O ESTADO DE S.PAULO - 12/10
Além dos empréstimos tomados pelo governo para socorrer as distribuidoras de energia elétrica, a um custo estimado pelo TCU em R$ 26 bilhões, os contribuintes terão de arcar com uma benesse internacional concedida pela administração petista: a Petrobrás pagou à Bolívia, em setembro, US$ 434 milhões mais do que o previsto no contrato de fornecimento de gás ao País. A explicação da Bolívia para exigir a "indenização" é que o gás exportado para o Brasil é "rico", com componentes nobres usados na indústria petroquímica, mas se destinou à geração de energia térmica. O pagamento é retroativo, relativo ao período de 2008 a 2013.
A operação causou espanto até na esfera oficial. "A associação entre o pagamento do 'gás rico' e o problema de energia no Brasil foi imediata", disse uma fonte do governo ao jornal Valor (9/10). "Não havia por que pagar por um produto que o Brasil não utilizou e que não estava previsto em contrato."
A Petrobrás atendeu a uma reivindicação do governo de Evo Morales feita na era Lula. O valor da operação permite presumir que o pagamento foi endossado pelo conselho de administração da estatal, presidido pelo ministro Guido Mantega.
A decisão é esdrúxula, pois, prejudicada pelo represamento de preços de combustíveis e devendo mais de R$ 300 bilhões, a Petrobrás tem sérios problemas financeiros.
Segundo analistas, a estatal cedeu porque teria levado em conta a necessidade de a Bolívia entregar o gás prometido a uma termoelétrica de Cuiabá. Foi rápido o acordo entre o presidente da fornecedora boliviana YPFB, Carlos Villegas, e o diretor da Área de Gás e Energia da Petrobrás, José Alcides Santoro, para indenizar a Bolívia. O governo Morales ameaçava não atender a termoelétrica de Cuiabá. O Brasil e a Argentina não estão na lista de prioridades da YPFB, por isso se negocia novo acordo com a empresa boliviana.
É ominosa a submissão do governo brasileiro às pressões da Bolívia. Pode-se compreender a tentativa de assegurar o fornecimento de gás para evitar o racionamento, mas não por meio de uma negociação nebulosa. Contratos bilaterais devem atender aos interesses das partes e basear-se em critérios técnicos. Reivindicar pagamento retroativo assemelha-se mais a uma extorsão.
Em 2006, o Brasil aceitou um valor simbólico na expropriação de ativos da Petrobrás pelo governo Morales, invocando razões diplomáticas. Hoje, não há diplomacia que justifique o saque no caixa da Petrobrás.
domingo, outubro 12, 2014
Fazendo o diabo - PEDRO MALAN
O ESTADO DE S.PAULO - 12/10
E assim falou Lula: "Portanto, se aqui for dito alguma coisa que eu já disse, é um defeito político, na verdade, um defeito genérico do político brasileiro, mas que, segundo os comunicadores, é sempre importante a gente repetir a mesma coisa muitas vezes, até que esta coisa se torne quase que uma verdade absoluta para todos nós" - em discurso na sessão de abertura da Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios, no início do seu segundo mandato (10/4/2007).
Essa postura não era nova, como já mostrara o bordão sobre herança maldita após 2003, mas sua prática continuada ao longo do segundo mandato permitiria a Lula um arroubo extra de arrogância ao afirmar às vésperas das eleições de 2010: "A opinião pública somos nós". Talvez porque se sentisse à beira de uma vitória que pretendia de caráter plebiscitário. Como é sabido, o PT disputou até agora (mérito seu, devemos reconhecer) nada mesmo que sete eleições presidenciais desde 1989, perdeu as três primeiras (duas no primeiro turno) ganhou as três seguintes e disputa agora, bem situado, sua sétima eleição presidencial.
Cabe lembrar que em nenhuma das eleições que ganhou (e da que ainda espera ganhar) o eleitorado brasileiro lhe concedeu a graça de uma vitória no primeiro turno. É difícil, pois, entender o arrogante "a opinião pública somos nós" de 2010. Assim como é difícil de aceitar a simplória visão de que a complexa, rica e diversa sociedade brasileira caiba na camisa de força da divisão entre o recorrente "nós" do petismo e o conjunto, nada desprezível, daqueles que têm opiniões distintas e recusam a rotulagem fácil como instrumento de desqualificação. Parte expressiva dos 142 milhões de eleitores brasileiros tem todo o direito de perguntar "nós quem?", ao saber que uma mesma coisa deve ser repetida muitas vezes até que esta coisa se torne uma verdade quase que absoluta - e para todos nós.
Quatro meses atrás escrevi neste espaço: é bem possível que a máquina de propaganda do governo, com seus vastos recursos e amplo uso das instrumentalidades do poder, convença mais da metade dos eleitores de que eles devem votar de olhos postos nas "conquistas" que seriam, todas, "dos últimos 12 anos" e que "eles" (quaisquer oposições relevantes) iriam destruí-las se eleitos fossem. É lamentável, pela mentira, desfaçatez e hipocrisia, mas alguns dirão: "Isso é do jogo simbólico da política". Como já foi feito no passado.
Fernando Gabeira foi ao ponto que importa em seu artigo no Globo de domingo passado: "Uma vitória do PT, creio, não pode ser atribuída apenas à sua capacidade de mentir e de atacar". Não se deve nunca acusar o adversário pela própria derrota. Se não for possível resistir aos ataques e mentiras do PT, isso significa que vai ficar eternamente no poder. Por que mudaria de tática?
Com efeito, por que mudaria de tática, se não tivemos respostas políticas adequadas a deslavadas mentiras do tipo "eles" queriam (ou iriam se eleitos) privatizar a Petrobrás, o Banco do Brasil, a Caixa ou o BNDES. Ou do tipo "eles são contra, e se eleitos vão acabar com o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida e outros programas sociais do governo". Ou "eles" não aumentaram o salário mínimo em termos reais - o que é mentira, e de má-fé. Ou a mentira de que os programas de transferência direta de renda para os mais pobres sejam uma criação petista, quando a medida provisória do governo Lula, mais de dez meses e meio após a sua posse, lista os programas que havia herdado do governo anterior, e os consolida, após reconhecer que era muito melhor ideia do que a alternativa que tentara por mais de dez meses. Não é correto, como sabe qualquer pessoa minimamente informada, que a estabilidade tenha sido uma conquista dos anos pós-2003.
A presidente chega à decisão do segundo turno carregando consigo três tipos de heranças - duas das quais de sua própria lavra. Sobre a primeira muito já escrevi neste espaço e posso agora apenas resumir. O Brasil não começou em 2003; os últimos 12 anos foram marcados por três períodos distintos: um Lula do primeiro mandato, que começou a acabar em marco/abril de 2006, um Lula II diferente até 2010 e o governo Dilma, que foi um Lula II muito mais problemático. A nova estratégia de marquetagem política, após afirmar não ser possível voltar ao "passado", volta a 12 ou 16 anos atrás (1998 -2002) para acusar adversários de terem "quebrado por três vezes". Uma mentira e uma tática diversionista para evitar discutir os sérios problemas que hoje enfrenta o País e os difíceis quatro anos à frente.
A segunda herança - e esta é a que importa agora - é a que o governo Dilma construiu para si (ou para seu sucessor) ao longo dos últimos quatro anos. E na qual só vê elementos positivos, os únicos problemas preocupantes sendo derivados da situação internacional. No front doméstico as coisas estariam absolutamente sob controle: inflação dentro da meta, situação fiscal sem problemas de credibilidade, investimento e crescimento sempre prestes a melhorar um dia. Mas o fato é que as legítimas preocupações com a combinação - há quatro anos - de muito baixo crescimento, muito baixo investimento e relativamente alta e renitente inflação constituem manifestações de problemas (não apenas de curto prazo) que não deixarão de existir porque são ignorados pela força da propaganda e de bravatas de campanha.
A terceira herança é a que a presidente Dilma vem construindo em seus discursos e debates de campanha, em especial ao longo dos últimos dois meses, criando para si própria armadilhas adicionais às que construiu com as políticas que implementou ao longo de seus quatro anos. São estas que estão sob o escrutínio agora, quando a presidente pede ao eleitorado mais quatro anos do mesmo, já que não reconhece problemas e, portanto, não vê necessidade de mudanças para enfrentá-los.
E assim falou Lula: "Portanto, se aqui for dito alguma coisa que eu já disse, é um defeito político, na verdade, um defeito genérico do político brasileiro, mas que, segundo os comunicadores, é sempre importante a gente repetir a mesma coisa muitas vezes, até que esta coisa se torne quase que uma verdade absoluta para todos nós" - em discurso na sessão de abertura da Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios, no início do seu segundo mandato (10/4/2007).
Essa postura não era nova, como já mostrara o bordão sobre herança maldita após 2003, mas sua prática continuada ao longo do segundo mandato permitiria a Lula um arroubo extra de arrogância ao afirmar às vésperas das eleições de 2010: "A opinião pública somos nós". Talvez porque se sentisse à beira de uma vitória que pretendia de caráter plebiscitário. Como é sabido, o PT disputou até agora (mérito seu, devemos reconhecer) nada mesmo que sete eleições presidenciais desde 1989, perdeu as três primeiras (duas no primeiro turno) ganhou as três seguintes e disputa agora, bem situado, sua sétima eleição presidencial.
Cabe lembrar que em nenhuma das eleições que ganhou (e da que ainda espera ganhar) o eleitorado brasileiro lhe concedeu a graça de uma vitória no primeiro turno. É difícil, pois, entender o arrogante "a opinião pública somos nós" de 2010. Assim como é difícil de aceitar a simplória visão de que a complexa, rica e diversa sociedade brasileira caiba na camisa de força da divisão entre o recorrente "nós" do petismo e o conjunto, nada desprezível, daqueles que têm opiniões distintas e recusam a rotulagem fácil como instrumento de desqualificação. Parte expressiva dos 142 milhões de eleitores brasileiros tem todo o direito de perguntar "nós quem?", ao saber que uma mesma coisa deve ser repetida muitas vezes até que esta coisa se torne uma verdade quase que absoluta - e para todos nós.
Quatro meses atrás escrevi neste espaço: é bem possível que a máquina de propaganda do governo, com seus vastos recursos e amplo uso das instrumentalidades do poder, convença mais da metade dos eleitores de que eles devem votar de olhos postos nas "conquistas" que seriam, todas, "dos últimos 12 anos" e que "eles" (quaisquer oposições relevantes) iriam destruí-las se eleitos fossem. É lamentável, pela mentira, desfaçatez e hipocrisia, mas alguns dirão: "Isso é do jogo simbólico da política". Como já foi feito no passado.
Fernando Gabeira foi ao ponto que importa em seu artigo no Globo de domingo passado: "Uma vitória do PT, creio, não pode ser atribuída apenas à sua capacidade de mentir e de atacar". Não se deve nunca acusar o adversário pela própria derrota. Se não for possível resistir aos ataques e mentiras do PT, isso significa que vai ficar eternamente no poder. Por que mudaria de tática?
Com efeito, por que mudaria de tática, se não tivemos respostas políticas adequadas a deslavadas mentiras do tipo "eles" queriam (ou iriam se eleitos) privatizar a Petrobrás, o Banco do Brasil, a Caixa ou o BNDES. Ou do tipo "eles são contra, e se eleitos vão acabar com o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida e outros programas sociais do governo". Ou "eles" não aumentaram o salário mínimo em termos reais - o que é mentira, e de má-fé. Ou a mentira de que os programas de transferência direta de renda para os mais pobres sejam uma criação petista, quando a medida provisória do governo Lula, mais de dez meses e meio após a sua posse, lista os programas que havia herdado do governo anterior, e os consolida, após reconhecer que era muito melhor ideia do que a alternativa que tentara por mais de dez meses. Não é correto, como sabe qualquer pessoa minimamente informada, que a estabilidade tenha sido uma conquista dos anos pós-2003.
A presidente chega à decisão do segundo turno carregando consigo três tipos de heranças - duas das quais de sua própria lavra. Sobre a primeira muito já escrevi neste espaço e posso agora apenas resumir. O Brasil não começou em 2003; os últimos 12 anos foram marcados por três períodos distintos: um Lula do primeiro mandato, que começou a acabar em marco/abril de 2006, um Lula II diferente até 2010 e o governo Dilma, que foi um Lula II muito mais problemático. A nova estratégia de marquetagem política, após afirmar não ser possível voltar ao "passado", volta a 12 ou 16 anos atrás (1998 -2002) para acusar adversários de terem "quebrado por três vezes". Uma mentira e uma tática diversionista para evitar discutir os sérios problemas que hoje enfrenta o País e os difíceis quatro anos à frente.
A segunda herança - e esta é a que importa agora - é a que o governo Dilma construiu para si (ou para seu sucessor) ao longo dos últimos quatro anos. E na qual só vê elementos positivos, os únicos problemas preocupantes sendo derivados da situação internacional. No front doméstico as coisas estariam absolutamente sob controle: inflação dentro da meta, situação fiscal sem problemas de credibilidade, investimento e crescimento sempre prestes a melhorar um dia. Mas o fato é que as legítimas preocupações com a combinação - há quatro anos - de muito baixo crescimento, muito baixo investimento e relativamente alta e renitente inflação constituem manifestações de problemas (não apenas de curto prazo) que não deixarão de existir porque são ignorados pela força da propaganda e de bravatas de campanha.
A terceira herança é a que a presidente Dilma vem construindo em seus discursos e debates de campanha, em especial ao longo dos últimos dois meses, criando para si própria armadilhas adicionais às que construiu com as políticas que implementou ao longo de seus quatro anos. São estas que estão sob o escrutínio agora, quando a presidente pede ao eleitorado mais quatro anos do mesmo, já que não reconhece problemas e, portanto, não vê necessidade de mudanças para enfrentá-los.
Musculatura x anabolizante - HENRIQUE MEIRELLES
FOLHA DE SP - 12/10
O Banco Mundial e o FMI revisaram para baixo as previsões de crescimento da economia mundial e da maioria dos países neste ano. Alguns estão crescendo bem, como EUA e Reino Unido, mas seguem em recuperação. Já zona do euro, alguns asiáticos e os latino-americanos tiveram suas estimativas reduzidas. O Brasil está entre os que sofreram maior revisão de crescimento pelo FMI, de 1,3% para 0,3%. E há ainda os países que enfrentam recessão, como a Argentina.
Os latino-americanos são os casos mais preocupantes, pois já gastaram a munição fiscal (e monetária, em alguns casos) para retomar o crescimento. Com a trajetória de aumento da dívida pública, eles não têm mais espaço para usar recursos públicos para impulsionar o crescimento.
É preciso buscar caminhos para reverter esse processo. No Brasil, eles passam pelo aumento da confiança para a retomada dos investimentos em produtividade no setor industrial e de serviços para atender ao grande mercado de consumo interno. Passam pela educação, fator crítico no aumento da produtividade. E passam também pelos investimentos em infraestrutura, para atender à demanda criada pela expansão econômica dos últimos anos --um problema (infraestrutura congestionada) que é parte importante da solução (a demanda que viabiliza os investimentos).
Na Argentina, a contração é profunda e complexa, situada num longo processo de redução relativa da renda e do padrão de vida nas últimas décadas. O país agora tenta reverter sua última crise reeditando decreto do ex-presidente Perón, de 1974, que dá poder ao governo de intervir nas empresas, na sua produção, no seu sistema de fixação de preços etc. Como a história mostra, essa reedição de expedientes do passado, dando poder a burocratas para tomar decisões arbitrárias no funcionamento das empresas, tende a desorganizar ainda mais a economia e criar novas distorções.
Já países que adotaram políticas de desenvolvimento de longo prazo baseadas em educação, produtividade e competitividade do setor privado, como Coreia do Sul, Cingapura e, anteriormente, o Japão, adquiriram em poucas décadas padrões de crescimento, renda e poder econômico similares aos dos países desenvolvidos.
Nesse quadro de queda do crescimento no Brasil, é importante que não nos fixemos só no curto prazo, visando 2015. É preciso olhar as curvas de longo prazo, verificando o que é necessário fazer para reverter tendências e seguir o caminho dos países que de fato deram salto no padrão de vida. Eles trabalharam duro nas melhorias de longo prazo e tiveram resultados mais rápido que os dos apressados.
O longo prazo demora, mas um dia chega.
O Banco Mundial e o FMI revisaram para baixo as previsões de crescimento da economia mundial e da maioria dos países neste ano. Alguns estão crescendo bem, como EUA e Reino Unido, mas seguem em recuperação. Já zona do euro, alguns asiáticos e os latino-americanos tiveram suas estimativas reduzidas. O Brasil está entre os que sofreram maior revisão de crescimento pelo FMI, de 1,3% para 0,3%. E há ainda os países que enfrentam recessão, como a Argentina.
Os latino-americanos são os casos mais preocupantes, pois já gastaram a munição fiscal (e monetária, em alguns casos) para retomar o crescimento. Com a trajetória de aumento da dívida pública, eles não têm mais espaço para usar recursos públicos para impulsionar o crescimento.
É preciso buscar caminhos para reverter esse processo. No Brasil, eles passam pelo aumento da confiança para a retomada dos investimentos em produtividade no setor industrial e de serviços para atender ao grande mercado de consumo interno. Passam pela educação, fator crítico no aumento da produtividade. E passam também pelos investimentos em infraestrutura, para atender à demanda criada pela expansão econômica dos últimos anos --um problema (infraestrutura congestionada) que é parte importante da solução (a demanda que viabiliza os investimentos).
Na Argentina, a contração é profunda e complexa, situada num longo processo de redução relativa da renda e do padrão de vida nas últimas décadas. O país agora tenta reverter sua última crise reeditando decreto do ex-presidente Perón, de 1974, que dá poder ao governo de intervir nas empresas, na sua produção, no seu sistema de fixação de preços etc. Como a história mostra, essa reedição de expedientes do passado, dando poder a burocratas para tomar decisões arbitrárias no funcionamento das empresas, tende a desorganizar ainda mais a economia e criar novas distorções.
Já países que adotaram políticas de desenvolvimento de longo prazo baseadas em educação, produtividade e competitividade do setor privado, como Coreia do Sul, Cingapura e, anteriormente, o Japão, adquiriram em poucas décadas padrões de crescimento, renda e poder econômico similares aos dos países desenvolvidos.
Nesse quadro de queda do crescimento no Brasil, é importante que não nos fixemos só no curto prazo, visando 2015. É preciso olhar as curvas de longo prazo, verificando o que é necessário fazer para reverter tendências e seguir o caminho dos países que de fato deram salto no padrão de vida. Eles trabalharam duro nas melhorias de longo prazo e tiveram resultados mais rápido que os dos apressados.
O longo prazo demora, mas um dia chega.
Como roubaram a Petrobrás - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S.PAULO 12/10
Começam a brotar os detalhes daquele que se afigura como um dos maiores escândalos de corrupção da história brasileira - o assalto à Petrobrás, que teria movimentado ao menos R$ 10 bilhões. Os mais recentes depoimentos dos principais personagens desse escabroso esquema, montado para drenar os recursos da maior empresa estatal do País, revelam a quem foi repassado o produto do roubo - e, mais uma vez, como tem sido habitual ao longo dos governos lulopetistas, aparecem fartas digitais do PT.
Fica cada vez mais claro que figuras de proa desse partido - muitas das quais já foram presas por corrupção - permitiram na última década o arrombamento dos cofres do Estado por parte de delinquentes, servindo-se desse dinheiro para financiar seu projeto de poder.
À Justiça Federal no Paraná, Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Refino e Abastecimento da Petrobrás e um dos pivôs do escândalo, confirmou que uma parte do dinheiro desviado financiou as campanhas do PT, do PMDB e do PP em 2010.
Contando detalhes que só quem participou da operação poderia conhecer, Costa revelou que de 2% a 3% dos contratos superfaturados eram desviados para atender os petistas. Segundo ele, várias diretorias da estatal eram do PT. "Então, tinha PT na Diretoria de Produção, Gás e Energia e na área de Serviços. O comentário que pautava a companhia nesses casos era que 3% iam diretamente para o PT", relatou o ex-diretor, em depoimento gravado. No caso de sua diretoria, Costa afirmou que os 3% eram repartidos entre o PP, ele e o doleiro Alberto Youssef, o outro operador do esquema. Já a Diretoria Internacional repassava os recursos desviados para o PMDB, segundo disseram Costa e Youssef.
Costa afirmou que o contato dos diretores envolvidos nos desvios era feito "diretamente" com João Vaccari Neto, tesoureiro do PT. O nome de Vaccari Neto foi confirmado por Youssef, que também prestou depoimento à Justiça Federal.
Os tentáculos do esquema não se limitavam às diretorias da Petrobrás. Em 2004, segundo declarou Youssef, os "agentes políticos" envolvidos no escândalo pressionaram o então presidente Lula a nomear Costa para a Diretoria de Refino e Abastecimento, ameaçando trancar a pauta do Congresso. "Na época, o presidente ficou louco e teve de ceder", disse o doleiro. Esse relato, se confirmado, revela como a máfia instalada na Petrobrás se sentia à vontade para manipular até mesmo o presidente da República e o Congresso em favor de seus interesses criminosos. E essa sem-cerimônia talvez se explique pelo fato de que membros proeminentes do próprio partido de Lula, a julgar pelos depoimentos, estavam cobrando pedágio e se beneficiando da roubalheira na estatal.
Os depoimentos de Costa e de Youssef foram os primeiros dados à Justiça depois do acordo em que decidiram contar tudo o que sabem em troca de redução de pena. Se oferecerem informações falsas, perderão imediatamente o benefício - logo, os dois têm total interesse que sua delação seja levada a sério.
