quarta-feira, março 18, 2015

Erros além da dosagem - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 18/03

Os principais indicadores da economia continuam a apontar para recessão este ano e os mais de 1 milhão de manifestantes que foram às ruas no domingo ainda nem começaram a sentir o pior efeito disso: o desemprego. Se a corrupção foi o principal motor da manifestação, a insatisfação com a perda ou a diminuição da capacidade de alimentar a família certamente os trará de volta, e, dessa vez, com muito mais fúria.

Só para exemplificar: o Banco Central divulgou, na segunda-feira, que o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) recuou 0,11%. Esse resultado levou a maioria dos especialistas a rever para baixo ou a reforçar as previsões de queda em torno de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2015. Afinal, o índice foi criado para avaliar mensalmente a evolução da economia e, com tempo, passou a ser visto como antecipação do comportamento do PIB, oficialmente medido trimestralmente pelo IBGE.

Essa é mais uma razão para que o governo não apenas apoie o ajuste fiscal proposto pela equipe comandada pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e que é o primeiro passo para o país caminhar no rumo oposto ao abismo, como assuma postura convincente de que acredita na necessidade desse remédio, por mais amargo que ele seja. Mais: que, de fato, está empenhado em acelerar a implantação. Sem isso, o ajuste continua a correr riscos, apesar de toda a via-sacra pelos corredores políticos e empresariais feita nos últimos dias pela equipe econômica.

Por isso, são até agora preocupantes as reações da presidente Dilma Rousseff e dos ministros mais próximos. Nem ela nem eles parecem ter entendido a importância do que ocorreu no domingo. Mais preocupados com a improdutiva discussão sobre a viabilidade do impeachment da presidente, não perceberam a urgência de abandonar o discurso da campanha eleitoral, gasto e, a essa altura, desmoralizado pelos fatos.

Não menos danoso tem sido não perceber que a vitória apertada na eleição e os equívocos primários na relação com os aliados no parlamento não autorizam mais o mando arrogante do primeiro mandato. Editar medidas provisórias, ainda que tecnicamente necessárias, reduzindo direitos sociais e trabalhistas sem conversa antecipada com parceiros que ganharam votos prometendo o paraíso ao eleitorado é plantar vento para colher tempestade. Tornou tudo mais difícil.

Pior ainda é menosprezar o tamanho da insatisfação popular de quem o governo ainda nem começou a retirar ou a reduzir a prestação de serviços públicos de saúde e segurança. Na educação, a primeira experiência em cortes, com o Fies, foi um desastre, por falta de explicação a quem mais deveria importar ao governo: os estudantes.

Foi nessa linha autoritária e estouvada que a presidente, um dia depois da mega manifestação, aceitou falar com a imprensa. Passou de raspão pela palavra humildade, mas não foi além de admitir apenas eventual erro de dosagem na desastrosa política econômica do primeiro mandato. É verdade que falou no ajuste fiscal, mas fugiu à responsabilidade de assumir as razões para adotá-lo.

Esquece a presidente que, a essa altura, a maioria dos agentes econômicos que dão empregos, mesmo os de menor porte, sabem quem provocou os males que todos enfrentam hoje. Ela precisa de todo mundo para tirar o país dessa enrascada, mas nada vai conseguir com o discurso que a deixa cada vez mais distante da confiança em sua capacidade de governar.

Chega a hora do lulopetismo no petrolão - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 18/03

Lava-Jato detém o ex-diretor Renato Duque, apadrinhado pelo PT, denuncia Vaccari, tesoureiro da legenda, e traça rota de propinas convertidas em doações eleitorais



São dias agrestes para o PT. Não fosse bastante a ressaca da gigantesca manifestação oposicionista de domingo, na segunda-feira o governo Dilma e dirigentes partidários foram obrigados a dividir a atenção entre entrevistas e declarações de autoridades, a presidente inclusive, para, de alguma forma, dar uma resposta à população que vestiu verde e amarelo no dia anterior, e a detalhada exposição feita pelo Ministério Público Federal, em Curitiba, sobre a 10ª fase da Operação Lava-Jato.

E também no Paraná não foram boas as notícias. Na manhã de segunda, havia sido preso pela, segunda vez, o ex-diretor da Petrobras Renato Duque, apanhado agora numa transferência de € 70 milhões da Suíça para Mônaco. Detido anteriormente, mas solto por habeas corpus, desta vez tudo parece indicar que Duque toma o mesmo caminho de colegas. E terá de optar: aceita firmar acordo de delação premiada e poderá até ser beneficiado com prisão domiciliar, como o também ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa, ou mantém o silêncio e ficará em companhia de Nestor Cerveró, responsável pela área Internacional da companhia, hospedado na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, em prisão preventiva.

Além da detenção de Duque — consta que apadrinhado pelo PT, na pessoa de José Dirceu —, outro baque para o partido nessa segunda foi a denúncia à Justiça de João Vaccari Neto, tesoureiro da legenda, um posto amaldiçoado. Lembremo-nos que um dos antecessores de Vaccari, Delúbio Soares, cumpriu pena na Papuda, em Brasília, na condição de mensaleiro condenado. O problema, potencialmente de grandes proporções para o partido, é que, segundo a divisão feita na Petrobras para efeito de drenagem de propinas, a diretoria de Serviço, de Duque, captaria dinheiro sujo exclusivamente para o PT. Não deve interessar ao lulopetismo que ele fale.

Uma das denúncias premiadas vitais para se desbaratar o petrolão é a de Pedro Barusco, ex-gerente-geral da diretoria de Duque. De acordo com Barusco, o PT deve ter recebido de empreiteiras de US$ 150 milhões a US$ 200 milhões, dos quais US$ 50 milhões coletados por Vaccari em pessoa.

O PT se defende das acusações com a explicação de que recebeu apenas doações legais das empresas. Na verdade, propinas “lavadas” por meio da Justiça Eleitoral, entende o MP. Provar que dinheiro sujo foi “legalizado” nessas doações deverá ser o ponto central do julgamento do petrolão no Supremo. Assim como foi o conceito jurídico do “domínio do fato” no mensalão (aplicado para condenar José Dirceu).

Para dar sustentação às denúncias, o MP tem rastreado pagamentos da Petrobras a empreiteiras — certamente em contratos superfaturados — que correspondem, logo em seguida, a doações dessas empresas a diretórios petistas. Uma transferência ilegal de dinheiro público para o partido, mas por via legal. Não há perspectiva de que melhore o tempo para os lulopetistas no petrolão.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Não nos façam de bobos”
Ministro Gilmar Mendes (STF) sobre a proposta de financiamento eleitoral da OAB



DEVASSA EM CONSELHO PODE COMPROMETER DILMA

O Tribunal de Contas da União (TCU) está prestes a “abrir as portas do inferno” para Dilma, e deixá-la vulnerável a impeachment. Seu plenário deve aprofundar a investigação do papel do conselho de administração no escândalo de corrupção da Petrobras. O conselho foi presidido por Dilma desde o início do governo Lula, gênesis do assalto à estatal, e todas as decisões, inclusive as que alimentaram o “petrolão”, tiveram sua assinatura, configurando “ato de ofício” que pode incriminá-la.

AUTOR DA PROPOSTA

O auditor e ministro-substituto André Luís de Carvalho foi quem levou ao plenário do TCU a proposta de investigar o conselho da Petrobras.

DILMA DEU O MOTE

A devassa do TCU se baseará na reação da própria Dilma, ao atribuir a compra superfaturada da refinaria de Pasadena a informações falsas.

DADOS FALSOS

Dilma disse que o então diretor Nestor Cerveró, hoje preso, enviou ao conselho de administração da Petrobras dados falsos sobre Pasadena.

PRÁTICA HABITUAL

A suspeita no TCU é que outras decisões tenham sido tomadas, no conselho da Petrobras, com base em informações igualmente falsas.

PF ACREDITA QUE HÁ MAIS POLÍTICOS ENVOLVIDOS

O delegado federal Igor de Paulo, que participa das investigações, afirmou ontem que a Operação Lava Jato trabalha com a expectativa de forte “expansão” da lista de parlamentares envolvidos do assalto à Petrobrás. A força-tarefa acredita esse novos nomes surgirão a partir dos inquéritos determinados pelo ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal. A “Lista de Janot”, com 54 nomes, deve crescer.

OS INTOCÁVEIS

A Polícia Federal destacou 40 delegados e agentes para trabalhar na Lava Jato. Sem contar aqueles que atuam nos novos inquéritos.

ENCENAÇÃO

PT e PMDB combinaram tratar de “reforma política”, para ocupar as manchetes, mas em particular só falam em petrolão. Estão em pânico.

APOCALIPSE

Os políticos do PT e do PMDB estão à base de tranquilizantes, à espera de notícias sobre o depoimento do lobista Fernando Baiano.

MALA PRONTA

Se é mesmo bem informado, como já demonstrou, o ex-deputado federal Cândido Vaccarezza (PT-SP) já deve ter preparado sua mala de mão, tipo a do empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC.

CAIXA PRETA

São devastadoras as revelações de dirigentes da empreiteira Camargo Corrêa que fizeram acordo de delação premiada. A “caixa preta” do setor elétrico começou pela obra da hidrelétrica de Belo Monte.

NOVO PRESIDENTE

José Maranhão (PMDB-PB) assumirá a presidência da Comissão de Constituição e Justiça, a mais importante do Senado. Será sabatinado na CCJ o substituto de Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal.

DISSE BEM

Com a coragem habitual, o ministro Gilmar Mendes (STF) criticou a proposta da OAB de financiamento eleitoral: o pode da Bolsa Família e o empresário devem contribuir com o mesmo valor. “Isso tem nome. Isso é encomendar lavagem de dinheiro”, adverte o magistrado.

PENDURADO NA BROCHA

O tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, virou réu por corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. É suspeito de roubar em nome da companheirada. Mas todos, como Lula, se fingem de mortos.

MORDENDO O PRÓPRIO RABO

Dilma entrega sua sorte a Joaquim Levy (Fazenda), mas o PT não esconde a preferência por Nelson Barbosa (Planejamento), cujas decisões ajudaram em muito a formar a crise que impôs o arrocho.

ENFRENTAMENTO

O deputado Jerônimo Goergen (PP-RS), que está na lista de Janot, tem se colocado à disposição jornalistas para responder a qualquer pergunta sobre o assunto. Quer mostrar que não teme a investigação.

AMARELOU, OFICIALMENTE

Em vez de demitir Cid Gomes (Educação), Dilma concedeu a ele “licença médica”. A manobra livra o ministro de ir ao plenário da Câmara, como foi intimado, e apontar os “deputados achacadores”.

PERGUNTA NO PLENÁRIO

Se Cid Gomes perder o cargo por acusar os deputados federais de “achacadores”, será o primeiro ministro demitido por falar a verdade?


PODER SEM PUDOR

TODO CUIDADO É POUCO

Costa Rego fez fama como jornalista no Rio de Janeiro e, na década de 20, voltou para Alagoas, sua terra natal, para se eleger governador. Fez um governo austero, mas, incorrigível mulherengo, enfrentou problemas. Seu secretário da Fazenda era Epaminondas Gracindo, avô do ator Gracindo Júnior. Certo dia, ele tomava o café da manhã e viu Costa Rego abrindo a porta de sua casa e ir entrando com a maior naturalidade.

- Espere aí, governador! - gritou Epaminondas - Com essa sua fama de garanhão, o senhor não pode entrar na casa de uma família de respeito.

Governador e secretário despacharam na calçada.

domingo, março 15, 2015

XÔ CAMBADA DE MARGINAIS!


