sexta-feira, agosto 29, 2014

Estagnação e inadimplência - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 29/08


Mais um recorde negativo foi batido na economia brasileira, embora o governo continue alardeando um desempenho muito melhor que o da maior parte do mundo. A inadimplência das empresas, medida pelo número de contas em atraso, protestos e cheques sem fundos, aumentou 12,9% de junho para o mês passado. Para um mês de julho, foi o maior avanço registrado na série iniciada em 2000. Com esse movimento, o índice ficou 11,4% acima do patamar alcançado um ano antes, segundo o levantamento da Serasa Experian. A comparação dos primeiros sete meses deste ano com os do ano passado mostra um aumento de 6,9%. Os feriados da Copa do Mundo podem ter atrapalhado a rotina empresarial, mas é um exagero, ou tentativa de enrolação, atribuir todos os problemas de produção, consumo e pagamentos ao campeonato da Fifa. A estagnação da economia, a elevação de juros e a alta maior dos salários que da produtividade compõem uma explicação de maior alcance. Ainda seria possível acrescentar a variação de outros custos e a insegurança criada pelo acúmulo de erros da política econômica.

Neste mês, o cenário ruim continuou afetando a disposição dos empresários. O Índice de Confiança da Indústria (ICI) caiu mais 1,2% de julho para agosto, segundo informou na quarta-feira a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Na oitava queda consecutiva, o indicador passou de 84,4 para 83,4 pontos. A escala vai de 0 a 200. O nível 100 é a linha divisória de avaliações negativas e positivas.

Em agosto, o Índice de Situação Atual caiu 3,6%, para 82,7 pontos. Esse foi o menor nível desde os 78,5 pontos de março de 2009, quando o Brasil ainda se arrastava na recessão iniciada no ano anterior com o estouro da bolha financeira no mundo rico. O Índice de Expectativas melhorou ligeiramente. Aumentou 1,4% e chegou a 84,1 pontos, mas esse número ainda aponta uma avaliação negativa dos próximos seis meses. Todos os indicadores continuam bem abaixo dos valores médios dos últimos cinco anos, 104,9 para o Índice de Confiança, 105,7 para o de Situação Atual e 104,1 para o de Expectativas.

Os cenários desfavoráveis mostrados pela FGV coincidem, de modo geral, com aqueles apontados em pesquisas da Confederação Nacional da Indústria (CNI). A sondagem divulgada na semana anterior pela CNI havia indicado atividade ainda baixa em julho, embora com recuo menos intenso que o observado no mês anterior.

Mas a disposição dos empresários apontava manutenção do ritmo de corte de pessoal e expectativa de novas quedas da exportação. Apesar de tudo, foram identificados alguns sinais de otimismo, todos muito moderados: a demanda interna deverá crescer, a compra de matérias-primas aumentará e haverá menos estoques indesejados.

Na sondagem da CNI, o indicador 50 divide as avaliações positivas e negativas. As mais positivas continuam muito perto da linha divisória - 51,5 em relação aos estoques indesejados, 52,1 no caso das compras de matérias-primas e 54,9 quanto à perspectiva de demanda. Mas este número é pouco menor que o do mês anterior (55,2). Apesar da proximidade do fim do ano, geralmente melhor para a atividade industrial, "as expectativas seguem pouco otimistas com relação à demanda e às compras de matérias-primas", comentaram os autores da pesquisa.

Também têm piorado as perspectivas do comércio varejista. A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) cortou de 3% para 1,9% a projeção do aumento de vendas neste ano, informou na quarta-feira o presidente da entidade, Sussumu Honda. Se o número se confirmar, será o pior desempenho desde 2006, quando as vendas diminuíram 5,9%, descontada a inflação. A nova projeção, acrescentou o empresário, inclui a expectativa de um desempenho melhor que o do ano passado nas vendas de Natal.

Com base nos últimos indicadores, parciais, a FGV estima para o ano um crescimento de 0,6% para o Produto Interno Bruto (PIB). No mercado financeiro, na sexta-feira passada, a mediana das projeções estava em 0,7%, segundo pesquisa do Banco Central. Os números oficiais do primeiro semestre devem sair hoje.

Riscos do uso do Estado para a reeleição - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 29/08

Convocar secretários dos ministérios para se empenhar na campanha da presidente é ato de assustador patrimonialismo e de espantosa ousadia, mesmo no PT


Em uma democracia longeva e sólida como a americana, o presidente pode se candidatar à reeleição e manter-se na Casa Branca, sem patrocinar escândalos sobre o uso da máquina do Estado na campanha. Não apenas há uma arraigada cultura de obediência às regras do jogo, como os desvios são punidos sem tergiversações.

O Brasil fez bem ao copiar o modelo americano de dois mandatos consecutivos de quatro anos cada. Na prática, é como se fosse um mandato possível de oito anos, com a chance de interrupção, à vontade do eleitor, passados os quatro primeiros.

Campanha com candidato no Planalto e no Alvorada, porém, tem criado, nos últimos tempos, várias situações em que a oposição recorre à Justiça Eleitoral, com denúncias do uso de prerrogativas do cargo de presidente com fins eleitorais.

Na reeleição de Lula, em 2006, foi notória a antecipação da campanha pelo presidente. O mesmo ocorreu na candidatura de Dilma Rousseff, em 2010, e desvios se repetem em 2014. Registrem-se, por exemplo, discutíveis convocações de rede nacional para pronunciamentos oficiais de suposto interesse geral, mas que eram, na verdade, atos de cunho eleitoral.

O chamado “efeito Marina”, deflagrado com a morte de Eduardo Campos e a passagem para a cabeça da chapa do PSB da idealizadora da Rede, abala, como era previsível, as candidaturas de Dilma e Aécio Neves. Cada um deles terá de reagir à ameaça representada por Marina Silva, por óbvio. O perigo está na forma como a candidata à reeleição e seu partido, o PT, tratarão de combater a candidata do PSB. E as primeiras notícias sobre movimentações na campanha petista são preocupantes.

Logo na noite do primeiro debate, na Bandeirantes, terça-feira, já conhecida a pesquisa do Ibope em que o destaque foi Marina, a coordenação da campanha de Dilma fez a descabida convocação de uma reunião com secretários executivos e secretários nacionais dos ministérios, para pedir-lhes empenho no apoio ao projeto da reeleição.

Há, nisso, um gritante desvio de função, o indiscutível uso de funções públicas no trabalho privado a favor de uma campanha política. Não importa se da presidente da República. Ela é tão candidata quanto todos, e nenhum pode ter privilégios.

O encontro foi conduzido por Cezar Alvarez, responsável pela articulação da campanha com estados e municípios, e dele participou até o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência.

Os secretários em geral tocam o cotidiano dos ministérios. Convertê-los em cabos eleitorais é transferir parte da máquina pública para o palanque de Dilma, estridente crime eleitoral e ato de assustador patrimonialismo.

É conhecida a prática aparelhista do PT, a sua capacidade de se infiltrar no Estado. Mas esta manobra, embora não surpreenda, é de espantosa ousadia.

Corda no pescoço - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 29/08


Juros ao consumidor chegam ao maior valor desde 2011, o que desfaz mais uma das inúmeras fantasias divulgadas pela gestão Dilma


As novas informações sobre as concessões de empréstimos no país, divulgadas pelo Banco Central, evidenciam que também essa área da economia está paralisada, apesar dos esforços do governo.

Pior, os juros do crédito livre (sem destinação específica) ao consumidor chegaram a 43,2% ao ano, um recorde desde 2011. Desfaz-se, assim, mais uma das inúmeras fantasias propagadas pela gestão Dilma Rousseff (PT) --a de que haveria redução nas taxas escorchantes a que as famílias são submetidas.

Não surpreende, pois, que o saldo das operações de crédito tenha desacelerado pelo sétimo mês consecutivo, na comparação com o mesmo período do ano passado. Em julho, houve expansão de 4,6% (já descontada a inflação), menos da metade do padrão observado de 2011 a 2013.

A pequena dinâmica existente deve-se aos bancos estatais. Sua participação no mercado, hoje de 53%, cresceu 18 pontos percentuais desde 2008, quando o governo federal decidiu turbiná-los.

Enquanto isso, os bancos privados, ressabiados com o ambiente econômico incerto, deixaram o saldo dos financiamentos cair 2,8% em relação a dezembro último.

Em termos setoriais, a expansão concentra-se no crédito rural e imobiliário, que são direcionados por lei. Ou seja, as instituições são obrigadas a destinar a essas duas finalidades, com juros mais baixos, um pedaço dos depósitos à vista e na poupança. No segmento livre, as novas concessões estão estagnadas desde 2011.

Natural que seja assim. O crédito, por cerca de uma década, cresceu muito além da economia, complementando a renda salarial e sustentando o consumo. O volume total dessas transações mais que dobrou, passando de 25% do PIB em 2004 para 56,1% no mês passado.

Agora, contudo, as dívidas já representam 45,7% da renda das famílias, segundo dados do BC. As pessoas se sentem com a corda no pescoço, por assim dizer, e ninguém gosta de apertar o nó.

No caso das empresas, a baixa demanda de crédito reflete a falta de confiança na economia.

Verificadas tais tendências, o governo adotou mais medidas de estímulo: reduziu a exigência de retenção de depósitos dos bancos no BC e afrouxou regras prudenciais para empréstimos.

Em paralelo, reforçou a segurança das instituições, com novas diretrizes para o crédito consignado e, no caso de automóveis, maior facilidade para a retomada do bem se houver inadimplência.

Algumas dessas ações até são corretas do ponto de vista regulatório, mas não soa promissor insistir na força do crédito num ambiente de desajuste econômico.

Petrobrás na campanha - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 29/08


Dilma Rousseff, candidata à reeleição, anda reclamando de "ataques" à Petrobrás. "Eu acho extremamente equivocado colocar a maior empresa da América Latina, sempre durante a eleição, como arma política", afirmou recentemente. Para ela, a instituição "está acima" de escândalos. Mas não é a oposição ou a imprensa que ataca a Petrobrás, como quer dar a entender a candidata à reeleição. O ataque à maior estatal brasileira está continuamente vindo do próprio governo, ao envolver a Petrobrás em "erros, malfeitos, crimes, atos de corrupção", conforme listagem da própria candidata.

O episódio mais recente, que fez Dilma voltar ao tema, é a possibilidade de o ex-diretor Paulo Roberto Costa, preso por suspeita de corrupção, utilizar o recurso da delação premiada: falar o que sabe em troca de diminuição da pena. Atualmente, a Operação Lava Jato, da Polícia Federal, investiga 13 empresas ligadas a Costa que, segundo a Procuradoria da República, obtiveram "vertiginoso acréscimo patrimonial" na época em que ele foi diretor da Petrobrás.

Nas palavras da candidata, "a Petrobrás é muito maior do que qualquer agente dela, seja diretor ou não, que cometa equívocos (...) isso não significa uma condenação da empresa. Não se pode confundir as pessoas com as instituições". Não se está fazendo essa confusão nem condenando a Petrobrás. O País quer é responsabilizar pessoas pelos "erros, malfeitos, crimes, atos de corrupção" que possam ter cometido.

Se houve confusão entre pessoas e instituições, foi a própria candidata quem a fez. Em seu característico estilo, Dilma pontificou: "Veja bem, ó: a Graça Foster e a diretoria inteira da Petrobrás representam a União. (...) É de todo interesse da União defender a Petrobrás, a diretoria da Petrobrás". Aqui, se tratava de outro escândalo - Dilma e sua turma têm sido pródigas em proporcionar escândalos envolvendo a estatal -, quando se revelou que Graça Foster havia transferido imóveis para os filhos em meio à crise sobre a Refinaria de Pasadena. Neste caso, a candidata à reeleição tinha todo interesse eleitoral em que a estrutura do Estado - o Ministério da Justiça e a Advocacia-Geral da União - fosse utilizada para agir em favor de diretores cuja atuação na Petrobrás está sendo estudada pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

Quando lhe interessa calar, Dilma utiliza o cargo de presidente da República como motivo para silenciar. "Eu não tenho o que comentar sobre a decisão de uma pessoa presa fazer ou não delação premiada, isso não é objeto do interesse da Presidência da República." Mas ela se adiantou na defesa de Graça Foster, quando esta corria o risco de ter seus bens bloqueados pelo TCU. A candidata disse que seria um "absurdo" o bloqueio dos bens da presidente da Petrobrás. Absurdo seria o País ter de engolir inerme uma operação que, segundo o TCU, gerou prejuízo de R$ 792,3 milhões à estatal.

