultado: cortes e mais atrasos, as três Forças lutando pela sobrevivência atribulada de seus projetos corporativos.
Por que essa situação? Existem razões conjunturais impositivas. Em realce, hoje, as constrições da restauração da saúde fiscal (sem ela não haverá solução...) e a pressão das muitas necessidades nacionais prementes. Mas a condução do tormento conjuntural é prejudicada por uma razão estrutural influente: a inexistência de um ideário político-estratégico básico sobre defesa nacional e temas afins, compreensível e convincente – em suma, um delineamento dos cenários político-estratégicos plausíveis e verossímeis de necessidade de poder militar como instrumento de persuasão/dissuasão e para emprego efetivo. Sem ele se continuará a tropeçar na insuficiência de recursos e na complexa “dosagem” dos sacrifícios conjunturais.
Dos anos 1930 a 1988, período matizado pelo autoritarismo, esse ideário conceitual básico era formulado e mantido “entre quatro paredes” pelo Conselho de Segurança Nacional (Conselho de Defesa Nacional nos últimos anos) em seu Conceito Estratégico Nacional sigiloso. Hoje talvez devesse sê-lo pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (uma hipótese, poder-se-ia imaginar outras) com a colaboração de instituições cujas atividades têm que ver com o tema. A sanção do Congresso Nacional, representação do povo, é imprescindível.
A Política de Defesa Nacional e a Estratégia Nacional de Defesa, hoje vigentes, aproximam-se do ideário aventado, mas foram formulados em processo “fechado” similar ao do passado (a diferença é que seus textos são acessíveis ao público) e não orientam com simplicidade e clareza o preparo militar. Resultado: não contam com o apoio que decorreria de uma ainda que superficial aferição do pensamento nacional a respeito, foram aceitos tranquilamente pelo poder político e pela sempre crítica mídia, que não lhes atribuíram atenção simplesmente porque entendem que “não são para valer”. Atendem à cultura do planejamento inerente aos militares, mas não implicam concordância convicta e compromisso. Não se trata, aqui, de questionar preceitos do produto vigente, mas o fato é que sua aceitação indiferente a fragiliza como orientação do preparo militar e de seus problemas conjunturais.
O esquema esboçado – ou algo de natureza similar – serviria de inspiração para o preparo militar lato sensu. Prepará-lo para o quê? Bastar-nos-ia uma Guarda Costeira para o controle rotineiro do mar sob jurisdição brasileira, um Exército parapolicial (uma Gendarmeria...) para o controle da fronteira terrestre e atividade anticrises, uma Guarda Nacional Aérea para o controle do nosso espaço aéreo? Ou o País deve estar atento às vicissitudes do mundo (particularmente, ainda que não apenas, da nossa região) e do Brasil nelas, adequando seu preparo militar em coerência com os cenários estratégico-operacionais dessas vicissitudes?
Temos condições de nos conduzir no esquema cogitado? Improvável.
O povo é apático ao uso do poder militar em sua dimensão clássica e o vê essencialmente sob as perspectivas parapolicial e – eventualmente – de defesa civil. Mídia, universidades e outras instituições, como são, por exemplo, o Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da USP e o Centro Brasileiro de Relações Internacionais, tangenciam o assunto; a própria Escola Superior de Guerra procede de forma semelhante (o Instituto Pandiá Calógeras talvez possa ser um embrião da diferença, mas ainda é cedo para uma afirmação otimista). Parece haver uma convicção nacional generalizada de que seria “pecado” pensar e falar concretamente em defesa militar num país de propensão pacifista!
Mais grave: falta à viabilidade bem-sucedida do processo exatamente seu quesito mais importante, a presença da política – no caso, em particular, do Congresso Nacional –, que deve conferir-lhe chancela nacional. A condução do processo pode (talvez só possa) ser feita por órgão do Poder Executivo, com a colaboração adequada, mas o Congresso precisa avalizá-lo, modificando seu resultado quando for o caso e comprometendo-se criteriosamente a dar-lhe consistência real. A aprovação indiferente, em consonância com a indiferença nacional e refletindo-a, no pressuposto de que não se trata de algo que exija convicção e compromisso, é um erro político que não ocorre em países de política interna saudável e de presença internacional convincente. Defesa nacional é responsabilidade de todos, obviamente grande do poder político, o poder militar é instrumento relevante, mas não é seu titular exclusivo.
Existem no nosso mundo político pessoas com o preparo cultural/intelectual adequado para a condução correta do tema, mas são sufocadas pelo dia a dia político que modela suas preocupações e atividades. No contexto político atual é improvável que isso mude.
A persistir a ausência de amparo conceitual básico, o preparo militar brasileiro e, com ele, o desenvolvimento tecnológico e a implementação da indústria de interesse da defesa continuarão condicionados pelos humores da (in)disponibilidade de recursos, concedidos, não concedidos e cortados sem considerações sobre os reflexos na defesa nacional.
Investimento e realismo - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S. Paulo - 10/06
O capital privado será essencial para os investimentos de R$ 198,4 bilhões em rodovias, ferrovias, portos e aeroportos previstos no programa recém-lançado pela presidente Dilma Rousseff - um passo importante para o País sair do atoleiro e retomar o caminho do crescimento. Se os planos forem tocados com alguma competência, a economia ganhará impulso no próximo ano e - mais importante - poderá avançar com segurança e firmeza por um longo período. Parte do dinheiro para as obras terá de vir do exterior. Para atrair parceiros o governo terá de agir com um pragmatismo raramente exibido nos últimos quatro anos e vender o plano como um bom negócio para todos. Faltou bom senso e sobrou ideologia na fase anterior de concessões e isso limitou a cooperação entre setor público e setor privado.
A nova fase do Plano de Investimentos em Logística será marcada, segundo as primeiras indicações, por uma dose maior de realismo. Mas só quando vierem as licitações será possível confirmar essa boa impressão. Desta vez o desafio será mais complicado, porque a participação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deverá ser bem menos ampla. O governo reconheceu, afinal, a escassez de recursos oficiais e a conveniência de livrar o Tesouro, já muito endividado, de maiores encargos.
O BNDES terá, portanto, de seguir novos critérios. Os financiamentos em condições especiais, com base na Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), deverão variar de acordo com os projetos e os tipos de obras. De modo geral, as empresas deverão cobrir parte dos custos com a emissão de debêntures de infraestrutura. Uma parcela substancial dos investimentos em logística dependerá, portanto, do mercado de capitais, como vinha indicando há meses o ministro da Fazenda, Joaquim Levy.
O governo deverá estar preparado para novas complicações no mercado financeiro internacional, por causa da mudança na política monetária americana. A mera expectativa da alta de juros pelo banco central dos Estados Unidos já tende a encarecer o crédito e a tornar mais difícil o acesso aos financiamentos. Esse detalhe torna especialmente importante a atratividade dos projetos - assim como, naturalmente, a credibilidade da política econômica.
Mas há razões, por enquanto, para algum otimismo. O governo promete aperfeiçoar o modelo de concessões de ferrovias. Os leilões poderão ser baseados no maior valor de outorga, na menor tarifa ou no compartilhamento do investimento.
Nas concessões de portos o governo poderá levar em conta, além de outros critérios, o valor da outorga. Os vários padrões de julgamento - maior capacidade de movimentação, menor tarifa, menor tempo de movimentação de carga, entre outros - poderão ser considerados de forma isolada ou em combinação. A novidade é a inclusão do valor de outorga nessa bateria de indicadores. Essa possibilidade foi garantida por decreto publicado horas antes do anúncio do pacote de projetos. Mas o governo insistirá, segundo anunciou o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, em leiloar concessões de rodovias pelo critério da menor tarifa. A experiência é pouco favorável a esse critério. A menor tarifa pode ser contraproducente, se a contrapartida, na prática, for um menor investimento na ampliação e na melhora da rodovia.
O sucesso nos leilões e nos arranjos financeiros será insuficiente para a realização do programa, no entanto, se a concessão dos licenciamentos continuar muito vagarosa. A presidente Dilma Rousseff chamou a atenção para o problema, ao defender, em entrevista ao Estado, a fixação de prazos legais para os licenciamentos. Não se trata de estabelecer com antecipação se as respostas serão positivas ou negativas, disse a presidente, mas de fixar com clareza as condições do procedimento. Ela está certa. É absurdo tratar o licenciamento como um processo independente dos objetivos de desenvolvimento do País.
Com o novo pacote, o governo abre uma nova frente no esforço de recuperação da economia nacional. A primeira frente - de ajuste das contas públicas e de combate à inflação - já foi aberta, num lance indispensável ao restabelecimento da confiança na política econômica.
O capital privado será essencial para os investimentos de R$ 198,4 bilhões em rodovias, ferrovias, portos e aeroportos previstos no programa recém-lançado pela presidente Dilma Rousseff - um passo importante para o País sair do atoleiro e retomar o caminho do crescimento. Se os planos forem tocados com alguma competência, a economia ganhará impulso no próximo ano e - mais importante - poderá avançar com segurança e firmeza por um longo período. Parte do dinheiro para as obras terá de vir do exterior. Para atrair parceiros o governo terá de agir com um pragmatismo raramente exibido nos últimos quatro anos e vender o plano como um bom negócio para todos. Faltou bom senso e sobrou ideologia na fase anterior de concessões e isso limitou a cooperação entre setor público e setor privado.
A nova fase do Plano de Investimentos em Logística será marcada, segundo as primeiras indicações, por uma dose maior de realismo. Mas só quando vierem as licitações será possível confirmar essa boa impressão. Desta vez o desafio será mais complicado, porque a participação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deverá ser bem menos ampla. O governo reconheceu, afinal, a escassez de recursos oficiais e a conveniência de livrar o Tesouro, já muito endividado, de maiores encargos.
O BNDES terá, portanto, de seguir novos critérios. Os financiamentos em condições especiais, com base na Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), deverão variar de acordo com os projetos e os tipos de obras. De modo geral, as empresas deverão cobrir parte dos custos com a emissão de debêntures de infraestrutura. Uma parcela substancial dos investimentos em logística dependerá, portanto, do mercado de capitais, como vinha indicando há meses o ministro da Fazenda, Joaquim Levy.
O governo deverá estar preparado para novas complicações no mercado financeiro internacional, por causa da mudança na política monetária americana. A mera expectativa da alta de juros pelo banco central dos Estados Unidos já tende a encarecer o crédito e a tornar mais difícil o acesso aos financiamentos. Esse detalhe torna especialmente importante a atratividade dos projetos - assim como, naturalmente, a credibilidade da política econômica.
Mas há razões, por enquanto, para algum otimismo. O governo promete aperfeiçoar o modelo de concessões de ferrovias. Os leilões poderão ser baseados no maior valor de outorga, na menor tarifa ou no compartilhamento do investimento.
Nas concessões de portos o governo poderá levar em conta, além de outros critérios, o valor da outorga. Os vários padrões de julgamento - maior capacidade de movimentação, menor tarifa, menor tempo de movimentação de carga, entre outros - poderão ser considerados de forma isolada ou em combinação. A novidade é a inclusão do valor de outorga nessa bateria de indicadores. Essa possibilidade foi garantida por decreto publicado horas antes do anúncio do pacote de projetos. Mas o governo insistirá, segundo anunciou o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, em leiloar concessões de rodovias pelo critério da menor tarifa. A experiência é pouco favorável a esse critério. A menor tarifa pode ser contraproducente, se a contrapartida, na prática, for um menor investimento na ampliação e na melhora da rodovia.
O sucesso nos leilões e nos arranjos financeiros será insuficiente para a realização do programa, no entanto, se a concessão dos licenciamentos continuar muito vagarosa. A presidente Dilma Rousseff chamou a atenção para o problema, ao defender, em entrevista ao Estado, a fixação de prazos legais para os licenciamentos. Não se trata de estabelecer com antecipação se as respostas serão positivas ou negativas, disse a presidente, mas de fixar com clareza as condições do procedimento. Ela está certa. É absurdo tratar o licenciamento como um processo independente dos objetivos de desenvolvimento do País.
Com o novo pacote, o governo abre uma nova frente no esforço de recuperação da economia nacional. A primeira frente - de ajuste das contas públicas e de combate à inflação - já foi aberta, num lance indispensável ao restabelecimento da confiança na política econômica.
O sol e a peneira - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S. Paulo - 10/06
A coroa de espinhos que Dilma Rousseff carrega por conta de seus desacertos na condução da política e da economia no primeiro mandato tem espinhos suficientes para agravar-lhe a dor da expiação. Poderia, portanto, poupar-se, e aos brasileiros, das canhestras tentativas de tapar o sol com a peneira na questão do escândalo da Petrobrás. Dias atrás, em entrevista à televisão francesa, a presidente da República irritou-se com uma pergunta sobre se “assumiria suas responsabilidades” no caso de ser comprovado seu envolvimento com a corrupção na estatal: “Eu não respondo a essa questão porque sei que não tenho nada a ver. Eu sei o que faço. Lutarei até o fim para mostrar que não estou envolvida. Tenho uma história. Nunca fui acusada de nada”.
Pouco antes, Dilma havia tentado dissociar a Petrobrás do escândalo, alegando que as investigações da Operação Lava Jato atingem apenas alguns funcionários da estatal: “É importante entender que a Petrobrás tem mais de 30 mil empregados e são 5 envolvidos”. Garantiu ainda que não há “nenhum indício” de que pelo propinoduto da estatal tenham transitado recursos destinados a sua campanha reeleitoral.
As entrevistas à TV France 24 e a outras emissoras e jornais europeus foram concedidas a propósito da viagem de Dilma a Bruxelas para participar da reunião de cúpula entre a União Europeia e a Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac).
O público francês não há de ter opinião formada sobre a possibilidade de envolvimento de Dilma no esquema de corrupção da Petrobrás. No Brasil, a tendência é de acreditar que esse envolvimento não implique a participação da então ministra de Minas e Energia, depois chefe da Casa Civil e presidente do Conselho de Administração da estatal, no sentido de locupletar-se com as ações ilícitas. Apesar da perda de credibilidade política e de popularidade, mantém-se a aura de honestidade pessoal de Dilma. Mas é impossível de acreditar – levando em consideração as posições que ocupou no governo, com alguma responsabilidade em relação à Petrobrás, e suas características de gestora centralizadora e detalhista – que Dilma não tivesse informação ou nem desconfiasse da trama criminosa que durante tantos anos movimentou bilhões de reais praticamente sob seu nariz. Para onde estaria ela olhando, a ponto de ignorar completamente o que se passava na empresa à qual, como ministra de Minas e Energia e da Casa Civil e, depois, como presidente da República, dava especial atenção?
Nessas entrevistas, Dilma entrou em contradições e inconsistências. À TV francesa negou veementemente que sua campanha se tenha beneficiado do petrolão, para afirmar em seguida, reclamando de “perseguição”, que “todas as campanhas”, em 2014, receberam contribuição das empresas envolvidas no escândalo: “Eu não sei por que só a minha (campanha) foi destacada”.
Ao jornal belga Le Soir, Dilma explicou, sobre a substituição de diretores da Petrobrás por ocasião de sua posse na Presidência: “Essas cinco pessoas já não estavam na Petrobrás desde o fim de 2011. Não porque eram suspeitos, mas porque eles não faziam parte dos membros da equipe em que eu confio”. Mas não explicou as razões de sua desconfiança em relação a diretores nomeados durante o governo Lula e com os quais conviveu, pelo menos formalmente, enquanto presidiu o Conselho da empresa.
Quanto ao bisonho argumento de que não se pode falar em escândalo “da Petrobrás” porque apenas 5 de seus mais de 30 mil funcionários estão sendo acusados de corrupção, é o caso de lembrar-lhe que cada centavo dos bilhões de reais foi surrupiado “da Petrobrás”.
Dilma Rousseff parece não ter aprendido, depois das patranhas que disse durante a campanha eleitoral – e pelas quais paga caro, agora –, que o peixe morre pela boca. Foi assim, por paradoxal que pareça, que ela começou a perder sua credibilidade e a aprovação popular no momento em que conseguiu ganhar a eleição de outubro. Não é com tentativas canhestras de tapar o sol com a peneira que ela recuperará a confiança dos brasileiros.
A coroa de espinhos que Dilma Rousseff carrega por conta de seus desacertos na condução da política e da economia no primeiro mandato tem espinhos suficientes para agravar-lhe a dor da expiação. Poderia, portanto, poupar-se, e aos brasileiros, das canhestras tentativas de tapar o sol com a peneira na questão do escândalo da Petrobrás. Dias atrás, em entrevista à televisão francesa, a presidente da República irritou-se com uma pergunta sobre se “assumiria suas responsabilidades” no caso de ser comprovado seu envolvimento com a corrupção na estatal: “Eu não respondo a essa questão porque sei que não tenho nada a ver. Eu sei o que faço. Lutarei até o fim para mostrar que não estou envolvida. Tenho uma história. Nunca fui acusada de nada”.
Pouco antes, Dilma havia tentado dissociar a Petrobrás do escândalo, alegando que as investigações da Operação Lava Jato atingem apenas alguns funcionários da estatal: “É importante entender que a Petrobrás tem mais de 30 mil empregados e são 5 envolvidos”. Garantiu ainda que não há “nenhum indício” de que pelo propinoduto da estatal tenham transitado recursos destinados a sua campanha reeleitoral.
As entrevistas à TV France 24 e a outras emissoras e jornais europeus foram concedidas a propósito da viagem de Dilma a Bruxelas para participar da reunião de cúpula entre a União Europeia e a Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac).
O público francês não há de ter opinião formada sobre a possibilidade de envolvimento de Dilma no esquema de corrupção da Petrobrás. No Brasil, a tendência é de acreditar que esse envolvimento não implique a participação da então ministra de Minas e Energia, depois chefe da Casa Civil e presidente do Conselho de Administração da estatal, no sentido de locupletar-se com as ações ilícitas. Apesar da perda de credibilidade política e de popularidade, mantém-se a aura de honestidade pessoal de Dilma. Mas é impossível de acreditar – levando em consideração as posições que ocupou no governo, com alguma responsabilidade em relação à Petrobrás, e suas características de gestora centralizadora e detalhista – que Dilma não tivesse informação ou nem desconfiasse da trama criminosa que durante tantos anos movimentou bilhões de reais praticamente sob seu nariz. Para onde estaria ela olhando, a ponto de ignorar completamente o que se passava na empresa à qual, como ministra de Minas e Energia e da Casa Civil e, depois, como presidente da República, dava especial atenção?
Nessas entrevistas, Dilma entrou em contradições e inconsistências. À TV francesa negou veementemente que sua campanha se tenha beneficiado do petrolão, para afirmar em seguida, reclamando de “perseguição”, que “todas as campanhas”, em 2014, receberam contribuição das empresas envolvidas no escândalo: “Eu não sei por que só a minha (campanha) foi destacada”.
Ao jornal belga Le Soir, Dilma explicou, sobre a substituição de diretores da Petrobrás por ocasião de sua posse na Presidência: “Essas cinco pessoas já não estavam na Petrobrás desde o fim de 2011. Não porque eram suspeitos, mas porque eles não faziam parte dos membros da equipe em que eu confio”. Mas não explicou as razões de sua desconfiança em relação a diretores nomeados durante o governo Lula e com os quais conviveu, pelo menos formalmente, enquanto presidiu o Conselho da empresa.
Quanto ao bisonho argumento de que não se pode falar em escândalo “da Petrobrás” porque apenas 5 de seus mais de 30 mil funcionários estão sendo acusados de corrupção, é o caso de lembrar-lhe que cada centavo dos bilhões de reais foi surrupiado “da Petrobrás”.
Dilma Rousseff parece não ter aprendido, depois das patranhas que disse durante a campanha eleitoral – e pelas quais paga caro, agora –, que o peixe morre pela boca. Foi assim, por paradoxal que pareça, que ela começou a perder sua credibilidade e a aprovação popular no momento em que conseguiu ganhar a eleição de outubro. Não é com tentativas canhestras de tapar o sol com a peneira que ela recuperará a confiança dos brasileiros.
O mundo particular de Dilma - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 10/06
A presidente Dilma voltou a ser aquela mesma do tempo da campanha presidencial, vendendo versões mirabolantes que se chocam com a realidade, parecendo que vive em outra dimensão. Ela foi obrigada por jornalistas estrangeiros a abordar nos últimos dias um tema que a perturba: sua participação nos escândalos da Petrobras.
A irritação visível com que respondeu ao canal de TV France 24 revela que se considera acima de qualquer suspeita, o que os fatos desmentem. Qualquer empresa privada teria demitido a presidente do Conselho de Administração e todo seu grupo de conselheiros depois da constatação de que a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, produziu um prejuízo de US$ 792 milhões em duas etapas, entre 2006 e 2012, de acordo com o Tribunal de Contas da União ( TCU).
