terça-feira, fevereiro 10, 2015

A palavra "I" - J. R. GUZZO

Revista Veja

Uma das complicações da política brasileira de hoje é que a poeira não baixa. Deveria baixar, pela lei da gravidade; "se subiu tem de descer", dizia Raul Seixas numa de suas muitas observações notáveis. Mas no Brasil da presidente Dilma Rousseff a lei da gravidade parece não estar funcionando. Seria mais uma dessas leis que não pegam?

O fato concreto é que a poeira em volta do governo, quase sempre levantada por ele mesmo, continua subindo — e o inconveniente disso é que deixou de existir a opção de esperar que a poeira baixe antes de tomar decisões, como recomenda a sempre tão prudente sabedoria popular. Esperar como? Antes de se desmanchar uma nuvem já vem outra, e se alguém ficar esperando o ambiente clarear corre o risco de passar a vida sem fazer nada. No momento, com a catástrofe que o Palácio do Planalto criou ao se deixar moer como picadinho na eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara dos Deputados, subiu um poeirão de estrada de terra em Mato Grosso em tempo de seca. Vai ficar aí por tempo indeterminado — e o resultado é que a vida pública brasileira continuará no voo cego que vem fazendo nos últimos quatro anos.

Sempre há a esperança de que bata um vento capaz de limpar a atmosfera, mas a experiência informa que está rodando no governo Dilma um programa pelo qual os ventos, caprichosamente, não têm tido a bondade de produzir os efeitos esperados deles — a cada vez que venta, ao contrário, tudo o que se tem é mais poeira. Mal começou o ano de 2015, e mal começou o segundo mandato da presidente, e já estamos em pleno breu. Para ficar numa lista resumida, continua em perfeita forma a tempestade de areia levantada no ano passado pelo assalto sem precedentes, e sem limites, aos cofres da Petrobras — só possível, na vida real, pela colaboração prestada aos assaltantes durante doze anos seguidos por parte dos dois governos do PT; no melhor dos casos, é um espetáculo de inépcia, negligência e imperícia que respeitados juristas já acham vizinho da cumplicidade. Do fim do ano para cá, a coisa só fez piorar. Seguiu-se, logo de cara, a nuvem de pó desse incompreensível novo ministério. Logo depois veio a revelação de que o Brasil corre o risco de um desastre no fornecimento de energia elétrica — ao contrário da afirmação pública da presidente, um ano atrás, de que graças ao seu governo o país tinha energia de sobra, barata e eterna. As contas públicas de 2014 fecharam com um rombo inédito na história: o governo federal arrecadou por volta de 1,2 trilhão de reais, mas conseguiu gastar quase 350 bilhões de reais a mais do que isso. Enfim, na eleição da Câmara, Dilma e seus grandes estrategistas políticos lançaram-se a uma aventura desesperada. Inventaram de declarar guerra a Eduardo Cunha, embora ele comande uma porção decisiva do PMDB, partido que há doze anos é o principal aliado do próprio governo, perderam e criaram uma nova liderança para a oposição, mais perigosa que todas as que já estavam aí.

A vitória de Cunha parece um desses casos clássicos em que a malícia é superada pela burrice. Dilma queria derrotar o PMDB para pagar menos por seu apoio. Vai pagar mais, e não pode fazer nada contra a bizarra espécie de aliado-adversário que criou. Não pode, é claro, expulsar o PMDB do governo, como não podia desde o começo da briga; não pode retaliar nem os partidos anões que comprou com cargos e que a traíram votando em Cunha. Quem iria colocar em seus lugares? Para piorar, o candidato da presidente ficou com pouco mais de 25% dos votos na eleição — uma soma ridícula, francamente, para quem pretende a "hegemonia" na vida política brasileira, como está escrito nos documentos oficiais do PT. A torcida do governo, agora, tenta se animar com a ajuda que imagina receber de gigantes do movimento de massas como Gilberto Kassab e Renan Calheiros — é a isso que está reduzida.

Mais que tudo, Dilma pôs em circulação, inteiramente de graça, a palavra "impeachment". É um despropósito, levando-se em conta que não está provada até agora nenhuma conduta criminal em relação a ela. Só está provado que faz um governo horrível, mas a Constituição não diz que o governo tem de ser bom; diz apenas que tem de ser eleito. Se é ruim, o remédio prescrito pela lei são eleições de quatro em quatro anos. Ao mesmo tempo, o Congresso não é obrigado a esperar decisões da Justiça para depor presidente algum; fez exatamente isso, por sinal, com Fernando Collor. Eis aí o que pode acabar sendo, para Dilma Rousseff, a mãe de todas as poeiras.

O que é isso, companheiros? - RUTH DE AQUINO

Revista Época 

Os 35 anos do Partido dos Trabalhadores não poderiam ser comemorados sob nuvens mais negras (leia o artigo de Fernando Schüler à página 46). O número do PT é 13 e também são 13 os anos no Poder. Fundado no auditório de um colégio de freiras em 1980, o PT parece a bela adormecida. Alheio ao caos a sua volta, num sono profundo, enfeitiçado pela bruxa e à espera de um príncipe encantado que resgate sua vida, sua moral, seus valores, seus súditos e seus sonhos. O príncipe não aparecerá. Ele já abandonou o castelo e se juntou aos aliados amotinados, que sentiram algo de podre no reino.

O tesoureiro foi recolhido em casa por policiais que precisaram pular o muro. Ele não explica como o PT tesourou o Brasil em cerca de US$ 200 milhões em propinas para entregar tudo ao rei e à rainha - caso sejam verdadeiras as denúncias do delator. Como erguer com orgulho, no aniversário, o punho e a estrela vermelha de cinco pontas? Em outros tempos, punho erguido era símbolo de luta, de dignidade. Foi vulgarizado pelos condenados por improbidade. Hoje, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, não convence ao afirmar: "Não aceitamos o estigma da corrupção, somos um partido honesto, que cumpre as leis". Palavras de pomba ou de falcão?

Não há alegria na constatação de que um partido de esquerda traiu de forma tão desavergonhada seus ideais de ética e transparência. O deputado federal Chico Alencar, um dos fundadores do PT, chorou em 2005 quando soube do caixa dois pago pelo operador Marcos Valério e pelo então tesoureiro do PT, Delúbio Soares, ao marqueteiro Duda Mendonça - para eleger Lula. O cartaz no Congresso, rabiscado por petistas desiludidos, dizia: "Não em nosso nome".

Mal sabíamos que era um episódio cândido, diante das perversidades com o dinheiro público que o PT, em vez de frear, aprofundou. Em 2005, Lula disse: "Estou com o peito doendo. A gente não precisava estar vivendo isso. Nunca participei de arrecadação de campanha". Agora, uma década depois, Chico Alencar lembra versos de Chico Buarque que o emocionaram durante anos após sair do PT. São da canção "Meia-noite": Seu navio carregado de ideais/ que foram escorrendo feito grãos/as estrelas que não voltam nunca mais/e um oceano para lavar as mãos.

"Durante um bom tempo eu chorava quando ouvia essa música. Mas esses grãos nem existem mais. A nau do PT é um navio pirata que não escolhe porto, saqueia o que vê pela frente", disse o deputado federal do PSOL do Rio de Janeiro, formado em história. "No início do século passado, o sociólogo Robert Michels já falava da degeneração dos partidos operários quando chegavam ao Poder, com suas burocracias, nomenclaturas, oligarquias. O PT é mais um."

Em 2002, Lula, pela quarta vez candidato a presidente, disse aos companheiros: "Cansei de disputar eleição só para marcar posição. Que o partido se vire. Quero vencer". Duda Mendonça era conhecido como "o bruxo das campanhas", um marqueteiro capaz de fazer o Maluf parecer honesto. Petistas éticos pediram a Delúbio que publicasse os gastos da campanha com transparência. "Transparência demais é burrice", respondeu Delúbio numa reunião do diretório.

Burrice foi, depois do mensalão, continuar a tesourar o país usando sua maior estatal, a Petrobras, em conluio com empreiteiras. "Nem o mais desvairado dos privatistas conseguiria fazer com a Petrobras o que o PT fez", diz Chico Alencar. Os programas podais do Brasil não rivalizam nem de longe com os desfalques que vêm à tona na Operação Lava Jato. É constrangedor para o PT comemorar aniversário como se fosse uma vítima das circunstâncias.

Aniversário deve servir para rever a vida, mudar atitudes nefastas, posturas egoístas, descuidos com a saúde. Em seus 35 anos, o PT deveria retomar uma tradição esquecida da esquerda e fazer profunda autocrítica. Se continuar nessa de celebração, desagravo público e chororô de perseguido pela mídia, aprofundará a decadência. Não adianta culpar antecessores e tucanos. O pecado do pregador choca muito mais que o pecado do pecador. O PT traiu suas promessas. Entre sua eleição e a posse, Lula disse: "Não temos o direito de errar". Abusou do erro. Hoje, o PT é engolido até por aliados.

Uma multidão de militantes interpreta as críticas a Dilma como "golpe". Isso é "falta de assunto", como disse Zé Dirceu em J999 ao pedir o impeachment de Fernando Henrique Cardoso por manobrar o câmbio em seu favor. Sem Graça Foster de para-raios, Dilma está mais vulnerável sim. O que não é nada bom para o Brasil. O petrolão é péssimo não só para os partidos e a economia, mas para a deterioração de nosso cotidiano e nossa autoestima. A bandidagem de cima estimula a bandidagem de baixo. O desencanto com o Brasil é ruim para a saúde.

A Petrobras pode ser privatizada? - MAILSON DA NÓBREGA

Revista Veja 

Diante dos notórios desmandos na Petrobras, muitos defendem a privatização da estatal. Sob o prisma da racionalidade econômica, a medida geraria enormes benefícios para a empresa, seus funcionários e o país.

As privatizações da Vale e da Embraer demonstraram que mesmo estatais bem geridas podem colher gigantescos ganhos de eficiência depois de privatizadas. Elas se livram das amarras do controle do governo — nomeações políticas, regras de licitação, descontinuidade administrativa, gastos de propaganda de interesse do governo e por aí afora. Mas a privatização da Petrobras dificilmente teria o apoio da sociedade.

A ação empresarial do Estado se acentuou a partir do século XIX na Europa. Países que não reuniam as condições que enriqueceram o Reino Unido buscaram criá-las via empresas estatais — como bancos e ferrovias — para fomentar a industrialização, A teoria econômica, desde Adam Smith, justifica a criação de estatais quando o setor privado não é capaz de prover bens e serviços essenciais ao desenvolvimento. São as "falhas de mercado".

A partir da primeira metade do século XX, a esquerda viu outras razões para criar estatais ou estatizar empresas privadas: atividades-chave deveriam ser guiadas pelo interesse nacional, e não pelo objetivo único do lucro. O mesmo se dizia de setores "estratégicos", como o de petróleo e o de ferrovias, e dos associados à defesa, caso das áreas espacial e nuclear.

No intervalo das duas grandes guerras, partidos socialistas abraçaram essas ideias. O Partido Trabalhista britânico, vencedor das eleições de 1945, as adotou sob a liderança do primeiro-ministro Clement Attlee. Foram estatizados a indústria do carvão, as ferrovias, os telégrafos, a siderurgia, a energia elétrica, a aviação civil e o Banco da Inglaterra (o atual banco central), que fora controlado por capitais privados desde sua fundação (1694). Já estavam sob o controle do governo o petróleo e a BBC.

No início, a impressão foi de melhoria na operação das empresas, mas depois se percebeu, em especial nos anos 70, que nem as premissas da estatização eram corretas nem as estatais eram eficientes. Passados 34 anos da aprovação da plataforma de Attlee, o eleitorado britânico elegeu o Partido Conservador e aprovou a privatização, afinal implementada, com firmeza, pela primeira- ministra Margaret Thatcher. Na volta ao poder como primeiro-ministro Tony Blair (1997), os trabalhistas mantiveram as privatizações.