A candidata Dilma não faz reparos a que a Petrobrás esteja presente na campanha eleitoral. Em 2010, ela utilizou largamente a estatal e a descoberta do pré-sal como matéria política. O que ela não gosta - como se vê pelas suas falas - é que informação independente sobre a Petrobrás, sem os filtros do governo, chegue ao público nesse momento pré-eleitoral. Mas isso, longe de ser um ataque contra a Petrobrás, é a sua mais genuína defesa, especialmente quando aqueles que deveriam fazê-lo não o fazem.

Não é a Petrobrás, mas o governo que está sendo julgado, o que é legítimo - e desejável - numa democracia. As eleições devem ser uma prestação de contas sobre o que foi feito e como foi feito pelo governo. E ninguém mais do que Dilma pôs a Petrobrás nessas eleições ao reconhecer, em março, que a sua decisão de aprovar a compra da Refinaria de Pasadena tinha como base um parecer "técnica e juridicamente falho". Ela mesma, com suas ações e palavras, desconstruiu a imagem eleitoreira de que seria uma eficiente gestora. Por isso, a Petrobrás - e seus sempre prejudicados acionistas minoritários - tem todo o interesse em estar nas eleições. É sua chance de conseguir outros gestores.


COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

‘O setor foi ferido quase de morte pela incompetência do governo’
Beto Albuquerque (PSB), vice de Marina Silva, sobre a crise no setor sucro-alcooleiro



PT AVALIA QUE NEM LULA EVITARIA VITÓRIA DE MARINA

Os “lulistas” do Partido os Trabalhadores já não falam em substituir a candidata Dilma Rousseff pelo ex-presidente Lula, e por ordem dele. É que pesquisa interna, à qual tiveram acesso apenas quatro petistas ilustres, indica que a ascensão de Marina Silva (PSB) é de tal maneira avassaladora que nem mesmo Lula conseguiria evitar sua vitória. Análises internas citam até a hipótese de Marina vencer no 1º turno.

ROSA DOS VENTOS

A advertência dos analistas do PT é: Marina pode passar à frente e, com o “voto útil” de eleitores de Aécio, vencer no 1º turno.

TE CUIDA, MARINA

A ordem de Lula é proclamar confiança em Dilma, dizer que Marina é só “uma onda” e preparar a artilharia. Estão vasculhando a vida dela.

CEGOS EM TIROTEIO

A candidatura de Marina Silva desnorteou os marqueteiros do PT e do PSDB. Rigorosamente, eles não sabem o que fazer.

PELADÃO NO RIO

Neste sábado, Aécio Neves vai participar de um “peladão” no campo do Zico, no Rio, ao lado de craques que marcaram época no futebol.

POLÍCIA FEDERAL REGISTRA 15º SUICÍDIO DE POLICIAL

Esta semana foi registrado o 15º suicídio de um policial federal nos últimos dois anos, segundo fontes da própria corporação. José Roberto Correia de Araújo, de Londrina (PR), foi o terceiro caso somente nos últimos cinco meses. Segundo sindicalistas, “o comportamento da direção da PF tem provocado e agravado diversos problemas entre os policiais”, incluindo problemas psicológicos e psiquiátricos.

PROBLEMAS

Pesquisa da Federação Nacional da PF em 2013 mostrou que 30% dos policiais já se submeteram a algum tipo de tratamento psicológico.

UNIVERSO PEQUENO

Polícia Federal conta, em todo o País, com apenas 13 mil homens entre delegados, agentes, escrivães, papiloscopistas etc.

É INSUFICIENTE

Para quase 9 mil quilômetros de litoral, a PF dispõe de cerca de 150 homens. Na fronteira terrestre, o contingente não chega a 1.500.

O QUE É RUIM, ESCONDE

O site de Dilma usa dados do Ibope para dizer que ela segue “firme e forte”, mas não menciona a queda de 4 pontos ou o índice de rejeição da petista (36%), tampouco o favoritismo de Marina no 2º turno.

SUJEIRA SOB O TAPETE

A pedido de Antônio Oliveira Santos, presidente da CNC, o chefão do Sesc reuniu 74 conselheiros no Rio e os orientou a rejeitar recursos do adversário Orlando Diniz contra a chapa da situação, na eleição da entidade. Também discutiram como reverter estragos do afastamento, pela Justiça, do presidente da Fecomércio-MG, aliado de Santos.

MÃO NA TAÇA

Durante reunião quarta à noite, a cúpula do Senado analisou o quadro eleitoral nos estados. No DF, a conclusão foi a de que o candidato a governador Rodrigo Rollemberg (PSB) “está com a mão na taça”.

PROJETO AGUADO

Parecia briga da dupla sertaneja Rio Negro e Solimões, mas não é: o Supremo Tribunal Federal vai julgar o conflito entre o estado do Amazonas, que autorizou um porto próximo ao encontro dos dois rios, e o Iphan, que meteu o bedelho e vetou o projeto, considerando a área “monumento natural”.

TEMPOS AMARGOS

Marina Silva lançou luz, ontem, na tragédia do setor sucroalcooleiro. Responsabilizou o governo pelo fechamento de 70 usinas e por outras 40 em recuperação judicial, com milhares de desempregados.

‘MARINAR’, A SAÍDA

Com Aécio Neves em baixa, velha raposa do PMDB ligou para o amigo Romero Jucá (PMDB-RR). “Você não precisava ter declarado voto para Aécio, bastava não apoiar Dilma”. E aconselhou: “É hora de marinar...”.

BANCO DE MEMÓRIA

O banco Itaú de Neca Setúbal, “colaboradora” de Marina Silva, ameaça ir às últimas instâncias para não pagar indenização de R$ 6 mil a ex-cliente que, morando no exterior, teve o nome injustamente negativado.

CANDIDATO DOS MILAGRES

Faltou bom senso, no mínimo, à coordenação de campanha de Magela (PT-DF) ao Senado na edição do último programa eleitoral: um casal de cadeirantes diz que “pulou de alegria” com os feitos do candidato.

PERGUNTA NO PALANQUE

Já que faz tanta questão de ser chamada de presidenta, seu novo slogan não deveria ser “Dilma, coração valenta?”



PODER SEM PUDOR

GUERRA À BRASILEIRA

A história foi contada à exaustão pelo ex-senador sergipano Gilvan Rocha. O baiano Luiz Carlos Medrado Sampaio, ex-médico da Aeronáutica e seu amigo de infância, recebeu um telefonema que era uma convocação, em 31 de março de 1964, o dia do golpe:

- Apresente-se amanhã cedo no quartel. No pátio, com as armas.

- Armas? Mas que armas?

- As que o senhor tiver, ora! - respondeu a voz, autoritária.

- Posso ir desarmado?

- Para quê serve um homem desarmado em quartel, numa revolução?

Dia seguinte, cedinho, Medrado se apresentou e foi direto para o pátio, carregando um estilingue no pescoço. Pegou trinta dias de cadeia.

quinta-feira, agosto 28, 2014

A “presidenta” de volta à cozinha - GUILHERME FIUZA

REVISTA ÉPOCA


A vida tem sido difícil em 2014 para o governo brasileiro, mesmo estando nas mãos de um partido de vida fácil. Os números do PIB apontam para a recessão, a inflação não cede, e até o prognóstico oficial de que a Copa do Mundo aqueceria a economia teve de ser engolido - já que aconteceu exatamente o contrário. Mas agora tudo ficará mais fácil para o governo popular: começou a campanha eleitoral. Como se sabe, esta é a hora de os brasileiros matarem a saudade do cachorro da Dilma. Com o horário eleitoral gratuito, o PT poderá montar suas histórias sem precisar traficar informação.

Já estava mais do que na hora. Ninguém aguentava mais aquele baixo-astral das notícias sobre espionagem no Palácio do Planalto. Felizmente, a invasão e adulteração criminosa dos perfis de jornalistas na Wikipédia ficou por isso mesmo. O Brasil não tem mais estômago para ficar acompanhando investigação de atos sórdidos. Já basta a novela do mensalão. Deixem os aloprados abrigados no palácio do governo em paz com suas escaramuças malcheirosas. É a única alegria que eles têm. Agora, em vez de ficar difamando Carlos Alberto Sardenberg, o departamento de ficção científica dos companheiros se dedicará de corpo e alma a embelezar Dilma. Chega de sombras, agora é tudo azul. Ou vermelho.

Dilma Rousseff inaugurou suas aparições no horário eleitoral, apresentada no lugar onde o PT acha que a mulher deve estar: na cozinha. Foi a estratégia clara de sua campanha: vai que o eleitorado esqueceu que a "presidenta" é mulher? Sem pensar duas vezes, o comando progressista foi logo mostrando Dilma no meio das panelas. Para o eleitor desatento, que nos últimos anos a tenha achado atrapalhada, lá estava ela preparando um macarrão - e calando definitivamente a boca dos que duvidam de suas capacidades.

Na campanha eleitoral de 2010, quando ninguém tinha visto ainda Dilma Rousseff governando, os filmes procuravam mostrar que ela era uma líder. Numa das cenas, enquanto um locutor avisava que a candidata tinha comando, a imagem a mostrava atirando um osso para o seu cachorro buscar. Ele buscava - e devolvia na mão da dona. Uma prova inequívoca de autoridade presidencial. Em 2014, não será necessário repetir essa cena. Os brasileiros já viram que Dilma e seus comandados pegam o osso e não largam mais.

Eis a questão que dominará a corrida presidencial: como fazer o PT largar o osso, após 12 anos de dentes bem cravados? Não será fácil. Além do referido azedume dos indicadores que prenunciam uma recessão, o esfolamento da Petrobras teve novos capítulos candentes - como as revelações da distribuição de verbas pelo doleiro anexo e a combinação clandestina de perguntas e respostas na CPI. A resposta da opinião pública foi imediata: a avaliação positiva do governo Dilma subiu!

Que fazer diante de tal cadeia de eventos? Como concorrer com uma presidente que faz outras coisas além de macarrão e é aplaudida pelos súditos?

A oposição já tentou de tudo. O PSDB, coitado, a cada eleição tenta parecer mais pobre. Já apresentou o economista José Serra como "o Zé", filho de feirante. Quando concorreu à Presidência, Alckmin virou "o Geraldo". Tentam parecer amigos do Lula (o filho único do Brasil) e escondem o Plano Real, essa jogada neoliberal que o PT consertou - segundo a nova verdade nacional, construída com afinco pela central de inteligência companheira. Experimente desmentir o Império do Oprimido, e você descobrirá seu passado terrível na internet.

Entrevistada no Jornal Nacional, Dilma não respondeu por que ela e seu partido tratam os condenados do mensalão como heróis nacionais e perseguidos políticos. Disse que não comenta decisões judiciais. Alertada de que não se tratava de comentar uma decisão judicial, mas uma posição política, ela se reservou o direito de fingir que não entendeu. E repetiu que não comenta decisões judiciais.

São as maravilhas da campanha eleitoral. A partir de agora, a presidente só comentará que trabalha muito e tem saudades da filha, da neta e do cachorro. Lá vai o Brasil descobrir de novo o doce de coco que é Dilma. Que ninguém estranhe se essa dona de casa sobrecarregada aparecer no horário eleitoral reclamando do preço do macarrão.

Se é para mudar - CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O GLOBO - 28/08


A burocracia é uma doença de crescimento espontâneo. Não custa nada exigir mais um carimbo, uma declaração



Não, não vamos falar da disparada de Marina. Mas vamos falar de campanha — ou de algumas propostas para melhorar o desempenho econômico.