A desculpa de que a autorização só foi dada porque o diretor responsável, no caso Nestor Cerveró, os induziu a erro - ao apresentar relatório "técnica e juridicamente falho" - não deveria nem ser levada em conta, pois cabia aos membros do Conselho pedir mais informações. Mais ainda: após constatada a lambança, o diretor responsável foi "punido" com transferência para cargo na diretoria da Petrobras Distribuidora, com direito a elogios funcionais à sua atuação na área internacional.
Ao responder a pergunta direta sobre como reagiria se fosse constatado seu envolvimento nos escândalos da Lava- Jato, Dilma teve reação muito semelhante à do ex- ministro José Dirceu, que em certa ocasião proferiu a seguinte joia a respeito do mensalão: "Cada vez me convenço mais de minha inocência".
Disse Dilma: "Eu não estou ligada [ às denúncias]. Eu não respondo a esta questão porque eu não estou ligada. Eu sei que não estou nisso. É impossível. Eu lutarei até o fim para demonstrar que eu não estou ligada. Eu sei o que eu faço. E eu tenho uma história por trás de mim. Neste sentido, eu nunca tive uma única acusação contra mim por qualquer malfeito. Então, não é uma questão de " se". Eu não estou ligada", assegurou ao canal francês TV France 24.
Utilizando uma técnica diversionista muito própria das propagandas eleitorais, Dilma disse que o escândalo não é da Petrobras, porque apenas "cinco funcionários" se envolveram nas irregularidades, unidos a políticos. A presidente deve pensar que o cidadão brasileiro é facilmente enganável, e tem razão para tanto, pois a tática deu certo na campanha, se bem que por pouco tempo.
Então um esquema dessa magnitude pode ser montado por meia dúzia de funcionários e alguns políticos? Que tipo de governança tem essa empresa, que perde ¼ de se valor por causa de um esquema de corrupção tão improvisado e ao mesmo tempo tão sofisticado que, como ela mesma diz em outra entrevista, só com delações premiadas foi descoberto? À Deutsche Welle, rede pública alemã de rádio e TV, Dilma lamentou-se, dizendo que "um dos ônus [de se combater a corrupção] é acharem que nós é que fazemos a corrupção", esquecendo-se de comentar a participação de seu partido, o PT, no esquema que está sendo denunciado pela Justiça.
Dois tesoureiros presos, sendo que um já condenado e cumprindo pena, só é uma coincidência no relato fantasioso da presidente. Absurdo não é desconfiarem que ela sabia do esquema montado para financiar as campanhas eleitorais do PT e de partidos aliados.
Absurdo é que suas campanhas presidenciais tenham sido irrigadas com dinheiro de desvios da Petrobras, como está sendo revelado dia após dia por várias delações premiadas, de ex-diretores da Petrobras a funcionários de empresas nacionais e estrangeiras.
Comprovadas as acusações, nada mais natural estranharmos que a candidata em 2010 e 2014 nada soubesse sobre os esquemas fraudulentos que financiavam suas campanhas eleitorais, como nada soube quando era ministra das Minas e Energia, ou quando presidiu o Conselho de Administração da Petrobras. Sua fama de boa gestora, que já está sendo destruída pelos estragos que fez na economia nos quatro anos de seu primeiro mandato, estará definitivamente desmoralizada, no mínimo pela infinita capacidade de não saber de nada do que acontece a seu redor, seja na Petrobras, seja no Palácio do Planalto.
A presidente Dilma voltou a ser aquela mesma do tempo da campanha presidencial, vendendo versões mirabolantes que se chocam com a realidade, parecendo que vive em outra dimensão. Ela foi obrigada por jornalistas estrangeiros a abordar nos últimos dias um tema que a perturba: sua participação nos escândalos da Petrobras.
A irritação visível com que respondeu ao canal de TV France 24 revela que se considera acima de qualquer suspeita, o que os fatos desmentem. Qualquer empresa privada teria demitido a presidente do Conselho de Administração e todo seu grupo de conselheiros depois da constatação de que a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, produziu um prejuízo de US$ 792 milhões em duas etapas, entre 2006 e 2012, de acordo com o Tribunal de Contas da União ( TCU).
A desculpa de que a autorização só foi dada porque o diretor responsável, no caso Nestor Cerveró, os induziu a erro - ao apresentar relatório "técnica e juridicamente falho" - não deveria nem ser levada em conta, pois cabia aos membros do Conselho pedir mais informações. Mais ainda: após constatada a lambança, o diretor responsável foi "punido" com transferência para cargo na diretoria da Petrobras Distribuidora, com direito a elogios funcionais à sua atuação na área internacional.
Ao responder a pergunta direta sobre como reagiria se fosse constatado seu envolvimento nos escândalos da Lava- Jato, Dilma teve reação muito semelhante à do ex- ministro José Dirceu, que em certa ocasião proferiu a seguinte joia a respeito do mensalão: "Cada vez me convenço mais de minha inocência".
Disse Dilma: "Eu não estou ligada [ às denúncias]. Eu não respondo a esta questão porque eu não estou ligada. Eu sei que não estou nisso. É impossível. Eu lutarei até o fim para demonstrar que eu não estou ligada. Eu sei o que eu faço. E eu tenho uma história por trás de mim. Neste sentido, eu nunca tive uma única acusação contra mim por qualquer malfeito. Então, não é uma questão de " se". Eu não estou ligada", assegurou ao canal francês TV France 24.
Utilizando uma técnica diversionista muito própria das propagandas eleitorais, Dilma disse que o escândalo não é da Petrobras, porque apenas "cinco funcionários" se envolveram nas irregularidades, unidos a políticos. A presidente deve pensar que o cidadão brasileiro é facilmente enganável, e tem razão para tanto, pois a tática deu certo na campanha, se bem que por pouco tempo.
Então um esquema dessa magnitude pode ser montado por meia dúzia de funcionários e alguns políticos? Que tipo de governança tem essa empresa, que perde ¼ de se valor por causa de um esquema de corrupção tão improvisado e ao mesmo tempo tão sofisticado que, como ela mesma diz em outra entrevista, só com delações premiadas foi descoberto? À Deutsche Welle, rede pública alemã de rádio e TV, Dilma lamentou-se, dizendo que "um dos ônus [de se combater a corrupção] é acharem que nós é que fazemos a corrupção", esquecendo-se de comentar a participação de seu partido, o PT, no esquema que está sendo denunciado pela Justiça.
Dois tesoureiros presos, sendo que um já condenado e cumprindo pena, só é uma coincidência no relato fantasioso da presidente. Absurdo não é desconfiarem que ela sabia do esquema montado para financiar as campanhas eleitorais do PT e de partidos aliados.
Absurdo é que suas campanhas presidenciais tenham sido irrigadas com dinheiro de desvios da Petrobras, como está sendo revelado dia após dia por várias delações premiadas, de ex-diretores da Petrobras a funcionários de empresas nacionais e estrangeiras.
Comprovadas as acusações, nada mais natural estranharmos que a candidata em 2010 e 2014 nada soubesse sobre os esquemas fraudulentos que financiavam suas campanhas eleitorais, como nada soube quando era ministra das Minas e Energia, ou quando presidiu o Conselho de Administração da Petrobras. Sua fama de boa gestora, que já está sendo destruída pelos estragos que fez na economia nos quatro anos de seu primeiro mandato, estará definitivamente desmoralizada, no mínimo pela infinita capacidade de não saber de nada do que acontece a seu redor, seja na Petrobras, seja no Palácio do Planalto.
Perguntar não ofende - ELIANE CANTANHÊDE
O ESTADÃO - 10/06
As seguintes perguntas estarão, senão na pauta do Congresso do PT, de amanhã a sábado, em Salvador, pelo menos nas mentes das centenas de delegados petistas do Brasil inteiro que estarão lá para lavar roupa suja e tentar vislumbrar uma luz no fim do túnel para o partido, Lula e Dilma. A elas:
Por que Paulo Roberto Costa, então diretor de Abastecimento da Petrobrás, foi ao Planalto se reunir com o presidente Lula dias antes da formalização do histórico mico Pasadena, a tal refinaria nos Estados Unidos?
Costa não é aquele que transformou a própria família numa quadrilha e que assumiu, entre outras coisas, ter embolsado US$ 1,5 milhão em propina justamente para não atrapalhar o negócio de Pasadena?
Conforme informaram os repórteres Fábio Fabrini e Fausto Macedo, a “reunião (de Costa) com o presidente Lula” foi registrada exatamente assim num relatório oficial da própria Petrobrás, com um título bastante específico: “Viagens Pasadena”. Na outra ponta, a agenda de Lula no Planalto confirma que ele teve uma “reunião Petrobrás” exatamente no mesmo dia. Se a versão oficial é de que não falaram de Pasadena, então, falaram de quê?
A presidente Dilma Rousseff, à época, era ou não era ministra da Casa Civil e presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, que aprovou a compra mais desastrada da gestão já tão desastrada da maior empresa brasileira?
Apesar de seu gabinete ser ao lado do de Lula, de presidir o conselho e de aprovar a compra de Pasadena dias depois, Dilma não participou da reunião entre Lula e Costa?!!! Se não, por que não?
Qual a pior versão para Dilma e Lula? Ela não apitava nada e foi atropelada por Lula e Costa? Ou o presidente e o diretor de Abastecimento discutiram coisas do arco da velha que não convinha dividir com a chefe da Casa Civil e presidente do conselho? Ou Costa enrolou os dois?
E o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, estava ou não presente na reunião de 31 de janeiro de 2006 entre Lula e Costa, no Planalto? Se a agenda registrava “reunião Petrobrás”, o presidente da empresa não teria que, obrigatoriamente, participar? Ou será que Lula discutia a maior, mais importante e mais simbólica estatal brasileira com o diretor de Abastecimento, do segundo escalão?
Se Lula não se lembra do que foi discutido na reunião – compreensivelmente, já que foi mais de nove anos atrás –, por que diz ter tanta certeza de que o tema tratado não foi Pasadena, como reage categoricamente sua assessoria?
Preso de março a maio e de junho a setembro do ano passado, Costa conseguiu trocar as grades por uma tornozeleira depois de decidir abrir o bico, socorrendo-se com o instrumento da delação premiada. Mas os benefícios da delação premiada viram pó se ele não falar a verdade e não contar tudo, certo?
O que ainda falta para Costa fechar sua história e se livrar do pior? Será que ele vai explicar, tintim por tintim, o que foi fazer no gabinete presidencial naquele janeiro de 2006? Será que vai contar quem esteve presente? E o que foi falado, replicado, acertado?
Ah! Se não nos falhe a memória, não foi justamente em 2006 que começou o inquérito do mensalão que atingiu o coração do PT, com os ícones José Dirceu e José Genoino indo parar na cadeia?
E o que há de comum entre mensalão e petrolão? Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa? Lula também não soube, não viu, não teve nada a ver com um, assim como não teve com o outro?
Agendas são só agendas e não se pode concluir nada a partir de uma mera reunião entre Lula e Costa, mas, de toda forma, são excelentes questões para o 5.º Congresso do PT – além da crise na economia, do “Cristo ou Judas” Joaquim Levy, do aumento de 60% da conta de luz, da marcha ré até no Pronatec, da crise entre o Planalto e o Congresso e dos horizontes (nebulosos) para 2018. Um congresso e tanto.
As seguintes perguntas estarão, senão na pauta do Congresso do PT, de amanhã a sábado, em Salvador, pelo menos nas mentes das centenas de delegados petistas do Brasil inteiro que estarão lá para lavar roupa suja e tentar vislumbrar uma luz no fim do túnel para o partido, Lula e Dilma. A elas:
Por que Paulo Roberto Costa, então diretor de Abastecimento da Petrobrás, foi ao Planalto se reunir com o presidente Lula dias antes da formalização do histórico mico Pasadena, a tal refinaria nos Estados Unidos?
Costa não é aquele que transformou a própria família numa quadrilha e que assumiu, entre outras coisas, ter embolsado US$ 1,5 milhão em propina justamente para não atrapalhar o negócio de Pasadena?
Conforme informaram os repórteres Fábio Fabrini e Fausto Macedo, a “reunião (de Costa) com o presidente Lula” foi registrada exatamente assim num relatório oficial da própria Petrobrás, com um título bastante específico: “Viagens Pasadena”. Na outra ponta, a agenda de Lula no Planalto confirma que ele teve uma “reunião Petrobrás” exatamente no mesmo dia. Se a versão oficial é de que não falaram de Pasadena, então, falaram de quê?
A presidente Dilma Rousseff, à época, era ou não era ministra da Casa Civil e presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, que aprovou a compra mais desastrada da gestão já tão desastrada da maior empresa brasileira?
Apesar de seu gabinete ser ao lado do de Lula, de presidir o conselho e de aprovar a compra de Pasadena dias depois, Dilma não participou da reunião entre Lula e Costa?!!! Se não, por que não?
Qual a pior versão para Dilma e Lula? Ela não apitava nada e foi atropelada por Lula e Costa? Ou o presidente e o diretor de Abastecimento discutiram coisas do arco da velha que não convinha dividir com a chefe da Casa Civil e presidente do conselho? Ou Costa enrolou os dois?
E o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, estava ou não presente na reunião de 31 de janeiro de 2006 entre Lula e Costa, no Planalto? Se a agenda registrava “reunião Petrobrás”, o presidente da empresa não teria que, obrigatoriamente, participar? Ou será que Lula discutia a maior, mais importante e mais simbólica estatal brasileira com o diretor de Abastecimento, do segundo escalão?
Se Lula não se lembra do que foi discutido na reunião – compreensivelmente, já que foi mais de nove anos atrás –, por que diz ter tanta certeza de que o tema tratado não foi Pasadena, como reage categoricamente sua assessoria?
Preso de março a maio e de junho a setembro do ano passado, Costa conseguiu trocar as grades por uma tornozeleira depois de decidir abrir o bico, socorrendo-se com o instrumento da delação premiada. Mas os benefícios da delação premiada viram pó se ele não falar a verdade e não contar tudo, certo?
O que ainda falta para Costa fechar sua história e se livrar do pior? Será que ele vai explicar, tintim por tintim, o que foi fazer no gabinete presidencial naquele janeiro de 2006? Será que vai contar quem esteve presente? E o que foi falado, replicado, acertado?
Ah! Se não nos falhe a memória, não foi justamente em 2006 que começou o inquérito do mensalão que atingiu o coração do PT, com os ícones José Dirceu e José Genoino indo parar na cadeia?
E o que há de comum entre mensalão e petrolão? Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa? Lula também não soube, não viu, não teve nada a ver com um, assim como não teve com o outro?
Agendas são só agendas e não se pode concluir nada a partir de uma mera reunião entre Lula e Costa, mas, de toda forma, são excelentes questões para o 5.º Congresso do PT – além da crise na economia, do “Cristo ou Judas” Joaquim Levy, do aumento de 60% da conta de luz, da marcha ré até no Pronatec, da crise entre o Planalto e o Congresso e dos horizontes (nebulosos) para 2018. Um congresso e tanto.
O vice na frigideira - BERNARDO MELLO FRANCO
FOLHA DE SP - 10/06
BRASÍLIA - Está cada vez mais quente o clima entre o grupo de Michel Temer e o PT. Os peemedebistas já diziam sentir um forte cheiro de óleo no Planalto. Nesta terça, decidiram protestar abertamente contra a fritura do vice-presidente.
O ex-ministro Moreira Franco afirma que Temer virou alvo de um "movimento de hostilidade" no governo. Ele se irritou com o petista Tarso Genro, que disse a esta coluna que o arranjo político com o partido do vice "não serve mais".
"Isso nos causou muita surpresa e indignação", diz Moreira. "Não sei qual é o objetivo desse pessoal. Temer foi convidado para assumir a coordenação política do governo. Em vez de celebrar os resultados que ele já conseguiu, estão tentando hostilizá-lo e diminuir o seu papel."
Presidente da fundação de estudos do PMDB, Moreira se diz revoltado com outra declaração de Tarso: a de que seu partido "tem zero de unidade ideológica e programática para comandar uma coalizão".
"O PMDB sempre foi coerente. Apoiamos todas as medidas de equilíbrio fiscal nos últimos anos, do Plano Real à criação do fator previdenciário. Quem mudou e rasgou suas posições do passado não fomos nós", reage o peemedebista.
Apesar das críticas a Tarso, os peemedebistas consideram que o verdadeiro rival de Temer é o ministro Aloizio Mercadante. Desde que o vice ganhou superpoderes, o chefe da Casa Civil se sente esvaziado no palácio. A disputa vai continuar. Como a presidente Dilma lembrou nesta terça, "o governo não é de quatro meses, é de quatro anos".
***
Sem pudor de defender a CBF, a bancada da bola tentou transformar a ida de Marco Polo Del Nero à Câmara em uma grande jogada ensaiada.
"Vejo que o senhor tem feito um trabalho diferenciado", elogiou Marcelo Aro (PHS-MG), dublê de deputado e diretor da confederação.
Faltou ouvir a opinião do FBI.
BRASÍLIA - Está cada vez mais quente o clima entre o grupo de Michel Temer e o PT. Os peemedebistas já diziam sentir um forte cheiro de óleo no Planalto. Nesta terça, decidiram protestar abertamente contra a fritura do vice-presidente.
O ex-ministro Moreira Franco afirma que Temer virou alvo de um "movimento de hostilidade" no governo. Ele se irritou com o petista Tarso Genro, que disse a esta coluna que o arranjo político com o partido do vice "não serve mais".
"Isso nos causou muita surpresa e indignação", diz Moreira. "Não sei qual é o objetivo desse pessoal. Temer foi convidado para assumir a coordenação política do governo. Em vez de celebrar os resultados que ele já conseguiu, estão tentando hostilizá-lo e diminuir o seu papel."
Presidente da fundação de estudos do PMDB, Moreira se diz revoltado com outra declaração de Tarso: a de que seu partido "tem zero de unidade ideológica e programática para comandar uma coalizão".
"O PMDB sempre foi coerente. Apoiamos todas as medidas de equilíbrio fiscal nos últimos anos, do Plano Real à criação do fator previdenciário. Quem mudou e rasgou suas posições do passado não fomos nós", reage o peemedebista.
Apesar das críticas a Tarso, os peemedebistas consideram que o verdadeiro rival de Temer é o ministro Aloizio Mercadante. Desde que o vice ganhou superpoderes, o chefe da Casa Civil se sente esvaziado no palácio. A disputa vai continuar. Como a presidente Dilma lembrou nesta terça, "o governo não é de quatro meses, é de quatro anos".
***
Sem pudor de defender a CBF, a bancada da bola tentou transformar a ida de Marco Polo Del Nero à Câmara em uma grande jogada ensaiada.
"Vejo que o senhor tem feito um trabalho diferenciado", elogiou Marcelo Aro (PHS-MG), dublê de deputado e diretor da confederação.
Faltou ouvir a opinião do FBI.
Codinome, Dilma - DORA KRAMER
O ESTADÃO - 10/06
Quando a presidente Dilma Rousseff disse à jornalista Tânia Monteiro, em entrevista ao Estado, que não se pode fazer do ministro Joaquim Levy um “Judas” a ser alvo de maus humores por causa do ajuste fiscal, na realidade falava de si aos companheiros do PT que temem sucumbir eleitoralmente aos efeitos recessivos das medidas econômicas.
Os petistas, por seu lado, pegam o ministro da Fazenda para “Cristo” – no sentido do sofrimento na expressão usada pelo vice-presidente Michel Temer – porque estão politicamente impedidos de dar nomes aos bois.
Por orientação do ex-presidente Luiz Inácio da Silva, a cúpula do PT vai tentar conter as insatisfações no 5.º Congresso que começa amanhã e fazer de conta que as divergências entre governo e partido estão superadas.
Olhar adiante de um ajuste que ainda nem apresentou resultados é a palavra de ordem. Ou seja, não será dessa vez que haverá autocrítica, reformulação para valer, essas coisas a respeito das quais os petistas teorizam, mas se recusam a praticar.
Ainda assim, algumas correntes não abrem mão de defender suas teses críticas à política econômica tida como regressiva e recessiva. Política esta adotada em decorrência da necessidade de corrigir os desacertos promovidos pela “nova matriz” do primeiro governo Dilma.
Escolhida candidata e depois eleita presidente com o aval de Lula. Como fiador, assegurava que estava apresentando ao partido e ao País o que de melhor havia em termos de administração e produção de resultados. Errou feio, mas o PT não pode agora sair dizendo isso em público, não obstante muitos petistas o digam em particular.
Na hora de corrigir, a opção por um ministro da Fazenda com o perfil de Joaquim Levy foi de Lula. Queria Henrique Meirelles, depois Luiz Trabuco e conseguiu Levy, cujas convicções são conhecidas e imutáveis. Mas o PT tampouco pode sair dizendo que a culpa é de Lula ou que ele está arrependido da indicação porque o remédio adotado foi amargo demais.
