O GLOBO - 08/02
No momento em que o impeachment da presidente Dilma tornou-se tema central do debate político brasileiro, com a própria presidente falando em ter forças para "reagir ao golpismo" e o ex-presidente Lula afirmando que os adversários querem impedir que Dilma cumpra seu mandato, uma pesquisa do Datafolha refletindo o sentimento predominante entre os cidadãos brasileiros coloca mais lenha na fogueira.
No momento em que o impeachment da presidente Dilma tornou-se tema central do debate político brasileiro, com a própria presidente falando em ter forças para "reagir ao golpismo" e o ex-presidente Lula afirmando que os adversários querem impedir que Dilma cumpra seu mandato, uma pesquisa do Datafolha, refletindo o sentimento predominante entre os cidadãos brasileiros, coloca mais lenha na fogueira. A presidente Dilma Rousseff, segundo o Datafolha, teve a maior queda de popularidade de um presidente entre uma pesquisa e outra desde o plano econômico do então presidente Fernando Collor, em 1990. Naquela ocasião, entre março, antes da posse, e junho, a queda foi de 35 pontos (71% para 36%).
Em dezembro passado, já reeleita, Dilma tinha 42% de ótimo/bom e 24% de ruim/péssimo. Agora, os números praticamente se inverteram: tem 23% de ótimo e bom e 44% de ruim e péssimo. Após as manifestações em 2013, depois de uma queda espetacular de 57% de bom e ótimo para apenas 30%, parecia que a presidente tinha chegado ao fundo do poço. A pesquisa de hoje mostra que o poço é mais fundo.
Seis de cada dez entrevistados consideram que Dilma mentiu na campanha eleitoral. Para 46%, falou mais mentiras do que verdades, e esse índice é alto (25%) mesmo entre os petistas. Para 14%, Dilma disse só mentiras na campanha presidencial. O Datafolha registra que essas são as piores marcas de seu governo, e a mais baixa avaliação de um presidente da República desde Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em dezembro de 1999 (46% de ruim/péssimo).
As duas ocasiões históricas guardam semelhança com este momento do país. Collor teve sua popularidade derrubada pelo confisco da poupança, que acusava Lula de pretender fazer na campanha presidencial, e continuou em crise com as denúncias de corrupção no seu governo. E FHC viu sua popularidade despencar devido à desvalorização do real após ter sido reeleito. Ele prometera que não faria a desvalorização. Desde então, não recuperou suas melhores condições políticas.
O PT na ocasião fez uma campanha pelo impeachment de FHC, baseado justamente na acusação de ter cometido um estelionato eleitoral, e José Dirceu, o principal líder do partido então, argumentou contra os que acusavam os petistas de golpistas: "Qualquer deputado pode pedir à Mesa da Câmara a abertura de processo (de impeachment) contra o presidente da República. Dizer que isso é golpe é falta de assunto."
No caso de Collor, foi o ex-presidente Lula quem comentou o impeachment, anos depois, no programa de Sérgio Groisman na Rede Globo. Sua fala está novamente espalhada pela internet, diante da acusação do PT de que quem defende o impeachment de Dilma quer o golpe na democracia.
Disse Lula: "O que foi gratificante é que tudo aquilo que nós denunciávamos se provou verdadeiro. Não apenas nós, mas uma parte da imprensa denunciava, intelectuais denunciavam, artistas denunciavam, todo mundo sabia por que o passado político do Collor era um passado político tenebroso. Foi uma pena que precisou três anos para provar, mas foi uma coisa importante por que o povo brasileiro, pela primeira vez na América Latina, deu a demonstração de que é possível o mesmo povo que elege o político, destituir esse político. Peço a Deus que o povo brasileiro não esqueça essa lição."
A crise econômica misturou-se à crise política e armou-se o quadro propício ao impeachment de Collor. No caso de FHC, não houve condições políticas para o PT viabilizar o impeachment, e não se caracterizou uma crise na economia, apesar de seu baixo crescimento. Em 2005, o escândalo do mensalão só não resultou no impeachment de Lula porque a economia melhorou, e sua popularidade, mesmo abalada, fazia temer embates sociais nas ruas.
Como se vê pelos fatos e comentários de Lula, o impeachment é um processo mais político do que jurídico, portanto, de longa duração. Depende de que condições sejam estabelecidas, tanto no campo político quanto no econômico, para ser utilizado. Mas nunca pode ser tido como um instrumento antidemocrático.
domingo, fevereiro 08, 2015
Sebastião Nery e o petrolão - SACHA CALMON
CORREIO BRAZILIENSE - 08/02
Sebastião Nery, no livro Ninguém me contou, eu vi (de Getúlio a Dilma), relata como nasceu o mensalão: "Tarde de sábado no Restaurante Piantella, o melhor de Brasília. Lula havia ganhado a eleição presidencial de 2002 contra o tucano José Serra e estava em Porto Alegre, com José Dirceu e a cúpula do PT, discutindo com o PT gaúcho a formação do novo governo. Um grupo de jornalistas estava a um canto, almoçando e conversando sobre o país, eu junto.
De repente, entram nervosos, aflitos, os deputados Moreira Franco, Gedel Vieira Lima, Henrique Alves, da direção nacional do PMDB, começam a discutir baixinho, quase cochichando. Em poucos instantes, chega o deputado Michel Temer, presidente nacional do PMDB. Nem almoçaram. Beberam pouca coisa, deram telefonemas, saíram rápido.
Nada falaram. Acontecera alguma coisa grave. Voltariam logo.
Um deles voltou e contou a bomba política do fim de semana. Antes de viajar para o Rio Grande do Sul, Lula encarregara José Dirceu, coordenador da equipe de transição e já convidado para ser chefe da Casa Civil, de negociar com o PMDB o apoio a seu governo, em troca dos ministérios de Minas e Energia, Justiça e Previdência, que seriam entregues a senadores e deputados indicados pelo partido.
Lula já havia dito ao PT que eles não podiam esquecer a lição da derrubada de Collor pelo impeachment, que o senador Amir Lando, do PMDB de Rondônia, relator da CPI de PC Farias, havia definido como uma quartelada parlamentar. No Brasil, para governar, era preciso ter sempre maioria no Congresso. O PT tinha que fazer as concessões necessárias.
O primeiro a ser chamado era o PMDB, o maior partido da Câmara e do Senado. Lula mandou José Dirceu acertar com o PMDB, combinaram três ministérios e ficaram todos felizes. Em Porto Alegre, na primeira noite, Lula encontrou a gula voraz do PT gaúcho, que exigia os ministérios de Minas e Energia, da Justiça e da Previdência.
Lula cedeu. Chamou Dirceu e deu ordem para desmanchar o acordo com o PMDB. Dirceu perguntou como conseguiriam maioria no Congresso. "Compra os pequenos partidos" - disse Lula. "Fica mais barato." Dilma virou ministra de Minas e Energia; Tarso Genro, da Justiça; e a Previdência ficou para resolver lá na frente. E assim nasceu o mensalão".
Corria o ano de 2002. Em fins de 2003, o mensalão incendiava a nação. Em 2004, Lula teria plantado na Diretoria de Abastecimento da Petrobras o dr. José Roberto, o Paulinho, hoje o corifeu dos delatores, devido à pressão do PP para que se arranjassem novas fontes de financiamento em favor da base aliada.
Sabedor das coisas desde os primórdios, esse "Paulinho", suas declarações e provas entregues (além de outras que estão sendo investigadas) são nitroglicerina pura. Ninguém sabe onde isso tudo vai dar. Mas não há como obstar o processo. Diferentemente do mensalão, o juiz Moro e a Polícia Federal produziram provas robustas e entrelaçamentos entre os protagonistas da "organização criminosa".
Foi justamente para garantir fundos a um projeto de poder que se teria criado o esquema na empresa de petróleo. O mensalão fora arquitetura complicada e pouco rentável, logo descoberta. São ilações de certos analistas políticos. E não são desarrazoadas. O PT, especialmente o paulista (ABC, Campinas, Ribeirão Preto) já tinha alguma experiência nas áreas do jogo, do lixo e das concessões de linhas transporte coletivo.
Ao cabo não foi pelo repasse de comissões cobradas dos concessionários de serviços públicos que o prefeito Celso Daniel, de São Bernardo, fora assassinado (caso até hoje irresolvido)? A Petrobras terá sido um achado valioso que retomou a captura de recursos para as campanhas eleitorais do PT e da base aliada, em todas as disputas pelo comando da República brasileira e das estatais, contratos e obras.
À Justiça cabe agora a palavra final. As dos juízes para os crimes dos réus comuns. A do STF e STJ para os parlamentares e demais autoridades com prorrogativa de foro. Com a saída de Joaquim Barbosa, o povo aguarda o desfecho desse negativo capítulo de nossa história, entre crédulo na justiça e desconfiado do Poder Judiciário.
Dilma e a base aliada devem estar cientes - contados os votos anulados em branco - de que apenas 38% do colégio eleitoral formou o governo atual e que a oposição obteve expressiva votação de apoiadores. O país continua dividido. A quantidade dos que desertaram do voto é preocupante (desilusão política). Eles nos observam atentamente, tanto a situação quanto a oposição.
Atravessamos o momento mais perigoso de nossa história econômica recente. A responsabilidade é inteiramente do PT, herdeiro das próprias gestões. A herança que tiveram foi de grande monta: um país estabilizado pelo fantástico Plano Real, que domou a inflação (antes era de 480% ao ano ou mais). As novas gerações precisam ser informadas do nosso passado desde a redemocratização em 1988.
Sebastião Nery, no livro Ninguém me contou, eu vi (de Getúlio a Dilma), relata como nasceu o mensalão: "Tarde de sábado no Restaurante Piantella, o melhor de Brasília. Lula havia ganhado a eleição presidencial de 2002 contra o tucano José Serra e estava em Porto Alegre, com José Dirceu e a cúpula do PT, discutindo com o PT gaúcho a formação do novo governo. Um grupo de jornalistas estava a um canto, almoçando e conversando sobre o país, eu junto.
De repente, entram nervosos, aflitos, os deputados Moreira Franco, Gedel Vieira Lima, Henrique Alves, da direção nacional do PMDB, começam a discutir baixinho, quase cochichando. Em poucos instantes, chega o deputado Michel Temer, presidente nacional do PMDB. Nem almoçaram. Beberam pouca coisa, deram telefonemas, saíram rápido.
Nada falaram. Acontecera alguma coisa grave. Voltariam logo.
Um deles voltou e contou a bomba política do fim de semana. Antes de viajar para o Rio Grande do Sul, Lula encarregara José Dirceu, coordenador da equipe de transição e já convidado para ser chefe da Casa Civil, de negociar com o PMDB o apoio a seu governo, em troca dos ministérios de Minas e Energia, Justiça e Previdência, que seriam entregues a senadores e deputados indicados pelo partido.
Lula já havia dito ao PT que eles não podiam esquecer a lição da derrubada de Collor pelo impeachment, que o senador Amir Lando, do PMDB de Rondônia, relator da CPI de PC Farias, havia definido como uma quartelada parlamentar. No Brasil, para governar, era preciso ter sempre maioria no Congresso. O PT tinha que fazer as concessões necessárias.
O primeiro a ser chamado era o PMDB, o maior partido da Câmara e do Senado. Lula mandou José Dirceu acertar com o PMDB, combinaram três ministérios e ficaram todos felizes. Em Porto Alegre, na primeira noite, Lula encontrou a gula voraz do PT gaúcho, que exigia os ministérios de Minas e Energia, da Justiça e da Previdência.
Lula cedeu. Chamou Dirceu e deu ordem para desmanchar o acordo com o PMDB. Dirceu perguntou como conseguiriam maioria no Congresso. "Compra os pequenos partidos" - disse Lula. "Fica mais barato." Dilma virou ministra de Minas e Energia; Tarso Genro, da Justiça; e a Previdência ficou para resolver lá na frente. E assim nasceu o mensalão".
Corria o ano de 2002. Em fins de 2003, o mensalão incendiava a nação. Em 2004, Lula teria plantado na Diretoria de Abastecimento da Petrobras o dr. José Roberto, o Paulinho, hoje o corifeu dos delatores, devido à pressão do PP para que se arranjassem novas fontes de financiamento em favor da base aliada.
Sabedor das coisas desde os primórdios, esse "Paulinho", suas declarações e provas entregues (além de outras que estão sendo investigadas) são nitroglicerina pura. Ninguém sabe onde isso tudo vai dar. Mas não há como obstar o processo. Diferentemente do mensalão, o juiz Moro e a Polícia Federal produziram provas robustas e entrelaçamentos entre os protagonistas da "organização criminosa".
Foi justamente para garantir fundos a um projeto de poder que se teria criado o esquema na empresa de petróleo. O mensalão fora arquitetura complicada e pouco rentável, logo descoberta. São ilações de certos analistas políticos. E não são desarrazoadas. O PT, especialmente o paulista (ABC, Campinas, Ribeirão Preto) já tinha alguma experiência nas áreas do jogo, do lixo e das concessões de linhas transporte coletivo.
Ao cabo não foi pelo repasse de comissões cobradas dos concessionários de serviços públicos que o prefeito Celso Daniel, de São Bernardo, fora assassinado (caso até hoje irresolvido)? A Petrobras terá sido um achado valioso que retomou a captura de recursos para as campanhas eleitorais do PT e da base aliada, em todas as disputas pelo comando da República brasileira e das estatais, contratos e obras.
À Justiça cabe agora a palavra final. As dos juízes para os crimes dos réus comuns. A do STF e STJ para os parlamentares e demais autoridades com prorrogativa de foro. Com a saída de Joaquim Barbosa, o povo aguarda o desfecho desse negativo capítulo de nossa história, entre crédulo na justiça e desconfiado do Poder Judiciário.
Dilma e a base aliada devem estar cientes - contados os votos anulados em branco - de que apenas 38% do colégio eleitoral formou o governo atual e que a oposição obteve expressiva votação de apoiadores. O país continua dividido. A quantidade dos que desertaram do voto é preocupante (desilusão política). Eles nos observam atentamente, tanto a situação quanto a oposição.
Atravessamos o momento mais perigoso de nossa história econômica recente. A responsabilidade é inteiramente do PT, herdeiro das próprias gestões. A herança que tiveram foi de grande monta: um país estabilizado pelo fantástico Plano Real, que domou a inflação (antes era de 480% ao ano ou mais). As novas gerações precisam ser informadas do nosso passado desde a redemocratização em 1988.
Estado de alerta - DORA KRAMER
O ESTADÃO - 08/02
O PT, Luiz Inácio da Silva à frente, resolveu reeditar o discurso da vítima de perseguição política para tentar se precaver do que vier adiante em decorrência da Operação Lava Jato.
Pura falta de melhor argumento no momento. Quem esteve com o ex-presidente nesta semana no Instituto Lula – precisamente no dia em que o tesoureiro João Vaccari Neto foi levado a depor na Polícia Federal – pode aquilatar que ele tem perfeita noção da gravidade da situação. A luz amarela acendeu no Instituto Lula.
Ao contrário do Palácio do Planalto, onde a presidente Dilma Rousseff não perde a oportunidade de repetir – e agradece a quem puder fazê-lo por ela em público – que não “tem nada a ver” com Vaccari, no escritório do ex-presidente sabe-se perfeitamente que todo mundo no PT “tem a ver” de alguma forma com o tesoureiro do partido.
Na sexta-feira, dia seguinte ao depoimento de Vaccari, ressurgiram os antigos bordões sobre “golpes”, urdiduras para “criminalizar” o PT, alertas para a possibilidade de “julgamentos políticos e não jurídicos” e as inevitáveis comparações com o mensalão, aquele caso que só existiu na mente dos conspiradores.
Soaram especialmente estapafúrdias as suspeitas levantadas a respeito da conduta da PF ao conduzir o tesoureiro de maneira coercitiva para depor, porque contrastam com o esforço feito pela presidente Dilma Rousseff para convencer o País de que o escândalo da Petrobrás só existe porque o governo dela não dá trégua à corrupção.
Ao saber que a polícia queria do tesoureiro informações sobre doações legais e ilegais feitas por empresas que tinham contratos com a Petrobrás, o presidente Rui Falcão foi dos primeiros a atestar que no PT não tem caixa 2, só recursos devidamente contabilizados.
Isso agora que o pessoal dos recursos não contabilizados já está condenado e não precisa mais da tese do crime eleitoral para negar corrupção. Nessa altura pouco importa a coerência ou verossimilhança das alegações.
Nem os petistas acreditam de fato na narrativa do “golpismo” tantos são os fatos que deixam o partido atarantado diante de um governo que comete um erro atrás do outro e, além disso, não se comunica para dentro nem para fora. O PT simplesmente não tem o que dizer no momento além de atribuir culpas a inimigos difusos.
Fosse falar a verdade do que se diz internamente, os responsáveis pelas agruras seriam outros: a presidente e os ministros “da casa”, Aloizio Mercadante, Miguel Rossetto e Pepe Vargas.
A presidente da República nada diz que guarde relação com a realidade. Sobre as questões importantes Dilma se cala e, com isso, dissemina inquietação no PT. O ex-presidente Lula tem ouvido de correligionários apelos para que comande algum tipo de reação. Na política.
As declarações dele na reunião do diretório nacional do partido em Belo Horizonte obedeceram ao modelo antigo, mas não traduzem o real estado de espírito de Lula sobre os rumos do governo, a administração (ou falta de) das crises e os desdobramentos da Lava Jato. O blazer, a calça e a camisa pretos refletiram melhor.
As bravatas ditas em público sobre a necessidade de o partido “reagir aos ataques” são apenas bravatas. Na realidade nua e crua há noção da gravidade e da imprevisibilidade da situação. Os petistas falam em defender Vaccari como se o alvo fosse a pessoa física. Lula disse que “na dúvida” ficava com o “companheiro”, Rui Falcão externou confiança de que ele “nunca pôs dinheiro no bolso”.
Não é disso que se trata. O que se investiga é o repasse de uma parte de dinheiro de contratos da Petrobrás para partidos políticos. Entre eles o PT do qual Vaccari seria, segundo os delatores, o encarregado de intermediar as operações. Não é ele quem está sendo acusado de receber propina, é o partido.
O PT, Luiz Inácio da Silva à frente, resolveu reeditar o discurso da vítima de perseguição política para tentar se precaver do que vier adiante em decorrência da Operação Lava Jato.
Pura falta de melhor argumento no momento. Quem esteve com o ex-presidente nesta semana no Instituto Lula – precisamente no dia em que o tesoureiro João Vaccari Neto foi levado a depor na Polícia Federal – pode aquilatar que ele tem perfeita noção da gravidade da situação. A luz amarela acendeu no Instituto Lula.
Ao contrário do Palácio do Planalto, onde a presidente Dilma Rousseff não perde a oportunidade de repetir – e agradece a quem puder fazê-lo por ela em público – que não “tem nada a ver” com Vaccari, no escritório do ex-presidente sabe-se perfeitamente que todo mundo no PT “tem a ver” de alguma forma com o tesoureiro do partido.
Na sexta-feira, dia seguinte ao depoimento de Vaccari, ressurgiram os antigos bordões sobre “golpes”, urdiduras para “criminalizar” o PT, alertas para a possibilidade de “julgamentos políticos e não jurídicos” e as inevitáveis comparações com o mensalão, aquele caso que só existiu na mente dos conspiradores.
Soaram especialmente estapafúrdias as suspeitas levantadas a respeito da conduta da PF ao conduzir o tesoureiro de maneira coercitiva para depor, porque contrastam com o esforço feito pela presidente Dilma Rousseff para convencer o País de que o escândalo da Petrobrás só existe porque o governo dela não dá trégua à corrupção.
Ao saber que a polícia queria do tesoureiro informações sobre doações legais e ilegais feitas por empresas que tinham contratos com a Petrobrás, o presidente Rui Falcão foi dos primeiros a atestar que no PT não tem caixa 2, só recursos devidamente contabilizados.
Isso agora que o pessoal dos recursos não contabilizados já está condenado e não precisa mais da tese do crime eleitoral para negar corrupção. Nessa altura pouco importa a coerência ou verossimilhança das alegações.
Nem os petistas acreditam de fato na narrativa do “golpismo” tantos são os fatos que deixam o partido atarantado diante de um governo que comete um erro atrás do outro e, além disso, não se comunica para dentro nem para fora. O PT simplesmente não tem o que dizer no momento além de atribuir culpas a inimigos difusos.
Fosse falar a verdade do que se diz internamente, os responsáveis pelas agruras seriam outros: a presidente e os ministros “da casa”, Aloizio Mercadante, Miguel Rossetto e Pepe Vargas.
A presidente da República nada diz que guarde relação com a realidade. Sobre as questões importantes Dilma se cala e, com isso, dissemina inquietação no PT. O ex-presidente Lula tem ouvido de correligionários apelos para que comande algum tipo de reação. Na política.
As declarações dele na reunião do diretório nacional do partido em Belo Horizonte obedeceram ao modelo antigo, mas não traduzem o real estado de espírito de Lula sobre os rumos do governo, a administração (ou falta de) das crises e os desdobramentos da Lava Jato. O blazer, a calça e a camisa pretos refletiram melhor.
As bravatas ditas em público sobre a necessidade de o partido “reagir aos ataques” são apenas bravatas. Na realidade nua e crua há noção da gravidade e da imprevisibilidade da situação. Os petistas falam em defender Vaccari como se o alvo fosse a pessoa física. Lula disse que “na dúvida” ficava com o “companheiro”, Rui Falcão externou confiança de que ele “nunca pôs dinheiro no bolso”.
Não é disso que se trata. O que se investiga é o repasse de uma parte de dinheiro de contratos da Petrobrás para partidos políticos. Entre eles o PT do qual Vaccari seria, segundo os delatores, o encarregado de intermediar as operações. Não é ele quem está sendo acusado de receber propina, é o partido.
