domingo, julho 20, 2014

O tal mercado - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 20/07

O comportamento de regozijo do mercado financeiro, toda vez que uma pesquisa de opinião mostra a chance de derrota de Dilma na eleição presidencial, tem gerado críticas por parte dos petistas, inclusive do mais graduado deles, o ex-presidente Lula, que chegou a ironizar recentemente esse comportamento: Pelo que eu sei, esse tal de mercado internacional nunca votou em você (Dilma) e nunca votou em mim. Quem vota na gente é o povo, cujo único mercado que conhece é onde compra feijão .

Mas desde sempre a situação da economia não apenas influencia o resultado das eleições, como também a situação política interfere na economia, especialmente em anos eleitorais como o que vivemos. É a economia, estúpido , já advertiu o marqueteiro James Carville na campanha que elegeu Bill Clinton presidente dos Estados Unidos.

Lula sabe o que é isso. Já tivemos no mercado internacional o lulômetro, que o banco de investimentos americano Goldman Sachs criou na eleição de 2002 para medir a influência na cotação do dólar do risco de Lula vir a ser eleito presidente da República. O modelo matemático previa que o dólar chegaria a R$ 3 em outubro, e ele chegou a R$ 4, diante da realidade de Lula subindo a rampa do Palácio do Planalto.

E, diante da desconfiança do tal mercado, Lula teve que lançar a Carta aos Brasileiros para garantir que não mudaria a política econômica. Anos depois, Lula se confessaria arrependido de ter feito tal carta, o que só reforça a desconfiança atual dos mercados com o governo Dilma.

Depois de duas eleições em que reeleger Lula ou eleger Dilma não parecia perigoso para a economia do país, chegamos este ano a uma eleição diferente. O ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, que deve ser o principal nome da economia em um eventual governo do tucano Aécio Neves, já previra que a possibilidade de Dilma se reeleger no primeiro turno, como indicavam as pesquisas até pouco tempo, poderia ter o mesmo efeito que a vitória de Lula em 2002.

Em consequência, a possibilidade de haver segundo turno, com boa chance de derrota do PT, poderia fazer a Bolsa de Valores retomar o crescimento, depois de ter caído quase 40% nos anos Dilma.

Na semana passada, diante da pesquisa Datafolha que mostra um empate técnico entre Dilma e Aécio num segundo turno, o Ibovespa subiu, empurrado especialmente pelas ações das estatais. O que quer dizer que os investidores acreditam que num novo governo as estatais não serão mais usadas como instrumentos de política econômica, mas como empresas competitivas num mercado internacional cada vez mais difícil.

Isso porque o mercado, dizem os especialistas, é essencialmente um instrumento da democracia, como transmissor de informações e expressão da opinião pública. Lembrei-me de um debate, anos atrás, em que fiz a mediação entre dois dos pais do Real, os economistas Gustavo Franco e André Lara Resende, hoje atuando como assessor de Marina Silva, sobre o qual já escrevi na coluna.

Quando o assunto foi o mercado, os dois concordaram em que a sua impessoalidade sai sempre mais barata para o contribuinte. Goste-se ou não, o mercado é a forma mais eficiente e influente de expressão da opinião pública, e transparência é tudo quando se trata do funcionamento do mercado , disse Gustavo Franco.

Para ele, uma coisa é certa: quanto mais distantes do mercado estiverem as relações entre o público e o privado, quanto mais discricionárias as decisões, e quanto menor a transparência, maior será a corrupção .

André Lara Resende destacou que a contribuição mais relevante do economista austríaco liberal Friedrich Hayek é o seu papel de defensor dos mercados, como insuperável transmissor de informação e estimulador da criatividade, onde se pode encontrar a mais coerente e fundamentada análise dos riscos econômicos e sociais do aumento do papel do Estado .

Para Franco, quem vai terminar com a sociedade do privilégio é a economia de mercado, e não é outro o motivo pelo qual a estabilização, a abertura, a desregulamentação, e a privatização geraram tantas tensões . A economia de mercado, na definição de Franco, é subversiva numa sociedade do privilégio, pois propugna a competição, a impessoalidade e a meritocracia, e dispensa, tanto quanto possível, a interveniência de um Estado cheio de vícios .

Com bola e tudo - DORA KRAMER

O ESTADO DE S.PAULO - 20/07


A última pesquisa Datafolha, primeira depois da Copa do Mundo, trouxe um alerta ao governo que serve também aos demais candidatos: definitivamente o eleitorado não é um ajuntamento de seres imaturos permeáveis a manipulações de natureza barata.

Situação e oposição tentaram cada qual ao seu modo tirar proveito do Mundial. A presidente Dilma Rousseff tripudiando sobre as previsões dos "pessimistas" quis se beneficiar do sucesso fora do campo.

Seus principais adversários, Aécio Neves e Eduardo Campos, ensaiaram capitalizar o repúdio da plateia à governante nos estádios. Movimentos inúteis, conforme mostrou a pesquisa.

Com toda a euforia da Copa e o êxito da organização, Dilma viu suas intenções de votos oscilarem para baixo (de 38% para 36%), a rejeição subir de 32% para 35% e a avaliação negativa do governo aumentar de 26% para 29%.

A conclusão é óbvia e simplesinha: a eleição não depende de truques e o eleitorado não está disposto a transitar pelo terreno das realidades paralelas.

Há um dado objetivo que é o cenário do segundo turno, este sim muito preocupante para o governo. Em 15 dias a diferença entre a presidente Dilma e o candidato do PSDB se reduziu em sete pontos porcentuais. Período em tese bom para a presidente, pois estava todo mundo vivendo o encantamento dos turistas com o Brasil meio de fantasia.

No início de julho Dilma tinha 46% contra 39% de Aécio. Duas semanas depois, o quadro era de 44% contra 40%, praticamente um empate indicando possibilidade de ultrapassagem pelo candidato da oposição.

Uma questão de lógica, porque a candidata à reeleição não para de cair e seu oponente mais próximo sustenta a posição. Note-se ainda o seguinte: do primeiro para o segundo turno ela vai de 36% para 44%; acrescenta oito pontos ao seu capital enquanto ele dobra o patrimônio, subindo de 20% para 40%.

O terceiro colocado, com 8%, vai para 38% no segundo turno. De onde Eduardo Campos arrumou 30 pontos porcentuais? Da rejeição à presidente, claro. Um sentimento que aumenta e se consolida a cada pesquisa. A campanha do PT tem dois desafios, de imediato: estancar e inverter a tendência.

Não há uma fórmula mágica à vista e por enquanto a aposta é tradicional, a exposição no horário da propaganda de rádio e televisão, cujo tempo reservado à presidente é quase o triplo do segundo colocado. Não deixa de ser uma vantagem, mas a eficácia pode ser relativa.

Dilma já conta com exposição total nos veículos de comunicação e fica difícil perceber como a aplicação de novas e altas doses do mesmo remédio poderia resolver o problema. Ou seja, liquidar a eleição no primeiro turno.

Já para os oponentes, muito menos conhecidos, qualquer acréscimo de ocupação de espaço é vantajoso, porque têm margem para crescer, o que não ocorre com a presidente conhecida por 99% e rejeitada por 35% do eleitorado.

A disputa no segundo turno ocorre na base do mano a mano: há obrigação de comparecer aos debates, os tempos de televisão são divididos de forma igualitária entre um e outro e é na etapa final que a rejeição tem um peso fatal. Daí a urgência de vencer no primeiro turno, o que não parece uma hipótese à disposição de Dilma Rousseff.

Corda bamba. A entrada de Lula na campanha de Alexandre Padilha ao governo de São Paulo é um teste para a popularidade do ex-presidente. Deu certo com Fernando Haddad, que em 2012 tinha índices sofríveis de intenções de votos e deslanchou com a ajuda de Lula.

Embora improvável, não é impossível de se repetir a cena nessa tentativa de tirar Padilha dos 4% rumo a uma situação de competitividade com o governador Geraldo Alckmin e seus 54% de intenções de votos na pesquisa do Datafolha.

Caso não surta o efeito esperado, porém, o ex-presidente terá explicitado que seu prestígio junto ao eleitorado já não é o mesmo de outrora.

CONSULTEM O PCC - PERCIVAL PUGGINA

ZERO HORA - 20/07


Somos caça. Diariamente, ao colocarmos o pé na calçada, ao sairmos de nossa humilde toca ou de nosso bunker familiar, viramos caça. Se tudo correr bem, retornamos sãos e salvos por não termos sido alvo dos predadores. Nem por isso teremos deixado de ser caça. Tão caça quanto qualquer lebre corredeira. Saiba: no mundo civilizado não é assim.
O notório agravamento da insegurança socialmente percebida tem profundas raízes ideológicas. Aliás, no Brasil (e no RS mais do que em qualquer outra parte), tudo é desgraçadamente ideologizado. Da religião ao chimarrão. Então, algo que deveria merecer consistente unanimidade por urgente interesse público, ou seja, o combate ao crime e à impunidade, o encarceramento dos bandidos, o cumprimento das penas, a extinção da farsa do semiaberto, a redução da maioridade penal, a ampliação das forças humanas e materiais das corporações policiais, é travado por argumentos ideológicos. Quais? Ora, não ensinava Proudhon que a propriedade é um roubo? Não frisaram, Marx e Engels, que abolir a propriedade é o resumo do comunismo? Não creem os que abraçam essa doutrina que a criminalidade ou se confunde inteiramente com a luta de classes, ou é um subproduto dela? Quando tratava da luta de classes, não abraçou-se Marx à frase de George Sand _ “Vitória ou morte! Guerra sangrenta ou nada!”? Como pode um país saturado de marxismo entusiasmar-se com a tarefa de sustar qualquer instrumento da “reformulação da sociedade”?
Há poucos dias, assisti na tevê a entrevista feita com uma senhora cuja atividade econômica consistia em garimpar e revender rejeitos de um lixão. Com isso, cuidava dos filhos, comprou um automóvel e traçava projetos para cursar faculdade. Na perspectiva da luta de classes, essa admirável pessoa é uma burguesa alienada, ao passo que o assaltante de nossas ruas é um militante da justiça social, um soldado da causa. E merece toda a leniência que lhe é proporcionada pelas nossas instituições. Não veem elas o criminoso como um filho bastardo e infeliz da economia de mercado e do sistema de livre empresa? É exatamente por isso que as instituições, maculadas por uma ideologia insana, são tão indulgentes com os criminosos enquanto assimetricamente, relegam ao mais tenebroso abandono as suas vítimas.
Qualquer líder do PCC ou do Comando Vermelho, consultado sobre nossas leis penais, instituições policiais e sistema penitenciário, dirá: “Melhorem a hotelaria. E não mexam no resto que está bom demais”. Ou não?


Gastando cartuchos - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 20/07


BRASÍLIA - Sabe o dado mais importante do Datafolha? Eduardo Campos, que só tem 8% de intenções de voto, dá um salto espetacular para 38% num eventual segundo turno entre ele e a presidente Dilma Rousseff. Como assim?

A única explicação é que as pessoas não votariam a favor dele, mas contra Dilma e o PT. A rejeição dela bate em 35%, o dobro da de Aécio (17%) e mais que o dobro da de Campos (12%); e a avaliação ruim/péssimo do governo bate em 29%.

Vai ficando cada vez mais evidente que a grande chance de Dilma ser reeleita é arrancar a vitória no primeiro turno. O que, pelo andar da carruagem, parece bastante improvável. Ela vai mal em São Paulo e caiu no Nordeste, entre as mulheres e nas maiores cidades, que são irradiadoras de votos.

Dilma ainda é favorita (36%), mas, se a eleição for para o segundo turno, a coisa pode ficar feia. A diferença entre ela e Campos é de apenas sete pontos (45% a 38%). Entre ela e Aécio, que já foi de 27 pontos em fevereiro, caiu para irrisórios 4 pontos (44% a 40%) em cinco meses. Considerando a margem de erro de dois pontos, há empate técnico entre Dilma e Aécio, que tem muito menos exposição.

