FOLHA DE SP - 07/06
Li numa revista, outro dia, que um dos grandes desafios do mundo digital é aperfeiçoar os algoritmos capazes de entender o gosto do internauta. São programas que bisbilhotam as nossas ações online (sites visitados, likes, retuítes, compras etc.) e, a partir dessas informações, descobrem exatamente quais produtos nos oferecer.
Se, por exemplo, você passou três horas no YouTube assistindo a shows do Raul, compartilhou via Facebook o texto “Como curar dengue, depressão e lumbago com chá de berinjela!!!” e comprou na reggaero-ots.com.br uma pochete com as cores da Jamaica, o computador entende que, talvez, seja mais indicado te sugerir o livro Os Florais de Bach na Prática da Ioga do que, digamos, o blu-ray As Patricinhas de Beverly Hills 2. Segundo a matéria, os algoritmos estão evoluindo tão rápido que, logo, logo, mal sentiremos uma coceirinha no nariz, o computador já vai nos desejar saúde – e nos oferecer Rinosoro.
Há quem tema a chegada deste dia: o dia em que o Big Brother lerá nas pupilas do cidadão os seus desejos mais profundos, mas confesso que, diante dos spams desvairados que chegam a este velho PC, aqui pros lados de Cotia, o que mais quero é que o Grande Irmão entenda um pouquinho melhor meus gostos e necessidades.
Lembro ainda hoje quando, no fim do século passado, recebi meu primeiro “Enlarge your penis”. Olhei pros lados, nervoso: por que haviam me mandado aquilo? Eu não me encontrava, pensava, entre o público alvo daquele tipo de e-mail. Ou me encontrava? Teria eu vivido, até ali, em autoengano? Seria aquela mensagem o toque de uma ex-namorada, tipo um recado anônimo na secretária eletrônica: “Você tem bafo!”? A dúvida desapareceu dias depois, ao receber meu primeiro “Enlarge your tits”. Naquele dia, conversei com um amigo e aprendi um novo termo: “spam”.
De lá pra cá, a quantidade de mensagens inúteis só aumentou. Teve a época dos Rolex, da caneta espiã, dos aparelhos para abdominal, dos feromônios, das pílulas para perder peso, das dicas para ganhar dinheiro sem sair de casa – sem falar, é claro, nos velhos companheiros Abdul, da Arábia Saudita, ou Mr. Murukubuku, da Nigéria, que toda semana imploram por minha conta bancária, loucos para depositar milhões em meu nome.
Ultimamente, estamos na fase dos currículos. Marlene Araújo, administração. Anderson Nonato, webdesign. Raul Boucinhas, contabilidade. Recebo também dicas para “aprimorar a logística de distribuição” da minha empresa, para “otimizar a engenharia da minha área financeira”. Diante desses e-mails, fico com a impressão de que, ao contrário do que dizia a revista, os algoritmos não evoluíram nada, do século 20 pra cá.
Ou será que quem não evoluiu fui eu? Será que, depois de cálculos complexos, os computadores intuam que, a esta altura do campeonato, eu já deveria ser um empresário de sucesso, recrutando funcionários, distribuindo produtos, redesenhando minha área financeira? É, talvez os programas estejam certos, talvez o errado seja eu, que sigo aqui, sozinho, pros lados de Cotia, batucando no meu velho PC. Tudo bem, não me importo, sou feliz assim – só vou me preocupar se, dia desses, abrir o Outlook e encontrar, de novo, um “Enlarge your penis”. Qual foi, algoritmo?! Tá me zoando?!
domingo, junho 07, 2015
Revendo a reforma - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 07/06
A segunda rodada de votação na Câmara da emenda constitucional que põe fim à reeleição dará um bom indicativo de como a medida, vitoriosa por larga margem na primeira votação, repercutiu na sociedade.
Os deputados certamente tiveram contato com seus eleitores e puderam sentir que o fim da reeleição não é um anseio nacional. Se o número de votos favoráveis for reduzido nessa segunda votação, estará dado o sinal para que o Senado reveja a decisão da Câmara.
Esse é um caso em que o interesse partidário falou mais alto do que o nacional, e o fim da reeleição foi aprovado mais para acomodar facções dentro dos partidos do que para buscar uma solução institucional melhorada. Foi também o caso das cláusulas de barreira, que devem ser mais rigorosas a partir de uma modificação já prevista no Senado.
A 2ª rodada de votação será também afetada pela decisão, que será tomada anteriormente, sobre a duração dos mandatos de presidente, governadores e prefeitos.
Uma das consequências deve ser a derrota da tese da coincidência de mandatos, outra mudança constitucional que não encontra apoio majoritário entre os parlamentares, coincidindo com uma rejeição previsível da sociedade.
Nada indica que deixando de votar de dois em dois anos o brasileiro ficará mais politizado. Ao contrário, se houver a coincidência de mandatos, as eleições acontecerão de cinco em cinco anos, muito tempo de separação entre elas, significando que o debate político público que as eleições provocam ficará congelado por muito tempo.
A separação de tempo muito grande entre as eleições e o fim do voto obrigatório, outra emenda constitucional que estará em votação a partir da próxima semana, moldam um sistema político-eleitoral que não favorece a politização dos cidadãos.
O voto opcional é, teoricamente, um avanço democrático, pois votar passa a ser um direito, e não um dever, do cidadão. Mas, na prática, já existe essa possibilidade de não votar sem ser punido. Dá apenas um pouco mais de trabalho justificar não ter votado, ou pagar uma multa irrisória para ficar quite com a Justiça Eleitoral.
Em democracias ainda em formação como a nossa, o voto obrigatório tem um papel educativo importante, dando ao cidadão comum o valor da importância de seu gesto.
Se ainda temos no país diversos casos de compra de votos e troca de favores para que o eleitor vote neste ou naquele candidato, é preciso um continuado trabalho educativo por parte do Tribunal Superior Eleitoral para que o eleitor entenda a importância de seu voto, e transforme esse entendimento em instrumento de inserção social.
Os debates políticos durante as campanhas eleitorais colaboram para tal amadurecimento do eleitor brasileiro, e por isso as eleições deveriam continuar sendo realizadas de dois em dois anos.
Os temas municipais nas eleições de prefeito e vereador ganham também a dimensão necessária para que sejam debatidos pelos eleitores. Caso contrário, seriam engolidos pelos temas nacionais.
O financiamento privado aos partidos, aprovado pela Câmara em primeira votação, é outro tema polêmico que será revisitado por deputados e analisado por senadores. Como parece ser majoritário o desejo de ter financiamento privado nas eleições, o Senado deverá aprovar a decisão, mas a legislação terá que regulamentar com muito rigor os procedimentos para que os limites das doações não sejam tão amplos quanto hoje - 2% do faturamento das empresas -, e para que não seja permitido a empresas que tenham algum tipo de vínculo com governos participar desse financiamento.
Todos esses pontos estarão em discussão na Câmara a partir da próxima semana, e mais adiante serão abordados novamente pelos senadores, que terão tempo para corrigir erros provocados pela maneira como foram votados os tópicos do que seria uma reforma política, sem que os temas fossem interligados como conviria. Do jeito que está sendo feita, a reforma já começa necessitando de uma revisão.
A segunda rodada de votação na Câmara da emenda constitucional que põe fim à reeleição dará um bom indicativo de como a medida, vitoriosa por larga margem na primeira votação, repercutiu na sociedade.
Os deputados certamente tiveram contato com seus eleitores e puderam sentir que o fim da reeleição não é um anseio nacional. Se o número de votos favoráveis for reduzido nessa segunda votação, estará dado o sinal para que o Senado reveja a decisão da Câmara.
Esse é um caso em que o interesse partidário falou mais alto do que o nacional, e o fim da reeleição foi aprovado mais para acomodar facções dentro dos partidos do que para buscar uma solução institucional melhorada. Foi também o caso das cláusulas de barreira, que devem ser mais rigorosas a partir de uma modificação já prevista no Senado.
A 2ª rodada de votação será também afetada pela decisão, que será tomada anteriormente, sobre a duração dos mandatos de presidente, governadores e prefeitos.
Uma das consequências deve ser a derrota da tese da coincidência de mandatos, outra mudança constitucional que não encontra apoio majoritário entre os parlamentares, coincidindo com uma rejeição previsível da sociedade.
Nada indica que deixando de votar de dois em dois anos o brasileiro ficará mais politizado. Ao contrário, se houver a coincidência de mandatos, as eleições acontecerão de cinco em cinco anos, muito tempo de separação entre elas, significando que o debate político público que as eleições provocam ficará congelado por muito tempo.
A separação de tempo muito grande entre as eleições e o fim do voto obrigatório, outra emenda constitucional que estará em votação a partir da próxima semana, moldam um sistema político-eleitoral que não favorece a politização dos cidadãos.
O voto opcional é, teoricamente, um avanço democrático, pois votar passa a ser um direito, e não um dever, do cidadão. Mas, na prática, já existe essa possibilidade de não votar sem ser punido. Dá apenas um pouco mais de trabalho justificar não ter votado, ou pagar uma multa irrisória para ficar quite com a Justiça Eleitoral.
Em democracias ainda em formação como a nossa, o voto obrigatório tem um papel educativo importante, dando ao cidadão comum o valor da importância de seu gesto.
Se ainda temos no país diversos casos de compra de votos e troca de favores para que o eleitor vote neste ou naquele candidato, é preciso um continuado trabalho educativo por parte do Tribunal Superior Eleitoral para que o eleitor entenda a importância de seu voto, e transforme esse entendimento em instrumento de inserção social.
Os debates políticos durante as campanhas eleitorais colaboram para tal amadurecimento do eleitor brasileiro, e por isso as eleições deveriam continuar sendo realizadas de dois em dois anos.
Os temas municipais nas eleições de prefeito e vereador ganham também a dimensão necessária para que sejam debatidos pelos eleitores. Caso contrário, seriam engolidos pelos temas nacionais.
O financiamento privado aos partidos, aprovado pela Câmara em primeira votação, é outro tema polêmico que será revisitado por deputados e analisado por senadores. Como parece ser majoritário o desejo de ter financiamento privado nas eleições, o Senado deverá aprovar a decisão, mas a legislação terá que regulamentar com muito rigor os procedimentos para que os limites das doações não sejam tão amplos quanto hoje - 2% do faturamento das empresas -, e para que não seja permitido a empresas que tenham algum tipo de vínculo com governos participar desse financiamento.
Todos esses pontos estarão em discussão na Câmara a partir da próxima semana, e mais adiante serão abordados novamente pelos senadores, que terão tempo para corrigir erros provocados pela maneira como foram votados os tópicos do que seria uma reforma política, sem que os temas fossem interligados como conviria. Do jeito que está sendo feita, a reforma já começa necessitando de uma revisão.
Pelo fim dos privilégios - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 07/06
Chamou a atenção a notícia da troca de carros do Superior Tribunal Militar. A modernização da frota, que implica a compra de 17 sedãs ao custo unitário de R$ 116 mil, passaria despercebida em outras épocas. Senão despercebida, pelo menos rotineira, nada digno de registro além do burocrático. Em tempos de crise, porém, o fato traz à tona velha questão que precisa ser enfrentada com determinação.
Trata-se de privilégios que fincam raízes no setor público. Carro com motorista talvez seja o mais simbólico. Mas não é o único. A ele se somam cartões corporativos, residências oficiais, combustível, garçons, elevadores privativos, verbas de representação. Difícil encontrar justificativa para a manutenção de mordomias ultrapassadas que, além de onerar o erário, servem de mau exemplo para as três esferas do poder.
Estados e municípios reproduzem as benesses com a naturalidade de quem dá bom dia ao entrar no elevador ou diz até logo ao se despedir. Prefeituras que sobrevivem à custa do Fundo de Participação dos Municípios não abrem mão de benefícios anacrônicos usufruídos em âmbito estadual e federal. ONGs que recebem dinheiro proveniente de impostos cobrados dos contribuintes também sofrem o contágio do mau exemplo. Instituições que embolsam contribuições parafiscais não ficam atrás.
A Constituição diz que todos são iguais perante a lei. A prática do setor público, porém, teima em provar que se trata de princípio que não pega. No século 21, nada mais retrógrado do que sustentar o modelo de casa grande e senzala. Quem ostenta o cartão de autoridade se vacina contra o povo. Isola-se. Não usa transporte público, não se trata em hospital público, não se satisfaz com a segurança pública, não matricula os filhos em escola pública. Até o tratamento muda. O democrático senhor cede lugar ao aristocrático excelência.
Crise, dizem os chineses, é oportunidade. As agruras por que passa a economia obrigam o governo a cortar gastos. Educação, saúde, saneamento, mobilidade sofrem na carne e nos nervos a redução no orçamento. As vítimas são estudantes, enfermos, trabalhadores - pessoas que constroem o futuro da nação. Dilma Rousseff, primeira mulher a presidir o país, pode deixar marca capaz de diferenciá-la dos antecedentes. Acabar com os privilégios é passo importante para sintonizar o país com a contemporaneidade.
O tempo se encarregou de relegar ao passado práticas que fizeram sentido em determinado contexto, mas se tornaram inaceitáveis com as mudanças da sociedade. É o caso da escravidão, da homofobia, da corrupção, da discriminação da mulher, da intolerância étnica, cultural e religiosa. É o caso, também, dos privilégios no serviço público. Como o Estado não planta dinheiro, sustenta mordomias com o meu, o teu, o nosso trabalho. Passou da hora de dar o salto para o século 21. Com a palavra, a presidente Dilma Rousseff.
Chamou a atenção a notícia da troca de carros do Superior Tribunal Militar. A modernização da frota, que implica a compra de 17 sedãs ao custo unitário de R$ 116 mil, passaria despercebida em outras épocas. Senão despercebida, pelo menos rotineira, nada digno de registro além do burocrático. Em tempos de crise, porém, o fato traz à tona velha questão que precisa ser enfrentada com determinação.
Trata-se de privilégios que fincam raízes no setor público. Carro com motorista talvez seja o mais simbólico. Mas não é o único. A ele se somam cartões corporativos, residências oficiais, combustível, garçons, elevadores privativos, verbas de representação. Difícil encontrar justificativa para a manutenção de mordomias ultrapassadas que, além de onerar o erário, servem de mau exemplo para as três esferas do poder.
Estados e municípios reproduzem as benesses com a naturalidade de quem dá bom dia ao entrar no elevador ou diz até logo ao se despedir. Prefeituras que sobrevivem à custa do Fundo de Participação dos Municípios não abrem mão de benefícios anacrônicos usufruídos em âmbito estadual e federal. ONGs que recebem dinheiro proveniente de impostos cobrados dos contribuintes também sofrem o contágio do mau exemplo. Instituições que embolsam contribuições parafiscais não ficam atrás.
A Constituição diz que todos são iguais perante a lei. A prática do setor público, porém, teima em provar que se trata de princípio que não pega. No século 21, nada mais retrógrado do que sustentar o modelo de casa grande e senzala. Quem ostenta o cartão de autoridade se vacina contra o povo. Isola-se. Não usa transporte público, não se trata em hospital público, não se satisfaz com a segurança pública, não matricula os filhos em escola pública. Até o tratamento muda. O democrático senhor cede lugar ao aristocrático excelência.
Crise, dizem os chineses, é oportunidade. As agruras por que passa a economia obrigam o governo a cortar gastos. Educação, saúde, saneamento, mobilidade sofrem na carne e nos nervos a redução no orçamento. As vítimas são estudantes, enfermos, trabalhadores - pessoas que constroem o futuro da nação. Dilma Rousseff, primeira mulher a presidir o país, pode deixar marca capaz de diferenciá-la dos antecedentes. Acabar com os privilégios é passo importante para sintonizar o país com a contemporaneidade.
O tempo se encarregou de relegar ao passado práticas que fizeram sentido em determinado contexto, mas se tornaram inaceitáveis com as mudanças da sociedade. É o caso da escravidão, da homofobia, da corrupção, da discriminação da mulher, da intolerância étnica, cultural e religiosa. É o caso, também, dos privilégios no serviço público. Como o Estado não planta dinheiro, sustenta mordomias com o meu, o teu, o nosso trabalho. Passou da hora de dar o salto para o século 21. Com a palavra, a presidente Dilma Rousseff.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
FACÇÃO LULISTA PRESSIONA CONTRA AJUSTES DE LEVY
A numerosa facção lulista trabalha para apresentar no 5º Congresso do PT, agora em junho, documento de repúdio à política econômica de Dilma. Com anuência de Lula, os torpedos atingem em cheio o ministro Joaquim Levy (Fazenda) e é um aceno aos sindicalistas.
Lula gosta cada vez mais da ideia de candidatar-se em 2018. A pelegada se reuniu com Lula, no fim do mês, e desceu a borduna em Levy.
LULA NO MURO
No encontro, na sede da CUT, sindicalistas cobraram posição pública de Lula contra o projeto da terceirização e o fim do fator previdenciário.
NA PRESSÃO
As centrais alertaram Lula sobre possível greve geral para pressionar Dilma a vetar o projeto da terceirização, caso o Senado o aprove.
MUDANÇA
Aos mais próximos, Lula defende Nelson Barbosa, do Planejamento, no lugar de Levy. Estaria mais afinado com o plano econômico petista.
AMOR E ÓDIO
Agora persona non grata, Joaquim Levy chefiou o Tesouro Nacional no primeiro governo de Lula.
Aquele do mensalão, do petrolão...
GOVERNO JÁ TORROU R$ 14 MILHÕES COM CARTÕES
Nem parece que o País vive uma grave crise na economia: nos quatro primeiros meses do ano, o governo Dilma conseguiu gastar R$ 14,3 milhões com os cartões de pagamento, os “cartões corporativos”. Apesar do exagero e dos sinais de farra, o Palácio do Planalto se recusa a informar como gastou todo esse dinheiro, alegando “garantia da segurança da sociedade e do Estado”. Ou seja, da própria Dilma.
VAI UMA TAPIOCA?
Antes de o então presidente Lula tornar “secretos” os gastos, ministros foram flagrados comprando até tapioca com cartões corporativos.
NOSSA CONTA
Cartões corporativos do governo também são usados para pagar despesas com combustível e seguranças de familiares de presidentes.
GASTOS MODESTOS
O vice Michel Temer dá sinais exteriores de pobreza, para os padrões Dilma: de janeiro a abril, gastou R$ 172,7 mil usando o cartão.
AÍ, DOUTOR
Eduardo Cunha só tolera falta de deputados ao trabalho por razões médicas ou por integrar missões ao exterior. E tem mandado descontar nos salários. Os atestados médicos já se multiplicaram.
SINAL DE ALERTA
O senador Aécio Neves (PSDB-MG) leu com lupa a pesquisa do Vox Populi indicando que o governo de Geraldo Alckmin (SP) é ruim ou péssimo para 25% dos entrevistados. Não achou tão ruim assim...
TREMENDO DE MEDO
Com votação do relatório na terça, a MP do Futebol está tirando o sono dos cartolas, pois o clube que continuar ignorando as obrigações pode ser rebaixado à divisão inferior, como aconteceu na Espanha este ano.
FARRA EM VITÓRIA
Durante a XIX Conferência Nacional dos Legisladores e Legislativos Estaduais, na linda Vitória, entre quarta (10) e sexta (12), o contribuinte pode constatar como se desperdiça dinheiro publico. Vai ser uma farra.
BLINDAGEM
Aliados de Robinson Faria têm reclamado do deputado Fábio Faria (PSD-RN), filho do governador do Rio Grande do Norte.
O rapaz não estaria deixando ninguém chegar ao pai sem antes passar por ele.
FALTA DO QUE FAZER
O deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) apresentou projeto que acaba com o dinheiro em espécie. Quer que tudo seja feito digitalmente. Diz que a medida poderá reduzir a sonegação de impostos.
BLOCO NA RUA
O deputado Damião Feliciano (PDT-PB) não esconde sua aptidão por uma festinha.
Na quinta, fez uma festança, com a presença de vários deputados, para celebrar a prévia do casamento da filha.
ABRAÇO DOS AFOGADOS
O Planalto trabalha para a Lava Jato esmagar Eduardo Cunha, mas sem ajuda de deputados do PP. Até porque o primeiro vice-presidente, Waldir Maranhão (PP-MA), também poderá estar entre os denunciados.
PENSANDO BEM...
...Dilma bem que poderia ir pedalando até o Tribunal de Contas da União, para tentar explicar as manobras fiscais do seu governo.
PODER SEM PUDOR
DEDO ACUSADOR
O Brasil ainda estava sob o regime militar, em 1982, quando o País realizou suas primeiras eleições livres. Em um debate na TV Globo, o candidato do PDT em São Paulo, Rogê Ferreira, sorteado, dispara a pergunta a Lula:
- Afinal, você é socialista, comunista ou trabalhista?
Lula arrancou risadas e deixou Ferreira envergonhado dele mesmo:
- Eu sou torneiro mecânico.
A numerosa facção lulista trabalha para apresentar no 5º Congresso do PT, agora em junho, documento de repúdio à política econômica de Dilma. Com anuência de Lula, os torpedos atingem em cheio o ministro Joaquim Levy (Fazenda) e é um aceno aos sindicalistas.
Lula gosta cada vez mais da ideia de candidatar-se em 2018. A pelegada se reuniu com Lula, no fim do mês, e desceu a borduna em Levy.
LULA NO MURO
No encontro, na sede da CUT, sindicalistas cobraram posição pública de Lula contra o projeto da terceirização e o fim do fator previdenciário.
NA PRESSÃO
As centrais alertaram Lula sobre possível greve geral para pressionar Dilma a vetar o projeto da terceirização, caso o Senado o aprove.
MUDANÇA
Aos mais próximos, Lula defende Nelson Barbosa, do Planejamento, no lugar de Levy. Estaria mais afinado com o plano econômico petista.
AMOR E ÓDIO
Agora persona non grata, Joaquim Levy chefiou o Tesouro Nacional no primeiro governo de Lula.
Aquele do mensalão, do petrolão...
GOVERNO JÁ TORROU R$ 14 MILHÕES COM CARTÕES
Nem parece que o País vive uma grave crise na economia: nos quatro primeiros meses do ano, o governo Dilma conseguiu gastar R$ 14,3 milhões com os cartões de pagamento, os “cartões corporativos”. Apesar do exagero e dos sinais de farra, o Palácio do Planalto se recusa a informar como gastou todo esse dinheiro, alegando “garantia da segurança da sociedade e do Estado”. Ou seja, da própria Dilma.
VAI UMA TAPIOCA?
Antes de o então presidente Lula tornar “secretos” os gastos, ministros foram flagrados comprando até tapioca com cartões corporativos.
NOSSA CONTA
Cartões corporativos do governo também são usados para pagar despesas com combustível e seguranças de familiares de presidentes.
