GAZETA DO POVO - PR - 26/06
A moeda brasileira, o real, nascida em 1.º de julho de 1994, completa 20 anos de existência absolutamente carente da viga mestra representada por uma abrangente e consistente orientação macroeconômica e apoiada apenas em retórica e prática populistas, represadoras de um conjunto apreciável de problemas que, por certo, emitirá a fatura maior depois das eleições.
Não é segredo para ninguém que a aliança hegemônica de poder que administra a nação desde 2003, ao surfar nas ondas radicais produzidas pelas altas cotações das commodities em escala global, foi gradativamente abandonando o tripé da estabilização, aplicado a partir de 1999, formado por câmbio flutuante, superávits fiscais primários e metas de inflação, e, o que é pior, apostando todas as fichas na dupla CC (crédito e consumo do governo e das famílias), especialmente com o auge do pânico da crise internacional, em setembro de 2008.
De 2011 para cá o governo Dilma Rousseff alardeia o emprego de uma nova matriz econômica, amparada em crédito oficial subsidiado e incentivos tributários para os “eleitos do senhor” e pronunciado intervencionismo nas regras de operação e precificação de importantes atividades públicas e privadas, ensejando estrondosas perdas corporativas e sacrificando investimentos.
De esforços estruturantes sobraram o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que está mais para um empreendimento imobiliário, por causa da destinação de 55% dos recursos para o Minha Casa, Minha Vida; o Plano Brasil Maior, que em vez de política industrial horizontal é um festival de desonerações fiscais para ramos escolhidos por critérios vagos; e as privatizações (ou concessões, como quer o governo), que esbarram em toda a sorte de interferências públicas.
Como resultado, o Brasil colhe o retorno de embaraços considerados superados, como déficits externos recordes; elevação dos desequilíbrios nas finanças públicas; inflação próxima do teto da meta de 6,5% ao ano, fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), apesar do represamento dos reajustes dos preços dos combustíveis, energia elétrica e transporte coletivo; estagnação dos níveis de atividade econômica, causada, sobretudo, pela desidratação da indústria; dentre outros.
As trapalhadas com os elementos conjunturais têm sido ladeadas pela ausência de um projeto de expansão econômica sustentada, baseado na negociação política da segunda geração das reformas institucionais, incluindo a tributária, a fiscal, a trabalhista, a previdenciária, a patrimonial, a financeira e o pacto federativo, redefinindo receitas e responsabilidades entre União, estados e municípios.
Lembre-se de que o primeiro estágio de mudanças concentrou-se nos anos 1990 e começo da década de 2000, com a abertura comercial, a desestatização, a regulamentação das concessões dos serviços públicos, a flexibilização dos monopólios e a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), sendo timidamente ampliado, nos tempos recentes, com o crédito consignado, o cadastro positivo e a Lei de Falências.
Aos 20 anos, o real está debilitado. O revigoramento e os muitos anos de vida saudável da moeda brasileira dependem da ação de um verdadeiro estadista transformador, menos ocupado com as demandas eleitorais e mais preocupado com o futuro do país. Uma revisita ao princípio do governo Itamar Franco, em 1992-1993, seria um belo começo.
quinta-feira, junho 26, 2014
Aparências, nada mais - DORA KRAMER
O ESTADÃO - 26/06
Na condição de secretário-geral da Presidência da República, interlocutor do governo junto aos movimentos sociais e braço avançado de Lula no Palácio do Planalto, Gilberto Carvalho não seria quem é nem estaria onde está se andasse ou falasse em completa desconexão com os mandamentos do "projeto".
Quando pareceu divergir do tom ufanista do PT estava dourando a pílula, contornando na superfície um discurso que no conteúdo reforça o lema central de ataque escolhido pelo partido para essas eleições. Senão, vejamos.
Num primeiro movimento, disse que os insultos dirigidos à presidente Dilma Rousseff na abertura da Copa do Mundo não eram coisa só da "elite branca". Deu a impressão de que fazia uma análise realista e ponderada do cenário. O PT reagiu negativamente.
Cinco dias depois, no segundo movimento, em entrevista à Folha de S. Paulo, o ministro detalhou o tema. Foi bastante específico ao dizer que o partido se ilude ao achar que "o povo pensa que está tudo bem". Na opinião dele, "um erro de diagnóstico" que impede a aplicação do "bom remédio".
Em tese haveria ali matéria-prima para polêmica, mas o PT não reagiu. Motivo para se voltar à entrevista. Relendo com lupa, logo se vê a razão do silêncio: justamente o diagnóstico detalhado de Gilberto Carvalho, que isenta o governo de qualquer responsabilidade pelo que não vai bem. A julgar por seu retrato da cena, é uma vítima.
Não faz ali referência alguma à necessidade de correção nessa ou naquela política governamental. Nada diz sobre inflação, baixo crescimento, inoperância, má qualidade de serviços públicos e tudo o que nas pesquisas aparece como motivo da crescente má avaliação do governo.
Para o ministro, a origem do mal estar é uma só: "Um pensamento conservador que se expressa fortemente por meio dos veículos de comunicação e que opera um cerco contra nós". O "cerco", segundo ele, "tem dado resultado na medida em que ganha amplitude".
A receita dele para ganhar as eleições, construir "pontes" com toda a sociedade, não é corrigir o que não anda bem. É, antes, "furar esse grande bloqueio, para mostrar ao País num debate aberto, sem mediações, o que de fato foi e está sendo realizado".
Quer dizer, "de fato" está tudo bem; errados estão os meios de comunicação que resolveram montar um "cerco" ao governo e, na base de mentiras, tem levado os brasileiros a pensar que algo não vai bem. Aqui a análise do ministro se coaduna perfeitamente com o lema do PT de que a imprensa independente é o inimigo a ser combatido.
O discurso é coincidente até nas pinceladas de autocrítica, as mesmas de sempre quando o PT se vê de frente para a adversidade: reconhecimento dos erros de "alguns", admissão de que o vírus da "velha política" contaminou o PT, burocratização da estrutura partidária, necessidade de produção de um "grande debate interno" e, claro, a indefectível reforma política.
Não há, portanto, divergência. Há, sim, convergência de fundo no velho truque de transferir a culpa pela má notícia ao mensageiro e de eleger um foco de hostilidade a fim de distrair a plateia dos problemas concretos.
Deu certo outras vezes. Pode ser que dê de novo. A conferir se diagnóstico e remédio vão dialogar de maneira eficaz. Primeiro entre si e depois com o eleitorado.
Obsequioso. A versão oficial do PSD para a manutenção da aliança com a presidente é o dever de gratidão. Pelo fato de Dilma ter ajudado com apoio político e logístico o partido em seu processo de criação.
Além disso, ao contrário do PSDB, o PT ficou ao lado do PSD na luta judicial (ganha) pelo direito ao tempo de televisão e dinheiro do fundo partidário.
O agradecimento, contudo, limita-se à figura do ex-prefeito Gilberto Kassab. Em atenção a ele o partido não submeteu a decisão a votos. Para evitar constrangimento.
Na condição de secretário-geral da Presidência da República, interlocutor do governo junto aos movimentos sociais e braço avançado de Lula no Palácio do Planalto, Gilberto Carvalho não seria quem é nem estaria onde está se andasse ou falasse em completa desconexão com os mandamentos do "projeto".
Quando pareceu divergir do tom ufanista do PT estava dourando a pílula, contornando na superfície um discurso que no conteúdo reforça o lema central de ataque escolhido pelo partido para essas eleições. Senão, vejamos.
Num primeiro movimento, disse que os insultos dirigidos à presidente Dilma Rousseff na abertura da Copa do Mundo não eram coisa só da "elite branca". Deu a impressão de que fazia uma análise realista e ponderada do cenário. O PT reagiu negativamente.
Cinco dias depois, no segundo movimento, em entrevista à Folha de S. Paulo, o ministro detalhou o tema. Foi bastante específico ao dizer que o partido se ilude ao achar que "o povo pensa que está tudo bem". Na opinião dele, "um erro de diagnóstico" que impede a aplicação do "bom remédio".
Em tese haveria ali matéria-prima para polêmica, mas o PT não reagiu. Motivo para se voltar à entrevista. Relendo com lupa, logo se vê a razão do silêncio: justamente o diagnóstico detalhado de Gilberto Carvalho, que isenta o governo de qualquer responsabilidade pelo que não vai bem. A julgar por seu retrato da cena, é uma vítima.
Não faz ali referência alguma à necessidade de correção nessa ou naquela política governamental. Nada diz sobre inflação, baixo crescimento, inoperância, má qualidade de serviços públicos e tudo o que nas pesquisas aparece como motivo da crescente má avaliação do governo.
Para o ministro, a origem do mal estar é uma só: "Um pensamento conservador que se expressa fortemente por meio dos veículos de comunicação e que opera um cerco contra nós". O "cerco", segundo ele, "tem dado resultado na medida em que ganha amplitude".
A receita dele para ganhar as eleições, construir "pontes" com toda a sociedade, não é corrigir o que não anda bem. É, antes, "furar esse grande bloqueio, para mostrar ao País num debate aberto, sem mediações, o que de fato foi e está sendo realizado".
Quer dizer, "de fato" está tudo bem; errados estão os meios de comunicação que resolveram montar um "cerco" ao governo e, na base de mentiras, tem levado os brasileiros a pensar que algo não vai bem. Aqui a análise do ministro se coaduna perfeitamente com o lema do PT de que a imprensa independente é o inimigo a ser combatido.
O discurso é coincidente até nas pinceladas de autocrítica, as mesmas de sempre quando o PT se vê de frente para a adversidade: reconhecimento dos erros de "alguns", admissão de que o vírus da "velha política" contaminou o PT, burocratização da estrutura partidária, necessidade de produção de um "grande debate interno" e, claro, a indefectível reforma política.
Não há, portanto, divergência. Há, sim, convergência de fundo no velho truque de transferir a culpa pela má notícia ao mensageiro e de eleger um foco de hostilidade a fim de distrair a plateia dos problemas concretos.
Deu certo outras vezes. Pode ser que dê de novo. A conferir se diagnóstico e remédio vão dialogar de maneira eficaz. Primeiro entre si e depois com o eleitorado.
Obsequioso. A versão oficial do PSD para a manutenção da aliança com a presidente é o dever de gratidão. Pelo fato de Dilma ter ajudado com apoio político e logístico o partido em seu processo de criação.
Além disso, ao contrário do PSDB, o PT ficou ao lado do PSD na luta judicial (ganha) pelo direito ao tempo de televisão e dinheiro do fundo partidário.
O agradecimento, contudo, limita-se à figura do ex-prefeito Gilberto Kassab. Em atenção a ele o partido não submeteu a decisão a votos. Para evitar constrangimento.
"Bacanal eleitoral" - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 26/06
BRASÍLIA - Dilma reagiu no segundo tempo e emplacou o apoio oficial do Pros, do PP e do PSD e deu a alma, além dos Transportes, para segurar o PR. Trocou um baiano por outro e ficou com o PR, ou melhor, com o tempo de TV do partido.
Dilma também conseguiu uma brecha para minimizar as perdas no Rio para Aécio Neves. O prefeito Eduardo Paes (PMDB) rebelou-se contra seus múltiplos criadores, criticou a "bacanal eleitoral" e tenta mobilizar prefeitos em torno de Dilma.
A campanha da presidente registra ainda que há resistência de parte do PTB à aliança com Aécio e que o partido, independentemente da decisão da cúpula nacional, segue com o PT em um terço dos Estados.
Pode-se dizer, portanto, que Dilma tende a sair desta semana melhor do que entrou, mas isso implica enormes custos políticos, administrativos e até emocionais (ter de engolir em seco e trocar ministro sem querer...). E é só uma parte de toda a história.
Quando se fala em "apoio oficial", deve-se ter cuidado para traduzir corretamente. Significa que os partidos dão seu tempo de TV para Dilma, Aécio ou Eduardo Campos durante a propaganda eleitoral dita gratuita. Mas não, necessariamente, que esse apoio e esse tempo de TV vão converter em palanques estaduais. Muitíssimo menos, em fidelidade. Fidelidade em política? Que bicho é esse?
O PMDB deu o seu enorme tempo de TV para Dilma e ganhou em troca a manutenção de Michel Temer como vice na chapa. Enquanto isso, os pemedebistas se esbaldam nas mais variadas alianças estaduais e assumem o namoro com Aécio ou Eduardo Campos no Rio, na Bahia, no Piauí, no Rio Grande do Sul.
O PR cobra caro, o PSD é o PSD, no PP a decisão teve de ser a portas fechadas, Dilma prega a "paz", mas o Pros já chega atacando Marina Silva, e o PDT tem o Ministério do Trabalho quando o emprego formal em maio é o pior para o mês em 22 anos. Todos eles "estão", mas não "são" exatamente Dilma e PT.
BRASÍLIA - Dilma reagiu no segundo tempo e emplacou o apoio oficial do Pros, do PP e do PSD e deu a alma, além dos Transportes, para segurar o PR. Trocou um baiano por outro e ficou com o PR, ou melhor, com o tempo de TV do partido.
Dilma também conseguiu uma brecha para minimizar as perdas no Rio para Aécio Neves. O prefeito Eduardo Paes (PMDB) rebelou-se contra seus múltiplos criadores, criticou a "bacanal eleitoral" e tenta mobilizar prefeitos em torno de Dilma.
A campanha da presidente registra ainda que há resistência de parte do PTB à aliança com Aécio e que o partido, independentemente da decisão da cúpula nacional, segue com o PT em um terço dos Estados.
Pode-se dizer, portanto, que Dilma tende a sair desta semana melhor do que entrou, mas isso implica enormes custos políticos, administrativos e até emocionais (ter de engolir em seco e trocar ministro sem querer...). E é só uma parte de toda a história.
Quando se fala em "apoio oficial", deve-se ter cuidado para traduzir corretamente. Significa que os partidos dão seu tempo de TV para Dilma, Aécio ou Eduardo Campos durante a propaganda eleitoral dita gratuita. Mas não, necessariamente, que esse apoio e esse tempo de TV vão converter em palanques estaduais. Muitíssimo menos, em fidelidade. Fidelidade em política? Que bicho é esse?
O PMDB deu o seu enorme tempo de TV para Dilma e ganhou em troca a manutenção de Michel Temer como vice na chapa. Enquanto isso, os pemedebistas se esbaldam nas mais variadas alianças estaduais e assumem o namoro com Aécio ou Eduardo Campos no Rio, na Bahia, no Piauí, no Rio Grande do Sul.
O PR cobra caro, o PSD é o PSD, no PP a decisão teve de ser a portas fechadas, Dilma prega a "paz", mas o Pros já chega atacando Marina Silva, e o PDT tem o Ministério do Trabalho quando o emprego formal em maio é o pior para o mês em 22 anos. Todos eles "estão", mas não "são" exatamente Dilma e PT.
Retinas fatigadas - SÍLVIO RIBAS
CORREIO BRAZILIENSE - 26/06
Deu no New York Times: Brasília é um espetáculo de civilidade, nem parece uma cidade do Brasil. Nada como uma Copa do Mundo para o olhar gringo descobrir o belo e o inesperado fora dos limites do seu cotidiano. É interessante para nós, brasileiros, ler registros como esse do influente jornal norte-americano, mesmo que venham carregados de imprecisões e exageros, alguns acidentais e outros intencionais. Considerar as mansões do Lago Paranoá mais luxuosas do que as dos astros bilionários de Beverly Hills só pode ser piada.
Mas o que mais me impressiona é verificar como o maior evento esportivo do planeta está coroando um fenômeno tecnológico e social sem precedentes na história humana, ditado pela mobilidade da internet. É difícil encontrar lugares em que cidadãos, em movimento ou parados, não estejam com os olhos grudados em smarthones ou tablets, na maioria das vezes conferindo mensagens rasas recebidas de outras pessoas. É fácil ser instado a comentar um trocadilho ou uma gafe cometidos por alguma celebridade consolidada ou recém-criada.
A tal mídia social, como os especialistas agora classificam as redes sociais, ocupou um espaço desmedido. Foge de toda lógica até então ditada pelos mestres das comunicações de massa, transformando qualquer um em marqueteiro das próprias coisas ou dono de seu canal de expressão global. As assembleias de enfoques banais se formam rápido e tornam o teoricamente fraco em um forte e o comprovadamente forte em um alvo do ridículo. O boato on-line consegue virar notícia na mídia convencional e o velho rigor jornalístico precisa lutar ainda mais pelo reconhecimento da maioria.
As aberrações e os inconvenientes criados pelo conteúdo viral da internet, elaborado pelo povo conectado e endereçado a ele mesmo, ocorrem com cada vez mais frequência. Tem gente morrendo em acidentes, distraída ao fazer um selfie. Há jovens que se deprimem quando suas amenidades publicadas na web não ficam entre as mais curtidas. Há fatos relevantes que passam batidos, sem encontrar ressonância on-line.
Há muito para ser visto na rede mundial de computadores, e as retinas fatigadas buscam cada vez mais imagens impactantes e textos curtíssimos. Onde essa manada de internautas famintos por piscadas eletrônicas vai parar? Ninguém sabe. O importante é a imprensa preservar, dentro e fora do meio virtual, os conceitos que a definem, em defesa da verdade e do interesse coletivo.
Mas o que mais me impressiona é verificar como o maior evento esportivo do planeta está coroando um fenômeno tecnológico e social sem precedentes na história humana, ditado pela mobilidade da internet. É difícil encontrar lugares em que cidadãos, em movimento ou parados, não estejam com os olhos grudados em smarthones ou tablets, na maioria das vezes conferindo mensagens rasas recebidas de outras pessoas. É fácil ser instado a comentar um trocadilho ou uma gafe cometidos por alguma celebridade consolidada ou recém-criada.
A tal mídia social, como os especialistas agora classificam as redes sociais, ocupou um espaço desmedido. Foge de toda lógica até então ditada pelos mestres das comunicações de massa, transformando qualquer um em marqueteiro das próprias coisas ou dono de seu canal de expressão global. As assembleias de enfoques banais se formam rápido e tornam o teoricamente fraco em um forte e o comprovadamente forte em um alvo do ridículo. O boato on-line consegue virar notícia na mídia convencional e o velho rigor jornalístico precisa lutar ainda mais pelo reconhecimento da maioria.