A situação da candidatura Dilma acirra os ânimos do PT e do seu grande líder, Lula, que vive hoje um triplo pesadelo: Geraldo Alckmin com mais de 50% para o governo e José Serra na dianteira para o Senado em São Paulo e Dilma gastando todos os seus cartuchos sem acertar o alvo para a reeleição.

Se Dilma está assim com Copa, Brics, presidentes da Rússia, da China e da América do Sul e uma série de entrevistas, como poderá evoluir bem daqui em diante?

Ela tem mais que o dobro do tempo de TV de Aécio e Campos na campanha, mas TV e marketing não fazem milagre. Talvez a economia fizesse, mas os ventos internacionais não induzem ao otimismo. Nem o desempenho do governo Dilma até aqui.

O teatrinho de Xi Jinping no Congresso - ELIO GASPARI

O GLOBO - 20/07


A diplomacia chinesa tem obsessão pelo ritual, e a do comissariado gosta de brincar com eventos. Durante a ida do presidente Xi Jinping ao Congresso, juntaram-se os dois num episódio constrangedor. Xi falaria na quinta-feira, mas temeu-se que não houvesse plateia e antecipou-se o evento para a quarta. Metade das poltronas ficaram vazias. Esse foi o problema de forma, mas haveria também o de conteúdo.

Esperar um discurso claro ou informativo de um dirigente chinês é ilusão democrática. Xi repetiu palavras simpáticas, até o momento em que, cripticamente, entrou na questão do controle da internet:

"Não há espaço para duplo critério na área de informática, onde todos os países têm o direito de defender a sua própria segurança informática. Não é aceitável que um ou alguns países fiquem seguros e outros não, para já não dizer obter a chamada segurança absoluta de um país à custa da segurança dos outros."

"Hoje em dia, o desenvolvimento da internet traz novos desafios para a defesa da soberania e interesses do desenvolvimento. Todos os países têm o direito de se defender. A comunidade internacional deve atuar com base nos princípios de respeito e confiança mútua, e estabelecer um sistema multilateral, democrático e transparente de administração sobre a internet."

À primeira vista, o presidente chinês condenou a espionagem do companheiro Obama. Lendo-se de novo, vê-se que defendeu a sua. Serão necessários mais 20 séculos para saber o que a China entende como "sistema multilateral, democrático e transparente de administração" da internet.

Por enquanto, a China é um modelo futurista de censura e espionagem na rede. Estima-se que sua polícia cibernética tenha um exército de dois milhões de pessoas. Bloqueiam palavras e sites, multam e prendem quem sai da linha. Um texto repassado mais de 500 vezes e lido por mais de 5.000 pessoas pode custar até três anos de prisão. A astúcia com que a China expandiu sua rede, tornando-a a maior do mundo ao mesmo tempo em que conseguiu controlá-la, é um exemplo da competência tecnológica. O companheiro Xi acha que esse modelo é bom para o seu país. Tudo bem, mas não devia tentar exportá-lo com raciocínios empulhadores.

Exposta, a espionagem eletrônica americana é discutida em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos. Já a chinesa está protegida pela ditadura de vitrine que governa o país. Cinco comandantes militares chineses foram denunciados pelo governo dos Estados Unidos por atividades de espionagem eletrônica. Não vai dar em nada, mas foram identificados.

Os discursos de chefes de Estado em visitas oficiais ao Brasil são negociados durante a preparação das cerimônias. O Itamaraty poderia ter sugerido ao companheiro Xi que tirasse as referências à internet de seu discurso no Congresso. Não se trataria de censura, mas apenas de boas maneiras.

Viagens presidenciais envolvem cuidados, e os chineses cuidam de sua parte, mas a diplomacia brasileira não cuida da sua. Em 2004, quando o presidente Hu Jintao veio ao Brasil, disse que em seis anos esperava aumentar o comércio do seu país com a América Latina para US$ 100 bilhões anuais. O tradutor terceirizado trocou comércio por investimento. Todos os embaixadores e cônsules chineses no Brasil falam português. Nenhum dos brasileiros fala mandarim. Em 2011, a doutora Dilma foi ao Império do Meio, e sua comitiva anunciou um investimento de US$ 12 bilhões da empresa Foxconn. Era lorota. Na volta, ela trouxe apenas uma gripe.

DILMÊS

No que se refere à ligeireza e à confusão das falas da doutora Dilma, ela deu uma boa amostra quando tratou da derrubada do jato da Malaysia Airlines:

"Acho prudente a gente tomar cuidado porque, ao mesmo tempo, tem um segmento da imprensa que diz que este avião que foi derrubado estava na rota da volta do presidente Putin, que coincidiu a hora."

Ganha uma viagem a Kiev quem souber o que é "um segmento da imprensa".

De qualquer forma, logo se soube que, mais ou menos à mesma hora do comentário de Dilma, Vladimir Putin tratou do assunto e não mencionou a suspeita. A doutora poderia verificar qual foi o segmento de sua assessoria que sugeriu a fala imprudente.

EREMILDO, O IDIOTA

Eremildo é um idiota e soube que 89% das escolas públicas têm computadores, mas só em 6% as máquinas são usadas pelos alunos nas salas de aula.

O cretino sabe que, se os computadores ficarem nas salas, poderão ser roubados. Ainda assim, ficou com a impressão de que, para um gestor do dinheiro da Viúva, é fácil comprar equipamentos, ganhando a simpatia dos fornecedores e engordando estatísticas. Duro mesmo é trabalhar na segurança e na manutenção das escolas.

TÁXI DO POVO

Para quem quer saber mais sobre o delicado quebra-cabeça da política interna chinesa e não tem paciência para ler sobre Confúcio, Mao Tse-tung ou até mesmo Deng Xiaoping, há um bom livro na rede. É "The New Emperors", de Kerry Brown, professor da Universidade de Sydney. Sai por US$ 15,12.

Nele aprende-se que Xi Jinping tenta popularizar-se deixando circular a história de que um dia tomou um táxi.

O MENSALÃO COMEÇOU ASSIM

Na tarde de quarta-feira, o deputado José Augusto Maia foi à tribuna da Câmara e denunciou que foi destituído da presidência do Pros de Pernambuco e excluído da lista de candidatos "por não aceitar uma proposta indecorosa e vergonhosa do presidente nacional do partido, Euripedes Junior (...), para me coligar ao PSB".

O Pros efetivamente coligou-se com o PSB. Há alguns meses, numa reunião do Pros ocorrida em Brasília, Euripedes Junior defendeu a necessidade de lutar pela nomeação de um ministro porque isso permitiria a obtenção de financiamentos de fornecedores e sua canalização para as campanhas. Nessa ocasião, houve um pequeno mal-estar. Se as doações fossem formais, não haveria por que falar em "proposta indecorosa e vergonhosa". Numa segunda reunião, numa narrativa de Maia, o assunto voltou a ser tratado, com mais detalhes.

Maia foi prefeito de Santa Cruz do Capibaribe, esteve no PMDB e no PTB. Teve suas contas rejeitadas quatro vezes e, no último dia 6, anunciou que desistia de se candidatar à reeleição. Se ele era um barra brava, o Pros correu risco ao aceitá-lo, entregando-lhe a presidência da seção pernambucana. De qualquer forma, fica a esperança de que especifique a proposta "indecorosa e vergonhosa" que recebeu. Afinal, o deputado Roberto Jefferson, que detonou o mensalão, também passara pelo MDB e pelo PTB, além de ter sido um dos coronéis da tropa de choque do presidente Fernando Collor no Congresso.

Sem anestesia - JOÃO BOSCO RABELLO

O ESTADÃO - 20/07


Primeira após a Copa do Mundo, a pesquisa Datafolha confirmou a previsão de que o torneio não afetou o discernimento do eleitor que, embora satisfeito com o evento, não concede ao governo o mérito pelo seu êxito, como tinha esperança o PT.

Essa constatação agrava a situação da presidente, por ser um ponto a seu favor que se mostrou insuficiente para impedir nova queda na intenção de voto e aprovação de governo.

Mais que isso, o índice de rejeição da presidente, em viés de alta agora também na região Nordeste, reduto histórico de vitórias do PT, causa vertigem na coordenação da campanha. De fato, a pesquisa é muito ruim para Dilma quando se sublinha certos aspectos.

Em queda desde que a economia entrou em baixa e perdeu seu efeito anestésico, o governo viu também que a Copa não funcionou como sedativo capaz de ajudar a empurrar o senso crítico do eleitor para depois de outubro.

Conhecida por 100% do eleitorado, ao contrário de seus oponentes, Dilma tem apoio apenas de 36% dos consultados, dois pontos a menos que na última aferição, reduzindo o poder de sua maior visibilidade.

Nesse contexto, a equação é perversa para a presidente: enquanto seus adversários ganham na medida em que ampliam sua visibilidade, ela cai na proporção inversa. Tal constatação indica que a exposição na propaganda de televisão favorecerá a oposição em proporção bem maior que a candidata governista.

Outro fator negativo é o índice de rejeição da presidente. Em São Paulo, é de 47%, e no cômputo geral, de 35%, porcentuais muito próximos.

Os índices de avaliação de governo também caíram e a candidata hoje tem seu governo reprovado por 29% - o pior resultado desde 2011, segundo o instituto Datafolha.

Os números de pesquisas são fotografias de momentos, o que recomenda sempre cautela na sua associação com previsões de derrota ou vitória.

Mas o alerta da pesquisa está na consistência da queda da presidente, que se mostra refratária ao esforço empreendido pelo seu governo na reversão do quadro.

A situação da candidata do PT, partido a que deve seguramente o maior porcentual de sua rejeição, nos Estados é outro complicador. A dissidência na base aliada subtraem viço à campanha nacional, sobretudo porque foi habilmente explorada por Aécio Neves, como prova o cenário do Rio de Janeiro, terceiro maior colégio eleitoral.

Em política não se despreza o imponderável. Mas o registro presente mostra a candidatura oficial com dificuldade persistente e parca em recursos para virar o jogo, que lhe é desfavorável.

Raposa felpuda - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 20/07


Como velho político, Lula parece ter entendido o recado de que a população quer outra política. Mudou, então, a sua prática política? Não. Simplesmente mudou o discurso, mantendo a sua velha estratégia. Falar mal da política, mas continuar atuando como uma felpuda raposa política.

Em recente vídeo para jovens, divulgado pelo seu instituto - que é um dos polos coordenadores da campanha da reeleição de Dilma -, o ex-presidente propôs uma reforma política feita por iniciativa popular que acabe com "partidos laranja" e "partidos de aluguel". Ele deseja "um projeto de lei que possa mudar substancialmente a política brasileira, ter partidos mais sérios, acabar com os partidos laranjas, os partidos de aluguel, acabar com partidos que utilizam seu tempo para fazer negócio". Nem parece ser ele quem manda no Partido dos Trabalhadores (PT), partido que, nos últimos meses, promoveu uma das mais profícuas trocas entre cargos de confiança no governo federal por tempo de propaganda política na TV. A população está cansada é dessa hipocrisia: o maior promotor - e maior beneficiário - do sistema político atual pregando virtuosamente a sua reforma.

Com o mesmo descaramento, como se o PT não tivesse sido o partido que mais recebeu doações de empresas privadas nos últimos anos, Lula afirmou que é "radicalmente" contra o financiamento privado de campanha. E ainda expôs os seus motivos. Segundo o político Lula, o financiamento público "é a forma mais honesta na face da terra de financiar uma campanha para não permitir que os empresários tenham influência na eleição da pessoa". No site do Instituto Lula, ao lado do vídeo, está ainda a notícia de que empresários organizaram um jantar em homenagem "às realizações de seu governo" em 2011. Vê-se que o homenageado muito se orgulha desse tributo, mantendo-o em destaque durante anos.