Ellison, nosso ouvinte na CBN, conta que comprou uma fazenda em Minas Gerais, na qual havia um gerador hidráulico de energia desativado. Nesses tempos de alta na conta de luz, não seria uma boa ideia ativá-lo? Não deu. Ellison topou com tanta burocracia e exigências que acabou desistindo. Perdeu eficiência e ganhou custos.

Pois o mesmo tipo de problema atrapalha — e encarece — atividades tão diversas quanto a concessão de crédito para compra de carros ou o despacho de mercadorias nos portos brasileiros.

O financiamento de veículos vem caindo nos últimos meses. Sim, as famílias estão bastante endividadas e os juros subiram, mas não é só por isso.

Acontece que, de uns tempos para cá, ficou mais difícil para o banco retomar o veículo de um devedor inadimplente. Segundo o pessoal dos bancos e das revendedoras, são mais de 200 dias para se retomar o carro, ou seja, para executar a garantia. Isso quando se encontra o veículo, conta um vendedor.

É preciso acionar a Justiça e a polícia, passando por burocracia e regras supostamente estabelecidas para defender o devedor. Na verdade, isso reduz a segurança do crédito, encarece a taxa de juros para todos e protege o devedor de má-fé.

O crédito explodiu no Brasil por uma combinação de dois fatores: um macro, a estabilidade da moeda; outro micro, novas regras que deram mais segurança para a concessão de financiamentos diversos, como o consignado e o imobiliário. Também os juros para compra de carros eram mais baratos exatamente porque o credor conseguia em prazo razoável a retomada do bem. Daí os 60 meses sem entrada

Mas teve o outro lado da história. Sem experiência, sem educação financeira, muitas famílias tomaram mais dívidas do que podiam pagar. A resposta a isso, nas casas legislativas, no Judiciário, nos movimentos e serviços de defesa do consumidor, foi a criação de normas e práticas que dificultam a execução da dívida.

Em um ambiente de negócios já emperrado pela burocracia, a consequência foi direta: bancos mais seletivos na concessão do crédito, juros e, especialmente, custos indiretos mais altos. E para quem? Para a grande maioria dos que pagam ou que poderiam pagar corretamente.

Eis o ponto: normas e práticas institucionais aumentando o custo Brasil.

Exatamente o que acontece, por exemplo, com os portos. Pessoal do setor conta que as instalações portuárias propriamente ditas — guindastes, contêineres, sistemas — são em geral modernas e funcionam bem. Mas há problemas antes e depois da chegada ao porto — navios e caminhões demoram para entrar e sair — assim como na gestão (despacho, desembaraço das mercadorias, fiscalizações diversas não sincronizadas, papelada da Receita, por aí vai. É a parte do governo.)

Tanto no caso dos financiamentos quanto nos portos, há muita solução que pode ser implementada sem alterar uma única lei. No caso dos empréstimos imobiliários, por exemplo, o governo federal anunciou medidas para reduzir e simplificar a tramitação da papelada nos cartórios e nos bancos.

Mas em outros casos é preciso alterar a legislação. Também por iniciativa do governo, vai ao Congresso lei que facilita a retomada dos carros com financiamento não pago. No setor de concessionárias, essa medida é considerada a mais importante para se retomar o fluxo de empréstimos.

As soluções parecem óbvias, mas não é simples assim. A burocracia é uma doença de crescimento espontâneo. Não custa nada exigir mais um carimbo, mais uma declaração negativa com efeito de positiva (sim, existe isso) ou mais uma vistoria. Tirar é complicado.

Além disso, há uma questão meio cultural, meio ideológica. De um lado, encontra-se a desconfiança de que o cidadão está sempre tentando fazer alguma coisa errada no seu relacionamento com o poder público. De outro, a “convicção” de que as empresas, especialmente as grandes, estão sempre tentando prejudicar o cliente, o fisco e a sociedade.

Ora, quem está de má-fé até gosta desse ambiente que, paradoxalmente, favorece a fraude e a corrupção. Quem está de boa-fé, desiste ou paga mais caro.

Não é fácil mudar. Mas todos os candidatos estão falando de mudança, não é mesmo?

Satisfação garantida - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 28/08


A campanha vinha meio morna, como de resto ocorre desde que as eleições deixaram de ser uma novidade, passando de exceção a regra repetida de dois em dois anos como parte do calendário nacional.

Aos que sentiam sua falta, eis de volta a emoção pela via da tragédia que abriu caminho à realização de dois tipos de anseios existentes no eleitorado: desalojar o PT do poder e a possibilidade de dar ao próprio voto o sentido de utilidade cívica e bem-estar psicológico.

Os fatores aí envolvidos podem ser a esperança difusa, o protesto à deriva, a admiração por uma figura ímpar em relação ao elenco tradicional ou mesmo a sensação gostosa de ficar ao lado do "bem" imaginando-se partícipe de uma espécie de reinvenção do Brasil.

Seja por qualquer desses pontos ou pela junção de todos eles e outros tantos, fato é que a entrada de Marina Silva no páreo pôs a eleição deste ano em outro patamar, no mínimo despertou o interesse de quem andava desinteressado.

Esse contingente que por ora opta por Marina Silva dando a ela o segundo lugar nas pesquisas, distante do tucano Aécio Neves, derrotando com folga a presidente Dilma Rousseff no segundo turno, não necessariamente escolhe um projeto de País com começo, meio e fim. Até porque isso a candidata do PSB ainda não apresentou.

Nem é certeza de que seja necessário que apresente planos e propostas detalhadas para sentar praça no coração (sim, é mais com corações e menos com mentes que estamos lidando) do eleitorado. No debate da Band, na terça-feira, a candidata do PSB trabalhou basicamente com conceitos. Ou "ideias-força".

Projetos passados, presentes ou futuros, números, índices, resultados e porcentagens ficaram ao encargo da presidente Dilma Rousseff e do candidato do PSDB, Aécio Neves.

O tucano procurando se mostrar como o caminho da mudança segura citando exemplos de sua administração em Minas e, quando provocado, remetendo-se às realizações do governo Fernando Henrique.

A presidente repetidamente forçando comparações com as gestões FH e se perdendo na confusão de dados oficiais na pressa de encaixar a maior quantidade possível de citações de programas de governo na limitação das regras do tempo para cada debatedor.

Marina fugiu desse enquadramento. Numa perspectiva mais realista, isso pode ser visto como ausência de clareza e consistência. Mas, do ponto de vista do eleitor ávido pelo "novo" pode ser percebido como sinal de uma visão diferente.

Em resumo, quais as "ideias-força" de Marina? As seguintes: Dilma não admite erros do governo, mostra "um Brasil que não existe", PT e PSDB querem dividir o País enquanto ela pretende unir. Marina vai governar com "as melhores competências", sempre voltada para as demandas da sociedade e não para os interesses partidários. Além disso, ela, apenas ela, tem uma visão abrangente e não preconceituosa do que seja "elite".

Conta meias-verdades para adaptar a realidade à sua narrativa. Por exemplo: os tucanos jamais foram partidários da dicotomia do "nós" contra "eles", de autoria petista, mas Marina socializa a tese para se diferenciar dos adversários. Cria, assim, sua própria versão dos fatos, repetindo um truque da velha política.

Mas nela não cola. Neste aspecto, tem vantagem semelhante à de Lula: certas características não muito positivas são toleradas simplesmente porque as pessoas só querem enxergar o que convém ao que já elegeram como fonte de alívio de consciência e de bem-estar. Chega um momento em que não estão dispostas e serem importunadas com o contraditório.

Marina terá atingido esse patamar de inviolabilidade? Ainda é dúvida. Certo é que ela mostrou no debate ser competidora dura, bem articulada, embora vulnerável à tentação da soberba.


Maldito caixa 2 - SÍLVIO RIBAS

CORREIO BRAZILIENSE - 28/08


Nas sombras, o caixa 2 é potente propulsor de candidaturas a qualquer cargo eletivo. Mas exposto ao sol, costuma se converter em assassino de reputações e obstáculo a carreiras políticas. Após produzir tantos escândalos na República, esse tipo de crime insiste em desonrar o jogo democrático. Frutos da relação promíscua entre interesses privados e projetos de poder, os "recursos financeiros não contabilizados" nas campanhas eleitorais resistem como fontes de fisiologismo.

É verdade que, desde o tempo do tesoureiro PC Farias, de Fernando Collor, ao do operador do mensalão, Marcos Valério, muita casa caiu e muita torneira secou. Mas também está claro que afloraram nos últimos anos novos gerentes de lavanderias de dinheiro sujo, desviado para máquinas partidárias e bolsos amigos, assim como novas formas de maquiar doações. A contribuição depositada diretamente na conta de legendas é uma das burlas conhecidas. Outras são alvo de órgãos da Justiça.

Depois de todas as revelações trazidas pela imprensa e pelas provas anexadas aos autos da histórica Ação Penal 470, ainda somos surpreendidos com a desarticulação de quadrilhas sofisticadas. Os montantes envolvidos já não cabem mais em cuecas, malas e jatinhos. Os fardos de grana viva deram lugar a vultosas transações interbancárias, muitas delas viabilizadas por um banco central do crime liderado pelo doleiro Alberto Youssef. Não é de estranhar por que a corrida às urnas tenha perdido gás, contida pela Operação Lava Jato, da PF.

Esse imbróglio mais recente advindo da economia paralela do caixa 2 ainda não acabou e pode constranger ainda mais os beneficiados. Talvez o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, preso como Yousseff, opte pelo acordo de delação premiada e conte ao menos 50% do que sabe da corrupção em negócios da estatal. Para preservar parentes envolvidos, Costa pode puxar a corda do colete de homem-bomba que Roberto Jefferson e outros vestiram.

Um financiamento de campanha não declarado também pode se configurar na segunda caixa-preta do avião que matou, este mês, o presidenciável Eduardo Campos (PSB). A dúvida se houve ou não crime no emprego da aeronave mostra fragilidades do processo eleitoral. Por isso tudo, não adianta falar em reforma política ou em financiamento público de campanha sem desmontar o balcão de negociatas eleitorais. Como diz certo jargão, é chegada a hora de pensar fora da caixa.


Energia e política industrial - ADRIANO PIRES

O ESTADÃO - 28/08


Existe um consenso entre os analistas ouvidos semanalmente pela pesquisa Focus de que o crescimento do PIB em 2014 deverá ficar abaixo de 0,79%. Para 2015, as perspectivas não são muito melhores, com projeção de crescimento de 1,20%, bastante inferior ao potencial da economia brasileira. O péssimo comportamento do PIB é consequência direta do processo de desindustrialização por que passa a nossa economia. Há muitos anos o Brasil não tem uma política industrial que garanta a modernização e aumente a competitividade do parque produtivo nacional.

Atualmente, a "política industrial" do governo se resume à concessão de empréstimos do BNDES e a desonerações fiscais pontuais. Mesmo assim, as condições não são iguais para todos. Os eleitos são os que correspondem aos interesses políticos ou "desenvolvimentistas" do governo. E ainda há que considerar que os recursos do BNDES não são infinitos e os impactos fiscais da gastança já estão aparecendo. Em junho, foi autorizado um repasse de R$ 30 bilhões do Tesouro para a instituição que, segundo o presidente do banco, "deverá ser utilizado no funding da instituição até o fim do ano". Ademais, a expectativa é de que os repasses do BNDES em 2014 sejam inferiores aos registrados em 2013 - em parte por causa da menor demanda em razão da queda de confiança do setor produtivo brasileiro. Na mesma linha, as desonerações ficais implementadas nos últimos dez anos foram feitas de maneira aleatória, sem fazer parte de uma política coordenada de aumento de competitividade. As desonerações não foram decididas olhando seus efeitos e termos de crescimento, competitividade ou dinamismo.

Enquanto isso, a economia dos EUA voltou a crescer baseada numa política industrial que tem como pilares energia competitiva e segurança de abastecimento. O desenvolvimento de novas tecnologias de exploração e produção de petróleo e gás natural não convencional permitiu uma queda drástica nos preços do combustível no mercado doméstico, aumentando a competitividade da indústria local. Em 2010, foram criados cerca de 600 mil empregos diretos, indiretos e por efeito-renda relacionados à produção de shale gas. Para 2035, é esperado que o número de empregos alcance 1,6 milhão. Além de todos os benefícios econômicos, uma externalidade positiva do aumento da participação do gás natural na matriz energética americana foi a redução da emissão de CO2 na geração de energia elétrica, que diminuiu 9%.

