sexta-feira, julho 18, 2014

Um avião no caminho - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 18/07


BRASÍLIA - Caiu um Boeing-777, com 298 pessoas a bordo, sobre a semana internacional estrelada por Dilma Rousseff em Brasília.

A única certeza era que não foi um acidente e sim um ataque. De quem? É improvável, não impossível, que os rebeldes ucranianos tenham armamento capaz de atingir um avião a 10 km de altitude. Mas as primeiras suspeitas recaíram sobre governos regulares ou, mais precisamente, os da Rússia e da Ucrânia.

Apontar um dos três não é simples, até porque a Ucrânia integrou a antiga União Soviética e seu armamento, ao menos a base da sua tecnologia de defesa, é de origem russa. Ou seja, os dois países e os separatistas têm equipamentos similares.

Um dado considerado relevante por analistas de Brasília é que nem os rebeldes, nem a Rússia, que acaba de sofrer novas sanções dos EUA e da UE, nem a Ucrânia, que já perdeu a Crimeia e enfrenta forças separatistas, teriam interesse numa ação temerária como derrubar o avião de um terceiro país, cheio de civis de diferentes nacionalidades.

Logo, o ataque não foi, obrigatoriamente, intencional. Parece inacreditável, mas erros acontecem e, de qualquer forma, o episódio aumenta a tensão entre Rússia e Ucrânia e a desconfiança sobre Vladimir Putin.

E por que a tragédia caiu sobre a semana de Dilma? Por dois motivos. O primeiro é que o acidente relegou ao segundo plano a visita do presidente da China, Xi Jinping, importante e com resultados concretos (a venda de 60 jatos da Embraer, por exemplo). O segundo é que, com derrubada do Boeing, ataque de Israel a Gaza, sanções à Rússia, queda das Bolsas..., o ambiente internacional se deteriora num momento de fragilidade da economia brasileira.

Nesta quinta (17) mesmo, duas notícias negativas: retração econômica em maio e a pior geração de empregos de junho em 16 anos. Como a desculpa de Dilma para a economia medíocre é o ambiente internacional, não deve melhorar tão cedo.

O mundo preocupa-se com a saúde. E nós? - WASHINGTON NOVAES

O ESTADÃO - 18/07


É inquietante verificar que, fora este jornal (12/7), raros órgãos da comunicação brasileira informaram que a Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul confirmou duas mortes no Estado por gripe suína, de duas mulheres não vacinadas. Além delas, outras 43 pessoas morreram em 2013 no Estado, vitimadas pela gripe.

É preciso dar muita atenção aos surtos de doença em massa, ainda presentes sob muitas formas. O Brasil relatou 1,4 milhão de casos de dengue em 2013 (New Scientist, 24/5). Estudo publicado na revista científica The Lancet (10/7) indica que uma vacina reduziu em 88,5% os casos de dengue hemorrágica em três países asiáticos (Agência Estado, 11/7). E dengue não é o único problema. A Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu (4/7) a ministros da Saúde africanos medidas drásticas para conter epidemia de Ebola na Guiné, em Serra Leoa e na Libéria. Desde março, 759 casos foram confirmados, com 467 mortos nos três países - e não há vacinas nem tratado. Alta porcentagem de infectados morre. E não foi essa a única preocupação da OMS na reunião: tratou-se ali também do temor do possível ressurgimento do vírus da varíola, epidemia considerada extinta há mais de três décadas. E a razão está em que vírus da doença continuam a circular pelo mundo em estudos científicos, com risco de evasão.

Na mesma reunião da OMS em Genebra, a Comissão do Código Alimentar pediu que todos os países adotem recomendações sobre uso de medicamentos em animais que serão usados na produção de alimentos, sobre níveis máximos de chumbo em produtos para mulheres que amamentam, assim como de arsênico no arroz e certas toxinas no milho. Outras recomendações: limites máximos de resíduos em praguicidas, alimentos e medicamentos, assim como no uso de aditivos em alimentos. São temas que preocupam no mundo todo.

Outro capítulo está no uso excessivo de antibióticos, que está favorecendo "pragas modernas", como diz um livro de Martin J. Blaser, microbiologista da Escola de Medicina da Universidade de Nova York, pela Editora Macmillan (New Scientist, 24/5). Segundo a revista, os relatos de bactérias resistentes a antibióticos estão "crescendo de ano para ano". E os antibióticos estariam contribuindo também para a obesidade, ao perturbarem bactérias intestinais que têm papel importante no processo da nutrição. Criadores usam esses medicamentos para engordar o rebanho - e isso aconteceria também com seres humanos. Mas problemas podem sobrevir nas áreas de diabetes, alergias e certos tipos de câncer.

Diz o cientista que "estamos perturbando" o equilíbrio entre células e bactérias (que existem em número dez vezes maior), já que a cada dose de antibiótico eliminamos também "massas de inocentes bactérias" e essa ausência implicaria perdas no campo das imunidades, na asma, na diabetes tipo 1, em infecções gastrointestinais e em outras doenças. Precisamos, por isso, criar medicamentos que eliminem apenas os organismos nocivos. E formatos para enfrentar a resistência a antibióticos. Mas para tudo isso, diz a OMS, será preciso desenvolver soluções que sejam consideradas um "bem público", não "um jogo comercial". E exigirão um acordo com a indústria farmacêutica: esta precisará ser paga, por meio de fundos, pela pesquisa, e não por vendas. Não seria tão difícil, pois o mercado já não lhe proporciona altos rendimentos nessa área.

São temas importantes para o Brasil, onde os problemas na área da saúde pública, embora venham caindo, ainda são muito preocupantes - com a agravante de que 54% das despesas com saúde vêm sendo, na média, financiadas por gastos privados (Comitê de Estudos Médicos do Estado de Goiás, julho de 2014, citando estudo da OMS), e não por verbas públicas, necessárias para a imensa maioria da população. É um panorama bem diferente do que ocorre em países até mais ricos, como a Noruega, onde o poder público financia 86% dos gastos. Ou na Turquia (75%), na Colômbia (75%) e no Uruguai (68%). Em 2013, de nossos investimentos federais de R$ 47,3 bilhões, a área de saúde ficou com apenas 8,2%, menos até que a média africana, de 10,6%. Estudo do British American Journal, citado pela Folha de S.Paulo (5/7), mostra que temos 350 mil mortes anuais no País por doenças cardíacas, embora elas tenham diminuído 21% em uma década nos municípios atendidos por programas de saúde da família. Nas doenças cerebrovasculares a redução foi de 18%.

Um avanço maior nas áreas de saúde será decisivo. De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz (7/7), um estudo paralelo evidencia que 14,4% dos brasileiros já perderam todos os dentes - com as consequências que isso tem. Entre as mulheres de baixa renda, mais de 55% já os perderam. E 30 milhões de crianças nunca foram a um dentista. Apenas 55% dos brasileiros com mais de 18 anos de idade têm todos os dentes - e isso varia de 39,1% na Região Norte a 66,5% no Sudeste e no Sul.

Portanto, não nos faltam razões para nos inquietarmos - elas vão das ameaças (ou concretizações) de surtos epidêmicos como a dengue a problemas na escala mundial ou à precariedade de certas condições internas de saúde. E até mesmo ao surgimento, em Goiânia, de um caso suspeito da "febre chicungunya", uma infecção viral transmitida pelo Aedes aegypti, parecida com a dengue, e que teria sido contraída por uma mulher durante viagem à República Dominicana. Conforme infectólogos, "a Organização Mundial da Saúde considera o Brasil vulnerável à febre" (O Popular, 3/7).

Grande parte do problema está em que a maioria dos nossos administradores continua a achar que desenvolvimento é só crescimento do produto interno bruto - e por isso eles concedem tantas isenções de impostos e perdão de dívidas a empresas, sem se lembrarem de avançar nas condições de vida da população.

Obs.: No artigo da semana passada, escrevi "Oslo, Suécia", o correto é "Oslo, Noruega". Peço desculpas.

De jegue e tolerância - RENATO FERRAZ

CORREIO BRAZILIENSE - 18/07
Um colega postou esta semana numa rede social uma foto mostrando criancinhas (com, no máximo, 5 anos) levadas à escola em carroça puxada por um jumento. Sim, é claro que ainda há coisas absurdas assim - e essa, especificamente, foi registrada no interior pernambucano. Recentemente, fiz um tour nostálgico pelo Recife e me assustei com as palafitas à beira do Capibaribe. Achei que nem existissem mais... Porém, o que os olhos não veem o coração não sente, não é?
Quanto ao jegue como transporte escolar, não houve surpresa, mas a indignação voltou. Explico: programa criado no início da década de 1990 para garantir locomoção estudantil foi ganhando corpo e hoje atende a 2 milhões de alunos. Só nos últimos 10 anos, foram comprados 17 mil ônibus - e mais de 100 mil bicicletas e mil lanchas. Até o fim deste ano, quase R$ 1 bilhão serão gastos no Programa Caminho da Escola. Fora os outros tantos milhões gastos com prefeituras para a "terceirização" do serviço.

No geral, pelo menos 9 a 10 milhões de alunos usam o serviço público escolar (específico) para chegar aonde estudam. Obviamente que, num país do nosso tamanho, tanto físico quanto populacional, ainda há muitos adolescentes e crianças que não são atendidos. Mas essa cena, pelo amor de Deus, não pode mais se repetir - e em zona urbana! Essa é a prova de quanto somos estupidamente tolerantes com nossos prefeitos, vereadores, governadores...

Um amigo viu, há poucos dias, um daqueles ônibus amarelinhos (com placa de município a 450km do litoral) estacionado numa praia em Fortaleza. Numa cidadezinha perto de Garanhuns, vi dois veículos transportando feirantes - os demais ônibus, por sinal, estavam quebrados. Na Paraíba, o Ministério Público e o Detran realizaram uma fiscalização no início do ano e constataram: dos 1.289 ônibus vistoriados, 1.171 foram reprovados - 92% do total. No Maranhão, no começo de abril, oito jovens de 11 a 17 anos morreram num acidente. Estavam, com outros 20 coleguinhas, em cima de velha caminhonete - e o padre, o promotor e, principalmente, o prefeito, sabiam disso. Até a Controladoria-Geral da União tinha conhecimento. Em 2012, denunciou o fato. A Polícia Rodoviária Federal sabe dessas coisas. As demais polícias idem. Eu e você também. E não fazemos nada?

Escapismo, estádio e voto - ROGÉRIO FURQUIM WERNECK

O GLOBO - 18/07


O vexame da seleção brasileira na Copa do Mundo poderá afetar as avaliações do eleitor



Em que medida o desastroso desempenho da seleção na Copa poderá afetar a eleição presidencial? O que se pode dizer sobre essa questão complexa que vem dividindo analistas do quadro eleitoral?

O governo sempre sonhou com a possibilidade de extrair fartos benefícios eleitorais da Copa. É claro que muitos dos seus devaneios iniciais foram superados pela realidade dos fatos. E, há alguns meses, diante das dificuldades encontradas na complexa organização do evento e do risco de que os jogos pudessem ser empanados por distúrbios violentos, o governo chegou a cruzar os dedos e simplesmente rezar para que as coisas dessem certo.

Receando que não dessem, o Planalto, de início, procurou guardar distância prudente do evento, especialmente após os lamentáveis insultos à presidente Dilma na cerimônia de abertura. Mas, aos poucos, ao constatar que, apesar dos temores, a organização do evento vinha sendo bem avaliada e que a seleção avançara até as semifinais, o Planalto decidiu voltar a se envolver mais de perto com o evento.