FORA VAGABUNDA


A delação premiada e os seus riscos - SACHA CALMON

CORREIO BRAZILIENSE - 15/04

A delação premiada tem tradição no direito norte-americano, em que a crença no testemunho com a mão sobre a Bíblia goza de prestigio forense. Entretanto, o perjúrio sempre esteve presente em qualquer tempo ou lugar (falso testemunho). A prova testemunhal é a prostituta das provas e a confissão espontânea da autoria do delito a rainha, aliviando a consciência dos julgadores, embora em países de sistema penal frouxo - nosso caso - menores, frequentemente, se declarem homicidas para livrar adultos, pois são impuníveis aqui, ao contrário dos EUA e da Inglaterra, de Singapura, da Indonésia e de outras nações.

Na tradição das religiões reveladas (judaísmo, cristianismo e islamismo), o falso testemunho é considerado pecado. O direito romano, que moldou os sistemas jurídicos do Ocidente, considerava testis unum, testis nulum, fulminando a validade do testemunho único para evitar injustiças. No judaísmo mosaico, para apedrejar uma adúltera exigia-se três testemunhas qualificadas.

Causou-nos mal-estar a inclusão do senador Anastasia entre os investigados. Paulo Roberto Costa se disse instado a mandar dinheiro para ele. Alberto Youssef negou tê-lo feito. O maleteiro Careca, entregador do doleiro, não se lembrava a quem entregou certo dinheiro em Minas, onde, como, quando e quanto. Aduziu que, lendo jornais depois, lembrou-se do semblante do senador. Com base, nisso dr. Janot, procurador-geral da República, pediu ao STF fosse ele investigado. No entanto, no mesmo dia, requeria o arquivamento de sete denúncias feitas, à falta de provas a não ser citações, porém contraditórias, dos delatores. Dois pesos e duas medidas?

Inquieta-nos a fala do personagem de Shakespeare sobre existir "algo podre no reino da Dinamarca". Não se consegue atinar como a extração de dinheiro da Petrobras em prol da base aliada ensejaria milhões de reais a candidato da oposição em Minas. Como na tragédia shakesperiana, o ambiente enevoado visto do castelo de Hamlet obscurece-nos a visão e o horizonte vela-se em sombras. Lula, Dilma, Dirceu, Palocci também foram citados.

Preocupa um delator premiado em prisão domiciliar. Pode ser recompensado para mentir ou ameaçado. Dos três partidos envolvidos, somente os operadores do PP (Paulo Roberto e Alberto Youssef falaram). Fernando Baiano e Vaccari Neto, tesoureiro do PT, nada revelaram sobre o esquema criminoso. Apenas o sr. Barusco, assessor do sr. Duque do PT e ex-chefe da Petrobras abriu o bico para valer, o que pode incrementar a lista do procurador-geral.

A delação em si apenas abre sendas de investigação. Em processos como o do petrolão já passou da hora de contratar firmas internacionais de rastreio de contas criminosas, de acompanhar desde 2003 a evolução patrimonial, as despesas com cartões de crédito e as contas bancárias dos investigados, bem como de analisar as ligações telefônicas. Nada disso foi feito.

No mensalão, o julgamento concentrou-se no Supremo, mesmo o dos que não tinham fôro privilegiado, pois a conexão mostrou-se necessária ao esclarecimento da organização criminosa e de seus diversos núcleos. No petrolão, teremos vários fôoros, inúmeros recursos, na Justiça Federal e Tribunais Regionais Federais, no Superior Tribunal de Justiça (governadores do Rio e do Acre) e no Supremo. Isso dificulta a compreensão do todo.

Finalmente, falando dos peixes graúdos, os do mensalão foram denunciados, os do petrolão serão agora investigados pela Polícia Federal, órgão do Poder Executivo Federal. Quem pensa em epílogo deve conscientizar-se que estamos nos começos. E tempus fugit. Serão anos de espera, de apreensão e sofrimento, até o desenlace final. Mas uma solução política pode ocorrer antes. Nuvens negras se mostram nos horizontes, até onde a vista alcança.

É chegada a hora de nos levantarmos para exigir a reforma dos códigos Penal e de Processo Penal. Endurecer até 30 anos de reclusão, sem direito a progressão e visitas íntimas, as penas dos crimes contra a administração pública, da morte de policiais, dos crimes de roubo seguido de morte (latrocínio) e de sequestros relâmpagos para furtar pessoas, dos homicídios dolosos e de dolo eventual, mormente os de trânsito, pouco importando as condições infernais das penitenciárias. É a única solução, pois a Constituição proíbe a prisão perpétua, a pena de morte e limita o total das penas, em nome do lírico canto da ressocialização do detento, incluídos os políticos. Uma balela. O que temos no país é um tremendo estímulo à criminalidade, a começar pelas altas autoridades da República, todos cientes de que o crime mais do que compensa.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Absolutamente inviável, impensável”
Vice-presidente Michel Temer sobre o impeachment de Dilma Rousseff


Dilma pede ajuda da Igreja contra impeachment

Ateia, a presidente Dilma apelou à misericórdia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em audiência no Palácio do Planalto, contra o pedido de impeachment. Em diversos momentos da reunião com o cardeal de Aparecida (SP) Raymundo Damasceno de Assis e o arcebispo Dom Leonardo Ulrich Steiner, Dilma pediu que a igreja evite apoiar o impeachment, que causaria “instabilidade ao país”.

Ato fracassado

Dilma ficou preocupada, em especial, por causa ato de sindicalistas ligados ao PT “em defesa da Petrobras”.

Pelos fundos

No fim da reunião, Dilma pediu aos representantes da CNBB que saíssem pelas portas do fundo do Planalto, sem falar com a imprensa.

Dois senhores

Dilma queria apenas Deus como testemunha do seu encontro com a CNBB porque temia irritar os aliados evangélicos.

Entrincheirados

A ordem – inócua – para que ministros ficassem em Brasília no fim de semana é reveladora do temor que os protestos provocam no governo.

Empregados da ECT vão contribuir por 50 anos

O Postalis, fundo de pensão dos Correios, criou taxa de 25,98% sobre benefícios dos associados. A notícia é muito ruim, pois esse desconto será feito pelos próximos 15 anos e 5 meses, mas ainda piora no caso dos aposentados: a nova taxa de 25,98% será somada à contribuição mensal atual de 9%. Com isso, o total da tunga imposta pelo fundo sem direito a contestação será de 34,98%. Durante longos 50 anos.

Dívida como herança

Funcionários da ECT que se aposentam aos 65 anos ainda acham graça: dizem que, morrendo antes dos 80, a dívida “fica pros netos”.

Que azar

Empregados iam pedir ajuda do ministro Berzoini (Comunicações), mas lembraram o que ele fez com os idosos quando estava na Previdência.

Votou contra

O senador Paulo Paim (PT-RS) garante haver votado contra o veto de Dilma à redução da contribuição da empregada doméstica ao INSS.

Petrolão eletrizante

O presidente do Senado, Renan Calheiros, tem recomendado a criação de uma “pauta positiva”, para o Petrolão não monopolizar o noticiário. Mas o problema é encontrar assunto mais eletrizante, em Brasília.

Mão dupla

O Palácio do Planalto precisará retribuir ao Congresso a manutenção do veto da presidente Dilma ao reajuste de 6,5% no Imposto de Renda. Os aliados mandaram o recado: querem a cabeça de Mercadante.

Fale menos, Dilma

O PT lamenta que a presidente Dilma fique isolada em seu gabinete. De um deputado com influência no Palácio do Planalto: “Ou Dilma aprende a conversar com os parlamentares ou viverá em crise”.

Vigarice conhecida

A descoberta de que o PT pagou R$ 35 a cada manifestante pró-Dilma, ontem, não é novidade em Brasília, onde há empresas especializadas. Cobram por cabeça até R$ 70 (mais um sanduíche), para entidades interessadas em promover passeatas nas avenidas da capital.

Discurso do medo

Temerosos com o aumento de adesões ao impeachment, aliados de Dilma espalham e-mails alarmantes sobre risco de “instabilidade”. A mensagem é obra de militantes do PT aboletados no serviço público.

Sangria continua

O gerente de imprensa da Petrobras, Lúcio Pimentel, até parece continuar na assessoria do ex-presidente Sérgio Gabrielli. Reapareceu na Câmara para acompanhar o depoimento do suspeito na CPI.

Sede de vingança

O PMDB da Câmara avisou ao Planalto que a nomeação de Henrique Alves (RN) para o Ministério do Turismo não apaziguaria os ânimos da bancada, que está “com sangue nos olhos” contra Dilma.

Por que não te calas?

O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) levou um pito de outros tucanos pela seguinte pérola: “Não quero o impeachment, quero ver a Dilma sangrar”. Ele é acusado de não consultar o partido sobre o tema.

Kit impeachment

Camelôs faturam em Belém (PA) com a venda de uma espécie de “kit impeachment”: uma panela made in China acompanhada de uma colher. Tudo por apenas R$ 10. O grito “fora Dilma” não está incluído.



PODER SEM PUDOR

Cafezinho impertinente

O jornalista Aparício Torelli, o "Barão de Itararé", terror dos poderosos, foi preso em 1935 e levado à presença do juiz Castro Nunes.

- A que o sr. atribui a sua prisão, seu Aparício?

- Tenho pensado muito, excelência, e só posso atribuí-lo ao cafezinho.

- Como assim?

- Vou explicar. Eu estava no Café Belas Artes, tomando o meu oitavo cafezinho e pensando em minha mãe, que sempre me advertiu contra o excessivo consumo de café. Nesse momento, chegaram os policiais e me deram voz de prisão. Só pode ser um castigo pelo abuso do cafezinho...

sábado, março 14, 2015

Lugar de elite é na cozinha - GUILHERME FIUZA

O GLOBO - 14/03

Para se sustentarem no poder, Lula e Dilma foram fartamente beneficiados pelo mensalão e pelo petrolão


Se você estava pensando em sair às ruas amanhã contra Dilma, petrolão e grande elenco, não precisa mais. Pode ficar em casa. Tudo será resolvido no Supremo Tribunal Federal pelo ministro Dias Toffoli, que presidirá o julgamento da Operação Lava-Jato.

Toffoli é o homem certo no lugar certo. Ex-advogado do PT, ex-assessor da Casa Civil de Lula, defensor implacável dos companheiros no julgamento do mensalão, ele foi o presidente do TSE que proibiu a propaganda da “Veja” na véspera da eleição — porque a revista informava que Dilma e Lula sabiam de tudo. Alguma dúvida de que Dias Toffoli defenderá você, cidadão, contra a máfia progressista e humanitária que depenou a Petrobras e o Estado brasileiro?

Pronto. Agora que você tem certeza de que a justiça será feita, e que os autores do maior escândalo de corrupção da República serão punidos, relaxe. Economize a garganta e a sola do sapato, porque passeata é muito desgastante. Alugue um desses filmes sobre Al Capone, e viaje para aqueles tempos estranhos em que uma quadrilha tomava o poder constituído e tinha até juiz próprio... Que horror!

E já que você está com o domingo livre, desobrigado de se mandar para as ruas — o que é coisa da elite branca, e você não vai querer se misturar com essa gente que nunca deveria ter saído da cozinha —, aproveite para botar a leitura em dia. Há verdadeiras joias na literatura nacional recente. Comece pelo épico “Pedro Barusco na CPI da Petrobras”. É emocionante. O ex-gerente da estatal (que está disposto a devolver uns 100 milhões de dólares) contou que era uma espécie de freelancer da corrupção até começar o governo petista. A partir daí, o roubo foi “institucionalizado”, explicou o ex-gerente, que se reportava ao já famoso Renato Duque, diretor inoculado pelo PT na Petrobras.