O exemplo dos EUA é importante para reforçar a ideia de que uma verdadeira política industrial se faz em conjunto com a política energética, e o preço da energia só cai de forma estrutural e sem ameaça de desabastecimento com o aumento de oferta. No Brasil, o governo acha que pode baixar preço por medidas provisórias (MPs), decretos e leis, desrespeitando as regras de mercado, como foi o caso da MP 579. A consequência acaba sendo, ao contrário do anunciado, a elevação dos preços. E o grande punido é a indústria.

Essa política intervencionista, que tenta sem sucesso revogar a lei da oferta e da procura, acaba prejudicando tanto os consumidores quanto os produtores de energia. Por exemplo, a Petrobrás e as empresas do setor elétrico estão hoje descapitalizadas e vendo seu valor de mercado desabar. Ao mesmo tempo, a indústria tem na energia um obstáculo para seu crescimento e aumento de competitividade. Essa situação paradoxal ocorre porque a atual política de preços da energia é baseada no tripé controle da inflação, coleta de impostos e instrumento eleitoral, quando o tripé deveria ser previsibilidade, respeito às regras de mercado e instrumento de política industrial.

Se o Brasil quer voltar a crescer, é preciso ter uma política de energia que converse com a política industrial. Não faz sentido nenhum continuar subsidiando e dando privilégios aos energéticos de consumo final, como a gasolina e mesmo a tarifa de energia elétrica das residências, em vez de usar a nossa diversidade energética para aumentar a competitividade da indústria, que gera riqueza e empregos para o País.


Outros anos perdidos? - MÁRIO MESQUITA

VALOR ECONÔMICO - 28/08

Gradualismo no ajuste de preços relativos tenderá a manter inflação e juros elevados por mais tempo


Tudo indica que o crescimento econômico de 2014 ficará entre zero e 1%, talvez mais próximo do limite inferior. Pior, as perspectivas para 2015 não são muito melhores - o leitor há de concordar que, quando projeções de crescimento na faixa de 1,5% são taxadas de "otimistas", situação com a qual me deparo frequentemente em reuniões com investidores, é porque a situação piorou muito.

Por sua vez, a inflação segue rondando o topo do intervalo de tolerância em torno da meta de 4,5%, que só não é superada pela aplicação de um receituário neo-heterodoxo de controles de preços.

O congelamento de preços, assim como o tabelamento, via intervenção maciça, da taxa de câmbio, podem trazer benefícios de curtíssimo prazo, em termos de sustentação do poder de compra das famílias, mas não são sustentáveis.

No caso dos subsídios domésticos, há o efeito sobre a lucratividade da Petrobras, que afeta as contas públicas via compressão dos dividendos e impostos que incidem sobre o lucro, além do impacto sobre o setor elétrico e da perda de arrecadação com impostos sobre combustíveis e a cesta básica. No Brasil Plural estimamos que tais custos chegam a equivaler a 1,3% do PIB, praticamente o mesmo valor que projetamos para o superávit primário cheio em 2014, e maior do que consideramos ser o seu ritmo recorrente (0,8%).

Para um país cuja avaliação de crédito está próxima da fronteira entre grau de investimento e especulativo, e que já tem uma carga tributária elevada para seu estágio de desenvolvimento, manter subsídios ao consumo desse montante não parece ser fiscalmente prudente, além de ter outros efeitos colaterais indesejáveis, como, por exemplo, o desestímulo ao uso de combustíveis alternativos, no caso da compressão do preço da gasolina.

Já na questão cambial, ainda que, em seu início, o programa de intervenção tivesse justificativa na necessidade de se prover proteção em um momento de estresse e iliquidez, seu prolongamento parece distorcer o mercado e contribuir para retardar o ajuste do déficit em conta corrente - em 3,5%, o déficit está bem acima da média histórica da série, a despeito do crescimento bastante inferior ao dos parceiros comerciais e dos termos de troca ainda em patamares historicamente elevados. Estimamos que a taxa de câmbio deveria se deslocar para o intervalo R$ 2,60-R$ 2,70 para promover um reequilíbrio das contas externas - como nenhum candidato defende engessar para sempre o câmbio, temos que acreditar que em 2015 teremos uma flutuação mais limpa.

Como todos os experimentos heterodoxos, esse também tem data para acabar: de fato, a julgar pelos retornos embutidos nos títulos públicos indexados, a inflação deve superar 7% lá pelo segundo trimestre de 2015, embalada pelo descongelamento do preço da gasolina e da taxa de câmbio, entre outros itens.

Os principais porta-vozes econômicos dos candidatos de oposição se manifestaram nas últimas semanas e acabaram expressando preferência por uma estratégia gradualista de ajuste de preços relativos - provavelmente com vistas a minimizar o impacto inicial sobre a renda e a demanda. Já o Ministro da Fazenda, também em manifestação recente, rejeitou a ideia que haveria repressão de preços, citando o aumento das tarifas de energia ocorrido nesse ano. É claro que autoridades no exercício do cargo têm mais dificuldade em se pronunciar sobre políticas futuras do que pessoas que estão fora do governo, mas se a oposição vai de gradualismo, não há de ser o governo, que nem reconhece haver problema de represamento de preços, que irá adotar uma terapia de choque.

Com um ajuste gradual de preços relativos, a redução dos subsídios ao consumo seria mais lenta, o que impediria um impacto inicial à atividade econômica mais severo, mas por outro lado manteria a inflação pressionada por mais tempo, não apenas no início de 2015, mas o ano todo e provavelmente também na primeira metade de 2016.

Os porta-vozes da oposição indicaram preferir uma meta para a inflação mais ambiciosa do que os 4,5% atualmente perseguidos, sem serem alcançados. Além disso, ambos manifestaram simpatia pela ideia de autonomia legal do Banco Central, o regime que impera em diversos países estáveis e democráticos do mundo, inclusive em nossa região, mas que por razões variadas é tabu em certos segmentos de nossa classe política - posturas que podem mitigar o impacto do gradualismo sobre as expectativas de inflação de médio prazo. Já o aparente conforto - das autoridades - com o patamar corrente de inflação, associado à histórica falta de simpatia por mudanças no estatuto legal do Banco Central, não necessariamente conduz a uma reversão da inflação à trajetória de metas.

Em resumo, o gradualismo no ajuste de preços relativos pode ser inevitável, dada a economia política do país, mas tenderá a manter a inflação e a taxa de juros mais elevada por mais tempo, aumentando a chance de que tenhamos outros anos perdidos. Certa circunspecção pode fazer sentido em época de campanha eleitoral, mas a partir de janeiro vai ser preciso mais ousadia.

Mudança de tom - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 28/08

A entrada em cena da candidata Marina Silva com ares de favorita tornou a campanha eleitoral mais aberta e franca por parte dela e do candidato do PSDB Aécio Neves. É natural, os dois disputam o mesmo espaço, isto é, a possibilidade de derrotar a presidente Dilma no segundo turno. O próprio Eduardo Campos achava que quem fosse ao segundo contra a presidente venceria as eleições, diante do clamor da sociedade por mudança.

Chegou até mesmo a imaginar um segundo turno entre PSB e PSDB, candidatos de perfis semelhantes que chegaram a vislumbrar uma parceria. Cenário que ficou impossível com a chegada em cena de Marina Silva, uma oposicionista de outro calibre, que exasperou a disputa. Aécio foi o mais atingido pelo surgimento de uma candidatura nova na área da oposição, pois está tendo que mudar o ritmo de sua campanha em plena corrida. Com Campos na disputa, teria tempo para apresentar-se ao eleitor, pois o adversário também teria que se apresentar.

Agora, ao mesmo tempo em que se torna mais conhecido, vai subindo o tom para entrar na disputa com uma candidata que foi poupada em toda a primeira parte da campanha e chegou a ela já com índices vigorosos. A presidente Dilma não pode fazer mais do que tentar convencer o eleitor de que o país não está tão ruim quanto seus adversários dizem. O problema dela, e por isso tem tido um sucesso relativo, é que os eleitores-espectadores sabem o dia a dia que vivem, e não é um filmete publicitário que mudará suas opiniões.

Uma bela sacada de Aécio foi dizer que o sonho de todo brasileiro é viver no mundo virtual da propaganda de Dilma, que é muito melhor do que o mundo real. Tanto é assim que a avaliação de seu governo melhora na margem e não se reflete no número final da votação, que está em queda.

Marina, por sua vez, já entrou no debate da TV Bandeirantes muito mais assertiva do que sempre foi, para enfrentar as tentativas de desqualificação a que será submetida nesses pouco mais de 30 dias de campanha. Terá que esclarecer posições, assumir compromissos e mostrar-se agregadora, que não é exatamente seu perfil de ação pública até agora. A seu favor, poderá dizer que teve de enfrentar interesses encastelados tanto no governo petista quanto nos partidos em que já esteve, e por isso teve atritos.

Aécio está acelerando a apresentação de seu projeto e a explicitação de seus programas, para ganhar crédito como o candidato da mudança segura, como está se apresentando. Desse ponto de vista, anunciar formalmente que o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga será o comandante de sua equipe econômica, ou que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é e será seu grande conselheiro, é uma maneira de marcar posição contra Marina, que classifica como uma amadora .

O que atrapalha sua campanha é a ineficiência até agora dos acordos regionais que montou, seu grande trunfo como articulador político. Para quem pretendia sair de São Paulo e Minas com cerca de 5 milhões de votos na frente da presidente Dilma, os resultados até agora são decepcionantes, muito pelo surgimento da opção Marina Silva.

Em SP, Marina está à frente, e Dilma em segundo, mesmo com o PT levando uma surra para governador e senador, o que sugere que a máquina tucana não se move a favor de Aécio. Uma vingança silenciosa pelas campanhas anteriores em Minas não é de se descartar.

Em MG, seu território político, o candidato do PT está à frente na disputa para governador e Aécio aparece quase empatado com Dilma na preferência do eleitorado. Marina reafirma a boa votação que teve em 2010 no Estado, com cerca de 20% das preferências.

No nordeste, onde pretendia reduzir a diferença a favor de Dilma, o candidato do PSDB não está tendo sucesso até mesmo nos Estados onde as dissidências da base aliada teoricamente estariam a seu lado. Na Bahia, Dilma está bem à frente, seguida por Marina. Em Pernambuco, Marina Silva absorveu a força política de Eduardo Campos e está liderando a disputa, seguida da presidente Dilma. No DF, aonde Aécio chegou a liderar, Marina tomou a frente. No Rio de Janeiro, primeiro grande estado em que a dissidência do PMDB surgiu em seu apoio, Dilma lidera com folga, seguida de Marina, relegando-o a um terceiro lugar.

Os dias de setembro dirão se esta é uma situação mutável ou se o quadro está cristalizado fora da polarização PT-PSDB, que prevalece há 20 anos.

A volta do descontrole cambial - NATHAN BLANCHE

O ESTADO DE S.PAULO - 28/08


Os riscos para o financiamento das contas externas e a consequente depreciação significativa da moeda brasileira têm se elevado como resultado do aumento de incertezas e do alto nível de intervenções do Banco Central (BC). Adicionalmente, e não de forma clara, mas efetiva, o câmbio sobreapreciado pela atuação da autoridade monetária causa distorções na formação de preços relativos que agravam os desequilíbrios nas contas externas. O resultado final é risco de inflação mais elevada, menor investimento e crescimento econômico.

Descambal era o termo usado na década de 80 para classificar o descontrole da política cambial. Obviamente, estamos muito longe do risco de duas moratórias seguidas, como as de 1982 e 1987, mas os riscos para o financiamento das contas externas e a consequente depreciação da moeda têm se elevado em razão das incertezas e das intervenções do BC. Essas são inéditas e arbitrárias e pouco têm que ver com os fundamentos do balanço de pagamentos. Principalmente por se tratar de crise econômica interna (alta da inflação e baixo crescimento), e não externa.