GASTOS MODESTOS
O vice Michel Temer dá sinais exteriores de pobreza, para os padrões Dilma: de janeiro a abril, gastou R$ 172,7 mil usando o cartão.
AÍ, DOUTOR
Eduardo Cunha só tolera falta de deputados ao trabalho por razões médicas ou por integrar missões ao exterior. E tem mandado descontar nos salários. Os atestados médicos já se multiplicaram.
SINAL DE ALERTA
O senador Aécio Neves (PSDB-MG) leu com lupa a pesquisa do Vox Populi indicando que o governo de Geraldo Alckmin (SP) é ruim ou péssimo para 25% dos entrevistados. Não achou tão ruim assim...
TREMENDO DE MEDO
Com votação do relatório na terça, a MP do Futebol está tirando o sono dos cartolas, pois o clube que continuar ignorando as obrigações pode ser rebaixado à divisão inferior, como aconteceu na Espanha este ano.
FARRA EM VITÓRIA
Durante a XIX Conferência Nacional dos Legisladores e Legislativos Estaduais, na linda Vitória, entre quarta (10) e sexta (12), o contribuinte pode constatar como se desperdiça dinheiro publico. Vai ser uma farra.
BLINDAGEM
Aliados de Robinson Faria têm reclamado do deputado Fábio Faria (PSD-RN), filho do governador do Rio Grande do Norte.
O rapaz não estaria deixando ninguém chegar ao pai sem antes passar por ele.
FALTA DO QUE FAZER
O deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) apresentou projeto que acaba com o dinheiro em espécie. Quer que tudo seja feito digitalmente. Diz que a medida poderá reduzir a sonegação de impostos.
BLOCO NA RUA
O deputado Damião Feliciano (PDT-PB) não esconde sua aptidão por uma festinha.
Na quinta, fez uma festança, com a presença de vários deputados, para celebrar a prévia do casamento da filha.
ABRAÇO DOS AFOGADOS
O Planalto trabalha para a Lava Jato esmagar Eduardo Cunha, mas sem ajuda de deputados do PP. Até porque o primeiro vice-presidente, Waldir Maranhão (PP-MA), também poderá estar entre os denunciados.
PENSANDO BEM...
...Dilma bem que poderia ir pedalando até o Tribunal de Contas da União, para tentar explicar as manobras fiscais do seu governo.
PODER SEM PUDOR
DEDO ACUSADOR
O Brasil ainda estava sob o regime militar, em 1982, quando o País realizou suas primeiras eleições livres. Em um debate na TV Globo, o candidato do PDT em São Paulo, Rogê Ferreira, sorteado, dispara a pergunta a Lula:
- Afinal, você é socialista, comunista ou trabalhista?
Lula arrancou risadas e deixou Ferreira envergonhado dele mesmo:
- Eu sou torneiro mecânico.
sábado, junho 06, 2015
Blatter abre caminho para Dilma - GUILHERME FIUZA
O GLOBO - 06/06
FBI jamais entenderia como uma mandatária pode permanecer imune a investigações num cenário desses
Joseph Blatter deu no pé porque sentiu o FBI nos seus calcanhares. Como os investigadores americanos já sabem que a Fifa é uma central de negociatas, o presidente reeleito da entidade achou melhor botar a viola no saco. No Brasil é diferente. Dilma Rousseff sentiu a Polícia Federal nos seus calcanhares, e os investigadores brasileiros já sabem que o governo do PT é uma central de negociatas. Mas a presidente reeleita não deu no pé, porque aqui não tem FBI. E com o silêncio das panelas, está dando até para ouvir o ronco do gigante.
Uma década após o estouro do mensalão, o Brasil ameaça engolir também o petrolão — o que seria o salvo-conduto definitivo para a ladroagem progressista e humanitária. Nestor Cerveró, o primeiro brasileiro a proibir uma máscara de carnaval, foi condenado por comprar um apartamento em Ipanema com propina do petrolão. O ex-tesoureiro Vaccari está preso, acusado de ajudar Dilma Rousseff a alugar um palácio em Brasília (temporada de quatro anos) com propina do petrolão. Mas, nesse caso, a inquilina não está sendo sequer investigada. Como se vê, há propinas e propinas.
As delações premiadas da Lava-Jato já se cansaram de apontar que seria impossível operar um esquema com a dimensão do petrolão, por mais de dez anos, sem a cobertura do Planalto. O FBI jamais entenderia como uma mandatária pode permanecer imune a investigações num cenário desses. Ainda mais havendo indícios claros de dinheiro do esquema em suas duas campanhas presidenciais. E fartas evidências de formação de caixa pelo seu partido com dinheiro roubado da maior empresa nacional — graças a diretores protegidos pelo grupo governante.
Nota de esclarecimento ao FBI: a presunção de inocência da presidente é absolutamente normal na conjuntura institucional brasileira. A Corte Suprema é bem fornida de militantes premiados por anos de lealdade aos seus padrinhos. E o processo da operação Lava-Jato é presidido segundo esse padrão de isenção. Entenderam, prezados ianques? De que vocês estão rindo?
Em perfeita sintonia com os puxa-sacos petistas que foram ser felizes para sempre no Supremo, o procurador-geral da República arremata a ópera da inocência — diante da qual a opinião pública se curva, reverente, babando na gravata. Resta a Dilma subir em sua bicicleta e pedalar solene diante de uma imensa placa “Lava-Jato” — proporcionando a foto emblemática do Brasil-2015. Segue a legenda oficial: “Obrigada, otários, pela sua compreensão”.
Deve ser uma delícia sentir o vento do Planalto no rosto ao ritmo das pedaladas ciclísticas e fiscais ladeira abaixo (rumo à recessão), sem o menor risco de topar com a gangue da faca. Além de mais quatro anos para reger a orgia petista, o mandato presidencial dá direito a pedalar com um aparato de seguranças — e a escolta de um carro oficial, caso sua excelência se canse e prefira as facilidades do petróleo (sem precisar chamar o Vaccari). Quem sabe até dando uma carona ao companheiro Blatter, que ficou a pé.
Seria o mínimo, considerando a carona valiosa que a Fifa deu ao governo petista. Além da oportunidade de construir os estádios mais caros da história das Copas, com a bolsa BNDES irrigando empreiteiras amigas, o balcão do companheiro Blatter fez o favor de tirar o Morumbi da Copa do Mundo. Assim abriu-se o caminho para o milagre do Itaquerão, mais um sonho bilionário de Lula realizado pela Odebrecht — ou o contrário, dá no mesmo. A CPI do Futebol pode ser mais uma oportunidade para o gigante abrir um dos olhos, ver que os companheiros estão metendo a mão no seu bolso, bocejar uma palavra de ordem e voltar aos seus sonhos de anão.
Blatter pediu o boné porque seus cúmplices deram com a língua nos dentes, expondo seu esquema de eternização no poder. Já o esquema de eternização do PT no poder vai bem, obrigado — e os cúmplices podem dar com a língua nos dentes à vontade. O homem-bomba das empreiteiras, Ricardo Pessoa, disse aos investigadores da Lava-Jato que deu R$ 7,5 milhões à campanha de Dilma no ano passado para não perder negócios com a Petrobras. Aí o barulho foi grande: era o gigante roncando.
Indignados com a indiferença da plateia, Dilma e seus amigos da pesada subiram o tom: depois de Erenice estrelar o escândalo tributário da Operação Zelotes e Rosemary ser denunciada por improbidade administrativa, Fernando Pimentel roubou a cena. O governador de Minas — também conhecido como consultor sobrenatural — teve seu braço-direito, o empresário Bené, preso por suspeita de associação criminosa. Entre as acusações contra o amigo do amigo de Dilma está a origem suspeita de dezenas de milhões de reais em receita de sua gráfica, que atende ao PT. Diante do presépio petista, talvez o FBI achasse que está sendo injusto com a Fifa.
A renúncia de Joseph Blatter após sua reeleição foi um gesto pedagógico. Ou o Brasil se inspira nele, ou assume que quer tomar mais quatro anos de pedaladas. E facadas.
FBI jamais entenderia como uma mandatária pode permanecer imune a investigações num cenário desses
Joseph Blatter deu no pé porque sentiu o FBI nos seus calcanhares. Como os investigadores americanos já sabem que a Fifa é uma central de negociatas, o presidente reeleito da entidade achou melhor botar a viola no saco. No Brasil é diferente. Dilma Rousseff sentiu a Polícia Federal nos seus calcanhares, e os investigadores brasileiros já sabem que o governo do PT é uma central de negociatas. Mas a presidente reeleita não deu no pé, porque aqui não tem FBI. E com o silêncio das panelas, está dando até para ouvir o ronco do gigante.
Uma década após o estouro do mensalão, o Brasil ameaça engolir também o petrolão — o que seria o salvo-conduto definitivo para a ladroagem progressista e humanitária. Nestor Cerveró, o primeiro brasileiro a proibir uma máscara de carnaval, foi condenado por comprar um apartamento em Ipanema com propina do petrolão. O ex-tesoureiro Vaccari está preso, acusado de ajudar Dilma Rousseff a alugar um palácio em Brasília (temporada de quatro anos) com propina do petrolão. Mas, nesse caso, a inquilina não está sendo sequer investigada. Como se vê, há propinas e propinas.
As delações premiadas da Lava-Jato já se cansaram de apontar que seria impossível operar um esquema com a dimensão do petrolão, por mais de dez anos, sem a cobertura do Planalto. O FBI jamais entenderia como uma mandatária pode permanecer imune a investigações num cenário desses. Ainda mais havendo indícios claros de dinheiro do esquema em suas duas campanhas presidenciais. E fartas evidências de formação de caixa pelo seu partido com dinheiro roubado da maior empresa nacional — graças a diretores protegidos pelo grupo governante.
Nota de esclarecimento ao FBI: a presunção de inocência da presidente é absolutamente normal na conjuntura institucional brasileira. A Corte Suprema é bem fornida de militantes premiados por anos de lealdade aos seus padrinhos. E o processo da operação Lava-Jato é presidido segundo esse padrão de isenção. Entenderam, prezados ianques? De que vocês estão rindo?
Em perfeita sintonia com os puxa-sacos petistas que foram ser felizes para sempre no Supremo, o procurador-geral da República arremata a ópera da inocência — diante da qual a opinião pública se curva, reverente, babando na gravata. Resta a Dilma subir em sua bicicleta e pedalar solene diante de uma imensa placa “Lava-Jato” — proporcionando a foto emblemática do Brasil-2015. Segue a legenda oficial: “Obrigada, otários, pela sua compreensão”.
Deve ser uma delícia sentir o vento do Planalto no rosto ao ritmo das pedaladas ciclísticas e fiscais ladeira abaixo (rumo à recessão), sem o menor risco de topar com a gangue da faca. Além de mais quatro anos para reger a orgia petista, o mandato presidencial dá direito a pedalar com um aparato de seguranças — e a escolta de um carro oficial, caso sua excelência se canse e prefira as facilidades do petróleo (sem precisar chamar o Vaccari). Quem sabe até dando uma carona ao companheiro Blatter, que ficou a pé.
Seria o mínimo, considerando a carona valiosa que a Fifa deu ao governo petista. Além da oportunidade de construir os estádios mais caros da história das Copas, com a bolsa BNDES irrigando empreiteiras amigas, o balcão do companheiro Blatter fez o favor de tirar o Morumbi da Copa do Mundo. Assim abriu-se o caminho para o milagre do Itaquerão, mais um sonho bilionário de Lula realizado pela Odebrecht — ou o contrário, dá no mesmo. A CPI do Futebol pode ser mais uma oportunidade para o gigante abrir um dos olhos, ver que os companheiros estão metendo a mão no seu bolso, bocejar uma palavra de ordem e voltar aos seus sonhos de anão.
Blatter pediu o boné porque seus cúmplices deram com a língua nos dentes, expondo seu esquema de eternização no poder. Já o esquema de eternização do PT no poder vai bem, obrigado — e os cúmplices podem dar com a língua nos dentes à vontade. O homem-bomba das empreiteiras, Ricardo Pessoa, disse aos investigadores da Lava-Jato que deu R$ 7,5 milhões à campanha de Dilma no ano passado para não perder negócios com a Petrobras. Aí o barulho foi grande: era o gigante roncando.
Indignados com a indiferença da plateia, Dilma e seus amigos da pesada subiram o tom: depois de Erenice estrelar o escândalo tributário da Operação Zelotes e Rosemary ser denunciada por improbidade administrativa, Fernando Pimentel roubou a cena. O governador de Minas — também conhecido como consultor sobrenatural — teve seu braço-direito, o empresário Bené, preso por suspeita de associação criminosa. Entre as acusações contra o amigo do amigo de Dilma está a origem suspeita de dezenas de milhões de reais em receita de sua gráfica, que atende ao PT. Diante do presépio petista, talvez o FBI achasse que está sendo injusto com a Fifa.
A renúncia de Joseph Blatter após sua reeleição foi um gesto pedagógico. Ou o Brasil se inspira nele, ou assume que quer tomar mais quatro anos de pedaladas. E facadas.
Pizzolato de volta para casa - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 06/06
Será alentador ver o único dos mensaleiros condenados pelo STF que ainda não foi levado ao cumprimento da pena atrás das grades no Brasil
A decisão final da Justiça italiana de extraditar o mensaleiro Henrique Pizzolato, tomada na quinta-feira (4), tem significado mais importante do que pode imaginar a vã filosofia: foi uma lição que o Brasil recebeu sobre como respeitar tratados quando diante de casos em que se requer que cidadãos condenados por crimes cometidos em seus países de origem neles cumpram a pena. Exatamente como no caso de Pizzolato, o ex-diretor do Banco do Brasil incluído entre os membros da quadrilha de mensaleiros condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2012, no histórico julgamento relatado e presidido pelo ex-ministro Joaquim Barbosa.
Do mesmo modo não procedeu o Brasil em 2010 quando solicitado a extraditar para a Itália o homicida Cesare Battisti. Mesmo após entendimento favorável do STF à extradição, por decisão do então presidente Lula em seu último dia de mandato, foi dada a Battisti a condição de refugiado político, evitando assim seu envio ao seu país natal. Já o Ministério da Justiça da Itália no caso Pizzolato preferiu respeitar à risca o acordo bilateral de extradição com Brasil. Na decisão, a corte levou em conta que, mesmo possuindo cidadania italiana, Pizzolato não é um cidadão com residência fixa na Itália, ou seja, não tem vínculo com o país a não ser de origem.
Condenado a 12 anos e 7 meses de prisão por ter se utilizado do cargo para alimentar o mensalão com R$ 74 milhões nos anos de 2003 e 2004 e se apropriar de propina pessoal de R$ 336 mil, Henrique Pizzolato serviu-se de passaporte falso para fugir para a Itália, onde imaginava estar a salvo em razão da dupla cidadania. Descoberto em fevereiro de 2013 em seu esconderijo em Maranello, Norte da Itália, acabou preso pelas autoridades locais para responder, entre outros crimes, por falsidade ideológica. Enquanto isso, os juízes decidiam sobre a legalidade do pedido de extradição feito pelo Brasil.
Após inúmeras apelações do réu e correspondentes recursos brasileiros, a Justiça da Itália por fim confirmou, a extradição de Pizzolato – com a única condição de que ele cumpra sua pena em condições dignas, isto é, sem se misturar aos presos comuns que habitam o Presídio da Papuda, em Brasília. Os advogados do brasileiro ainda ensaiavam um novo recurso, desta feita ao Conselho de Estado italiano, providência que desde logo foi considerada incabível pelo Judiciário do país.
Deu-se, deste modo, o penúltimo capítulo da saga que envolveu Henrique Pizzolato, militante petista que construiu sua carreira política no Paraná. Além de presidir no estado a Central Única dos Trabalhadores (CUT), braço sindical do PT, concorreu por três vezes a eleições majoritárias – uma a vice-prefeito do município de Toledo, uma a governador em 1990 e a última a vice-governador no pleito de 1994, na chapa liderada por Jorge Samek, atual presidente da Itaipu Binacional.
Pelos serviços prestados ao partido, em 2003 foi guindado pelo então presidente Lula à diretoria de marketing do Banco do Brasil, a partir do que – segundo os inquéritos que instruíram a Ação Penal 470 – pode transferir dinheiro público para contas do publicitário Marcos Valério, principal operador do mensalão e condenado a mais de 40 anos de prisão, juntamente com outros 23 réus envolvidos na compra de parlamentares para garantir a maioria da base do governo federal.
Nos próximos dias deveremos assistir ao último capítulo desta novela, ou seja, a viagem de volta de Pizzolato da Itália para o Brasil para cumprir a condenação, que, provavelmente, será acrescida de penas complementares decorrentes da fuga e da perda de benefícios de progressão. Benefícios dos quais, aliás, já se valeu a maioria dos mais notórios participantes do esquema – dentre eles o ex-ministro José Dirceu e o ex-tesoureiro petista Delúbio Soares, que já alcançaram o privilégio de poderem trabalhar fora e de não passarem o dia recolhidos à Papuda. De qualquer modo, será alentador ver o único dos mensaleiros condenados pelo STF que ainda não foi levado ao cumprimento da pena atrás das grades.
Será alentador ver o único dos mensaleiros condenados pelo STF que ainda não foi levado ao cumprimento da pena atrás das grades no Brasil
A decisão final da Justiça italiana de extraditar o mensaleiro Henrique Pizzolato, tomada na quinta-feira (4), tem significado mais importante do que pode imaginar a vã filosofia: foi uma lição que o Brasil recebeu sobre como respeitar tratados quando diante de casos em que se requer que cidadãos condenados por crimes cometidos em seus países de origem neles cumpram a pena. Exatamente como no caso de Pizzolato, o ex-diretor do Banco do Brasil incluído entre os membros da quadrilha de mensaleiros condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2012, no histórico julgamento relatado e presidido pelo ex-ministro Joaquim Barbosa.
Do mesmo modo não procedeu o Brasil em 2010 quando solicitado a extraditar para a Itália o homicida Cesare Battisti. Mesmo após entendimento favorável do STF à extradição, por decisão do então presidente Lula em seu último dia de mandato, foi dada a Battisti a condição de refugiado político, evitando assim seu envio ao seu país natal. Já o Ministério da Justiça da Itália no caso Pizzolato preferiu respeitar à risca o acordo bilateral de extradição com Brasil. Na decisão, a corte levou em conta que, mesmo possuindo cidadania italiana, Pizzolato não é um cidadão com residência fixa na Itália, ou seja, não tem vínculo com o país a não ser de origem.
Condenado a 12 anos e 7 meses de prisão por ter se utilizado do cargo para alimentar o mensalão com R$ 74 milhões nos anos de 2003 e 2004 e se apropriar de propina pessoal de R$ 336 mil, Henrique Pizzolato serviu-se de passaporte falso para fugir para a Itália, onde imaginava estar a salvo em razão da dupla cidadania. Descoberto em fevereiro de 2013 em seu esconderijo em Maranello, Norte da Itália, acabou preso pelas autoridades locais para responder, entre outros crimes, por falsidade ideológica. Enquanto isso, os juízes decidiam sobre a legalidade do pedido de extradição feito pelo Brasil.
Após inúmeras apelações do réu e correspondentes recursos brasileiros, a Justiça da Itália por fim confirmou, a extradição de Pizzolato – com a única condição de que ele cumpra sua pena em condições dignas, isto é, sem se misturar aos presos comuns que habitam o Presídio da Papuda, em Brasília. Os advogados do brasileiro ainda ensaiavam um novo recurso, desta feita ao Conselho de Estado italiano, providência que desde logo foi considerada incabível pelo Judiciário do país.
Deu-se, deste modo, o penúltimo capítulo da saga que envolveu Henrique Pizzolato, militante petista que construiu sua carreira política no Paraná. Além de presidir no estado a Central Única dos Trabalhadores (CUT), braço sindical do PT, concorreu por três vezes a eleições majoritárias – uma a vice-prefeito do município de Toledo, uma a governador em 1990 e a última a vice-governador no pleito de 1994, na chapa liderada por Jorge Samek, atual presidente da Itaipu Binacional.
Pelos serviços prestados ao partido, em 2003 foi guindado pelo então presidente Lula à diretoria de marketing do Banco do Brasil, a partir do que – segundo os inquéritos que instruíram a Ação Penal 470 – pode transferir dinheiro público para contas do publicitário Marcos Valério, principal operador do mensalão e condenado a mais de 40 anos de prisão, juntamente com outros 23 réus envolvidos na compra de parlamentares para garantir a maioria da base do governo federal.
Nos próximos dias deveremos assistir ao último capítulo desta novela, ou seja, a viagem de volta de Pizzolato da Itália para o Brasil para cumprir a condenação, que, provavelmente, será acrescida de penas complementares decorrentes da fuga e da perda de benefícios de progressão. Benefícios dos quais, aliás, já se valeu a maioria dos mais notórios participantes do esquema – dentre eles o ex-ministro José Dirceu e o ex-tesoureiro petista Delúbio Soares, que já alcançaram o privilégio de poderem trabalhar fora e de não passarem o dia recolhidos à Papuda. De qualquer modo, será alentador ver o único dos mensaleiros condenados pelo STF que ainda não foi levado ao cumprimento da pena atrás das grades.
Promiscuidade - ALBERTO DINES
GAZETA DO POVO - PR - 06/06
Com apenas uma hora de depoimento numa delegacia no Brooklyn nova-iorquino, atraiu o FBI americano, desmontou a Fifa, enfiou no xilindró suíço quase uma dezena de cartolas da periferia futebolística mundial, no meio da qual se exibia impune e lampeiro uma estrela de primeira grandeza: o ex-governador do maior e mais rico estado brasileiro, ex-presidente da CBF e agora seu vice, José Maria Marin. Seis dias depois, o terremoto destronou o indestronável imperador do futebol, Joseph “Sepp” Blatter.
O autor desta formidável façanha não é cartola, não é político, não se escondia na sombra: jornalista esportivo no interior de São Paulo (São José do Rio Preto) ralou, ralou, ralou, subiu, subiu, subiu, criou uma empresa de marketing esportivo com o sugestivo nome de Traffic, traficou favores,intermediou negócios de milhões, converteu-se em baronete da mídia interiorana e com o aval do Congresso e do governo obteve em 2003 uma rica concessão de televisão (TV Tem, afiliada da prestigiosa Rede Globo). Segunda a Folha de S. Paulo desta sexta, a emissora atende 318 municípios no rico interior paulista.
J. (de José) Hawilla – Jotinha para os íntimos –“colabora” com o FBI desde o final de 2013. Réu confesso, um ano depois, acertava com as autoridades judiciais americanas o pagamento de uma multa de 151 milhões de dólares.