“É chocante”, reagiu Joaquim Barbosa — aquele representante da elite branca que não manda mais nada, para alegria do Brasil progressista e amigo dos pobres. Quem manda agora é Dias Toffoli, e ele não há de permitir que a direita golpista ataque uma instituição que está funcionando tão bem desde 2003, como explicou Barusco.

E esse Brasil que dá certo há mais de década, com mensalão, petrolão e demais benfeitorias socialistas, continuou funcionando por um detalhe singelo: a cabeça da “institucionalização” jamais foi cortada. Joaquim Barbosa, esse golpista, botou em cana vários guerreiros do povo brasileiro — mas nenhum deles estava mais com a mão na massa, ou melhor, na máquina. No que Dirceu foi flagrado, passaram-no imediatamente para a penumbra, dando lugar a Dilma Rousseff. Esta foi eleita presidente sem jamais deixar de prestar solidariedade ao mensaleiro julgado e condenado — e todos sabem que solidariedade é uma marca dos companheiros. Especialmente quando faz chover centenas de milhões de reais do esquema nas duas campanhas presidenciais da candidata solidária.

Resumindo: para se sustentarem no poder, Lula e Dilma foram fartamente beneficiados pelo mensalão e pelo petrolão, esquemas montados e operados em seus governos, com a regência de seus sócios partidários — esses aos quais Lula e Dilma permaneceram publicamente solidários mesmo com toda fama, com toda grana, com toda lama. A gente vai levando, e o Brasil, esbofeteando o óbvio, resolveu aceitar que a presidente e o ex não sabiam de nada. Aí vem o doleiro do petrolão, sob os juramentos da delação premiada, informar: “Sim, eles sabiam de tudo”.

O que está faltando? O que mais precisa acontecer para que o país exija a investigação direta desses governantes que presidiram a “institucionalização” do roubo? Não, não... Ainda é cedo. Espere o PT bater na sua porta e pedir uma comissão para manter a sua luz acesa. Aí, talvez, quem sabe, seja a hora de agir.

Enquanto você assiste chocado ao DVD do Al Capone, o ministro da Justiça, o procurador-geral e o ministro relator da Lava-Jato fazem seu jogral da inocência, anunciando aflitos que não há fundamento para investigar Dilma Rousseff. O médico mandou não contrariar, mas tem muita gente querendo desobedecer — e responder o disparate nas ruas. Deve ser essa gente esbranquiçada que não sabe o seu lugar, e agora deu para sair da cozinha batendo panelas contra o Império do Oprimido.

Um teólogo de esquerda disse que o movimento de 15 de março é coisa das elites que não ouviram a mensagem de Jesus. Pelo visto, o céu também já é deles. Nesse ritmo, seus branquelos, para vocês só vai sobrar mesmo a rua. Corram para lá — antes que seja tarde.

Fracassa o confronto - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 14/03


A retórica do comandante do Movimento dos Sem Terra (MST) João Pedro Stedile é muito mais eficaz que a ação de seu “exército”, convocado por Lula para ir às ruas contra os críticos do governo Dilma, que chamam de golpistas. Ele mesmo tratou de dar corda a esse viés militarista e conclamou seus liderados a “engraxarem as botas” por que a luta apenas começou.

Um vídeo espalhado pela internet mostra um discurso recente de Stedile na Venezuela, confraternizando com o companheiro Maduro, onde afirma que uma “elite de mierda” na América Latina está tramando contra os governos populares.


Pela demonstração de ontem, a luta começou mal para os movimentos sociais que atenderam ao chamamento de Lula, que declarara esperar muita gente nas ruas ontem. Por qualquer regra que se meça, não é possível dizer que as manifestações foram um sucesso, embora tenham se espalhado por vários Estados. Foram um reflexo do que constatam as pesquisas atuais: uma minoria de 7% apóia o governo Dilma.

Essa capilarização do movimento serviu até para evidenciar a fraqueza da organização, pois em algumas cidades poucas dezenas de manifestantes se dispuseram a sair às ruas num protesto ambíguo, que defendia a presidente Dilma, mas criticava sua política econômica.

Uma está umbilicalmente ligada à outra, e não é possível neste momento apoiar a presidente e ser contra as medidas de equilíbrio fiscal que o ministro da Fazenda Joaquim Levy está apresentando. Quem age assim, como as centrais sindicais, na verdade está sabotando o segundo governo da presidente Dilma, e pouco importa que diga que faz isso por apoiá-la.

O fato é que a própria presidente já admitiu que as medidas para incentivar o consumo perderam o efeito, e que agora é hora de fazer justamente o contrário, isto é, cortar gastos e reequilibrar as contas públicas. Mesmo que seja um equívoco reiterado da presidente, que continua dizendo que as medidas que tomou no primeiro governo estavam corretas para aquela ocasião, e já não servem no momento atual, quando já está provado que foram elas que ocasionaram a situação que vivemos hoje, de qualquer maneira ela reconhece que tem que fazer diferente hoje para recuperar a credibilidade de seu governo.

O fracasso do movimento de ontem ganhará uma dimensão maior caso as manifestações de amanhã, nas diversas versões contrárias ao governo Dilma, sejam maiores. A medida pode ser São Paulo, onde ontem houve a maior manifestação a favor da presidente Dilma e contra o impeachment. Segundo cálculos oficiais da Polícia Militar, cerca de 12mil pessoas participaram da manifestação em seu pico.

O Palácio do Planalto está trabalhando com a expectativa de que a manifestação de amanhã será maior em São Paulo, que se tornou o centro político antipetista, e fraca nos outros Estados. No Rio de Janeiro, por exemplo, ontem a manifestação a favor da Petrobras e contra o golpismo reuniu cerca de 1000 pessoas. Amanhã, em Copacabana, os organizadores da manifestação contra o governo nas redes sociais esperam número maior.

Por isso mesmo o Palácio do Planalto tentou até o último momento cancelar as manifestações das centrais sindicais e dos movimentos sociais atrelados ao governo, pois sabia que as conseqüências seriam ruins.

Se fossem fortes, poderiam estimular as manifestações contrárias ao governo. Fracas, como foram, exibiram a incapacidade de mobilização desses movimentos que já foram vistos como uma ameaça à democracia. Hoje, são apenas movimentos de pelegos transportados em ônibus, com diária e comida. A incapacidade de arregimentação da CUT já fora demonstrada meses atrás quando, com Lula de garoto propaganda, tentaram dar um abraço na sede da Petrobras do Rio e faltaram braços. 

Um fato positivo foi que não houve violência em nenhuma manifestação pelo país, o que indica que a radicalização política está limitada às redes sociais e aos chamados “gritos de guerra”, sem se transformar em conflitos de rua.

Amanhã, nas manifestações contra o governo, saberemos se o mesmo espírito pacífico prevalecerá, ou se os Black blocs arregimentados pelas milícias governistas tentarão repetir a ação de 2013, quando conseguiram dispersar os manifestantes recorrendo deliberadamente às depredações e à violência física.

Encontro de crises - MÍRIAM LEITÃO

O GLOBO - 14/03

A forte volatilidade do dólar ontem foi também resultado da manifestação a favor do governo. Ao mesmo tempo em que defendiam a presidente das críticas da oposição e das passeatas previstas para amanhã, os líderes do movimento atacavam a política econômica. O que deixa nítida a solidão da presidente. Dilma optou por corrigir os estragos que ela mesma fez na economia, mas não agrada ao PT nem às centrais sindicais.

Alguns bancos divulgaram ontem mudanças de cenário piorando todas as previsões. O Bradesco, por exemplo, que previa 0,5% de queda do PIB, passou a prever 1,5% de recessão. Subiu a estimativa da inflação de 7,5% para 8%, prevê a Selic em 13,5% no fim do ano, e o dólar, entre R$ 2,90 e R$ 3,10.

No mundo inteiro o dólar sobe. O problema é que a volatilidade num único dia, que levou à máxima de 3,79% de desvalorização para fechar em 2,81%, prova a existência das razões internas para a mudança do câmbio. Dentro dessas razões, há muitos indicadores econômicos ruins, mas o que mais tem pesado é a conjuntura política.

A articulação com a base está ruim, a popularidade da presidente caiu, a atual etapa de pedido de aberturas de inquéritos contra os políticos aumentou a tensão entre os poderes. Neste quadro, as forças que sustentam a presidente politicamente demonstram, nas ruas, discordância em relação à política econômica que se dispõe a tentar pôr em ordem as contas públicas. A soma de todos esses problemas alimenta a impressão de fragilidade da presidente antes de completar o terceiro mês do seu segundo mandato.

Para aprovar medidas no Congresso, o governo precisará do apoio da sua base e capacidade de administrar a coalizão. Não tem tido. Mesmo quando as medidas dependem apenas do Executivo, como certos cortes no Orçamento, são difíceis de serem executadas num ambiente conturbado. Um Congresso acuado pode também criar despesas, anulando o efeito das medidas de austeridade.

A alta do dólar e a crise da Petrobras têm uma relação direta. Quanto mais alto o dólar, mais alta a dívida da Petrobras e menor o alívio de caixa que ela está tendo com a decisão de manter os preços dos derivados, apesar da queda da cotação do petróleo no exterior.

A disparada do dólar ontem pode se reverter e ter sido apenas o reflexo de um momento de maior estresse, mas a tendência da moeda americana por todos os outros motivos, internos e externos, é de permanecer subindo no médio prazo. A maior arma do Banco Central, que foi o uso das medidas de intervenção no mercado futuro, através dos swaps cambiais, hoje parece sem efeito.

Parte da insatisfação difusa contra o governo tem a ver com a inflação alta. Os governistas que foram às ruas ontem culpam a política econômica pelo desconforto, quando na verdade foi a administração anterior da economia, da própria presidente Dilma, e as decisões erradas na energia que provocaram esse salto de preços que está comprimindo o orçamento doméstico e das empresas. Os que não são governistas acham que a presidente Dilma não manterá uma política econômica da qual sua base discorda, e na qual ela nunca demonstrou acreditar.

Nada é pior do que o encontro de crises. No Brasil de hoje há pelo menos quatro se encontrando: a econômica, a política, a energética, e a da Petrobras. Pelo tamanho da empresa e as ramificações da corrupção, esta crise tem potencial para fazer estragos em várias áreas. A Sete Brasil está aí pedindo socorro ao BNDES, que tenta empurrar o pepino para outros bancos, inclusive dois estatais, Banco do Brasil e Caixa. Seus problemas financeiros atingem os fundos de pensão das estatais que foram muito usados em todos os projetos do governo nos últimos anos. Entre as empreiteiras, a maioria era tão dependente do governo que não se sustenta sem os empréstimos do BNDES, sem as obras estatais, ou sem os contratos da Petrobras. Todas elas devem aos bancos. Contratos que estão hoje sendo cancelados, ou sob suspeição, foram usados para garantir produtos financeiros que estão em fundos de recebíveis. Seguradoras venderam proteção contra sinistros na expectativa de que só alguns acontecessem. E esses sinistros podem virar realidade numa sequência que as empresas de seguro não previam em seus cenários.

O dólar é como a febre, apenas o termômetro de outros problemas. É derivado de algo mais. No Brasil, há várias razões para que suba, como fez ontem.