Então, o que resta ao PT em seu congresso? Atacar Joaquim Levy na impossibilidade de criticar diretamente Dilma a fim de manter as aparências. Sabendo, contudo, que se trata de um Judas malhado em ferro frio.
Causa perdida. Ninguém no PT discute a sério as eleições municipais de 2016. A qualquer um que se pergunte a resposta é uma só: não há possibilidade de vitória relevante em região alguma do País. Por isso o partido se concentra em 2018.
Sem “parlar”. Parlamentar, além de substantivo sinônimo de congressista, é o verbo que define uma das funções do Poder Legislativo junto com a votação de leis e fiscalização do Executivo: o ofício de conversar, debater, negociar para construir acordos e obter consensos sobre determinado tema.
É justamente o que o Congresso Nacional vem fazendo ao dispensar o indispensável debate em prol de uma pauta de votações acelerada, com o objetivo único de produzir um protagonismo artificial perante o Palácio do Planalto.
A aprovação de leis ao ritmo de toque de caixa não assegura o atendimento do interesse público. Rapidez não é sinônimo de qualidade. Quantidade muito menos.
Isso se aplica à pauta em geral, mas particularmente à reforma política que, em sua segunda fase, examinará temas importantes como a duração de mandatos e unificação da data das eleições. Como bem recorda o deputado Miro Teixeira, o decano da Câmara em seu 11.º mandato, “na Constituinte foram meses de debates até se chegar ao modelo atual, que têm suas razões de ser”.
Se for para modificá-lo, é no mínimo necessário que se aprofunde o tema. Inclusive porque a quase totalidade dos parlamentares não está familiarizada com as implicações da proposta.
Quando a presidente Dilma Rousseff disse à jornalista Tânia Monteiro, em entrevista ao Estado, que não se pode fazer do ministro Joaquim Levy um “Judas” a ser alvo de maus humores por causa do ajuste fiscal, na realidade falava de si aos companheiros do PT que temem sucumbir eleitoralmente aos efeitos recessivos das medidas econômicas.
Os petistas, por seu lado, pegam o ministro da Fazenda para “Cristo” – no sentido do sofrimento na expressão usada pelo vice-presidente Michel Temer – porque estão politicamente impedidos de dar nomes aos bois.
Por orientação do ex-presidente Luiz Inácio da Silva, a cúpula do PT vai tentar conter as insatisfações no 5.º Congresso que começa amanhã e fazer de conta que as divergências entre governo e partido estão superadas.
Olhar adiante de um ajuste que ainda nem apresentou resultados é a palavra de ordem. Ou seja, não será dessa vez que haverá autocrítica, reformulação para valer, essas coisas a respeito das quais os petistas teorizam, mas se recusam a praticar.
Ainda assim, algumas correntes não abrem mão de defender suas teses críticas à política econômica tida como regressiva e recessiva. Política esta adotada em decorrência da necessidade de corrigir os desacertos promovidos pela “nova matriz” do primeiro governo Dilma.
Escolhida candidata e depois eleita presidente com o aval de Lula. Como fiador, assegurava que estava apresentando ao partido e ao País o que de melhor havia em termos de administração e produção de resultados. Errou feio, mas o PT não pode agora sair dizendo isso em público, não obstante muitos petistas o digam em particular.
Na hora de corrigir, a opção por um ministro da Fazenda com o perfil de Joaquim Levy foi de Lula. Queria Henrique Meirelles, depois Luiz Trabuco e conseguiu Levy, cujas convicções são conhecidas e imutáveis. Mas o PT tampouco pode sair dizendo que a culpa é de Lula ou que ele está arrependido da indicação porque o remédio adotado foi amargo demais.
Então, o que resta ao PT em seu congresso? Atacar Joaquim Levy na impossibilidade de criticar diretamente Dilma a fim de manter as aparências. Sabendo, contudo, que se trata de um Judas malhado em ferro frio.
Causa perdida. Ninguém no PT discute a sério as eleições municipais de 2016. A qualquer um que se pergunte a resposta é uma só: não há possibilidade de vitória relevante em região alguma do País. Por isso o partido se concentra em 2018.
Sem “parlar”. Parlamentar, além de substantivo sinônimo de congressista, é o verbo que define uma das funções do Poder Legislativo junto com a votação de leis e fiscalização do Executivo: o ofício de conversar, debater, negociar para construir acordos e obter consensos sobre determinado tema.
É justamente o que o Congresso Nacional vem fazendo ao dispensar o indispensável debate em prol de uma pauta de votações acelerada, com o objetivo único de produzir um protagonismo artificial perante o Palácio do Planalto.
A aprovação de leis ao ritmo de toque de caixa não assegura o atendimento do interesse público. Rapidez não é sinônimo de qualidade. Quantidade muito menos.
Isso se aplica à pauta em geral, mas particularmente à reforma política que, em sua segunda fase, examinará temas importantes como a duração de mandatos e unificação da data das eleições. Como bem recorda o deputado Miro Teixeira, o decano da Câmara em seu 11.º mandato, “na Constituinte foram meses de debates até se chegar ao modelo atual, que têm suas razões de ser”.
Se for para modificá-lo, é no mínimo necessário que se aprofunde o tema. Inclusive porque a quase totalidade dos parlamentares não está familiarizada com as implicações da proposta.
A exaustão do PT - ELIO GASPARI
O GLOBO - 10/06
O maior partido do país tem o poder em Brasília e 1,7 milhão de filiados, mas não sabe o que fazer com eles
Começa amanhã e vai até dia 14 o V Congresso do Partido dos Trabalhadores. Ele junta um cacique, uma dúzia de tendencias e três grandes grupos: a turma dos eventos, que poderão ser apreciados no show da cerimônia de instalação do encontro; a turma que se aninhou no aparelho do Estado e pessoas que procuram pensar o que esse partido é ou o que poderá ser. O que foi, ou quis ser, esqueça-se. As três turmas se superpõem, pois todos gostam de eventos, poucos se expressam sem blá-blá-blá e dezenas de milhares aninharam-se (um petista que foi levado para a administração da prefeitura de São Paulo em 1989 e pulou de cargo em cargo já completou 26 anos de carteira assinada.)
O presidente do partido, Rui Falcão, garante que não há crise e mostra um número: o PT tem 1,7 milhão de filiados, só neste ano abrigou 171 mil novos inscritos e há 47 mil pessoas na fila. O significado desses números é indiscutível. A qualidade das adesões é bem outra coisa. Outra estatística informa o seguinte: dois presidentes do partido e dois dos seus tesoureiros foram para a cadeia.
A maior crise do PT está na sua exaustão intelectual e a prova disso é o reerguimento da sua bandeira pela criação de um imposto sobre grandes fortunas. Deixe-se de lado a questão técnica. Pode ser uma boa ideia, até porque a imensa maioria dos milionários brasileiros é mão de vaca. O PT defende esse imposto desde sua criação, está no poder desde 2003 e fez rigorosamente nada. Pelo contrário. Lula corre o mundo em jatinhos de milionários, a consultoria José Dirceu assessorou a empresa de três bilionários (em dólares) da lista da revista “Forbes”. Já a firma do ex-ministro Antonio Palocci assessorou outro. O PT pode não ter descoberto a maneira de arrecadar impostos dos afortunados, mas mostrou-lhes como mimar petistas. A consequência perversa desse contubérnio já foi vista nos episódios em que ex-ministros foram vaiados em restaurantes onde raramente iam antes da vitória eleitoral de 2002. Depois veio o prazer do poder e mudaram costumes e gostos. O casal Lula achou razoável fazer um canteiro de flores vermelhas com forma de estrela nos jardins do Palácio da Alvorada.
Quando o PT estava na oposição e levantava a bandeira do imposto sobre grandes fortunas, isso poderia ser um projeto, ou mesmo demagogia. Hoje, é simples hipocrisia política de um partido que governa com a receita econômica defendida pelo candidato Aécio Neves. Petista gritando “fora Levy” faria melhor se murmurasse “fora eu”.
A rendição petista ao programa de Levy é um reflexo da exaustão intelectual do partido. Fernando Henrique Cardoso fez um arrocho para consertar estragos de governos anteriores. Roberto Campos, 30 anos antes, também. Levy tenta consertar estragos do mandarinato petista, potencializados no primeiro mandato da doutora Dilma. Ela pedalava as contas públicas, agora pedala uma bicicleta americana.
Numa das suas recentes propagandas de televisão, o PT informou: “Vamos para as ruas defender nossas bandeiras e nossas ideias.” Noves fora a bandeira vermelha, não se sabe de outras. Ideias novas e boas, nenhuma.
O maior partido do país tem o poder em Brasília e 1,7 milhão de filiados, mas não sabe o que fazer com eles
Começa amanhã e vai até dia 14 o V Congresso do Partido dos Trabalhadores. Ele junta um cacique, uma dúzia de tendencias e três grandes grupos: a turma dos eventos, que poderão ser apreciados no show da cerimônia de instalação do encontro; a turma que se aninhou no aparelho do Estado e pessoas que procuram pensar o que esse partido é ou o que poderá ser. O que foi, ou quis ser, esqueça-se. As três turmas se superpõem, pois todos gostam de eventos, poucos se expressam sem blá-blá-blá e dezenas de milhares aninharam-se (um petista que foi levado para a administração da prefeitura de São Paulo em 1989 e pulou de cargo em cargo já completou 26 anos de carteira assinada.)
O presidente do partido, Rui Falcão, garante que não há crise e mostra um número: o PT tem 1,7 milhão de filiados, só neste ano abrigou 171 mil novos inscritos e há 47 mil pessoas na fila. O significado desses números é indiscutível. A qualidade das adesões é bem outra coisa. Outra estatística informa o seguinte: dois presidentes do partido e dois dos seus tesoureiros foram para a cadeia.
A maior crise do PT está na sua exaustão intelectual e a prova disso é o reerguimento da sua bandeira pela criação de um imposto sobre grandes fortunas. Deixe-se de lado a questão técnica. Pode ser uma boa ideia, até porque a imensa maioria dos milionários brasileiros é mão de vaca. O PT defende esse imposto desde sua criação, está no poder desde 2003 e fez rigorosamente nada. Pelo contrário. Lula corre o mundo em jatinhos de milionários, a consultoria José Dirceu assessorou a empresa de três bilionários (em dólares) da lista da revista “Forbes”. Já a firma do ex-ministro Antonio Palocci assessorou outro. O PT pode não ter descoberto a maneira de arrecadar impostos dos afortunados, mas mostrou-lhes como mimar petistas. A consequência perversa desse contubérnio já foi vista nos episódios em que ex-ministros foram vaiados em restaurantes onde raramente iam antes da vitória eleitoral de 2002. Depois veio o prazer do poder e mudaram costumes e gostos. O casal Lula achou razoável fazer um canteiro de flores vermelhas com forma de estrela nos jardins do Palácio da Alvorada.
Quando o PT estava na oposição e levantava a bandeira do imposto sobre grandes fortunas, isso poderia ser um projeto, ou mesmo demagogia. Hoje, é simples hipocrisia política de um partido que governa com a receita econômica defendida pelo candidato Aécio Neves. Petista gritando “fora Levy” faria melhor se murmurasse “fora eu”.
A rendição petista ao programa de Levy é um reflexo da exaustão intelectual do partido. Fernando Henrique Cardoso fez um arrocho para consertar estragos de governos anteriores. Roberto Campos, 30 anos antes, também. Levy tenta consertar estragos do mandarinato petista, potencializados no primeiro mandato da doutora Dilma. Ela pedalava as contas públicas, agora pedala uma bicicleta americana.
Numa das suas recentes propagandas de televisão, o PT informou: “Vamos para as ruas defender nossas bandeiras e nossas ideias.” Noves fora a bandeira vermelha, não se sabe de outras. Ideias novas e boas, nenhuma.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
PIROTECNIA DAS CONCESSÕES GERA DESCONFIANÇA
O pacote de “investimentos” anunciado pela presidente Dilma foi recebido com desconfiança por empresários porque parece seguir o modelo chinês: promete investimentos bilionários, ganha manchetes, mas não realiza. Pirotecnia é especialidade da China: em maio, o primeiro-ministro Li Keqiang prometeu investir US$ 53 bilhões no Brasil. Entre 2007 e 2012, seu antecessor havia prometido US$ 68,5 bilhões.
DEVERES ESQUECIDOS
A relutância de promover reformas trabalhista, tributária, política etc, compromete a credibilidade do Brasil e afasta investidores.
NÚMEROS SUPERFATURADOS
Os números da promessa estão nas entrelinhas do anúncio: o governo Dilma só “garante” R$ 69,2 bi dos R$ 198,4 bilhões prometidos.
CHAPÉU ALHEIO
Dois terços (R$ 129,2 bilhões) dos investimentos anunciados por Dilma só saem a partir de 2019, quando o governo já terá outro presidente.
CAUSA E EFEITO
Assim como ficou no México apostando nas 11 grandes reformas que o País realiza, o HSBC sai do Brasil reclamando da falta de reformas.
PP DA CÂMARA MARCA REUNIÃO PARA DEIXAR BLOCÃO
O PP da Câmara marcou para a próxima terça-feira (16) reunião de bancada que deve referendar o desembarque do partido do blocão, agrupamento composto por PMDB, PP, PTB, PSC, PHS, PEN e liderado pelo deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ). A cúpula do PP considera que o partido deve caminhar com as próprias pernas e buscar “independência” em relação aos projetos do governo federal.
SEM VOZ
O PP reclama que nunca é consultado pelo líder do bloco, Leonardo Picciani, e cansou do papel de referendar as decisões do PMDB.
DORES DE CABEÇA
O Palácio do Planalto não quer problemas com o PMDB, mas também os evita com o PP, que tem a quarta maior bancada: 40 deputados.
HISTÓRICO
O PP deu sinais de independência já na MP 664, derrotou o governo na alteração do prazo de pagamento pela Previdência em auxílio-doença.
SENADOR LEMBRADO
O recém-falecido senador Luiz Henrique (PMDB-SC) foi lembrado pela presidente do Conselho da Federação da Rússia, Valentina Matvienko, durante conversa com o presidente do Senado, Renan Calheiros, em Moscou. Luiz Henrique presidia o Grupo de Amizade Brasil-Rússia.
E O ARROCHO?
A conta do programa Bolsa Família até maio ultrapassou os R$ 9,3 bilhões distribuídos apenas este ano. Se o ritmo de gastança continuar, o governo pode bater o recorde de R$ 27 bilhões distribuídos em 2014.
POR FALAR EM MEDALHAS...
A dez dias do final do prazo para explicar ao Ministério Público Federal por que não cassa medalhas dos mensaleiros que roubaram o País, Jaques Wagner (Defesa) condecora hoje o deputado Eduardo Cunha e os ministros Ricardo Lewandowski (STF) e Nancy Andrighi (STJ).
CAMPEÃO
O campeão de gastos na Câmara Legislativa do DF é o deputado distrital Christiano Araújo (PTB). Seu gabinete pediu ressarcimento de despesas no valor de R$ 90,5 mil, entre janeiro e abril deste ano.
MINISTRO DOS BANQUEIROS
Deputados lulistas que se referem a Joaquim Levy (Fazenda) como “ministro dos banqueiros” não foram tão explícitos quando o então presidente Lula nomeou Henrique Meirelles para o Banco Central.
CORREIOS SITIADOS
A sede dos Correios em Natal, onde há agência do Banco Postal, teve o segundo assalto em 40 dias, e com reféns. O Banco Postal virou alvo de assaltantes, Brasil afora. Afinal, tem pinta e nome de banco e paga e recebe como banco, mas não tem esquema de segurança de banco.
BC, 50 YEARS
O Banco Central irritou o PT ao promover nesta quarta (10) um evento no Rio, com título em inglês (“Central Banking – The Next 50 Years”), para celebrar os 50 anos. E ainda convidou celebridades internacionais da área, como Claude Trichet, Axel Weber e Jacob Frenkel.
NINGUÉM MERECE
A “cumpanherada” do PT preferia que o Banco Central tivesse convidado para seus 50 anos gente do tipo Guido Mantega, Aloysio Mercadante e Luciano Coutinho, que meteram o País na atual crise.
PERGUNTA NO PLANALTO
Haverá interessados em investir no País onde autoridades e funcionários corruptos roubaram R$ 6,1 bilhões da sua maior estatal?
PODER SEM PUDOR
ANALFABETOS FUNCIONAIS
Os parlamentares sobrecarregam os redatores particulares ou do próprio Congresso para redigir discursos. O Instituto de Pesquisa e Assessoria dos Congressistas, no final dos anos 80, de tão assoberbado, trocou os textos dos deputados Jerônimo Santana (RO) e Minoro Massuda (SP). O deputado paulista foi o primeiro a usar a tribuna, em tom dramático:
- Senhor Presidente, o problema de conflito de terras em Rondônia...
Interrompeu ao perceber o engano e jogou a toalha:
- Pô, presidente, eu não sou de Rondônia...
E foi embora, praguejando.
O pacote de “investimentos” anunciado pela presidente Dilma foi recebido com desconfiança por empresários porque parece seguir o modelo chinês: promete investimentos bilionários, ganha manchetes, mas não realiza. Pirotecnia é especialidade da China: em maio, o primeiro-ministro Li Keqiang prometeu investir US$ 53 bilhões no Brasil. Entre 2007 e 2012, seu antecessor havia prometido US$ 68,5 bilhões.
DEVERES ESQUECIDOS
A relutância de promover reformas trabalhista, tributária, política etc, compromete a credibilidade do Brasil e afasta investidores.
NÚMEROS SUPERFATURADOS
Os números da promessa estão nas entrelinhas do anúncio: o governo Dilma só “garante” R$ 69,2 bi dos R$ 198,4 bilhões prometidos.
CHAPÉU ALHEIO
Dois terços (R$ 129,2 bilhões) dos investimentos anunciados por Dilma só saem a partir de 2019, quando o governo já terá outro presidente.
CAUSA E EFEITO
Assim como ficou no México apostando nas 11 grandes reformas que o País realiza, o HSBC sai do Brasil reclamando da falta de reformas.
PP DA CÂMARA MARCA REUNIÃO PARA DEIXAR BLOCÃO
O PP da Câmara marcou para a próxima terça-feira (16) reunião de bancada que deve referendar o desembarque do partido do blocão, agrupamento composto por PMDB, PP, PTB, PSC, PHS, PEN e liderado pelo deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ). A cúpula do PP considera que o partido deve caminhar com as próprias pernas e buscar “independência” em relação aos projetos do governo federal.
SEM VOZ
O PP reclama que nunca é consultado pelo líder do bloco, Leonardo Picciani, e cansou do papel de referendar as decisões do PMDB.
DORES DE CABEÇA
O Palácio do Planalto não quer problemas com o PMDB, mas também os evita com o PP, que tem a quarta maior bancada: 40 deputados.
HISTÓRICO
O PP deu sinais de independência já na MP 664, derrotou o governo na alteração do prazo de pagamento pela Previdência em auxílio-doença.
SENADOR LEMBRADO
O recém-falecido senador Luiz Henrique (PMDB-SC) foi lembrado pela presidente do Conselho da Federação da Rússia, Valentina Matvienko, durante conversa com o presidente do Senado, Renan Calheiros, em Moscou. Luiz Henrique presidia o Grupo de Amizade Brasil-Rússia.
E O ARROCHO?
A conta do programa Bolsa Família até maio ultrapassou os R$ 9,3 bilhões distribuídos apenas este ano. Se o ritmo de gastança continuar, o governo pode bater o recorde de R$ 27 bilhões distribuídos em 2014.
POR FALAR EM MEDALHAS...
A dez dias do final do prazo para explicar ao Ministério Público Federal por que não cassa medalhas dos mensaleiros que roubaram o País, Jaques Wagner (Defesa) condecora hoje o deputado Eduardo Cunha e os ministros Ricardo Lewandowski (STF) e Nancy Andrighi (STJ).
CAMPEÃO
O campeão de gastos na Câmara Legislativa do DF é o deputado distrital Christiano Araújo (PTB). Seu gabinete pediu ressarcimento de despesas no valor de R$ 90,5 mil, entre janeiro e abril deste ano.
MINISTRO DOS BANQUEIROS
Deputados lulistas que se referem a Joaquim Levy (Fazenda) como “ministro dos banqueiros” não foram tão explícitos quando o então presidente Lula nomeou Henrique Meirelles para o Banco Central.
CORREIOS SITIADOS
A sede dos Correios em Natal, onde há agência do Banco Postal, teve o segundo assalto em 40 dias, e com reféns. O Banco Postal virou alvo de assaltantes, Brasil afora. Afinal, tem pinta e nome de banco e paga e recebe como banco, mas não tem esquema de segurança de banco.