No Brasil, as ideias da esquerda europeia se acentuaram pelas crenças antiliberais de nossas origens culturais. As primeiras estatais surgiram no princípio do século XX e se alastraram no pós-guerra. O apoio à privatização nos anos 1980 se inspirou no exemplo britânico e nas ineficiências das estatais. O processo iniciou-se com a devolução, ao setor privado, de empresas antes estatizadas. Acelerou-se na década de 90 com a venda de empresas industriais e das estatais das áreas de telecomunicações e energia, além da Vale, da Embraer e de bancos estaduais. Contrário a tudo isso, Lula, à la Tony Blair, manteve as privatizações depois que se elegeu.

O apoio à privatização nunca se estendeu a estatais como o Banco do Brasil e a Petrobras. Tende a continuar assim por muito tempo, pois elas são símbolos venerados por uma maioria favorável a esse tipo de ação do Estado. Como disse Edmar Bacha, símbolos existem também em países avançados, como os aeroportos nos Estados Unidos, que são estatais. O mesmo se dirá da BBC no Reino Unido e do petróleo na Noruega.

A diferença em relação ao Brasil é a forma como as estatais são administradas. Lá, seus gestores são profissionais gabaritados, escolhidos de forma impessoal, geralmente por head-hunters. Adotam-se princípios de governança corporativa típicos das empresas privadas de capital aberto.

Sem ambiente nem apoio para privatizar a Petrobras, uma forma de coibir a repetição do escândalo do petrolão é guiar-se pelo exemplo de países ricos, incorporando suas regras de escolha dos dirigentes e de gestão das estatais. Os ganhos de eficiência não seriam tão espetaculares quanto na privatização, mas a operação e a produtividade de uma empresa seriam bem melhores

Lula, a missão - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 10//02

Em recente conversa, o ex-presidente Lula disse a um interlocutor o seguinte: "Vamos ter que passar dois anos comendo merda, para depois tentar sair da crise. Mas nesse período tem que fazer política, e a Dilma não faz".

Confirmado o diagnóstico com a recente pesquisa Datafolha mostrando a popularidade da presidente Dilma no chão, Lula resolveu trazer para si a tarefa de "fazer política", e a primeira providência foi liberar a informação de que, sim, será candidato a presidente da República em 2018.

Menos de dois meses do segundo mandato de Dilma, e a candidatura de Lula já está na rua para alimentar os militantes com uma expectativa de poder que a cada dia fica mais escassa diante das diversas crises que envolvem o governo, da economia à política.

Lula em campanha, viajando pelo país revivendo a Caravana da Cidadania dos velhos tempos, é uma barreira política formidável a movimentos de descontentamento na sociedade e a manobras políticas que possam levar ao impeachment da presidente Dilma.

Com o decorrer do processo, veremos se a insatisfação popular crescerá a ponto de inviabilizar a campanha de rua de Lula ou se ele terá força suficiente para neutralizar as previsíveis manifestações contrárias ao governo, nesses dois anos em que os governistas terão que "comer merda".

Assim como fez no mensalão, Lula começa sua campanha sobre o petrolão pregando "humildade e coragem" no discurso em Belo Horizonte no aniversário de 35 anos do PT. E, assim como em 2005, ele fala em reconstruir o partido, voltar às suas origens. Na célebre reunião na Granja do Torto em que ele se disse "traído", Lula lembrou a fundação do PT em 1980: "(...) no início da redemocratização decidi criar um partido novo que viesse para mudar as práticas políticas, moralizá-las e tornar cada vez mais limpa a disputa eleitoral no nosso país. (...) Quero dizer a vocês, com toda a franqueza, eu me sinto traído. Traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento. Estou indignado pelas revelações que aparecem a cada dia, e que chocam o país. (...) eu não tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que nós temos que pedir desculpas".

Pois bem. Em 2015, Lula assume a mesma postura diante do petrolão: "Temos a oportunidade histórica de elaborar um novo Manifesto do PT, capaz de traduzir nossos compromissos para os dias de hoje e para os próximos 35 anos".

Ele propôs "o desafio" de resgatar os ideais dos anos de fundação do partido, em 1980. "O Partido dos Trabalhadores surge da necessidade sentida por milhões de brasileiros de intervir na vida social e política do país para transformála. (...) O PT nasceu para mudar".

Mais uma vez Lula falou em traição: "Se alguém tiver traído a nossa confiança, que seja julgado e punido, dentro da lei, porque o PT, ao contrário dos nossos adversários, não compactua com a impunidade".

Para Lula, o problema do PT é que ele "se tornou um partido igual aos outros. Deixou de ser um partido das bases para se tornar um partido de gabinetes. Há muito mais preocupação em vencer eleições, em manter e reproduzir mandatos, do que em vitalizar o partido".

Lula citou a "militância paga", sempre criticado pelo PT na "política tradicional". "(...) É nesse ambiente que alguns, individualmente, cometem desvios que nos envergonham diante da sociedade e perante a história do PT. (...) Penso que esse processo chegou ao limite no PT", decretou Lula.

Estaria tudo certo se, a partir do mensalão, Lula tivesse comandado uma refundação do PT, e o partido mudasse de atitudes. Como se vê agora no petrolão, enquanto Lula discursava quase chorando no mensalão, estava em curso um escândalo muito maior dentro da Petrobras, e sabe-se lá onde mais.

No intervalo entre o julgamento do mensalão, com a condenação das principais lideranças petistas, e o surgimento do petrolão, Lula mudou o discurso e chegou a afirmar que o mensalão nunca existira. Prometeu até mesmo se dedicar a demonstrar ao povo brasileiro que tudo não passou de uma farsa, coisa que nunca fez.

Agora, ele encurtou o caminho: ao mesmo tempo em que fala em reencontrar as raízes fundadoras do PT, Lula sugere que o caso do petrolão está sendo utilizado politicamente para criminalizar seu partido. Essa atitude dúbia faz parte do seu show, com o qual pretende neutralizar os efeitos das crises política e econômica que envolvem o segundo mandato de Dilma.

Com ferro foi ferida - DORA KRAMER

O Estado de S. Paulo - 10/02

A notícia de que a perplexidade tomou conta do Palácio do Planalto com a derrocada dos índices de popularidade e confiabilidade da presidente da República é prima-irmã daquela irritabilidade que recai sobre a pessoa de Dilma Rousseff quando algum fato tem repercussão negativa na opinião pública.

Ambas são versões oficiais destinadas a criar um espaço de prudente (embora falsa) distância entre ela e a má nova. Ou velha, tanto faz. Algum ato de governo pegou mal? "Dilma ficou muito irritada", avisa a assessoria.

O brasileiro não gostou de constatar que Dilma mentiu na campanha eleitoral a respeito de rigorosamente todos os principais temas em debate com os oponentes? Mais que depressa o departamento de propaganda do governo informa que foi um choque para ela saber disso.

Ora por quem sois. A pesquisa do Instituto Datafolha explicitou em números uma realidade que os fatos estavam contando por si todos os dias. Ou alguém no Palácio do Planalto poderia esperar algo de diferente quando uma presidente da República recentemente reeleita simplesmente some de cena enquanto são anunciadas medidas que, segundo a candidata a conquistar votos, não seriam tomadas em hipótese alguma?

Ou, por outra, seriam impostas cruelmente ao País caso o eleitorado optasse por escolher um de seus adversários. Qualquer um dos dois, Marina Silva ou Aécio Neves, seriam os culpados por graves agruras. Ela, Dilma Rousseff, seria o caminho das soluções. Note-se o silêncio pós-posse que contrariou até o discurso da noite da vitória em que ela conclamava a Nação à união e ao "diálogo".

Daí em diante não explicou mais nada. Quando falou, limitou-se a monólogos fantasiosos seguindo a mesma toada da agenda ilusória montada para a campanha eleitoral. A roubalheira na Petrobrás era culpa de um ou outro funcionário; a crise econômica, decorrência da situação internacional;, a inflação, inexistente e o que mais não vá bem, produto de pessimismo.

Deixou o ponto crucial que era o ajuste na economia ao encargo do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, como quem tenta se preservar e - aqui de novo, se distanciar - da má notícia. Deu a seguinte impressão: se sair errado, a culpa é dele.

A se acreditar que a presidente da República e seu grupo fechado de conselheiros foram realmente pegos de surpresa com o efeito dessa conjunção de desastres - nem todos citados, pois de conhecimento geral -, é de se concluir pela gravidade da situação de isolamento total do núcleo governante.

Não há no tão competente departamento de comunicação governamental um acompanhamento permanente de pesquisas? E aquela consulta que o PT anunciou que contrataria para detectar as razões do claudicante desempenho eleitoral? Dela nunca mais se ouviu falar.

A julgar pela reação improvisada e repetitiva do anúncio da montagem de uma "agenda positiva" como se a agenda negativa não fosse fruto do choque de ações do governo com a agenda ilusória da campanha, há um apagão de sensatez no Palácio do Planalto. Ou um surto de ingênua credulidade no poder eterno do ilusionismo.

E ausência de noção de limite. João Santana, o marqueteiro, extrapolou, exagerou e ganhou a eleição. Entregou a mercadoria. O dia seguinte é serviço de quem ganhou. Há um dado terrível para a presidente na pesquisa do Datafolha: 47%, 54% e 50% dos consultados consideram que ela é desonesta, falsa ou indecisa.

Produto de quê? Da exacerbada contradição entre o discurso de campanha e as ações logo depois. Portanto, talvez não seja um exagero concluir que, se não tivessem sido tantas e tão flagrantes as mentiras, se a campanha de Dilma não tivesse procurado colocar na boca dos opositores palavras que nunca disseram, possivelmente a crise não atingiria tão gravemente a imagem da presidente.

Recessão encomendada - MÍRIAM LEITÃO

O GLOBO - 10/02

O Brasil caminha para a recessão porque o governo cometeu sucessivos erros. Aumentou os gastos e produziu um enorme déficit; reprimiu tarifas; ignorou os alertas sobre a crise elétrica, permitindo que as empresas pegassem empréstimos para repassar aos preços. Agora é a hora do ajuste: a inflação subiu, a crise elétrica se agravou e os gastos têm que ser cortados.

Os problemas que o país enfrentará este ano não foram culpa do mundo. São crises feitas aqui mesmo. Para piorar, os governos estaduais, principalmente o de São Paulo, cometeram o mesmo erro de adiar as medidas que tinham que ter tomadas para mitigar os efeitos da seca. Agora, a economia já enfraquecida terá que enfrentar dois racionamentos: de água e energia.

A política industrial falhou completamente no primeiro mandato da presidente Dilma. E falhou porque estava errada e desatualizada. No ano em que o governo gastou R$ 104 bilhões em desoneração, a indústria teve um tombo de 3,2%. Só é comparável com o ano da crise de 2009. A queda é tal que contamina o ano de 2015, em que a indústria já começa lá em baixo, tendo que refazer o caminho da volta.

A queda não foi um fato isolado. A situação da indústria é dramática há bastante tempo. Nos últimos seis anos, foram três períodos de queda e três de alta. Em 2011, houve um raquítico crescimento de 0,4%, seguido de um tombo de 2,3%, em 2012. Em 2013, alta de 2,1%, e agora a retração de 3,2%. A produção está num nível 8% menor do que em setembro de 2008 quando começou a crise financeira internacional.

O governo apostou nos subsídios e redução de impostos. As medidas não funcionaram e causaram distorções como os rombos nas contas públicas. O setor de veículos automotores, reboques e carrocerias - tão beneficiado pelo governo, com redução de impostos, restrição a importados e estímulo ao crédito - terminou o ano com uma retração de 16,8% no ano passado, pelos números do IBGE. Foi o que mais caiu.

O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) acha que há "risco de colapso nos investimentos". A retração nos investimentos ocorre há três trimestres seguidos na indústria, como mostram os números da produção de bens de capital.

Os dados da Abimaq, entidade que representa a indústria que produz máquinas e equipamentos, já mostravam que o ano havia sido ruim para o investimento. Houve queda de 15% no consumo aparente de máquinas (consumo da produção interna mais as importações) e fechamento de 12 mil postos de trabalho de janeiro da dezembro.