O ponto de não retorno - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO

O Estado de S. Paulo - 14/03

Mais de uma pesquisa telefônica sobre o governo Dilma Rousseff encontrou, nas últimas semanas, taxas de "ótimo/bom" inferiores a 10% e, mais grave, maioria de avaliações "ruim/péssimo". Em todas, o saldo de popularidade da presidente supera os 40 pontos negativos entre quem tem telefone fixo em casa. Quanto mais recente a pesquisa, maior o déficit. O poço vai mais fundo.

Desconte-se a omissão dos sem-telefone - entre quem ela costumava sair-se melhor. Ainda assim, a impopularidade de Dilma só é comparável às de José Sarney e de Fernando Collor. A petista não chegou aos piores momentos dos dois ex-presidentes, mas, pela Constituição, ainda tem 45 meses de governo à frente. No Datafolha, Collor bateu em 59 pontos negativos pouco antes do impeachment. Mas Sarney chegou a -63 pontos durante a campanha à sua sucessão em 1989. Nem por isso foi impedido.

Impopularidade recorde talvez seja uma das condições necessárias para um governante perder o cargo, mas é insuficiente. Vários governadores concluíram seus mandatos em 2014 mesmo carregando porcentuais de desaprovação ainda maiores do que os de Dilma.

O processo de impeachment requer um fato concreto que ligue o presidente a um ato ilegal no exercício do mandato. Até agora, apesar das centenas de milhões tirados da Petrobrás, só há especulação quanto ao ato - e seus propagadores são poucos. Deputado dos saudosos da ditadura militar, Jair Bolsonaro saiu na frente e apresentou o pedido de impeachment antes e sozinho.

Qualquer um que queira seguir por esse caminho agora terá que se associar a ele e a tudo o que representa. Além disso, o PT mostrou ontem que, apesar do enorme desgaste que sofreu e sofre, ainda tem algum poder de mobilização popular. É algo que a oposição leva em conta ao planejar seus movimentos. Daí que até os tucanos descartem buscar o impeachment, ao menos não antes de um Fiat Elba aparecer na garagem presidencial.

Portanto, toda a conversa de impedimento - excitada pela manifestação marcada para amanhã - é mais um elemento de pressão sobre Dilma do que um perigo real e imediato para o seu mandato. O que é grave, concreto e mensurável é a abrupta perda de apoio, popular e político, da presidente.

O dígito único de aprovação prova que não se trata de um movimento restrito à elite empresarial e à classe média do Sul e Sudeste. O PT e Dilma perderam sustentação em segmentos sociais que contavam ser seus sólidos apoiadores. Um governante só passa de 50% de ruim e péssimo se uma parte significativa dos mais pobres e menos escolarizados assim considerar o seu governo.

Levantamento do Ibope DTM mostra que houve sim uma concentração em São Paulo e Rio de Janeiro de tuítes sobre o panelaço de domingo passado - aquele simultâneo ao pronunciamento presidencial. Mas, quando o instituto calcula a taxa de penetração dos tuítes sobre esse tema em cada Estado, descobre que eles foram proporcionalmente mais intensos em Mato Grosso, São Paulo, Tocantins, Goiás, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.

Pior para Dilma, a proporção dos tuítes sobre o panelaço foi significativa em alguns Estados do Nordeste, como Piauí, Bahia e Ceará. Não é uma medida de todo o eleitorado, mas é um termômetro que mostra como o desgaste é generalizado e amplo.

A presidente tem razão quando diz que o processo econômico que manteve o PT no poder pelos primeiros 12 anos se esgotou. Não há mais filas para abrir crediário nas casas de comércio popular. Só para honrar as prestações adquiridas no passado. Chegou a hora de pagar a conta, e o PT é o principal fiador.

Dilma só tem duas saídas: melhorar a política e a economia. A economia ela terceirizou. Na política, vai precisar do apoio do PMDB e congêneres para que esses ditos aliados não sabotem a terceirização que ela fez na economia. Sem isso, passará o ponto de não retorno de sua popularidade.

Alívio, por ora - IGOR GIELOW

FOLHA DE SP - 14/03

BRASÍLIA - A coisa anda tão feia para o governo que a anemia das manifestações a seu favor da sexta-feira (13) foi motivo de alívio para o Planalto. Talvez tenha sido um bode na sala, mas o governo ventilava temer que os atos pudessem sair do controle chapa-branca e virar protestos duros contra o ajuste fiscal.

Como se viu, manifestantes a soldo cumpriram o ritual previsível de apoio acanhado ao governo, à tal reforma política e, enfim, ao que chamam de defesa da Petrobras.

O último item embute um dado fascinante de negação da realidade, visto que foram justamente a gestão e a corrupção ocorridas na era Lula/Dilma na megaestatal que a levaram para o buraco. Cereja do bolo, quando uma figura do naipe de João Pedro Stédile "abraça" um prédio qualquer, fica-se com a piada pronta.

Uma nota positiva foi a ausência de confrontos com os radicais de Facebook, grupelhos inexpressivos no real –aqui não se fala de black blocs, mas de boitatás que defendem a volta da ditadura e afins. Mais um respiro para o governo: não se viu gente de vermelho em batalhas campais.

Agora é ver o que ocorre neste domingo, quando a agenda das ruas não conta com organização militarizada do condomínio CUT/MST/MTST, mas aparenta ter a seu lado o enorme descontentamento popular com o governo e o WhatsApp.

A expectativa palaciana, ressaltando aqui o caráter de "hedge", é de algo concentrado em São Paulo. Se confirmada, já é um problema para Dilma: o motor do país reafirma o "espírito de 1932", de rejeição ao governo central, e deixa aberta uma agenda de novos protestos.

O panelaço do domingo passado, imprevisto apesar das teorias conspiratórias, sugere que algo de maior ressonância pode estar a caminho. Neste caso, a questão para o governo não é nem o grito por impeachment, extremo que poucos de fato desejam, mas sim o ainda maior enfraquecimento do Planalto.

Convulsão - CELSO MING

O ESTADÃO - 14/03

Nesta sexta-feira, as cotações do dólar dispararam 3,36% para a cotação recorde em 12 anos de R$ 3,26. Mas, ao longo do dia, chegaram a bater nos R$ 3,27 (veja o gráfico).

É mais um indicador da insegurança produzida e disseminada pelo mau momento tanto da economia quanto da política. Manifestações com objetivos confusos sugerem instabilidade e déficit de confiança. Os títulos de dívida do Brasil estão ameaçados de rebaixamento para o nível de especulação. A inflação deixou o patamar dos 6,5% em 12 meses e saltou para 8,0%. Não há sinal de recuperação sustentável da atividade econômica.

Todos os dias, no Congresso e nas ruas, o programa de ajuste do governo vai sendo contestado. Espalham-se rumores e versões de que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, não aguentará as pressões, tanto de fora quanto de dentro do governo. A disparada do dólar puxa a dívida da Petrobrás, de US$ 261 bilhões, a níveis de difícil sustentação. Isolada e perplexa, a presidente Dilma vê seu governo se desidratando ainda no terceiro mês do seu segundo mandato.


A falta de lideranças extrapola a Presidência da República e é outra fonte de apreensão. Os chefões do Congresso estão ameaçados pelas denúncias da Operação Lava Jato e parecem atuar a esmo, mais como vingança, sabe-se lá contra quem, do que por motivação política propriamente dita. A oposição não tem proposta, a não ser a de “deixar Dilma sangrar”, o que sugere baixa identificação com o interesse público. As melhores cabeças da sociedade civil parecem fora de combate. As lideranças sindicais comportam-se como cartolas do Imposto Sindical. Na última greve dos caminhoneiros, que paralisou o País, não apareceu ninguém suficientemente representativo da categoria com quem negociar. O panelaço do último domingo surgiu quase que do nada. Desde 2013, os protestos são convocados pela internet por meio das redes sociais, algumas vezes em nome de siglas e de movimentos que ninguém conhece e que desaparecem tão rapidamente como surgiram.

Alguns analistas vêm dizendo que, ao contrário das anteriores, nesta crise ao menos o Brasil está bem servido por redes de proteção. Parecem referir-se aos US$ 369 bilhões das reservas internacionais. No entanto, elas estão aí para não serem usadas, porque, se forem, correm o risco de derreter. Se as reservas não devem ser usadas, então que tipo de rede de proteção constituem?

Alguma coisa o Brasil está aprendendo. Até há alguns poucos anos, a defesa da responsabilidade na condução das contas públicas era denunciada como jogo dos neoliberais e do capital estrangeiro. Ninguém diz hoje que a política de ajuste da presidente Dilma é inspirada na recomendação dos fundamentalistas do Fundo Monetário Internacional. Diz apenas que ela não é consequente com o que foi seu discurso de campanha.

Certo ou errado, o ajuste é coisa nossa. Dilma ainda não reconheceu que a desarrumação é consequência das escolhas feitas. Chegou mais perto disso na quinta-feira ao admitir que a política econômica adotada “se esgotou”.

Há uma enorme conta a pagar sobre a mesa. É por isso que o dólar e a inflação estão em convulsão.

CONFIRA



Aí está a evolução das cotações do petróleo desde fevereiro.

Derrubada
Nesta sexta-feira, os preços do petróleo negociado em Nova York caíram 4,69% porque a Agência Internacional de Energia divulgou relatório que mostrou aumento da produção e dos estoques nos Estados Unidos. Isso significa que ainda não dá para apostar na estabilização dos preços. O equilíbrio atual “é muito precário”. Ou seja, a atuação da Opep não está conseguindo alijar do mercado produtores dos Estados Unidos que supostamente operam com custos muito altos.

Que papo furado, esse de golpe! - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 14/03

Quem pode dar golpe?

Os militares. Apenas eles. E se depender deles não haverá golpe. Seja porque aprenderam com o último que deram, em 1964, seja porque não há mais líderes entre eles como havia no passado. E sem líderes...

Foi o próprio general Humberto Castelo Branco, o primeiro presidente da ditadura militar de 64, que acabou com a história de generais vestirem farda durante décadas. Estabeleceu um prazo para aposentadoria.

E o Congresso? Poderá dar um golpe?

Golpe é coisa de quem veste farda e carrega armas. O Congresso pode, digamos, “legalizar” o golpe. Como fez em 1964. Como havia feito quando os militares tentaram impedir a posse de Jango, o vice de Jânio Quadros, que renunciara ao cargo em 1961.

O Congresso então extinguiu o presidencialismo, regime que existia no país, e adotou o parlamentarista, que diminuía os poderes do presidente. Um ano depois de empossado, Jango convocou um plebiscito e o povo avalizou a volta do presidencialismo.

Pedir o impeachment de Dilma, como se pediu o de Fernando Collor em 1992, como o PT pediu o de Fernando Henrique Cardoso em 1999, não é crime. Muito menos golpe.

Do contrário não estaria previsto na Constituição o direito de qualquer pessoa, apenas com sua assinatura, dar entrada no Congresso a um pedido de impeachment contra o presidente da República.

Collor caiu porque não teve apoio no Congresso. Nem nas ruas. O apoio das ruas a Dilma parece pequeno. Mas isso somente não basta para apeá-la do poder. Ela conta com bastante apoio no Congresso.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“O PT inventou o manifestante de fachada”
Senador Ronaldo Caiado (DEM-GO) sobre os R$ 35 pagos a manifestantes pró-Dilma



Dilma avalia troca-troca de Wagner e Mercadante

O governo avalia um troca-troca de ministros que pode ser a solução dos seus problemas: Jaques Wagner seria deslocado para a chefia da Casa Civil e Aloizio Mercadante passaria para o Ministério da Defesa. Com isso, Dilma atenderia a Lula e ao PMDB, como forma de melhorar a qualidade do diálogo com o Congresso, e colocaria Mercadante, conhecido pela arrogância, num cargo que parece feito à sua medida.