As aberrações e os inconvenientes criados pelo conteúdo viral da internet, elaborado pelo povo conectado e endereçado a ele mesmo, ocorrem com cada vez mais frequência. Tem gente morrendo em acidentes, distraída ao fazer um selfie. Há jovens que se deprimem quando suas amenidades publicadas na web não ficam entre as mais curtidas. Há fatos relevantes que passam batidos, sem encontrar ressonância on-line.
Há muito para ser visto na rede mundial de computadores, e as retinas fatigadas buscam cada vez mais imagens impactantes e textos curtíssimos. Onde essa manada de internautas famintos por piscadas eletrônicas vai parar? Ninguém sabe. O importante é a imprensa preservar, dentro e fora do meio virtual, os conceitos que a definem, em defesa da verdade e do interesse coletivo.
Prejuízo nos tribunais - MAURO SAMPAIO
O GLOBO - 26/06
Um mal a prejudicar severamente o crescimento das empresas chama-se risco jurídico
Três perguntas que deveriam estar presentes nas reuniões de diretoria das empresas, especialmente as que atendem grande número de consumidores e possuem muitos empregados: 1 - “Quantos processos ativos na Justiça realmente temos?”; 2 - “Em que fase processual se encontram esses processos?”; 3 - “Os processos estão sendo efetivamente acompanhados?”
Um dos males a prejudicar severamente o crescimento das nossas empresas chama-se risco jurídico, obrigando-as a fazer um provisionamento para eventuais perdas das causas nos tribunais — e isso deve constar em seus balanços. Esses recursos ficam imobilizados, reduzindo portanto a capacidade de investimento das organizações. Quem contabilizar a quantidade de processos contra as empresas e os valores envolvidos certamente vai se assustar diante dos gigantescos números, cuja tradução em reais atinge algo entre 8% e 10% do PIB brasileiro, considerando um ciclo médio de quatro anos por processo.
A diretoria que não tiver a resposta certa para as três perguntas lá de cima, pode estar jogando no ralo muito dinheiro da companhia. Isso é fácil de imaginar. Uma empresa que tem uns mil processos (algumas se encontram em situação bem pior) pode estar mal informada sobre o andamento de muitos deles. Não é raro acontecer, por exemplo, casos em que um processo já está concluído e a empresa, sem essa informação, continua fazendo o provisionamento à espera de sua conclusão.
No ano passado, o Conselho Nacional de Justiça dava conta de que havia na Justiça cerca de 70 milhões de processos judiciais. Esse contencioso envolve, em sua esmagadora maioria, as cerca de seis milhões de empresas ativas no país. Por isso, o entendimento, o correto dimensionamento e o acompanhamento do risco jurídico tornam-se primordiais para a saúde das organizações — e até do mercado — pelos valores envolvidos e pelo impacto nos resultados e margens dos negócios.
Quando a empresa tem a garantia da qualidade das informações jurídicas, ela consegue diminuir os valores a serem provisionados, reduz os riscos de multas e o risco de julgamentos à revelia. Além de poder construir um diagnóstico eficiente de riscos, que facilitará a implementação de ações preventivas e a recuperação, no tempo certo, de eventuais créditos judiciais.
A identificação correta das fases em que se encontram os processos judiciais proporcionam, além desses citados, muitos outros benefícios. Por exemplo, contribui significativamente para a melhoria do desempenho da empresa.
A informação exata do tipo de reclamação jurídica contra um produto ou uma decisão administrativa — e em que região do país elas acontecem com mais frequência — é fundamental para o alinhamento do setor jurídico da empresa com suas estratégias de atuação, de venda inclusive.
Um mal a prejudicar severamente o crescimento das empresas chama-se risco jurídico
Três perguntas que deveriam estar presentes nas reuniões de diretoria das empresas, especialmente as que atendem grande número de consumidores e possuem muitos empregados: 1 - “Quantos processos ativos na Justiça realmente temos?”; 2 - “Em que fase processual se encontram esses processos?”; 3 - “Os processos estão sendo efetivamente acompanhados?”
Um dos males a prejudicar severamente o crescimento das nossas empresas chama-se risco jurídico, obrigando-as a fazer um provisionamento para eventuais perdas das causas nos tribunais — e isso deve constar em seus balanços. Esses recursos ficam imobilizados, reduzindo portanto a capacidade de investimento das organizações. Quem contabilizar a quantidade de processos contra as empresas e os valores envolvidos certamente vai se assustar diante dos gigantescos números, cuja tradução em reais atinge algo entre 8% e 10% do PIB brasileiro, considerando um ciclo médio de quatro anos por processo.
A diretoria que não tiver a resposta certa para as três perguntas lá de cima, pode estar jogando no ralo muito dinheiro da companhia. Isso é fácil de imaginar. Uma empresa que tem uns mil processos (algumas se encontram em situação bem pior) pode estar mal informada sobre o andamento de muitos deles. Não é raro acontecer, por exemplo, casos em que um processo já está concluído e a empresa, sem essa informação, continua fazendo o provisionamento à espera de sua conclusão.
No ano passado, o Conselho Nacional de Justiça dava conta de que havia na Justiça cerca de 70 milhões de processos judiciais. Esse contencioso envolve, em sua esmagadora maioria, as cerca de seis milhões de empresas ativas no país. Por isso, o entendimento, o correto dimensionamento e o acompanhamento do risco jurídico tornam-se primordiais para a saúde das organizações — e até do mercado — pelos valores envolvidos e pelo impacto nos resultados e margens dos negócios.
Quando a empresa tem a garantia da qualidade das informações jurídicas, ela consegue diminuir os valores a serem provisionados, reduz os riscos de multas e o risco de julgamentos à revelia. Além de poder construir um diagnóstico eficiente de riscos, que facilitará a implementação de ações preventivas e a recuperação, no tempo certo, de eventuais créditos judiciais.
A identificação correta das fases em que se encontram os processos judiciais proporcionam, além desses citados, muitos outros benefícios. Por exemplo, contribui significativamente para a melhoria do desempenho da empresa.
A informação exata do tipo de reclamação jurídica contra um produto ou uma decisão administrativa — e em que região do país elas acontecem com mais frequência — é fundamental para o alinhamento do setor jurídico da empresa com suas estratégias de atuação, de venda inclusive.
A imprensa de chuteiras - EUGÊNIO BUCCI
O ESTADO DE S.PAULO - 26/06
Da imprensa brasileira pode-se dizer que os pés lhe subiram à cabeça. Não os próprios pés, não os pés da imprensa, mas os pés enchuteirados que dão de bico, de chaleira, de lambreta, de bicicleta, de chapa e de voleio em nome do País. Pés de jornalistas não dão conta disso tudo. Quando muito, vão sujar sapatos baratos em ruelas de terra e depois voltam para a redação orgulhosos da reportagem que palmilharam. Pés de jornalistas não chegam ao chinelo. Não, os pés que subiram à cabeça da imprensa não são os dela, mas os lúdicos pés do ludopédio.
A podolatria reinante faria corar o poeta Glauco Mattoso, aquele que ousou declarar amor ao chulé: "Não basta o pé, precisa ser fedido". Diante do que estamos vendo, Glauco Mattoso não dá para o cheiro. Basta ver a adoração em torno das novas chuteiras do jovem atleta do time da CBF, de nome Neymar Jr., apresentadas na televisão no início da semana. São obscenamente douradas, como se fossem uma coroa - ou um par de coroas, melhor dizendo. Aliás, são mesmo coroas de verdade, coroas reais: não só por emularem a realeza das mais glamourosas monarquias, mas principalmente porque representam o que pode haver de mais material, de mais concreto ou de mais "real" naquilo que comumente chamamos de realidade: um par de pés.
O pintor Candido Portinari via nos pés de seus modelos a raiz materialista da humanidade. Gostava de representar seus trabalhadores braçais com mãozonas do tamanho de pés e pezões do tamanho de estádios. Se fosse retratar um jogador de bola hoje, talvez Portinari o enquadrasse apenas dos tornozelos para baixo. O novo par de "coroas" de Neymar Jr. é feito sob medida não para sua cabeça, mas para os seus pés (cujas dimensões simbólicas não caberiam nem mesmo numa tela de Portinari). No cocuruto ele usa apenas um penteado mutante que o faz parecido com alguém que anda de costas numa motocicleta a 200 quilômetros por hora (sem capacete, claro). Há luzes douradas nos cabelos de Neymar, mas o brilho que realmente conta lhe vai nos pés. No esporte a que nos referimos, como na classe operária de Portinari, gol de cabeça é exceção.
Jornais, noticiários de TV, revistas e portais de notícias vão no mesmo embalo. Supostamente responsáveis por informar a sociedade com alguma (ou quase nenhuma) dose de isenção, com o tão decantado "distanciamento crítico", vão aos poucos abrindo mão de seus parâmetros e se deixando embriagar pelo frêmito podofutebolístico. Espalhafatosamente. Fartamente. Aos olhos da imprensa, sem a menor dúvida, esta já é mesmo "a Copa das Copas". Haja celebração.
Na primeira página dos diários, as tais letras garrafais torcem e distorcem. Zombam de atletas de times que não são o brasileiro (chamam o português Cristiano Ronaldo de "playboy", por exemplo), enquanto se derramam em reverências, mesuras e genuflexões aos donos de pés titulares do time da CBF, vulgarmente chamado apenas de "o Brasil". No telejornal, o apresentador adota a primeira pessoa do plural - "nós" - e assim se funde e se confunde com os protagonistas dos jogos e com a torcida pátria. Tal resultado, diz o âncora, "é bom para nós". O artifício fácil de linguagem o ajuda a se irmanar com a "torcida inteira" (para usar aqui a expressão daquele jingle de um comercial de banco). O "nós" do telejornal quer dizer "nós, o Brasil". Os "nossos" pés unidos jamais serão vencidos. Os pés somos nós, nossa força e nossa voz.
A mesma imprensa que se desdobra para cultivar a frieza e a objetividade em relação a qualquer acontecimento que seja - do assassinato torpe de crianças ao mais infame surto de corrupção, da tortura nas delegacias e nas UPPs às mais sádicas arbitrariedades de um eventual presidente do STF - não tem sido capaz de olhar como observadora crítica a massiva festividade industrializada (formatada pela publicidade) a que vulgarmente se chama de Copa do Mundo. É como se o seu próprio pensamento começasse a brotar dos pés coroados. A "podocefalia" apodera-se de todos os espaços. Pés pensantes viram sujeitos históricos. Em seu "balé de resultados", fazem balançar as redes, fazem vibrar os corações, fazem "reacender as esperanças", etc. Pés com "astúcias de mãos", alguém já disse, pés que "manejam" e "manipulam" o itinerário da bola e, consequentemente, manufaturam o andamento da "nossa" própria História (um "nossa" que, como se vê, inclui não só os profissionais do ludopédio e seus fãs em transe, como também os praticantes do jornalismo).
Claro: dos pés idolatrados depende também o destino dos políticos. Estes, com seu oportunismo de artilheiro, vão se precipitando dentro do "nós" do telejornal como aqueles devotos ocasionais de Iemanjá que se atiram nas águas do mar durante os festejos de ano-novo. Os candidatos à Presidência da República fantasiam-se de camisa amarela e fazem pose em dia de jogo. Um deles, Aécio Neves, apareceu numa fotografia de punho erguido e sorriso rijo assistindo pela TV a um jogo do time da CBF contra o México. Acontece que, durante a partida, não houve nenhum gol. O que, então, festejavam os fotografados? Foi mera encenação? A pergunta passou em branco pelos repórteres, ocupados demais em torcer "junto" com Aécio, dentro do "nós" totalizante. Podem não ter chuteiras na cabeça (isso seria demais), mas estão com a cabeça no mesmo par de chuteiras.
Lula e Dilma também se acomodam no "nós" esfuziante. O primeiro até declarou: "Nós vamos ganhar este caneco porque o Brasil está precisando" (Estado de ontem, página A4). Como é mesmo? O Brasil precisa? Ou são eles, do governo, que precisam? Quem é o "nós" que vai "ganhar o caneco"? E quem é "o Brasil" que "está precisando"? Ao se misturar com todos eles no aconchego ideológico do mesmo "nós", a imprensa perde potência para ir atrás dessas perguntas, enquanto se deixa fascinar pelas chuteiras novinhas, douradas e dotadas de poderes mágicos.
Da imprensa brasileira pode-se dizer que os pés lhe subiram à cabeça. Não os próprios pés, não os pés da imprensa, mas os pés enchuteirados que dão de bico, de chaleira, de lambreta, de bicicleta, de chapa e de voleio em nome do País. Pés de jornalistas não dão conta disso tudo. Quando muito, vão sujar sapatos baratos em ruelas de terra e depois voltam para a redação orgulhosos da reportagem que palmilharam. Pés de jornalistas não chegam ao chinelo. Não, os pés que subiram à cabeça da imprensa não são os dela, mas os lúdicos pés do ludopédio.
A podolatria reinante faria corar o poeta Glauco Mattoso, aquele que ousou declarar amor ao chulé: "Não basta o pé, precisa ser fedido". Diante do que estamos vendo, Glauco Mattoso não dá para o cheiro. Basta ver a adoração em torno das novas chuteiras do jovem atleta do time da CBF, de nome Neymar Jr., apresentadas na televisão no início da semana. São obscenamente douradas, como se fossem uma coroa - ou um par de coroas, melhor dizendo. Aliás, são mesmo coroas de verdade, coroas reais: não só por emularem a realeza das mais glamourosas monarquias, mas principalmente porque representam o que pode haver de mais material, de mais concreto ou de mais "real" naquilo que comumente chamamos de realidade: um par de pés.
O pintor Candido Portinari via nos pés de seus modelos a raiz materialista da humanidade. Gostava de representar seus trabalhadores braçais com mãozonas do tamanho de pés e pezões do tamanho de estádios. Se fosse retratar um jogador de bola hoje, talvez Portinari o enquadrasse apenas dos tornozelos para baixo. O novo par de "coroas" de Neymar Jr. é feito sob medida não para sua cabeça, mas para os seus pés (cujas dimensões simbólicas não caberiam nem mesmo numa tela de Portinari). No cocuruto ele usa apenas um penteado mutante que o faz parecido com alguém que anda de costas numa motocicleta a 200 quilômetros por hora (sem capacete, claro). Há luzes douradas nos cabelos de Neymar, mas o brilho que realmente conta lhe vai nos pés. No esporte a que nos referimos, como na classe operária de Portinari, gol de cabeça é exceção.
Jornais, noticiários de TV, revistas e portais de notícias vão no mesmo embalo. Supostamente responsáveis por informar a sociedade com alguma (ou quase nenhuma) dose de isenção, com o tão decantado "distanciamento crítico", vão aos poucos abrindo mão de seus parâmetros e se deixando embriagar pelo frêmito podofutebolístico. Espalhafatosamente. Fartamente. Aos olhos da imprensa, sem a menor dúvida, esta já é mesmo "a Copa das Copas". Haja celebração.
Na primeira página dos diários, as tais letras garrafais torcem e distorcem. Zombam de atletas de times que não são o brasileiro (chamam o português Cristiano Ronaldo de "playboy", por exemplo), enquanto se derramam em reverências, mesuras e genuflexões aos donos de pés titulares do time da CBF, vulgarmente chamado apenas de "o Brasil". No telejornal, o apresentador adota a primeira pessoa do plural - "nós" - e assim se funde e se confunde com os protagonistas dos jogos e com a torcida pátria. Tal resultado, diz o âncora, "é bom para nós". O artifício fácil de linguagem o ajuda a se irmanar com a "torcida inteira" (para usar aqui a expressão daquele jingle de um comercial de banco). O "nós" do telejornal quer dizer "nós, o Brasil". Os "nossos" pés unidos jamais serão vencidos. Os pés somos nós, nossa força e nossa voz.
A mesma imprensa que se desdobra para cultivar a frieza e a objetividade em relação a qualquer acontecimento que seja - do assassinato torpe de crianças ao mais infame surto de corrupção, da tortura nas delegacias e nas UPPs às mais sádicas arbitrariedades de um eventual presidente do STF - não tem sido capaz de olhar como observadora crítica a massiva festividade industrializada (formatada pela publicidade) a que vulgarmente se chama de Copa do Mundo. É como se o seu próprio pensamento começasse a brotar dos pés coroados. A "podocefalia" apodera-se de todos os espaços. Pés pensantes viram sujeitos históricos. Em seu "balé de resultados", fazem balançar as redes, fazem vibrar os corações, fazem "reacender as esperanças", etc. Pés com "astúcias de mãos", alguém já disse, pés que "manejam" e "manipulam" o itinerário da bola e, consequentemente, manufaturam o andamento da "nossa" própria História (um "nossa" que, como se vê, inclui não só os profissionais do ludopédio e seus fãs em transe, como também os praticantes do jornalismo).
Claro: dos pés idolatrados depende também o destino dos políticos. Estes, com seu oportunismo de artilheiro, vão se precipitando dentro do "nós" do telejornal como aqueles devotos ocasionais de Iemanjá que se atiram nas águas do mar durante os festejos de ano-novo. Os candidatos à Presidência da República fantasiam-se de camisa amarela e fazem pose em dia de jogo. Um deles, Aécio Neves, apareceu numa fotografia de punho erguido e sorriso rijo assistindo pela TV a um jogo do time da CBF contra o México. Acontece que, durante a partida, não houve nenhum gol. O que, então, festejavam os fotografados? Foi mera encenação? A pergunta passou em branco pelos repórteres, ocupados demais em torcer "junto" com Aécio, dentro do "nós" totalizante. Podem não ter chuteiras na cabeça (isso seria demais), mas estão com a cabeça no mesmo par de chuteiras.
Lula e Dilma também se acomodam no "nós" esfuziante. O primeiro até declarou: "Nós vamos ganhar este caneco porque o Brasil está precisando" (Estado de ontem, página A4). Como é mesmo? O Brasil precisa? Ou são eles, do governo, que precisam? Quem é o "nós" que vai "ganhar o caneco"? E quem é "o Brasil" que "está precisando"? Ao se misturar com todos eles no aconchego ideológico do mesmo "nós", a imprensa perde potência para ir atrás dessas perguntas, enquanto se deixa fascinar pelas chuteiras novinhas, douradas e dotadas de poderes mágicos.