BC, 50 YEARS
O Banco Central irritou o PT ao promover nesta quarta (10) um evento no Rio, com título em inglês (“Central Banking – The Next 50 Years”), para celebrar os 50 anos. E ainda convidou celebridades internacionais da área, como Claude Trichet, Axel Weber e Jacob Frenkel.
NINGUÉM MERECE
A “cumpanherada” do PT preferia que o Banco Central tivesse convidado para seus 50 anos gente do tipo Guido Mantega, Aloysio Mercadante e Luciano Coutinho, que meteram o País na atual crise.
PERGUNTA NO PLANALTO
Haverá interessados em investir no País onde autoridades e funcionários corruptos roubaram R$ 6,1 bilhões da sua maior estatal?
PODER SEM PUDOR
ANALFABETOS FUNCIONAIS
Os parlamentares sobrecarregam os redatores particulares ou do próprio Congresso para redigir discursos. O Instituto de Pesquisa e Assessoria dos Congressistas, no final dos anos 80, de tão assoberbado, trocou os textos dos deputados Jerônimo Santana (RO) e Minoro Massuda (SP). O deputado paulista foi o primeiro a usar a tribuna, em tom dramático:
- Senhor Presidente, o problema de conflito de terras em Rondônia...
Interrompeu ao perceber o engano e jogou a toalha:
- Pô, presidente, eu não sou de Rondônia...
E foi embora, praguejando.
terça-feira, junho 09, 2015
Conversa com uma esquerdista - RODRIGO CONSTANTINO
O GLOBO - 09/06
O Brasil gasta em ensino público o mesmo que os países ricos em termos proporcionais. No entanto, veja nosso ranking nos testes internacionais, uma vergonha!
— Manu, soube que você defende o aborto em qualquer mês de gravidez. Qual o seu argumento?
— Liberdade de escolha. O corpo é da mulher e ela faz com ele o que bem entender.
— Mas e o feto, não teria direito algum, mesmo em estágio avançado de desenvolvimento?
— Não, pois o corpo é da mulher, sua propriedade.
— Mas você não andou aplaudindo medidas de confisco dos mais ricos pelo governo, em nome da igualdade? Como fica a questão da propriedade nesse caso?
— Precisamos combater a ganância materialista e pregar a igualdade de todos.
— E você pretende combater o materialismo focando somente na conta bancária da pessoa? Não acha que há mais do que dinheiro no mundo?
— Luto pela justiça social, e quero socializar as riquezas.
— Você fala como se riqueza fosse algo fixo, um bolo que precisa ser apenas melhor dividido, e não criado. Se é assim, por que não começa distribuindo a sua própria riqueza, já que você é parte da elite?
— Aceita uma dose de Blue Label?
— Não, obrigado. Quer dizer que você acha mesmo Cuba um bom exemplo a ser seguido? Mas por que prefere sempre ir para Paris ou Nova York nas férias?
— Cuba seria um paraíso se não fosse o embargo americano...
— Então você acha que se os cubanos fossem “explorados” pelos consumistas ianques, segundo sua própria lógica, eles teriam uma vida melhor?
— Mais lagosta?
— Manu, você é contra a redução da maioridade penal mesmo? Não está cansada da impunidade, dessa criminalidade toda?
— O pobre mata por desespero, ele é uma vítima da sociedade. Somos todos culpados.
— Mas eu não matei ninguém. E conheço muito pobre honesto e trabalhador. E há criminosos nas classes média e até alta também. Vide Brasília.
— Esse crepe de caviar está uma delícia! É daquela chef renomada, você precisa experimentar.
— Obrigado. Voltemos ao assunto da maioridade. Então qual solução você propõe?
— Mais educação!
— Esse modelo falido que serve apenas de doutrinação ideológica marxista? Acho que não está funcionando muito bem...
— Falta verba pro Estado.
— Mas o Brasil gasta em ensino público o mesmo que os países ricos em termos proporcionais. No entanto, veja nosso ranking nos testes internacionais, uma vergonha! Nossos alunos acham que o capitalismo não presta e amam o socialismo, mas não sabem ler direito e nem fazer contas.
— Paulo Freire sempre nos disse que precisamos educar para a vida de forma crítica, e não aceitar esse regime opressor da elite que produz apenas trabalhadores para o mercado.
— Creio que o tiro saiu pela culatra. Mas diga, o galalau que enfia a faca num inocente por uma bicicleta, ele é mesmo uma criança indefesa que precisa apenas de mais “educação paulofreireana”?
— Ele é uma pobre criatura que precisa de uma nova chance para recomeçar. Estamos falando de crianças de apenas 16 ou 17 anos!
— Mas você não defende o direito ao voto dessa faixa etária? Quer dizer que são pobres crianças na hora que matam, mas jovens responsáveis para escolher o governante?
— Mais champanhe? É de boa safra.
— Vem cá, o que está achando do estelionato eleitoral da Dilma? Disse que não ia fazer nada do que está fazendo. Subiu juros, aumentou preços, impostos...
— Culpa do neoliberalismo. Aumento de juros, por exemplo, é pura pressão do capital financeiro.
— Mas a inflação está acima de 8%! O que fazer?
— Quer um cigarro de maconha?
— Não. Você defende a legalização das drogas, né?
— Claro. Liberdade de escolha.
— Mas não defendeu outro dia medidas cada vez mais restritas ao cigarro e até ao sal?
— O Estado tem que cuidar da saúde das pessoas como um pai cuida do filho.
— Não sou filho de Dilma, e acho que há uma clara incoerência aí...
— Você é sempre muito racional. O importante é “sentir”, sacou?
— Saquei. Mas eu “sinto” que você defende coisas muito contraditórias. Diz pra mim um só país socialista que deu certo!
— Vale a Suécia?
— Não. A Suécia faria uma esquerdista como você pular da cadeira e sair gritando revoltada contra o capitalismo. Não há nem salário-mínimo, e existe uma ampla abertura comercial e império das leis. O Estado de bem-estar social, que aqui é pregado pelo PSDB que você chama de “neoliberal”, jogou o país em crise, e reformas liberais foram necessárias para evitar o pior. Tenta outro.
— O importante é não abandonar as utopias, os sonhos...
— Mesmo um “sonho” que virou o pesadelo de milhões de pessoas, como o socialismo, trazendo apenas miséria, escravidão e morte?
— Você é muito radical.
— Eu? Não Fidel Castro ou Maduro, ou então o PT, mas eu que sou o radical?
— Só não te ofereço uma coxinha porque não gosto de comida de pobre...
O Brasil gasta em ensino público o mesmo que os países ricos em termos proporcionais. No entanto, veja nosso ranking nos testes internacionais, uma vergonha!
— Manu, soube que você defende o aborto em qualquer mês de gravidez. Qual o seu argumento?
— Liberdade de escolha. O corpo é da mulher e ela faz com ele o que bem entender.
— Mas e o feto, não teria direito algum, mesmo em estágio avançado de desenvolvimento?
— Não, pois o corpo é da mulher, sua propriedade.
— Mas você não andou aplaudindo medidas de confisco dos mais ricos pelo governo, em nome da igualdade? Como fica a questão da propriedade nesse caso?
— Precisamos combater a ganância materialista e pregar a igualdade de todos.
— E você pretende combater o materialismo focando somente na conta bancária da pessoa? Não acha que há mais do que dinheiro no mundo?
— Luto pela justiça social, e quero socializar as riquezas.
— Você fala como se riqueza fosse algo fixo, um bolo que precisa ser apenas melhor dividido, e não criado. Se é assim, por que não começa distribuindo a sua própria riqueza, já que você é parte da elite?
— Aceita uma dose de Blue Label?
— Não, obrigado. Quer dizer que você acha mesmo Cuba um bom exemplo a ser seguido? Mas por que prefere sempre ir para Paris ou Nova York nas férias?
— Cuba seria um paraíso se não fosse o embargo americano...
— Então você acha que se os cubanos fossem “explorados” pelos consumistas ianques, segundo sua própria lógica, eles teriam uma vida melhor?
— Mais lagosta?
— Manu, você é contra a redução da maioridade penal mesmo? Não está cansada da impunidade, dessa criminalidade toda?
— O pobre mata por desespero, ele é uma vítima da sociedade. Somos todos culpados.
— Mas eu não matei ninguém. E conheço muito pobre honesto e trabalhador. E há criminosos nas classes média e até alta também. Vide Brasília.
— Esse crepe de caviar está uma delícia! É daquela chef renomada, você precisa experimentar.
— Obrigado. Voltemos ao assunto da maioridade. Então qual solução você propõe?
— Mais educação!
— Esse modelo falido que serve apenas de doutrinação ideológica marxista? Acho que não está funcionando muito bem...
— Falta verba pro Estado.
— Mas o Brasil gasta em ensino público o mesmo que os países ricos em termos proporcionais. No entanto, veja nosso ranking nos testes internacionais, uma vergonha! Nossos alunos acham que o capitalismo não presta e amam o socialismo, mas não sabem ler direito e nem fazer contas.
— Paulo Freire sempre nos disse que precisamos educar para a vida de forma crítica, e não aceitar esse regime opressor da elite que produz apenas trabalhadores para o mercado.
— Creio que o tiro saiu pela culatra. Mas diga, o galalau que enfia a faca num inocente por uma bicicleta, ele é mesmo uma criança indefesa que precisa apenas de mais “educação paulofreireana”?
— Ele é uma pobre criatura que precisa de uma nova chance para recomeçar. Estamos falando de crianças de apenas 16 ou 17 anos!
— Mas você não defende o direito ao voto dessa faixa etária? Quer dizer que são pobres crianças na hora que matam, mas jovens responsáveis para escolher o governante?
— Mais champanhe? É de boa safra.
— Vem cá, o que está achando do estelionato eleitoral da Dilma? Disse que não ia fazer nada do que está fazendo. Subiu juros, aumentou preços, impostos...
— Culpa do neoliberalismo. Aumento de juros, por exemplo, é pura pressão do capital financeiro.
— Mas a inflação está acima de 8%! O que fazer?
— Quer um cigarro de maconha?
— Não. Você defende a legalização das drogas, né?
— Claro. Liberdade de escolha.
— Mas não defendeu outro dia medidas cada vez mais restritas ao cigarro e até ao sal?
— O Estado tem que cuidar da saúde das pessoas como um pai cuida do filho.
— Não sou filho de Dilma, e acho que há uma clara incoerência aí...
— Você é sempre muito racional. O importante é “sentir”, sacou?
— Saquei. Mas eu “sinto” que você defende coisas muito contraditórias. Diz pra mim um só país socialista que deu certo!
— Vale a Suécia?
— Não. A Suécia faria uma esquerdista como você pular da cadeira e sair gritando revoltada contra o capitalismo. Não há nem salário-mínimo, e existe uma ampla abertura comercial e império das leis. O Estado de bem-estar social, que aqui é pregado pelo PSDB que você chama de “neoliberal”, jogou o país em crise, e reformas liberais foram necessárias para evitar o pior. Tenta outro.
— O importante é não abandonar as utopias, os sonhos...
— Mesmo um “sonho” que virou o pesadelo de milhões de pessoas, como o socialismo, trazendo apenas miséria, escravidão e morte?
— Você é muito radical.
— Eu? Não Fidel Castro ou Maduro, ou então o PT, mas eu que sou o radical?
— Só não te ofereço uma coxinha porque não gosto de comida de pobre...
Presidência brasileira no Mercosul - RUBENS BARBOSA
O Estado de S. Paulo - 09/06
Neste semestre o Brasil ocupa a presidência do Mercosul. Mas foram o Uruguai e o Paraguai que tomaram a iniciativa de propor uma análise objetiva e franca do bloco e também a revisão de suas regras.
O chanceler uruguaio, Rodolfo Nin Novoa, desde o início do governo Tabaré Vázquez, em março, tem se pronunciado a favor de o Mercosul retornar às suas origens e admitir seus erros, de modo a permitir que ele possa integrar-se plenamente ao comércio global e pôr um ponto final no isolamento das principais correntes de comércio. Novoa insistiu na necessidade de o Mercosul cumprir os tratados sobre a livre circulação de bens e serviços e funcionar como uma zona em que não haja restrições protecionistas nem interferências para que os países menores possam desenvolver suas potencialidades.
Já o chanceler paraguaio, Eladio Loizaga, defende a ideia de que o acordo de facilitação de comércio da Organização Mundial do Comércio (OMC) seja incorporado às regras do Mercosul para ajudar a promover o comércio e a competitividade. “Temos de coordenar políticas que possam fazer o Mercosul retornar a seus objetivos iniciais e à razão de sua criação: um espaço geográfico importante, com a livre circulação de bens, sem restrições protecionistas ou barreiras não tarifárias.”
Em recente visita a Brasília, o presidente do Uruguai, Tabaré Vasquez, reafirmou a necessidade de reformas no Mercosul e a prioridade da negociação com a União Europeia (UE). Ao final da visita presidencial, um dos objetivos uruguaios foi aceito: o Brasil modificou sua atitude e admitiu a flexibilização das regras para permitir o avanço dos entendimentos com a UE em diferentes velocidades.
A oposição do Brasil e da Argentina tornou inviáveis essas propostas até aqui. Haveria, assim, sinais de que a posição brasileira está mudando. Em recente reunião da Câmara de Comércio Exterior (Camex), o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, defendeu uma modificação da atual política de comércio exterior ao pregar uma agenda de abertura da economia. O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Armando Monteiro, tem expressado preocupação com o Mercosul tanto pelo imobilismo de suas regras quanto pelo isolamento em relação aos acordos comerciais. E defendeu a mudança das regras para permitir ao Brasil negociar acordos com países fora da região. E na recente visita ao México, em surpreendente e positiva mudança de posição, a presidente Dilma Rousseff disse que o Brasil vai “fazer um maior esforço e ser agressivo na busca de acordos comerciais”.
A paralisia do grupo regional e as crescentes medidas protecionistas da Argentina preocupam o setor privado brasileiro, o maior prejudicado por essa situação. Noticia-se agora a criação de mais uma comissão de acompanhamento do comércio bilateral do Brasil com a Argentina, que terá pouca influência no desmonte das medidas protecionistas e pouco impacto nas negociações do Mercosul.
Internamente, vozes importantes pedem a volta do Mercosul a uma área de livre-comércio e maior liberdade para que o Brasil possa negociar novos acordos com países de fora da região. Foi esse o tom do discurso proferido recentemente pelo senador José Serra no Senado e de documentos da CNI, da Fiesp e do Iedi. O governo está dividido em relação ao tema, como evidenciado por manifestações de ministros como Miguel Rossetto e mesmo representantes do Itamaraty e do MDIC em favor do Mercosul. Parte do setor privado também expressa preocupação com as modificações das regras do grupo, sobretudo pela perda de competitividade da indústria, sem uma clara agenda oficial microeconômica para reduzi-la.
É previsível a continuada oposição da Argentina e da Venezuela à flexibilização das regras do Mercosul. É do interesse brasileiro ignorar essa oposição e assumir a liderança nas tratativas para retomar os entendimentos com a UE e aceitar a ampliação na negociação externa com países mais desenvolvidos, como o Canadá e a Coreia do Sul. A Espanha defendeu abertamente uma opção pragmática para que as conversações entre a União Europeia e o Mercosul possam avançar. Em recente visita do vice-presidente Michel Temer a Madri, o ministro do Exterior espanhol sinalizou dúvidas sobre o acordo birregional e sugeriu adotar o procedimento seguido com a Comunidade Andina, o que, na prática, significa buscar um acordo diretamente com o Brasil e com outros países que se disponham a fazê-lo. Essa mensagem é um bom sinal para o nosso país, visto que em recente documento de estratégia comercial externa a UE nem sequer incluiu o Mercosul como prioridade.
A agenda da próxima reunião presidencial, em julho, reforça a necessidade de uma reavaliação geral do Mercosul. A união aduaneira tornou regra a exceção: mais um alongamento de prazos deve ser aprovado. Um dos itens principais da pauta será a extensão até 2023 para a continuação de regimes especiais (drawback interno, listas de exceção, bens de capital e informática, regime agropecuário e matérias-primas). Na negociação externa, deverá ser reafirmada a prioridade dos entendimentos com a UE, com a novidade de que poderão ser examinadas flexibilidades para acomodar preocupações de outros parceiros, se necessário.
Não há mais espaço para hesitações por parte do Mercosul em vista das grandes transformações por que passa o comércio internacional, em especial pelos mega-acordos dos EUA com a Europa e a Ásia e pelas novas regras que estão sendo elaboradas fora da OMC.
Na reunião de ministros Mercosul-União Europeia depois de amanhã, em Bruxelas, o Brasil deveria insistir na fixação de uma data para a reativação das negociações, no compromisso de intercambiar conjuntamente suas ofertas antes da referida reunião presidencial e também na aceitação de ritmos e velocidades de negociação diferentes entre os países-membros, se for necessário.
Neste semestre o Brasil ocupa a presidência do Mercosul. Mas foram o Uruguai e o Paraguai que tomaram a iniciativa de propor uma análise objetiva e franca do bloco e também a revisão de suas regras.
O chanceler uruguaio, Rodolfo Nin Novoa, desde o início do governo Tabaré Vázquez, em março, tem se pronunciado a favor de o Mercosul retornar às suas origens e admitir seus erros, de modo a permitir que ele possa integrar-se plenamente ao comércio global e pôr um ponto final no isolamento das principais correntes de comércio. Novoa insistiu na necessidade de o Mercosul cumprir os tratados sobre a livre circulação de bens e serviços e funcionar como uma zona em que não haja restrições protecionistas nem interferências para que os países menores possam desenvolver suas potencialidades.
Já o chanceler paraguaio, Eladio Loizaga, defende a ideia de que o acordo de facilitação de comércio da Organização Mundial do Comércio (OMC) seja incorporado às regras do Mercosul para ajudar a promover o comércio e a competitividade. “Temos de coordenar políticas que possam fazer o Mercosul retornar a seus objetivos iniciais e à razão de sua criação: um espaço geográfico importante, com a livre circulação de bens, sem restrições protecionistas ou barreiras não tarifárias.”
Em recente visita a Brasília, o presidente do Uruguai, Tabaré Vasquez, reafirmou a necessidade de reformas no Mercosul e a prioridade da negociação com a União Europeia (UE). Ao final da visita presidencial, um dos objetivos uruguaios foi aceito: o Brasil modificou sua atitude e admitiu a flexibilização das regras para permitir o avanço dos entendimentos com a UE em diferentes velocidades.
A oposição do Brasil e da Argentina tornou inviáveis essas propostas até aqui. Haveria, assim, sinais de que a posição brasileira está mudando. Em recente reunião da Câmara de Comércio Exterior (Camex), o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, defendeu uma modificação da atual política de comércio exterior ao pregar uma agenda de abertura da economia. O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Armando Monteiro, tem expressado preocupação com o Mercosul tanto pelo imobilismo de suas regras quanto pelo isolamento em relação aos acordos comerciais. E defendeu a mudança das regras para permitir ao Brasil negociar acordos com países fora da região. E na recente visita ao México, em surpreendente e positiva mudança de posição, a presidente Dilma Rousseff disse que o Brasil vai “fazer um maior esforço e ser agressivo na busca de acordos comerciais”.
A paralisia do grupo regional e as crescentes medidas protecionistas da Argentina preocupam o setor privado brasileiro, o maior prejudicado por essa situação. Noticia-se agora a criação de mais uma comissão de acompanhamento do comércio bilateral do Brasil com a Argentina, que terá pouca influência no desmonte das medidas protecionistas e pouco impacto nas negociações do Mercosul.
Internamente, vozes importantes pedem a volta do Mercosul a uma área de livre-comércio e maior liberdade para que o Brasil possa negociar novos acordos com países de fora da região. Foi esse o tom do discurso proferido recentemente pelo senador José Serra no Senado e de documentos da CNI, da Fiesp e do Iedi. O governo está dividido em relação ao tema, como evidenciado por manifestações de ministros como Miguel Rossetto e mesmo representantes do Itamaraty e do MDIC em favor do Mercosul. Parte do setor privado também expressa preocupação com as modificações das regras do grupo, sobretudo pela perda de competitividade da indústria, sem uma clara agenda oficial microeconômica para reduzi-la.
É previsível a continuada oposição da Argentina e da Venezuela à flexibilização das regras do Mercosul. É do interesse brasileiro ignorar essa oposição e assumir a liderança nas tratativas para retomar os entendimentos com a UE e aceitar a ampliação na negociação externa com países mais desenvolvidos, como o Canadá e a Coreia do Sul. A Espanha defendeu abertamente uma opção pragmática para que as conversações entre a União Europeia e o Mercosul possam avançar. Em recente visita do vice-presidente Michel Temer a Madri, o ministro do Exterior espanhol sinalizou dúvidas sobre o acordo birregional e sugeriu adotar o procedimento seguido com a Comunidade Andina, o que, na prática, significa buscar um acordo diretamente com o Brasil e com outros países que se disponham a fazê-lo. Essa mensagem é um bom sinal para o nosso país, visto que em recente documento de estratégia comercial externa a UE nem sequer incluiu o Mercosul como prioridade.