Além disso, ambos ofereceram atas e documentos que, segundo eles, comprovariam as reuniões da quadrilha, os esquemas de pagamento e as transações para lavagem de dinheiro em empresas offshore. As autoridades sabem que estão lidando com material explosivo. Segundo a defesa de Youssef, ele e Costa foram apenas operadores do esquema - os verdadeiros líderes "estão fora desse processo, são agentes políticos".
Diante da enorme gravidade dos fatos até aqui relatados, e ante a certeza de que se trata apenas de uma fração de um escândalo muito maior, seria legítimo esperar que Lula e a presidente Dilma Rousseff viessem a público para dar explicações convincentes sobre o envolvimento de seus correligionários nos crimes relatados. No entanto, Dilma preferiu queixar-se do vazamento dos depoimentos de Costa e de Youssef - como se o mais importante não fosse o vazamento, pelo ladrão, de dinheiro da Petrobrás. Já a reação de Lula foi típica daqueles que se consideram moralmente superiores: ele se disse "de saco cheio" das denúncias de corrupção contra o PT. Pois os brasileiros podem dizer o mesmo.
Começam a brotar os detalhes daquele que se afigura como um dos maiores escândalos de corrupção da história brasileira - o assalto à Petrobrás, que teria movimentado ao menos R$ 10 bilhões. Os mais recentes depoimentos dos principais personagens desse escabroso esquema, montado para drenar os recursos da maior empresa estatal do País, revelam a quem foi repassado o produto do roubo - e, mais uma vez, como tem sido habitual ao longo dos governos lulopetistas, aparecem fartas digitais do PT.
Fica cada vez mais claro que figuras de proa desse partido - muitas das quais já foram presas por corrupção - permitiram na última década o arrombamento dos cofres do Estado por parte de delinquentes, servindo-se desse dinheiro para financiar seu projeto de poder.
À Justiça Federal no Paraná, Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Refino e Abastecimento da Petrobrás e um dos pivôs do escândalo, confirmou que uma parte do dinheiro desviado financiou as campanhas do PT, do PMDB e do PP em 2010.
Contando detalhes que só quem participou da operação poderia conhecer, Costa revelou que de 2% a 3% dos contratos superfaturados eram desviados para atender os petistas. Segundo ele, várias diretorias da estatal eram do PT. "Então, tinha PT na Diretoria de Produção, Gás e Energia e na área de Serviços. O comentário que pautava a companhia nesses casos era que 3% iam diretamente para o PT", relatou o ex-diretor, em depoimento gravado. No caso de sua diretoria, Costa afirmou que os 3% eram repartidos entre o PP, ele e o doleiro Alberto Youssef, o outro operador do esquema. Já a Diretoria Internacional repassava os recursos desviados para o PMDB, segundo disseram Costa e Youssef.
Costa afirmou que o contato dos diretores envolvidos nos desvios era feito "diretamente" com João Vaccari Neto, tesoureiro do PT. O nome de Vaccari Neto foi confirmado por Youssef, que também prestou depoimento à Justiça Federal.
Os tentáculos do esquema não se limitavam às diretorias da Petrobrás. Em 2004, segundo declarou Youssef, os "agentes políticos" envolvidos no escândalo pressionaram o então presidente Lula a nomear Costa para a Diretoria de Refino e Abastecimento, ameaçando trancar a pauta do Congresso. "Na época, o presidente ficou louco e teve de ceder", disse o doleiro. Esse relato, se confirmado, revela como a máfia instalada na Petrobrás se sentia à vontade para manipular até mesmo o presidente da República e o Congresso em favor de seus interesses criminosos. E essa sem-cerimônia talvez se explique pelo fato de que membros proeminentes do próprio partido de Lula, a julgar pelos depoimentos, estavam cobrando pedágio e se beneficiando da roubalheira na estatal.
Os depoimentos de Costa e de Youssef foram os primeiros dados à Justiça depois do acordo em que decidiram contar tudo o que sabem em troca de redução de pena. Se oferecerem informações falsas, perderão imediatamente o benefício - logo, os dois têm total interesse que sua delação seja levada a sério.
Além disso, ambos ofereceram atas e documentos que, segundo eles, comprovariam as reuniões da quadrilha, os esquemas de pagamento e as transações para lavagem de dinheiro em empresas offshore. As autoridades sabem que estão lidando com material explosivo. Segundo a defesa de Youssef, ele e Costa foram apenas operadores do esquema - os verdadeiros líderes "estão fora desse processo, são agentes políticos".
Diante da enorme gravidade dos fatos até aqui relatados, e ante a certeza de que se trata apenas de uma fração de um escândalo muito maior, seria legítimo esperar que Lula e a presidente Dilma Rousseff viessem a público para dar explicações convincentes sobre o envolvimento de seus correligionários nos crimes relatados. No entanto, Dilma preferiu queixar-se do vazamento dos depoimentos de Costa e de Youssef - como se o mais importante não fosse o vazamento, pelo ladrão, de dinheiro da Petrobrás. Já a reação de Lula foi típica daqueles que se consideram moralmente superiores: ele se disse "de saco cheio" das denúncias de corrupção contra o PT. Pois os brasileiros podem dizer o mesmo.
Sofrer na própria carne - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 12/10
Enquanto brasileiros sentem efeitos da inflação elevada, alto funcionário da Fazenda sugere que se procurem produtos mais baratos
As tentativas de integrantes do governo federal de disfarçar os maus resultados da política econômica tornaram-se mais do que infrutíferas. São agora contraproducentes ou mesmo alarmantes, pois sugerem uma atitude situada entre o alheamento da realidade e a obstinação no erro.
A mais recente demonstração desse comportamento foi dada na entrevista em que o secretário de Política Econômica, Márcio Holland, comentava os dados a respeito dos preços de setembro.
Diante do fato de que a inflação de novo superou o teto da meta, esse alto funcionário do Ministério da Fazenda observou que o preço de alguns alimentos aumentou mais que o de outros. A informação é corriqueira, mas fugiu ao convencional sua recomendação de que os brasileiros passassem a adquirir substitutos mais em conta.
A sugestão, entre cômica e constrangedora, resultou da desastrada tentativa de dissimular os efeitos da carestia com um fato econômico conhecido: os consumidores trocam produtos temporariamente mais caros por similares (carne de boi por frango, por exemplo).
Em uma nota em que procuraria atenuar as consequências de sua declaração, o secretário Holland afirmou que tratava apenas desse "efeito substituição".
Quando existe essa troca por produtos mais baratos, pode ocorrer inclusive uma medida superestimada da inflação "real", pois o bem de preço mais alto deixa, por um tempo, de fazer parte da cesta de consumo habitual. Dado o problema inflacionário brasileiro, a observação é pormenor técnico.
O IPCA, índice de preços que baliza o regime de metas, flutua em torno de 6% desde 2010; em termos anuais, atingiu 6,75% em setembro. Trata-se do mesmo nível dos "núcleos de inflação", medidas que desconsideram preços discrepantes ou sujeitos a choques.
A alta dos valores é disseminada, se medida pela proporção de produtos que se tornam mais caros mês a mês. Esse "índice de difusão" voltou a subir, para 61% dos subitens da cesta de consumo avaliada pelo IBGE. A média dos economistas ouvidos pelo Banco Central projeta inflação de 6,3% para este ano. Ou seja, a carestia é persistente e abrangente.
Mascarar tal problema produz apenas mais descrédito na administração do país. Reduz a confiança de consumidores e empresários.
Não encará-lo de modo devido e decisivo induz os agentes econômicos a esperar outras, e talvez maiores, rodadas de altas de preços, com o que a inflação se torna mais resistente. Assim, aumenta o custo de reduzi-la. O remédio se torna mais amargo, não importa o quanto se doure a pílula.
Enquanto brasileiros sentem efeitos da inflação elevada, alto funcionário da Fazenda sugere que se procurem produtos mais baratos
As tentativas de integrantes do governo federal de disfarçar os maus resultados da política econômica tornaram-se mais do que infrutíferas. São agora contraproducentes ou mesmo alarmantes, pois sugerem uma atitude situada entre o alheamento da realidade e a obstinação no erro.
A mais recente demonstração desse comportamento foi dada na entrevista em que o secretário de Política Econômica, Márcio Holland, comentava os dados a respeito dos preços de setembro.
Diante do fato de que a inflação de novo superou o teto da meta, esse alto funcionário do Ministério da Fazenda observou que o preço de alguns alimentos aumentou mais que o de outros. A informação é corriqueira, mas fugiu ao convencional sua recomendação de que os brasileiros passassem a adquirir substitutos mais em conta.
A sugestão, entre cômica e constrangedora, resultou da desastrada tentativa de dissimular os efeitos da carestia com um fato econômico conhecido: os consumidores trocam produtos temporariamente mais caros por similares (carne de boi por frango, por exemplo).
Em uma nota em que procuraria atenuar as consequências de sua declaração, o secretário Holland afirmou que tratava apenas desse "efeito substituição".
Quando existe essa troca por produtos mais baratos, pode ocorrer inclusive uma medida superestimada da inflação "real", pois o bem de preço mais alto deixa, por um tempo, de fazer parte da cesta de consumo habitual. Dado o problema inflacionário brasileiro, a observação é pormenor técnico.
O IPCA, índice de preços que baliza o regime de metas, flutua em torno de 6% desde 2010; em termos anuais, atingiu 6,75% em setembro. Trata-se do mesmo nível dos "núcleos de inflação", medidas que desconsideram preços discrepantes ou sujeitos a choques.
A alta dos valores é disseminada, se medida pela proporção de produtos que se tornam mais caros mês a mês. Esse "índice de difusão" voltou a subir, para 61% dos subitens da cesta de consumo avaliada pelo IBGE. A média dos economistas ouvidos pelo Banco Central projeta inflação de 6,3% para este ano. Ou seja, a carestia é persistente e abrangente.
Mascarar tal problema produz apenas mais descrédito na administração do país. Reduz a confiança de consumidores e empresários.
Não encará-lo de modo devido e decisivo induz os agentes econômicos a esperar outras, e talvez maiores, rodadas de altas de preços, com o que a inflação se torna mais resistente. Assim, aumenta o custo de reduzi-la. O remédio se torna mais amargo, não importa o quanto se doure a pílula.
Economia parou por causa dos equívocos do governo - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 12/10
O mundo passou por séria crise financeira cujas consequências ainda se fazem presentes. Mas são as causas internas que contribuem, hoje, para estagnar a economia

Que o mundo passou por uma crise financeira muito grave, e ainda sofre as consequência dela, é um fato sobre o qual ninguém pode discordar. Mas a crise não é mais justificativa para o fraco desempenho da economia brasileira nos últimos anos. Os equívocos internos de política econômica certamente foram os que mais contribuíram para o país estar estagnado, com retração nos investimentos e séria ameaça na inflação.
O governo apostou no estímulo ao consumo, acreditando que o ciclo se autoalimentaria, sustentando um forte ritmo de crescimento. E nessa aposta pisou no acelerador dos gastos correntes, confiando na expansão das receitas tributárias. Aposta perdida.
Quando o modelo, o tal “novo marco macroeconômico”, começou a dar sinais de exaustão, já em meados de 2012, o governo não reviu a estratégia. Ao contrário, pisou mais fundo no acelerador dos gastos. Para compensar essa política fiscal expansionista, o Banco Central foi obrigado a elevar consideravelmente as taxas básicas de juros.
Não por acaso esse ambiente gerou enorme desalento no meio empresarial. Por sucessivas vezes o governo prometeu corrigir os rumos da política econômica e não o fez. A meta de superávit primário nas finanças consolidadas do setor público se tornou fictícia. Já se aproximando do fim do exercício as autoridades mantêm a promessa vã de que o superávit de 1,9% do PIB ajustado para 1,3% será alcançado. Para fechar as contas de exercícios anteriores o governo fez muitas operações contábeis para que receitas extraordinárias pudessem reforçar o caixa no apagar das luzes. Este ano, ao que tudo indica, a chamada contabilidade criativa será mais uma vez acionada para que algum superávit primário possa aparecer nas estatísticas oficiais.
A resistência a mudar a política fiscal tem sem dúvida motivação político-partidária. O governo assistiu de braços cruzados às distorções do seguro desemprego, cujos números conflitam com os índices de ocupação apurados pelo IBGE ou pelo Ministério do Trabalho. Fez demagogia com os preços dos combustíveis e as tarifas de energia elétrica, sendo que em relação a estas já havia um quadro de cenário hidrológico desfavorável, tornando inevitável o acionamento de todas as usinas térmicas com custo de geração mais alto.
Para engordar a receita de dividendos, o governo capitalizou suas instituições financeiras com a emissão de títulos públicos, aumentando a dívida bruta e assumindo mais encargos financeiros, o que tornaria necessário um esforço adicional de acumulação de superávit primário.
É nesse sentido que uma mudança nos rumos da política econômica, especialmente a fiscal, poderá ser capaz de desanuviar o atual ambiente negativo no meio empresarial, fazendo com que os investimentos sejam retomados.
O mundo passou por séria crise financeira cujas consequências ainda se fazem presentes. Mas são as causas internas que contribuem, hoje, para estagnar a economia
Que o mundo passou por uma crise financeira muito grave, e ainda sofre as consequência dela, é um fato sobre o qual ninguém pode discordar. Mas a crise não é mais justificativa para o fraco desempenho da economia brasileira nos últimos anos. Os equívocos internos de política econômica certamente foram os que mais contribuíram para o país estar estagnado, com retração nos investimentos e séria ameaça na inflação.
O governo apostou no estímulo ao consumo, acreditando que o ciclo se autoalimentaria, sustentando um forte ritmo de crescimento. E nessa aposta pisou no acelerador dos gastos correntes, confiando na expansão das receitas tributárias. Aposta perdida.
Quando o modelo, o tal “novo marco macroeconômico”, começou a dar sinais de exaustão, já em meados de 2012, o governo não reviu a estratégia. Ao contrário, pisou mais fundo no acelerador dos gastos. Para compensar essa política fiscal expansionista, o Banco Central foi obrigado a elevar consideravelmente as taxas básicas de juros.
Não por acaso esse ambiente gerou enorme desalento no meio empresarial. Por sucessivas vezes o governo prometeu corrigir os rumos da política econômica e não o fez. A meta de superávit primário nas finanças consolidadas do setor público se tornou fictícia. Já se aproximando do fim do exercício as autoridades mantêm a promessa vã de que o superávit de 1,9% do PIB ajustado para 1,3% será alcançado. Para fechar as contas de exercícios anteriores o governo fez muitas operações contábeis para que receitas extraordinárias pudessem reforçar o caixa no apagar das luzes. Este ano, ao que tudo indica, a chamada contabilidade criativa será mais uma vez acionada para que algum superávit primário possa aparecer nas estatísticas oficiais.
A resistência a mudar a política fiscal tem sem dúvida motivação político-partidária. O governo assistiu de braços cruzados às distorções do seguro desemprego, cujos números conflitam com os índices de ocupação apurados pelo IBGE ou pelo Ministério do Trabalho. Fez demagogia com os preços dos combustíveis e as tarifas de energia elétrica, sendo que em relação a estas já havia um quadro de cenário hidrológico desfavorável, tornando inevitável o acionamento de todas as usinas térmicas com custo de geração mais alto.
Para engordar a receita de dividendos, o governo capitalizou suas instituições financeiras com a emissão de títulos públicos, aumentando a dívida bruta e assumindo mais encargos financeiros, o que tornaria necessário um esforço adicional de acumulação de superávit primário.
É nesse sentido que uma mudança nos rumos da política econômica, especialmente a fiscal, poderá ser capaz de desanuviar o atual ambiente negativo no meio empresarial, fazendo com que os investimentos sejam retomados.
A Petrobras privatizada - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 12/10
Depoimentos de Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef mostram um esquema em que a estatal é usada para servir a grupos políticos
Um dos candidatos à Presidência da República, já derrotado no primeiro turno, disse a quem quisesse ouvir, no Jornal Nacional, que privatizaria a Petrobras. Essa ideia já foi usada no passado pelo petismo para fazer terrorismo eleitoral contra seus adversários – que, ao contrário do pastor Everaldo, jamais haviam mencionado a possibilidade de vender a estatal petrolífera. Mas, se for confirmada a veracidade dos depoimentos do ex-diretor Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef, presos na Operação Lava Jato, ficará evidente que a Petrobras já estava “privatizada” havia muito tempo – não no papel, mas na prática, servindo aos interesses do PT e seus aliados.
Costa, que aderiu à delação premiada, contou à Justiça Federal do Paraná detalhes de como os contratos feitos pela Petrobras rendiam um adicional de 3%, divididos entre PT, PMDB e PP – a divisão do butim variava de acordo com a diretoria envolvida e com o partido responsável pela indicação do diretor. O ex-diretor deixou claro que a campanha eleitoral de 2010 foi abastecida, em parte, por esse dinheiro – os nomes só não vieram à tona porque se trata de pessoas com foro privilegiado. O Ministério Público já sabe quem são os envolvidos, que estão sendo investigados pelo Supremo Tribunal Federal.
E Youssef não poderia ser mais didático quando foi questionado pelo juiz Sérgio Moro a respeito do funcionamento do esquema. “Vou explicar para Vossa Excelência entender. O contrato é um só. Uma obra da Camargo Corrêa, R$ 3,48 bilhões, tá certo? Ela tinha, R$ 34 milhões ela tinha de pagar por aquela obra para o PP. Eu era responsável por essa parte. A outra parte eu não era responsável. Ele tinha de pagar mais 1%, mais outros R$ 34 milhões, ou 2%, no caso o Paulo Roberto [Costa] está dizendo, para outro operador, no caso, o João Vaccari”, fazendo referência ao diretor financeiro do PT. Foi assim que bilhões de reais teriam sido desviados, com propinas pagas por 13 empresas. “Se ela [a empresa] não pagasse, tinha a ingerência política e do próprio diretor, que ela não fazia a obra se ela não pagasse”, ainda acrescentou o doleiro.
As afirmações de Costa e Youssef vêm jogar mais gasolina na fogueira dos escândalos que assolam a Petrobras já há alguns anos. Há o prejuízo bilionário com a refinaria de Pasadena, no Texas, uma história que ainda segue mal contada, especialmente no que se refere ao conhecimento que os integrantes do Conselho de Administração (entre os quais estava a hoje presidente da República, então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff) tinham dos termos do contrato. Há o caso da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, que começou com o calote de Hugo Chávez (prejuízo com o qual o governo brasileiro arcou integralmente) e terminou com um superfaturamento que, nas contas do MP, chega a R$ 613 milhões. Há o uso político da empresa, que, para impedir uma disparada da inflação, há tempos paga para abastecer o tanque dos carros dos brasileiros, revendendo a preços menores gasolina comprada do exterior. Tanta irresponsabilidade fez da Petrobras, em outubro de 2013, a empresa não financeira mais endividada do mundo.
A conclusão é muito simples: uma empresa estatal está sendo colocada a serviço de uns poucos grupos políticos, enriquecendo-os, enquanto a própria companhia e seus acionistas minoritários pagam o prejuízo dos esquemas fraudulentos e da má administração. O discurso de “patrimônio do povo brasileiro” vira, assim, mera peça publicitária, porque na realidade a Petrobras já virou propriedade particular de seus saqueadores.
Do sonho ao pesadelo - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 12/10
Enquanto dezenas de bilhões de barris de petróleo repousam no fundo do Oceano Atlântico ao longo da costa brasileira, escândalos jorram das profundezas da Petrobras. É o sonho da redenção, acalentado pelas riquezas do pré-sal, transformado num pesadelo sem fim, como a confirmar a máxima de que o Brasil de fato está destinado a ser - para sempre - o país do futuro.
A história que começou a ser escrita com a coautoria de Monteiro Lobato - autor de uma das mais amplas e marcantes obras da literatura infantil brasileira e que, em meados do século passado, se tornou ícone da campanha "o petróleo é nosso" - ganhou capítulo que envergonha contar com crianças na sala. E exige sequência igualmente imprópria para menores, com cenas de doloroso, repugnante, mas absolutamente necessário exorcismo de malfeitos.
A companhia fundada 61 anos atrás pelo presidente Getúlio Vargas há que voltar a orgulhar o brasileiro e a servir de exemplo para a criançada. Há que ter resgatado o papel com que se firmou no mundo, de espécie de bússola brasileira de qualidade e tecnologia de ponta. Há que se revelar maior do que aproveitadores de ocasião, maus gestores eventuais.
A Petrobras está presente em 17 países. É protagonista mundial no campo energético. Sociedade anônima de capital aberto, tem quase 800 mil acionistas embora o governo seja majoritário. Emprega mais de 86 mil pessoas, tem receita de vendas superior a R$ 300 bilhões, investimentos acima de R$ 100 bilhões.
São números expressivos, grandeza que se imaginava capaz de, por si, impor respeito. Mas tanto brilho acabou por atrair imensurada rapinagem. O que vem à tona com os depoimentos de um ex-diretor e um doleiro flagrados em investigações da Polícia Federal - que resolveram colaborar, em troca dos benefícios da delação premiada - é monumental esquema de corrupção, que, confirmado do modo como descrito, terá a gravidade de um plano institucional, um ataque governamental ao patrimônio do povo brasileiro.
Seria inacreditável, não fossem os depoimentos balizados por muita coerência e muitos detalhes. Não se pode permitir que uma só palavra dita pelos delatores soe vazia. Eles falam de um megaesquema envolvendo partidos, políticos, grandes empreiteiras, pagamento de propinas, obras superfaturadas e desvios também em empreendimentos de outras áreas, como a tão carente infraestrutura nacional. Ou seja, é mais do que roubo de dinheiro. É ataque organizado ao desenvolvimento nacional, com miras calibradas sobre portos, hidrovias, ferrovias, hidrelétricas e até usinas nucleares.