A herança para o segundo mandato - ROLF KUNTZ
O ESTADO DE S.PAULO - 08/02
Devastada, sangrada e sem rumo, a maior empresa brasileira, a Petrobrás, é o componente mais vistoso da herança maldita deixada para o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, mas ninguém deve menosprezar o resto do entulho. O inventário, ainda incompleto, é impressionante. A inflação - de 1,24% em janeiro e 7,14% em 12 meses - vai dar muito trabalho antes de ser domada. A correção dos preços contidos politicamente ainda vai longe. Além disso, novos aumentos estão previstos para ajustar a conta de luz ao custo da energia das termoelétricas.
O choque de realismo nos preços da eletricidade seria necessário, de toda forma, por causa da situação do Tesouro. O consumidor terá de ajudar as companhias a pagar, por exemplo, o empréstimo de R$ 17,8 bilhões tomado em 2014. Esse financiamento foi a solução quando o governo se confessou incapaz de continuar aliviando, sozinho, os problemas das distribuidoras.
Todos esses dados são partes da mesma história - a maquiagem da inflação, a irresponsabilidade fiscal, a penosa correção dos preços e os danos causados pelo voluntarismo e pelo populismo, em geral muito propício ao florescimento da corrupção. Venezuela e Argentina são hoje os casos mais vistosos, na América do Sul, de experiências desse tipo. O Brasil, dirão os otimistas, está muito longe de qualquer dos dois exemplos. Mas quem afirma o parentesco e a afinidade é o próprio governo brasileiro, ao definir suas prioridades diplomáticas, a política de comércio e as parcerias estratégicas na região. Para os de memória fraca: com que se aliou o Brasil para suspender o Paraguai do Mercosul e facilitar o ingresso da Venezuela no bloco?
O conserto das contas públicas, outro componente importante do legado populista, vai exigir muito mais que a mudança da política de apoio ao setor elétrico. Mesmo sem essa política a situação fiscal seria muito ruim. A orientação do governo, desde o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi a favor de uma política fiscal expansionista, batizada impropriamente como anticíclica. Os componentes mais notáveis dessa política foram a gastança sem freio, as desonerações seletivas e mal planejadas e uma relação promíscua e dispendiosa do Tesouro com os bancos estatais.
Na transição de governo o então ministro Guido Mantega ainda transferiu mais R$ 30 bilhões ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), importante canal de financiamento, no período petista, de recursos para empresas selecionadas como campeãs nacionais.
O novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, prometeu mudar a relação entre o Tesouro e os bancos federais, disciplinar os subsídios e estimular um novo esquema de financiamento às empresas. Seria uma boa ideia reconduzir o BNDES à sua função original, mantida até há alguns anos, de instrumento das políticas de modernização e de fortalecimento do setor produtivo. Mas para isso seria preciso redescobrir o planejamento estratégico, perdido há muito tempo no Brasil e confundido, com assustadora frequência, com o mais tosco intervencionismo. O Ministério do Planejamento abandonou a função original de cuidar do longo prazo. A Secretaria de Assuntos Estratégicos, criada no governo Lula para acomodar o professor Mangabeira Unger, nunca exerceu o papel indicado por seu nome, e assim, tudo indica, deverá continuar por prazo indefinido.
Mas houve muito mais que o abandono de velhas e importantes funções incorporadas há décadas pela administração pública brasileira e associadas ao desenvolvimento nacional. O governo tornou-se incapaz de formular planos e programas e de administrar a execução de projetos. O número de ministérios aumentou para 39, o funcionalismo cresceu, o gasto público aumentou como porcentagem do produto interno bruto (PIB) e o intervencionismo atingiu novos patamares, tendo sido uma das causas do desastre da Petrobrás. Mas o governo jamais foi tão fraco, desde o fim da 2.ª Guerra, como indutor do crescimento e do desenvolvimento.
A ocupação predatória do Estado, o aparelhamento e o loteamento da administração federal - incluída a direção da Petrobrás e de outras empresas estatais -, é uma das causas mais evidentes dessa degradação. Talvez a presidente Dilma Rousseff tenha consciência desses fatos. Nada disso, no entanto, parece preocupá-la seriamente. Os desdobramentos possíveis da Operação Lava Jato são mais inquietantes, assim como a oposição de antigos companheiros, hoje dispostos a aplaudir o seu impeachment.
O fracasso do governo petista como promotor do desenvolvimento é comprovado, fora de qualquer dúvida, pela estagnação econômica dos últimos quatro anos. A produção industrial encolheu 3,2% no ano passado e foi menor que a de 2010. A produção de máquinas e equipamentos foi 9,6% inferior à de 2013 e mais uma vez o investimento caiu. A perda de eficiência e de competitividade tem sido evidenciada pela deterioração da balança comercial.
As contas públicas, com déficit nominal de 6,7% do PIB, mais que o dobro da média da União Europeia (2,6%), completam o cenário de desastre. Nada se fará sem a arrumação dessas contas. A inflação continuará acelerada, os juros permanecerão altos, o investimento será mantido abaixo de 20% do PIB, em nível muito insatisfatório, e a estagnação prosseguirá. Mas para repor o Brasil em movimento será preciso ir além disso. Será preciso redescobrir a noção de estratégia e, de certa forma, reinventar o governo. É difícil de imaginar como a presidente Dilma Rousseff conseguirá realizar essas tarefas (se chegar a entender sua importância) seguindo a orientação de seu partido. Se estiver disposta a agir, terá pouco apoio no Congresso, mesmo dos aliados, para enfrentar as barreiras do fisiologismo. Perto da maldição do legado político, os problemas técnicos do ajuste fiscal e monetário parecem até simples. A destruição foi muito além da economia.
Devastada, sangrada e sem rumo, a maior empresa brasileira, a Petrobrás, é o componente mais vistoso da herança maldita deixada para o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, mas ninguém deve menosprezar o resto do entulho. O inventário, ainda incompleto, é impressionante. A inflação - de 1,24% em janeiro e 7,14% em 12 meses - vai dar muito trabalho antes de ser domada. A correção dos preços contidos politicamente ainda vai longe. Além disso, novos aumentos estão previstos para ajustar a conta de luz ao custo da energia das termoelétricas.
O choque de realismo nos preços da eletricidade seria necessário, de toda forma, por causa da situação do Tesouro. O consumidor terá de ajudar as companhias a pagar, por exemplo, o empréstimo de R$ 17,8 bilhões tomado em 2014. Esse financiamento foi a solução quando o governo se confessou incapaz de continuar aliviando, sozinho, os problemas das distribuidoras.
Todos esses dados são partes da mesma história - a maquiagem da inflação, a irresponsabilidade fiscal, a penosa correção dos preços e os danos causados pelo voluntarismo e pelo populismo, em geral muito propício ao florescimento da corrupção. Venezuela e Argentina são hoje os casos mais vistosos, na América do Sul, de experiências desse tipo. O Brasil, dirão os otimistas, está muito longe de qualquer dos dois exemplos. Mas quem afirma o parentesco e a afinidade é o próprio governo brasileiro, ao definir suas prioridades diplomáticas, a política de comércio e as parcerias estratégicas na região. Para os de memória fraca: com que se aliou o Brasil para suspender o Paraguai do Mercosul e facilitar o ingresso da Venezuela no bloco?
O conserto das contas públicas, outro componente importante do legado populista, vai exigir muito mais que a mudança da política de apoio ao setor elétrico. Mesmo sem essa política a situação fiscal seria muito ruim. A orientação do governo, desde o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi a favor de uma política fiscal expansionista, batizada impropriamente como anticíclica. Os componentes mais notáveis dessa política foram a gastança sem freio, as desonerações seletivas e mal planejadas e uma relação promíscua e dispendiosa do Tesouro com os bancos estatais.
Na transição de governo o então ministro Guido Mantega ainda transferiu mais R$ 30 bilhões ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), importante canal de financiamento, no período petista, de recursos para empresas selecionadas como campeãs nacionais.
O novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, prometeu mudar a relação entre o Tesouro e os bancos federais, disciplinar os subsídios e estimular um novo esquema de financiamento às empresas. Seria uma boa ideia reconduzir o BNDES à sua função original, mantida até há alguns anos, de instrumento das políticas de modernização e de fortalecimento do setor produtivo. Mas para isso seria preciso redescobrir o planejamento estratégico, perdido há muito tempo no Brasil e confundido, com assustadora frequência, com o mais tosco intervencionismo. O Ministério do Planejamento abandonou a função original de cuidar do longo prazo. A Secretaria de Assuntos Estratégicos, criada no governo Lula para acomodar o professor Mangabeira Unger, nunca exerceu o papel indicado por seu nome, e assim, tudo indica, deverá continuar por prazo indefinido.
Mas houve muito mais que o abandono de velhas e importantes funções incorporadas há décadas pela administração pública brasileira e associadas ao desenvolvimento nacional. O governo tornou-se incapaz de formular planos e programas e de administrar a execução de projetos. O número de ministérios aumentou para 39, o funcionalismo cresceu, o gasto público aumentou como porcentagem do produto interno bruto (PIB) e o intervencionismo atingiu novos patamares, tendo sido uma das causas do desastre da Petrobrás. Mas o governo jamais foi tão fraco, desde o fim da 2.ª Guerra, como indutor do crescimento e do desenvolvimento.
A ocupação predatória do Estado, o aparelhamento e o loteamento da administração federal - incluída a direção da Petrobrás e de outras empresas estatais -, é uma das causas mais evidentes dessa degradação. Talvez a presidente Dilma Rousseff tenha consciência desses fatos. Nada disso, no entanto, parece preocupá-la seriamente. Os desdobramentos possíveis da Operação Lava Jato são mais inquietantes, assim como a oposição de antigos companheiros, hoje dispostos a aplaudir o seu impeachment.
O fracasso do governo petista como promotor do desenvolvimento é comprovado, fora de qualquer dúvida, pela estagnação econômica dos últimos quatro anos. A produção industrial encolheu 3,2% no ano passado e foi menor que a de 2010. A produção de máquinas e equipamentos foi 9,6% inferior à de 2013 e mais uma vez o investimento caiu. A perda de eficiência e de competitividade tem sido evidenciada pela deterioração da balança comercial.
As contas públicas, com déficit nominal de 6,7% do PIB, mais que o dobro da média da União Europeia (2,6%), completam o cenário de desastre. Nada se fará sem a arrumação dessas contas. A inflação continuará acelerada, os juros permanecerão altos, o investimento será mantido abaixo de 20% do PIB, em nível muito insatisfatório, e a estagnação prosseguirá. Mas para repor o Brasil em movimento será preciso ir além disso. Será preciso redescobrir a noção de estratégia e, de certa forma, reinventar o governo. É difícil de imaginar como a presidente Dilma Rousseff conseguirá realizar essas tarefas (se chegar a entender sua importância) seguindo a orientação de seu partido. Se estiver disposta a agir, terá pouco apoio no Congresso, mesmo dos aliados, para enfrentar as barreiras do fisiologismo. Perto da maldição do legado político, os problemas técnicos do ajuste fiscal e monetário parecem até simples. A destruição foi muito além da economia.
Distritão, boa ideia para ser discutida - ELIO GASPARI
FOLHA DE SP - 08/02
O assunto é chato, mas desta vez o debate da reforma política pode começar para valer, sem os truques do PT
Tudo indica que o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, destravará o debate da reforma política, obstruído há um ano pelo PT, que sonha com plebiscitos e votos de lista. Tramita na Câmara um projeto que pode ser discutido, emendado e aprovado até agosto deste ano.
É um assunto chato e cheio de detalhes. Um dos seus principais pontos é o sistema eleitoral para a escolha de deputados. Hoje a pessoa vota no seu candidato e são eleitos aqueles que tiveram mais votos na totalização recebida pela chapa do partido ou da cumbuca da coligação. Poucos elegem-se só com votos dados a eles. Disso resultou que já houve gente votando em Delfim Netto e elegendo Michel Temer, ambos do PMDB. Na eleição passada Tiririca teve mais de um milhão de votos, elegeu-se deputado federal por São Paulo e carregou consigo o Capitão Augusto, que tentara fundar o Partido Militar Brasileiro.
Pela proposta da comissão da Câmara, cada Estado seria dividido em distritos. Seriam de quatro a sete, e em cada um deles funcionaria o regime da cumbuca. Assim, o efeito Tiririca ficaria reduzido ao seu distrito. É uma coisa meio girafa.
Renasceu a proposta do distritão, concebida pelo vice-presidente Michel Temer. Ela está na mesa há anos e é simples. Cada Estado passa a ser um distritão. Os partidos apresentam candidatos, os eleitores fazem suas escolhas e votam. Levam as cadeiras aqueles que conseguem mais votos. São Paulo, por exemplo, tem direito a 70 deputados. Elegem-se os 70 candidatos mais votados, e acabou a conversa. Assim, Tiririca pode ter um milhão de votos, mas elege só Tiririca.
O distritão pode ser uma boa ideia. Quem quiser pode também deixar tudo como está. O que parece ter desaparecido da agenda é o sonho petista do voto de lista, no qual simplesmente confisca-se o direito do eleitor escolher seu candidato, transferindo-se essa prerrogativa, total ou parcialmente, para as direções partidárias.
NOMES NA RODA
No ano passado, quando o empreiteiro Ricardo (UTC) Pessoa chegou à carceragem da Polícia Federal, sabia-se que um homem-bomba entrara no elenco da Lava Jato. Para o bem de todos (sobretudo dele), o doutor está colaborando com as autoridades.
Sabe-se agora que o petro-comissário Pedro Barusco botou um novo nome na roda, o de Zwi Skornicki, operador do estaleiro coreano Keppel Fels. Zwi guarda uma memória bem maior que a de Ricardo Pessoa. A Receita Federal conhece-o bem, por conta de uma negociação formal feita há alguns anos.
Engenheiro que trabalha com plataformas de exploração de petróleo desde a época em que elas eram uma novidade no Brasil, sabe tudo do assunto.
É um tipo inesquecível, pelo Rolex de ouro cravejado de brilhantes que carrega no pulso.
O SENADOR NO INFERNO
Quem tiver três minutos para perder em busca de talento e bom humor pode entrar no YouTube em busca do vídeo em que o repentista Maviael Melo recita seu poema "Campanha eleitoral".
Maviael é um pernambucano de 41 anos, poeta da grande tradição dos cordelistas nordestinos.
USP
Um dia essas denúncias de trotes violentos e estupros em universidades, inclusive na USP, cairão nas mãos de um juiz tipo Sergio Moro. Quando os jovens delinquentes e seus pais descobrirem que poderão passar o tempo de duração do curso na cadeia, a festa acabará.
E acabarão também os ilustres professores, sobretudo da Faculdade de Medicina, que, como o petrocomissariado petista, atribuem tudo a exagero da imprensa.
LAVA TUDO
O PSDB sabe que não sairá ileso da Operação Lava Jato. Suas petrofortunas recentes eram conhecidas antes mesmo do surgimento do juiz Moro.
EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo é um idiota e se deu conta da frequência com que sai do Planalto a informação de que a doutora Dilma ficou "contrariada", "irritada", "aborrecida", "atônita" ou mesmo "furiosa".
O cretino se pergunta: E daí?
NAUFRÁGIO
Terminado o primeiro mês do segundo mandato da doutora Dilma, uma víbora assegura ter ouvido a seguinte história de um sobrevivente da viagem inaugural do navio mais famoso da história, aquele do filme com Leonardo DiCaprio:
-- Uma jovem da tripulação embarcou em Southampton e eu lhe perguntei se estava emocionada com a viagem até Nova York. Ela me disse que achava a ideia boa, mas o que gostava mesmo era de naufrágios.
(Na vida real, a garçonete Violet Jessop já naufragara um ano antes e naufragaria novamente em 1916. Morreu em 1971, em terra firme, aos 84 anos.)
EUREKA
João Carlos Meireles, secretário de Energia do governador Geraldo Alckmin, matou a charada da falta de água que a imprevidência de seu patrão cevou:
"Tem gente que acha 'eu sou rico e pago quanto for por essa água', mas não é assim. É sobretudo espírito de comunidade. Mas parece que tem gente que vive no mundo de Marte e não tem solidariedade nenhuma."
A culpa é do povo.
Bem que ele poderia reunir a imprensa amanhã e exibir as contas de água do secretariado de Alckmin durante os últimos 12 meses.
A POROSIDADE DA CABEÇA PETISTA
Nas manobras para a indicação do novo presidente da Petrobras apareceram perto de dez nomes. Não se sabe de onde eles saíram, pois não incluíam o nome de Ademir Bendine, que acabou escolhido. Nessa roda de fogo, entrou o economista Paulo Leme, do banco Goldman Sachs. Ele teria a simpatia do ministro Joaquim Levy. A menos que tenha sido uma brincadeira, essa simples referência reflete a geleia em que se transformou o centro de decisões do governo.
O PT tenta associar a Operação Lava Jato a um processo de destruição da Petrobras, de forma a permitir sua privatização. Para quem gosta de teoria conspirativa é um bom roteiro.
Leme tem mais de vinte anos de destacada militância no mercado financeiro. Em 1998, quando o real estava indo para o ralo, a Goldman Sachs divulgou uma análise da crise dizendo que eram "necessárias medidas de grande impacto, como a inclusão da Petrobras, da Caixa Econômica e do Banco do Brasil no programa de privatizações". Ele era o diretor da Goldman para a área de mercados emergentes e, segundo a repórter Vera Magalhães, estimou que a estatal pudesse valer entre US$ 20 bilhões e US$ 60 bilhões.
Naquela ocasião o nome do doutor entrou na lista de candidatos de Armínio Fraga para a diretoria de assuntos internacionais do Banco Central. Foi abatido em voo pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Repetindo: Fernando Henrique Cardoso, aquele que, segundo o PT, queria vender a Petrobras.
Conta a lenda que um dia o governador Carlos Lacerda foi visitar o prédio da Polícia Central e, subindo as escadas do saguão, disse ao delegado Cecil Borer, que fora chefe da repressão política quando ele militava na esquerda:
-- Quem diria, Borer, que um dia estaríamos aqui nesta situação...
Borer teria respondido:
-- É. Mas quem mudou não fui eu.
O assunto é chato, mas desta vez o debate da reforma política pode começar para valer, sem os truques do PT
Tudo indica que o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, destravará o debate da reforma política, obstruído há um ano pelo PT, que sonha com plebiscitos e votos de lista. Tramita na Câmara um projeto que pode ser discutido, emendado e aprovado até agosto deste ano.
É um assunto chato e cheio de detalhes. Um dos seus principais pontos é o sistema eleitoral para a escolha de deputados. Hoje a pessoa vota no seu candidato e são eleitos aqueles que tiveram mais votos na totalização recebida pela chapa do partido ou da cumbuca da coligação. Poucos elegem-se só com votos dados a eles. Disso resultou que já houve gente votando em Delfim Netto e elegendo Michel Temer, ambos do PMDB. Na eleição passada Tiririca teve mais de um milhão de votos, elegeu-se deputado federal por São Paulo e carregou consigo o Capitão Augusto, que tentara fundar o Partido Militar Brasileiro.
Pela proposta da comissão da Câmara, cada Estado seria dividido em distritos. Seriam de quatro a sete, e em cada um deles funcionaria o regime da cumbuca. Assim, o efeito Tiririca ficaria reduzido ao seu distrito. É uma coisa meio girafa.
Renasceu a proposta do distritão, concebida pelo vice-presidente Michel Temer. Ela está na mesa há anos e é simples. Cada Estado passa a ser um distritão. Os partidos apresentam candidatos, os eleitores fazem suas escolhas e votam. Levam as cadeiras aqueles que conseguem mais votos. São Paulo, por exemplo, tem direito a 70 deputados. Elegem-se os 70 candidatos mais votados, e acabou a conversa. Assim, Tiririca pode ter um milhão de votos, mas elege só Tiririca.
O distritão pode ser uma boa ideia. Quem quiser pode também deixar tudo como está. O que parece ter desaparecido da agenda é o sonho petista do voto de lista, no qual simplesmente confisca-se o direito do eleitor escolher seu candidato, transferindo-se essa prerrogativa, total ou parcialmente, para as direções partidárias.
NOMES NA RODA
No ano passado, quando o empreiteiro Ricardo (UTC) Pessoa chegou à carceragem da Polícia Federal, sabia-se que um homem-bomba entrara no elenco da Lava Jato. Para o bem de todos (sobretudo dele), o doutor está colaborando com as autoridades.
Sabe-se agora que o petro-comissário Pedro Barusco botou um novo nome na roda, o de Zwi Skornicki, operador do estaleiro coreano Keppel Fels. Zwi guarda uma memória bem maior que a de Ricardo Pessoa. A Receita Federal conhece-o bem, por conta de uma negociação formal feita há alguns anos.
Engenheiro que trabalha com plataformas de exploração de petróleo desde a época em que elas eram uma novidade no Brasil, sabe tudo do assunto.
É um tipo inesquecível, pelo Rolex de ouro cravejado de brilhantes que carrega no pulso.
O SENADOR NO INFERNO
Quem tiver três minutos para perder em busca de talento e bom humor pode entrar no YouTube em busca do vídeo em que o repentista Maviael Melo recita seu poema "Campanha eleitoral".
Maviael é um pernambucano de 41 anos, poeta da grande tradição dos cordelistas nordestinos.
USP
Um dia essas denúncias de trotes violentos e estupros em universidades, inclusive na USP, cairão nas mãos de um juiz tipo Sergio Moro. Quando os jovens delinquentes e seus pais descobrirem que poderão passar o tempo de duração do curso na cadeia, a festa acabará.
E acabarão também os ilustres professores, sobretudo da Faculdade de Medicina, que, como o petrocomissariado petista, atribuem tudo a exagero da imprensa.