Ganhara força a esperança de que uma vitória do Brasil na Copa pudesse, afinal, dissipar o clima de desalento que tanto vem preocupando o governo. Ao discutir como reverter o “mau humor” de segmentos importantes do eleitorado em relação à presidente Dilma, no fim de junho, o ex-presidente Lula foi muito claro sobre a importância que vinha atribuindo a uma vitória da seleção na Copa. “Nós vamos ganhar esse caneco porque o Brasil está precisando.” (“O Estado de S. Paulo”, 25 de junho)

Tivesse a seleção sido simplesmente desclassificada, a frustração dessa expectativa de reversão do “mau humor” teria tido pouco impacto sobre o projeto da reeleição. Mas o que se viu no fatídico jogo de 8 de julho, no Mineirão, não foi uma mera desclassificação e, sim, uma traumática e humilhante derrota por 7 a 1 para a Alemanha. Que diferença isso pode ter feito?

Os mais propensos ao cartesianismo clamam pelo bom senso. Gente, foi só um jogo... Mas a verdade é que foi bem mais do que isso. Respaldado por longa reflexão sobre a antropologia do futebol, Roberto DaMatta nos lembra (“O Estado de S. Paulo”, 12 de julho) que, “numa Copa do Mundo, os times não são clubes, mas símbolos vivos de estados nacionais que, obviamente, vão além do futebol”.

País afora, o 7 a 1 deflagrou um processo generalizado do que os anglo-saxões chamam de soul searching. Cada um à sua maneira, perplexos, indignados e revoltados, estamos todos remoendo o desastre na Copa, em busca das razões profundas para desempenho tão lamentável, compelidos a aceitar fatos que nos recusávamos a enxergar. É um processo que promete ser prolongado e penoso. E que, longe de estar restrito à introspecção, deverá ser marcado por muita interação, troca de ideias e desabafos.

É bem possível que esse turbilhão de reflexão coletiva redunde em sério agravamento do que o governo rotula de “mau humor”. E que esse estado de espírito deixe o eleitorado bem mais refratário à campanha eleitoral etérea e escapista que o Planalto vem ensaiando, para tentar passar ao largo do outro espinhoso 7 a 1 com que o governo terá de lidar neste fim de mandato.

Não bastasse o risco de que a inflação ultrapasse 7% em 2015, quando o represamento eleitoreiro de preços administrados for afinal rompido, o PIB mal deverá crescer 1% em 2014. Por absurdo que possa parecer, a intenção do governo era passar batido por esse desastre, acenar com a vaga promessa marqueteira de “um novo ciclo histórico de prosperidade” e só falar da política econômica de 2015 depois das eleições.

Esse discurso escapista ficou agora bem mais difícil. Com o país inteiro engajado em intensa troca de impressões sobre os resultados desastrosos que podem advir da improvisação, do voluntarismo e da arrogância, as inevitáveis analogias entre o futebol e a economia vão se tornar cada vez mais frequentes.

O Planalto tem boas razões para estar preocupado. E não pode reclamar das analogias fáceis. Foi a presidente quem primeiro sugeriu que seu governo era “padrão Felipão”.

O país das pequenas desobediências - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 18/07


Nossa tolerância às pequenas corrupções do dia a dia leva à tolerância com as grandes corrupções do mundo político



Já disse o professor Belmiro Valverde – por anos colunista da Gazeta do Povo, e recentemente falecido – que o Brasil “não é para amadores”. Aliás, deu este nome ao seu mais antológico e referencial livro, traduzido em várias línguas e frequentemente citado em estudos acadêmicos mundo afora. Ele tinha razão em dar no emblemático subtítulo a pista para nos tornarmos tão incompreensíveis diante dos olhos civilizados: somos “a terra do jeitinho”, dizia Belmiro.

De fato, é preciso ser “profissional” para entender a razão de, um ano depois de inúmeros brasileiros terem tomado conta das ruas do país para exigir das autoridades mais respeito às leis e aos direitos sociais, uma pesquisa da Fundação Getulio Vargas nos mostra que o brasileiro médio está, agora, mais disposto a infringir leis do que no passado ainda tão recente.

Segundo o estudo, desobedecer a regras de conduta é uma opção natural e adotada pela grande maioria da população. De acordo com a segunda edição do Índice de Percepção do Cumprimento da Lei (IPCL), elaborado pela Escola de Direito da FGV, entre 2013 e os primeiros meses de 2014 aumentou a quantidade de pessoas que admitem cometer pequenas ilegalidades e infrações. Numa escala de zero a dez (em que zero representa o desrespeito completo às leis e dez representa a honestidade total), o índice de 2014 recuou para 6,8 em relação aos 7,3 aferidos em 2013. A pesquisa entrevistou 3,3 mil pessoas em sete estados e no Distrito Federal.

Os entrevistados nem mesmo se sentem culpados pelas infrações que cometem. Os comportamentos abordados vão desde posturas mais “inofensivas”, como atravessar a rua fora da faixa de pedestres, até outras que podem ter graves consequências, como dirigir após ingerir bebida alcoólica; comprar produtos piratas, subornar agentes públicos para evitar multas, jogar lixo fora do local indicado e atrapalhar vizinhos com barulho também figuraram na pesquisa. A culpa, dizem os entrevistados, é das próprias leis, no seu entendimento “falhas”, e das autoridades constituídas – as primeiras a desrespeitá-las e não serem punidas pelas transgressões.

Embora as leis de trânsito sejam as mais citadas como objeto de mais frequente desobediência, inúmeras outras situações são resolvidas por meio de modos aparentemente inocentes e admissíveis de burlar regras previstas na legislação. Na interpretação dos autores da pesquisa, dá-se, neste caso, um fenômeno inusitado: as pessoas que cometem delitos se amedrontam menos com a possibilidade de virem a ser punidas do que com a imagem social negativa que suas transgressões possam lhes causar. Mais cruel e inibidora é a opinião alheia – dos vizinhos incomodados com o som alto fora do horário, por exemplo – do que a eventual intervenção dos agentes da lei encarregados do seu cumprimento.

Comportamentos como estes simbolizam o grau de desrespeito a que os brasileiros chegaram em relação às instituições e aos seus mandatários. Se representantes encastelados nos palácios e tribunais podem burlar os mandamentos legais (que, aliás, juraram obedecer) e nada ou muito pouco lhes acontece, por que o cidadão comum estaria obrigado à sua fiel observância?, raciocinam.

Trata-se de um círculo vicioso que a pesquisa da FGV escancara: nossa tolerância às pequenas corrupções do dia a dia leva à tolerância com as grandes corrupções do mundo político, que por sua vez desanimam o cidadão que tenta levar a vida de forma honesta, e assim sucessivamente. Os eleitos são reflexo dos eleitores, e vice-versa.

Este ciclo precisa ser rompido. Claro que, para isso, se exigem mudanças culturais e comportamentais profundas e que não se dão do dia para a noite. Mas é preciso começar, e espalhar essa noção de cidadania àqueles que nos são mais próximos. E, além disso, há passos que podem ser cumpridos no curto prazo e com datas marcadas: dos bons cidadãos, chamados às urnas a cada dois anos, se espera que escolham como nossos representantes políticos pessoas realmente comprometidas com a ética e com o respeito às leis.

Governo ainda não fez sua parte contra inflação - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 18/07

Há expressiva desaceleração no ritmo da atividade econômica, que já se reflete na geração de empregos formais, e por isso nova alta nas taxas de juros foi desconsiderada



O Comitê de Política Monetária decidiu na quarta-feira manter as taxas básicas de juros em 11% ao ano, embora a trajetória da inflação ainda desperte preocupações. Os alimentos deram uma trégua, mas há outros segmentos que não param de encarecer, como é o caso dos serviços, que, em média, estão custando mais 9% em relação a um ano atrás, enquanto o índice de inflação registra uma variação de 6,52% acumulada nos últimos doze meses, 0,02 acima do limite máximo da meta de 4,5%.

O receituário de combate à inflação recomendaria nova elevação das taxas básicas de juros, mas, quando se observam os demais indicadores da economia, há uma conjuntura de expressiva desaceleração que pode até desembocar em recessão. O número de empregos formais gerados em junho, em preparação final e início da Copa, se resumiu a 25.3636, com queda de 79,5% em relação a igual mês de 2013. Essa retração se deve especialmente ao desempenho da indústria. Segundo levantamento da Fiesp, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, 16 mil trabalhadores perderam os empregos no setor no ente federativo mais industrializado do país. Com essa queda no ritmo da atividade econômica, a terapia dos juros altos poderia agravar a situação da indústria e do comércio, pois o consumo de bens duráveis depende basicamente do crédito. No entanto, o patamar perigoso em que se encontra a inflação não permite que as autoridades cruzem os braços.

O recado do Banco Central é que a política monetária já faz sua parte, mas o recuo da inflação, sem que a economia caia em um quadro recessivo, depende também de outros instrumentos de que o governo dispõe. E o mais contundente de todos é a política fiscal. Em maio, o setor público apresentou um estrondoso déficit primário, uma temeridade nas condições econômicas atuais. Não é de agora que a equipe econômica do governo vem anunciando uma maior contribuição da política fiscal para o combate à inflação, que, na prática, não se materializa.

Há torneiras abertas nos gastos públicos que não se justificam tecnicamente, como, por exemplo, a que arca com o chamado seguro-desemprego. A economia brasileira já não tem gerado tantos empregos formais, mas, mesmo que houvesse uma demanda maior por mão de obra, não haveria pessoas disponíveis em número suficiente para ocupar esses novos postos. Está claro que há um desemprego voluntário; não são poucos os que preferem permanecer na informalidade enquanto usufruem do benefício, na certeza que terão quem os contrate quando se encerrar o prazo de seis meses em que podem permanecer desempregados. Neste período, gozam de um benefício indexado ao salário mínimo, reajustado acima da evolução da produtividade. Tais regras já deveriam ter sido ajustadas para a realidade do mercado brasileiro de trabalho. Mas isso não ocorre por temor do impacto negativo que a iniciativa poderia ter junto a um potencial eleitorado do governo de Dilma. Empurra-se o problema para a frente.

O Brasil na armadilha - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 18/07


Doze horas depois de anunciar a nova decisão sobre os juros, mantidos em 11%, apesar da inflação elevada e resistente, o Banco Central (BC) publicou o complemento da história: a produção continua estagnada e o País, na melhor hipótese, está pouco acima de uma recessão. Confirmou-se, mais uma vez, a armadilha apontada por vários analistas - uma combinação de fortes pressões inflacionárias com grave enfraquecimento da economia. A manutenção da taxa básica de juros, a Selic, foi sacramentada, sem surpresa, na quarta-feira à noite. Na quinta de manhã foi divulgado o índice mensal de atividade econômica (IBC-Br) produzido pela instituição e considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB). Em maio, o indicador ficou 0,18% abaixo do nível de abril e apenas 0,38% acima do apurado um ano antes, na série livre de efeitos sazonais. No trimestre encerrado em maio o resultado foi 0,33% mais alto que o dos três meses até abril.

Mesmo sem conhecer esses dados - uma hipótese improvável - os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC dispunham de informação suficiente, acumulada no último mês e meio, para saber do estado precário da economia. A produção industrial caiu 0,6% de abril para maio e ficou 3,2% abaixo do nível de um ano antes. De janeiro a maio o setor produziu 1,6% menos que no mesmo período de 2013. O emprego industrial continuou em queda. Caiu 0,7% de abril para maio, ficou 2,6% abaixo do registrado um ano antes e recuou 1,7% em 12 meses. O número de horas pagas diminuiu, mas, apesar disso, a folha de pagamento, descontada a inflação, ainda custou 14% mais que em abril de 2013 - mais um sinal do desajuste, apontado várias vezes pelo BC, no mercado de trabalho.

