domingo, setembro 14, 2014

A delação premiada - SACHA CALMON

CORREIO BRAZILIENSE - 14/09

A delação sob prêmio existe desde 1999 por força de lei, mas tem sido pouco utilizada. Nos Estados Unidos, é corriqueira. Na verdade, é apenas um incentivo à "rainha" das provas: a confissão. Faz sentido processual e material enorme nos crimes praticados em coautoria (quadrilhas e crimes coletivos de corrupção de empresários e políticos), como esse da Petrobras, que desde 2002, com Lula, tem sido pilhada pelo governo de três modos: empreguismo desbragado, controle artificial de preços e propinas para todo tipo de contratação (o que recomenda a sua privatização ou, quando nada, acordo de acionistas para evitar o controle unilateral da União). As propinas, em parte, a maior parte, são para engordar o caixa dos partidos governistas da base aliada e enriquecer os mais ousados e poderosos, às expensas do patrimônio público.

Paulo Roberto Costa analisou o caso de Marcos Valério e outros no processo do mensalão e procurou resguardar-se e à sua família, também envolvida (a que ponto chegamos). E ponderou: "Que se danem; antes eles do que eu". Com isso implicou autoridades políticas e a alta gerência da estatal. O caso, no plano do Ministério Público Federal (MPF), poderá se converter no primeiro processo criminal a chegar ao Supremo tribunal Federal (STF) por meio da delação premiada. "Não creio que haja precedente técnico equivalente", considera o ministro Gilson Dipp, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), especialista em matéria penal envolvendo crimes financeiros e lavagem de capitais. Antes desse caso, a denúncia de que parlamentares receberam propina para votar favoravelmente ao governo foi feita em 2005 pelo então presidente nacional do PTB, deputado federal Roberto Jefferson, ao jornal Folha de S.Paulo. A delação de Paulo Roberto Costa, ao contrário, já foi feita no âmbito de um processo judicial.

A colaboração premiada foi a única saída encontrada pelos advogados de Costa para reduzir a pena severa a que o ex-executivo da petrolífera poderá ser condenado por integrar organização criminosa voltada à aquisição fraudulenta de contratos com a administração federal, e por ser formalmente acusado por delitos de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e destruição de provas, de acordo com as denúncias oferecidas por seis procuradores da República que atuam na investigação da Operação Lava-Jato, deflagrada pela Polícia Federal (PF) em março e que identificou, até aquele momento, movimentação financeira irregular de R$ 10 bilhões. Pode ir até a R$ 30 bilhões, diz a PF. O doleiro que operava com divisas continua preso, até por motivo de segurança. Para a nação, será uma bênção. Se a PF e o MPF trabalharem instruídos pelo criminoso delator, assistiremos desta vez a toda a imundice em que chafurda a República petista e seu presidencialismo de coalizão (coalizão para o crime e usufruto da coisa pública).

O ministro do STF Teori Zavascki aprovará o acordo que desnudará todas as falcatruas de políticos, gestores e empresários envolvidos, pois o réu confesso era o diretor que centralizava tudo e fazia as interlocuções entre a diretoria da empresa, os políticos e as empresas conluiadas à força ou por vontade própria, o que dá no mesmo, a não ser para determinar a autoria do crime de corrupção ativa. A questão é saber quando o fará. Se for depois das eleições, tenho certeza absoluta de que dezenas de eleitos restarão envolvidos. Se não o fizer, revogará a lei em termos práticos, o que é impensável.

Ocorre que o tempo da política é diferente do tempo jurisdicional. Quisera que o tempo da Justiça fosse mais prestimoso e expedito e que viesse antes das eleições! Em todo caso, a gestão das empresas estatais - após a sabença dos malfeitos criminosos na Petrobras - terá que mudar por completo, e eficazes controles sociais terão que ser criados, sob pena de convivermos com a corrupção para sempre. É certo que a postura dos partidos no poder é relevante, mas a honestidade, por si só, não resolve. Controles jurídicos e sociais, além das agências reguladoras, se fazem imprescindíveis. O principal, para iniciar o processo, contudo, é tirar o PT do poder, fato a esta altura extremamente provável.

Os mineiros devem olhar o governo do PSDB por 12 anos no estado (Aécio e Anastasia). Ao contrário dos governos do PT, especialmente o federal, nenhum escândalo aqui ocorreu. Que seja assim com o Brasil. Não há lugar em Minas Gerais para eleitores no papel de Joaquim Silvério dos Reis, o traidor ao tempo de Tiradentes. Mineiros e brasileiros não só devem tirar o PT do poder como, tampouco, trocar aqui o certo pelo duvidoso, como reza a sabedoria popular.

A força de São Paulo - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 14/09


BRASÍLIA - O foco da eleição está todo em São Paulo, onde se amontoam quase 32 milhões de eleitores, 22,4% do país. Marina tem 40% no Estado, onde compensa a vantagem de Dilma no Sul e a franca dianteira da petista no Norte e no Nordeste. Aliás, Marina já atingiu 31% nos Estados nordestinos, feudos de Dilma e Lula.

Dilma só tem 26% em São Paulo, o que puxa para baixo seu desempenho no fundamental Sudeste, onde ela perde por 28% a 36% de Marina.

Aécio patina em 16% em São Paulo, o que apavora mais o PSDB do que a própria candidatura dele. O futuro do partido, incerto, depende muito dos votos paulistas.

Todas as campanhas, portanto, quebram a cabeça e gastam sola de sapato para conquistar os paulistas, não só da capital, mas principalmente do rico e conservador interior.

A coisa é complicada. O PT mantém o favoritismo na disputa presidencial, mas seu candidato ao governo de São Paulo nunca chegou a dois dígitos nas pesquisas. Com o PSDB ocorre o contrário: em terceiro na presidencial, tem tudo para reeleger Alckmin já no primeiro turno.

Quanto a Marina: não tem a estrutura partidária nem os palanques de PT e PSDB --aliás, não só em São Paulo--, mas disparou entre os paulistas. Eles têm forte rejeição ao PT e, apesar de renovarem o crédito de Alckmin, não parecem se animar com o mineiro Aécio.

O tucano está ensanduichado não apenas entre as vantagens objetivas de Dilma e a novidade Marina, mas também entre as premências em São Paulo e Minas. Se o PSDB não pode ser um fiasco em São Paulo, Aécio não pode perder feio em Minas. E ele está sete pontos atrás de Dilma no Estado que governou. Nos dois casos, do PSDB e de Aécio, é questão de sobrevivência.

Em tempo: a diferença pró-Marina em São Paulo é de 14 pontos no primeiro turno e de 25 no segundo, e ela tem a seu favor os erros de Dilma na economia. Não é trucidando Neca Setubal que o PT vai reverter isso.

A razão contra a baixaria e a apelação - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 14/09


A inacreditável baixaria e a apelação na qual o desespero de Dilma Rousseff e a empáfia de Marina Silva transformaram a campanha eleitoral em sua fase decisiva tiveram um contraponto na atuação de Aécio Neves, terceiro colocado nas pesquisas de intenção de voto, em sua participação, no último dia 10, na rodada de entrevistas com os presidenciáveis realizada pelo jornal O Globo. No momento em que o PT apela para o que sabe fazer melhor - atacar e iludir - e Marina recorre ao bom-mocismo e à manipulação de obviedades para seduzir um eleitorado ávido por mudanças, o candidato do PSDB introduziu um sopro de racionalidade no debate eleitoral.

O que se pode esperar daqui para a frente da campanha petista é a desfaçatez crescente de Dilma Rousseff diante do mar de lama que envolve seu governo, como ela demonstrou sem o menor constrangimento na entrevista ao Estado publicada no dia 9, ao responder sobre o mais recente escândalo na Petrobrás: "Se houve alguma coisa, e tudo indica que houve, eu posso garantir que todas, vamos dizer assim, as sangrias que eventualmente pudessem existir estão estancadas". "Sangrias", aliás, sobre as quais a ex-ministra de Minas e Energia e chefe do governo "não tinha a menor ideia".

Marina Silva, por sua vez, tem falado muito sobre a "nova política" que se propõe a levar ao Planalto e pouco sobre como e o que fará para transportá-la do plano das boas intenções para a realidade dura de um ambiente político que a prática dos últimos 12 anos levou a limites extremos de degradação. E fala pouco sobre os 24 anos em que, sob as asas do guru Lula, militou nas falanges petistas que, com denodo e método, se dedicaram a desmoralizar as instituições democráticas do País.

Surpreendido, como todo o Brasil, pela reviravolta provocada na campanha eleitoral com a morte trágica de Eduardo Campos, Aécio Neves, cuja candidatura até então parecia presença certa contra Dilma Rousseff no segundo turno, defronta-se agora com a necessidade de, em circunstâncias mais desfavoráveis do que até então, demonstrar que é a melhor opção para um eleitorado claramente ávido por mudanças.

Sem considerar a questão estritamente política, que é essencial, mas pouco compreendida em toda sua complexidade - ou simplesmente rejeitada pela maior parte do eleitorado -, o fator decisivo numa eleição presidencial é certamente a economia, traduzida em seus efeitos sobre o cotidiano dos cidadãos. Para reduzir a questão a sua expressão mais simples, quando a economia vai mal a produção cai, os empregos mínguam, a carestia aumenta e a insatisfação geral se instala. É exatamente o que acontece hoje no País, depois de quatro anos de incompetente e desastrado governo.

Diante desse desastre que nem a indispensável existência de programas sociais como o Bolsa Família consegue mais dissimular, está claro que o Brasil precisa, mais uma vez, de uma competente ação governamental de estabilização e desenvolvimento econômico, a exemplo do que ocorreu 20 anos atrás, quando a inflação anual atingia incríveis quatro dígitos e o então ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, comandou uma equipe de economistas que criou e implantou o Plano Real, a partir de três fundamentos básicos: metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário.

Esse é, claramente, um desafio para o qual Dilma Rousseff, até por formação ideológica, não tem a menor disposição - nem o PT dispõe de quadros habilitados - para enfrentar. Marina Silva, por sua vez, tampouco conseguiu demonstrar até agora genuína disposição, e disponibilidade do necessário apoio de quadros técnicos, para a difícil tarefa de recuperar a economia brasileira.


Além do comprometimento histórico dos tucanos com a estabilidade e o desenvolvimento econômico do País, Aécio Neves pode contar com a credibilidade de quadros técnicos comprovadamente competentes. E essa foi a ênfase de sua participação na entrevista ao jornal carioca, ao repudiar a baixaria e a apelação emocional na campanha: "Tenho feito um esforço maior e vou fazê-lo até o último dia desta eleição. Acredito que, no momento da decisão, vai prevalecer a onda da razão".

Em busca do bem comum - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 14/09
A menos de três semanas da eleição para a Presidência da República, a sociedade brasileira começa a refletir profundamente sobre o destino e as opções que se lhe apresentam, a partir de um divisor de águas cada vez mais claro: manter a ordem atual de coisas ou promover as mudanças necessárias para o país voltar a crescer e reduzir as desigualdades. Esse é o rubicão em que a nação se encontra.

Desde o governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), o regime democrático permite a reeleição, que funciona como espécie de confirmação de que o presidente da República está dando conta do recado, não frustrou as expectativas da sociedade, mesmo sob duras críticas dos adversários.

Por que, então, a presidente Dilma Rousseff enfrenta tantas dificuldades nestas eleições, mesmo dispondo de uma coalizão de partidos jamais vista e muito mais tempo de televisão e de rádio para a propaganda eleitoral do que os adversários? A resposta é óbvia: diante das contingências do mandato, não conseguiu fazer um bom governo. É por essa razão que não convence a maioria dos eleitores a renová-lo. Simples assim.

A sociedade é cindida em grupos e classes sociais com interesses contraditórios e antagônicos, muitas vezes pautados pela competição e pelo individualismo. Na realidade, na guerra de todos contra todos, são a desarmonia, os conflitos, as diferenças e as desigualdades sociais que tornam a política necessária para garantir a ordem e impedir a desagregação.