LAVA TUDO
O PSDB sabe que não sairá ileso da Operação Lava Jato. Suas petrofortunas recentes eram conhecidas antes mesmo do surgimento do juiz Moro.
EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo é um idiota e se deu conta da frequência com que sai do Planalto a informação de que a doutora Dilma ficou "contrariada", "irritada", "aborrecida", "atônita" ou mesmo "furiosa".
O cretino se pergunta: E daí?
NAUFRÁGIO
Terminado o primeiro mês do segundo mandato da doutora Dilma, uma víbora assegura ter ouvido a seguinte história de um sobrevivente da viagem inaugural do navio mais famoso da história, aquele do filme com Leonardo DiCaprio:
-- Uma jovem da tripulação embarcou em Southampton e eu lhe perguntei se estava emocionada com a viagem até Nova York. Ela me disse que achava a ideia boa, mas o que gostava mesmo era de naufrágios.
(Na vida real, a garçonete Violet Jessop já naufragara um ano antes e naufragaria novamente em 1916. Morreu em 1971, em terra firme, aos 84 anos.)
EUREKA
João Carlos Meireles, secretário de Energia do governador Geraldo Alckmin, matou a charada da falta de água que a imprevidência de seu patrão cevou:
"Tem gente que acha 'eu sou rico e pago quanto for por essa água', mas não é assim. É sobretudo espírito de comunidade. Mas parece que tem gente que vive no mundo de Marte e não tem solidariedade nenhuma."
A culpa é do povo.
Bem que ele poderia reunir a imprensa amanhã e exibir as contas de água do secretariado de Alckmin durante os últimos 12 meses.
A POROSIDADE DA CABEÇA PETISTA
Nas manobras para a indicação do novo presidente da Petrobras apareceram perto de dez nomes. Não se sabe de onde eles saíram, pois não incluíam o nome de Ademir Bendine, que acabou escolhido. Nessa roda de fogo, entrou o economista Paulo Leme, do banco Goldman Sachs. Ele teria a simpatia do ministro Joaquim Levy. A menos que tenha sido uma brincadeira, essa simples referência reflete a geleia em que se transformou o centro de decisões do governo.
O PT tenta associar a Operação Lava Jato a um processo de destruição da Petrobras, de forma a permitir sua privatização. Para quem gosta de teoria conspirativa é um bom roteiro.
Leme tem mais de vinte anos de destacada militância no mercado financeiro. Em 1998, quando o real estava indo para o ralo, a Goldman Sachs divulgou uma análise da crise dizendo que eram "necessárias medidas de grande impacto, como a inclusão da Petrobras, da Caixa Econômica e do Banco do Brasil no programa de privatizações". Ele era o diretor da Goldman para a área de mercados emergentes e, segundo a repórter Vera Magalhães, estimou que a estatal pudesse valer entre US$ 20 bilhões e US$ 60 bilhões.
Naquela ocasião o nome do doutor entrou na lista de candidatos de Armínio Fraga para a diretoria de assuntos internacionais do Banco Central. Foi abatido em voo pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Repetindo: Fernando Henrique Cardoso, aquele que, segundo o PT, queria vender a Petrobras.
Conta a lenda que um dia o governador Carlos Lacerda foi visitar o prédio da Polícia Central e, subindo as escadas do saguão, disse ao delegado Cecil Borer, que fora chefe da repressão política quando ele militava na esquerda:
-- Quem diria, Borer, que um dia estaríamos aqui nesta situação...
Borer teria respondido:
-- É. Mas quem mudou não fui eu.
E essa agora? - VERA MAGALHÃES - PAINEL
FOLHA DE SP - 08/02
Às voltas com vários focos de crise, Dilma Rousseff pode enfrentar novo revés nesta semana. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), submeterá ao colégio de líderes a inclusão na pauta de votações de terça-feira no plenário da chamada PEC da Bengala. A proposta eleva de 70 para 75 anos a idade de aposentadoria compulsória de magistrados. Se a medida passar, a presidente pode perder a chance de indicar quatro novos ministros para o Supremo Tribunal Federal.
Desfalque
>> com BRUNO BOGHOSSIAN e PAULO GAMA
TIROTEIO
"Tive uma grata surpresa: assumi a função de líder da minoria e descobri que esse posto parece, na verdade, o de líder da maioria."
DO DEPUTADO BRUNO ARAÚJO (PSDB-PE), sobre a nova relação de forças na Câmara entre a oposição e a base aliada do governo Dilma Rousseff.
CONTRAPONTO
Agora aguenta
Na segunda-feira passada, dia seguinte à derrota imposta pela Câmara ao PT na disputa pela presidência da Casa, peemedebistas e oposicionistas faziam piada nos corredores do Congresso. Ainda sob o efeito da vitória de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) sobre Arlindo Chinaglia (PT-SP), o tucano Antonio Imbassahy (BA) perguntou a Manoel Junior (PMDB-PB):
-O que é que vocês vão dar ao PT agora que eles ficaram fora da Mesa Diretora?
-Vamos dar muitos dias difíceis! --respondeu o peemedebista, e os dois caíram na risada.
Às voltas com vários focos de crise, Dilma Rousseff pode enfrentar novo revés nesta semana. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), submeterá ao colégio de líderes a inclusão na pauta de votações de terça-feira no plenário da chamada PEC da Bengala. A proposta eleva de 70 para 75 anos a idade de aposentadoria compulsória de magistrados. Se a medida passar, a presidente pode perder a chance de indicar quatro novos ministros para o Supremo Tribunal Federal.
Desfalque
Depois de seis meses praticamente sem tocar no assunto, Dilma começou a ouvir conselheiros sobre o substituto de Joaquim Barbosa no Supremo. Aliados estimam que a decisão pode sair ainda em fevereiro.
Memorabilia 1
Memorabilia 1
Joaquim Levy (Fazenda) pendurou na sala de reuniões de seu gabinete um quadro de 2000, no governo Fernando Henrique Cardoso, que celebrava a Lei de Responsabilidade Fiscal, com os dizeres: "Agora o Brasil só gasta o que arrecada".
Memorabilia 2
Memorabilia 2
O cartaz ficava na sala de Levy quando foi secretário do Tesouro Nacional, de 2003 a 2006. Localizado numa sala no ministério, já desbotado, voltou à parede em lugar de destaque.
Derrota...
Derrota...
A reprovação a Dilma mais que dobrou no Nordeste em comparação ao ponto mais crítico dos protestos de junho de 2013. À época, só 16% dos entrevistados pelo Datafolha disseram que a gestão da presidente era ruim ou péssima. Agora, são 36%.
... em casa
... em casa
A rejeição a Dilma no Nordeste era de 4% até meados de 2012. Lula só tinha 2% de ruim ou péssimo na região quando terminou seu governo, em 2010.
Efeito Petrolão
Efeito Petrolão
O índice de brasileiros que diz que o principal problema do país é a corrupção é maior que em qualquer momento do governo Lula: 21%. Em 2009, após o arrefecimento da crise do mensalão, eram só 9%.
De olho
De olho
Advogados de presos da Lava Jato aguardam com ansiedade a sessão da Segunda Turma do STF, que vai analisar na terça recurso do Ministério Público Federal para que o ex-diretor da Petrobras Renato Duque volte para a prisão.
Vela
Vela
Para os criminalistas, a decisão sobre Duque indicará as chances de libertação de seus clientes.
Canja...
Canja...
A força-tarefa da Lava Jato não pediu a prisão de João Vaccari Neto por entender que não havia risco de fuga ou destruição de provas por parte do tesoureiro do PT.
... de galinha
... de galinha
Policiais e procuradores também acreditavam que a prisão de Vaccari alertaria outros suspeitos e atrapalharia investigações relacionadas ao tesoureiro, como a denúncia de corrupção na Sete Brasil.
Sem Waze
Sem Waze
O juiz Sérgio Moro autorizou a condução coercitiva de Vaccari para depor em 18 de dezembro. A Polícia Federal precisou encontrar os endereços de todos os alvos da operação antes de deflagrá-la, 48 dias depois.
Chuva de tweets
Chuva de tweets
A crise hídrica de São Paulo foi assunto de 896 mil mensagens no Twitter só neste ano. O pico de postagens ocorreu em 27 de janeiro, quando a possibilidade de rodízio de 5 dias sem água por 2 com foi anunciada: 43.690 manifestações.
Reencontro
Reencontro
Geraldo Alckmin marcou para quarta-feira a primeira reunião do comitê da crise de água. Paulo Skaf, da Fiesp, rival do tucano em 2014, participará.
E eu?
E eu?
Jonas Donizette teve de pedir para integrar o grupo. O prefeito de Campinas temia que a cidade, que é abastecida pelo Cantareira, fosse ignorada nas decisões.
>> com BRUNO BOGHOSSIAN e PAULO GAMA
TIROTEIO
"Tive uma grata surpresa: assumi a função de líder da minoria e descobri que esse posto parece, na verdade, o de líder da maioria."
DO DEPUTADO BRUNO ARAÚJO (PSDB-PE), sobre a nova relação de forças na Câmara entre a oposição e a base aliada do governo Dilma Rousseff.
CONTRAPONTO
Agora aguenta
Na segunda-feira passada, dia seguinte à derrota imposta pela Câmara ao PT na disputa pela presidência da Casa, peemedebistas e oposicionistas faziam piada nos corredores do Congresso. Ainda sob o efeito da vitória de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) sobre Arlindo Chinaglia (PT-SP), o tucano Antonio Imbassahy (BA) perguntou a Manoel Junior (PMDB-PB):
-O que é que vocês vão dar ao PT agora que eles ficaram fora da Mesa Diretora?
-Vamos dar muitos dias difíceis! --respondeu o peemedebista, e os dois caíram na risada.
O Leviatã de Dilma Rousseff - LUIZ CARLOS AZEDO
CORREIO BRAZILIENSE - 08/02
Como os velhos jacobinos e os nossos castilhistas, a presidente da República acredita que o Estado pode tudo
No Livro de Jó, do Antigo Testamento, o Leviatã é descrito como um gigantesco monstro aquático. Ninguém poderia afrontá-lo e sair com vida. Deus assim o descreve no diálogo com Jó: "Quando se levanta, tremem as ondas do mar, as vagas do mar se afastam. Se uma espada o toca, ela não resiste, nem a lança, nem a azagaia, nem o dardo. O ferro para ele é palha, o bronze, pau podre." A imagem bíblica serviu de inspiração para O Leviatã, de Thomas Hobbes (1587-1666), obra seminal da moderna teoria do Estado, escrita durante a guerra civil na Inglaterra e publicada em 1661.
Hobbes parte do princípio de que os homens são egoístas e que o mundo não satisfaz todas as suas necessidades. No chamado estado natural, sem a existência da sociedade civil, há necessariamente competição entre os homens pela riqueza, segurança e glória. A luta que se segue é a guerra de todos contra todos, não pode haver comércio, indústria ou civilização, e a vida do homem é solitária, pobre, suja, brutal e curta.
A existência de um "contrato social" em que o Estado deteria consigo todo o poder da sociedade é a garantia da paz e da defesa comum dos indivíduos contra o caos e as guerras. Essa é a gênese do Estado absolutista - no qual todos se tornam súditos e o soberano, representante da vontade do povo, detentor da autoridade delegada pelos homens -, que operou a transição do feudalismo para o mercantilismo e a formação dos impérios modernos.
A presidente Dilma Rousseff, como os velhos jacobinos e os nossos castilhistas, acredita que o Estado pode tudo. Na juventude, sonhou que a tomada do poder pelas armas seria o bastante para se chegar ao paraíso. Com a anistia e a redemocratização do país, fez carreira política no poder instalado, primeiro em Porto Alegre, depois em Brasília. Tem todos os motivos para acreditar nisso: assim chegou ao Palácio da Alvorada, onde reside. Venceu duas eleições presidenciais, é bem verdade, mas atalhou o caminho pela força do Estado. Sem ele, de nada adiantaria o prestígio eleitoral do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não seria nem sequer candidata.
Essa concepção, na sua essência, tem uma matriz autoritária; golpista, sim, pois pressupõe uma vontade acima e alheia à opinião pública, cuja importância só é levada em conta nas eleições para ser manipulada pelo marketing. Essa é a única explicação plausível para a decisão de nomear um bancário do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, para o comando da Petrobras. Um quadro cascudo da alta burocracia petista, que não tem medo de crises de imagem nem de denúncias, mas sem nenhuma experiência na área de petróleo e gás.
A fortaleza
Não foi uma decisão desprovida de senso lógico, muito pelo contrário. Com o preço do petróleo em baixa, a exploração do pré-sal em grandes profundidades foi para as calendas; com o escândalo da Lava-Jato, os grandes projetos de ampliação da planta instalada de refino estão paralisados. As prioridades são a contabilidade da estatal, cujo balanço precisa ser maquiado, auditado e publicado, e uma negociação complicada com o mercado financeiro, uma vez que os acionistas minoritários estão em pé de guerra. No exterior, já pululam as ações judiciais; suspeita-se que houve uma milionária jogada financeira na Bolsa entre sua escolha e o anúncio dessa decisão porque alguém passou do bizu.
Mas tem também a necessidade de preservar o projeto de poder do PT e o modelo de capitalismo de Estado que entrou em xeque com o fracasso da "nova matriz econômica" e a volta do "mais do mesmo" - câmbio flutuante, meta de inflação e superavit fiscal - do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. A opção esperada era o alinhamento da nova diretoria da Petrobras com a nova orientação da economia. Dilma decidiu fazer o contrário: transformar a estatal e todo o arranjo industrial que a cerca numa fortaleza inexpugnável do seu Leviatã contra o mercado.
A imagem do monstro bíblico vem de novo a calhar porque serve de conceito para um estudo dos economistas Aldo Musacchioo, professor da Harvard Business Scholl, e de Sérgio G. Lazzarini, do Insper - Instituto de Ensino e Pesquisa, intitulado Reinventando o capitalismo de Estado (Portgfolio/Penguin). É um estudo comparado, com foco especial no Brasil, no qual são conceituadas três modalidades de Leviatãs ou, digamos, de "matriz econômica": o empreendedor, o acionista majoritário e o acionista minoritário. Temos as três: respectivamente, a Eletrobras, a Petrobras e a Vale.
Mas o "case" de destaque do livro é a JBS, que se tornou a potência global do mercado de carne e frango num passe de mágica, com dinheiro do BNDES. Doou ao todo R$ 352 milhões nestas eleições, segundo oTribunal Superior Eleitoral (TSE), dos quais R$ 69,2 milhões foram destinados à campanha de Dilma à reeleição. Também desembolsou R$ 61,2 milhões aos postulantes a uma vaga na Câmara dos Deputados e R$ 10,7 milhões aos candidatos ao Senado. É ou não é para acreditar no Livro de Jó?
Como os velhos jacobinos e os nossos castilhistas, a presidente da República acredita que o Estado pode tudo
No Livro de Jó, do Antigo Testamento, o Leviatã é descrito como um gigantesco monstro aquático. Ninguém poderia afrontá-lo e sair com vida. Deus assim o descreve no diálogo com Jó: "Quando se levanta, tremem as ondas do mar, as vagas do mar se afastam. Se uma espada o toca, ela não resiste, nem a lança, nem a azagaia, nem o dardo. O ferro para ele é palha, o bronze, pau podre." A imagem bíblica serviu de inspiração para O Leviatã, de Thomas Hobbes (1587-1666), obra seminal da moderna teoria do Estado, escrita durante a guerra civil na Inglaterra e publicada em 1661.
Hobbes parte do princípio de que os homens são egoístas e que o mundo não satisfaz todas as suas necessidades. No chamado estado natural, sem a existência da sociedade civil, há necessariamente competição entre os homens pela riqueza, segurança e glória. A luta que se segue é a guerra de todos contra todos, não pode haver comércio, indústria ou civilização, e a vida do homem é solitária, pobre, suja, brutal e curta.
A existência de um "contrato social" em que o Estado deteria consigo todo o poder da sociedade é a garantia da paz e da defesa comum dos indivíduos contra o caos e as guerras. Essa é a gênese do Estado absolutista - no qual todos se tornam súditos e o soberano, representante da vontade do povo, detentor da autoridade delegada pelos homens -, que operou a transição do feudalismo para o mercantilismo e a formação dos impérios modernos.
A presidente Dilma Rousseff, como os velhos jacobinos e os nossos castilhistas, acredita que o Estado pode tudo. Na juventude, sonhou que a tomada do poder pelas armas seria o bastante para se chegar ao paraíso. Com a anistia e a redemocratização do país, fez carreira política no poder instalado, primeiro em Porto Alegre, depois em Brasília. Tem todos os motivos para acreditar nisso: assim chegou ao Palácio da Alvorada, onde reside. Venceu duas eleições presidenciais, é bem verdade, mas atalhou o caminho pela força do Estado. Sem ele, de nada adiantaria o prestígio eleitoral do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não seria nem sequer candidata.
Essa concepção, na sua essência, tem uma matriz autoritária; golpista, sim, pois pressupõe uma vontade acima e alheia à opinião pública, cuja importância só é levada em conta nas eleições para ser manipulada pelo marketing. Essa é a única explicação plausível para a decisão de nomear um bancário do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, para o comando da Petrobras. Um quadro cascudo da alta burocracia petista, que não tem medo de crises de imagem nem de denúncias, mas sem nenhuma experiência na área de petróleo e gás.
A fortaleza
Não foi uma decisão desprovida de senso lógico, muito pelo contrário. Com o preço do petróleo em baixa, a exploração do pré-sal em grandes profundidades foi para as calendas; com o escândalo da Lava-Jato, os grandes projetos de ampliação da planta instalada de refino estão paralisados. As prioridades são a contabilidade da estatal, cujo balanço precisa ser maquiado, auditado e publicado, e uma negociação complicada com o mercado financeiro, uma vez que os acionistas minoritários estão em pé de guerra. No exterior, já pululam as ações judiciais; suspeita-se que houve uma milionária jogada financeira na Bolsa entre sua escolha e o anúncio dessa decisão porque alguém passou do bizu.
Mas tem também a necessidade de preservar o projeto de poder do PT e o modelo de capitalismo de Estado que entrou em xeque com o fracasso da "nova matriz econômica" e a volta do "mais do mesmo" - câmbio flutuante, meta de inflação e superavit fiscal - do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. A opção esperada era o alinhamento da nova diretoria da Petrobras com a nova orientação da economia. Dilma decidiu fazer o contrário: transformar a estatal e todo o arranjo industrial que a cerca numa fortaleza inexpugnável do seu Leviatã contra o mercado.
A imagem do monstro bíblico vem de novo a calhar porque serve de conceito para um estudo dos economistas Aldo Musacchioo, professor da Harvard Business Scholl, e de Sérgio G. Lazzarini, do Insper - Instituto de Ensino e Pesquisa, intitulado Reinventando o capitalismo de Estado (Portgfolio/Penguin). É um estudo comparado, com foco especial no Brasil, no qual são conceituadas três modalidades de Leviatãs ou, digamos, de "matriz econômica": o empreendedor, o acionista majoritário e o acionista minoritário. Temos as três: respectivamente, a Eletrobras, a Petrobras e a Vale.
Mas o "case" de destaque do livro é a JBS, que se tornou a potência global do mercado de carne e frango num passe de mágica, com dinheiro do BNDES. Doou ao todo R$ 352 milhões nestas eleições, segundo oTribunal Superior Eleitoral (TSE), dos quais R$ 69,2 milhões foram destinados à campanha de Dilma à reeleição. Também desembolsou R$ 61,2 milhões aos postulantes a uma vaga na Câmara dos Deputados e R$ 10,7 milhões aos candidatos ao Senado. É ou não é para acreditar no Livro de Jó?
O risco real de faltar luz - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S.PAULO - 08/02
Embora o governo continue tentando esconder a crise, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) - encarregado de acompanhar as condições de abastecimento e atendimento do mercado de energia elétrica no País - reconheceu que o risco de faltar luz passou do limite de tolerância de 5% e alcançou 7,3% nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste.
O risco maior e as previsões de que as chuvas continuarão insuficientes para elevar o nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas levaram o governo a liberar o uso pleno da usinas termoelétricas, mais poluentes e de custo operacional mais caro. Isso implicará mais aumento nas contas de luz do que os já previstos. O governo advertiu o consumidor, por meio do sistema de bandeiras adotado no início do ano, de que as contas vão subir - para fevereiro, vigora a bandeira vermelha, que indica acréscimo de R$ 3 por 100 kWh consumidos. Não contente, vai elevar para R$ 5,50 (mais 83%) o valor a ser adicionado à conta com a bandeira vermelha.
Nem assim, porém, estará inteiramente afastada a possibilidade de faltar energia, pois, mesmo com as termoelétricas funcionando a todo vapor, o risco nas regiões mais afetadas pela seca continuará acima do limite de segurança.
Em nota, o CMSE afirmou que o sistema está "estruturalmente equilibrado", citou ampliações ou construção de hidrelétricas, linhas de transmissão e subestações e garantiu que há "sobra estrutural de cerca de 7.300 megawatts médios para atender à carga prevista". Além disso, acrescenta a nota, o Sistema Interligado Nacional, que tem a função de assegurar o fornecimento de energia elétrica em qualquer ponto do território nacional independentemente da localização da usina geradora, "dispõe das condições estruturais para o abastecimento de todo o País".
Ou seja, mesmo tendo reconhecido que o risco de faltar energia ultrapassou o limite de segurança, e tendo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determinado o "despacho pleno" (ou o uso da capacidade total) das usinas térmicas, o CMSE afirma que não há problemas no setor. Repete, assim, o comportamento do governo Dilma Rousseff, que não reconhece as crises que se avolumam à sua frente.
Além das evidências físicas da crise - como o baixíssimo nível das represas que abastecem as hidrelétricas e a consequente redução do ritmo de sua produção -, o governo dispunha, desde maio do ano passado, de um instrumento formal para, reconhecendo a existência do problema, tomar providências para pelo menos evitar seu agravamento. Mas, decerto inspirado em cálculos político-eleitorais, nada fez.