O mau desempenho da indústria já se reflete no setor de serviços. A receita nominal do setor, em maio, foi 6,696 maior que a do mês correspondente do ano passado. Descontada a inflação, restou um crescimento muito próximo de zero. As únicas boas notícias do setor produtivo são as da agropecuária, com perspectiva de mais uma safra recorde de grãos e oleaginosas. No setor externo, só o agronegócio, com superávit comercial de US$ 40,78 bilhões no primeiro semestre e de US$ 8243 bilhões em 12 meses, tem evitado um desastre completo.

A evolução do IBC-Br nos 12 meses terminados em maio - 1,95% -ainda é melhor que o crescimento previsto para o PIB entre janeiro e dezembro deste ano, de 1,6% nas con- tas do BC e de 1,05% nas do mercado. Todas as medidas de estímulo anunciadas nos últimos quatro ou cinco anos fracassaram. Foram insuficientes para reforçar o potencial de produção e de crescimento da indústria e, de modo geral, da economia brasileira. Os poucos segmentos dinâmicos e competitivos, como a agropecuária e a indústria aeronáutica, mantiveram seus padrões e continuaram avançando, apesar da baixa qualidade geral da política econômica e da ineficiência geral da economia. O último pacote anunciado pelo Executivo dificilmente produzirá resultados melhores, porque, com poucas mudanças, é uma reedição de medidas já fracassadas.

Quanto à inflação, nem os dirigentes e técnicos do BC parecem levar muito a sério o recuo das taxas nos últimos dois meses. Oficialmente, eles ainda esperam efeitos dos nove aumentos de juros entre abril do ano passado e abril deste ano. Evitam novos aumentos e provavelmente continuarão evitando até o fim do ano, ou, no mínimo, até a apuração das eleições.

Mas continuam descartando a hipótese de redução significativa da inflação anual até o fim de 2015. Mantêm, oficialmente, a perspectiva de uma convergência gradual para o centro da meta (4,5%), mas sem fixar com clareza um prazo, mesmo aproximado. Se houver novidade quanto a isso na ata da reunião do Copom, com divulgação prevista para a próxima quinta-feira, será uma surpresa.

A melhora dos indicadores de crescimento econômico e de inflação depende, em grande parte, do Executivo. Mas a presidente Dilma Rousseff teria de buscar a austeridade orçamentária e de mudar amplamente a estratégia de crescimento - hipóteses quase inimagináveis.

Dimensões chinesas - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 18/07


O líder máximo da China, Xi Jinping, pinçou uma frase de Confúcio para comentar os 40 anos de relações bilaterais entre seu país e o Brasil. Nessa idade, segundo disse o sábio chinês, "a pessoa se livra da perplexidade". É difícil sustentar, contudo, que o enunciado se aplique igualmente às duas nações.

A visita de Xi Jinping a Brasília ontem deixou como legado a assinatura de 32 acordos, entre os quais se destacam a retirada do embargo à carne bovina brasileira e a compra de 60 jatos da Embraer, numa transação de US$ 2,9 bilhões (para comparação, o Brasil demorou 15 anos para adquirir 36 caças suecos por US$ 4,5 bilhões).

Brasil e China, no entanto, nem sempre conviveram em meio a cifras suntuosas. Em 1978, quatro anos após a formalização dos laços diplomáticos (ocorrida em 15 de agosto de 1974), o saldo da balança comercial era de US$ 133 milhões.

No ano passado, esse montante era alcançado em cerca de 15 horas; a soma das exportações e importações entre os dois países atingiu US$ 83,3 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento.

Esse crescimento se deu sobretudo neste século, graças à disparada da economia chinesa. A partir de 2009, a China superou os EUA para se tornar nosso primeiro parceiro comercial; o Brasil está em nono lugar na lista de Pequim.

Por baixo dos números grandiosos, porém, há um aspecto preocupante: até o início dos anos 1990, o Brasil exportava principalmente manufaturados; hoje, predomina a venda de matéria-prima, e vários setores da indústria perdem mercado para os chineses.

No campo político, divergências ideológicas jamais se converteram em obstáculo intransponível nesses 40 anos. Primeiro como ditadura militar alinhada aos EUA, depois como democracia, o Brasil foi se aproximando cada vez mais do país dirigido com mão de ferro sempre pelo Partido Comunista.

O pragmatismo de ambos os lados e a ausência de pendências históricas fizeram com que prevalecessem as afinidades de países continentais em desenvolvimento.

São continentais, contudo, também as diferenças econômicas e demográficas. Enquanto a China ostentou, no ano passado, PIB de US$ 9,2 trilhões e mais de 1,3 bilhão de habitantes, o Brasil apresentou PIB de US$ 2,3 trilhões e 201 milhões de habitantes.

Com crescimento pífio nos últimos anos e tendo sua indústria estagnada, o Brasil se acomoda como coadjuvante e assiste, decerto com perplexidade, ao avanço do gigante asiático, cada vez mais confortável no papel de potência global.

Recesso mais que branco - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 18/07

A Constituição fixa o período de recesso do Congresso Nacional. Deputados e senadores suspendem as atividades legislativas duas vezes ao ano. A primeira, de 18 a 31 de julho. A segunda, de 23 de dezembro a 1º de fevereiro. Para os parlamentares gozarem a folga do primeiro semestre, a Carta Magna impõe uma condição: que seja aprovada a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).
Ela define, entre outras condições, as prioridades e as metas a serem observadas na proposta do Orçamento Geral da União (OGU), que o Executivo deve encaminhar ao Congresso até o fim de agosto. Apesar da urgência e da importância da tarefa, o Legislativo foge da obrigação. Vai entrar em recesso branco sem ter cumprido a tarefa inadiável.

Alega, para driblar a lei, a falta de quórum para o exame do relatório preliminar elaborado pelo senador peemedebista Vital do Rêgo. Seria manobra da oposição para manter a CPI da Petrobras em funcionamento. A resposta: oficialmente, o Congresso mantém-se em funcionamento. Mas não haverá sessões de votação nem a presença será obrigatória em comissões.

Deputados e senadores ficam, assim, liberados para tirar férias ou incrementar a campanha eleitoral na unidade da Federação a que pertencem. A falta de compromisso com o país não para aí. Ano de eleições, 2014 enseja oportunidade de ampliar a gazeta. O presidente do Congresso anunciou que haverá apenas duas sessões deliberativas até a ida às urnas - 5 e 6 de agosto.

Antecipa, assim, o recesso branco. O adjetivo dá caráter eufemístico à prática de paralisar os trabalhos fora do calendário legal. Pode-se alegar que sempre se fez isso. Mas, este ano, a folga ficou muito elástica - ultrapassa dois meses. Unindo eleições e Copa do Mundo, o Congresso deixa de cumprir a obrigação que lhe deu origem.

Ao ser criado, o Legislativo tinha uma função - tirar das mãos do rei o poder de definir o destino dos impostos. É essa nobre missão que deputados e senadores negligenciam sem levar em conta as urgências do país. Adiam para depois de outubro (talvez novembro, se houver segundo turno) decisões que dependem do aval do Congresso.

O embaixador Roberto Campos costumava repetir uma frase de efeito para destacar a inelutável tendência nacional de deixar passar o trem da história. "O Brasil", dizia ele, "não perde oportunidade de perder oportunidade." A ironia parece feita para o Legislativo. Com a imagem arranhada perante a opinião pública, deputados e senadores nada fazem para recuperar a confiança do eleitor. O descaso custa caro: desgasta um dos tripés da democracia.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Tivemos um primeiro semestre muito produtivo, pela qualidade dos projetos”
Presidente Renan Calheiros, fazendo um balanço dos trabalhos no Senado, que ficou às moscas durante a Copa


TEMER E RENAN APAZIGUAM BRAGA APÓS TRAIÇÃO DO PT

O vice-presidente da República, Michel Temer, e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), entraram em campo para apaziguar os ânimos do líder do governo, Eduardo Braga (AM), que não se conforma com a ordem da presidente Dilma para retirar Francisco Praciano da disputa ao Senado em sua chapa. A intervenção do PT favorece o adversário Omar Aziz (PSD), que é candidato a senador na chapa de José Melo (PROS).

SEGURA E AMARRA

Caciques do PMDB dizem que Renan agiu feito malabarista para impedir Braga de sair da liderança. Ele nega: “quem diz isso não gosta de mim”.

PRIORIDADE SOU EU

A presidente Dilma mandou intervir de última hora no PT-AM após fechar acordo com o governador Cid Gomes (PROS) e Gilberto Kassab (PSD).

JOGO DUPLO

Responsável por costurar a vaga a Praciano, o ex-presidente Lula tem se mostrado indignado com intervenção do PT nacional, o qual ele comanda.

AGORA É TARDE

O deputado Francisco Praciano afirmou que sua candidatura foi decidida em convenção, e que vai lutar até o fim na Justiça eleitoral para mantê-la.

ENTIDADES MÉDICAS ABREM GUERRA CONTRA DILMA

A Federação Nacional dos Médicos (Fenam) e a Associação Médica Brasileira (AMB) comunicaram ao presidenciável Aécio Neves (PSDB-MG) que apoiarão a oposição na disputa pela Presidência contra Dilma Rousseff. Em reunião na quarta (16), o presidente da Fenam, Geraldo Ferreira, garantiu ao tucano que a maior parte dos médicos trabalhará por sua eleição. Outra parcela menor apoiará Eduardo Campos (PSB-PE).

CONTRAPARTIDA

Segundo Ferreira, o programa de Aécio para saúde ‘ainda é vago’, mas cria carreira nacional e refuta cubanos em situação análoga à escravidão

BANDEIRA ANTIGA

As entidades médicas consideraram “ousada” a proposta de Aécio de destinar 10% da Receita Corrente Bruta da União para a Saúde.

EIS A QUESTÃO

O conselho deliberativo da AMB se reúne hoje em Fortaleza para decidir sobre apoiar Aécio ou, de forma mais ampla, os candidatos de oposição.

OLHO NO NORDESTE

Aspirante ao Planalto, Aécio Neves (PSDB-MG) combinou com o governador e candidato à reeleição Geraldo Alckmin presença em ato, no sábado (19), no Centro de Tradições Nordestinas, em SP.

BATEU A CABEÇA

O ministro do Trabalho, Manoel Dias, surpreendeu a todos que ouviram a explicação para a queda de 33% na meta de criação de empregos no Brasil em 2014. Segundo ele, não há “trabalhadores para empregar”.

MISSÃO IMPOSSÍVEL

Criado pelos Brics para financiar projetos de infraestrutura na América do Sul, o Novo Banco de Desenvolvimento vai suar para fiscalizar o uso da grana no Peru, onde 92% dos prefeitos são investigados por corrupção.

PRECAVIDOS

O aparato de segurança e de imprensa que acompanhou o presidente da China, Xi Jinping, em visita ao Congresso impressionou parlamentares. O grupo trouxe até gerador de energia para se prevenir de incidentes.

TORRE DE BABEL

Descendente de japonês, Akira Otsubo (PMDB-MS) ouviu o discurso de Xi Jinping sem fone para tradução. Surpreso com palmas, perguntou o que o chinês tinha dito: “Que o Brasil mereceu levar sete gols”, brincou colega.

CIRURGIA DE RORIZ...

O ex-governador do DF Joaquim Roriz (PRTB) será submetido a um transplante de rim na semana que vem. A doadora será a sua filha mais velha, Jaqueline Roriz, que descobriu a compatibilidade na quarta (16).

... É DE URGÊNCIA

Fontes próximas dizem que o ex-governador “está bem, com toda estrutura hospitalar”, mas ainda precisa de sessões diárias de hemodiálise e se desloca com cadeira de rodas para evitar cansaço.