Pelas contas da consultoria Rosenberg Associados, caso a indústria não encolha mais e mantenha o mesmo nível de produção de dezembro ao longo de todos os meses deste ano, ela fecharia 2015 com retração de 4,1%. É o chamado carregamento estatístico, que este ano será negativo.

Os bancos e consultorias ouvidos pelo Banco Central projetaram ontem crescimento zero para o PIB este ano. E várias instituições estão prevendo queda de 0,5%. A MB Associados está com a previsão de um PIB negativo de 1%, a mesma calculada por Alexandre de Ázara, sócio e economista-chefe do Banco Modal, que ainda estima inflação de 7,9%. Na produção industrial, os números estão sendo revistos para baixo há cinco semanas seguidas pelo mercado financeiro, com a ameaça cada vez maior do tarifaço e do racionamento de energia. Há um mês, a projeção era de alta de 1%.

Ao mesmo tempo em que o consumo interno perde força, o crescimento industrial pela exportação é pouco provável, mesmo com a desvalorização do real. O país não fez acordos comerciais nos últimos anos e ficou dependente da venda de produtos manufaturados para o Mercosul. Os argentinos são os principais compradores e estão em crise cambial, subindo barreiras comerciais e atrasando pagamentos a seus fornecedores.

O governo colhe agora o que plantou. O problema é que quem paga pela má colheita somos nós. A alta da inflação, o tarifaço de energia, a alta dos juros vão retirar renda das famílias. A administração errática da presidente Dilma produziu queda de confiança em todos os segmentos empresariais. E agora pesa sobre as famílias e as firmas o risco do racionamento de energia.

Europa que ri, Brasil que chora - GILLES LAPOUGE

O Estado de S. Paulo - 10/02

Há alguns anos nos habituamos a ter pena da "pobre Europa", com todos os seus motores engripados. E sempre oferecíamos como exemplo o Brasil, que liderava a corrida, registrando altos crescimentos, ano após ano. A Europa estava imóvel, ou recuava, ao passo que o Brasil seguia seu caminho e havia encontrado enfim o seu "famoso futuro" que Stefan Zweig, desde 1940, lhe havia prometido.

Hoje perguntamos se não é caso de atualizar o software. Tudo se passa como se uma mudança de orientação estivesse em curso. Brasil e Europa dão a impressão de que mudaram seus papéis: a "lata velha" europeia se enfurece e acelera, enquanto o motor do Brasil engasga e seu acelerador quebra.

Os europeus mal acreditam nessa fadiga brasileira. Estavam tão habituados a ver o país de Lula crescer em espiral, lançar-se no zênite em companhia da China e se recusam a crer que a era Dilma não é a era Lula.

No jornal Figaro, um economista de renome, Nicolas Baverez, definiu a situação como "o crash do Brasil". E apresenta uma série de cifras e dados estatísticos que os brasileiros conhecem bem, infelizmente, mas que a Europa recusa-se a levar a sério. Ele evoca o escândalo e o desastre da Petrobrás, consequência, símbolo e acelerador do "mal brasileiro".

"Dilma não cessou de negar a crise, cedendo a uma deriva demagógica e nacionalista, buscando 'bodes expiatórios nos predadores internos e inimigos do estrangeiro'. O restabelecimento das finanças públicas e da política de oferta indispensável para a recuperação vão no sentido contrário da campanha de Dilma e validam o programa de seu opositor Aécio Neves."

Ele conclui seu artigo com um conselho: "É vital que o Brasil, com base nos seus trunfos formidáveis, coloque fim à deriva autoritária, nacionalista e populista, para escolher o campo do Estado de Direito e da reforma econômica".

Despertar. Como num jogo de equilíbrio, à medida que o Brasil afunda, a Europa desperta. Não é um despertar de sobressalto, estilo americano. Mas, depois de sete anos de vacas magras e cada vez mais magras, o mínimo progresso é um milagre.

Em novembro, Bruxelas previa para 2015 um crescimento de 1,5% na União Europeia e de 1,1% na zona do euro. Hoje, eis as novas previsões: 1,7% para a União Europeia e 1,3% para a zona do euro. Em 2016 essas porcentagens aumentarão para 1,9% e 2,1%. Claro que são saltos muito pequenos, mas, depois de sete anos de aflição, o efeito é de um salto de atleta.

A causa dessa melhora é conhecida: o esforço de todos os países da zona do euro. E a ele se adicionam dois eventos fortuitos: o recuo da moeda comum, o euro, que reanimou as exportações, e a queda dos preços do petróleo, que desafoga as contas das nações e das famílias.

É preciso que o comboio europeu não tropece numa grande pedra, por exemplo, na crise grega, já que Atenas decidiu atacar de frente Bruxelas, Berlim e alguns outros alvos, com o objetivo de por fim à "mania de austeridade" imposta por Angela Merkel aos países do sul da Europa.

Mas, se Bruxelas, como os gregos, os alemães e todos os outros, administrar prudentemente a cólera grega, ela poderá ter um efeito positivo sobre toda a Europa. Se Atenas, estimulada pelo desespero, conseguir soltar as amarras colocadas por Merkel e por Bruxelas no crescimento, o "acesso de cólera" dos gregos não terá sido inútil: países que fraquejam há anos sob o peso da "austeridade" poderão recobrar o gosto pela vida, o crescimento, e comunicar seu bom humor para toda a zona, a países como a Grécia, em primeiro lugar, mas também Itália, Portugal, Espanha. E mesmo a França. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Cartel à brasileira - GIL CASTELLO BRANCO

O GLOBO - 10/02

É de vital importância que as investigações avancem. A cadeia é pedagógica. Para os empresários e para os políticos


Cartel não é como jabuticaba, que só existe no Brasil. Entre 2010 e 2014, a Comunidade Europeia aplicou multas equivalentes a R$ 27,2 bilhões por práticas de cartel. Os valores quase triplicaram em relação ao período de 2000 a 2004, quando as penalidades totalizaram R$ 10 bilhões. Em 2012, por exemplo, a LG Electronics e a Philips receberam, cada uma, multas de aproximadamente R$ 2,2 bilhões.

No Brasil, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) tem adotado rigor semelhante. No ano passado, o chamado cartel do cimento foi multado em R$ 3,1 bilhões. O Cade ainda determinou a venda de fábricas e proibiu operações no ramo de cimento e de concreto até 2019.

No caso da Petrobras, no entanto, a situação vai além de empresas que combinam preços e dominam mercados. O fio da meada foi puxado por investigação da Polícia Federal em uma casa de câmbio, localizada num posto de gasolina de Brasília, por coincidência a quatro quilômetros da Praça dos Três Poderes. A partir daí, surgiram, em conluio, doleiros, contadores, executivos de empreiteiras, diretores e funcionários da estatal, empresas-laranjas, partidos e políticos da base governista. Se for comprovado o que dizem os delatores, só o PT arrecadou cerca de R$ 500 milhões, de 2003 a 2013. Associado ao mensalão, trata-se de ambicioso projeto de perpetuação no poder, gestado por corruptos reunidos em uma organização criminosa, verdadeira roda da fortuna ilícita institucionalizada à custa do Erário.

Como algumas empresas investigadas mantêm relações com políticos e são tradicionais financiadoras de campanhas eleitorais — em 2014 doaram R$ 386 milhões —, vários “pizzaioilos” tentam desmobilizar as apurações com argumentos esfarrapados. Uma das falácias é afirmar que caso as empresas envolvidas sejam decretadas inidôneas o país vai parar. Balela.

Estudo realizado pela Associação Contas Abertas nos investimentos dos Três Poderes no âmbito federal revela que, no ano passado, as empreiteiras investigadas na Lava-Jato foram responsáveis por apenas 6,3% dos valores pagos pela administração direta. O percentual irrelevante é explicado pelos investimentos abrangerem não somente obras, mas também a aquisição de máquinas e equipamentos. Como é óbvio, as empreiteiras investigadas não têm qualquer relação com a compra de tratores, aviões, caminhões etc. Os cálculos não incluem os consórcios, estados e municípios.

Quando se considera apenas a rubrica “obras e instalações” — dentro do montante dos investimentos federais, cujo valor total em 2014 alcançou R$ 57,2 bilhões —, a participação das empreiteiras cresce. Do total de R$ 15,8 bilhões investidos pela União em obras e instalações, as empreiteiras ficaram com 23%. Nesse item estão incluídas as despesas com os projetos e a execução das obras até sua conclusão. Essa participação das empreiteiras em um quinto dos investimentos em obras e instalações não é pequena, mas está longe de ser enorme como se sugere. Além disso, convenhamos, a impunidade não pode estar relacionada ao tamanho das empresas.

Na Controladoria-Geral da União, há oito processos administrativos que podem resultar em declarações de inidoneidade e em impedimentos de empresas celebrarem novos contratos com a União. Essas sanções não necessariamente acarretam a interrupção dos contratos em andamento, avaliados caso a caso, segundo o interesse da administração pública. Exemplo de que a inidoneidade não é o fim do mundo é a Delta Construções, que continua a tocar obras públicas, tendo recebido, inclusive, R$ 134 milhões da União em 2014.

De fato, tanto as empreiteiras quanto o governo — com desaprovação crescente —, não veem a hora de esse inferno terminar, se possível sem inidoneidades e provas cabais de envolvimento da cúpula do PT. Nesse contexto, eventuais acordos de leniência não podem se transformar em acordos de conveniência política. Para que não pairem quaisquer dúvidas, entendo que as condições para a celebração desses acordos devem ser previamente avaliadas pelo TCU e, se for o caso, questionadas pelo Ministério Público no Judiciário.

É de vital importância para o país que as investigações avancem, com a identificação dos responsáveis pelos delitos, sejam pessoas físicas, jurídicas ou ambos. Sobre a punição dos cartéis, é conhecida a frase de um funcionário do governo dos EUA: “Já vi muitos empresários dispostos a trocar o aumento da multa por menos dias na prisão, mas nunca o contrário.” Em outras palavras, a cadeia é pedagógica. Para os empresários e para os políticos.

A impopularidade que Dilma construiu - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 10/02

Surpresos e alarmados com a forte queda nos índices de avaliação da presidente Dilma Rousseff, o governo e o PT se articulam, não necessariamente entre si, para recolher os cacos da desastrada atuação da criatura de Lula em todas as frentes, da política à econômica, obra que em seu conjunto é tida como a mais grave ameaça concreta, em 12 anos, ao projeto de poder do lulopetismo.

Em apenas dois meses, como revelou pesquisa Datafolha, despencou quase à metade, de 42% para 23%, o número de brasileiros que consideram ótimo/bom o governo de Dilma, enquanto aumentou de 24% para 44% o daqueles que o julgam ruim/péssimo. É o reflexo do choque de realidade pós-eleitoral para o qual a chefe do governo contribui decisivamente com a soberba e a teimosia que inspiram suas decisões quase sempre balizadas por uma bitola ideológica estreita e arcaica. A escalação da equipe econômica foi, pelo menos até aqui, uma surpreendente exceção a essa regra.

Ganhar a Presidência por estreita margem de votos nas urnas em outubro havia sido uma dificuldade desconhecida pelo PT nos três pleitos anteriores. Pesaram decisivamente no resultado eleitoral a raspa do tacho da credibilidade do lulopetismo nas camadas mais populares do eleitorado e também, talvez decisivamente, o despudor com que o marketing da campanha submeteu os brasileiros ao terrorismo eleitoral, lançando na conta dos adversários o espectro da fome e do desemprego.