Como pinto no lixo

Mercadante é filho do general Oswaldo Muniz Oliva, de “linha dura”, e tem um irmão coronel. Sentir-se-ia à vontade no Ministério da Defesa.

Ministro odara

Dilma também cessaria o incômodo dos militares com os “selinhos” de Jaques Wagner e suas atitudes carnavalescas demais para o cargo.

Antítese

Em contrapartida, Jaques Wagner é a antítese de Mercadante: do tipo simpaticão, tem livre-trânsito no Congresso e a estima de Lula e Dilma.

Lorota

O chefe da Casa Civil anda espalhando que, ao contrário de pedir sua cabeça, Lula quer Dilma reforçando seu papel no governo. É lorota.

Dilma é rejeitada até em reduto eleitoral do PT

Levantamento da empresa francesa de pesquisa Ipsos, realizado em São Paulo, Recife e Porto Alegre, entre 9 e 11 deste mês, revela dados alarmantes para o governo: 50% da população consideram a gestão de Dilma ruim ou péssima. A avaliação negativa de Dilma supera a positiva inclusive no Nordeste, onde ela teve grande votação. A pesquisa também aferiu o engajamento aos protestos de domingo (15).

Luz vermelha

O percentual de pessoas que souberam dos protestos do dia 15 disparou nos dois últimos dias da pesquisa, subiu de 70% para 82%.

Lorota

A ladainha de que a crise atual se deve à crise econômica internacional não cola mais para 73% dos entrevistados.

#Vemprarua

Nas motivações para o protesto aparecem: Corrupção (67%), Inflação (52%) e Impeachment (32%).

Até a última gota

Após o revés da aprovação de projeto de lei que dificulta a criação de partidos, Marina Silva passou a semana em Brasília. Ela ainda bate o pé, tentando fundar o seu Rede Sustentabilidade. Mas está difícil.

Dança das cadeiras

Após ter perdido as eleições presidenciais em Minas Gerais, seu curral eleitoral, Aécio Neves decidiu trocar o comando estadual do PSDB. O deputado Domingos Sávio deverá substituir Marcos Pestana em junho.

Armação

Aliados do governador do Amazonas, José Melo (Pros), afirmam que a acusação de compra de votos é uma armação do ministro Eduardo Braga (Minas e Energia), a quem impôs derrota acachapante em 2014.

Ubec compra Unicap

A União Brasiliense de Educação e Cultura (Ubec), entidade religiosa mantenedora da Universidade Católica de Brasília, fechou a compra da Católica de Pernambuco. O acordo será anunciado nesta segunda (16).

Espelho meu

Jornais divulgaram só ontem, como sempre sem citar a fonte, o que os leitores desta coluna sabem desde quinta: Dilma proibiu os ministros de sair de Brasília, temendo os atos pró-impeachment deste domingo.

Culpa da estrela

O partido Solidariedade já consultou os juristas Ives Gandra, Cássio Mesquita Barros, Adilson Dallari, Modesto Carvalhosa e Sérgio Ferraz sobre a fundamentação do processo de impeachment contra Dilma.

Em defesa do petrolão

Acusado de ser “cúmplice de um assalto de proporções gigantescas”, ao depor na CPI da Petrobras, Sergio Gabrielli tomou um banho de óleo de peroba e até discursou no ato “em defesa” da estatal roubada.

Descompensou

Agarrado a boquinha no conselho do Sesi, o ex-ministro Gilberto Carvalho atacou a Rede Globo, num evento da entidade em Brasília, quinta (19), culpando-a pela falta de “notícias positivas” do governo.

A diferença

A piada de ontem em Brasília: a manifestação do PT foi marcada para sexta-feira e a da oposição para domingo porque a oposição trabalha.



PODER SEM PUDOR

Ministro de Dilma tem nome?

Num grupo de amigos, o ministro José Múcio, do Tribunal de Contas da União, um dos papos mais agradáveis do País, jurou que seria capaz de fazer o que nem Dilma conseguiria: chamar os ministros do governo dela pelo nome.

- Diga aí quem é o ministro da Igualdade Racial - desafiou um amigo. José Múcio respondeu na bucha:

- Dilma, claro.

- E o do Esporte? - perguntou outro.

- Dilma, ora - respondeu.

E repetiu a resposta até todos entenderem que não importa nome de ministro: é a controladora Dilma Rousseff que chefia cada ministério.

quarta-feira, março 11, 2015

Popularidade de Dilma no chão - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 11/03

As vaias de ontem no 21º Salão Internacional da Construção, no pavilhão do Anhembi, em São Paulo, e o panelaço de domingo são exemplares do sentimento generalizado de rejeição ao governo Dilma que pesquisas de posse do Palácio do Planalto mostram com exatidão.


Lendo-as, não é possível continuar dizendo que as manifestações públicas contra o governo refletem apenas a posição dos ricos. O mesmo autoengano foi cometido pelo governo durante a Copa do Mundo, quando as vaias no jogo inaugural foram inicialmente atribuídas aos setores mais abastados da população.

As medições diárias indicam que o índice de avaliação boa/ótima do governo chegou a um dígito nesta semana, jogando no chão a popularidade da presidente Dilma, que despencou de 42% em dezembro de 2014, depois da eleição, para 23% em fevereiro, segundo o Datafolha. 

E agora chega a um dígito, menor do que o índice de popularidade do ex-presidente Collor seis meses antes de a Câmara dos Deputados autorizar o processo de impeachment. Naquela ocasião, Collor chegou a 15% de avaliação positiva, depois de ter tido, no início do seu governo, a expectativa de 71% da população de que faria um governo bom/ótimo.

Três meses depois, no entanto, só 36% mantinham a avaliação, percentual que caiu para 24% no primeiro ano e, ao final de dois anos apenas 15% mantinham esta avaliação positiva.

A trivialização do roubo

Espanta tanto a trivialização da roubalheira no relato do ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco ontem na CPI, quanto a normalização do fato feita pelo relator petista deputado federal Luiz Sergio, que não viu “dados novos” no depoimento do delator.

Ora, a repetição de dados antigos que abrangem sempre milhões de dólares, o tratamento banal dado às negociações sobre as propinas, tudo isso é escandaloso demais para que se procure tratar dentro do terreno da normalidade o que Barusco descreveu nas muitas horas de depoimento na CPI.
Foi um verdadeiro circo de horrores o desfiar de detalhes do esquema que está sendo investigado pela Operação Lava-Jato, e o raciocínio de Barusco é cartesiano: se ele, que era gerente, ganhou os milhões de dólares que ganhou, por que seu superior imediato Renato Duque e o tesoureiro do PT João Vaccari, com quem se reunia para fazer a divisão do butim, deixariam de receber o que estava previsto nas planilhas?

É claro que Barusco não pode afirmar quanto Vaccari levou para o PT, só estimar, pois não era ele quem dava o dinheiro, e sim Duque. Mas pelas porcentagens acertadas, é fácil estimar que entre US$ 150 a 200 milhões de dólares entraram no cofrinho petista no período em que vigorou o esquema.

Assim como foi patético o esforço do relator e de alguns deputados petistas de tentar fazer Baruco dizer que o esquema criminoso começou ainda no governo de Fernando Henrique. O ex-gerente da Petrobras foi até involuntariamente cômico quando reagiu com veemência dizendo que até 2003-2004, o que ganhava de propina era de sua atuação pessoal, sem que ninguém soubesse.

Essa propina própria está misturada à propina institucionalizada pela gestão petista a partir do momento em que o partido chegou ao poder central com Lula, em 2003, e Barusco quase lamentou que, não podendo definir o que era o que, resolveu devolver os US$ 97 milhões aos cofres públicos, depois de sua colaboração premiada ter sido homologada pelo Supremo Tribunal Federal.

Pelo seu relato, confirmando a informação dada por Paulo Roberto Costa em outro depoimento em Curitiba, a campanha de Dilma Rousseff de 2010 está necessariamente maculada pelas doações ilegais, desviadas dos cofres da Petrobras e muitas vezes lavadas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como doações legais.

Caminhando (ou ...) e cantando (ou ...) - ELIO GASPARI

FOLHA DE SP - 11/03/

O vice-governador da Bahia usou outros gerúndios, mas Rui Costa avisa: ‘Não tenho motivo para afastá-lo’

Na sexta-feira, quando o repórter Lucas Reis telefonou para o vice-governador da Bahia, João Leão, do PP, pedindo-lhe um comentário a respeito de sua inclusão na lista de políticos arrolados pela Procuradoria-Geral da República, ouviu o seguinte:

“Estou cagando e andando, no bom português, na cabeça desses cornos todos.”

João Leão acumula o cargo de vice-governador do estado com a Secretaria do Planejamento, para a qual foi nomeado pelo governador petista Rui Costa. Feito o estrago, dois dias depois Leão desculpou-se de forma tortuosa, explicando “a exata dimensão das minhas palavras”:

“Foram considerações feitas num momento de profunda indignação e surpresa. (...) Não há, da minha parte, nenhuma intenção de ofender o Ministério Público, o Poder Judiciário, ou quaisquer outras instituições essenciais na manutenção do Estado Democrático de Direito, nem pessoas.”

Se o doutor tivesse explodido ao sair de um bar ou mesmo de uma missa, tudo bem. Sua declaração foi dada numa resposta à indagação do repórter. Pode ter sido influenciada pela contrariedade, mas a “exata dimensão das minhas palavras” é só uma.

Faz tempo, as pessoas iam para a rua com os versos de Geraldo Vandré:

“Caminhando e cantando

E seguindo a canção

Somos todos iguais

Braços dados ou não”

O doutor Leão ofereceu dois novos gerúndios para a velha letra, mas desta vez os “iguais” são outros. Foi a percepção da diferença que provocou os protestos de domingo, enquanto a doutora Dilma falava.

Passados alguns dias do episódio, sem que se possa atribuir qualquer conteúdo emocional ao que disse, o governador Rui Costa justificou as palavras de Leão: “No momento de dor e revolta você pode acabar pronunciando palavras que não sejam as mais adequadas”. Antes fosse. Nesse caso, seria compreensível que chamasse de “cornos” sabe-se lá quem. (Corno só não era ofensa para Andrew Parker Bowles, o marido de Camilla, namorada do príncipe Charles, atual duquesa da Cornualha.) A essência dos gerúndios seria então “estou pouco ligando”. Sairia a vulgaridade e permaneceria a soberba. Se um cidadão disser isso a um delegado em Salvador, toma uma cana por desacato a autoridade.

O comissário Rui Costa não tem poderes para demitir o vice-governador eleito em sua chapa. Contudo, o doutor Leão é seu secretário de Planejamento e ele informa: “Não vejo motivo nenhum para afastá-lo. Ele foi citado por alguns dos delatores. O que o STF fez foi autorizar o início do processo de investigação”. Não é bem assim. A simples abertura da investigação poderia, a juízo do governador, ser motivo insuficiente para afastá-lo. Tomado ao pé da letra, Leão informou que estava “cagando e andando” para o procedimento que um ministro do Supremo Tribunal Federal autorizou que fosse instaurado em relação a ele.

A linda canção de Vandré, com os gerúndios originais, era um hino para a rua e por isso foi proibida. Com os gerúndios de Leão, ela se torna um hino para o andar de cima:

“Seguindo a canção

Somos todos iguais

Braços dados ou não.”