NOITE FELIZ

Mais relaxado após o fim da Copa, Aldo Rebelo (Esporte) comemorou o sucesso do Mundial em jantar com a bancada do PCdoB, na residência da senadora Vanessa Grazziotin (AM).

PENSANDO BEM

... a vasta cabeleira, recém-adquirida, de Renan fez inveja até ao mais capilarizado chefe de Estado dos Brics, o chinês Xi Jinping.


PODER SEM PUDOR

LUGAR GARANTIDO

Era a nomeação mais óbvia da História. Depois de coordenar a campanha de Jânio Quadros para presidente, todos davam como certa a nomeação do coronel Virgílio Távora para o ministério. Principalmente ele.

Mas os dias foram passando e o convite, que era bom, nada.

Távora foi direto ao assunto:

- E então, presidente, qual é o meu lugar no governo?

Jânio o abraçou, como tamanduá, e liquidou sua esperança:

- Meu velho amigo, o teu lugar é no meu coração...

quinta-feira, julho 17, 2014

O que era mesmo? - CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O GLOBO - 17/07


E assim chegamos à campanha eleitoral com um ambiente econômico pior do que no início deste ano



Do que a gente estava falando antes?

Isso, antes das férias de verão, esticadas pelo carnaval tardio, Semana Santa e antes da Copa — o que era mesmo?

Havia uma preocupação com a combinação entre crescimento e inflação. Esta parecia estar subindo em relação a 2013, quando já fora alta. E a economia parecia desacelerar.

Essa percepção piorou. De fato, os preços sobem mais que o esperado e o crescimento é mais fraco. Não, a Copa não salva o ano.

Claro que trouxe turistas e dinheiro — até mais que se calculava. Mas houve uma espécie de compensação: os negócios relativos à Copa bombaram: roupas e calçados esportivos, por exemplo, e, claro, hotéis e restaurantes. Os demais minguaram por causa do excesso de feriados e falsos dias úteis. Também por causa do espírito geral: com a festa, quase todo mundo distraído com jogos e movimentação de torcedores, era difícil se concentrar no trabalho.

Pessoal reunido na Feira Internacional de Moda em Calçados, nesta semana, em São Paulo, constatou: o primeiro semestre foi de férias, perdido. Companhias aéreas, que poderiam ser favorecidas, também sofreram com a compensação. A TAM, por exemplo, calcula que a demanda de passageiros caiu 5% no período da Copa.

Ocorre que os “voos corporativos" — das pessoas que estão a trabalho, em eventos, reuniões, consultas, treinamento — simplesmente sumiram. Foram substituídos pelos turistas nacionais e estrangeiros, com forte aumento das viagens para as cidades da Copa. Mas não foi o suficiente. No balanço geral, deu uma pequena perda.

Foram criados empregos, mas temporários na maior parte. O fato de algumas obras não terem terminado até pode ajudar neste quesito: o pessoal continua trabalhando nelas. Com impacto limitado, porém. Antes da Copa, mesmo durante a construção de estádios, a geração de vagas formais continuou enfraquecida.

Tudo considerado, e como aconteceu em outros países, o efeito positivo do grande evento está mais na psicologia do povo. Fez-se uma grande festa. Ainda mais entre nós, dado o temor de que algo ruim pudesse ter acontecido. Foi alegria e alívio. Isso pode animar estrangeiros a voltarem para o turismo, mas vai depender lá na frente da cotação do dólar e dos preços por aqui.

Veremos.

Outra coisa que poderia ser positiva neste momento seria o fim das manifestações oportunistas, como greve nos transportes na véspera dos jogos. Não há mais instrumento de chantagem.

O problema é que se aproximam as eleições, outra oportunidade para reivindicações, justas ou não, democráticas ou não. Se as eleições se radicalizarem, preparem-se.

E assim chegamos à campanha eleitoral com um ambiente econômico pior do que no início deste ano. A população, na imensa maioria, se concentrou na seleção e suspendeu a bronca com a inflação, a paradeira na criação de empregos e a má qualidade dos serviços públicos. Como se sentirá agora?

Reparem: foram 26 mil homens na segurança da final no Maracanã. Tudo em paz. Mas quantos estarão disponíveis numa próxima final Flamengo e Fluminense? Os trens e ônibus “expressos da Copa” andaram bem em quase todas as cidades, mas em dias feriados ou falsos úteis. Agora, voltam todos ao normal, que é não é bom.

Como a população voltará a esses temas? Difícil avaliar, ainda mais que o ambiente estará tomado pela campanha eleitoral no rádio e TV, ou seja, pela capacidade (ou incapacidade) dos candidatos de fazer a cabeça e a mente dos eleitores.

E nem ganhamos a Copa.

EXEMPLO

Comentou-se depois do 7 a 1: isso mostra a superioridade da racionalidade e do planejamento dos alemães sobre o improviso e o jeitinho brasileiro.

Mas a Argentina esteve perto de ganhar da Alemanha? Pois então, se tivesse vencido, isso teria demonstrado a superioridade da viveza criolla?

O que quer dizer?

É mais ou menos a versão argentina para o nosso “jeitinho”, o modo de fazer as coisas no improviso, sem respeito às regras. Isso mesmo, o jeitinho não é coisa nossa, tem disso por toda a América Latina.

E dá errado em toda a região. Mas não foi por isso que perdemos da Alemanha. Não se pode dizer que as seleções brasileira e argentina eram dois times catados. Foram montados e treinados por um bom tempo. Claro, podem ter sido mal planejados e mal treinados, certamente o caso do Brasil.

Mas o que a vitória dos alemães significa é que eles estão jogando mais bola que a gente, na tática e na arte.

E que a expectativa de hexa no Maraca, certeza universal, destruiu o emocional do nosso time.

Foco na campanha eleitoral? Mas, em quê? - MARCO ANTONIO ROCHA

O ESTADÃO - 17/07


O foco, agora, é na campanha eleitoral? Pelo menos é o que dizem os bem pensantes da imprensa e da política. E o que nos oferecem os candidatos do ponto de vista do desenvolvimento do Brasil, do esclarecimento da população e da melhoria da cidadania em geral?

Não sei se alguém já se deu ao trabalho de ouvir o que os candidatos andam dizendo e de anotar o que pareça fundamental para o destino da Nação. De minha parte, confesso que ainda não ouvi nem li nada que possa ser considerado relevante como estratégia de governo para o País.

Este jornal propôs aos três principais candidatos à Presidência que opinassem sobre 11 temas que, na opinião do jornal, seriam importantes, a saber: reforma política; redução da maioridade penal; legalização do aborto; descriminalização da maconha; fim da estabilidade no serviço público; reforma da Previdência; reajuste do mínimo pela inflação e PIB; fim da gratuidade da universidade pública; passe livre no transporte urbano; flexibilização da CLT; e privatização de estatais e bancos públicos.

São temas da hora, digamos, e importantes do ponto de vista eleitoral, mas a maioria não chega a tocar nos fundamentos do desenvolvimento econômico e social.

A candidata Dilma se pronunciou apenas sobre reforma política, dizendo que é "a favor de um plebiscito". Não opinou sobre os outros 10 temas. Os 2 outros responderam aos 11 temas, mas dizendo que são contra ou a favor e dando pequenas explicações. Aécio foi contra a maioria das teses e evasivo em pelo menos duas. Campos também foi contra a maioria delas e evasivo em duas.

Foi inútil a tentativa de obter algo que se possa chamar de programa e alguma ideia ou proposta sólida para temas como a reforma política, a da Previdência e a privatização de estatais e bancos públicos - que fazem parte do que se pode chamar de "fundamentos" do desenvolvimento e, talvez, da própria Nação.

Na prática, o que se tem visto e ouvido dos candidatos nas suas viagens pelo País dá a impressão de que são todos candidatos a prefeitos. A presidente se esmera na oferta de mais casas populares, mais creches, mais postos de saúde, mais estradas asfaltadas. Os outros também.

Tudo isso é de fato muito bom e importante, mas não gera a esperança num futuro firme e atraente para as famílias e as jovens gerações. O que se pode esperar do Brasil e para o Brasil?, indaga, por exemplo, o jovem que está chegando à universidade e quer fazer uma escolha de estudos e de profissão, para o seu próprio futuro pessoal.

O fundamental, no caso, é ter confiança numa economia em crescimento gerando mais e melhores empregos. Nesse terreno é bom que se pergunte aos candidatos - e que eles nos digam - que tipo de políticas têm em mente para assegurar uma economia vigorosa e tanto quanto possível livre de percalços nacionais e internacionais a todo momento, como tem sido a economia brasileira.

Quem nasceu em 1960 e tem hoje 54 anos - em plena idade produtiva, portanto - foi capaz de planejar e organizar a sua vida conforme suas aspirações? Garanto que não, pois nesse período a economia brasileira funcionou como uma gangorra ou como um veleiro sem rumo, sem saber de onde vinha o vento.

É preciso que isso seja retirado do horizonte dos brasileiros jovens, homens ou mulheres. Isso requer políticas públicas definidas, aceitáveis e confiáveis nas áreas da produtividade e competitividade, da inflação, do comércio exterior, do câmbio, do dispêndio público, dos investimentos públicos e privados, da logística, dos combustíveis, da produção agropecuária e, finalmente, mas não apenas, do relacionamento econômico e comercial com parceiros de todo o mundo. Um programa, enfim.

Os candidatos estão nos oferecendo isso? Um pouco de paciência, eles nos dirão. Aguardemos, pois.

Brasil, Brics e a "cláusula FMI" - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 17/07


Governistas exageram importância do banco miudinho; acordo de fundo dos Brics 'aceita' FMI


O BANCO e o fundinho financeiro criado nesta semana pelos Brics tem, repita-se, alguma relevância política e, quem sabe, daqui a uma década, pode ter alguma relevância econômica. Talvez. Mas há exagero ridículo a respeito dos acordos de Fortaleza, que são miudinhos e, note-se de passagem, contêm cláusulas de sujeição a "instituições do império", como o FMI.

A gente ouve e lê, de adeptos abestados do governismo e do esquerdismo rudimentar, que Fortaleza sediou os acordos do Bretton Woods da "nova ordem". A coisa toda é de uma pobreza tão ignorantinha que causa constrangimento comentar. Mas se difunde.

Bretton Woods, explique-se, foram os acordos que puseram alguma ordem na finança internacional entre o fim da Segunda Guerra e mais ou menos até o início dos anos 1970, arranjo acertado entre 44 países, em 1944, sob domínio dos Estados Unidos, e que resultou, entre outras coisas, na criação de instituições como o FMI e o Banco Mundial.

Na reunião de terça, em Fortaleza, criou-se um banco multilateral de desenvolvimento, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), e um fundo virtual de socorro financeiro a países em crise de pagamentos externos ou turbulências afins.

Pelo acordo de empréstimos para países com dificuldades de fechar contas externas, os bancos centrais dos Brics emprestariam dólares em troca da moeda local do país avariado, com prazo de retroca, até um certo limite de dinheiro.

Mas parte do dinheiro (70%) apenas sai se o país mal das pernas tiver um acordo com o FMI, ora vejam. Sim, FMI, instituição dominada por americanos e europeus e criticada pelos Brics, motivos que também levaram os Brics a criar "seus" banco e fundo multilaterais.

É verdade que, pelos termos do tratado desse fundo virtual de reservas, os Brics podem mudar todas as regras de acesso ao dinheiro. Mas a "cláusula FMI" acaba por dar um tempero ridículo às ideias de "rebeldia" e "ordem alternativa".

Além do mais, o dinheiro não é grande coisa. Por exemplo, o Brasil, em crise, poderia "sacar" no máximo US$ 18 bilhões; apenas US$ 5,6 bilhões se não tiver acordo com o FMI (nesta semana, o Brasil tinha US$ 380 bilhões em reservas).