A política republicana deve mirar o bem comum, a Justiça, o bom governo. Res publica significa coisa pública. Põe em primeiro plano a comunidade e afirma sua predominância em relação aos interesses particulares e privados. O Estado deve ser a expressão da coisa pública, não dos interesses partidários. Aparentemente ingênua, essa concepção, porém, ganha força e se legitima na medida em que o governo funciona em benefício da sociedade e não apenas dos grupos encastelados no poder.

O fracasso da política econômica da atual mandatária e a crise ética na gestão da Petrobras são sintomas graves de mau governo, sem falar nas práticas políticas fisiológicas do presidencialismo de coalizão para garantir a maioria no Congresso Nacional. Os protestos de junho do ano passado e as pesquisas eleitorais são indicadores da ojeriza da sociedade àqueles que dão as cartas na vida nacional. A presidente Dilma Rousseff não faz bom governo. É preciso promover o reencontro da política com o bem comum.

A Moody’s dá o alerta - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 14/09


A agência de classificação de risco colocou em viés negativo a nota do Brasil. Que desta vez a chance de discutir a política econômica não seja desperdiçada.


Na terça-feira, dia 9, mais uma agência de classificação de crédito manifestou preocupação com a condução da economia brasileira. A Moody’s manteve a nota Baa2 para os títulos da dívida pública do governo, mas mudou o viés da nota – que era estável, mas passou para negativo, indicando que, em uma próxima análise, o país pode ser rebaixado. Na escala da Moody’s, Baa2 é o segundo degrau dentro do chamado “grau de investimento”, o mais seguro para investidores. Se caísse um nível, o país ainda permaneceria no grupo dos melhores países para se investir. Situação diferente é a que o Brasil atravessa na avaliação de outra agência, a Standard & Poor’s (S&P), que em março deste ano rebaixou o país, de BBB para BBB-, ainda no grau de investimento, mas a apenas um passo do “grau especulativo”.

Assim como ocorreu com o rebaixamento promovido pela S&P, o anúncio da Moody’s surpreendeu o governo, que só esperava uma manifestação após as eleições, como se as avaliações precisassem obedecer a conveniências eleitorais. Obviamente as perspectivas para a economia em 2015 só ficarão mais claras quando também se souber o nome do eleito, mas a situação da economia brasileira é tal que a agência entendeu ser imprescindível uma medida mais enfática, ainda que não tão severa como seria um rebaixamento.

E há muito o que criticar, a começar pela pífia taxa de crescimento prevista para o país. No último boletim Focus, em que o Banco Central recolhe as previsões do mercado, a estimativa de crescimento do PIB era de apenas 0,48% (os dados de julho devem ser positivos, mas não se pode descartar que o avanço ocorre sobre uma base fraca). Em vez de estimular a poupança e o investimento, o governo insiste na estratégia de fomentar o consumo, liberando cada vez mais recursos para crédito. As metas de superávit primário, se forem cumpridas em 2014, só o serão graças a recursos extraordinários (assim como ocorreu em 2013, é bom lembrar), como os do leilão dos 700 MHz. A meta de inflação, de 4,5% ao ano, virou peça de ficção. Ignorando o fato de as margens de dois pontos para cima e para baixo servirem para acomodar choques temporários, o governo agora se contenta em segurar o IPCA dentro do teto da meta, de 6,5%, feito que só ocorre graças ao represamento artificial de preços controlados.

O aviso da Moody’s não é novo. Diversos outros agentes já demonstraram sua preocupação com a maneira como a economia brasileira vem sendo conduzida. Mas, em todos esses casos, a reação do governo brasileiro foi a de atirar no mensageiro. Dois meses depois do rebaixamento promovido pela Standard & Poor’s, Guido Mantega ainda guardava mágoa da agência. “O rebaixamento foi nulo em relação aos mercados. Não aconteceu nada e houve valorização do real. [O rebaixamento] foi solenemente ignorado. Garanto que vamos cumprir 1,9% do PIB, ao contrário do que pensa a Standard & Poor’s. Ninguém mais lembra dessa classificação que não teve nenhuma importância para a economia brasileira”, disse, em maio, em uma comissão da Câmara dos Deputados, em mais uma de suas previsões não cumpridas.

Além disso, quando ocorreu o caso do relatório distribuído a clientes selecionados do Banco Santander, em julho, a reação foi ainda mais severa e antidemocrática, com o ex-presidente Lula pedindo publicamente (e obtendo) a cabeça dos responsáveis pelo texto. Na mesma época, a coligação de Dilma Rousseff processou a consultoria Empiricus Research por suas análises consideradas “catastrofistas” (em agosto, o TSE deu ganho de causa à consultoria). No episódio mais recente de perseguição, o Banco Central apresentou queixa-crime contra um de seus ex-diretores, Alexandre Schwartsman, por suas críticas à ação do BC. Derrotado na primeira instância, o procurador-geral do BC prometeu levar o caso adiante, e só desistiu depois da enorme repercussão negativa. Em nenhuma dessas situações, o governo aproveitou a chance para repensar sua política; pelo contrário, seguiu insistindo no que tem se mostrado ineficaz. Desta vez, Dilma já indicou que, se reeleita, mudará o ministro da Fazenda; será suficiente para botar o país no rumo certo?

Antes fosse só a greve - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 14/09


A greve de 110 dias na USP se estenderá até que a direção da universidade aprove um abono salarial decidido na Justiça. Quando isso ocorrer, os funcionários voltarão a seus postos e terão encerrado a paralisação --mas não a crise.

A suspensão (parcial) dos trabalhos é apenas um aspecto do descalabro na USP. O mais visível neste momento, mas não o mais relevante. Trata-se, na verdade, de reflexo do estado de deterioração em que se encontra a entidade --e parte da comunidade acadêmica se omite diante da situação.

Não há movimento organizado para conduzir a discussão em outros termos. Mesmo quem não participa da greve acaba por aceitar os argumentos básicos dos sindicalistas: o problema fundamental seria o estouro do orçamento, e o rombo deve ser coberto pelo Estado.

Não se questiona como o Conselho Universitário, formado por quadros graduados da USP, aceitou tal degradação financeira. Ou o órgão foi conivente, ou o sistema permite que a reitoria atue impunemente de modo irresponsável.

A reação dos sindicatos, mais que corporativista, revela como é ralo seu sentido de solidariedade social. Não importa se hospitais ou escolas careçam de verbas; a prioridade será sempre da folha de salários da universidade, que toma mais de 105% de seus recursos.

Reivindica-se, pois, verba adicional. Argumenta-se que o número de estudantes e cursos cresceu nos últimos anos, com escasso aumento de professores e demais funcionários. Tudo verdade.

Mas quão ineficiente era a USP há dez ou 25 anos? E por que não dizem que, neste século, o montante de recursos repassados à universidade se expandiu mais que o de alunos, mais até que a economia do país? Não é importante?

A própria instituição não se encarrega de produzir indicadores que permitam aferir com maior precisão a carência de recursos. Ainda assim, e se o Estado não dispuser de dinheiro para essa finalidade? Não cabe à academia a palavra final a respeito desse tópico.

A universidade pode, porém, contribuir para o debate e para tornar legítimas suas reivindicações.

Deve, ao restante da sociedade, explicações sobre seu descontrole. Deve demonstrar, regularmente, quão bem utiliza as verbas que recebe. Deve apontar opções de financiamento. Deve, enfim, sair da letargia intelectual e institucional que a paralisa de modo mais crítico do que as greves recorrentes.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Petistas querem tirar o foco da roubalheira usando a causa gay”
Pastor Silas Malafaia, em mensagem no Twitter contra os métodos da campanha do PT



PROTÓGENES ACHA QUE ATENTADO MATOU EDUARDO

Conhecido por haver prendido o banqueiro Daniel Dantas, o Delegado Federal e Deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) suspeita que a morte de Eduardo Campos nada teve de acidental, foi um atentado, segundo segredou a colegas da PF. Ele chegou a Santos logo após a tragédia, colheu indícios e depoimentos e os enviará à Procuradoria-Geral da República, com o pedido para aprofundar as investigações.

ESTRANHO

Protógenes disse a policiais ter ficado intrigado porque o local nem sequer foi preservado. Delegados da PF somente apareceriam à noite.

AÍ TEM COISA

Entre os objetos colhidos, o delegado Protógenes encontrou na lama a capa de um livro do piloto, intacta, mas sem as páginas internas.

REENCONTRO

No dia da tragédia, Protógenes estava na expectativa de rever Eduardo Campos, com quem se encontrou em 1º de maio e na Semana Santa.

LEVANDO A SÉRIO

A hipótese de atentado contra Eduardo sempre foi mencionada, mas ninguém a levou tão a sério quanto o delegado Protógenes Queiroz.

DILMA AGORA FALA MAL DELA, MAS JÁ FOI MARINA

Não é de hoje que o nome Marina ronda a vida da presidenta Dilma. Sua ficha na Operação Bandeirantes (a temida Oban, um dos mais cruéis órgãos de repressão da ditadura militar) revela que Dilma Vana Rousseff Linhares, quando militava da organização clandestina Var Palmares, usava os nomes falsos “Maria Lucia Santos” e “Marina de Castro”, além dos já conhecidos codinomes “Vanda” ou “Luiza”.

SÓ FALTA PUXAR CABELOS

Arlindo Chinaglia (SP) e Marco Maia (RS) se engalfinham para serem o candidato do PT à sucessão do presidente da Câmara, Henrique Alves.

DISPUTA DE EGOS

O líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha, briga com Marco, filho do enrolado ex-governador Sérgio Cabral, pelo título de mais votado.

PRÉ-CANDIDATO

O governador cearense Cid Gomes presta serviço a Dilma, comprando brigas contra adversários, para se credenciar a cargo no ministério.

ESPELHO MEU

Nossos leitores sabem desde 12 de agosto que o megadoleiro Alberto Youssef deu ao deputado baiano Luiz Argolo um helicóptero. A Folha de S. Paulo noticiou o fato na sexta-feira (12), um mês depois, citando revelação do ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa.

SEM PROTELAÇÃO

Relator do processo de cassação de Luiz Argôlo no Conselho de Ética, o deputado Marcos Rogério (PDT-RO) não revela as conclusões do parecer, que já está nos finalmentes. Mas garante: “entrego nesta terça”.

PSOL LARANJA DO PP

Em Alagoas, quem diria, o PSOL ao governo virou “laranja” do PP de Paulo Maluf. Com 1% nas pesquisas, seu candidato faz ataques até pessoais a Renan Filho (PMDB), que tem 43% contra 26% de Biu (PP).

DINHEIRO DESAPARECIDO

O ministro Edison Lobão (Minas e Energia) sustenta aos colegas de Senado que não ficou com os recursos arrecadados e que deveriam ter sido divididos com a bancada. Mas a cúpula do PMDB não acredita.

AZUL É SÉRIO

Habituada a vestir vermelho, Dilma guarda ternos azuis para ocasiões especiais. Como a entrevista para o Jornal Nacional e a estreia da temporada de ataques a Marina Silva (PSB), seus maiores temores.

CULPA DOS PARTIDOS

A construtora Andrade Gutierrez informou que as doações eleitorais “são feitas conforme a legislação” e direcionadas aos partidos, responsáveis por definir para quem a verba é encaminhada.

MORDEU A ISCA

A campanha de Dilma comemorou o fato de Marina Silva ter mordido a isca sobre a autonomia do Banco Central e sobre pré-sal. A candidata do PSB abandona a ofensiva e perde tempo reagindo às acusações.

SOMOS TÃO JOVENS

Condenado na Justiça Eleitoral por irregularidades na campanha de 2010, o deputado mais jovem da legislatura, Wilson Filho (PTB-PB), desistiu da reeleição. Cedeu a vaga ao irmão, William Santiago, 21.

FUMACÊ

O governador cearense Cid Gomes passou a defender a legalização da maconha. Deve ter fumado a mesma coisa de FHC, pioneiro na asneira.