Auditoria feita no início de 2014 pelo Tribunal de Contas da União (TCU) "encontrou fortes indícios de que a capacidade de geração de energia elétrica no País se configura estruturalmente insuficiente para garantir a segurança energética", como afirmam os auditores.
Entre as causas da "insuficiência estrutural", o TCU apontou falhas no planejamento da expansão do sistema, superestimação da capacidade das usinas, indisponibilidade de parte do sistema de geração térmica e atraso de obras.
Por isso, determinou ao Ministério de Minas e Energia que, em 90 dias, encaminhasse um plano de trabalho para a elaboração de estudos sobre as várias modalidades de geração de energia elétrica e os planos para sua utilização de modo a compatibilizar a segurança no abastecimento, o cumprimento da legislação ambiental e a economicidade do sistema.
Como nada disso foi feito, o TCU determinou, na quarta-feira passada, que, no prazo de 10 dias, o Ministério de Minas e Energia "se manifeste sobre o risco de a geração de energia elétrica não atender à demanda durante o exercício de 2015". Além disso, o governo deve enviar uma descrição detalhada das medidas que adotou para a redução do consumo de energia desde o surgimento, em 2012, dos primeiros sinais de problemas de geração.
Ao ignorar a crise no sistema elétrico, a nota do CMSE antecipa a atitude que o governo deverá tomar diante da nova determinação do TCU: ignorá-la.
Embora o governo continue tentando esconder a crise, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) - encarregado de acompanhar as condições de abastecimento e atendimento do mercado de energia elétrica no País - reconheceu que o risco de faltar luz passou do limite de tolerância de 5% e alcançou 7,3% nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste.
O risco maior e as previsões de que as chuvas continuarão insuficientes para elevar o nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas levaram o governo a liberar o uso pleno da usinas termoelétricas, mais poluentes e de custo operacional mais caro. Isso implicará mais aumento nas contas de luz do que os já previstos. O governo advertiu o consumidor, por meio do sistema de bandeiras adotado no início do ano, de que as contas vão subir - para fevereiro, vigora a bandeira vermelha, que indica acréscimo de R$ 3 por 100 kWh consumidos. Não contente, vai elevar para R$ 5,50 (mais 83%) o valor a ser adicionado à conta com a bandeira vermelha.
Nem assim, porém, estará inteiramente afastada a possibilidade de faltar energia, pois, mesmo com as termoelétricas funcionando a todo vapor, o risco nas regiões mais afetadas pela seca continuará acima do limite de segurança.
Em nota, o CMSE afirmou que o sistema está "estruturalmente equilibrado", citou ampliações ou construção de hidrelétricas, linhas de transmissão e subestações e garantiu que há "sobra estrutural de cerca de 7.300 megawatts médios para atender à carga prevista". Além disso, acrescenta a nota, o Sistema Interligado Nacional, que tem a função de assegurar o fornecimento de energia elétrica em qualquer ponto do território nacional independentemente da localização da usina geradora, "dispõe das condições estruturais para o abastecimento de todo o País".
Ou seja, mesmo tendo reconhecido que o risco de faltar energia ultrapassou o limite de segurança, e tendo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determinado o "despacho pleno" (ou o uso da capacidade total) das usinas térmicas, o CMSE afirma que não há problemas no setor. Repete, assim, o comportamento do governo Dilma Rousseff, que não reconhece as crises que se avolumam à sua frente.
Além das evidências físicas da crise - como o baixíssimo nível das represas que abastecem as hidrelétricas e a consequente redução do ritmo de sua produção -, o governo dispunha, desde maio do ano passado, de um instrumento formal para, reconhecendo a existência do problema, tomar providências para pelo menos evitar seu agravamento. Mas, decerto inspirado em cálculos político-eleitorais, nada fez.
Auditoria feita no início de 2014 pelo Tribunal de Contas da União (TCU) "encontrou fortes indícios de que a capacidade de geração de energia elétrica no País se configura estruturalmente insuficiente para garantir a segurança energética", como afirmam os auditores.
Entre as causas da "insuficiência estrutural", o TCU apontou falhas no planejamento da expansão do sistema, superestimação da capacidade das usinas, indisponibilidade de parte do sistema de geração térmica e atraso de obras.
Por isso, determinou ao Ministério de Minas e Energia que, em 90 dias, encaminhasse um plano de trabalho para a elaboração de estudos sobre as várias modalidades de geração de energia elétrica e os planos para sua utilização de modo a compatibilizar a segurança no abastecimento, o cumprimento da legislação ambiental e a economicidade do sistema.
Como nada disso foi feito, o TCU determinou, na quarta-feira passada, que, no prazo de 10 dias, o Ministério de Minas e Energia "se manifeste sobre o risco de a geração de energia elétrica não atender à demanda durante o exercício de 2015". Além disso, o governo deve enviar uma descrição detalhada das medidas que adotou para a redução do consumo de energia desde o surgimento, em 2012, dos primeiros sinais de problemas de geração.
Ao ignorar a crise no sistema elétrico, a nota do CMSE antecipa a atitude que o governo deverá tomar diante da nova determinação do TCU: ignorá-la.
Geral e irrestrito - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 08/02
Um surto de irritação degradou a opinião dos brasileiros a respeito de seus governantes a um nível de desprestígio ainda maior que aquele registrado em junho de 2013.
Trata-se, porém, de um junho invisível, de uma crítica que não sobreveio do debate que emanou dos protestos nas ruas, mas da súbita consciência da extensão e das consequências das mentiras da campanha eleitoral. É o que revela pesquisa Datafolha publicada hoje.
O colapso da confiança transparece em particular nas expectativas econômicas, que se deterioraram de modo veloz e inédito em quase 20 anos de registros do instituto.
O sentimento de desesperança e desaprovação vem acompanhado de perigoso descrédito do poder público. A maioria da população afirma que as autoridades mentem a maior parte do tempo ou omitem informações essenciais.
Ao fim da campanha eleitoral do ano passado, os ânimos exaltados desde meados de 2013 pareciam desanuviar-se. O prestígio da presidente Dilma Rousseff (PT), do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e do prefeito da capital paulista, Fernando Haddad (PT), recuperava-se no interregno de otimismo dos dias da votação.
Quando da reeleição, somente 20% dos eleitores tinham o governo Dilma como ruim ou péssimo. Ainda no início de dezembro, não se percebia, pelos dados do Datafolha, deterioração de sua imagem, exaltada no mundo mágico da propaganda política.
Agora, quando a vida real bateu à porta, 44% do eleitorado considera ruim ou péssima a gestão da petista, número que impressiona de duas maneiras. Primeiro, é muito pior, para Dilma, do que o verificado em meados de 2013, quando sua desaprovação saltou para 25%. Talvez mais importante, essa fatia dos entrevistados supera a dos que aprovam seu governo, meros 23% de ótimo e bom.
Em condição bem melhor que a da petista, Geraldo Alckmin viu sua avaliação positiva cair dez pontos (38% de ótimo/bom), numa situação semelhante à registrada em junho de 2013. Também Fernando Haddad sentiu efeito parecido: a parcela que reprova sua administração passou de 28% para 44%.
Dificilmente a imagem dos governantes terá sido arruinada por questões como corrupção na Petrobras, formação de um ministério medíocre, falta de água em São Paulo ou polêmicas urbanísticas paulistanas –a população já se deparava com elas em 2014.
A irritação deriva do fato de que o eleitorado se deu conta do engodo de que foi vítima e do custo social e econômico do embuste.
Eleitos em outubro, Dilma Rousseff e Geraldo Alckmin não tardaram a desmentir, na prática, o que vinham afirmando enfaticamente.
Vieram as medidas econômicas amargas, represadas pela demagogia irresponsável. Subiram as taxas de juros e anunciaram-se aumentos brutais do preço da eletricidade; houve reajuste na tarifa de metrô, trens e ônibus; despesas sociais foram cortadas, enquanto o governo Dilma encaminhava a elevação da carga tributária.
Tal saraivada traduz incúrias velhas e novas no trato das contas públicas, da infraestrutura de serviços, da inflação. A fatura dos descasos de anos e das manipulações promovidas em períodos eleitorais começou a chegar na vida cotidiana. O cidadão compreendeu o logro e calcula seus efeitos.
Não é de admirar a revolta.
No âmbito estadual, de forma dissimulada e parcial, o governo de São Paulo reconhece a gravidade da crise da água. A frustração das últimas esperanças de que haveria chuvas suficientes em janeiro e um apagão energético insuflaram o sentimento de crise.
Para 60% dos entrevistados pelo Datafolha, Dilma disse mais mentiras do que verdades na campanha eleitoral; no caso de Alckmin, são 44%, embora na capital seu descrédito seja maior: 57%. Além do mais, para 81% da população paulista, o governo divulga apenas as informações sobre a crise da água que são de seu interesse.
Os cidadãos têm visão realista do cenário, ao contrário do que se passa com os governantes. Para 65% dos entrevistados pelo país, é o caso de dar início ao racionamento de energia; entre os que foram ouvidos na região metropolitana de São Paulo, 60% são a favor do rodízio do fornecimento de água.
No que respeita à economia, os brasileiros estão alarmados como nunca nos últimos 20 anos. A inflação vai subir, de acordo com a opinião de 81% dos entrevistados. O medo do aumento do desemprego afeta 62% dos cidadãos –não era tão grande desde junho de 2001, quando a taxa de desemprego era o dobro da atual, pelo menos.
Tais números não traduzem a situação presente do emprego nem representam uma estimativa refletida da inflação, mas mostram que o brasileiro desiludido percebe o efeito que as medidas econômicas e a escassez de energia terão na sua vida e na atividade do país: um choque de desconfiança.
No conjunto, os números da pesquisa Datafolha revelam um cidadão frustrado e irritado, mas ainda assim capaz de perceber com mais clareza e responsabilidade do que os governantes a necessidade de implementar medidas de contenção das diversas crises.
Brasileiros que, na maioria, optam por decisões realistas, se tratados com respeito democrático; isto é, se bem informados, se não são privados do direito de debate das questões públicas. De outro modo, como agora, manifestam sua revolta por terem sido enganados.
A pesquisa traz um alerta claro.
Um surto de irritação degradou a opinião dos brasileiros a respeito de seus governantes a um nível de desprestígio ainda maior que aquele registrado em junho de 2013.
Trata-se, porém, de um junho invisível, de uma crítica que não sobreveio do debate que emanou dos protestos nas ruas, mas da súbita consciência da extensão e das consequências das mentiras da campanha eleitoral. É o que revela pesquisa Datafolha publicada hoje.
O colapso da confiança transparece em particular nas expectativas econômicas, que se deterioraram de modo veloz e inédito em quase 20 anos de registros do instituto.
O sentimento de desesperança e desaprovação vem acompanhado de perigoso descrédito do poder público. A maioria da população afirma que as autoridades mentem a maior parte do tempo ou omitem informações essenciais.
Ao fim da campanha eleitoral do ano passado, os ânimos exaltados desde meados de 2013 pareciam desanuviar-se. O prestígio da presidente Dilma Rousseff (PT), do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e do prefeito da capital paulista, Fernando Haddad (PT), recuperava-se no interregno de otimismo dos dias da votação.
Quando da reeleição, somente 20% dos eleitores tinham o governo Dilma como ruim ou péssimo. Ainda no início de dezembro, não se percebia, pelos dados do Datafolha, deterioração de sua imagem, exaltada no mundo mágico da propaganda política.
Agora, quando a vida real bateu à porta, 44% do eleitorado considera ruim ou péssima a gestão da petista, número que impressiona de duas maneiras. Primeiro, é muito pior, para Dilma, do que o verificado em meados de 2013, quando sua desaprovação saltou para 25%. Talvez mais importante, essa fatia dos entrevistados supera a dos que aprovam seu governo, meros 23% de ótimo e bom.
Em condição bem melhor que a da petista, Geraldo Alckmin viu sua avaliação positiva cair dez pontos (38% de ótimo/bom), numa situação semelhante à registrada em junho de 2013. Também Fernando Haddad sentiu efeito parecido: a parcela que reprova sua administração passou de 28% para 44%.
Dificilmente a imagem dos governantes terá sido arruinada por questões como corrupção na Petrobras, formação de um ministério medíocre, falta de água em São Paulo ou polêmicas urbanísticas paulistanas –a população já se deparava com elas em 2014.
A irritação deriva do fato de que o eleitorado se deu conta do engodo de que foi vítima e do custo social e econômico do embuste.
Eleitos em outubro, Dilma Rousseff e Geraldo Alckmin não tardaram a desmentir, na prática, o que vinham afirmando enfaticamente.
Vieram as medidas econômicas amargas, represadas pela demagogia irresponsável. Subiram as taxas de juros e anunciaram-se aumentos brutais do preço da eletricidade; houve reajuste na tarifa de metrô, trens e ônibus; despesas sociais foram cortadas, enquanto o governo Dilma encaminhava a elevação da carga tributária.
Tal saraivada traduz incúrias velhas e novas no trato das contas públicas, da infraestrutura de serviços, da inflação. A fatura dos descasos de anos e das manipulações promovidas em períodos eleitorais começou a chegar na vida cotidiana. O cidadão compreendeu o logro e calcula seus efeitos.
Não é de admirar a revolta.
No âmbito estadual, de forma dissimulada e parcial, o governo de São Paulo reconhece a gravidade da crise da água. A frustração das últimas esperanças de que haveria chuvas suficientes em janeiro e um apagão energético insuflaram o sentimento de crise.
Para 60% dos entrevistados pelo Datafolha, Dilma disse mais mentiras do que verdades na campanha eleitoral; no caso de Alckmin, são 44%, embora na capital seu descrédito seja maior: 57%. Além do mais, para 81% da população paulista, o governo divulga apenas as informações sobre a crise da água que são de seu interesse.
Os cidadãos têm visão realista do cenário, ao contrário do que se passa com os governantes. Para 65% dos entrevistados pelo país, é o caso de dar início ao racionamento de energia; entre os que foram ouvidos na região metropolitana de São Paulo, 60% são a favor do rodízio do fornecimento de água.
No que respeita à economia, os brasileiros estão alarmados como nunca nos últimos 20 anos. A inflação vai subir, de acordo com a opinião de 81% dos entrevistados. O medo do aumento do desemprego afeta 62% dos cidadãos –não era tão grande desde junho de 2001, quando a taxa de desemprego era o dobro da atual, pelo menos.
Tais números não traduzem a situação presente do emprego nem representam uma estimativa refletida da inflação, mas mostram que o brasileiro desiludido percebe o efeito que as medidas econômicas e a escassez de energia terão na sua vida e na atividade do país: um choque de desconfiança.
No conjunto, os números da pesquisa Datafolha revelam um cidadão frustrado e irritado, mas ainda assim capaz de perceber com mais clareza e responsabilidade do que os governantes a necessidade de implementar medidas de contenção das diversas crises.
Brasileiros que, na maioria, optam por decisões realistas, se tratados com respeito democrático; isto é, se bem informados, se não são privados do direito de debate das questões públicas. De outro modo, como agora, manifestam sua revolta por terem sido enganados.
A pesquisa traz um alerta claro.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Bendine é um nome sem prestígio para reerguer a [Petrobras]”
Senador Ronaldo Caiado (DEM-GO), sobre a escolha de Dilma para comandar a estatal
LULA E ALIADOS QUEREM MERCADANTE FORA DO GOVERNO
O ex-presidente Lula, que o acusou de haver “sequestrado” o governo, e líderes de partidos aliados pressionam Dilma a se livrar de Aloizio Mercadante (Casa Civil), que azedou de vez as relações do governo com o Congresso. Trapalhão, ele conseguiu piorar o clima, após a vitória de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ao ameaçar distribuir cargos de segundo escalão segundo o grau de obediência dos parlamentares.
NÃO ENTENDEU NADA
Mercadante não percebeu que Eduardo Cunha venceu porque fez os deputados acreditarem que enfim seriam respeitados pelo governo.
REFÉM DE LUXO
Lula e os líderes aliados reconhecem ser difícil levar Dilma a demitir Mercadante. Ele é hoje o único contado dela com a vida “lá fora”.
ISOLAMENTO
Para tornar Dilma dependente, Mercadante afastou do Planalto todos os que tinham acesso a ela, inclusive o velho assessor Gilles Azevedo.
SR. DERROTA
A arrogância de Mercadante derrotou o candidato do PT a presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, segundo acredita a cúpula petista.
TEMER ARTICULA PARA APROVAR DISTRITÃO NO CONGRESSO
Contrariando o PT, que quer implantar voto em lista na próxima eleição, o vice-presidente da República, Michel Temer, articula para aprovar ainda este ano a tese do “distritão”. O PMDB negocia o apoio do PSDB para derrotar a proposta de reforma política do PT. O tucanato já está unido ao PMDB para impedir a criação do Partido Liberal, articulado pelo ministro Gilberto Kassab para esvaziar o PMDB e a oposição.
JUNTOS NA CAUSA
Michel Temer almoçou no dia 4 com deputado Miro Teixeira (PROS-RJ), a quem pediu para articular a aprovação do ‘distritão’ na Câmara.
CONSULTA POPULAR
Fiel escudeiro de Temer, Moreira Franco elaborará até março proposta de reforma com base em enquete da Fundação Ulysses Guimarães.
SEM PUXADORES
O distritão, que se configura na eleição majoritária para deputados e vereadores, acabaria com puxadores de votos como Tiririca, Romário...
BRIGA DE FOICE
Em meio ao escândalo do Petrolão, a Comissão de Minas e Energia da Câmara nunca foi tão cobiçada por deputados, aliados e de oposição. A fila de candidatos a membro titular e até suplente é enorme.
SEM VERGONHA
Apesar de o ministro Pepe Vargas (Rel. Institucionais) dar de ombros para o envolvimento do tesoureiro do PT João Vaccari Neto na operação Lava Jato, que apura o roubou à Petrobras, Vaccari foi um dos assuntos mais comentados (trending topics) no Twitter na semana.
RACHA NO PSOL
Isolado após se aproximar do governo Dilma, o senador Randolfe Rodrigues (AP) está negociando sua saída do PSOL. O deputado reeleito Jean Wyllys (RJ) também anda às turras com o partido.
PEQUENA FORTUNA
A diretoria-geral do Senado publicou portaria na sexta (29) concedendo pensão à Iracy Ramos Marinho, mulher do falecido senador Josaphat Ramos Marinho. A pensão corresponde a 50% dos vencimentos do ex-senador a partir de 31 de março de 2002, data do óbito.
E O RODÍZIO?
Deputados do PSDB ficaram incomodados com a escolha da dupla Carlos Sampaio (SP) e Bruno Araújo (PE) para representar a bancada e o bloco da Minoria. Os dois foram líderes na legislatura passada.
ENTRA NA FILA
Ex-deputado, Edson Giroto (PR) tem coletado assinaturas na bancada do Mato Grosso do Sul para ser indicado à diretoria do DNIT, que tem orçamento de mais de R$ 8 bilhões e é muito cobiçado por autoridades.
FUTURO PMB
Capitão Augusto (PR-SP) causou estranheza ao tomar posse e circular durante toda a semana usando farda de policial no Congresso. O deputado está na linha de frente da criação do Partido Militar Brasileiro.
FINANÇAS E TRIBUTAÇÃO
O PSDB indicará o tucano Giuseppe Vecci (GO), aliado do governador Marconi Perillo, para presidir a Comissão de Finanças e Tributação da Câmara. O acordo foi feito com o presidente Eduardo Cunha (PMDB).
FIM DA MAMATA
Mal terminou eleição, deputados já descem a lenha no novo presidente da Câmara: eles não querem trabalhar às quintas, como determinou Eduardo Cunha.
Senador Ronaldo Caiado (DEM-GO), sobre a escolha de Dilma para comandar a estatal
LULA E ALIADOS QUEREM MERCADANTE FORA DO GOVERNO
O ex-presidente Lula, que o acusou de haver “sequestrado” o governo, e líderes de partidos aliados pressionam Dilma a se livrar de Aloizio Mercadante (Casa Civil), que azedou de vez as relações do governo com o Congresso. Trapalhão, ele conseguiu piorar o clima, após a vitória de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ao ameaçar distribuir cargos de segundo escalão segundo o grau de obediência dos parlamentares.
NÃO ENTENDEU NADA
Mercadante não percebeu que Eduardo Cunha venceu porque fez os deputados acreditarem que enfim seriam respeitados pelo governo.
REFÉM DE LUXO
Lula e os líderes aliados reconhecem ser difícil levar Dilma a demitir Mercadante. Ele é hoje o único contado dela com a vida “lá fora”.
ISOLAMENTO
Para tornar Dilma dependente, Mercadante afastou do Planalto todos os que tinham acesso a ela, inclusive o velho assessor Gilles Azevedo.
SR. DERROTA
A arrogância de Mercadante derrotou o candidato do PT a presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, segundo acredita a cúpula petista.
TEMER ARTICULA PARA APROVAR DISTRITÃO NO CONGRESSO
Contrariando o PT, que quer implantar voto em lista na próxima eleição, o vice-presidente da República, Michel Temer, articula para aprovar ainda este ano a tese do “distritão”. O PMDB negocia o apoio do PSDB para derrotar a proposta de reforma política do PT. O tucanato já está unido ao PMDB para impedir a criação do Partido Liberal, articulado pelo ministro Gilberto Kassab para esvaziar o PMDB e a oposição.
JUNTOS NA CAUSA
Michel Temer almoçou no dia 4 com deputado Miro Teixeira (PROS-RJ), a quem pediu para articular a aprovação do ‘distritão’ na Câmara.
CONSULTA POPULAR
Fiel escudeiro de Temer, Moreira Franco elaborará até março proposta de reforma com base em enquete da Fundação Ulysses Guimarães.