Talvez esse fundo virtual possa ajudar países mais pobrinhos, caso eles não sejam obrigados a entrar com cotas tão relevantes quanto a dos Brics.

Quanto ao banco, ele será um projeto experimental por pelo menos meia década, digamos.

Lá por 2022, os países dos Brics terão acabado de pingar um capital de US$ 10 bilhões. Em 2016, quando deve funcionar, começa com um capital de US$ 750 milhões, o que não dá para financiar umas estradinhas. Pode ser que o banco tenha mais dinheiro para emprestar devido a lucros acumulados ou levantamento de empréstimos.

Tudo pode dar muito certo e a capitalização pode ser revista para cima. Mas, de início, trata-se de coisa miúda, com perspectiva de poder emprestar uns US$ 40 bilhões uma década depois de começar a funcionar, e olhe lá. O BNDES empresta US$ 333 bilhões. O Banco de Desenvolvimento da China empresta o quádruplo do BNDES.

Isso quanto a dinheiros. Resta saber como países tão diferentes vão se acertar politicamente no banco.

Como passar do não ao sim - CELSO MING

O ESTADÃO - 17/07


As dificuldades iniciais parecem ter sido superadas e assim os chefes de Estado dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), reunidos em Fortaleza, criaram terça-feira duas instituições internacionais que podem sacramentar uma sigla quase vazia enquanto bloco nascido de objetivos comuns.

É um passo importante, mas é pouco. Uma vez criados o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, em inglês) e o Acordo Contingente de Reserva (CRA, um fundo de reservas para socorrer países momentaneamente incapacitados de honrar seus compromissos externos), é preciso saber quais seriam os critérios para fazê-los funcionar, respectivamente, como banco de desenvolvimento e como fundo de reservas.

No momento, dos cinco membros do clube, só a África do Sul poderia aproveitar melhor essas disponibilidades caso delas necessite. Os demais, incluído aí o Brasil, dispõem de mais recursos ou acesso a outras fontes externas do que essas duas instituições poderiam oferecer.

Como já foi argumentado aqui na Coluna de terça-feira, apenas o BNDES brasileiro é sete vezes maior do que esse NDB. China, Rússia, Brasil e Índia têm, cada um, substancialmente, mais reservas externas do que as que serão colocadas à disposição do novo fundo.

Isso sugere que as duas instituições estão sendo criadas mais para apoiar projetos de infraestrutura e políticas de países de fora do bloco do que de dentro dele. Nascem num contexto de críticas contundentes à atuação do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI) e pretendem, assim, começar a rodar. Mas, outra vez, com que critérios?

Se for para atuar com parâmetros técnicos parecidos com os do Banco Mundial e do FMI, tendem a não passar de farinhas de qualidade similar dispostas em sacos de tamanhos diferentes. Se os critérios para a distribuição de financiamentos ou empréstimos-ponte para cobertura de dívidas forem políticos, então fica difícil saber que tipo de grude pode manter unidos os cinco do Brics.

Imagine, por exemplo, se a Crimeia ou a Síria ou a Venezuela solicitarem um socorro do CRA (a Argentina, por sinal, parece já contar com isso). Mas o que levará a direção desse fundo a atendê-los ou não? Questões geopolíticas compartilhadas pelos cinco? Provavelmente, não.

Dos cinco integrantes do Brics, três são potências nucleares (Rússia, Índia e China), no momento com interesses mais conflitantes do que convergentes entre si. Afora isso, as coisas mudam e a fila anda. Mudanças de governo na Rússia, na Índia ou na China - para não falar no Brasil - podem mudar os alinhamentos políticos e o que foi interesse comum num momento pode, perfeitamente, não ser mais no momento seguinte.

Por enquanto, o que os une parece ser o que está lá na declaração conjunta: a desaprovação ao emperramento das propostas de reforma do Banco Mundial e do FMI. Mais difícil é saber como sair desse não ao FMI para um sim ao que tem de ser. Suponhamos que, lá pelas tantas, o Congresso dos Estados Unidos concorde com modernizar as instituições de Bretton Woods. Nesse caso, essas instituições alternativas vingariam do mesmo jeito?

Sabe-se como esse jogo começou. Não se sabe como seguirá.

Juros parados - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 17/07


Os juros não subiram e nem devem subir até o fim do ano. O principal motivo, segundo o economista José Roberto Mendonça de Barros, é o enfraquecimento cada vez maior da economia. Uma das razões da redução da atividade é a decisão de empresas de interromperem a produção para vender energia no mercado livre. Outro é o estoque alto de automóveis.

AMB Associados, de José Roberto, já derrubou a previsão de crescimento do ano para 0,9% e deve fazer nova redução para 0,5%, dependendo dos próximos indicadores. Essa revisão para baixo das estimativas do PIB está sendo feita pelos departamentos econômicos dos bancos e pelas consultorias. O centro do problema está na indústria.

— Com a crise no setor de energia, inúmeras empresas de vários setores, como cimento, metais, química, ferro liga, estão suspendendo produção para vender no mercado livre, onde os preços estão muito elevados. É um bom negócio vender a energia em vez de produzir. Isso tem sido razão adicional para a queda de bens intermediários — diz Mendonça de Barros.

Outro fator que puxa a indústria para baixo é o enorme estoque de automóveis e a distância entre demanda e capacidade de produção.

— O programa Inovar-Auto criou uma barreira altíssima ao produto estrangeiro e um incentivo a produzir aqui dentro. As empresas vieram instalar fábricas no Brasil. Aumentou-se a capacidade de oferta exatamente quando estava começando a cair a demanda por carros. O setor vai demorar bastante a se equilibrar — explica o economista.

José Roberto acha que haverá um fator adicional de preocupação no segundo semestre, que é a aceleração do fechamento de postos de trabalho na indústria. As empresas, primeiro, dão férias coletivas, depois, fazem demissão incentivada, e, no fim, demitem. Ele acha que já estão caminhando para a terceira etapa.

A produção de manufaturados enfrenta também a crise da Argentina, que está comprando cada vez menos do Brasil. A Associação do Comércio Exterior (AEB), que estava prevendo um superávit comercial deste ano em US$ 7 bilhões, reduziu para pouco mais de US$ 600 milhões. E o pior é que pela primeira vez em muito tempo os cálculos são de queda da corrente de comércio.

Num quadro de esfriamento da economia, não faz sentido elevar a taxa de juros. É o que o Banco Central dirá para justificar a manutenção da taxa, apesar de a inflação ter acabado de estourar o teto da meta. Quando sair o IPCA de julho, a distância em relação ao máximo permitido aumentará.

O Banco Central vai dizer também que é preciso esperar o efeito do longo ciclo de elevação de taxas de juros e os primeiros sinais de queda da inflação de alimentos. De fato, os preços de vários alimentos tendem a cair e isso já acontece no atacado. José Roberto explica a razão:

— Está sendo colhida uma vasta safra americana e isso tem derrubado os preços de milho, soja, trigo. A cotação do milho, de março até agora, caiu 20%. Essa redução diminui também os preços das carnes. Em parte é efeito do El Niño, que permite boas safras nas Américas, apesar de poder provocar seca na área de monções da Ásia. Por enquanto, o que se sente é apenas o efeito positivo do aumento da produção de alimentos.

Mesmo com essa queda do item alimentação no IPCA, a MB Associados acha que a inflação terminará o ano em 6,7% por causa da alta dos preços da energia. Outros economistas acham que pode ficar abaixo de 6,5%, mas ainda elevada. Apesar da inflação acima do teto, o esfriamento do PIB será o motivo da manutenção da taxa de juros. Com a eleição, o Banco Central não quer correr riscos de derrubar ainda mais a atividade.

Gentil patrocínio - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 17/07


Ficou assim combinado entre a Câmara e o Senado: daqui até as eleições não tem trabalho, mas tem salário integral de R$ 26,7 mil sem desconto por faltas.

Suas excelências vêm de um mês de Copa do Mundo de quase nenhuma labuta e teriam pela frente no mínimo a votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2015 sem a qual, reza a Constituição, não poderiam entrar no recesso do meio de ano.

Mas, se ficassem no Parlamento para cuidar do Orçamento do próximo ano, atrasariam os preparativos para as respectivas campanhas eleitorais. E aí, ligeiros como sempre quando estão em jogo seus interesses, os líderes partidários e os presidentes das duas Casas encontraram a solução: suspenderam as sessões deliberativas daqui até as eleições.

São sessões em que há votações. Só elas permitem contar as faltas que geram descontos nos salários e, dependendo da quantidade, até a perda de mandatos. Canceladas, dão margem à tentativa do presidente do Senado, Renan Calheiros, de conferir normalidade à situação.

"O Congresso continuará funcionando. Vamos é compatibilizar esse funcionamento com a realização das eleições. Não haverá ordem do dia, só nos dias 5 e 6, as outras sessões serão de discussão", disse.

Nos próximos dois meses e meio o Senado funcionará dois dias em agosto e a Câmara, quatro - dois em agosto, dois em setembro. E por "funcionar" entenda-se a realização das tais sessões deliberativas às quais estão dando o nome de "esforço concentrado". De 144 horas ao todo. Que tal?

Nas demais, o presidente do Senado assegura que o Congresso continuará com suas atividades, debates e trabalhos de comissões. As CPIs da Petrobrás, inclusive. Ocorre que para haver atividade é necessário que haja parlamentares presentes. E suas excelências estão devidamente dispensadas de comparecer ao trabalho por decisão dos líderes partidários, concordância das presidências e assentimento do colegiado por intermédio do voto simbólico.

Falta acrescentar: e com o gentil patrocínio do dinheiro do eleitorado, em mais uma das já diversas formas existentes de financiamento público de campanhas eleitorais.

Sim, porque veja como é simples perceber quem paga parte dessa conta. Se deputados e senadores continuam a receber salário que é pago com recursos do Orçamento e nesse período se ocupam das respectivas campanhas, obviamente estamos nós, os contribuintes, entrando com uma parcela das doações. Enquanto cuidam cada qual de sua sobrevivência política os congressistas deixam pelo meio do caminho assuntos que segundo eles mesmos eram urgentes.

Na Câmara, o projeto que torna o Orçamento impositivo em relação às emendas parlamentares e a lei de responsabilidade fiscal para os clubes de futebol, tão falada depois do vexame da seleção durante as discussões sobre a necessidade de "reformulação já" no esporte.

No Senado, a lista de espera inclui projetos do Super Simples Nacional, alterações na Lei de Licitações e projetos de interesse da magistratura. Assuntos que precisam ser resolvidos e que dizem respeito aos representados enquanto os representantes preferem dar prioridade à renovação de seus mandatos.

O eleitor não tem nada a ver com isso. O mandato conquistado numa eleição vale por quatro anos. Não vale por três e pouco, como nossos parlamentares parecem entender ao não cumprir o período integralmente, suspendendo a vigência por três, quatro meses sem dar satisfação e ainda achando que o contribuinte não faz mais que a obrigação de "comparecer" com a sua parte em moeda sonante.

Retrato disso é o fecho das declarações do presidente do Senado a O Globo, que lhe perguntou se o ano legislativo não estaria perdido: "Não. Precisamos ganhá-lo nas eleições".

Sendo essa a credencial da elite (branca?) da política, fica a dúvida: precisamos quem, cara dura?


Brasil, porta de entrada - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 17/07


BRASÍLIA - Enquanto torcedores sul-americanos pediam socorro para conseguir retornar às suas casas depois da Copa, os presidentes de seus países desembarcaram em Brasília já de olho no Novo Banco de Desenvolvimento dos Brics.