Desgoverno já acaba quando mal começou - JOSÉ NÊUMANNE

O ESTADO DE S.PAULO - 11/03

Dilma perdeu uma oportunidade, se não boa, no mínimo razoável, de se levantar do banquinho no córner, onde está acuada pela crise política e pelo péssimo desempenho da economia, e, pelo menos, voltar ao ringue, no pronunciamento à Nação por TV e rádio no Dia Internacional da Mulher, domingo. Seu discurso inócuo, boboca e incompreensível teve o que merecia: panelaço, vaias e xingamentos pelo País inteiro. Só não se decepcionou com ela quem não viu.

De fato, não havia muito espaço para manobra. Mas pedir paciência a uma plateia que dela só tem ouvido mentiras autoindulgentes não poderia deixar de soar tolo, inútil, arrogante e alienado. Poderia ter começado com um pedido de desculpas por tudo quanto prometeu na campanha e começou a descumprir quando foi divulgada a vitória na reeleição. A continuação inevitável poderia ser uma demonstração de que a paciência exigida dos cidadãos, que ela trata como súditos, seria compensada por algum sacrifício: redução de ministérios, cujo número é absurdo, por exemplo. Nem fez a velha proposta de pacto. Talvez porque padim Lula se tenha recusado a apertar as mãos estendidas na eleição de Tancredo Neves no colégio eleitoral, no apoio à Constituição, que o Partido dos Trabalhadores (PT) assinou amargamente constrangido, e no governo de união nacional de Itamar Franco, depois da queda de Fernando Collor.

Em vez disso, preferiu adotar a tática stalinista de reescrever o passado para garantir as boquinhas por um tempo longe de ser promissor para ela, seu governo e, sobretudo, para o País. Atribuiu a conjuntura "à maior crise econômica desde a recessão de 1929", a de 2008, que, para Lula, passaria por aqui feito uma "marolinha" e ela jura que paira sobre nós há sete anos, como nos sonhos das vacas magras de José do Egito. E à seca, desgraça perene do Nordeste, que, ela esquece, faz parte do Brasil, apesar de ter-lhe garantido, com milhões de votos, a permanência no trono. Lá se sabe que a chuva é incerta e caprichosa.

Os tomates imaginários jogados pelos "podres burgueses golpistas" partem do pressuposto de que a piada do barítono que anuncia um tenor pior à plateia que o apupa nem sequer servirão de metáfora para a crônica de seu desgoverno abortado: este, ao contrário do Cassino do Chacrinha, já acaba quando mal começou. Tudo indica que a militância armada contra a ditadura a impediu de frequentar aulas de História do Brasil, cujo aprendizado lhe faz falta. E mais ainda ao populacho, que verga sob sua inépcia. O desastrado discurso em que a mulher, festejada domingo no mundo todo, foi aqui celebrada às avessas evidencia que nossa experiência da dona da casa no poder será apenas um "duela a quién duela" coletivo.

Reconheça-se que os citados episódios históricos têm algumas diferenças em relação aos eventos destes idos de março em que o cego Tirésias teria a bendizer os temporais eventuais, prenunciados pelo cheiro. Nestes 61 anos foram aplicadas três soluções pessoais para resolver crises políticas. Em 1954, Getúlio Vargas disparou contra o próprio peito para não morrer afogado no "mar de lama" de uma corrupção de aprendiz, comparada com o caso Celso Daniel, o mensalão e as petrorroubalheiras - o crime continuado que ora corrói as bases da republiqueta sob os petralhas. Sabe-se que Getúlio era um suicida vocacional. O tiro foi o único jeito que teve para abortar o golpe dos militares da geração dos tenentes de 1930. Ao "sair da vida para entrar na História" adiou o golpe, sim, mas por apenas dez anos.

Contra o manhoso estancieiro de São Borja havia também a oratória inflamada e eficiente da UDN de Affonso Arinos de Mello Franco e de Carlos Frederico Werneck de Lacerda. A retórica, a ação parlamentar e a capacidade de construir caminhos para desviar o País da crise a que foi levado pela insana gula petista passam longe do perfil da oposição de hoje, indigna até dessa denominação.

Seis anos após o suicídio no Catete, um presidente popular, eleito acima dos partidos, com a vassoura feita símbolo e a faxina como missão, renunciou para livrar-se das dificuldades impostas por um Congresso dominado por partidos que desprezava. A renúncia de Jânio Quadros foi um autogolpe que falhou por conta da fé cega em si mesmo. "Renuncia, Dilma", prega quem lhe atribui idêntico defeito. Mas ela não tem a persistência suicida revelada nos Diários de Getúlio, nem o perfil nobre de quem renuncia para facilitar a saída pela qual um governo de união nacional possa impedir a tragédia que se prenuncia com as fraturas da Nação, expostas na disputa eleitoral e agravadas com a determinação do grupo no poder de se agarrar ao que restar de bife no osso descarnado.

Fala-se ainda mais em deposição, repetindo a solução dada em 1992, 31 anos após os nove meses de Jânio, com 20 anos de ditadura militar no meio. Lá se vão apenas 23 anos, mas urge lembrar que o impedimento inevitável cedeu lugar à renúncia consentida do presidente, que, como Jânio, tentou em vão pôr de joelhos o Congresso (de 300 "picaretas" de Lula e 400 "achacadores" de El Cid Gomes?). Ao contrário de Dilma, a cujos propósitos ele serve, o ex-presidente tentou o lance do "Ministério ético". Mas foi defenestrado sem dó.

Sábado O Globo informou que, conforme delação premiada, Mário Negromonte foi trocado no Ministério das Cidades por Aguinaldo Ribeiro por pressão de seus correligionários acusados de se abastecerem no propinoduto da Petrobrás. Foi Dilma quem assinou nomeações e demissão de ambos. Dizer que era assunto interno de aliados e não lhe diz respeito em nada vai ajudar a suspender a queda de sua reputação. Para piorar, a dupla protagoniza a mesma investigação, na qual ela não figura.

Mas, com os militares de 1930 mortos e sepultados e a oposição incapaz de apunhalá-la politicamente, Dilma depende do Imponderável da Silva nas ruas para escapar aos idos de março - chova ou faça sol.

É hora de cair na real - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 11/03

Depois de ter feito no Dia da Mulher um pronunciamento infeliz que provocou forte reação negativa da classe média em todo o País, Dilma Rousseff apressou-se a procurar a imprensa - o que vinha evitando ultimamente - para defender-se e dizer que não há razões para seu impeachment. A presidente da República deveria se poupar dessa preocupação, pois não lhe faltam problemas reais muito mais graves. Apesar de haver setores radicais propondo a deposição legal da chefe do governo, está claro que a maior parte da oposição a Dilma, na política e nas ruas, entende, sensatamente, que não é hora de falar em impeachment. O argumento de que a oposição está tentando promover o "terceiro turno" das eleições presidenciais é risível, retórica apelativa, própria da maneira singular de o PT pensar e fazer política.

É assim que o PT pensa e age: a direção do partido, reunida na noite de domingo para avaliar a repercussão dos protestos contra Dilma, chegou à conclusão de que se tratou de uma "orquestração de viés golpista" protagonizada por setores da "burguesia e da classe média alta", que se transformou num "movimento restrito que não se ampliou como queriam seus organizadores".

São legítimas e democráticas, para o PT, apenas as manifestações populares por ele próprio orquestradas, ou pelas organizações sociais, sindicais e estudantis que manipula. Fora disso está tudo politicamente desqualificado, por vício de origem: ser contra o PT é o mesmo que ser contra o povo.

Para o comando petista, classe média não é povo, apesar de Dilma gabar-se, como voltou a fazer no domingo, de os governos do PT terem "promovido" à classe média mais de 40 milhões de brasileiros.

A virulência dos ataques dos dirigentes petistas aos protestos de domingo está em contradição com a posição adotada por Dilma. Apesar de ter tentado sair pela tangente com a história do "terceiro turno", a presidente admitiu que o protesto foi legítimo, democrático, e que é preciso "conviver com a diferença". Não tentou, como os dirigentes de seu partido, pura e simplesmente desqualificar os manifestantes.

O que disse Dilma foi reiterado pelo ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, escalado para falar sobre os protestos. Para ele, toda manifestação pacífica é "um direito da população". E repetiu a tese do "terceiro turno", contando vantagens pelo fato de o PT ter vencido eleições presidenciais quatro vezes seguidas. Mas Mercadante carrega o peso de ser petista histórico e não resistiu à tentação de dar lições que jamais aprendeu: "Precisamos construir uma cultura de tolerância, de diálogo e respeito. Uma agenda de convergência é fundamental para o País poder superar as dificuldades conjunturais o mais rápido possível".

Tolerância, diálogo e respeito é tudo o que o PT jamais praticou em mais de 20 anos de oposição e 12 de governo. Muito menos convergência. O lulopetismo sempre tratou os adversários como inimigos a serem eliminados e primou exatamente por divergir em momentos cruciais da vida nacional, como a discussão e aprovação da Constituição de 1988, do Plano Real, da Lei de Responsabilidade Fiscal e muitos outros episódios. É estranho que agora, mergulhado na crise provocada pela incompetência de seu governo, a elite do PT se julgue com autoridade moral e credibilidade para pregar "convergência". Mas insiste no descaramento de fazê-lo.

Essa gente que agora reclama e exige "convergência" nem parece a mesma que exigiu "Fora FHC" como bandeira de sua luta contra a bem-sucedida política de privatização de estatais durante os governos tucanos. Nem por isso foram então acusados de estar tentando promover um "terceiro turno". Até porque isso seria tecnicamente impossível: Lula perdeu logo no primeiro turno as duas eleições que disputou contra Fernando Henrique.

Antes de investir de novo contra quem ousa questioná-los, a presidente e os integrantes da elite do PT precisam cair na real e se dar conta de que há menos de cinco meses quase metade da população brasileira os repudiou nas urnas do segundo turno. De lá para cá, esse número não parou de aumentar.

Delação premiada serve de aula de fisiologismo - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 11/03

Os operadores do esquema mostram o que acontece quando partidos políticos são responsáveis por nomeações para cargos que gerenciam grandes orçamentos


Entre as diferenças do petrolão e o mensalão — ambos esquemas montados para subtrair dinheiro público a fim de lubrificar alianças do PT — está a forma de tramitação dos escândalos pelo Poder Judiciário.

Ao contrário do mensalão, cujo desfecho ficou concentrado no Supremo Tribunal Federal (STF), no petrolão há outro forte polo jurídico, na primeira instância da Justiça Federal do Paraná, onde começarão a ser julgados operadores financeiros do esquema, empreiteiros, executivos, ex-diretores da Petrobras e outros envolvidos que não tenham foro privilegiado.

Isso significa que o trabalho da 2ª Turma do STF, foro de deputados e senadores que vierem a ser denunciados, transcorrerá quando já será conhecida a essência da mecânica de funcionamento da corrupção na Petrobras. No mensalão, o método de abastecimento da lavanderia de dinheiro de Marcos Valério e o sistema de distribuição do dinheiro surgiram por inteiro apenas no decorrer do julgamento.

As delações premiadas que começam a ser divulgadas agora revelam detalhes de como o fisiologismo foi um dos alicerces do grande assalto à Petrobras. Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da estatal (2004-2012), no depoimento que prestou em troca de redução de penas, foi ao ponto:

— Uma vez ocupando o cargo de diretor por indicação política, o grupo político demandará algo em troca.

Simples dessa forma. Portanto, o método do toma lá dá cá, pelo qual Lula e Dilma estruturaram seus governos e base parlamentar, encontra-se sempre na antessala da corrupção. Está a um passo da cobrança de propinas e outros “malfeitos”.