Como se o seu governo não tivesse produzido o maior escândalo de corrupção do Brasil contemporâneo, defendeu a fiscalização para garantir a transparência no uso dos recursos pelo partido. Quer também um projeto de lei de iniciativa popular "que possa mudar substancialmente a política brasileira". Se houvesse de fato essa disposição, bastaria pedir ao seu partido, que conta com ampla maioria no Congresso, para que a realize. Mas isso nem de longe é a sua intenção. No vídeo, ele simplesmente atua como o mais político dos políticos, e ainda trata o espectador como um ignorante da realidade política nacional.

Num esforço por se mostrar próximo da população, o ex-presidente Lula reconheceu que não são apenas os jovens que estão desencantados com a política, mas toda a sociedade. E afirmou: "A política está apodrecida, aqui no Brasil e em várias partes do mundo, porque há uma negação, uma rejeição a político". A política está apodrecida não pela rejeição da população. Isso é um dos efeitos do problema. A política está apodrecida porque políticos, como o ex-presidente, que se dizem "modernos", continuam fazendo o que faziam os coronéis que condenam.

Para completar coerentemente a miríade de incoerências, Lula disse ainda que, numa eventual reforma política, apoiará o voto em lista. Cada eleitor votaria no partido, e não em candidatos específicos. Segundo o ex-presidente, seria um avanço, já que "o deputado não pode ser um deputado avulso, tem que ser um deputado do partido". Ora, o mais personalista dos políticos diz que prefere voto no partido? E diz isso na mesma semana em que Andrés Sanchez, ex-presidente do Corinthians, afirmou que é candidato a deputado federal pelo PT simplesmente por causa da insistência de Lula, que conta com Sanchez para alavancar outros candidatos petistas, já que os tradicionalmente "bons de voto" do PT em São Paulo estão na cadeia.

A incoerência de Lula não é nova, mas há um ponto que preocupa especialmente. Dilma falou em assembleia constituinte para uma reforma política quando começou a perder o jogo na opinião pública, após as manifestações de junho de 2013. Lula volta agora ao mesmo tema, numa época em que a cada semana a popularidade da candidata é abalada. Seria isso um sinal de que o lulo-dilmismo quer mudar as regras do jogo justamente no momento em que o seu time começa a ficar atrás no placar?

Candidatos põem UPP em risco - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 20/07


Diante do êxito da política de Segurança, concorrentes ao Palácio Guanabara desejam ampliá-la; mas, com isso, podem desestabilizar a própria política



Até pelo seu peso na própria história da segurança pública do Rio de Janeiro, embora ainda não tenha uma existência longa, a política das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) teria grande destaque nos debates na campanha eleitoral para o governo do estado. Com início em 2008, quando a primeira UPP foi instalada, no morro Dona Marta, em Botafogo — escolhido por ser uma favela pequena — acumula grande saldo positivo (o que não significa que não haja impasses, retrocessos, necessidade de aperfeiçoamentos). Entre outros, as UPPs têm o mérito de ter acabado com o sobe e desce, o entra e sai da polícia nas chamadas comunidades, operações sempre muito arriscadas, principalmente para os moradores. Veio daí o uso recorrente do termo “bala perdida” para explicar a morte de inocentes.

A decisão da Secretaria de Segurança, sob o comando de José Mariano Beltrame, de entrar e ficar pode ser comparado ao “ovo de Colombo”. Era óbvio, mas ninguém fez. Hoje, são quase 40 UPPs, sob a proteção direta das quais está uma população superior a 700 mil pessoas — se considerarmos a proteção indireta, o número mais que dobra. Os índices de criminalidade caíram, e algumas regiões da cidade gozam de uma tranquilidade não usufruída há muito tempo.

No início da semana, O GLOBO ouviu os principais candidatos sobre o tema: Anthony Garotinho (PR), Marcelo Crivella (PRB), Luiz Fernando Pezão (PMDB) e Lindbergh Farias (PT)Até por terem sido curtos, os textos com a posição de cada trazem a sua essência, e nela tem-se uma notícia boa e outra ruim. A boa é que ninguém contesta mais as UPPs. A ruim está na visível ânsia de todos de explorar ao máximo o que dá certo, e isto é arriscado.

Garotinho deseja instituir o Batalhão de Defesa Social, para suprir deficiências das UPPs na atuação direta junto ao morador. A ideia não é nova, e basta fazer uma boa coordenação de todos os órgãos do poder público que atuam nesta direção nas comunidades. Crivella, Pezão e Lindbergh querem ampliar bastante a área de cobertura da polícia. É acertado, mas como? Os três tocam em aspectos essenciais: melhor formação do policial, impedir que a UPP vire coisa de “Zona Sul” (já não é, pois dos mais de 700 mil moradores de comunidades beneficiados ‘diretamente, menos de 120 mil são da Zona Sul) e que se acabe com o desguarnecimento de batalhões na Região Metropolitana, incapazes de enfrentar a migração da violência para a Baixada. O candidato petista frisa que “só ocupação policial não resolve”.

Está tudo certo, mas como implementar as corretas propostas com escassez de recursos e baixa qualificação, em geral, de quem se candidata a soldado da PM? Mesmo numa favela-vitrine, a Rocinha, PMs da UPP desapareceram com Amarildo. Os candidatos precisam fazer propostas realistas, para que, numa ampliação voluntariosa, as UPPs não caiam em descrédito. Seria ruinoso

Trupes eleitorais - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 20/07


Há uma regra não escrita da política segundo a qual todo candidato competitivo trabalha com pelo menos duas agendas em sua campanha. Uma, oculta, diz respeito ao que pretende de fato fazer caso seja eleito; outra, pública, destina-se a angariar votos sem parecer um apanhado de mentiras.

Buscando equilibrar-se nessa ambivalência, Eduardo Campos (PSB) e Aécio Neves (PSDB) participaram, na terça e na quarta-feira, respectivamente, de sabatina realizada por esta Folha, pelo portal UOL, pelo SBT e pela rádio Jovem Pan --a presidente Dilma Rousseff (PT) manifestou interesse em ser entrevistada, mas ainda não confirmou data para o evento.

Como seria de esperar, os dois oposicionistas aproveitaram a ocasião para exibir seu rol de críticas à administração federal. Nenhum governo está livre de reproches, afinal; no caso de Dilma, as pesquisas indicam elevadíssimos níveis de insatisfação dos eleitores, o que sem dúvida facilita a vida de quem se dispõe a confrontá-la.

Eduardo Campos, porém, ainda não se mostra confortável nessa posição. Não que não saiba apontar deficiências da atual gestão. Seu problema é outro: ministro no primeiro mandato do presidente Lula, rompeu com o governo petista há menos de um ano. Por causa disso, nem sempre soa tão assertivo quanto gostaria.

Aécio Neves não enfrenta esse tipo de restrição. À vontade para estender seus ataques pelos últimos 12 anos, veste com naturalidade o figurino de quem faz oposição às administrações petistas, e não somente à presidente Dilma.

O tucano, no entanto, nem por isso se permite enfrentar com franqueza as perguntas mais difíceis --mesmo quando sua resposta terminaria por acentuar diferenças em relação ao governo atual.

É o caso dos comentários acerca da economia. Aécio, e nisso não há distinção em relação a Campos, não lista todos os ajustes que decerto considera necessários para o país voltar a crescer. Não é simples para um político, mesmo que de oposição, defender arrocho salarial, mais desemprego e reformas na Previdência, por exemplo.

Ainda que a própria dinâmica das urnas exija certa teatralidade, fica para o eleitor a sensação de que os candidatos, todos eles, estão escondendo o jogo. Medidas impopulares, assim, surgirão de surpresa --talvez como contraponto às promessas de campanha que não passam de promessas.

Acordos com a China vão rumo à modernidade - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 20/07

Os 40 anos de relações bilaterais Brasil-China mereceram comemoração de gala. Em encontro com a presidente Dilma Rousseff, em Brasília, o líder máximo do gigante asiático, Xi Jinping, assinou 32 acordos de cooperação, entre os quais sobressai a venda de 40 aeronaves e 20 jatos da Embraer. A transação, que envolveu o item mais sofisticado da pauta de exportações nacionais, atingiu o montante de US$ 2,9 bilhões.
Também merece destaque a retirada do embargo à carne bovina brasileira imposto em 2012, depois do registro de um caso isolado de vaca louca no Paraná. A retomada das compras implica dois avanços. De um lado, o reconhecimento da qualidade do produto verde-amarelo. De outro, o aumento das exportações de carne em torno de 20%. Traduzido em cifras, o valor do negócio oscila entre US$ 800 milhões e US$ 1,2 bilhão.

Não só. Estão previstos investimentos em setores estratégicos, como energia e petróleo. Xi Jinping ofereceu fundos e linhas de crédito. São US$ 35 bilhões destinados não só ao Brasil, mas também à América Latina para levar avante projetos sobretudo de infraestrutura.

No âmbito privado, 22 acordos incrementarão as relações comerciais entre as duas nações. O Banco do Brasil, por exemplo, marcará presença em Xangai, cidade cuja modernização da zona franca deve servir de exemplo para o mundo. Além de abrir-se para o setor serviços, a área especial modernizou a burocracia (uma empresa se instala lá em 24 horas) e os trâmites bancários.

Em breve, a mais importante cidade chinesa será o maior centro mundial de comercialização de commodities - a ser feita em yuan. O yuan caminha, assim, para se tornar moeda de troca no comércio internacional. Ocupará o lugar que, até há pouco, se pensava fosse destinado ao euro.

Os acertos sino-brasileiros, que somam US$ 30 bilhões, vão ao encontro da tendência internacional. Ao se tornar eixo do mundo, o Pacífico promove deslocamento de interesses. Os Estados Unidos retiraram parte da frota do Mediterrâneo para instalá-la na Ásia. Novo canal, que rivalizará com o do Panamá, ligará o Caribe ao Pacífico passando pela Nicarágua. A América Latina participa do movimento por meio da Aliança para o Pacífico, que engloba Chile, Peru, Colômbia e México. Os países do Mercosul precisam acompanhar a onda. O Brasil parece ter-se dado conta do atraso.

A inflação bate à porta - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 20/07


O governo vem se esforçando para mostrar que a inflação, nas palavras da presidente Dilma Rousseff, está "completamente sob controle". A vida real dos brasileiros, porém, revela uma situação bem menos segura. Conforme mostrou o Estado no domingo passado, a classe média já começa a refazer as contas para lidar com a atual escalada inflacionária e, principalmente, para enfrentar a futura alta dos chamados preços administrados, represados em razão do calendário eleitoral.

Os consumidores consultados na reportagem demonstram um comportamento-padrão ante as perspectivas sombrias. A maioria diz que reduziu as idas ao supermercado e que passou a evitar compras a prazo. Despesas foram cortadas e viagens foram adiadas. Precavidos, alguns entrevistados revelam que começaram a guardar dinheiro por medo do que acontecerá depois das eleições. "Decidi economizar porque achei que o governo está escondendo muita coisa", disse uma administradora de 36 anos, para quem os preços "vão subir bastante" assim que a eleição passar.

Esse tipo de reação indica que o discurso otimista do governo sobre a saúde da economia nacional, sempre pontuado pelas alardeadas conquistas da classe média, perdeu força ante as evidências cotidianas de que o poder de compra dessa mesma classe vem se deteriorando mês a mês.

Para um país que acordou apenas muito recentemente do pesadelo da inflação galopante, qualquer sinal de descontrole é logo visto com apreensão. É claro que não se vive a mesma situação daqueles tempos, em que a alta dos preços era diária, mas a atual administração parece empenhada em aumentar a desconfiança em sua capacidade de enfrentar o problema.