O Brasil é a porta de entrada da região para essa promessa de paraíso e vieram praticamente todos, como Maduro (Venezuela), Evo (Bolívia) e Kirchner (Argentina), interessados no potencial de empréstimos do novo banco e do novo fundo dos Brics.

A motivação óbvia do banco e do fundo dos Brics, além de conferir algum grau de institucionalização ao grupo, é fugir do Banco Mundial e do FMI, organismos não apenas atrelados aos Estados Unidos, principalmente, e à União Europeia, acessoriamente, mas na prática comandados pelas duas potências.

O Brasil e a presidente Dilma Rousseff, portanto, surfam bem na onda da Copa, demonstram um esforço de socialização dos Brics e confirmam uma boa capacidade convocatória dos países da região. Evidentemente, lucram politicamente com isso. De quebra, a imagem de estadista explorada em todos os dias desta semana certamente será de boa valia na campanha de Dilma à reeleição.

Na última segunda (14), Putin (Rússia). Na terça (15), Cúpula dos Brics. Na quarta (16), Brics e presidentes da América do Sul. Nesta quinta (17), Xi Jinping (China). Nesta sexta (18), Durão Barroso (Comissão Europeia). Sem falar em América Central e Caribe no meio do caminho.

Algumas ressalvas, porém: o novo banco está apenas começando e vai levar uns bons anos até jorrar empréstimos, os Brics não são um grupo propriamente homogêneo e o Brasil nem chega perto de ser líder. Os Brics são países imensos, populosos e emergentes, mas giram em torno de um único eixo: a China.

Tal como os Brics alavancam a posição do Brasil na América do Sul, também constroem, tijolo a tijolo, a hegemonia da China no mundo.

E seja o que Deus quiser.

Goleada democrática - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 17/07

A aprovação na Câmara dos Deputados terça-feira do pedido de urgência para votar um decreto legislativo que anula o decreto da presidente Dilma Rousseff que cria conselhos populares em órgãos da administração pública está sendo considerada uma goleada maior que os 7 a 1 da Alemanha na seleção brasileira , na definição de um deputado que conhece bem a Casa.

Isso porque o pedido de urgência recebeu 294 votos a favor, apesar de todo o trabalho do Palácio do Planalto sobre sua base aliada e das ameaças veladas que os líderes do PT fizeram ao microfone, tratando como uma traição dos aliados a posição contrária e, mais do que isso, jogando contra os deputados opositores a pecha de serem contra o povo, que ganharia mais espaço nas decisões do governo, pois estaria representado nesses conselhos.

O deputado Miro Teixeira irritou-se com a posição dos petistas e anunciou no microfone que votaria contra o decreto da presidente Dilma por considerá-lo simplesmente eleitoreiro, editado às vésperas da eleição presidencial para ganhar a simpatia dos chamados movimentos sociais, que seriam os beneficiados pela medida.

Há diversas vertentes na oposição ao decreto, desde os que, como Miro, o consideram inócuo, mas eleitoreiro, quanto os que temem que esse seja um passo a mais na direção de um governo no estilo bolivariano, como os da Venezuela e de outros países da América Latina. Há muitos deputados que votarão contra o decreto para preservar a função do Congresso Nacional no nosso sistema presidencialista, como um dos poderes da República, um contraponto ao Executivo e ao Judiciário.

O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), foi pressionado por mais de uma dezena de partidos para colocar a proposta de urgência em votação antes do recesso, o que retirou do decreto legislativo organizado pela oposição o caráter de atitude isolada, já que boa parte da base aliada do governo também está contra o decreto presidencial.

O máximo que admitem é que o Palácio do Planalto envie um Projeto de Lei para ser discutido por deputados e senadores. Mesmo quem não considera que o decreto seja inconstitucional, embora haja quem o considere assim, teme a manipulação que ele permite ao definir, por exemplo, sociedade civil como o cidadão, os coletivos, os movimentos sociais institucionalizados ou não institucionalizados, suas redes e suas organizações .

Além de ser uma definição muito ampla que abarca qualquer tipo de movimento social, até mesmo os não institucionalizados , os parlamentares temem que o Palácio do Planalto se aproveite dessa amplitude conceitual para organizar, através da Secretaria Geral da Presidência da República, chefiada pelo ministro Gilberto Carvalho, os próprios conselhos, manipulando suas decisões.

Uma das tarefas de Gilberto Carvalho é, pelo decreto que define seu ministério, atuar no relacionamento e articulação com as entidades da sociedade civil e na criação e implementação de instrumentos de consulta e participação popular de interesse do Poder Executivo .

A reação contra o decreto da presidente Dilma é uma demonstração clara de que, apesar de ter uma maioria teórica que beira os 70% do Congresso, na prática, o Palácio do Planalto tem que negociar caso a caso para fazer valer sua vontade. E sempre que uma decisão palaciana vai de encontro à Constituição, há uma maioria parlamentar na defesa da democracia representativa.

Mesmo os partidos mais fisiológicos da base aliada reagem a tentativas de enfraquecer as bases democráticas porque sabem que, num governo autoritário, será menor sua influência e maior a força política do PT. O principal responsável por barrar essas tentativas é o próprio PMDB, o maior aliado do PT no Congresso, que tem em seu DNA a defesa da democracia e impede que o PT ultrapasse os limites democráticos.

Pacto pelo Brasil - EDUARDO GRAEFF

FOLHA DE SP - 17/07


Um pacto político parece difícil, mas não impossível. Algum acordo com a oposição pode dar velocidade e segurança a reformas


Num artigo sobre os 20 anos do Plano Real, um de seus artífices, Rubens Ricupero, sugeriu que o Brasil, para alcançar patamares mais altos de desenvolvimento sobre o alicerce da estabilidade, siga o exemplo do Pacto pelo México ("Real e fantasia", "Mundo", 7/7).

Com apoio de parte da oposição, o presidente Enrique Peña Nieto conseguiu aprovar no Congresso mexicano reformas importantes nas áreas de energia, telecomunicações, educação e impostos.

O próximo presidente do Brasil deveria imitá-lo? Penso que pode tentar, em todo caso. Primeiro, porque vai ter que procurar tirar o país do marasmo político e econômico. Ricupero tem razão nisto: "Não logramos conciliar aumento de emprego e salário com inflação baixa, crescimento e melhora da produtividade. Se não formos capazes de superar as conquistas do real, começaremos a perder o terreno conquistado".

Segundo, um pacto político parece difícil, mas não impossível entre nós. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) conseguiu aprovar suas reformas com apoio de uma ampla coalizão.

O exemplo mexicano implica outra coisa: um acordo entre polos opostos da política partidária --PT e PSDB, no nosso caso. Tivemos algo parecido na passagem de bastão de FHC para Lula (2003-2010). A "Carta aos Brasileiros" antes e os esforços dos dois presidentes depois da eleição para acalmar os mercados; os procedimentos do governo de transição; o apoio do PSDB à proposta de reforma da Previdência de Lula desenharam um momento de cooperação efetiva entre adversários a favor da estabilidade do país. Depois do mensalão, a lógica da polarização voltou a se impor.

Terceiro, mais importante, algum acordo com a oposição pode dar mais velocidade e segurança ao processo de reformas. Acordo sobre uma agenda limitada pode ser preferível ao confronto sobre uma agenda mais ampla. E, se o acordo incluir regras de procedimento, pode arejar a política partidária, cujos níveis de insalubridade dispensam comentário. Para um presidente reformista, ceder para a oposição alguns graus de discricionariedade na edição de medidas provisórias, elaboração do Orçamento ou instalação de CPIs, por exemplo, pode sair mais barato que abastecer com cargos e verbas federais o "rolo compressor" governista no Congresso. Não se trata de optar entre uma coisa ou outra, mas de usar a negociação com a oposição como moderador do apetite dos correligionários e aliados.

As chances concretas de algum pacto político se firmar vão depender das circunstâncias e da disposição dos principais atores.

Quão ruim estará a economia no fim do ano? Quanto pior a situação, maior a pressão social sobre os atores políticos para que se entendam. Medidas salvadoras poderão vir apoiadas por uma coalizão governista, como o Plano Real, ou por algum acordo entre adversários, como na transição de FHC para Lula.

Teremos, afinal, um presidente reformista? Como é natural, os desafiantes Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) são mais assertivos do que Dilma Rousseff (PT) sobre a necessidade de reformas. Mesmo eles têm que se cuidar para não cair na armadilha proverbial --os potenciais prejudicados por reformas reagem antes e mais intensamente que os potenciais beneficiados.

Em geral, é mais fácil para o presidente propor do que para a oposição aceitar um pacto, acordo ou mera negociação. Como essa hipótese se encaixará nos planos dos perdedores da eleição? Por tudo isso, até outubro, a ideia de pacto deve frequentar mais as elucubrações dos analistas que o discurso dos candidatos. Mas os candidatos com visão estratégica fariam bem em considerá-la, mesmo que sem alarde.

Termina em pesadelo o sonho da supertele - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 17/07

A trajetória deste projeto é típica do que acontece quando a “mão visível” do Estado atua sem se preocupar com o mercado, apenas movida a interesses políticos e ideológicos



Admita-se que o destino da Oi poderia ter sido outro caso a empresa não viesse a se ligar, de alguma forma, ao grupo português Espírito Santo, hoje atolado em grave crise financeira, capaz de fazer oscilar o mercado europeu. Mas também é preciso reconhecer que o grupo telefônico carrega uma história intrincada, em que se misturam aventureirismo, sonhos estatistas e megalomania nacionalista. Gestado no leilão de privatizações do sistema Telebrás, no segundo governo FH, em 1998, o grupo, batizado de Tele Norte Leste, foi um dos que mais precisaram de apoio direto e indireto do Estado para se viabilizar. Depois renomeada de Telemar, a empresa, após um certo tempo, se estabilizou numa composição acionária com os grupos privados de Carlos Jereissati (La Fonte) e Andrade Gutierrez. Do lado estatal, foi mobilizado o BNDES, sempre presente nesses negócios. Não poderia ter mesmo vida fácil uma empresa que tentaria absorver um rosário de telefônicas de suprema ineficiência, entre as quais se destacava a Telerj.

Na gestão Lula, com o desembarque de estatistas em Brasília e o fortalecimento do braço sindical petista, a CUT, nos bilionários fundos de pensão de empresas públicas, fortaleceu-se o sonho de uma nova “Telebrás”. Desta vez, materializada numa “supertele” em que capitais privados, estatais e paraestatais constituiriam poderosa empresa para fazer frente às teles estrangeiras. O projeto de que resultou a Oi, o nome atual da reformada Telemar, tem origem nas mesmas cabeças que desenvolveram a ideia da criação dos “campeões nacionais” em berçários sustentados pelo contribuinte no BNDES.

Alterada a regulação para permitir à Telemar absorver a Brasil Telecom, a privatizada Tele Centro Sul, a “supertele” ganhou musculatura. Até para se expandir pela América do Sul e África, pensava-se.

Não foi assim. Tornou-se necessário atrair a Portugal Telecom para a Oi. Da Portugal Telecom é sócio o grupo Espírito Santo, velho conhecido dos petistas. Na prática, vendeu-se um pedaço importante da originariamente Telemar à Portugal Telecom, tanto que o principal executivo das duas empresas passou a ser o mesmo. O desfecho seria a fusão das companhias. A esta altura já estava finalizado o sonho nacionalista da supertele.

E veio a assombrosa operação em que a Portugal Telecom, sem os sócios brasileiros e o BNDES serem informados, comprou €847 milhões (R$ 2,5 bilhões) em títulos podres da Rio Forte, empresa quebrada do grupo Espírito Santo. Ou seja, deram dinheiro para o grupo. O final da história ainda é imprevisível, mas a PT terá de registrar pesadas perdas patrimoniais, com reflexos na Oi. E, por decorrência, a empresa que resulta da soma da ex-supertele com os portugueses, a CorpCo, será menor, e nasce bem mais endividada.