SEM PUXADORES
O distritão, que se configura na eleição majoritária para deputados e vereadores, acabaria com puxadores de votos como Tiririca, Romário...
BRIGA DE FOICE
Em meio ao escândalo do Petrolão, a Comissão de Minas e Energia da Câmara nunca foi tão cobiçada por deputados, aliados e de oposição. A fila de candidatos a membro titular e até suplente é enorme.
SEM VERGONHA
Apesar de o ministro Pepe Vargas (Rel. Institucionais) dar de ombros para o envolvimento do tesoureiro do PT João Vaccari Neto na operação Lava Jato, que apura o roubou à Petrobras, Vaccari foi um dos assuntos mais comentados (trending topics) no Twitter na semana.
RACHA NO PSOL
Isolado após se aproximar do governo Dilma, o senador Randolfe Rodrigues (AP) está negociando sua saída do PSOL. O deputado reeleito Jean Wyllys (RJ) também anda às turras com o partido.
PEQUENA FORTUNA
A diretoria-geral do Senado publicou portaria na sexta (29) concedendo pensão à Iracy Ramos Marinho, mulher do falecido senador Josaphat Ramos Marinho. A pensão corresponde a 50% dos vencimentos do ex-senador a partir de 31 de março de 2002, data do óbito.
E O RODÍZIO?
Deputados do PSDB ficaram incomodados com a escolha da dupla Carlos Sampaio (SP) e Bruno Araújo (PE) para representar a bancada e o bloco da Minoria. Os dois foram líderes na legislatura passada.
ENTRA NA FILA
Ex-deputado, Edson Giroto (PR) tem coletado assinaturas na bancada do Mato Grosso do Sul para ser indicado à diretoria do DNIT, que tem orçamento de mais de R$ 8 bilhões e é muito cobiçado por autoridades.
FUTURO PMB
Capitão Augusto (PR-SP) causou estranheza ao tomar posse e circular durante toda a semana usando farda de policial no Congresso. O deputado está na linha de frente da criação do Partido Militar Brasileiro.
FINANÇAS E TRIBUTAÇÃO
O PSDB indicará o tucano Giuseppe Vecci (GO), aliado do governador Marconi Perillo, para presidir a Comissão de Finanças e Tributação da Câmara. O acordo foi feito com o presidente Eduardo Cunha (PMDB).
FIM DA MAMATA
Mal terminou eleição, deputados já descem a lenha no novo presidente da Câmara: eles não querem trabalhar às quintas, como determinou Eduardo Cunha.
sábado, fevereiro 07, 2015
Já vimos esse filme - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 07/02
Revendo um velho preceito jurídico que manda “na dúvida, a favor do réu”, Lula disse: “Na dúvida, fique com o companheiro”, já colocando indiretamente Vacari como réu nesse processo. Mais um tesoureiro do PT encalacrado com métodos nada ortodoxos de recolher doações políticas.
Delúbio Soares, de triste memória, achava que tudo terminaria em piada, e ele terminou na cadeia. Mas não abriu o bico, o que parece ser condição sine qua non para assumir essa tarefa partidária.
Não há mais volta nesse pântano em que o PT se encalacrou, e o que vier daí será apenas para aumentar o ridículo da situação, dar o tom escandaloso dessa tragicomédia em que nos meteram.
Quando a presidente Dilma Rousseff, a grande muda nesses dias de crises, sai de seus cuidados para dar posse no ministério das ações estratégicas a Mangabeira Unger, e fala da importância do pré-sal para nossa educação, aí vemos que ela está fora de órbita.
Fala de uma situação que já está superada pela conjuntura internacional, assim como, por exemplo, os sonhos megalômanos de Mangabeira Unger para os BRICS, ou o aqueduto para levar água do Amazonas para o nordeste.
Quando o ex-presidente Lula, como um Jim Jones aloprado, leva ao suicídio político seus seguidores repetindo na festa dos 35 anos do PT o mesmo discurso da festa dos 25 anos, em que o mensalão estava em evidência, vemos que o partido não saiu do lugar onde sempre esteve. Dez anos depois, o petrolão rebobina o filme para contar novamente a mesma história.
O PT manteve os mesmos instrumentos de fazer política que sempre usou, transformando o cenário brasileiro em uma baixa disputa sindicalista, em que valem todos os métodos para vencer, e em que o adversário torna-se inimigo e precisa ser destruído, não apenas derrotado.
Quando um executivo petista como Aldemar Bendini é visto como um adepto de políticas progressistas, e o que de mais progressista que se vê em sua biografia foi afrontar as normas internas do Banco do Brasil para conceder um empréstimo milionário para uma socialite deslumbrada, vemos que não há mais saída para esses que militam por uma causa que é apenas uma frase no programa partidário vazio.
Val Merchiori é a versão real de Dorinha, a socialite socialista de Luis Fernando Veríssimo. O progressismo representado pela nomeação de um Aldemir Bendini para presidir a Petrobras é uma tragédia tornada farsa pela repetição de um truque mal feito.
Ainda mais quando se constata que mesmo no atual Conselho de Administração houve votos contrários à sua nomeação, assim como os novos diretores receberam o veto de conselheiros. Os representantes dos minoritários foram atropelados pela maioria governista, que manteve sob controle a gestão da Petrobras, não para defendê-la do ataque dos privatistas, essa bobagem de militantes fora do eixo ou de má-fé, mas para blindar o Palácio do Planalto, repentinamente desguarnecido com a demissão antecipada de Graça Foster e parte de sua diretoria.
Bendine é o primeiro presidente da Petrobras desde que o PT chegou ao poder que não é filiado ao partido, mas tornou-se petista “de coração”. Primeiro José Eduardo Dutra, depois José Sérgio Gabrielli, dois sindicalistas da área, e em seguida Graça Foster, o PT perdeu a condição política de indicar o substituto, e se preparava para abrir mão do controle da estatal para um executivo do mercado. Não foi por falta de convite, mas não apareceu ninguém interessado nesse emprego, com os problemas colaterais que ele traz consigo. Paradoxalmente, a recusa ajudou Dilma a buscar no seu entorno o substituto, dando uma saída política para a crise que se no momento interessa ao Palácio do Planalto, a médio prazo deve lhe trazer mais dores de cabeça.
A pátria deseducadora - PLÁCIDO FERNANDES VIEIRA
CORREIO BRAZILIENSE - 07/02
O Brasil ainda tem jeito? Temo que não. Houve um tempo em que os ladrões, inclusive os de colarinho branco, ficavam envergonhados quando eram pilhados em flagrante e seus nomes apareciam estampados nos jornais. Hoje, eles nem se constrangem mais. Pelo contrário. Seus roubos bilionários são denunciados num dia, e eles fazem festa no outro. Pior: são ovacionados como "heróis" do povo brasileiro. Saquear os cofres públicos, "em nome da causa" - sabe-se lá que "causa" - é revolucionário. Cobrar ética dos gatunos é reacionarismo, udenismo, golpismo, coisa de direita.
Ainda esta semana, ao prender novos integrantes da quadrilha que afundou a Petrobras, um dos procuradores que investiga a roubalheira se disse estarrecido: o esquema criminoso, disse ele, continua a desviar recursos da estatal e de suas subsidiárias até hoje! É um poço sem fundo de maracutaias na companhia que era orgulho nacional. Estimativas da própria petroleira indicam que as perdas com corrupção e má gestão chegam a superar R$ 86 bilhões. E o Planalto fez de tudo para esconder esse número, que só veio à tona graças à pressão de acionistas minoritários que têm assento no conselho da empresa. É dinheiro demais. Faça as contas: bastavam R$ 6 bilhões para tirar o GDF do maior buraco da história!
Na "pátria educadora", onde professores ganham uma miséria e as escolas públicas estão sucateadas, um ex-gerente da Petrobras que fez acordo de delação premiada promete devolver US$ 100 milhões aos cofres públicos. Ele confessou à Justiça que o PT recebeu até US$ 200 milhões desviados da estatal. A conta parece subestimada. Afinal, só ele, que era um reles gerente, levou ao menos metade da bolada! Outro, um executivo de empreiteira, afirmou que uma das formas de lavar o dinheiro roubado era fazendo "doações legais" ao PT. O partido, claro, refuta todas as acusações.
Aos delatores, cabe provar tudo o que dizem. Pelo acordo de delação, eles não podem mentir. Caso não falem apenas a verdade, perderão o benefício de redução da pena. As denúncias são gravíssimas. Se for confirmado que dinheiro roubado da Petrobras foi parar na campanha de Dilma, a temperatura política no Brasil este ano vai subir, ainda que a oposição ao governo quase não exista. Só não subirá mais, claro, do que o preço da gasolina e da tarifa de energia elétrica. Quer apostar?
O Brasil ainda tem jeito? Temo que não. Houve um tempo em que os ladrões, inclusive os de colarinho branco, ficavam envergonhados quando eram pilhados em flagrante e seus nomes apareciam estampados nos jornais. Hoje, eles nem se constrangem mais. Pelo contrário. Seus roubos bilionários são denunciados num dia, e eles fazem festa no outro. Pior: são ovacionados como "heróis" do povo brasileiro. Saquear os cofres públicos, "em nome da causa" - sabe-se lá que "causa" - é revolucionário. Cobrar ética dos gatunos é reacionarismo, udenismo, golpismo, coisa de direita.
Ainda esta semana, ao prender novos integrantes da quadrilha que afundou a Petrobras, um dos procuradores que investiga a roubalheira se disse estarrecido: o esquema criminoso, disse ele, continua a desviar recursos da estatal e de suas subsidiárias até hoje! É um poço sem fundo de maracutaias na companhia que era orgulho nacional. Estimativas da própria petroleira indicam que as perdas com corrupção e má gestão chegam a superar R$ 86 bilhões. E o Planalto fez de tudo para esconder esse número, que só veio à tona graças à pressão de acionistas minoritários que têm assento no conselho da empresa. É dinheiro demais. Faça as contas: bastavam R$ 6 bilhões para tirar o GDF do maior buraco da história!
Na "pátria educadora", onde professores ganham uma miséria e as escolas públicas estão sucateadas, um ex-gerente da Petrobras que fez acordo de delação premiada promete devolver US$ 100 milhões aos cofres públicos. Ele confessou à Justiça que o PT recebeu até US$ 200 milhões desviados da estatal. A conta parece subestimada. Afinal, só ele, que era um reles gerente, levou ao menos metade da bolada! Outro, um executivo de empreiteira, afirmou que uma das formas de lavar o dinheiro roubado era fazendo "doações legais" ao PT. O partido, claro, refuta todas as acusações.
Aos delatores, cabe provar tudo o que dizem. Pelo acordo de delação, eles não podem mentir. Caso não falem apenas a verdade, perderão o benefício de redução da pena. As denúncias são gravíssimas. Se for confirmado que dinheiro roubado da Petrobras foi parar na campanha de Dilma, a temperatura política no Brasil este ano vai subir, ainda que a oposição ao governo quase não exista. Só não subirá mais, claro, do que o preço da gasolina e da tarifa de energia elétrica. Quer apostar?
Novos direitos - CRISTOVAM BUARQUE
O GLOBO - 07/02
De tanto repetirem a própria publicidade, as lideranças fizeram o povo acreditar nas ilusões
O problema do ajuste fiscal está na falta de ajustes sociais, que substituam direitos velhos por novos direitos estruturais, assegurando bem-estar social permanente aos cidadãos. Ao longo dos últimos anos, o Brasil optou por uma verdadeira folia de gastos públicos, consumismo exacerbado, baixo nível de poupança e investimento, irresponsabilidade fiscal, preços administrados, contabilidade criativa escondendo a realidade, desonerações fiscais em dimensões escandalosas. Ignorando os alertas, os partidos no governo comemoravam euforicamente os benefícios do curto prazo. De tanto repetirem a própria publicidade, as lideranças fizeram o povo acreditar nas ilusões: o pré-sal resolveria tudo, empresas como o grupo X colocariam o país no cenário mundial, o BNDES construiria a nação emergente mais dinâmica do século 21.
A realidade desfez as ilusões, os alertas se mostraram proféticos, mas a eleição não permitia que se admitisse a crise. A folia econômica que se esgotava chegou à política e as ilusões foram ampliadas pelo marketing. Os eleitores passaram a acreditar que nunca o Brasil fora tão rico, dinâmico e sem pobreza, e que o país daria passos para trás se não reelegesse o grupo no poder.
O resultado é que a economia brasileira chegou a 2014 em uma situação de crise de proporções catastróficas: déficit em transações correntes de 4,2%, déficit nominal de 6,7% e dívida pública bruta de 6,3% (em relação ao PIB); além de inflação persistente acima da meta.
Agora, passadas as eleições, o governo faz tudo o que acusava seus opositores de pretenderem fazer contra o povo e o país: elevação da taxa de juros, controle de gastos, redução de direitos e realismo nos preços passaram a ser defendidos como ajustes necessários. A fala do novo ministro da Fazenda, carregada de medidas antifolia, passou a ser aceita pelos que as criticavam, enquanto outros que antes se beneficiavam da folia começam a criticar os ajustes.
O problema das últimas medidas não está na fala do ministro Levy controlando ou eliminando direitos trabalhistas, mas na falta de falas ousadas dos demais ministros, como do Trabalho, da Educação e da Saúde, oferecendo novos direitos. Alguns ajustes nos chamados benefícios sociais são necessários para corrigir os desastres criados pela folia fiscal, mas, em vez de repudiá-los ou de se conformar a eles, é preciso atualizá-los e fazê-los avançar. Alguns dos antigos direitos trabalhistas não têm como ser mantidos, mas novos direitos devem ser implementados.
Alguns dos atuais direitos precisarão ser moralizados, modificados e substituídos por direitos contemporâneos, como: direito do filho do trabalhador à mesma escola de qualidade do filho do patrão; licenças periódicas para efetiva capacitação; direito do trabalhador à licença para ir à escola do filho e para cuidar preventivamente de sua saúde.
De tanto repetirem a própria publicidade, as lideranças fizeram o povo acreditar nas ilusões
O problema do ajuste fiscal está na falta de ajustes sociais, que substituam direitos velhos por novos direitos estruturais, assegurando bem-estar social permanente aos cidadãos. Ao longo dos últimos anos, o Brasil optou por uma verdadeira folia de gastos públicos, consumismo exacerbado, baixo nível de poupança e investimento, irresponsabilidade fiscal, preços administrados, contabilidade criativa escondendo a realidade, desonerações fiscais em dimensões escandalosas. Ignorando os alertas, os partidos no governo comemoravam euforicamente os benefícios do curto prazo. De tanto repetirem a própria publicidade, as lideranças fizeram o povo acreditar nas ilusões: o pré-sal resolveria tudo, empresas como o grupo X colocariam o país no cenário mundial, o BNDES construiria a nação emergente mais dinâmica do século 21.
A realidade desfez as ilusões, os alertas se mostraram proféticos, mas a eleição não permitia que se admitisse a crise. A folia econômica que se esgotava chegou à política e as ilusões foram ampliadas pelo marketing. Os eleitores passaram a acreditar que nunca o Brasil fora tão rico, dinâmico e sem pobreza, e que o país daria passos para trás se não reelegesse o grupo no poder.
O resultado é que a economia brasileira chegou a 2014 em uma situação de crise de proporções catastróficas: déficit em transações correntes de 4,2%, déficit nominal de 6,7% e dívida pública bruta de 6,3% (em relação ao PIB); além de inflação persistente acima da meta.
Agora, passadas as eleições, o governo faz tudo o que acusava seus opositores de pretenderem fazer contra o povo e o país: elevação da taxa de juros, controle de gastos, redução de direitos e realismo nos preços passaram a ser defendidos como ajustes necessários. A fala do novo ministro da Fazenda, carregada de medidas antifolia, passou a ser aceita pelos que as criticavam, enquanto outros que antes se beneficiavam da folia começam a criticar os ajustes.
O problema das últimas medidas não está na fala do ministro Levy controlando ou eliminando direitos trabalhistas, mas na falta de falas ousadas dos demais ministros, como do Trabalho, da Educação e da Saúde, oferecendo novos direitos. Alguns ajustes nos chamados benefícios sociais são necessários para corrigir os desastres criados pela folia fiscal, mas, em vez de repudiá-los ou de se conformar a eles, é preciso atualizá-los e fazê-los avançar. Alguns dos antigos direitos trabalhistas não têm como ser mantidos, mas novos direitos devem ser implementados.
Alguns dos atuais direitos precisarão ser moralizados, modificados e substituídos por direitos contemporâneos, como: direito do filho do trabalhador à mesma escola de qualidade do filho do patrão; licenças periódicas para efetiva capacitação; direito do trabalhador à licença para ir à escola do filho e para cuidar preventivamente de sua saúde.
A solução petista - IGOR GIELOW
FOLHA DE SP - 07/02
BRASÍLIA - Como seria previsível, o PT na sua festa de 35 anos ofertou ao governo Dilma a saída da radicalização para enfrentar a crise existencial que se abate sobre o partido e sua gestão na esfera federal.
Seus caciques defenderam João Vaccari Neto, o tesoureiro mais do que suspeito segundo a Polícia Federal apura, e o próprio acusou o famoso golpe das elites contra o probo governo dos trabalhadores ao ser apontado como parte da gatunagem que assola a Petrobras.
É uma furada. Um filme velho que remonta a 2004, quando na comemoração dos 24 anos do petismo foi feita a defesa de José Dirceu, acertado pelo petardo Waldomiro Diniz (o seu faz-tudo no Congresso, pego cobrando propinas, sempre elas).
A narrativa ganhou corpo em 2005, com a reação à revelação do mensalão. "Todo mundo faz caixa 2", disseram Lula e o PT. O STF não comprou a balela e a cúpula do partido, Dirceu à frente, foi parar na cadeia.
O que ouvimos de Lula e companhia agora? Que o financiamento de campanhas pelas empreiteiras investigadas no escândalo da Petrobras era legal e para todos os partidos, como se o PT e aliados fossem virgens a passear em um prostíbulo.
Há duas mistificações aqui. Empreiteiras doam para todo mundo, só que dão mais para quem está no poder e pode usar de esquemas de favorecimento. A graça da história é que a Lava Jato descobriu que propinas foram dadas dentro da lei.
A segunda observação peca pela obviedade. Ainda que grana suja tenha abastecido aqui e ali partidos de oposição, o grosso absoluto do apurado aponta para o PT e os seus. A oposição não indicava diretores corruptos na Petrobras.
Ao indicar Aldemir Bendine para descascar o abacaxi gigante da Petrobras, Dilma mostrou-se sozinha em suas opções. Resta saber se daqui para a frente ela irá seguir o receituário petista do negativismo e correr o risco de isolar-se ainda mais.
BRASÍLIA - Como seria previsível, o PT na sua festa de 35 anos ofertou ao governo Dilma a saída da radicalização para enfrentar a crise existencial que se abate sobre o partido e sua gestão na esfera federal.
Seus caciques defenderam João Vaccari Neto, o tesoureiro mais do que suspeito segundo a Polícia Federal apura, e o próprio acusou o famoso golpe das elites contra o probo governo dos trabalhadores ao ser apontado como parte da gatunagem que assola a Petrobras.
É uma furada. Um filme velho que remonta a 2004, quando na comemoração dos 24 anos do petismo foi feita a defesa de José Dirceu, acertado pelo petardo Waldomiro Diniz (o seu faz-tudo no Congresso, pego cobrando propinas, sempre elas).
A narrativa ganhou corpo em 2005, com a reação à revelação do mensalão. "Todo mundo faz caixa 2", disseram Lula e o PT. O STF não comprou a balela e a cúpula do partido, Dirceu à frente, foi parar na cadeia.
O que ouvimos de Lula e companhia agora? Que o financiamento de campanhas pelas empreiteiras investigadas no escândalo da Petrobras era legal e para todos os partidos, como se o PT e aliados fossem virgens a passear em um prostíbulo.
Há duas mistificações aqui. Empreiteiras doam para todo mundo, só que dão mais para quem está no poder e pode usar de esquemas de favorecimento. A graça da história é que a Lava Jato descobriu que propinas foram dadas dentro da lei.
A segunda observação peca pela obviedade. Ainda que grana suja tenha abastecido aqui e ali partidos de oposição, o grosso absoluto do apurado aponta para o PT e os seus. A oposição não indicava diretores corruptos na Petrobras.
Ao indicar Aldemir Bendine para descascar o abacaxi gigante da Petrobras, Dilma mostrou-se sozinha em suas opções. Resta saber se daqui para a frente ela irá seguir o receituário petista do negativismo e correr o risco de isolar-se ainda mais.
Lição do avesso - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 07/02
É um caso para estudo em escolas de administração. Pelo avesso. Ensina tudo sobre o que não se deve fazer. Este é o resumo desta desastrada intervenção da Presidente Dilma na Petrobras. Mas uma coisa se diga: foi coerente. Improvisada e insensata do começo ao fim. Há três meses, o então ministro da Fazenda Guido Mantega desmentia que Aldemir Bendine estivesse demissionário do Banco do Brasil.
Bendine tentava, no dia 7 de novembro, explicar o inexplicável caso do empréstimo de R$ 2,7 milhões concedido com juros camaradas a uma amiga que deu como garantia a pensão alimentícia dos filhos menores. No dia 6 de fevereiro, está ele alçado pela presidente Dilma ao posto de presidente da Petrobras. Na presidência do conselho de administração, confirmando indicação, o mesmo Guido Mantega.
Imaginemos, para alimentar algum otimismo, que reste provado que Bendine nem sabia do tal empréstimo à amiga. Ele precisará ficar se explicando deste e de outros casos. E se existe uma coisa que a Petrobras não precisa neste momento é de um presidente que tenha que ficar se defendendo. Todos os esforços devem ser para defender a Petrobras.