Quando a direção da entidade suíça passou a exigir dos países-sede das Copas do Mundo estádios, equipamentos e serviços urbanos de altíssima qualidade estabeleceu-se o padrão Fifa. O megaescândalo agora revelado tem exatamente este extravagante e formidável padrão e só começou a ser desmontado graças a uma casualidade: além da mansão de 15 mil metros quadrados em Rio Preto, o exigente Jotinha reside numa propriedade avaliada em oito milhões de dólares na exclusiva Sunset Island, Miami, Flórida, Estados Unidos da América do Norte – paisinho onde há 241 anos as promiscuidades, por mais extensas e sólidas que sejam, costumam ser atalhadas pelas autoridades.
O segredo que tornou a sucursal brasileira da Fifa invencível e inexpugnável é exatamente a promiscuidade. Convivência espúria, conivência despudorada, a CBF é uma traficante de vantagens e privilégios. Embora conste no artigo 1.º dos Estatutos que “goza de peculiar autonomia não estando sujeita a qualquer ingerência estatal”, a CBF tem efetivamente mais poder do que o Ministério dos Esportes. Entidade de direito privado, suas veladas conexões com o Judiciário e o Legislativo a colocam acima do bem e do mal, imune a CPI’s e investigações do Ministério Público.
Blindagem decisiva para garantir sua imunidade, impunidade e sobrevida são os laços que a CBF mantém com a mídia, especializada ou não. A fulgurante carreira do Jotinha Hawilla é paradigmática: em apenas 36 anos o indomável profissional demitido por participar de uma greve delirante que tanto prejudicou a categoria, acerta com a Justiça americana o pagamento de uma multa de quase R$ 500 milhões.
Por mais animado que esteja o Congresso neste momento dificilmente conseguirá identificar, enquadrar e desmontar a promiscuidade que intoxica a mais importante instituição da vida nacional – quase uma religião – o futebol. Para recuperá-la, desintoxicá-la e injetar um pouco de otimismo será indispensável o empenho de outra lendária instituição que carece de façanhas para tirá-la de uma de suas maiores crises: a mídia.
Com apenas uma hora de depoimento numa delegacia no Brooklyn nova-iorquino, atraiu o FBI americano, desmontou a Fifa, enfiou no xilindró suíço quase uma dezena de cartolas da periferia futebolística mundial, no meio da qual se exibia impune e lampeiro uma estrela de primeira grandeza: o ex-governador do maior e mais rico estado brasileiro, ex-presidente da CBF e agora seu vice, José Maria Marin. Seis dias depois, o terremoto destronou o indestronável imperador do futebol, Joseph “Sepp” Blatter.
O autor desta formidável façanha não é cartola, não é político, não se escondia na sombra: jornalista esportivo no interior de São Paulo (São José do Rio Preto) ralou, ralou, ralou, subiu, subiu, subiu, criou uma empresa de marketing esportivo com o sugestivo nome de Traffic, traficou favores,intermediou negócios de milhões, converteu-se em baronete da mídia interiorana e com o aval do Congresso e do governo obteve em 2003 uma rica concessão de televisão (TV Tem, afiliada da prestigiosa Rede Globo). Segunda a Folha de S. Paulo desta sexta, a emissora atende 318 municípios no rico interior paulista.
J. (de José) Hawilla – Jotinha para os íntimos –“colabora” com o FBI desde o final de 2013. Réu confesso, um ano depois, acertava com as autoridades judiciais americanas o pagamento de uma multa de 151 milhões de dólares.
Quando a direção da entidade suíça passou a exigir dos países-sede das Copas do Mundo estádios, equipamentos e serviços urbanos de altíssima qualidade estabeleceu-se o padrão Fifa. O megaescândalo agora revelado tem exatamente este extravagante e formidável padrão e só começou a ser desmontado graças a uma casualidade: além da mansão de 15 mil metros quadrados em Rio Preto, o exigente Jotinha reside numa propriedade avaliada em oito milhões de dólares na exclusiva Sunset Island, Miami, Flórida, Estados Unidos da América do Norte – paisinho onde há 241 anos as promiscuidades, por mais extensas e sólidas que sejam, costumam ser atalhadas pelas autoridades.
O segredo que tornou a sucursal brasileira da Fifa invencível e inexpugnável é exatamente a promiscuidade. Convivência espúria, conivência despudorada, a CBF é uma traficante de vantagens e privilégios. Embora conste no artigo 1.º dos Estatutos que “goza de peculiar autonomia não estando sujeita a qualquer ingerência estatal”, a CBF tem efetivamente mais poder do que o Ministério dos Esportes. Entidade de direito privado, suas veladas conexões com o Judiciário e o Legislativo a colocam acima do bem e do mal, imune a CPI’s e investigações do Ministério Público.
Blindagem decisiva para garantir sua imunidade, impunidade e sobrevida são os laços que a CBF mantém com a mídia, especializada ou não. A fulgurante carreira do Jotinha Hawilla é paradigmática: em apenas 36 anos o indomável profissional demitido por participar de uma greve delirante que tanto prejudicou a categoria, acerta com a Justiça americana o pagamento de uma multa de quase R$ 500 milhões.
Por mais animado que esteja o Congresso neste momento dificilmente conseguirá identificar, enquadrar e desmontar a promiscuidade que intoxica a mais importante instituição da vida nacional – quase uma religião – o futebol. Para recuperá-la, desintoxicá-la e injetar um pouco de otimismo será indispensável o empenho de outra lendária instituição que carece de façanhas para tirá-la de uma de suas maiores crises: a mídia.
Coisa nossa - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 06/06
Condenado fazendo comício político, usando blog para comentar os acontecimentos, dando orientações sobre votações no Congresso, são coisas nossas e apartidárias. Não é apenas José Dirceu quem tem blog, seu delator Roberto Jefferson também, e ambos participam ativamente da política, dando palpites sobre o que está acontecendo, contra ou a favor do governo.
Jefferson, mesmo em prisão domiciliar, está de bem com a vida depois de ter casado em grande estilo, com direito a tirar um sarro de seu mais famoso inimigo. Ao lembrar a frase emblemática dirigida a Dirceu em transmissão pela televisão - "Você provoca em mim os instintos mais primitivos" -, ele disse a sua noiva que ela lhe inspirava "os mais deliciosos instintos primitivos".
Em seu blog, ele afirma através de interpostas pessoas que o governo beneficiou a empreiteira Odebrecht com os financiamentos do BNDES. Já Dirceu tem aparecido abatido, e continua às voltas com outro processo, o do petrolão, onde é investigado pelo Ministério Público pelas consultorias que deu a empreiteiras envolvidas na Lava-Jato, que seriam meros disfarces para propinas vindas da Petrobras.
Ele tem usado seu blog para se defender, acusando o doleiro Alberto Youssef de inventar as denúncias contra ele. Mas também participa da discussão política, ora defendendo a posição do governo contra o aumento da maioridade penal, ora rebatendo a tentativa do Congresso de controlar as nomeações nas estatais.
Mas pelo menos eles fingem algum constrangimento, e os blogs são escritos por "amigos" e "assessores", mesmo que o que se lê ali seja claramente a opinião pessoal dos condenados.
Pois o petista João Paulo Cunha, o ex-presidente da Câmara condenado por peculato e corrupção no processo do mensalão, foi flagrado pela "Folha" em uma reunião política em Osasco, seu reduto eleitoral. Digo flagrado porque os companheiros que atenderam ao convite para "bater um papo ao sabor da conjuntura e outras lembranças" recebiam instruções para não fotografar nem postar notícias nas redes sociais, e, portanto, o encontro não era para se tornar público.
Ele cumpre a pena em regime aberto em Brasília e recebeu permissão para ir a São Paulo comemorar seu aniversário. Os condenados pelo mensalão tiveram seus direitos políticos suspensos e não podem se candidatar a nada. Mas, ironicamente, há uma discussão sobre se podem ou não se filiar a partidos políticos, ou se podem participar de reuniões partidárias.
Outro condenado, Valdemar Costa Neto ignora eventuais restrições e faz reuniões políticas do PR, que ainda controla, orientando o partido sobre como votar no Congresso. Ao que se sabe, apenas as transgressões mais óbvias são punidas.
Flagrado tomando cerveja com amigos em um bar da Zona Sul de BH, o ex-deputado federal Romeu Queiroz, condenado a seis anos e seis meses de prisão por envolvimento no mensalão, perdeu os benefícios de trabalho externo e saídas temporárias.
João Paulo Cunha, por exemplo, fez ampla análise política da situação, admitindo até que o PT errou no mensalão, e voltou a errar no petrolão. Não entrou em detalhes sobre esses erros, sem deixar claro se estava admitindo os crimes pelos quais foi condenado, ou se o erro a que se referia era o de terem sido apanhados.
De qualquer maneira, a comemoração do aniversário de João Paulo Cunha foi bastante proveitosa para ele como líder político. Reuniu sua tropa política para estabelecer estratégias para a eleição municipal de 2016, e, hoje, tinha marcada reunião com grupos de sindicalistas.
Na eleição de 2012, ele era candidato favorito à prefeitura de Osasco quando teve que renunciar devido à condenação no mensalão. O então prefeito Emídio de Souza hoje é presidente do PT paulista e também esteve com João Paulo Cunha trocando ideias sobre "a conjuntura".
As atividades políticas, encobertas ou não, não são restringidas pela Justiça, que tende a ser condescendente com esse tipo de burla da punição. Mas, se os políticos foram condenados justamente por terem atividades políticas irregulares, misturadas a diversos crimes, como permitir que continuem a manter tal atividade que está no cerne de suas condenações?
Condenado fazendo comício político, usando blog para comentar os acontecimentos, dando orientações sobre votações no Congresso, são coisas nossas e apartidárias. Não é apenas José Dirceu quem tem blog, seu delator Roberto Jefferson também, e ambos participam ativamente da política, dando palpites sobre o que está acontecendo, contra ou a favor do governo.
Jefferson, mesmo em prisão domiciliar, está de bem com a vida depois de ter casado em grande estilo, com direito a tirar um sarro de seu mais famoso inimigo. Ao lembrar a frase emblemática dirigida a Dirceu em transmissão pela televisão - "Você provoca em mim os instintos mais primitivos" -, ele disse a sua noiva que ela lhe inspirava "os mais deliciosos instintos primitivos".
Em seu blog, ele afirma através de interpostas pessoas que o governo beneficiou a empreiteira Odebrecht com os financiamentos do BNDES. Já Dirceu tem aparecido abatido, e continua às voltas com outro processo, o do petrolão, onde é investigado pelo Ministério Público pelas consultorias que deu a empreiteiras envolvidas na Lava-Jato, que seriam meros disfarces para propinas vindas da Petrobras.
Ele tem usado seu blog para se defender, acusando o doleiro Alberto Youssef de inventar as denúncias contra ele. Mas também participa da discussão política, ora defendendo a posição do governo contra o aumento da maioridade penal, ora rebatendo a tentativa do Congresso de controlar as nomeações nas estatais.
Mas pelo menos eles fingem algum constrangimento, e os blogs são escritos por "amigos" e "assessores", mesmo que o que se lê ali seja claramente a opinião pessoal dos condenados.
Pois o petista João Paulo Cunha, o ex-presidente da Câmara condenado por peculato e corrupção no processo do mensalão, foi flagrado pela "Folha" em uma reunião política em Osasco, seu reduto eleitoral. Digo flagrado porque os companheiros que atenderam ao convite para "bater um papo ao sabor da conjuntura e outras lembranças" recebiam instruções para não fotografar nem postar notícias nas redes sociais, e, portanto, o encontro não era para se tornar público.
Ele cumpre a pena em regime aberto em Brasília e recebeu permissão para ir a São Paulo comemorar seu aniversário. Os condenados pelo mensalão tiveram seus direitos políticos suspensos e não podem se candidatar a nada. Mas, ironicamente, há uma discussão sobre se podem ou não se filiar a partidos políticos, ou se podem participar de reuniões partidárias.
Outro condenado, Valdemar Costa Neto ignora eventuais restrições e faz reuniões políticas do PR, que ainda controla, orientando o partido sobre como votar no Congresso. Ao que se sabe, apenas as transgressões mais óbvias são punidas.
Flagrado tomando cerveja com amigos em um bar da Zona Sul de BH, o ex-deputado federal Romeu Queiroz, condenado a seis anos e seis meses de prisão por envolvimento no mensalão, perdeu os benefícios de trabalho externo e saídas temporárias.
João Paulo Cunha, por exemplo, fez ampla análise política da situação, admitindo até que o PT errou no mensalão, e voltou a errar no petrolão. Não entrou em detalhes sobre esses erros, sem deixar claro se estava admitindo os crimes pelos quais foi condenado, ou se o erro a que se referia era o de terem sido apanhados.
De qualquer maneira, a comemoração do aniversário de João Paulo Cunha foi bastante proveitosa para ele como líder político. Reuniu sua tropa política para estabelecer estratégias para a eleição municipal de 2016, e, hoje, tinha marcada reunião com grupos de sindicalistas.
Na eleição de 2012, ele era candidato favorito à prefeitura de Osasco quando teve que renunciar devido à condenação no mensalão. O então prefeito Emídio de Souza hoje é presidente do PT paulista e também esteve com João Paulo Cunha trocando ideias sobre "a conjuntura".
As atividades políticas, encobertas ou não, não são restringidas pela Justiça, que tende a ser condescendente com esse tipo de burla da punição. Mas, se os políticos foram condenados justamente por terem atividades políticas irregulares, misturadas a diversos crimes, como permitir que continuem a manter tal atividade que está no cerne de suas condenações?
Reforma federativa urgente - NELSON PAES LEME
O GLOBO - 06/06
De nada adianta a discussão sobre voto distrital se, no Brasil, do ponto de vista da estrutura federativa constitucional originária, o distrito em si simplesmente inexiste
No momento em que o Congresso rechaça a proposta do vice-presidente da República que ressuscitava o distritão como fórmula conciliadora entre o voto distrital propugnado pelo senador José Serra e o nosso atual e absurdo sistema proporcional, vale a reflexão sobre alguns impasses insuperáveis nessa discussão quanto à verdadeira esquizofrenia da nossa organização federativa. A divisão territorial do Brasil, em face do sistema federativo vigente, é sério obstáculo para uma reforma política do Estado realmente abrangente e eficiente. Era a tese do maior especialista em direito municipal do Brasil, o saudoso professor mineiro José Nilo de Castro, em seu pós-doutorado na Sorbonne. Temos municípios de mil almas e outros de milhões de habitantes com as mesmas leis infraconstitucionais político-administrativas e tributárias a regê-los como se fossem entes idênticos.
Acresçam-se a isso as disparidades demográficas, com gigantescas megalópoles superpopuladas no Centro-Sul, contrastando com esparsos núcleos populacionais no Centro-Norte, e temos aí mais um ingrediente de uma política totalmente distorcida, a exigir reformas de base em seu arcabouço constitucional. Portugal cabe duas vezes dentro do gigantesco município de Altamira, no Pará, para se ter ideia. E enquanto Roraima tem apenas 15 municípios, Minas Gerais tem mais de 850 dos mais de 5.500 espalhados dessa forma desproporcional Brasil afora. Nosso primeiro desafio, portanto, é a criação de um distrito federado padrão, minimamente administrável, com autonomia político-representativa e articulado com os demais entes federados: União, estados e com os próprios municípios. Precisamos urgentemente repensar a nossa Federação.
Esse é o primeiro grande obstáculo a vencer para partir para o segundo: a implantação do voto distrital misto em universo demográfico tão irregular num país de dimensões continentais. De nada adianta a discussão sobre o voto distrital em si se, no Brasil, do ponto de vista de sua estrutura federativa constitucional originária, o distrito em si simplesmente inexiste. Ora, como implantar o voto distrital, quer puro ou misto, onde não há o distrito, ele mesmo, como ente mínimo federado e o que existe são municípios cada vez mais inviáveis administrativamente, de populações e áreas totalmente díspares e imprevisíveis? Quantos distritos do tamanho do menor município do Brasil, Serra da Saudade, em Minas Gerais, com menos de mil habitantes, caberiam, por exemplo, dentro do mais populoso, São Paulo, com 11 milhões de pessoas?
A mera subdivisão em regiões administrativas, como já se tem ensaiado sem sucesso, nos grandes centros urbanos, também não resolve esse problema de fundo que se procura contornar com inúteis remendos. Isso porque a falta de autonomia e a inexpressividade real desses retalhos improvisados nos gabinetes, pouca ou quase nenhuma eficiência política lhes traz, por falta de legitimidade e representatividade.
De outro lado, a reforma federativa presume um novo pacto. A própria origem semântica do verbete federativo vem de foedus, que, em latim, significa pacto, aliança. E, nesse sentido, a intangibilidade do pacto constitucional pétreo firmado e consubstanciado no parágrafo quarto do artigo 60 de nossa Carta Magna não proíbe ou exclui, absolutamente, seu aperfeiçoamento, como aqui proposto, por emenda constitucional. Todas as instâncias de participação popular, nesta fase, devem ser bem recebidas a se engajar nessa inadiável discussão sobre a revisão da nossa estrutura federativa como ponto de partida para a recepção do voto distrital em nível nacional, de preferência misto.
Os demais itens da reforma política, tais como o financiamento público ou privado de campanhas; a propaganda (gratuita para os políticos mas paga por nossos impostos); coligações; exacerbado e descontrolado pluripartidarismo; tempo de propaganda; limites éticos dos discursos e da publicidade; a cláusula de barreira; o voto de legenda; as odiosas imunidades parlamentares; e tantos e tantos outros temas candentes devem se submeter a essa prioridade.A parte menos trabalhosa é a implantação do voto distrital em si. Não há falta de modelos e subsídios teóricos. Há mesmo um site especializado (www.euvotodistrital.org.br), dedicado exclusivamente ao tema. Não será difícil, portanto, chegar-se a um consenso no Congresso e na academia.
autorização.
De nada adianta a discussão sobre voto distrital se, no Brasil, do ponto de vista da estrutura federativa constitucional originária, o distrito em si simplesmente inexiste
No momento em que o Congresso rechaça a proposta do vice-presidente da República que ressuscitava o distritão como fórmula conciliadora entre o voto distrital propugnado pelo senador José Serra e o nosso atual e absurdo sistema proporcional, vale a reflexão sobre alguns impasses insuperáveis nessa discussão quanto à verdadeira esquizofrenia da nossa organização federativa. A divisão territorial do Brasil, em face do sistema federativo vigente, é sério obstáculo para uma reforma política do Estado realmente abrangente e eficiente. Era a tese do maior especialista em direito municipal do Brasil, o saudoso professor mineiro José Nilo de Castro, em seu pós-doutorado na Sorbonne. Temos municípios de mil almas e outros de milhões de habitantes com as mesmas leis infraconstitucionais político-administrativas e tributárias a regê-los como se fossem entes idênticos.
Acresçam-se a isso as disparidades demográficas, com gigantescas megalópoles superpopuladas no Centro-Sul, contrastando com esparsos núcleos populacionais no Centro-Norte, e temos aí mais um ingrediente de uma política totalmente distorcida, a exigir reformas de base em seu arcabouço constitucional. Portugal cabe duas vezes dentro do gigantesco município de Altamira, no Pará, para se ter ideia. E enquanto Roraima tem apenas 15 municípios, Minas Gerais tem mais de 850 dos mais de 5.500 espalhados dessa forma desproporcional Brasil afora. Nosso primeiro desafio, portanto, é a criação de um distrito federado padrão, minimamente administrável, com autonomia político-representativa e articulado com os demais entes federados: União, estados e com os próprios municípios. Precisamos urgentemente repensar a nossa Federação.
Esse é o primeiro grande obstáculo a vencer para partir para o segundo: a implantação do voto distrital misto em universo demográfico tão irregular num país de dimensões continentais. De nada adianta a discussão sobre o voto distrital em si se, no Brasil, do ponto de vista de sua estrutura federativa constitucional originária, o distrito em si simplesmente inexiste. Ora, como implantar o voto distrital, quer puro ou misto, onde não há o distrito, ele mesmo, como ente mínimo federado e o que existe são municípios cada vez mais inviáveis administrativamente, de populações e áreas totalmente díspares e imprevisíveis? Quantos distritos do tamanho do menor município do Brasil, Serra da Saudade, em Minas Gerais, com menos de mil habitantes, caberiam, por exemplo, dentro do mais populoso, São Paulo, com 11 milhões de pessoas?
A mera subdivisão em regiões administrativas, como já se tem ensaiado sem sucesso, nos grandes centros urbanos, também não resolve esse problema de fundo que se procura contornar com inúteis remendos. Isso porque a falta de autonomia e a inexpressividade real desses retalhos improvisados nos gabinetes, pouca ou quase nenhuma eficiência política lhes traz, por falta de legitimidade e representatividade.
De outro lado, a reforma federativa presume um novo pacto. A própria origem semântica do verbete federativo vem de foedus, que, em latim, significa pacto, aliança. E, nesse sentido, a intangibilidade do pacto constitucional pétreo firmado e consubstanciado no parágrafo quarto do artigo 60 de nossa Carta Magna não proíbe ou exclui, absolutamente, seu aperfeiçoamento, como aqui proposto, por emenda constitucional. Todas as instâncias de participação popular, nesta fase, devem ser bem recebidas a se engajar nessa inadiável discussão sobre a revisão da nossa estrutura federativa como ponto de partida para a recepção do voto distrital em nível nacional, de preferência misto.
Os demais itens da reforma política, tais como o financiamento público ou privado de campanhas; a propaganda (gratuita para os políticos mas paga por nossos impostos); coligações; exacerbado e descontrolado pluripartidarismo; tempo de propaganda; limites éticos dos discursos e da publicidade; a cláusula de barreira; o voto de legenda; as odiosas imunidades parlamentares; e tantos e tantos outros temas candentes devem se submeter a essa prioridade.A parte menos trabalhosa é a implantação do voto distrital em si. Não há falta de modelos e subsídios teóricos. Há mesmo um site especializado (www.euvotodistrital.org.br), dedicado exclusivamente ao tema. Não será difícil, portanto, chegar-se a um consenso no Congresso e na academia.
autorização.
Dolorosa realidade - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE -06/06
Parece um saco de maldades. E é. Mas as notícias cada vez piores que marcaram a semana não partem de banqueiros interessados em tirar a comida da boca dos pobres, como foi propagado pela campanha de reeleição da candidata oficial. Todo aquele discurso foi, na verdade, biombo para ocultar a enorme trapalhada com que o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff atirou a economia brasileira no poço profundo do desequilíbrio fiscal, inflação acelerada, recessão, desemprego e sérias ameaças às recentes conquistas sociais.
Na quarta-feira, o Banco Central (BC) deu mais uma volta no torniquete da política monetária. Aumentou de novo a taxa básica de juros para 13,75% ao ano. Já é uma das mais altas do mundo, mas a própria autoridade monetária não esconde que o aperto não vai parar por aí. Pura maldade, já que isso reduz o acesso das pessoas ao consumo de bens e serviços? O aumento do custo da dívida pública via pagamento de juros não atira contra o equilíbrio fiscal?