A trajetória do projeto da supertele é típica do que acontece quando a “mão visível” do Estado atua sem se preocupar com o mercado, apenas movida a interesses políticos e ideológicos.

A força do PCC - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 17/07


A operação da Polícia Civil paulista, conduzida pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), que prendeu 40 pessoas acusadas de serem ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC), mostra que essa organização criminosa, que age dentro e fora dos presídios, está mais forte do que nunca. Isso vem confirmar a justeza do trabalho feito pelo Ministério Público Estadual (MPE) e divulgado em outubro do ano passado, depois de três anos de investigações, que concluiu que o PCC vem crescendo continuamente, já se espalhou pela maioria dos Estados e chega a faturar R$ 120 milhões por ano.

Falta cumprir ainda 3 dos 43 três mandados de prisão expedidos pela Justiça. Dois são de acusados que se encontram fora do País, de onde ajudam a controlar o tráfico de droga do PCC. Um deles, Wilson José Lima de Oliveira, o Neno, está em Orlando, nos Estados Unidos. Já Fabiano Alves de Souza, o Paca, age no Paraguai. Mais 47 mandados de busca permitiram apreender 100 quilos de cocaína e crack e 43 de maconha, armas e farta documentação. Uma análise preliminar desse material mostra o alto nível de organização do PCC e como funciona o esquema de tráfico de drogas - talvez o ramo mais lucrativo de seus negócios ilegais.

A distribuição da droga, que vem principalmente da Bolívia, começa na Cidade Tiradentes, na zona leste, e em bairros da zona sul, e de lá é levada, em pequenas quantidades, para o restante da cidade. Só essa parte do tráfico na capital paulista rende, de acordo com os dados colhidos, cerca de R$ 5 milhões por mês.

Um dos principais objetivos da operação era chegar aos elementos da cúpula, ou próximos deles, que participam do planejamento das ações criminosas e das operações financeiras do PCC. Segundo o Deic, dois dos presos fazem parte do alto escalão da organização criminosa - um seria uma espécie de "diretor operacional" para as ações realizadas fora dos presídios e o outro oferecia local seguro para as reuniões do grupo, uma loja de carros usados de sua propriedade, na zona leste.

As informações colhidas têm uma dupla utilidade para a polícia - conhecer melhor como funciona a administração do PCC e como ele opera a distribuição de droga, em especial na capital e na Grande São Paulo, que ao que tudo indica são o principal centro dos seus negócios. Isso deve facilitar o combate ao tráfico, e as próximas ações da polícia nesse sentido vão indicar se ela está preparada para tirar todo o proveito possível dessa investigação que conduziu tão bem.

Os documentos apreendidos levantam também uma suspeita altamente inquietante - a de que alguns policiais civis e militares têm ligação com o tráfico do PCC. Segundo o secretário de Segurança, Fernando Grella Vieira, as Corregedorias das Polícias Civil e Militar vão investigar o grau de envolvimento deles com o crime. A cooptação de policiais por organizações criminosas é bem conhecida. O fato em si, portanto, não surpreende. O que distingue as polícias eficientes e vigilantes das demais é a capacidade que elas têm de identificar suas ovelhas negras e puni-las exemplarmente. É o que se espera que a polícia paulista faça.

O combate sem trégua ao PCC deve ser uma das prioridades do setor de segurança pública, que inclui tanto o aparelho policial como a administração penitenciária. Isso porque são várias as razões que atestam a natureza particularmente preocupante dessa organização criminosa. A começar pelo fato de que ela atua ao mesmo tempo dentro e fora dos presídios. Segundo o referido trabalho do MPE, o PCC controla 90% dos presídios paulistas.

Como se isso não bastasse, ele já está presente na maioria dos Estados (em 22 deles) e em 2 países vizinhos (Bolívia e Paraguai), locais de produção e escoamento das drogas, e - sabe-se agora - também nos Estados Unidos. Ou se faz um esforço muito maior para desarticular o PCC ou ele tem tudo para se tornar um verdadeiro pesadelo para a segurança pública. E esse, como se vê, não é mais um problema apenas de São Paulo.

Enfim um tijolo - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 17/07


Criação de um banco de desenvolvimento pelos Brics é um passo concreto, mas no curto prazo tem mais peso político do que econômico


Os Brics deram passos concretos em sua 6ª reunião de cúpula, realizada nesta semana em Fortaleza. A criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) e o acordo para o uso de parte das reservas dos países do bloco em caso de crise têm grande significado político, embora seja pequeno seu impacto econômico no curto prazo.

Pela primeira vez, um grupo de países em desenvolvimento obtém convergência suficiente para criar instituições fora da órbita imediata do sistema multilateral erguido pelas potências ocidentais em meados do século passado.

A ordem atual, ancorada no Banco Mundial e no Fundo Monetário Internacional (FMI), não dá conta das nações de ascensão mais recente na arena mundial.

Reunidos antes por um gracejo --o acrônimo remete à palavra inglesa "brick", tijolo--, Brasil, Rússia, Índia e China, e mais tarde África do Sul, têm expressivas diferenças econômicas, culturais e políticas entre si. Em uníssono, no entanto, postulam maior influência em entidades globais, como o FMI.

O banco dos Brics, destinado a financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento de países emergentes, nasce com capital autorizado de US$ 50 bilhões (mas apenas US$ 10 bilhões estarão à disposição desde o início). A cifra é pequena, mesmo simbólica; para comparação, os ativos do BNDES alcançam US$ 334 bilhões.

Com sede em Xangai, o NBD será presidido pela Índia (por cinco anos) e terá Brasil e Rússia à frente dos conselhos de administração e de ministros, respectivamente. Apesar da isonomia formal, a China decerto sobrepujará os demais.

Embora considere o banco dos Brics um "sinal dos tempos", a presidente Dilma Rousseff afirmou que as novas instituições do grupo não são contra ninguém, mas a favor de seus membros. É uma descrição feliz: não devem substituir o FMI e o Banco Mundial, mas operar de forma complementar a eles.

O acesso pleno ao fundo de reservas, ao que parece, só ocorrerá se o país em dificuldades tiver um acordo de ajuste com o FMI. O mesmo procedimento foi adotado pela União Europeia para financiar a periferia do bloco continental.

A despeito dos graves erros nas crises de 1997 a 2008, o FMI ainda é visto como detentor da melhor tecnologia de confecção e monitoramento de programas de recuperação econômica. Ou seja, quem estiver esperando dinheiro fácil vindo dos Brics, com garantias frouxas, provavelmente se frustrará.

Isso não diminui a importância geopolítica dessas novidades. Começa a se formar uma rede sólida de relações econômicas e financeiras entre os novos atores de peso na economia mundial.

Aids: o Brasil na contramão - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 17/07
O Brasil entrou na contramão do mundo em questão na qual já foi referência: a prevenção e o tratamento da Aids. Enquanto caem no planeta os números de infectados e de mortes relacionados ao HIV, o país assiste ao alastramento da doença e ao aumento dos índices de óbito. Mesmo num recorte latino-americano, o quadro nacional indica retrocesso. Sem dúvida, os dados divulgados ontem pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV e Aids (Unaids) sensibilizam e põem em xeque a atual condução das políticas públicas brasileiras para o setor. Melhor, portanto, revê-la o quanto antes.
Segundo o Unaids, as infecções por HIV no Brasil cresceram 11% entre 2005 e 2013, enquanto caíram 27,5% no mundo. Já as mortes tiveram queda de 3% na América Latina, mesmo percentual alcançado, por exemplo, pela Argentina, ao passo que aumentaram 7% no território nacional. No planeta, a redução dos óbitos na última década superou os 33%. Não há, pois, como negar a regressão brasileira. E a luz de alerta acesa pelo relatório exige resposta imediata. A apreensão é ainda maior quando se sabe que outra doença em que o país já se destacou pela eficiência no combate, a tuberculose, teve problemas recentes, com a falta de medicamentos.

Negligenciar o enfrentamento do HIV/Aids ou de outro mal qualquer é tratar com desdém a saúde e até a vida do cidadão. Quem viveu os anos 80 do século passado lembra-se bem do drama de pessoas definhando a olhos vistos, encurraladas pela morte. No Brasil, a reação do Estado veio forte. Campanhas de esclarecimento sobre a doença e contra o preconceito ganharam a mídia. A laicidade falou mais alto do que a Igreja, e camisinhas passaram a ser distribuídas fartamente, chegando inclusive aos jovens, dentro das escolas.

Na vanguarda mundial, a rede pública de saúde começou a facilitar o diagnóstico e a fornecer medicamentos gratuitos a todos que necessitassem. Logo, um coquetel de antirretrovirais revelou-se a terapia ideal. Mas os preços amargos cobrados por multinacionais ameaçavam inviabilizar o programa. Sem vacilar, o governo reagiu novamente, manifestando disposição para quebrar patentes, o que conteve a elevação dos custos.

Tamanha persistência revestiu a empreitada de êxito inconteste, logo reconhecido internacionalmente, a ponto de o país passar a exportar sua experiência. Mas novos problemas surgiram. De um lado, a sobrevida, com qualidade de vida bastante razoável, levou pessoas a relaxarem a prevenção, com o que também contribuiu o distanciamento no tempo da agonia vivida pela humanidade no auge das contaminações e mortes. De outro lado, algumas pessoas infectadas adquiriram resistência aos remédios.

Por óbvio, os desafios de cada dia precisam ser encarados cotidianamente, assim como os de sempre não podem jamais ser relaxados. O Brasil está, portanto, convocado a dar nova resposta à questão. E a principal arma continua a ser farta informação. O próprio Unaids revela no relatório divulgado ontem que dos 35 milhões de pessoas infectadas com HIV no planeta, 19 milhões nem sequer sabem que são soropositivas.

O risco de transmissão é tão maior quanto menor for o nível de consciência da humanidade. Nesse sentido, para além do Estado, a sociedade, em geral, e as famílias, em particular, têm papel importante a cumprir. Cabe a todos retomar o debate, tratar do tema abertamente, sem preconceitos, e cobrar das autoridades ação capaz de recolocar o país na posição de vanguarda.

Fortalecer o futebol nacional - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 17/07


Não é com canetadas autoritárias que manteremos nossos craques por aqui; é preciso buscar outros caminhos



Com o fracasso do Brasil na Copa do Mundo, com direito a duas dolorosas derrotas na semifinal e na disputa pelo terceiro lugar, o país mergulhou em uma busca por uma identidade perdida: o “país do futebol” não é mais aquele? Como recuperar o respeito pela “amarelinha”? Comentaristas, jornalistas e curiosos começaram a vasculhar modelos de recuperação do futebol em outros países, especialmente a agora tetracampeã Alemanha, que em 2000 e 2004 passou pelo vexame de cair na primeira fase da Eurocopa. Um dos elementos citados na receita para um ressurgimento da seleção brasileira vem justamente de lá: o fortalecimento do campeonato nacional.