Não passa dia sem que se revele mais alguma manobra do governo para dar às contas públicas uma aparência de normalidade. Além disso, o discurso oficial fez do teto da meta de inflação a meta em si, para alegar que a alta dos preços está "dentro da meta". Esse é o mais claro indicativo da indisposição do governo de conter de fato a inflação, pois, como se sabe, o teto da meta é apenas uma margem de tolerância para enfrentar um choque de alguns preços derivado de situações temporárias, como quebra de safra. O que deveria ser excepcional se tornou normal, mostrando uma clara leniência com a inflação.

Assim, a classe média, sobre cujos ombros costumam recair as consequências dos erros do governo, parece já ter se dado conta de que está sozinha na luta contra a inflação. "Agora é o momento de segurar as despesas. É uma poupança forçada", disse a este jornal um gerente de compras de 68 anos.

Essa precaução se reflete na temperatura do comércio. Números do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que o consumo das famílias no primeiro trimestre deste ano foi 0,1% inferior ao do trimestre anterior. Em abril, as vendas no varejo recuaram 0,4% ante março, descontados os efeitos sazonais.

Os consumidores demonstram igual indisposição para gastar no terceiro trimestre. A Pesquisa Trimestral de Intenção de Compras, da Fundação Instituto de Administração, mostra que apenas 46,6% dos pesquisados pretendem comprar algum bem durável ou semidurável entre julho e setembro. É o menor porcentual para o período em 12 anos.

Esse comportamento ressabiado é plenamente justificado ante as expectativas de que a economia cresça menos de 1% neste ano e ante a necessidade urgente de majorar os preços dos combustíveis, das passagens de ônibus e da energia elétrica, entre outros preços administrados que foram congelados para atender a interesses eleitoreiros.

A combinação de inflação alta com crescimento baixo tende a prejudicar a geração de empregos, algo que a classe média já percebeu. "Tenho medo do desemprego", disse outra entrevistada pelo Estado, resumindo o humor desses brasileiros que começam a se dar conta de que o paraíso prometido pelo governo não é tão bonito quanto na propaganda.

O inverno chegou - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 20/07


Governo Dilma Rousseff foi leniente por muito tempo em suas contas, e agora diversos indicadores econômicos apontam para uma recessão


Não cessa a onda de dados econômicos negativos. Os últimos índices de confiança, produção, vendas e, agora, emprego apontam para uma recessão. O quadro fica cada vez pior para o governo Dilma Rousseff (PT), preso a um discurso otimista que em nada reflete o desalento disseminado pelo país.

Os sinais são inequívocos. O indicador mensal do PIB divulgado pelo Banco Central teve nova queda em maio, de 0,2%. A julgar pela conhecida redução da produção industrial e da atividade em outros setores, a retração em junho deve ser mais acentuada.

Se confirmada essa expectativa, será possível falar em recessão quando o IBGE divulgar o PIB oficial do segundo trimestre, o que fará no final de agosto. Analistas já revisam a projeção de 2014 para uma alta inferior a 1%.

Nos últimos meses, o governo tem procurado se esquivar lembrando que as pessoas não comem PIB. Puerilidade à parte, a afirmação soa infeliz num momento em que também o emprego engrossa o coro de notícias ruins --e, neste caso, trata-se de economia bem real.

Foram criadas 25 mil vagas formais em junho, o pior saldo desde 1998. Ajustado pela sazonalidade (nesse mês normalmente são gerados mais postos do que na média do ano), o número retrata o desaparecimento de 30 mil empregos. É a quarta redução consecutiva.

Todos os setores apresentam desempenho fraco. O pior, como esperado, é o industrial, que fez 28 mil demissões em junho e 60 mil no segundo trimestre.

Quanto às vendas no varejo, houve diminuição de 0,3% em maio, a despeito do forte aumento de atividade em eletrodomésticos, provavelmente devido à Copa do Mundo. Em junho, a situação deve piorar. O colapso no setor de automóveis é o principal destaque.

Um pedaço da trajetória em queda livre descrita pelos indicadores no período de maio a julho decorre, sem dúvida, do menor número de dias úteis e da paralisação provocada pelo Mundial. Mas o pano de fundo não muda: a economia está estacionando, e nada indica mudança de humor no curto prazo.

A inflação, tudo o mais sugere, terminará o ano perto do teto do regime de metas, 6,5%. Não há alívio, portanto, o que complica o cenário para o Banco Central.

A decisão de manter a taxa básica de juros em 11% "neste momento" era esperada, mas analistas interpretaram o comunicado do BC como um sinal de que em breve poderá haver recuo da Selic, apesar da contínua pressão nos preços.

A mistura atual de PIB estagnado e inflação em alta é a pior em muitos anos. O governo surfou a onda do consumo e do crédito fácil por tempo demais e foi leniente com suas próprias contas, entre outras estripulias econômicas. Não se preparou enquanto o clima era bom, e agora o país paga por isso.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Não sei se Dilma tem condição de olhar nos olhos daqueles que nela confiaram”
Presidenciável Aécio Neves (PSDB-MG), durante ato de campanha no Rio de Janeiro


‘LAVA JATO’ PODE GANHAR UM NOVO PERSONAGEM

Nedson Micheleti (PT) tem mais poder do que sugere seu cargo de assessor do presidente da Caixa, Jorge Hereda. Fonte do Planalto diz ter sido dele a escolha de Hermínio Basso como diretor Corporativo da Caixa. Amigo de André Vargas (ex-PT-PR), com quem morou em Brasília, Micheleti pode virar personagem da Operação Lava Jato, por supostas reuniões, na Caixa, com Alberto Youssef.

LAVANDERIA YOUSSEF

Preso pela PF, o doleiro Alberto Youssef pagou até jatinhos para André Vargas. É suspeito de “lavar” cerca de R$ 10 bi em dinheiro sujo.

PODER PARANAENSE

O assessor Nedson Micheleti, quando prefeito de Londrina, teve como assessores o ministro Paulo Bernardo e a mulher, Gleisi Hoffmann.

PROJETO POLÍTICO

A ex-ministra da Casa Civil Gleisi Hoffmann disputa este ano o governo do Paraná, partido daqueles que, de fato, têm poder da Caixa.

NÃO CONFIRMA

Assessoria da Caixa Econômica declarou que “não confirma a informação” de que Hermínio Basso teria sido indicado por Micheleti.

CAMPOS PRIORIZA PE

Com medo de perder tanto a disputa à Presidência quanto o comando do governo de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB) tem deixado de lado sua campanha nacional para tentar fazer o socialista Paulo Câmara seu sucessor. Campos participou da inauguração de comitês e de eventos em municípios do Sertão que sequer são considerados de médio porte, como Araripina e Afogados da Ingazeira.

PRIORIDADE OFICIAL

Ontem (19), Campos confirmou participação na agenda de Paulo Câmara (PSB) em Palmares e Escala, na Zona da Mata Sul.

NÃO SAIU DO LUGAR

Campos aparece com apenas 8% das intenções de voto contra Dilma com 36% e o tucano Aécio Neves, com 20%, segundo Datafolha.

SOB HOLOFOTE

Equipe de Eduardo Campos aposta que ele deverá crescer nas pesquisas a partir de agosto, quando ganhará espaço nos jornais e na TV.

TÔ NEM AÍ

É mesmo de indiferença a relação de Dilma com o presidente das duas CPIs da Petrobras, Vital do Rêgo (PMDB-PB), candidato ao governo. Preterido para ministro, o senador agora foi jogado pra escanteio pelo PT, que apoiará a reeleição do governador Ricardo Coutinho (PSB).

AGENTE FIFA

O deputado Romário (PSB-RJ) desceu a lenha em sua página nas redes sociais nos “ratos do Marin e Del Nero” pela escolha de Gilmar Rinaldi para coordenar seleções: “Ele vai fazer da CBF um banco de negócios”.

TAMO JUNTO

O senador Magno Malta (PR-ES) afirmou que será responsável, junto ao pastor Silas Malafaia, pela coordenação-geral da campanha do pastor Everaldo Pereira (PSC-RJ) à Presidência da República.

VACAS MAGRAS

A oposição tem se queixado (e muito!) da dificuldade para obter grana para campanha. Além da insegurança gerada pelo STF, que não julgou se a doação é legal, pesa nas empresas medo de acabar no noticiário.

PROTEÇÃO DIVINA

Os presidenciáveis Aécio Neves (PSDB-MG) e Eduardo Campos (PSB-PE) invadem o Cariri cearense neste fim de semana para pedir as bênçãos do Padim Ciço, nas solenidades de 80 anos de sua morte.

O TROCO

O PMDB discute a melhor reação para o desprezo que vem recebendo do Planalto. Do jeito que está, não pode continuar. Essa é a opinião unânime dos caciques, que só se dirigem a Dilma por duros apelidos.

SEM PRESSA

Antônio Reguffe (PDT-DF) declarou ao TSE previsão de gastos de até R$ 3,5 milhões, mas alega não ter recursos nem estrutura para organizar a sua campanha. “Não comecei. Mas quando começar, vou só sair panfletando nos comércios, nos colégios, como sempre fiz”, afirmou.

MENSAGEM

Liliane Roriz foi a única candidata que conseguiu do ex-governador e pai, Joaquim Roriz (PRTB), gravação pedindo votos para distrital. Na peça, feita de forma amadora em sua mesa de jantar, o político pede para os seus eleitores desconfiarem se alguém pedir votos em nome dele.

PENSANDO BEM...

... em tempos de eleição disputada cabeça a cabeça, o eleitor deve ter cuidado para não eleger Pinóquio por um nariz de vantagem.


PODER SEM PUDOR

CAFEZINHO ABUSADO

Jornalista tão combativo quanto satírico, Aparício Torelli, o "Barão de Itararé", foi preso em 1935 e levado à presença do juiz Castro Nunes.

- A que o sr. atribui a sua prisão, seu Aparício?

- Tenho pensado muito, excelência, e só posso atribuí-lo ao cafezinho.

- Como assim? - o juiz ficou intrigado.

- Vou explicar. Eu estava sentado no Café Belas Artes, na Avenida Barão do Rio Branco, tomando o meu oitavo cafezinho e pensando em minha mãe, que sempre me advertiu contra o excessivo consumo de café. Nesse momento, chegaram os policiais e me deram voz de prisão. Só pode ser um castigo pelo abuso do cafezinho.

sábado, julho 19, 2014

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Nunca vi tanto dinheiro na minha vida”

Procurador-geral da República, Rodrigo Janot, sobre esquema revelado pela Operação Lava Jato



CGU CONDENA PETISTA DEMITIDO NA FAXINA DE DILMA

Envolvido no escândalo bilionário da duplicação da BR-101 no sul do País, o ex-diretor de Infraestrutura Rodoviária do DNIT Hideraldo Caron e seu ex-coordenador-geral Luiz Munhoz Prosel Junior foram finalmente condenados em processo disciplinar da Controladoria-Geral da União. A decisão foi publicada pelo ministro Jorge Hage no Diário Oficial de terça-feira (15), três anos após a demissão do petista na faxina da presidente Dilma Rousseff.

FICHA SUJA

O ex-diretor Hideraldo Caron e Luiz Munhoz Prosel sofreram pena de destituição do cargo, o que os tornará impedidos de ocupar funções públicas.

FALTA DE PROVAS

Já o ex-diretor Miguel Dario Ardissone Nunes e os ex-superintendentes João Bosco Lobo e Raimundo Brito Façanha foram absolvidos pela CGU.

CONVIDADO A SAIR

Único petista na cúpula dos Transportes, Hideraldo Caron permaneceu no Dnit por sete anos, até ser pressionado a pedir demissão em 2011.

APADRINHADO

Apesar das denúncias, Hideraldo Caron assumiu, a convite do governador Tarso Genro (PT), a Secretaria Extraordinária da representação do Rio Grande do Sul em Brasília.