A agenda da próxima reunião presidencial, em julho, reforça a necessidade de uma reavaliação geral do Mercosul. A união aduaneira tornou regra a exceção: mais um alongamento de prazos deve ser aprovado. Um dos itens principais da pauta será a extensão até 2023 para a continuação de regimes especiais (drawback interno, listas de exceção, bens de capital e informática, regime agropecuário e matérias-primas). Na negociação externa, deverá ser reafirmada a prioridade dos entendimentos com a UE, com a novidade de que poderão ser examinadas flexibilidades para acomodar preocupações de outros parceiros, se necessário.
Não há mais espaço para hesitações por parte do Mercosul em vista das grandes transformações por que passa o comércio internacional, em especial pelos mega-acordos dos EUA com a Europa e a Ásia e pelas novas regras que estão sendo elaboradas fora da OMC.
Na reunião de ministros Mercosul-União Europeia depois de amanhã, em Bruxelas, o Brasil deveria insistir na fixação de uma data para a reativação das negociações, no compromisso de intercambiar conjuntamente suas ofertas antes da referida reunião presidencial e também na aceitação de ritmos e velocidades de negociação diferentes entre os países-membros, se for necessário.
Obedeçam o livrinho, senhores - ANTONIO DELFIM NETTO
VALOR ECONÔMICO - 09/06
O maior problema de parte da sociedade brasileira é a sua indisposição de aceitar as restrições impostas pelo mundo físico no qual ela tem que viver, simplesmente porque não há outra alternativa. Não se impõe uma "ortodoxia" ou uma particular "visão do mundo" quando se afirma, por exemplo, que seja qual for a sociedade, "capitalista" ou "socialista real", é impossível violar as identidades da contabilidade nacional. A história é testemunha que, nas duas, a tentativa de fazê-lo leva, no fim do dia, a uma situação trágica que combina:
1) a redução do crescimento econômico. Na organização "capitalista", leva a rápida queda do emprego e do salário real. Na "socialista real", a um empobrecimento geral talvez maior, mas mais equanimemente distribuído;
2) o aumento, na "capitalista", da dificuldade para prosseguir na necessária política de igualdade de oportunidade num "ambiente" de relativa liberdade de iniciativa. Na "socialista real", por definição (mas não na realidade), já são todos iguais, mas com liberdade controlada;
3) a aceleração da inflação no "capitalismo" e aumento da inflação "escondida" pelo racionamento no "socialismo real", destruindo ainda mais a liberdade de escolha do consumidor; e
4) no "capitalismo", produz déficits no balanço em conta corrente, o que leva ao aumento da taxa de câmbio real para corrigi-lo e acentua a dificuldade crescente de controlar a inflação. No "socialismo real", leva ao aumento dos problemas de abastecimento da demanda, e o controle do câmbio prejudica a exportação. Levado ao limite, o processo termina quando não há mais financiamento externo. Tudo isso bem temperado - nos dois regimes - com um bom desequilíbrio fiscal. Como as consequências sempre chegam depois, mais cedo (no "capitalismo"), ou mais tarde (no "socialismo real"), uma correção terá de ser imposta.
A situação é mais complicada quando, tomado de perplexidade, o Poder Executivo perde a capacidade de determinar sua agenda, como agora no Brasil. Fica à mercê de um "parlamentarismo de coalização", que nem "governa" nem "coaliza" e que, por isso mesmo, estimula o Legislativo e o Judiciário, a organizarem-se para predá-lo.
Como se isso não bastasse, há um grande número de "intelectuais" e alguns partidos exóticos que fazem do socialismo "idealizado" o seu fundo de comércio. São aprendizes de feiticeiros: supõem conhecer o caminho alternativo para sair da crise "sem lágrimas". Ignoram as lições da história. A verdade é que sequer suspeitam dos insolúveis problemas de coordenação de uma sociedade complexa. Esquecem como terminou o generoso projeto iniciado por Lênin em 1917. Infelizmente, é preciso reconhecer que até agora o socialismo "realizado" foi muito inferior ao "capitalismo", ao qual não faltam, aliás, sérios defeitos...
Parece que caiu a ficha. O governo federal, que estava aparentemente perdido, concentrado apenas na defesa do necessário "ajuste fiscal" (sem apoio do seu partido, o PT, que foi o principal beneficiado do "desajuste" fiscal), tenta recuperar a iniciativa preparando bons projetos de concessões e estimulando as exportações.
Começou com o excelente Plano de Safra para 2015/16, lançado no dia 2. A competente ministra Katia Abreu mostrou a que veio. O governo reafirmou que existe prioridade também para as atividades produtivas e a retomada do crescimento. Os agricultores revelaram seu apoio através de suas lideranças mais representativas. Afinal, são quase R$ 190 bilhões alocados ao setor para custeio, investimento e comercialização da safra 2015/16.
Houve pequeno aumento da taxa de juro real, mas ela ainda continua muito próxima de zero, o que significa uma redução do subsídio. Isso revela a preocupação com o equilíbrio fiscal que foi compensada com um aumento de 20% na alocação de recursos ao setor quando comparado com a safra 2014/15. Continuou o apoio à integração lavoura-pecuária-floresta, à agricultura de baixo carbono e ao Moderfrota. Deu sinais que o governo entendeu a tragédia que produziu no setor sucroalcooleiro e tenta reavivá-lo.
O único senão foi a redução do avanço do seguro rural, que cresceu quase 20% ao ano no primeiro mandato de Dilma. É uma pena, porque seu custo é pequeno diante dos benefícios que produz. Em compensação, a coordenação revelada pelas decisões simultâneas do Banco Central garantirá a fluidez do crédito na hora certa.
O Plano de Safra de 2015/16 é muito bom. Esperemos que seja o primeiro sinal que o governo sairá da defensiva e dará ênfase ao fato que o "ajuste fiscal" é apenas a preliminar de um jogo cujo objetivo é a construção da sociedade civilizada inscrita na Constituição de 1988. Nela, é o Poder Executivo forte, e por ela regulado, que tem o protagonismo da agenda nacional respeitando a coordenação e a harmonia com o Legislativo e o Judiciário.
Não há, portanto, como aceitar que esses promovam aumento de despesa sem responsabilizarem-se pelo aumento simultâneo de receita não fictícia para pagá-las. Da mesma forma, é inaceitável que o Executivo promova despesa permanente financiada com receita aleatória ou contabilidade "criativa".
Nossa crise não existiria se ouvíssemos o conselho do ex-presidente Dutra: "Obedeçam o livrinho, senhores. Apenas o livrinho."
O maior problema de parte da sociedade brasileira é a sua indisposição de aceitar as restrições impostas pelo mundo físico no qual ela tem que viver, simplesmente porque não há outra alternativa. Não se impõe uma "ortodoxia" ou uma particular "visão do mundo" quando se afirma, por exemplo, que seja qual for a sociedade, "capitalista" ou "socialista real", é impossível violar as identidades da contabilidade nacional. A história é testemunha que, nas duas, a tentativa de fazê-lo leva, no fim do dia, a uma situação trágica que combina:
1) a redução do crescimento econômico. Na organização "capitalista", leva a rápida queda do emprego e do salário real. Na "socialista real", a um empobrecimento geral talvez maior, mas mais equanimemente distribuído;
2) o aumento, na "capitalista", da dificuldade para prosseguir na necessária política de igualdade de oportunidade num "ambiente" de relativa liberdade de iniciativa. Na "socialista real", por definição (mas não na realidade), já são todos iguais, mas com liberdade controlada;
3) a aceleração da inflação no "capitalismo" e aumento da inflação "escondida" pelo racionamento no "socialismo real", destruindo ainda mais a liberdade de escolha do consumidor; e
4) no "capitalismo", produz déficits no balanço em conta corrente, o que leva ao aumento da taxa de câmbio real para corrigi-lo e acentua a dificuldade crescente de controlar a inflação. No "socialismo real", leva ao aumento dos problemas de abastecimento da demanda, e o controle do câmbio prejudica a exportação. Levado ao limite, o processo termina quando não há mais financiamento externo. Tudo isso bem temperado - nos dois regimes - com um bom desequilíbrio fiscal. Como as consequências sempre chegam depois, mais cedo (no "capitalismo"), ou mais tarde (no "socialismo real"), uma correção terá de ser imposta.
A situação é mais complicada quando, tomado de perplexidade, o Poder Executivo perde a capacidade de determinar sua agenda, como agora no Brasil. Fica à mercê de um "parlamentarismo de coalização", que nem "governa" nem "coaliza" e que, por isso mesmo, estimula o Legislativo e o Judiciário, a organizarem-se para predá-lo.
Como se isso não bastasse, há um grande número de "intelectuais" e alguns partidos exóticos que fazem do socialismo "idealizado" o seu fundo de comércio. São aprendizes de feiticeiros: supõem conhecer o caminho alternativo para sair da crise "sem lágrimas". Ignoram as lições da história. A verdade é que sequer suspeitam dos insolúveis problemas de coordenação de uma sociedade complexa. Esquecem como terminou o generoso projeto iniciado por Lênin em 1917. Infelizmente, é preciso reconhecer que até agora o socialismo "realizado" foi muito inferior ao "capitalismo", ao qual não faltam, aliás, sérios defeitos...
Parece que caiu a ficha. O governo federal, que estava aparentemente perdido, concentrado apenas na defesa do necessário "ajuste fiscal" (sem apoio do seu partido, o PT, que foi o principal beneficiado do "desajuste" fiscal), tenta recuperar a iniciativa preparando bons projetos de concessões e estimulando as exportações.
Começou com o excelente Plano de Safra para 2015/16, lançado no dia 2. A competente ministra Katia Abreu mostrou a que veio. O governo reafirmou que existe prioridade também para as atividades produtivas e a retomada do crescimento. Os agricultores revelaram seu apoio através de suas lideranças mais representativas. Afinal, são quase R$ 190 bilhões alocados ao setor para custeio, investimento e comercialização da safra 2015/16.
Houve pequeno aumento da taxa de juro real, mas ela ainda continua muito próxima de zero, o que significa uma redução do subsídio. Isso revela a preocupação com o equilíbrio fiscal que foi compensada com um aumento de 20% na alocação de recursos ao setor quando comparado com a safra 2014/15. Continuou o apoio à integração lavoura-pecuária-floresta, à agricultura de baixo carbono e ao Moderfrota. Deu sinais que o governo entendeu a tragédia que produziu no setor sucroalcooleiro e tenta reavivá-lo.
O único senão foi a redução do avanço do seguro rural, que cresceu quase 20% ao ano no primeiro mandato de Dilma. É uma pena, porque seu custo é pequeno diante dos benefícios que produz. Em compensação, a coordenação revelada pelas decisões simultâneas do Banco Central garantirá a fluidez do crédito na hora certa.
O Plano de Safra de 2015/16 é muito bom. Esperemos que seja o primeiro sinal que o governo sairá da defensiva e dará ênfase ao fato que o "ajuste fiscal" é apenas a preliminar de um jogo cujo objetivo é a construção da sociedade civilizada inscrita na Constituição de 1988. Nela, é o Poder Executivo forte, e por ela regulado, que tem o protagonismo da agenda nacional respeitando a coordenação e a harmonia com o Legislativo e o Judiciário.
Não há, portanto, como aceitar que esses promovam aumento de despesa sem responsabilizarem-se pelo aumento simultâneo de receita não fictícia para pagá-las. Da mesma forma, é inaceitável que o Executivo promova despesa permanente financiada com receita aleatória ou contabilidade "criativa".
Nossa crise não existiria se ouvíssemos o conselho do ex-presidente Dutra: "Obedeçam o livrinho, senhores. Apenas o livrinho."
A lógica da vergonha - CARLOS ALEXANDRE
CORREIO BRAZILIENSE - 09/06
Em 16 de junho de 2005, José Dirceu pediu demissão do cargo de ministro-chefe da Casa Civil do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. A permanência do homem forte da Esplanada tornou-se insustentável ante as acusações do deputado Roberto Jefferson, que 10 dias antes havia detonado, em entrevista, o esquema que seria conhecido como mensalão. Dez anos depois, condenado a sete anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal em consequência do mensalão, José Dirceu volta a figurar como personagem de escândalo, desta vez vinculado à Petrobras. Assim como ocorreu em 2005, quando saiu do Palácio do Planalto para descer à planície e preparar sua defesa, Dirceu continua às voltas com advogados para evitar novas condenações e impedir o retorno ao regime fechado na penitenciária da Papuda.
Não causa espanto a participação de Dirceu neste novo capítulo da corrupção brasileira. Até as carpas do Itamaraty sabem que o ex-czar de Brasília ainda é voz influente nos desígnios do PT e mantém, como consultor, uma relação proveitosa com diversas empresas interessadas em fazer negócios no país. Parece natural, portanto, que a Justiça queira esclarecimentos sobre contratos e pagamentos a fim de dirimir quaisquer suspeitas sobre a conduta do renomado petista ante esquema tão amplo, complexo e profundamente arraigado na maior empresa do Brasil.
O que realmente impressiona é observar que o mensalão e o petrolão, apesar da década que os separa, obedecem à mesma lógica. Nos dois escândalos, percebe-se claramente a atuação de um grupo político disposto a toda manobra para financiar um projeto de poder, seja pela compra de apoio no Congresso, seja por meio de propinas em contratos bilionários. O julgamento da Ação nº 470, como foi bem mencionado por um ministro do Supremo, foi ponto fora da curva na crônica nacional. Aplicou um castigo poucas vezes visto no Brasil a réus por crime de colarinho-branco, mas não impediu que a nação assistisse pouco tempo depois a uma quadra ainda mais vergonhosa da nossa história, com a derrocada de uma empresa considerada patrimônio nacional, vilipendiada por interesses partidários e fonte de negociata entre corruptos. Dez anos ainda não foram suficientes para se concluir que esse modo de fazer política não pode mais perdurar.
Em 16 de junho de 2005, José Dirceu pediu demissão do cargo de ministro-chefe da Casa Civil do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. A permanência do homem forte da Esplanada tornou-se insustentável ante as acusações do deputado Roberto Jefferson, que 10 dias antes havia detonado, em entrevista, o esquema que seria conhecido como mensalão. Dez anos depois, condenado a sete anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal em consequência do mensalão, José Dirceu volta a figurar como personagem de escândalo, desta vez vinculado à Petrobras. Assim como ocorreu em 2005, quando saiu do Palácio do Planalto para descer à planície e preparar sua defesa, Dirceu continua às voltas com advogados para evitar novas condenações e impedir o retorno ao regime fechado na penitenciária da Papuda.
Não causa espanto a participação de Dirceu neste novo capítulo da corrupção brasileira. Até as carpas do Itamaraty sabem que o ex-czar de Brasília ainda é voz influente nos desígnios do PT e mantém, como consultor, uma relação proveitosa com diversas empresas interessadas em fazer negócios no país. Parece natural, portanto, que a Justiça queira esclarecimentos sobre contratos e pagamentos a fim de dirimir quaisquer suspeitas sobre a conduta do renomado petista ante esquema tão amplo, complexo e profundamente arraigado na maior empresa do Brasil.
O que realmente impressiona é observar que o mensalão e o petrolão, apesar da década que os separa, obedecem à mesma lógica. Nos dois escândalos, percebe-se claramente a atuação de um grupo político disposto a toda manobra para financiar um projeto de poder, seja pela compra de apoio no Congresso, seja por meio de propinas em contratos bilionários. O julgamento da Ação nº 470, como foi bem mencionado por um ministro do Supremo, foi ponto fora da curva na crônica nacional. Aplicou um castigo poucas vezes visto no Brasil a réus por crime de colarinho-branco, mas não impediu que a nação assistisse pouco tempo depois a uma quadra ainda mais vergonhosa da nossa história, com a derrocada de uma empresa considerada patrimônio nacional, vilipendiada por interesses partidários e fonte de negociata entre corruptos. Dez anos ainda não foram suficientes para se concluir que esse modo de fazer política não pode mais perdurar.
Montadoras exportam mais - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 09/06
Montadoras exportam mais (Editorial) Tradicional locomotiva da indústria brasileira, o setor automotivo tem refletido com clareza o que se passa com a economia do país. O choque de realidade, que ocorre desde o fim do ano passado, quando se tornou impossível continuar escondendo das parcelas menos informadas da população que não vivíamos no paraíso, tem levado as montadoras a perdas expressivas, maiores mesmo do que as da média da indústria em geral.
Nos últimos anos, muita gente se deixou levar pelo acesso facilitado ao crédito e pela concessão de incentivos fiscais localizados nos preços finais dos carros e dos eletrodomésticos de linha branca, e acabou se endividando. As montadoras, animadas com a corrida que entulhou as ruas de automóveis, deram resposta rápida e eficaz, promovendo a expansão da oferta.
Tudo parecia correr às mil maravilhas. Só parecia, porque não faltaram especialistas para alertar que a corrida ao crédito para o consumo de bens e serviços - detalhe que, por algum tempo, garantiu altas taxas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) - vinha se distanciando da prudência e gerando crescimento que não se sustentava nem na produção em geral nem em produtividade da economia brasileira.
Por ser movida pelo crédito e pela segurança no emprego da maioria dos consumidores, a indústria automotiva foi uma das primeiras a sinalizar o descarrilamento da economia brasileira e avança rapidamente na geração da pior das notícias: o desemprego. É certo que as montadoras têm tentado segurar ao máximo o pessoal qualificado. Mas cerca de 6 mil pessoas foram despedidas e pelo menos 15 mil estão em férias antecipadas.
Ontem, a Associação Nacional do Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulgou os dados de produção do setor em maio: queda de 25,3% em comparação com maio do ano passado. Com esse resultado, a produção acumulada em cinco meses de 2015 já é 19,1% em relação a 2014 e revela a tendência de superar a previsão de recuo de 25% até o fim do ano.
Felizmente, escaldado pelos erros de política econômica cometidos nos últimos anos, quando o calendário eleitoral ditou muitas decisões equivocadas, o governo não dá, até o momento, sinal de que vai repetir a política de desonerações tributárias localizadas, na expectativa de conter o desemprego. As montadoras têm se submetido ao desconfortável, mas inevitável, dever de casa de ajustar a produção e os estoques à realidade.
Estão certas de que o Brasil vale a pena e que, por isso mesmo, o melhor a fazer é se preparar para o tempo das vacas magras, de modo a superá-lo sem deixar a credibilidade financeira no caminho. Mais do que isso, algumas montadoras sediadas no Brasil estão retomando com sucesso as exportações. As vendas ao exterior cresceram 41,7% em relação a abril e 16,5% em comparação com maio de 2014. É certo que os novos patamares do câmbio ajudam. Mas isso não é tudo. Recentemente, por pressão das montadoras, o governo brasileiro renovou importante acordo automotivo com o México, país com dinamismo diferente das trapalhadas venezuelanas e argentinas. Pode não ser a salvação da lavoura, mas a busca agressiva de mercados no exterior é caminho que o Brasil precisa retomar e, para isso, cabe ao governo deixar para trás o viés ideológico que ajudou a manter o país fora de acordos com parceiros que realmente interessam.
Montadoras exportam mais (Editorial) Tradicional locomotiva da indústria brasileira, o setor automotivo tem refletido com clareza o que se passa com a economia do país. O choque de realidade, que ocorre desde o fim do ano passado, quando se tornou impossível continuar escondendo das parcelas menos informadas da população que não vivíamos no paraíso, tem levado as montadoras a perdas expressivas, maiores mesmo do que as da média da indústria em geral.
Nos últimos anos, muita gente se deixou levar pelo acesso facilitado ao crédito e pela concessão de incentivos fiscais localizados nos preços finais dos carros e dos eletrodomésticos de linha branca, e acabou se endividando. As montadoras, animadas com a corrida que entulhou as ruas de automóveis, deram resposta rápida e eficaz, promovendo a expansão da oferta.
Tudo parecia correr às mil maravilhas. Só parecia, porque não faltaram especialistas para alertar que a corrida ao crédito para o consumo de bens e serviços - detalhe que, por algum tempo, garantiu altas taxas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) - vinha se distanciando da prudência e gerando crescimento que não se sustentava nem na produção em geral nem em produtividade da economia brasileira.
Por ser movida pelo crédito e pela segurança no emprego da maioria dos consumidores, a indústria automotiva foi uma das primeiras a sinalizar o descarrilamento da economia brasileira e avança rapidamente na geração da pior das notícias: o desemprego. É certo que as montadoras têm tentado segurar ao máximo o pessoal qualificado. Mas cerca de 6 mil pessoas foram despedidas e pelo menos 15 mil estão em férias antecipadas.