O pior, contudo, vê-se agora, foi a falta de escrúpulos com a qual a campanha petista mentiu sobre a intocabilidade dos benefícios trabalhistas, acusando os adversários de planejar o retorno à estabilidade econômica à custa de conquistas sociais, para no dia seguinte à posse o governo anunciar "correções" de algumas "distorções" daqueles benefícios. Hoje, ministros e dirigentes petistas enfatizam a necessidade de "explicar as medidas do governo". Mas o que compromete a credibilidade de Dilma é, menos do que o efeito dessas medidas, o fato de a então candidata ter mentido sobre elas. Uma grande mentira que se explicitou no momento em que Dilma cedeu à imposição dos fatos e contrariou suas próprias convicções ao nomear uma equipe "neoliberal", sob o comando de Joaquim Levy, para enfrentar o desafio de, desde logo, botar as contas do governo em ordem. Acresce a isso, decisivamente, o escândalo da Petrobrás, que macula indelevelmente personagens favorecidos por frequentadores e aliados do Planalto e respinga na chapa vencedora do pleito de 2014, beneficiados por dinheiro de procedência mais do que duvidosa. Compromete Dilma sua incapacidade de dialogar e de se articular com os demais protagonistas da cena política - consequência do voluntarismo de quem se julga onisciente. É conhecida a falta de disposição de Dilma para o chamado jogo político. Isso até poderia ser visto como mérito, quando se leva em conta o nível de fisiologismo a que o jogo político foi rebaixado durante os oito anos de Lula, a pretexto de garantir a "governabilidade". Mas Dilma nada fez para sanear o pântano moral criado por seu mentor. Ao contrário, serviu-se dele quando conveniente e não será torcendo o nariz, fingindo que resolve tudo sozinha e deixando o jogo correr que a presidente conseguirá governar.

A aversão da presidente ao diálogo é tão profunda que nem mesmo com seu partido ela conversa. Reduziu o núcleo duro do poder a um punhado de políticos com os quais tem afinidades ideológicas - ou que trocam a fidelidade à chefe pela possibilidade de desenvolver projetos políticos ou pessoais próprios. Assim, alijou do seu círculo próximo a corrente majoritária do PT e aquele que é ainda seu maior símbolo e liderança.

Nesse cenário ameaçador para seu projeto de poder, o PT, Lula à frente, vai ter de encontrar seu caminho apesar do governo. O escândalo da Petrobrás, que entra agora na fase mais polêmica, a do indiciamento dos políticos; a vigorosa reação do maior aliado, o PMDB, à frustrada tentativa de Dilma de minar seu poder no Congresso; as previsões pessimistas sobre a recuperação da economia no curto prazo; a corrosão do apoio popular à presidente e a possível volta das manifestações de rua - tudo isso anuncia dias difíceis para o País. Piores ainda para o PT, e que se tornarão intoleráveis se, finalmente, a oposição decidir desempenhar o papel para o qual foi eleita.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Não se pode falar em golpismo quando se fala em impeachment”
Senador Cristovam Buarque (PDT-DF), ex-ministro da Educação do governo Lula


‘OPERADOR’ PODE CONTAR QUEM RECEBIA COMISSÕES

Já recolhido à carceragem da Polícia Federal em Curitiba, o “operador” Mario Goes, que atua na Petrobras há décadas, pode revelar quem na estatal recebia o bônus pago, por todos os estaleiros, aos executivos das empresas que encomendam navios e plataformas. É praxe, em estaleiros, o pagamento de “owner discount” correspondente a 5% do valor do navio ou plataforma, que pode custar mais de US$ 1 bilhão.

A PRAXE

O “bônus” ou “owner discount” de 5% do valor do navio ou plataforma é pago “por fora” ao executivo que decidiu a encomenda, onde ele quiser.

ARQUIVO VIVO

A prisão de Mário Goes é relevante porque ele intermediou a maioria dos grandes negócios da Petrobras no exterior, nas últimas décadas.

ESPECIALISTAS

Para formular ao “operador” Mário Goes as perguntas certas, a força-tarefa da Lava Jato deveria recorrer a quem atua no comércio marítimo.

CADEIA FAZ PENSAR

Aos 73 anos e bilionário, Mário Goes certamente reflete na cadeia se é isso mesmo – cadeia – o que ele deseja para o próprio futuro.

PT ‘CRESCE O OLHO’ E QUER TIRAR PORTOS DO PMDB

Pupilo do vice Michel Temer, o ministro Edinho Araújo (Portos) corre risco de ser engolido pelo PT, que ganhou poder de influência na sua repartição. O PT se aproveita da ignorância do novo ministro em relação ao sistema portuário para aprovar medidas e preencher cargos no gabinete, por meio do secretario-executivo Guilherme Penin, petista que é fiel escudeiro do ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil).

MANDA E DESMANDA

Guilherme Penin foi assessor especial de Aloizio Mercadante na Casa Civil, e nomeado secretário-executivo de Portos em novembro de 2014.

APARELHOU GERAL

Conhecido no setor portuário, o secretario-executivo já preencheu este ano pelo menos quatro cargos de confiança no gabinete do ministro.

CUIDADOS

Inspira cuidados o estado de saúde de José Eduardo Dutra, ex-presidente da Petrobras e da BR, ex-senador e ex-presidente do PT.

SÓ UM TROMBADINHA

Comparado ao “operador” Mário Goes, preso desde domingo, o lobista do PMDB, Fernando Baiano, também no xilindró, seria no máximo um office-boy de luxo, responsável pelo transporte de malas de dinheiro.

OUTRO ESTELIONATO

A energia que abastece as residências ficará no mínimo 41% mais cara em 2015, segundo especialistas, sem contar o impacto da vigarice das “bandeiras tarifárias”. Há um ano Dilma prometia “reduzir” a tarifa.

ARTHUR NA CCJ

A mais importante comissão da Câmara, Constituição e Justiça, será presidida por Arthur Lira (AL), primeiro deputado do PP conquistar essa posição. O último alagoano no cargo foi José Thomaz Nonô, em 1994.

VOU DE TÁXI

Moradores da pequena rua J.J. Seabra, no Rio, perderam uma de suas melhores atrações: o agora confiscado Lamborghini de Eike Batista, que até dias atrás saía dele como o Batman, para jantar na região.

O TROCO

O presidente reeleito do Senado, Renan Calheiros, já mandou avisar ao PSDB para “botar a bola no chão”, nos embates de plenário, sob o risco de também ficar fora das presidências de comissões de mérito.

VALA COMUM

Certo de que a criação da CPI da Petrobras é um caminho sem volta, o PT agora vai trabalhar para estender as investigações dos governos Lula e Dilma para a gestão do tucano Fernando Henrique Cardoso.

CPMI, O RETORNO

Líder do PSDB, Cássio Cunha Lima (PB), acredita que conseguirá de 29 a 32 assinaturas para criação da CPMI da Petrobras. Além da oposição, o tucano negocia com quatro senadores da base do governo.

CORTES NO DF

O chefe da Casa Civil do governo do Distrito Federal, Hélio Doyle, garante que até 29 de janeiro foram reduzidos de 7.887 para 1.428 os cargos “de confiança”, de livre provimento, além do corte de 507 cargos com vínculo. Segundo ele, a economia foi de R$ 21,5 milhões em um mês.

PENSANDO BEM...

...o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró agora alega que é maluco, mas nunca será acusado de haver rasgado dinheiro.


PODER SEM PUDOR

PARENTE E PARCEIRO

O deputado Manuel Gilberto fazia oposição sem tréguas ao governador Moura Cavalcanti ("no Nordeste, quem não é Cavalcanti é cavalgado", dizia), em Pernambuco, e sempre dava um jeito de mostrar intimidade com a obra de Eça de Queiroz. Certa vez, ao responder a aparte do colega Maviel Cavalcanti, primo do governador, ele ironizou:

- Vossa Excelência tem mesmo que defender esse governo, porque, tal qual um personagem de Eça, o deputado é parente, patrício e parceiro.

domingo, fevereiro 08, 2015

Ah, se não fosse a realidade! - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 08/02

Não me lembro de nenhum presidente que, após ser eleito, desapareça da vista da nação, como fez Dilma


Não me lembro de nenhum presidente da República que, após ser eleito e empossado, desapareça da vista da nação, como fez Dilma Rousseff. Em geral, o que ocorre é o contrário: já que, eleito ou reeleito, o presidente conta com a acolhida da maioria da opinião pública, que lhe deu a vitória nas urnas.

Mas a Dilma sumiu. Ela, que esteve em 2014 no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, onde garantiu que a economia brasileira ia às mil maravilhas, desta vez não foi lá: mandou o seu ministro da Fazenda, Joaquim Levy, nomeado por ela para corrigir os erros que ela e Mantega cometeram.

Claro que ela não poderia voltar a Davos para desdizer tudo o que dissera antes. Esse papel coube ao ministro Levy que é, aliás, o único de seus ministros que se atreve a chamá-la de presidente e não de presidenta. Não se sabe até quando.

Pois bem, em vez de ir a Davos, dirigiu-se a La Paz para homenagear Evo Morales, também reeleito presidente da Bolívia. Dá para entender. Lá não seria obrigada a explicar por que mudou tão radicalmente uma política econômica que, segundo ela mesma, era um sucesso.

Enquanto isso, o mago João Santana --capaz de mudar água para vinho-- preparava o discurso que ela pronunciaria na primeira reunião com todos os seus 39 ministros.

Era um discurso difícil, não apenas porque teria que explicar por que mudou a política econômica, como também por que extinguiria direitos dos trabalhadores, que ela prometera preservar, "nem que a vaca tussa".

Uma encrenca, sem dúvida, mas teria de enfrentá-la, mesmo porque a principal característica do lulo-petismo é manter-se, diante do povão, como o salvador da pátria.

É certo que todo partido procura colocar-se, perante o eleitorado, como capaz de resolver os problemas do país e, particularmente, melhorar a vida de cada cidadão. Mas isso não é a mesma coisa que propõe o PT, como partido originário da esquerda revolucionária.

Isso porque, diferentemente dos demais partidos, o partido revolucionário promete mudar radicalmente a sociedade, alijando do poder os exploradores do povo, isto é, os capitalistas. Noutras palavras, o partido de esquerda é essencialmente ideológico, defende a criação de uma nova sociedade, dirigida não pelos patrões e, sim, pelos trabalhadores. Teoria essa que, na prática, mostrou-se inviável, uma vez que, em nenhum dos países onde o comunismo chegou ao poder, o governo foi exercido por trabalhadores.

Esses partidos não existem mais. Os que existem, como o PT, por exemplo, são na verdade partidos populistas, que se apresentam como defensores dos pobres, mas se aliam a setores empresariais, aos quais fazem concessões para se manter no poder.

Porque não podem mostrar-se, diante dos seus eleitores, como realmente são; fazem o jogo dos interesses empresariais, mas discursam como adversários deles.

E, assim, ganham os dois: os capitalistas, que nada têm a temer --consequentemente ganham mais--, e os populistas, que manipulam o descontentamento dos pobres com programas assistencialistas.

Esse foi o discurso do PT, que o manteve desde sempre, enquanto foi possível. Agora, no caso de Dilma Rousseff, a situação encrencou, porque a política governamental adotada, após anos e anos, terminou por levar a economia do país a esta situação crítica, o que a obrigou a chamar alguém para evitar que o barco afunde.

Mas como dizer essa verdade ao país se, até outro dia, durante a campanha eleitoral, afirmava o contrário? E, sobretudo, como dizê-la ao eleitorado petista que, por sua vez, não quer ouvir a verdade? Não pode, claro. Daí o estranho discurso que Dilma fez a seus ministros e a seus eleitores.

É que ela vai fazer, neste novo mandato, tudo o que disse que não faria. E acusava Aécio Neves de desejar fazer, quando, de fato, tratava-se de medidas exigidas pela situação crítica a que ela, Dilma, levara o país.

Por isso mesmo, como não pode dizer que não o fará, tampouco que o fará, pronunciou um discurso de crioulo doido quando garantiu que a mudança radical que sofrerá a sua política econômica é apenas a continuação natural daquela que fracassou. Por que, então, demitiu Guido Mantega, o responsável por ela?

O mundo manda recado - HENRIQUE MEIRELLES

FOLHA DE SP - 08/02

Com recessão, apagão, seca e petrolão, é normal ficarmos obcecados pelos problemas domésticos. Mas é importante nesse tipo de situação olhar o que ocorre no mundo para ter visão mais clara de como tratar esses emaranhados de crises imediatas.