EM BRASÍLIA, ROUBAM-SE ATÉ FLORES EM TÚMULOS

Os brasilienses Marco e Glória, que pediram para ocultar os seus sobrenomes, denunciaram na Polícia Civil da Asa Sul uma quadrilha que rouba flores de túmulos do Cemitério Campo da Esperança no meio da madrugada para revendê-las em bancas próximas durante o dia. Eles enterraram sua mãe no Setor C, Quadra 311 do cemitério no dia 13 de julho de 2014, e as flores desapareceram no dia seguinte.

PROVAS

Após registrar o furto, a família já ouviu vários relatos que comprovam a recorrência do crime, inclusive de funcionários do cemitério de Brasília.

DESCASO

As famílias reclamam também da falta de manutenção e identificação nos túmulos dos jazigos situados em quadras mais antigas, como as 600 e 900.

SEM RESPOSTA

A polícia confirmou o registro da denúncia de furto e revenda de flores no cemitério, mas diz que ainda “não há previsão de atendimento à imprensa”.

O MESSIAS

O procurador Jorge Rodrigo Araújo Messias é o novo subchefe para Análise e Acompanhamento de Políticas Governamentais da Casa Civil, em lugar de Luiz Alberto dos Santos, que ocupava o cargo há 10 anos. Conhecida pela sigla SAG, a subchefia é um posto chave na Casa Civil.

APAGANDO RASTRO

Desde que assumiu o lugar de Gleisi Hoffmann (PT) na Casa Civil, Aloizio Mercadante tem substituído os cargos de confiança, considerados ‘olheiros’ dos antecessores José Dirceu e Dilma Rousseff.

BAQUE AMAZÔNICO

Independente da decisão do PT de apoiar ou não Eduardo Braga (PMDB-AM) ao governo, já há um perdedor na história: a reeleição da presidente Dilma. Confissão feita pelo vice Michel Temer no Planalto.

INELEGÍVEL

Absolvido no processo do mensalão, Paulo Rocha agora foi impugnado e não poderá disputar o Senado pelo PT do Pará. A ex-governadora petista Ana Júlia quer a vaga na chapa de Helder Barbalho, do PMDB.

FATOR CONFIANÇA

O ministro Aldo Rebelo (Esportes) disse a correligionários do PCdoB que o principal ponto a favor das Olimpíadas 2016 é a “confiança” do brasileiro depois de ter dado certo a realização da Copa.

RESISTÊNCIA

Michel Temer identificou certa resistência dos líderes do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE), e na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), à sua decisão de substituir Valdir Raupp (RO) no comando nacional do partido.

DURONA DEMAIS

Para marqueteiro do PMDB, Elsinho Mouco, a presidente Dilma Rousseff perdeu uma grande chance de mostrar bom humor e beijar a taça em frente às câmeras no Mundial: “Ela foi muito Franklin, tinha de ser mais João Santana”.

ONDE ESTÁ WALLY?

Políticos do PDT-DF têm reclamado do ‘chá de sumiço’ tomado pelo deputado Reguffe. Candidato ao Senado, ele não tem aparecido em eventos e não movimenta suas redes sociais há mais de um mês.

PENSANDO BEM...

Foi difícil separar o pastor Everaldo (PSC) do candidato em culto para 10 mil ontem em Brasília. Oração terminava em promessa e vice-versa.



PODER SEM PUDOR

O JEITINHO DO PREFEITO

A maior virtude do prefeito de Amparo (SP), Raul Fagundes, era imitar com perfeição o governador Ademar de Barros. Um dia resolveu tirar proveito disso, para acelerar a liberação de um convênio encalacrado na Secretaria Estadual de Educação. Do hotel, telefonou ao gabinete do secretário, imitando o governador:

- Me chame aí o prefeito de Amparo! - disse, com tom áspero.

É claro que o prefeito não foi encontrado.

- Se o prefeito aparecer por aí, mande ele vir aqui no Palácio imediatamente! - gritou.

Quando chegou à secretaria, Raul era procurado desesperadamente. Mas ele impôs uma condição para atender o "chamado do governador".

- Só saio daqui com o convênio assinado. O governador que espere.

Nunca um prefeito foi atendido tão rapidamente.

sexta-feira, julho 18, 2014

Dilemas em excesso - JOSÉ PAULO KUPFER

O GLOBO - 18/07


A política monetária caiu numa armadilha da qual sairá com custos maiores do que os necessários, se for administrada pelos manuais ortodoxos



Um ortodoxo radical em economia poderia criticar a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) que, nesta quarta-feira, manteve a taxa básica de juros em 11% ao ano. Os diretores do Banco Central, que formam o comitê, repetiram agora em julho a taxa definida em maio, bem como os termos do comunicado público então emitido, mesmo com a inflação acima do teto da meta e com tendência de alta pelo menos até o último trimestre do ano.

Ainda que, pela ótica mais ortodoxa, a decisão não pareça lógica — a lógica, nessa visão, seria derrubar a inflação para o centro da meta em qualquer circunstância —, ela foi adotada por unanimidade dos integrantes do Copom, assim como era unânime a expectativa dos analistas de que a taxa de juros não seria alterada. Envolvida num excesso de dilemas, a política monetária não tem mesmo muito espaço como se mover, neste momento complicado.

São pelo menos dois os limites estreitos em que as políticas de juros e de câmbio podem circular, nos dias de hoje. O primeiro é o do crescimento econômico, que está baixo e com tendência a enfraquecer ainda mais. Elevar a taxa de juros é a ação mais tradicional para atacar pressões inflacionárias, mas um dos seus efeitos colaterais opera justamente como freio do nível de atividades. Se a economia já parece rodar em ritmo inferior a 1% ao ano, subir juros agora embutiria o risco de colocar mais gelo na geladeira.

Um outro limite vem do setor externo da economia. Em regimes de câmbio flutuante — limpos ou sujos —, movimentos nas taxas de juros costumam repercutir nas taxas de câmbio, e aumentos nos juros colaboram para valorizar a moeda local ante as estrangeiras. O real valorizado barateia importações e encarece exportações, agindo no sentindo de alargar o déficit em transaçöes correntes. Como o déficit já se encontra nas desconfortáveis alturas de 3,6% do PIB, uma alta dos juros tenderia a estressar ainda mais o lado externo.

A política monetária, em resumo, caiu numa armadilha da qual talvez sairá com custos maiores do que os necessários, se for administrada pelos manuais ortodoxos. Um exemplo relativamente recente dos efeitos tumultuadores da aplicação deste manual pode ser encontrado na ação do Banco Central, em setembro de 2008, às vésperas da quebra do banco Lehman Brothers, marco histórico da maior crise econômica global desde a Grande Depressão dos anos 30.

Dois dias úteis antes do evento, o Copom, numa decisão dividida, elevou os juros básicos em 0,75 ponto percentual, levando-os a 13,75% ao ano. A economia, naquele momento, crescia nas vizinhanças de 5% e a inflação acumulada em 12 meses rodava perto do teto da meta, na perigosa faixa de 6%.

Formado na época por uma maioria de economistas ortodoxos, oriundos do mercado financeiro, o comitê preocupou-se apenas com a tendência ascendente dos índices inflacionários. Não considerou as nuvens negras visíveis que já se formavam há algum tempo no horizonte globa e não previu — ou não deu importância — a tempestade que desabou em seguida. Mais: mesmo depois do colapso, manteve os juros altos por mais duas reuniões, em outubro e dezembro. Só começou a cortá-los, em janeiro.

O que ocorreu daí em diante não tem paralelo no histórico dos juros básicos. Só no primeiro semestre de 2009, a taxa Selic recuou cinco pontos percentuais, em pancadas de um ponto percentual por reunião do Copom. A inflação, que já começara a recuar em dezembro, antes da corrida para ajustar a taxa de juros à realidade dos novos e turbulentos tempos, fechou aquele ano em 4,3%, abaixo do centro da meta. E a economia, em 2009, encolheu 0,3%

A pergunta que fica é a seguinte: era preciso subir juros na véspera da hecatombe para evitar um incerto descontrole da inflação?

O emprego fraqueja - CELSO MING

O ESTADÃO - 18/07


Ontem saíram mais três dados sobre o desempenho da economia. Dois deles continuaram apontando fraqueza. O terceiro ficou perto do desastre.

Os dados fracos vieram do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) e da Pesquisa Mensal de Serviços. O quase desastre apareceu no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

O IBC-Br foi montado pelo Banco Central em 2010 para antecipar o comportamento do PIB, que só é divulgado trimestralmente, quatro meses depois de fechado o trimestre. E o que o IBC-Br mostrou ontem a respeito do que ocorreu em maio foi até um pouco melhor do que se esperava: queda de 0,18% em relação à situação de abril (veja o gráfico). Mesmo mais atenuados, os números de maio podem não refletir corretamente o que passou a acontecer, porque outras informações sobre o comportamento da produção mostraram problemas mais graves em junho, que se repetem nas primeiras semanas de julho.

O setor de serviços, que vinha bombando há alguns meses, também mostrou perda de vitalidade. Os dados do IBGE apontaram avanço nominal de 6,6% em maio de 2014, quando comparado com maio de 2013. Como a inflação do período ficou em 6,3%, fica claro que, em termos reais, o faturamento do setor de serviços está enfrentando uma fase próxima da paradeira, de acordo com o que já vem ocorrendo na indústria.

Os dados lastimáveis vieram com a criação de empregos formais (com carteira de trabalho assinada). Em junho, só foram criadas 25,4 mil vagas, o pior mês de junho desde 1998 (veja o Confira). Ainda ontem, a Fiesp apontou novos dados coerentes com esse: queda de 0,64% no nível de emprego na indústria paulista também em junho, em comparação com o mês de maio. É o pior mês de junho desde 2006.

Até agora, a única área macroeconômica que vinha mostrando força era o mercado de trabalho. Mês após mês, o IBGE indicava redução no nível de desocupação e as avaliações mostravam situação de pleno-emprego. No entanto, os dados do Caged mostraram ontem que até o mercado de trabalho começa a fraquejar, mesmo num mês de Copa do Mundo, quando se imaginava que tivessem sido criados muitos empregos, ainda que temporários.

O ministro do Trabalho, Manoel Dias, já não alardeia que a economia vai criar 1,5 milhão de empregos neste ano. Contenta-se se for 1 milhão. Para que essa meta se cumpra, será preciso que nos seis meses seguintes se criem 69 mil vagas mensais, o que parece difícil. O ministro Dias não consegue esconder que junho é o terceiro mês seguido de desaquecimento e que julho e agosto não prometem retomada sustentável.

Toda essa salada de estatísticas não teria grandes consequências não fosse este o início de um quentíssimo momento político, o da campanha eleitoral. E não há nenhuma indicação de que o governo saiba como enfrentar essa situação inegavelmente adversa para seus objetivos.

GOSTOSA


Política da economia está no detalhe - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 18/07


Saldo de empregos formais novos equivale a 40% de Lula 2, mas ainda cresce; inflação da comida cai



O ESTOURO DA INFLAÇÃO da comida coincidiu com a piora do humor econômico e, mais tarde, com a piora aguda dos humores sociais, entre meados de 2012 e de 2013. Mas, para quem pretende fazer prognósticos eleitorais baseado em dados econômicos, note-se que o pior da carestia da comida passou.

Decerto os preços altos contribuíram para a deterioração do sentimento de segurança econômica, o que por tabela ajudou a avariar uma economia que definhava ainda por outros motivos. Difícil vai ser deduzir qual o saldo de melhoras e pioras e qual o sentido que o grosso do eleitorado vai dar isso, dadas as suas opções de voto.

A inflação da comida e da bebida teve um ciclo de alta ruim entre junho de 2012 e fevereiro de 2014, com um pico em abril de 2013, quando chegou a 14% ano, acumulada em 12 meses (foi a época do sarcasmo com a "inflação do tomate").