Paulo Roberto foi indicado pelo PP — partido com mais parlamentares incluídos na lista de Janot. Já Renato Duque, diretoria de Serviços, é tido como apadrinhado pelo PT etc. Os diversos testemunhos já prestados em Curitiba ao juiz Sérgio Moro e Ministério Público relatam intensa movimentação de operadores desses partidos e do PMDB: Alberto Youssef, Fernando Soares, ou Baiano, e João Vaccari Neto, tesoureiro do PT.

O comparecimento do ex-gerente da estatal Pedro Barusco — o homem de US$ 97 milhões — à nova CPI da Petrobras, ontem, ajudou a realçar o trânsito de Vaccari na estatal. Não por coincidência, Barusco era braço direito do diretor Duque, indicado pelo próprio José Dirceu, comenta-se sem desmentidos.

Um dos símbolos mais fortes do fisiologismo reinante no primeiro governo Dilma está na delação feita por Youssef. Segundo ele, o ministro das Cidades Mário Negromonte (PP-BA) foi substituído em 2012 por Aguinaldo Ribeiro (PB) porque ele não estava sendo generoso na distribuição, dentro do partido, das propinas amealhadas na Petrobras

Não se sabe é se quem assinou a troca de ministros, a presidente Dilma, foi informada dos motivos da perda de apoio de Negromonte no PP.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Medo eu tenho, né?”
Pedro Barusco, ex-gerente da Petrobras, sobre o temor de virar “o novo Celso Daniel”



Além de Lula, PMDB abre guerra a Mercadante

Na linha das ácidas críticas do ex-presidente Lula, o PMDB também culpa o ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil) por não permitir que o experiente vice-presidente Michel Temer auxilie Dilma na articulação política. Temer chega a passar semanas sem encontrar a presidente. Acusado por Lula de “sequestrar o governo”, o ministro afasta todos aqueles cuja colaboração possa merecer o reconhecimento de Dilma.

Presidente refém

Lula acha que Mercadante fez de Dilma sua refém, ao afastar do Planalto até os mais antigos e leais auxiliares, como Giles Azevedo.

Rasputin

O chefe da Casa Civil se acha um gênio da política, apesar da coleção de derrotas, e tenta ser o único a influenciar suas decisões.

Ideia aloprada

O aloprado Mercadante fez Dilma se posicionar sobre o impeachment, na desastrada coletiva de segunda (9), colocando o tema na pauta.

Não adiantou nada

Michel Temer avisou que não pode ser chamado só para apagar fogo. Ele alertou a Dilma que o PMDB está saindo do controle no Congresso.

José Dirceu monitora CPI por meio de prepostos

Uma das mais gritantes omissões da “Lista do Janot”, o ex-ministro José Dirceu monitora o andamento da CPI sobre o assalto bilionário à Petrobras, por meio de pessoas de sua confiança. Como já não é réu primário, o envolvimento do ex-braço direito de Lula no Petrolão pode custar-lhe uma nova pena, desta vez em regime fechado. O doleiro Alberto Youssef revelou que ele recebeu dinheiro sujo do Petrolão.

Arroz de festa

Gerente de imprensa da Petrobras, Lúcio Pimentel não perdia CPI. Não foi ao depoimento de Pedro Barusco, mas mandou três olheiros.

Descompensado

Com seu jeito anta de ser, o relator Luiz Sérgio (PT-RJ) fez a pergunta do dia ao ex-gerente ladrão da Petrobras: “O crime compensa?”

Sucesso

Após a vaia em São Paulo, ontem, a hashtag #VaiaDilma foi um dos assuntos mais comentados no Twitter.

Suspeito nº 1

O deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) está convencido de que o ex-gerente corrupto da Petrobras, que depôs na CPI, está protegendo alguém importante, que seria seu chefe no esquema. Suspeita de Lula.

Tá feia a coisa

Dilma foi vaiada ontem, no 21º Salão da Construção Civil, por funcionários do evento, recepcionistas habituadas apenas a sorrir e a tratar bem as pessoas. Isso mostra o nível de irritação dos brasileiros.

Declínio

O panelaço de domingo e a vaia de ontem são sinais de deterioração de credibilidade e até de autoridade. Assessores de Dilma acham que ela será cada vez mais hostilizada, sempre que aparecer em público.

Fechando o cerco

Em 2014, a Petrobras ofertava curso para os depoentes se esquivarem de perguntas. O relator da antiga CPI, Marco Maia (PT-RS), recebeu uma lista do que deveria perguntar ao ex-diretor Nestor Cerveró.

Boa nova

O diplomata Eduardo Saboia, herói brasileiro que salvou a vida do ex-senador Roger Molina, vai sair do limbo a que foi relegado pelos chefes covardes do Itamaraty: foi convidado a assessorar o senador Aloysio Nunes (PSB-SP) na presidência da Comissão de Relações Exteriores.

Lobão na CCJ

Mesmo estrelando a Lista de Janot, no escândalo de corrupção da Petrobras, o ex-ministro Edison Lobão (MA) está empenhado em presidir a Comissão de Constituição e Justiça do Senado.

Comando do Conselho

Em tempos de Petrolão, pega fogo a disputa pelo comando do Conselho de Ética da Câmara. Estão no páreo Sérgio Brito (PSD-BA), Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) e José Carlos Araújo (PSD-BA).

Só na porrada

Após brigas com dedo em riste e xingamento de “moleque”, o deputado Félix Mendonça (PDT-BA) ironiza que vai ter de “fazer curso de juiz de MMA” para ficar como segundo vice-presidente da CPI da Petrobras.

Obsessão

Ao tentar atrelar a corrupção na Petrobras ao governo FHC, o PT tenta a estratégia do “todos roubam, mas nossos ladrões são melhores”.


PODER SEM PUDOR

Coreto tombado

A história é conhecida nas rodas políticas de Minas. Nos anos 50, a prefeitura de Muzambinho recebeu uma mensagem do órgão estadual de defesa do patrimônio histórico: diante de murmúrios chegados a Belo Horizonte, a municipalidade ficava advertida de que o antigo coreto da praça era considerado "de interesse histórico", e que uma comissão iria até lá para tombá-lo. O prefeito reagiu com um telegrama urgente:

- Desnecessária vinda da comissão. Já que era para tombar, mandei derrubar o coreto.

terça-feira, março 10, 2015

Proteger a democracia - MERVAL PEREIRA

O GLOBO -10/03

Parece haver um quase consenso, que conta curiosamente com a participação da própria presidente Dilma, de que ainda é cedo para um processo de impeachment. É preciso haver um motivo, disse a presidente, e nem mesmo a sensação da maioria da população de que ela acobertou as falcatruas da Petrobras é bastante para um processo desse tipo.

As investigações continuarão, e é precipitado achar que alguma coisa surgirá para demonstrar a culpa da presidente. Mas não implausível, e só o tempo dirá. Há quem considere que a solução menos traumática para os impasses institucionais em que o país está atolado seria a renúncia da presidente, assim como os que acreditam que, diante da apatia com que lida com a situação, Dilma na verdade já renunciou ao cargo.

Nesse sentido, o discurso que fez na noite de domingo, a pretexto do Dia Internacional da Mulher, é típico de quem está fora da realidade e acha que ainda pode, com truques antigos, contornar uma situação política que a coloca no córner.

Assim como Dilma insiste no erro de tentar convencer o cidadão comum de que a situação econômica mudou repentinamente da eleição para cá, e não está tão ruim assim como ele está sentindo, ou que são temporários os problemas que enfrentamos, também as lideranças do PT tentam manipular a realidade como se pudessem apagar da fotografia os fatos que incomodam.

Ora, dizer que o panelaço foi um fracasso chega a ser patético, diante do que as redes sociais estão mostrando desde o momento em que a cara de Dilma surgiu na televisão. Nunca antes na história do país houve um movimento espontâneo como aquele panelaço, semelhante às manifestações de 2013, se não propriamente na extensão, certamente na surpresa da movimentação de caráter nacional: nada menos que 14 capitais aderiram aos protestos organizados pelas redes sociais.

Como uma medida provisória em que o governo coloca uma série de penduricalhos para ludibriar a legislação, também o discurso de domingo estava cheio de temas que nada tinham a ver com a data que estava sendo comemorada. E mesmo quando fazia menção indireta aos problemas que as sequelas de seu primeiro governo estão criando para a população, Dilma tergiversou.

O melhor exemplo da enrolação que tentou passar como verdade é dizer que no final do 2º semestre os primeiros sinais de recuperação começariam a aparecer. Isso quer dizer no final de 2015, e nada indica que 2016 será um ano glorioso para a nossa economia, que estará, ao que tudo indica, no seu segundo ano de recessão.

Todas essas razões justificam passeatas e panelaços de oposição ao governo, mas não uma "ruptura democrática", como classificou o impeachment a presidente. Neste momento, forçar um processo no Congresso seria mesmo, mas sair à rua protestando contra as mentiras governistas não é uma tentativa de realizar um terceiro turno, como acusou o ministro Mercadante.

Fez bem o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, ao reafirmar ontem na Associação Comercial do Rio que a esta altura impeachment é golpe, e ele não colaborará com tal iniciativa. Demonstra que não atuará oportunisticamente pelo menos nesse caso, o que dá uma aparente estabilidade às nossas instituições.

O jurista Joaquim Falcão, diretor da Faculdade de Direito da FGV do Rio, classifica de "Brasil pirata" uma série de atitudes e medidas que está surgindo nesse momento brasileiro, entre elas a devolução, por parte do presidente do Senado, Renan Calheiros, da medida provisória de desoneração fiscal.

Os mesmos defeitos apontados corretamente por ele para justificar a atitude estão presentes em centenas de MPs que o Congresso aceitou nos últimos anos, e mudanças radicais significariam uma "privatização do Congresso" por parte de quem está interessado em criar problemas para o governo que considera ter colaborado para sua inclusão na lista dos investigados.

Da mesma maneira, a chamada PEC da Bengala, que amplia a aposentadoria dos ministros do Supremo para 75 anos, mesmo podendo estar correta devido ao aumento da expectativa de vida, se aprovada, como parece, será como uma retaliação a Dilma, e padeceria de um erro de origem que coloca em risco o vigor de nossa democracia. Joaquim Falcão chama de "canibalização institucional" medidas que, aprovadas de acordo com circunstâncias, acabam por colocar em xeque a credibilidade de nosso sistema democrático. É nessa linha frágil entre o permanente e o circunstancial que se dará a disputa pela manutenção da estabilidade institucional do país.

A grande mentira - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 10/03

"A questão central é a seguinte: estamos na segunda etapa do combate à mais grave crise internacional desde a grande depressão de 1929." Foi com essa estarrecedora desculpa que Dilma Rousseff jogou no lixo todos os indicadores econômicos e se eximiu de qualquer responsabilidade pela grave crise nacional que o Brasil enfrenta depois de quatro anos de seu desgoverno. Falando em rede de rádio e de televisão sob o pretexto de comemorar o Dia da Mulher, a presidente garantiu que, "como temos fundamentos sólidos", as "dificuldades conjunturais" são passageiras e começarão a ser superadas "já no final do segundo semestre deste ano". Os brasileiros não têm, portanto, com o que se preocupar, porque todas essas dificuldades "conjunturais" significam "apenas a travessia para um tempo melhor, que vai chegar rápido e de forma ainda mais duradoura". Oxalá!

A encenação mendaz de Dilma foi mal recebida. Seu discurso foi saudado por um panelaço em bairros de classe média das cidades mais importantes do País, mas também em suas periferias. Pronunciou-se a mesma classe média para a qual, segundo Dilma, os governos do PT contribuíram com um novo contingente de 44 milhões de brasileiros.