A Grécia --que, por décadas, manteve políticas protecionistas, regulação restritiva, elevação de gasto público e de endividamento-- mais uma vez entrou em crise e agora pede perdão de dívidas e autorização para gastar mais para aliviar o sofrimento da população.

Enquanto isso, a Índia, gigante emergente, tem expansão acelerada que pode levá-la a ultrapassar a China em crescimento. Isso é resultado da eleição de um primeiro-ministro com políticas modernas que favorecem a competição, a quebra de monopólios, a modernização das estatais e o combate à burocracia indiana.

Já a China paga hoje por exageros passados e atinge os limites do modelo baseado no forte controle estatal pelo Partido Comunista. Enquanto o país tenta aumentar a capacidade de compra da população, equilibrar a economia e corrigir os exageros, promove amplo combate à corrupção, com mais de 50 mil burocratas ou pessoas ligadas ao PC já denunciadas.

Na Europa estagnada, é oportuno observar o sucesso da economia britânica. O Reino Unido cresce a taxas elevadas, cria empregos e serve de contraste ao continente europeu. É um país que, desde a era Thatcher, empreendeu reformas radicais, abriu mercados e quebrou monopólios estatais. O ciclo político seguinte, do novo trabalhismo, procurou conjugar as reformas thatcheristas com políticas sociais. Com a volta dos conservadores ao poder, em 2010, Londres adotou austeridade fiscal e contenção de despesas públicas, liberando recursos na sociedade para investimento e consumo privados.

Importante notar que, ao contrário do que ocorreu em outros países europeus, essa eficiente austeridade foi adotada depois das reformas profundas na economia britânica.

Nos EUA, o crescimento é sólido, apesar dos vaticínios catastrofistas dos que consideravam o aumento do gasto público a única saída para a crise e que falavam em "abismo fiscal" após o corte de gastos imposto pelo Congresso. Com seu dinamismo econômico, empreendedorismo, Banco Central independente, regulamentação pró-mercado e pró-competição, os EUA agora voltam a liderar a economia mundial.

Tudo isso leva a conclusões irrefutáveis: o caminho da prosperidade passa por uma administração profissional de governos e estatais, uma regulação pró-competição que dê condições aos empresários de empreenderem e gerar crescimento e emprego, um bom funcionamento do sistema de preços e a maior transparência possível.

Mais promessas - RENATO CRUZ

O Estado de S. Paulo - 08/02

Em sua mensagem ao Congresso, a presidente Dilma Rousseff tratou, entre outros assuntos, de acesso à internet: "Nosso objetivo será, nos próximos quatro anos, promover a universalização do acesso a um serviço de internet de banda larga barato, rápido e seguro, por meio do apoio à instalação de redes de fibra óptica, conectando 90% dos municípios e 45% dos domicílios com redes de ultrabanda larga".

Durante a campanha, a presidente já havia falado num plano "Banda Larga para Todos". Mas a nova proposta foi lançada sem que o governo tenha conseguido cumprir os objetivos da política anterior, chamada Plano Nacional de Banda Larga (PNBL). A meta era chegar ao fim de 2014 com 35 milhões de residências conectadas à internet rápida. Segundo a mesma mensagem, o número real foi de 23,9 milhões de conexões de banda larga fixa.

Atualmente, existem menos de 1 milhão de conexões de fibra óptica no País. Quando o governo promete conectar 45% dos domicílios com redes ópticas, na realidade fala em ter, em quatro anos, mais residências conectadas com internet ultrarrápida do que o total das casas conectadas atualmente, com qualquer tecnologia, já que as 23,9 milhões de conexões atuais correspondem a uma densidade de 36,5%, de acordo com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

A fibra é uma tecnologia importante para garantir o acesso num ambiente em que o vídeo é cada vez mais presente. Serviços de vídeo sob demanda já fornecem conteúdo com resolução 4K, quatro vezes a alta definição plena oferecida pelos canais HD. Isso exige capacidade de rede.

Mas a proposta está muito distante da realidade. Uma pesquisa do Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (Cetic.br), divulgada no ano passado, mostrou que 10% das residências brasileiras ainda usam acesso discado à internet. Isso mesmo. Aquele barulho chato de conexão com que estávamos acostumados no final da década de 1990 ainda faz parte do cotidiano de 1 em cada 10 usuários brasileiros de internet. E o principal motivo não é falta de renda do consumidor, mas falta de rede.

Onze por cento dos domicílios com internet ainda têm conexões com velocidade de até 256 quilobits por segundo. Quando foi lançado, em 2010, o PNBL foi ridicularizado por oferecer pacotes de 1 megabit por segundo (Mbps) a R$ 35. Há cinco anos, 1 Mbps já era pouco, e um em cada 10 usuários brasileiros de internet ainda navegam na rede com até um quarto dessa velocidade.

No fim do ano passado, havia 152,3 milhões de conexões de banda larga móvel, mas somente 5,5 milhões eram na tecnologia de quarta geração (4G). Por que não incentivar também as conexões móveis, que têm potencial de chegar a municípios menores mais rapidamente?

Suicídio político em voga - MARIO VARGAS LLOSA

O Estado de S. Paulo - 08/02

O haraquiri é uma nobre tradição japonesa em que militares, políticos, empresários e, por vezes, escritores (como Yukio Mishima), envergonhados por fracassos ou ações que, ao seu ver, os desonravam, se destripavam numa cerimônia sangrenta. Hoje, quando a ideia de honra se desvalorizou ao mínimo, os cavalheiros nipônicos já não se suicidam.

Mas o ritual da imolação se mantém no mundo e agora é coletivo: praticam-no os países que, presas de um desvario passageiro ou prolongado, decidem empobrecer-se, barbarizar-se, corromper-se, ou todas essas coisas juntas.

A América Latina é pródiga em exemplos trágicos. O mais notável é o da Argentina, que há três quartos de século era um país do Primeiro Mundo, próspero, culto, aberto, com um sistema educacional modelar e, de repente, presa da febre peronista, decidiu retroceder e arruinar-se.

O país se submeteu a uma prolongada agonia que, amparada por sucessivos golpes militares e uma heroica perseverança no erro de seus eleitores, persiste até hoje. Esperemos que algum dia os deuses ou o acaso devolvam a sensatez e a lucidez à terra de Sarmiento e de Borges.

Outro caso emblemático de haraquiri político é o da Venezuela. Ela tinha uma democracia imperfeita, é verdade, mas real, com imprensa livre, eleições genuínas, partidos políticos diversos, e mal e mal, o país progredia. Infelizmente, grassavam a corrupção e o desperdício, e isso levou uma maioria de venezuelanos a descrer da democracia e confiar sua sorte a um caudilho messiânico: o comandante Hugo Chávez.

Em oito oportunidades eles puderam corrigir seu erro e não o fizeram, votando todas as vezes por um regime que os levava ao precipício. Hoje eles pagam caro sua cegueira. A ditadura é uma realidade asfixiante, fechou estações de televisão, de rádio e jornais, encheu os cárceres de dissidentes, multiplicou a corrupção a extremos vertiginosos - um dos principais dirigentes militares do regime dirige o narcotráfico, a única indústria que floresce num país onde a economia desandou e a pobreza triplicou - e onde as instituições, desde os juízes até o Conselho Nacional Eleitoral, são subservientes ao poder.

Embora haja uma significativa maioria de venezuelanos que quer voltar à liberdade, isso não será fácil: o governo de Nicolás Maduro demonstrou que, embora inepto para tudo o mais, na hora de fraudar eleições e encarcerar, torturar e assassinar opositores; sua mão não treme.

O haraquiri não é uma especialidade terceiro-mundista, porém. Na civilizada Europa ele também é praticada de tempos em tempos: Hitler e Mussolini chegaram ao poder por vias legais e um bom número de países centro-europeus se atiraram aos braços de Stalin sem maiores pudores. O caso mais recente parece ser o da Grécia, que, em eleições livres, acaba de levar ao poder - com 36% dos votos, o Syriza, um partido demagógico e populista de extrema esquerda que se aliou para governar com uma pequeno grupo de direita ultranacionalista e antieuropeu. O Syriza prometeu uma revolução e o paraíso. No estado catastrófico em que se encontra o país que foi berço da democracia e da cultura ocidental talvez seja compreensível essa catarse sombria do eleitorado. Mas, em vez de superar as pragas que os assolam, essas poderiam recrudescer agora se o novo governo se empenhar em cumprir o que prometeu a seus eleitores.

Essas pragas são uma dívida pública vertiginosa de 317 bilhões de euros com a União Europeia e o sistema financeiro internacional, que resgataram a Grécia da quebra. Ela equivale a 175% do Produto Interno Bruto do país. Desde o início da crise, o PIB da Grécia caiu 25% e a taxa de desemprego chegou perto de 26%. Isso significa o colapso dos serviços públicos, uma queda atroz dos níveis de vida e um crescimento canceroso da pobreza. A se ouvir os dirigentes do Syriza e seu inspirado líder - o novo primeiro-ministro Alexis Tsipras -, essa situação não se deve à inépcia e à corrupção desenfreada dos governos gregos ao longo de várias décadas, que, com irresponsabilidade delirante, chegaram a apresentar balaços e informes econômicos fraudados à UE para dissimular seus desmandos, mas às medidas de austeridade impostas pelos organismos internacionais à Grécia para resgatá-la da impotência a que as más políticas a haviam conduzido.

O Syriza propôs acabar com a austeridade e com as privatizações, renegociar o pagamento da dívida com a condição de que houvesse um cancelamento da maior parte dela, e reativar a economia, o emprego e os serviços com investimentos públicos contínuos. Um milagre equivalente ao de curar um doente terminal fazendo-o correr maratonas.

Desse modo, o povo grego recuperaria uma "soberania" que, ao que parece, a Europa em geral, a troica, o governo da senhora Merkel, em particular, lhe haviam arrebatado.

O melhor que poderia ocorrer é que essas bravatas da campanha eleitoral fossem arquivadas agora que o Syriza tem responsabilidades de governo e, como fez François Hollande na França, ele reconheça que prometeu coisas mentirosas e impossíveis e retifique seu programa com espírito pragmático, o que, sem dúvida, provocará uma decepção terrível entre seus ingênuos eleitores. Se não o fizer, a Grécia poderá enfrentar a bancarrota, a saída do euro e da União Europeia, e afundar no subdesenvolvimento. Há sintomas contraditórios e ainda não está claro se o novo governo grego dará marcha à ré. Ele acaba de propor, em vez do cancelamento, uma fórmula picaresca e velhaca que consiste em converter sua dívida em duas classes de bônus, uns reais, que iriam sendo pagos à medida que sua economia crescesse, e outros fantasmas, que iriam se renovando ao longo da eternidade. França e Itália, também vítimas de graves problemas econômicos, manifestaram não ver com maus olhos semelhante proposta. Ela não prosperará, com certeza, porque nem todo país europeu perdeu o senso de realidade.

Em primeiro lugar, e com muita razão, vários membros da União Europeia, além da Alemanha, recordaram a Grécia de que não aceitam "quitações", nem explícitas nem dissimuladas, e os países devem cumprir seus compromissos. Os mais severos a esse respeito foram Portugal, Espanha e Irlanda, que, depois de grandes sacrifícios, estão saindo da crise depois de cumprir com suas obrigações.

A Grécia deve 26 bilhões à Espanha. A recuperação espanhola custou sangue, suor e lágrimas. Por que os espanhóis teriam de pagar de seus bolsos as más políticas dos governos gregos, além de já estar pagando pelas políticas dos seus? A Alemanha não é culpada de um bom número de países da Europa comunitária estar com sua economia arruinada. A Alemanha teve governos prudentes e competentes, austeros e honrados, e, por isso, enquanto outros países se desestabilizavam, ela crescia e se fortalecia. E convém não esquecer que a Alemanha teve de absorver e ressuscitar um cadáver - a Alemanha comunista - também à custa de formidáveis esforços, sem se queixar, sem pedir ajuda a ninguém, só com o empenho e o estoicismo de seus cidadãos.