A esta altura, esperava-se da Petrobras a apresentação de projetos arrojados de investimento, projeções capazes de impactar o desenvolvimento econômico e social do país como nunca antes na história, a transformação radical do Brasil de reles importador a privilegiado exportador de petróleo. Não dá para conformar-se com o caos anunciado. É pôr ordem na casa ou pôr ordem na casa. Quanto aos responsáveis, o lugar deles é um só: atrás das grades.
A história que começou a ser escrita com a coautoria de Monteiro Lobato - autor de uma das mais amplas e marcantes obras da literatura infantil brasileira e que, em meados do século passado, se tornou ícone da campanha "o petróleo é nosso" - ganhou capítulo que envergonha contar com crianças na sala. E exige sequência igualmente imprópria para menores, com cenas de doloroso, repugnante, mas absolutamente necessário exorcismo de malfeitos.
A companhia fundada 61 anos atrás pelo presidente Getúlio Vargas há que voltar a orgulhar o brasileiro e a servir de exemplo para a criançada. Há que ter resgatado o papel com que se firmou no mundo, de espécie de bússola brasileira de qualidade e tecnologia de ponta. Há que se revelar maior do que aproveitadores de ocasião, maus gestores eventuais.
A Petrobras está presente em 17 países. É protagonista mundial no campo energético. Sociedade anônima de capital aberto, tem quase 800 mil acionistas embora o governo seja majoritário. Emprega mais de 86 mil pessoas, tem receita de vendas superior a R$ 300 bilhões, investimentos acima de R$ 100 bilhões.
São números expressivos, grandeza que se imaginava capaz de, por si, impor respeito. Mas tanto brilho acabou por atrair imensurada rapinagem. O que vem à tona com os depoimentos de um ex-diretor e um doleiro flagrados em investigações da Polícia Federal - que resolveram colaborar, em troca dos benefícios da delação premiada - é monumental esquema de corrupção, que, confirmado do modo como descrito, terá a gravidade de um plano institucional, um ataque governamental ao patrimônio do povo brasileiro.
Seria inacreditável, não fossem os depoimentos balizados por muita coerência e muitos detalhes. Não se pode permitir que uma só palavra dita pelos delatores soe vazia. Eles falam de um megaesquema envolvendo partidos, políticos, grandes empreiteiras, pagamento de propinas, obras superfaturadas e desvios também em empreendimentos de outras áreas, como a tão carente infraestrutura nacional. Ou seja, é mais do que roubo de dinheiro. É ataque organizado ao desenvolvimento nacional, com miras calibradas sobre portos, hidrovias, ferrovias, hidrelétricas e até usinas nucleares.
A esta altura, esperava-se da Petrobras a apresentação de projetos arrojados de investimento, projeções capazes de impactar o desenvolvimento econômico e social do país como nunca antes na história, a transformação radical do Brasil de reles importador a privilegiado exportador de petróleo. Não dá para conformar-se com o caos anunciado. É pôr ordem na casa ou pôr ordem na casa. Quanto aos responsáveis, o lugar deles é um só: atrás das grades.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Foi uma enorme fraude intelectual”
Candidato do PSBD a presidente, Aécio Neves, sobre o programa eleitoral do PT
PETROLÃO: PARAÍSOS FISCAIS MUDARAM DE ENDEREÇO
O propinoduto da Petrobras mostrou os novos destinos do dinheiro da corrupção. O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, por exemplo, tem contas em Hong Kong, distante paraíso fiscal, como revelou esta coluna em junho. O submundo da corrupção agora prefere países que não se submetem a regras internacionais de combate à lavagem de dinheiro: além da China, Rússia e Coreia do Norte.
QUASE DEMOCRÁTICO
Fora do circuito Suíça e Cayman, paraísos “tradicionais”, ditaduras são os destinos mais procurados por quem deseja esconder dinheiro.
MELOU O ESQUEMA
Órgãos fiscalizadores e de controle do Brasil já têm acordos de cooperação com Suíça, Belize, Ilhas Cayman, Jersey, Seychelles etc.
ESCONDER É DIFÍCIL
Paraísos menos famosos como a Ilha de Man e a Ilha Jersey também já são conhecidos pelas autoridades e, portanto, menos procurados.
QUEM AVISA...
Despreparado, com um único hospital especializado, o governo Dilma deveria impedir voos da África, após o ebola arrombar a porta.
AGACIEL MANDAVA MUITO NO SENADO
Condenado na Justiça Federal pelo escândalo dos Atos Secretos, usados para nomear apadrinhados sem concurso e sem publicação no Diário Oficial, o deputado distrital reeleito Agaciel Maia (PTC) mandava tanto no Senado que distribuía “bondades” sem consultar a mesa diretora. Até emprestou apartamento do Senado ao ministro Joaquim Barbosa, após sua nomeação para o Supremo Tribunal Federal.
O RESOLVEDOR
Ocuparam apartamentos funcionais do Senado, cedidos por Agaciel Maia, ministros como Joaquim Barbosa (STF) e Massami Ueda (STJ).
REGISTRE-SE
O empréstimo dos imóveis não implicou em qualquer comprometimento de Joaquim Barbosa ou Massami Ueda, reconhecidos pela seriedade.
A PUNIÇÃO
Agaciel teve os direitos políticos suspensos por 8 anos e está proibido de receber benefícios fiscais por 5 anos e a pagar multa milionária.
CALMANTES NA VEIA
Até deputados aliados de Dilma ironizam: a grande ganhadora com as denúncias do doleiro Alberto Youssef foi a indústria farmacêutica, que deve ter multiplicado a venda de calmantes e remédios para dormir.
CONSIDERAÇÃO
A equipe de Michel Temer anotou: o candidato potiguar a governador Henrique Alves (PMDB) não o convidou para o seu palanque. Mas Alves reclama do apoio de Lula ao adversário Robinson Faria (PSD).
DUAS FRENTES
Em agenda separada, Michel Temer irá ao Rio Grande do Sul para pedir votos a Ivo Sartori (PMDB), enquanto Dilma participará do palanque de Tarso Genro (PT), candidato à reeleição.
CALMA LÁ
Vaiado em roda de amigos após declarar voto a Dilma, o marqueteiro do PMDB, Elsinho Mouco, amenizou: “Sou Dilma, mas não necessariamente contra o Aécio...”.
ADIAMENTO
Senador João Capiberibe pediu a Roberto Amaral adiamento da escolha do presidente do PSB, para depois do 2º turno. “Para não prejudicar companheiros em campanha”, justificou em carta.
NÚMEROS DO POLO
O polo de Manaus faturou R$ 54,6 bilhões nos oito primeiros meses do ano. Números da Suframa apontam crescimento de 5,6% em reais e queda de 2,9% em dólar, comparando com igual período de 2013.
PIOR QUE TÁ, FICA
Com a renovação de mais de 40% da Câmara e dos altos índices de abstenção, o líder do PRB, George Hilton (MG), defende a urgência na reforma política: “É recado nas urnas da crise de representatividade”.
MUITOS VOTOS
Para a revista inglesa The Economist, Aécio Neves (PSDB) precisa conquistar mais de 18 milhões de votos, além dos 34 milhões que teve, para ameaçar a liderança de Dilma Rousseff (PT).
PERGUNTA NO AÇOUGUE
Esse ovo mais barato que a carne é Friboi?
PODER SEM PUDOR
CONTA DE SOMAR
Homem sério, o líder mineiro Milton Campos nunca foi daqueles políticos que tentam explicar o inexplicável. Ele perdeu para João Goulart, em 1960, a eleição para vice-presidente da República, que na época não era "casada" com a de presidente. Na expectativa de obter uma avaliação profunda do seu próprio insucesso, um jornalista provocou:
- Dr. Milton, por que o sr. perdeu?"
- Perdi porque ele teve mais votos - disse, encerrando a conversa mole.
Candidato do PSBD a presidente, Aécio Neves, sobre o programa eleitoral do PT
PETROLÃO: PARAÍSOS FISCAIS MUDARAM DE ENDEREÇO
O propinoduto da Petrobras mostrou os novos destinos do dinheiro da corrupção. O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, por exemplo, tem contas em Hong Kong, distante paraíso fiscal, como revelou esta coluna em junho. O submundo da corrupção agora prefere países que não se submetem a regras internacionais de combate à lavagem de dinheiro: além da China, Rússia e Coreia do Norte.
QUASE DEMOCRÁTICO
Fora do circuito Suíça e Cayman, paraísos “tradicionais”, ditaduras são os destinos mais procurados por quem deseja esconder dinheiro.
MELOU O ESQUEMA
Órgãos fiscalizadores e de controle do Brasil já têm acordos de cooperação com Suíça, Belize, Ilhas Cayman, Jersey, Seychelles etc.
ESCONDER É DIFÍCIL
Paraísos menos famosos como a Ilha de Man e a Ilha Jersey também já são conhecidos pelas autoridades e, portanto, menos procurados.
QUEM AVISA...
Despreparado, com um único hospital especializado, o governo Dilma deveria impedir voos da África, após o ebola arrombar a porta.
AGACIEL MANDAVA MUITO NO SENADO
Condenado na Justiça Federal pelo escândalo dos Atos Secretos, usados para nomear apadrinhados sem concurso e sem publicação no Diário Oficial, o deputado distrital reeleito Agaciel Maia (PTC) mandava tanto no Senado que distribuía “bondades” sem consultar a mesa diretora. Até emprestou apartamento do Senado ao ministro Joaquim Barbosa, após sua nomeação para o Supremo Tribunal Federal.
O RESOLVEDOR
Ocuparam apartamentos funcionais do Senado, cedidos por Agaciel Maia, ministros como Joaquim Barbosa (STF) e Massami Ueda (STJ).
REGISTRE-SE
O empréstimo dos imóveis não implicou em qualquer comprometimento de Joaquim Barbosa ou Massami Ueda, reconhecidos pela seriedade.
A PUNIÇÃO
Agaciel teve os direitos políticos suspensos por 8 anos e está proibido de receber benefícios fiscais por 5 anos e a pagar multa milionária.
CALMANTES NA VEIA
Até deputados aliados de Dilma ironizam: a grande ganhadora com as denúncias do doleiro Alberto Youssef foi a indústria farmacêutica, que deve ter multiplicado a venda de calmantes e remédios para dormir.
CONSIDERAÇÃO
A equipe de Michel Temer anotou: o candidato potiguar a governador Henrique Alves (PMDB) não o convidou para o seu palanque. Mas Alves reclama do apoio de Lula ao adversário Robinson Faria (PSD).
DUAS FRENTES
Em agenda separada, Michel Temer irá ao Rio Grande do Sul para pedir votos a Ivo Sartori (PMDB), enquanto Dilma participará do palanque de Tarso Genro (PT), candidato à reeleição.
CALMA LÁ
Vaiado em roda de amigos após declarar voto a Dilma, o marqueteiro do PMDB, Elsinho Mouco, amenizou: “Sou Dilma, mas não necessariamente contra o Aécio...”.
ADIAMENTO
Senador João Capiberibe pediu a Roberto Amaral adiamento da escolha do presidente do PSB, para depois do 2º turno. “Para não prejudicar companheiros em campanha”, justificou em carta.
NÚMEROS DO POLO
O polo de Manaus faturou R$ 54,6 bilhões nos oito primeiros meses do ano. Números da Suframa apontam crescimento de 5,6% em reais e queda de 2,9% em dólar, comparando com igual período de 2013.
PIOR QUE TÁ, FICA
Com a renovação de mais de 40% da Câmara e dos altos índices de abstenção, o líder do PRB, George Hilton (MG), defende a urgência na reforma política: “É recado nas urnas da crise de representatividade”.
MUITOS VOTOS
Para a revista inglesa The Economist, Aécio Neves (PSDB) precisa conquistar mais de 18 milhões de votos, além dos 34 milhões que teve, para ameaçar a liderança de Dilma Rousseff (PT).
PERGUNTA NO AÇOUGUE
Esse ovo mais barato que a carne é Friboi?
PODER SEM PUDOR
CONTA DE SOMAR
Homem sério, o líder mineiro Milton Campos nunca foi daqueles políticos que tentam explicar o inexplicável. Ele perdeu para João Goulart, em 1960, a eleição para vice-presidente da República, que na época não era "casada" com a de presidente. Na expectativa de obter uma avaliação profunda do seu próprio insucesso, um jornalista provocou:
- Dr. Milton, por que o sr. perdeu?"
- Perdi porque ele teve mais votos - disse, encerrando a conversa mole.
sábado, outubro 11, 2014
Retrato de política brasileira - ANDRÉ GUSTAVO STUMPF
CORREIO BRAZILIENSE - 11/10
Em 1960, comando israelense sequestrou num subúrbio de Buenos Aires o alemão Adolf Eichmann, na época simples funcionário da Mercedes Benz na Argentina, acusado de ter sido o criador da solução final, que executou judeus na Europa em quantidades industriais. Ele foi levado para julgamento em Jerusalém com todas as preocupações de garantia de defesa ao acusado e pleno exercício das liberdades de imprensa. Seria o mais mediático dos julgamentos desde que se instalou em Nuremberg o tribunal para julgar os chefes do sistema nazista.
Hanna Arendt, alemã, judia, filósofa conhecida e reconhecida, foi escalada pela revista The New Yorker para fazer a cobertura do assunto sensacional. Ela produziu cinco magníficos artigos que se transformaram no livro Eichmann em Jerusalém, um relato sobre a banalidade do mal, publicado em 1963. A perplexidade da autora ocorreu quando ela percebeu que o monstro nazista era, na verdade, um burocrata disposto a cumprir ordens, incapaz de refletir sobre seus feitos e pronto para servir aos mais elevados escalões de seu partido.
Ele, aparentemente, não compreendeu a bárbara extensão de seus feitos. Apenas registrou que cumpriu as ordens recebidas e o fez com competência e eficiência. Era o que se esperava dele. Hanna Arendt chamou a esdrúxula situação de banalidade do mal. Ou seja, alguém pratica atos contra a humanidade e não tem a menor ideia do que está produzindo. Essa mesma sensação ocorre quando os jornais informam que na alta cúpula da Petrobras havia um grupo organizado para desviar verbas da empresa com objetivo de premiar empresas e naturalmente conseguir ganhos extraordinários. Paulo Roberto Costa, entre outras pérolas, admitiu repatriar algo em torno de US$ 23 milhões.
O mundo não caiu até agora, embora as notícias sejam cada vez mais estranhas, e até perturbadoras. A contadora Meire Poza depôs perante a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito e narrou fatos de fazer corar frade de pedra. Afirmou que o Partido dos Trabalhadores pagou a multa imposta pelo supremo tribunal Federal a Enivaldo Quadrado, dono da corretora Bonus-Banval, no valor de R$ 28,6 mil. Também acrescentou que ela própria, sob a orientação de Alberto Youssef, emitiu notas fiscais frias no valor de R$ 7 milhões. O festival de irregularidades extrapola a designação simples de corrupção. Trata-se de uma administração dentro do governo cujo objetivo era gerar obras para criar vantagens e propinas que se destinavam a pagar campanhas de partidos, no caso, PT, PMDB e PP, e naturalmente produzir uma sobra que abastecia contas pessoais em bancos na Suíça e outros paraísos fiscais.
Não há até agora sinais de indignação na sociedade. A Petrobras é uma empresa pública, de capital misto, com ações cotadas em bolsa. Já foi uma das maiores do mundo. Perdeu substância e valor nos últimos anos, justamente quando a quadrilha atuou. A produção nacional de petróleo ficou estagnada na década e agora, muito endividada, faz enorme esforço para retomar seu tamanho e sua importância. A instituição tem à sua frente a mina de ouro negro do pré-sal, que exige pesados investimentos para retirá-lo de 5 mil a 6 mil metros de profundidade. O jogo de conveniência entre diretores e doleiros teve pesadas repercussões na economia brasileira e interferiu diretamente na política nacional.
É difícil encontrar adjetivos para tamanha ousadia. Só a banalidade do mal e a certeza da impunidade podem ter concedido tamanha liberdade de ação a meia dúzia de pessoas que não hesitaram em meter a mão no cofre. A teia de interesses é grande e abrange gente graúda. As investigações estão apenas começando e o juiz tem se cercado de cuidados para que parlamentares, ou pessoas que ocupam o primeiro escalão, não sejam mencionadas. Se ocorrer, só o supremo tribunal Federal poderá analisar e julgar os malfeitos. É melhor investigar o possível agora.
O assunto ganhou tamanha dimensão que dificilmente ficará de fora do debate eleitoral que se iniciou ontem. Ainda haverá duas semanas de pancadaria recíproca. Os marqueteiros vão criar fogo de barragem com pesados ataques para esconder esse cenário desolador. Melhor que tentar justificar o injustificável. O tamanho do desvio de dinheiro não é ação de amadores que resolveram passar o fim de semana em Paris. É trabalho de profissionais que decidiram ficar ricos e tornar seus filhos e netos também milionários. Retrato da política brasileira.
Hanna Arendt, alemã, judia, filósofa conhecida e reconhecida, foi escalada pela revista The New Yorker para fazer a cobertura do assunto sensacional. Ela produziu cinco magníficos artigos que se transformaram no livro Eichmann em Jerusalém, um relato sobre a banalidade do mal, publicado em 1963. A perplexidade da autora ocorreu quando ela percebeu que o monstro nazista era, na verdade, um burocrata disposto a cumprir ordens, incapaz de refletir sobre seus feitos e pronto para servir aos mais elevados escalões de seu partido.
Ele, aparentemente, não compreendeu a bárbara extensão de seus feitos. Apenas registrou que cumpriu as ordens recebidas e o fez com competência e eficiência. Era o que se esperava dele. Hanna Arendt chamou a esdrúxula situação de banalidade do mal. Ou seja, alguém pratica atos contra a humanidade e não tem a menor ideia do que está produzindo. Essa mesma sensação ocorre quando os jornais informam que na alta cúpula da Petrobras havia um grupo organizado para desviar verbas da empresa com objetivo de premiar empresas e naturalmente conseguir ganhos extraordinários. Paulo Roberto Costa, entre outras pérolas, admitiu repatriar algo em torno de US$ 23 milhões.
O mundo não caiu até agora, embora as notícias sejam cada vez mais estranhas, e até perturbadoras. A contadora Meire Poza depôs perante a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito e narrou fatos de fazer corar frade de pedra. Afirmou que o Partido dos Trabalhadores pagou a multa imposta pelo supremo tribunal Federal a Enivaldo Quadrado, dono da corretora Bonus-Banval, no valor de R$ 28,6 mil. Também acrescentou que ela própria, sob a orientação de Alberto Youssef, emitiu notas fiscais frias no valor de R$ 7 milhões. O festival de irregularidades extrapola a designação simples de corrupção. Trata-se de uma administração dentro do governo cujo objetivo era gerar obras para criar vantagens e propinas que se destinavam a pagar campanhas de partidos, no caso, PT, PMDB e PP, e naturalmente produzir uma sobra que abastecia contas pessoais em bancos na Suíça e outros paraísos fiscais.
Não há até agora sinais de indignação na sociedade. A Petrobras é uma empresa pública, de capital misto, com ações cotadas em bolsa. Já foi uma das maiores do mundo. Perdeu substância e valor nos últimos anos, justamente quando a quadrilha atuou. A produção nacional de petróleo ficou estagnada na década e agora, muito endividada, faz enorme esforço para retomar seu tamanho e sua importância. A instituição tem à sua frente a mina de ouro negro do pré-sal, que exige pesados investimentos para retirá-lo de 5 mil a 6 mil metros de profundidade. O jogo de conveniência entre diretores e doleiros teve pesadas repercussões na economia brasileira e interferiu diretamente na política nacional.
É difícil encontrar adjetivos para tamanha ousadia. Só a banalidade do mal e a certeza da impunidade podem ter concedido tamanha liberdade de ação a meia dúzia de pessoas que não hesitaram em meter a mão no cofre. A teia de interesses é grande e abrange gente graúda. As investigações estão apenas começando e o juiz tem se cercado de cuidados para que parlamentares, ou pessoas que ocupam o primeiro escalão, não sejam mencionadas. Se ocorrer, só o supremo tribunal Federal poderá analisar e julgar os malfeitos. É melhor investigar o possível agora.
O assunto ganhou tamanha dimensão que dificilmente ficará de fora do debate eleitoral que se iniciou ontem. Ainda haverá duas semanas de pancadaria recíproca. Os marqueteiros vão criar fogo de barragem com pesados ataques para esconder esse cenário desolador. Melhor que tentar justificar o injustificável. O tamanho do desvio de dinheiro não é ação de amadores que resolveram passar o fim de semana em Paris. É trabalho de profissionais que decidiram ficar ricos e tornar seus filhos e netos também milionários. Retrato da política brasileira.
Vencer é um detalhe - FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 11/10
BRASÍLIA - O técnico de futebol Carlos Alberto Parreira disse uma vez que o gol era só um detalhe. Foi crucificado. Mas ele estava certo. Sem treinamento, jogo coletivo, talentos individuais, esforço constante e uma defesa que recupere a bola e saiba sair jogando, é difícil um time marcar um gol e ganhar a partida.
A metáfora vale também para a política e eleições. Quando um prefeito, governador ou presidente da República perde uma eleição, é raro a derrota se dar por causa de um fato fortuito. Às vezes, pode acontecer (como um gol contra no futebol). Mas o mais lógico é a soma do trabalho durante quatro anos acabar se refletindo nas urnas.
A presidente Dilma Rousseff chega a este momento, faltando duas semanas para o segundo turno da corrida presidencial, com 49% de intenções de voto e 43% de rejeição. Numa conta simples, conclui-se que pode pescar apoios em apenas 8% do eleitorado. Não é impossível, mas tampouco é fácil ou simples.