Ontem, a Associação Nacional do Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulgou os dados de produção do setor em maio: queda de 25,3% em comparação com maio do ano passado. Com esse resultado, a produção acumulada em cinco meses de 2015 já é 19,1% em relação a 2014 e revela a tendência de superar a previsão de recuo de 25% até o fim do ano.
Felizmente, escaldado pelos erros de política econômica cometidos nos últimos anos, quando o calendário eleitoral ditou muitas decisões equivocadas, o governo não dá, até o momento, sinal de que vai repetir a política de desonerações tributárias localizadas, na expectativa de conter o desemprego. As montadoras têm se submetido ao desconfortável, mas inevitável, dever de casa de ajustar a produção e os estoques à realidade.
Estão certas de que o Brasil vale a pena e que, por isso mesmo, o melhor a fazer é se preparar para o tempo das vacas magras, de modo a superá-lo sem deixar a credibilidade financeira no caminho. Mais do que isso, algumas montadoras sediadas no Brasil estão retomando com sucesso as exportações. As vendas ao exterior cresceram 41,7% em relação a abril e 16,5% em comparação com maio de 2014. É certo que os novos patamares do câmbio ajudam. Mas isso não é tudo. Recentemente, por pressão das montadoras, o governo brasileiro renovou importante acordo automotivo com o México, país com dinamismo diferente das trapalhadas venezuelanas e argentinas. Pode não ser a salvação da lavoura, mas a busca agressiva de mercados no exterior é caminho que o Brasil precisa retomar e, para isso, cabe ao governo deixar para trás o viés ideológico que ajudou a manter o país fora de acordos com parceiros que realmente interessam.
A política da incúria - JOSÉ CASADO
O GLOBO - 09/06
Enquanto Dilma preside o duelo entre PMDB e PP pelo domínio de órgãos-chave na política nordestina, procuradores pedem intervenção no caótico sistema de saúde do Ceará
Sob o olhar obsequioso de Dilma Rousseff, eles lutam pelo controle dos postos-chave de organismos estatais responsáveis pela água que vaza nas cidades e goteja no sertão, a terra para plantio e o crédito barato no banco regional.
Disputam o domínio de instrumentos clássicos do Estado para a política no Nordeste — o segundo maior colégio eleitoral, com 38,2 milhões de votos.
No caixa de três desses órgãos federais prevê-se R$ 10 bilhões fluindo para gastos e investimentos durante a temporada de eleições municipais do ano que vem.
Nas últimas semanas, caciques regionais do PMDB e do PP se revezaram em reuniões com quatro negociadores de Dilma: o vice-presidente Michel Temer e os ministros Eliseu Padilha (Aviação), Ricardo Berzoini (Comunicações) e Aloizio Mercadante (Casa Civil).
No centro da mesa de negociações da Presidência estavam o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e o Banco do Nordeste.
O senador cearense Eunício de Oliveira liderava o PMDB nordestino no embate com o PP regional, chefiado pelo senador piauiense Ciro Nogueira. Esgrimiam com ameaças veladas ao governo em futuras votações no Congresso, caso não recebessem o que pretendiam.
Houve um momento em que a situação podia ser assim resumida, conforme as coloridas anotações de um dos negociadores presidenciais: como o PP de Ciro Nogueira recebeu o Ministério da Integração e a Codevasf, o PMDB de Eunício de Oliveira achou-se no “direito” de ficar com o Banco do Nordeste e o Dnocs.
O governo propôs, então, a partilha cruzada dos cargos: se o comando do banco nordestino está com o PMDB, o escalão inferior pode ser dividido com o PP. E vice-versa.
Eunício vetou. Acabara de conquistar o controle, depois de quatro meses de batalha. Recebera um banco estatal cujo balanço de 2014 exibiu o melhor resultado financeiro desde a criação, há 63 anos: lucro de R$ 747 milhões, o dobro do ano anterior. O senador cearense, líder do PMDB, aparentemente possui um projeto próprio para o Banco do Nordeste: “Não é para dar lucro, é para fazer desenvolvimento”, disse à repórter Beatriz Cavalcante.
O loteamento do governo avança, assentado em critérios patrimonialistas, sem distinção entre o público e o privado. A partilha de capitanias estatais no condomínio político-empresarial liderado pelo PMDB, PP e PT, com a complacência de Lula e Dilma, resultou no mensalão e agora em múltiplas investigações — dentro e fora do país — sobre a corrupção na Petrobras.
Na sexta-feira, enquanto caciques nordestinos digladiavam no Palácio do Planalto, procuradores pediram à Justiça a declaração de estado de emergência no sistema público de saúde do Ceará. Ontem em Fortaleza, no entorno do Banco do Nordeste, do Dnocs e da Codevasf, contavam-se 364 pessoas “internadas” nos corredores das unidades de saúde — segundo o “Corredômetro das Emergências” divulgado diariamente pelo Sindicato dos Médicos. Deitadas no chão, aguardavam leitos em hospitais públicos, superlotados e sem medicamentos. É a política da incúria.
Enquanto Dilma preside o duelo entre PMDB e PP pelo domínio de órgãos-chave na política nordestina, procuradores pedem intervenção no caótico sistema de saúde do Ceará
Sob o olhar obsequioso de Dilma Rousseff, eles lutam pelo controle dos postos-chave de organismos estatais responsáveis pela água que vaza nas cidades e goteja no sertão, a terra para plantio e o crédito barato no banco regional.
Disputam o domínio de instrumentos clássicos do Estado para a política no Nordeste — o segundo maior colégio eleitoral, com 38,2 milhões de votos.
No caixa de três desses órgãos federais prevê-se R$ 10 bilhões fluindo para gastos e investimentos durante a temporada de eleições municipais do ano que vem.
Nas últimas semanas, caciques regionais do PMDB e do PP se revezaram em reuniões com quatro negociadores de Dilma: o vice-presidente Michel Temer e os ministros Eliseu Padilha (Aviação), Ricardo Berzoini (Comunicações) e Aloizio Mercadante (Casa Civil).
No centro da mesa de negociações da Presidência estavam o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e o Banco do Nordeste.
O senador cearense Eunício de Oliveira liderava o PMDB nordestino no embate com o PP regional, chefiado pelo senador piauiense Ciro Nogueira. Esgrimiam com ameaças veladas ao governo em futuras votações no Congresso, caso não recebessem o que pretendiam.
Houve um momento em que a situação podia ser assim resumida, conforme as coloridas anotações de um dos negociadores presidenciais: como o PP de Ciro Nogueira recebeu o Ministério da Integração e a Codevasf, o PMDB de Eunício de Oliveira achou-se no “direito” de ficar com o Banco do Nordeste e o Dnocs.
O governo propôs, então, a partilha cruzada dos cargos: se o comando do banco nordestino está com o PMDB, o escalão inferior pode ser dividido com o PP. E vice-versa.
Eunício vetou. Acabara de conquistar o controle, depois de quatro meses de batalha. Recebera um banco estatal cujo balanço de 2014 exibiu o melhor resultado financeiro desde a criação, há 63 anos: lucro de R$ 747 milhões, o dobro do ano anterior. O senador cearense, líder do PMDB, aparentemente possui um projeto próprio para o Banco do Nordeste: “Não é para dar lucro, é para fazer desenvolvimento”, disse à repórter Beatriz Cavalcante.
O loteamento do governo avança, assentado em critérios patrimonialistas, sem distinção entre o público e o privado. A partilha de capitanias estatais no condomínio político-empresarial liderado pelo PMDB, PP e PT, com a complacência de Lula e Dilma, resultou no mensalão e agora em múltiplas investigações — dentro e fora do país — sobre a corrupção na Petrobras.
Na sexta-feira, enquanto caciques nordestinos digladiavam no Palácio do Planalto, procuradores pediram à Justiça a declaração de estado de emergência no sistema público de saúde do Ceará. Ontem em Fortaleza, no entorno do Banco do Nordeste, do Dnocs e da Codevasf, contavam-se 364 pessoas “internadas” nos corredores das unidades de saúde — segundo o “Corredômetro das Emergências” divulgado diariamente pelo Sindicato dos Médicos. Deitadas no chão, aguardavam leitos em hospitais públicos, superlotados e sem medicamentos. É a política da incúria.
A malhação de são Joaquim - VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 09/06
O feriado da festa da eucaristia, Corpus Christi, e o Congresso do PT não são uma combinação lá muito católica. A proximidade das duas datas talvez tenha pois suscitado essa justaposição meio sacrílega de comentários da presidente e do vice da República a respeito de Joaquim Levy. O ministro apenas da Fazenda não pode ser tratado como Judas, protesta Dilma Rousseff, mas, sim, como Cristo, secunda Michel Temer.
As metáforas evangélicas parecem expressar a preocupação de que Levy fique entre a forca e a cruz no 5º Congresso do Partido dos Trabalhadores, que começa depois de amanhã. Para ficar no popular, Levy e sua política econômica podem ser malhados ao ponto bem passado de que o PT pareça ter se convertido à oposição formal a Dilma 2.
É improvável que a maioria do PT entregue a presidente para a adoção, no caso pelos padrastos malvados do PMDB. Mas a malhação desmedida de são Joaquim não deve contribuir para atenuar a confusão política ridícula e lastimável em que vive o país. Ou seja, a presidente traiu seu partido ao se travestir do primeiro para o segundo mandato, roupa que o grosso do PT quer rasgar, confesse ou não de público, ou pelo menos fantasiar.
Entre as propostas que correntes do partido querem aprovar em seu Congresso estão coisas como um pró-indústria (créditos subsidiados) e um pró-exportação (mais subsídios), políticas que o ministro da Fazenda quer despachar aos poucos para o além.
Claro, vai se defender ainda o "imposto sobre grandes fortunas", a poção mágica de muita esquerda, baseada em um pensamento que combina Robin Hood com Tio Patinhas (política socioeconômica progressista resume-se a tirar de ricos para dar aos pobres por meio da expropriação do cofre do tesouro escondido). A isso chegou a esquerda, depois de mais de 12 anos de poder em que não elaborou plano algum de tributação séria e mais justa de renda, herança ou consumo, e menos ainda (muito complicado, "ai, que preguiça") pensou ou implementou políticas econômicas que propiciem crescimento mais rápido e igualitário. Preferiu dar dinheiro a oligopólio, crédito a juro quase zero, e fazer dívida pública, que custa juros indecentes, pagos a remediados e ricos.
Mas passemos. O assunto era a beatificação ou a malhação de Joaquim. O fato de que a esta altura da procissão Dilma Rousseff e o(s) PT não tenham chegado a um acordo sobre o que fazer das sabotagens mútuas não é bom sinal. As semanas estão politicamente mais calmas nos palácios e nas ruas (ou a fúria é silenciosa) e, ao fim, pode ser que o povo tolere calado o período de arrocho e esfolamento, que ainda vai longe. Pode ser que não.
Os tempos de provação serão compridos, até 2017, para ficar no básico. Conviria ter um projeto novo de governo, não tentativas amadoras, mesquinhas e desesperadas de salvar a cara do PT para as próximas eleições, de dourar a pílula, de fazer cócegas no "andar de cima" com medidas ineptas para jogar para a galera.
Para não ser injusto com o PT, diga-se que partido algum acordou para o fato de que o Brasil de 1994-2010 foi-se desta numa pior e de que, seja qual for a cor da reforma ("liberais" ou "nacional e popular"), ela tem de ser profunda.
O feriado da festa da eucaristia, Corpus Christi, e o Congresso do PT não são uma combinação lá muito católica. A proximidade das duas datas talvez tenha pois suscitado essa justaposição meio sacrílega de comentários da presidente e do vice da República a respeito de Joaquim Levy. O ministro apenas da Fazenda não pode ser tratado como Judas, protesta Dilma Rousseff, mas, sim, como Cristo, secunda Michel Temer.
As metáforas evangélicas parecem expressar a preocupação de que Levy fique entre a forca e a cruz no 5º Congresso do Partido dos Trabalhadores, que começa depois de amanhã. Para ficar no popular, Levy e sua política econômica podem ser malhados ao ponto bem passado de que o PT pareça ter se convertido à oposição formal a Dilma 2.
É improvável que a maioria do PT entregue a presidente para a adoção, no caso pelos padrastos malvados do PMDB. Mas a malhação desmedida de são Joaquim não deve contribuir para atenuar a confusão política ridícula e lastimável em que vive o país. Ou seja, a presidente traiu seu partido ao se travestir do primeiro para o segundo mandato, roupa que o grosso do PT quer rasgar, confesse ou não de público, ou pelo menos fantasiar.
Entre as propostas que correntes do partido querem aprovar em seu Congresso estão coisas como um pró-indústria (créditos subsidiados) e um pró-exportação (mais subsídios), políticas que o ministro da Fazenda quer despachar aos poucos para o além.
Claro, vai se defender ainda o "imposto sobre grandes fortunas", a poção mágica de muita esquerda, baseada em um pensamento que combina Robin Hood com Tio Patinhas (política socioeconômica progressista resume-se a tirar de ricos para dar aos pobres por meio da expropriação do cofre do tesouro escondido). A isso chegou a esquerda, depois de mais de 12 anos de poder em que não elaborou plano algum de tributação séria e mais justa de renda, herança ou consumo, e menos ainda (muito complicado, "ai, que preguiça") pensou ou implementou políticas econômicas que propiciem crescimento mais rápido e igualitário. Preferiu dar dinheiro a oligopólio, crédito a juro quase zero, e fazer dívida pública, que custa juros indecentes, pagos a remediados e ricos.
Mas passemos. O assunto era a beatificação ou a malhação de Joaquim. O fato de que a esta altura da procissão Dilma Rousseff e o(s) PT não tenham chegado a um acordo sobre o que fazer das sabotagens mútuas não é bom sinal. As semanas estão politicamente mais calmas nos palácios e nas ruas (ou a fúria é silenciosa) e, ao fim, pode ser que o povo tolere calado o período de arrocho e esfolamento, que ainda vai longe. Pode ser que não.
Os tempos de provação serão compridos, até 2017, para ficar no básico. Conviria ter um projeto novo de governo, não tentativas amadoras, mesquinhas e desesperadas de salvar a cara do PT para as próximas eleições, de dourar a pílula, de fazer cócegas no "andar de cima" com medidas ineptas para jogar para a galera.
Para não ser injusto com o PT, diga-se que partido algum acordou para o fato de que o Brasil de 1994-2010 foi-se desta numa pior e de que, seja qual for a cor da reforma ("liberais" ou "nacional e popular"), ela tem de ser profunda.
‘Fifão’ x ‘petrolão’: ligando os pontos - FERNÃO LARA MESQUITA
O ESTADÃO - 09/06
Sepp Blatter é a Dilma com vergonha na cara? Nada disso. É que aquele país onde ladrão não tem blindagem logo o fez saber que sabe sobre ele muito mais do que ele pensava que sabia. E nem assim está garantido que ele não vá ter de “dar” só porque se apressou a “descer”.
Já o inconfundível DNA brasileiro desse “padrão Fifa de corrupção”, esse ninguém tasca.
Dizia uma fonte do New York Times, com uma ponta de admiração, que “mr. Blatter jogou um jogo muito esperto”. Uma ova! Os jogos desse tipo nunca enganaram ninguém. São patéticos de tão óbvios. O que falta, onde chegam a fincar raízes, é polícia. Na ausência desta, chega-se, eventualmente, até as profundidades abissais que só se atingem ao fim de séculos nadando impunemente para o fundo em que nos movemos, onde quadrilhas de todos conhecidas roubam “de um tudo”, mas bem mais de quem está mais indefeso, como hospital de criança pobre doente, na certeza de que do outro lado estarão vítimas inermes atiradas às feras por um “Judiciário” que desfaz até o que a polícia faz.
Não é “esperto”. É só nojento.
Como se chega a isso? No “fifão” e no “petrolão” o método foi idêntico. Ligue os pontos.
João Havelange, que mandou na Fifa 25 anos, é quem concebe a ideia de substituir a representação do futebol que existe por outra “mais democrática”, baseada na “geografia dos excluídos do futebol”. O resultado é idêntico ao modelo do Congresso Nacional que o inspirou, onde há mais representantes de paisagens que de brasileiros. Do suborno, pelo suborno e para o suborno, foi plantado e colhido um “baixo clero” para expropriar de seus atores o futebol que a Fifa vende, incorporando ao colégio de federações nacionais que elege seus diretores um monte de países e ilhas remotas onde nunca se ouviu falar em bola, pelo expediente de proporcionar a tipos sinistros necessitados de circo para esconder falta de pão e sobra de brutalidade a criação de “ONGs/escolas de futebol” regadas a dinheiro público, campos e estádios maiores que as populações locais e o mais que conhecemos.
João Havelange é, portanto, o “pai de todos”.
Desse caldo emoliente ele pesca, ao fim de um quarto de século, a sua criatura. Ao portentoso “gerentão” Sepp Blatter caberá dar a um sistema até então apoiado apenas na falta de escrúpulo a coesão imposta pelas “melhores práticas de gestão corporativa”, esse anabolizante de resultados de sistemas bons ou ruins, pouco importa.
É ele o “faxineiro só que não” da obra do próprio difusor de lixo que o criou. Sobe ao palco em 1998 falando grosso no meio de um escândalo de entrega de malas de dólares a delegados africanos em hotéis de Paris, do qual é o principal protagonista: “Daqui por diante a Fifa vai ser exemplar em todos os aspectos. Qualquer desvio ético, por menor que seja, será severamente punido”.
No mundo real, sua primeira providência é criar as oito vice-presidências regionais, equivalentes aos nossos grandes “partidos-arca”, que irão constituir o “núcleo político” do sistema. É da lista desses “grandes caciques” que sai um bom número dos arrastados na primeira fornada de prisões feitas naquele hotel fino e chique de Zurique, a sede do “núcleo financeiro”.
Abaixo desse nível monsieur Blattér põe em andamento a estruturação do “núcleo administrativo” do “fifão”, equivalente ao que aqui vive enquistado dentro da Petrobrás e do resto do aparato estatal e paraestatal, sem exceções, por enquanto com 12 “comitês executivos” e crescendo, nomeados pelo “baixo clero” das “federações” de representantes de paisagens. Valem-se dos cargos recebidos para tramar vendas a bom preço, com que pagam aos atores do show, e revendas a preços muito melhores, com que se locupletam, de direitos de transmissão dos jogos de seus campeonatos com “companhias de marketing esportivo” de cartas marcadas que fazem parte do “clube”, ou seja, o “núcleo econômico” que, embolsado o seu quinhão, entrega a diferença ao “núcleo político”, que organiza e mantém toda a falcatrua, com os préstimos do “núcleo financeiro”. O trança-trança de jogadores por seleções a cargo de dublês de técnicos e corretores de gente que fizeram do futebol essa beleza que ele virou onde não se reagiu à infecção é um dos bônus do sistema. Mas o grosso vem da venda de mundiais a quem pagar mais e, na sequência, do assalto conjunto da Fifa e seu mais recente sócio contra a população condenada a hospedar a Copa.
A particularidade do “fifão” é que, não sendo a autoridade financeira de uma das pontas lesadas uma parte integrante do esquema, como é aqui, na Suíça e alhures, foi de lá que vieram as investigações e as denúncias que acabaram por agarrar por um tornozelo a brasileiríssima Traffic, de US$ 500 milhões por ano, que detona o efeito dominó. É ela o equivalente à maior das empreiteiras do “clube” do “petrolão”, de que se confessa “garoto de recados” o nosso “pai de todos” e que, graças a isso, é a única que nem entra em delações premiadas, nem vai presa quando denunciada numa, embora não haja quem não saiba que é quem mais merece jaula neste país.
Por trás de todo grande esquema de corrupção o que há, portanto, é só um bando de covardes de alma negra sugando o sangue de quem menos pode defender-se para sustentar um esquema de poder de pai para filho, por toda a eternidade se possível. Pilhados, dirão sempre, primeiro, que “não sabiam de nada” e, in extremis, que são vítimas do “racismo” e do “preconceito” do “grande satã” inimigo dos pobres e das belas tradições do mundo, com o aplauso dos putins, das kirchners e das velhas marafonas curtidas por gerações na prática do lenocínio financeiro das suíças da vida, como foi regra geral em todo o planeta por milênios até o advento da revolução chamada democracia, aquela do “nenhum poder e nenhum dinheiro que não seja fruto do mérito”, que nunca chegou por aqui. Esta, ao fazer todos iguais perante a lei e armar a mão do povo com poder de polícia, põe logo o John Wayne em campo, quando ouve essa lengalenga, para, com um par de petelecos, acabar com a palhaçada.
Sepp Blatter é a Dilma com vergonha na cara? Nada disso. É que aquele país onde ladrão não tem blindagem logo o fez saber que sabe sobre ele muito mais do que ele pensava que sabia. E nem assim está garantido que ele não vá ter de “dar” só porque se apressou a “descer”.
Já o inconfundível DNA brasileiro desse “padrão Fifa de corrupção”, esse ninguém tasca.