O perfil ideal para o cargo é ser uma pessoa que simbolize independência. O que a estatal precisa é de um executivo com autonomia. O problema da Petrobras não será resolvido por um presidente que aceite pressões políticas e cumpra ordens que contrariem os interesses da empresa. O melhor seria evitar pessoas do grupo dos amigos do governo.
O que espanta neste caso é como nenhuma solução foi pensada com antecedência. Tão longa crise e não foi tempo suficiente para o governo ter uma saída estratégica. A presidente convocou a ex-presidente Graça Foster para demiti-la e, ao mesmo tempo, pedir que ela permanecesse no cargo até a publicação do balanço. Pelo andar dos trabalhos com a PricewaterhouseCoopers (PwC), se a diretoria permanecesse, seria possível ter o resultado financeiro auditado em maio. Ou seja, Dilma estava pedindo à Graça que ficasse dependurada por mais quatro meses no cargo do qual fora demitida. Em seguida, o governo confirmou a informação de que Graça sairia, a diretoria se rebelou e pediu demissão coletiva naquela mesma noite de segunda-feira.
Contudo, na manhã da terça, o ministro da Energia, Eduardo Braga, disse que a diretoria ficaria até março. Ainda que eles aceitassem permanecer, quem, com o mínimo de bom senso, imaginaria que uma empresa em crise poderia ser comandada por uma equipe enfraquecida pela demissão anunciada?
Hoje a Petrobras é uma empresa que não sabe o valor do seu patrimônio, está no meio da mais profunda e extensa investigação policial por corrupção. A companhia tem que administrar a crise e ao mesmo tempo fazer uma gestão de dano. A imagem da empresa sofreu sério estrago junto aos seus credores, auditores, investidores, acionistas e precisa reduzir esses danos. Ao mesmo tempo, precisa se proteger contra os riscos futuros de novos rebaixamentos ou cobrança antecipada de dívida.
A demissão que causou tanto reboliço esta semana não foi causada pelo escândalo. Mas sim pela divulgação do número de R$ 88,6 bilhões de diferença entre o valor real e o valor contábil de alguns dos ativos da Petrobras. A diretoria poderia ter sido trocada por outros motivos, mas, ao ser trocada por esse, a mensagem que a presidente da República passou é de que continuará interferindo nos rumos da empresa. O risco Dilma permanece.
O governo nem fez esforço para cumprir a legislação do mercado de capitais. Deixou vazar o nome de Aldemir Bendine bem antes que ele fosse anunciado como o escolhido do controlador. Mas essa foi apenas mais uma trapalhada. Coerente até o fim.
É um caso para estudo em escolas de administração. Pelo avesso. Ensina tudo sobre o que não se deve fazer. Este é o resumo desta desastrada intervenção da Presidente Dilma na Petrobras. Mas uma coisa se diga: foi coerente. Improvisada e insensata do começo ao fim. Há três meses, o então ministro da Fazenda Guido Mantega desmentia que Aldemir Bendine estivesse demissionário do Banco do Brasil.
Bendine tentava, no dia 7 de novembro, explicar o inexplicável caso do empréstimo de R$ 2,7 milhões concedido com juros camaradas a uma amiga que deu como garantia a pensão alimentícia dos filhos menores. No dia 6 de fevereiro, está ele alçado pela presidente Dilma ao posto de presidente da Petrobras. Na presidência do conselho de administração, confirmando indicação, o mesmo Guido Mantega.
Imaginemos, para alimentar algum otimismo, que reste provado que Bendine nem sabia do tal empréstimo à amiga. Ele precisará ficar se explicando deste e de outros casos. E se existe uma coisa que a Petrobras não precisa neste momento é de um presidente que tenha que ficar se defendendo. Todos os esforços devem ser para defender a Petrobras.
O perfil ideal para o cargo é ser uma pessoa que simbolize independência. O que a estatal precisa é de um executivo com autonomia. O problema da Petrobras não será resolvido por um presidente que aceite pressões políticas e cumpra ordens que contrariem os interesses da empresa. O melhor seria evitar pessoas do grupo dos amigos do governo.
O que espanta neste caso é como nenhuma solução foi pensada com antecedência. Tão longa crise e não foi tempo suficiente para o governo ter uma saída estratégica. A presidente convocou a ex-presidente Graça Foster para demiti-la e, ao mesmo tempo, pedir que ela permanecesse no cargo até a publicação do balanço. Pelo andar dos trabalhos com a PricewaterhouseCoopers (PwC), se a diretoria permanecesse, seria possível ter o resultado financeiro auditado em maio. Ou seja, Dilma estava pedindo à Graça que ficasse dependurada por mais quatro meses no cargo do qual fora demitida. Em seguida, o governo confirmou a informação de que Graça sairia, a diretoria se rebelou e pediu demissão coletiva naquela mesma noite de segunda-feira.
Contudo, na manhã da terça, o ministro da Energia, Eduardo Braga, disse que a diretoria ficaria até março. Ainda que eles aceitassem permanecer, quem, com o mínimo de bom senso, imaginaria que uma empresa em crise poderia ser comandada por uma equipe enfraquecida pela demissão anunciada?
Hoje a Petrobras é uma empresa que não sabe o valor do seu patrimônio, está no meio da mais profunda e extensa investigação policial por corrupção. A companhia tem que administrar a crise e ao mesmo tempo fazer uma gestão de dano. A imagem da empresa sofreu sério estrago junto aos seus credores, auditores, investidores, acionistas e precisa reduzir esses danos. Ao mesmo tempo, precisa se proteger contra os riscos futuros de novos rebaixamentos ou cobrança antecipada de dívida.
A demissão que causou tanto reboliço esta semana não foi causada pelo escândalo. Mas sim pela divulgação do número de R$ 88,6 bilhões de diferença entre o valor real e o valor contábil de alguns dos ativos da Petrobras. A diretoria poderia ter sido trocada por outros motivos, mas, ao ser trocada por esse, a mensagem que a presidente da República passou é de que continuará interferindo nos rumos da empresa. O risco Dilma permanece.
O governo nem fez esforço para cumprir a legislação do mercado de capitais. Deixou vazar o nome de Aldemir Bendine bem antes que ele fosse anunciado como o escolhido do controlador. Mas essa foi apenas mais uma trapalhada. Coerente até o fim.
O choque da realidade - ANDRÉ LARA RESENDE
O ESTADO DE S.PAULO - 07/02
O quadro político e econômico agrava-se desde o fim do primeiro mandato de Lula. A revelação da sistemática compra de apoio ao governo por meio de um esquema de desvio de recursos públicos - o "mensalão" - foi um marco divisor. Ainda não estava claro o grau do estrago que a ocupação do Estado por militantes e simpatizantes viria a fazer, mas estava quebrado o encanto.
A condução da política macroeconômica sofreu uma inflexão a partir de 2008. Sob pretexto de praticar uma política anticíclica keynesiana - que a grande crise financeira justificava nos países centrais, mas não nos países periféricos -, acelerou-se o processo de expansão dos gastos diretos e indiretos, explícitos e implícitos, do setor público. A política macroeconômica perdeu toda a racionalidade e tornou-se manifestamente voluntarista.
O desajuste fiscal e os desmandos administrativos, associados à distribuição de benefícios demagógicos, de vantagens e subsídios, ficaram mascarados pelo ciclo de alta das commodities, pelo o ganho nos termos de troca com o exterior. O País cresceu relativamente pouco, mas enriqueceu muito. A riqueza não depende só do crescimento, mas também das expectativas. O valor dos ativos, das empresas e dos imóveis, depende das expectativas. Com as expectativas favoráveis, o aumento da riqueza foi muito superior ao crescimento da renda. A reversão levará a uma correspondente queda da riqueza.
No ano passado, a aceleração da piora nas condições tanto econômicas como políticas não deu tempo para que as percepções pudessem acompanhar o agravamento da realidade. As eleições contribuíram para atrasar a convergência das expectativas. O clima de campanha eleitoral tornou difícil separar os fatos da propaganda. O País saiu das eleições dividido e com um fosso entre as condições objetivas e a percepção da realidade. O choque da realidade está agora em curso.
No ano passado, a economia não cresceu, o superávit fiscal primário desapareceu e o déficit externo passou de 4% do produto interno bruto (PIB). Apesar dos preços administrados defasados e dos juros em alta, a inflação vai superar o teto da meta. A infraestrutura está obsoleta e o racionamento de água e energia elétrica será inevitável. A Petrobrás está paralisada, incapaz de acessar os mercados de capitais. Sua viabilidade está ameaçada. Os investimentos privados devem colapsar.
A surpreendente nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda impediu que o ajuste das expectativas levasse a uma crise cambial e financeira. Sua presença foi crucial para que a crise não explodisse com toda a sua força logo nos primeiros dias do segundo mandato de Dilma Rousseff. O PT poderia então explorar mais facilmente a tese da sabotagem dos "mercados" a um governo que acabara de ser democraticamente eleito. Isolado num Ministério de inédita incompetência, Levy corre o risco em alguns meses se defrontar com apenas duas alternativas: a demissão, diante da inviabilidade política do ajuste necessário, ou a desmoralização.
Some-se às dificuldades macroeconômicas o racionamento de água e energia para que as perspectivas se configurem dramáticas. O racionamento racional deveria considerar as repercussões do corte para os diferentes setores. Para minimizar o impacto sobre o PIB os cortes deveriam ser definidos a partir da matriz de insumos-produtos. Numa economia de guerra, que exija o racionamento de bens essenciais, não é possível utilizar apenas o sistema de preços para alocar recursos. O racionamento planejado exige, pois, planejamento e execução centralizada, o que não pode prescindir de autoridade e comando.
O País está acéfalo. O Executivo, atordoado e acuado, está aparentemente preocupado exclusivamente em minimizar as possibilidades de impeachment. Os quadros do serviço público estão desmoralizados e desmotivados. A percepção popular do Congresso Nacional, envolvido no esquema da corrupção sistematizada pelo governo na Petrobrás, nunca foi tão negativa. Desmoralizado com a população, o Legislativo corre ainda o risco de colisão com o Judiciário. Não há novas lideranças nem sinais de que possam surgir da política partidária, cujos canais estão entupidos. Dada a desmoralização da política, abre-se a possibilidade de lideranças externas a ela, populistas e inimigas das instituições.
A combinação da economia submetida a um racionamento drástico com a falta de autoridade institucional é o caminho para se chegar aos chamados "Failed States". Caminho que a Venezuela parece ter começado a trilhar e no qual países como a Síria, o Iraque e o Afeganistão, entre outros, estão avançados. Sem autoridade institucional constituída e reconhecida, forças paralelas passam a controlar o racionamento e os mercados negros. Numa fase aguda, diante da revolta popular e da generalização dos saques, surgem milícias armadas, inicialmente para vender segurança, mas que se transformam em poderes paralelos.
Entre os "Failed States" e a situação brasileira ainda há uma grande distância, mas mesmo que não sejamos pessimistas o horizonte não é promissor. Na melhor das hipóteses, teremos quatro anos de um governo acuado e paralisado, diante da pior crise política e econômica em décadas. A possibilidade de um tumultuado impeachment da presidente não pode ser descartada. Em tese, basta o fundamento jurídico para o impeachment, mas na prática é preciso o apoio político "das ruas".
Diante da gravidade do quadro, não é hora de dividir, mas de reconciliar o País em torno de uma coalizão suprapartidária, com apoio de todos os segmentos da sociedade. É preciso reconstruir o Estado, resgatar a capacidade de formular e implementar políticas para enfrentar a crise. Infelizmente, parecemos caminhar no sentido oposto, o da radicalização da divisão do País.
O quadro político e econômico agrava-se desde o fim do primeiro mandato de Lula. A revelação da sistemática compra de apoio ao governo por meio de um esquema de desvio de recursos públicos - o "mensalão" - foi um marco divisor. Ainda não estava claro o grau do estrago que a ocupação do Estado por militantes e simpatizantes viria a fazer, mas estava quebrado o encanto.
A condução da política macroeconômica sofreu uma inflexão a partir de 2008. Sob pretexto de praticar uma política anticíclica keynesiana - que a grande crise financeira justificava nos países centrais, mas não nos países periféricos -, acelerou-se o processo de expansão dos gastos diretos e indiretos, explícitos e implícitos, do setor público. A política macroeconômica perdeu toda a racionalidade e tornou-se manifestamente voluntarista.
O desajuste fiscal e os desmandos administrativos, associados à distribuição de benefícios demagógicos, de vantagens e subsídios, ficaram mascarados pelo ciclo de alta das commodities, pelo o ganho nos termos de troca com o exterior. O País cresceu relativamente pouco, mas enriqueceu muito. A riqueza não depende só do crescimento, mas também das expectativas. O valor dos ativos, das empresas e dos imóveis, depende das expectativas. Com as expectativas favoráveis, o aumento da riqueza foi muito superior ao crescimento da renda. A reversão levará a uma correspondente queda da riqueza.
No ano passado, a aceleração da piora nas condições tanto econômicas como políticas não deu tempo para que as percepções pudessem acompanhar o agravamento da realidade. As eleições contribuíram para atrasar a convergência das expectativas. O clima de campanha eleitoral tornou difícil separar os fatos da propaganda. O País saiu das eleições dividido e com um fosso entre as condições objetivas e a percepção da realidade. O choque da realidade está agora em curso.
No ano passado, a economia não cresceu, o superávit fiscal primário desapareceu e o déficit externo passou de 4% do produto interno bruto (PIB). Apesar dos preços administrados defasados e dos juros em alta, a inflação vai superar o teto da meta. A infraestrutura está obsoleta e o racionamento de água e energia elétrica será inevitável. A Petrobrás está paralisada, incapaz de acessar os mercados de capitais. Sua viabilidade está ameaçada. Os investimentos privados devem colapsar.
A surpreendente nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda impediu que o ajuste das expectativas levasse a uma crise cambial e financeira. Sua presença foi crucial para que a crise não explodisse com toda a sua força logo nos primeiros dias do segundo mandato de Dilma Rousseff. O PT poderia então explorar mais facilmente a tese da sabotagem dos "mercados" a um governo que acabara de ser democraticamente eleito. Isolado num Ministério de inédita incompetência, Levy corre o risco em alguns meses se defrontar com apenas duas alternativas: a demissão, diante da inviabilidade política do ajuste necessário, ou a desmoralização.
Some-se às dificuldades macroeconômicas o racionamento de água e energia para que as perspectivas se configurem dramáticas. O racionamento racional deveria considerar as repercussões do corte para os diferentes setores. Para minimizar o impacto sobre o PIB os cortes deveriam ser definidos a partir da matriz de insumos-produtos. Numa economia de guerra, que exija o racionamento de bens essenciais, não é possível utilizar apenas o sistema de preços para alocar recursos. O racionamento planejado exige, pois, planejamento e execução centralizada, o que não pode prescindir de autoridade e comando.
O País está acéfalo. O Executivo, atordoado e acuado, está aparentemente preocupado exclusivamente em minimizar as possibilidades de impeachment. Os quadros do serviço público estão desmoralizados e desmotivados. A percepção popular do Congresso Nacional, envolvido no esquema da corrupção sistematizada pelo governo na Petrobrás, nunca foi tão negativa. Desmoralizado com a população, o Legislativo corre ainda o risco de colisão com o Judiciário. Não há novas lideranças nem sinais de que possam surgir da política partidária, cujos canais estão entupidos. Dada a desmoralização da política, abre-se a possibilidade de lideranças externas a ela, populistas e inimigas das instituições.
A combinação da economia submetida a um racionamento drástico com a falta de autoridade institucional é o caminho para se chegar aos chamados "Failed States". Caminho que a Venezuela parece ter começado a trilhar e no qual países como a Síria, o Iraque e o Afeganistão, entre outros, estão avançados. Sem autoridade institucional constituída e reconhecida, forças paralelas passam a controlar o racionamento e os mercados negros. Numa fase aguda, diante da revolta popular e da generalização dos saques, surgem milícias armadas, inicialmente para vender segurança, mas que se transformam em poderes paralelos.
Entre os "Failed States" e a situação brasileira ainda há uma grande distância, mas mesmo que não sejamos pessimistas o horizonte não é promissor. Na melhor das hipóteses, teremos quatro anos de um governo acuado e paralisado, diante da pior crise política e econômica em décadas. A possibilidade de um tumultuado impeachment da presidente não pode ser descartada. Em tese, basta o fundamento jurídico para o impeachment, mas na prática é preciso o apoio político "das ruas".
Diante da gravidade do quadro, não é hora de dividir, mas de reconciliar o País em torno de uma coalizão suprapartidária, com apoio de todos os segmentos da sociedade. É preciso reconstruir o Estado, resgatar a capacidade de formular e implementar políticas para enfrentar a crise. Infelizmente, parecemos caminhar no sentido oposto, o da radicalização da divisão do País.
Quem calcula esse balanço? - ANA MARIA MACHADO
O GLOBO - 07/02
Baixa produtividade não é algo abstrato. E quando se fala em Custo Brasil, não se trata de complô da mídia nem intriga da oposição
Início de mês e de ano. O cidadão é daqueles que procuram estar sempre em dia com suas obrigações. Organizadíssimo. Mas em poucos dias vive três situações exemplares.
Primeira: precisa renovar a carteira de motorista, porque o exame de vista venceu. Vai ao banco e paga o Duda. Liga para o teleagendamento do Detran. Depois de perder um tempo enorme ouvindo a irritante musiquinha de espera, finalmente é atendido. Informam-lhe que só há horário vago daí a dias. Preocupa-se porque o prazo fica apertado demais. A atendente, solícita, lhe faz uma sugestão. Por que não recorrer ao “Poupa-Tempo”? É um serviço ótimo, economiza tempo e esforço. Num só lugar se entregam os documentos e se faz o exame. Dá-lhe o endereço. O contribuinte agradece. Que bom saber que agora há essas coisas, e as autoridades se preocupam com o cidadão! Só que o serviço não marca exames pelo telefone. Precisa fazer isso em pessoa. Fornecem-lhe o endereço e o horário de funcionamento. Até marcam a hora em que será recebido: 13h, daí a poucos dias. Vai perder só mais meia tarde de trabalho. Na data e horário, comparece mas descobre que foi mal informado: naquela unidade não se faz mais exame de vista. Dão-lhe um papel para tentar marcar com o médico, que só podia em outra semana. E lhe passam um pito: na certa entendeu mal, ninguém lhe informaria errado. Ignora a provocação. Precisa renovar o exame. Não pode dirigir sem carteira de habilitação válida. Engole em seco e espera que agendem o exame. É sorteado para um ponto que não lhe convém. Pede para trocar. Não pode. O sistema já sorteou, não aceita mudanças. Que jeito? Vai ter de perder mais uma manhã de trabalho.
Segunda: como tem um apartamento na serra, recebeu a cobrança do IPTU, enviada pela prefeitura de Petrópolis. Vai fazer como todos os anos, pagar em cota única, adiantado, e aproveitar o desconto para quem faz isso. Ao abrir o carnê, constata que falta uma página, justamente a da cota única. Só estão lá as das cotas parceladas. O que terá havido? Examinando com atenção, verifica uma observação impressa, acusando-o de estar devedor, por não ter pago o imposto em 2014. Não é possível. Tem certeza de que pagou. Será que aquela tripinha amarela que agora o banco dá como recibo já terá se apagado e ele não terá como provar? Mas não, pode ficar tranquilo. Como é organizadíssimo, não apenas pagou em dia o imposto de 2014 (e os de todos os anos anteriores), como tirou cópia do comprovante bancário e o guardou grampeado no carnê. Mas não pode pagar o imposto em cota única. Falta-lhe a guia correspondente, que a prefeitura não enviou, em represália por considerá-lo o mau pagador que não é. Perde a tarde ao telefone tentando falar com alguém lá. Inutilmente. Deus do céu, vai ter de ir a Petrópolis em pessoa para resolver! Em dia útil. Mas só depois que estiver com a carteira de motorista, pois está impedido de dirigir enquanto não renovar o exame de vista , esperar seu resultado e receber a nova carteira. Que jeito?
Terceira: recebeu um aviso da Companhia de Gás, em tom um tanto ameaçador. Dizem que sua conta, vencida desde novembro, não foi paga. Sorri, superior. Engano deles. Não pode ser. Há mais de 15 anos tem em débito automático todas as suas contas. Nem se preocupa em pagá-las, são descontadas diretamente. Passam-se alguns dias, vem novo aviso. Vai verificar no extrato e constata que, realmente, há dois meses esse desconto não está sendo feito, como lhe confirmara por telefone a companhia de gás — depois de uma tarde inteira de varias ligações e da indefectível musiquinha. Como pode o banco suspender um serviço desses unilateralmente? Perde o sono, de raiva, frustração, estresse. Vai ao banco, furioso. Outra tarde de trabalho perdida. Descobre que, realmente, o débito foi suspenso. Como? Quem deu a ordem? Esmiúça daqui e dali, descobrem: ninguém suspendeu. Mas a CEG mudou unilateralmente o número do código do cliente em sua conta, sem avisar a ninguém. Nem a ele, nem ao banco. Pode? Não, não pode. Mas fizeram. E ainda cobram multa pelo atraso nos pagamentos. Vai brigar?
Bem que dá vontade. Mas só quer cuidar da vida. Deixa pra lá. Há um limite para o acúmulo de aborrecimentos de cada um. Já perdeu tempo demais do trabalho, com tudo isso. E no momento, cruzes!, está às voltas com a renovação de seu passaporte.
Não há limite, porém, para quanto esses esforços desperdiçados podem roubar da vida econômica de uma nação. Baixa produtividade não é algo abstrato. E quando se fala em Custo Brasil, não se trata de complô da mídia nem intriga da oposição. É o preço da incompetência, da perda de tempo com inutilidades, da educação precária, da má gestão, da condescendência com erros inadmissíveis. Alguém consegue calcular esse prejuízo num balanço?