A venda de ração diária de swaps cambiais e suas rolagens já somam mais de US$ 226 bilhões, e o saldo atual é de US$ 93 bilhões. Desde 1986, quando do início do mercado de hedge cambial, a atuação recente destaca-se, inclusive, em comparação com a de 2008, na esteira da grave crise internacional. Além de as atuações anteriores não terem atingido essa magnitude, foram pontuais e cumpriram seus objetivos de controlar a volatilidade da moeda apenas, sem a intenção de influenciar o nível da taxa de câmbio.

Inexiste atualmente, no mercado de moedas mundial, paralelo em termos de intervenção no mercado de derivativos cambiais. E pelas sinalizações mais recentes do BC, a atuação continuará até o fim do ano.

Mas, a despeito da atuação do BC e da retirada de todas as medidas que haviam sido adotadas para controlar a entrada de dólares nos anos anteriores, o real é a segunda moeda mais volátil no horizonte de seis meses, só perdendo para o rand sul-africano.

O fato é que o câmbio tornou-se, para o BC, o último cachorro no mato, ou seja, o único instrumento para exercer sua função institucional de guardião da moeda. Em 2011, quando o governo Dilma Rousseff ordenou a queda dos juros e simultaneamente a desvalorização do real, privou-se dos principais instrumentos de atuação, que são a política monetária e cambial. Assim, descredenciou o BC como guardião da moeda. Mas diante do resultado óbvio - inflação mais alta - devolveu algum poder à instituição, permitindo uma elevação da taxa básica de juros de 375 pontos-base.

O ponto é que, ao vender hedge (câmbio futuro), o BC tornou viáveis as operações especulativas de carry trade (arbitragem de taxa de juros). Agentes do mercado captam dólares no exterior, vendem no mercado à vista (spot) e, simultaneamente, compram dólares no mercado futuro, obtendo ganho pela diferença das taxas de juros interna e externa. Dos US$ 93 bilhões de swaps cambiais, avaliamos que cerca de US$ 48 bilhões estão relacionados com esse tipo de operação.

Herança maldita. Seja quem for eleito nas próximas eleições, terá de pagar a conta e efetuar os ajustes no mercado cambial, dado que em algum momento esses contratos futuros vão reverter-se em demanda por câmbio no mercado à vista.

A dúvida diz respeito à forma do ajuste. O risco é de uma correção abrupta, inclusive, considerando o contexto internacional, que será marcado por processos de elevação de juros em importantes países como Estados Unidos e Inglaterra.

É fato que não é só na área cambial que há herança maldita. Nessa conta devem incluir-se os passivos fiscais, além da necessidade de realinhamento de preços-chave, como é o caso de energia elétrica, combustível e transporte público, diante das distorções criadas ao longo dos últimos anos.

Ainda há que ponderar a oportunidade perdida com a falta de interesse por acordos comerciais. A opção pelo Mercosul, em que os principais parceiros, Argentina e Venezuela, além de protecionistas, passam por grave crise, não permite a exploração do potencial do comércio exterior. Os países desenvolvidos já recuperam o crescimento e, com isso, passam a demandar mais bens importados. O Brasil, porém, segue de fora deste novo ciclo de crescimento.

Caso o atual governo, se reeleito, persista na manutenção da atual equipe econômica e na política denominada "Nova Matriz Econômica", o Brasil corre o risco de perder sua classificação de grau de investimento. Assim, o País enfrentará dificuldades no financiamento das contas externas já em 2015. Respaldam essa afirmação:

O fato de o déficit em conta corrente ter aumentado de 2,1% do produto interno bruto (PIB) para 3,6% entre 2011 e 2013. Para 2015 a projeção é chegar a 4,2% do PIB. O principal motivo é o enfraquecimento da balança comercial, cujo saldo passou de US$ 29,8 bilhões a US$ 2,6 bilhões no período.

O prêmio de risco País, medido pelo Credit Default Swap (CDS), era em 2011 inferior à média dos países do pacto do Pacífico (México, Colômbia, Peru e Chile) e hoje é o dobro.

Menor disponibilidade de liquidez externa, considerando o processo de alta de juros pelo Federal Reserve e pelo Banco da Inglaterra.

Aumento da fragilidade fiscal via redução dos superávits primários dos últimos três anos de 3,1% para 1,5% do PIB, com a agravante das manipulações criativas dos resultados fiscais.

Em suma, a atuação do Banco Central no mercado cambial tem gerado riscos no sentido de um ajuste abrupto, o que pode resultar em significativa depreciação da moeda. Adicionalmente, e não tão aparente, mas existente, o câmbio sobreapreciado causa distorções na formação de preços relativos que agravam os desequilíbrios nas contas externas do País, o que traz risco inflacionário, redução nos investimentos e também do crescimento econômico.


A sociedade, segundo Marina - DEMÉTRIO MAGNOLI

O GLOBO - 28/08


Sua vida política organizou-se ao redor de relações com coleção de ONGs. Seu partido chama-se Rede para marcar uma distância com o sistema político-partidário


No registro do lugar-comum, Dilma Rousseff é associada com qualificativos como rude, ríspida, mandona e autoritária. No mesmo registro, atribui-se a Marina Silva qualidades opostas: suavidade, doçura, flexibilidade, reflexão. A gerente tecnocrática, de um lado; a filósofa da “nova política”, do outro. O lugar-comum é a notação do mundo das aparências. Os primeiros passos de Marina como candidata presidencial oferecem indícios de que o contraste é uma má caricatura — e, ainda, de uma similitude fundamental entre as duas candidaturas.

Marina rejeitou participar das campanhas de Lindbergh Farias (PT-RJ), Geraldo Alckmin (PSDB-SP) e Beto Richa (PSDB-PR), apoiados pelo PSB, sob o curioso argumento de que sua ausência desses palanques fora previamente acordada com Eduardo Campos. O gesto equivale a selecionar exclusivamente os produtos que lhe interessam: da prateleira do presente, ela fica com a posição de candidata presidencial; da prateleira do passado, com um acordo aplicável apenas a uma postulante à vice-presidência. Das fagulhas da manobra oportunista acendeu-se uma fogueira no PSB. Mas a luz desse fogo ilumina algo mais relevante: a crença de Marina de que uma pureza singular proporciona-lhe liberdades políticas excepcionais.

Na réplica à pergunta de um jornalista encontram-se pistas na mesma direção. Indagada sobre sua permanência no PSB caso triunfe na corrida ao Planalto, Marina saiu-se com uma não resposta, articulada na forma de um longo desvio em torno das balizas da “nova política”. Ao sonegar a informação, a candidata circunda uma dúvida legítima de todos os eleitores: afinal, o voto nela tem o potencial de sagrar uma presidente do PSB ou da Rede? Contudo, para além da constatação de que Marina refugia-se em ambiguidades dignas da “velha política”, a não resposta contém um elemento mais esclarecedor.

À pergunta, a candidata replicou, hieraticamente: “Nós não devemos tratar o presidente como propriedade de um partido. A sociedade está dizendo que quer se apropriar da política. E as lideranças políticas precisam entender que o Estado não é o partido, e o Estado não é o governo.” Em tudo isso, há um sopro de justa aversão à putrefata elite política brasileira — e uma crítica pertinente à indistinção lulopetista entre Estado, governo e partido. Entretanto, o núcleo do raciocínio situa-se na palavra “sociedade”, traduzida de modos diversos pelas diferentes correntes de pensamento político. O que é a “sociedade”, segundo Marina?

Segundo Margaret Thatcher, “essa coisa de sociedade não existe”. De acordo com o polo ultraliberal, existem apenas indivíduos que realizam intercâmbios no mercado. No extremo oposto, encontra-se o polo neocorporativista, que define a sociedade como um conjunto de “coletivos” legitimados por um selo estatal. O lulopetismo coagulou essa concepção pelo Decreto 8.243, que institui a “democracia participativa” e normatiza os “conselhos de políticas públicas”. No fundo, o governo está dizendo que a sociedade é uma extensão do Estado, o ente responsável pela seleção dos “movimentos sociais” convidados a se sentar à volta das mesas de negociação.

Mas, e Marina? Dois meses atrás, a então candidata a vice defendeu a substância do Decreto 8.243, que ressurge numa versão preliminar de seu programa de governo. A vida política de Marina organizou-se ao redor de suas relações com uma coleção de ONGs. Seu partido chama-se Rede para marcar uma distância com o sistema político-partidário. Teia de movimentos, de ONGs — eis o sentido do nome cunhado pelos “marineiros”. Na sentença “a sociedade quer se apropriar da política”, não é abusivo ler que o Estado deve estabelecer uma relação preferencial com as ONGs “marineiras”.

À primeira vista, a Marina “doce”, “flexível” e “reflexiva” concorda com um princípio caro ao lulopetismo — ou seja, à “ríspida”, “mandona” e “autoritária” Dilma. Tanto uma quanto a outra, ao que parece, imaginam-se portadoras da prerrogativa de falar pela “sociedade”. A diferença residiria no detalhe: os “movimentos sociais” do lulopetismo não são os mesmos que os do “marinismo”. Nessa linha de raciocínio, não é casual que Marina sinta-se à vontade para ignorar as alianças do partido cuja sigla ostenta diante dos eleitores e para desdenhar da indagação sobre sua filiação partidária na eventualidade da vitória.

Todo o poder às ONGs! — é isso a “nova política” cantada no verso difícil de Marina? O lulopetismo degradou as instituições da democracia representativa, especialmente o Congresso, em nome de uma “democracia participativa” que funciona como metáfora de seu próprio poder. Nessa moldura, o projeto de uma “nova política” vertebrada pelos movimentos “marineiros” significaria mais continuidade que ruptura — e o “novo” seria tão somente um disfarce eleitoral do “velho”.

É cedo demais, porém, para formular diagnósticos definitivos. Marina é uma obra aberta, no sentido positivo da expressão. A evolução do pensamento “marineiro” expressou-se, em 2010, por uma narrativa avessa ao sectarismo, capaz de tecer elogios paralelos à estabilização econômica de FHC e às políticas contra a miséria de Lula. Hoje, na candidata comprometida com a restauração da credibilidade do tripé de política macroeconômica, há poucos traços da senadora petista que votou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. Um sintoma da abertura à mudança apareceu em suas últimas declarações, segundo as quais “aprofundar a democracia significa a valorização das instituições”, e no alerta de que a versão preliminar do programa não passou pelo seu crivo.

A candidatura de Marina surfa na onda imensa de indignação popular contra a “velha política” — ou seja, a ordem de coisas que estimula o consumo privado sem produzir bens públicos. Nem por isso ela deve ser autorizada a utilizar o refrão da “nova política” como instrumento de prestidigitação.

O PT fora da conta - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 28/08


O governo terá de renegar as maiores bobagens da diplomacia petista, se quiser seguir a proposta do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Mauro Borges: fortalecer a relação comercial com parceiros estratégicos, como Estados Unidos, Europa e China. E terá de renegar a incompetência na gestão de projetos de infraestrutura e o populismo na política educacional.

Em princípio, o ministro está certo. É preciso rever as relações comerciais com os principais parceiros e tratar com maior seriedade a palavra estratégia. Os Estados Unidos foram neste ano, até julho, o maior importador de manufaturados brasileiros. Em outros anos, têm ficado em segundo lugar, logo abaixo da Argentina, mas sua política tem sido sempre mais confiável e previsível, sem as barreiras de ocasião e os truques inventados seguidamente na Casa Rosada.

Mas a diplomacia brasileira, sob o terceiro-mundismo instalado no Planalto em 2003, menosprezou a relação com os mercados mais desenvolvidos e definiu como grande objetivo redesenhar o mapa da economia mundial juntamente com novos parceiros ditos estratégicos. Esses parceiros até estavam dispostos a mexer no mapa, mas para cumprir seus objetivos nacionais, sem levar em conta as fantasias do presidente Lula e de seus conselheiros.

O presidente brasileiro, aliado ao colega argentino Néstor Kirchner, manobrou para liquidar o projeto da Área de Livre-Comércio das Américas (Alca). A diplomacia brasileira voltou-se, então, para alianças com países emergentes e em desenvolvimento. Aceitou o protecionismo argentino e acomodou-se em posição defensiva em relação ao mundo rico. Por sua vez, a negociação do acordo de livre-comércio com a União Europeia, iniciada nos anos 90, está emperrada até hoje. Negociar com ricos, só na Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). Mas essa rodada também emperrou e continua paralisada.