É por essas vias simplistas (para dizer o mínimo) que muitos críticos da alta dos juros fingem não entender o que de fato move a decisão da diretoria do BC. Ninguém duvida de que seria muito mais agradável deixar o consumo correr solto. As pessoas continuariam com a ilusão de viver em país próspero e, portanto, mais propensas a votar na continuidade do governo.
Foi exatamente esse castelo de areia erguido nos últimos anos que ruiu. Agora, passada a eleição, não há mais como esconder os escombros. O aperto nas taxas de juros é, portanto, nada mais do que um dos ingredientes do remédio amargo que a sociedade é obrigada a tomar para se livrar das consequências da equivocada, para não dizer irresponsável, condução da política econômica.
Na mesma quarta-feira, não faltou quem criticasse o Banco Central por não ter acompanhado a divulgação, pela manhã, do resultado da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): o desemprego fechou o trimestre móvel encerrado em abril com mais um aumento, passando a 8%. É o nível mais elevado desde o início da série, em 2012.
Somado às baixas taxas de confiança de empresários e consumidores e ao recuo dos investimentos em expansão dos negócios (capital fixo) no primeiro trimestre, o nível de desemprego medido em todo o país pode piorar nos próximos meses. A crítica parte da equivocada comparação com decisões do banco central norte-americano, que tem nos níveis de emprego dos EUA um dos parâmetros usados para decidir sobre os juros. Não somos economia desenvolvida financeira e tecnologicamente como a deles. Não atraímos capitais com tanta facilidade e não temos a mesma capacidade de resposta.
Por isso mesmo, nem todas as decisões de política econômica tomadas em Washington podem ser replicadas por Brasília. Melhor mesmo é mirarmos sem falsetes a nossa realidade, compreender que não temos saída senão reconhecer o enorme peso dos erros aqui cometidos e enfrentar a dureza do ajuste. Além disso, é fundamental oferecer à sociedade, hoje exposta ao sacrifício, um plano factível de retomada do crescimento na fase seguinte, sem as fantasias e bravatas que nos levaram à calamitosa situação atual.
Parece um saco de maldades. E é. Mas as notícias cada vez piores que marcaram a semana não partem de banqueiros interessados em tirar a comida da boca dos pobres, como foi propagado pela campanha de reeleição da candidata oficial. Todo aquele discurso foi, na verdade, biombo para ocultar a enorme trapalhada com que o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff atirou a economia brasileira no poço profundo do desequilíbrio fiscal, inflação acelerada, recessão, desemprego e sérias ameaças às recentes conquistas sociais.
Na quarta-feira, o Banco Central (BC) deu mais uma volta no torniquete da política monetária. Aumentou de novo a taxa básica de juros para 13,75% ao ano. Já é uma das mais altas do mundo, mas a própria autoridade monetária não esconde que o aperto não vai parar por aí. Pura maldade, já que isso reduz o acesso das pessoas ao consumo de bens e serviços? O aumento do custo da dívida pública via pagamento de juros não atira contra o equilíbrio fiscal?
É por essas vias simplistas (para dizer o mínimo) que muitos críticos da alta dos juros fingem não entender o que de fato move a decisão da diretoria do BC. Ninguém duvida de que seria muito mais agradável deixar o consumo correr solto. As pessoas continuariam com a ilusão de viver em país próspero e, portanto, mais propensas a votar na continuidade do governo.
Foi exatamente esse castelo de areia erguido nos últimos anos que ruiu. Agora, passada a eleição, não há mais como esconder os escombros. O aperto nas taxas de juros é, portanto, nada mais do que um dos ingredientes do remédio amargo que a sociedade é obrigada a tomar para se livrar das consequências da equivocada, para não dizer irresponsável, condução da política econômica.
Na mesma quarta-feira, não faltou quem criticasse o Banco Central por não ter acompanhado a divulgação, pela manhã, do resultado da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): o desemprego fechou o trimestre móvel encerrado em abril com mais um aumento, passando a 8%. É o nível mais elevado desde o início da série, em 2012.
Somado às baixas taxas de confiança de empresários e consumidores e ao recuo dos investimentos em expansão dos negócios (capital fixo) no primeiro trimestre, o nível de desemprego medido em todo o país pode piorar nos próximos meses. A crítica parte da equivocada comparação com decisões do banco central norte-americano, que tem nos níveis de emprego dos EUA um dos parâmetros usados para decidir sobre os juros. Não somos economia desenvolvida financeira e tecnologicamente como a deles. Não atraímos capitais com tanta facilidade e não temos a mesma capacidade de resposta.
Por isso mesmo, nem todas as decisões de política econômica tomadas em Washington podem ser replicadas por Brasília. Melhor mesmo é mirarmos sem falsetes a nossa realidade, compreender que não temos saída senão reconhecer o enorme peso dos erros aqui cometidos e enfrentar a dureza do ajuste. Além disso, é fundamental oferecer à sociedade, hoje exposta ao sacrifício, um plano factível de retomada do crescimento na fase seguinte, sem as fantasias e bravatas que nos levaram à calamitosa situação atual.
Os legados do mensalão - IGOR GIELOW
FOLHA DE SP - 06/06
BRASÍLIA - Há dez anos, a jornalista Renata Lo Prete abria, ao apresentar Roberto Jefferson sem censura nas páginas desta Folha, o capítulo do mensalão na história política brasileira. Encerrado o plantão aqui na Sucursal de Brasília naquele fim de semana, me perguntei internamente algo como: "Onde será que isso vai parar?".
Os efeitos do escândalo ainda se fazem sentir no cotidiano. Se imperfeita, a investigação do caso levou a um julgamento conturbado e sem precedentes: a elite do grupo que comandava o país foi parar na cadeia.
A mão de ferro de Joaquim Barbosa na condução do processo é passível de críticas, mas é fato que um novo padrão foi estabelecido na relação entre sociedade e Judiciário.
Não só para bem. Expectativas maiores também geram inspiração justiceira em alguns magistrados, a exemplo do que já acontecera no passado com procuradores e delegados, mas o saldo é positivo.
A corrupção, claro, não desapareceu. Ao contrário, sofisticou-se, como o esquema desvendado na Lava Jato aponta. Mas parâmetros mudaram: sem o destino do maior punido no mensalão, o operador Marcos Valério, não haveria a oferta de delações premiadas de hoje.
Na política, o legado maior do episódio foi a exposição pública da engrenagem que o PT montou uma vez no poder. A imagem algo romântica do partido estilhaçou-se, iniciando simbolicamente um processo de desintegração que parece atingir seu auge agora, uma década depois.
Por fim, o mensalão marca também o começo de um aparentemente infindável movimento de descrédito na política. Um efeito colateral cheio de contradições, que mistura a crescente apatia com episódios como o junho de 2013, além de estimular ao paroxismo o radicalismo da manada algorítmica das redes sociais.
Afinal, onde aquilo foi parar? Descontando as dores naturais do crescimento, num país um pouco melhor.
BRASÍLIA - Há dez anos, a jornalista Renata Lo Prete abria, ao apresentar Roberto Jefferson sem censura nas páginas desta Folha, o capítulo do mensalão na história política brasileira. Encerrado o plantão aqui na Sucursal de Brasília naquele fim de semana, me perguntei internamente algo como: "Onde será que isso vai parar?".
Os efeitos do escândalo ainda se fazem sentir no cotidiano. Se imperfeita, a investigação do caso levou a um julgamento conturbado e sem precedentes: a elite do grupo que comandava o país foi parar na cadeia.
A mão de ferro de Joaquim Barbosa na condução do processo é passível de críticas, mas é fato que um novo padrão foi estabelecido na relação entre sociedade e Judiciário.
Não só para bem. Expectativas maiores também geram inspiração justiceira em alguns magistrados, a exemplo do que já acontecera no passado com procuradores e delegados, mas o saldo é positivo.
A corrupção, claro, não desapareceu. Ao contrário, sofisticou-se, como o esquema desvendado na Lava Jato aponta. Mas parâmetros mudaram: sem o destino do maior punido no mensalão, o operador Marcos Valério, não haveria a oferta de delações premiadas de hoje.
Na política, o legado maior do episódio foi a exposição pública da engrenagem que o PT montou uma vez no poder. A imagem algo romântica do partido estilhaçou-se, iniciando simbolicamente um processo de desintegração que parece atingir seu auge agora, uma década depois.
Por fim, o mensalão marca também o começo de um aparentemente infindável movimento de descrédito na política. Um efeito colateral cheio de contradições, que mistura a crescente apatia com episódios como o junho de 2013, além de estimular ao paroxismo o radicalismo da manada algorítmica das redes sociais.
Afinal, onde aquilo foi parar? Descontando as dores naturais do crescimento, num país um pouco melhor.
Edinho, amor e ódio - DEMÉTRIO MAGNOLI
FOLHA DE SP - 06/06
"Todo brasileiro já nasce sabendo conviver com as diferenças", diz a mensagem publicitária da Caixa, ilustrada por um garoto que veste uma camiseta com as cores de todos os times patrocinados pelo banco estatal. A Caixa não prega a tolerância por decisão própria, mas seguindo uma orientação do ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Edinho Silva. O menor dos problemas da campanha publicitária é que evidencia, uma vez mais, a apropriação partidária das estatais. O maior é que difunde um equívoco conceitual: a tolerância não é atributo inato de ninguém.
Guido Mantega, Alexandre Padilha e Fernando Haddad sofreram vaias e ofensas, respectivamente, num hospital, num restaurante e no teatro. A campanha de Edinho foi deflagrada como reação a ocorrências desse tipo, que atingem lideranças do PT. Os malcriados que se aproveitam do clima político nacional para constranger petistas só merecem desprezo: numa sociedade decente, políticos devem ter a liberdade de circular como cidadãos comuns sem serem importunados. Contudo o governo lembrou-se muito tarde da importância do amor –e finge não saber quem moveu o peão das brancas.
Nos tempos do mensalão, um assessor da deputada Erika Kokay (PT-DF) perseguiu Joaquim Barbosa em restaurantes de Brasília para ofendê-lo. Quando a blogueira cubana Yoani Sánchez visitou o Brasil, chusmas de militantes do PT e do PC do B foram orientados pela embaixada de Cuba a melar os lançamentos de seu livro. Um bando de militantes petistas impediu, pelo vandalismo, a realização de um debate com minha participação na Festa Literária Internacional de Cachoeira (BA). Tais episódios, entre tantos outros, tiveram como protagonistas grupos partidários organizados, não indivíduos isolados. O ódio era política oficial, antes da descoberta do amor.
A tolerância é um aprendizado democrático. Ela só prevalece se o outro não é visto como inimigo, mas como um de nós. A metáfora da Caixa é adequada, pois todos os times pertencem à mesma pátria: o futebol. Contudo, no poder, o lulopetismo ensinou o contrário disso. A pedagogia oficial do ódio assevera que o país se divide em "nós" e "eles". Mais: diz que "eles" não são brasileiros com opiniões políticas diferentes, mas estrangeiros ideológicos. Você será qualificado de racista se divergir das políticas raciais; de inimigo do povo, se contestar o populismo econômico; de agente das multinacionais, se apontar a ingerência partidária na Petrobras; de golpista, se criticar o governo. Na pátria que se confunde com o partido, dissentir equivale a trair.
A súbita irrupção do amor oficial não cancelou o ódio oficial. Dilma Rousseff insiste na fórmula binária dos "predadores internos" (leia-se: os corruptos) e dos "inimigos externos" (leia-se: a oposição) sempre que menciona a Petrobras. A palavra "golpismo" tornou-se marca registrada dos pronunciamentos do PT. A proposta de resolução partidária da corrente petista integrada pelo ministro José Eduardo Cardozo e pelo ex-ministro Tarso Genro denuncia um "golpismo econômico" que estaria materializado nas políticas de ajuste fiscal conduzidas por Joaquim Levy. Edinho é do amor, mas sua chefe e seu partido são do ódio.
Edinho é do amor? Com uma mão, a Caixa lançou sua nova campanha. Com a outra, prossegue sua antiga campanha de financiamento dos blogs oficialistas consagrados à difamação sistemática da oposição, dos críticos do governo e de juízes encarregados dos escândalos de corrupção. Jatos de puro ódio cintilam sob a película do amor.
Suspeito que, tipicamente, algum malcriado sugeriu que Mantega, Padilha ou Haddad se transfira para Cuba. É o avesso simétrico do que ensina há tanto tempo o lulopetismo. Os malcriados aprenderam um método, assimilaram uma linguagem. Dizem, agora, que o "estrangeiro" é o PT. De certo modo, o PT venceu.
"Todo brasileiro já nasce sabendo conviver com as diferenças", diz a mensagem publicitária da Caixa, ilustrada por um garoto que veste uma camiseta com as cores de todos os times patrocinados pelo banco estatal. A Caixa não prega a tolerância por decisão própria, mas seguindo uma orientação do ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Edinho Silva. O menor dos problemas da campanha publicitária é que evidencia, uma vez mais, a apropriação partidária das estatais. O maior é que difunde um equívoco conceitual: a tolerância não é atributo inato de ninguém.
Guido Mantega, Alexandre Padilha e Fernando Haddad sofreram vaias e ofensas, respectivamente, num hospital, num restaurante e no teatro. A campanha de Edinho foi deflagrada como reação a ocorrências desse tipo, que atingem lideranças do PT. Os malcriados que se aproveitam do clima político nacional para constranger petistas só merecem desprezo: numa sociedade decente, políticos devem ter a liberdade de circular como cidadãos comuns sem serem importunados. Contudo o governo lembrou-se muito tarde da importância do amor –e finge não saber quem moveu o peão das brancas.
Nos tempos do mensalão, um assessor da deputada Erika Kokay (PT-DF) perseguiu Joaquim Barbosa em restaurantes de Brasília para ofendê-lo. Quando a blogueira cubana Yoani Sánchez visitou o Brasil, chusmas de militantes do PT e do PC do B foram orientados pela embaixada de Cuba a melar os lançamentos de seu livro. Um bando de militantes petistas impediu, pelo vandalismo, a realização de um debate com minha participação na Festa Literária Internacional de Cachoeira (BA). Tais episódios, entre tantos outros, tiveram como protagonistas grupos partidários organizados, não indivíduos isolados. O ódio era política oficial, antes da descoberta do amor.
A tolerância é um aprendizado democrático. Ela só prevalece se o outro não é visto como inimigo, mas como um de nós. A metáfora da Caixa é adequada, pois todos os times pertencem à mesma pátria: o futebol. Contudo, no poder, o lulopetismo ensinou o contrário disso. A pedagogia oficial do ódio assevera que o país se divide em "nós" e "eles". Mais: diz que "eles" não são brasileiros com opiniões políticas diferentes, mas estrangeiros ideológicos. Você será qualificado de racista se divergir das políticas raciais; de inimigo do povo, se contestar o populismo econômico; de agente das multinacionais, se apontar a ingerência partidária na Petrobras; de golpista, se criticar o governo. Na pátria que se confunde com o partido, dissentir equivale a trair.
A súbita irrupção do amor oficial não cancelou o ódio oficial. Dilma Rousseff insiste na fórmula binária dos "predadores internos" (leia-se: os corruptos) e dos "inimigos externos" (leia-se: a oposição) sempre que menciona a Petrobras. A palavra "golpismo" tornou-se marca registrada dos pronunciamentos do PT. A proposta de resolução partidária da corrente petista integrada pelo ministro José Eduardo Cardozo e pelo ex-ministro Tarso Genro denuncia um "golpismo econômico" que estaria materializado nas políticas de ajuste fiscal conduzidas por Joaquim Levy. Edinho é do amor, mas sua chefe e seu partido são do ódio.
Edinho é do amor? Com uma mão, a Caixa lançou sua nova campanha. Com a outra, prossegue sua antiga campanha de financiamento dos blogs oficialistas consagrados à difamação sistemática da oposição, dos críticos do governo e de juízes encarregados dos escândalos de corrupção. Jatos de puro ódio cintilam sob a película do amor.
Suspeito que, tipicamente, algum malcriado sugeriu que Mantega, Padilha ou Haddad se transfira para Cuba. É o avesso simétrico do que ensina há tanto tempo o lulopetismo. Os malcriados aprenderam um método, assimilaram uma linguagem. Dizem, agora, que o "estrangeiro" é o PT. De certo modo, o PT venceu.
O preço da gestão desastrosa - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S. Paulo - 06/06
Ainda que consiga atenuar as perdas financeiras e de credibilidade causadas pelo esquema de rapinagem apurado pela Operação Lava Jato, a Petrobrás continuará tendo sérias dificuldades para executar seus programas de prospecção, produção, refino e distribuição, como ela própria reconhece oficialmente.
Os preços dos derivados de petróleo, bem como seu programa de investimentos, continuarão sujeitos a decisões de seu controlador, o governo federal, razão pela qual a estatal poderá ser forçada a colocar em segundo plano a busca de seus objetivos para atender aos interesses do Palácio do Planalto. Isso afeta suas projeções financeiras. A primeira consequência é que ela não conseguirá executar seu ambicioso programa de investimentos contando apenas com o fluxo operacional de caixa. Precisará de dinheiro de outras fontes, como aportes de seu controlador – o Tesouro Nacional – ou financiamentos internacionais.
Também em crise financeira, o Tesouro precisa cortar suas despesas e não terá como financiar os investimentos da estatal no volume e na velocidade requeridos pelo programa de pesquisa e exploração.
O mercado financeiro parece disposto a emprestar para uma empresa que, apesar de sua profunda crise no momento, tem boas perspectivas de crescimento. Mas só empresta a juros em que incorrem as empresas de baixa credibilidade, como é hoje a Petrobrás.
A surpreendente operação de US$ 2,5 bilhões com bônus de 100 anos que a empresa acaba de concluir mostra isso. É sua primeira captação internacional desde março do ano passado, quando o bilionário esquema de corrupção começou a ser conhecido. Mas o custo da operação, de 8,45% ao ano, é o de empresas com classificação ruim pelas agências de avaliação de risco. Empresas e governos confiáveis pagam bem menos, como fez o México, que em abril captou € 1,5 bilhão pagando 4,2% ao ano.
O imenso poço de problemas em que foi transformada por seu continuado uso político pelo governo petista e, sobretudo, pelo esquema de corrupção está em parte descrito com realismo no documento que a Petrobrás encaminhou na semana passada à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), relatando sua atual situação econômico-financeira e apontando os fatores de risco que podem comprometer seu desempenho no futuro próximo.
Trata-se do Formulário de Referência, documento que as empresas que emitem ações precisam entregar à CVM no prazo de cinco meses após o encerramento do exercício financeiro. Ele contém, entre outras, informações sobre mudanças na estrutura de capital, dados financeiros e fatores de risco sobre as operações e os resultados futuros.
No documento, a Petrobrás reconheceu que poderá “não ser capaz de compensar totalmente as perdas acumuladas” entre o fim de 2010 (fim do governo Lula e época da primeira eleição de Dilma Rousseff para a Presidência da República) e o terceiro trimestre do ano passado (já no fim do primeiro mandato de Dilma) por causa do controle do preço dos combustíveis, sempre menor do que o preço do mercado internacional. Estima-se que essas perdas alcancem US$ 80 bilhões.
Na área financeira, não só os novos financiamentos que a Petrobrás venha a obter ficarão mais caros. Nos próximos cinco anos vencerão US$ 76,8 bilhões das dívidas da estatal. Boa parte poderá ser refinanciada, mas a taxas flutuantes, que refletirão o rebaixamento da classificação de risco da empresa. Assim, o custo da dívida tende a aumentar. “A menos que haja aumento dos preços de venda dos produtos de modo a refletir a depreciação, a geração de caixa pode sofrer impacto negativo ao mesmo tempo em que se observa a elevação do endividamento”, alerta o documento encaminhado à CVM.
Em resumo, com fluxo de caixa insuficiente, a empresa precisa de financiamento; mas, tendo tido sua nota rebaixada, o financiamento fica cada vez mais caro. Por sua vez, o reajuste dos combustíveis ajudaria, mas alimentaria uma inflação já muito alta. Assim, investimentos e metas de produção estão ameaçados.
Ainda que consiga atenuar as perdas financeiras e de credibilidade causadas pelo esquema de rapinagem apurado pela Operação Lava Jato, a Petrobrás continuará tendo sérias dificuldades para executar seus programas de prospecção, produção, refino e distribuição, como ela própria reconhece oficialmente.
Os preços dos derivados de petróleo, bem como seu programa de investimentos, continuarão sujeitos a decisões de seu controlador, o governo federal, razão pela qual a estatal poderá ser forçada a colocar em segundo plano a busca de seus objetivos para atender aos interesses do Palácio do Planalto. Isso afeta suas projeções financeiras. A primeira consequência é que ela não conseguirá executar seu ambicioso programa de investimentos contando apenas com o fluxo operacional de caixa. Precisará de dinheiro de outras fontes, como aportes de seu controlador – o Tesouro Nacional – ou financiamentos internacionais.
Também em crise financeira, o Tesouro precisa cortar suas despesas e não terá como financiar os investimentos da estatal no volume e na velocidade requeridos pelo programa de pesquisa e exploração.
O mercado financeiro parece disposto a emprestar para uma empresa que, apesar de sua profunda crise no momento, tem boas perspectivas de crescimento. Mas só empresta a juros em que incorrem as empresas de baixa credibilidade, como é hoje a Petrobrás.
A surpreendente operação de US$ 2,5 bilhões com bônus de 100 anos que a empresa acaba de concluir mostra isso. É sua primeira captação internacional desde março do ano passado, quando o bilionário esquema de corrupção começou a ser conhecido. Mas o custo da operação, de 8,45% ao ano, é o de empresas com classificação ruim pelas agências de avaliação de risco. Empresas e governos confiáveis pagam bem menos, como fez o México, que em abril captou € 1,5 bilhão pagando 4,2% ao ano.
O imenso poço de problemas em que foi transformada por seu continuado uso político pelo governo petista e, sobretudo, pelo esquema de corrupção está em parte descrito com realismo no documento que a Petrobrás encaminhou na semana passada à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), relatando sua atual situação econômico-financeira e apontando os fatores de risco que podem comprometer seu desempenho no futuro próximo.
Trata-se do Formulário de Referência, documento que as empresas que emitem ações precisam entregar à CVM no prazo de cinco meses após o encerramento do exercício financeiro. Ele contém, entre outras, informações sobre mudanças na estrutura de capital, dados financeiros e fatores de risco sobre as operações e os resultados futuros.