Luta de classes canarinho - ALAN GRIPP
FOLHA DE SP - 26/06
SÃO PAULO - Depois dos xingamentos a Dilma, a polêmica copeira da vez é o comportamento chocho da torcida brasileira nos estádios, que levou olé dos mexicanos em Fortaleza e periga tomar um baile dos chilenos em Belo Horizonte.
Para a decepção dos turistas e da imprensa estrangeira, que nos têm como um povo musical, os brasileiros exibem um repertório pobre, quase sempre limitado ao enfadonho "eu sou brasileiro...".
Pior ainda se comparado ao vasto cancioneiro de nossos hermanos, que, para nos provocar, inventaram até uma musiquinha cantada a plenos pulmões para dizer que "Maradona es más grande que Pelé", como se isso fosse possível.
Segundo versão corrente, a pasmaceira se explica pelo preço dos ingressos, que encheu as arenas padrão Fifa de bem-nascidos e seu comportamento monótono.
Era só o que faltava: introduzir o clássico povo vs. elite na polêmica do canto de torcidas nas arquibancadas, ou melhor, cadeiras numeradas.
Quem acompanha minimamente futebol sabe que a melodia entoada na abertura da Copa, em São Paulo, ou num amistoso a preços populares em qualquer lugar é a mesma.
Mas por que então não conseguimos cantar algo além de "com muito orgulho, com muito amor" diante da seleção? Pitacos despretensiosos:
Nossa vocação é clubística, gostamos da seleção mais porque ela reúne os craques dos times que aprendemos a amar desde criancinha, e menos por amor à pátria.
Até por essa razão, torcedores nunca se organizaram em torno da seleção. Não há a Canarinhos da Fiel, a Raça Brasil ou algo parecido com os barra bravas argentinos --a despeito de todos os males que causam, as organizadas ditam a cantoria.
Mais: o Brasil joga mais no mundo árabe do que em seu país, dificultando uma identificação com o torcedor.
Provavelmente há muitas outras razões. Só não dá para transformar o tema na luta de classes da semana.
SÃO PAULO - Depois dos xingamentos a Dilma, a polêmica copeira da vez é o comportamento chocho da torcida brasileira nos estádios, que levou olé dos mexicanos em Fortaleza e periga tomar um baile dos chilenos em Belo Horizonte.
Para a decepção dos turistas e da imprensa estrangeira, que nos têm como um povo musical, os brasileiros exibem um repertório pobre, quase sempre limitado ao enfadonho "eu sou brasileiro...".
Pior ainda se comparado ao vasto cancioneiro de nossos hermanos, que, para nos provocar, inventaram até uma musiquinha cantada a plenos pulmões para dizer que "Maradona es más grande que Pelé", como se isso fosse possível.
Segundo versão corrente, a pasmaceira se explica pelo preço dos ingressos, que encheu as arenas padrão Fifa de bem-nascidos e seu comportamento monótono.
Era só o que faltava: introduzir o clássico povo vs. elite na polêmica do canto de torcidas nas arquibancadas, ou melhor, cadeiras numeradas.
Quem acompanha minimamente futebol sabe que a melodia entoada na abertura da Copa, em São Paulo, ou num amistoso a preços populares em qualquer lugar é a mesma.
Mas por que então não conseguimos cantar algo além de "com muito orgulho, com muito amor" diante da seleção? Pitacos despretensiosos:
Nossa vocação é clubística, gostamos da seleção mais porque ela reúne os craques dos times que aprendemos a amar desde criancinha, e menos por amor à pátria.
Até por essa razão, torcedores nunca se organizaram em torno da seleção. Não há a Canarinhos da Fiel, a Raça Brasil ou algo parecido com os barra bravas argentinos --a despeito de todos os males que causam, as organizadas ditam a cantoria.
Mais: o Brasil joga mais no mundo árabe do que em seu país, dificultando uma identificação com o torcedor.
Provavelmente há muitas outras razões. Só não dá para transformar o tema na luta de classes da semana.
Orgia partidária deturpa política - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 26/06
São várias as causas do show de infidelidades, de raízes históricas e culturais a falhas de legislação. Mas tudo foi anabolizado pelo fisiologismo petista
A infidelidade partidária, tendo como pano de fundo o toma lá dá cá fisiológico, se firmou como uma das marcas registradas da política brasileira. Mas as alianças com vistas às eleições deste ano prometem atingir níveis ainda mais baixos de descompromisso com projetos efetivos de governo e poder, até mesmo em termos de cinismo com o eleitor.
O que aconteceu nos últimos dias no Rio de Janeiro, tachado com propriedade de orgia política, espelha bem o estilhaçamento do quadro partidário do país, diante de um eleitorado sem entender como adversários históricos, com desavenças que resvalaram para o plano pessoal, aparecem aos abraços para constituir palanques regionais que nada têm a ver com entendimentos nacionais. Ou vice-versa.
A adesão do ex-prefeito Cesar Maia (DEM) à chapa “Aezão”, nome fantasia criado para designar a aliança de boa parte do PMDB ao PSDB , no apoio à candidatura a presidente de Aécio Neves em dobradinha com a campanha do vice-governador Luiz Fernando Pezão ao Palácio Guanabara, significa colocar a política fluminense de cabeça para baixo. Significa dizer para o eleitorado que todo tiroteio entre Cesar Maia, Sérgio Cabral, Pezão e respectivos liderados era de mentirinha, deve ser esquecido. Tudo é muito ruim para a democracia representativa.
A deflagradora da barafunda foi a adesão do PSB, do candidato a presidente Eduardo Campos, ao PT de sua adversária Dilma Rousseff, na aproximação dos partidos para sustentar a candidatura em perigo do senador petista Lindbergh Farias ao governo do estado. Em resposta, PMDB, DEM, PSDB e PPS engordaram o “Aezão”. E estimularam o prefeito Eduardo Paes, adversário (ainda) de Cesar Maia, de quem foi pupilo, a fundar o “Dilmão”, para apoiar Dilma, sem sair do palanque de Pezão.
Na prática, desmonta-se no estado e na cidade do Rio de Janeiro uma aliança, cantada em prosa e verso nos últimos anos por Sérgio Cabral, Paes, Dilma e Lula, entre PMDB e PT, entendida como a que viabilizou uma série de investimentos na região metropolitana carioca, enfim beneficiada — era dito com insistência — pelo raro entendimento político entre estado, município e Executivo federal.
As causas desta e outras orgias que transcorrem pelo país, em ritmo frenético na contagem regressiva do prazo para a realização de convenções partidárias, são várias. Há desde a perspectiva de o poder mudar de donos em 2015, no Planalto, fator de excitação de políticos, a raízes históricas e culturais, bem como graves falhas na legislação político-eleitoral. Além do anabolizante das mazelas constituído pelas práticas petistas do fisiologismo.
Espera-se que no ano que vem, enfim, o Palácio, com ou sem Dilma, leve a sério a imperiosa necessidade de uma reforma política efetiva. Mas sem bravatas, voluntarismos, assembleias constituintes e golpismos do tipo.
São várias as causas do show de infidelidades, de raízes históricas e culturais a falhas de legislação. Mas tudo foi anabolizado pelo fisiologismo petista
A infidelidade partidária, tendo como pano de fundo o toma lá dá cá fisiológico, se firmou como uma das marcas registradas da política brasileira. Mas as alianças com vistas às eleições deste ano prometem atingir níveis ainda mais baixos de descompromisso com projetos efetivos de governo e poder, até mesmo em termos de cinismo com o eleitor.
O que aconteceu nos últimos dias no Rio de Janeiro, tachado com propriedade de orgia política, espelha bem o estilhaçamento do quadro partidário do país, diante de um eleitorado sem entender como adversários históricos, com desavenças que resvalaram para o plano pessoal, aparecem aos abraços para constituir palanques regionais que nada têm a ver com entendimentos nacionais. Ou vice-versa.
A adesão do ex-prefeito Cesar Maia (DEM) à chapa “Aezão”, nome fantasia criado para designar a aliança de boa parte do PMDB ao PSDB , no apoio à candidatura a presidente de Aécio Neves em dobradinha com a campanha do vice-governador Luiz Fernando Pezão ao Palácio Guanabara, significa colocar a política fluminense de cabeça para baixo. Significa dizer para o eleitorado que todo tiroteio entre Cesar Maia, Sérgio Cabral, Pezão e respectivos liderados era de mentirinha, deve ser esquecido. Tudo é muito ruim para a democracia representativa.
A deflagradora da barafunda foi a adesão do PSB, do candidato a presidente Eduardo Campos, ao PT de sua adversária Dilma Rousseff, na aproximação dos partidos para sustentar a candidatura em perigo do senador petista Lindbergh Farias ao governo do estado. Em resposta, PMDB, DEM, PSDB e PPS engordaram o “Aezão”. E estimularam o prefeito Eduardo Paes, adversário (ainda) de Cesar Maia, de quem foi pupilo, a fundar o “Dilmão”, para apoiar Dilma, sem sair do palanque de Pezão.
Na prática, desmonta-se no estado e na cidade do Rio de Janeiro uma aliança, cantada em prosa e verso nos últimos anos por Sérgio Cabral, Paes, Dilma e Lula, entre PMDB e PT, entendida como a que viabilizou uma série de investimentos na região metropolitana carioca, enfim beneficiada — era dito com insistência — pelo raro entendimento político entre estado, município e Executivo federal.
As causas desta e outras orgias que transcorrem pelo país, em ritmo frenético na contagem regressiva do prazo para a realização de convenções partidárias, são várias. Há desde a perspectiva de o poder mudar de donos em 2015, no Planalto, fator de excitação de políticos, a raízes históricas e culturais, bem como graves falhas na legislação político-eleitoral. Além do anabolizante das mazelas constituído pelas práticas petistas do fisiologismo.
Espera-se que no ano que vem, enfim, o Palácio, com ou sem Dilma, leve a sério a imperiosa necessidade de uma reforma política efetiva. Mas sem bravatas, voluntarismos, assembleias constituintes e golpismos do tipo.
Fim à fraude das demissões na Câmara - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 26/06
Eles fazem as leis e dão um jeitinho de compensar o que não é legal, com o agravante de nem se importarem em onerar os cofres públicos, metendo a mão no dinheiro dos impostos recolhidos a duras penas do contribuinte brasileiro. Apenas por esse ponto de vista, já é para lá de comprometedora a atitude de parlamentares que fraudam demissões na Câmara, com justificativas esdrúxulas, como a de que seria espécie de contrapartida a funcionários comissionados, sem direito a indenizações trabalhistas.
Embora a comprovação desse tipo de conduta seja suficiente para que recebam algum tipo de punição, há indícios de crime. É, pois, imperativo que se levante, investigue e puna todos os casos. Afinal, a sociedade precisa saber o que, de fato, motiva um deputado a aumentar em até 1.300% o salário de um servidor, exonerá-lo poucos dias depois - obrigando o Estado a pagar indenização superfaturada - e recontratá-lo em seguida, com vencimentos anteriores ao estranho presente de despedida.
Até aqui, pelo menos quatro gabinetes da Câmara foram flagrados pelo Correio nessa prática, que, numa interpretação bastante benevolente, se não é ilegal, no mínimo é imoral. É o que pensa, por exemplo, o presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Augusto Nardes. Mas já há outros adjetivos para defini-la: seria "sorrateira", segundo o corregedor da Casa, Átila Lins (PSD-AM), e "fraude coletiva", nas palavras do secretário-geral da ONG Contas Abertas, Gil Castello Branco.
Augusto Nardes, Átila Lins e Castello Branco não só condenam o caso, cada qual a seu modo, como estão de comum acordo quanto à necessidade de apurar a fundo esse novo esquema de desvio de recursos públicos descoberto no Congresso. A propósito, apenas nos últimos 12 meses, a sangria pode ter ultrapassado o montante de R$ 1,1 milhão nos cofres públicos, conforme levantamento feito pelo Centro de Coordenação e Documentação da Câmara, a pedido do Correio, com base na Lei de Acesso à Informação.
O trabalho identificou 422 casos de funcionários que tiveram vencimentos aumentados. Desses, 198 foram dispensados dois meses após o reajuste, retornando ao cargo após o prazo de 90 dias estipulado pela Câmara para a recontratação. Um exemplo gritante, pelo tamanho do reajuste, foi o de servidora que, em 8 de dezembro do ano passado, teve o salário aumentado de R$ 940 para R$ 12.940, máximo pago a secretários parlamentares na Casa, sendo demitida apenas três dias depois.
Outra servidora ganhou reajuste de 359% em agosto de 2013. Dois dias depois de ver o salário passar de R$ 2.220 para R$ 10.190, foi demitida. Mais três meses, e estava novamente contratada, pelos mesmos R$ 2.220 de antes. Também teve aumento de 712% às vésperas de demissão. Enfim, os percentuais variam, mas a má conduta repete-se impunemente. Estranha-se que não tenha vindo logo à tona. Agora, a esperança é que seja punida e tenha fim tão exemplar que jamais ousem ressuscitá-la.
Embora a comprovação desse tipo de conduta seja suficiente para que recebam algum tipo de punição, há indícios de crime. É, pois, imperativo que se levante, investigue e puna todos os casos. Afinal, a sociedade precisa saber o que, de fato, motiva um deputado a aumentar em até 1.300% o salário de um servidor, exonerá-lo poucos dias depois - obrigando o Estado a pagar indenização superfaturada - e recontratá-lo em seguida, com vencimentos anteriores ao estranho presente de despedida.
Até aqui, pelo menos quatro gabinetes da Câmara foram flagrados pelo Correio nessa prática, que, numa interpretação bastante benevolente, se não é ilegal, no mínimo é imoral. É o que pensa, por exemplo, o presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Augusto Nardes. Mas já há outros adjetivos para defini-la: seria "sorrateira", segundo o corregedor da Casa, Átila Lins (PSD-AM), e "fraude coletiva", nas palavras do secretário-geral da ONG Contas Abertas, Gil Castello Branco.
Augusto Nardes, Átila Lins e Castello Branco não só condenam o caso, cada qual a seu modo, como estão de comum acordo quanto à necessidade de apurar a fundo esse novo esquema de desvio de recursos públicos descoberto no Congresso. A propósito, apenas nos últimos 12 meses, a sangria pode ter ultrapassado o montante de R$ 1,1 milhão nos cofres públicos, conforme levantamento feito pelo Centro de Coordenação e Documentação da Câmara, a pedido do Correio, com base na Lei de Acesso à Informação.
O trabalho identificou 422 casos de funcionários que tiveram vencimentos aumentados. Desses, 198 foram dispensados dois meses após o reajuste, retornando ao cargo após o prazo de 90 dias estipulado pela Câmara para a recontratação. Um exemplo gritante, pelo tamanho do reajuste, foi o de servidora que, em 8 de dezembro do ano passado, teve o salário aumentado de R$ 940 para R$ 12.940, máximo pago a secretários parlamentares na Casa, sendo demitida apenas três dias depois.
Outra servidora ganhou reajuste de 359% em agosto de 2013. Dois dias depois de ver o salário passar de R$ 2.220 para R$ 10.190, foi demitida. Mais três meses, e estava novamente contratada, pelos mesmos R$ 2.220 de antes. Também teve aumento de 712% às vésperas de demissão. Enfim, os percentuais variam, mas a má conduta repete-se impunemente. Estranha-se que não tenha vindo logo à tona. Agora, a esperança é que seja punida e tenha fim tão exemplar que jamais ousem ressuscitá-la.
A sangria das estatais - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S.PAULO - 26/06
Incapaz de cuidar direito das próprias contas, o governo continua usando as estatais para abastecer o Tesouro e disfarçar suas más condições financeiras. Essa manobra foi usada nos últimos dois anos e continua em pauta em 2014. A melhor explicação para o novo lance, desta vez com a Petrobrás, é a evidente piora do balanço do setor público. Algo parecido ocorreu na década de 1980, quando a administração central, sem crédito na praça, usou as empresas federais como canal de financiamento. O resultado foi desastroso. Quase todas estavam em péssimo estado quando foram privatizadas. O quadro fiscal é hoje bem melhor do que naquela época, apesar da gastança e do mau uso do dinheiro público. Mas o governo, sem disposição para resolver seus problemas da maneira correta, prefere lançar mão de expedientes de baixa qualidade. Uma das saídas é recorrer às estatais para abastecer seu caixa, assim como tem recorrido à política de controle de preços e tarifas para disfarçar a inflação.
Desta vez, o sinal de alerta soou quando foi divulgado o novo arranjo com a Petrobrás - uma concessão de quatro áreas do pré-sal, sem licitação, em troca de pagamentos de R$ 2 bilhões neste ano e mais R$ 13 bilhões entre 2015 e 2018. A reação no mercado financeiro foi imediata e mais uma vez despencou o preço das ações da empresa. Em Brasília, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, negou qualquer motivação de ordem fiscal para a iniciativa do governo. Esqueceu-se, no entanto, de apresentar qualquer explicação mais convincente.
A presidente da estatal, Graça Foster, classificou como "ótima oportunidade" o contrato direto, sem disputa com outros possíveis interessados, e mencionou a redução do risco exploratório como uma das vantagens. Também se dispensou de informar por que o acordo foi proposto neste momento, de forma aparentemente improvisada, e de contar se algo semelhante estava previsto nos planos financeiros e operacionais da companhia.
A explicação mais simples e mais evidente se impõe. A curto prazo, o contrato com a Petrobrás garante ao Tesouro uma receita adicional de R$ 2 bilhões. A maior parte do dinheiro, reservada para o período até 2018, representa um pequeno seguro para o próximo governo, talvez ainda sob a chefia - esta é a aposta mais importante no Planalto - da presidente Dilma Rousseff. Os R$ 2 bilhões previstos para este ano podem parecer uma soma pequena, mas, considerando-se o tenebroso quadro das finanças públicas, serão muito bem-vindos.
Adiantar esse dinheiro será mais um sacrifício para a Petrobrás, mas atender aos interesses fiscais e político-partidários do governo já é uma rotina para a empresa. De passagem, a presidente da companhia, Graça Foster, mencionou o reajuste de preços como uma das condições para a empresa enfrentar as novas tarefas e, obviamente, os novos desembolsos.