Nesse período, a China converteu-se na maior parceira comercial do Brasil, no papel de maior importadora de matérias-primas. Em rápido crescimento, a China compraria produtos básicos de quaisquer fornecedores, mas o governo brasileiro parece ter sido incapaz de perceber esse fato.

Em sua ânsia para mudar a geopolítica mundial, a diplomacia petista aceitou uma relação semicolonial com a China. Neste ano, até julho, só 3,17% das exportações brasileiras para a China foram de manufaturados e 12,13%, de industrializados. De lá para o Brasil vieram quase só manufaturados. Não foi muito diferente o comércio com outros grandes países emergentes: 11,80% de manufaturados nas vendas para a Índia e 44,31% de industrializados. Para a Rússia, as proporções foram de 7,17% e 20,65%.

O comércio com os velhos imperialistas foi diferente. Manufaturados compuseram 49,96% das exportações para os Estados Unidos. Somados os semimanufaturados, a indústria exportou para lá 69,49% do valor total. Além disso, as vendas para o mercado americano foram 13,5% maiores que as de um ano antes, enquanto as exportações totais foram 0,6% menores. Para a Argentina, o Brasil exportou 22,1% menos que em 2013 - efeito combinado da crise no vizinho e de seu protecionismo. Para a União Europeia, 47,57% das vendas foram de industrializados (33,82% de manufaturados).

Acordos comerciais teriam facilitado o acesso da indústria aos EUA e à Europa, mas isso ficou fora da estratégia petista. Também o investimento - que dinamizaria o setor, aumentando sua competitividade - emperrou nos últimos 12 anos, em parte por mera inépcia administrativa, em parte pela demora do governo em aceitar parcerias com o setor privado.

Quanto à educação - que, como reconhece o ministro, é muito importante para a competitividade e para a inovação -, foi prejudicada pela política populista de apoio ao ingresso no ensino superior. Os níveis básico e médio foram negligenciados e só há pouco o governo descobriu o ensino técnico.

O ministro mencionou insuficiência de ações nos últimos 30 anos. Mas o PT está há 12 no poder. Isso fica fora da conta?


Aécio no pior dos mundos - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 28/08


BRASÍLIA - A dúvida é se a situação de Aécio Neves é "difícil" ou "crítica". Afora a nuance semântica, o mar não está para peixe e o ar eleitoral não está para tucano.

Aécio contava em crescer a partir de agora, mas desabou um avião na cabeça de todo mundo, e ele, em vez de crescer, ou ao menos estabilizar por baixo, passou a cair. Num momento decisivo, isolou-se no terceiro lugar, assistindo à ida de Dilma e Marina para o segundo turno, com Marina disparando para a vitória.

Acrescente-se a isso o quadro eleitoral em Minas, que é o coração da campanha e do discurso de Aécio: o PT enfrenta dificuldades por toda a parte, mas o candidato petista ao governo do Estado de Aécio, Fernando Pimentel, tem uma posição bastante confortável em relação ao tucano Pimenta da Veiga.

Um segundo turno em Minas tende a favorecer o tucano, mas, por ora, Aécio está diante do pior dos mundos: a possibilidade de tirar o PSDB do segundo turno presidencial, pela primeira vez, e de perder no seu próprio reduto, onde se crê imbatível.

Na reta final das campanhas, ondas, de um lado, e a percepção de derrota, de outro, são avassaladoras. A onda é Marina. A percepção de que pode não haver mais tempo de reverter o desastre atinge Aécio.

Para ilustrar: no debate da Band, Marina só repetiu obviedades contra a polarização PT-PSDB e sobre "a nova política"; Dilma ficou acuada, com o mesmo blablablá de sempre sobre seus programas pontuais e batendo no adversário errado; Aécio saiu-se bem, botando o dedo nas feridas do governo e pegando o ponto fraco de Marina, a imprevisibilidade. Mas a mídia --a Folha, por exemplo-- concentrou-se nas duas favoritas, mal deu bola para o tucano.

Essa situação, "difícil" ou "crítica", reacende uma velha acusação: Aécio lavou a mãos para os tucanos paulistas em 2002, 2006 e 2010. Quando entrasse, julgava, estaria virtualmente eleito. E já serão 16 anos fora do poder. Quantos mais?

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

‘Aécio é oposição; Dilma, situação; e Marina, enrolação’
Senador Aloysio Nunes (PSDB), vice de Aécio, disparando contra a candidata do PSB


PSDB SE QUEIXA DA TRAIÇÃO DOS ALIADOS DE AÉCIO

O candidato Aécio Neves (PSDB) não aparenta abatimento com as últimas pesquisas, que o colocam em terceiro lugar na disputa, mas mal disfarça a sua decepção com os casos de suposta traição que chegam ao seu conhecimento. Ontem, a cúpula do PSDB soube que Paulo Souto (DEM), aliado que disputa o governo da Bahia, até já exibe imagens da presidenta Dilma em sua propaganda eleitoral.

SEM BANDEIRA

Contaram a Aécio que Cássio Cunha Lima (PSDB) relutou muito para exibir uma bandeira do presidenciável numa carreata na Paraíba.

SEM FAZER FORÇA

O comando da campanha de Aécio também censura a atitude de Geraldo Alckmin, em São Paulo: posa para fotos, mas ajuda pouco.

SÓ UMA FERE

Aécio mantém a avaliação de que o desempenho de Marina Silva (PSB) nas pesquisas é apenas “uma febre passageira”.

PENSANDO BEM...

...com o candidato Aécio Neves em 3º nas pesquisas, o site tucano “Vamos Agir”, lançado antes, deveria se chamar “Vamos reagir?”.

STF DEVE DECIDIR O CASO ARRUDA ANTES DA ELEIÇÃO

O Supremo Tribunal Federal julgará antes de outubro a impugnação da candidatura de José Roberto Arruda (PR) ao governo do Distrito Federal, se houver dúvida constitucional. Fonte do STF garante que casos como o de Arruda terão prioridade. Há precedentes. Em 2010, julgou antes da eleição recurso de Joaquim Roriz, que teve impugnada a candidatura. Ele acabou desistindo em favor da mulher, Weslian.

PRESSÃO

Confiante nas pesquisas, o partido do candidato impugnado planeja criar o movimento “O povo quer Arruda”, para pressionar o Supremo.

PALAVRA FINAL

Arruda tem 3 dias para protocolar “embargos infringentes” ao Tribunal Superior Eleitoral. Depois, será a vez do Supremo Tribunal Federal.

A IMPUGNAÇÃO

O TRE-DF impugnou a candidatura de Arruda por considerá-lo enquadrado na Lei Ficha Limpa. O TSE confirmou a sentença.

MATOU A PAU

Pesquisas por telefone, realizadas pelas principais campanhas presidenciais indicaram vitória de Marina Silva (PSB) no debate da Band, terça-feira. Ela apareceu segura e serena, mas determinada.

SEM MARQUETEIRO

No debate da Band, o candidato Aécio Neves (PSDB) foi o único que não se faz assessorar por um marqueteiro. Convocou para a tarefa apenas Zuza Nacife, que tem experiência apenas em redes sociais.

DECEPÇÃO

A candidata a presidente Luciana Genro (Psol) rolou o lero quando perguntada sobre planos para segurança pública. Depois se disse frustrada, pois não lhe perguntaram mais nada no debate da Band.

SORVETÃO

Após defender a legalização da maconha no debate na Band, Eduardo Jorge (PV) foi o candidato a presidente mais gozado nas redes sociais. Virou meme. Todos achando que fez por merecer sorvetão na testa.

COMO SE FAZ

A quatro anos da Copa do Mundo, a Rússia já inaugurou dois estádios. O mais recente foi a Arena Otkrytie, que poderá receber 45 mil pessoas e custou cerca de R$ 940 milhões privados. Sem dinheiro público.

ONDE TEM ODEBRECHT...

...tem confusão: o governo do Peru anunciou devassa no contrato do consórcio liderado pela empreiteira Odebrecht para construir o Gasoduto do Sul. A obra está avaliada em quase R$ 16 bilhões.

PREVISÃO DE TROMBADA

O deputado Renato Simões (PT-SP) acha inevitável o choque entre Marina (PSB) e Eduardo Gianetti, que faz o seu programa econômico. Ele defende a redução do papel do Estado na economia. Ela, não.

ALMOÇO QUASE GRÁTIS

Dilma (PT) faz render o orçamento de R$ 298 milhões da sua campanha. Já foram vários almoços 0800 com operários e ontem só pagou R$ 1 em restaurante popular no Rio de Janeiro.

LEGISLAÇÃO JABUTICABA

Nova jabuticaba na política brasileira: o candidato zumbi. A 40 dias da eleição, ninguém sabe se Arruda disputará ou não a eleição no DF.


PODER SEM PUDOR

SOLTO SOB PROTESTOS

Opositores eram presos aos montes, logo após a decretação do AI-5, em dezembro de 1968. Na Bahia, o poeta Tomás Seixas, o "Bebê", não se conformou com o esquecimento de seu nome na lista dos perseguidos. Amigos se divertem contando que ele até telefonou ao coronel Gabriel Duarte, temido secretário de segurança:

- Estou ligando anonimamente para lembrar que os senhores precisam mandar prender um subversivo perigoso, que continua solto.

- Quem é?

- O poeta Tomás Seixas.

- Não conheço - reagiu o coronel.

- É conhecido como "Bebê" - esclareceu.

- Ah, esse é um idiota.

O poeta ficou injuriado:

- Idiota é você! Agora me prenda por desacato, seu incompetente!

"Bebê" continuou solto.

quarta-feira, agosto 27, 2014

Fantasma de Celso Daniel assombra companheiros - JOSÉ NÊUMANNE

O ESTADO DE S.PAULO - 27/08


Quem poderia imaginar que na quarta campanha presidencial posterior ao aparecimento do cadáver do prefeito de Santo André licenciado para coordenar o programa de governo da candidatura vitoriosa de Luiz Inácio da Silva, do PT, o fantasma de Celso Daniel deixaria o limbo para assombrar seus companheiros? E, pelo visto, o espírito vindo do além não se limitou a puxar o dedão do pé de uns e outros em sono solto, mas deixou-os a descoberto em pleno inverno. Para sorte deles, este inverno não tem sido tão gélido assim. Mas a alma é fria que só. E como é!

Sábado, em reportagem assinada por Andreza Matais, de Brasília, e Fausto Macedo, este jornal noticiou que a Polícia Federal (PF) apreendeu no escritório da contadora Meire Poza, que prestou serviços ao famigerado doleiro Alberto Youssef, contrato de empréstimo de R$ 6 milhões. O documento, assinado em outubro de 2004, reconhece dívida de tal valor, a ser paga em prestações em 2004 e 2005 pelas empresas Expresso Nova Santo André e Remar Agenciamento e Assessoria à credora, a 2S Participações Ltda. A primeira pertence a Ronan Maria Pinto, empresário do ABC e personagem do sequestro e morte de Celso Daniel, cujo cadáver foi encontrado no mato em Itapecerica da Serra em janeiro de 2002. A 2S pertencia ao publicitário mineiro Marcos Valério Fernandes de Souza, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por formação de quadrilha, corrupção ativa, lavagem de dinheiro, peculato e evasão de divisas a pena de 37 anos, quatro meses e seis dias e multa de R$ 3,062 milhões.

O elo encontrado pelos federais entre o assassinato do principal assessor de Lula na campanha presidencial de 2002, o escândalo de corrupção do mensalão e as denúncias apuradas na Operação Lava Jato, protagonizadas pelo doleiro acusado de lavar R$ 10 bilhões de dinheiro sujo, estava numa pasta identificada como "Enivaldo" e "Confidencial". A PF supõe que este seja Enivaldo Quadrado, condenado no mensalão.