No documento, a Petrobrás reconheceu que poderá “não ser capaz de compensar totalmente as perdas acumuladas” entre o fim de 2010 (fim do governo Lula e época da primeira eleição de Dilma Rousseff para a Presidência da República) e o terceiro trimestre do ano passado (já no fim do primeiro mandato de Dilma) por causa do controle do preço dos combustíveis, sempre menor do que o preço do mercado internacional. Estima-se que essas perdas alcancem US$ 80 bilhões.
Na área financeira, não só os novos financiamentos que a Petrobrás venha a obter ficarão mais caros. Nos próximos cinco anos vencerão US$ 76,8 bilhões das dívidas da estatal. Boa parte poderá ser refinanciada, mas a taxas flutuantes, que refletirão o rebaixamento da classificação de risco da empresa. Assim, o custo da dívida tende a aumentar. “A menos que haja aumento dos preços de venda dos produtos de modo a refletir a depreciação, a geração de caixa pode sofrer impacto negativo ao mesmo tempo em que se observa a elevação do endividamento”, alerta o documento encaminhado à CVM.
Em resumo, com fluxo de caixa insuficiente, a empresa precisa de financiamento; mas, tendo tido sua nota rebaixada, o financiamento fica cada vez mais caro. Por sua vez, o reajuste dos combustíveis ajudaria, mas alimentaria uma inflação já muito alta. Assim, investimentos e metas de produção estão ameaçados.
Triste aniversário - MIGUEL REALE JÚNIOR
O Estado de S. Paulo - 06/06
Em 6 de junho de 2005, dez anos atrás exatamente, a Folha de S.Paulo publicava entrevista do deputado Roberto Jefferson, então presidente do PTB, em que denunciava a existência do mensalão. Dizia o deputado ser o número elevado de cargos do PT a fonte geradora do mensalão, pois o “PT tem participação muito maior que a dos outros partidos da base. Tem 20% da base e 80% dos cargos”. Ao final da entrevista, explicava a razão de ser do mensalão, uma mesada de R$ 30 mil paga a deputados do PL, do PP e do PTB, pois era “mais barato pagar o exército mercenário do que dividir o poder. É mais fácil alugar um deputado do que discutir um projeto de governo. É por isso. Quem é pago não pensa”. O deputado ponderava que em 22 anos de mandato nunca vira isso acontecer no Congresso Nacional, sendo que em função desse mensalão se contaminou a base parlamentar.
Jefferson avisou ministros e o próprio presidente do que ocorria, mas só se estancou essa corrupção com a CPI dos Correios. O presidente Lula, nestes dez anos, a cada instante falou coisa diferente sobre o mensalão, indo das desculpas à negação geral do fato, mesmo após o trânsito em julgado da condenação imposta pelo Supremo Tribunal Federal.
Nestes dez anos, a política tornou-se caso de polícia, com prisões, condenações, algemas, delações, fuga e extradição, monitoramento por tornozeleiras eletrônicas. É consequência de se assumir o governo não para cumprir primacialmente um projeto de país, mas para usufruir o poder, ocupando todos os cargos disponíveis e criando novos para acomodar apaniguados. O poder deixa de ser meio para ser fim em si mesmo, preservado por via de corrupção e de larga distribuição de propina, com descontrole fiscal e mentiras deslavadas para iludir o povo visando a ganhar eleições.
Imaginava que a persecução penal aos líderes do PT no processo do mensalão refrearia a ganância, mas se montava, por trás, o petrolão. Instalou-se, então, clima de irresponsabilidade absoluta na administração, imperando a desordem bem própria da mentalidade de tirar o máximo proveito do poder.
Essa irresponsabilidade contaminou o campo delicado das finanças públicas, pois o governo federal - objetivando melhorar suas contas e criar um superávit fictício - contraiu empréstimos com as instituições financeiras públicas para pagamento do Bolsa Família, do programa Minha Casa Minha Vida, do seguro-desemprego, deixando de registrar como passivo essa despesa sem pagar por longo prazo.
O Relatório de Inspeção, para se ter ideia da grandeza dos empréstimos, indica ter o Departamento de Supervisão Bancária informado que ao final de agosto último a Caixa Econômica Federal registrou em seu ativo R$ 1.740,5 milhões em valores a receber do governo federal, de pagamentos relativos a programas sociais (Bolsa Família, abono salarial e seguro-desemprego). E esses empréstimos foram contraídos com bancos públicos sem satisfação da dívida anteriormente assumida, efetivando estes mútuos no último ano do governo em afronta, em tese, ao descrito nos artigos 359 A e 359 C do Código Penal.
Em vez de o governo conter gastos, reduzir ministérios, eliminar cargos em comissão na administração direta e especialmente indireta, atacar a corrupção, ter transparência, valeu-se dos empréstimos contraídos com bancos dos quais a União é controladora, sem registrá-los como despesa, para vender gato por lebre, fazendo crer ao Legislativo, ao Tribunal de Contas, ao País que as contas públicas estavam sob controle e garantindo o crescimento econômico em 2015 com contenção da inflação. Essas deslavadas mentiras levaram a ganhar a eleição e agora à estagnação, à forte restrição do crédito, ao fim das desonerações, ao aumento dos preços, à redução das verbas da educação e da saúde.
Houve pedaladas em 2013, 2014 e neste ano também, mas nada proíbe que se instaure processo por crime comum contra a presidente por ações ocorridas no mandato passado se não estranhas às suas funções (artigo 86, § 4, da Constituição), sendo essas ações exatamente próprias funções presidenciais.
Além de a lei, a doutrina e a jurisprudência indicarem como responsável pelos crimes contra as finanças públicas o chefe do Executivo, cabe lembrar que a presidente da República, economista por formação, sempre demonstrou, enfaticamente, coordenar as decisões no campo das finanças.
Ademais, um dos maiores responsáveis pelas operações de crédito, o secretário do Tesouro Nacional, mantinha reuniões quase diárias com a presidente da República, cuja fama de rigorosa controladora da administração era e é famosa em Brasília, tanto que em tom de blague se diz ser fácil saber o nome dos 39 ministros: Dilma, Dilma... Evidentemente a presidente não pode alegar que medida de tamanha importância e tal valor tenha sido tomada sem seu conhecimento e sua anuência, pois cabe mesmo à presidente da República, de acordo com o artigo 85 da Constituição, a fixação de metas, a afetação dos recursos, a escolha dos procedimentos.
Assim, um dos caminhos para estabelecer a responsabilidade pela irresponsabilidade na condução das finanças públicas, que hoje todos sofrem, é o pedido de instauração de ação penal ou, no mínimo, de investigação criminal. Enviada acusação ao Supremo Tribunal, cabe a este consultar a Câmara dos Deputados se autoriza o processo. Autorizado, a presidente é afastada por 180 dias. O efeito é o mesmo do impeachment, sem ter de passar pela decisão monocrática do presidente da Câmara, que já arquivou, de plano, 30 pedidos de afastamento da presidente.
O caminho escolhido exige serenidade, visando a apurar a responsabilidade criminal da presidente por fatos cuja gravidade independe de qualquer viés político, pois já reconhecidos pelo Tribunal de Contas. Rodrigo Janot agora estuda a questão.
Em 6 de junho de 2005, dez anos atrás exatamente, a Folha de S.Paulo publicava entrevista do deputado Roberto Jefferson, então presidente do PTB, em que denunciava a existência do mensalão. Dizia o deputado ser o número elevado de cargos do PT a fonte geradora do mensalão, pois o “PT tem participação muito maior que a dos outros partidos da base. Tem 20% da base e 80% dos cargos”. Ao final da entrevista, explicava a razão de ser do mensalão, uma mesada de R$ 30 mil paga a deputados do PL, do PP e do PTB, pois era “mais barato pagar o exército mercenário do que dividir o poder. É mais fácil alugar um deputado do que discutir um projeto de governo. É por isso. Quem é pago não pensa”. O deputado ponderava que em 22 anos de mandato nunca vira isso acontecer no Congresso Nacional, sendo que em função desse mensalão se contaminou a base parlamentar.
Jefferson avisou ministros e o próprio presidente do que ocorria, mas só se estancou essa corrupção com a CPI dos Correios. O presidente Lula, nestes dez anos, a cada instante falou coisa diferente sobre o mensalão, indo das desculpas à negação geral do fato, mesmo após o trânsito em julgado da condenação imposta pelo Supremo Tribunal Federal.
Nestes dez anos, a política tornou-se caso de polícia, com prisões, condenações, algemas, delações, fuga e extradição, monitoramento por tornozeleiras eletrônicas. É consequência de se assumir o governo não para cumprir primacialmente um projeto de país, mas para usufruir o poder, ocupando todos os cargos disponíveis e criando novos para acomodar apaniguados. O poder deixa de ser meio para ser fim em si mesmo, preservado por via de corrupção e de larga distribuição de propina, com descontrole fiscal e mentiras deslavadas para iludir o povo visando a ganhar eleições.
Imaginava que a persecução penal aos líderes do PT no processo do mensalão refrearia a ganância, mas se montava, por trás, o petrolão. Instalou-se, então, clima de irresponsabilidade absoluta na administração, imperando a desordem bem própria da mentalidade de tirar o máximo proveito do poder.
Essa irresponsabilidade contaminou o campo delicado das finanças públicas, pois o governo federal - objetivando melhorar suas contas e criar um superávit fictício - contraiu empréstimos com as instituições financeiras públicas para pagamento do Bolsa Família, do programa Minha Casa Minha Vida, do seguro-desemprego, deixando de registrar como passivo essa despesa sem pagar por longo prazo.
O Relatório de Inspeção, para se ter ideia da grandeza dos empréstimos, indica ter o Departamento de Supervisão Bancária informado que ao final de agosto último a Caixa Econômica Federal registrou em seu ativo R$ 1.740,5 milhões em valores a receber do governo federal, de pagamentos relativos a programas sociais (Bolsa Família, abono salarial e seguro-desemprego). E esses empréstimos foram contraídos com bancos públicos sem satisfação da dívida anteriormente assumida, efetivando estes mútuos no último ano do governo em afronta, em tese, ao descrito nos artigos 359 A e 359 C do Código Penal.
Em vez de o governo conter gastos, reduzir ministérios, eliminar cargos em comissão na administração direta e especialmente indireta, atacar a corrupção, ter transparência, valeu-se dos empréstimos contraídos com bancos dos quais a União é controladora, sem registrá-los como despesa, para vender gato por lebre, fazendo crer ao Legislativo, ao Tribunal de Contas, ao País que as contas públicas estavam sob controle e garantindo o crescimento econômico em 2015 com contenção da inflação. Essas deslavadas mentiras levaram a ganhar a eleição e agora à estagnação, à forte restrição do crédito, ao fim das desonerações, ao aumento dos preços, à redução das verbas da educação e da saúde.
Houve pedaladas em 2013, 2014 e neste ano também, mas nada proíbe que se instaure processo por crime comum contra a presidente por ações ocorridas no mandato passado se não estranhas às suas funções (artigo 86, § 4, da Constituição), sendo essas ações exatamente próprias funções presidenciais.
Além de a lei, a doutrina e a jurisprudência indicarem como responsável pelos crimes contra as finanças públicas o chefe do Executivo, cabe lembrar que a presidente da República, economista por formação, sempre demonstrou, enfaticamente, coordenar as decisões no campo das finanças.
Ademais, um dos maiores responsáveis pelas operações de crédito, o secretário do Tesouro Nacional, mantinha reuniões quase diárias com a presidente da República, cuja fama de rigorosa controladora da administração era e é famosa em Brasília, tanto que em tom de blague se diz ser fácil saber o nome dos 39 ministros: Dilma, Dilma... Evidentemente a presidente não pode alegar que medida de tamanha importância e tal valor tenha sido tomada sem seu conhecimento e sua anuência, pois cabe mesmo à presidente da República, de acordo com o artigo 85 da Constituição, a fixação de metas, a afetação dos recursos, a escolha dos procedimentos.
Assim, um dos caminhos para estabelecer a responsabilidade pela irresponsabilidade na condução das finanças públicas, que hoje todos sofrem, é o pedido de instauração de ação penal ou, no mínimo, de investigação criminal. Enviada acusação ao Supremo Tribunal, cabe a este consultar a Câmara dos Deputados se autoriza o processo. Autorizado, a presidente é afastada por 180 dias. O efeito é o mesmo do impeachment, sem ter de passar pela decisão monocrática do presidente da Câmara, que já arquivou, de plano, 30 pedidos de afastamento da presidente.
O caminho escolhido exige serenidade, visando a apurar a responsabilidade criminal da presidente por fatos cuja gravidade independe de qualquer viés político, pois já reconhecidos pelo Tribunal de Contas. Rodrigo Janot agora estuda a questão.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
Dilma aposta na Lava Jato para desgastar Cunha
A presidente Dilma aposta nas investigações da Operação Lava Jato para desmoralizar e diminuir o poder dos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros. Ela foi informada de que o mandado de busca e apreensão da Polícia Federal na Câmara complicou seu presidente. Mas alegações contra Renan seriam frágeis e, ao contrário de Cunha, ele pode até não ser denunciado pelo MPF.
Estratégia
Dilma joga pesado na recondução do procurador-geral Rodrigo Janot. É que ele não gosta de Cunha e, até agora, não a desapontou.
Janot nas paradas
Improvável há alguns meses, a recondução de Janot passou a ser “possível”, especialmente se ele ganhar apoio de Renan Calheiros.
Desestabilização
O Planalto acredita que, se for mesmo denunciado, Eduardo Cunha ficará sem condições de continuar presidindo a Câmara.
Conspirador-mor
O ministro Aloizio Mercadante, que se encarregou de jogar Renan contra Luiz Fachin (STF), agora atua no desgaste de Eduardo Cunha.
Joaquim rejeita carreira política: é ‘desagradável’
Aposentado precocemente do Supremo Tribunal Federal no auge das expectativas para seu ingresso na política, Joaquim Barbosa não tem vontade de ingressar na política. Ele disse em Israel, onde recebeu homenagem de uma universidade local, que no Brasil a política “se tornou numa coisa desagradável”. Tampouco gostaria de estar no STF para julgar o Petrolão: “Nada em vida pública me encanta mais”.
Vida privada
A ausência de obrigações funcionais parece um sonho conquistado. Joaquim Barbosa está gostando do que chama de “vida privada”.
Dolce far niente
Ao se aposentar, Joaquim prometeu a amigos aquecer a cena pública com um livro de memórias e “atuação” nas redes sociais. Desistiu.
Correndo para o abraço
Além da gorda aposentadoria, Joaquim Barbosa se dedica a palestras, pareceres e a ficar acessível a eventos que afaguem o próprio ego.
Esqueceram de mim
Batendo pernas na Itália, o ex-presidente Lula nem pensou na hipótese de visitar o companheiro mensaleiro Henrique Pizzolato, que está na prisão de Modena arrumando as malas rumo a Papuda, em Brasília.
Dá livro, filme etc
O jornalista Matheus Leitão vai transformar em livro a espetacular reportagem sobre como localizou e entrevistou o homem que entregou seus pais – jornalistas Marcelo Netto e Mirian Leitão – aos torturadores, na ditadura militar. A história renderia também um grande filme.
Câmara às moscas
O deputado JHC (SD-AL) foi ontem ao trabalho, mas não havia vivalma na Câmara. No Senado, o ambiente era igualmente desolador. Depois, Ronaldo Fonseca (Pros-DF) fez companhia ao deputado alagoano.
Em campanha
Após o governo articular contra seu projeto de se reeleger presidente da Câmara, o deputado Eduardo Cunha (PMDB) decidiu mudar o comportamento e se aproximar de alguns colegas, inclusive do PT.
Irmãos siameses
Diante da queda de popularidade do governador Rodrigo Rollemberg (DF), o deputado Izalci (PSDB) ironiza: “Ele ainda mantém no governo os assessores de Agnelo Queiroz, que saiu com péssima avaliação”.
Cabo de guerra
Com um pé fora do PSDB, a senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO) vem se desentendendo com o também tucano Marconi Perillo, governador de Goiás. No final de semana passada, ambos trocaram farpas.
Tem volta
A nomeação do peemedebista Vinicius Lummertz para a presidência da Embratur irritou o PCdoB. A escolha foi uma gratificação ao PMDB pela atuação no ajuste fiscal. Irritados, os comunistas já falam em boicote.
Quem paga a conta
Os parlamentares aproveitaram o final de semana para usar o dinheiro público. Comitivas formadas por suas excelências foram para Rússia, Israel e Cuba. Tudo bancado pelo coitado do contribuinte.
Pensando bem...
...Dilma anda tão à vontade em sua bike quanto o seu governo nas “pedaladas fiscais” reveladas pelo Tribunal de Contas da União.
A presidente Dilma aposta nas investigações da Operação Lava Jato para desmoralizar e diminuir o poder dos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros. Ela foi informada de que o mandado de busca e apreensão da Polícia Federal na Câmara complicou seu presidente. Mas alegações contra Renan seriam frágeis e, ao contrário de Cunha, ele pode até não ser denunciado pelo MPF.
Estratégia
Dilma joga pesado na recondução do procurador-geral Rodrigo Janot. É que ele não gosta de Cunha e, até agora, não a desapontou.
Janot nas paradas
Improvável há alguns meses, a recondução de Janot passou a ser “possível”, especialmente se ele ganhar apoio de Renan Calheiros.
Desestabilização
O Planalto acredita que, se for mesmo denunciado, Eduardo Cunha ficará sem condições de continuar presidindo a Câmara.
Conspirador-mor
O ministro Aloizio Mercadante, que se encarregou de jogar Renan contra Luiz Fachin (STF), agora atua no desgaste de Eduardo Cunha.
Joaquim rejeita carreira política: é ‘desagradável’
Aposentado precocemente do Supremo Tribunal Federal no auge das expectativas para seu ingresso na política, Joaquim Barbosa não tem vontade de ingressar na política. Ele disse em Israel, onde recebeu homenagem de uma universidade local, que no Brasil a política “se tornou numa coisa desagradável”. Tampouco gostaria de estar no STF para julgar o Petrolão: “Nada em vida pública me encanta mais”.
Vida privada
A ausência de obrigações funcionais parece um sonho conquistado. Joaquim Barbosa está gostando do que chama de “vida privada”.
Dolce far niente
Ao se aposentar, Joaquim prometeu a amigos aquecer a cena pública com um livro de memórias e “atuação” nas redes sociais. Desistiu.
Correndo para o abraço
Além da gorda aposentadoria, Joaquim Barbosa se dedica a palestras, pareceres e a ficar acessível a eventos que afaguem o próprio ego.
Esqueceram de mim
Batendo pernas na Itália, o ex-presidente Lula nem pensou na hipótese de visitar o companheiro mensaleiro Henrique Pizzolato, que está na prisão de Modena arrumando as malas rumo a Papuda, em Brasília.
Dá livro, filme etc
O jornalista Matheus Leitão vai transformar em livro a espetacular reportagem sobre como localizou e entrevistou o homem que entregou seus pais – jornalistas Marcelo Netto e Mirian Leitão – aos torturadores, na ditadura militar. A história renderia também um grande filme.
Câmara às moscas
O deputado JHC (SD-AL) foi ontem ao trabalho, mas não havia vivalma na Câmara. No Senado, o ambiente era igualmente desolador. Depois, Ronaldo Fonseca (Pros-DF) fez companhia ao deputado alagoano.
Em campanha
Após o governo articular contra seu projeto de se reeleger presidente da Câmara, o deputado Eduardo Cunha (PMDB) decidiu mudar o comportamento e se aproximar de alguns colegas, inclusive do PT.
Irmãos siameses
Diante da queda de popularidade do governador Rodrigo Rollemberg (DF), o deputado Izalci (PSDB) ironiza: “Ele ainda mantém no governo os assessores de Agnelo Queiroz, que saiu com péssima avaliação”.
Cabo de guerra
Com um pé fora do PSDB, a senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO) vem se desentendendo com o também tucano Marconi Perillo, governador de Goiás. No final de semana passada, ambos trocaram farpas.
Tem volta
A nomeação do peemedebista Vinicius Lummertz para a presidência da Embratur irritou o PCdoB. A escolha foi uma gratificação ao PMDB pela atuação no ajuste fiscal. Irritados, os comunistas já falam em boicote.
Quem paga a conta
Os parlamentares aproveitaram o final de semana para usar o dinheiro público. Comitivas formadas por suas excelências foram para Rússia, Israel e Cuba. Tudo bancado pelo coitado do contribuinte.
Pensando bem...
...Dilma anda tão à vontade em sua bike quanto o seu governo nas “pedaladas fiscais” reveladas pelo Tribunal de Contas da União.
sexta-feira, junho 05, 2015
A agonia de um segredo - FERNANDO GABEIRA
O Estado de S. Paulo - 05/06
Quando surgiu, achei grave e um pouco subestimado o veto de Dilma ao projeto de transparência nos negócios do BNDES. Ela entrou em conflito com o Congresso. Dias depois, o próprio Supremo autorizou o Tribunal de Contas a ter acesso aos empréstimos à Friboi, empresa que financia generosamente as campanhas do PT.
Em qualquer país onde o governo entre em choque com o Congresso e o Supremo o tema é visto como uma crise institucional. Como se não bastasse, Dilma entrou numa terceira contradição, desta vez consigo mesma: partiu dela a lei que libera o acesso aos dados públicos.
O ministro Luiz Fux (STF) sintetizou seu voto numa entrevista: num banco que move dinheiro público, o segredo não é a arma do negócio.
O PT tem razão para temer a transparência. Súbitos jatos de luz, como a denúncia do mensalão e, agora, do petrolão, abalaram seus alicerces. No caso do BNDES, não se trata da possibilidade de escândalos. É uma oportunidade para conhecer melhor a história recente.
Empresas amigas como a Friboi e a Odebrecht, governos amigos como os de Cuba e Venezuela, foram contemplados. Em ambos, a transparência vai revelar o viés ideológico dessa orientação. Um porto em Cuba, um metrô em Caracas são apenas duas escolhas entre mil possibilidades de usar o dinheiro. Para discutir melhor é preciso conhecer os detalhes. Na campanha Dilma mentiu sobre eles, ocultando o papel de fiador do Brasil.
O que sabemos da Friboi? Os dados indicam que destinou R$ 250 milhões a campanhas do PT. Teremos direito de perguntar sobre os detalhes do empréstimo do BNDES e até desconfiar de seus elos com campanhas eleitorais.
A análise da política do governo deverá estender-se à sua fracassada tentativa de criar empresas campeãs. Quem foram e quem são os parceiros, que tipo de transação? Como dizia Cazuza, mostre sua cara, qual é o seu negócio, o nome do seu sócio.
No momento do veto prevaleceu uma certa Dilma. Mas a outra Dilma, a que mandou a lei de acesso, é que estava no rumo certo da História. Não só porque a transparência é um desejo da sociedade, mas porque a tecnologia estreita o espaço do segredo.