PODER SEM PUDOR

AH, BOM

Candidato ao Senado pelo PMDB do Paraná em 1990, Waldyr Pugliesi convocou coletiva para explicar que era injusta sua fama de "pavio curto". Na coletiva, um militante do PMDB puxou uma conversa cabulosa e ele a encerrou com um soco na mesa. Refeito, contou que só perdeu a cabeça uma vez, em Arapongas, quando esmurrou um vereador que o criticara. Mas observou:

- Aquele soco foi com o braço democrático...

sábado, setembro 13, 2014

Varejo partidário - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 13/09


Multiplicação de pequenas legendas e provável fragmentação das bancadas no Congresso trará novos obstáculos a quem se eleger


Quem quer que saia vitorioso das eleições presidenciais deste ano terá de haver-se, provavelmente, com dificuldades de negociação no Congresso ainda mais intensas do que as que hoje se verificam.

Pelas projeções atuais, estima-se que será maior, no Senado, a pulverização das bancadas. Hoje, 16 legendas diferentes detêm poderes de barganha diante do Executivo. Calcula-se que, em 2015, o número passará a 18.

Na Câmara dos Deputados, não há como fazer prognósticos da mesma natureza. Líderes partidários acreditam, todavia, que a fragmentação aumentará --e, segundo reportagem do jornal "Valor Econômico", o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar considera que saltará de 22 para 28 o total de siglas nessa Casa.

É duvidoso que, mesmo na mais complexa das sociedades, o pensamento da população se divida em tantas visões de mundo.

O princípio da liberdade de organização, é claro, assegura que se possam reunir em partidos quaisquer cidadãos que assim o desejarem, não importando se banal ou bizarra a causa que os agrega.

O atual sistema acaba tendo o efeito, contudo, de premiar o surgimento de legendas artificiais. Obtendo uma parcela qualquer do horário eleitoral, não raro recorrem a nomes populares para prover-se de um excedente de votos.

Feita a bancada, vêm os benefícios: uma fatia do fundo partidário soma-se aos cargos de assessoria parlamentar e às verbas de gabinete. O negócio, entretanto, mal começou. Haverá de dar-se no trato com o Executivo.

Verdade que, muitas vezes, sobem ao Legislativo agremiações cuja inexpressividade eleitoral não é fruto do oportunismo, mas da intransigência ideológica.

A existência de minúsculas organizações de esquerda termina por sustentar, num ambiente ainda marcado pela memória da perseguição, a ideia de que seria contraproducente barrar seu acesso às vantagens de estar no Congresso.

O tema foi objeto de julgamento, em 2006, no Supremo Tribunal Federal. Na ocasião, argumentou-se que impor critérios rigorosos demais para a concessão de benefícios condenaria à inexistência partidos legítimos, com efeitos nocivos, ademais, para o direito de representação das minorias.

A necessidade de restringir para um teto razoável o número de partidos, no entanto, persiste, e deve ser cogitada no âmbito de uma reforma política mais ampla.

O sistema proporcional, a distribuição do horário gratuito, as coligações para cargos proporcionais e a obrigatoriedade do voto são fatores que contribuem para a criação de um varejo partidário que, no fundo, desserve o eleitor. Já bastante sacrificado, aliás, pelo oportunismo dos grandes partidos. Que, estes, operam no atacado.

Dilma precisa lançar programa de governo - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 13/09

A presidente anunciou que em um segundo mandato trabalharia com uma equipe renovada. E também novas ideias. Mas ainda é muito pouco para satisfazer os eleitores

Como candidata à reeleição e uma das favoritas até agora nas pesquisas eleitorais, a presidente Dilma Rousseff deve uma definição de suas propostas, especialmente na área econômica, para um possível segundo mandato. Sua mais forte concorrente, Marina da Silva (PSB), já lançou o seu programa e Aécio Neves (PSDB) promete o dele para breve. A candidata à reeleição, porém, se limita a dar balanços, favoráveis, de sua polêmica gestão — principalmente na economia — e anuncia que divulgará propostas em tópicos, na propaganda eleitoral. O resto são platitudes e definições óbvias e consensuais, como o apoio à Educação. O que teme a candidata? O máximo que avançou foi anunciar, de forma implícita, o afastamento do ministro da Fazenda, Guido Mantega, em eventuais novos quatro anos de Planalto: “governo novo, equipe nova”.

O resultado foi esvaziar o cargo do Ministro da Fazenda e reforçar o temor de que persistirá nos erros cometidos até aqui. Na entrevista ao GLOBO, ontem, transmitida ao vivo pela internet, lançou nova variação do mesmo: “governo novo, ideias novas”. Continua insuficiente para eleitores e a sociedade como um todo. De aviso prévio, Mantega diz que será necessária uma política fiscal mais austera no ano que vem, com a busca de um superávit primário da ordem de 2% a 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Com isso, observa o esvaziado ministro, a política monetária poderá ser mais flexível (leia-se: redução nas taxas básicas de juros e menos aperto no crédito) no combate à inflação.

Dilma poderia comentar as declarações de Mantega e jogar alguma luz sobre o que pensa para o futuro, considerando que a inflação se mantém alta, as contas públicas desequilibradas e sob absoluta desconfiança dos analistas, dada a contabilidade criativa. E nada faz prever uma consistente retomada do crescimento. Nem o bom resultado da estimativa de evolução do PIB, em julho, feita pelo Banco Central (1,5% de expansão). Por enquanto, apenas um fato isolado. A presidente precisa deixar claro se manterá ou não a política fiscal expansiva e o que pensa da gestão futura do Tesouro Nacional, com seus repasses bilionários para bancos oficiais e a maneira criativa de contabilizar despesas. Há, ainda, o problema dos preços públicos artificialmente contidos. A julgar pela entrevista ao GLOBO, a Petrobras — e os acionistas minoritários, dentro e fora do país — não terá atendida a reivindicação de deixar de subsidiar o consumidor de combustíveis.

Nem tampouco deve-se esperar qualquer maior autonomia do Banco Central, dada a virulência dos ataques da campanha da candidata à adversária Marina Silva, por esta defender a formalização desta autonomia, como fazem nações desenvolvidas. Mas tudo são inferências, deduções de pronunciamentos e entrevistas. O país necessita é de definições formais, claras. Manter no ar dúvidas como essas não favorece sequer a própria candidata.


Abençoado por Deus e roubado com naturalidade - FERNANDO GABEIRA

O ESTADO DE S.PAULO - 12/09


Tá lá o corpo estendido no chão. Acabou uma época imprensada entre a crise econômica e uma profunda desconfiança da política. Não quero dizer com isso que o atual governo federal, com sua gigantesca capacidade, milhões de reais e a máquina do Estado, perderá a eleição. Não o subestimo. Quando digo que acabou uma época quero dizer que algo dentro de nós se está rompendo mais decisivamente, com as denúncias sobre o assalto à Petrobrás.

De um ponto de vista externo, você continua respeitando as leis e as decisões majoritárias. Mas internamente sabe que vive uma cisão. A contrapartida do respeito à maioria é negada quando o bloco do governo se transforma num grupo de assaltantes dos cofres públicos.

Uma fantástica máquina publicitária vai jogar fumaça nos nossos olhos. Intelectuais amigos vão dizer que sempre houve corrupção. Não se trata de um esquema de dominação. Ele tem seus métodos para confundir e argumentar.

O elenco escolhido pelo diretor da Petrobrás para encenar o grande assalto na política não chega a surpreender-me. O presidente do Senado, Renan Calheiros, e o presidente da Câmara, Henrique Alves, são atores experimentados. A diferença agora é que decidiram racionalizar. Renan e Alves viveram inúmeros escândalos separadamente. Agora estão juntos na mesma peça. Quem escreve sobre escândalos deve ser grato a eles. Com a presença num mesmo caso, Renan e Alves nos economizam um parágrafo. Partimos daí: os presidentes do Senado e da Câmara brasileira são acusados de assaltar a Petrobrás.

Deixamos para trás um Congresso em ruínas e vamos analisar o governo. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, foi acusado, o tesoureiro do PT também foi denunciado. As declarações deixam claro que Lula levou o diretor para o posto e elogiava seu trabalho na Petrobrás.

Em termos íntimos, não há governo nem Congresso para respeitar. Ambos já mudaram de qualidade. Os que se defendem afirmando que sempre houve corrupção não percebem a fragilidade do argumento. É como se estivessem diante do incêndio do Rio e alguém sussurrasse: "O Nero, lembra-se? O Nero também incendiou Roma".

Grande parte dos analistas se interessa pela repercussão do escândalo na corrida presidencial. Meu foco é outro: a repercussão na sensação de ser brasileiro. Quem talvez conheça melhor essa sensação são as pessoas que vivem em favelas, dominadas pelo tráfico ou pela milícia.

Existem diferenças entre as favelas e o Brasil que as envolve. Diante de escândalos políticos somos livres para protestar, o que não é possível nos becos e vielas. E contamos com a Justiça. No caso do mensalão, o processo foi conduzido por um juiz obstinado e com dor nas costas, pouco tolerante a artifícios jurídicos. Neste caso da Petrobrás há indícios de que o juiz Sérgio Moro, competente em analisar crimes de lavagem de dinheiro, pretende avançar nas investigações. E avançar por um território que não é virgem, mas extremamente inexplorado: o universo das empreiteiras que subornam os políticos.

Lembro-me, no Parlamento, dos esforços do velho Pedro Simon para que se investigassem também as empreiteiras nos escândalos de suborno. Falar disso no Congresso é falar de corda em casa de enforcado. Ele não conseguiu. Mas Simon queria mostrar também que os políticos não se corrompem sozinhos. Desgastados, polarizam tanto a rejeição que poucos se interessam por quem deu dinheiro e com que objetivo.

Leio nos jornais que as empreiteiras fizeram um pool de excelentes advogados e, pela primeira vez na história, vão se defender de forma coordenada. Vão passar por um momento crucial. Ainda no Congresso, apresentei projeto regulando suas atividades no exterior. A presunção era de que mesmo no exterior o suborno era ilegal para uma empresa brasileira. Alguns países já adotam essa política.

Sinceramente, não sei se o caso das empreiteiras é apenas de bons advogados. Em muitos lugares do mundo, algumas empresas assumem seus erros e se comprometem com um novo tipo de relação com as leis. Isso no Brasil seria uma decisão audaciosa. Sem o suborno, devem pensar, não há chance de ter contratos com o governo.

Se, como no mensalão, a justiça for aplicada com severidade, também as empreiteiras serão punidas. Mais uma razão para pensar numa mudança de comportamento para a qual o País já está maduro. Todo esse processo de corrupção pode ser combatido, parcialmente, a partir de nova cultura empresarial. Os outros caminhos são transparência, Polícia Federal, Justiça, liberdade de imprensa e internet.

Quando afirmo que uma época acabou, repito, não excluo a vitória eleitoral das forças que assaltam a Petrobrás. Mas, neste caso, o governo sobreviverá como um fósforo frio. Maduro, na Venezuela, vê Chávez transfigurado em passarinho. Esse truque não vale aqui, pois Lula está vivo. E no meio da confusão.

Não creio que o Congresso será melhor nem que a oposição, que não soube combinar a crítica econômica com a rejeição moral, possa realizar algo radicalmente novo. O próprio Supremo não é mais o mesmo. Modestamente, podemos esperar apenas alguma melhoras e elas vão depender de como o povo interpretará o saque à Petrobrás. Na minha idade já não me posso enganar: Senado, Câmara, governo, tudo continua sendo formalmente o que é; no juízo pessoal, são um sistema que nos assalta.

O PT, via Gilberto Carvalho, acha que a corrupção é incontrolável e propõe financiamento público de campanha. Bela manobra, como se o dinheiro da Petrobrás não fosse público. Os adversários têm tudo para desconfiar da tese. Ficariam proibidos de arrecadar com empresas, enquanto dinheiro a rodo é canalizado das estatais para o PT, que se enrola na Bandeira Nacional e grita: "O petróleo é nosso!".