Dizia uma fonte do New York Times, com uma ponta de admiração, que “mr. Blatter jogou um jogo muito esperto”. Uma ova! Os jogos desse tipo nunca enganaram ninguém. São patéticos de tão óbvios. O que falta, onde chegam a fincar raízes, é polícia. Na ausência desta, chega-se, eventualmente, até as profundidades abissais que só se atingem ao fim de séculos nadando impunemente para o fundo em que nos movemos, onde quadrilhas de todos conhecidas roubam “de um tudo”, mas bem mais de quem está mais indefeso, como hospital de criança pobre doente, na certeza de que do outro lado estarão vítimas inermes atiradas às feras por um “Judiciário” que desfaz até o que a polícia faz.
Não é “esperto”. É só nojento.
Como se chega a isso? No “fifão” e no “petrolão” o método foi idêntico. Ligue os pontos.
João Havelange, que mandou na Fifa 25 anos, é quem concebe a ideia de substituir a representação do futebol que existe por outra “mais democrática”, baseada na “geografia dos excluídos do futebol”. O resultado é idêntico ao modelo do Congresso Nacional que o inspirou, onde há mais representantes de paisagens que de brasileiros. Do suborno, pelo suborno e para o suborno, foi plantado e colhido um “baixo clero” para expropriar de seus atores o futebol que a Fifa vende, incorporando ao colégio de federações nacionais que elege seus diretores um monte de países e ilhas remotas onde nunca se ouviu falar em bola, pelo expediente de proporcionar a tipos sinistros necessitados de circo para esconder falta de pão e sobra de brutalidade a criação de “ONGs/escolas de futebol” regadas a dinheiro público, campos e estádios maiores que as populações locais e o mais que conhecemos.
João Havelange é, portanto, o “pai de todos”.
Desse caldo emoliente ele pesca, ao fim de um quarto de século, a sua criatura. Ao portentoso “gerentão” Sepp Blatter caberá dar a um sistema até então apoiado apenas na falta de escrúpulo a coesão imposta pelas “melhores práticas de gestão corporativa”, esse anabolizante de resultados de sistemas bons ou ruins, pouco importa.
É ele o “faxineiro só que não” da obra do próprio difusor de lixo que o criou. Sobe ao palco em 1998 falando grosso no meio de um escândalo de entrega de malas de dólares a delegados africanos em hotéis de Paris, do qual é o principal protagonista: “Daqui por diante a Fifa vai ser exemplar em todos os aspectos. Qualquer desvio ético, por menor que seja, será severamente punido”.
No mundo real, sua primeira providência é criar as oito vice-presidências regionais, equivalentes aos nossos grandes “partidos-arca”, que irão constituir o “núcleo político” do sistema. É da lista desses “grandes caciques” que sai um bom número dos arrastados na primeira fornada de prisões feitas naquele hotel fino e chique de Zurique, a sede do “núcleo financeiro”.
Abaixo desse nível monsieur Blattér põe em andamento a estruturação do “núcleo administrativo” do “fifão”, equivalente ao que aqui vive enquistado dentro da Petrobrás e do resto do aparato estatal e paraestatal, sem exceções, por enquanto com 12 “comitês executivos” e crescendo, nomeados pelo “baixo clero” das “federações” de representantes de paisagens. Valem-se dos cargos recebidos para tramar vendas a bom preço, com que pagam aos atores do show, e revendas a preços muito melhores, com que se locupletam, de direitos de transmissão dos jogos de seus campeonatos com “companhias de marketing esportivo” de cartas marcadas que fazem parte do “clube”, ou seja, o “núcleo econômico” que, embolsado o seu quinhão, entrega a diferença ao “núcleo político”, que organiza e mantém toda a falcatrua, com os préstimos do “núcleo financeiro”. O trança-trança de jogadores por seleções a cargo de dublês de técnicos e corretores de gente que fizeram do futebol essa beleza que ele virou onde não se reagiu à infecção é um dos bônus do sistema. Mas o grosso vem da venda de mundiais a quem pagar mais e, na sequência, do assalto conjunto da Fifa e seu mais recente sócio contra a população condenada a hospedar a Copa.
A particularidade do “fifão” é que, não sendo a autoridade financeira de uma das pontas lesadas uma parte integrante do esquema, como é aqui, na Suíça e alhures, foi de lá que vieram as investigações e as denúncias que acabaram por agarrar por um tornozelo a brasileiríssima Traffic, de US$ 500 milhões por ano, que detona o efeito dominó. É ela o equivalente à maior das empreiteiras do “clube” do “petrolão”, de que se confessa “garoto de recados” o nosso “pai de todos” e que, graças a isso, é a única que nem entra em delações premiadas, nem vai presa quando denunciada numa, embora não haja quem não saiba que é quem mais merece jaula neste país.
Por trás de todo grande esquema de corrupção o que há, portanto, é só um bando de covardes de alma negra sugando o sangue de quem menos pode defender-se para sustentar um esquema de poder de pai para filho, por toda a eternidade se possível. Pilhados, dirão sempre, primeiro, que “não sabiam de nada” e, in extremis, que são vítimas do “racismo” e do “preconceito” do “grande satã” inimigo dos pobres e das belas tradições do mundo, com o aplauso dos putins, das kirchners e das velhas marafonas curtidas por gerações na prática do lenocínio financeiro das suíças da vida, como foi regra geral em todo o planeta por milênios até o advento da revolução chamada democracia, aquela do “nenhum poder e nenhum dinheiro que não seja fruto do mérito”, que nunca chegou por aqui. Esta, ao fazer todos iguais perante a lei e armar a mão do povo com poder de polícia, põe logo o John Wayne em campo, quando ouve essa lengalenga, para, com um par de petelecos, acabar com a palhaçada.
A mensagem de Tarso - BERNARDO MELLO FRANCO
FOLHA DE SP - 09/08
BRASÍLIA - O encontro desta semana em Salvador promete abrir a panela de pressão do PT. A reunião do partido dará voz e palanque aos insatisfeitos com o ajuste fiscal. Um dos mais descontentes é o ex-ministro Tarso Genro, que sonha com uma guinada na política econômica.
Líder da corrente Mensagem ao Partido, ele defende uma saída à esquerda para a crise. "Um governo progressista e democrático como o nosso deveria distribuir os ônus da recuperação da economia e não concentrá-los, prejudicando saúde, educação e segurança", afirma.
Na cartilha de Tarso, os cortes dariam espaço à tributação de grandes fortunas e à redução do Imposto de Renda para os mais pobres. "Sair de uma crise com 'ajustes orçamentários' é uma ilusão recorrente da ortodoxia que manda nos bancos centrais de países fortes", critica, citando os casos da Espanha e da Grécia.
A presidente Dilma Rousseff já ensaiou uma "vacina" contra as críticas ao afirmar à repórter Tânia Monteiro que o PT não pode transformar o ministro Joaquim Levy em "judas".
"Acho que ela está certa. O Levy não merece ser apontado como judas porque ele não está traindo nenhuma convicção sua. E um ministro faz o que o presidente manda ou aceita que ele faça", reage Tarso.
Para o ex-governador, o governo deveria enfrentar a crise "sem usar os remédios que vão, na verdade, torná-la mais duradoura". "Não precisamos nos apoiar em Marx, basta prestar atenção no Piketty", provoca.
Os petistas também devem usar o encontro para reclamar dos superpoderes dados ao vice Michel Temer. Neste ponto, Tarso é radical: diz que o arranjo com o PMDB "não serve mais", diante da "situação de alta complexidade" que vive o governo.
"O PMDB tem zero de unidade ideológica e programática para comandar uma coalizão", critica. "Se o PT não refundar imediatamente seu sistema de alianças, dificilmente terá credibilidade para se apresentar com força política em 2018."
BRASÍLIA - O encontro desta semana em Salvador promete abrir a panela de pressão do PT. A reunião do partido dará voz e palanque aos insatisfeitos com o ajuste fiscal. Um dos mais descontentes é o ex-ministro Tarso Genro, que sonha com uma guinada na política econômica.
Líder da corrente Mensagem ao Partido, ele defende uma saída à esquerda para a crise. "Um governo progressista e democrático como o nosso deveria distribuir os ônus da recuperação da economia e não concentrá-los, prejudicando saúde, educação e segurança", afirma.
Na cartilha de Tarso, os cortes dariam espaço à tributação de grandes fortunas e à redução do Imposto de Renda para os mais pobres. "Sair de uma crise com 'ajustes orçamentários' é uma ilusão recorrente da ortodoxia que manda nos bancos centrais de países fortes", critica, citando os casos da Espanha e da Grécia.
A presidente Dilma Rousseff já ensaiou uma "vacina" contra as críticas ao afirmar à repórter Tânia Monteiro que o PT não pode transformar o ministro Joaquim Levy em "judas".
"Acho que ela está certa. O Levy não merece ser apontado como judas porque ele não está traindo nenhuma convicção sua. E um ministro faz o que o presidente manda ou aceita que ele faça", reage Tarso.
Para o ex-governador, o governo deveria enfrentar a crise "sem usar os remédios que vão, na verdade, torná-la mais duradoura". "Não precisamos nos apoiar em Marx, basta prestar atenção no Piketty", provoca.
Os petistas também devem usar o encontro para reclamar dos superpoderes dados ao vice Michel Temer. Neste ponto, Tarso é radical: diz que o arranjo com o PMDB "não serve mais", diante da "situação de alta complexidade" que vive o governo.
"O PMDB tem zero de unidade ideológica e programática para comandar uma coalizão", critica. "Se o PT não refundar imediatamente seu sistema de alianças, dificilmente terá credibilidade para se apresentar com força política em 2018."
Em busca da credibilidade perdida - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S. Paulo - 09/06
Literalmente mais leve, enquanto pedala nas cercanias do Palácio da Alvorada, tal qual Pollyana rediviva, Dilma Rousseff promete alegremente novos planos que farão o que ela não conseguiu fazer até agora. Por sua vez, Luiz Inácio, com seu habitual sentimento de onipotência, trabalha para que o 5.º Congresso do PT, que se reúne a partir de quinta-feira em Salvador, produza o milagre de apagar os borrões dos últimos quatro anos, pelo menos, e convença os brasileiros de que o que vale é a “esperança”. Criatura e criador fingem ignorar olimpicamente que já não lhes resta credibilidade para prometer o que quer que seja.
Da última vez em que seguiu o marketing à risca, na campanha eleitoral do ano passado, Dilma Rousseff mentiu sem o menor pudor e foi recompensada com a reeleição. Mas a mentira tem perna curta e bastaram poucos meses para os brasileiros caírem na real, dando-se conta de que haviam cometido um equívoco pelo qual terão de pagar durante quatro anos. Agora a presidente da República embarca novamente numa armação do mais puro marketing que consiste na divulgação pela mídia da “figura humana” da chefe do governo. É assim que ela tenta recuperar a popularidade. Esse exercício de simpatia está fielmente descrito na reportagem de Tânia Monteiro publicada ontem no Estado, na qual Dilma Rousseff diz tudo aquilo que acha que deve dizer sobre os principais temas da agenda política.
Por sua vez, um Lula cada vez mais enredado em contradições e ambiguidades – o que revela até que ponto está envolvido no salve-se quem puder que atormenta os petistas –, depois de ter endossado publicamente a nomeação de Joaquim Levy para o comando da equipe econômica ao mesmo tempo que, nos bastidores, articulava a campanha petista contra um reajuste fiscal feito “à custa dos trabalhadores”, parece ter chegado finalmente à conclusão de que é melhor dar o assunto ajuste fiscal por encerrado e focar o discurso petista numa “agenda de desenvolvimento” que desperte nos brasileiros o sentimento de “esperança”. Lula tem jogado todo o peso de sua influência para que o congresso do PT defina essa linha de conduta para o partido daqui para a frente. Essa orientação está claramente contida nas palavras do presidente nacional do PT, Rui Falcão: “Agora, é tempo de parar de falar em ajuste e falar de investimento, emprego e distribuição de renda”.
Em português claro, o que Lula pretende, coerente com o populismo que é sua marca registrada, é convencer os brasileiros de que a “esperança” é maior que a atual crise política, econômica e social. Foi exatamente o que ele fez em 2002, explorando o desgaste do governo FHC. A pequena diferença é que hoje quem está no poder é o próprio PT, num governo chefiado pela criatura de Lula. Mas quem conhece as habilidades e a falta de escrúpulos políticos do ex-presidente não duvida de que Lula, constatando ser impossível a recuperação do apoio popular ao governo Dilma, dê um jeito de descolar a sua imagem da de sua sucessora, projetando-se no cenário político, mais uma vez, como o grande mensageiro da esperança.
Conspiram contra os planos de Lula, no entanto, fatores importantes sobre os quais ele tem pouco ou nenhum poder.
Em primeiro lugar, sua liderança começa a ser contestada, por enquanto quase que exclusivamente intramuros, pelas tendências partidárias que, em nome de um mínimo de coerência com as bandeiras tradicionais do PT, repudiam a crescente ambiguidade do ex-líder sindical em relação aos rumos da política econômica. Afinal, até para os fãs de carteirinha está claro que Lula – na Presidência ou fora dela – nunca defendeu uma política econômica “liberal” ou “popular”, tendo praticado uma ou outra sempre de acordo com suas conveniências imediatas.
Esse incipiente questionamento de Lula dentro do PT parece ser motivado, principalmente, pelo fato de o prestígio popular do ex-presidente estar longe de ser aquele de que ele desfrutava ao deixar o Planalto. Esse visível declínio, embora não se compare com o sofrido por Dilma, consta de pesquisas de opinião encomendadas pelo próprio PT.
Se ambicionam, portanto, dar a volta por cima de seus próprios erros, Lula e Dilma precisam enfrentar, primeiro, a extremamente difícil missão de recuperar a credibilidade junto aos brasileiros.
Literalmente mais leve, enquanto pedala nas cercanias do Palácio da Alvorada, tal qual Pollyana rediviva, Dilma Rousseff promete alegremente novos planos que farão o que ela não conseguiu fazer até agora. Por sua vez, Luiz Inácio, com seu habitual sentimento de onipotência, trabalha para que o 5.º Congresso do PT, que se reúne a partir de quinta-feira em Salvador, produza o milagre de apagar os borrões dos últimos quatro anos, pelo menos, e convença os brasileiros de que o que vale é a “esperança”. Criatura e criador fingem ignorar olimpicamente que já não lhes resta credibilidade para prometer o que quer que seja.
Da última vez em que seguiu o marketing à risca, na campanha eleitoral do ano passado, Dilma Rousseff mentiu sem o menor pudor e foi recompensada com a reeleição. Mas a mentira tem perna curta e bastaram poucos meses para os brasileiros caírem na real, dando-se conta de que haviam cometido um equívoco pelo qual terão de pagar durante quatro anos. Agora a presidente da República embarca novamente numa armação do mais puro marketing que consiste na divulgação pela mídia da “figura humana” da chefe do governo. É assim que ela tenta recuperar a popularidade. Esse exercício de simpatia está fielmente descrito na reportagem de Tânia Monteiro publicada ontem no Estado, na qual Dilma Rousseff diz tudo aquilo que acha que deve dizer sobre os principais temas da agenda política.
Por sua vez, um Lula cada vez mais enredado em contradições e ambiguidades – o que revela até que ponto está envolvido no salve-se quem puder que atormenta os petistas –, depois de ter endossado publicamente a nomeação de Joaquim Levy para o comando da equipe econômica ao mesmo tempo que, nos bastidores, articulava a campanha petista contra um reajuste fiscal feito “à custa dos trabalhadores”, parece ter chegado finalmente à conclusão de que é melhor dar o assunto ajuste fiscal por encerrado e focar o discurso petista numa “agenda de desenvolvimento” que desperte nos brasileiros o sentimento de “esperança”. Lula tem jogado todo o peso de sua influência para que o congresso do PT defina essa linha de conduta para o partido daqui para a frente. Essa orientação está claramente contida nas palavras do presidente nacional do PT, Rui Falcão: “Agora, é tempo de parar de falar em ajuste e falar de investimento, emprego e distribuição de renda”.
Em português claro, o que Lula pretende, coerente com o populismo que é sua marca registrada, é convencer os brasileiros de que a “esperança” é maior que a atual crise política, econômica e social. Foi exatamente o que ele fez em 2002, explorando o desgaste do governo FHC. A pequena diferença é que hoje quem está no poder é o próprio PT, num governo chefiado pela criatura de Lula. Mas quem conhece as habilidades e a falta de escrúpulos políticos do ex-presidente não duvida de que Lula, constatando ser impossível a recuperação do apoio popular ao governo Dilma, dê um jeito de descolar a sua imagem da de sua sucessora, projetando-se no cenário político, mais uma vez, como o grande mensageiro da esperança.
Conspiram contra os planos de Lula, no entanto, fatores importantes sobre os quais ele tem pouco ou nenhum poder.
Em primeiro lugar, sua liderança começa a ser contestada, por enquanto quase que exclusivamente intramuros, pelas tendências partidárias que, em nome de um mínimo de coerência com as bandeiras tradicionais do PT, repudiam a crescente ambiguidade do ex-líder sindical em relação aos rumos da política econômica. Afinal, até para os fãs de carteirinha está claro que Lula – na Presidência ou fora dela – nunca defendeu uma política econômica “liberal” ou “popular”, tendo praticado uma ou outra sempre de acordo com suas conveniências imediatas.
Esse incipiente questionamento de Lula dentro do PT parece ser motivado, principalmente, pelo fato de o prestígio popular do ex-presidente estar longe de ser aquele de que ele desfrutava ao deixar o Planalto. Esse visível declínio, embora não se compare com o sofrido por Dilma, consta de pesquisas de opinião encomendadas pelo próprio PT.
Se ambicionam, portanto, dar a volta por cima de seus próprios erros, Lula e Dilma precisam enfrentar, primeiro, a extremamente difícil missão de recuperar a credibilidade junto aos brasileiros.
Consumo sem crime - MERVAL PEREIRA
O GLOBO -09/06
A descriminalização do consumo de drogas, que está em discussão neste momento pela decisão da Defensoria Pública do Rio de considerar inconstitucionais todas as prisões de usuários de drogas, vai ser objeto de análise do Supremo Tribunal Federal ( STF) nos próximos dias, provavelmente antes do recesso do Judiciário.
A medida foi tomada, como O GLOBO revelou no sábado, dentro de uma política mais ampla, de esvaziar as cadeias superlotadas do país, sob orientação do Conselho Nacional de Justiça ( CNJ).
O relator do recurso extraordinário 635659 é Gilmar Mendes, que, como presidente do STF e do CNJ, coordenou os mutirões carcerários que libertaram milhares de presos em todo o país. Ele deve liberar o processo para julgamento amanhã. O mais provável é que leve em consideração a consequência de uma visão criminal do consumo de drogas para a superlotação do sistema penitenciário brasileiro, já tão insuficiente.
Em 2013, o defensor público de São Paulo Leandro de Castro Gomes recorreu ao Supremo da decisão do Colégio Recursal do Juizado Especial de Diadema/ SP que condenou um seu cliente a 2 meses de prestação de serviço à comunidade, por guardar 3 gramas de maconha num único invólucro para consumo próprio.
Gilmar provavelmente determinará no voto que o preso em flagrante com drogas seja levado a um juiz, que definirá se se trata de usuário ou traficante. O usuário já não é hoje condenado à prisão, mas em muitos casos é tratado como traficante, servindo para aumentar a superlotação nas cadeias. A tendência liberal em termos de costumes do STF indica que provavelmente a descriminalização do consumo será aprovada.
Várias entidades entraram no processo como "Amicus Curiae" - "Amigo da Corte", com representatividade para se manifestar em disputas de constitucionalidade -, entre elas o Viva Rio, dirigida pelo sociólogo Rubem César Fernandes, com base em trabalho do professor de Direito Penal da USP Pierpaolo Bottini.
O centro da argumentação é a inconstitucionalidade do artigo 28 da lei 11.323, que instituiu o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas. Embora tenha alterado o tratamento penal para o porte de drogas ilícitas para consumo pessoal, substituindo a prisão de 6 meses a 2 anos pelas penas de advertência, prestação de serviços à comunidade ou medida educativa obrigatória, a nova legislação, segundo o jurista, manteve "o desvalor penal do comportamento, não retira sua natureza delitiva nem o caráter estigmatizante da incidência da norma penal".
Segundo Bottini, a criminalização do porte de drogas para uso pessoal afronta não só a norma constitucional que protege a intimidade e a vida privada, mas, sobretudo, a que prevê as bases sobre as quais se sustenta todo o modelo político e jurídico nacional: a dignidade da pessoa humana e a pluralidade.