Um dado reforça a tese de que um futebol campeão se constrói com ligas nacionais fortalecidas: apenas uma seleção, a França de 1998, venceu a Copa do Mundo com um elenco no qual a maioria dos jogadores (13 de 22) atuava fora do país. O Brasil foi campeão em 1958, 1962 e 1970 com seleções formadas apenas por atletas que jogavam por aqui; tanto em 1994 quanto em 2002, eram 11 os “estrangeiros” nas campanhas do tetra e do penta, num grupo de 22 e 23 integrantes respectivamente. Mesmo a partir da década de 80, quando o trânsito de jogadores entre diversos países se tornou mais comum, a Itália venceu as Copas de 1982 e 2006 apenas com membros dos times locais. A Espanha de 2010 tinha apenas três integrantes que não jogavam no país, e só sete dos 23 tetracampeões alemães atuam fora da Bundesliga. É verdade que, na Copa recém-terminada, Holanda, Argentina e Brasil chegaram às semifinais com maioria de “estrangeiros”, e Espanha, Itália e Inglaterra, times considerados fortes e formados majoritariamente por jogadores que atuam no próprio país, caíram na primeira fase. Mesmo assim, a necessidade de aprimorar o campeonato nacional parece ser um consenso.

As maneiras de conseguir esse aprimoramento, no entanto, são diversas. Deixemos de lado a ridícula sugestão da presidente Dilma Rousseff, que em entrevista à rede de televisão CNN sugeriu que a ida de jogadores brasileiros para o exterior sofresse restrições, para que nossos craques ficassem por aqui em vez de abrilhantar ligas europeias. Ora, isso significa simplesmente violar o direito de ir e vir dos atletas; há diversas outras soluções, bem mais trabalhosas que uma simples canetada autoritária, mas cujos resultados têm potencial para serem duradouros.

Um passo importante para um campeonato forte é ter times em boas condições financeiras. Na Alemanha, as equipes precisam apresentar relatórios periódicos mostrando que são capazes de honrar suas obrigações, especialmente o pagamento de salários – que não podem superar 50% da receita do clube. Outros países viram times tradicionais sofrer o rebaixamento por questões financeiras, como o Rangers, na Escócia, e a Fiorentina, na Itália (falidos, ambos caíram para a quarta divisão de suas ligas). No Brasil, tramita no Congresso a chamada Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, que condiciona a renegociação das bilionárias dívidas dos clubes brasileiros a exigências de transparência e disciplina financeiras, barrando extravagâncias como a contratação de jogadores com salários astronômicos que o time não tem condições de bancar.

Os caminhos para a recuperação dos campeonatos nacionais podem estar inclusive no próprio Brasil. A Superliga de vôlei, tanto no masculino quanto no feminino, tem em seus clubes diversos atletas que compõem as seleções brasileiras da modalidade, repatriando jogadores que até há pouco atuavam em outros países. Analisar esses e outros exemplos, com seus pontos positivos e negativos, é obrigação de quem comanda o futebol nos estados e no Brasil. Talvez nem todas as soluções sejam aplicáveis à realidade do nosso futebol, mas simplesmente ignorar as experiências bem-sucedidas é condenar o esporte que tantos brasileiros amam a permanecer na mediocridade.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Não vamos aceitar as regras do governo cubano”
Aécio Neves (PSDB), que avalia manter o programa ‘Mais Médicos’, mas sob nova visão



PARTIDOS PODEM SUBSTITUIR ARRUDA

Com sua candidatura ao governo do DF contestada na Justiça, inclusive pela Procuradoria Regional Eleitoral, o ex-governador José Roberto Arruda poderá ser substituído pelo Partido da República e demais siglas aliadas. O problema alegado pelos próprios apoiantes é o risco do “abraço de afogados”: uma decisão judicial cancelando o registro da candidatura de Arruda seria mortal para seus projetos políticos.

GIM GOVERNADOR

Candidato ao Senado na chapa de Arruda, Gim Argello (PTB) é um dos mais citados pelos aliados para assumir a candidatura ao governo.

OPÇÃO RORIZ

A deputada Liliane Roriz, que se recusou a ser vice de Arruda, pode ser outra opção para governadora, mantendo na vice Jofran Frejat (PP).

REPETECO

Em 2010, Joaquim Roriz renunciou à candidatura ao governo do DF. Sua mulher, Weslian, que o substituiu, foi derrotada por Agnelo Queiroz (PT).

COISA DO AGNELO

Em resposta à Coluna, o candidato José Roberto Arruda negou a possibilidade de sua substituição: “É o Agnelo que espalha isso”.

GOVERNO FINGE PRIORIZAR AS RELAÇÕES COM A CHINA

O governo Dilma fez uma encenação para fingir que prioriza as relações com a China, levando o Senado a aprovar às pressas, terça (15) à noite, o acordo que os países firmaram em 2004, há dez anos. A aprovação ocorreu quando o presidente chinês Xi Jinping já estava há 4 dias em visita oficial ao Brasil. Lula iniciou a negligência brasileira, ao demorar 4 anos para enviar ao Congresso o acordo que ele próprio assinou.

AGILIDADE

O acordo com a China, em 2004, agiliza as extradições, permitindo que a Interpol encaminhe pedidos que serão transmitidos pela via diplomática.

PERSEGUIÇÃO, NÃO

Pelo acordo Brasil-China, a extradição será negada nos casos de perseguição em razão de raça, sexo, religião ou nacionalidade.

SORVETÃO

O relator no Senado, José Pimentel (PT-CE), causou mal-estar ao dizer que o acordo merecia aprovação em razão da visita de Xi Jinping.

JUCÁ COM AÉCIO

A eleição do “Samba do Crioulo Doido”: o senador Romero Jucá (PMDB) vai coordenar a campanha de Aécio Neves (PSDB) em Roraima. Como Jucá nunca se afasta do governo, seja qual for, isso pode ser um sinal.

DEMOROU DEMAIS

Após relutar muito, a maioria governista da CPMI da Petrobras quebrou sigilos telefônico, fiscal e bancário de Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef. Se é que ainda existem rastros dos crimes investigados.

ADEUS AO RECESSO... OFICIAL

Sem aprovar a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), o recesso parlamentar do meio do ano acabou cancelado. Começaria nesta sexta (18). Na Câmara, a ideia é fazer vistas grossas às folhas de ponto, prolongando a folga remunerada, como no mês da Copa do Mundo.

PENDURANDO CHUTEIRAS

O ex-ministro do Turismo Pedro Novais desistiu de disputar um novo mandato de deputado federal pelo PMDB-MA. Ele ficou conhecido quando pagou despesas de motel com dinheiro da Câmara, em 2010.

ARROCHA

Depois de postar vídeo dançando seu jingle de campanha, em ritmo de arrocha, o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB) não tem mais paz. Onde chega na Bahia, nem discursa e já escuta pedidos pela “dancinha”.

COMPANHEIROS

Candidata ao Senado, a deputada Fátima Bezerra (PT-RN) espera contar com a ajuda de Dilma e de Lula para derrotar nas urnas Wilma de Faria, do PSB do presidenciável Eduardo Campos.

MANDARAM BEM

As forças de segurança de Brasília coordenaram bem a complexa circulação de 17 chefes de Estado e de governo e comitivas que participaram de reunião do Brics com presidentes sul-americanos.

A HORA É AGORA

O presidenciável Aécio Neves aproveitou fim dos trabalhos legislativos ontem para chamar a bancada tucana para jantar na casa do deputado Paulo Abi-Ackel (MG). Será a chance de tirar fotos para os “santinhos”.

VEXAME

Nem mesmo a visita do presidente da China, Xi Jinping, ao Congresso garantiu quórum mínimo no Plenário da Câmara dos Deputados.



PODER SEM PUDOR

A DIALÉTICA DO TRABUCO

Jânio Quadros estava em campanha pela Presidência, em 1960, quando foi a Aimorés (MG) para um comício. O clima estava carregado, tenso, entre facções da UDN e do PSD. Assim que começou o falatório, José Aparecido de Oliveira foi com o deputado Padre Godinho numa barbearia da cidade. Quando um fazia barba e outro cortava cabelos, ouviram-se tiros. Godinho decidiu sair da barbearia, mas Aparecido o segurou:

- Não vá, eles continuam atirando!...

Padre Godinho parecia saber o que ocorrera lá fora:

- Vou, é meu dever de sacerdote. Preciso dar extrema-unção ao Jânio.

quarta-feira, julho 16, 2014

Pode, Arnaldo? - ALEXANDRE SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 16/07


Sugestão de intervenção do governo no futebol mostra como falta reflexão sobre as consequências das 'soluções'


Comecei a contribuir para a Folha em setembro de 2006, são quase oito anos escrevendo sobre economia, mas, confesso, gostaria mesmo é de ser colunista de futebol. O vexame da seleção --ou, melhor, a reação ao vexame-- acabou, porém, permitindo de alguma forma atender aos meus anseios, casando os dois assuntos.

Para quem não viu, a resposta inicial da presidente ao fiasco foi sugerir maior intervenção governamental no esporte, inclusive por meio de mecanismos para impedir a saída de jogadores com menos de 19 anos do país. Já seu ministro do Esporte chegou a aventar a possibilidade de "intervenção indireta" na organização das competições e na gestão dos clubes.

Já os que, como eu, acompanham a gestão desastrosa da economia não podem deixar de associar esse tipo de reação ao observado nos últimos anos: para cada problema que aparece, o governo se vê na obrigação de tomar alguma medida pontual a respeito, o que, tipicamente, não apenas não resolve a questão, como costuma, de lambuja, gerar novas dificuldades a serem devidamente atacadas por novas medidas pontuais, perpetuando indefinidamente o ciclo de incompetência.

Os empresários reclamam dos preços de energia? Em vez de identificar as causas últimas e pensar em reformas que possam aumentar a competitividade, o governo baixa as tarifas a canetadas, gerando uma crise no setor.

A inflação está elevada? Em hipótese alguma se considera a possibilidade de alteração nas políticas monetária e fiscal de forma a ajustá-las a um cenário de inflação mais baixa.

É preferível segurar os preços dos combustíveis, colocando a Petrobras na situação de endividamento que hoje se encontra; a única empresa de petróleo do mundo que anseia pela queda dos preços internacionais de seus produtos.

Não é por acaso, portanto, que o país se encontra no estado atual. Não há um exercício de reflexão sobre a natureza das questões, muito menos das consequências das "soluções" propostas.

A imagem recorrente é a do menino do conto holandês, tapando um furo do dique a cada momento, até que não lhe sobram mais dedos para tanto buraco.

Falta, não só para a economia, mas também para o futebol, um diagnóstico preciso das causas do problema.

Contraste a ideia de proibição da saída de jogadores com a hipótese levantada neste espaço pelo meu amigo Samuel Pessôa, a saber, que a Lei Pelé teria reduzido os incentivos à formação de jogadores, já que os clubes que investem nas categorias de base não teriam como evitar o aliciamento de futuros craques, gerando em consequência uma queda na qualidade dos jogadores.

Francamente, não sei se o Samuel está certo, mas, correto ou não, trata-se de hipótese que merece investigação mais cuidadosa.

Busca identificar mecanismos que afetam os incentivos dos agentes envolvidos no processo, tanto clubes quanto jogadores (assim como os indefectíveis "empresários").

Caso se prove correta, traz em si uma sugestão de política que alteraria as instituições (ou regras) sob as quais funciona a atividade futebolística, presumivelmente no sentido de aumentar o retorno dos que investem no desenvolvimento de jogadores, como, aliás, foi feito na Alemanha com enorme sucesso.

É bom que se diga que futebol não é uma questão de vida ou morte (é muito mais do que isto, claro), mas no domínio econômico este tipo de abordagem consegue ter repercussões ainda mais negativas.

A incapacidade de formular um diagnóstico sistêmico acerca das dificuldades do país se encontra por trás do padrão errático de política econômica que predomina no Brasil de 2009 para cá, inépcia que explica muito do fraco desempenho recente do país.

Neste contexto é impossível não se lembrar da frase precisa de Dave Barry: "Quando problemas surgem e as coisas parecem ruins, há sempre alguém que descobre uma solução e está disposto a assumir o comando. Frequentemente trata-se de um maluco". Pode, Arnaldo?