Na medida em que tudo fique mais claro, talvez possamos até economizar palavras, como Renan e Alves nos economizaram um parágrafo participando do mesmo escândalo. Poderíamos usar a frase do mendigo em Esperando Godot, ao ser questionado sobre quem o espancou: os mesmos de sempre.


COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

MRE VETA FACEBOOK PARA NÃO FALAREM MAL DE DILMA

A proibição de acesso ao Facebook no Ministério das Relações Exteriores (MRE), esta semana, nasceu depois que o chanceler Luiz Aberto Figueiredo reuniu terceiros secretários, iniciantes na carreira, e passou-lhes enorme descompostura. “Vocês não podem ficar falando mal do governo no Facebook!” exclamou. Figueiredo não proibiu que falassem mal da política externa, mas sim do governo Dilma Rousseff.

CENSURA

Os jovens diplomatas continuaram dizendo o que pensam de Dilma nas redes sociais e, em represália, o acesso ao Facebook foi bloqueado.

MORDAÇA

Servidor de Estado, diplomata não deve fazer juízo de valor sobre política externa, mas, como cidadão, é livre para criticar governos.

ORDEM SECRETA

Não há indícios de que foi o próprio chanceler quem ordenou restrições de acesso ao Facebook. Pode ter sido coisa de assessor bajulador.

ITAMARATY SE TRUMBICA

O Itamaraty criou página no Facebook para uma “melhor comunicação” com a sociedade. Já melhorar a comunicação com seus servidores...

DINHEIRO SUJO DE CAMPANHA SEGUE POR ESTRADAS

A apreensão pela Polícia Rodoviária Federal de R$ 180 mil com o motorista do senador Welington Dias (PT-PI), em Barreira (BA), acendeu a luz vermelha no Tribunal Superior Eleitoral. Diante do rigor da fiscalização nos aeroportos, os políticos estão usando as estradas para circular dinheiro de “caixa 2”. O TSE deve pedir blitze frequentes nas rodovias que saem de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

FLAGRANTE HISTÓRICO

O submundo evita avião na circulação de “caixa 2” desde a prisão do assessor do deputado José Guimarães (PT-CE) com dólares na cueca.

REAÇÃO DE SEMPRE

O senador petista Welington Dias negou que o dinheiro apreendido fosse dele, e ainda insinuou que era do humilde funcionário.

SUSPEITA BOBA

Wellington Dias culpou o atual governador do Piauí, Zé Filho, pelo vazamento da apreensão do dinheiro. Mas a imprensa é que descobriu.

VENCEU A INFORMAÇÃO

O ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) não gostaria de ver vazadas as imagens do dinheiro apreendido com o motorista do senador Wellington Dias (PT-CE), mas o fotógrafo Jadiel Luiz, do blog de Sigi Vilares, de Luis Eduardo Magalhães (BA), foi mais rápido.

NOVO VEXAME

O Senado escreveu mais uma página de sua vexatória história recente, no relatório maroto negando combinação de perguntas na CPI da Petrobras. A fraude, confessada pelos suspeitos, foi até gravada.

PETROBRAS ADMITIU

Se não houvesse combinação de perguntas, na CPI, a Petrobras não precisava ter punido com demissão o funcionário envolvido na fraude, que era assessor da presidente, Graça Foster.

DIETA DE MILHAS

Voo DL-221 da Delta saiu de Atlanta com destino a Brasília, quinta à noite, mas deu meia volta duas horas após decolar, devido a defeito no radar atmosférico do jato. Sem comida, a Delta ofereceu milhas grátis.

BRIGA DOMÉSTICA

O presidente do Grupo Edson Queiroz, chanceler Airton Queiroz, não apoia a candidatura de seu cunhado, Tasso Jereissati, ao Senado. Simpatiza e estimula a eleição do deputado Mauro Filho, do PROS.

ARRUINOU GERAL

Empreiteiras citadas no caso da Operação Lava Jato enfrentam inferno astral financeiro. Entraram em parafuso e já estão atrasando pagamentos aos próprios fornecedores, até de pequenas quantias.

EM ALTA

O senador João Capiberibe (PSB-AP) compara Marina Silva – que tem sido alvo de ataques tanto do PT quanto do PSDB – com uma massa de pão fermentada: “Quanto mais batem, mais estufa”, diz.

SABEM DE NADA

Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA) gerou risadas na CPMI da Petrobras quando rebateu, fora do microfone, a fala de Nestor Cerveró de que não sabe de corrupção na Petrobras: “Mas se até Dilma desconhece...”

FI*!PQP#&!!

Dilma reagiu de forma impublicável à notícia da apreensão de dinheiro com o funcionário do PT. As orelhas de Wellington Dias arderam.

sexta-feira, setembro 12, 2014

PT se fortalece como o partido dos grotões - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 12/09

Ganhando ou não, o partido terá de repensar propostas, para escapar da imagem da legenda apenas dos pobres, mal instruídos e moradores de cidades pequenas



O cenário trazido pela última pesquisa do Datafolha não é, na essência, grande novidade. A candidata à reeleição, Dilma Rousseff, é forte no Norte e Nordeste, enquanto a oposição domina grandes espaços no Sudeste e Sul, onde se encontram os estados mais ricos. Mesmo que o fator Marina tenha surgido como raio em céu azul, a preferência do eleitorado segue esta tendência, que se firma em relação ao PT desde que o partido, por meio de Lula, chegou ao Planalto pela primeira vez, em 2003.

Mesmo que Marina Silva tenha herdado a legenda do PSB de Eduardo Campos e, instantaneamente, tornado sua chapa muito competitiva na corrida presidencial, Dilma se mantém, até agora, imbatível no Nordeste (48% dos eleitores contra 31% de Marina) e Norte (48% a 32%). O quadro é outro no Sudeste, onde está a maioria do eleitorado, e em que há um empate em 36%.

Pernambuco é emblemático do espaço petista no Nordeste. Terra de Eduardo Campos, governador bem avaliado pela população, o estado acolheu sem dificuldades Marina, e a ela 45% dão seu voto. Mas Dilma, ainda assim, recebe 38% da preferência do eleitorado pernambucano.

A perda de espaço do PT no Sudeste tem como símbolo a dificuldade da legenda no estado mais rico da federação. O candidato ao governo de São Paulo, Alexandre Padilha, um dos “postes” de Lula, está com 8%, e o tucano Geraldo Alckmin continua a se reeleger no primeiro turno. Dilma ficou em 26% e Marina, 40%. O partido enfrenta dificuldades históricas na região em que foi fundado.

Esta última pesquisa, analisada por meio dos aspectos da escolaridade, renda e local de moradia dos eleitores, segundo o porte de suas cidades, revela que o PT se sustenta em pessoas de baixa formação escolar, residentes no interior, em cidades de até 50 mil habitantes. Não por acaso, o estado de São Paulo foge deste perfil: tem população escolarizada, renda média alta e congrega cidades maiores.

O PT, portanto, reproduz a trajetória de partidos que também ficaram longo período no poder. Incluindo Arena e, depois, PDS, legendas de sustentação dos generais. Quando começaram a voltar as eleições diretas, os partidos da ditadura só ganhavam no Nordeste, no Norte, nos grotões. Daí o Pacote de Abril, baixado por Ernesto Geisel em 1977, ter criado os “senadores biônicos" e inflado o número de representantes dos estados menos populosos. Onde o regime vencia.

O mesmo fenômeno ocorreu com o PSDB, nos tempos de Planalto. O poder do Executivo federal é tamanho na distribuição de recursos para estados e municípios, e no assistencialismo, que a população dessas regiões, dependente de bolsas, é sempre governista. Por isso são petistas.

Disso tudo resta um dever de casa para o PT: ganhando ou não, o partido terá de repensar propostas, para escapar da imagem da legenda apenas dos pobres, mal instruídos, dos grotões do país. Ou ficará irrelevante à medida que o país se desenvolver.

Inflação para o novo governo - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 12/09


A alta de preços continuará infernizando os brasileiros ainda por um bom tempo, pelo menos até a metade do mandato do próximo governo, segundo os dirigentes do Banco Central (BC). A má notícia foi embrulhada na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Esse comitê é responsável pela defesa do poder de compra do dinheirinho de cada família. De acordo com o relatório, a inflação continuará acima da meta no próximo ano e poderá em 2016 convergir para o alvo, de 4,5%, A previsão inclui, como condições, a manutenção dos juros básicos no nível atual, de 11%, e alguma melhora nas contas do governo.

Se alguém quiser uma indicação mais segura de quando a inflação anual chegará a 4,5%, terá de ser paciente e continuar esperando a boa notícia. Cautelosamente, os autores da ata evitaram chegar a esse detalhe. Segundo eles, o começo da "trajetória de convergência" será nos "trimestres iniciais" de 2016. Mencionados assim, no plural, devem ser os dois primeiros trimestres. Mas o texto aponta só o provável início da convergência. O final permanece como um mistério. Os otimistas podem imaginá-lo em 2016.

Pouco mudou no panorama da inflação, segundo a ata, embora a taxa prevista para este ano seja agora menor que a estimada na reunião anterior do Copom, no meio de julho. Também os economistas do mercado cortaram suas previsões para 2014 - de 6,48% para 6,27%, no período coberto pelo relatório. A perspectiva, apesar dessa pequena mudança, continua ruim. Se houve algum sucesso no combate à elevação de preços, foi muito limitado. Os dirigentes do BC permanecem à espera de efeitos mais sensíveis da alta de juros. Essa expectativa tem sido citada há muito tempo, nas atas divulgadas oito dias depois de cada reunião.

A inflação, de acordo com o texto, continua alimentada basicamente pelos mesmos fatores. O aumento de salários continua superando, neste ano, os ganhos de produtividade. Além de pressionar os custos de produção, esse descompasso ainda contribui para manter a demanda à frente da oferta de bens e serviços, desequilibrando os preços. Esse desajuste é também sustentado pelo aumento do crédito, embora mais moderado que nos anos anteriores, e pelo desarranjo das contas públicas. Este ponto é tratado, como de costume, com boas maneiras.

Os autores da ata voltam a mencionar a importância de resultados melhores das contas públicas para o combate à inflação e para a criação de expectativas econômicas mais favoráveis. É uma forma polida de lembrar ao Executivo a necessidade de melhor gestão de receitas e despesas do Tesouro. Mas o documento vai além da polidez. Novamente, como tem feito há muitos meses, a ata menciona a expectativa de um avanço das contas públicas "para a zona de neutralidade". Nessa zona, por enquanto meramente imaginária, a gastança federal estaria controlada e deixaria de contribuir para o aumento de preços.

Não se sabe se a presidente Dilma Rousseff tem lido as atas de reuniões do Copom. Se ler, provavelmente gostará dessa passagem, assim como demonstrou ter gostado da redução dos juros, iniciada no fim de agosto de 2011. Foi uma decisão perfeitamente de acordo com seu discurso político. Essa redução foi lamentavelmente interrompida em 2013. A interrupção ocorreu porque a inflação continuou elevada e com risco de atingir níveis bem mais altos. Naquele momento, em abril do ano passado, a imagem do BC teria descido a níveis historicamente baixos, se o Copom se mantivesse empenhado em cumprir a promessa da presidente de reduzir os juros. Um BC totalmente sem credibilidade seria um desastre a mais para uma economia já desarranjada.

O comentário mais otimista da nova ata veio enrolado: "As taxas de crescimento da absorção interna e do PIB se alinharam" e a economia deve expandir-se menos que em 2013. Traduzindo: com a estagnação econômica, o desajuste entre a demanda interna e a produção tende a diminuir. Com isso, as pressões inflacionárias devem arrefecer. Pode ser. Por enquanto, a economia continua em marcha lenta e a inflação permanece elevada e com sinais de aceleração. É cedo para ser otimista.