A manobra do governo mantém a política de improvisações fiscais dos últimos anos. Em 2013, receitas extraordinárias garantiram a maior parte do superávit primário de R$ 77,07 bilhões contabilizado pelo governo central. Só as receitas de concessões e as prestações iniciais do novo Refis, o programa de parcelamento de dívidas tributárias, proporcionaram 56,9% daquele resultado. Com os dividendos, R$ 17,14 bilhões, a soma dos três itens equivaleria a 79,16% do superávit primário, o dinheiro separado para o pagamento de juros.
Neste ano, até abril, concessões e dividendos garantiram R$ 9,22 bilhões, 31% do resultado primário do período. Os bônus de concessões foram 297,4% maiores que os de um ano antes, enquanto a soma proporcionada pelos dividendos foi 716,4% superior à de janeiro a abril de 2013. Seria escárnio classificar como normal esse aumento de dividendos.
Com a economia em passo de tartaruga, a arrecadação de impostos deverá continuar fraca. Sem coragem para controlar os gastos e para podar benefícios fiscais ineficazes para o conjunto da economia, mas vantajosos para alguns setores, o governo continuará recorrendo a expedientes para ajeitar suas contas. O acordo com a Petrobrás é só mais um lance desse jogo.
Incapaz de cuidar direito das próprias contas, o governo continua usando as estatais para abastecer o Tesouro e disfarçar suas más condições financeiras. Essa manobra foi usada nos últimos dois anos e continua em pauta em 2014. A melhor explicação para o novo lance, desta vez com a Petrobrás, é a evidente piora do balanço do setor público. Algo parecido ocorreu na década de 1980, quando a administração central, sem crédito na praça, usou as empresas federais como canal de financiamento. O resultado foi desastroso. Quase todas estavam em péssimo estado quando foram privatizadas. O quadro fiscal é hoje bem melhor do que naquela época, apesar da gastança e do mau uso do dinheiro público. Mas o governo, sem disposição para resolver seus problemas da maneira correta, prefere lançar mão de expedientes de baixa qualidade. Uma das saídas é recorrer às estatais para abastecer seu caixa, assim como tem recorrido à política de controle de preços e tarifas para disfarçar a inflação.
Desta vez, o sinal de alerta soou quando foi divulgado o novo arranjo com a Petrobrás - uma concessão de quatro áreas do pré-sal, sem licitação, em troca de pagamentos de R$ 2 bilhões neste ano e mais R$ 13 bilhões entre 2015 e 2018. A reação no mercado financeiro foi imediata e mais uma vez despencou o preço das ações da empresa. Em Brasília, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, negou qualquer motivação de ordem fiscal para a iniciativa do governo. Esqueceu-se, no entanto, de apresentar qualquer explicação mais convincente.
A presidente da estatal, Graça Foster, classificou como "ótima oportunidade" o contrato direto, sem disputa com outros possíveis interessados, e mencionou a redução do risco exploratório como uma das vantagens. Também se dispensou de informar por que o acordo foi proposto neste momento, de forma aparentemente improvisada, e de contar se algo semelhante estava previsto nos planos financeiros e operacionais da companhia.
A explicação mais simples e mais evidente se impõe. A curto prazo, o contrato com a Petrobrás garante ao Tesouro uma receita adicional de R$ 2 bilhões. A maior parte do dinheiro, reservada para o período até 2018, representa um pequeno seguro para o próximo governo, talvez ainda sob a chefia - esta é a aposta mais importante no Planalto - da presidente Dilma Rousseff. Os R$ 2 bilhões previstos para este ano podem parecer uma soma pequena, mas, considerando-se o tenebroso quadro das finanças públicas, serão muito bem-vindos.
Adiantar esse dinheiro será mais um sacrifício para a Petrobrás, mas atender aos interesses fiscais e político-partidários do governo já é uma rotina para a empresa. De passagem, a presidente da companhia, Graça Foster, mencionou o reajuste de preços como uma das condições para a empresa enfrentar as novas tarefas e, obviamente, os novos desembolsos.
A manobra do governo mantém a política de improvisações fiscais dos últimos anos. Em 2013, receitas extraordinárias garantiram a maior parte do superávit primário de R$ 77,07 bilhões contabilizado pelo governo central. Só as receitas de concessões e as prestações iniciais do novo Refis, o programa de parcelamento de dívidas tributárias, proporcionaram 56,9% daquele resultado. Com os dividendos, R$ 17,14 bilhões, a soma dos três itens equivaleria a 79,16% do superávit primário, o dinheiro separado para o pagamento de juros.
Neste ano, até abril, concessões e dividendos garantiram R$ 9,22 bilhões, 31% do resultado primário do período. Os bônus de concessões foram 297,4% maiores que os de um ano antes, enquanto a soma proporcionada pelos dividendos foi 716,4% superior à de janeiro a abril de 2013. Seria escárnio classificar como normal esse aumento de dividendos.
Com a economia em passo de tartaruga, a arrecadação de impostos deverá continuar fraca. Sem coragem para controlar os gastos e para podar benefícios fiscais ineficazes para o conjunto da economia, mas vantajosos para alguns setores, o governo continuará recorrendo a expedientes para ajeitar suas contas. O acordo com a Petrobrás é só mais um lance desse jogo.
O preço do populismo tarifário - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 26/06
Para entender o aumento de 35% na conta de energia elétrica, autorizado pela Aneel, é preciso retroceder à canetada presidencial que baixou a tarifa na marra
Na véspera do Dia da Independência do Brasil, em 2012, a presidente Dilma Rousseff foi à televisão avisar aos brasileiros que a tarifa de energia elétrica iria baixar em 2013. “Vou ter o prazer de anunciar a mais forte redução de que se tem notícia, neste país, nas tarifas de energia elétrica das indústrias e dos consumidores domésticos”, disse, na ocasião, sobre a redução média de 16,2% para consumidores residenciais e 28% para o setor produtivo. Em janeiro de 2013, novamente em cadeia nacional de rádio e televisão, ela voltou a anunciar a redução na tarifa, após assinar um decreto e uma medida provisória sobre o tema. Para conseguir a “colaboração” das distribuidoras de energia elétrica, o governo usou como moeda de troca a prorrogação de concessões que incluem usinas e linhas de transmissão. Sem retroceder a essa canetada governamental, é impossível analisar o aumento de 35% na conta de energia elétrica que a Agência Nacional de Energia Elétrica autorizou na terça-feira, a pedido da Companhia Paranaense de Energia (Copel).
A redução unilateral da tarifa, determinada por Dilma, causou um efeito cascata no setor elétrico nacional e, no fim, acabou sendo o contribuinte brasileiro a pagar pelo foguetório governamental – anunciado, também é bom recordar, perto das eleições municipais de 2012. As empresas que não tinham certeza de que suas concessões seriam renovadas já tinham colocado seus investimentos em marcha lenta, e o resultado pode ser visto nos vários apagões que volta e meia deixam grandes áreas às escuras. A tarifa mais baixa não ajudou as companhias a investir mais. A Eletrobras topou o negócio proposto por Dilma ao reduzir o preço da energia em troca da renovação das concessões, e não só perdeu cerca de R$ 20 bilhões em valor de mercado desde então, como também viu um lucro líquido de R$ 3,7 bilhões em 2011 virar prejuízos de R$ 6,9 bilhões em 2012 e R$ 6,3 bilhões em 2013. A Copel, a mineira Cemig e a paulista Cesp não aceitaram os termos do governo, mas suas tarifas foram reduzidas da mesma forma.
E, enquanto os consumidores pagavam menos na conta, a energia ficava cada vez mais cara. Com as usinas hidrelétricas mais recentes sendo construídas “a fio d’água” – ou seja, sem grandes reservatórios –, qualquer estiagem já força a ativação das usinas termelétricas, cuja operação é mais cara, elevando o preço final da energia. A conta definitivamente não fecha, e, se essa diferença não estava sendo bancada pelo usuário que paga a conta de luz, alguém deveria estar arcando com o prejuízo – no caso, o Tesouro Nacional, ou seja, o contribuinte brasileiro, independentemente de quanta energia ele consuma. Em 2013, o subsídio foi de R$ 22 bilhões. Em 2014, segundo a consultoria PSR, serão mais R$ 25,6 bilhões.
A falta de investimentos causada pela insegurança em torno da renovação dos contratos e a canetada governamental para reduzir a tarifa de energia na marra bagunçaram o setor elétrico nacional. Agora, consertar o estrago exige um preço alto – e impopular. Foi a própria Copel que pediu à Aneel autorização para um reajuste médio de 32,4%, e o governador Beto Richa disse que trabalharia para evitar um grande impacto para os consumidores, adiando ou escalonando o reajuste. Aqui, pesa o cálculo político, pois Richa, da oposição ao governo federal, colheria em ano eleitoral as consequências de um grande aumento na conta de luz, apesar de todo o cenário que levou à situação atual ter sido desenhado pelo Planalto.
Não foi apenas o setor elétrico que sofreu com a política governamental de represar preços administrados. Basta ver como a Petrobras foi prejudicada com a resistência em permitir que os preços da gasolina reflitam as variações do mercado internacional. Tudo para manter a inflação sob controle – e, por “controle”, leia-se “perigosamente perto do limite superior da meta do Banco Central”. Mas, mais cedo ou mais tarde, a fatura do populismo aparece. E quem paga é sempre o cidadão.
Para entender o aumento de 35% na conta de energia elétrica, autorizado pela Aneel, é preciso retroceder à canetada presidencial que baixou a tarifa na marra
Na véspera do Dia da Independência do Brasil, em 2012, a presidente Dilma Rousseff foi à televisão avisar aos brasileiros que a tarifa de energia elétrica iria baixar em 2013. “Vou ter o prazer de anunciar a mais forte redução de que se tem notícia, neste país, nas tarifas de energia elétrica das indústrias e dos consumidores domésticos”, disse, na ocasião, sobre a redução média de 16,2% para consumidores residenciais e 28% para o setor produtivo. Em janeiro de 2013, novamente em cadeia nacional de rádio e televisão, ela voltou a anunciar a redução na tarifa, após assinar um decreto e uma medida provisória sobre o tema. Para conseguir a “colaboração” das distribuidoras de energia elétrica, o governo usou como moeda de troca a prorrogação de concessões que incluem usinas e linhas de transmissão. Sem retroceder a essa canetada governamental, é impossível analisar o aumento de 35% na conta de energia elétrica que a Agência Nacional de Energia Elétrica autorizou na terça-feira, a pedido da Companhia Paranaense de Energia (Copel).
A redução unilateral da tarifa, determinada por Dilma, causou um efeito cascata no setor elétrico nacional e, no fim, acabou sendo o contribuinte brasileiro a pagar pelo foguetório governamental – anunciado, também é bom recordar, perto das eleições municipais de 2012. As empresas que não tinham certeza de que suas concessões seriam renovadas já tinham colocado seus investimentos em marcha lenta, e o resultado pode ser visto nos vários apagões que volta e meia deixam grandes áreas às escuras. A tarifa mais baixa não ajudou as companhias a investir mais. A Eletrobras topou o negócio proposto por Dilma ao reduzir o preço da energia em troca da renovação das concessões, e não só perdeu cerca de R$ 20 bilhões em valor de mercado desde então, como também viu um lucro líquido de R$ 3,7 bilhões em 2011 virar prejuízos de R$ 6,9 bilhões em 2012 e R$ 6,3 bilhões em 2013. A Copel, a mineira Cemig e a paulista Cesp não aceitaram os termos do governo, mas suas tarifas foram reduzidas da mesma forma.
E, enquanto os consumidores pagavam menos na conta, a energia ficava cada vez mais cara. Com as usinas hidrelétricas mais recentes sendo construídas “a fio d’água” – ou seja, sem grandes reservatórios –, qualquer estiagem já força a ativação das usinas termelétricas, cuja operação é mais cara, elevando o preço final da energia. A conta definitivamente não fecha, e, se essa diferença não estava sendo bancada pelo usuário que paga a conta de luz, alguém deveria estar arcando com o prejuízo – no caso, o Tesouro Nacional, ou seja, o contribuinte brasileiro, independentemente de quanta energia ele consuma. Em 2013, o subsídio foi de R$ 22 bilhões. Em 2014, segundo a consultoria PSR, serão mais R$ 25,6 bilhões.
A falta de investimentos causada pela insegurança em torno da renovação dos contratos e a canetada governamental para reduzir a tarifa de energia na marra bagunçaram o setor elétrico nacional. Agora, consertar o estrago exige um preço alto – e impopular. Foi a própria Copel que pediu à Aneel autorização para um reajuste médio de 32,4%, e o governador Beto Richa disse que trabalharia para evitar um grande impacto para os consumidores, adiando ou escalonando o reajuste. Aqui, pesa o cálculo político, pois Richa, da oposição ao governo federal, colheria em ano eleitoral as consequências de um grande aumento na conta de luz, apesar de todo o cenário que levou à situação atual ter sido desenhado pelo Planalto.
Não foi apenas o setor elétrico que sofreu com a política governamental de represar preços administrados. Basta ver como a Petrobras foi prejudicada com a resistência em permitir que os preços da gasolina reflitam as variações do mercado internacional. Tudo para manter a inflação sob controle – e, por “controle”, leia-se “perigosamente perto do limite superior da meta do Banco Central”. Mas, mais cedo ou mais tarde, a fatura do populismo aparece. E quem paga é sempre o cidadão.
Grau de trabalho - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 26/06
Maio tem pior desempenho na criação de empregos desde 1992, e mau desempenho evidente da economia sugere que a situação se agravará
O surpreendente descompasso do mercado de trabalho começa a ser corrigido, mas não de maneira favorável. Registra-se, desde 2012, um descolamento entre o baixo crescimento da economia, de um lado, e os altos níveis de emprego, de outro. Nos últimos meses, porém, surgiram evidências de piora na geração de vagas.
São ruins os dados recém-divulgados pelo Ministério do Trabalho. Foram criados 58,8 mil empregos formais em maio, o pior saldo para o mês desde 1992.
Estão na indústria, como sempre, as maiores dificuldades: fecharam-se 28,5 mil postos de trabalho. O setor de serviços, provavelmente impulsionado por contratações temporárias ligadas à Copa do Mundo, teve desempenho positivo, com abertura de 38,8 mil vagas.
Essa é, porém, apenas uma parte do quadro, pois as informações do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) se referem aos empregos formais, contabilizados pelas empresas. Outras fontes revelam sinais ambíguos.
Um exemplo é a Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE (PME), realizada em uma amostra de domicílios em seis capitais (São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife e Salvador). O levantamento mede a geração de vagas formais e informais, a taxa de desemprego e a renda do trabalho.
Pela PME, a perda de dinamismo também é patente; há vários meses a ocupação não cresce. Por outro lado, a taxa de desemprego permanece no menor nível da história (4,9%) --sobretudo porque muitas pessoas têm desistido de pleitear um posto de trabalho.
Maior acesso ao ensino superior --que atrasa a busca por emprego--, desalento pelas dificuldades do país e menor expansão populacional são alguns dos motivos.
Quanto ao crescimento da renda, seu ritmo atual, cerca de 3% ao ano acima da inflação, é bem inferior ao de períodos recentes e insuficiente para sustentar fortes altas no consumo. O contexto, vale lembrar, é de elevado endividamento das famílias.
Neste ano, o IBGE passou a divulgar uma nova pesquisa, a Pnad Contínua, abrangendo 3.464 municípios. De acordo com essa métrica, o desempenho é melhor, com crescimento da população ocupada até o primeiro trimestre (o último dado disponível).
O mercado de trabalho, hoje, está em algum ponto entre morno e frio, a depender do observador.
Em qualquer caso, o mau desempenho evidente em outros indicadores --queda da confiança de empresas e consumidores, redução das intenções de investimento, estoques excessivos na indústria-- sugere que a situação dos empregos continuará a esfriar.
Maio tem pior desempenho na criação de empregos desde 1992, e mau desempenho evidente da economia sugere que a situação se agravará
O surpreendente descompasso do mercado de trabalho começa a ser corrigido, mas não de maneira favorável. Registra-se, desde 2012, um descolamento entre o baixo crescimento da economia, de um lado, e os altos níveis de emprego, de outro. Nos últimos meses, porém, surgiram evidências de piora na geração de vagas.
São ruins os dados recém-divulgados pelo Ministério do Trabalho. Foram criados 58,8 mil empregos formais em maio, o pior saldo para o mês desde 1992.
Estão na indústria, como sempre, as maiores dificuldades: fecharam-se 28,5 mil postos de trabalho. O setor de serviços, provavelmente impulsionado por contratações temporárias ligadas à Copa do Mundo, teve desempenho positivo, com abertura de 38,8 mil vagas.
Essa é, porém, apenas uma parte do quadro, pois as informações do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) se referem aos empregos formais, contabilizados pelas empresas. Outras fontes revelam sinais ambíguos.
Um exemplo é a Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE (PME), realizada em uma amostra de domicílios em seis capitais (São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife e Salvador). O levantamento mede a geração de vagas formais e informais, a taxa de desemprego e a renda do trabalho.
Pela PME, a perda de dinamismo também é patente; há vários meses a ocupação não cresce. Por outro lado, a taxa de desemprego permanece no menor nível da história (4,9%) --sobretudo porque muitas pessoas têm desistido de pleitear um posto de trabalho.
Maior acesso ao ensino superior --que atrasa a busca por emprego--, desalento pelas dificuldades do país e menor expansão populacional são alguns dos motivos.
Quanto ao crescimento da renda, seu ritmo atual, cerca de 3% ao ano acima da inflação, é bem inferior ao de períodos recentes e insuficiente para sustentar fortes altas no consumo. O contexto, vale lembrar, é de elevado endividamento das famílias.
Neste ano, o IBGE passou a divulgar uma nova pesquisa, a Pnad Contínua, abrangendo 3.464 municípios. De acordo com essa métrica, o desempenho é melhor, com crescimento da população ocupada até o primeiro trimestre (o último dado disponível).
O mercado de trabalho, hoje, está em algum ponto entre morno e frio, a depender do observador.
Em qualquer caso, o mau desempenho evidente em outros indicadores --queda da confiança de empresas e consumidores, redução das intenções de investimento, estoques excessivos na indústria-- sugere que a situação dos empregos continuará a esfriar.