O propósito do texto, que foi apresentado na forma de petição ao STF, "não é discutir os efeitos prejudiciais das substâncias entorpecentes, nem minimizar as preocupações de amplos setores da sociedade civil e do governo com problemas inerentes ao tráfico e consumo de drogas, (...), mas identificar a inconstitucionalidade de uma política de combate ao tráfico de drogas apoiada na criminalização de uma das vítimas de tais organizações, o usuário".
O documento apresenta diversos exemplos de países em que "a dignidade humana e a intimidade pautam o modelo constitucional, o uso de drogas tornou-se matéria estranha ao Direito Penal, (...) indicando a perfeita convivência de Estados democráticos voltados para o combate ao tráfico de drogas e à inibição do consumo com um ordenamento penal que respeite a dignidade do usuário de entorpecentes".
O documento cita a legislação de Portugal, que a partir de 2000 passou a dispor que o consumo, a aquisição e a detenção para consumo próprio de plantas, substâncias ou preparações caracterizadas como drogas deixam de ser crimes e passam a ser contraordenação ( ilícito administrativo).
Na mesma linha, os Legislativos espanhol, chileno, uruguaio e italiano deixaram de fora da área penal o consumo de drogas. As leis de Áustria, França, México, Noruega e Alemanha dispõem que o porte só tem relevância penal quando destinado ao tráfico ilícito.
Na Colômbia e na Argentina, foram as Cortes Constitucionais que decidiram pela inconstitucionalidade de criminalizar o consumo de drogas.
A descriminalização do consumo de drogas, que está em discussão neste momento pela decisão da Defensoria Pública do Rio de considerar inconstitucionais todas as prisões de usuários de drogas, vai ser objeto de análise do Supremo Tribunal Federal ( STF) nos próximos dias, provavelmente antes do recesso do Judiciário.
A medida foi tomada, como O GLOBO revelou no sábado, dentro de uma política mais ampla, de esvaziar as cadeias superlotadas do país, sob orientação do Conselho Nacional de Justiça ( CNJ).
O relator do recurso extraordinário 635659 é Gilmar Mendes, que, como presidente do STF e do CNJ, coordenou os mutirões carcerários que libertaram milhares de presos em todo o país. Ele deve liberar o processo para julgamento amanhã. O mais provável é que leve em consideração a consequência de uma visão criminal do consumo de drogas para a superlotação do sistema penitenciário brasileiro, já tão insuficiente.
Em 2013, o defensor público de São Paulo Leandro de Castro Gomes recorreu ao Supremo da decisão do Colégio Recursal do Juizado Especial de Diadema/ SP que condenou um seu cliente a 2 meses de prestação de serviço à comunidade, por guardar 3 gramas de maconha num único invólucro para consumo próprio.
Gilmar provavelmente determinará no voto que o preso em flagrante com drogas seja levado a um juiz, que definirá se se trata de usuário ou traficante. O usuário já não é hoje condenado à prisão, mas em muitos casos é tratado como traficante, servindo para aumentar a superlotação nas cadeias. A tendência liberal em termos de costumes do STF indica que provavelmente a descriminalização do consumo será aprovada.
Várias entidades entraram no processo como "Amicus Curiae" - "Amigo da Corte", com representatividade para se manifestar em disputas de constitucionalidade -, entre elas o Viva Rio, dirigida pelo sociólogo Rubem César Fernandes, com base em trabalho do professor de Direito Penal da USP Pierpaolo Bottini.
O centro da argumentação é a inconstitucionalidade do artigo 28 da lei 11.323, que instituiu o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas. Embora tenha alterado o tratamento penal para o porte de drogas ilícitas para consumo pessoal, substituindo a prisão de 6 meses a 2 anos pelas penas de advertência, prestação de serviços à comunidade ou medida educativa obrigatória, a nova legislação, segundo o jurista, manteve "o desvalor penal do comportamento, não retira sua natureza delitiva nem o caráter estigmatizante da incidência da norma penal".
Segundo Bottini, a criminalização do porte de drogas para uso pessoal afronta não só a norma constitucional que protege a intimidade e a vida privada, mas, sobretudo, a que prevê as bases sobre as quais se sustenta todo o modelo político e jurídico nacional: a dignidade da pessoa humana e a pluralidade.
O propósito do texto, que foi apresentado na forma de petição ao STF, "não é discutir os efeitos prejudiciais das substâncias entorpecentes, nem minimizar as preocupações de amplos setores da sociedade civil e do governo com problemas inerentes ao tráfico e consumo de drogas, (...), mas identificar a inconstitucionalidade de uma política de combate ao tráfico de drogas apoiada na criminalização de uma das vítimas de tais organizações, o usuário".
O documento apresenta diversos exemplos de países em que "a dignidade humana e a intimidade pautam o modelo constitucional, o uso de drogas tornou-se matéria estranha ao Direito Penal, (...) indicando a perfeita convivência de Estados democráticos voltados para o combate ao tráfico de drogas e à inibição do consumo com um ordenamento penal que respeite a dignidade do usuário de entorpecentes".
O documento cita a legislação de Portugal, que a partir de 2000 passou a dispor que o consumo, a aquisição e a detenção para consumo próprio de plantas, substâncias ou preparações caracterizadas como drogas deixam de ser crimes e passam a ser contraordenação ( ilícito administrativo).
Na mesma linha, os Legislativos espanhol, chileno, uruguaio e italiano deixaram de fora da área penal o consumo de drogas. As leis de Áustria, França, México, Noruega e Alemanha dispõem que o porte só tem relevância penal quando destinado ao tráfico ilícito.
Na Colômbia e na Argentina, foram as Cortes Constitucionais que decidiram pela inconstitucionalidade de criminalizar o consumo de drogas.
Mudança de ares e de política no BNDES - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 09/06
Banco abre a caixa-preta de empréstimos e governo estabelece política para que grandes grupos recorram a recursos privados, aliviando pressão sobre Tesouro
Única fonte de financiamento de longo prazo no país, o BNDES, pelo próprio tamanho, tem sido um protagonista importante em qualquer política econômica. Criado em 52, no segundo governo Vargas, o banco tem a existência umbilicalmente ligada à industrialização brasileira do pós-guerra. Nos últimos tempos, porém, entrou no radar do Congresso, devido às dificuldades de acesso a informações sobre a sua carteira de empréstimos, protegidas com o argumento de se tratar de dados bancários sigilosos.
O Tribunal de Contas (TCU), braço de fiscalização do Legislativo, pressionou o banco para obter detalhes de financiamentos de R$ 7,5 bilhões ao grupo JBS Friboi, de frigoríficos, e o assunto terminou no Supremo, onde, no final de maio, foi dado o correto veredito de que o BNDES, uma instituição que empresta dinheiro público, precisa ser transparente. Logo depois, o banco expôs na internet informações sobre 1.753 contratos, no valor total de R$ 320 bilhões, prova que nem tudo podia ser considerado sigiloso.
Nos empréstimos à exportação de serviços de engenharia, a partir de 2007, cinco empreiteiras respondem por 99,4% do crédito total de US$ 11,9 bilhões, sendo que 70% ficam apenas com o grupo Odebrecht. Na cifra, a construção do polêmico porto cubano de Ariel deve ter razoável peso.
Pode-se discutir se haveria alternativa a essas empresas ou se, por elas terem acesso privilegiado ao mercado externo, por competência, terminariam de qualquer forma respondendo pela maior parte desses empréstimos.
Mas também é fato que a tal política de criação de “campeões nacionais” — privilegiar empresas pelo dedazo estatal, como na ditadura — resultaria numa inexorável concentração nos empréstimos.
O banco se torna mais transparente nas suas operações no momento em que, em outra mudança positiva, se anuncia nova política de empréstimo, cuja finalidade é ampliar a participação da iniciativa privada no financiamento de projetos.
O motivo primordial da mudança é que, devido à crise fiscal, o Tesouro não pode mais continuar se endividando para despejar dinheiro para o BNDES distribuir crédito subsidiado. Já foram mais de R$ 400 bilhões empatados nessa espécie de ciranda.
Além disso, independentemente da crise, não faz sentido o banco não forçar grandes grupos, de bom cadastro no mercado financeiro, a se financiarem também no mercado privado. Alivia o Tesouro. Agora, empresa com faturamento acima do R$ 1 bilhão, a fim de continuar a se beneficiar da correção de metade dos empréstimos pela TJLP, a menor taxa vigente, terá de lançar debêntures correspondentes a 25% do crédito.
O banco passou muito tempo como hermética caixa-preta e também se alongou demais o ciclo de bilionários créditos concedidos com respaldo do Tesouro.
Banco abre a caixa-preta de empréstimos e governo estabelece política para que grandes grupos recorram a recursos privados, aliviando pressão sobre Tesouro
Única fonte de financiamento de longo prazo no país, o BNDES, pelo próprio tamanho, tem sido um protagonista importante em qualquer política econômica. Criado em 52, no segundo governo Vargas, o banco tem a existência umbilicalmente ligada à industrialização brasileira do pós-guerra. Nos últimos tempos, porém, entrou no radar do Congresso, devido às dificuldades de acesso a informações sobre a sua carteira de empréstimos, protegidas com o argumento de se tratar de dados bancários sigilosos.
O Tribunal de Contas (TCU), braço de fiscalização do Legislativo, pressionou o banco para obter detalhes de financiamentos de R$ 7,5 bilhões ao grupo JBS Friboi, de frigoríficos, e o assunto terminou no Supremo, onde, no final de maio, foi dado o correto veredito de que o BNDES, uma instituição que empresta dinheiro público, precisa ser transparente. Logo depois, o banco expôs na internet informações sobre 1.753 contratos, no valor total de R$ 320 bilhões, prova que nem tudo podia ser considerado sigiloso.
Nos empréstimos à exportação de serviços de engenharia, a partir de 2007, cinco empreiteiras respondem por 99,4% do crédito total de US$ 11,9 bilhões, sendo que 70% ficam apenas com o grupo Odebrecht. Na cifra, a construção do polêmico porto cubano de Ariel deve ter razoável peso.
Pode-se discutir se haveria alternativa a essas empresas ou se, por elas terem acesso privilegiado ao mercado externo, por competência, terminariam de qualquer forma respondendo pela maior parte desses empréstimos.
Mas também é fato que a tal política de criação de “campeões nacionais” — privilegiar empresas pelo dedazo estatal, como na ditadura — resultaria numa inexorável concentração nos empréstimos.
O banco se torna mais transparente nas suas operações no momento em que, em outra mudança positiva, se anuncia nova política de empréstimo, cuja finalidade é ampliar a participação da iniciativa privada no financiamento de projetos.
O motivo primordial da mudança é que, devido à crise fiscal, o Tesouro não pode mais continuar se endividando para despejar dinheiro para o BNDES distribuir crédito subsidiado. Já foram mais de R$ 400 bilhões empatados nessa espécie de ciranda.
Além disso, independentemente da crise, não faz sentido o banco não forçar grandes grupos, de bom cadastro no mercado financeiro, a se financiarem também no mercado privado. Alivia o Tesouro. Agora, empresa com faturamento acima do R$ 1 bilhão, a fim de continuar a se beneficiar da correção de metade dos empréstimos pela TJLP, a menor taxa vigente, terá de lançar debêntures correspondentes a 25% do crédito.
O banco passou muito tempo como hermética caixa-preta e também se alongou demais o ciclo de bilionários créditos concedidos com respaldo do Tesouro.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
COMÉRCIO PODE DEMITIR 1 MILHÃO DE EMPREGADOS
A área econômica do governo trabalha com a expectativa sinistra de que a crise levará o comércio varejista a demitir quase 1 milhão de pessoas durante este ano. O governo se prepara para o pior: convulsão social. E não é para menos: dos atuais 7.945.613 trabalhadores com carteira assinada no comércio, 12% devem perder seus empregos. Só o setor público emprega mais que o comércio: 9,3 milhões, no total.
É SÓ O COMEÇO
Em 2014, o comércio varejista teve o pior desempenho em dez anos, mas a crise nos anos de 2015 e 2016 será ainda mais grave.
ENCOLHIMENTO
Nos primeiros três meses de 2015 já houve 129 mil demissões no comércio. É a maior queda do nível de empregos formais desde 2007.
SEM COMPARAÇÃO
O governo só se preocupa com a indústria automobilística, mas só o Grupo Pão de Açúcar emprega 160 mil, mais que todas as montadoras juntas.
CRISE É GERAL
A crise é devastadora no comércio, em grandes e pequenos centros. No Distrito Federal, já foram fechadas só este ano, mais de 2 mil lojas.
LULA APROVA TEMER NA ARTICULAÇÃO POLÍTICA DE DILMA
O ex-presidente Lula tem desestimulado a corrente petista que pede a destituição do vice-presidente Michel Temer da articulação política. Parte do PT defende que, aprovado o ajuste fiscal, Dilma ressuscite a Secretaria de Relações Institucionais (SRI) e devolva seu comando ao partido. Petistas avaliam que a tal secretaria seria a saída para salvar o PT do vexame nas urnas em 2016. Eles superestimam a SRI.
UMA DENTRO
Aos mais próximos, Lula considera a escolha de Temer para a articulação política o maior acerto de Dilma no segundo mandato.
SÓ PENSA NISSO
Lula, que prevê tempos difíceis para o PT em 2016, quer evitar um desgaste com o PMDB, que pode virar a tábua de salvação petista.
TENHA CALMA
O PMDB já deu recados de que a vida do governo pode complicar (e muito) se o PT não recuar, a começar pela revisão das desonerações.
ÁGUA NO CHOPE
Apesar da pompa que deve seguir o anúncio da nova leva de concessões, o clima no governo não é de otimismo. Além da gravidade da crise, o Planalto ainda teme a rebordosa da Lava Jato.
CAMPEÃO DE GASTOS
Maior bancada da Câmara dos Deputados, o PMDB é o que mais gastou, ressarcindo despesas de parlamentares: R$ 5,6 milhões, entre janeiro e abril deste ano. No total, a Câmara gastou R$ 46 milhões.
SÓ NO BRASIL
O Supremo Tribunal Federal tende a acatar um recurso contra punição por porte de drogas, na prática, descriminalizando o consumo pessoal. Ou seja: é crime vender drogas; comprá-la, financiando o tráfico, não.
ASSIM É FÁCIL
Cinco anos após de ter saído da Presidência, Lula custa ao contribuinte (só em gasolina) mais de R$ 11,5 mil. É que seu “assessor”, nomeado na Casa Civil, tem cartão corporativo e passa tudo na conta do Palácio.
APROVAR ERA OBRIGAÇÃO
Dilma faz pouco para melhorar a relação com o Senado. Aliados se queixam de que não receberam um só telefonema de agradecimento pela aprovação das medidas de ajuste fiscal. Como Aloizio Mercadante (Casa Civil), madame acha que o Senado cumpriu sua obrigação.
NA FILA
O Planalto teme que a “ingratidão” de Dilma atrapalhe a aprovação de outras MPs. O Senado já aprovou três: uma limitou acesso a direitos trabalhistas, uma dificultou pensões e outra aumentou impostos.
MERCADO AQUECIDO
A FSB, do Rio, foi a agência de comunicação que mais faturou no País em 2014 (R$ 201,9 milhões), segundo o Anuário da Comunicação Corporativa 2015. A CDN, de São Paulo, faturou R$ 105,3 milhões.
ELE SABE TUDO
Advogado do megadoleiro Alberto Youssef, preso pelo envolvimento no Petrolão, Bernardo Figueiredo é um dos únicos “civis” a ter tido acesso a todos os depoimentos no âmbito da Operação Lava Jato.
QUE CRISE?
Com Dilma nas pedaladas, após terceirizar seu governo, e Eduardo Cunha e Renan Calheiros em Moscou, é oficial: a crise está de folga.
PODER SEM PUDOR
OLHO ELETRIFICADO
Coronel Toniquinho Pereira era chefe político em Itapetininga (SP), quando se viu obrigado a receber o governador - seu adversário - na estação ferroviária de Iperó. Cheio de má vontade, assim que o trem chegou à estação, Toniquinho foi logo reclamando do chefe da estação:
- Entrou uma fagulha no meu olho...
- O trem é elétrico, coronel. Não solta fagulha.
- Então foi um quilowatt, ora.
A área econômica do governo trabalha com a expectativa sinistra de que a crise levará o comércio varejista a demitir quase 1 milhão de pessoas durante este ano. O governo se prepara para o pior: convulsão social. E não é para menos: dos atuais 7.945.613 trabalhadores com carteira assinada no comércio, 12% devem perder seus empregos. Só o setor público emprega mais que o comércio: 9,3 milhões, no total.
É SÓ O COMEÇO
Em 2014, o comércio varejista teve o pior desempenho em dez anos, mas a crise nos anos de 2015 e 2016 será ainda mais grave.
ENCOLHIMENTO
Nos primeiros três meses de 2015 já houve 129 mil demissões no comércio. É a maior queda do nível de empregos formais desde 2007.
SEM COMPARAÇÃO
O governo só se preocupa com a indústria automobilística, mas só o Grupo Pão de Açúcar emprega 160 mil, mais que todas as montadoras juntas.
CRISE É GERAL
A crise é devastadora no comércio, em grandes e pequenos centros. No Distrito Federal, já foram fechadas só este ano, mais de 2 mil lojas.
LULA APROVA TEMER NA ARTICULAÇÃO POLÍTICA DE DILMA
O ex-presidente Lula tem desestimulado a corrente petista que pede a destituição do vice-presidente Michel Temer da articulação política. Parte do PT defende que, aprovado o ajuste fiscal, Dilma ressuscite a Secretaria de Relações Institucionais (SRI) e devolva seu comando ao partido. Petistas avaliam que a tal secretaria seria a saída para salvar o PT do vexame nas urnas em 2016. Eles superestimam a SRI.
UMA DENTRO
Aos mais próximos, Lula considera a escolha de Temer para a articulação política o maior acerto de Dilma no segundo mandato.
SÓ PENSA NISSO
Lula, que prevê tempos difíceis para o PT em 2016, quer evitar um desgaste com o PMDB, que pode virar a tábua de salvação petista.
TENHA CALMA
O PMDB já deu recados de que a vida do governo pode complicar (e muito) se o PT não recuar, a começar pela revisão das desonerações.
ÁGUA NO CHOPE
Apesar da pompa que deve seguir o anúncio da nova leva de concessões, o clima no governo não é de otimismo. Além da gravidade da crise, o Planalto ainda teme a rebordosa da Lava Jato.
CAMPEÃO DE GASTOS
Maior bancada da Câmara dos Deputados, o PMDB é o que mais gastou, ressarcindo despesas de parlamentares: R$ 5,6 milhões, entre janeiro e abril deste ano. No total, a Câmara gastou R$ 46 milhões.
SÓ NO BRASIL
O Supremo Tribunal Federal tende a acatar um recurso contra punição por porte de drogas, na prática, descriminalizando o consumo pessoal. Ou seja: é crime vender drogas; comprá-la, financiando o tráfico, não.
ASSIM É FÁCIL
Cinco anos após de ter saído da Presidência, Lula custa ao contribuinte (só em gasolina) mais de R$ 11,5 mil. É que seu “assessor”, nomeado na Casa Civil, tem cartão corporativo e passa tudo na conta do Palácio.
APROVAR ERA OBRIGAÇÃO
Dilma faz pouco para melhorar a relação com o Senado. Aliados se queixam de que não receberam um só telefonema de agradecimento pela aprovação das medidas de ajuste fiscal. Como Aloizio Mercadante (Casa Civil), madame acha que o Senado cumpriu sua obrigação.
NA FILA
O Planalto teme que a “ingratidão” de Dilma atrapalhe a aprovação de outras MPs. O Senado já aprovou três: uma limitou acesso a direitos trabalhistas, uma dificultou pensões e outra aumentou impostos.
MERCADO AQUECIDO
A FSB, do Rio, foi a agência de comunicação que mais faturou no País em 2014 (R$ 201,9 milhões), segundo o Anuário da Comunicação Corporativa 2015. A CDN, de São Paulo, faturou R$ 105,3 milhões.
ELE SABE TUDO
Advogado do megadoleiro Alberto Youssef, preso pelo envolvimento no Petrolão, Bernardo Figueiredo é um dos únicos “civis” a ter tido acesso a todos os depoimentos no âmbito da Operação Lava Jato.
QUE CRISE?
Com Dilma nas pedaladas, após terceirizar seu governo, e Eduardo Cunha e Renan Calheiros em Moscou, é oficial: a crise está de folga.
PODER SEM PUDOR
OLHO ELETRIFICADO
Coronel Toniquinho Pereira era chefe político em Itapetininga (SP), quando se viu obrigado a receber o governador - seu adversário - na estação ferroviária de Iperó. Cheio de má vontade, assim que o trem chegou à estação, Toniquinho foi logo reclamando do chefe da estação:
- Entrou uma fagulha no meu olho...
- O trem é elétrico, coronel. Não solta fagulha.
- Então foi um quilowatt, ora.
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