Por outro lado, o governo alemão da senhora Merkel é europeísta decidido. A melhor prova disso é a maneira generosa e constante com que apoia, com seus recursos e suas iniciativas, a construção europeia. Só a proliferação dos estereótipos e mitos ideológicos explica esse fenômeno de transferência freudiana que leva a Grécia a culpar o país mais eficiente da União Europeia pelos desastres que provocaram os políticos que, durante tantos anos, o povo grego enviou ao governo com seus votos. /TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Dilma espera o Carnaval chegar - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 08/02

Semana foi uma amostra grátis de desastres que podem se espalhar pelo ano inteiro


DILMA ROUSSEFF deve estar ansiosa pelos dias de amnésia barulhenta ou retiro do Carnaval, pois seu governo samba na frigideira quente de várias crises. Na folga folgazã, talvez a chapa esfrie.

A semana que passou oferece uma amostra grátis de problemas que podem desorientar de vez este governo pelo resto do ano. Caso não se aprume, e tomara que se reoriente, esta administração que mal fez um mês pode se enredar numa espiral de crises políticas e econômicas que se realimentam.

Na semana, houve a debandada da diretoria da Petrobras e o tumulto da nomeação de seu novo presidente, apoteose que provocou um desfile de críticas à presidente da República, entre as quais a de alheamento da realidade.

Ainda nada se sabe do que Aldemir Bendine fará ou poderá fazer da petroleira. Mas sua indicação para o comando da empresa foi interpretada, na melhor das hipóteses, como a continuação das políticas que levaram a Petrobras à quase asfixia financeira e, ainda, das intervenções equivocadas de Dilma 1 na estatal. Dado o tamanho da crise, tal atitude mostraria quão alheada a presidente está do humor do país, ao menos do da elite que se ocupa dessas coisas e dos credores da Petrobras, para não dizer do governo mesmo.

Caso se confirme a hipótese de continuidade, prosseguirá a degradação do crédito da companhia, crise que continuaria a se espalhar por empresas dependentes e contaminaria o restante do ânimo da economia. Nesse caso, para nem falar dos rolos político-policiais, aumentaria a impressão de que o governo perdeu o controle da situação, o que, por sua vez, contribuiria para solapar ainda mais o prestígio político da presidente. Figuras fracas ficam sujeitas a abutres.

O tumulto no setor de petróleo, construção naval, civil e mesmo finanças pode piorar por outros motivos. A nova fase da Lava Jato levanta suspeitas contra mais empresas relevantes, que podem perder crédito e créditos, o que provocaria um dominó de inadimplências.

A nova CPI da Petrobras é em si mesma um nada. Mas trata-se de um exemplo adicional, como se fosse preciso, da animosidade do Congresso em relação à presidente. Isso à beira da denúncia dos políticos com as mãos sujas do Petrolão. O risco aqui é, literalmente, incalculável, e o governo até agora não mostrou que sabe como administrar a crise.

Como se não faltasse tensão, fica mais clara a reação defensiva-agressiva do PT ao novo jorro de acusações contra o partido ou ao menos contra seu tesoureiro. O PT começa a adotar posição de combate ruinoso, um tanto à maneira da época do mensalão: dane-se o teor das denúncias, o negócio é salvar o partido, como se fosse possível fazê-lo sem aceitar uma limpa.

Por fim, o governo Dilma Rousseff começa a pagar a conta da demagogia e de procrastinações eleitoreiras. Para 60% dos brasileiros, a presidente disse mais mentiras do que verdades na campanha. Entre as pessoas com ensino superior, renda maior que dez salários mínimos ou moradores de São Paulo, o descrédito da presidente passa de 70%.

Seu prestígio passou do nível do chão aonde foi no Junho de 2013. Isso quando ainda mal começam a pesar no dia a dia os efeitos da crise: tarifaço, inflação, impostos e desemprego maior.

O mensalão virou fichinha - BERNARDO MELLO FRANCO

FOLHA DE SP - 08/02

BRASÍLIA - Não é só no volume de dinheiro desviado que o assalto à Petrobras já se tornou maior que o mensalão. Seu impacto sobre a avaliação do governo também ultrapassa de longe o do escândalo de 2005, mostra a nova pesquisa Datafolha.

Quando Lula vivia o pior momento, com seu principal ministro acusado de comprar apoio de políticos no Congresso, 29% dos brasileiros consideravam o governo ruim ou péssimo. Agora são 44% os que reprovam a administração de Dilma Rousseff.

A corrupção encostou na saúde como o problema que mais preocupa as pessoas. E o petrolão começou a contaminar a imagem da presidente, que passou a ser vista como "desonesta" por 47% dos entrevistados.

A indignação com os desvios se soma à apreensão com a economia. O medo do desemprego disparou, e quatro em cada cinco pessoas acreditam que a inflação vai subir mais.

Na sexta-feira, o IBGE informou que a alta de preços em janeiro bateu um recorde de 12 anos. O que está ruim deve piorar em breve, com o reajuste nas contas de luz.

Na campanha, o PT dizia que a comida sumiria da mesa das famílias se a oposição chegasse ao poder. As famílias reelegeram Dilma e agora reagem ao se ver sob a mesma ameaça.

Nem o tucano mais fanático poderia imaginar um quadro como o de hoje: a presidente se reelegeu e, depois de apenas três meses, seu governo parece se desmanchar.

A falta de água, o risco de apagão e um Congresso mais hostil do que nunca completam a equação explosiva. Não é à toa que a hipótese de um processo de impeachment passou a rondar as conversas em Brasília, embora ainda não haja provas de envolvimento da presidente no petrolão.

Em 2005, Lula se disse traído, jogou aliados ao mar e usou seu carisma único para reagir. A economia ajudou, e ele conseguiu se erguer da lona. Mergulhada em uma crise mais grave e sem a força política do padrinho, Dilma aparenta não ter ideia do que fazer para sair do buraco.

Disparada - CELSO MING

O Estado de S. Paulo - 08/02

O estouro da inflação e a perspectiva de que continue muito alta ao longo de 2015 é novo indicador da rápida deterioração das condições da economia.

Medida em 12 meses, a evolução do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) havia resvalado para abaixo dos 6,5% em dezembro para que o governo pudesse entregá-la, ao fim de 2014, sem o estouro do teto da meta. Mas, em janeiro, voltou a dar grande esticada. Foi para 7,14%, a mais alta desde setembro de 2011.

O principal fator que explica essa nova carga é a aplicação da política que pretende eliminar o represamento dos preços e das tarifas administradas, uma das grandes distorções da economia. Esse segmento, que pesa 25% na cesta de consumo, teve aumento médio de preços de 2,5%.

Em outras palavras, a inflação vai enfrentando a fúria dos tarifaços. Começou a ser descarregada sobre o bolso do consumidor alguma coisa perto de 40% de atraso nas correções das tarifas de energia; o reajuste dos preços dos combustíveis e dos transportes urbanos; e o efeito câmbio, ou seja, o encarecimento dos preços dos produtos importados por causa da alta do dólar.

Apenas identificar esses fatores é pouco; é a reação do cachorro que se limita a morder o pau que lhe é atirado, sem entender que há um agressor por trás. O governo anterior (administração Mantega) teve dificuldades para explicar a disparada da inflação. Para tudo, dizia que a economia global não ajudava. Mas, quando tentava encaixar o efeito da economia internacional sobre a inflação brasileira, rodava em falso, porque nos países de economia madura o risco maior é o contrário, é deflação.

A inflação do Brasil está ligada ao estouro das contas públicas. Em 2014, em vez de o governo entregar um superávit primário (sobra de arrecadação), apresentou um rombo de R$ 32,5 bilhões, o equivalente a 0,63% do PIB. Porque gasta demais, o governo cria renda que, por sua vez, puxa a demanda interna, que não vem acompanhada do aumento da oferta. Daí a disparada.

No caso da energia elétrica, o esticão das tarifas não se deu apenas por falta de chuva, que obrigou o Operador Nacional do Sistema Elétrico a despachar energia bem mais cara, produzida pelas usinas térmicas. Deu-se, principalmente, porque o consumo de energia elétrica está crescendo ao ritmo de 3% a 4% ao ano, substancialmente acima da marcha do PIB que resvala para o negativo.

No momento, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, vai realinhando as tarifas administradas, antes contidas; e vai soltando gradualmente o câmbio. E trata de reequilibrar as contas públicas para evitar a criação artificial de renda.

O Banco Central já avisou que a inflação vai disparar ao longo de 2015. Pretende reconduzi-la ao centro da meta, de 4,5%, só em 2016. Para isso, será preciso mais do que puxar pelos juros.

Novas forças estão prontas para outro puxão da inflação. Se for confirmado o racionamento de energia elétrica e de água tratada, além das pressões de demanda, a inflação enfrentará também o choque de oferta: de queda da produção e do investimento. O governo ainda não tem resposta para isso.


O custo da corrupção - MÍRIAM LEITÃO

O GLOBO - 08/02

Qual o custo da corrupção? Pergunta difícil de responder em números exatos. Hoje, o Brasil já sabe que o preço é intolerável: a maior empresa do país à beira de um precipício, o custo Brasil subindo, o aprofundamento da recessão, risco de contágio de inúmeras empresas. Apesar disso, o governo decidiu abrir a temporada de loteamento de cargos nas estatais e no segundo escalão.

Naquele terreno fugidio entre a economia e a política, as notícias passam e, às vezes, as pessoas nem somam o que acontece nos dois lados. Na política, a presidente está fraca porque foi derrotada na eleição para a Câmara dos Deputados. Além disso, sua articulação política conseguiu a proeza de não ter nenhum petista na mesa da Casa.

Na economia, a maior empresa do país corre perigo pelo saque comandado pelos indicados políticos. A presidente, então, para se fortalecer na política, manda seus articuladores dizerem que fará a distribuição dos cargos do segundo escalão e das empresas públicas em troca de apoio político. Mas se a maior crise do país vem justamente como efeito colateral do loteamento, como se pode falar em mais distribuição de cargos por esse mesmo critério?

Do ponto de vista contábil, os auditores tentam medir a corrupção e têm tido problemas. No demonstrativo financeiro da Petrobras foi dito que pode ser alguma coisa entre R$ 4,06 bilhões e R$ 88,6 bi. O primeiro número foi encontrado através de uma conta simples: 3% do valor dos contratos que pagaram comissão, segundo depoimento de Paulo Roberto Costa. O outro, a diferença entre o valor justo e o valor contábil de 31 dos 52 ativos analisados. Nem tudo é corrupção. Parte desse sobrepreço pode ser resultado de outras ineficiências. Mesmo assim se sabe que a corrupção leva à ineficiência. Para que um contratante, que teve que pagar propina para ganhar uma concorrência, terá interesse em ser eficiente? E o funcionário corrupto, que interesse terá em que o valor sobre o qual incide seu percentual seja menor? Os preços e custos vão para cima e para o alto sempre, em ambiente corroído pelo veneno da corrupção.

Não é trivial fazer o que a Petrobras está tentando junto com seus auditores e com a orientação técnica da CVM e da SEC: saber exatamente como calcular um custo que, pela sua natureza, foge à contabilidade. Nessa direção é que a Petrobras vinha trabalhando desde novembro do ano passado com a PricewaterhouseCoopers (PwC). Agora, a auditoria vai trabalhar com Aldemir Bendine e seus diretores. Qualquer que seja o compromisso que Bendine assumiu de reduzir o valor do abatimento nos ativos, ele terá que seguir normas técnicas dos órgãos reguladores.

Mas, quando houver o número exato da baixa contábil, ainda assim não será o custo da corrupção. O que impressiona neste caso revelado pela Operação Lava-Jato é que foi montado um conglomerado de corrupção. Havia uma holding e depois centros subsidiários de exploração, extração, refino e distribuição de propina. Portanto, a busca do dinheiro perdido é necessária, mas nunca estará completa.

Se todo o dinheiro fosse recuperado, se fosse possível encontrar um valor exato do que foi subtraído da Petrobras, ainda assim não seria o custo total da corrupção. Ela é muito mais cara. A Petrobras e o Brasil perderam reputação. Tente calcular o custo de reconstrução da imagem do país que permitiu que sua maior empresa fosse assaltada para que fossem instalados dinheirodutos para os partidos governistas. O Brasil precisará lutar contra a convicção de que é um país de corrupção endêmica, porque isso afasta investidores.