Orgia partidária - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 26/06
É perturbador o painel das alianças que mobilizam líderes partidários às vésperas da eleição, repetindo de forma ampliada uma prática consagrada pela política brasileira. Em todos os níveis, e envolvendo governistas e oposição, disseminam-se acordos que denunciam oportunismos, incoerência e posturas desrespeitosas em relação ao eleitor e às suas expectativas. Registre-se, como exemplo recente de movimento de acomodação de interesses, o afastamento do ministro dos Transportes, César Borges (PR), porque seu partido passou a desconsiderá-lo como representativo para ocupar cargo tão importante no Executivo. O ministro chegara ao posto como beneficiário de um acordo, e não necessariamente por sua habilitação, para uma das mais importantes pastas do governo. Caiu, não porque passou a ter sua competência questionada, mas para que a agremiação a que pertence se aproprie de uma vaga que considera sua na Esplanada dos Ministérios.
Espaços políticos, como o citado, deixaram de ser compartilhados por afinidades programáticas. Negocia-se tudo e com os mais variados objetivos. Num primeiro momento, um acordo pode significar mais tempo na propaganda eleitoral na TV. Mais adiante, com as definições do poder, significa cargos, acesso à gestão de verbas, favorecimentos a apadrinhados nas chamadas bases partidárias e, com frequência, tráfico de influência e corrupção. Com 32 partidos em atividade, um exagero em qualquer democracia, o Brasil vem ampliando, ao invés de reduzir, o número de siglas. Não há racionalidade política capaz de pôr ordem em tantos interesses, muitos dos quais sem nenhuma relação com as demandas do país. Registre-se que a orgia que se repete este ano não poupa os chamados grandes partidos e não distingue as práticas de situação e oposição. Em nome de um falso pragmatismo, o vale-tudo contagia a todos, com as exceções que apenas confirmam a prevalência de um comportamento condenável, sob todos os aspectos.
As combinações, dentro e fora do governo, por mais esdrúxulas que sejam, estão dentro da lei, o que apenas comprova que a inconsistência da representação política brasileira se sustenta num lastro legal. O que falta é base moral aos atos dos líderes, acentuados a três meses do pleito. Os brasileiros merecem, para fortalecimento da democracia, partidos que se sustentem em programas tornados públicos e postos em prática, e não em interesses imediatistas. A incoerência chegou ao ponto de unir desiguais ideológicos em todos os níveis e de criar alianças regionais conflitantes com os conchavos nacionais. São distorções que poderiam ser pelo menos reduzidas com uma reforma política. Mas seria ingênuo demais pretender que os protagonistas dos acertos de ocasião conspirem contra o mercado de transações que os sustenta.
É perturbador o painel das alianças que mobilizam líderes partidários às vésperas da eleição, repetindo de forma ampliada uma prática consagrada pela política brasileira. Em todos os níveis, e envolvendo governistas e oposição, disseminam-se acordos que denunciam oportunismos, incoerência e posturas desrespeitosas em relação ao eleitor e às suas expectativas. Registre-se, como exemplo recente de movimento de acomodação de interesses, o afastamento do ministro dos Transportes, César Borges (PR), porque seu partido passou a desconsiderá-lo como representativo para ocupar cargo tão importante no Executivo. O ministro chegara ao posto como beneficiário de um acordo, e não necessariamente por sua habilitação, para uma das mais importantes pastas do governo. Caiu, não porque passou a ter sua competência questionada, mas para que a agremiação a que pertence se aproprie de uma vaga que considera sua na Esplanada dos Ministérios.
Espaços políticos, como o citado, deixaram de ser compartilhados por afinidades programáticas. Negocia-se tudo e com os mais variados objetivos. Num primeiro momento, um acordo pode significar mais tempo na propaganda eleitoral na TV. Mais adiante, com as definições do poder, significa cargos, acesso à gestão de verbas, favorecimentos a apadrinhados nas chamadas bases partidárias e, com frequência, tráfico de influência e corrupção. Com 32 partidos em atividade, um exagero em qualquer democracia, o Brasil vem ampliando, ao invés de reduzir, o número de siglas. Não há racionalidade política capaz de pôr ordem em tantos interesses, muitos dos quais sem nenhuma relação com as demandas do país. Registre-se que a orgia que se repete este ano não poupa os chamados grandes partidos e não distingue as práticas de situação e oposição. Em nome de um falso pragmatismo, o vale-tudo contagia a todos, com as exceções que apenas confirmam a prevalência de um comportamento condenável, sob todos os aspectos.
As combinações, dentro e fora do governo, por mais esdrúxulas que sejam, estão dentro da lei, o que apenas comprova que a inconsistência da representação política brasileira se sustenta num lastro legal. O que falta é base moral aos atos dos líderes, acentuados a três meses do pleito. Os brasileiros merecem, para fortalecimento da democracia, partidos que se sustentem em programas tornados públicos e postos em prática, e não em interesses imediatistas. A incoerência chegou ao ponto de unir desiguais ideológicos em todos os níveis e de criar alianças regionais conflitantes com os conchavos nacionais. São distorções que poderiam ser pelo menos reduzidas com uma reforma política. Mas seria ingênuo demais pretender que os protagonistas dos acertos de ocasião conspirem contra o mercado de transações que os sustenta.
Contabilidade criativa usa a Petrobras - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 26/06
Governo continua a utilizar o petróleo com fins políticos. Agora, cede mais áreas à empresa, para receber bônus e melhorar a situação do Tesouro nas eleições
É difícil acreditar que tenha sido absolutamente técnica a decisão do governo de estender as áreas hoje exploradas pela Petrobras, sob a forma de cessão onerosa, na camada do pré-sal da Bacia de Santos. Considerando-se os precedentes de uso de técnicas de contabilidade criativa para que as contas públicas atinjam os parâmetros que o próprio governo se compromete a alcançar nas diretrizes orçamentárias, é provável que tal recurso esteja sendo novamente utilizado pelas autoridades, para que no exercício de 2014 — um ano de eleições gerais — os números apareçam bem na fotografia. Afinal, a ampliação das áreas implica a transferência de recursos da estatal para o Tesouro a título de bônus de assinatura — R$ 2 bilhões, para oxigenar combalidas contas públicas.
A Petrobras alega que faz bom negócio. E, de fato, a potencialidade dos campos que vêm sendo explorados na camada do pré-sal da Bacia de Santos indica que a empresa poderá ampliar significativamente suas reservas — seria um acréscimo de 10 bilhões a 14 bilhões de barris. A justificativa técnica para a decisão do governo é que os campos da cessão onerosa estão entrando na fase de desenvolvimento, e os reservatórios contêm volumes de óleo e gás muito superiores aos previstos inicialmente.
Faria, então, sentido que a Petrobras já planejasse a instalação de equipamentos e infraestrutura prevendo aumento futuro da produção. Para que a União seja remunerada por esses volumes que deverão ser extraídos no futuro, o governo se baseou nas condições do leilão do campo de Libra (arrematado pelo único consórcio que ofereceu lance na licitação).
Mas há outras questões que devem ser observadas. A Petrobras não tem sobra de caixa. Ao contrário, a empresa já reconheceu que este ano precisará aumentar o já elevado endividamento para levar adiante seu plano de negócios. Somente a partir do próximo exercício, com o esperado aumento de produção, é que os investimentos serão financiados pela geração de caixa, sem necessidade de recorrer a mais endividamento. É o que se diz oficialmente.
Depois do leilão de Libra, a avaliação dos analistas é que a Petrobras ficou sem condições financeiras de assumir novos grandes riscos. Porém, a arquitetura financeira da transação anunciada na terça atende mais as necessidades de curto prazo do Tesouro (daí as ações da estatal terem caído com o anúncio da operação). É sintomático que Graça Foster, presidente da empresa, ao comentar a medida, tenha deixado claro que mais do que nunca a companhia precisa que os preços internos dos combustíveis sejam alinhados aos externos. Em suma, a Petrobras está transferindo para o Tesouro recursos que hoje não tem, e não há previsão, ou promessa, de que os terá.
Fica óbvio que a decisão foi muito mais política do que técnica. Ainda com outra decorrência negativa, a de representar um aprofundamento da ingerência do Estado no setor.
Governo continua a utilizar o petróleo com fins políticos. Agora, cede mais áreas à empresa, para receber bônus e melhorar a situação do Tesouro nas eleições
É difícil acreditar que tenha sido absolutamente técnica a decisão do governo de estender as áreas hoje exploradas pela Petrobras, sob a forma de cessão onerosa, na camada do pré-sal da Bacia de Santos. Considerando-se os precedentes de uso de técnicas de contabilidade criativa para que as contas públicas atinjam os parâmetros que o próprio governo se compromete a alcançar nas diretrizes orçamentárias, é provável que tal recurso esteja sendo novamente utilizado pelas autoridades, para que no exercício de 2014 — um ano de eleições gerais — os números apareçam bem na fotografia. Afinal, a ampliação das áreas implica a transferência de recursos da estatal para o Tesouro a título de bônus de assinatura — R$ 2 bilhões, para oxigenar combalidas contas públicas.
A Petrobras alega que faz bom negócio. E, de fato, a potencialidade dos campos que vêm sendo explorados na camada do pré-sal da Bacia de Santos indica que a empresa poderá ampliar significativamente suas reservas — seria um acréscimo de 10 bilhões a 14 bilhões de barris. A justificativa técnica para a decisão do governo é que os campos da cessão onerosa estão entrando na fase de desenvolvimento, e os reservatórios contêm volumes de óleo e gás muito superiores aos previstos inicialmente.
Faria, então, sentido que a Petrobras já planejasse a instalação de equipamentos e infraestrutura prevendo aumento futuro da produção. Para que a União seja remunerada por esses volumes que deverão ser extraídos no futuro, o governo se baseou nas condições do leilão do campo de Libra (arrematado pelo único consórcio que ofereceu lance na licitação).
Mas há outras questões que devem ser observadas. A Petrobras não tem sobra de caixa. Ao contrário, a empresa já reconheceu que este ano precisará aumentar o já elevado endividamento para levar adiante seu plano de negócios. Somente a partir do próximo exercício, com o esperado aumento de produção, é que os investimentos serão financiados pela geração de caixa, sem necessidade de recorrer a mais endividamento. É o que se diz oficialmente.
Depois do leilão de Libra, a avaliação dos analistas é que a Petrobras ficou sem condições financeiras de assumir novos grandes riscos. Porém, a arquitetura financeira da transação anunciada na terça atende mais as necessidades de curto prazo do Tesouro (daí as ações da estatal terem caído com o anúncio da operação). É sintomático que Graça Foster, presidente da empresa, ao comentar a medida, tenha deixado claro que mais do que nunca a companhia precisa que os preços internos dos combustíveis sejam alinhados aos externos. Em suma, a Petrobras está transferindo para o Tesouro recursos que hoje não tem, e não há previsão, ou promessa, de que os terá.
Fica óbvio que a decisão foi muito mais política do que técnica. Ainda com outra decorrência negativa, a de representar um aprofundamento da ingerência do Estado no setor.
Triste espetáculo - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S.PAULO - 26/06
É constrangedor - para não dizer humilhante - o espetáculo do poder público, em todos os seus níveis, dobrando-se às vontades e caprichos do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Primeiro o prefeito Fernando Haddad, depois a presidente Dilma Rousseff e agora o governador Geraldo Alckmin vêm cedendo à chantagem do coordenador desse movimento, Guilherme Boulos, cada vez mais afoito e seguro de si, que começou ameaçando todos com manifestações capazes de tumultuar a Copa do Mundo em São Paulo, se seus desejos não forem satisfeitos, e agora está literalmente sitiando a Câmara Municipal com o mesmo objetivo.
O MTST prometeu realizar uma ocupação de novos terrenos por dia, sem falar nas manifestações que estão virando rotina, até que a Câmara vote o projeto de revisão do Plano Diretor, que prevê - como resultado de pressão dele - a transformação em Zonas Especiais de Interesse Social (Zeis), para nelas serem construídas moradias populares, de quatro áreas ocupadas pelo movimento: Faixa de Gaza, em Paraisópolis; Nova Palestina, em M'Boi Mirim; Dona Deda, no Parque Ipê; e Capadócia, no Jardim Ingá.
A elas foi acrescentada a Ocupação Copa do Povo, em terreno situado, não por acaso, a apenas 4 km do Estádio Itaquerão, na zona leste. Como a inclusão dessa Zeis no projeto do Plano poderia complicar sua aprovação, já que bom número de vereadores com isso não concorda, optou-se - para atender a mais essa exigência do MTST - por fazer isso por meio de projeto de lei separado.
Como se não bastasse a ameaça de mais ocupações e manifestações, o movimento sitiou a Câmara na terça-feira e diz que os 9 mil sem-teto - mil segundo a PM, mas o número a essa altura pouco importa - que se encontram acampados em frente ao prédio, com colchões, cobertores e cozinha improvisada, dali só sairão quando os vereadores aprovarem tudo que lhes interessa.
Ou seja, o MTST se julga no direito de comandar a pauta do Legislativo municipal, não apenas nela colocando matérias de seu interesse, como estabelecendo prazos para sua aprovação. Nesse caso, com a agravante de que faz isso por meio de manipulação do Plano Diretor, matéria da maior importância, porque deve orientar o desenvolvimento urbano de São Paulo, mas que está sendo transformado em reles instrumento para a satisfação de interesses de grupos aguerridos, sempre prontos a recorrer à violência.
A essa altura restam poucas dúvidas de que o MTST conseguirá tudo, ou quase, que deseja. Uma indicação segura de que o sítio da Câmara já está funcionando é que na própria terça-feira o seu presidente, José Américo (PT), recebeu uma comitiva do movimento para negociar a data para a votação das matérias de seu interesse.
Américo não fez mais do que seguir o caminho aberto por Haddad e Dilma Rousseff, que numa de suas visitas à capital paulista abriu espaço em sua agenda para receber Boulos, a quem prometeu incluir a área da Ocupação Copa do Povo no programa Minha Casa, Minha Vida. Dupla de governantes à qual acaba de se juntar o governador Alckmin. Ele também se encontrou com Boulos, que saiu triunfante de reunião de uma hora e meia. Entre outras coisas, obteve a promessa de criação de uma comissão estadual de mediação de conflitos urbanos, que ele certamente pretende usar para sacramentar suas invasões.
A coisa está chegando a tal ponto que Boulos disse ter tratado com Alckmin também de transportes na região metropolitana e até da falta de água nas regiões sul e leste. Até onde ele e seu movimento irão? Bem longe, certamente, porque uma característica da chantagem é que a ela não se cede uma vez só. O chantagista é insaciável.
Outra grave consequência dessa rendição do poder público aos arreganhos do MTST é que, como alertam membros do Ministério Público Estadual, as ocupações semeiam entre as 130 mil pessoas há muito inscritas nos vários programas habitacionais da capital o medo de que os invasores de Boulos passem em sua frente. O que já está acontecendo.
É constrangedor - para não dizer humilhante - o espetáculo do poder público, em todos os seus níveis, dobrando-se às vontades e caprichos do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). Primeiro o prefeito Fernando Haddad, depois a presidente Dilma Rousseff e agora o governador Geraldo Alckmin vêm cedendo à chantagem do coordenador desse movimento, Guilherme Boulos, cada vez mais afoito e seguro de si, que começou ameaçando todos com manifestações capazes de tumultuar a Copa do Mundo em São Paulo, se seus desejos não forem satisfeitos, e agora está literalmente sitiando a Câmara Municipal com o mesmo objetivo.
O MTST prometeu realizar uma ocupação de novos terrenos por dia, sem falar nas manifestações que estão virando rotina, até que a Câmara vote o projeto de revisão do Plano Diretor, que prevê - como resultado de pressão dele - a transformação em Zonas Especiais de Interesse Social (Zeis), para nelas serem construídas moradias populares, de quatro áreas ocupadas pelo movimento: Faixa de Gaza, em Paraisópolis; Nova Palestina, em M'Boi Mirim; Dona Deda, no Parque Ipê; e Capadócia, no Jardim Ingá.
A elas foi acrescentada a Ocupação Copa do Povo, em terreno situado, não por acaso, a apenas 4 km do Estádio Itaquerão, na zona leste. Como a inclusão dessa Zeis no projeto do Plano poderia complicar sua aprovação, já que bom número de vereadores com isso não concorda, optou-se - para atender a mais essa exigência do MTST - por fazer isso por meio de projeto de lei separado.
Como se não bastasse a ameaça de mais ocupações e manifestações, o movimento sitiou a Câmara na terça-feira e diz que os 9 mil sem-teto - mil segundo a PM, mas o número a essa altura pouco importa - que se encontram acampados em frente ao prédio, com colchões, cobertores e cozinha improvisada, dali só sairão quando os vereadores aprovarem tudo que lhes interessa.
Ou seja, o MTST se julga no direito de comandar a pauta do Legislativo municipal, não apenas nela colocando matérias de seu interesse, como estabelecendo prazos para sua aprovação. Nesse caso, com a agravante de que faz isso por meio de manipulação do Plano Diretor, matéria da maior importância, porque deve orientar o desenvolvimento urbano de São Paulo, mas que está sendo transformado em reles instrumento para a satisfação de interesses de grupos aguerridos, sempre prontos a recorrer à violência.
A essa altura restam poucas dúvidas de que o MTST conseguirá tudo, ou quase, que deseja. Uma indicação segura de que o sítio da Câmara já está funcionando é que na própria terça-feira o seu presidente, José Américo (PT), recebeu uma comitiva do movimento para negociar a data para a votação das matérias de seu interesse.
Américo não fez mais do que seguir o caminho aberto por Haddad e Dilma Rousseff, que numa de suas visitas à capital paulista abriu espaço em sua agenda para receber Boulos, a quem prometeu incluir a área da Ocupação Copa do Povo no programa Minha Casa, Minha Vida. Dupla de governantes à qual acaba de se juntar o governador Alckmin. Ele também se encontrou com Boulos, que saiu triunfante de reunião de uma hora e meia. Entre outras coisas, obteve a promessa de criação de uma comissão estadual de mediação de conflitos urbanos, que ele certamente pretende usar para sacramentar suas invasões.
A coisa está chegando a tal ponto que Boulos disse ter tratado com Alckmin também de transportes na região metropolitana e até da falta de água nas regiões sul e leste. Até onde ele e seu movimento irão? Bem longe, certamente, porque uma característica da chantagem é que a ela não se cede uma vez só. O chantagista é insaciável.