Os debates nos EUA concentram-se hoje numa restrição à vigilância de indivíduos, sem licença judicial. Mas chegam a essa discussão graças a Edward Snowden, que revelou os próprios segredos do governo.
Ironicamente, Dilma foi espionada pelos EUA e decreta o sigilo nos dados de um banco que movimenta recursos públicos. Sou solidário com ela no primeiro episódio. Evidente que seria atropelada no segundo. Esta semana começou a ensaiar a retirada, via Ministério do Comércio, que vai disponibilizar dados das transações internacionais e algumas nacionais.
O PT deveria meditar sobre o segredo. Ele foi detonado pela quebra do segredo entre quatro paredes, no mensalão. Agora, no caso da Petrobrás, entraram em cena novos mecanismos de investigação, melhor tratamento dos dados.
Nos primeiros meses de governo, já tinha uma visão do PT. Nem todos a compartilhavam, pois o partido venceu três eleições depois de 2002. Aos poucos, os momentos de transparência sobre os escândalos foram criando uma percepção nacional sobre o tipo de governo que se implantou no Brasil.
Não há dúvidas de que os segredos do BNDES serão revelados. Sociedade, Congresso e Supremo caminham numa mesma direção. E o próprio governo começa a abri-los.
É um elo para a compreensão do papel do PT. Embora ainda não tenha os dados completos, já posso afirmar que o BNDES financiou pobres e ricos. Mas ambos, os pobres de socialismo, como os ricos aqui, do Brasil, são escolhidos entre os amigos do governo. De um modo geral, o processo foi de financiar amigos ricos para que construam para os amigos pobres.
Tanto a Friboi como a Odebrecht fazem parte dessa constelação política econômica que dominou o fluxo dos investimentos do BNDES. Isso teve repercussão nas campanhas eleitorais. De um lado, o Bolsa Família assegurava a simpatia dos eleitores: de outro, a bolsa dos ricos contribuía para as campanhas do tipo vivemos num paraíso. Contribuía, porque hoje sabemos que outras fontes menos sutis, como o assalto à Petrobrás, injetavam fortunas no esquema.
Falou-se muito no petrolão como o maior escândalo da História, mobilizando pelo menos R$ 6 bilhões. Quando todos os segredos, inclusive os do fundo de pensão, forem revelados, não importa a cifra astronômica que surgir daí: o grupo brasileiro no poder é o mais voraz em atuação no planeta. Não posso imaginar salvação depois da conquista desse título.
O PT e aliados podem continuar negando, na esperança de que o tempo amenize tudo. É uma tática de avestruz. Será que não se dão conta de que apenas um décimo da população os aprova hoje? O que será do amanhã, quando quase todos saberão quase tudo sobre o que fizeram com o País?
Nesta paisagem de terra arrasada, a economia é apenas uma das variáveis. O processo político degradou-se, os valores foram embrulhados por uma linguagem cínica, a credibilidade desapareceu já há tempo. O Brasil pode até conviver com esse governo, que tem mandato de quatro anos. Mas não creio que mude de opinião sobre ele, alternando momentos de um desprezo silencioso com as manifestações de hostilidade.
Um governo nasce morto e a lei nos determina um velório de quatro anos. Muito longos, até os velórios costumam ser animados. E algo que anima este velório é a revelação dos últimos segredos, como o sigilo do BNDES e tantas outras linhas de suspeita que foram indicadas nas investigações da Petrobrás. E daqui por diante nem o futebol será uma distração completa. A cúpula da Fifa transitou de um hotel cinco-estrelas para uma cela de prisão. Imprevisíveis roteiros individuais rondam os donos do poder. E essa história ainda será escrita com todas as letras.
Quando surgiu, achei grave e um pouco subestimado o veto de Dilma ao projeto de transparência nos negócios do BNDES. Ela entrou em conflito com o Congresso. Dias depois, o próprio Supremo autorizou o Tribunal de Contas a ter acesso aos empréstimos à Friboi, empresa que financia generosamente as campanhas do PT.
Em qualquer país onde o governo entre em choque com o Congresso e o Supremo o tema é visto como uma crise institucional. Como se não bastasse, Dilma entrou numa terceira contradição, desta vez consigo mesma: partiu dela a lei que libera o acesso aos dados públicos.
O ministro Luiz Fux (STF) sintetizou seu voto numa entrevista: num banco que move dinheiro público, o segredo não é a arma do negócio.
O PT tem razão para temer a transparência. Súbitos jatos de luz, como a denúncia do mensalão e, agora, do petrolão, abalaram seus alicerces. No caso do BNDES, não se trata da possibilidade de escândalos. É uma oportunidade para conhecer melhor a história recente.
Empresas amigas como a Friboi e a Odebrecht, governos amigos como os de Cuba e Venezuela, foram contemplados. Em ambos, a transparência vai revelar o viés ideológico dessa orientação. Um porto em Cuba, um metrô em Caracas são apenas duas escolhas entre mil possibilidades de usar o dinheiro. Para discutir melhor é preciso conhecer os detalhes. Na campanha Dilma mentiu sobre eles, ocultando o papel de fiador do Brasil.
O que sabemos da Friboi? Os dados indicam que destinou R$ 250 milhões a campanhas do PT. Teremos direito de perguntar sobre os detalhes do empréstimo do BNDES e até desconfiar de seus elos com campanhas eleitorais.
A análise da política do governo deverá estender-se à sua fracassada tentativa de criar empresas campeãs. Quem foram e quem são os parceiros, que tipo de transação? Como dizia Cazuza, mostre sua cara, qual é o seu negócio, o nome do seu sócio.
No momento do veto prevaleceu uma certa Dilma. Mas a outra Dilma, a que mandou a lei de acesso, é que estava no rumo certo da História. Não só porque a transparência é um desejo da sociedade, mas porque a tecnologia estreita o espaço do segredo.
Os debates nos EUA concentram-se hoje numa restrição à vigilância de indivíduos, sem licença judicial. Mas chegam a essa discussão graças a Edward Snowden, que revelou os próprios segredos do governo.
Ironicamente, Dilma foi espionada pelos EUA e decreta o sigilo nos dados de um banco que movimenta recursos públicos. Sou solidário com ela no primeiro episódio. Evidente que seria atropelada no segundo. Esta semana começou a ensaiar a retirada, via Ministério do Comércio, que vai disponibilizar dados das transações internacionais e algumas nacionais.
O PT deveria meditar sobre o segredo. Ele foi detonado pela quebra do segredo entre quatro paredes, no mensalão. Agora, no caso da Petrobrás, entraram em cena novos mecanismos de investigação, melhor tratamento dos dados.
Nos primeiros meses de governo, já tinha uma visão do PT. Nem todos a compartilhavam, pois o partido venceu três eleições depois de 2002. Aos poucos, os momentos de transparência sobre os escândalos foram criando uma percepção nacional sobre o tipo de governo que se implantou no Brasil.
Não há dúvidas de que os segredos do BNDES serão revelados. Sociedade, Congresso e Supremo caminham numa mesma direção. E o próprio governo começa a abri-los.
É um elo para a compreensão do papel do PT. Embora ainda não tenha os dados completos, já posso afirmar que o BNDES financiou pobres e ricos. Mas ambos, os pobres de socialismo, como os ricos aqui, do Brasil, são escolhidos entre os amigos do governo. De um modo geral, o processo foi de financiar amigos ricos para que construam para os amigos pobres.
Tanto a Friboi como a Odebrecht fazem parte dessa constelação política econômica que dominou o fluxo dos investimentos do BNDES. Isso teve repercussão nas campanhas eleitorais. De um lado, o Bolsa Família assegurava a simpatia dos eleitores: de outro, a bolsa dos ricos contribuía para as campanhas do tipo vivemos num paraíso. Contribuía, porque hoje sabemos que outras fontes menos sutis, como o assalto à Petrobrás, injetavam fortunas no esquema.
Falou-se muito no petrolão como o maior escândalo da História, mobilizando pelo menos R$ 6 bilhões. Quando todos os segredos, inclusive os do fundo de pensão, forem revelados, não importa a cifra astronômica que surgir daí: o grupo brasileiro no poder é o mais voraz em atuação no planeta. Não posso imaginar salvação depois da conquista desse título.
O PT e aliados podem continuar negando, na esperança de que o tempo amenize tudo. É uma tática de avestruz. Será que não se dão conta de que apenas um décimo da população os aprova hoje? O que será do amanhã, quando quase todos saberão quase tudo sobre o que fizeram com o País?
Nesta paisagem de terra arrasada, a economia é apenas uma das variáveis. O processo político degradou-se, os valores foram embrulhados por uma linguagem cínica, a credibilidade desapareceu já há tempo. O Brasil pode até conviver com esse governo, que tem mandato de quatro anos. Mas não creio que mude de opinião sobre ele, alternando momentos de um desprezo silencioso com as manifestações de hostilidade.
Um governo nasce morto e a lei nos determina um velório de quatro anos. Muito longos, até os velórios costumam ser animados. E algo que anima este velório é a revelação dos últimos segredos, como o sigilo do BNDES e tantas outras linhas de suspeita que foram indicadas nas investigações da Petrobrás. E daqui por diante nem o futebol será uma distração completa. A cúpula da Fifa transitou de um hotel cinco-estrelas para uma cela de prisão. Imprevisíveis roteiros individuais rondam os donos do poder. E essa história ainda será escrita com todas as letras.
Profecias para trás - RICARDO ARNT
VALOR ECONÔMICO - 05/06
A história é uma profecia voltada para trás que remete à definição de "experiência" de Pedro Nava: "Um carro que avança, à noite, com os faróis voltados para ré". Nesse percurso acidentado, Lilia Moritz Schwarcz e Heloísa Starling realizaram um "tour de force" de 694 páginas e 137 imagens ao longo de 500 anos de narrativas sobre o país. No fim do caminho, em 2013, conscientes de que as profecias do passado são profecias do futuro, as autoras de "Brasil, Uma Biografia", encerraram o livro com uma certeza: "Toda história é aberta, plural e permite muitas interpretações".
De fato, 500 anos "não cabem só num livro". O trabalho do historiador nunca é fácil, pois "é preciso calçar os sapatos do morto para penetrar num tempo que não é o nosso", segundo Evaldo Cabral de Melo, para sentir com os sentimentos alheios e tentar compreender a trajetória dos protagonistas "no tempo em que lhes foi dado viver, com as intervenções que realizaram a cada época com os recursos de que dispunham, vivendo de acordo com as exigências do seu tempo, e não de acordo com as exigências do nosso tempo". Além disso, no fim há sempre batalhas pelo sentido das profecias.
No caso, à primeira vista o conceito de biografia parece incômodo para lidar com uma narrativa inconclusa. As biografias costumam ser descrições de histórias finitas, mas as autoras preferiram, "em vez de fazer uma história do Brasil, fazer do Brasil uma história", como explica Heloísa. A ideia vai se tornando mais clara à medida que se avança por ela e se percebem, além do desfile cronológico dos eventos conhecidos, avanços e recuos, escolhas e circunstâncias, conquistas e ilusões, vozes não oficiais, anedotas, provérbios, interpretações artísticas, cenas plausíveis, porém imaginadas, e comentários das canções da música popular, tudo convergindo para uma costura do público com o privado cujo bordado progride, um tanto à deriva, sem saber bem para onde vai, como obra aberta.
"Tentamos evitar uma história evolutiva com uma perspectiva de destino embutida. Numa biografia você pode contemplar conquistas, contradições, retrocessos, vacilações e ambivalências que persistem, tais como o bovarismo, o racismo, o patrimonialismo e a corrupção", diz Lilia. Sem dúvida, a parceria entre uma antropóloga e uma cientista política deu vulto às manias nacionais. O bovarismo, por exemplo, esse "invencível desencanto em face das nossas condições sociais", pinçado por Sérgio Buarque de Holanda no "Madame Bovary", induz não poucos brasileiros a recusarem o país real e a se imaginarem diferentes do que são, viciados no "estrangeirismo" de tudo copiar e de se verem no espelho com a identidade convertida em "algo parecido com um colchão inflável", que incha e desincha, ora mais portugueses, ora franceses, ora americanos, ora atrasados, ora até adiantados.
Entre a pretensão de que "Deus é brasileiro" e a goleada de 7x1 da seleção da Alemanha, os instáveis biografados não cessam de expressar a "esperança milagrosa" de que "algo aconteça" - um golpe de sorte, um improviso ou um atalho -, que resolva a partida e elimine os problemas árduos que exigem trabalho e perseverança. Daí que a profecia do livro, a sua "grande utopia", "talvez seja acolhermos os valores que têm como direção a construção do que é público e comum". Assumir os direitos e os deveres da cidadania democrática moderna é um desafio e tanto num país em que predominam "os afetos e o imediatismo emocional sobre a impessoalidade dos princípios que organizam a vida dos cidadãos nas mais diversas nações".
Para alterar seu "imperfeito republicanismo" o Brasil precisa superar sua "persistente fragilidade institucional, a corrupção renitente e o bem público pensado como coisa privada", construindo virtudes públicas sólidas. Assim, este livro de história recém-publicado reitera o primeiro do país, a "História do Brazil", de frei Vicente Salvador, que em 1630 já lamentava que "nenhum homem nesta terra é repúblico, nem zela, ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular". E ambos evidenciam a atualidade duradoura do provérbio: "Quem rouba pouco é ladrão e quem rouba muito é barão".
Enganam-se, entretanto, os que acham que o jeitinho e a malandragem são "respostas estáticas" do suposto "caráter brasileiro", que naturalizam a corrupção que ocorre em todos os países e congelam o seu combate. "Nossa história é dinâmica e paradoxal, escravagista e insurgente, cruel e generosa, e se reinventa sempre, apesar das frustrações", diz Heloísa. "Não somos uma coisa ou outra. Somos as duas ao mesmo tempo." Não fosse assim, a nação não teria entrado em catarse diante da TV, durante os quatro meses de debates do julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal, em 2012. Tampouco teria "explodido" nas ruas com os protestos de junho de 2013. É claro que a corrupção "não é um fenômeno marginal na vida pública brasileira", mas a reação contra ela está crescendo. "O Brasil está mudando os comportamentos públicos e privados em relação à corrupção", afirmam as historiadoras.
Em todos casos a história é uma narrativa que seleciona eventos relevantes entre irrelevantes, segundo interpretações e interesses. Portanto, sempre faltará ou sobrará algo, mesmo num livro de mil páginas. Além disso, é preciso desmontar os mitos, investigando, além do que é falso ou verdadeiro, as encenações de época que consolidam as representações. Uma das mais controvertidas é a ideia da escravidão mais amigável do luso-tropicalismo. O Brasil recebeu 5 dos 8 a 11 milhões de negros arrancados da África, numa escalada demográfica que o projeta, hoje, como o segundo mais populoso país africano depois da Nigéria, contando os pardos e os negros. "O escravismo se enraizou de tal forma que marcou nossos costumes e palavras", diz Lilia. "Se a casa-grande delimitava a fronteira entre a área social e a de serviços, a arquitetura simbólica permanece nas casas e edifícios, onde elevador de serviço não é só para carga, mas sobretudo para os empregados que guardam a marca do passado africano na cor".
Ainda assim, o mito perdura. "A escravidão pacífica serve para minorar o impacto da desigualdade instituída, mas não consegue silenciar a remoção forçada dos africanos, as rebeliões, os castigos, as punições e a resistência dos quilombos", diz a antropóloga. Sim, Gilberto Freyre executou uma "façanha analítica" ao conferir caráter positivo à mestiçagem, atribuindo a ela não o atraso do país, mas sua vantagem comparativa no futuro. Mas todas as representações carregam dissonâncias de sentido.
Algumas passam despercebidas, como o discurso nativista sobre o "exército mestiço" de brancos, indígenas e negros que expulsou os holandeses de Pernambuco em 1648. A idealização republicana da Inconfidência Mineira relevou os interesses da "plutocracia" de contratantes e mercadores de ouro brasileiros demitidos dos cargos pelos portugueses. A república nascente atribuiu ao inconformado alferes Tiradentes, cujo rosto é desconhecido na história, "uma face religiosa, cabelos Chanel, olhar profético e túnica branca como a de Jesus Cristo". Outro mito é o quadro "Independência ou Morte", de Pedro Américo, que converteu as perturbações gástricas de d. Pedro I, durante a subida "à mula" de Santos para São Paulo, num épico brado do Ipiranga.
Mais do que um "reflexo" da marcha dos acontecimentos, a cultura produz cenários tão reais quanto distorcidos. Num país que vaia até minuto de silêncio, até o deboche costuma converter em balela o que não é. O impacto da vinda de João VI e 10 mil membros da corte portuguesa para um Rio de 60 mil habitantes, por exemplo, passou ao largo do filme "Carlota Joaquina, Princesa do Brasil", de Carla Camurati. "D. João VI é um personagem contraditório e até cômico, pela insistência em não declarar guerra à França com os franceses já invadindo Portugal. Mas também foi um estrategista que acertou ao transferir a corte", diz Lilia. "A Revolução Francesa acabou com muitas monarquias, mas a portuguesa ficou. Carlota Joaquina era uma estrategista. Ninguém estava brincando."
Graças a Napoleão, uma sociedade colonial sem moinhos, manufaturas, tipografias e universidades ganhou um Estado pronto, com reis, nobres, generais, monsenhores, mordomos, bibliotecários e contadores. O Reino Unido gerou a independência que desviou o Brasil do destino fragmentário dos 14 países que sucederam os quatro vice-reinados espanhóis, mas a monarquia planejada pela elite do Sudeste, com um grande território e economias complementares, não era a única possibilidade. "As elites pernambucanas e baianas sofreram. O país livrou-se da ruptura e do inesperado, mas consolidou a escravidão, o latifúndio e o patrimonialismo. Na época, a maior ameaça era uma revolução como no Haiti", diz Lilia.
D. Pedro II dedicou-se com seriedade austríaca à construção da monarquia tropical possível, tomando os signos grandiosos da natureza brasileira - o território, o clima ameno, os recursos naturais e os índios -, como matrizes da nacionalidade. Consolidou-se, assim, "uma memória oficial que se orgulha de alimentar o mito da beleza estonteante da natureza tropical, quando a história é outra". Na verdade, apesar da mitologia sobre a Amazônia, do ufanismo militar nacionalista ou dos exuberantes desfiles da natureza no sambódromo todo ano, passando pelas visões críticas ao romantismo decorativo do "índio de tocheiro" (Oswald de Andrade) e do tropicalismo, o Brasil é o campeão mundial do desmatamento e alvo secular de denúncias de maus tratos aos índios. Os brasileiros estetizam a natureza para compensar o desencanto com a cultura, mas tampouco acreditam na própria idealização.
Talvez a ilusão mais recorrente seja a "índole pacífica do povo brasileiro", que trata a Guerra do Paraguai como a exceção que confirma o mito de país com relações harmoniosas e tolerantes, externas e internas, como se a violência vigente na periferia das cidades fosse episódica. Esquece-se que a Cabanagem eliminou 30% da população do Pará, que a Revolução Federalista do Rio Grande do Sul, de 1893, matou 10 mil pessoas e exportou a degola para a Guerra de Canudos, e que em 1932 São Paulo e Campinas foram bombardeadas. Há até quem lamente a "falta" de violência, invejando a passionalidade dos vizinhos argentinos e zombando da Batalha de Itararé, na Revolução de 1930, "a maior batalha latino-americana que não houve". Há quem torça para o circo pegar fogo. Todo signo histórico é como Jano, a divindade de duas faces: qualquer crítica pode virar elogio e qualquer verdade, a maior das mentiras. Mas são os homens, não as interpretações, que fazem a história. Em 1947, Luís Carlos Prestes declarou ao Congresso que, no caso de uma guerra com a URSS, os comunistas tomariam o lado daquele país. Deu pretexto para a cassação do Partido Comunista e fomentou o anticomunismo nas Forças Armadas. Em 31 de março de 1964, o general Olympio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, de Juiz de Fora, lançou a tropa contra o Rio de Janeiro para depor o presidente Goulart. Esse mesmo oficial escrevera, em 1937, o forjado Plano Cohen, com supostas instruções para um violento levante comunista, na dupla condição de chefe do serviço secreto da Ação Integralista Brasileira e coronel do Estado-Maior do Exército, fornecendo pretexto para decretação do Estado Novo. Atribuir sentido à história é guerrear com palavras.
A história é uma profecia voltada para trás que remete à definição de "experiência" de Pedro Nava: "Um carro que avança, à noite, com os faróis voltados para ré". Nesse percurso acidentado, Lilia Moritz Schwarcz e Heloísa Starling realizaram um "tour de force" de 694 páginas e 137 imagens ao longo de 500 anos de narrativas sobre o país. No fim do caminho, em 2013, conscientes de que as profecias do passado são profecias do futuro, as autoras de "Brasil, Uma Biografia", encerraram o livro com uma certeza: "Toda história é aberta, plural e permite muitas interpretações".
De fato, 500 anos "não cabem só num livro". O trabalho do historiador nunca é fácil, pois "é preciso calçar os sapatos do morto para penetrar num tempo que não é o nosso", segundo Evaldo Cabral de Melo, para sentir com os sentimentos alheios e tentar compreender a trajetória dos protagonistas "no tempo em que lhes foi dado viver, com as intervenções que realizaram a cada época com os recursos de que dispunham, vivendo de acordo com as exigências do seu tempo, e não de acordo com as exigências do nosso tempo". Além disso, no fim há sempre batalhas pelo sentido das profecias.
No caso, à primeira vista o conceito de biografia parece incômodo para lidar com uma narrativa inconclusa. As biografias costumam ser descrições de histórias finitas, mas as autoras preferiram, "em vez de fazer uma história do Brasil, fazer do Brasil uma história", como explica Heloísa. A ideia vai se tornando mais clara à medida que se avança por ela e se percebem, além do desfile cronológico dos eventos conhecidos, avanços e recuos, escolhas e circunstâncias, conquistas e ilusões, vozes não oficiais, anedotas, provérbios, interpretações artísticas, cenas plausíveis, porém imaginadas, e comentários das canções da música popular, tudo convergindo para uma costura do público com o privado cujo bordado progride, um tanto à deriva, sem saber bem para onde vai, como obra aberta.
"Tentamos evitar uma história evolutiva com uma perspectiva de destino embutida. Numa biografia você pode contemplar conquistas, contradições, retrocessos, vacilações e ambivalências que persistem, tais como o bovarismo, o racismo, o patrimonialismo e a corrupção", diz Lilia. Sem dúvida, a parceria entre uma antropóloga e uma cientista política deu vulto às manias nacionais. O bovarismo, por exemplo, esse "invencível desencanto em face das nossas condições sociais", pinçado por Sérgio Buarque de Holanda no "Madame Bovary", induz não poucos brasileiros a recusarem o país real e a se imaginarem diferentes do que são, viciados no "estrangeirismo" de tudo copiar e de se verem no espelho com a identidade convertida em "algo parecido com um colchão inflável", que incha e desincha, ora mais portugueses, ora franceses, ora americanos, ora atrasados, ora até adiantados.