Se ainda assim fosse possível quantificar o dinheiro tirado da Petrobras, os sobrepreços causados direta ou indiretamente pelo ambiente de corrupção que se instalou na empresa, a deterioração da imagem da empresa e do país, o custo da piora do risco Brasil, não seria o preço total da corrupção.

Seria preciso contabilizar também o intangível custo da depreciação do ativo maior: a confiança na democracia. Como evitar que os brasileiros comecem a perder a fé na democracia? O que se vê são os intestinos de um esquema que transformou a mais mítica das empresas brasileiras em local de botim do partido que nos governa e seus aliados. Esse ataque à Petrobras nos tem tirado mais do que podemos calcular.

A força da realidade - PEDRO MALAN

O ESTADO DE S.PAULO - 08/02

"Entendo os que são contra, esta é uma posição que já foi minha", disse o então presidente da República Ernesto Geisel, cerca de 40 anos atrás, em cadeia nacional de televisão, ao anunciar, entre outras decisões, a abertura do Brasil a investimentos privados na área do petróleo por meio de contratos de risco. Cartas a um Jovem Petroleiro, do qual extrai a lembrança acima, é um excelente livro de Jorge Camargo, que trabalhou por 27 anos na Petrobrás, onde fez brilhante carreira. Livro para todos os interessados no setor, na Petrobrás e na grande crise que ela ora atravessa.

Esta sugere que há algo mais disfuncional no processo decisório do governo brasileiro, desde a crise de 2008/9, que se vem agravando nos últimos quatro anos. Embora seja sempre possível buscar raízes históricas mais profundas, este artigo procura apenas sugerir que há elementos comuns em áreas em que estamos enredados, como Petrobrás, energia elétrica e concessões ao setor privado em infraestrutura. Para não mencionar o meritório, imperativo e inadiável esforço ora em andamento para recuperar uma credibilidade na área fiscal que havia praticamente desaparecido ao final de 2014.

A propósito, vale lembrar uma observação de Jared Diamond. "Mesmo quando uma sociedade foi capaz de antecipar, perceber e tentar resolver um problema, ela pode ainda fracassar em fazê-lo, por óbvias razões possíveis: o problema pode estar além das suas capacidades; a solução pode existir, mas ser proibitivamente custosa; os esforços podem ser do tipo muito pouco e muito tarde; e algumas soluções tentadas podem agravar o problema." Não nos faltam exemplos de situações como essas.

No caso da Petrobrás, é possível argumentar que, mesmo na ausência da Operação Lava Jato, a empresa teria de rever seus planos de investimentos e seu plano de negócios em função de fatos econômicos e financeiros internos e externos. O preço do barril do petróleo desabou, mas não desabaram os custos de produzi-lo. O programa de investimento da Petrobrás, que contemplava para os próximos cinco anos um investimento médio anual de US$ 44 bilhões, terá de ser revisto. A dívida da empresa, que é quase 80% em dólar, tem seu serviço em reais aumentado com câmbio mais desvalorizado.

A obrigatoriedade de ter a Petrobrás como operadora de todos os campos do pré-sal e com pelo menos 30% de participação passou a representar um ônus excessivo para a empresa, que já tem uma relação dívida/geração de caixa de cerca de 5. A exigência de conteúdo nacional vem causando atrasos e estouro de orçamento. A Sete Brasil é um problema. Em suma, a decisão anunciada em 7 de setembro de 2009 (data escolhida a dedo) de mudar o regime de concessão para partilha vem gerando para a Petrobrás problemas que teria de enfrentar mesmo se não estivesse em curso a Operação Lava Jato. A empresa, com excelentes quadros técnicos, não merecia passar pelo que está passando - preço sendo pago pela indevida aparelhagem política na última década.

Na área de energia elétrica, há certamente o peso negativo da maior escassez hídrica em décadas, mas o inevitável racionamento (ou que nome venha a ter) não se deve apenas a esse fator. A desastrada decisão política anunciada também num 7 de setembro (2012) e consubstanciada na MP 579, de fim daquele ano, teve consequências desastrosas, que os consumidores e contribuintes estão pagando em suas contas desde 2014 - e continuarão a pagar por mais alguns anos. Excesso de voluntarismo, arrogância e pressa eleitoral não costumam ser bons conselheiros. O ganho de curto prazo (a passageira redução de tarifas em 2013) transformou-se para os consumidores em salgada conta por anos à frente e desestruturou o equilíbrio financeiro das empresas do setor. Para quê, mesmo? Jared Diamond teria mais um exemplo para sua coleção de disfuncionalidades de processos decisórios.

Sobre o processo decisório no mais alto dos níveis, vale lembrar algo do que disse o ex-presidente Lula em longa e memorável entrevista ao Valor em 17/9/2009. "Tenho cobrado sistematicamente da Vale a construção de siderúrgicas no País. A Vale não pode se dar ao luxo de exportar apenas minério de ferro. (...) A Petrobrás apresentou estudo mostrando que deveria adiar o cronograma de investimentos dela. Convoquei o conselho da Petrobrás para dizer: olha, este é um momento em que não se pode recuar. (...) Que a Petrobrás construa refinarias, estimule a construção de estaleiros. Leva uma refinaria para o Ceará, um estaleiro para Pernambuco. Este é o papel do governo. (...) Não pense que foi fácil fazer o Banco do Brasil comprar a Nossa Caixa em São Paulo. (...) Quando fui comprar 50% do Votorantim, tive que me lixar para a especulação. (...) Não conheço ninguém que tenha a capacidade gerencial da Dilma."

É mais fácil enganar os outros que convencê-los de que foram enganados, teria dito Mark Twain. Mas Eduardo Gianetti, em seu magnífico Auto-Engano, argumenta com brilho que ainda mais fácil que enganar os outros é enganar a si mesmo. Nietzsche deu um bom exemplo, em seu estilo inconfundível: "Eu fiz isto, diz minha memória. Eu não posso ter feito isto, diz meu orgulho. E permanece inflexível. A memória cede".

A frase de Geisel que abre este artigo é um bom exemplo de que a realidade por vezes se impõe com força (no caso, a quase quadruplicação dos preços do petróleo e suas consequências para um país como o nosso, que importava mais de 85% do seu consumo doméstico). E isso exigiu, como reconheceu o então presidente, mudanças de antigas e caras posições. Orgulho e memória cederam à realidade.

O processo decisório hoje no Brasil parece, com frequência, ser refém de uma mistura de orgulho, seletiva memória e dificuldades em reconhecer que as consequências das ações e omissões passadas sempre acabam por nos alcançar - não apenas o governo, mas todos os brasileiros.

Racionamento - mal necessário? - SUELY CALDAS

O ESTADO DE S.PAULO - 08/02

Brasil, Argentina e Venezuela vivem atualmente preocupante e infeliz cenário comum: para qualquer lugar que se olhe só se veem péssimas notícias. Os venezuelanos enfrentam escassez e longas filas para comprar alimentos, papel higiênico, fraldas e até remédios. Na Argentina, além de inflação alta, descrédito e fuga de investimentos, o governo Cristina Kirchner é suspeito de mandar matar o promotor Alberto Nisman, que apresentaria provas contra a presidente no dia seguinte ao assassinato. E, no Brasil, as manchetes na imprensa se revezam entre racionamento de água e de luz, corrupção e o afundamento da Petrobrás. Não são coincidências políticas ao acaso. O que há de comum entre os três países é o bronco e desastrado viés ideológico que seus governantes tentaram impor à economia nos últimos anos, que levou a uma sucessão de erros de gestão e agora é imposto à população um preço muito alto a pagar.

Como no primeiro mandato, também agora faltam ao governo Dilma prevenção, organização e planejamento para evitar catástrofes. E sobram soluções marqueteiras para falsear a realidade. A premência em adotar o racionamento de energia é uma dessas catástrofes preanunciadas que o governo resiste em reconhecer, deixando a população tensa e insegura com o que está por vir. Afinal, o que vai acontecer se não chover na cabeceira dos rios e os reservatórios das usinas secarem? Hospitais sem cirurgias, escolas sem aulas, comércio sem vendas, indústrias sem produção, bancos e tudo o que depender de redes de computação parados. Impensáveis as consequências de um racionamento de emergência, sem avisos nem planejamento. É o caos.

É óbvio que nenhum governo gosta da ideia - além de impopular, racionar energia penaliza a economia e pode levar à recessão, desemprego, etc. Pior ainda em 2015, quando as projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) apontam para uma retração de 0,5%. Mas, se a escassez de chuvas se prolonga e ela se torna inevitável, é obrigação do governo se antecipar e preparar um plano para enfrentar o pior. Que pode nem ser aplicado (se do céu cair água em abundância). A pior alternativa é cruzar os braços, nada fazer e esperar...

Os sinais são crescentemente preocupantes. Na quarta-feira o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico deu alerta: o risco de déficit de energia nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste aumentou de 4,9% para 7,3%, ultrapassando o limite de 5% tolerado pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). Mesmo colocando em uso a carga total das térmicas, esse porcentual ainda fica acima do limite, vai para 6,1%. Outro alerta veio de especialistas do Instituto de Pós-Graduação da UFRJ: o governo desconhece o volume exato de água que as hidrelétricas usam para gerar energia, a situação pode ser pior e a solução é mesmo recorrer ao racionamento. O diretor do instituto e ex-presidente da Eletrobrás, Luiz Pinguelli Rosa, garante que a água armazenada nos reservatórios do Sudeste dura para apenas um mês, patamar mais baixo do que antes do racionamento de 2001.

A esse quadro o governo tem acenado com paliativos tão fracos quanto inócuos, propondo aos shoppings que usem energia de seus geradores (o que alguns já fazem); às indústrias que economizem - mesmo que implique queda da produção - e vendam a energia própria excedente; às empresas geradoras que invistam em fontes alternativas, como biomassa, eólicas e solar (solução de médio prazo); e importar energia da Argentina em dias de pico de consumo, o que já vem ocorrendo.

Aquele racionamento vigorou entre 1.º/7/2001 a 19/2/2002. Como agora, a seca foi se agravando e o governo FHC postergava a solução. Ministério de Minas e Energia, Aneel e o Operador Nacional do Sistema ensaiaram o jogo do empurra-empurra de responsabilidades até a situação chegar ao limite, em maio. Paliativos foram frustrados, tornando inevitável o racionamento, que fixava a meta de 20% de economia no consumo em cada casa ou empresa, com premiação para quem cumprisse a meta e punição variada aos faltosos, até o corte de luz. Deu certo.


Por que Dilma erra - ELIANE CANTANHÊDE

O ESTADÃO - 08/02

A escolha de Aldemir Bendine para a Petrobrás é uma síntese dos erros de Dilma Rousseff: teimosia, arrogância, escolhas erradas, incapacidade de olhar ao redor. Resultado? Isolamento.

A queda de Graça Foster abriu uma janela de oportunidades para o governo mostrar que “agora, vai!”. A alternativa era acertar ou acertar, para iniciar uma nova fase e interferir positivamente no rumo das coisas, no tom do noticiário e no humor geral. Dilma jogou fora. Vejamos.

Teimosia: depois de meses respirando artificialmente, Foster caiu quando o seu caráter falou mais alto do que a conveniência e a vaidade e ela decidiu expor publicamente as projeções de perdas bilionárias com a roubalheira na Petrobrás. Dilma ficou uma fera e só por isso fez o que deveria ter feito havia tempos. E fez de mau jeito.

Arrogância: o ex-presidente Lula tinha razão ao sugerir Henrique Meirelles. Com todas suas chatices e idiossincrasias, Meirelles é homem do mercado, experiente, testado, reconhecido internacionalmente. Seria um choque em si, com dois efeitos imediatos: as bolsas disparariam e os ânimos dentro e fora seriam outros – em relação à Petrobrás e ao Brasil. Mas, que pena!, Dilma implica com Meirelles. O resultado foi o oposto.