Um ataque inusitado à autonomia formal do BC - EDITORIAL VALOR ECONÔMICO

VALOR ECONÔMICO - 12/09

A campanha eleitoral tomou rumos inusitados desde que Marina Silva, candidata do PSB à Presidência, mostrou-se com potencial para destronar o PT do poder. Uma discussão esotérica - a autonomia institucional do Banco Central - concentra por dias a fio a atenção e a agenda dos candidatos e promete ir longe. O tema é importante, mas colocado na linha de frente dos palanques, produziu mais calor que luz e um festival de bobagens.

Os marqueteiros da presidente Dilma Rousseff não entraram na discussão para esclarecer, mas para confundir - e atacar. Criaram uma peça de rara desonestidade em que, no final, pérfidos banqueiros, que tomaram naturalmente o Banco Central autônomo, roubam a comida da mesa do pobre cidadão brasileiro - adverte-se que podem fazer outros males, como produzir desemprego, queda dos salários etc.

Mas Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff mantiveram relações amistosas com a banca, um dos principais financiadores de suas campanhas. O objetivo das peças eleitorais na verdade nada tinha a ver com a proposta de autonomia formal do BC. Visavam deter no desespero a ascensão da candidata do PSB, que tem como conselheira Neca Setubal, herdeira do banco Itaú, associando a imagem de Marina à da parcela mais rica e aristocrática da elite nacional.

Talvez a escolha do tema de ataque tenha surpreendido Marina. Ela não concordava com a proposta que acabou fazendo porque o ex-cabeça de chapa, Eduardo Campos, tinha se comprometido com a bandeira antes de morrer. E também porque nos governos petistas, em especial nos dois primeiros mandatos de Lula, o banqueiro Henrique Meirelles comandou o BC e dispôs de invejável carta branca. Chegou a ganhar status de ministro, livrando-se da subordinação hierárquica à Fazenda. Um governo petista usando bancos como espantalho não combina com o passado.

Setores do PT, e até mesmo do PSDB, sempre torceram o nariz para a autonomia formal do BC. A proposta é polêmica e há bons argumentos contrários e favoráveis a ela. A discussão é complexa. Há modelos diferentes, mas basicamente a autonomia em lei visa evitar interferências políticas na condução da política monetária, com mandatos fixos não coincidentes para os membros do BC, regras para sua destituição, escolha etc.

Um dos pontos fundamentais é que as metas e os objetivos que o BC autônomo perseguirá, à sua maneira, são determinadas fora dele, pelo Executivo com ou sem aval do Congresso. É o Executivo também que deve indicar os escolhidos para o cargo, que serão examinados e aprovados (ou não) pelo Congresso. Da mesma forma, a meta de inflação, ou de crescimento, ou ambas, podem ser fixadas pelo Executivo, ao passo que a prestação de contas costuma ser periódica e é feita ao Congresso. Assim, para que haja um festim de banqueiros com as merendas tiradas da mesa do povo na sede de um novo BC autônomo, como mostra a propaganda petista, é preciso que tudo isso seja feito com o expresso consentimento dos representantes desse mesmo povo.

Tudo isso a presidente Dilma e boa parte dos petistas sabem. Perplexa diante do golpe baixo, Marina Silva sacou uma "bolsa banqueiro" de duvidoso calibre para revidar. Talvez por não se sentir à vontade com uma ideia que não era sua, ela evitou desmontar os argumentos indigentes contra ela apresentados. E exagerou na argumentação, ao sugerir que o país não volta a crescer e os investimentos a se revigorar se a autonomia do BC não virar lei. Mesmos os liberais tucanos não deram prioridade ao assunto - ele não tem apelo eleitoral.

O governo Lula deu-se bem com os banqueiros, que lucraram para valer em seu governo, porque sua política econômica permitiu que milhões de pessoas que nunca haviam tomado crédito batessem às portas dos bancos. E, supondo-se que não gostasse deles, teria de ser amistoso, porque os bancos detinham boa parte da dívida mobiliária federal interna de R$ 623 bilhões, quando Lula assumiu o poder em 2003, e de mais de R$ 1,6 trilhão, quando o deixou no fim de 2010. A presidente Dilma tentou derrubar os juros, mas errou no método, aumentando ao mesmo tempo as dívidas e reduzindo a economia necessária para pagá-las. Os juros voltaram a ser o que eram antes dela chegar ao Planalto. E uma forma de ganhar alguma autonomia em relação aos bancos é não precisar tanto deles.


Dilma sai pela tangente - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 12/09


Declarações da presidente sobre o novo escândalo da Petrobras não levam a lugar nenhum


A presidente Dilma Rousseff ainda está prospectando as razões pelas quais andam falando tão mal da Petrobras. Disse ela, em sabatina do jornal O Estado de S.Paulo: “Eu não tinha a menor ideia de que isso ocorria dentro da empresa”, referindo-se ao bilionário esquema de propina denunciado pelo ex-diretor Paulo Roberto Costa. Seu alegado desconhecimento se refere ao suposto esquema que agora é manchete de todos os jornais, mas coincide também com os anos em que a estatal petrolífera brasileira deixou de garantir a autossuficiência na produção de óleo, tão festejada no início do governo Lula, e se envolveu em negócios desastrosos. Dilma, no entanto, não via anormalidades na empresa – nem técnicas, nem administrativas, nem morais.

Nesse período de decadência, em todos os mencionados sentidos, que no conjunto levaram à perda substancial de valor da Petrobras, Dilma sucessivamente foi ministra de Minas e Energia (pasta à qual a petrolífera está vinculada), ministra-chefe da Casa Civil da Presidência, presidente do Conselho de Administração da Petrobras e, finalmente, presidente da República. Mas “não tinha a menor ideia” do que ocorria dentro da empresa.

Claro que não se deve exigir da ocupante daqueles altos postos que conheça minúcias do que ocorre nas entranhas da administração pública. Mas é doloroso ter de admitir que essa ausência de cuidados se tenha estendido à mais estratégica das estatais nacionais – fonte de riqueza incomensurável, detentora de grande potencial de crescimento e, sobretudo, instrumento de garantia e de promoção do desenvolvimento de um país ainda tão carente na exploração de insumos energéticos.

Confrontada, porém, com dados revelados pela imprensa, Dilma preferiu sair-se por uma confortável tangente. Disse ela, na mesma entrevista: “Não quero dar à imprensa um caráter que ela não tem perante as leis brasileiras. A imprensa não tem nenhum foro inequívoco para dizer para mim se uma pessoa é corrupta ou não. Quem vai falar isso para mim é quem investiga, quem tem as provas”. Tem razão a presidente: a imprensa não é a Justiça, mas apresenta fatos que, mais lentamente que o desejável, são depois confirmados por “quem investiga”. Logo, não nos parece razoável o desmerecimento que Dilma Rousseff devota ao papel da imprensa livre – que agora está também no foco de “quem investiga” para se descobrir quem vazou dados colhidos pela Polícia Federal e que não foram desmentidos por “quem investiga”. O esforço por desvendar o vazamento, inclusive, parece tão ou mais intenso que a ânsia por descobrir os detalhes do esquema denunciado por Costa.

A presidente diz estar ainda à espera de dados oficiais para opinar e tomar providências em relação aos supostos desvios na Petrobras – atitude que não deixa de configurar uma contradição em termos, pois, se não são “oficiais” as informações da imprensa, não precisaria esperar que viessem à tona pela via de “quem investiga”. Bastaria-lhe a repetição do mantra com o verbo no presente: “não sei de nada”. Felizmente, preferiu reconhecer uma fumaça de bom conteúdo no que a imprensa já publicou, a ponto de afirmar que “tudo indica que houve” algo de muito errado na Petrobras.

Mas o entorno dessa frase esconde uma profunda contradição. “Se houve alguma coisa [na Petrobras], e tudo indica que houve, eu posso garantir que todas as sangrias que eventualmente pudessem existir estão estancadas”, disse Dilma. É no mínimo curiosa a afirmação: se ela não sabia, e se ainda não sabe (porque não lhe chegaram informações “oficiais”), como ela pode ter certeza absoluta de que as sangrias já foram estancadas? Será essa a única informação oficial que ela deve ter recebido? A de que acabaram com as sangrias, mas não lhe disseram quais eram, nem quem seriam os responsáveis?

É tudo muito surreal.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Os partidos perderam o vínculo com a sociedade”
Marina Silva, candidata do PSB, prometendo inaugurar no Brasil ‘uma nova política’



JOAQUIM DECIDE GANHAR A VIDA COMO PALESTRANTE

Ministro aposentado no Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa resolveu fixar residência em Brasília. Alugou apartamento na Asa Sul e fechou acordo com empresa agenciadora para faturar com palestras. Não pretende advogar, mas a amigos admite elaborar pareceres em sua área, Direito Público. Tampouco planeja ingresso na política, apesar de boas chances de eleger-se senador pelo DF, em 2018.

ESTREIA DIA 19

A estreia de Joaquim Barbosa como palestrante profissional será na Unisul, universidade em Tubarão (SC), no próximo dia 19.

CACHÊ SECRETO

Joaquim vai falar em Tubarão sobre “O Poder e a Ética no Brasil atual”. Mas a Unisul não revela o cachê que o ministro aposentado receberá.

LIDERANÇA

Alvo de baixarias na TV, Renan Filho (PMDB) segue liderando com folga (43% x 26% de Biu, do PP) a disputa pelo governo de Alagoas.

ESPETACULAR

Armando (PTB), que já posava de governador, anda insone com a virada: Paulo Câmara (PSB) pulou de 13% para 39% em um mês.

EMPREITEIRAS BANCAM CAMPANHA AO GOVERNO DO DF

As empreiteiras financiam fortemente os candidatos a governador, no Distrito Federal. José Roberto Arruda (PR) teve R$ 1 milhão da UTC, enrolada na Lava Jato, e R$ 1,8 milhão da Toyo. Agnelo Queiroz, candidato à reeleição pelo PT, recebeu R$ 2,4 milhões da Andrade Gutierrez, que construiu o Estádio Mané Garrincha, R$ 1,65 milhão da OAS e R$ 1,69 milhão da Via, Odebrecht e Serveng.

SÓ CAPITALISTAS

No DF, o candidato ao governo Rollemberg (PSB) recebeu R$ 369,5 mil do grupo JBS Friboi e R$ 350 mil de Guilherme Leal, dono da Natura.

BANQUEIRA AMIGA

Antonio Reguffe (PDT-DF), que mais parece candidato a canonização e não a senador, recebeu doação generosa da banqueira Neca Setúbal.

IMOBILIÁRIAS

Suspeito de beneficiar imobiliárias, quando secretário no DF, Geraldo Magela (PT) teve doações de duas delas: City Engenharia e Premier.

ESTRANHA ‘DOAÇÃO’

Na prestação de contas do partido à Justiça Eleitoral, Eduardo Campos aparece como doador de R$ 2,5 milhões, em espécie, ao Comitê Financeiro Nacional do PSB, quando já estava morto, em 14 de agosto. O dinheiro foi retirado da sua conta pessoal de campanha.

VANGUARDA DO ATRASO

O Itamaraty resolveu impedir o acesso dos funcionários ao Facebook. Os diplomatas costumam visitar páginas oficiais de outros países para ter acesso a notícias que nem sempre aparecem na mídia tradicional.

TRÂNSITO LIVRE

O ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, responsável pela compra da refinaria de Pasadena, era figura frequente em gabinetes de senadores ilustres do PT e PMDB, inclusive na presidência da Casa.

LUGAR AO SOL

Há políticos que, de fato, não temem a delação premiada de Paulo Roberto Costa e vão madrugar na CPMI da Petrobras, quarta-feira (17). Estão loucos por cinco minutos de fama.

NÃO DÁ IDEIA...

Com senadores de sorrisos amarelos ou à beira de ataque de nervos, após a delação premiada do ex-diretor da Petrobras, o Senado aderiu à campanha de prevenção ao suicídio, iluminando a cúpula de amarelo.

MEMÓRIA CURTA

Ao rever Helena Chagas num comício em Jales (SP), há dias, Dilma a abraçou fervorosamente. Parece esquecida da grosseria de demitir a ex-ministra pela imprensa. Os amigos de Helena não esquecem.