Entre a pretensão de que "Deus é brasileiro" e a goleada de 7x1 da seleção da Alemanha, os instáveis biografados não cessam de expressar a "esperança milagrosa" de que "algo aconteça" - um golpe de sorte, um improviso ou um atalho -, que resolva a partida e elimine os problemas árduos que exigem trabalho e perseverança. Daí que a profecia do livro, a sua "grande utopia", "talvez seja acolhermos os valores que têm como direção a construção do que é público e comum". Assumir os direitos e os deveres da cidadania democrática moderna é um desafio e tanto num país em que predominam "os afetos e o imediatismo emocional sobre a impessoalidade dos princípios que organizam a vida dos cidadãos nas mais diversas nações".
Para alterar seu "imperfeito republicanismo" o Brasil precisa superar sua "persistente fragilidade institucional, a corrupção renitente e o bem público pensado como coisa privada", construindo virtudes públicas sólidas. Assim, este livro de história recém-publicado reitera o primeiro do país, a "História do Brazil", de frei Vicente Salvador, que em 1630 já lamentava que "nenhum homem nesta terra é repúblico, nem zela, ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular". E ambos evidenciam a atualidade duradoura do provérbio: "Quem rouba pouco é ladrão e quem rouba muito é barão".
Enganam-se, entretanto, os que acham que o jeitinho e a malandragem são "respostas estáticas" do suposto "caráter brasileiro", que naturalizam a corrupção que ocorre em todos os países e congelam o seu combate. "Nossa história é dinâmica e paradoxal, escravagista e insurgente, cruel e generosa, e se reinventa sempre, apesar das frustrações", diz Heloísa. "Não somos uma coisa ou outra. Somos as duas ao mesmo tempo." Não fosse assim, a nação não teria entrado em catarse diante da TV, durante os quatro meses de debates do julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal, em 2012. Tampouco teria "explodido" nas ruas com os protestos de junho de 2013. É claro que a corrupção "não é um fenômeno marginal na vida pública brasileira", mas a reação contra ela está crescendo. "O Brasil está mudando os comportamentos públicos e privados em relação à corrupção", afirmam as historiadoras.
Em todos casos a história é uma narrativa que seleciona eventos relevantes entre irrelevantes, segundo interpretações e interesses. Portanto, sempre faltará ou sobrará algo, mesmo num livro de mil páginas. Além disso, é preciso desmontar os mitos, investigando, além do que é falso ou verdadeiro, as encenações de época que consolidam as representações. Uma das mais controvertidas é a ideia da escravidão mais amigável do luso-tropicalismo. O Brasil recebeu 5 dos 8 a 11 milhões de negros arrancados da África, numa escalada demográfica que o projeta, hoje, como o segundo mais populoso país africano depois da Nigéria, contando os pardos e os negros. "O escravismo se enraizou de tal forma que marcou nossos costumes e palavras", diz Lilia. "Se a casa-grande delimitava a fronteira entre a área social e a de serviços, a arquitetura simbólica permanece nas casas e edifícios, onde elevador de serviço não é só para carga, mas sobretudo para os empregados que guardam a marca do passado africano na cor".
Ainda assim, o mito perdura. "A escravidão pacífica serve para minorar o impacto da desigualdade instituída, mas não consegue silenciar a remoção forçada dos africanos, as rebeliões, os castigos, as punições e a resistência dos quilombos", diz a antropóloga. Sim, Gilberto Freyre executou uma "façanha analítica" ao conferir caráter positivo à mestiçagem, atribuindo a ela não o atraso do país, mas sua vantagem comparativa no futuro. Mas todas as representações carregam dissonâncias de sentido.
Algumas passam despercebidas, como o discurso nativista sobre o "exército mestiço" de brancos, indígenas e negros que expulsou os holandeses de Pernambuco em 1648. A idealização republicana da Inconfidência Mineira relevou os interesses da "plutocracia" de contratantes e mercadores de ouro brasileiros demitidos dos cargos pelos portugueses. A república nascente atribuiu ao inconformado alferes Tiradentes, cujo rosto é desconhecido na história, "uma face religiosa, cabelos Chanel, olhar profético e túnica branca como a de Jesus Cristo". Outro mito é o quadro "Independência ou Morte", de Pedro Américo, que converteu as perturbações gástricas de d. Pedro I, durante a subida "à mula" de Santos para São Paulo, num épico brado do Ipiranga.
Mais do que um "reflexo" da marcha dos acontecimentos, a cultura produz cenários tão reais quanto distorcidos. Num país que vaia até minuto de silêncio, até o deboche costuma converter em balela o que não é. O impacto da vinda de João VI e 10 mil membros da corte portuguesa para um Rio de 60 mil habitantes, por exemplo, passou ao largo do filme "Carlota Joaquina, Princesa do Brasil", de Carla Camurati. "D. João VI é um personagem contraditório e até cômico, pela insistência em não declarar guerra à França com os franceses já invadindo Portugal. Mas também foi um estrategista que acertou ao transferir a corte", diz Lilia. "A Revolução Francesa acabou com muitas monarquias, mas a portuguesa ficou. Carlota Joaquina era uma estrategista. Ninguém estava brincando."
Graças a Napoleão, uma sociedade colonial sem moinhos, manufaturas, tipografias e universidades ganhou um Estado pronto, com reis, nobres, generais, monsenhores, mordomos, bibliotecários e contadores. O Reino Unido gerou a independência que desviou o Brasil do destino fragmentário dos 14 países que sucederam os quatro vice-reinados espanhóis, mas a monarquia planejada pela elite do Sudeste, com um grande território e economias complementares, não era a única possibilidade. "As elites pernambucanas e baianas sofreram. O país livrou-se da ruptura e do inesperado, mas consolidou a escravidão, o latifúndio e o patrimonialismo. Na época, a maior ameaça era uma revolução como no Haiti", diz Lilia.
D. Pedro II dedicou-se com seriedade austríaca à construção da monarquia tropical possível, tomando os signos grandiosos da natureza brasileira - o território, o clima ameno, os recursos naturais e os índios -, como matrizes da nacionalidade. Consolidou-se, assim, "uma memória oficial que se orgulha de alimentar o mito da beleza estonteante da natureza tropical, quando a história é outra". Na verdade, apesar da mitologia sobre a Amazônia, do ufanismo militar nacionalista ou dos exuberantes desfiles da natureza no sambódromo todo ano, passando pelas visões críticas ao romantismo decorativo do "índio de tocheiro" (Oswald de Andrade) e do tropicalismo, o Brasil é o campeão mundial do desmatamento e alvo secular de denúncias de maus tratos aos índios. Os brasileiros estetizam a natureza para compensar o desencanto com a cultura, mas tampouco acreditam na própria idealização.
Talvez a ilusão mais recorrente seja a "índole pacífica do povo brasileiro", que trata a Guerra do Paraguai como a exceção que confirma o mito de país com relações harmoniosas e tolerantes, externas e internas, como se a violência vigente na periferia das cidades fosse episódica. Esquece-se que a Cabanagem eliminou 30% da população do Pará, que a Revolução Federalista do Rio Grande do Sul, de 1893, matou 10 mil pessoas e exportou a degola para a Guerra de Canudos, e que em 1932 São Paulo e Campinas foram bombardeadas. Há até quem lamente a "falta" de violência, invejando a passionalidade dos vizinhos argentinos e zombando da Batalha de Itararé, na Revolução de 1930, "a maior batalha latino-americana que não houve". Há quem torça para o circo pegar fogo. Todo signo histórico é como Jano, a divindade de duas faces: qualquer crítica pode virar elogio e qualquer verdade, a maior das mentiras. Mas são os homens, não as interpretações, que fazem a história. Em 1947, Luís Carlos Prestes declarou ao Congresso que, no caso de uma guerra com a URSS, os comunistas tomariam o lado daquele país. Deu pretexto para a cassação do Partido Comunista e fomentou o anticomunismo nas Forças Armadas. Em 31 de março de 1964, o general Olympio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, de Juiz de Fora, lançou a tropa contra o Rio de Janeiro para depor o presidente Goulart. Esse mesmo oficial escrevera, em 1937, o forjado Plano Cohen, com supostas instruções para um violento levante comunista, na dupla condição de chefe do serviço secreto da Ação Integralista Brasileira e coronel do Estado-Maior do Exército, fornecendo pretexto para decretação do Estado Novo. Atribuir sentido à história é guerrear com palavras.
Aula de bagunça - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S. Paulo - 05/06
A greve dos professores da rede estadual de ensino não é nem greve nem é de professores. É um movimento político desencadeado por sindicalistas extremistas que usam reivindicações salariais absurdas como arma para desgastar um governador que é de um partido considerado inimigo. Fazem muito bem as autoridades em não negociar com quem não tem nenhuma intenção senão a de criar confusão - inclusive dentro do próprio movimento, como provam as cenas lamentáveis de brucutus a se estapear na última assembleia da Apeoesp, o sindicato dos professores estaduais paulistas. E pensar que é a tipos assim que nossas crianças estão entregues.
O espírito antidemocrático do movimento ficou claro no entrevero na Avenida Paulista. Pouco antes da votação que decidiu pela continuidade da paralisação, houve pancadaria, pois os ânimos estavam exaltados. Não é para menos - afinal, muitos dos que aderiram à greve perceberam que ela não tem mais sentido, nem mesmo político. Foram calados à força.
A assembleia votou pela manutenção da paralisação, mas o resultado apertado - que exigiu duas votações para ter certeza da decisão - indica que ao movimento resta somente a truculência, pois não conta com apoio firme nem mesmo dentro de suas hostes.
Faz sentido que assim seja. A greve nunca teve adesão significativa, pois desde o princípio ficou escancarada a sua má-fé. Em primeiro lugar, o movimento foi deflagrado em março não como instrumento legítimo de reivindicação, e sim para adornar os protestos a favor do governo federal petista e contra a administração tucana em São Paulo. Foi dessa maneira irresponsável que um punhado de sindicalistas resolveu causar prejuízos a milhares de alunos da rede pública, se isso resultasse em desgaste para o governador Geraldo Alckmin.
A pauta de reivindicações dos grevistas era propositalmente inexequível. Eles exigiam aumento salarial de 75,33%, com o argumento de que esse reajuste equipararia os vencimentos dos professores aos dos demais funcionários públicos de nível superior. No entanto, segundo o governo, os professores já receberam reajuste acumulado de 45% nos últimos quatro anos, um aumento real de 21%, colocando o piso da categoria em São Paulo 26% acima do piso nacional. Ademais, o último reajuste foi dado há menos de um ano, em julho de 2014, razão pela qual o governo só aceita abrir negociação em julho.
Coberto de razão, pois negociar com os grevistas nessas condições seria abrir um precedente inaceitável, Alckmin mandou não pagar os dias parados - decisão avalizada pelo Superior Tribunal de Justiça. A previsível indisposição do governo para dialogar com quem quer apenas causar embaraços políticos foi usada pela Apeoesp, controlada pelo PT e por legendas radicais sem voto, como PCO e PSTU, para demonstrar a “intransigência” de Alckmin. Em uma das assembleias, a presidente da Apeoesp, Maria Izabel Azevedo Noronha, chegou a dizer que “professor faz greve de cabeça erguida, mas de joelhos para o tucanato, jamais”.
Na presunção de que o desgaste estava rendendo os frutos desejados, os sindicalistas decidiram manter indefinidamente o movimento - que já passou de 80 dias e se tornou a maior greve da história da rede pública paulista. A tática dos grevistas incluiu atazanar o governador em todos os eventos públicos aos quais ele compareceu nesse período e invadir a Secretaria da Educação.
A Apeoesp jura que a greve tem a adesão de 30% da categoria, mas já chegou a falar em 60%. Para o governo, não passam de 4% os professores parados. Como é uma greve que não tem nenhuma razão de ser, salvo prejudicar a imagem de Alckmin, qualquer porcentual de escolas e estudantes afetados deve ser considerado excessivo.
Por esse motivo, já passou da hora de encerrar um movimento cujo único mérito foi ter escancarado a falta de vocação petista e de seus associados radicais para o diálogo democrático e responsável. Formada na escola do radicalismo inconsequente, essa turma só consegue dar aula de bagunça.
A greve dos professores da rede estadual de ensino não é nem greve nem é de professores. É um movimento político desencadeado por sindicalistas extremistas que usam reivindicações salariais absurdas como arma para desgastar um governador que é de um partido considerado inimigo. Fazem muito bem as autoridades em não negociar com quem não tem nenhuma intenção senão a de criar confusão - inclusive dentro do próprio movimento, como provam as cenas lamentáveis de brucutus a se estapear na última assembleia da Apeoesp, o sindicato dos professores estaduais paulistas. E pensar que é a tipos assim que nossas crianças estão entregues.
O espírito antidemocrático do movimento ficou claro no entrevero na Avenida Paulista. Pouco antes da votação que decidiu pela continuidade da paralisação, houve pancadaria, pois os ânimos estavam exaltados. Não é para menos - afinal, muitos dos que aderiram à greve perceberam que ela não tem mais sentido, nem mesmo político. Foram calados à força.
A assembleia votou pela manutenção da paralisação, mas o resultado apertado - que exigiu duas votações para ter certeza da decisão - indica que ao movimento resta somente a truculência, pois não conta com apoio firme nem mesmo dentro de suas hostes.
Faz sentido que assim seja. A greve nunca teve adesão significativa, pois desde o princípio ficou escancarada a sua má-fé. Em primeiro lugar, o movimento foi deflagrado em março não como instrumento legítimo de reivindicação, e sim para adornar os protestos a favor do governo federal petista e contra a administração tucana em São Paulo. Foi dessa maneira irresponsável que um punhado de sindicalistas resolveu causar prejuízos a milhares de alunos da rede pública, se isso resultasse em desgaste para o governador Geraldo Alckmin.
A pauta de reivindicações dos grevistas era propositalmente inexequível. Eles exigiam aumento salarial de 75,33%, com o argumento de que esse reajuste equipararia os vencimentos dos professores aos dos demais funcionários públicos de nível superior. No entanto, segundo o governo, os professores já receberam reajuste acumulado de 45% nos últimos quatro anos, um aumento real de 21%, colocando o piso da categoria em São Paulo 26% acima do piso nacional. Ademais, o último reajuste foi dado há menos de um ano, em julho de 2014, razão pela qual o governo só aceita abrir negociação em julho.
Coberto de razão, pois negociar com os grevistas nessas condições seria abrir um precedente inaceitável, Alckmin mandou não pagar os dias parados - decisão avalizada pelo Superior Tribunal de Justiça. A previsível indisposição do governo para dialogar com quem quer apenas causar embaraços políticos foi usada pela Apeoesp, controlada pelo PT e por legendas radicais sem voto, como PCO e PSTU, para demonstrar a “intransigência” de Alckmin. Em uma das assembleias, a presidente da Apeoesp, Maria Izabel Azevedo Noronha, chegou a dizer que “professor faz greve de cabeça erguida, mas de joelhos para o tucanato, jamais”.
Na presunção de que o desgaste estava rendendo os frutos desejados, os sindicalistas decidiram manter indefinidamente o movimento - que já passou de 80 dias e se tornou a maior greve da história da rede pública paulista. A tática dos grevistas incluiu atazanar o governador em todos os eventos públicos aos quais ele compareceu nesse período e invadir a Secretaria da Educação.
A Apeoesp jura que a greve tem a adesão de 30% da categoria, mas já chegou a falar em 60%. Para o governo, não passam de 4% os professores parados. Como é uma greve que não tem nenhuma razão de ser, salvo prejudicar a imagem de Alckmin, qualquer porcentual de escolas e estudantes afetados deve ser considerado excessivo.
Por esse motivo, já passou da hora de encerrar um movimento cujo único mérito foi ter escancarado a falta de vocação petista e de seus associados radicais para o diálogo democrático e responsável. Formada na escola do radicalismo inconsequente, essa turma só consegue dar aula de bagunça.
As mentiras que o BNDES conta - RAQUEL LANDIM
FOLHA DE SP - 05/06
Sob forte pressão da opinião pública, do TCU (Tribunal de Contas da União) e do Congresso, o BNDES começou a abrir a caixa preta das suas operações e vão caindo por terra as mentiras que a administração do banco conta.
Luciano Coutinho, que ocupa a presidência do BNDES há anos, repetiu inúmeras vezes que não era dinheiro público a grana que o BNDESPar, o braço de investimentos do banco, despejou em empresas ungidas para serem campeãs nacionais, como os frigoríficos JBS e Marfrig.
Pura enrolação. O Supremo Tribunal Federal referendou o entendimento do TCU. É dinheiro público, sim. O BNDES é um banco público que recebe recursos vultosos do Tesouro. Logo, qualquer ganho que o banco tenha em suas operações é dinheiro público.
Foi esse entendimento que permitiu nesta semana quebrar o sigilo inexplicável dos financiamentos do BNDES para que países em desenvolvimento contratem empreiteiras brasileiras na realização de suas obras de infraestrutura.
Esses empréstimos até fazem algum sentido, porque permitem as empresas nacionais exportar mais, gerando mais empregos e mais renda no país. Mas é necessário um cuidado extra porque são países de alto risco e a tentação é grande para favorecer os "amigos bolivarianos".
Já está evidente pelo patamar das taxas que houve subsídio para as empreiteiras –todas envolvidas no escândalo da Lava Jato. A análise técnica rigorosa, no entanto, é complicada, porque as bases de comparação são frágeis no caso de países como Cuba, que são párias no mercado internacional.
Para explicar os juros baixos, o banco vai criando outra falácia. O BNDES argumenta que o prêmio de risco desses países é estabelecido por um comitê interministerial, coordenado pelo ministério da Fazenda, e que não corre risco de inadimplência porque recebe garantias do Tesouro Nacional brasileiro.
E daí? Se países como Cuba e Venezuela não tiverem dinheiro para honrar esses empréstimos, o que importa se a conta vai estourar no BNDES ou no contribuinte? Não é tudo dinheiro público?
Sob forte pressão da opinião pública, do TCU (Tribunal de Contas da União) e do Congresso, o BNDES começou a abrir a caixa preta das suas operações e vão caindo por terra as mentiras que a administração do banco conta.
Luciano Coutinho, que ocupa a presidência do BNDES há anos, repetiu inúmeras vezes que não era dinheiro público a grana que o BNDESPar, o braço de investimentos do banco, despejou em empresas ungidas para serem campeãs nacionais, como os frigoríficos JBS e Marfrig.
Pura enrolação. O Supremo Tribunal Federal referendou o entendimento do TCU. É dinheiro público, sim. O BNDES é um banco público que recebe recursos vultosos do Tesouro. Logo, qualquer ganho que o banco tenha em suas operações é dinheiro público.
Foi esse entendimento que permitiu nesta semana quebrar o sigilo inexplicável dos financiamentos do BNDES para que países em desenvolvimento contratem empreiteiras brasileiras na realização de suas obras de infraestrutura.
Esses empréstimos até fazem algum sentido, porque permitem as empresas nacionais exportar mais, gerando mais empregos e mais renda no país. Mas é necessário um cuidado extra porque são países de alto risco e a tentação é grande para favorecer os "amigos bolivarianos".
Já está evidente pelo patamar das taxas que houve subsídio para as empreiteiras –todas envolvidas no escândalo da Lava Jato. A análise técnica rigorosa, no entanto, é complicada, porque as bases de comparação são frágeis no caso de países como Cuba, que são párias no mercado internacional.
Para explicar os juros baixos, o banco vai criando outra falácia. O BNDES argumenta que o prêmio de risco desses países é estabelecido por um comitê interministerial, coordenado pelo ministério da Fazenda, e que não corre risco de inadimplência porque recebe garantias do Tesouro Nacional brasileiro.
E daí? Se países como Cuba e Venezuela não tiverem dinheiro para honrar esses empréstimos, o que importa se a conta vai estourar no BNDES ou no contribuinte? Não é tudo dinheiro público?
Hora de definição - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 05/06
Mesmo que as manobras políticas da Câmara e do Senado sejam mais consequências da tentativa de seus presidentes de pressionar o Palácio do Planalto do que de melhorar nossa legislação, o resultado de debates de temas que o Congresso evita há muito tempo, como a redução da maioridade penal ou a reforma política, pode ser positivo, pois obriga os políticos a um posicionamento mais claro, e o Executivo a negociar com o Congresso para, no limite, não perder parte de seus poderes.
O Palácio do Planalto ficou fora do debate sobre a reforma política, que está longe de acabar. O Senado será chamado a intervir para alterar decisões polêmicas, ou consertar erros, e depois a Câmara voltará a se pronunciar.
Também o Supremo Tribunal Federal terá que se pronunciar sobre a validade da votação do financiamento de empresas aos partidos, que está sendo contestada pela situação, derrotada em uma segunda votação sobre o mesmo tema, embora em situações distintas.
Na primeira votação, o PT e seus aliados conseguiram barrar a aprovação de financiamento privado para candidatos e partidos. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, com o apoio de uma maioria surgida da noite para o dia, conseguiu colocar em votação uma segunda proposta, desta vez para financiamento apenas aos partidos, que acabou aprovada por larga maioria.
No caso da redução da maioridade penal, tema que a presidente Dilma considera fundamental, mesmo que seja mais um problema da sociedade do que do governo, ela já está buscando o apoio do PSDB para tentar abrandar a tendência de redução pura e simples da maioridade para 16 anos, que parece ser majoritária não apenas no Congresso, mas na sociedade.
O Palácio do Planalto gosta da proposta do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que prevê aumentar o tempo de internação de menores infratores que cometem crimes hediondos, mas não a redução da maioridade.
Existe também a proposta do senador Aloysio Nunes, que reduz a maioridade em casos de crimes hediondos como estupros, homicídios e sequestros.
Outro assunto que está mobilizando o governo é a tentativa dos presidentes da Câmara e do Senado de limitar seus poderes na nomeação de dirigentes das empresas estatais. A Lei de Responsabilidade das Estatais, embora tenha o objetivo de emparedar o governo, tem em seu bojo pontos importantes que servirão para melhorar o processo de escolha.
Mesmo abrindo mão da sabatina, o presidente do Senado, Renan Calheiros, insiste em restrições, como proibir ministros e ocupantes de cargos até o terceiro escalão de participar de conselhos das estatais. Também o PSDB apresentou a sua proposta, que submete ao Senado a aprovação de todos os diretores e membros dos conselhos de estatais com patrimônio acima de R$ 1 bilhão.
Também estabelece requisitos mínimos de experiência e aptidão técnica para ocupantes de cargos em conselhos, comitês e diretorias das estatais. Define ainda a responsabilidade civil, administrativa e/ ou criminal dos administradores (diretores e membros do conselho de administração) das empresas estatais.