Escolhas erradas: mulher difícil, de personalidade forte, de poucos amigos – e de poucas equipes –, Dilma costuma se cercar de gente que ela mal conhece, mas que pensa o mundo e o País exatamente como ela e que lhe bate continência. Escolhe de frente para o espelho, ou olhando para baixo. Daí as surpresas, e Erenice Guerra é a mais reluzente.

Não olhar em volta: na política, Dilma perdeu feio na eleição para a presidência da Câmara. Na economia, a sequência de notícias ruins é irritante (a última é que a inflação de janeiro é a maior para o mês desde 2003...). A Operação Lava Jato está a jato mesmo. E temos esses probleminhas aí de luz e água. Mas Dilma age como se esse ambiente pavoroso fosse obra cruel de adversários e da imprensa. Lula diz essas coisas por esperteza. Os eleitores petistas, porque precisam acreditar, alimentar a fé. Mas Dilma, aparentemente, acha mesmo.

E chegamos ao isolamento. Petistas se descolam do governo, deputados e senadores de partidos aliados assinam requerimentos de CPIs, o mundo empresarial, financeiro, sindical, acadêmico vê que algo está errado e, quanto mais errado, mais quer distância. Ilhada, Dilma fica ruminando sua ira e multiplicando inimigos reais e imaginários cercada pela meia dúzia que pensa igual a ela. Conversando com o próprio umbigo.

Aldemir Bendine foi alçado em 2009 à presidência do Banco do Brasil dentro da estratégia de Lula de reagir à crise internacional alargando o crédito e fortalecendo o consumo interno. Cumpriu bem a missão, entrega o BB com bons resultados. Mas seu principal cacife é frequentar o Palácio da Alvorada, ajoelhar, rezar e dizer amém para a chefe.

Bendine não é um grande nome da iniciativa privada, não tem dimensão internacional, não tem a autonomia que o momento da Petrobrás exige. E... as páginas da imprensa estão salpicadas de casos constrangedores envolvendo seu nome, como o tal empréstimo do BB à socialite Val Marchiori. Convenhamos, não chega a ser exatamente o homem certo, na hora certa, para apagar o gigantesco incêndio na nossa Petrobrás.

PS – Para melhorar o humor do domingo, diga-se que não há clima de impeachment, discussão perigosa e circunscrita a um nicho de São Paulo, e que Dilma tem algo poderoso a seu favor: o tempo. A casa está desabando, mas o mandato está bem no início e ela tem quatro anos para reforçar os alicerces, recompor as paredes e trocar o telhado (de vidro?). Só não pode continuar errando uma atrás da outra. Aí, depende só dela.

O poço é mais fundo - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 08/02

No momento em que o impeachment da presidente Dilma tornou-se tema central do debate político brasileiro, com a própria presidente falando em ter forças para "reagir ao golpismo" e o ex-presidente Lula afirmando que os adversários querem impedir que Dilma cumpra seu mandato, uma pesquisa do Datafolha refletindo o sentimento predominante entre os cidadãos brasileiros coloca mais lenha na fogueira.

No momento em que o impeachment da presidente Dilma tornou-se tema central do debate político brasileiro, com a própria presidente falando em ter forças para "reagir ao golpismo" e o ex-presidente Lula afirmando que os adversários querem impedir que Dilma cumpra seu mandato, uma pesquisa do Datafolha, refletindo o sentimento predominante entre os cidadãos brasileiros, coloca mais lenha na fogueira. A presidente Dilma Rousseff, segundo o Datafolha, teve a maior queda de popularidade de um presidente entre uma pesquisa e outra desde o plano econômico do então presidente Fernando Collor, em 1990. Naquela ocasião, entre março, antes da posse, e junho, a queda foi de 35 pontos (71% para 36%).

Em dezembro passado, já reeleita, Dilma tinha 42% de ótimo/bom e 24% de ruim/péssimo. Agora, os números praticamente se inverteram: tem 23% de ótimo e bom e 44% de ruim e péssimo. Após as manifestações em 2013, depois de uma queda espetacular de 57% de bom e ótimo para apenas 30%, parecia que a presidente tinha chegado ao fundo do poço. A pesquisa de hoje mostra que o poço é mais fundo.

Seis de cada dez entrevistados consideram que Dilma mentiu na campanha eleitoral. Para 46%, falou mais mentiras do que verdades, e esse índice é alto (25%) mesmo entre os petistas. Para 14%, Dilma disse só mentiras na campanha presidencial. O Datafolha registra que essas são as piores marcas de seu governo, e a mais baixa avaliação de um presidente da República desde Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em dezembro de 1999 (46% de ruim/péssimo).

As duas ocasiões históricas guardam semelhança com este momento do país. Collor teve sua popularidade derrubada pelo confisco da poupança, que acusava Lula de pretender fazer na campanha presidencial, e continuou em crise com as denúncias de corrupção no seu governo. E FHC viu sua popularidade despencar devido à desvalorização do real após ter sido reeleito. Ele prometera que não faria a desvalorização. Desde então, não recuperou suas melhores condições políticas.

O PT na ocasião fez uma campanha pelo impeachment de FHC, baseado justamente na acusação de ter cometido um estelionato eleitoral, e José Dirceu, o principal líder do partido então, argumentou contra os que acusavam os petistas de golpistas: "Qualquer deputado pode pedir à Mesa da Câmara a abertura de processo (de impeachment) contra o presidente da República. Dizer que isso é golpe é falta de assunto."

No caso de Collor, foi o ex-presidente Lula quem comentou o impeachment, anos depois, no programa de Sérgio Groisman na Rede Globo. Sua fala está novamente espalhada pela internet, diante da acusação do PT de que quem defende o impeachment de Dilma quer o golpe na democracia.

Disse Lula: "O que foi gratificante é que tudo aquilo que nós denunciávamos se provou verdadeiro. Não apenas nós, mas uma parte da imprensa denunciava, intelectuais denunciavam, artistas denunciavam, todo mundo sabia por que o passado político do Collor era um passado político tenebroso. Foi uma pena que precisou três anos para provar, mas foi uma coisa importante por que o povo brasileiro, pela primeira vez na América Latina, deu a demonstração de que é possível o mesmo povo que elege o político, destituir esse político. Peço a Deus que o povo brasileiro não esqueça essa lição."

A crise econômica misturou-se à crise política e armou-se o quadro propício ao impeachment de Collor. No caso de FHC, não houve condições políticas para o PT viabilizar o impeachment, e não se caracterizou uma crise na economia, apesar de seu baixo crescimento. Em 2005, o escândalo do mensalão só não resultou no impeachment de Lula porque a economia melhorou, e sua popularidade, mesmo abalada, fazia temer embates sociais nas ruas.

Como se vê pelos fatos e comentários de Lula, o impeachment é um processo mais político do que jurídico, portanto, de longa duração. Depende de que condições sejam estabelecidas, tanto no campo político quanto no econômico, para ser utilizado. Mas nunca pode ser tido como um instrumento antidemocrático.

Sebastião Nery e o petrolão - SACHA CALMON

CORREIO BRAZILIENSE - 08/02

Sebastião Nery, no livro Ninguém me contou, eu vi (de Getúlio a Dilma), relata como nasceu o mensalão: "Tarde de sábado no Restaurante Piantella, o melhor de Brasília. Lula havia ganhado a eleição presidencial de 2002 contra o tucano José Serra e estava em Porto Alegre, com José Dirceu e a cúpula do PT, discutindo com o PT gaúcho a formação do novo governo. Um grupo de jornalistas estava a um canto, almoçando e conversando sobre o país, eu junto.

De repente, entram nervosos, aflitos, os deputados Moreira Franco, Gedel Vieira Lima, Henrique Alves, da direção nacional do PMDB, começam a discutir baixinho, quase cochichando. Em poucos instantes, chega o deputado Michel Temer, presidente nacional do PMDB. Nem almoçaram. Beberam pouca coisa, deram telefonemas, saíram rápido.

Nada falaram. Acontecera alguma coisa grave. Voltariam logo.

Um deles voltou e contou a bomba política do fim de semana. Antes de viajar para o Rio Grande do Sul, Lula encarregara José Dirceu, coordenador da equipe de transição e já convidado para ser chefe da Casa Civil, de negociar com o PMDB o apoio a seu governo, em troca dos ministérios de Minas e Energia, Justiça e Previdência, que seriam entregues a senadores e deputados indicados pelo partido.

Lula já havia dito ao PT que eles não podiam esquecer a lição da derrubada de Collor pelo impeachment, que o senador Amir Lando, do PMDB de Rondônia, relator da CPI de PC Farias, havia definido como uma quartelada parlamentar. No Brasil, para governar, era preciso ter sempre maioria no Congresso. O PT tinha que fazer as concessões necessárias.

O primeiro a ser chamado era o PMDB, o maior partido da Câmara e do Senado. Lula mandou José Dirceu acertar com o PMDB, combinaram três ministérios e ficaram todos felizes. Em Porto Alegre, na primeira noite, Lula encontrou a gula voraz do PT gaúcho, que exigia os ministérios de Minas e Energia, da Justiça e da Previdência.

Lula cedeu. Chamou Dirceu e deu ordem para desmanchar o acordo com o PMDB. Dirceu perguntou como conseguiriam maioria no Congresso. "Compra os pequenos partidos" - disse Lula. "Fica mais barato." Dilma virou ministra de Minas e Energia; Tarso Genro, da Justiça; e a Previdência ficou para resolver lá na frente. E assim nasceu o mensalão".

Corria o ano de 2002. Em fins de 2003, o mensalão incendiava a nação. Em 2004, Lula teria plantado na Diretoria de Abastecimento da Petrobras o dr. José Roberto, o Paulinho, hoje o corifeu dos delatores, devido à pressão do PP para que se arranjassem novas fontes de financiamento em favor da base aliada.

Sabedor das coisas desde os primórdios, esse "Paulinho", suas declarações e provas entregues (além de outras que estão sendo investigadas) são nitroglicerina pura. Ninguém sabe onde isso tudo vai dar. Mas não há como obstar o processo. Diferentemente do mensalão, o juiz Moro e a Polícia Federal produziram provas robustas e entrelaçamentos entre os protagonistas da "organização criminosa".

Foi justamente para garantir fundos a um projeto de poder que se teria criado o esquema na empresa de petróleo. O mensalão fora arquitetura complicada e pouco rentável, logo descoberta. São ilações de certos analistas políticos. E não são desarrazoadas. O PT, especialmente o paulista (ABC, Campinas, Ribeirão Preto) já tinha alguma experiência nas áreas do jogo, do lixo e das concessões de linhas transporte coletivo.

Ao cabo não foi pelo repasse de comissões cobradas dos concessionários de serviços públicos que o prefeito Celso Daniel, de São Bernardo, fora assassinado (caso até hoje irresolvido)? A Petrobras terá sido um achado valioso que retomou a captura de recursos para as campanhas eleitorais do PT e da base aliada, em todas as disputas pelo comando da República brasileira e das estatais, contratos e obras.

À Justiça cabe agora a palavra final. As dos juízes para os crimes dos réus comuns. A do STF e STJ para os parlamentares e demais autoridades com prorrogativa de foro. Com a saída de Joaquim Barbosa, o povo aguarda o desfecho desse negativo capítulo de nossa história, entre crédulo na justiça e desconfiado do Poder Judiciário.

Dilma e a base aliada devem estar cientes - contados os votos anulados em branco - de que apenas 38% do colégio eleitoral formou o governo atual e que a oposição obteve expressiva votação de apoiadores. O país continua dividido. A quantidade dos que desertaram do voto é preocupante (desilusão política). Eles nos observam atentamente, tanto a situação quanto a oposição.

Atravessamos o momento mais perigoso de nossa história econômica recente. A responsabilidade é inteiramente do PT, herdeiro das próprias gestões. A herança que tiveram foi de grande monta: um país estabilizado pelo fantástico Plano Real, que domou a inflação (antes era de 480% ao ano ou mais). As novas gerações precisam ser informadas do nosso passado desde a redemocratização em 1988.