OLHO EM 2018

Ex-goleiro do São Paulo e do Sport do Recife e prefeito de Hidrolândia atualmente, Paulo Sérgio de Rezende (“Paulinho”) lançou o governador goiano Marconi Perillo (PSDB) para presidente da República, em 2018.

CÁLICE

A onda gerada pela candidatura de Marina Silva silenciou no PT o antigo movimento “volta, Lula”. A três dias do prazo limite para substituir candidatos, lulistas se recusam até a tocar no assunto.

QUEDA LIVRE

As pesquisas mostram o ex-ministro do Trabalho Carlos Lupi (PDT-RJ) em queda livre para o Senado. Mais um pouco e terá votação negativa.


PODER SEM PUDOR

VIVA EU!

Paulo Maluf fazia campanha para presidente, em 1989, quando chegou a Imperatriz (MA). No comício, o prefeito foi só bajulação. No meio do discurso, resolveu pedir "uma salva de palmas" para o candidato. Foi atendido. Mas ficou tão animado com o resultado que não resistiu:

- Agora, quero pedir uma salva de palmas toda especial, carregada de carinho e emoção, para David Alves da Silvaaaa!!!

David Alves da Silva era o próprio.

quinta-feira, setembro 11, 2014

Desfaçatez ilimitada - DORA KRAMER

O ESTADÃO 11/09


Reza a história política dos últimos 12 anos que Luiz Inácio da Silva é o mais competente dos personagens que habitaram e transitaram pelo cenário do poder nesse período. Trata-se de uma avaliação que leva em conta resultados como parâmetro. Se nessa régua forem colocados quesitos relativos a limites éticos Lula ocuparia o pódio na categoria dos políticos ardilosos. São qualidades diferentes e, portanto, implicam condições competitivas distintas.

O habilidoso dotado de princípios sempre estará em desvantagem diante do esperto cujos objetivos não conhecem regras nem observam valores. São aqueles que se pautam pelo dístico segundo o qual os fins justificam os meios. Atuam à margem, atropelam e em geral chegam na frente. Transposto para o ambiente eleitoral, o conceito de “fim” é a vitória não importa quais sejam os métodos. Vale tudo. A mentira, a manipulação, a traição, a destruição de reputações à qual agora se chama pelo sofisma de “desconstrução de imagem”.

Nesse quesito o PT não tem limite. Já mostrou isso em diversas ocasiões. Na maioria, senão da totalidade delas, foi bem-sucedido do ponto de vista que interessa ao partido: o resultado imediato. Mostra-se surpreso agora com o tamanho do desgaste acumulado. Mas chega uma hora que as pessoas cansam de tanta insolência, menosprezo a regras e valores.

Decorre também daí – da economia e dos fracassos do governo – o cenário de dificuldade eleitoral para os petistas. Na economia e na administração promete “mudar mais”. Já no terreno da derrubada dos obstáculos ao alcance do objetivo principal aplica os métodos de sempre.

Desta vez com um grau de desfaçatez e falta de compromisso com a verossimilhança que dá a medida do medo que assola a tropa de vir a ser desalojada do aparelho de Estado.

A alternância de poder não lhes parece algo palatável. Só isso explica o nível da ofensiva contra a candidata do PSB, Marina Silva, desde que seu nome se firmou nas pesquisas como ameaça mais que real à reeleição de Dilma Rousseff.

O ataque começou em campo legítimo, na exploração das contradições do discurso e das posições defendidas por Marina Silva. Enveredou por comparações esdrúxulas, aludindo a dificuldades que ela poderia enfrentar por falta de apoio no Congresso e daí ter o mandato interrompido como Jânio Quadros e Fernando Collor. Uma distorção, mas só um pouco ridículo.

Em seguida entrou no campo das invencionices dizendo que a adversária venderia a Petrobras, acabaria com o Banco do Brasil, suspenderia benefícios sociais e por aí afora. Nesta semana a coisa se agravou e chegou ao ponto da afronta pessoal. A uma bobagem de Marina sobre “bolsa banqueiro”, a presidente Dilma respondeu com uma ofensa: “Eu não tenho banqueiro me sustentando”. Em que sentido, quis dizer a presidente?

Deixou o entendimento de maneira desrespeitosa ao juízo do freguês. O ex-presidente Lula, o capitão do contra-ataque, divulgara que respeita Marina e por isso não bateria nela. Ardiloso, assiste em silêncio à pancadaria para a remoção do obstáculo.

Jogo de cena. A CPI marcou o depoimento de Paulo Roberto Costa para semana que vem, mas depende de autorização do juiz Sérgio Moro, que até agora não mostrou a menor disposição de deixar o ex-diretor da Petrobras pôr os pés fora da cadeia antes de entregar nomes e provas sobre o esquema de superfaturamento de contratos e distribuição de propinas dentro da empresa.

Também são solicitados os depoimentos da delação premiada que a Polícia Federal já negou e o procurador-geral da República reiterou que continuam por enquanto sob sigilo. Quando teve oportunidade o Congresso não fez a sua parte. Agora dá a impressão de que simula providências.


Trampolins para Dilma - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 11/09


BRASÍLIA - Marina Silva empurrou Aécio Neves para o terceiro lugar, fora do segundo turno, e Aécio faz tudo para derrubar Marina. Na prática, os dois armam um trampolim para a reeleição de Dilma Rousseff e a eternização do aparelhamento do Estado pelo PT. A oposição, desunida, certamente será vencida.

Marina, claro, não tinha alternativa depois da morte de Eduardo Campos. Era concorrer ou concorrer. Arrastou os quase 20% de votos de 2010, agregou a comoção nacional com o acidente e se beneficiou da forte rejeição tanto ao PT quanto a Dilma. Mas, ao entrar, pode ter apenas garantido a vitória de Dilma.

Aécio também ficou sem alternativa diante da novidade. Era bater ou bater em Marina. Com isso, ele tenta conter a sangria e dar ao PSDB um mínimo de capacidade de negociação no segundo turno, sem ter de aderir de graça a Marina. Mas o efeito favorece diretamente Dilma.

A questão de Aécio também é de calibragem --o quanto bater para garantir um patamar minimamente seguro de votos sem inviabilizar um acordo do PSDB com o PSB no segundo turno e num eventual governo Marina. A derrota já no primeiro turno será arrasadora para o PSDB, mas o partido tem quadros reconhecidos e eles podem se tornar indispensáveis para Marina governar.

Marina parou de crescer, mas mantém boas condições de ganhar. A situação de Aécio é que continua não sendo nada animadora. Ele está numa posição que candidato nenhum deseja: já que vai perder, tentar perder o mais honrosamente possível.

Do outro lado, a campanha de Dilma usa seu imenso tempo de TV para massificar mentiras e mistificações. Os bancos nunca lucraram tanto quanto com Lula e Dilma. Acusar Marina de aliada de banqueiros por causa da educadora Neca Setúbal é indigno. Tanto como compará-la a Jânio e Collor. Depois de anos desconstruindo o legado tucano, o PT tenta destruir a imagem de Marina, ex-companheira de tantos anos.

O petróleo é deles - DEMÉTRIO MAGNOLI

O GLOBO - 11/09


“O Ildo não é do governo, ele é um petroleiro”, teria dito Dilma Rousseff, segundo o próprio Ildo. A frase, real ou imaginária, lança luz tanto sobre a captura da Petrobras pelos interesses de financiamento partidário quanto sobre a narrativa nacionalista que recobre as empresas estatais. Ildo Sauer enxerga nas estatais a salvação do Brasil. O governo enxerga nas estatais uma poderosa ferramenta de um projeto partidário de poder – e, com razão, sorri com desdém da ingenuidade do “petroleiro” que acreditou nas suas proclamações retóricas. O capitalismo de Estado é um negócio, muito mais que uma doutrina.

Sauer é um comunista da vertente nacionalista, o tipo que interpreta a teoria do imperialismo de Lenin sob um viés terceiro-mundista e ainda elogia o suposto sucesso econômico da antiga União Soviética. O professor da USP ajudou a elaborar o programa de Lula para o setor elétrico e ocupou a diretoria de Gás e Energia da Petrobras entre 2003 e 2007, de onde saiu atirando obuses contra a retomada dos leilões de petróleo. Ele qualificou a concessão de campos na franja do pré-sal à OGX como “o ato mais entreguista da história brasileira”, acreditou que a empresa de Eike Batista produziria 1,4 milhão de barris/dia e, junto com a Federação Única dos Petroleiros (FUP), denunciou o leilão de Libra como mais uma traição à pátria. Hoje, seus bens estão bloqueados por um TCU engajado na seleção de bodes expiatórios.

Dias atrás, o PT decidiu acusar Marina Silva de “antinacionalista”, difundindo a mentira de que ela pretende privatizar a Petrobras. A FUP, sob controle petista, entrou na campanha de Dilma, encarregando-se de organizar atos “em defesa do pré-sal” com o objetivo de conferir substância ao discurso anti-Marina. Os sindicalistas são realistas: sabem que devem ajustar a chama de seu “nacionalismo” segundo o ritmo dos ciclos eleitorais. Sauer, um Quixote do estatismo, acredita de fato nas assombrações que invoca. O “petroleiro” nunca entendeu a lógica do lulopetismo nem o significado político da retórica nacionalista.

Os habitantes da antiga União Soviética não estavam de acordo com Sauer sobre o desempenho econômico do “socialismo real”. O fracasso histórico do sistema soviético provocou a implosão do “império vermelho” – e, junto com ela, a falência ideológica do estatismo tout court, ainda hoje pregado por Sauer. No mundo que emergiu depois de 1991, a alternativa realista à economia de mercado é o capitalismo de Estado. Contudo, nesse modelo, como entendeu perfeitamente o lulopetismo, as empresas estatais funcionam como nexos entre o poder político e as grandes empresas transnacionais ou nacionais. Lula e Dilma sujaram as mãos de petróleo celebrando a súbita (e, viu-se, efêmera) conversão de Eike Batista num magnata genuinamente nacional. Os atos “entreguistas” que escandalizam Sauer inscrevem-se na normalidade do capitalismo de Estado. O “petroleiro” é um sonhador – mesmo se seu sonho não passa de uma reprodução do pesadelo soviético do passado.

No universo mental de Sauer, o perigo mora no investimento privado. Sua acusação básica incide sobre os leilões de campos de petróleo. “Fernando Henrique fez quatro, Lula fez cinco. Lula entregou mais áreas e mais campos para a iniciativa privada do petróleo do que Fernando Henrique”, explicou numa longa entrevista à Revista Adusp, em 2011. Entretanto, à frente de uma diretoria da Petrobras, o inflexível estatista descobriu que outros interesses privados participavam do grande jogo do petróleo. Numa entrevista concedida há uma semana a O Estado de S.Paulo, Sauer oferece testemunho da nomeação de “despachantes de interesses” na estatal: “O governo de coalizão do presidente Lula passou a permitir que grupos de parlamentares e partidos se reunissem para indicar dirigentes”. Obviamente, ele não diz que nisso reside uma das diferenças cruciais entre a Petrobras do governo Fernando Henrique e a do governo Lula.

A FUP não se importa com a captura partidária da estatal, preferindo concentrar-se em promover uma pobre contrafação eleitoral do discurso estatista de Sauer. Mas o “petroleiro”, emparedado num sonho carente de suporte político e abandonado pelo partido que escolheu, já não pode mais virar as costas à realidade. Na entrevista recente, ele aponta na direção certa, rejeitando a lenda de que os “despachantes de interesses” operavam à margem do Planalto. “Lula se queixou a um deputado que eu não ajudava muito e que ele estava muito impressionado com a ajuda de Paulo Roberto, que ajudava muito”, contou Sauer, referindo-se ao episódio de sua demissão. No capitalismo de Estado, as estatais têm dono.