Pior para Dilma é o clima de país partido que ela e o PT estimularam nas últimas décadas. Na narrativa petista, o Brasil hoje se divide entre ricos contra pobres, regiões Norte e Nordeste contra as demais. Nesse clima beligerante --apesar da roupa azul clara na sua primeira propaganda de TV-- não é fácil em duas semanas estender a mão, dizer que o "governo novo" terá "ideias novas".
Pode ser que no dia 26 de outubro a contabilização dos votos pela Justiça Eleitoral dê mais quatro anos para Dilma. Nesse caso, estará validada toda a tática usada até agora, o discurso do medo, o estímulo ao ódio e ao combate em áreas nas quais seria melhor buscar convergências.
No caso de Aécio Neves, o PSDB portou-se como aquele jogador que ficou quase parado, perto da área adversária. Uma bola parece ter sobrado e há boas condições para marcar o gol. Mas, como dizem os comentaristas esportivos, nessas horas, o chute não precisa de força. É só jeito.
BRASÍLIA - O técnico de futebol Carlos Alberto Parreira disse uma vez que o gol era só um detalhe. Foi crucificado. Mas ele estava certo. Sem treinamento, jogo coletivo, talentos individuais, esforço constante e uma defesa que recupere a bola e saiba sair jogando, é difícil um time marcar um gol e ganhar a partida.
A metáfora vale também para a política e eleições. Quando um prefeito, governador ou presidente da República perde uma eleição, é raro a derrota se dar por causa de um fato fortuito. Às vezes, pode acontecer (como um gol contra no futebol). Mas o mais lógico é a soma do trabalho durante quatro anos acabar se refletindo nas urnas.
A presidente Dilma Rousseff chega a este momento, faltando duas semanas para o segundo turno da corrida presidencial, com 49% de intenções de voto e 43% de rejeição. Numa conta simples, conclui-se que pode pescar apoios em apenas 8% do eleitorado. Não é impossível, mas tampouco é fácil ou simples.
Pior para Dilma é o clima de país partido que ela e o PT estimularam nas últimas décadas. Na narrativa petista, o Brasil hoje se divide entre ricos contra pobres, regiões Norte e Nordeste contra as demais. Nesse clima beligerante --apesar da roupa azul clara na sua primeira propaganda de TV-- não é fácil em duas semanas estender a mão, dizer que o "governo novo" terá "ideias novas".
Pode ser que no dia 26 de outubro a contabilização dos votos pela Justiça Eleitoral dê mais quatro anos para Dilma. Nesse caso, estará validada toda a tática usada até agora, o discurso do medo, o estímulo ao ódio e ao combate em áreas nas quais seria melhor buscar convergências.
No caso de Aécio Neves, o PSDB portou-se como aquele jogador que ficou quase parado, perto da área adversária. Uma bola parece ter sobrado e há boas condições para marcar o gol. Mas, como dizem os comentaristas esportivos, nessas horas, o chute não precisa de força. É só jeito.
Nunca antes na Petrobras - PLÁCIDO FERNANDES VIEIRA
CORREIO BRAZILIENSE - 11/10
É espantoso o tamanho da organização criminosa montada para desviar dinheiro da Petrobras. A roubalheira se estendia a outras áreas, além da de Abastecimento, sob a direção de Paulo Roberto Costa. A confirmarem-se as delações do homem-bomba e do doleiro Alberto Youssef, o mensalão - que levou parte da cúpula do PT à cadeia - foi café pequeno perto das maracutaias que sangraram os cofres da estatal nos governos Lula e Dilma.
Apesar do silêncio de Lula (que no mensalão jurou não saber de nada ), e de Dilma afirmar que também não tinha conhecimento da ladroagem na Petrobras, a maior parte do dinheiro afanado, contaram Costa e Youssef, ia para o PT, o PP e o PMDB. Em vez de beneficiar escolas públicas e hospitais, a grana do petróleo jorrava mesmo era para o bolso de espertalhões e foi parar em campanhas eleitorais que mostram, na tevê, um Brasil de mentira no qual muita gente sonha em viver.
De início, agentes da PF investigavam um esquema de lavagem de dinheiro comandado por Youssef. Meio por acaso, acabaram descobrindo a jazida de corrupção na Petrobras. Se, antes, estimava-se que a quadrilha comandada pelo doleiro havia movimentado R$ 10 bilhões, as revelações dos réus à Justiça Federal apontam para cifra ainda mais astronômica.
Foi com medo de acabarem como Marcos Valério, operador do mensalão punido com a maior pena por participação no escândalo, que Costa e Youssef - que se dizem apenas um elo menor do petroduto - fizeram acordo com a Justiça. Em troca da redução da sentença, eles prometeram contar tudo sobre o assalto à estatal. Por isso, sabe-se agora, em detalhes, pela versão dos dois, como a maior empresa brasileira transformou-se num poço sem fundo de corrupção durante os governos petistas.
Apesar do silêncio de Lula (que no mensalão jurou não saber de nada ), e de Dilma afirmar que também não tinha conhecimento da ladroagem na Petrobras, a maior parte do dinheiro afanado, contaram Costa e Youssef, ia para o PT, o PP e o PMDB. Em vez de beneficiar escolas públicas e hospitais, a grana do petróleo jorrava mesmo era para o bolso de espertalhões e foi parar em campanhas eleitorais que mostram, na tevê, um Brasil de mentira no qual muita gente sonha em viver.
De início, agentes da PF investigavam um esquema de lavagem de dinheiro comandado por Youssef. Meio por acaso, acabaram descobrindo a jazida de corrupção na Petrobras. Se, antes, estimava-se que a quadrilha comandada pelo doleiro havia movimentado R$ 10 bilhões, as revelações dos réus à Justiça Federal apontam para cifra ainda mais astronômica.
Foi com medo de acabarem como Marcos Valério, operador do mensalão punido com a maior pena por participação no escândalo, que Costa e Youssef - que se dizem apenas um elo menor do petroduto - fizeram acordo com a Justiça. Em troca da redução da sentença, eles prometeram contar tudo sobre o assalto à estatal. Por isso, sabe-se agora, em detalhes, pela versão dos dois, como a maior empresa brasileira transformou-se num poço sem fundo de corrupção durante os governos petistas.
Acordo programático - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 11/10
As negociações para que a candidata terceira colocada, Marina Silva, una-se à campanha de Aécio Neves neste segundo turno da eleição presidencial, chancelando uma decisão que já foi tomada pela maioria de seus eleitores, podem ter um final feliz neste fim de semana se prevalecer o entendimento em torno de pontos programáticos que estão sendo discutidos pelos dois grupos.
Ambos estão tratando o assunto com muita delicadeza, pois não querem constranger a outra parte e desejam que a união, se ocorrer, faça-se em torno de pontos de acordo que signifiquem avanços no que seria uma unidade para dar ao país um governo progressista que ressalte o melhor do espírito da social democracia encarnada pelo PSDB.
Marina tem deixado claro que não tem interesse em derrotar o PT apenas para vencer a disputa eleitoral, por vingança contra a presidente Dilma pela maneira com que foi tratada na campanha eleitoral, mas para proporcionar ao seu partido de origem condições de rever seus erros e retornar às suas raízes, que teriam, na visão dela, sido perdidas nas disputas políticas dos últimos anos.
Ela vê no momento em que o PSDB chega ao segundo turno a chance de os tucanos ressaltarem seus laços sociais, que deram origem ao Plano Real e a diversas ações para a criação do que Fernando Henrique chamava à época de "rede de proteção social". Dentro desse espírito, foram criadas a Bolsa Escola, o Auxílio Gás, o Bolsa Alimentação e o Auxílio Alimentação, que originaram o Bolsa Família quando o governo Lula, por sugestão do governador tucano Marconi Perillo, unificou esses programas.
A preocupação dos dois lados durante as negociações foi sempre enfatizar que acordos estavam sendo negociados em torno de programas, e não de cargos ou futuras posições num eventual governo. Marina, por seu lado, tem ressaltado em conversas nos últimos dias, inclusive com membros do PSDB, que não faria nunca um acordo político que não fosse baseado em políticas públicas, e que não se coloca como dona das melhores práticas nem das melhores ideias.
Quer apenas salientar que um acordo programático como o que está sendo costurado será um avanço na negociação política no país, e que tanto ela quanto Aécio Neves têm o mesmo objetivo, que é o de unir forças para fazer as mudanças de que o país necessita. Ela sabe que o resultado das urnas deu a Aécio Neves a primazia das propostas, e apresentou sugestões que, a seu ver, ressaltarão o empenho social do PSDB.
A união nessas bases servirá também para que a campanha do tucano rebata as acusações que vêm sendo feitas pela candidata Dilma, colocando a disputa como sendo entre pobres e ricos, Norte e Nordeste contra Sul e Sudeste. O resultado das eleições desmente essa visão simplista do que saiu das urnas, como analisa o cientista político Cesar Romero Jacob, da PUC do Rio de Janeiro. Ele e sua equipe desenvolveram um trabalho de análise dos resultados eleitorais com base na divisão geográfica dos votos e têm um banco de dados das eleições presidenciais desde a redemocratização do país em 1989.
Se a geografia do voto petista se alterou radicalmente de 2002 para 2010, a da recente eleição presidencial é bastante semelhante à anterior, em que Dilma foi eleita pela primeira vez. O que difere essa das demais eleições, segundo o professor Romero Jacob, é a divisão socioeconômica do voto nas mesmas geografias. O resultado é mais complexo do que dividir a posição do eleitorado em polos opostos, pois existem na mesma região eleitores de diversos tipos e classes sociais.
Dizer que apenas os pobres votaram em Dilma no Nordeste é um engano, adverte Romero Jacob, pois as classes mais altas também se beneficiam da economia reforçada pelo programa Bolsa Família. (Amanhã, os desafios dos candidatos).
Ambos estão tratando o assunto com muita delicadeza, pois não querem constranger a outra parte e desejam que a união, se ocorrer, faça-se em torno de pontos de acordo que signifiquem avanços no que seria uma unidade para dar ao país um governo progressista que ressalte o melhor do espírito da social democracia encarnada pelo PSDB.
Marina tem deixado claro que não tem interesse em derrotar o PT apenas para vencer a disputa eleitoral, por vingança contra a presidente Dilma pela maneira com que foi tratada na campanha eleitoral, mas para proporcionar ao seu partido de origem condições de rever seus erros e retornar às suas raízes, que teriam, na visão dela, sido perdidas nas disputas políticas dos últimos anos.
Ela vê no momento em que o PSDB chega ao segundo turno a chance de os tucanos ressaltarem seus laços sociais, que deram origem ao Plano Real e a diversas ações para a criação do que Fernando Henrique chamava à época de "rede de proteção social". Dentro desse espírito, foram criadas a Bolsa Escola, o Auxílio Gás, o Bolsa Alimentação e o Auxílio Alimentação, que originaram o Bolsa Família quando o governo Lula, por sugestão do governador tucano Marconi Perillo, unificou esses programas.
A preocupação dos dois lados durante as negociações foi sempre enfatizar que acordos estavam sendo negociados em torno de programas, e não de cargos ou futuras posições num eventual governo. Marina, por seu lado, tem ressaltado em conversas nos últimos dias, inclusive com membros do PSDB, que não faria nunca um acordo político que não fosse baseado em políticas públicas, e que não se coloca como dona das melhores práticas nem das melhores ideias.
Quer apenas salientar que um acordo programático como o que está sendo costurado será um avanço na negociação política no país, e que tanto ela quanto Aécio Neves têm o mesmo objetivo, que é o de unir forças para fazer as mudanças de que o país necessita. Ela sabe que o resultado das urnas deu a Aécio Neves a primazia das propostas, e apresentou sugestões que, a seu ver, ressaltarão o empenho social do PSDB.
A união nessas bases servirá também para que a campanha do tucano rebata as acusações que vêm sendo feitas pela candidata Dilma, colocando a disputa como sendo entre pobres e ricos, Norte e Nordeste contra Sul e Sudeste. O resultado das eleições desmente essa visão simplista do que saiu das urnas, como analisa o cientista político Cesar Romero Jacob, da PUC do Rio de Janeiro. Ele e sua equipe desenvolveram um trabalho de análise dos resultados eleitorais com base na divisão geográfica dos votos e têm um banco de dados das eleições presidenciais desde a redemocratização do país em 1989.
Se a geografia do voto petista se alterou radicalmente de 2002 para 2010, a da recente eleição presidencial é bastante semelhante à anterior, em que Dilma foi eleita pela primeira vez. O que difere essa das demais eleições, segundo o professor Romero Jacob, é a divisão socioeconômica do voto nas mesmas geografias. O resultado é mais complexo do que dividir a posição do eleitorado em polos opostos, pois existem na mesma região eleitores de diversos tipos e classes sociais.
Dizer que apenas os pobres votaram em Dilma no Nordeste é um engano, adverte Romero Jacob, pois as classes mais altas também se beneficiam da economia reforçada pelo programa Bolsa Família. (Amanhã, os desafios dos candidatos).
O horário eleitoral e a natureza da política - OLIVEIROS S. FERREIRA
O ESTADO DE S.PAULO - 11/10
A idade me permite recordar as eleições que ajudaram a construir o Brasil de hoje. Sou levado a discordar do padrão acadêmico: a política era diferente, feita de fato com participação popular! Não havia eleição sem comícios e os que se faziam antes dos pleitos eram - e foram de fato - a terra em que, lançadas as sementes pelos partidos (apenas 13, 14, se contarmos o PCB, na ilegalidade, mas sempre com seus candidatos), floresciam as lideranças reais. Desde 1945 até o dia (fatal para a política) em que se criou o horário eleitoral gratuito, era nos comícios, com discursos exaltados, que as raízes dessas lideranças e as das candidaturas se firmavam.
Os comícios eram um grande espetáculo. E um ponto de encontro. Eu me deslocava para a Praça da Sé ou a Roosevelt para ouvir Jânio, Carvalho Pinto, Ademar de Barros, outros candidatos de maior ou menor peso verbal e eleitoral. Mas não só eu, saíamos todos de casa ou do trabalho e nos juntávamos à massa para aplaudir ou gritar contra um candidato, dependendo do orador - que precisava ser bom! Cada um com seu público: Emílio Carlos, Carlos Lacerda, padre Godinho, quem tivesse conquistado a simpatia popular, abusando que fosse da boa vontade dos que se punham em desacordo!
O horário eleitoral gratuito e obrigatório matou tudo isso, acabou com o patético de cada eleição e de cada comício. Faça-se a história dessa instituição dita democrática porque oferece a cada partido a possibilidade de usar a TV para difundir seu programa e apresentar seus candidatos. Alguém viu ou ouviu no horário gratuito o programa desses partidos que aí estão? Ou ouviu algum candidato apresentar seu programa de ação? Promessas, mesmo que sejam de mais escolas, creches e postos de saúde, não são programas de ação.
Mas não só o horário eleitoral gratuito matou tudo isso. As reações coletivas a determinados fatos permitem sempre visão mais correta do que terá ocorrido e do que ocorre. Só compreenderemos o getulismo e por que tudo mudou em 29 de outubro de 1945 se atentarmos para um pormenor: depois do 10 de novembro de 1937, quando a PM do Distrito Federal (Rio de Janeiro, capital da República) fechou o Congresso, a política passou a ser feita em torno de pessoas, indivíduos que o ditador cultivava para deles fazer seus interventores (servidores) nos Estados. A política era Vargas e sua vontade. Escolhido o interventor, a política nos Estados mais importantes, nas cidades do interior, girava igualmente em torno de sua vontade, a do interventor que o seria enquanto Vargas permitisse e, como tal, senhor da PM, que era a polícia e era o poder. Vargas, chefe revolucionário e ditador, pouco precisou fazer para criar inimigos pessoais. E inimigos políticos Vargas os teve, sim! Inimigos na sua visão intelectual do Brasil, que viam o País sob outra luz que não o corporativismo e a ditadura. Inimigos porque pensavam o Brasil de modo diferente e como e o que fazer para que fosse grande e respeitado.
Nos comícios havia sempre um momento em que eu me perdia no coletivo e tinha consciência de estar formando aquilo que depois seria chamado de opinião pública. Nos comícios, não em pesquisas, os analistas buscávamos descobrir como estava o humor popular - e em nossa presumida sapiência errávamos: os comícios do brigadeiro tinham muito mais gente que os do Dutra; portanto, Eduardo Gomes deverá ganhar as eleições... mas perdeu em 1945 e 1950. Contudo foi nos comícios que o udenismo se consolidou como estado de espírito cívico-eleitoral e foi do udenismo (dos comícios) que nasceu o lacerdismo, não ao contrário. E sem Getúlio não teria existido o udenismo. Ou os comícios nos quais não só o líder perdia a voz - fato que não mereceria notícia, pois seria corriqueiro demais -, mas todos a perdiam.
É significativo que o período de novembro/1937 a outubro/1945 seja sempre mencionado como "ditadura Vargas", e não como Estado Novo. É como se até o 10 de novembro dependesse exclusivamente da vontade e da autorização de Vargas, como se as forças e os atores políticos e sociais que desejavam o fim do regime democrático (a começar por Góes Monteiro) não estivessem em cena. Se falamos "ditadura Vargas" é porque a política passa a ser e se consolida como uma obra individual.
Hoje o que temos? Espantei-me ao ver que num sábado um jornal dedicava página inteira a comentar que este ou aquele candidato estava rouco. Irremediavelmente rouco.
Apesar de que ainda se façam comícios que alegram as "bases" e de que saibamos quanta gente eles concentram, o grande comício agora somos nós, dez ou pouco mais, que nos reunimos para um drinque e/ou jantar, a ouvir, em vez de música, candidatos trocando amenidades a respeito de programas de dimensão municipal (sim, pois o Estado não os preocupa!). Assistimos a uma cena apelidada de debate em que os "atores" devem respeitar regras preestabelecidas que orientam as críticas permitidas, muito bem-educadas para que ninguém seja ofendido e reclame, em nome da lei, seu "direito de resposta". No grupo que assiste ao debate na TV, eu sou EU, preocupado com parecer mais inteligente e arguto que meu companheiro de copo. O espírito crítico apontará se as ideias foram bem expostas, se houve cuidado com a lógica e quem mal domine o português.
A política deixou de ser, antes de tudo, criação mental coletiva, patética; tornou-se ação individual, sem emoção. Ausente dela o Estado, não haverá inimigos. Reduzida a uma troca de ideias entre adversários cordiais, o patético perdeu-se na obrigação de dizer e ouvir frases que pareçam ser um programa de governo. Imaginamos poder fazê-la apenas ponderando os atributos pessoais de cada "ator".
Sinto muito, meus amigos, mas isso não é fazer política.
A idade me permite recordar as eleições que ajudaram a construir o Brasil de hoje. Sou levado a discordar do padrão acadêmico: a política era diferente, feita de fato com participação popular! Não havia eleição sem comícios e os que se faziam antes dos pleitos eram - e foram de fato - a terra em que, lançadas as sementes pelos partidos (apenas 13, 14, se contarmos o PCB, na ilegalidade, mas sempre com seus candidatos), floresciam as lideranças reais. Desde 1945 até o dia (fatal para a política) em que se criou o horário eleitoral gratuito, era nos comícios, com discursos exaltados, que as raízes dessas lideranças e as das candidaturas se firmavam.
Os comícios eram um grande espetáculo. E um ponto de encontro. Eu me deslocava para a Praça da Sé ou a Roosevelt para ouvir Jânio, Carvalho Pinto, Ademar de Barros, outros candidatos de maior ou menor peso verbal e eleitoral. Mas não só eu, saíamos todos de casa ou do trabalho e nos juntávamos à massa para aplaudir ou gritar contra um candidato, dependendo do orador - que precisava ser bom! Cada um com seu público: Emílio Carlos, Carlos Lacerda, padre Godinho, quem tivesse conquistado a simpatia popular, abusando que fosse da boa vontade dos que se punham em desacordo!
O horário eleitoral gratuito e obrigatório matou tudo isso, acabou com o patético de cada eleição e de cada comício. Faça-se a história dessa instituição dita democrática porque oferece a cada partido a possibilidade de usar a TV para difundir seu programa e apresentar seus candidatos. Alguém viu ou ouviu no horário gratuito o programa desses partidos que aí estão? Ou ouviu algum candidato apresentar seu programa de ação? Promessas, mesmo que sejam de mais escolas, creches e postos de saúde, não são programas de ação.
Mas não só o horário eleitoral gratuito matou tudo isso. As reações coletivas a determinados fatos permitem sempre visão mais correta do que terá ocorrido e do que ocorre. Só compreenderemos o getulismo e por que tudo mudou em 29 de outubro de 1945 se atentarmos para um pormenor: depois do 10 de novembro de 1937, quando a PM do Distrito Federal (Rio de Janeiro, capital da República) fechou o Congresso, a política passou a ser feita em torno de pessoas, indivíduos que o ditador cultivava para deles fazer seus interventores (servidores) nos Estados. A política era Vargas e sua vontade. Escolhido o interventor, a política nos Estados mais importantes, nas cidades do interior, girava igualmente em torno de sua vontade, a do interventor que o seria enquanto Vargas permitisse e, como tal, senhor da PM, que era a polícia e era o poder. Vargas, chefe revolucionário e ditador, pouco precisou fazer para criar inimigos pessoais. E inimigos políticos Vargas os teve, sim! Inimigos na sua visão intelectual do Brasil, que viam o País sob outra luz que não o corporativismo e a ditadura. Inimigos porque pensavam o Brasil de modo diferente e como e o que fazer para que fosse grande e respeitado.