Entre março e maio de 2013, os preços de alimentos e bebidas subiam ao dobro do ritmo da inflação média, exorbitância vista apenas entre 2007 e 2008, com a inflação mundial da comida e de matérias-primas em geral. O preço médio de comida e bebida chegou a crescer 15,8%, em junho de 2008.

Até 2008, porém, havia euforia no Brasil, com melhoras rápidas em emprego, renda, desigualdade social. Convém lembrar que, apesar da piora ou desmelhora dos anos sob Dilma Rousseff, a "economia da vida cotidiana" não é desastrosa.

Ontem saíram, por exemplo, os números do desempenho do mercado formal de trabalho referentes a junho. O aumento do número de empregos com carteira assinada no mês passado foi, muito de longe, o menor em década e meia.

Qual o efeito prático?

Os números mostram o esfriamento da economia e, em parte menor, a um ritmo inevitavelmente menor de formalização do emprego. Nos últimos 12 meses, foram criados ainda 763.499 empregos, alta de 1,8%, maior que a da população economicamente ativa.

Sim, o saldo de empregos novos equivale a 50% da média dos três primeiros anos de Dilma Rousseff e a 40% do da média do segundo governo Lula. Mas houve crescimento; associado ao fato de que o desemprego permanece baixo, é difícil deduzir daí que a crise chegou decisivamente às ruas.

O cenário varia, decerto, de acordo com setores da economia e regiões. Nas grandes metrópoles, o nível de emprego parou de crescer, ao contrário, no entanto, do conjunto do país (logo, a situação no "interior" ainda anda melhor do que a a da média nacional).

Na indústria, o nível de emprego, a quantidade de gente empregada, decresce, com redução do salário médio, de resto. Talvez esteja aí um fator do baixo prestígio do governo federal em algumas metrópoles, embora o clima na grande cidade esteja ruim por outros motivos, vide a explosão de 2013.

Está mais difícil arrumar emprego, o consumo cresce mais devagar, a inflação marcou o eleitorado, mas ainda há algum progresso na "economia cotidiana" e melhoras sociais (a situação macroeconômica, claro, indica anos medíocres à frente, mas seu péssimo estado não tem efeitos muito tangíveis). Fazer uma limonada político-eleitoral com o limão da política econômica vai ser ainda menos simples nesta eleição.

Nova etapa na guerra fiscal - ANTONIO CARLOS SALLA

GAZETA DO POVO - PR - 18/07


O Supremo Tribunal Federal (STF) publicou a proposta de Súmula Vinculante n.º 69, que prevê como inconstitucional qualquer tipo de isenção do Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação (ICMS) concedida sem autorização do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz). A publicação iniciou uma nova etapa nas intensas discussões em torno da chamada guerra fiscal -- a concessão unilateral de incentivos fiscais de ICMS por parte dos estados e do Distrito Federal.

A Constituição Federal e a Lei Complementar n.º 24/75 já determinam que a concessão de qualquer espécie de benefício fiscal de ICMS depende de aprovação unânime no Confaz. Porém, diversos estados concederam e vêm concedendo, sem a necessária deliberação e aprovação pela autarquia, incentivos fiscais voltados à redução da carga tributária do ICMS a novos empreendimentos em seus territórios ou mesmo à ampliação daqueles já existentes.

Inicialmente, a concessão desses incentivos fiscais era objeto de contestação judicial pelos estados que se sentiam prejudicados, e o STF acabava declarando a inconstitucionalidade de vários desses atos. Após alguns anos, os estados que concediam benefícios fiscais desse gênero alteraram sua linha de ação e, ao se deparar com medidas judiciais tendentes a contestar tais incentivos, revogavam a legislação objeto da demanda judicial e promulgavam outras leis e decretos que concedessem benefícios idênticos.

Essa estratégia implicava na perda do objeto da ação original, exigindo que outra fosse impetrada, e permitia a continuidade das concessões dos incentivos. Em reação, os estados prejudicados deixaram de questionar os benefícios fiscais e passaram a exigir dos contribuintes de seus próprios territórios o pagamento do imposto não recolhido pelos beneficiários dos incentivos estabelecidos em outros estados, mediante glosa dos créditos por eles apropriados.

Em vez de questionar os benefícios considerados inconstitucionais e compelir os próprios beneficiários dos incentivos ao recolhimento do ICMS não pago, passou-se a exigir do comprador das mercadorias a anulação dos créditos de ICMS apropriado, na proporção dos incentivos concedidos na operação. Essa forma de retaliação piora ainda mais a guerra fiscal entre os estados, porque não invalida as leis concessoras de benefícios unilaterais e não coíbe a fruição pelos beneficiários de outros locais, exige o pagamento de imposto e pune com multa pecuniária pessoa diversa da beneficiária.

Ao apreciar a glosa de créditos pelos estados destinatários de mercadorias objeto de incentivos unilaterais, o STF posicionou-se, na maioria das decisões que proferiu, favoravelmente aos adquirentes, dentre outros fundamentos, porque os estados não podem, ao se sentir prejudicados pela concessão unilateral de benefícios, praticar nova inconstitucionalidade, limitando a apropriação de crédito constitucionalmente garantida. Nessa linha de raciocínio, tais decisões destacam que “inconstitucionalidades não se compensam”.

Porém, a aprovação da proposta da Súmula Vinculante n.º 69 pode alterar o entendimento dessa matéria pelo STF, já que o reconhecimento prévio da inconstitucionalidade dos incentivos fiscais concedidos unilateralmente poderia legitimar a glosa desses créditos. Nessa hipótese, a atual situação caótica seria profundamente agravada, por afetar as relações comerciais entre pessoas jurídicas estabelecidas em estados diferentes.

O contribuinte adquirente de mercadorias oriundas de outros estados não tem como certificar-se se o respectivo fornecedor é ou não beneficiário de alguma espécie de incentivo, tampouco pode impedi-lo de tirar proveito do benefício, caso tenha conhecimento desse fato e, pior ainda, o adquirente não necessariamente tem alguma vantagem na aquisição do produto, já que seu fornecedor pode utilizar os incentivos recebidos para aumentar seus ganhos na atividade comercial que desempenha.

Todavia, apesar de tudo isso, será ele – o adquirente – obrigado ao pagamento do ICMS em favor do estado de seu domicílio, além de ser punido com pesada multa por creditar-se do ICMS destacado na nota fiscal de aquisição da mercadoria. Os prejuízos da já combalida economia brasileira serão irreparáveis, porque a manutenção da exigência de estorno desses créditos poderá resultar no encerramento das atividades de empresas idôneas.

Ademais, o risco fiscal decorrente da aquisição de mercadorias de outros estados pode ser refletido nos preços de revenda, tornando os produtos pouco competitivos e concorrendo para a substituição por produtos importados.

Nesse cenário, é imperativo que o Poder Legislativo regule as relações jurídicas que envolvem incentivos fiscais unilateralmente concedidos, visando mitigar os efeitos nocivos imediatos e potenciais causados pela guerra fiscal.

Queda do ritmo - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 18/07


O índice de atividade do Banco Central trouxe mais um dado mostrando o crescimento do ano murchando. Número após número, o que está sendo revelado é que o país está em estagflação. Crescimento próximo de zero e inflação acima do teto. O governo inventará pacotes para alguns setores, neste período pré-eleitoral, mas não há tempo para virar o jogo.

0IBC-Br não é exatamente uma prévia do PIB, tem outra lógica e nem sempre os dados coincidem. A tendência, contudo, é parecida com o indicador que é calculado pelo IBGE. Nos últimos 12 meses, teve 5 retrações.

O bom dado de janeiro trouxe esperança de um ano mais forte, mas entre fevereiro e maio, houve duas quedas e duas pequenas altas. Para junho e julho, os temores são de que a redução da atividade econômica tenha sido afetada pelos sucessivos feriados. O lado bom da Copa, que é a presença de turistas, beneficiou apenas alguns setores. Com o número de maio divulgado ontem, a projeção mais comum passou a ser de queda do PIB no segundo trimestre.

A grande questão é como chegamos à estagflação. O ano teve a Copa e tem a eleição, que deveriam impulsionar um pouco o PIB. O Banco Central elevou a taxa de juros durante um ano e isso deveria ter derrubado a taxa de inflação, mas ela está acima do teto da meta.

Os equívocos foram cometidos antes. A equipe econômica cometeu os erros de aumentar gasto público, manipular indicador fiscal, adotar políticas dirigidas a apenas alguns setores. Achou aceitável um pouco mais de inflação e fez uma intervenção desastrosa na energia. Era para reduzir a conta de luz, mas desorganizou o setor, aumentou incertezas e vai crescer ainda mais o preço da energia nos próximos anos. Não é a crise externa o que nos leva a esse desempenho melancólico. É o próprio governo.

Em março de 2013, a presidente Dilma, na quinta cúpula dos Brics, em Durban, disse que não sacrificaria o crescimento para combater a inflação. Segundo ela, “as vozes de sempre” pediam redução da inflação com medidas que derrubam crescimento, “um receituário que quer matar o doente em vez de curá-lo”. Depois, acusou “agentes de mercado” de terem manipulado sua fala. Repetiu com outras palavras a mesma ideia.

Um grande erro da política econômica, exibido em várias declarações, foi apostar que o controle mais frouxo da inflação levaria a um PIB maior. É o oposto. Inflação mina o crescimento. Os preços altos tiram renda e aumentam a incerteza para empresas e famílias. O BC tem alertado sobre isso em seus relatórios. O problema é que o BC nunca teve autonomia de fato nesta administração. A política monetária não pode fazer todo o trabalho.

A inflação alta e a perspectiva de mais inflação no futuro, por causa dos preços reprimidos e a bagunça do setor elétrico, reduzem o ânimo do consumidor, a oferta de crédito e o investimento das empresas.

O país não chegou à estagnação por acaso. Foi o resultado de escolhas erradas. No blog, postei texto do repórter Marcelo Loureiro informando que dados da Receita Federal registram que a renúncia fiscal para o setor automobilístico, desde 2009, foi de R$16,1 bilhões. No mesmo período, a remessa de lucros para as matrizes foi de US$ 18 bilhões, segundo dados do Banco Central. A renúncia fiscal foi feita para manter o ritmo de crescimento. Não deu resultado. Agora, o governo quer se reunir com outros setores e distribuir novas vantagens setoriais para reverter o pessimismo. As expectativas só vão melhorar diante de fatos concretos.

Dinheiro sobre a mesa - PEDRO LUIZ PASSOS

FOLHA DE SP - 18/07


Com R$ 250 bilhões de desonerações, é descabido cogitar mais renúncia fiscal ou aumento de impostos


OS RESULTADOS orçamentários do governo federal, com a arrecadação em queda e os gastos em alta, não recomendam maiores desonerações fiscais, por mais justas e necessárias que elas sejam. Não fossem os problemas do Orçamento federal, uma parada técnica tanto de novos gastos como de desonerações já seria aconselhável para que a sociedade avaliasse a eficácia de tais decisões. Historicamente, o orçamento tem sido sempre deficitário. Deficit são financiados com a emissão de papéis do Tesouro, implicando aumento de sua dívida pública.

E não é só. Um ponto crucial, ao qual não se dá a devida importância, é o estoque de desonerações, também chamadas de incentivos fiscais. Não é possível que uma profunda revisão no inventário desses incentivos, empilhados durante décadas de ajuda oficial a diversos setores para atender diferentes finalidades, não encontre itens que possam ser repensados ou simplesmente eliminados.

O Orçamento federal abriga dezenas de renúncias de arrecadação. Muitas delas certamente já caducaram e, assim, perderam razão de existir. Ou o percentual de renúncia devesse ser revisto, tal como faxina para abrir espaço nos armários de casa. O que há a liberar é dinheiro grosso para outros fins, o suficiente, aliás, para evitar novos aumentos de impostos, como tem se ventilado, ou quiçá até reduzir a carga tributária.