Paulo Roberto Costa começou a “ajudar” em 2004, quando Lula o catapultou à Diretoria de Abastecimento da Petrobras, e continuou “ajudando” até 2012, segundo ano do governo Dilma. Sauer acompanhou, à distância, a montagem da operação que resultaria nos escândalos das refinarias de Pasadena e Abreu e Lima. “Não me envolvia com isso porque achava que não era pertinente”, justifica-se tardiamente o “petroleiro”, que consumiu 20 páginas da Revista Adusp para bombardear o “neoliberalismo” sem nunca mencionar a privatização partidária da estatal. Nitidamente, o seu novo foco reflete o impacto pessoal das decisões do TCU, que incriminam os peixes pequenos e os inocentes, resguardando Dilma e Graça Foster, as principais vozes oficiais de comando.

“Um Estado dentro do Estado” – a célebre definição da Petrobras, utilizada pelo próprio Lula, sintetiza o dilema de governança das estatais. A única alternativa à captura política do “Estado paralelo” pelo governo de turno é inscrever a Petrobras no sistema de contrapesos da economia de mercado, intensificando a concorrência no setor da exploração de petróleo e expondo-a à competição internacional. Sauer, o inimigo jurado do mercado, jamais entenderá isso.

Disputa acirrada - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 11/09

Após ataques, candidatura de Marina mostra consistência. Depois de passar os últimos dias sob bombardeio permanente não apenas da presidente Dilma, mas também do candidato do PSDB Aécio Neves, a candidata do PSB Marina Silva mostrou a consistência de sua candidatura. Ao manter estabilizada sua situação na disputa, mesmo com um viés de alta para a presidente, Marina demonstra que continua sendo a opção dos que pretendem tirar o PT do governo.
Já a presidente Dilma deve intensificar a agressividade de sua propaganda, que tem demonstrado capacidade de pelo menos frear a subida de Marina, obrigando-a a um esforço redobrado para se manter competitiva até a chegada do segundo turno.

A má notícia para a presidente Dilma é que os desdobramentos do escândalo da Petrobras prometem marcar esses últimos dias da campanha, cujas contradições internas no PT podem abrir espaço para a recuperação de Marina.

Até mesmo a questão da independência do Banco Central, que tem dado motivos de críticas acirradas do governo, fica fragilizada com as notícias de que o próprio ex-presidente Lula está trabalhando para que o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles seja anunciado como o responsável pela política econômica do governo Dilma em caso de reeleição.

Meirelles é o exemplo típico do banqueiro internacional que o PT trouxe para o governo Lula, tirando-o do PSDB, partido pelo qual havia sido eleito deputado federal, para dar credibilidade à política econômica petista. Como acusar a adversária Marina de querer dar poder a banqueiros quando um ex-presidente do Bank Boston é a figura central da mudança econômica que ela pretenderia anunciar para tranquilizar os investidores? E como ser contrário à autonomia do Banco Central se Meirelles foi intocável durante os dois governos Lula, gozando de uma autonomia que irritava os setores mais radicais do petismo?

O candidato do PSDB, Aécio Neves, por mais que se mostre preparado para o cargo e tenha projetos de longo prazo para o país que fazem sentido e, mais que isso, são necessários, perdeu a capacidade de encarnar a indignação da maioria dos eleitores, que encontraram em Marina Silva essa representante.

Aécio tem sido instado por seus aliados a arrefecer os ataques a Marina, para permitir a organização de uma aliança para o segundo turno. A declaração de ontem, depois da sabatina do GLOBO, de que se não ganhar a eleição o PSDB irá para a oposição, certamente não é consensual no partido e nem entre seus aliados da oposição.

Ele tem razões para estar amargurado, pois a entrada em cena de Marina colocou emoção na disputa, o que retirou do primeiro plano a análise da real capacidade de governar dos que estão na disputa. O candidato do PSDB contava com a máquina partidária para se impor ao adversário Eduardo Campos, mas a entrada de Marina misturou as pedras no tabuleiro político, deslocando Aécio para a terceira colocação mesmo nos estados em que o PSDB ou seus aliados estão vencendo as eleições para os governos estaduais.

Em São Paulo, Marina está em primeiro lugar, embora o governador Geraldo Alckmin tenha condições de vencer no primeiro turno. A composição com o PSB local, que deu o vice na chapa de Alckmin, está se mostrando mais eficaz para Marina do que a máquina partidária do PSDB favorável a Aécio.

O caso mais emblemático é o de Minas, em que o PSDB perde no momento o governo estadual e Aécio disputa o terceiro lugar com Marina Silva. Ele está certo de que manterá seu território político intacto, mas terá que gastar mais energia do que imaginava, enquanto no resto do país a polarização entre a presidente Dilma e a candidata Marina Silva se impõe.

Um homem de sorte - BERNARDO MELLO FRANCO

FOLHA DE SP - 11/09


SÃO PAULO - Lobão nada explica. A manchete poderia ser publicada hoje, mas saiu no "Jornal do Brasil" em 9 de janeiro de 1994. Edison Lobão, governador do Maranhão pelo PFL, era suspeito de participar da máfia dos anões do orçamento. O delator do esquema contou que ele frequentava a casa de João Alves, que se dizia um homem de sorte e atribuía sua fortuna a vitórias seguidas na loteria. A CPI perguntou o que Lobão tinha a dizer sobre as acusações. Ele tentou ser rude, mas foi sincero: "Não há o que explicar".

Duas décadas se passaram. João Alves morreu, o PFL morreu, o "JB" morreu, mas Lobão continua. Aos 77 anos, é ministro de Minas e Energia do governo Dilma Rousseff, indicado pelo ex-presidente José Sarney. Demonstra pouco conhecimento da área, apesar de estar no cargo desde 2008. Em maio, disse que "com a graça de Deus" não haveria racionamento. Nem o ateu mais militante ousaria misturar o nome dEle com a gestão do maranhense.

Na semana passada, um novo delator, Paulo Roberto Costa, começou a entregar os beneficiários do esquema que saqueava os cofres da Petrobras. Além dos suspeitos de sempre do Congresso, citou um único ministro como destinatário de propina. Ganha uma passagem de ida para São Luís, com conexão de ônibus até o município de Governador Edison Lobão, quem adivinhar quem é.

Mais uma vez, Lobão nada explica. A lista dos delatados veio à tona no sábado, em reportagem da revista "Veja". No domingo, o ministro faltou ao desfile do Sete de Setembro. Na segunda-feira, saiu de férias. Questionada por repórteres, a presidente se saiu com a seguinte resposta: "Ele não sabe nem do que está sendo acusado, a revista não diz. Vocês sabem?".

No início do mandato, Dilma afastava ministros suspeitos de corrupção. Neste final melancólico, recorre a ironias de gosto duvidoso para protegê-los. Lobão não ganhou na loteria como João Alves, mas também pode ser considerado um homem de sorte.

O equivocado sacrifício do IBGE no Orçamento - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 11/09

A credibilidade das estatísticas econômicas e sociais do Brasil, que nos diferencia de outros países da América do Sul, não pode ser posta em risco


Primeiro ano de um novo governo, o exercício de 2015 certamente não escapará de um ajuste nas contas públicas. Diante do fraco desempenho da economia, com reflexo sobre o comportamento da arrecadação, esse ajuste terá de ocorrer pelo lado das despesas.

O atual ministro da Fazenda, Guido Mantega, que deixará o cargo mesmo no caso de reeleição da presidente Dilma (segundo ele, por razões pessoais), tem reconhecido que o acerto das contas públicas no ano que vem é necessário e inevitável, para que todo o esforço de controle da inflação não se concentre mais na política monetária. Mantega até estabelece como meta para o setor público consolidado um superávit primário de 2% a 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB), alvo que ele próprio, como principal gestor das finanças federais, não conseguiu atingir, a não ser recorrendo a uma contabilidade criativa.

O projeto de lei que define as dotações do Orçamento Geral da União para 2015 já tramita na comissão mista do Congresso Nacional, como determina a legislação, mas é estranho que, no corte de despesas, o governo tenha retirado das prioridades instituições fundamentais para que se possa fazer um diagnóstico dos problemas do país.

É o caso do IBGE, vítima de um corte de 73% na dotação prevista para 2015. Dos R$ 766 milhões solicitados pelo órgão, R$ 562 milhões foram cortados.

Com isso, levantamentos importantes deixarão de ser feitos, como o censo agropecuário e a contagem populacional. Esta última, especificamente, é a que permite ao IBGE recalibrar as projeções demográficas. A contagem se concentra em municípios onde a margem de erro aumenta devido a fluxos migratórios. Com base nessas projeções, são redistribuídas as verbas do Fundo de Participação de Estados e Municípios. Assim, quanto mais próximas da realidade estiverem as projeções demográficas, mais justa tende a ser a redistribuição das verbas. Não será possível pôr em prática o ajuste fiscal necessário para 2015 sem sacrifícios. O ajuste implica esforço de todo governo para se fazer mais com menos, buscando eficiência. A presidente do IBGE, Wasmália Bivar, reconhece que o órgão “não é uma ilha” e não pode ficar de fora do ajuste. No entanto, com um corte de 73% no orçamento proposto não há como se realizar as pesquisas programadas.

A contagem populacional e o censo agropecuário terão de ser adiados, e o Ministério do Planejamento terá de avaliar se a postergação não poderá prejudicar as previsões orçamentárias futuras.

A credibilidade do IBGE faz com que as estatísticas econômicas e sociais do Brasil sejam levadas a sério tanto no país como no exterior, diferentemente do que acontece com órgãos semelhantes de outras nações da América do Sul, como a Argentina. Essa credibilidade não pode ser posta em risco.

Raposas e galinheiros - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 11/09


"Confiança" é palavra fundamental no léxico da democracia representativa. Enquanto sistemas autoritários de governo se sustentam numa relação de força, modelos democráticos se legitimam com a delegação do poder a mandatários escolhidos pela população.

Existem diferentes teorias para explicar por que, exatamente, esse processo dá certo, mas há consenso em torno de um aspecto: ele só funciona sem sobressaltos quando os cidadãos acreditam que seus votos são colhidos e computados de forma correta, livre de manipulações. Do contrário, a própria representação é posta em xeque.

A reflexão torna-se oportuna por causa de uma notícia preocupante. A gestão das urnas eletrônicas nos 217 municípios do Maranhão foi confiada, nas eleições deste ano, a uma empresa cujo dono tem vínculos com a família Sarney.

Não se trata de prejulgar Luiz Carlos Cantanhede Fernandes e sua empresa, a Atlântica Serviços Gerais, a quem o Tribunal Regional Eleitoral maranhense, após realizar licitação, incumbiu a responsabilidade de fornecer os 616 funcionários encarregados de transportar e armazenar as urnas, carregá-las com o software e transmitir os dados da votação.

Não surgiu, por ora, nenhum indício material de que uma fraude esteja em curso. Fernandes, porém, não apenas é sócio do marido da governadora Roseana Sarney (PMDB) como também apareceu, em 2002, num episódio nebuloso envolvendo a apreensão de uma grande soma de dinheiro em espécie numa empresa de Roseana.

Tais fatos deveriam ter bastado para deixá-lo de fora da licitação. E, como se não fossem suficientes, suspeita-se de que Fernandes tenha ligações pessoais com Lobão Filho (PMDB), candidato a governador com a bênção dos Sarney.

A situação só é possível porque o Tribunal Superior Eleitoral decidiu descentralizar a gestão das urnas. Até 2010, o serviço era prestado por uma única empresa em todo o país. Agora, cada um dos TREs deve contratar seu fornecedor.

Em alguns Estados, nos quais a política e a economia são dominadas por grupos poderosos, encontrar empresas sem ligações suspeitas é tarefa inglória. Daí não decorre, por óbvio, que as precauções devam ser relaxadas. Quando existe desconfiança quanto à lisura do processo eleitoral, a própria democracia termina maculada.