Parte importante da crise de governança que está levando o Planalto ao desespero e a população a se manifestar ruidosamente decorre da absoluta incompetência de Dilma que, para completar o desastre, entrou em rota de colisão com o maior partido de sua base de sustentação, o PMDB, praticamente jogando-o na oposição. Como se não bastasse, os antigos parceiros do Planalto na farsa do "Novo Brasil", vendo-se agora enredados até o pescoço no propinoduto da Petrobrás, resolveram criar uma farsa toda sua.

O PMDB acusa o governo de manipular o Ministério Público (MP) para desmoralizar alguns dos seus principais líderes, como Renan Calheiros e Eduardo Cunha, incluindo-os no pedido de investigação apresentado ao STF pelo procurador-geral Rodrigo Ja-not. Ora, pelo menos esta acusação não se pode fazer ao governo petista. Se tivesse o poder de manipular o MP e a Polícia Federal o governo Dilma teria forçado a exclusão de figurões petistas da lista de suspeitos do procurador-geral e também, obviamente, a inclusão de nomes de oposicionistas tucanos e democratas. O que o PMDB pretende é criar confusão para comprometer os resultados da Operação Lava Jato. Para tal recorre sem nenhum constrangimento às acusações a Dilma e ao PT, com os quais os peemedebistas estão circunstancialmente de mal. Mas são todos farinha do mesmo saco - ou seja, do mesmo governo - tentando salvar-se do naufrágio de uma parceria que faz água por todos os lados.

O PMDB tem culpa no cartório, mas não é o principal responsável pela crise. A grande responsável pelo desastre é a presidente da República, como ficou claro em seu patético discurso do Dia das Mulheres. Atrás da sua soberba assoma a absoluta incapacidade de admitir os próprios erros, uma característica marcante de Lula e do PT que ela se encarregou de levar a extremos e que a torna uma governante medíocre.

Não reconhecendo os próprios erros, ela escamoteia a verdade, dissimula. E como uma mentira puxa outra, Dilma encontra-se hoje refém das fabulações com que tem insultado a inteligência dos brasileiros. Como a de afirmar, como fez no domingo à noite, que o seu é "um governo que se preocupa com a população", como se isso fosse uma exclusividade petista; ao dizer que "às vezes temos que controlar mais os gastos para evitar que o nosso orçamento saia do controle", exatamente o que ela nunca fez e que levou o País ao descontrole fiscal e à recessão econômica; ou então ao garantir que o País pode confiar no governo para controlar a crise econômica porque "queremos e sabemos como fazer isso", afirmação desmentida pela desconfiança com que os agentes econômicos encaram sua administração.

E é assim que, de mal um com o outro e cada um dissimulando, encenando, fabulando à sua maneira e de acordo com suas conveniências, o PT da desnorteada Dilma Rousseff e o ressentido PMDB de Michel Temer protagonizam a cena política que começa a abrir espaço para a participação das classes médias, sempre mais efetivas em momentos críticos do que os "exércitos do Stédile".

Panelaço é rejeição a velhas desculpas - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 10/03

Governo precisa fazer política, conversando com todos, inclusive a oposição, porque a estabilidade econômica e política interessa a toda a sociedade



O panelaço que acompanhou na noite de domingo o pronunciamento à nação da presidente Dilma Rousseff, em regiões de cidades importantes como São Paulo, Rio e Belo Horizonte, continuou a ecoar segunda-feira.

Interpretar a manifestação como uma tentativa antidemocrática de um “terceiro turno” para as eleições do ano passado, termo empregado por Dilma e o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, é de nenhuma valia para o governo. Afinal, tanto a presidente quanto o ministro reconheceram, e não poderia ser diferente, que está em vigor a plena liberdade de manifestação.

Se não passa de insensatez de minorias desprezíveis conspirar contra uma presidente eleita e empossada sem contestações formais, cabe ao Planalto interpretar sem devaneios a mensagem transmitida na noite de domingo.

Culpar a “burguesia”, a “elite branca”, termos que fazem a alegria de militantes, fração ínfima da população, também em nada ajuda o Planalto. Queiram ou não, a barulheira feita em grandes cidades anteontem virou um fato político a ser considerado, e deveria levar o Palácio a uma reflexão sobre sua linha de comunicação com a sociedade.

O dramático resultado da pesquisa Datafolha sobre a popularidade de Dilma, realizada no início de fevereiro, já sinalizava para sérios ruídos nessa comunicação. Entre outros pontos, pesou na queda pela metade da popularidade da presidente em relação a dezembro — de 42% para 23% — o fato de ter sido constatado que ela disse uma coisa na campanha e, reeleita, passou a fazer outra.


Diante disso, embora defendesse, com acerto, o ajuste fiscal, não foi boa a ideia de insistir na inverosímil explicação de que a crise atual se deve aos ombros cada vez mais largos de uma “crise internacional” somada à seca. Ora, a Europa continua mesmo a patinar e a China cresce “apenas” a 7,5%, mas os Estados Unidos aceleram a recuperação, com a criação de centenas de milhares de empregos a cada trimestre. O Brasil do primeiro governo Dilma é que errou de política econômica, a qual a presidente tenta agora rever, e ainda bem.

Dilma demora a se curvar à necessidade de fazer política. Convocar o vice-presidente Michel Temer, do PMDB, para de fato auxiliar nesse campo é urgente. A chegada dele ajudará no manejo do quadro potencialmente grave de um Congresso sem Norte, em que seus principais dirigentes, os peemedebistas senador Renan Calheiros (AL) e Eduardo Cunha (RJ), com pedidos de inquérito no Supremo para serem investigados no petrolão, ameaçam usar a instituição em defesa própria, algo inaceitável.

O foco precisa ser a contribuição do Congresso ao ajuste nas contas públicas. Usar o cargo para ameaçar o Ministério Público com retaliações típicas do baixo clero é não entender o momento do país. Porém, para contornar esses obstáculos, o Planalto precisa dialogar, e com todos os partidos, incluindo o PSDB. A estabilidade econômica e política interessa a toda a sociedade.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Não há dúvida de que o PP nacional acabou”Deputado Jerônimo Goergen (PP-RS), um dos enrolados na Lava Jato


EMPREITEIRAS DOAM R$ 11,5 MI PARA ‘LISTA JANOT’

Empreiteiras enroladas no Petrolão descarregaram R$ 11,5 milhões nas últimas campanhas eleitorais de 17 políticos da ‘Lista Janot’. Aparecem como doadoras as empresas UTC, OAS, Queiroz Galvão, Engevix, Andrade Gutierrez e Odebrecht. Os investigados do PT foram quem mais receberam grana, R$ 6,7 milhões. O PP, maior parte da lista, levou R$ 3,7 milhões, seguido pelo PSDB, com R$ 930 mil.

O CAMPEÃO

Exatos R$ 3,8 milhões da UTC, Queiroz Galvão e OAS foram parar na campanha do senador Lindbergh Farias (PT) pelo governo do Rio.

A VICE

Mais de R$ 2,3 milhões da Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez e UTC foram para a senadora Gleisi Hoffmann (PT) disputar o governo do PR.

BRONZE

O senador Antônio Anastasia (MG), único tucano na lista, levou R$ 930 mil da OAS, Odebrecht, UTC e Andrade Gutierrez.

TOP

No ranking das doadoras: Queiroz Galvão (R$ 4,7 milhões), UTC (R$ 3,1 milhões), OAS (R$ 1,5 milhão), Andrade Gutierrez (R$ 1,3 milhão).

DILMA QUER CARACTERIZAR PROTESTOS COM ‘GOLPISMO’

O Brasil vive a mais grave crise econômica e institucional da História recente, e a sociedade reage como é adequado em democracia, manifestando-se contra o roubo de dinheiro público, estelionato eleitoral e incompetência gerencial. Mas Dilma apenas conseguiu imaginar bobagens como “golpismo” ou pretendido “terceiro turno” das eleições ou atribuir o panelaço de domingo a “terceiro turno” eleitoral.

LOROTA

O panelaço protestou contra a roubalheira e um governo ruim, mas Dilma recorre à velha lorota de “ameaça de ruptura democrática”.

COMEÇOU A ONDA

Dilma subiu nas tamancas ao perceber que o panelaço de domingo garante o êxito dos protestos do domingo que vem (15).

ELE NÃO MERECE

Após mais de um mês sem ser recebido por Dilma, o porta-voz Thomas Traumann agora precisa virar papagaio de pirata para ser visto por ela.

MERCAPEDANTE

Quem tem Aloizio Mercadante como chefe da Casa Civil não precisa de oposição. E o ministro reagiu ontem com a arrogância de sempre, sem contribuir para amenizar o clima ou se aproximar dos parlamentares.

DESNORTEADOS

Dilma e Mercadante, aquele que nas palavras de Lula “seqüestrou o governo”, ficaram “feito baratas tontas”, segundo um assessor palaciano, com o impactante panelaço no domingo.

NOVA DERROTA

O PMDB faz das derrotas impostas a Dilma sua principal diversão no Congresso. A sigla já aposta que derrubará, nesta quarta (11), o veto à Medida Provisória que corrige em 6,5% a tabela do imposto de renda.

ESPELHO MEU

Esta coluna noticiou em 23 de fevereiro que a Procuradoria-Geral da República já enviou ao Superior Tribunal de Justiça denúncia contra dois governadores enrolados do Petrolão. Dois deles foram citados durantes as investigações: Tião Viana (PT-AC) e Pezão (PMDB-RJ).

CONSELHEIRO DENUNCIADO

Outro denunciado ao STJ foi “um conselheiro” de contas baiano. Mario Negromonte, ex-ministro de Cidades de Dilma, se enquadra nisso: ele é conselheiro do Tribunal de Contas da Bahia.

COMPETÊNCIA

Ex-modelo e miss do DF, Alessandra Baldini, 28, foi aprovada para juíza federal, mostrando que não há incompatibilidade entre beleza e competência. Até já passou em seis concursos difíceis, entre eles analista do STJ, defensora pública e procuradora do Banco Central.

PEDE PRA SAIR

O clima na CPI da Petrobras é de total constrangimento com a presença de Lázaro Botelho (TO) e Sandes Júnior (GO), indicados pelo PP para integrar a comissão. Ambos estão no listão da Lava Jato.

TRANSPARÊNCIA

Vice-presidente da CPI da Petrobras, Antônio Imbassahy disse que o PSDB tentará impedir que o depoimento de Pedro Barusco ocorra a portas fechadas. “Vamos ouvir a defesa, mas preferimos tudo aberto”.

PENSANDO BEM...

...se o impressionante panelaço foi financiado pela oposição, com diz o PT, vendedores de panelas velhas devem ter ficado milionários.


PODER SEM PUDOR

MÁ COMPANHIA

O governador do Ceará, Virgílio Távora, em 1953, viajava com o "coronel" Mário Leal em um avião tão pequeno quanto precário, quando o motor parou.

- Coronelzinho, são quatro horas da tarde e, pelo visto, nós ainda vamos ter tempo de jantar com os cão dos inferno! - desabafou Mário Leal.

Távora não gostou, mas não disse nada, preocupado. Até que o piloto fez o motor funcionar de novo e o avião pousou em paz. Távora cobrou do amigo:

- Por que você disse que nós íamos jantar com os cão dos inferno?

Mário Leal olhou para o céu, coçou a nuca e disse, com todo respeito:

-- Excelência, senhor governador, eu sei com quem eu ando...