Nos comícios havia sempre um momento em que eu me perdia no coletivo e tinha consciência de estar formando aquilo que depois seria chamado de opinião pública. Nos comícios, não em pesquisas, os analistas buscávamos descobrir como estava o humor popular - e em nossa presumida sapiência errávamos: os comícios do brigadeiro tinham muito mais gente que os do Dutra; portanto, Eduardo Gomes deverá ganhar as eleições... mas perdeu em 1945 e 1950. Contudo foi nos comícios que o udenismo se consolidou como estado de espírito cívico-eleitoral e foi do udenismo (dos comícios) que nasceu o lacerdismo, não ao contrário. E sem Getúlio não teria existido o udenismo. Ou os comícios nos quais não só o líder perdia a voz - fato que não mereceria notícia, pois seria corriqueiro demais -, mas todos a perdiam.
É significativo que o período de novembro/1937 a outubro/1945 seja sempre mencionado como "ditadura Vargas", e não como Estado Novo. É como se até o 10 de novembro dependesse exclusivamente da vontade e da autorização de Vargas, como se as forças e os atores políticos e sociais que desejavam o fim do regime democrático (a começar por Góes Monteiro) não estivessem em cena. Se falamos "ditadura Vargas" é porque a política passa a ser e se consolida como uma obra individual.
Hoje o que temos? Espantei-me ao ver que num sábado um jornal dedicava página inteira a comentar que este ou aquele candidato estava rouco. Irremediavelmente rouco.
Apesar de que ainda se façam comícios que alegram as "bases" e de que saibamos quanta gente eles concentram, o grande comício agora somos nós, dez ou pouco mais, que nos reunimos para um drinque e/ou jantar, a ouvir, em vez de música, candidatos trocando amenidades a respeito de programas de dimensão municipal (sim, pois o Estado não os preocupa!). Assistimos a uma cena apelidada de debate em que os "atores" devem respeitar regras preestabelecidas que orientam as críticas permitidas, muito bem-educadas para que ninguém seja ofendido e reclame, em nome da lei, seu "direito de resposta". No grupo que assiste ao debate na TV, eu sou EU, preocupado com parecer mais inteligente e arguto que meu companheiro de copo. O espírito crítico apontará se as ideias foram bem expostas, se houve cuidado com a lógica e quem mal domine o português.
A política deixou de ser, antes de tudo, criação mental coletiva, patética; tornou-se ação individual, sem emoção. Ausente dela o Estado, não haverá inimigos. Reduzida a uma troca de ideias entre adversários cordiais, o patético perdeu-se na obrigação de dizer e ouvir frases que pareçam ser um programa de governo. Imaginamos poder fazê-la apenas ponderando os atributos pessoais de cada "ator".
Sinto muito, meus amigos, mas isso não é fazer política.
Desemprego e “estatística criativa” - BERNARDO SANTORO
GAZETA DO POVO - PR - 11/10
Apesar dos péssimos indicadores econômicos gerais do Brasil, pelo menos em um setor a economia brasileira parece se salvar: o baixo índice de desemprego, que, de acordo com o IBGE, foi de apenas 5% no mês de agosto. Qual a explicação para este fenômeno, dada a deterioração da economia nacional?
A grande resposta está no modo de medição desse índice de desemprego, que é equivocado tanto aqui no Brasil quanto no resto do mundo. Entrando no site oficial do IBGE, especificamente nas notas metodológicas da Pesquisa Mensal de Emprego, se averigua que a base desse cálculo é apenas a População Economicamente Ativa (ou PEA), sendo essa PEA composta de pessoas ocupadas e pessoas desocupadas.
As pessoas ocupadas são consideradas, para todos os efeitos, como empregadas, não importando em absoluto que tipo de emprego elas possuam. São consideradas empregadas as informais, as que ganham menos de um salário mínimo e até as que vivem de bicos, o que já reduz bastante a quantidade de “desempregados”.
Se isso já não fosse uma maquiagem real do desemprego no Brasil, outro fator determinante para a suposta diminuição do desemprego é a amplitude do conceito de População Não Economicamente Ativa (ou Pnea). Fazem parte dessa Pnea os aposentados, os estudantes (mesmo aqueles em idade economicamente ativa, acima de 16 anos), as pessoas desalentadas (aquelas que, de tanto não conseguir emprego, acabaram desistindo e se conformando) e as pessoas marginalmente ligadas à PEA (aquelas que só trabalharam por pouco tempo, foram despedidas e depois desistiram de procurar novo emprego). Todo integrante da Pnea não é contado para fins de desemprego, mesmo que esteja desempregado contra a sua vontade e prefira fazer outra coisa por causa disso.
Portanto, para que uma pessoa seja considerada desempregada, ela precisa ser economicamente ativa, estar procurando um emprego e não trabalhar nem sequer esporadicamente em qualquer coisa. São tantas as exigências da pesquisa para que se possa classificar alguém como desempregado que fica realmente difícil ser considerado assim. A burocracia brasileira é tão grande que até para ser considerado oficialmente desempregado o Estado atrapalha.
E aqui entra o fenômeno do Bolsa Família. A falta de oportunidades reais e estáveis de trabalho, fruto da deterioração econômica, atrelada ao Estado de bem-estar social brasileiro que garante em algum nível, ainda que precário, acesso a vários bens e serviços públicos, juntamente com a concessão de uma verba em dinheiro para compra de bens e serviços no mercado (o Bolsa Família propriamente dito), estimulou a criação de uma nova classe social que perdeu o interesse em ser útil para a sociedade: a geração “nem-nem”, ou seja, nem trabalha, nem estuda. A perda desse interesse em trabalhar imediatamente põe essas pessoas dentro da categoria de Pnea, não sendo consideradas, pelo IBGE, como desempregadas.
Estima-se que a real taxa de desemprego no Brasil, sem o estímulo ao “nem-nem”, seria em torno de 20% da população jurídica e economicamente capaz (acima de 16 anos e sem incapacitação), o que é uma taxa bem diferente dos 5% do IBGE ou dos 10% do Dieese. Enquanto continuarmos mascarando nossas mazelas com “estatística criativa”, não combateremos de fato as causas da nossa crise socioeconômica: falta de liberdade econômica e excesso de tributação e burocracia.
Apesar dos péssimos indicadores econômicos gerais do Brasil, pelo menos em um setor a economia brasileira parece se salvar: o baixo índice de desemprego, que, de acordo com o IBGE, foi de apenas 5% no mês de agosto. Qual a explicação para este fenômeno, dada a deterioração da economia nacional?
A grande resposta está no modo de medição desse índice de desemprego, que é equivocado tanto aqui no Brasil quanto no resto do mundo. Entrando no site oficial do IBGE, especificamente nas notas metodológicas da Pesquisa Mensal de Emprego, se averigua que a base desse cálculo é apenas a População Economicamente Ativa (ou PEA), sendo essa PEA composta de pessoas ocupadas e pessoas desocupadas.
As pessoas ocupadas são consideradas, para todos os efeitos, como empregadas, não importando em absoluto que tipo de emprego elas possuam. São consideradas empregadas as informais, as que ganham menos de um salário mínimo e até as que vivem de bicos, o que já reduz bastante a quantidade de “desempregados”.
Se isso já não fosse uma maquiagem real do desemprego no Brasil, outro fator determinante para a suposta diminuição do desemprego é a amplitude do conceito de População Não Economicamente Ativa (ou Pnea). Fazem parte dessa Pnea os aposentados, os estudantes (mesmo aqueles em idade economicamente ativa, acima de 16 anos), as pessoas desalentadas (aquelas que, de tanto não conseguir emprego, acabaram desistindo e se conformando) e as pessoas marginalmente ligadas à PEA (aquelas que só trabalharam por pouco tempo, foram despedidas e depois desistiram de procurar novo emprego). Todo integrante da Pnea não é contado para fins de desemprego, mesmo que esteja desempregado contra a sua vontade e prefira fazer outra coisa por causa disso.
Portanto, para que uma pessoa seja considerada desempregada, ela precisa ser economicamente ativa, estar procurando um emprego e não trabalhar nem sequer esporadicamente em qualquer coisa. São tantas as exigências da pesquisa para que se possa classificar alguém como desempregado que fica realmente difícil ser considerado assim. A burocracia brasileira é tão grande que até para ser considerado oficialmente desempregado o Estado atrapalha.
E aqui entra o fenômeno do Bolsa Família. A falta de oportunidades reais e estáveis de trabalho, fruto da deterioração econômica, atrelada ao Estado de bem-estar social brasileiro que garante em algum nível, ainda que precário, acesso a vários bens e serviços públicos, juntamente com a concessão de uma verba em dinheiro para compra de bens e serviços no mercado (o Bolsa Família propriamente dito), estimulou a criação de uma nova classe social que perdeu o interesse em ser útil para a sociedade: a geração “nem-nem”, ou seja, nem trabalha, nem estuda. A perda desse interesse em trabalhar imediatamente põe essas pessoas dentro da categoria de Pnea, não sendo consideradas, pelo IBGE, como desempregadas.
Estima-se que a real taxa de desemprego no Brasil, sem o estímulo ao “nem-nem”, seria em torno de 20% da população jurídica e economicamente capaz (acima de 16 anos e sem incapacitação), o que é uma taxa bem diferente dos 5% do IBGE ou dos 10% do Dieese. Enquanto continuarmos mascarando nossas mazelas com “estatística criativa”, não combateremos de fato as causas da nossa crise socioeconômica: falta de liberdade econômica e excesso de tributação e burocracia.
O Brasil fica para trás - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 11/10
O Brasil não pode mais continuar fazendo de conta que a forte desaceleração de sua economia é algo sem importância. Nem mesmo o velho truque de debitar o mau resultado da atual política econômica brasileira a fatores externos - argumento que já não se sustenta - pode servir de biombo para a urgência de uma mudança de rumos e métodos.
Não há como esconder que, este ano, o Produto Interno Bruto (PIB) terá desempenho inferior ao de anos recentes, quando se cunhou a expressão "pibinho" para identificar o baixo crescimento de 2,7% verificado em 2011, de apenas 1% em 2012, e de 2,3% em 2013. Para este ano, nem os mais otimistas esperam mais de 0,5% e não faltam analistas que apostam em crescimento zero.
Isso é muito mais do que uma série estatística ou uma mania de economista que não trabalha para o governo. É o cardiograma de um doente que caminha acelerado para perigoso estado de precarização. Essa situação chama a atenção do mercado e de organismos internacionais que, até recentemente, viram o Brasil surgir como um dos países emergentes de maior dinamismo. Instituições do mercado financeiro, como as agências internacionais de verificação de risco (rating), chegaram a elevar a classificação do país como destino confiável de capitais e seguro para a concessão de créditos.
Desencantadas, essas agências sinalizam com rebaixamento das notas dadas ao Brasil. Já o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) não param de alertar para o fato de que a perda de fôlego do país vem ganhando dimensão preocupante, pior que a média de nossos vizinhos e das demais economias emergentes.
Na quinta-feira, a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, ao comentar o último relatório sobre a economia mundial, foi clara ao colocar o Brasil entre os países que, ao caminhar mais lentamente que os demais no rumo da recuperação econômica depois da crise de 2008/2009, estão ficando para trás.
Ela não sugere nada desconhecido dos que sabem que o país precisa de nova condução da política econômica: investimentos em infraestrutura para animar a retomada do crescimento e a manutenção de programas sociais, como o Bolsa Família, para evitar o aumento da pobreza enquanto o crescimento permanecer tão baixo.
Christine, como qualquer economista atualizado, sabe que a manutenção por mais tempo de crescimento tão medíocre como o dos últimos quatro anos (em 2010, o PIB tinha crescido 7,5%) vai comprometer importantes conquistas sociais e, principalmente, colocar em risco o emprego e a renda da população. Menos de 24 horas depois, o IBGE divulgou a quarta queda mensal seguida do emprego na indústria brasileira.
O que a chefe do FMI não disse é que, se a retomada do crescimento depende dos investimentos em infraestrutura e na ampliação dos negócios, nada vai sair do lugar enquanto persistir a falta de confiança na política econômica e a perda da credibilidade do governo, que tem abusado do improviso na política de incentivos e da criatividade na administração fiscal.
Não há como esconder que, este ano, o Produto Interno Bruto (PIB) terá desempenho inferior ao de anos recentes, quando se cunhou a expressão "pibinho" para identificar o baixo crescimento de 2,7% verificado em 2011, de apenas 1% em 2012, e de 2,3% em 2013. Para este ano, nem os mais otimistas esperam mais de 0,5% e não faltam analistas que apostam em crescimento zero.
Isso é muito mais do que uma série estatística ou uma mania de economista que não trabalha para o governo. É o cardiograma de um doente que caminha acelerado para perigoso estado de precarização. Essa situação chama a atenção do mercado e de organismos internacionais que, até recentemente, viram o Brasil surgir como um dos países emergentes de maior dinamismo. Instituições do mercado financeiro, como as agências internacionais de verificação de risco (rating), chegaram a elevar a classificação do país como destino confiável de capitais e seguro para a concessão de créditos.
Desencantadas, essas agências sinalizam com rebaixamento das notas dadas ao Brasil. Já o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) não param de alertar para o fato de que a perda de fôlego do país vem ganhando dimensão preocupante, pior que a média de nossos vizinhos e das demais economias emergentes.
Na quinta-feira, a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, ao comentar o último relatório sobre a economia mundial, foi clara ao colocar o Brasil entre os países que, ao caminhar mais lentamente que os demais no rumo da recuperação econômica depois da crise de 2008/2009, estão ficando para trás.
Ela não sugere nada desconhecido dos que sabem que o país precisa de nova condução da política econômica: investimentos em infraestrutura para animar a retomada do crescimento e a manutenção de programas sociais, como o Bolsa Família, para evitar o aumento da pobreza enquanto o crescimento permanecer tão baixo.
Christine, como qualquer economista atualizado, sabe que a manutenção por mais tempo de crescimento tão medíocre como o dos últimos quatro anos (em 2010, o PIB tinha crescido 7,5%) vai comprometer importantes conquistas sociais e, principalmente, colocar em risco o emprego e a renda da população. Menos de 24 horas depois, o IBGE divulgou a quarta queda mensal seguida do emprego na indústria brasileira.
O que a chefe do FMI não disse é que, se a retomada do crescimento depende dos investimentos em infraestrutura e na ampliação dos negócios, nada vai sair do lugar enquanto persistir a falta de confiança na política econômica e a perda da credibilidade do governo, que tem abusado do improviso na política de incentivos e da criatividade na administração fiscal.
Aparelhamento criminoso - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 11/10
Apesar do contexto eleitoral em que estão sendo divulgadas, as gravações dos depoimentos dos chamados delatores do esquema Petrobras _ o ex-diretor Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef _ merecem a atenção dos brasileiros, pois confirmam não apenas o loteamento político da estatal como também o desvio sistemático de recursos para os partidos que se apropriaram de parte da administração pública. As informações dos beneficiários da delação premiada revelam um organizado esquema de corrupção, com empresas formando um cartel para superfaturar contratos com a Petrobras e pagando propinas em dinheiro vivo para os políticos ocupantes das diretorias da estatal _ tudo com a anuência do governo, que afinal é o responsável pela distribuição de cargos.
O aparelhamento político de empresas públicas é duplamente danoso para o país, pois compromete a eficiência dessas organizações e abre caminho para as fraudes. Corruptos e corruptores se valem do despreparo e da frouxidão moral destes dirigentes políticos para sugar recursos do povo brasileiro, sob o olhar cúmplice de governantes que colocam seus projetos de poder acima dos interesses do país.
Tal deformação não é exclusividade do atual governo, embora tenha assumido proporções absurdas nas últimas administrações. Por isso, independentemente de quem a população brasileira escolher para comandar o país pelo próximo mandato, o eleito deve assumir o compromisso de desinfetar a administração federal e as estatais desta praga chamada corrupção.
Também está mais do que na hora de uma reação contra os financiadores do propinoduto, que só pensam nos seus interesses e se submetem ao jogo sujo dos contratos condicionados ao pagamento de percentagens a políticos. Claro que os maiores responsáveis são os homens públicos que traem a confiança dos eleitores, mas quem forma cartel e superfatura obras e serviços também não pode alegar inocência.
Nenhum governante tem o direito de se apropriar do Estado e muito menos de dividir a administração pública entre amigos e apoiadores para sustentar seu projeto de poder. Num regime democrático, o Estado pertence ao povo e cabe a cada cidadão, pelo voto, escolher quem tem idoneidade para receber a concessão temporária da administração.
Apesar do contexto eleitoral em que estão sendo divulgadas, as gravações dos depoimentos dos chamados delatores do esquema Petrobras _ o ex-diretor Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef _ merecem a atenção dos brasileiros, pois confirmam não apenas o loteamento político da estatal como também o desvio sistemático de recursos para os partidos que se apropriaram de parte da administração pública. As informações dos beneficiários da delação premiada revelam um organizado esquema de corrupção, com empresas formando um cartel para superfaturar contratos com a Petrobras e pagando propinas em dinheiro vivo para os políticos ocupantes das diretorias da estatal _ tudo com a anuência do governo, que afinal é o responsável pela distribuição de cargos.
O aparelhamento político de empresas públicas é duplamente danoso para o país, pois compromete a eficiência dessas organizações e abre caminho para as fraudes. Corruptos e corruptores se valem do despreparo e da frouxidão moral destes dirigentes políticos para sugar recursos do povo brasileiro, sob o olhar cúmplice de governantes que colocam seus projetos de poder acima dos interesses do país.
Tal deformação não é exclusividade do atual governo, embora tenha assumido proporções absurdas nas últimas administrações. Por isso, independentemente de quem a população brasileira escolher para comandar o país pelo próximo mandato, o eleito deve assumir o compromisso de desinfetar a administração federal e as estatais desta praga chamada corrupção.
Também está mais do que na hora de uma reação contra os financiadores do propinoduto, que só pensam nos seus interesses e se submetem ao jogo sujo dos contratos condicionados ao pagamento de percentagens a políticos. Claro que os maiores responsáveis são os homens públicos que traem a confiança dos eleitores, mas quem forma cartel e superfatura obras e serviços também não pode alegar inocência.
Nenhum governante tem o direito de se apropriar do Estado e muito menos de dividir a administração pública entre amigos e apoiadores para sustentar seu projeto de poder. Num regime democrático, o Estado pertence ao povo e cabe a cada cidadão, pelo voto, escolher quem tem idoneidade para receber a concessão temporária da administração.
A barra vai pesar - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S.PAULO - 11/10
Deu a lógica nos resultados iguais das primeiras pesquisas dos dois maiores institutos brasileiros, Ibope e Datafolha, sobre a intenção de voto para o segundo turno da eleição presidencial: o oposicionista Aécio Neves à frente de Dilma Rousseff, 51% contra 49% dos votos válidos, por enquanto dentro da margem de erro. Deu a lógica porque, afinal, a soma dos votos recebidos pelos dois principais candidatos oposicionistas no primeiro turno - Aécio Neves e Marina Silva -, no total de 57 milhões (56,8%), superou com folga os 43,2 milhões (41,8%) dados a Dilma Rousseff.
Esses números dizem que a considerável maioria dos brasileiros quer mudança. E mudança significa apear o PT do poder. Se alguém tem alguma dúvida sobre o caráter antipetista dos votos dados a Marina Silva no primeiro turno, basta lembrar que a própria campanha de Dilma Rousseff se encarregou, de forma brutal e indigna, de estigmatizar a candidatura do PSB. É difícil de acreditar que o eleitor de Marina deixe de se ater agora à opção que lhe resta: votar em Aécio.
Mas também é óbvio que nem todos os votos que Marina teve em 5 de outubro serão automaticamente transferidos para Aécio. Mas o forte efeito psicológico tanto, por um lado, da tendência de crescimento da candidatura tucana nas últimas três semanas quanto, por outro lado, da frustrante reversão das expectativas petistas, somado ao substancial apoio a Aécio anunciado por antigos adversários e lideranças políticas ao longo da semana que passou - e ainda as recentes más notícias para Dilma Rousseff e o PT a respeito do desempenho da economia e do escândalo da Petrobrás -, tudo isso certamente influenciará a decisão do eleitor.
É preciso levar em conta, contudo, que na defesa de seu projeto de poder o lulopetismo não terá escrúpulos de apelar a qualquer recurso que estiver a seu alcance, como a ominosa falácia de que o PT tem o monopólio da virtude e todos os seus adversários são também inimigos do povo que só pensam em sacrificar os despossuídos em benefício das elites perversas.
É claro que só quem é mal informado acredita em patranhas como a de que qualquer presidente eleito que não seja do PT acabará com todos os projetos sociais dos governos petistas, principalmente o Bolsa Família. E Lula e Dilma decidiram também proclamar agora que a infâmia está em afirmar que há pessoas mal informadas no Brasil, deturpando deliberadamente declaração feita pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
A direção em que os ventos eleitorais estão soprando indica que a tropa de choque petista terá trabalho pesado até o dia 26. Por exemplo, uma vez que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, está cumprindo aviso prévio e anda com a credibilidade em baixa, Dilma designou Aloizio Mercadante, atual ocupante do Gabinete Civil, para não deixar sem resposta qualquer ataque da oposição na área da Economia. Aloizio tem credenciais para a missão: foi, em 1994, o arauto petista do fracasso antecipado do Plano Real.
Na Comunicação, além do notório João Santana, marqueteiro do Brasil dos Sonhos e das Malvadezas, anda assoberbado o jornalista Franklin Martins, aquele que desde que era ministro da Comunicação Social de Lula está obcecado pela ideia de decretar o "controle social" da mídia. No comando do site oficial da campanha de Dilma, Martins tem a responsabilidade de municiar a militância que atua nas redes sociais com toda sorte de informação que não pega bem na boca de quem fala oficialmente em nome do PT e de sua candidata.