Baixa produtividade não é algo abstrato. E quando se fala em Custo Brasil, não se trata de complô da mídia nem intriga da oposição
Início de mês e de ano. O cidadão é daqueles que procuram estar sempre em dia com suas obrigações. Organizadíssimo. Mas em poucos dias vive três situações exemplares.
Primeira: precisa renovar a carteira de motorista, porque o exame de vista venceu. Vai ao banco e paga o Duda. Liga para o teleagendamento do Detran. Depois de perder um tempo enorme ouvindo a irritante musiquinha de espera, finalmente é atendido. Informam-lhe que só há horário vago daí a dias. Preocupa-se porque o prazo fica apertado demais. A atendente, solícita, lhe faz uma sugestão. Por que não recorrer ao “Poupa-Tempo”? É um serviço ótimo, economiza tempo e esforço. Num só lugar se entregam os documentos e se faz o exame. Dá-lhe o endereço. O contribuinte agradece. Que bom saber que agora há essas coisas, e as autoridades se preocupam com o cidadão! Só que o serviço não marca exames pelo telefone. Precisa fazer isso em pessoa. Fornecem-lhe o endereço e o horário de funcionamento. Até marcam a hora em que será recebido: 13h, daí a poucos dias. Vai perder só mais meia tarde de trabalho. Na data e horário, comparece mas descobre que foi mal informado: naquela unidade não se faz mais exame de vista. Dão-lhe um papel para tentar marcar com o médico, que só podia em outra semana. E lhe passam um pito: na certa entendeu mal, ninguém lhe informaria errado. Ignora a provocação. Precisa renovar o exame. Não pode dirigir sem carteira de habilitação válida. Engole em seco e espera que agendem o exame. É sorteado para um ponto que não lhe convém. Pede para trocar. Não pode. O sistema já sorteou, não aceita mudanças. Que jeito? Vai ter de perder mais uma manhã de trabalho.
Segunda: como tem um apartamento na serra, recebeu a cobrança do IPTU, enviada pela prefeitura de Petrópolis. Vai fazer como todos os anos, pagar em cota única, adiantado, e aproveitar o desconto para quem faz isso. Ao abrir o carnê, constata que falta uma página, justamente a da cota única. Só estão lá as das cotas parceladas. O que terá havido? Examinando com atenção, verifica uma observação impressa, acusando-o de estar devedor, por não ter pago o imposto em 2014. Não é possível. Tem certeza de que pagou. Será que aquela tripinha amarela que agora o banco dá como recibo já terá se apagado e ele não terá como provar? Mas não, pode ficar tranquilo. Como é organizadíssimo, não apenas pagou em dia o imposto de 2014 (e os de todos os anos anteriores), como tirou cópia do comprovante bancário e o guardou grampeado no carnê. Mas não pode pagar o imposto em cota única. Falta-lhe a guia correspondente, que a prefeitura não enviou, em represália por considerá-lo o mau pagador que não é. Perde a tarde ao telefone tentando falar com alguém lá. Inutilmente. Deus do céu, vai ter de ir a Petrópolis em pessoa para resolver! Em dia útil. Mas só depois que estiver com a carteira de motorista, pois está impedido de dirigir enquanto não renovar o exame de vista , esperar seu resultado e receber a nova carteira. Que jeito?
Terceira: recebeu um aviso da Companhia de Gás, em tom um tanto ameaçador. Dizem que sua conta, vencida desde novembro, não foi paga. Sorri, superior. Engano deles. Não pode ser. Há mais de 15 anos tem em débito automático todas as suas contas. Nem se preocupa em pagá-las, são descontadas diretamente. Passam-se alguns dias, vem novo aviso. Vai verificar no extrato e constata que, realmente, há dois meses esse desconto não está sendo feito, como lhe confirmara por telefone a companhia de gás — depois de uma tarde inteira de varias ligações e da indefectível musiquinha. Como pode o banco suspender um serviço desses unilateralmente? Perde o sono, de raiva, frustração, estresse. Vai ao banco, furioso. Outra tarde de trabalho perdida. Descobre que, realmente, o débito foi suspenso. Como? Quem deu a ordem? Esmiúça daqui e dali, descobrem: ninguém suspendeu. Mas a CEG mudou unilateralmente o número do código do cliente em sua conta, sem avisar a ninguém. Nem a ele, nem ao banco. Pode? Não, não pode. Mas fizeram. E ainda cobram multa pelo atraso nos pagamentos. Vai brigar?
Bem que dá vontade. Mas só quer cuidar da vida. Deixa pra lá. Há um limite para o acúmulo de aborrecimentos de cada um. Já perdeu tempo demais do trabalho, com tudo isso. E no momento, cruzes!, está às voltas com a renovação de seu passaporte.
Não há limite, porém, para quanto esses esforços desperdiçados podem roubar da vida econômica de uma nação. Baixa produtividade não é algo abstrato. E quando se fala em Custo Brasil, não se trata de complô da mídia nem intriga da oposição. É o preço da incompetência, da perda de tempo com inutilidades, da educação precária, da má gestão, da condescendência com erros inadmissíveis. Alguém consegue calcular esse prejuízo num balanço?
Desastres em série - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 07/02
Nomeação do novo presidente da Petrobras conseguiu provocar desconfianças tanto no mercado financeiro como no aparelho petista
A sequência de infortúnios que se abateu sobre a Petrobras nos últimos meses não se interrompe com a nomeação do presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, para o posto que vinha sendo ocupado por Graça Foster.
Embora exista o risco de cometer injustiças, é difícil escapar à impressão de que o nome de Bendine consegue a proeza de suscitar reservas tanto entre investidores do mercado como entre membros do aparelho petista.
Desgastado por denúncias relativas a sua atuação no BB, Bendine não teria "perfil para gerenciar uma crise dessa dimensão", confidenciou um alto dirigente do PT à reportagem da Folha.
Afinal, ele chegou a ser investigado pela Receita Federal, intrigada por variações em seu patrimônio e pela aquisição, em dinheiro vivo, de um apartamento --bastante inusitado, aliás, que o responsável pela mais importante instituição financeira do país prefira guardar economias debaixo do colchão.
Ainda nessa área, causa estranheza o empréstimo de R$ 2,7 milhões, com juros subsidiados, autorizado por Bendine à apresentadora de TV Val Marchiori, a quem faltavam qualificações para a obtenção de tão volumoso aporte creditício.
Enquanto no PT --que é o PT--há quem se assuste com as implicações da nomeação, o mercado se comporta de forma semelhante, embora mais precisa e imediata. Caíram fortemente as ações da Petrobras, tão logo veio à tona a decisão de Dilma Rousseff (PT).
Mais uma vez, a presidente da República se vê assoberbada por uma crise à qual, por falta de inteligência política e talvez de simples contato com a realidade, só tem contribuído para intensificar.
Em tese, ao Planalto caberia transmitir uma imagem de inflexível disposição para passar a limpo todo o escândalo da Petrobras.
Dilma poderia ter tomado a iniciativa de realizar demissões fulminantes; viu-se, ao contrário, na situação de pedir a Graça Foster que continuasse por algum tempo até conseguir nome mais adequado.
A contemporização não deu certo, uma nova urgência se impôs à pauta da chefe de governo. Ironicamente, o nome do economista Paulo Leme, da Goldman Sachs, era visto como uma possibilidade.
Leme, que já havia sugerido a privatização da estatal, atestaria a vontade de emancipar a empresa das conhecidas pressões que sofre do petismo. Mas a alternativa ultraliberal desaparece do horizonte, e Bendine é o nomeado.
A oscilação diz mais sobre Dilma Rousseff, seu isolamento, sua visão da política, do que sobre o que significa, ou deixa de significar, a presença desta ou daquela figura menor nos quadros da Petrobras.
Nomeação do novo presidente da Petrobras conseguiu provocar desconfianças tanto no mercado financeiro como no aparelho petista
A sequência de infortúnios que se abateu sobre a Petrobras nos últimos meses não se interrompe com a nomeação do presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, para o posto que vinha sendo ocupado por Graça Foster.
Embora exista o risco de cometer injustiças, é difícil escapar à impressão de que o nome de Bendine consegue a proeza de suscitar reservas tanto entre investidores do mercado como entre membros do aparelho petista.
Desgastado por denúncias relativas a sua atuação no BB, Bendine não teria "perfil para gerenciar uma crise dessa dimensão", confidenciou um alto dirigente do PT à reportagem da Folha.
Afinal, ele chegou a ser investigado pela Receita Federal, intrigada por variações em seu patrimônio e pela aquisição, em dinheiro vivo, de um apartamento --bastante inusitado, aliás, que o responsável pela mais importante instituição financeira do país prefira guardar economias debaixo do colchão.
Ainda nessa área, causa estranheza o empréstimo de R$ 2,7 milhões, com juros subsidiados, autorizado por Bendine à apresentadora de TV Val Marchiori, a quem faltavam qualificações para a obtenção de tão volumoso aporte creditício.
Enquanto no PT --que é o PT--há quem se assuste com as implicações da nomeação, o mercado se comporta de forma semelhante, embora mais precisa e imediata. Caíram fortemente as ações da Petrobras, tão logo veio à tona a decisão de Dilma Rousseff (PT).
Mais uma vez, a presidente da República se vê assoberbada por uma crise à qual, por falta de inteligência política e talvez de simples contato com a realidade, só tem contribuído para intensificar.
Em tese, ao Planalto caberia transmitir uma imagem de inflexível disposição para passar a limpo todo o escândalo da Petrobras.
Dilma poderia ter tomado a iniciativa de realizar demissões fulminantes; viu-se, ao contrário, na situação de pedir a Graça Foster que continuasse por algum tempo até conseguir nome mais adequado.
A contemporização não deu certo, uma nova urgência se impôs à pauta da chefe de governo. Ironicamente, o nome do economista Paulo Leme, da Goldman Sachs, era visto como uma possibilidade.
Leme, que já havia sugerido a privatização da estatal, atestaria a vontade de emancipar a empresa das conhecidas pressões que sofre do petismo. Mas a alternativa ultraliberal desaparece do horizonte, e Bendine é o nomeado.
A oscilação diz mais sobre Dilma Rousseff, seu isolamento, sua visão da política, do que sobre o que significa, ou deixa de significar, a presença desta ou daquela figura menor nos quadros da Petrobras.
Escolha temerária - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 07/02
Muito mais do que amadorismo e improvisação, a escolha do novo comando da Petrobras, vago desde quarta-feira com a renúncia de Graça Foster, expôs a inépcia do governo Dilma Rousseff para administrar crises e entender o tamanho e a gravidade da situação em que se encontra a maior empresa do país.
A escolha de Aldemir Bendine, presidente do Banco do Brasil, é quase tudo o que o bom senso não recomenda. Afinal, não se trata de nomear o chefe de uma repartição qualquer. A missão do novo presidente da estatal do petróleo não é apenas a de evitar que a casa fique sem alguém para assinar papéis importantes. É muito mais. É a de retirar um gigante de profundo atoleiro de dívidas, corrupção e perda de credibilidade.
O que a escolha não poderia deixar de levar em conta é que a Petrobras não chegou a ponto de não poder nem sequer publicar balanço auditado por obra do acaso. Pelo contrário. É mais do que sabido e alardeado por especialistas que a empresa foi vítima do acionista controlador, o governo, que, nos últimos anos, vem fazendo dela instrumento político.
Desde o início da administração Lula da Silva, a empresa foi obrigada a cometer o suicídio comercial de comprar gasolina cara no exterior para vendê-la mais barata no mercado interno. Assim, ajudou a criar controle artificial da inflação. Por pressão do ex-presidente, a Petrobras gastou dinheiro sem volta em projetos de refinarias economicamente inviáveis no Ceará e no Maranhão.
A sangria foi grande com a compra da refinaria em Pasadena (EUA) por preço muito superior ao que o vendedor tinha pago por ela. Ainda pior foram os golpes perpetrados por dirigentes da empresa, nomeados ou mantidos por influência política, na construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. De lá, bilhões foram desviados pela via do superfaturamento e de serviços pagos e não executados.
Esse é um dos focos da Operação Lava-Jato, que vêm revelando a ação de corruptos que, ao longo de pelo menos uma década, transformaram a Petrobras numa coleção de escândalos. Consequência do enorme desarranjo, a empresa vem perdendo rapidamente valor de mercado, aqui e nos Estados Unidos, onde tem papéis cotados, a ponto de levar grupos de investidores a pedirem investigação às autoridades do mercado de capitais norte-americano.
Sobram, portanto, razões para que o novo executivo da Petrobras fosse alguém independente das más orientações da presidente e do antecessor, além de ser alguém absolutamente livre de suspeita de desvios de conduta. Funcionário de carreira na instituição financeira estatal, Bendine é ligado ao ex-presidente Lula, a quem deve a nomeação para a presidência do BB em 2009.
Ele não tem currículo de quem já salvou qualquer empresa e muito menos que tenha trabalhado numa exploradora de petróleo e derivados. Pior: já começa tendo de esclarecer a suspeita de favorecimento à amiga e apresentadora de TV Val Marchiori com empréstimo de R$ 2,7 milhões, tendo como garantia a pensão alimentícia que recebe por dois filhos menores.
Não foi sem motivo, portanto, que as ações da Petrobras despencaram mais de 7% depois do anúncio do nome de Bendine. A queda refletiu a frustração com o descaso com o qual a presidente conduziu a questão e a certeza de que ela não pretende abrir mão de continuar impondo suas equivocadas decisões à Petrobras.
Muito mais do que amadorismo e improvisação, a escolha do novo comando da Petrobras, vago desde quarta-feira com a renúncia de Graça Foster, expôs a inépcia do governo Dilma Rousseff para administrar crises e entender o tamanho e a gravidade da situação em que se encontra a maior empresa do país.
A escolha de Aldemir Bendine, presidente do Banco do Brasil, é quase tudo o que o bom senso não recomenda. Afinal, não se trata de nomear o chefe de uma repartição qualquer. A missão do novo presidente da estatal do petróleo não é apenas a de evitar que a casa fique sem alguém para assinar papéis importantes. É muito mais. É a de retirar um gigante de profundo atoleiro de dívidas, corrupção e perda de credibilidade.
O que a escolha não poderia deixar de levar em conta é que a Petrobras não chegou a ponto de não poder nem sequer publicar balanço auditado por obra do acaso. Pelo contrário. É mais do que sabido e alardeado por especialistas que a empresa foi vítima do acionista controlador, o governo, que, nos últimos anos, vem fazendo dela instrumento político.
Desde o início da administração Lula da Silva, a empresa foi obrigada a cometer o suicídio comercial de comprar gasolina cara no exterior para vendê-la mais barata no mercado interno. Assim, ajudou a criar controle artificial da inflação. Por pressão do ex-presidente, a Petrobras gastou dinheiro sem volta em projetos de refinarias economicamente inviáveis no Ceará e no Maranhão.
A sangria foi grande com a compra da refinaria em Pasadena (EUA) por preço muito superior ao que o vendedor tinha pago por ela. Ainda pior foram os golpes perpetrados por dirigentes da empresa, nomeados ou mantidos por influência política, na construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. De lá, bilhões foram desviados pela via do superfaturamento e de serviços pagos e não executados.
Esse é um dos focos da Operação Lava-Jato, que vêm revelando a ação de corruptos que, ao longo de pelo menos uma década, transformaram a Petrobras numa coleção de escândalos. Consequência do enorme desarranjo, a empresa vem perdendo rapidamente valor de mercado, aqui e nos Estados Unidos, onde tem papéis cotados, a ponto de levar grupos de investidores a pedirem investigação às autoridades do mercado de capitais norte-americano.
Sobram, portanto, razões para que o novo executivo da Petrobras fosse alguém independente das más orientações da presidente e do antecessor, além de ser alguém absolutamente livre de suspeita de desvios de conduta. Funcionário de carreira na instituição financeira estatal, Bendine é ligado ao ex-presidente Lula, a quem deve a nomeação para a presidência do BB em 2009.
Ele não tem currículo de quem já salvou qualquer empresa e muito menos que tenha trabalhado numa exploradora de petróleo e derivados. Pior: já começa tendo de esclarecer a suspeita de favorecimento à amiga e apresentadora de TV Val Marchiori com empréstimo de R$ 2,7 milhões, tendo como garantia a pensão alimentícia que recebe por dois filhos menores.
Não foi sem motivo, portanto, que as ações da Petrobras despencaram mais de 7% depois do anúncio do nome de Bendine. A queda refletiu a frustração com o descaso com o qual a presidente conduziu a questão e a certeza de que ela não pretende abrir mão de continuar impondo suas equivocadas decisões à Petrobras.
O petrolão chegou de vez ao PT - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 07/02
O depoimento do ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco colocou o foco em propinas doadas de forma ‘legal’ ao partido, uma diferença desse caso em relação ao mensalão
O PT já viveu momentos mais festivos do que nestes 35 anos de existência, comemorados ontem em Belo Horizonte. Pois, além de todo o desgaste causado no partido por mais um escândalo, o do petrolão, o tesoureiro da legenda, João Vaccari Neto, um dos investigados no caso, foi levado, na quarta-feira, por policiais federais a depor. A cena de agentes pulando o portão da casa do petista, que resistia a ir à PF, reflete bem a situação em que se encontra o PT, nos seus 12 anos de Planalto.
O baque começou na quarta, com a revelação de que, no depoimento prestado em regime de delação premiada, o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco afirmou que o partido, em dez anos, de 2003 a 2013, recebeu, em propinas garimpadas na estatal, entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões, cifras majestosas em qualquer lugar. E desses, US$ 50 milhões teriam sido coletados por Vaccari. O testemunho de Barusco levou à convocação do tesoureiro.
Do inventário das piores situações passadas pelo PT desde a chegada de Lula ao Planalto, em 2003, constará esse depoimento de Barusco, ao lado de um outro, prestado em 2005 na CPI dos Correios, pelo marqueteiro da campanha de Lula, Duda Mendonça, em que ele afirmou ter recebido pagamento do partido em paraíso fiscal no exterior. Era a prova de que o PT já se lançara a traficâncias financeiras ilegais em dólares.
O petrolão, por sua vez, mostra-se um caso bem mais robusto que aquele, o mensalão. A diferença mais evidente está no volume de dinheiro surrupiado dos cofres públicos. Estima-se que o mensalão desviou algo como R$ 150 milhões, enquanto no petrolão o Ministério Público contabilizou até agora mais de R$ 2 bilhões.
Outra diferença é que enquanto no primeiro o objetivo era comprar literalmente parlamentares e irrigar alguns partidos aliados, o assalto à Petrobras, além disso, abasteceu, tudo indica com muito dinheiro, os cofres do próprio PT. Há depoimentos sobre a conversão de propinas pagas por empreiteiras em doações ao partido.
O PT se defende com o argumento de que foram doações “legais”. Sim, mas com dinheiro ilegal. Trata-se, à primeira vista, de uma forma engenhosa de lavagem por meio de doações registradas na Justiça eleitoral. Nesse caso, os recursos precisariam ser devolvidos à Petrobras. Como os denunciados, pelas regras da delação premiada, precisam provar o que dizem, há grande expectativa sobre como tudo isso será comprovado.
Barusco, nos testemunhos, ampliou o papel na rapina do ex-diretor Renato Duque, indicado pelo PT/José Dirceu, e reforçou o entendimento de que propinas se tornaram parte do cotidiano na estatal. Não que o lulopetismo tenha inventado a corrupção na estatal. O próprio Barusco confessa ter cobrado “por fora" durante o governo FH. Mas sem dúvida o PT criou um esquema amplo de corrupção na empresa, algo jamais visto na história do país. Por tudo isso, há mesmo poucos motivos para alegria nas hostes petistas.
O depoimento do ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco colocou o foco em propinas doadas de forma ‘legal’ ao partido, uma diferença desse caso em relação ao mensalão
O PT já viveu momentos mais festivos do que nestes 35 anos de existência, comemorados ontem em Belo Horizonte. Pois, além de todo o desgaste causado no partido por mais um escândalo, o do petrolão, o tesoureiro da legenda, João Vaccari Neto, um dos investigados no caso, foi levado, na quarta-feira, por policiais federais a depor. A cena de agentes pulando o portão da casa do petista, que resistia a ir à PF, reflete bem a situação em que se encontra o PT, nos seus 12 anos de Planalto.
O baque começou na quarta, com a revelação de que, no depoimento prestado em regime de delação premiada, o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco afirmou que o partido, em dez anos, de 2003 a 2013, recebeu, em propinas garimpadas na estatal, entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões, cifras majestosas em qualquer lugar. E desses, US$ 50 milhões teriam sido coletados por Vaccari. O testemunho de Barusco levou à convocação do tesoureiro.
Do inventário das piores situações passadas pelo PT desde a chegada de Lula ao Planalto, em 2003, constará esse depoimento de Barusco, ao lado de um outro, prestado em 2005 na CPI dos Correios, pelo marqueteiro da campanha de Lula, Duda Mendonça, em que ele afirmou ter recebido pagamento do partido em paraíso fiscal no exterior. Era a prova de que o PT já se lançara a traficâncias financeiras ilegais em dólares.
O petrolão, por sua vez, mostra-se um caso bem mais robusto que aquele, o mensalão. A diferença mais evidente está no volume de dinheiro surrupiado dos cofres públicos. Estima-se que o mensalão desviou algo como R$ 150 milhões, enquanto no petrolão o Ministério Público contabilizou até agora mais de R$ 2 bilhões.
Outra diferença é que enquanto no primeiro o objetivo era comprar literalmente parlamentares e irrigar alguns partidos aliados, o assalto à Petrobras, além disso, abasteceu, tudo indica com muito dinheiro, os cofres do próprio PT. Há depoimentos sobre a conversão de propinas pagas por empreiteiras em doações ao partido.