Outra grave consequência dessa rendição do poder público aos arreganhos do MTST é que, como alertam membros do Ministério Público Estadual, as ocupações semeiam entre as 130 mil pessoas há muito inscritas nos vários programas habitacionais da capital o medo de que os invasores de Boulos passem em sua frente. O que já está acontecendo.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Não tem por que abrir mão do meu sigilo bancário”
Sergio Gabrielli,ex-presidente da Petrobras, sem explicar por que teme a verificação
PLANALTO TENTA REVERTER APOIO DO PTB A AÉCIO
Pegos de surpresa com a decisão do PTB de romper com a presidente Dilma, os ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil) e Ricardo Berzoini entraram em campo para tentar reverter apoio da sigla ao tucano Aécio Neves para a Presidência. Procurado pelos ministros, o líder Jovair Arantes (PTB-GO) se reuniu ontem com a bancada para buscar uma saída, mas concluiu que o leite foi derramado: já não adianta chorar.
QUEM MANDA
A bancada do PTB vê “chance zero” de mudar a decisão na convenção de sexta-feira (27), onde os delegados devem seguir a orientação da cúpula.
ORELHA ARDEU
Deputados do PTB, que planejam manter apoio a Dilma Rousseff, não poupam críticas ao presidente do partido, Benito Gama.
MÃOS ATADAS
O Planalto também recorreu ao senador Armando Monteiro (PTB-PE), candidato ao governo de Pernambuco com apoio do PT. Inutilmente.
ESPELHO MEU
O apoio do PTB ao presidenciável tucano Aécio Neves foi antecipado nesta coluna com exclusividade.
DILMA ODIOU SER CHAMADA POR LULA DE ‘CRIATURA’
Assessores de Dilma afirmam que só depois “caiu a ficha”, mas ela ficou muito irritada com uma frase do Lula, durante a convenção nacional do PT, dia 21. Ao discursar, ele se definiu como “criador” e a chamou de “criatura”, como a novelista americana Mary Shelley batizou o Dr. Frankstein e sua criatura aterrorizante. Lula ainda disse que o governo é dele e de Dilma, ratificando acusação de adversários.
ELE NÃO SABIA
Amigos dizem que Lula não sabia da conotação negativa da expressão “criador e criatura”, assim como chama autoestima de “alta estima”.
UM ANO
Sucessor de Carlos Ayres Britto, o ministro Luís Roberto Barroso completa nesta quinta seu primeiro ano no Supremo Tribunal Federal.
ISOLA?
A presidente Dilma Rousseff se confundiu e bateu na mesa, em vez de aplaudir, quando dirigentes do PSD disseram ontem que o Brasil ganhará a Copa.
TEMPOS MUITO ESTRANHOS
Em atitude de inspiração fascista, o MST invadiu a rádio Xodó FM, em N.S. das Graças (Sergipe), tiraram o locutor Anselmo Tavares e discursaram ao microfone, fazendo elogios rasgados ao PT.
TORCIDA SOB CENSURA
Torcedores foram obrigados a mostrar faixas e cartazes que levavam ao jogo Brasil x Camarões, no Estádio Mané Garrincha. “Deixa ver se tem alguma coisa contra Dilma!”, ordenava o policial. Uma torcedora se irritou, desfraldando sua bandeira: “Tem só ‘Ordem e Progresso’...”.
PARTIDO RICO
O marqueteiro João Santana preparou show milionário para lançar Lindbergh Farias (PT) ao governo do Rio, na convenção do PCdoB, nesta quinta. Com direito a telão de 8m de altura.
AFANO A BORDO
Advogado importante de Brasília viajava a Paris na classe executiva da Air France, dia 18, com a mulher e o filho, e foram vítimas de furto. Ela cochilava quando lhe surrupiaram a pashmina (espécie de cachecol) da Louis Vuitton. Aeromoças e passageiros, claro, nada viram.
NEM NA DITADURA
Os jornalistas, agora, têm restrições para circular no 2º andar do Palácio do Planalto, exatamente a área de Imprensa e entrevistas. No regime militar, circulavam até no 3º andar, onde fica o gabinete presidencial.
IMPROBIDADE
A pedido do deputado Joe Valle (PDT), presidente da Comissão de Fiscalização da Câmara Legislativa, o Ministério Público vai denunciar à Justiça, por improbidade, o ex-diretor do DF-Trans, órgão fiscalizador do transporte público de Brasília, Marco Antônio Campanella.
NITROGLICERINA
Assinado pelo jornalista e cineasta Jorge Oliveira, o programa do PPS na TV, que vai ao ar nesta quinta-feira à noite, em rede, faz a pregação da mudança aplicando impressionante pancadaria no governo Dilma.
JOGADO AOS LEÕES
A oposição saiu convencida ontem da CPI mista da Petrobras de que o PT fará do ex-presidente Sérgio Gabrielli o novo bode expiatório, com objetivo de blindar a sucessora Graça Foster e a presidente Dilma.
PENSANDO BEM...
...estranha, a doença de José Genoino. Só melhora quando toma remédios em casa, para onde espera ir logo com ajuda do Supremo.
PODER SEM PUDOR
ATENÇÃO AO MICROFONE...
A história é lembrada por Valdir Vaz, leitor da Paraíba com talento de escritor, que lembrou um causo dos idos de 1960, quando, logo após a sua eleição, e em meio às comemorações, o vice-presidente João Goulart subiu ao palanque e perguntou a um assessor:
- O que é que eu falo para esse povinho de merda?
A resposta foi incontinente:
- Se eu fosse o senhor, começava pedindo desculpas, porque o microfone está ligado...
Sergio Gabrielli,ex-presidente da Petrobras, sem explicar por que teme a verificação
PLANALTO TENTA REVERTER APOIO DO PTB A AÉCIO
Pegos de surpresa com a decisão do PTB de romper com a presidente Dilma, os ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil) e Ricardo Berzoini entraram em campo para tentar reverter apoio da sigla ao tucano Aécio Neves para a Presidência. Procurado pelos ministros, o líder Jovair Arantes (PTB-GO) se reuniu ontem com a bancada para buscar uma saída, mas concluiu que o leite foi derramado: já não adianta chorar.
QUEM MANDA
A bancada do PTB vê “chance zero” de mudar a decisão na convenção de sexta-feira (27), onde os delegados devem seguir a orientação da cúpula.
ORELHA ARDEU
Deputados do PTB, que planejam manter apoio a Dilma Rousseff, não poupam críticas ao presidente do partido, Benito Gama.
MÃOS ATADAS
O Planalto também recorreu ao senador Armando Monteiro (PTB-PE), candidato ao governo de Pernambuco com apoio do PT. Inutilmente.
ESPELHO MEU
O apoio do PTB ao presidenciável tucano Aécio Neves foi antecipado nesta coluna com exclusividade.
DILMA ODIOU SER CHAMADA POR LULA DE ‘CRIATURA’
Assessores de Dilma afirmam que só depois “caiu a ficha”, mas ela ficou muito irritada com uma frase do Lula, durante a convenção nacional do PT, dia 21. Ao discursar, ele se definiu como “criador” e a chamou de “criatura”, como a novelista americana Mary Shelley batizou o Dr. Frankstein e sua criatura aterrorizante. Lula ainda disse que o governo é dele e de Dilma, ratificando acusação de adversários.
ELE NÃO SABIA
Amigos dizem que Lula não sabia da conotação negativa da expressão “criador e criatura”, assim como chama autoestima de “alta estima”.
UM ANO
Sucessor de Carlos Ayres Britto, o ministro Luís Roberto Barroso completa nesta quinta seu primeiro ano no Supremo Tribunal Federal.
ISOLA?
A presidente Dilma Rousseff se confundiu e bateu na mesa, em vez de aplaudir, quando dirigentes do PSD disseram ontem que o Brasil ganhará a Copa.
TEMPOS MUITO ESTRANHOS
Em atitude de inspiração fascista, o MST invadiu a rádio Xodó FM, em N.S. das Graças (Sergipe), tiraram o locutor Anselmo Tavares e discursaram ao microfone, fazendo elogios rasgados ao PT.
TORCIDA SOB CENSURA
Torcedores foram obrigados a mostrar faixas e cartazes que levavam ao jogo Brasil x Camarões, no Estádio Mané Garrincha. “Deixa ver se tem alguma coisa contra Dilma!”, ordenava o policial. Uma torcedora se irritou, desfraldando sua bandeira: “Tem só ‘Ordem e Progresso’...”.
PARTIDO RICO
O marqueteiro João Santana preparou show milionário para lançar Lindbergh Farias (PT) ao governo do Rio, na convenção do PCdoB, nesta quinta. Com direito a telão de 8m de altura.
AFANO A BORDO
Advogado importante de Brasília viajava a Paris na classe executiva da Air France, dia 18, com a mulher e o filho, e foram vítimas de furto. Ela cochilava quando lhe surrupiaram a pashmina (espécie de cachecol) da Louis Vuitton. Aeromoças e passageiros, claro, nada viram.
NEM NA DITADURA
Os jornalistas, agora, têm restrições para circular no 2º andar do Palácio do Planalto, exatamente a área de Imprensa e entrevistas. No regime militar, circulavam até no 3º andar, onde fica o gabinete presidencial.
IMPROBIDADE
A pedido do deputado Joe Valle (PDT), presidente da Comissão de Fiscalização da Câmara Legislativa, o Ministério Público vai denunciar à Justiça, por improbidade, o ex-diretor do DF-Trans, órgão fiscalizador do transporte público de Brasília, Marco Antônio Campanella.
NITROGLICERINA
Assinado pelo jornalista e cineasta Jorge Oliveira, o programa do PPS na TV, que vai ao ar nesta quinta-feira à noite, em rede, faz a pregação da mudança aplicando impressionante pancadaria no governo Dilma.
JOGADO AOS LEÕES
A oposição saiu convencida ontem da CPI mista da Petrobras de que o PT fará do ex-presidente Sérgio Gabrielli o novo bode expiatório, com objetivo de blindar a sucessora Graça Foster e a presidente Dilma.
PENSANDO BEM...
...estranha, a doença de José Genoino. Só melhora quando toma remédios em casa, para onde espera ir logo com ajuda do Supremo.
PODER SEM PUDOR
ATENÇÃO AO MICROFONE...
A história é lembrada por Valdir Vaz, leitor da Paraíba com talento de escritor, que lembrou um causo dos idos de 1960, quando, logo após a sua eleição, e em meio às comemorações, o vice-presidente João Goulart subiu ao palanque e perguntou a um assessor:
- O que é que eu falo para esse povinho de merda?
A resposta foi incontinente:
- Se eu fosse o senhor, começava pedindo desculpas, porque o microfone está ligado...
terça-feira, junho 24, 2014
Algemas verdes - RODRIGO CONSTANTINO
O GLOBO - 24/06
Os ambientalistas são uma seita que mascara profundo desprezo pelo avanço capitalista e tenta monopolizar a legítima preocupação com o meio ambiente
Nosso planeta está na iminência de derreter e, para salvá-lo, é preciso mudar radicalmente nosso estilo de vida, abandonar o progresso industrial e delegar poder absoluto aos governos. Ao menos é isso que muita gente quer que acreditemos. São os ambientalistas, uma seita que mascara profundo desprezo pelo avanço capitalista e tenta monopolizar a legítima preocupação com o meio ambiente.
Contra essa ameaça, o ex-presidente da República Tcheca Vaclav Klaus escreveu o excelente livro “Planeta azul em algemas verdes”, afirmando que é a liberdade, não o clima, que corre verdadeiro perigo atualmente. Klaus considera o risco “verde” mais sério do que o comunismo, e isso, vindo de alguém que sofreu intensamente sob o regime comunista, é algo que merece atenção.
“O aquecimento global tornou-se símbolo e exemplo da luta entre a verdade e a propaganda. A verdade politicamente correta já foi estabelecida e não é fácil opor-se a ela”, diz ele. A postura de muitos ambientalistas remete àquela de seitas religiosas fanáticas. Há uma “verdade” absoluta revelada, os “profetas” (como Al Gore e companhia), e os “hereges”, que adotam posição mais cética e demandam cautela.
O regozijo pessoal que vem com a sensação de superioridade moral apenas por pertencer a esse grupo de “escolhidos” que deseja “salvar o planeta” fica acima dos fatos e da razão, impedindo qualquer debate construtivo. É preciso atacar o “inimigo”, rotular com adjetivos chulos aqueles que não aceitam sem reservas o catastrofismo vendido pelos ambientalistas.
No começo, muitos se mostraram preocupados com os rumos dos “debates”, com o excesso de pânico infundado que foi incutido nos mais leigos, com a politização oportunista da ciência. Hoje, como confessa Vaclav Klaus, a preocupação deu lugar à fúria, pois é revoltante ver como a coisa desandou, transformando-se em uma perigosa ideologia coletivista que asfixia nossas liberdades.
O tcheco, que é economista, afirma que o problema com as mudanças climáticas tem mais a ver com as ciências sociais do que com as naturais. Citando os austríacos Hayek e Mises, o ex-presidente lembra que a “arrogância fatal” e o “cientificismo” ofuscam toda a ignorância das autoridades e dos especialistas em relação a um fenômeno complexo como o clima. A analogia com os planejadores centrais comunistas em relação à economia é evidente demais.
A “ordem espontânea” está no centro dos ataques dos ambientalistas, da mesma forma que faziam os marxistas. Eles rejeitam as liberdades individuais e depositam uma fé ingênua e absurda nos “clarividentes” e “onipotentes” tecnocratas e políticos. O modelo capitalista se tornou o principal alvo da ideologia ambientalista. Klaus resume: “Se levarmos o raciocínio dos ambientalistas a sério, descobriremos que defendem uma ideologia anti-humana. Essa ideologia vê como causa fundamental dos problemas do mundo a própria evolução do homo sapiens”.
Para concentrar cada vez mais poder e recursos no estado, a sensação de grande perigo precisa ser constante. Somente assim se justificam medidas drásticas que ignoram completamente qualquer relação de custo e benefício, qualquer alternativa mais racional para o uso de recursos escassos. Se o que está em jogo é “salvar o planeta” que será destruído a qualquer momento, então pro inferno até com a democracia, bolas!
S. Fred Singer, físico atmosférico da Universidade de Virgínia, faz uma pergunta importante: “Por que deveríamos dedicar nossos escassos recursos ao que é, em essência, um não problema, e ignorar os problemas reais que o mundo enfrenta: a fome, as doenças, o desrespeito aos direitos humanos — isso para não mencionar as ameaças de terrorismo e guerras nucleares?”
A imprensa, que vende mais quando há desgraças e catástrofes iminentes, ajuda a disseminar o medo infundado. Não chegam aos leigos fatos importantes, como a enorme quantidade de cientistas renomados que rejeitam as mensagens e a linguagem catastrofista do IPCC, ligado à ONU. Tampouco há a consciência de que existem muitos interesses em jogo, já que os próprios governos financiam boa parte das pesquisas que dão respaldo às soluções propostas de mais poder aos governos.
Václav Klaus conclui: “O atual debate sobre o aquecimento global é, portanto, essencialmente um debate sobre a liberdade. Os ambientalistas adorariam subjugar todos os aspectos possíveis (e impossíveis) de nossas vidas.” Se quisermos preservar nossas liberdades e o progresso capitalista, então é preciso combater a histeria dos ambientalistas.
Os ambientalistas são uma seita que mascara profundo desprezo pelo avanço capitalista e tenta monopolizar a legítima preocupação com o meio ambiente
Nosso planeta está na iminência de derreter e, para salvá-lo, é preciso mudar radicalmente nosso estilo de vida, abandonar o progresso industrial e delegar poder absoluto aos governos. Ao menos é isso que muita gente quer que acreditemos. São os ambientalistas, uma seita que mascara profundo desprezo pelo avanço capitalista e tenta monopolizar a legítima preocupação com o meio ambiente.
Contra essa ameaça, o ex-presidente da República Tcheca Vaclav Klaus escreveu o excelente livro “Planeta azul em algemas verdes”, afirmando que é a liberdade, não o clima, que corre verdadeiro perigo atualmente. Klaus considera o risco “verde” mais sério do que o comunismo, e isso, vindo de alguém que sofreu intensamente sob o regime comunista, é algo que merece atenção.
“O aquecimento global tornou-se símbolo e exemplo da luta entre a verdade e a propaganda. A verdade politicamente correta já foi estabelecida e não é fácil opor-se a ela”, diz ele. A postura de muitos ambientalistas remete àquela de seitas religiosas fanáticas. Há uma “verdade” absoluta revelada, os “profetas” (como Al Gore e companhia), e os “hereges”, que adotam posição mais cética e demandam cautela.
O regozijo pessoal que vem com a sensação de superioridade moral apenas por pertencer a esse grupo de “escolhidos” que deseja “salvar o planeta” fica acima dos fatos e da razão, impedindo qualquer debate construtivo. É preciso atacar o “inimigo”, rotular com adjetivos chulos aqueles que não aceitam sem reservas o catastrofismo vendido pelos ambientalistas.
No começo, muitos se mostraram preocupados com os rumos dos “debates”, com o excesso de pânico infundado que foi incutido nos mais leigos, com a politização oportunista da ciência. Hoje, como confessa Vaclav Klaus, a preocupação deu lugar à fúria, pois é revoltante ver como a coisa desandou, transformando-se em uma perigosa ideologia coletivista que asfixia nossas liberdades.
O tcheco, que é economista, afirma que o problema com as mudanças climáticas tem mais a ver com as ciências sociais do que com as naturais. Citando os austríacos Hayek e Mises, o ex-presidente lembra que a “arrogância fatal” e o “cientificismo” ofuscam toda a ignorância das autoridades e dos especialistas em relação a um fenômeno complexo como o clima. A analogia com os planejadores centrais comunistas em relação à economia é evidente demais.
A “ordem espontânea” está no centro dos ataques dos ambientalistas, da mesma forma que faziam os marxistas. Eles rejeitam as liberdades individuais e depositam uma fé ingênua e absurda nos “clarividentes” e “onipotentes” tecnocratas e políticos. O modelo capitalista se tornou o principal alvo da ideologia ambientalista. Klaus resume: “Se levarmos o raciocínio dos ambientalistas a sério, descobriremos que defendem uma ideologia anti-humana. Essa ideologia vê como causa fundamental dos problemas do mundo a própria evolução do homo sapiens”.