O tema está extremamente atual depois que os escândalos da Petrobras vieram à tona e se descobriu que os Conselhos de Administração da estatal deixaram passar ilicitudes que resultaram em prejuízos à empresa, até mesmo com a hoje presidente Dilma no comando do conselho.
O conflito de interesses ficou claro quando foi revelado o papel do ex- ministro Guido Mantega, combinado com a presidente Dilma, de impedir que a então presidente da Petrobras Graça Foster colocasse no balanço o prejuízo que considerava correto. O balanço acabou saindo com metade daquele prejuízo previsto inicialmente.
Agora mesmo a presidente Dilma nomeou dois aliados políticos seus para o Conselho de Itaipu, que tinha até recentemente o então tesoureiro do PT João Vaccari Neto, hoje preso. Com as novas exigências, dificilmente apoios políticos poderão ser pagos com essa moeda.
Mesmo que as manobras políticas da Câmara e do Senado sejam mais consequências da tentativa de seus presidentes de pressionar o Palácio do Planalto do que de melhorar nossa legislação, o resultado de debates de temas que o Congresso evita há muito tempo, como a redução da maioridade penal ou a reforma política, pode ser positivo, pois obriga os políticos a um posicionamento mais claro, e o Executivo a negociar com o Congresso para, no limite, não perder parte de seus poderes.
O Palácio do Planalto ficou fora do debate sobre a reforma política, que está longe de acabar. O Senado será chamado a intervir para alterar decisões polêmicas, ou consertar erros, e depois a Câmara voltará a se pronunciar.
Também o Supremo Tribunal Federal terá que se pronunciar sobre a validade da votação do financiamento de empresas aos partidos, que está sendo contestada pela situação, derrotada em uma segunda votação sobre o mesmo tema, embora em situações distintas.
Na primeira votação, o PT e seus aliados conseguiram barrar a aprovação de financiamento privado para candidatos e partidos. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, com o apoio de uma maioria surgida da noite para o dia, conseguiu colocar em votação uma segunda proposta, desta vez para financiamento apenas aos partidos, que acabou aprovada por larga maioria.
No caso da redução da maioridade penal, tema que a presidente Dilma considera fundamental, mesmo que seja mais um problema da sociedade do que do governo, ela já está buscando o apoio do PSDB para tentar abrandar a tendência de redução pura e simples da maioridade para 16 anos, que parece ser majoritária não apenas no Congresso, mas na sociedade.
O Palácio do Planalto gosta da proposta do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que prevê aumentar o tempo de internação de menores infratores que cometem crimes hediondos, mas não a redução da maioridade.
Existe também a proposta do senador Aloysio Nunes, que reduz a maioridade em casos de crimes hediondos como estupros, homicídios e sequestros.
Outro assunto que está mobilizando o governo é a tentativa dos presidentes da Câmara e do Senado de limitar seus poderes na nomeação de dirigentes das empresas estatais. A Lei de Responsabilidade das Estatais, embora tenha o objetivo de emparedar o governo, tem em seu bojo pontos importantes que servirão para melhorar o processo de escolha.
Mesmo abrindo mão da sabatina, o presidente do Senado, Renan Calheiros, insiste em restrições, como proibir ministros e ocupantes de cargos até o terceiro escalão de participar de conselhos das estatais. Também o PSDB apresentou a sua proposta, que submete ao Senado a aprovação de todos os diretores e membros dos conselhos de estatais com patrimônio acima de R$ 1 bilhão.
Também estabelece requisitos mínimos de experiência e aptidão técnica para ocupantes de cargos em conselhos, comitês e diretorias das estatais. Define ainda a responsabilidade civil, administrativa e/ ou criminal dos administradores (diretores e membros do conselho de administração) das empresas estatais.
O tema está extremamente atual depois que os escândalos da Petrobras vieram à tona e se descobriu que os Conselhos de Administração da estatal deixaram passar ilicitudes que resultaram em prejuízos à empresa, até mesmo com a hoje presidente Dilma no comando do conselho.
O conflito de interesses ficou claro quando foi revelado o papel do ex- ministro Guido Mantega, combinado com a presidente Dilma, de impedir que a então presidente da Petrobras Graça Foster colocasse no balanço o prejuízo que considerava correto. O balanço acabou saindo com metade daquele prejuízo previsto inicialmente.
Agora mesmo a presidente Dilma nomeou dois aliados políticos seus para o Conselho de Itaipu, que tinha até recentemente o então tesoureiro do PT João Vaccari Neto, hoje preso. Com as novas exigências, dificilmente apoios políticos poderão ser pagos com essa moeda.
O BB não é a Petrobrás - ELIANE CANTANHÊDE
O ESTADÃO - 05/06
Henrique Pizzolato vem aí, trazendo com ele doloridas lembranças do mensalão e reavivando a certeza de que, na era PT, a política desenfreada de ocupação de estatais e bancos públicos não se resumiu à Petrobrás. O Banco do Brasil foi uma das vítimas, mas se defendeu.
Petrobrás e BB viraram o paraíso de petistas e sindicalistas, mas com uma diferença: os funcionários da petroleira não viram, não ouviram e não falaram nada nesses anos todos, enquanto os do banco souberam botar a boca no trombone na hora certa, já em 2003, meses depois da posse de Lula. Foi assim que o BB resvalou nos escândalos, mas - pelo que se sabe até agora - não afundou neles, como a Petrobrás.
Ao tomar posse, Lula até que tentou emplacar um sindicalista do PT na presidência do Banco do Brasil, assim como fizera na da Petrobrás, mas os escolhidos não tinham diploma de nível superior, uma exigência do estatuto da instituição. Pensou-se inclusive em mudar o estatuto, mas seria um pouco demais. Os funcionários puseram-se em alerta.
Fora da presidência, os petistas jogaram-se com unhas e dentes nas demais instâncias do BB. Cinco dos sete vice-presidentes eram vinculados ao PT e só escaparam dois, o de Agronegócio e o de Negócios Internacionais. À época, o então presidente da Associação Nacional dos Funcionários do BB (Anabb), Valmir Camilo, me deu sua versão, um tanto preconceituosa, para essas duas exceções: os sindicalistas do PT não entendiam de agronegócio, só de MST, e não podiam assumir a vice internacional porque não falavam uma palavra de inglês.
Além das vices, os “companheiros” abocanharam oito das 15 diretorias, sete das dez gerências gerais e as três joias da coroa: Previ (fundo de pensão), Cassi (plano de saúde) e Fundação BB (programas sociais e culturais). Além do presidente, cinco dos seis diretores do Conselho Diretor da Previ, maior fundo de pensão da América Latina, com patrimônio de R$ 38 bilhões em 2003, passaram às mãos de petistas a partir da posse de Lula.
Voltemos pois a Pizzolato, funcionário de carreira do Banco do Brasil, militante do PT, sindicalista atuante e ex-presidente da CUT no Paraná. Em 2002, ele trabalhou diretamente com o tesoureiro da candidatura Lula, o agora famoso Delúbio Soares, e apresentava-se por aí com sua curiosa gravatinha borboleta e um cartão de visitas poderoso: “Henrique Pizzolato - do Comitê Financeiro”.
Eleito Lula, Pizzolato voltou por cima ao BB, como diretor de Marketing (um dos oito diretores petistas), e não demorou muito para aprontar das suas. Já em 2004, foi pego com a boca na botija quando o BB comprou R$ 73,5 mil em ingressos de um show de Zezé di Camargo e Luciano para arrecadar fundos para... a nova sede do PT.
Depois, Pizzolato foi flagrado levando para casa a bagatela de R$ 356 mil em dinheiro vivo, numa dessas confusões nunca bem explicadas, e foi condenado a 12 anos e sete meses de cadeia no escândalo do mensalão. Diferentemente dos demais réus, fugiu. Usando o nome de um irmão morto, foi curtir sua dupla cidadania na Itália, até acabar preso.
Os excessos de Pizzolato, aliados à coragem de funcionários de carreira, alertaram a imprensa desde o início para o aparelhamento e o tsunami que estava se armando. Foi assim que o Banco do Brasil, aparentemente, escapou da tragédia que assolou a nossa Petrobrás e, quem sabe, outros bancos e empresas públicas do País. E é por isso que uma Lei de Responsabilidade das Estatais, desde que bem discutida e com objetivos claros, é muito bem-vinda.
Quando se enrolou com o show pró-PT, Pizzolato me deu uma entrevista em que foi irônico, às vezes até sarcástico, apostando que nada iria lhe acontecer: “Já comemos [ELE E O PT]torresmo com muito mais cabelo”. Agora, é saber se tem torresmo na Penitenciária da Papuda, com ou sem cabelo.
FHC. Após um mês entre Europa e Bahia, FHC está com erisipela. Literalmente, de pernas para o ar.
Henrique Pizzolato vem aí, trazendo com ele doloridas lembranças do mensalão e reavivando a certeza de que, na era PT, a política desenfreada de ocupação de estatais e bancos públicos não se resumiu à Petrobrás. O Banco do Brasil foi uma das vítimas, mas se defendeu.
Petrobrás e BB viraram o paraíso de petistas e sindicalistas, mas com uma diferença: os funcionários da petroleira não viram, não ouviram e não falaram nada nesses anos todos, enquanto os do banco souberam botar a boca no trombone na hora certa, já em 2003, meses depois da posse de Lula. Foi assim que o BB resvalou nos escândalos, mas - pelo que se sabe até agora - não afundou neles, como a Petrobrás.
Ao tomar posse, Lula até que tentou emplacar um sindicalista do PT na presidência do Banco do Brasil, assim como fizera na da Petrobrás, mas os escolhidos não tinham diploma de nível superior, uma exigência do estatuto da instituição. Pensou-se inclusive em mudar o estatuto, mas seria um pouco demais. Os funcionários puseram-se em alerta.
Fora da presidência, os petistas jogaram-se com unhas e dentes nas demais instâncias do BB. Cinco dos sete vice-presidentes eram vinculados ao PT e só escaparam dois, o de Agronegócio e o de Negócios Internacionais. À época, o então presidente da Associação Nacional dos Funcionários do BB (Anabb), Valmir Camilo, me deu sua versão, um tanto preconceituosa, para essas duas exceções: os sindicalistas do PT não entendiam de agronegócio, só de MST, e não podiam assumir a vice internacional porque não falavam uma palavra de inglês.
Além das vices, os “companheiros” abocanharam oito das 15 diretorias, sete das dez gerências gerais e as três joias da coroa: Previ (fundo de pensão), Cassi (plano de saúde) e Fundação BB (programas sociais e culturais). Além do presidente, cinco dos seis diretores do Conselho Diretor da Previ, maior fundo de pensão da América Latina, com patrimônio de R$ 38 bilhões em 2003, passaram às mãos de petistas a partir da posse de Lula.
Voltemos pois a Pizzolato, funcionário de carreira do Banco do Brasil, militante do PT, sindicalista atuante e ex-presidente da CUT no Paraná. Em 2002, ele trabalhou diretamente com o tesoureiro da candidatura Lula, o agora famoso Delúbio Soares, e apresentava-se por aí com sua curiosa gravatinha borboleta e um cartão de visitas poderoso: “Henrique Pizzolato - do Comitê Financeiro”.
Eleito Lula, Pizzolato voltou por cima ao BB, como diretor de Marketing (um dos oito diretores petistas), e não demorou muito para aprontar das suas. Já em 2004, foi pego com a boca na botija quando o BB comprou R$ 73,5 mil em ingressos de um show de Zezé di Camargo e Luciano para arrecadar fundos para... a nova sede do PT.
Depois, Pizzolato foi flagrado levando para casa a bagatela de R$ 356 mil em dinheiro vivo, numa dessas confusões nunca bem explicadas, e foi condenado a 12 anos e sete meses de cadeia no escândalo do mensalão. Diferentemente dos demais réus, fugiu. Usando o nome de um irmão morto, foi curtir sua dupla cidadania na Itália, até acabar preso.
Os excessos de Pizzolato, aliados à coragem de funcionários de carreira, alertaram a imprensa desde o início para o aparelhamento e o tsunami que estava se armando. Foi assim que o Banco do Brasil, aparentemente, escapou da tragédia que assolou a nossa Petrobrás e, quem sabe, outros bancos e empresas públicas do País. E é por isso que uma Lei de Responsabilidade das Estatais, desde que bem discutida e com objetivos claros, é muito bem-vinda.
Quando se enrolou com o show pró-PT, Pizzolato me deu uma entrevista em que foi irônico, às vezes até sarcástico, apostando que nada iria lhe acontecer: “Já comemos [ELE E O PT]torresmo com muito mais cabelo”. Agora, é saber se tem torresmo na Penitenciária da Papuda, com ou sem cabelo.
FHC. Após um mês entre Europa e Bahia, FHC está com erisipela. Literalmente, de pernas para o ar.
O Brasil no divã - NELSON MOTTA
O GLOBO - 05/06
O paciente está atônito no divã diante da atual confusão de valores, em que as fronteiras entre o mal e o bem estão cada vez mais borradas
Se o Brasil fosse uma pessoa, estaria fazendo cinco sessões semanais no consultório de um psicanalista e tomando remédio tarja preta. Descobriu que o pai não é um herói, mas um sem-vergonha infiel, vaidoso e irresponsável, capaz de fazer qualquer coisa pelo poder, e que a mãe é mentirosa e autoritária, e um desastre na administração da casa, além de ninguém entender o que ela diz. Ainda bem que o Brasil não é uma pessoa.
O país está no divã de um grupo de analistas, econômicos, políticos e sociais. Mas o caso é complexo. Complexo de superioridade bravateado por Lula durante anos, desmentido diariamente pela realidade da corrupção, do desperdício e da incompetência; complexo de inferioridade pelo menor crescimento de toda a América Latina, só maior que Venezuela e Argentina, casos perdidos, de internação imediata.
Síndrome de inveja crônica de americanos e europeus, porque conseguem ser mais ricos, educados e viver melhor do que nós. Complexo de culpa por um país com tantos recursos naturais e tanta beleza, com tudo para se tornar adulto, mas continua adolescente e acreditando em ilusões e almoços grátis, e ignorando que o governo não produz nada e que tudo que gasta é fruto do trabalho e do esforço de cada cidadão, que não sabe que as horas, dias e meses que você trabalha para sustentar o governo estão perdidos e não voltam mais: são vida. Estão roubando a sua vida.
Mas não há esperanças para o paciente enquanto amigos do poder, agregados e parentes incompetentes continuarem ocupando cargos de responsabilidade e dando imensos prejuízos a todos por ladroagem, burrice e ineficiência.
O paciente está atônito diante da atual confusão de valores, em que as fronteiras entre o mal e o bem estão borradas. Quem diria que algum dia aplaudiríamos gente como Eduardo Cunha e Renan Calheiros, por tirar do governo, de qualquer governo, a possibilidade de aparelhar politicamente as estatais — maldição dos anos Lula/Dilma, que levou o Brasil ao divã.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
MPF devassou mais de 50 contratos do BNDES
O Ministério Público Federal (MPF) realizou uma minuciosa devassa em cerca de 50 contratos de financiamentos do BNDES com empreiteiras brasileiras, sendo metade relativa a contratos de obras no exterior em condições consideradas demasiado vantajosas. Essa investigação levou o MPF a formular mais de 60 pedidos de prisão, ainda sob exame de força-tarefa de cinco juízes federais de Brasília.
Manobra
A recente decisão do BNDES de “abrir” contratos secretos é uma tentativa de evitar uma aguardada operação contra suas malfeitorias.
A preferida
Levantamento desta coluna, há 4 meses, foi confirmado pelo jornal O Globo: a Odebrecht faturou 70% dos negócios do BNDES no exterior.
O protetor
O ex-presidente Lula foi denunciado por suposto lobby para conseguir obras bilionárias para Odebrecht no exterior, financiadas pelo BNDES.
Sob lupa
As relações do BNDES com empresas como o grupo JBS/Friboi estão no centro das prioridades da investigação do MPF.
Aliados ameaçam votar PEC limitando ministérios
O líder do PMDB na Câmara, Leonardo Picciani (RJ), deve levar na próxima semana a Michel Temer uma nova rodada de reclamações dos aliados. Os deputados cobram a garantia da liberação das emendas parlamentares, que, em atraso, já ultrapassam os R$ 400 milhões. Sem sinal de garantia da verba, a ameaça é acelerar a PEC 299/13, de Eduardo Cunha, que limita em vinte o número de ministérios.
Tesourada
Michel Temer deve chamar o ministro Joaquim Levy (Fazenda) para participar da reunião de com Leonardo Picciani.
Apertou
Mais de 30% dos quase R$ 70 bilhões contingenciados pelo governo federal são das emendas parlamentares, daí a insatisfação.
Calma, gente
O ministro Nelson Barbosa (Planejamento) avisou à turma de Michel Temer que há dinheiro em caixa para bancar as emendas.
Trato é trato
Deputados reclamam que derrubaram a meta fiscal, em dezembro, com promessa de reajuste nas emendas. Agora, o governo segura a grana.
Virada
O Planalto se esforça para, aprovado o pacotão de maldades fiscais no Congresso, votar finalmente o pacote anticorrupção. É o primeiro passo para tentar construir uma agenda positiva para o governo Dilma.
Plebiscito
O deputado Henrique Fontana (PT-RS), que é contra a redução da maioridade penal, provoca Eduardo Cunha: “Por que não aceita plebiscito sobre empresas financiarem eleições? Medo de perder?”
Passe concorrido
Após perder Bruno Dantas para o Tribunal de Contas da União (TCU), onde agora é ministro, Benjamin Steinbruch tem um sonho: convencer o ministro-chefe da Advocacia Geral da União a aceitar seu convite para assumir a direção jurídica da Cia Siderúrgica Nacional (CSN).
Insensibilidade
A saúde pública no DF está um caos, mas, segundo o Siggo, o sistema de monitoramento dos gastos públicos, a secretaria de Saúde mantém R$ 198,7 milhões aplicados em CDB e R$ 31,8 milhões na poupança.
Pressa
O senador Renan Calheiros (PMDB-AL) prometeu acelerar votação no Senado dos itens da reforma política aprovados pela Câmara. Ele pretende que a reforma entre em vigor já nas eleições de 2016.
Prioridade
Pressionado pelo ministro Aloizio Mercadante, o Partido Progressista (PP) avisou Eduardo Cunha que a prioridade é manter aliança com governo, mesmo que seja contra o presidente da Câmara.
Coitado do contribuinte
Para o deputado Arthur Virgílio Bisneto (PSDB-AM), o governo quer “furar o bolso do contribuinte” com a nova alta de impostos: “Diminuir à metade os ministérios, cortar cargos, diárias, passagens, nem pensar”.
Pensando bem…
…Dilma tem uma certa incompatibilidade com congressos: o Nacional quer vê-la pelas costas e o do PT, dia 11, não quer vê-la por perto.
O Ministério Público Federal (MPF) realizou uma minuciosa devassa em cerca de 50 contratos de financiamentos do BNDES com empreiteiras brasileiras, sendo metade relativa a contratos de obras no exterior em condições consideradas demasiado vantajosas. Essa investigação levou o MPF a formular mais de 60 pedidos de prisão, ainda sob exame de força-tarefa de cinco juízes federais de Brasília.
Manobra
A recente decisão do BNDES de “abrir” contratos secretos é uma tentativa de evitar uma aguardada operação contra suas malfeitorias.
A preferida
Levantamento desta coluna, há 4 meses, foi confirmado pelo jornal O Globo: a Odebrecht faturou 70% dos negócios do BNDES no exterior.
O protetor
O ex-presidente Lula foi denunciado por suposto lobby para conseguir obras bilionárias para Odebrecht no exterior, financiadas pelo BNDES.
Sob lupa
As relações do BNDES com empresas como o grupo JBS/Friboi estão no centro das prioridades da investigação do MPF.
Aliados ameaçam votar PEC limitando ministérios
O líder do PMDB na Câmara, Leonardo Picciani (RJ), deve levar na próxima semana a Michel Temer uma nova rodada de reclamações dos aliados. Os deputados cobram a garantia da liberação das emendas parlamentares, que, em atraso, já ultrapassam os R$ 400 milhões. Sem sinal de garantia da verba, a ameaça é acelerar a PEC 299/13, de Eduardo Cunha, que limita em vinte o número de ministérios.
Tesourada
Michel Temer deve chamar o ministro Joaquim Levy (Fazenda) para participar da reunião de com Leonardo Picciani.
Apertou
Mais de 30% dos quase R$ 70 bilhões contingenciados pelo governo federal são das emendas parlamentares, daí a insatisfação.
Calma, gente
O ministro Nelson Barbosa (Planejamento) avisou à turma de Michel Temer que há dinheiro em caixa para bancar as emendas.
Trato é trato
Deputados reclamam que derrubaram a meta fiscal, em dezembro, com promessa de reajuste nas emendas. Agora, o governo segura a grana.
Virada
O Planalto se esforça para, aprovado o pacotão de maldades fiscais no Congresso, votar finalmente o pacote anticorrupção. É o primeiro passo para tentar construir uma agenda positiva para o governo Dilma.
Plebiscito
O deputado Henrique Fontana (PT-RS), que é contra a redução da maioridade penal, provoca Eduardo Cunha: “Por que não aceita plebiscito sobre empresas financiarem eleições? Medo de perder?”
Passe concorrido
Após perder Bruno Dantas para o Tribunal de Contas da União (TCU), onde agora é ministro, Benjamin Steinbruch tem um sonho: convencer o ministro-chefe da Advocacia Geral da União a aceitar seu convite para assumir a direção jurídica da Cia Siderúrgica Nacional (CSN).
Insensibilidade
A saúde pública no DF está um caos, mas, segundo o Siggo, o sistema de monitoramento dos gastos públicos, a secretaria de Saúde mantém R$ 198,7 milhões aplicados em CDB e R$ 31,8 milhões na poupança.
Pressa
O senador Renan Calheiros (PMDB-AL) prometeu acelerar votação no Senado dos itens da reforma política aprovados pela Câmara. Ele pretende que a reforma entre em vigor já nas eleições de 2016.
Prioridade
Pressionado pelo ministro Aloizio Mercadante, o Partido Progressista (PP) avisou Eduardo Cunha que a prioridade é manter aliança com governo, mesmo que seja contra o presidente da Câmara.
Coitado do contribuinte
Para o deputado Arthur Virgílio Bisneto (PSDB-AM), o governo quer “furar o bolso do contribuinte” com a nova alta de impostos: “Diminuir à metade os ministérios, cortar cargos, diárias, passagens, nem pensar”.
Pensando bem…
…Dilma tem uma certa incompatibilidade com congressos: o Nacional quer vê-la pelas costas e o do PT, dia 11, não quer vê-la por perto.
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