O valor do que a Receita Federal chama de gasto tributário foi estimado na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2014 em enormes R$ 249,7 bilhões, correspondendo a 20,6% da arrecadação prevista para todo o ano --ou 4,76% do Produto Interno Bruto (PIB). Equivale a 85% do Imposto de Renda recolhido por empresas, bancos e pessoas no ano passado. Ou a dez vezes o gasto anual do Bolsa Família, que atende 14,1 milhões de famílias (cerca de 50 milhões de pessoas).

Não se faz, a priori, juízo de valor sobre tais renúncias fiscais. O que se discute é o acúmulo silencioso da miríade de "isenções, anistias, remissões, subsídios e benefícios de natureza tributária, financeira e creditícia", como a Receita define tais desonerações.

Com 19 funções orçamentárias listadas entre os benefícios, envolvendo 147 subitens, cobrindo itens variados, de transporte escolar a insumos processados na Zona Franca de Manaus, quase nada se sabe sobre o resultado desses incentivos (vários deles longevos, embora nenhum tenha validade permanente) nem sobre a sua eficácia.

Os benefícios fiscais têm prazo para expirar, mas na prática raramente é assim. O desconto do IPI sobre a venda de carros, por exemplo, existe desde 2009, embora venha sendo renovado sucessivamente. Neste ano, antes de o governo se decidir por mais uma prorrogação, a perda de arrecadação estava estimada pela Receita em R$ 1,3 bilhão. Cabe a dúvida sobre a pertinência desse subsídio, depois de seis anos de desoneração.

A situação do Simples Nacional é diferente. Essa modalidade deve representar uma renúncia tributária de R$ 12,3 bilhões neste ano, 5% do total da arrecadação desonerada. O que cabe indagar é se seria correto tratar como incentivo fiscal o que, de fato, requer um corte permanente da carga tributária sobre as pequenas e médias empresas.

Há casos em que a desoneração é um simples exercício de bom senso tributário; noutros, a persistência do benefício se deve à força de lobbies; e há situações ainda em que o confronto entre o resultado do incentivo fiscal vis-à-vis o custo-oportunidade da receita perdida deve deixar os governantes vexados.

Com carga tributária de 36% do PIB, a maior do mundo para países com renda per capita assemelhada, deficit orçamentário de 4% do PIB e a dificuldade do governo em entregar a sua meta de superavit primário, tudo o que não se espera é que haja dinheiro de impostos deixado sobre a mesa, no mais das vezes, devido à falta de controle sobre o resultado pretendido em cada desoneração.

Se há 5% do PIB distribuídos à revelia do sistema de freios e contrapesos da sociedade, vamos combinar o seguinte: é impróprio cogitarem-se mais subsídios e, sobretudo, novos aumentos de impostos. É imperativa uma revisão urgente dessa montanha de benefícios tributários, porque, em minha opinião, parece evidente que existem muitos recursos a recuperar.

Lula, Boulos e as fantasias burguesas - REINALDO AZEVEDO

FOLHA DE SP - 18/07


O MTST resgata certa pureza e certa crueza proudhonianas, distantes do legalismo petista


O MTST, os ditos "trabalhadores sem teto", está descontente com os serviços de telefonia. Na quarta, seus militantes protestaram na Anatel e nas respectivas sedes da TIM, Claro e Oi. Não deu tempo de ir à da Vivo. A turma agencia também essa causa. Um comunicado parece inaugurar a fase holístico-roqueira do socialismo: "Se acham que a gente vai se contentar só com nossa casa, estão enganados. Queremos moradia, transporte público de qualidade, telefonia e internet, e a gente não aceita pagar caro, não". É o "aggiornamento" dos Titãs --"A gente não quer só iPhone..."-- e o embrião de um novo partido.

Guilherme Boulos, um dos comandantes do MTST e colunista desta Folha, traz consigo o charme irresistível da renúncia. Oriundo da classe média-alta, com formação intelectual, prefere dedicar-se à categoria dos "Sem" --até dos "Sem-Sinal" de telefonia. Lembro-me do fascínio que tive ao ler, aos 15 anos, "Minha Vida", a autobiografia de Trótski. Largou as benesses do pai abastado para morar no quintal do jardineiro Shvigovski, o revolucionário "do pomar". Um encanto!

A coisa meio chata para mim é que eu lia o livro com um fio de lâmpada sobre a cabeça, na cozinha de modestíssimos dois cômodos, à beira de um córrego fétido. Não demorei a entender que certa renúncia é um privilégio de classe, não uma superioridade moral. Dispensar a riqueza abre a vereda para a terra da santidade. A trajetória contrária é coisa de um parvenu. Muita gente com dificuldades de acreditar em Deus crê nos profetas.

Não falo de Boulos, mas do que ele representaria: o anunciador de uma nova era, quem sabe uma Idade de Ouro da real igualdade, uma espécie de celebração do encontro de Virgílio com Marx. "Ecce homo." Lula sempre constrangeu as esquerdas com suas grosserias. Em 1979, por exemplo, concedeu uma entrevista à revista "Playboy" (is.gd/g948iR) em que barbarizou.

Confessou, de modo oblíquo, que sua iniciação sexual se dera com animais. Pegava as viuvinhas que iam ao sindicato resolver problemas relacionados à Previdência. Conhecia o sogro de Marisa, sua atual mulher --então viúva--, e pensava: "Ainda vou papar a nora desse velho". Filosofou: "O problema de mulher é você conseguir pegar na mão. Pegou na mão"¦". Admirava pessoas "que estiveram ao lado dos menos favorecidos". Entre os mortos, Tiradentes, Gandhi, Che Guevara, Mao Tse-tung e Hitler ("mesmo errado" --ufa!!!). Entre os então vivos, Khomeini e Fidel Castro. Mas a semente estava lá. Pensou alto: "É preciso fazer alguma coisa para ganhar mais adeptos, não se preocupar com a minoria descontente, mas se importar com a maioria dos contentes". Poderia ser a divisa de um fascismo. Deu no petismo.

Poucos, ou ninguém, teriam sobrevivido àquela entrevista. As circunstâncias históricas --primeiro ano da "ditadura esculhambada", de Figueiredo-- o salvaram. Era a suposta realização de um projeto acalentado por parte da esquerda: o "intelectual orgânico" da classe operária, que não mais distinguia o pensar do fazer. Em 1982, candidato ao governo de São Paulo, foi inquirido por Rogê Ferreira, do PDT: "Você é socialista, comunista ou trabalhista?". Lula mandou ver: "Sou torneiro mecânico". Marilena Chaui aplaudiu como se fosse Spinoza. Ela encontrava, finalmente, a "nervura do real".

Mas Lula também já é um parvenu. Há quem não goste dele não por aquilo que pensa, mas por ter traído supostos emblemas de sua "classe natural". O MTST, atuando como partido, resgata, por intermédio de sua principal liderança, certa pureza e certa crueza proudhonianas, distantes do legalismo petista. Ao movimento, tudo é permitido --violar leis ou furar a fila das pessoas que aguardam, pacificamente, por uma casa. Se preciso, a turma cerca o Poder Legislativo e sobrepõe a vontade de uns poucos milhares aos votos de muitos milhões. É a "democracia direta" reduzindo o grupo decisório para ganhar eficiência, compreendem?

Lula foi a encarnação do delírio das esquerdas à espera do "intelectual orgânico" da classe operária. Mas ele se aburguesou sem nunca ter buscado a altitude das ideias. Boulos, não! Ele nos devolve ao refinado Iluminismo francês. Os seus sem-teto são os "sans-cullotes" das fantasias jacobinas --que são, desde sempre, fantasias... burguesas!

Água morna - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 18/07


O eleitorado já fez a parte que lhe cabe nessa altura: posicionou-se quanto ao que espera de quem venha a comandar o país nos próximos quatro anos, dizendo que deseja mudanças; um Brasil melhor, portanto.

Emprego, renda, devolução dos impostos na forma de bons serviços, oportunidades, representação política com um mínimo de qualidade, estabilidade nos preços, segurança e a elevação do grau de maturidade no diálogo entre Estado e sociedade.

Os candidatos a presidente da República, contudo, ainda estão devendo uma resposta à altura desses anseios. E que não peçam para cada cidadão ler atentamente os programas de governo registrados na Justiça Eleitoral.

A conquista da emoção e da razão do público se dá no ambiente da interlocução que consigam construir mostrando que estão identificados com os desejos e sabem exatamente como realizá-los. De preferência, pensando em algo que ainda não tenha ocorrido ao eleitor, mas que uma vez dito desperte o inconsciente coletivo.

Isso quer dizer ir além do óbvio, fazer a diferença e ousar com vontade de acertar. Hoje os principais concorrentes parecem todos na defensiva, com muito mais medo de errar.

O governo tentando se equilibrar na sua zona de conforto das realizações passadas e promessas vagas de “fazer mais” e a oposição igualmente genérica, não raro demagógica e temerosa de se confrontar com programas governamentais de resultado inócuo.

Um exemplo? Aécio Neves prometendo reformular o programa Mais Médicos. Segundo ele, vai rever as regras de contratação com o governo cubano. Conversa de mineiro, pois sabe perfeitamente bem que a questão da saúde pública não se resolve com a importação de profissionais.

Podemos citar também a proposta do candidato Eduardo Campos sobre o passe livre para estudantes do transporte público. Isso lá é assunto para pretendente à Presidência de uma República complexa como a do Brasil?

A ideia aí é atrair a juventude. Sacada boa, porém óbvia demais e pequena ante a intenção de quem se propõe a dar um choque de renovação na política.

Esse poderia ser um bom tema para todos eles. Mas nenhum deles se atreve (no sentido original do termo, clarear as trevas) a propor algo de realmente inovador: a mudança do modelo das relações entre Executivo e Legislativo.

Eduardo Campos, em tese, propõe. Na prática, faz todo tipo de aliança na eleição e diz que isso é tática para tentar se eleger. Por que não seria para, se eleito, governar? Sobre a reforma política, nenhum dos três sai do lugar.

Dilma quer plebiscito e financiamento público, ambas as sugestões inexequíveis; Aécio defende um voto distrital que sozinho não faz verão; Campos fala sobre o misto de financiamento público e privado junto com lista fechada e limitação de mandatos legislativos.

O eleitor só fica olhando enquanto nenhum deles dá uma palavra sobre voto obrigatório ou facultativo, porque não lhes interessa a quebra dessa reserva de mercado.

Carochinha. Uma graça a justificativa de suas excelências para a suspensão dos trabalhos legislativos até as eleições: livrar o contribuinte do risco da aprovação de propostas demagógicas que resultem em aumento de gastos públicos.

Quanto a obrigar o contribuinte a pagar-lhes os salários enquanto cuidam das respectivas vidas políticas no lugar de exercer o mandato, os congressistas já não têm restrições.

Ademais, se a preocupação com o populismo é assim tão séria, bastaria que os líderes partidários usassem o mesmo poder que tiveram de suspender as sessões deliberativas para derrubar por votação simbólica as tais propostas demagógicas.

Vitamina. Quanto mais se noticia o afastamento entre a presidente Dilma e o coordenador de internet da campanha, Franklin Martins, mais os dois se reaproximam.

Quadro preocupante - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 18/07

Apesar de ter variado para menos na margem de erro e de seus competidores mais próximos não terem saído do lugar, a presidente Dilma tem na pesquisa do Datafolha/TV Globo divulgada ontem um quadro prospectivo preocupante. No mais longo prazo, a redução da diferença que a separa de Aécio Neves, do PSDB, no segundo turno leva a um empate técnico pela primeira vez, com a tendência de queda de Dilma se confirmando, enquanto o candidato tucano cresce.

Também para o candidato do PSB, Eduardo Campos, a diferença num hipotético segundo turno foi reduzida para sete pontos percentuais apenas, de 45% para 38%. Isso quer dizer que, quando a presidente Dilma é confrontada diretamente com seus principais opositores, a possibilidade de que ela perca aumenta a cada pesquisa, embora os dois sejam bem menos conhecidos do que ela.