Para concentrar cada vez mais poder e recursos no estado, a sensação de grande perigo precisa ser constante. Somente assim se justificam medidas drásticas que ignoram completamente qualquer relação de custo e benefício, qualquer alternativa mais racional para o uso de recursos escassos. Se o que está em jogo é “salvar o planeta” que será destruído a qualquer momento, então pro inferno até com a democracia, bolas!
S. Fred Singer, físico atmosférico da Universidade de Virgínia, faz uma pergunta importante: “Por que deveríamos dedicar nossos escassos recursos ao que é, em essência, um não problema, e ignorar os problemas reais que o mundo enfrenta: a fome, as doenças, o desrespeito aos direitos humanos — isso para não mencionar as ameaças de terrorismo e guerras nucleares?”
A imprensa, que vende mais quando há desgraças e catástrofes iminentes, ajuda a disseminar o medo infundado. Não chegam aos leigos fatos importantes, como a enorme quantidade de cientistas renomados que rejeitam as mensagens e a linguagem catastrofista do IPCC, ligado à ONU. Tampouco há a consciência de que existem muitos interesses em jogo, já que os próprios governos financiam boa parte das pesquisas que dão respaldo às soluções propostas de mais poder aos governos.
Václav Klaus conclui: “O atual debate sobre o aquecimento global é, portanto, essencialmente um debate sobre a liberdade. Os ambientalistas adorariam subjugar todos os aspectos possíveis (e impossíveis) de nossas vidas.” Se quisermos preservar nossas liberdades e o progresso capitalista, então é preciso combater a histeria dos ambientalistas.
Tiroteio a esmo - DORA KRAMER
O ESTADÃO - 24/06
A julgar pelos discursos dos três oradores que importavam na convenção nacional do PT - considerando que Michel Temer estava ali por honra da firma -, Rui Falcão, Luiz Inácio da Silva e Dilma Rousseff, por ordem de entrada em cena, o partido ainda não chegou a um acordo sobre qual a abordagem mais eficaz junto ao eleitor de 2014.
Cada qual foi numa direção diferente, não raro dizendo uma coisa em oposição a outra. Um exemplo: Falcão, o presidente do partido, avaliou que essa será a eleição mais difícil que o PT já enfrentou e pregou a guerra contra a oposição "homofóbica, odienta e fundamentalista".
Lula, o presidente de honra, afirmou que é preciso parar de dizer que a eleição será difícil; Dilma, presidente da República, pregou uma campanha "da paz", sem rancor. Eram três personagens encarnando três papéis diversos no palco. Sim, são pessoas diferentes, mas do roteiro de um partido que procura um mesmo objetivo espera-se ao menos unidade de pensamento. Não foi o que se viu no último sábado.
Rui Falcão entrou para, como se dizia antigamente, botar fogo na roupa, fazer do ressentimento um motor do entusiasmo genuinamente inexistente pela candidata. O que faltava de ardor por Dilma sobrava no clamor do grito "mídia fascista, sensacionalista", quando Falcão apontou os meios de comunicação como "arautos do mau humor que levam o negativismo para dentro da casa do povo".
Pode-se argumentar que o objetivo era mobilizar a militância. Dois problemas nesse argumento. Primeiro, o pequeno número de militantes ali presentes, devido à opção de fazer uma convenção em recinto acanhado, com a finalidade principal de produzir cenas para o programa de TV. Não seria dali que sairiam hordas de guerreiros.
Segundo problema: as propostas apresentadas como palavras de ordem para a militância são de fato palavras ao vento - por inexequíveis -, e a direção partidária sabe disso. Falou-se no plebiscito para a reforma política por meio de Constituinte exclusiva, marcando até data, 7 de setembro próximo - sugestão já devidamente morta e enterrada.
Voltou-se a falar na "democratização dos meios de comunicação", sabendo-se que tal proposta não tem aceitação entre nenhum dos partidos com representação no Congresso além do PT. Ou seja, convidou-se a militância a enxugar gelo.
Em seguida, falou Lula. Uma apoteose. Ali se viu quem o partido queria realmente como candidato, a quem o PT segue e venera. Foi o Lula de sempre, das metáforas, da quase lógica, da mistura de alhos com bugalhos, das mistificações, mas um exímio animador de auditórios.
Ao fim e ao cabo ficou a impressão de que vai jogar na tese de que inventou o Brasil Maravilha e que a ele os brasileiros devem toda sua gratidão. Além de dizer que a eleição não será assim tão difícil, mas "sui generis", avisou aos adversários "que se preparem", pois o PT se elegeu primeiro por quatro anos, depois por mais quatro e mais quatro, "e pode ficar no poder até a metade do século 21". Deve ter um plano e, pelo jeito, passa pela máquina do Estado.
Para encerrar a convenção, a presidente Dilma. Em ritmo de anticlímax, com um discurso cansativo que provocou dispersão na plateia e visível tédio em petistas sentados às duas mesas montadas no palco. Contrariando o tom dos antecessores e a própria personalidade, acenou com a "paz". Por uma hora enumerou seus feitos naquele conhecido tom maçante. "Produção de conteúdo para o horário eleitoral", justificava a assessoria. Mas, se aborreceu os correligionários ao ponto de enrolarem suas bandeiras, deixarem o recinto para lanchar ou comprar na lojinha do PT nas salas ao lado e os que ficaram preferirem conversar, esse conteúdo é capaz de não entusiasmar muito o eleitorado.
Ao contrário, porém, do "jingle" da campanha, "Coração valente", um forrozinho bom que só.
A julgar pelos discursos dos três oradores que importavam na convenção nacional do PT - considerando que Michel Temer estava ali por honra da firma -, Rui Falcão, Luiz Inácio da Silva e Dilma Rousseff, por ordem de entrada em cena, o partido ainda não chegou a um acordo sobre qual a abordagem mais eficaz junto ao eleitor de 2014.
Cada qual foi numa direção diferente, não raro dizendo uma coisa em oposição a outra. Um exemplo: Falcão, o presidente do partido, avaliou que essa será a eleição mais difícil que o PT já enfrentou e pregou a guerra contra a oposição "homofóbica, odienta e fundamentalista".
Lula, o presidente de honra, afirmou que é preciso parar de dizer que a eleição será difícil; Dilma, presidente da República, pregou uma campanha "da paz", sem rancor. Eram três personagens encarnando três papéis diversos no palco. Sim, são pessoas diferentes, mas do roteiro de um partido que procura um mesmo objetivo espera-se ao menos unidade de pensamento. Não foi o que se viu no último sábado.
Rui Falcão entrou para, como se dizia antigamente, botar fogo na roupa, fazer do ressentimento um motor do entusiasmo genuinamente inexistente pela candidata. O que faltava de ardor por Dilma sobrava no clamor do grito "mídia fascista, sensacionalista", quando Falcão apontou os meios de comunicação como "arautos do mau humor que levam o negativismo para dentro da casa do povo".
Pode-se argumentar que o objetivo era mobilizar a militância. Dois problemas nesse argumento. Primeiro, o pequeno número de militantes ali presentes, devido à opção de fazer uma convenção em recinto acanhado, com a finalidade principal de produzir cenas para o programa de TV. Não seria dali que sairiam hordas de guerreiros.
Segundo problema: as propostas apresentadas como palavras de ordem para a militância são de fato palavras ao vento - por inexequíveis -, e a direção partidária sabe disso. Falou-se no plebiscito para a reforma política por meio de Constituinte exclusiva, marcando até data, 7 de setembro próximo - sugestão já devidamente morta e enterrada.
Voltou-se a falar na "democratização dos meios de comunicação", sabendo-se que tal proposta não tem aceitação entre nenhum dos partidos com representação no Congresso além do PT. Ou seja, convidou-se a militância a enxugar gelo.
Em seguida, falou Lula. Uma apoteose. Ali se viu quem o partido queria realmente como candidato, a quem o PT segue e venera. Foi o Lula de sempre, das metáforas, da quase lógica, da mistura de alhos com bugalhos, das mistificações, mas um exímio animador de auditórios.
Ao fim e ao cabo ficou a impressão de que vai jogar na tese de que inventou o Brasil Maravilha e que a ele os brasileiros devem toda sua gratidão. Além de dizer que a eleição não será assim tão difícil, mas "sui generis", avisou aos adversários "que se preparem", pois o PT se elegeu primeiro por quatro anos, depois por mais quatro e mais quatro, "e pode ficar no poder até a metade do século 21". Deve ter um plano e, pelo jeito, passa pela máquina do Estado.
Para encerrar a convenção, a presidente Dilma. Em ritmo de anticlímax, com um discurso cansativo que provocou dispersão na plateia e visível tédio em petistas sentados às duas mesas montadas no palco. Contrariando o tom dos antecessores e a própria personalidade, acenou com a "paz". Por uma hora enumerou seus feitos naquele conhecido tom maçante. "Produção de conteúdo para o horário eleitoral", justificava a assessoria. Mas, se aborreceu os correligionários ao ponto de enrolarem suas bandeiras, deixarem o recinto para lanchar ou comprar na lojinha do PT nas salas ao lado e os que ficaram preferirem conversar, esse conteúdo é capaz de não entusiasmar muito o eleitorado.
Ao contrário, porém, do "jingle" da campanha, "Coração valente", um forrozinho bom que só.
Depois da Copa - VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 24/06
País toma anestesia local, não geral, faz festa com o futebol, mas o eleitor continua insatisfeito
A BRISA ALEGRE da Copa até agora festiva dissipou os miasmas que deixavam o clima pesado até faz muito pouco: 12 dias. Mas os maus humores terão escorrido para o ralo? O que será quando a Copa acabar, o que, esperamos, ocorrerá com vitória em 13 de julho?
A anestesia futebolística não foi geral, mas local. Os insatisfeitos com governo, política e economia ganharam adesões, dizem as pesquisas. Mas até para militantes é difícil viver em tensão permanente. A maioria de nós parece ter resolvido fazer um pouco de festa; não mudou de opinião.
Nos últimos meses, falamos muito de política e governo por meio de símbolos tais como a Copa ou, entre minorias, na guerra "ideológica" desencadeada por questões que foram dos rolezinhos aos insultos contra Dilma Rousseff.
Pouco antes, foi comum se tratar de insatisfações diversas, quando não adversárias, por meio da crítica genérica dos "políticos", de um Estado distante, que não oferece serviços públicos, quando não é apenas fonte de opressão física.
No rescaldo de um ano de revolta, os partidos e candidatos maiores apareceram mais desprestigiados que de costume, vide a quantidade de "votos de protesto" (nulo, branco, nem aí etc).
Findo o show da Copa, começa sem mais o show da eleição. Se a insatisfação de fundo continuar, contra governos e políticos em geral, quais contornos terá? Ainda haverá "rua"? Militantes, como os sem-teto e os do passe livre, em São Paulo, não vão submergir sem mais. Difícil é, a princípio, imaginar que o combustível das manifestações não tenha diminuído desde junho do ano passado e depois da Copa.
Os fatores de irritação mais difusa, cotidiana, não desapareceram, pelo contrário. Ainda que o mau humor econômico tenha sido exagerado em abril e maio, a economia real declina de fato e mais do que o esperado, inclusive no emprego. A mais recente previsão dos economistas privados estima que o PIB deve crescer menos que 1,2%, quase estagnação.
Há chance razoável de notícias simbolicamente ruins em julho e agosto (não serão boas de modo algum, mas devem soar ainda pior): inflação talvez acima do teto da meta, PIB zero, demissões em indústrias visíveis, com sindicatos fortes. Haverá algum motivo e muita oportunidade para o acirramento de ânimos políticos.
O governo decerto vai contra-atacar. Vai lançar o Minha Casa, Minha Vida fase 3 ainda em julho. Vai trombetear para o público menos informado e pobre os programas sociais que patrocinou, muito extensos, goste-se ou não deles.
Para o eleitorado minoritário mais dado à política-politiqueira, haverá mais motivos para decepção ou nojo, dada a barafunda de alianças cruzadas entre partidos. A oposição federal alia-se regionalmente a aliados nacionais do governo, entre outras indignidades. Pequenos e provincianos, os candidatos maiores não se dão conta do tamanho da repulsa que realimentam.
Não há motivos para acreditar que a fervura baixe. Está mais difícil de saber como tal desgosto vai se expressar. Em ano de eleição nacional, era de esperar que partidos maiores dessem sentido às revoltas mais comuns, ao menos. Só que não. Ainda, ao menos.
País toma anestesia local, não geral, faz festa com o futebol, mas o eleitor continua insatisfeito
A BRISA ALEGRE da Copa até agora festiva dissipou os miasmas que deixavam o clima pesado até faz muito pouco: 12 dias. Mas os maus humores terão escorrido para o ralo? O que será quando a Copa acabar, o que, esperamos, ocorrerá com vitória em 13 de julho?
A anestesia futebolística não foi geral, mas local. Os insatisfeitos com governo, política e economia ganharam adesões, dizem as pesquisas. Mas até para militantes é difícil viver em tensão permanente. A maioria de nós parece ter resolvido fazer um pouco de festa; não mudou de opinião.
Nos últimos meses, falamos muito de política e governo por meio de símbolos tais como a Copa ou, entre minorias, na guerra "ideológica" desencadeada por questões que foram dos rolezinhos aos insultos contra Dilma Rousseff.
Pouco antes, foi comum se tratar de insatisfações diversas, quando não adversárias, por meio da crítica genérica dos "políticos", de um Estado distante, que não oferece serviços públicos, quando não é apenas fonte de opressão física.
No rescaldo de um ano de revolta, os partidos e candidatos maiores apareceram mais desprestigiados que de costume, vide a quantidade de "votos de protesto" (nulo, branco, nem aí etc).
Findo o show da Copa, começa sem mais o show da eleição. Se a insatisfação de fundo continuar, contra governos e políticos em geral, quais contornos terá? Ainda haverá "rua"? Militantes, como os sem-teto e os do passe livre, em São Paulo, não vão submergir sem mais. Difícil é, a princípio, imaginar que o combustível das manifestações não tenha diminuído desde junho do ano passado e depois da Copa.
Os fatores de irritação mais difusa, cotidiana, não desapareceram, pelo contrário. Ainda que o mau humor econômico tenha sido exagerado em abril e maio, a economia real declina de fato e mais do que o esperado, inclusive no emprego. A mais recente previsão dos economistas privados estima que o PIB deve crescer menos que 1,2%, quase estagnação.
Há chance razoável de notícias simbolicamente ruins em julho e agosto (não serão boas de modo algum, mas devem soar ainda pior): inflação talvez acima do teto da meta, PIB zero, demissões em indústrias visíveis, com sindicatos fortes. Haverá algum motivo e muita oportunidade para o acirramento de ânimos políticos.
O governo decerto vai contra-atacar. Vai lançar o Minha Casa, Minha Vida fase 3 ainda em julho. Vai trombetear para o público menos informado e pobre os programas sociais que patrocinou, muito extensos, goste-se ou não deles.
Para o eleitorado minoritário mais dado à política-politiqueira, haverá mais motivos para decepção ou nojo, dada a barafunda de alianças cruzadas entre partidos. A oposição federal alia-se regionalmente a aliados nacionais do governo, entre outras indignidades. Pequenos e provincianos, os candidatos maiores não se dão conta do tamanho da repulsa que realimentam.
Não há motivos para acreditar que a fervura baixe. Está mais difícil de saber como tal desgosto vai se expressar. Em ano de eleição nacional, era de esperar que partidos maiores dessem sentido às revoltas mais comuns, ao menos. Só que não. Ainda, ao menos.
A herança para 2015 - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S.PAULO - 24/06
Quem vencer a eleição presidencial no fim do ano terá de pensar, com urgência, em como carregar a desastrosa herança econômica deixada pelo atual governo. Se for reeleita, a presidente Dilma Rousseff precisará mudar muito mais do que prometeu no discurso de lançamento de sua candidatura. A parte mais visível da herança está indicada nas projeções de inflação alta, crescimento baixo e contas externas ainda em mau estado formuladas por economistas de uma centena de instituições financeiras e consultorias. Essas projeções são coletadas semanalmente pelo Banco Central (BC) na pesquisa Focus.
Na pesquisa divulgada ontem, a inflação estimada para 2014 continuou em 6,46%, muito perto do limite de tolerância, 6,50%, mas o número previsto para o próximo ano subiu ligeiramente, de 6,08% para 6,10%. A variação pode parecer pequena, mas está longe de ser insignificante. Na mesma sondagem, a alta projetada para os preços administrados chegou a 7%. Na semana anterior, a taxa estimada era 6,85%. Quatro semanas antes, 6,50%.
A mensagem contida nesses números parece muito clara. Economistas do mercado continuam prevendo um forte ajuste, em 2015, dos preços e tarifas contidos politicamente. Esse grupo inclui preços de combustíveis e tarifas de energia elétrica e de transporte público.
Parte desses valores tem sido corrigida neste ano, mas em proporção insuficiente para eliminar o atraso.
Com a correção, a defasagem poderá até desaparecer. Dificilmente serão compensadas, no entanto, as perdas acumuladas pelas empresas prestadoras de serviços e pela Petrobrás, vítima habitual do controle político dos preços de combustíveis.
O primeiro ano de um mandato - novo ou renovado - é em geral o mais propício, politicamente, para medidas duras na área econômica. Mas o governo terá de ser muito mais severo e ambicioso do que tem sido há muito anos. Se quiser, de fato, conduzir a inflação à meta, 4,5%, terá de cuidar mais seriamente das contas públicas, cortar a gastança e ser muito mais seletivo na concessão de benefícios fiscais.
Os incentivos concedidos a partir da crise de 2008 foram inúteis para estimular o crescimento geral ou perderam eficácia muito rapidamente. As contas nacionais deixam pouca ou nenhuma dúvida quanto a isso. Não há, portanto, como defender tecnicamente a manutenção dessa estratégia.
O governo deveria saber disso, mas prorrogou na semana passada parte dos incentivos. Reafirmou, assim, a disposição de continuar trabalhando com remendos tributários, em vez de batalhar por uma efetiva reforma do sistema. Para mudar de rumo, as autoridades terão de mostrar coragem, afastar-se do populismo e exibir imaginação e competência.