A investigação em que o juiz federal Sérgio Moro encontrou provas suficientes para mandar prender o ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa, que substituiu Sérgio Gabrielli na presidência da empresa 24 vezes, apurou que a corretora Bônus Banval não era de Enivaldo Quadrado, mas, sim, de Alberto Youssef. Costa, que o ex-presidente Lula, conforme testemunhos citados no noticiário do escândalo, chamava de Paulinho e teria oferecido ajuda nas investigações em troca de alívio na pena (pelo visto, ele conta até com a eventual liberdade), tem sido motivo de aflição de gente poderosa na República, temendo que suas revelações cheguem a comprometer a realização das eleições gerais de outubro.

O que já se sabe sem sua ajuda é grave. E a entrada em cena do espectro de Celso Daniel - que não é Hamlet, mas já expôs parte considerável da podridão que reina nestes tristes trópicos -, se não alterar o calendário eleitoral, abalará significativamente a imagem de vários figurões que disputam o posto mais poderoso de nossa velha e combalida República.

Em depoimento ao Ministério Público (MP) em dezembro de 2012, também revelado pelo Estado, Valério, chamado pejorativamente de "carequinha" pelo delator Roberto Jefferson, seu colega no banco dos réus do mensalão, contou que dirigentes do PT lhe pediram R$ 6 milhões a serem destinados ao empresário Ronan Maria Pinto. Conforme o depoente, o dinheiro serviria para calar Ronan, que estaria chantageando Lula, o secretário da Presidência, Gilberto Carvalho, e o então chefe da Casa Civil de Lula, José Dirceu. Gilberto Carvalho, conforme se há de lembrar quem ainda não perdeu a memória, tinha sido secretário de Celso Daniel e foi acusado pelos irmãos deste de transportar malas com as propinas cobradas de empresários de ônibus em Santo André para Dirceu, à época presidente do PT.

De acordo com a reportagem do Estado no sábado, há 20 meses "o PT não se manifestou oficialmente, mas dirigentes declararam que ele não merecia crédito". Com a descoberta do documento, contudo, parte da versão de Valério - a que se refere à "dívida", embora não se possa afirmar o mesmo em relação ao motivo desta - deve ter passado a merecer crédito, se não do PT, ao menos da PF. Crédito similar, por exemplo, ao dado pelo partido no poder federal ao chamado "operador do mensalão" quando o mineirinho emergiu como o gênio do esquema de distribuição de dinheiro, que o relator do processo no STF, Joaquim Barbosa, desvendou de maneira lógica e implacável.

O documento assinado por Valério nos papéis da contadora do doleiro acaba com qualquer dúvida, se é que alguém isento e de boa-fé possa ter tido alguma, de que nada há a imputar de político ou fictício à condenação de Dirceu, Valério, José Genoino e outros petistas de escol a viverem parte de sua vida no presídio da Papuda, em Brasília. Isso bastaria para lhe garantir a condição de histórico no combate à corrupção. Mais valor terá se inspirar o MP estadual a exigir da Polícia Civil paulista uma investigação mais atenta e competente sobre a morte de Daniel.

Ao expor a conexão entre o assassinato do prefeito, a compra de apoio ao governo Lula e a roubalheira desavergonhada na Petrobrás, a dívida contraída por Ronan põe em xeque todos quantos, entre os quais ministros do Supremo, retiraram a "formação de quadrilha" da lista de crimes cometidos por vários réus do mensalão. Negar a prática continuada por mais de dez anos de um delito em bando formado pelos mesmos personagens conotaria cinismo e até cumplicidade.

A delação de Paulo Roberto merecerá um prêmio, sim, se ele for capaz de informar quem são os verdadeiros chefões nos três delitos. Acreditar que possam ser um menor da favela, um publicitário obscuro e um doleiro emergente seria como nomear Papai Noel ministro dos Transportes.

Sustentar é preciso - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 27/08


De susto os números da pesquisa Ibope/Estadão/TV Globo não mataram ninguém nos comitês eleitorais dos principais candidatos a presidente: Dilma Rousseff balança para baixo com 34%, Marina Silva sobe para 29% e Aécio Neves oscila para 19%.

Grosso modo os índices confirmam o que as consultas telefônicas informavam diariamente às campanhas, desde que o acaso levou Marina de novo à condição de titular perdida junto com o prazo de registro de seu partido na Justiça Eleitoral.

Mesmo antes disso, lembra o cientista político Antonio Lavareda, quatro pesquisas publicadas entre outubro de 2013 e abril de 2014 apresentavam a ex-senadora sempre em segundo lugar. Na última, tinha 27% das intenções de votos.

Era concorrente forte, com força devidamente medida. Tira votos de todo mundo. Não por outro motivo forças ligadas ao PT colaboraram para que ela não conseguisse a tempo o registro da Rede de Sustentabilidade. Marina no páreo, já se sabia, seria garantia de segundo turno.

Pode-se dizer, então, que por ora as coisas voltaram ao seu curso natural. Com acréscimo do fator comoção pela morte de Eduardo Campos e a estrutura de um partido como o PSB - minimamente mais bem organizado do que seria a Rede. Sem falar dos utilíssimos contatos da legenda com o mundo real.

Isso aliado à sensação de bem-estar que o voto em Marina proporciona ao eleitorado de um modo geral, Dilma Rousseff e Aécio Neves têm pela frente a difícil tarefa de travar um duelo entre o concreto e o intangível.

Mas ela também terá de enfrentar os espinhos inerentes ao pesado exercício do contraditório com os adversários que não lhe darão trégua.

Lei da atração. O partido agora em segundo lugar na disputa presidencial não quer comprar briga com o PT e o PSDB; prefere tentar neutralizar os adversários.

Razão dos elogios feitos aos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio da Silva, ao ex-governador José Serra e aos "melhores quadros" dos dois partidos que, segundo declararam correligionários de Marina Silva, seriam convidados a fazer parte do governo caso ela fosse eleita.

Pelo mesmo motivo a candidata apressou-se a incluir na agenda o aviso de que não concorreria à reeleição. O recado: sinalizar que em 2018 o terreno estaria livre. O canto da sereia, contudo, nesse momento não seduz tucanos nem petistas. Muito pelo contrário.

Majestades. A presidente Dilma Rousseff voltou a abordar a crítica da candidata Marina Silva ao perfil de gerente dizendo que essa característica é essencial à função. E acrescentou: quem não compreende isso está querendo ser "rainha".

O termo remete à imagem de "rainha" pretendida pelo marqueteiro oficial, João Santana, para a presidente quando ela ainda era candidata. Explicou isso numa entrevista à Folha de S.Paulo em que falava como Dilma poderia vir a suceder Lula também no "grande vazio sentimental e simbólico" deixado por ele no público.

Discorria Santana: "Há na mitologia política e sentimental brasileira uma imensa cadeira vazia, que chamo metaforicamente de cadeira da rainha e que poderá ser ocupada por Dilma".

A presidente agora usou a palavra em sentido diferente do utilizado por Santana. Ela quis dizer que a adversária ficaria alheia aos problemas cotidianos do governo, como uma rainha da Inglaterra. Ele se referia à figura que desperta reverência e adoração.

Dilma não conseguiu ocupar essa cadeira. Faltam-lhe os requisitos necessários para a montagem do personagem. Já Marina os tem de sobra. Concorre no terreno do imaginário, naquela via por onde já transitou a lenda do operário que comandava um partido que mudaria a política no Brasil.

Uma ideia simples - ELIO GASPARI

O GLOBO - 27/08

Todos os candidatos prometem crescimento e austeridade. Entre os chavões mais batidos vem sempre a reforma tributária, tema complexo, chato mesmo, acaba sempre em parolagem. Promete-se a simplificação das leis que regulam os tributos, e a cada ano eles ficam mais complicados. Uma coletânea da legislação brasileira pesa seis toneladas. Aqui vai uma contribuição, trazida pelo Instituto Endeavor. Relaciona-se com o regime de cobrança de impostos de pequenas empresas, aquelas que faturam até R$ 3,6 milhões por ano (R$ 300 mil por mês). É o Simples --pode-se estimar que ele facilita a vida de algo como 3 milhões de empresas ativas.

Seu mecanismo, como diz o nome, é simples. Em vez de pagar sete impostos, cada um com suas guias, o empresário desconta entre 4% e 12% do seu faturamento. Ao fim do ano, quem faturou no limite de R$ 3,6 milhões terá pago à Viúva R$ 435 mil. Há poucas semanas, numa iniciativa benfazeja, a doutora Dilma expandiu esse regime, aliviando centenas de milhares de profissionais liberais, com alíquotas de até 16%.

O problema surge exatamente na hora em que a empresa trabalha direito, cresce e fatura além do teto. Quem comete essa imprudência é mandado ao inferno dos outros regimes tributários. Numa simulação, resulta que sua conta sobe para algo entre R$ 652 mil e R$ 727 mil. Com uma margem de lucro de 10%, arrisca ir para o ralo.

Como ninguém trabalha para pagar mais impostos, acontece o óbvio. O empresário desiste de crescer ou vai para a informalidade e, daí, para a sonegação. Desde que o rei da Itália pôs fiscais na orla marítima para vigiar as mulheres que iam ao mar para buscar água para ferver o macarrão (o sal era monopólio do Estado), sabe-se de poucas irracionalidades parecidas.

O Brasil tem 4,5 milhões de empresas grandes, médias e pequenas. Delas, entre 2008 e 2011, cerca de 17 mil pequenas cresceram 20% ao ano durante três anos seguidos. É provável que tenham gerado 300 mil empregos, 10% da massa criada no período. Quase todas estavam no Simples, muitas delas às portas do inferno do sucesso.

Se começar hoje uma discussão em torno da elevação do teto de faturamento do Simples, chega-se a algum lugar. No mínimo, reconhece-se que a mudança abrupta, derivada do êxito, não faz sentido. Pode-se criar uma escadinha. Pode-se relacionar o benefício ao número de empregos criados, pode-se fazer qualquer coisa, desde que se tenha na cabeça que o crescimento de uma empresa é um benefício para a sociedade.

Os impostecas do governo certamente dirão que uma iniciativa dessas reduzirá a arrecadação. Isso poderá acontecer num primeiro momento, mas o que engorda a bolsa da Viúva não é apenas a cobrança de mais impostos, é o crescimento da economia.

O imperador Tibério ensinava que suas ovelhas deviam ser tosadas, e não escalpeladas. Se a empresa for para a sonegação, à espera de uma anistia parcial disfarçada (pode me chamar de Refis), todos perdem. Ademais, é preferível abrir mão de alguma arrecadação com um alívio genérico do que ficar distribuindo benefícios para grandes empresas com grandes amigos no Planalto ou no Congresso, colocando gatos nas tubas das medidas provisórias.

A primeira vítima - ALEXANDRE SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 27/08


Afirmar que as contas públicas estão organizadas é um acinte; na eleição, a primeira vítima é a verdade


Vários dos 18 leitores devem ter suas contas domésticas agendadas para pagamento por débito automático. Nesse caso, o banco costuma realizar o pagamento mesmo quando os fundos não são suficientes, desde que o cliente tenha acesso ao chamado "cheque especial", que, aliás, sugiro fortemente ser evitado a todo custo.

De fato, quem precisa usar o "cheque especial" para pagar as despesas do mês por causa de eventuais insuficiências de fundos tem certeza absoluta de que gastou mais do que poderia.

Caso reste ainda alguma dúvida, a chegada da fatura dos juros cobrados sobre saldo insuficiente deve ser mais do que o bastante para convencer o cidadão de que ele deve dinheiro ao banco e que é bom tratar de cobrir o buraco o mais cedo possível, antes que a bola de neve termine por crescer além do sustentável.

Aparentemente, contudo, o governo federal não se considera sujeito ao mesmo tipo de regra. Conforme noticiado pela imprensa, o Tesouro Nacional não tem depositado recursos nas contas de seus agentes financeiros (Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, BNDES) para cobrir algumas das suas despesas agendadas para "débito automático".

Isso não faz nenhuma diferença para os beneficiários finais (os que recebem, por exemplo, dinheiro dos programas sociais) porque os bancos federais fazem o pagamento em nome do governo, mesmo quando os recursos não são suficientes.