O PT se defende com o argumento de que foram doações “legais”. Sim, mas com dinheiro ilegal. Trata-se, à primeira vista, de uma forma engenhosa de lavagem por meio de doações registradas na Justiça eleitoral. Nesse caso, os recursos precisariam ser devolvidos à Petrobras. Como os denunciados, pelas regras da delação premiada, precisam provar o que dizem, há grande expectativa sobre como tudo isso será comprovado.
Barusco, nos testemunhos, ampliou o papel na rapina do ex-diretor Renato Duque, indicado pelo PT/José Dirceu, e reforçou o entendimento de que propinas se tornaram parte do cotidiano na estatal. Não que o lulopetismo tenha inventado a corrupção na estatal. O próprio Barusco confessa ter cobrado “por fora" durante o governo FH. Mas sem dúvida o PT criou um esquema amplo de corrupção na empresa, algo jamais visto na história do país. Por tudo isso, há mesmo poucos motivos para alegria nas hostes petistas.
A frustrante escolha para a Petrobras - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 07/02
A crise exige uma mudança de 180 graus na condução dos negócios da estatal, mas a escolha de Dilma mostra que a presidente vai interferir ainda muito na empresa
O mundo do petróleo tem particularidades que limitam a entrada de altos executivos procedentes de outras áreas. Desde os anos 1990, o setor passou por muitas fusões e incorporações, que redesenharam internacionalmente o mapa das grandes corporações. Mas nesse processo não houve uma significativa renovação de executivos. No Brasil mesmo as companhias que estrearam depois da abertura do mercado foram basicamente alicerçadas na contratação de ex-funcionários da Petrobras, e não por executivos oriundos de segmentos sem relação direta com o setor. Nas telecomunicações, por exemplo, após a privatização as antigas estatais não ficaram restritas a ex-dirigentes da Telebrás.
Companhias estatais nacionais do petróleo são um pouco exceção à regra, devido às nomeações políticas em seus quadros dirigentes. Nos governos do PT, até que Graça Forster assumisse a companhia, a presidência da Petrobras teve esse caráter político, pois desde que Lula tomou posse ficou claro que a companhia passaria a ser um instrumento voltado para o atendimento dos propósitos do grupo que passou a ocupar o poder, e deseja mantê-lo a qualquer custo, como se vê.
Tal estratégia empurrou a Petrobras para a mais grave crise da sua história, e sem paralelo em qualquer outra grande empresa brasileira. Tirar a companhia dessa situação de calamidade exigiria uma mudança de 180 graus na condução dos negócios da estatal.
Daí a reação negativa do mercado de ações (com uma queda que chegou a 7% nas cotações dos papéis da estatal) ao anúncio do nome de Aldemir Bendine para a presidência da Petrobras. Respondendo até agora pelo Banco do Brasil, Bendine tem uma ligação com o Palácio do Planalto que torna improvável o fim da forte ingerência da presidente Dilma nos rumos e no cotidiano da Petrobras. A solução encontrada para a substituição de Graça Foster parece ser mais do mesmo, ainda que Bendine transite pelo mundo das finanças, o que, neste momento, é necessário para que a Petrobras consiga superar impasses que podem paralisar parte de seus atividades e inviabilizar investimentos.
Por esse vínculo com o Planalto e mais alguns episódios que protagonizou no Banco do Brasil, Aldemir Bendine chegará à Petrobras já tendo que dar muitas explicações, perdendo um tempo que seria precioso para a recuperação da companhia.
Não está claro se será uma interinidade ou se, com sua escolha, a presidente Dilma quis afirmar que houve substituição de nomes, mas não da essência dos planos que o governo tem para a Petrobras. Pela importância que a empresa tem para o país, espera-se que, internamente ou não, os novos gestores sejam bem-sucedidos em sua missão, e que a opção feita por Dilma não sirva para agravar ainda mais a crise da companhia. Mas não há um clima de otimismo.
A crise exige uma mudança de 180 graus na condução dos negócios da estatal, mas a escolha de Dilma mostra que a presidente vai interferir ainda muito na empresa
O mundo do petróleo tem particularidades que limitam a entrada de altos executivos procedentes de outras áreas. Desde os anos 1990, o setor passou por muitas fusões e incorporações, que redesenharam internacionalmente o mapa das grandes corporações. Mas nesse processo não houve uma significativa renovação de executivos. No Brasil mesmo as companhias que estrearam depois da abertura do mercado foram basicamente alicerçadas na contratação de ex-funcionários da Petrobras, e não por executivos oriundos de segmentos sem relação direta com o setor. Nas telecomunicações, por exemplo, após a privatização as antigas estatais não ficaram restritas a ex-dirigentes da Telebrás.
Companhias estatais nacionais do petróleo são um pouco exceção à regra, devido às nomeações políticas em seus quadros dirigentes. Nos governos do PT, até que Graça Forster assumisse a companhia, a presidência da Petrobras teve esse caráter político, pois desde que Lula tomou posse ficou claro que a companhia passaria a ser um instrumento voltado para o atendimento dos propósitos do grupo que passou a ocupar o poder, e deseja mantê-lo a qualquer custo, como se vê.
Tal estratégia empurrou a Petrobras para a mais grave crise da sua história, e sem paralelo em qualquer outra grande empresa brasileira. Tirar a companhia dessa situação de calamidade exigiria uma mudança de 180 graus na condução dos negócios da estatal.
Daí a reação negativa do mercado de ações (com uma queda que chegou a 7% nas cotações dos papéis da estatal) ao anúncio do nome de Aldemir Bendine para a presidência da Petrobras. Respondendo até agora pelo Banco do Brasil, Bendine tem uma ligação com o Palácio do Planalto que torna improvável o fim da forte ingerência da presidente Dilma nos rumos e no cotidiano da Petrobras. A solução encontrada para a substituição de Graça Foster parece ser mais do mesmo, ainda que Bendine transite pelo mundo das finanças, o que, neste momento, é necessário para que a Petrobras consiga superar impasses que podem paralisar parte de seus atividades e inviabilizar investimentos.
Por esse vínculo com o Planalto e mais alguns episódios que protagonizou no Banco do Brasil, Aldemir Bendine chegará à Petrobras já tendo que dar muitas explicações, perdendo um tempo que seria precioso para a recuperação da companhia.
Não está claro se será uma interinidade ou se, com sua escolha, a presidente Dilma quis afirmar que houve substituição de nomes, mas não da essência dos planos que o governo tem para a Petrobras. Pela importância que a empresa tem para o país, espera-se que, internamente ou não, os novos gestores sejam bem-sucedidos em sua missão, e que a opção feita por Dilma não sirva para agravar ainda mais a crise da companhia. Mas não há um clima de otimismo.
A herança da inflação - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S.PAULO - 07/02
Mais uma vez o Brasil deixa americanos, europeus e japoneses para trás, conseguindo em apenas um mês uma inflação muito maior que a exibida no mundo rico em um ano. A vida terá voltado ao normal nos países avançados quando os preços no varejo subirem no ritmo anual de 2% - pelo menos segundo os padrões de avaliação dos bancos centrais. A zona do euro tem sido assombrada pelo espectro da deflação, bem conhecido na economia japonesa. Pelo menos desse problema os brasileiros continuam muito distantes, graças à gastança, aos erros e aos truques de circo mambembe de seus governantes. No mês passado, os preços de bens e serviços comprados pelas famílias subiram em média 1,24%, de acordo com dados incluídos no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Em 12 anos, foi a maior alta desse indicador num mês de janeiro. Em 12 meses, a variação acumulada chegou a 7,14%, número superado apenas pela alta de 7,31% no período até setembro de 2011, primeiro ano da presidente Dilma Rousseff.
A meta anual de 4,5% foi sempre superada com folga nos últimos quatro anos. O desvio para cima, em 2015, deverá ser bem maior, segundo as previsões correntes. No mercado financeiro, a mediana das apostas era uma alta de 7,01% neste ano, de acordo com a sondagem realizada pelo Banco Central (BC). Para isso será necessário, naturalmente, garantir de agora em diante resultados bem menores que o de janeiro. É muito difícil de imaginar esse quadro sem pelo menos mais uma alta, provavelmente de 0,5%, dos juros básicos.
A inflação do mês passado refletiu, como se previa, a correção ainda parcial de preços contidos politicamente nos últimos anos. O item habitação, com alta de 2,42% e impacto de 0,35 ponto porcentual na formação do IPCA, foi fortemente influenciado pelo aumento médio de 8,27% do custo da energia elétrica. Em 9 das 13 áreas metropolitanas cobertas pela pesquisa o aumento das contas de luz ficou acima de 7,6%. A maior alta, de 11,66%, ocorreu em Porto Alegre. A segunda maior, de 11,46%, ocorreu em São Paulo. As tarifas de eletricidade foram congeladas há pouco mais de dois anos por decisão da presidente Dilma Rousseff e começaram a ser liberadas em 2014. A correção continua incompleta. Além disso, novos ajustes foram anunciados durante a semana pelo ministro de Minas e Energia, porque a seca se prolonga e será preciso continuar usando a energia mais cara das termoelétricas.
Também a correção das tarifas de transporte coletivo, contidas por influência do governo federal, afetou o IPCA em janeiro. No grupo transportes, o aumento médio ficou em 1,83% e foi determinado principalmente pelos ajustes das passagens de ônibus urbano e de metrô.
Esses ingredientes bastam para tornar indigesta uma sopa de números, mas servem para evidenciar, mais uma vez, o esforço do governo para disfarçar as pressões de custos e maquiar os índices de preços. Apesar desse esforço, os índices de inflação foram sempre ruins nos últimos anos e a variação anual do IPCA sempre esteve próxima - e algumas vezes acima - de 6,5%, limite superior da margem de tolerância.
A correção de preços contidos politicamente é inevitável e mais dolorosa quanto mais prolongado tenha sido o artifício. Além de inútil no combate à inflação, essa ação distorce a operação dos mercados. Ao transmitir um sinal errado sobre os preços, estimula o consumo, quando o correto seria o incentivo à economia. Ao mesmo tempo, a intervenção nos preços afeta a situação de caixa, a saúde financeira e a capacidade de investimento das empresas fornecedoras do bem ou serviço. O caso da Petrobrás, com a contenção política dos preços de combustíveis, era bem conhecido. O das empresas do setor elétrico ampliou o histórico e as consequências das intervenções desastradas.
Mas os preços administrados são uma pequena parte da história. Mesmo sem aumento desses preços, a inflação tem sido sustentada por outros fatores, como a gastança pública e o incentivo maior ao consumo que a produção. A herança dos erros é muito mais ampla.
Mais uma vez o Brasil deixa americanos, europeus e japoneses para trás, conseguindo em apenas um mês uma inflação muito maior que a exibida no mundo rico em um ano. A vida terá voltado ao normal nos países avançados quando os preços no varejo subirem no ritmo anual de 2% - pelo menos segundo os padrões de avaliação dos bancos centrais. A zona do euro tem sido assombrada pelo espectro da deflação, bem conhecido na economia japonesa. Pelo menos desse problema os brasileiros continuam muito distantes, graças à gastança, aos erros e aos truques de circo mambembe de seus governantes. No mês passado, os preços de bens e serviços comprados pelas famílias subiram em média 1,24%, de acordo com dados incluídos no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Em 12 anos, foi a maior alta desse indicador num mês de janeiro. Em 12 meses, a variação acumulada chegou a 7,14%, número superado apenas pela alta de 7,31% no período até setembro de 2011, primeiro ano da presidente Dilma Rousseff.
A meta anual de 4,5% foi sempre superada com folga nos últimos quatro anos. O desvio para cima, em 2015, deverá ser bem maior, segundo as previsões correntes. No mercado financeiro, a mediana das apostas era uma alta de 7,01% neste ano, de acordo com a sondagem realizada pelo Banco Central (BC). Para isso será necessário, naturalmente, garantir de agora em diante resultados bem menores que o de janeiro. É muito difícil de imaginar esse quadro sem pelo menos mais uma alta, provavelmente de 0,5%, dos juros básicos.
A inflação do mês passado refletiu, como se previa, a correção ainda parcial de preços contidos politicamente nos últimos anos. O item habitação, com alta de 2,42% e impacto de 0,35 ponto porcentual na formação do IPCA, foi fortemente influenciado pelo aumento médio de 8,27% do custo da energia elétrica. Em 9 das 13 áreas metropolitanas cobertas pela pesquisa o aumento das contas de luz ficou acima de 7,6%. A maior alta, de 11,66%, ocorreu em Porto Alegre. A segunda maior, de 11,46%, ocorreu em São Paulo. As tarifas de eletricidade foram congeladas há pouco mais de dois anos por decisão da presidente Dilma Rousseff e começaram a ser liberadas em 2014. A correção continua incompleta. Além disso, novos ajustes foram anunciados durante a semana pelo ministro de Minas e Energia, porque a seca se prolonga e será preciso continuar usando a energia mais cara das termoelétricas.
Também a correção das tarifas de transporte coletivo, contidas por influência do governo federal, afetou o IPCA em janeiro. No grupo transportes, o aumento médio ficou em 1,83% e foi determinado principalmente pelos ajustes das passagens de ônibus urbano e de metrô.
Esses ingredientes bastam para tornar indigesta uma sopa de números, mas servem para evidenciar, mais uma vez, o esforço do governo para disfarçar as pressões de custos e maquiar os índices de preços. Apesar desse esforço, os índices de inflação foram sempre ruins nos últimos anos e a variação anual do IPCA sempre esteve próxima - e algumas vezes acima - de 6,5%, limite superior da margem de tolerância.
A correção de preços contidos politicamente é inevitável e mais dolorosa quanto mais prolongado tenha sido o artifício. Além de inútil no combate à inflação, essa ação distorce a operação dos mercados. Ao transmitir um sinal errado sobre os preços, estimula o consumo, quando o correto seria o incentivo à economia. Ao mesmo tempo, a intervenção nos preços afeta a situação de caixa, a saúde financeira e a capacidade de investimento das empresas fornecedoras do bem ou serviço. O caso da Petrobrás, com a contenção política dos preços de combustíveis, era bem conhecido. O das empresas do setor elétrico ampliou o histórico e as consequências das intervenções desastradas.
Mas os preços administrados são uma pequena parte da história. Mesmo sem aumento desses preços, a inflação tem sido sustentada por outros fatores, como a gastança pública e o incentivo maior ao consumo que a produção. A herança dos erros é muito mais ampla.
As causas da corrupção - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S.PAULO - 07/02
A presidente Dilma Rousseff utilizou a mensagem anual ao Congresso Nacional para insistir numa intencional confusão entre as deficiências do atual sistema de representação e as causas da corrupção. Ao se referir ao esforço para combater a corrupção e a impunidade - esforço este que, para ser mais fiel à realidade, deveria vir acompanhado de aspas, por seu caráter duvidoso ou, ao menos, bastante ineficaz até o momento -, a presidente Dilma disse que tal esforço "produzirá resultados apenas parciais, caso o Brasil não enfrente a fonte principal dos desvios e dos desmandos: as insuficiências e distorções do nosso sistema de representação política".
É mais que evidente a necessidade de uma reforma política. Os resultados do atual sistema de representação são apresentados diariamente aos olhos de todos os brasileiros. É um sistema que serve muito bem aos interesses de alguns, e muito mal ao interesse público. Exemplo disso é a proliferação de partidos, que não atende à diversidade de pensamento e opinião de uma sociedade vibrante e plural. Essa proliferação satisfaz a ambições e interesses particulares. Produz partidos que não representam parcelas ou minorias, organizando o povo, porque são legendas de aluguel, à disposição de quem mais pague ou melhores condições ofereça.
Outra coisa, muito diversa dos problemas de representação, é a corrupção estonteante da qual se vai tendo mais detalhes a cada dia. No entanto, a presidente Dilma parece querer tratar as duas como se fossem muito próximas.
De acordo com a mensagem da presidente ao Congresso, o culpado pela corrupção seria o sistema político. E, pelo que se pode deduzir do enviesado raciocínio presidencial, as pessoas que praticam corrupção não seriam tão corruptas assim. Seriam, antes, reféns de um perverso sistema.
Naturalmente, esse modo de pensar é benéfico à presidente, já que ela simplesmente lava as mãos pelo que de ruim acontece em seu governo. Para acabar com a corrupção, seria preciso mudar o sistema representativo, mas o que ela pode fazer se o Congresso Nacional - que é quem tem competência constitucional para fazer a reforma política - sempre a adia? A culpa seria do sistema, e subsidiariamente do Congresso. Já a presidente estaria isenta de responsabilidade no que se refere à corrupção.
Essa linha de raciocínio pretende vender também um mundo irreal. Agora, há muita corrupção. Mas, quando for feita a reforma política, tudo se ajeitará e o Brasil já não terá mais problemas desse tipo. Escapa-se, pensando assim, de um diagnóstico realista sobre o presente, oferecendo-se um mundo cor-de-rosa no futuro. E justifica-se a inação.
Pena que os fatos desmintam o raciocínio da presidente Dilma. O sistema político brasileiro é o mesmo de 20 anos atrás. No entanto, a corrupção expandiu-se exponencialmente nos últimos anos. Dessa simples constatação - da qual nem a presidente pode fugir -, surgem algumas perguntas. Se o sistema representativo não mudou nesse período, por que será que a corrupção aumentou tanto? Qual culpa tem o sistema representativo pelos desvios de dinheiro praticados por diretores da maior estatal brasileira? Aqueles que ocuparam ou ocupam cargos de responsabilidade na administração pública não têm nenhuma responsabilidade pelo escândalo do petrolão?
O sistema de representação precisa melhorar, e é um dever do Congresso Nacional fazer a tão esperada reforma política. Mas, seja qual sistema for, sempre haverá a possibilidade de corrupção. Isso não significa, no entanto, desistir de combater a corrupção, como parece insinuar a presidente. Significa que, mesmo agora, com uma representação política deficiente, é possível combater eficazmente a corrupção. A começar por não atribuir falsas causas à roubalheira. No caso presente, roubou-se desbragadamente não porque a isso o sistema político levou, mas porque políticos, funcionários e empreiteiros corruptos se reuniram para sangrar a Petrobrás e o Tesouro em benefício de um projeto de poder.
A presidente Dilma Rousseff utilizou a mensagem anual ao Congresso Nacional para insistir numa intencional confusão entre as deficiências do atual sistema de representação e as causas da corrupção. Ao se referir ao esforço para combater a corrupção e a impunidade - esforço este que, para ser mais fiel à realidade, deveria vir acompanhado de aspas, por seu caráter duvidoso ou, ao menos, bastante ineficaz até o momento -, a presidente Dilma disse que tal esforço "produzirá resultados apenas parciais, caso o Brasil não enfrente a fonte principal dos desvios e dos desmandos: as insuficiências e distorções do nosso sistema de representação política".
É mais que evidente a necessidade de uma reforma política. Os resultados do atual sistema de representação são apresentados diariamente aos olhos de todos os brasileiros. É um sistema que serve muito bem aos interesses de alguns, e muito mal ao interesse público. Exemplo disso é a proliferação de partidos, que não atende à diversidade de pensamento e opinião de uma sociedade vibrante e plural. Essa proliferação satisfaz a ambições e interesses particulares. Produz partidos que não representam parcelas ou minorias, organizando o povo, porque são legendas de aluguel, à disposição de quem mais pague ou melhores condições ofereça.
Outra coisa, muito diversa dos problemas de representação, é a corrupção estonteante da qual se vai tendo mais detalhes a cada dia. No entanto, a presidente Dilma parece querer tratar as duas como se fossem muito próximas.
De acordo com a mensagem da presidente ao Congresso, o culpado pela corrupção seria o sistema político. E, pelo que se pode deduzir do enviesado raciocínio presidencial, as pessoas que praticam corrupção não seriam tão corruptas assim. Seriam, antes, reféns de um perverso sistema.
Naturalmente, esse modo de pensar é benéfico à presidente, já que ela simplesmente lava as mãos pelo que de ruim acontece em seu governo. Para acabar com a corrupção, seria preciso mudar o sistema representativo, mas o que ela pode fazer se o Congresso Nacional - que é quem tem competência constitucional para fazer a reforma política - sempre a adia? A culpa seria do sistema, e subsidiariamente do Congresso. Já a presidente estaria isenta de responsabilidade no que se refere à corrupção.
Essa linha de raciocínio pretende vender também um mundo irreal. Agora, há muita corrupção. Mas, quando for feita a reforma política, tudo se ajeitará e o Brasil já não terá mais problemas desse tipo. Escapa-se, pensando assim, de um diagnóstico realista sobre o presente, oferecendo-se um mundo cor-de-rosa no futuro. E justifica-se a inação.
Pena que os fatos desmintam o raciocínio da presidente Dilma. O sistema político brasileiro é o mesmo de 20 anos atrás. No entanto, a corrupção expandiu-se exponencialmente nos últimos anos. Dessa simples constatação - da qual nem a presidente pode fugir -, surgem algumas perguntas. Se o sistema representativo não mudou nesse período, por que será que a corrupção aumentou tanto? Qual culpa tem o sistema representativo pelos desvios de dinheiro praticados por diretores da maior estatal brasileira? Aqueles que ocuparam ou ocupam cargos de responsabilidade na administração pública não têm nenhuma responsabilidade pelo escândalo do petrolão?
O sistema de representação precisa melhorar, e é um dever do Congresso Nacional fazer a tão esperada reforma política. Mas, seja qual sistema for, sempre haverá a possibilidade de corrupção. Isso não significa, no entanto, desistir de combater a corrupção, como parece insinuar a presidente. Significa que, mesmo agora, com uma representação política deficiente, é possível combater eficazmente a corrupção. A começar por não atribuir falsas causas à roubalheira. No caso presente, roubou-se desbragadamente não porque a isso o sistema político levou, mas porque políticos, funcionários e empreiteiros corruptos se reuniram para sangrar a Petrobrás e o Tesouro em benefício de um projeto de poder.
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