À frente do partido permanece vigilante Rui Falcão, com a importante missão, que não lhe tem dado descanso nos últimos dias, de protestar com indignação contra as denúncias de corrupção no governo que a mídia se vê na obrigação de divulgar todos os dias e de prometer que vai processar criminalmente quem quer que seja que se atreva a questionar os elevados padrões morais da companheirada.
É esse o circo de horrores que provavelmente os brasileiros serão obrigados a assistir nas duas próximas semanas, como preço a pagar pela ousadia de cogitar a alternância no poder.
Deu a lógica nos resultados iguais das primeiras pesquisas dos dois maiores institutos brasileiros, Ibope e Datafolha, sobre a intenção de voto para o segundo turno da eleição presidencial: o oposicionista Aécio Neves à frente de Dilma Rousseff, 51% contra 49% dos votos válidos, por enquanto dentro da margem de erro. Deu a lógica porque, afinal, a soma dos votos recebidos pelos dois principais candidatos oposicionistas no primeiro turno - Aécio Neves e Marina Silva -, no total de 57 milhões (56,8%), superou com folga os 43,2 milhões (41,8%) dados a Dilma Rousseff.
Esses números dizem que a considerável maioria dos brasileiros quer mudança. E mudança significa apear o PT do poder. Se alguém tem alguma dúvida sobre o caráter antipetista dos votos dados a Marina Silva no primeiro turno, basta lembrar que a própria campanha de Dilma Rousseff se encarregou, de forma brutal e indigna, de estigmatizar a candidatura do PSB. É difícil de acreditar que o eleitor de Marina deixe de se ater agora à opção que lhe resta: votar em Aécio.
Mas também é óbvio que nem todos os votos que Marina teve em 5 de outubro serão automaticamente transferidos para Aécio. Mas o forte efeito psicológico tanto, por um lado, da tendência de crescimento da candidatura tucana nas últimas três semanas quanto, por outro lado, da frustrante reversão das expectativas petistas, somado ao substancial apoio a Aécio anunciado por antigos adversários e lideranças políticas ao longo da semana que passou - e ainda as recentes más notícias para Dilma Rousseff e o PT a respeito do desempenho da economia e do escândalo da Petrobrás -, tudo isso certamente influenciará a decisão do eleitor.
É preciso levar em conta, contudo, que na defesa de seu projeto de poder o lulopetismo não terá escrúpulos de apelar a qualquer recurso que estiver a seu alcance, como a ominosa falácia de que o PT tem o monopólio da virtude e todos os seus adversários são também inimigos do povo que só pensam em sacrificar os despossuídos em benefício das elites perversas.
É claro que só quem é mal informado acredita em patranhas como a de que qualquer presidente eleito que não seja do PT acabará com todos os projetos sociais dos governos petistas, principalmente o Bolsa Família. E Lula e Dilma decidiram também proclamar agora que a infâmia está em afirmar que há pessoas mal informadas no Brasil, deturpando deliberadamente declaração feita pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
A direção em que os ventos eleitorais estão soprando indica que a tropa de choque petista terá trabalho pesado até o dia 26. Por exemplo, uma vez que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, está cumprindo aviso prévio e anda com a credibilidade em baixa, Dilma designou Aloizio Mercadante, atual ocupante do Gabinete Civil, para não deixar sem resposta qualquer ataque da oposição na área da Economia. Aloizio tem credenciais para a missão: foi, em 1994, o arauto petista do fracasso antecipado do Plano Real.
Na Comunicação, além do notório João Santana, marqueteiro do Brasil dos Sonhos e das Malvadezas, anda assoberbado o jornalista Franklin Martins, aquele que desde que era ministro da Comunicação Social de Lula está obcecado pela ideia de decretar o "controle social" da mídia. No comando do site oficial da campanha de Dilma, Martins tem a responsabilidade de municiar a militância que atua nas redes sociais com toda sorte de informação que não pega bem na boca de quem fala oficialmente em nome do PT e de sua candidata.
À frente do partido permanece vigilante Rui Falcão, com a importante missão, que não lhe tem dado descanso nos últimos dias, de protestar com indignação contra as denúncias de corrupção no governo que a mídia se vê na obrigação de divulgar todos os dias e de prometer que vai processar criminalmente quem quer que seja que se atreva a questionar os elevados padrões morais da companheirada.
É esse o circo de horrores que provavelmente os brasileiros serão obrigados a assistir nas duas próximas semanas, como preço a pagar pela ousadia de cogitar a alternância no poder.
A indecisão de Marina - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 11/10
Apesar de Marina Silva ser ideologicamente mais próxima do PT, a campanha difamatória conduzida contra ela no primeiro turno abalou as chances de um acordo com Dilma
Marina Silva, a candidata do PSB que ficou em terceiro lugar na eleição à Presidência da República, adiou a declaração (inicialmente prevista para quinta-feira passada) de apoio ao tucano Aécio Neves na disputa que ele trava neste segundo turno com a petista Dilma Rousseff, candidata à reeleição. Marina, que com suas teses não conseguiu empolgar eleitores suficientes para ir ela mesma ao segundo turno, mas obteve expressivos 20 milhões de votos, condiciona agora a sua adesão a Aécio à aceitação, por parte deste, de vários pontos do programa derrotado nas urnas.
Até aí, nada a condenar. Nas melhores democracias do mundo, apoios e coalizões se dão precipuamente em torno de programas, bem ao contrário do costumeiro neste Brasil em que os partidos, grandes, pequenos ou nanicos, preferem trocar as respectivas adesões por cargos no futuro e eventual governo. Logo, se sinceras as exigências da candidata derrotada, não há de se estranhar que seus milhões de eleitores sejam também representados no programa de Aécio. Trata-se, no caso, até de respeitar o pensamento de uma corrente minoritária (mas expressiva) do eleitorado, insuficiente para eleger a candidata, mas que via nela a possibilidade de adoção de algumas de suas ideias.
O currículo político-ideológico de Marina, no entanto, a coloca muito mais perto do PT que do PSDB. As páginas desse currículo mostram-na ligada a movimentos da esquerda radical; como militante do PT desde os tempos da criação do partido; eleita para vários mandatos, de vereadora a senadora, pelo PT; no exercício do cargo de ministra do Meio Ambiente no governo Lula; e, também, em atitude passiva diante do escândalo do mensalão, que envolveu a legenda. Em seguida, já filiada ao Partido Verde, candidatou-se em 2010 à Presidência, obtendo praticamente o mesmo índice de votos que alcançou no pleito do dia 5 passado. Naquela ocasião, coerente com a posição pessoal e de sua nova legenda, levantou a mesma plataforma ambientalista que defendia como ministra. Estas e tantas outras bandeiras também fazem parte do ideário da Rede Sustentabilidade, partido que não conseguiu homologação a tempo, levando Marina a integrar-se ao PSB como vice na chapa de Eduardo Campos, a quem, com sua morte trágica, substituiu como candidata à Presidência.
Por isso, não surpreende que, entre as demandas apresentadas por Marina a Aécio, esteja inclusive um aceno ao Movimento dos Sem-Terra (MST) e a outros movimentos sociais, além do recuo em outros itens da pauta tucana, como a redução da maioridade penal. A alguns pode parecer que Marina esteja querendo, na prática, substituir um programa bem-sucedido o suficiente para ir ao segundo turno por outro que nem isso conseguiu.
Mas, se a ideologia pessoal empurra Marina mais para o lado do PT, a campanha difamatória movida por seu ex-partido, quando ela se mostrava a opção mais viável para derrotar Dilma, parece ter destruído todas as pontes que poderia haver entre as candidatas. Marina foi impiedosamente esmagada pelo marketing petista; vê-la abraçada a Dilma faria pensar em um caso clássico de síndrome de Estocolmo.
Em 2010, Marina preferiu a neutralidade entre Dilma e o tucano José Serra. Agora, a situação é um pouco diferente: várias das legendas que se uniram em torno de Marina já fecharam com Aécio, incluindo o próprio PSB, apesar de algumas dissidências. Resta a definição da própria Marina, que precisa calcular o risco: se ela está adiando o anúncio apenas para tentar arrancar de Aécio mais concessões programáticas, e se o tucano julgar que pode vencer mesmo sem o apoio formal da ex-ministra, ela pode acabar desvalorizada.
Apesar de Marina Silva ser ideologicamente mais próxima do PT, a campanha difamatória conduzida contra ela no primeiro turno abalou as chances de um acordo com Dilma
Marina Silva, a candidata do PSB que ficou em terceiro lugar na eleição à Presidência da República, adiou a declaração (inicialmente prevista para quinta-feira passada) de apoio ao tucano Aécio Neves na disputa que ele trava neste segundo turno com a petista Dilma Rousseff, candidata à reeleição. Marina, que com suas teses não conseguiu empolgar eleitores suficientes para ir ela mesma ao segundo turno, mas obteve expressivos 20 milhões de votos, condiciona agora a sua adesão a Aécio à aceitação, por parte deste, de vários pontos do programa derrotado nas urnas.
Até aí, nada a condenar. Nas melhores democracias do mundo, apoios e coalizões se dão precipuamente em torno de programas, bem ao contrário do costumeiro neste Brasil em que os partidos, grandes, pequenos ou nanicos, preferem trocar as respectivas adesões por cargos no futuro e eventual governo. Logo, se sinceras as exigências da candidata derrotada, não há de se estranhar que seus milhões de eleitores sejam também representados no programa de Aécio. Trata-se, no caso, até de respeitar o pensamento de uma corrente minoritária (mas expressiva) do eleitorado, insuficiente para eleger a candidata, mas que via nela a possibilidade de adoção de algumas de suas ideias.
O currículo político-ideológico de Marina, no entanto, a coloca muito mais perto do PT que do PSDB. As páginas desse currículo mostram-na ligada a movimentos da esquerda radical; como militante do PT desde os tempos da criação do partido; eleita para vários mandatos, de vereadora a senadora, pelo PT; no exercício do cargo de ministra do Meio Ambiente no governo Lula; e, também, em atitude passiva diante do escândalo do mensalão, que envolveu a legenda. Em seguida, já filiada ao Partido Verde, candidatou-se em 2010 à Presidência, obtendo praticamente o mesmo índice de votos que alcançou no pleito do dia 5 passado. Naquela ocasião, coerente com a posição pessoal e de sua nova legenda, levantou a mesma plataforma ambientalista que defendia como ministra. Estas e tantas outras bandeiras também fazem parte do ideário da Rede Sustentabilidade, partido que não conseguiu homologação a tempo, levando Marina a integrar-se ao PSB como vice na chapa de Eduardo Campos, a quem, com sua morte trágica, substituiu como candidata à Presidência.
Por isso, não surpreende que, entre as demandas apresentadas por Marina a Aécio, esteja inclusive um aceno ao Movimento dos Sem-Terra (MST) e a outros movimentos sociais, além do recuo em outros itens da pauta tucana, como a redução da maioridade penal. A alguns pode parecer que Marina esteja querendo, na prática, substituir um programa bem-sucedido o suficiente para ir ao segundo turno por outro que nem isso conseguiu.
Mas, se a ideologia pessoal empurra Marina mais para o lado do PT, a campanha difamatória movida por seu ex-partido, quando ela se mostrava a opção mais viável para derrotar Dilma, parece ter destruído todas as pontes que poderia haver entre as candidatas. Marina foi impiedosamente esmagada pelo marketing petista; vê-la abraçada a Dilma faria pensar em um caso clássico de síndrome de Estocolmo.
Em 2010, Marina preferiu a neutralidade entre Dilma e o tucano José Serra. Agora, a situação é um pouco diferente: várias das legendas que se uniram em torno de Marina já fecharam com Aécio, incluindo o próprio PSB, apesar de algumas dissidências. Resta a definição da própria Marina, que precisa calcular o risco: se ela está adiando o anúncio apenas para tentar arrancar de Aécio mais concessões programáticas, e se o tucano julgar que pode vencer mesmo sem o apoio formal da ex-ministra, ela pode acabar desvalorizada.
Fundo do poço - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP 11/10
Escândalo na Petrobras adquire grandes proporções às vésperas do segundo turno; efeito eleitoral do episódio ainda é incerto
Depois de Delúbio Soares, Silvio Pereira e outros tantos nomes do mensalão, já nem parece o caso de qualificar como estarrecedoras as revelações do doleiro Alberto Youssef e de Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, sobre os desvios de recursos na empresa.
Em depoimentos à Justiça Federal, estimulados pelo instituto da delação premiada, os dois personagens descreveram com naturalidade o esquema de propinas nos contratos firmados com a estatal.
Na Diretoria de Abastecimento, controlada por Costa, PT e PP dividiam a messe da corrupção. Ao primeiro partido estavam reservados 2% do valor dos contratos arranjados, enquanto 1% ia para a segunda sigla e intermediários.
Reencontram-se, na participação do PP, nomes conhecidos do público. Obtiveram notoriedade durante o mensalão o deputado José Janene, morto em 2010, e seu assessor João Cláudio Genu. No PT, o nome de Delúbio Soares é substituído pelo do novo tesoureiro da agremiação, João Vaccari Neto.
Segundo os relatos, mais garfadas alimentavam o caixa petista. Em outras diretorias, que não foram objeto da partilha de cargos com a base aliada, o PT garantia a integralidade da propina.
Quanto ao PMDB, contentava-se com o 1% da Diretoria Internacional, para a qual indicara Nestor Cerveró, um dos principais arquitetos da operação Pasadena.
Nenhuma empresa deixava de pagar a propina, conta Paulo Roberto Costa. Referia-se a um conjunto de empreiteiras do qual faziam parte --segundo confirma Alberto Youssef-- Camargo Corrêa, OAS, Odebrecht, Andrade Gutierrez e outras de menor notoriedade.
Diferentemente do episódio que envolve o metrô de São Paulo e o PSDB, não surge neste inquérito uma delação por parte das próprias empresas corruptoras --declarações de um ex-diretor da Siemens foram decisivas para desencadear o escândalo tucano. Ao contrário, todas as citadas negam participação no esquema.
Apesar dessas objeções, e mesmo que nada, por enquanto, esteja comprovado e ainda menos julgado, o caso Petrobras muito provavelmente terá efeitos sobre o cenário eleitoral. Com que intensidade, porém, não se sabe.
As revelações reforçam as críticas do PSDB ao aparelhamento do Estado pelos governos do PT, mas não é especialmente confortável para os tucanos o papel de defensores inflexíveis da ética pública.
Talvez o melhor que possam fazer os candidatos, nesta altura, seja propor reformas mais amplas do ponto de vista do controle sobre os negócios do Estado e do próprio sistema político, de modo a minimizar o que há de estrutural nos mecanismos de corrupção.
Não é fácil; em meio à facilidade das acusações, um interessado silêncio predomina nesse aspecto.
Escândalo na Petrobras adquire grandes proporções às vésperas do segundo turno; efeito eleitoral do episódio ainda é incerto
Depois de Delúbio Soares, Silvio Pereira e outros tantos nomes do mensalão, já nem parece o caso de qualificar como estarrecedoras as revelações do doleiro Alberto Youssef e de Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, sobre os desvios de recursos na empresa.
Em depoimentos à Justiça Federal, estimulados pelo instituto da delação premiada, os dois personagens descreveram com naturalidade o esquema de propinas nos contratos firmados com a estatal.
Na Diretoria de Abastecimento, controlada por Costa, PT e PP dividiam a messe da corrupção. Ao primeiro partido estavam reservados 2% do valor dos contratos arranjados, enquanto 1% ia para a segunda sigla e intermediários.
Reencontram-se, na participação do PP, nomes conhecidos do público. Obtiveram notoriedade durante o mensalão o deputado José Janene, morto em 2010, e seu assessor João Cláudio Genu. No PT, o nome de Delúbio Soares é substituído pelo do novo tesoureiro da agremiação, João Vaccari Neto.
Segundo os relatos, mais garfadas alimentavam o caixa petista. Em outras diretorias, que não foram objeto da partilha de cargos com a base aliada, o PT garantia a integralidade da propina.
Quanto ao PMDB, contentava-se com o 1% da Diretoria Internacional, para a qual indicara Nestor Cerveró, um dos principais arquitetos da operação Pasadena.
Nenhuma empresa deixava de pagar a propina, conta Paulo Roberto Costa. Referia-se a um conjunto de empreiteiras do qual faziam parte --segundo confirma Alberto Youssef-- Camargo Corrêa, OAS, Odebrecht, Andrade Gutierrez e outras de menor notoriedade.
Diferentemente do episódio que envolve o metrô de São Paulo e o PSDB, não surge neste inquérito uma delação por parte das próprias empresas corruptoras --declarações de um ex-diretor da Siemens foram decisivas para desencadear o escândalo tucano. Ao contrário, todas as citadas negam participação no esquema.
Apesar dessas objeções, e mesmo que nada, por enquanto, esteja comprovado e ainda menos julgado, o caso Petrobras muito provavelmente terá efeitos sobre o cenário eleitoral. Com que intensidade, porém, não se sabe.
As revelações reforçam as críticas do PSDB ao aparelhamento do Estado pelos governos do PT, mas não é especialmente confortável para os tucanos o papel de defensores inflexíveis da ética pública.
Talvez o melhor que possam fazer os candidatos, nesta altura, seja propor reformas mais amplas do ponto de vista do controle sobre os negócios do Estado e do próprio sistema político, de modo a minimizar o que há de estrutural nos mecanismos de corrupção.
Não é fácil; em meio à facilidade das acusações, um interessado silêncio predomina nesse aspecto.
Um exemplo positivo de negociação política - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 11/10
Mesmo que Aécio e Marina não se entendam sobre o segundo turno, a tentativa terá valido pelo seu nível, muito diferente do fisiologismo praticado nas alianças petistas
A candidata Marina Silva, do PSB, transformou em bandeira de campanha a defesa da “nova política”, em que valem as alianças tecidas em torno de programas e a qualidade ética dos políticos. Governar com os “bons” de cada legenda virou símbolo da da ex-senadora, outrora PT e ministra de Lula.
Independentemente das convicções de Marina Silva, caso ela se elegesse não haveria mesmo alternativa a não ser se sustentar em um arco de partidos, por ela ser candidata de uma legenda peso-médio, o PSB. De mais a mais, é tamanha a fragmentação da estrutura partidária brasileira que, seja quem vença eleição hoje no Brasil, a barganha entre partidos é inevitável na busca pela governabilidade.
Derrotada por Aécio Neves (PSDB) na disputa pela ida ao segundo turno contra a candidata à reeleição Dilma Roussef (PT), Marina pratica o que prega, ao negociar com os tucanos um entendimento programático para aderir à candidatura de Aécio.
Faz muito bem. Não apenas por coerência, mas também porque é necessário enfatizar, e cada vez mais, a melhor forma de se exercitar a negociação político-partidária.
Não é grave alguma demora para o desfecho desta negociação, embora haja limites para a indecisão numa campanha tão curta. Marina tem razão em reivindicar de Aécio Neves que adote pontos do seu programa para que o apoie. Mas necessita de bom senso e sensibilidade para avaliar se, diante do mesmo adversário comum de 2010, o melhor é repetir a abstenção daquele ano, posição que poderá ser entendida hoje como autoritária, de negação do jogo político saudável.
Nenhum dilema, porém, retardou o apoio a Aécio dos ex-candidatos Eduardo Jorge (PV) e Pastor Everaldo (PSC), entre outros. O mapa definitivo das adesões depende de condicionantes regionais que interferem nessa acomodação de terreno político-partidário.
O importante é os principais candidatos de oposição, Aécio e Marina, estabelecerem nítida diferença com o fisiologismo com que o PT negocia suas alianças desde a primeira campanha presidencial vitoriosa de Lula, em 2002. Foi quando houve a reunião a portas fechadas entre José Dirceu e Delúbio Soares, do PT, e Valdemar Costa Neto, então PL, em Brasília. Enquanto Lula e José Alencar, também PL, esperavam na sala, os três acertaram as cifras do dote de Alencar para ele ser o vice de Lula.
Percebeu-se depois que ali já estava presente o embrião do mensalão e do atual escândalo na Petrobras, em que acordos são caucionados em dinheiro de origem obscura, em nome de um projeto de poder.
Tanto tempo depois, Dirceu e Valdemar, mensaleiros condenados, estão presos, e Aécio e Marina podem firmar um acordo de campanha de forma translúcida e em bases éticas. Mesmo que não se entendam, terá valido pelo nível da negociação.
Mesmo que Aécio e Marina não se entendam sobre o segundo turno, a tentativa terá valido pelo seu nível, muito diferente do fisiologismo praticado nas alianças petistas
A candidata Marina Silva, do PSB, transformou em bandeira de campanha a defesa da “nova política”, em que valem as alianças tecidas em torno de programas e a qualidade ética dos políticos. Governar com os “bons” de cada legenda virou símbolo da da ex-senadora, outrora PT e ministra de Lula.
Independentemente das convicções de Marina Silva, caso ela se elegesse não haveria mesmo alternativa a não ser se sustentar em um arco de partidos, por ela ser candidata de uma legenda peso-médio, o PSB. De mais a mais, é tamanha a fragmentação da estrutura partidária brasileira que, seja quem vença eleição hoje no Brasil, a barganha entre partidos é inevitável na busca pela governabilidade.
Derrotada por Aécio Neves (PSDB) na disputa pela ida ao segundo turno contra a candidata à reeleição Dilma Roussef (PT), Marina pratica o que prega, ao negociar com os tucanos um entendimento programático para aderir à candidatura de Aécio.
Faz muito bem. Não apenas por coerência, mas também porque é necessário enfatizar, e cada vez mais, a melhor forma de se exercitar a negociação político-partidária.