A contrapartida disso, porém, é o aumento do endividamento do governo federal com seus bancos. E, como ocorre com toda dívida, sobre ela incidem juros a serem eventualmente pagos pelo Tesouro Nacional, ainda que não tão elevados quanto os associados ao "cheque especial".

Ao contrário do cidadão comum, porém, pelos critérios da contabilidade pública, nem os gastos cobertos pelos bancos federais aparecem entre as despesas nem o saldo negativo dessas contas é classificado na dívida governamental. Sabedor disso, o Tesouro ganhou uma "licença para gastar", conhecida no jargão como "pedalada", nome que me causa imensa tristeza dada a minha condição de ciclista amador.

Posto de outra forma, os bancos federais financiam o governo, isto é, emprestam-lhe dinheiro, prática em tese proibida pela LRF (Lei de Responsabilidade Fiscal) e que, anos atrás, esteve na raiz da quebra em série dos bancos estaduais.

Há, é bom que se diga, ainda discussão para saber se a operação descrita acima se encaixa no rol de operações vedadas pela LRF (acredito que sim, porém não sou especialista na parte legal), mas resta pouca dúvida de que o espírito da coisa contraria frontalmente as boas práticas de gestão fiscal.

A começar pela falta de transparência. Não se trata da primeira vez (nem certamente a última) em que o Tesouro Nacional é pego às margens das normas contábeis, disfarçando de forma nada dis- creta resultados fiscais bem aquém das metas fixadas pelo próprio governo federal. Isso só serve para aumentar o descrédito quanto às estatísticas públicas, um retrocesso considerável nos nossos padrões de governança.

Além disso, porém, o fato é que --mesmo sem terem sido contabi- lizados-- os gastos ocorreram, assim como seus efeitos sobre a ati- vidade econômica, a inflação e demais variáveis de interesse. Em particular, a inflação no teto da meta (quando não acima dele) se deve, em boa parte, precisamente às persistentes estripulias com as contas públicas.

A verdade é que a política fiscal, apesar das promessas de austeridade do governo e dos supostos cortes de gastos anunciados no começo do ano, tem sido não apenas bem mais frouxa do que a observada no ano passado mas ainda pior do que os números oficiais nos mostram.

Nesse contexto, a afirmação do ministro da Fazenda ("As nos- sas contas públicas estão absolutamente organizadas") chega a ser um acinte aos que têm por ofício acompanhar nosso desempenho fiscal. Assim como na guerra, na época de eleição a primeira vítima é a verdade.

A outra eleição - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 27/08
Sobrou até para o Pastor Everaldo. Ele vinha bem, ali entre 3% e 4% das intenções de voto, e tinha planos de até dobrar essas intenções para se tornar um eleitor de peso no segundo turno da eleição presidencial. Veio o fenômeno eleitoral Marina Silva e tirou os votos evangélicos do pastor, um efeito colateral da verdadeira limpa que Marina fez, acrescentando nada menos que 20 pontos aos 9 que Eduardo Campos tinha na última pesquisa Ibope: Dilma e Aécio perderam 4 pontos cada; os candidatos nanicos perderam 3 pontos no seu conjunto; a taxa de votos nulos ou em branco caiu 6 pontos; e a de indecisos, outros 3 pontos.

A questão parece ser que Dilma e Aécio se prepararam para uma eleição e estão disputando outra, que mudou radicalmente desde a morte de Campos, há 13 dias. Não atribuo esse crescimento de Marina à comoção popular, embora a morte trágica de Campos tenha dado a ela uma exposição nacional maior naqueles dias do que terá em toda a campanha eleitoral, com os poucos minutos que tem de propaganda oficial.

Embora sejam números semelhantes, o crescimento do candidato Paulo Guerra em Pernambuco, nada menos que 18 pontos nos últimos dias, dando-lhe condições de aspirar a vencer a eleição para governador, nada tem a ver com os 20 pontos que Marina acrescentou à sua candidatura.

Em Pernambuco, a comoção com a morte de Campos e a politização proposital de seu enterro pela família, numa homenagem à sua memória política, vão se transformar possivelmente na vitória do candidato que o ex-governador havia escolhido para sucedê-lo. Com relação a Marina, sua votação me parece fruto do despertar de um eleitorado que estava em busca de um candidato que se identificasse com o desejo de mudança registrado em todas as pesquisas.

Mudança, sobretudo, de relação política entre o Palácio do Planalto e o Congresso, e deste com os cidadãos-eleitores. A busca é tão clara que o candidato tucano Aécio Neves apareceu em pesquisas anteriores em empate técnico com a presidente Dilma num possível segundo turno, e hoje aparece perdendo por seis pontos, o que o coloca a dois pontos apenas desse empate, mesmo estando em terceiro lugar.

Já a candidata Marina está a um ponto do empate técnico no primeiro turno com a presidente, e aparece na frente 9 pontos no segundo turno. Creio que, se ela tivesse conseguido organizar seu partido, estaria desde o início disputando o segundo lugar com Aécio, e haveria mais tempo para que a escolha fosse feita de maneira racional, como propõem os tucanos.

A presidente Dilma montou toda sua campanha eleitoral no contraponto com o PSDB, tentando diluir seus fracassos nos 12 anos de governos petistas. Já Aécio Neves preparou-se para discutir os quatro anos de Dilma, e mostrar-se como a escolha segura para quem queria dar um fim aos anos de PT no poder. A mudança segura.

Enquanto seu contraponto era Eduardo Campos, ia no caminho certo, e tinha até condições de vencer num segundo turno - e continua tendo, como mostra a pesquisa Ibope -, mas agora está às voltas com uma concorrente que traz consigo a marca do novo, fantasiosa embora, pois Marina está na política há muito tempo, já foi vereadora, senadora, ministra de Estado, já esteve em três partidos diferentes (PT,PV e PSB) e prepara sua Rede para mais adiante.

Mas conseguiu, nesse tempo todo, manter-se fiel a seus princípios éticos na política, a ponto de dar a sensação a seus seguidores de que ela nunca esteve envolvida na política tradicional, que rejeita. Por isso, desconstruí-la será tarefa árdua para Dilma e Aécio.

É possível que boa parte da base aliada da presidente comece a debandar, em busca de salvar-se na candidatura Aécio, se a vitória de Marina no segundo turno deixar de ser uma onda que vem e vai para se transformar em uma possibilidade real. Esses partidos só estão com Dilma porque consideravam inevitável sua vitória, e devem estar lamentando não terem desertado antes, como fizeram alguns setores do PMDB, do PP, do PTB.

Mas talvez aí seja tarde demais para reverter a situação que se desenha no horizonte.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

‘Nossa pesquisa não mostra isso’
Rui Falcão, presidente do PT, preferindo negar a disparada de Marina no Ibope



MARINA PERDE EM MINAS, MAS SUPERA AÉCIO EM BH

A pesquisa do Ibope confirmou levantamentos preliminares noticiados nesta coluna, mostrando virada espetacular na campanha presidencial de outubro. Marina (PSB) acumula 20 pontos percentuais a mais que os 9 pontos atribuídos a Eduardo Campos, na pesquisa anterior, e vence Aécio (PSDB) e até Dilma (PT) em estados como São Paulo, Rio, DF e Paraná. Perde em Minas, mas aparece à frente na capital, BH.

TÁ FEIA A COISA

PSDB e PT atribuem os números de Marina no Ibope à comoção pela morte de Eduardo Campos. Mas sabem que não é só isso.

NÚMEROS DE SEMPRE

Marina ainda não era vice de Eduardo, há um ano, e as pesquisas registravam desempenho dela sempre situado entre 25 e 30 pontos.

PASTOR 1%

Com Marina, Dilma e Aécio perderam 4 pontos percentuais cada, indica o Ibope. Pastor Everaldo (PSC) perdeu mais: dois terços dos seus 3%.

PRAZO FATAL

O Ibope abalou o PSDB. Tucanos dizem que Aécio fixou prazo de 20 dias para voltar ao 2º lugar. Ou seu projeto estará a caminho do brejo.

DILMA DEMITE POR CORRUPÇÃO 13% a MAIS QUE LULA

O governo Dilma Rousseff demitiu até agora exatos 1.896 funcionários públicos, a maioria “bagrinhos” enrolados em maracutaias. O levantamento vai de janeiro de 2011, quando começou seu governo, a julho deste ano. Isso representa 13% mais que todo o primeiro governo Lula, quando ocorreu o escândalo de suborno a parlamentares conhecido por mensalão. Só em 2014 foram demitidos 329 servidores.

SÃO CORRUPTOS

Desde 2003, “atos relacionados à corrupção” correspondem a 67% das fundamentações para a demissão na esfera da administração pública.

A RODO

No governo Dilma 1.290 funcionários foram demitidos, cassados ou destituídos por “ato relacionado à corrupção”.

NA ORIGEM

Os ministérios da Previdência Social e da Justiça se destacam: desde 2003, quase 6% dos demitidos são oriundos dessas pastas.

OS CRITÉRIOS DE JANOT

O procurador-geral Rodrigo Janot poderia explicar por que foi favorável à prisão domiciliar de José Genoino, apesar de dois laudos da UnB afirmarem que poderia cumprir pena na Papuda, e contrário a Roberto Jefferson, cujo câncer retirou-lhe 75% do estômago e 50% do intestino.

‘EU NÃO DISSE?’

Lula disparou gritos de pânico ao telefone, ontem, para os marqueteiros do PT, especialmente João Santana e o ex-jornalista Franklin Martins. Ele sempre advertiu que Marina era a adversária a temer, e não Aécio.

MAL ME QUER, BEM...

O Ibope detectou algo constrangedor para a presidenta Dilma: sua rejeição de 36% (percentual de eleitores que dizem não votar nela de jeito nenhum) é maior que os 34% de intenção de votos.

MARINA, O ALVO

Além do PSDB, que vai criticar a inexperiência de Marina Silva em gestão pública, o PT avalia como falar mal da candidata do PSB no horário eleitoral e nas redes sociais.

GAÚCHOS NA CABEÇA

Dos cinco parlamentares presentes nas 21 edições da revista Cabeças do Congresso, os gaúchos Paulo Paim e Pedro Simon podem ser os únicos na 22ª. Os outros são Eduardo Suplicy (PT-SP), que pode não ser reeleito, e José Sarney e Inocêncio Oliveira, que se aposentam.

DO ABC AO STF

São Bernardo (SP), reduto político de Lula, volta ao poder com a posse, dia 10, do ministro Ricardo Lewandowski na presidência do Supremo Tribunal Federal. Apesar de nascido no Rio de Janeiro, o ministro se formou na cidade e fez por ali toda sua carreira jurídica.

PATRIMÔNIO

No DF, o candidato do PSOL ao Senado, Aldemario Castro, procurador da Fazenda Nacional, ficou espantado com a evolução patrimonial dos rivais. A dele é bem mais modesta: foi de R$ 580 mil para R$ 736 mil.

PROPAGANDA

A lei proíbe governos federal e estaduais gastando em propaganda, mas no Ceará prefeituras ligadas ao governador Cid Gomes, incluindo Fortaleza, fazem a farra.

Cega, a Justiça Eleitoral ainda não percebeu.

PERGUNTA NA REPARTIÇÃO

Se Dilma explicou que “tem que dar conta de tudo” na Presidência, de obra, aeroporto, rodovia, Bolsa Família etc, para quê 39 ministérios?



PODER SEM PUDOR

CORAGEM E COERÊNCIA

O coronel Adauto Rocha (UDN) disputava a eleição contra outro coronel, João Lúcio (PSD), em Guaianinha (RN). A disputa era acirrada e o deputado Fernando Marinho resolveu ajudar o tio, João Lúcio. No palanque, Marinho não mediu as palavras:

- Esse coronel Rocha é ladrão!

Adauto Rocha ouviu o insulto, subiu no palanque de revólver em punho, aproximou-se do orador e sussurrou, na maior calma:

- Estou gostando do seu discurso. Mas é o contrário. Corrija, senão morre.

Reza a lenda que o voluntarioso deputado não se fez de rogado:

- Amigos, Adauto Rocha é um homem bom! Meu tio é que não presta!