Um debate abastardado - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 11/09


Seria engraçada se não fosse deplorável a troca de acusações entre as candidatas Dilma Rousseff e Marina Silva sobre quem é mais submissa aos banqueiros. Começou, como sabem todos quantos tiveram a desventura de ouvi-las, com um ataque rombudo da presidente à promessa da adversária de que, eleita, encaminhará projeto de lei para tornar o Banco Central (BC) autônomo em relação aos governos de turno e ao Congresso Nacional. Em um vídeo de propaganda, na segunda-feira à noite, Dilma se pôs a "explicar" ao público o que significaria, no seu entender, o que "parece algo distante da vida da gente, né?". Seria nada menos do que "entregar aos banqueiros" um poder imenso "sobre a sua vida e a de sua família". Seu fiel escudeiro, Marco Aurélio Garcia, completou a estultícia: "Se houver essa independência, que será a dependência dos bancos privados, teremos a impossibilidade de formular políticas macroeconômicas e de desenvolvimento".

Marina replicou por baixo; fulanizou a discussão, disparando que "nunca os banqueiros ganharam tanto" como no atual governo, graças à "bolsa empresário", à "bolsa banqueiro", à "bolsa juros altos". Trata-se de uma rajada de despropósitos, a começar do primeiro, que deve ter caído no meio empresarial, que carrega um caminhão de justas queixas da assim chamada política econômica, como uma massagem de sal nas suas feridas. De mais a mais, funcionando como funciona o BC, a inflação supera a meta e a economia cambaleia entre a recessão e um pífio crescimento de menos de 1%.

A personalização da pendenga era tudo o que Dilma queria, desde que tomou a decisão (ou tomaram por ela) de partir para cima da rival, trocando as luvas pelo soco inglês. A campanha da presidente parece ter concluído que as suas chances de dar a volta por cima no segundo turno, desmentindo as pesquisas que apontam a vitória da pregadora da "nova política", variam na razão direta da competência de Dilma em oxidar a aura graças à qual a ex-petista, concorrendo pelo Partido Verde, colheu desconcertantes 19,6 milhões de votos na disputa de 2010. A presidente há de ter intuído que, se é para falar em banqueiros - atrás apenas dos políticos entre os campeões do desafeto nacional, especialmente na população mais pobre -, o negócio é vincular a desafiante aos vice-líderes desse inglório duelo. E mandou ver.

"Não adianta querer falar que eu fiz 'bolsa banqueiro'", retrucou. "Eu não tenho banqueiro me apoiando. Eu não tenho banqueiro me sustentando." É preciso ser muito desinformado para ignorar a pontiaguda alusão à educadora Maria Alice Setubal, a Neca, cujo irmão Roberto preside o Itaú Unibanco, o que a torna herdeira da instituição. Amiga de longa data de Marina, ela coordena o seu programa de governo e faz a ponte entre a candidata e o empresariado (que a olhava de soslaio quando era vice na chapa de Eduardo Campos). Segundo a Folha de S.Paulo, no ano passado Neca doou perto de R$ 1 milhão para um instituto criado por Marina para desenvolver projetos sobre sustentabilidade. O valor equivale a 83% do total arrecadado no período.

A troca de desaforos terminou - ou ficou interrompida - com Marina perdendo o prumo. "O Banco Central autônomo", argumentou, juntando tudo e misturando, "é para ter autonomia dos grupos que acabaram com a Petrobrás." Mas isso é o de menos. O de mais é que é de pasmar: a naturalidade com que as candidatas mais cotadas para adentrar ou permanecer no Planalto em 2015 se puseram a abastardar um debate de grande importância para a condução do Brasil - como é naqueles países com os quais aspiramos a ser comparados. O grau de liberdade da autoridade monetária não apenas para fixar a taxa básica de juros, mas também a política de câmbio, além de zelar pela integridade do sistema financeiro, não deveria ser objeto de tiradas marqueteiras.

A escassa familiaridade da grande maioria dos brasileiros com o assunto deveria ser um motivo a mais para que os presidenciáveis se guardassem de usá-lo como tacape eleitoral. Fazendo a coisa errada, escancaram a pobreza substantiva das suas campanhas. A videopolítica, que privilegia o componente pessoal da competição pelo voto sobre o que efetivamente os competidores têm a oferecer ao País, completa o desserviço.


COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Quem gosta de dinheiro deve evitar a política”
José Mujica, presidente do Uruguai, a políticos brasileiros em sua visita a Porto Alegre



PSDB QUER O EXPURGO DE POLÍTICOS DENUNCIADOS

Com o objetivo de promover estrago na base governista no Congresso, o PSDB tentará usar a lista de políticos citados na delação premiada do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa para impedir a reeleição deles em outubro. O PSDB tenta reeditar “expurgo” de 2006, quando Carlos Sampaio (SP), sub-relator da CPI dos Sanguessugas, pediu a cassação de 72 parlamentares. Destes, 67 não se reelegeram.

CORRIDA CONTRA O TEMPO

Segundo Carlos Sampaio, a briga é para ter acesso o quanto antes à lista negra dos parlamentares: “Isso precisa vir à luz antes da eleição”.

PARA CONSTAR

Tem 2,5 linhas o ofício do presidente da CPMI da Petrobras, Vital do Rêgo (PMDB-PB), pedindo acesso à delação do Paulo Roberto Costa.

VERGONHOSO

As perguntas do relator Marco Maia (PT-RS) ao esquisitão Nestor Cerveró, ontem, na CPMI, foram insultos à inteligência dos brasileiros.

DE PERTO

A mulher de Cerveró, Patrícia, acompanhou de perto as lorotas do marido na CPMI da Petrobras. Sentou-se na lateral da mesa diretora.

MINISTÉRIO DAS CIDADES TORNA CALOTE SUA MARCA

Entre os “quinta colunas”, o Ministério das Cidades é o campeão na arte de gerar insatisfação contra o governo. Além de protagonizar escândalos de corrupção, mantém atrasadas quase 60% das obras do PAC e aplica calotes milionários em fornecedores de bens e serviços, até em veículos que divulgaram campanhas, a maioria sobre educação do trânsito, num arremedo do sonhado controle “econômico” da mídia.

GENTE ATRASADA

Segundo levantamento do Instituto Trata Brasil, estão atrasadas 58% das 219 obras (149 de esgoto e 70 de água) do Ministério das Cidades.

INCOMPETÊNCIA

Expiraram contratos das três agências de publicidade e o Ministério das Cidades não teve interesse nem competência de abrir nova licitação.

EXPLICAÇÃO

Parcela do PP, que controla o Ministério das Cidades, seguiu o senador Francisco Dornelles (PP-RJ) e apoia a eleição do tucano Aécio Neves.

GREVES DE JUÍZES

Pela primeira vez na vida, juízes do Tribunal de Justiça do DF votaram indicativo

de greve, em assembleia considerada histórica. A gota d’água foi um veto de Dilma à lei que deixa a magistratura em situação de desigualdade salarial, em relação ao Ministério Público.

CERIMONIAL AMIGO

Na cerimônia de sua posse na presidência do Supremo Tribunal Federal, o microfone do ministro Ricardo Lewandowski ficou aberto. Mostrou que, além de afinado, ele conhece a letra do Hino Nacional.

JOAQUIM QUEM?

Joaquim Barbosa fez questão de faltar à posse do sucessor Ricardo Lewandowski. A indelicadeza teve troco: ele foi solenemente ignorado no discurso do empossado, e nas saudações do ministro Marco Aurélio e do procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

PIMENTA RIFADO

Aécio Neves (PSDB) exibiu em seu programa na televisão uma dezena de tucanos ilustres pedindo votos para ele. Menos Pimenta da Veiga, candidato do partido ao governo de Minas Gerais. Estranho...

ADRENALINA

Foi de tensão o clima ontem da reunião da CPMI da Petrobras para tratar da delação premiada Paulo Costa. O preocupado líder do PT, Humberto Costa (PE), defendeu adiar o depoimento do ex-diretor.

VEXAME HISTÓRICO

Convertido em marqueteiro pelo padrinho Rui Falcão, presidente do PT que caiu em desgraça, o lobista Valdemir Garreta entrega ao partido dois fracassos: um no Rio de Janeiro e outro em São Paulo. Os dois candidatos petistas não chegam a atingir dois dígitos, segundo o Ibope.

NO LIMITE

Um poço de mágoas com o PSOL, por quem foi rifado para dar lugar a Luciana Genro na disputa a presidente, o senador Randolfe Rodrigues (AP) está a um passo de declarar apoio à candidatura de Marina Silva.

TREZE ANOS

O mundo lembra nesta quinta o mais dramático episódio da História recente: o dia em que terroristas jogaram aviões sequestrados contra as Torres Gêmeas, em Nova York, e outros locais nos Estados Unidos.

PERGUNTA NO CAFEZINHO

Na CPMI da Petrobras, as lorotas do enroladíssimo Nestor Cerveró foram combinadas, como no depoimento anterior?


PODER SEM PUDOR

SONHO IMPOSSÍVEL

Adhemar de Barros estava em campanha para a Presidência da República, em 1960, pelo PSP, quando certa vez tocou num assunto delicado: defendeu a aproximação do Brasil com a União Soviética.

A declaração causou surpresa e o repórter logo provocou:

- O sr. é favorável à legalização do Partido Comunista Brasileiro?

- Claro! - respondeu - Desde que permitam instalar um diretório do PSP em Moscou...

quarta-feira, setembro 10, 2014

Os fazedores de besteiras - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 10/09


Sei que o assunto Patricia Moreira já cansou, mas não dá pra perder a oportunidade de olhar para o próprio umbigo e perguntar se somos tão nobres a ponto de nos darmos o direito de atirar pedras no telhado dos outros. Fazendo uma viagenzinha no tempo, você não consegue lembrar de nenhuma besteira já cometida? Nunca foi idiota por um dia?

Eu até que não fui das mais torpes, desde cedo desenvolvi um senso de justiça que me fazia ir contra o rebanho se preciso fosse. Mas isso não me isenta de também já ter ido a favor do rebanho, com mugido e tudo. Simplesmente porque fazer coisas sem sentido é típico de quem ainda não reconheceu seu papel no mundo.

Fecho os olhos e me vejo na estrada, num carro lotado de adolescentes empunhando latinhas de cerveja. Eu era alguma espécie de delinquente? Nem perto disso. A mais correta e ajuizada das criaturas, mas não mandava parar o carro para descer. Eu queria seguir com eles, que hoje são respeitados advogados, administradores, biólogos. Éramos jovens desbundados em busca de uma identidade comum.

A garota Patricia, símbolo do caso Aranha x Grêmio, entrou na onda furada de xingar o goleiro do time adversário porque se sentiu segura para extravasar e fazer bobagem sob a proteção de um grupo. Quem não? Certa vez, fui assistir a um jogo do Grêmio contra o Corinthians, quando o craque do time paulista era Ronaldo, o Fenômeno. Dias antes da partida, o travesti que Ronaldo levara a um motel havia falecido. Pois bastava o atacante tocar na bola para o Olímpico inteiro berrar: vi-ú-vo, vi-ú-vo! Eu não segui o coro, mas se houvesse uma câmera me focalizando, me flagraria rindo. Era uma chacota.

Chamar alguém de macaco não é chacota, e sim ofensa racista, e racismo é crime. Patricia será penalizada juntamente com seus companheiros de imbecilidade e nunca mais repetirá o gesto, tenho certeza, e nós, de fora, também não. Para isso servem as penalizações: para educar, alertar, servir de exemplo. A guria, ironicamente, agiu como macaca de auditório, termo que caiu em desuso por motivos óbvios, e deu-se mal. Assim é. Sempre há um mártir por trás das mudanças de comportamento.

Que agora a Justiça tome conta do caso e basta de perseguições pessoais. A garota não é diferente de nenhum adolescente que já dirigiu sem carteira, que fez brincadeiras de mau gosto com gays, que praticou bullying na escola, que passou trotes por telefone, que fez uma prova chapado, que falsificou carteirinha de estudante, que arranhou o carro de um desafeto, que roubou a namorada do irmão. Tudo errado, mas dentro da previsível tacanheza juvenil.

Sou a favor de penalizar. O Brasil é este caldeirão de escândalos por causa da impunidade. Mas pegar para Cristo é hipocrisia.