Não é grave alguma demora para o desfecho desta negociação, embora haja limites para a indecisão numa campanha tão curta. Marina tem razão em reivindicar de Aécio Neves que adote pontos do seu programa para que o apoie. Mas necessita de bom senso e sensibilidade para avaliar se, diante do mesmo adversário comum de 2010, o melhor é repetir a abstenção daquele ano, posição que poderá ser entendida hoje como autoritária, de negação do jogo político saudável.
Nenhum dilema, porém, retardou o apoio a Aécio dos ex-candidatos Eduardo Jorge (PV) e Pastor Everaldo (PSC), entre outros. O mapa definitivo das adesões depende de condicionantes regionais que interferem nessa acomodação de terreno político-partidário.
O importante é os principais candidatos de oposição, Aécio e Marina, estabelecerem nítida diferença com o fisiologismo com que o PT negocia suas alianças desde a primeira campanha presidencial vitoriosa de Lula, em 2002. Foi quando houve a reunião a portas fechadas entre José Dirceu e Delúbio Soares, do PT, e Valdemar Costa Neto, então PL, em Brasília. Enquanto Lula e José Alencar, também PL, esperavam na sala, os três acertaram as cifras do dote de Alencar para ele ser o vice de Lula.
Percebeu-se depois que ali já estava presente o embrião do mensalão e do atual escândalo na Petrobras, em que acordos são caucionados em dinheiro de origem obscura, em nome de um projeto de poder.
Tanto tempo depois, Dirceu e Valdemar, mensaleiros condenados, estão presos, e Aécio e Marina podem firmar um acordo de campanha de forma translúcida e em bases éticas. Mesmo que não se entendam, terá valido pelo nível da negociação.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Lula mentiu. Eu não falei de Nordeste ou de nordestinos”
Ex-presidente FAHC sobre os boatos difundidos pelo ex-presidente petista
MEDO MANTÉM CONDECORAÇÕES
Os comandantes do Exército e da Aeronáutica se fingem de mortos e 2 anos após a condenação por corrupção dos mensaleiros José Genoino e José Dirceu, até hoje não cumpriram a legislação que os obriga a cassar as condecorações concedidas à dupla de presidiários. Ambos têm medo de contrariar a cúpula do PT e sobretudo a presidente Dilma. A condenação da dupla completou dois anos no dia 3 passado.
CASSAÇÃO
O Decreto 3446/2000, ignorado pelos comandantes, manda cassar medalhas de condenado por crime contra o erário, como é o caso.
HONRARIA
José Genoino foi homenageado com a Medalha do Pacificador, uma das mais importantes do Exército. E a mantém até hoje.
JUSTIÇA
José Dirceu ganhou a condecoração da Ordem do Mérito Aeronáutico, também entregue a Genoino quando ele era réu do mensalão, no STF.
DEBAIXO DA CAMA
O Ministério da Defesa e os comandantes militares se escondem para não dar explicações sobre o medo de cumprir a lei e cassar medalhas.
BNDES TOMA DINHEIRO A 11% E EMPRESTA A 5%
Esgotados os recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), o BNDES, que financia recursos em valor secreto para Cuba e Angola (além, claro, de Eike Batista), passou a se abastecer com dinheiro do Tesouro: foram R$ 450 bilhões nos últimos cinco anos. Só que os recursos do Tesouro são pagos à taxa Selic, que está em 11% ao ano, enquanto o BNDES cobra só 5%. São R$ 30 bilhões de subsídio/ano.
PAROU
Não se sabe o efeito, para a economia real, da dinheirama jogada fora pelo BNDES, mas o fato é que o Brasil não cresce há três anos.
TÁ FEIA A COISA
Pior: não se vê solução na briga FAT x BNDES para resolver o rombo bilionário no Fundo, que banca o seguro-desemprego e abono salarial.
MISSÃO PARA O MPF
A situação do Fundo de Amparo ao Trabalhador é mais feia do que se tem revelado, e clama por intervenção do Ministério Público Federal.
NA PISTA
Após denúncias contra Sérgio Machado (Transpetro), o PMDB já cogita nomes para suceder seu padrinho Renan Calheiros no comando do Senado: Garibaldi Alves, Luiz Henrique, Valdir Raupp e Romero Jucá.
FINGINDO-SE DE MORTO
Sem saber o que dizer, o PMDB decidiu não se manifestar e “aguardar as provas” das graves denúncias de Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef contra Sérgio Machado e Jorge Zelada, indicados pelo partido respectivamente para a Transpetro e diretoria da Petrobras.
CONFIANTE
Sobre as acusações bombásticas de Alberto Youssef contra figurões da República, o advogado Antonio Figueiredo Basto afirmou que seu cliente “está confiante” que a Polícia Federal vai proteger sua vida.
ESQUISITICE
Foram recebidas com desconfiança pesquisas do Ibope e do Datafolha, divulgadas quinta à noite, com números rigorosamente iguais. Ficou parecendo coisa combinada para diminuir a própria margem de erro.
EBOLA CAIU DO CÉU?
Oposicionistas aguardam a confirmação do ebola, anunciado no exato dia em que foi revelada a espantosa corrupção na Petrobras, durante os governos Lula e Dilma. Desconfiam que o ebola pode estar sendo usado em lugar de “descobertas” de petróleo, para abafar o escândalo.
MOLEZA ELEITORAL
Pelas agendas divulgadas no site, o presidente dos Correios, Wagner Pinheiro, terá bastante tempo livre para atuar nas campanhas do PT. Trabalho, só de 9h às 12h e de 15h às 18h. Já o salário, R$ 44,5 mil.
TÁ DIFÍCIL
Pesquisa encomendada por Jofran Frejat (PR) representou balde de água fria na própria campanha: ele está a 22 pontos percentuais de Rodrigo Rollemberg (PSB), o líder na disputa pelo governo do DF.
DEBATE DA BAND
No debate da Band, Rodrigo Rollemberg (PSB) ignorou as provocações de Jofran Frejat (PSB), que o definiu como “o novo Agnelo de novo”, referindo-se ao governador que teve só 20% dos votos, no 1º turno.
RODA MOINHO
Chefe da campanha de reeleição de Lula no mensalão, o marqueteiro João Santana terá novo desafio: reeleger Dilma em pleno Petrolão.
PODER SEM PUDOR
DEVO, NÃO NEGO
Antônio Carlos Portela gostava de política e ajudava os amigos que viviam de política, em Petrópolis (RJ), sobretudo avalizando suas dívidas. Um desses amigos perdeu a eleição e, quebrado, não tinha como pagar o empréstimo obtido no banco, com o aval do seu Portela.
- O título está vencido - cobrou o gerente do banco.
- Eu sei - respondeu.
- Como avalista, o sr. é solidário - insistiu o aflito bancário.
- Claro! Sou amigo dele e estou inteiramente solidário. Se ele não pagou, é porque tem seus motivos. Então eu também não pago.
Ex-presidente FAHC sobre os boatos difundidos pelo ex-presidente petista
MEDO MANTÉM CONDECORAÇÕES
Os comandantes do Exército e da Aeronáutica se fingem de mortos e 2 anos após a condenação por corrupção dos mensaleiros José Genoino e José Dirceu, até hoje não cumpriram a legislação que os obriga a cassar as condecorações concedidas à dupla de presidiários. Ambos têm medo de contrariar a cúpula do PT e sobretudo a presidente Dilma. A condenação da dupla completou dois anos no dia 3 passado.
CASSAÇÃO
O Decreto 3446/2000, ignorado pelos comandantes, manda cassar medalhas de condenado por crime contra o erário, como é o caso.
HONRARIA
José Genoino foi homenageado com a Medalha do Pacificador, uma das mais importantes do Exército. E a mantém até hoje.
JUSTIÇA
José Dirceu ganhou a condecoração da Ordem do Mérito Aeronáutico, também entregue a Genoino quando ele era réu do mensalão, no STF.
DEBAIXO DA CAMA
O Ministério da Defesa e os comandantes militares se escondem para não dar explicações sobre o medo de cumprir a lei e cassar medalhas.
BNDES TOMA DINHEIRO A 11% E EMPRESTA A 5%
Esgotados os recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), o BNDES, que financia recursos em valor secreto para Cuba e Angola (além, claro, de Eike Batista), passou a se abastecer com dinheiro do Tesouro: foram R$ 450 bilhões nos últimos cinco anos. Só que os recursos do Tesouro são pagos à taxa Selic, que está em 11% ao ano, enquanto o BNDES cobra só 5%. São R$ 30 bilhões de subsídio/ano.
PAROU
Não se sabe o efeito, para a economia real, da dinheirama jogada fora pelo BNDES, mas o fato é que o Brasil não cresce há três anos.
TÁ FEIA A COISA
Pior: não se vê solução na briga FAT x BNDES para resolver o rombo bilionário no Fundo, que banca o seguro-desemprego e abono salarial.
MISSÃO PARA O MPF
A situação do Fundo de Amparo ao Trabalhador é mais feia do que se tem revelado, e clama por intervenção do Ministério Público Federal.
NA PISTA
Após denúncias contra Sérgio Machado (Transpetro), o PMDB já cogita nomes para suceder seu padrinho Renan Calheiros no comando do Senado: Garibaldi Alves, Luiz Henrique, Valdir Raupp e Romero Jucá.
FINGINDO-SE DE MORTO
Sem saber o que dizer, o PMDB decidiu não se manifestar e “aguardar as provas” das graves denúncias de Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef contra Sérgio Machado e Jorge Zelada, indicados pelo partido respectivamente para a Transpetro e diretoria da Petrobras.
CONFIANTE
Sobre as acusações bombásticas de Alberto Youssef contra figurões da República, o advogado Antonio Figueiredo Basto afirmou que seu cliente “está confiante” que a Polícia Federal vai proteger sua vida.
ESQUISITICE
Foram recebidas com desconfiança pesquisas do Ibope e do Datafolha, divulgadas quinta à noite, com números rigorosamente iguais. Ficou parecendo coisa combinada para diminuir a própria margem de erro.
EBOLA CAIU DO CÉU?
Oposicionistas aguardam a confirmação do ebola, anunciado no exato dia em que foi revelada a espantosa corrupção na Petrobras, durante os governos Lula e Dilma. Desconfiam que o ebola pode estar sendo usado em lugar de “descobertas” de petróleo, para abafar o escândalo.
MOLEZA ELEITORAL
Pelas agendas divulgadas no site, o presidente dos Correios, Wagner Pinheiro, terá bastante tempo livre para atuar nas campanhas do PT. Trabalho, só de 9h às 12h e de 15h às 18h. Já o salário, R$ 44,5 mil.
TÁ DIFÍCIL
Pesquisa encomendada por Jofran Frejat (PR) representou balde de água fria na própria campanha: ele está a 22 pontos percentuais de Rodrigo Rollemberg (PSB), o líder na disputa pelo governo do DF.
DEBATE DA BAND
No debate da Band, Rodrigo Rollemberg (PSB) ignorou as provocações de Jofran Frejat (PSB), que o definiu como “o novo Agnelo de novo”, referindo-se ao governador que teve só 20% dos votos, no 1º turno.
RODA MOINHO
Chefe da campanha de reeleição de Lula no mensalão, o marqueteiro João Santana terá novo desafio: reeleger Dilma em pleno Petrolão.
PODER SEM PUDOR
DEVO, NÃO NEGO
Antônio Carlos Portela gostava de política e ajudava os amigos que viviam de política, em Petrópolis (RJ), sobretudo avalizando suas dívidas. Um desses amigos perdeu a eleição e, quebrado, não tinha como pagar o empréstimo obtido no banco, com o aval do seu Portela.
- O título está vencido - cobrou o gerente do banco.
- Eu sei - respondeu.
- Como avalista, o sr. é solidário - insistiu o aflito bancário.
- Claro! Sou amigo dele e estou inteiramente solidário. Se ele não pagou, é porque tem seus motivos. Então eu também não pago.
sexta-feira, outubro 10, 2014
Dilma se estarrece com divulgação de depoimentos! E quanto ao conteúdo? - JOSIAS DE SOUZA
JOSIAS DE SOUZA AQUI
Dilma Rousseff considerou “estarrecedora” a divulgação dos depoimentos prestados à Justiça por Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef. Achou estranho sobretudo porque o país está “no meio da campanha eleitoral”. Chamou de “golpe“. Espantosa época a nossa. Dois delatores revelam que a Petrobras tornou-se uma espécie de caverna de Ali-Babá. E a presidente da República se estarrece com a divulgação, não com o teor do que foi divulgado. É como se o inaceitável tivesse adquirido uma doce, persuasiva, admirável naturalidade.
“Sei que essas informações estão ainda sob sigilo”, disse Dilma. Erro. O que corre em segredo são os acordos de delação que resultaram em acusações contra a nata da política nacional. Os depoimentos que estarreceram a presidente foram tomados em processo aberto. No início de cada oitiva, o juiz Sérgio Moro teve o cuidado de pedir aos depoentes que se abstivessem de mencionar os nomes de autoridades e congressistas detentores de prerrogativa de foro. “Isso vai vir a público no momento adequado, segundo as decisões do Supremo Tribunal Federal”, esclareceu o magistrado.
“Eu pedi essas informações”, recordou Dilma. “Então, eu acho muito estranho e estarrecedor que no meio da campanha eleitoral façam esse tipo de divulgação.'' Novo equívoco. O que Dilma requereu à Procuradoria e ao STF foram os depoimentos prestados em segredo por Paulo Roberto Costa. Não obteve cópia porque a lei que regula as delações premiadas proíbe. O acesso foi negado também à CPI e à própria Petrobras.
Para Dilma, “é muito importante que a gente não deixe uma coisa [a investigação dos petroroubos] se misturar com a outra [a campanha eleitoral]. Que não se use isso de forma leviana em momentos eleitorais, porque nós não temos acesso a todas as informações.'' Hummmm!
Dias atrás, a Polícia Federal adiou um depoimento de Lula sobre acusações feitas por Marcos Valério para não interferir na campanha eleitoral. Decerto a presidente não deseja que o Judiciário entre em recesso branco por conta da eleição. Resta lamentar que ela, ao admitir-se desinformada, acabe repetindo, com outras palavras, o bordão do “eu não sabia.” Se há alguém que deveria saber o que se passa na Petrobras, essa pessoa é a inquilina do Planalto.
Em seu depoimento, Paulo Roberto disse que há corrupção também na Transpetro, subsidiária naval da Petrobras. Declarou ter recebido R$ 500 mil em verbas sujas das mãos do próprio presidente da companhia, o ex-senador Sérgio Machado, afilhado político de um senador notório: Renan Calheiros. Dilma foi instada a comentar.
“Nós vamos investigar todas as pessoas”, disse ela. “Porque tem uma premissa nisso tudo: em toda campanha eleitoral há denúncias, que não se comprovam e assim que acaba a eleição ninguém se responsabiliza por ela. Não se pode cometer injustiças.” Beleza. E daí?
“O que estamos fazendo é conversar com o servidor da Petrobras [Sergio Machado]. Quem está fazendo isso é ministro Edison Lobão [apadrinhado pelo companheiro José Sarney], no sentido de esclarecer o que há e o que não há. Ninguém pode em sã consciência acabar com o direito de defesa.''
Para quem diz ter “tolerância zero com a corrupção”, Dilma revela-se bastante tolerante no caso do afilhado de Renan, um senador que é autor de patrióticas nomeações. Sérgio Machado está na Transpetro desde o início do primeiro reinado de Lula. Afora a menção desonrosa do delator Paulo Roberto, tornou-se personagem de uma ação por improbidade que o Ministério Público Federal acaba de ajuizar. Machado diz ser honesto. A Constituição lhe concede o direito à dúvida. Mas Dilma já dispõe de elementos para, no mínimo, afastá-lo temporariamente até que os pratos fiquem limpos.
Os delatores informaram à Justiça que, além do PP e do PMDB, quem mais morde propinas na Petrobras é o PT. Mencionaram como operador da legenda o diretor Financeiro João Vaccari Neto. E Dilma: “Se o PT errou, enquanto pessoas do partido erraram, elas têm de ser punidas. Se alguém errou tem que pagar.'' Cômodo, muito cômodo. Mas o contribuinte agradeceria se a presidente tivesse livrado as diretorias da Petrobras das indicações partidárias, inclusive petistas.
O diabo é que Dilma parece considerar natural o que é inaceitável. No mês passado, em sabatina do IG e da Rede TV!, ela deixou claro que não cogita alterar o modelo de preenchimento dos cargos de direção nas estatais. Declarou que continuaria “mantendo o critério para escolher os melhores para o meu governo''. Afirmou que Paulo Roberto Costa era servidor de carreira da Petrobras. Lorota. Virou outra coisa no instante em que ficou devendo sua nomeação à turma do PP.
Desgraçadamente, o governo sempre tratou a ocupação política das estatais com hedionda normalidade. Recorde-se, por oportuno, uma entrevista concedida ao programa Roda Viva, em fevereiro de 2012, pelo então presidente da Petrobras, o petista José Sérgio Gabrielli. A certa altura, Cláudio Weber Abramo, da Transparência Brasil, questionou-o sobre o fenômeno da “ingerência política”.
Abramo recordou que PT controlava quatro diretorias da Petrobras, o PMDB mandava em uma e o PP desmandava em outra. Lembrou também que, na subsidiária BR Distribuidora, até Fernando Collor havia enfiado um apadrinhado em posto de direção.
Vale a pena ouvir a resposta de Gabrielli: “…Uma empresa dessa complexidade, com o tamanho da Petrobras, com o sucesso que a Petrobras tem, não pode ser gerida não profissionalmente. E o que é uma empresa gerida profissionalmente? Ela tem processos que são definidos regularmente para as decisões. Não há decisões individuais na Petrobras.”
Gabrielli prosseguiu: “Todas as decisões passam por comitês, todas as decisões passam por processos, há regras definidas, critérios definidos para as decisões, há mecanismos de avaliação e cheque de diferentes áreas para analizar cada projeto, cada projeto passa por dezenas de disciplinas…”. Cotejadas com os depoimentos prestados pelos delatores da Lava Jato, as declarações do ex-mandachuva da Petrobras soam como piada. Regras! Ora, que regras?
O senhor nega que existem diretores indicados por partidos na Petrobras?, perguntou-se a Gabrielli. “Não, não nego”, ele respondeu. “Mas não é esse o problema.” Heimmm?!? “Eles têm a obrigação de seguir os procedimentos. Existe disciplina na Petrobras!”
Gabrielli ouviu uma pergunta óbvia: se é assim, por que os políticos querem as diretorias da Petrobras? E ele: “Nós estamos numa democracia, meus senhores e minhas senhoras. Numa democracia em que os partidos são legítimos, em que os partidos representam o interesse do povo brasileiro. Ou vocês querem negar o direito dos partidos?”
Democracia partidária na Petrobras? “Vocês querem negar o direito dos partidos. A democracia exige partidos. Muito mais importante ter partidos do que não ter, do que ter uma ditadura.” Alguém lembrou a Gabrielli que ele presidia uma estatal de capital aberto, com ações na Bolsa. Outro entrevistador repetiu que havia gente indicada por Collor na companhia.
“O senhor Collor de Mello é senador eleito”, justificou-se Gabrielli. “Eu discordo da política dele, mas esse é outro problema. Ele é legitimamente eleito.” Sobreveio uma derradeira pergunta: Qual é o interesse dos partidos na Petrobras?
Gabrielli soou assim: “Os partidos participam da gestão do Estado. Isso é parte da prática democrática. Isso é parte da democracia. Os partidos são legítimos. Nós podemos discordar. Eu discordo. Você sabe que eu sou um homem de partido. Eu discordo de alguns partidos, mas é legitima a existência dos partidos. Querer que não existam partidos é autoritarismo. Pode ser um déspota esclarecido, mas é um déspota.”
Nomeado sob Lula, Gabrielli só foi substituído por Dilma em 2012, segundo ano de sua gestão. Foi substituído por Graça Foster sob elogios pelos serviços prestados. Agora responda rápido: um governo que mantém no comando da maior estatal do país um personagem com raciocínio tão precário pode reclamar do seu destino?
- Serviço: a entrevista de Gabrielli ao Roda Viva está disponível aqui. O pedaço referente à ocupação política da Petrobras começa aos 21m45s.
Dilma Rousseff considerou “estarrecedora” a divulgação dos depoimentos prestados à Justiça por Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef. Achou estranho sobretudo porque o país está “no meio da campanha eleitoral”. Chamou de “golpe“. Espantosa época a nossa. Dois delatores revelam que a Petrobras tornou-se uma espécie de caverna de Ali-Babá. E a presidente da República se estarrece com a divulgação, não com o teor do que foi divulgado. É como se o inaceitável tivesse adquirido uma doce, persuasiva, admirável naturalidade.
“Sei que essas informações estão ainda sob sigilo”, disse Dilma. Erro. O que corre em segredo são os acordos de delação que resultaram em acusações contra a nata da política nacional. Os depoimentos que estarreceram a presidente foram tomados em processo aberto. No início de cada oitiva, o juiz Sérgio Moro teve o cuidado de pedir aos depoentes que se abstivessem de mencionar os nomes de autoridades e congressistas detentores de prerrogativa de foro. “Isso vai vir a público no momento adequado, segundo as decisões do Supremo Tribunal Federal”, esclareceu o magistrado.
“Eu pedi essas informações”, recordou Dilma. “Então, eu acho muito estranho e estarrecedor que no meio da campanha eleitoral façam esse tipo de divulgação.'' Novo equívoco. O que Dilma requereu à Procuradoria e ao STF foram os depoimentos prestados em segredo por Paulo Roberto Costa. Não obteve cópia porque a lei que regula as delações premiadas proíbe. O acesso foi negado também à CPI e à própria Petrobras.
Para Dilma, “é muito importante que a gente não deixe uma coisa [a investigação dos petroroubos] se misturar com a outra [a campanha eleitoral]. Que não se use isso de forma leviana em momentos eleitorais, porque nós não temos acesso a todas as informações.'' Hummmm!