Há outros dados preocupantes para a candidatura oficial. Ela continua sendo a mais rejeitada de todos os candidatos, com 35% de índice, o dobro da rejeição de Aécio e o triplo da de Campos. Em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, a rejeição de Dilma atinge nada menos do que 47%.

A presidente Dilma, no entanto, continua vencendo em praticamente todas as regiões do país, com exceção do Sudeste, onde está em empate técnico com o candidato tucano Aécio Neves. O Nordeste continua sendo sua fortaleza, embora a pesquisa Datafolha tenha detectado uma queda de sua popularidade na região. Ela vence Aécio de 49% a 10%, mas tinha 55% na pesquisa anterior. O ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos aparece com apenas 12% na região em que é mais conhecido politicamente.

O que deve estar preocupando a campanha da presidente Dilma é o ânimo do eleitorado, que não está nada otimista. A maioria acha que a inflação e o desemprego vão aumentar, que o poder de compra vai ser reduzido, embora 70% dos entrevistados tenham dito que não temem perder o emprego, e a maioria, embora considere que a perspectiva econômica é ruim para o país, considera que sua vida pessoal vai melhorar ou continuar como está.

A Copa do Mundo não teve nenhuma influência na aprovação dos candidatos, tanto que Aécio, com 20%, e Campos com 8% (tinha 9% no levantamento anterior) mantiveram-se no mesmo lugar e a própria presidente Dilma caiu na margem de erro, de 38% para 36%. Apesar disso, a maioria acha que a presidente Dilma foi a mais beneficiada pela realização do campeonato mundial de futebol, o que pode ser um indício ruim para ela, pois mesmo assim ela perdeu pontos.

Outro índice muito analisado nas pesquisas eleitorais, o que mede a avaliação do eleitor sobre o governo do candidato(a) à reeleição, está, há alguns meses, dentro da margem que indica dificuldade para a eleição do(a) incumbente. Dilma caiu de 35% para 32% entre aqueles que consideram seu governo ótimo ou bom, e a marca de 35% já é o início do ponto negativo nessa avaliação.

Somente os governantes que estão acima de 35% de ótimo ou bom entram na faixa de reeleição mais provável. Nesta mesma época, quando tentaram a reeleição, os ex-presidentes Lula e Fernando Henrique Cardoso tinham 38% de ótimo e bom.

Todos esses dados ficam piores quando se sabe que a presidente Dilma é conhecida por 99% dos eleitores, sendo que 53% dizem que a conhecem muito bem . Já o candidato Aécio Neves é conhecido por 81% dos eleitores, mas somente 17% dizem que o conhecem bem . O candidato do PSB, Eduardo Campos, tem ainda mais espaço para crescer: apenas 59% dos eleitores dizem conhecê-lo, mas somente 7% consideram que o conhecem muito bem .

Todos no mesmo bote de fibra óptica - FERNANDO GABEIRA

O ESTADÃO  - 18/07


Na Copa das Confederações torcemos para o Taiti. Mesmo quando perdia de 10 a 0, ainda vibrávamos com as raras oportunidades de um gol de honra. O Taiti não é aqui. É um país do surfe de ondas gigantes, com suas águas azuis e a temível Praia de Teahupoo, conhecida como Quebra Crânio. Já o Brasil é, ou era, o país do futebol. Gastamos R$ 40 bilhões para sediar a Copa do Mundo e fomos os únicos a perder de 7 a 1.

A presidente Dilma declarou no Paraná que o Exército usaria, para resgatar as vítimas do temporal, um bote de fibra óptica. No início fiquei em dúvida. Tinha visto na TV um programa sobre como o GPS orienta a agricultura americana, aumentando sua produtividade e traçando com rigor a trajetória ideal dos tratores. Será que haviam inventado um bote de fibra óptica para explorar as riquezas do mar, quem sabe até do pré-sal? Mas o bote de fibra óptica não existe nem será inventado. Ele é, para mim, o sinônimo de uma canoa furada em que todos navegamos no momento.

Dilma também chamou de urubu quem não acreditava nas maravilhas da Copa. Caiu um pequeno viaduto, mas isso não é problema, porque não havia ninguém do governo embaixo dele no instante da queda. Já escrevi sobre ser chamado de urubu pela artilharia eletrônica petista. Urubu é o símbolo da torcida do Flamengo. É o preto da camisa rubro-negra, cores do Íbis, o pior time do mundo, ou da Alemanha, que nos serviu o chocolate da Copa das Copas, portanto, o chocolate dos chocolates.

Não sei o que a presidente tem contra os urubus. Tom Jobim amava-os e discorria longamente sobre a elegância de seu voo, nas mesas do Degrau, no Leblon da sua época. Fez uma linda melodia para traduzir em sons a beleza de seus movimentos. Não creio que seja pela cor, porque esse tipo de preconceito, teoricamente, o PT não tem. Ou porque come bichos mortos, algo que a maioria da humanidade faz. Pode-se dizer em defesa dos seres humanos que não comem um animal cru. Mas isso era antes da chegada dos restaurantes japoneses, de vez que os bifes tártaros eram exclusividade de uma minoria.

Dilma estava rígida na final da Copa. Nem se levantou para aplaudir o gol da Alemanha. E quem não aplaudiu aquele gol de Götze ou não gosta de futebol ou é argentino, pois os hermanos sentiram ali que perdiam o título. Compreendo esse medo, já que estamos no mesmo bote de fibra óptica, na mesma canoa furada. Durante os primeiros dias após os 7 a 1 fiquei com medo de abrir as gavetas e encontrar mais um gol da Alemanha. Se Dilma deixasse sua cadeira, poderiam encontrar mais um gol da Alemanha embaixo dela.

Continuo defendendo o direito ao delírio e, claro, as opiniões. Lula disse na África do Sul que os outros países viriam disputar o segundo lugar, porque a Copa era nossa. Parreira disse que estávamos com a mão na taça. Felipão elogiou o próprio trabalho e o da geração tóis, que se define com um movimento de braços que faz um T, o mesmo com que Dilma posou na internet quando as coisas iam bem. A geração tóis, que se descreve com os braços, na verdade, deu uma banana para os que esperavam, ao menos, a garra dos argelinos.

Livre do furor patriótico, estimulado pelo governo e por grandes empresas envolvidas, é possível agora pensar com calma.

Como encarar com otimismo uma seleção que toma a família como modelo? Nada contra a família, respeito a opinião do herói da torcida, David Luiz: sexo só depois do casamento. Mas a família não é a forma adequada para desenvolver um trabalho desse tipo. Entre crises de choro e rezas, os jogadores se desmanchavam. E os psicólogos diziam que era o peso de tanta expectativa nacional. Somos o único país do mundo onde torcida a favor é vista como um fator negativo.

A torcida foi ótima. Não podia ser a mesma do Taiti, porque levamos o Brasil a sério no quesito futebol. Os inúmeros canais de TV nos puseram, nos últimos anos, em contato com o futebol de quase todo o mundo. Campeonatos espanhol, inglês, alemão. Era possível ver uma evolução maior que a brasileira. Mas isso era uma evidência para os que gostam e acompanham o futebol, embora muitos cronistas se tenham deixado levar pela emoção patriótica.

A cúpula do futebol está apodrecida. Talvez venha agora uma mudança, já que o foco está na análise da catastrófica participação brasileira na Copa. Mas quantas coisas não estão decadentes no Brasil e ainda estão camufladas? A indústria está em decadência e seu movimento para baixo ainda não desperta o interesse nacional. A política está decadente, num nível de putrefação que os franceses definem como faisandé, o qual repugna até meu estômago de urubu.

Somos um povo alegre e comunicativo. Mas isso não supera uma lacuna em nossa educação: um esmagador número de monoglotas. Em 2008 tentei transformar isso num grande tema político. Avançamos muito pouco desde então e não há sinais de termos tomado consciência dessa fragilidade. Seria injusto com o marxismo atribuir a indiferença ao inglês a uma resistência ideológica. Os chineses não pensam assim e tratam de dar passos mais largos.

Sei que é difícil apontar essas lacunas. No Brasil vivemos num mundo tão extraordinário que temos de imitar o célebre urubu de Stanislaw Ponte Preta e voar de costas. Sobrevoar um país onde os jornais diziam que o zagueiro Dante iria ser um trunfo porque, jogando no Bayern, conhece os alemães. E nem uma vivalma para lembrar as fortíssimas evidências de que os alemães podiam também conhecer Dante.

Nos morros do Rio, estimulados por traficantes, alguns moradores chamam os adversários de alemães. Está na hora de nos abrirmos um pouco para algumas qualidades dos alemães.

Podemos ser um país melhor. Antes teremos de perder esse espírito de fodões de que com tóis ninguém pode, vem quente que estou fervendo. Ele favorece os apagões, nas semifinais da Copa ou na noite de núpcias. Foi-se o tempo em que pensávamos que os alemães eram limitados porque eram apenas organizados e bem treinados. São tudo isso e têm talento. É a única combinação que leva à vitória ou, ao menos, a uma derrota honrosa.


A cor do recesso - LUIZ GARCIA

O GLOBO - 18/07


Está decidido que, até o fim do primeiro turno das eleições deste ano, Senado e Câmara dos Deputados simplesmente fingirão que trabalham



Tudo bem — ou, melhor dizendo, tudo mal —, a Copa acabou e está na hora de o Brasil voltar ao batente. Na área dos poderes da República, isso significa tocar para frente este país que todos acreditamos ser maravilhoso e promissor; ou seja, ele tem ao mesmo tempo um belo futuro pela frente e não está ainda, digamos assim, inteiramente pronto.

É óbvio e indispensável que a decisão de arregaçar as mangas e mergulhar no tal batente seja visível e, digamos assim, realmente honesta. Assim deve ser — mas, lamentavelmente, não é o que nos contam as notícias de Brasília. Acabamos de ficar sabendo que as duas Casas do Congresso — pelo visto exaustas com os dias de patriótico esforço na torcida pela vitória que não tivemos no gramado — decidiram entrar num tal de recesso branco. A expressão, para quem ainda não sabe, tem lamentável significado: não se trabalha, mas, para efeito público, finge-se que há trabalho.

Talvez fosse mais honesto rotular o recesso branco com outra cor: talvez, chamá-lo de vermelho, que é a cor da vergonha. Está decidido que, até o fim do primeiro turno das eleições deste ano, Senado e Câmara dos Deputados simplesmente fingirão que trabalham. Fica a triste impressão de que os nossos ilustres representantes estão convencidos que este nosso país já está, digamos assim, pronto e descansado.

Só isso justificaria o que foi decidido: nos 80 dias que nos separam das eleições, os senadores trabalharão exaustivos dois, em agosto. Os deputados terão maior sacrifício, com dois dias em agosto e mais dois em setembro. Mas os eleitores não precisam se preocupar com o bem-estar daqueles em quem votaram: seus representantes não perderão um só tostão de seus vencimentos. Para quem não sabe, são R$ 26.700 por mês pelos seus patrióticos esforços.

O tal recesso branco seria aceitável, pelas normas do Legislativo, caso senadores e deputados tivessem votado a indispensável Lei de Diretrizes Orçamentárias do ano que vem. Mas nem isso aconteceu. Em defesa do que foi decidido pelos nossos exaustos parlamentares, o presidente do Senado e do Congresso, Renan Calheiros (do PMDB de Alagoas) teve uma admirável explicação: não se trata de recesso branco, mas de “compatibilização entre as atividades do Legislativo e as eleições”. Ele reconheceu que não haverá ordem do dia, mas “sessões de discussão”. Ou seja, uma oportunidade para discursos de eminentes representantes do chamado baixo clero, que não perdem a oportunidade de soltar o verbo para plenários vazios ou, simplesmente, desinteressados.