Dias atrás, a Polícia Federal adiou um depoimento de Lula sobre acusações feitas por Marcos Valério para não interferir na campanha eleitoral. Decerto a presidente não deseja que o Judiciário entre em recesso branco por conta da eleição. Resta lamentar que ela, ao admitir-se desinformada, acabe repetindo, com outras palavras, o bordão do “eu não sabia.” Se há alguém que deveria saber o que se passa na Petrobras, essa pessoa é a inquilina do Planalto.
Em seu depoimento, Paulo Roberto disse que há corrupção também na Transpetro, subsidiária naval da Petrobras. Declarou ter recebido R$ 500 mil em verbas sujas das mãos do próprio presidente da companhia, o ex-senador Sérgio Machado, afilhado político de um senador notório: Renan Calheiros. Dilma foi instada a comentar.
“Nós vamos investigar todas as pessoas”, disse ela. “Porque tem uma premissa nisso tudo: em toda campanha eleitoral há denúncias, que não se comprovam e assim que acaba a eleição ninguém se responsabiliza por ela. Não se pode cometer injustiças.” Beleza. E daí?
“O que estamos fazendo é conversar com o servidor da Petrobras [Sergio Machado]. Quem está fazendo isso é ministro Edison Lobão [apadrinhado pelo companheiro José Sarney], no sentido de esclarecer o que há e o que não há. Ninguém pode em sã consciência acabar com o direito de defesa.''
Para quem diz ter “tolerância zero com a corrupção”, Dilma revela-se bastante tolerante no caso do afilhado de Renan, um senador que é autor de patrióticas nomeações. Sérgio Machado está na Transpetro desde o início do primeiro reinado de Lula. Afora a menção desonrosa do delator Paulo Roberto, tornou-se personagem de uma ação por improbidade que o Ministério Público Federal acaba de ajuizar. Machado diz ser honesto. A Constituição lhe concede o direito à dúvida. Mas Dilma já dispõe de elementos para, no mínimo, afastá-lo temporariamente até que os pratos fiquem limpos.
Os delatores informaram à Justiça que, além do PP e do PMDB, quem mais morde propinas na Petrobras é o PT. Mencionaram como operador da legenda o diretor Financeiro João Vaccari Neto. E Dilma: “Se o PT errou, enquanto pessoas do partido erraram, elas têm de ser punidas. Se alguém errou tem que pagar.'' Cômodo, muito cômodo. Mas o contribuinte agradeceria se a presidente tivesse livrado as diretorias da Petrobras das indicações partidárias, inclusive petistas.
O diabo é que Dilma parece considerar natural o que é inaceitável. No mês passado, em sabatina do IG e da Rede TV!, ela deixou claro que não cogita alterar o modelo de preenchimento dos cargos de direção nas estatais. Declarou que continuaria “mantendo o critério para escolher os melhores para o meu governo''. Afirmou que Paulo Roberto Costa era servidor de carreira da Petrobras. Lorota. Virou outra coisa no instante em que ficou devendo sua nomeação à turma do PP.
Desgraçadamente, o governo sempre tratou a ocupação política das estatais com hedionda normalidade. Recorde-se, por oportuno, uma entrevista concedida ao programa Roda Viva, em fevereiro de 2012, pelo então presidente da Petrobras, o petista José Sérgio Gabrielli. A certa altura, Cláudio Weber Abramo, da Transparência Brasil, questionou-o sobre o fenômeno da “ingerência política”.
Abramo recordou que PT controlava quatro diretorias da Petrobras, o PMDB mandava em uma e o PP desmandava em outra. Lembrou também que, na subsidiária BR Distribuidora, até Fernando Collor havia enfiado um apadrinhado em posto de direção.
Vale a pena ouvir a resposta de Gabrielli: “…Uma empresa dessa complexidade, com o tamanho da Petrobras, com o sucesso que a Petrobras tem, não pode ser gerida não profissionalmente. E o que é uma empresa gerida profissionalmente? Ela tem processos que são definidos regularmente para as decisões. Não há decisões individuais na Petrobras.”
Gabrielli prosseguiu: “Todas as decisões passam por comitês, todas as decisões passam por processos, há regras definidas, critérios definidos para as decisões, há mecanismos de avaliação e cheque de diferentes áreas para analizar cada projeto, cada projeto passa por dezenas de disciplinas…”. Cotejadas com os depoimentos prestados pelos delatores da Lava Jato, as declarações do ex-mandachuva da Petrobras soam como piada. Regras! Ora, que regras?
O senhor nega que existem diretores indicados por partidos na Petrobras?, perguntou-se a Gabrielli. “Não, não nego”, ele respondeu. “Mas não é esse o problema.” Heimmm?!? “Eles têm a obrigação de seguir os procedimentos. Existe disciplina na Petrobras!”
Gabrielli ouviu uma pergunta óbvia: se é assim, por que os políticos querem as diretorias da Petrobras? E ele: “Nós estamos numa democracia, meus senhores e minhas senhoras. Numa democracia em que os partidos são legítimos, em que os partidos representam o interesse do povo brasileiro. Ou vocês querem negar o direito dos partidos?”
Democracia partidária na Petrobras? “Vocês querem negar o direito dos partidos. A democracia exige partidos. Muito mais importante ter partidos do que não ter, do que ter uma ditadura.” Alguém lembrou a Gabrielli que ele presidia uma estatal de capital aberto, com ações na Bolsa. Outro entrevistador repetiu que havia gente indicada por Collor na companhia.
“O senhor Collor de Mello é senador eleito”, justificou-se Gabrielli. “Eu discordo da política dele, mas esse é outro problema. Ele é legitimamente eleito.” Sobreveio uma derradeira pergunta: Qual é o interesse dos partidos na Petrobras?
Gabrielli soou assim: “Os partidos participam da gestão do Estado. Isso é parte da prática democrática. Isso é parte da democracia. Os partidos são legítimos. Nós podemos discordar. Eu discordo. Você sabe que eu sou um homem de partido. Eu discordo de alguns partidos, mas é legitima a existência dos partidos. Querer que não existam partidos é autoritarismo. Pode ser um déspota esclarecido, mas é um déspota.”
Nomeado sob Lula, Gabrielli só foi substituído por Dilma em 2012, segundo ano de sua gestão. Foi substituído por Graça Foster sob elogios pelos serviços prestados. Agora responda rápido: um governo que mantém no comando da maior estatal do país um personagem com raciocínio tão precário pode reclamar do seu destino?
- Serviço: a entrevista de Gabrielli ao Roda Viva está disponível aqui. O pedaço referente à ocupação política da Petrobras começa aos 21m45s.
Era uma vez o Brasil - CARLOS EDUARDO SOARES GONÇALVES
VALOR ECONÔMICO - 10/10
Era uma vez um país que finalmente dava continuidade a certo conjunto de políticas macroeconômicas de qualidade e ensaiava os primeiros passos numa agenda mais profunda de incremento da produtividade dos setores privado e público. Esse país, terra da deleitável jabuticaba, 20 anos atrás: controlou a grande inflação com um sistema de taxas fixas de câmbio que tem lá seus problemas, mas é implacável caçador de inflações altas e resistentes; abriu-se para o comércio exterior numa velocidade estonteante (o que não é ideal, mas tenta fazer essas coisas aos poucos para ver se você consegue); privatizou suas ineficientes empresas públicas sugadoras de escassos recursos orçamentários. Começava a normalização do ambiente econômico.
Esse mesmo país, depois de uma crise internacional de amplas proporções nos fins dos anos 1990, que foi sofrida mas forçou mudanças necessárias e para melhor, sofisticou ainda mais seu arcabouço econômico: passou a permitir a livre flutuação da moeda e adotou rigor nas contas públicas e na condução da política monetária, respectivamente, criando a Lei de Responsabilidade Fiscal e copiando o bem-sucedido sistema de metas de inflação, que já havia sido implementado algures. Esse país, enfim, depois dos solavancos da virada do século, parecia pronto para a segunda etapa da agenda do desenvolvimento sustentado - uma agenda de natureza mais microeconômica e institucional. Mesmo com alterações na política. Mudou o comandante, saiu o sociólogo e entrou o companheiro, mas o companheiro sentado finalmente na cadeira mais alta, para surpresa de muitos e felicidade geral da nação, manteve o timão na direção correta. Um sabor de esquerda europeia no ar. Mas, passado o seu tempo, o companheiro tinha que dar a vaga para outra pessoa e aí, de repente, a criatura do próprio companheiro, democraticamente alçada ao posto de comandante-em-chefe, resolveu - como compreender isso? - jogar tudo por terra, dar fragorosos passos atrás, retroceder a décadas remotíssimas, nas quais o andar da carruagem se pautava pela lógica de uma desabrida marcha forçada - e fracassada. Nem o companheiro entendeu, creio eu, mas já era tarde. Era uma vez o Brasil.
Em 2009 houve uma imponente crise vinda lá de fora, dos países centrais, e houve, conseguintemente, uma reação dos líderes nacionais, ávidos por acionar as alavancas à disposição, de modo a conter os efeitos nocivos da irresponsabilidade dos ricos estrangeiros. Era preciso transformar uma tsunami vinda do Norte em marolinha dos calmos mares do Sul. E reduzir juros, superávit primário e aumentar o crédito público, ali, naquele momento, deu certo, até porque o terreno estava melhor preparado para isso, abundante em reservas internacionais, aplainado de dívidas grandes e de tenebrosa indexação. Foi um sucesso, efetivamente. Palmas!
Mas, ó humanos incorrigíveis, o sucesso acendeu a fagulha da húbris, e os deuses começaram a ficar insatisfeitos. Aconselhamentos foram ventilados por gente de bem: era preciso refrear aquele impulso tremendo nas políticas fiscal, monetária e para-fiscal. Aquilo geraria inflação e má alocação de capital entre os setores da economia. Esses apelos ao razoável, porém, encontraram ouvidos moucos, de mercador, de mercadores de eleições mais precisamente. Dionísio, em algum lugar aqui na Terra, mastigava jabuticabas e incitava a farra a continuar: o país empanturrava-se em gastos altos e juros baixos e crédito farto e subsidiado. A turma no poder queria - como é natural, reconheçamos sem hipocrisias - seguir no poder, e para isso era preciso meter o pé na tábua. Mas, claro, quem acelera demais uma hora tem que frear. Fosse só isso...
O problema é que a coisa não ficou só no expansionismo eleitoral. Fosse assim, a natural e típica reversão à sensatez no pós-pleito conteria os danos sobre a economia, a afobação em incentivar a demanda refluiria, as coisas voltariam gradativamente aos eixos. E no primeiro semestre de 2011 parecia efetivamente que essa era a rota. Mas não, tratava-se de ajuste passageiro e a contragosto, pois a nova líder, uma senhora de português faltoso, tinha efetivamente outra visão de mundo, uma visão trópico-jabuticabal sobre o funcionamento da economia, um conjunto de ideias compartilhadas por um número ínfimo de arautos num mundo de não sei quantos milhões de economistas. Então, desde o segundo semestre de 2011, o exotismo na política econômica floresceu com vigor inaudito, como se, a exemplo da jabuticaba, houvesse uma política econômica válida apenas para o "do Oiapoque ao Chuí" presente, ainda que tenha experimentado comprovado fracasso alhures e aqui mesmo em outros tempos.
Consistia nisso, tentando resumir: reduzir forçosamente a taxa de juros para ver no que daria, uma promessa de campanha (que esquecia, claro, da feliz existência de uma relação entre juros na canetada baixos e inflação elevada); aumentar gastos e cortar impostos, atitudes que, em conjunto, desafiam as leis mais elementares da aritmética fiscal (por favor, não tentem reproduzir esse tipo de experimento na sua casa, pode ser muito perigoso); intervir pesadamente na taxa de câmbio sem critério bem definido, sendo uma hora para incentivar a indústria nacional (que, curiosamente, não se sentiu nada incentivada, a julgar pelos dados), outra hora para controlar a inflação galopante; fechar a economia ao comércio internacional e solapar sua eficiência com medidas como a tal "necessidade de conteúdo nacional", que premia a incompetência e onera os competentes; erigir um faraônico sistema de subsídios para os mais ricos - sim, você leu corretamente, para os mais ricos - via crédito barateado para um grupo seleto de empresários carinhosamente apelidados pelos críticos como amigos do rei (da rainha?). E cosi via...
Deu no quê essa tal de nova matriz?
Deu nisso: inflação superior a 6%, ou seja, bem acima da meta estipulada, que é 4,5% para os desavisados; déficits externos grandes, da ordem de há muito não vistos, de 4% do PIB; queda da produtividade e dos investimentos a taxas apavorantes; rebaixamento do crescimento potencial, de cerca de 3,5% para a casa dos magérrimos 1,5%.
Aí vocês podem dizer (e estão desculpados de antemão pela inocência): mas depois de tanta miséria de resultados, eles reconheceram, ainda que a voz baixinha, os erros crassos? Desculpe informar que não, que não reconheceram. E aguente firme, prezado leitor, tenha nervos de aço, pois aviso aos navegantes que há uma chance de tudo isso se repetir, como naquele filme da marmota, por todos os dias dos próximos quatro anos.
7 a 1 diz alguma coisa pra você? A piada de mau gosto entre os economistas é que, na hipótese de continuidade desse conjunto de políticas econômicas é bom se acostumar com a ideia de inflação na casa dos 7% e crescimento na casa do 1%.
O governo, claro, e seus defensores, dizem que não é nada disso. Que a desaceleração tem que ver com uma economia mundial em dificuldades. Mas como pode ser essa a explicação se outras economias emergentes estão indo muito bem, obrigado? Ok, demos um injustificável benefício da dúvida, aceitemos que foi a desaceleração mundial que nos legou esse crescimento médio de menos de 2%. Sendo essa a história, porém, por que, enquanto a inflação lá fora está mais para perto de 2%, a nossa situa-se acima de 6%? Não estamos sofrendo de um mal de desaceleração generalizado? Ué, mas isso implica inflação perto de zero...contudo a nossa é de mais de 6%. Ué mesmo.
Não foi o cenário internacional, meus prezados, foram os erros na política econômica. Era uma vez um país cujo futuro, escorregadio, teimava em não chegar. Era uma vez o Brasil.
Era uma vez um país que finalmente dava continuidade a certo conjunto de políticas macroeconômicas de qualidade e ensaiava os primeiros passos numa agenda mais profunda de incremento da produtividade dos setores privado e público. Esse país, terra da deleitável jabuticaba, 20 anos atrás: controlou a grande inflação com um sistema de taxas fixas de câmbio que tem lá seus problemas, mas é implacável caçador de inflações altas e resistentes; abriu-se para o comércio exterior numa velocidade estonteante (o que não é ideal, mas tenta fazer essas coisas aos poucos para ver se você consegue); privatizou suas ineficientes empresas públicas sugadoras de escassos recursos orçamentários. Começava a normalização do ambiente econômico.
Esse mesmo país, depois de uma crise internacional de amplas proporções nos fins dos anos 1990, que foi sofrida mas forçou mudanças necessárias e para melhor, sofisticou ainda mais seu arcabouço econômico: passou a permitir a livre flutuação da moeda e adotou rigor nas contas públicas e na condução da política monetária, respectivamente, criando a Lei de Responsabilidade Fiscal e copiando o bem-sucedido sistema de metas de inflação, que já havia sido implementado algures. Esse país, enfim, depois dos solavancos da virada do século, parecia pronto para a segunda etapa da agenda do desenvolvimento sustentado - uma agenda de natureza mais microeconômica e institucional. Mesmo com alterações na política. Mudou o comandante, saiu o sociólogo e entrou o companheiro, mas o companheiro sentado finalmente na cadeira mais alta, para surpresa de muitos e felicidade geral da nação, manteve o timão na direção correta. Um sabor de esquerda europeia no ar. Mas, passado o seu tempo, o companheiro tinha que dar a vaga para outra pessoa e aí, de repente, a criatura do próprio companheiro, democraticamente alçada ao posto de comandante-em-chefe, resolveu - como compreender isso? - jogar tudo por terra, dar fragorosos passos atrás, retroceder a décadas remotíssimas, nas quais o andar da carruagem se pautava pela lógica de uma desabrida marcha forçada - e fracassada. Nem o companheiro entendeu, creio eu, mas já era tarde. Era uma vez o Brasil.
Em 2009 houve uma imponente crise vinda lá de fora, dos países centrais, e houve, conseguintemente, uma reação dos líderes nacionais, ávidos por acionar as alavancas à disposição, de modo a conter os efeitos nocivos da irresponsabilidade dos ricos estrangeiros. Era preciso transformar uma tsunami vinda do Norte em marolinha dos calmos mares do Sul. E reduzir juros, superávit primário e aumentar o crédito público, ali, naquele momento, deu certo, até porque o terreno estava melhor preparado para isso, abundante em reservas internacionais, aplainado de dívidas grandes e de tenebrosa indexação. Foi um sucesso, efetivamente. Palmas!
Mas, ó humanos incorrigíveis, o sucesso acendeu a fagulha da húbris, e os deuses começaram a ficar insatisfeitos. Aconselhamentos foram ventilados por gente de bem: era preciso refrear aquele impulso tremendo nas políticas fiscal, monetária e para-fiscal. Aquilo geraria inflação e má alocação de capital entre os setores da economia. Esses apelos ao razoável, porém, encontraram ouvidos moucos, de mercador, de mercadores de eleições mais precisamente. Dionísio, em algum lugar aqui na Terra, mastigava jabuticabas e incitava a farra a continuar: o país empanturrava-se em gastos altos e juros baixos e crédito farto e subsidiado. A turma no poder queria - como é natural, reconheçamos sem hipocrisias - seguir no poder, e para isso era preciso meter o pé na tábua. Mas, claro, quem acelera demais uma hora tem que frear. Fosse só isso...
O problema é que a coisa não ficou só no expansionismo eleitoral. Fosse assim, a natural e típica reversão à sensatez no pós-pleito conteria os danos sobre a economia, a afobação em incentivar a demanda refluiria, as coisas voltariam gradativamente aos eixos. E no primeiro semestre de 2011 parecia efetivamente que essa era a rota. Mas não, tratava-se de ajuste passageiro e a contragosto, pois a nova líder, uma senhora de português faltoso, tinha efetivamente outra visão de mundo, uma visão trópico-jabuticabal sobre o funcionamento da economia, um conjunto de ideias compartilhadas por um número ínfimo de arautos num mundo de não sei quantos milhões de economistas. Então, desde o segundo semestre de 2011, o exotismo na política econômica floresceu com vigor inaudito, como se, a exemplo da jabuticaba, houvesse uma política econômica válida apenas para o "do Oiapoque ao Chuí" presente, ainda que tenha experimentado comprovado fracasso alhures e aqui mesmo em outros tempos.
Consistia nisso, tentando resumir: reduzir forçosamente a taxa de juros para ver no que daria, uma promessa de campanha (que esquecia, claro, da feliz existência de uma relação entre juros na canetada baixos e inflação elevada); aumentar gastos e cortar impostos, atitudes que, em conjunto, desafiam as leis mais elementares da aritmética fiscal (por favor, não tentem reproduzir esse tipo de experimento na sua casa, pode ser muito perigoso); intervir pesadamente na taxa de câmbio sem critério bem definido, sendo uma hora para incentivar a indústria nacional (que, curiosamente, não se sentiu nada incentivada, a julgar pelos dados), outra hora para controlar a inflação galopante; fechar a economia ao comércio internacional e solapar sua eficiência com medidas como a tal "necessidade de conteúdo nacional", que premia a incompetência e onera os competentes; erigir um faraônico sistema de subsídios para os mais ricos - sim, você leu corretamente, para os mais ricos - via crédito barateado para um grupo seleto de empresários carinhosamente apelidados pelos críticos como amigos do rei (da rainha?). E cosi via...
Deu no quê essa tal de nova matriz?
Deu nisso: inflação superior a 6%, ou seja, bem acima da meta estipulada, que é 4,5% para os desavisados; déficits externos grandes, da ordem de há muito não vistos, de 4% do PIB; queda da produtividade e dos investimentos a taxas apavorantes; rebaixamento do crescimento potencial, de cerca de 3,5% para a casa dos magérrimos 1,5%.
Aí vocês podem dizer (e estão desculpados de antemão pela inocência): mas depois de tanta miséria de resultados, eles reconheceram, ainda que a voz baixinha, os erros crassos? Desculpe informar que não, que não reconheceram. E aguente firme, prezado leitor, tenha nervos de aço, pois aviso aos navegantes que há uma chance de tudo isso se repetir, como naquele filme da marmota, por todos os dias dos próximos quatro anos.
7 a 1 diz alguma coisa pra você? A piada de mau gosto entre os economistas é que, na hipótese de continuidade desse conjunto de políticas econômicas é bom se acostumar com a ideia de inflação na casa dos 7% e crescimento na casa do 1%.
O governo, claro, e seus defensores, dizem que não é nada disso. Que a desaceleração tem que ver com uma economia mundial em dificuldades. Mas como pode ser essa a explicação se outras economias emergentes estão indo muito bem, obrigado? Ok, demos um injustificável benefício da dúvida, aceitemos que foi a desaceleração mundial que nos legou esse crescimento médio de menos de 2%. Sendo essa a história, porém, por que, enquanto a inflação lá fora está mais para perto de 2%, a nossa situa-se acima de 6%? Não estamos sofrendo de um mal de desaceleração generalizado? Ué, mas isso implica inflação perto de zero...contudo a nossa é de mais de 6%. Ué mesmo.
Não foi o cenário internacional, meus prezados, foram os erros na política econômica. Era uma vez um país cujo futuro, escorregadio, teimava em não chegar. Era uma vez o Brasil.
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