Quanto mais séria a política fiscal, menos o BC precisará elevar os juros para conter os preços. De todo modo, uma política monetária menos sujeita a interferências da cúpula governamental poderá ser mais eficaz. Quanto maior a credibilidade do BC, maior tende a ser o efeito de suas ações. Isso tem sido comprovado pela experiência internacional.
As projeções do mercado indicam, também, uma piora das expectativas de crescimento. O quadro geral inclui, além da inflação elevada neste e no próximo ano, estimativas menores de expansão econômica. Em uma semana a previsão para 2014 caiu de 1,24% para 1,16%. Para 2015, a redução foi de 1,73% para 1,60%, mesmo sem a expectativa de ações muito mais duras contra a inflação.
Para a produção industrial neste ano, a mudança foi de um crescimento de 0,51%, abaixo de medíocre, para uma contração de 0,14%. Para 2015, a expansão prevista aumentou de 2,25% para 2,30%, um número ainda muito ruim e explicável, pelo menos em parte, pela base de comparação muito baixa.
O quadro se completa com um desempenho fraco no comércio exterior, com superávits previstos de US$ 2 bilhões neste ano e US$ 10 bilhões no próximo. São resultados muito baixos para as necessidades do País, por causa do déficit estrutural em serviços e rendas.
Quem vencer a eleição presidencial no fim do ano terá de pensar, com urgência, em como carregar a desastrosa herança econômica deixada pelo atual governo. Se for reeleita, a presidente Dilma Rousseff precisará mudar muito mais do que prometeu no discurso de lançamento de sua candidatura. A parte mais visível da herança está indicada nas projeções de inflação alta, crescimento baixo e contas externas ainda em mau estado formuladas por economistas de uma centena de instituições financeiras e consultorias. Essas projeções são coletadas semanalmente pelo Banco Central (BC) na pesquisa Focus.
Na pesquisa divulgada ontem, a inflação estimada para 2014 continuou em 6,46%, muito perto do limite de tolerância, 6,50%, mas o número previsto para o próximo ano subiu ligeiramente, de 6,08% para 6,10%. A variação pode parecer pequena, mas está longe de ser insignificante. Na mesma sondagem, a alta projetada para os preços administrados chegou a 7%. Na semana anterior, a taxa estimada era 6,85%. Quatro semanas antes, 6,50%.
A mensagem contida nesses números parece muito clara. Economistas do mercado continuam prevendo um forte ajuste, em 2015, dos preços e tarifas contidos politicamente. Esse grupo inclui preços de combustíveis e tarifas de energia elétrica e de transporte público.
Parte desses valores tem sido corrigida neste ano, mas em proporção insuficiente para eliminar o atraso.
Com a correção, a defasagem poderá até desaparecer. Dificilmente serão compensadas, no entanto, as perdas acumuladas pelas empresas prestadoras de serviços e pela Petrobrás, vítima habitual do controle político dos preços de combustíveis.
O primeiro ano de um mandato - novo ou renovado - é em geral o mais propício, politicamente, para medidas duras na área econômica. Mas o governo terá de ser muito mais severo e ambicioso do que tem sido há muito anos. Se quiser, de fato, conduzir a inflação à meta, 4,5%, terá de cuidar mais seriamente das contas públicas, cortar a gastança e ser muito mais seletivo na concessão de benefícios fiscais.
Os incentivos concedidos a partir da crise de 2008 foram inúteis para estimular o crescimento geral ou perderam eficácia muito rapidamente. As contas nacionais deixam pouca ou nenhuma dúvida quanto a isso. Não há, portanto, como defender tecnicamente a manutenção dessa estratégia.
O governo deveria saber disso, mas prorrogou na semana passada parte dos incentivos. Reafirmou, assim, a disposição de continuar trabalhando com remendos tributários, em vez de batalhar por uma efetiva reforma do sistema. Para mudar de rumo, as autoridades terão de mostrar coragem, afastar-se do populismo e exibir imaginação e competência.
Quanto mais séria a política fiscal, menos o BC precisará elevar os juros para conter os preços. De todo modo, uma política monetária menos sujeita a interferências da cúpula governamental poderá ser mais eficaz. Quanto maior a credibilidade do BC, maior tende a ser o efeito de suas ações. Isso tem sido comprovado pela experiência internacional.
As projeções do mercado indicam, também, uma piora das expectativas de crescimento. O quadro geral inclui, além da inflação elevada neste e no próximo ano, estimativas menores de expansão econômica. Em uma semana a previsão para 2014 caiu de 1,24% para 1,16%. Para 2015, a redução foi de 1,73% para 1,60%, mesmo sem a expectativa de ações muito mais duras contra a inflação.
Para a produção industrial neste ano, a mudança foi de um crescimento de 0,51%, abaixo de medíocre, para uma contração de 0,14%. Para 2015, a expansão prevista aumentou de 2,25% para 2,30%, um número ainda muito ruim e explicável, pelo menos em parte, pela base de comparação muito baixa.
O quadro se completa com um desempenho fraco no comércio exterior, com superávits previstos de US$ 2 bilhões neste ano e US$ 10 bilhões no próximo. São resultados muito baixos para as necessidades do País, por causa do déficit estrutural em serviços e rendas.
A ciência gordurosa - JOÃO PEREIRA COUTINHO
FOLHA DE SP - 24/06
Hoje, não se come mais para viver. Come-se para viver até aos cem --uma importante revolução civilizacional
Vou ao supermercado e fico pasmo com os produtos nas prateleiras. Não falo da quantidade de iogurtes, bolachas, pastas dentifrícias ou papel higiênico que me transformam no famoso burro de Buridan --o asno do paradoxo filosófico que morre de fome por não saber qual dos pedaços de feno escolher. De fato, tanta variedade paralisa qualquer um.
Falo de outro fenômeno igualmente agônico: a quantidade de produtos alimentares que parecem diretamente saídos de um consultório médico.
Um iogurte não é um iogurte, com um determinado sabor e uma determinada textura. É quase um remédio de farmácia que promete diminuir o colesterol e controlar 50 outros indicadores orgânicos igualmente importantes para a saúde do sujeito.
E quem fala em iogurtes, fala em sucos (com seu cortejo de vitaminas), batatas fritas (com reduções heroicas na quantidade de sal) e até chocolates (alguns deles prometem melhorar o fluxo arterial). Como se chegou a isto?
Verdade: com a "morte de Deus" e o fim de uma vida transcendente, cuidar do corpo transformou-se na única religião dos homens modernos. De tal forma que nem a gastronomia está a salvo: antes do prazer ou da mera fome, está primeiro a saúde. Hoje, não se come mais para viver. Come-se para viver até aos cem --uma importante revolução civilizacional.
Honestamente, nem sei por que motivo não se abrem restaurantes em hospitais, com refeições cozinhadas por médicos e servidas por enfermeiros. No final, o cliente faria análises ao sangue e só pagaria a conta se tivesse o número certo de triglicerídeos.
O problema é que nem no hospital o cliente estaria a salvo. Desde logo porque é cada vez mais difícil saber o que comer: existem estudos, publicados a um ritmo demencial, que dizem uma coisa e o seu contrário. Às vezes, na mesma semana --ou até no mesmo dia.
A carne vermelha é má, defendem uns. A carne vermelha é ótima, garantem outros. Sobre os laticínios, há opiniões para todos os gostos: são puro veneno; são simplesmente insubstituíveis. E até as gorduras, que deveriam ser um inimigo consensual, parece que não são tão inimigas assim.
A revista "Time", aliás, dedicou matéria especial ao fenômeno: durante décadas, o país declarou guerra às gorduras. Que o mesmo é dizer: incluiu no Index da dieta nacional a carne vermelha, os ovos, os laticínios, a manteiga. A mensagem era simples: conservar um coração saudável implicava dizer adeus a todo esse lixo. Conclusão?
Os americanos foram dizendo adeus ao lixo, optando por aves, leite magro ou cereais. Infelizmente, a mudança na dieta não os tornou mais saudáveis. Pelo contrário: o país está mais doente do que nunca.
A diabete de tipo 2 aumentou 166% entre 1980 e 2012. Os problemas do coração continuam no topo da lista --e das mortes. E, sobre a obesidade, estamos conversados: falar dos Estados Unidos é imaginar uma nação disforme de glutões disformes. Explicações?
Não, a gordura não é o papão que se imaginava, explica a revista. Não entro em termos técnicos, até porque eles são demasiado gordurosos para mim. Mas parece que a gordura do peixe e dos vegetais é boa para o coração. E até a gordura "suspeita" de um bom filé (cozinhado com manteiga, claro) tem vantagens respeitáveis na limpeza do mau colesterol.
Os verdadeiros inimigos, hoje, são os carboidratos presentes nos açúcares, nos doces, nos farináceos. Isso, claro, enquanto não surgir um novo estudo a defender precisamente o contrário --ou, pelo menos, a colocar as coisas na suas devidas proporções.
E eu? Que fazer perante essa selva de alarmes contraditórios?
Nada. Rigorosamente nada. Perdido no supermercado, vou retirando das prateleiras os alimentos que a ciência aprova e desaprova nos dias pares e ímpares, respectivamente.
E confesso que as gorduras continuam a ter espaço generoso na minha dieta animalesca. Não que eu me orgulhe disso, cuidado. Mas enquanto não existirem estudos definitivos sobre o assunto, prefiro seguir as recomendações da minha ilustre dra. Gula.
Hoje, não se come mais para viver. Come-se para viver até aos cem --uma importante revolução civilizacional
Vou ao supermercado e fico pasmo com os produtos nas prateleiras. Não falo da quantidade de iogurtes, bolachas, pastas dentifrícias ou papel higiênico que me transformam no famoso burro de Buridan --o asno do paradoxo filosófico que morre de fome por não saber qual dos pedaços de feno escolher. De fato, tanta variedade paralisa qualquer um.
Falo de outro fenômeno igualmente agônico: a quantidade de produtos alimentares que parecem diretamente saídos de um consultório médico.
Um iogurte não é um iogurte, com um determinado sabor e uma determinada textura. É quase um remédio de farmácia que promete diminuir o colesterol e controlar 50 outros indicadores orgânicos igualmente importantes para a saúde do sujeito.
E quem fala em iogurtes, fala em sucos (com seu cortejo de vitaminas), batatas fritas (com reduções heroicas na quantidade de sal) e até chocolates (alguns deles prometem melhorar o fluxo arterial). Como se chegou a isto?
Verdade: com a "morte de Deus" e o fim de uma vida transcendente, cuidar do corpo transformou-se na única religião dos homens modernos. De tal forma que nem a gastronomia está a salvo: antes do prazer ou da mera fome, está primeiro a saúde. Hoje, não se come mais para viver. Come-se para viver até aos cem --uma importante revolução civilizacional.
Honestamente, nem sei por que motivo não se abrem restaurantes em hospitais, com refeições cozinhadas por médicos e servidas por enfermeiros. No final, o cliente faria análises ao sangue e só pagaria a conta se tivesse o número certo de triglicerídeos.
O problema é que nem no hospital o cliente estaria a salvo. Desde logo porque é cada vez mais difícil saber o que comer: existem estudos, publicados a um ritmo demencial, que dizem uma coisa e o seu contrário. Às vezes, na mesma semana --ou até no mesmo dia.
A carne vermelha é má, defendem uns. A carne vermelha é ótima, garantem outros. Sobre os laticínios, há opiniões para todos os gostos: são puro veneno; são simplesmente insubstituíveis. E até as gorduras, que deveriam ser um inimigo consensual, parece que não são tão inimigas assim.
A revista "Time", aliás, dedicou matéria especial ao fenômeno: durante décadas, o país declarou guerra às gorduras. Que o mesmo é dizer: incluiu no Index da dieta nacional a carne vermelha, os ovos, os laticínios, a manteiga. A mensagem era simples: conservar um coração saudável implicava dizer adeus a todo esse lixo. Conclusão?
Os americanos foram dizendo adeus ao lixo, optando por aves, leite magro ou cereais. Infelizmente, a mudança na dieta não os tornou mais saudáveis. Pelo contrário: o país está mais doente do que nunca.
A diabete de tipo 2 aumentou 166% entre 1980 e 2012. Os problemas do coração continuam no topo da lista --e das mortes. E, sobre a obesidade, estamos conversados: falar dos Estados Unidos é imaginar uma nação disforme de glutões disformes. Explicações?
Não, a gordura não é o papão que se imaginava, explica a revista. Não entro em termos técnicos, até porque eles são demasiado gordurosos para mim. Mas parece que a gordura do peixe e dos vegetais é boa para o coração. E até a gordura "suspeita" de um bom filé (cozinhado com manteiga, claro) tem vantagens respeitáveis na limpeza do mau colesterol.
Os verdadeiros inimigos, hoje, são os carboidratos presentes nos açúcares, nos doces, nos farináceos. Isso, claro, enquanto não surgir um novo estudo a defender precisamente o contrário --ou, pelo menos, a colocar as coisas na suas devidas proporções.
E eu? Que fazer perante essa selva de alarmes contraditórios?
Nada. Rigorosamente nada. Perdido no supermercado, vou retirando das prateleiras os alimentos que a ciência aprova e desaprova nos dias pares e ímpares, respectivamente.
E confesso que as gorduras continuam a ter espaço generoso na minha dieta animalesca. Não que eu me orgulhe disso, cuidado. Mas enquanto não existirem estudos definitivos sobre o assunto, prefiro seguir as recomendações da minha ilustre dra. Gula.
Soberba e populismo - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S.PAULO - 24/06
Há uma característica peculiar no DNA do PT que tem dificultado a articulação de alianças em torno da candidatura de Dilma Rousseff à reeleição: a soberba. A arrogância do comando lulopetista, que posa de monopolista da virtude e despreza os aliados porque age por puro fisiologismo, tem sido responsável por importantes reveses nesta pré-campanha eleitoral. O mais recente é a decisão do PMDB fluminense de apoiar a candidatura de Aécio Neves à Presidência em dobradinha com a do governador Luis Fernando Pezão à reeleição.
A dissidência do PMDB fluminense não se enquadra exatamente na galeria dos episódios louváveis que honram a política brasileira. É pura e simplesmente o desdobramento do toma lá dá cá que o PT não inventou, mas empenhou-se diligentemente em aperfeiçoar ao longo de quase 12 anos no poder. Desde a eleição ao governo estadual do peemedebista Sérgio Cabral em 2006, coerente com a orientação da direção nacional do partido, o PMDB fluminense e o governador em particular posicionaram-se com armas e bagagens no séquito de Luiz Inácio Lula da Silva. A ligação entre Lula e Cabral parecia tão sólida que este chegou a sonhar, em 2010, em ser o vice de Dilma Rousseff. Teve de se contentar com a candidatura à reeleição.
Mas a decepção definitiva de Cabral veio quando, em vez de honrar a aliança apoiando o candidato dele à própria sucessão, o PT optou por aceitar o fato consumado da candidatura do senador Lindbergh Farias ao governo do Estado, até porque a popularidade de Cabral caíra vertiginosamente, contaminando a de Pezão. Agora, Cabral e o PMDB fluminense dão o troco. Oficialmente, Pezão e Cabral continuarão apoiando Dilma. Mas a poderosa máquina política do PMDB fluminense vai trabalhar por Aécio Neves.
Às más notícias no plano das alianças eleitorais a soberba lulopetista parece disposta a responder com mais do mesmo, a julgar por tudo que foi proclamado na convenção nacional que confirmou a candidatura de Dilma à reeleição. A começar pelo fato de que a presidente está agora oficialmente enquadrada, pela proverbial imodéstia de Lula, na condição subalterna de "criatura" do Grande Chefe.
A insatisfação generalizada dos brasileiros com a qualidade dos serviços públicos se manifesta vigorosamente nas ruas. Mas Lula, Dilma e o PT se gabam de terem inventado um novo país, criando uma nova realidade nacional de desenvolvimento econômico e conquistas sociais. Estariam plenamente credenciados, portanto, a se lançarem à campanha eleitoral com o apelo à continuidade das fantásticas realizações com que mudaram para melhor a face do País. Mas como não podem ignorar que os brasileiros não estão lá muito satisfeitos com o que veem e, principalmente, sentem, é melhor ir de "mudança". Aliás, "mais mudança", porque, afinal, o estoque de promessas não cumpridas está longe de se esgotar.
O pior é que as principais novidades das "mudanças" apontam na direção do retrocesso. Apesar de terem repudiado o "ódio" revelado pela "elite branca" contra Dilma no lamentável episódio da abertura da Copa do Mundo, o discurso petista continuará focado no estímulo à cizânia nacional, à divisão dos brasileiros entre "nós" e "eles", agora com uma pegada mais "esquerdista" que procurará dar destaque à necessidade do "controle social da mídia" e de uma reforma política destinada não a aperfeiçoar o sistema democrático a serviço de uma sociedade pluralista, mas a consolidar a hegemonia da nomenklatura petista. Não é outro o objetivo do decreto que, a pretexto de "regulamentar o texto constitucional", pretende aparelhar a estrutura do Poder Central com "conselhos populares" manipulados pelo Planalto.
E todo esse conteúdo "popular" se derramará na campanha petista, embalado pela demagogia dos chavões populistas que durante a convenção de sábado Dilma leu no teleponto: "Recolhamos as pedras que atiram contra nós e vamos transformá-las em tijolos para fazer mais casas do Minha Casa, Minha Vida. Vamos recolher os xingamentos, os impropérios e as grosserias e transformá-los em versos de canções de esperança no futuro do Brasil".
A soberba afasta aliados. A demagogia populista nem sempre atrai eleitores.
Há uma característica peculiar no DNA do PT que tem dificultado a articulação de alianças em torno da candidatura de Dilma Rousseff à reeleição: a soberba. A arrogância do comando lulopetista, que posa de monopolista da virtude e despreza os aliados porque age por puro fisiologismo, tem sido responsável por importantes reveses nesta pré-campanha eleitoral. O mais recente é a decisão do PMDB fluminense de apoiar a candidatura de Aécio Neves à Presidência em dobradinha com a do governador Luis Fernando Pezão à reeleição.
A dissidência do PMDB fluminense não se enquadra exatamente na galeria dos episódios louváveis que honram a política brasileira. É pura e simplesmente o desdobramento do toma lá dá cá que o PT não inventou, mas empenhou-se diligentemente em aperfeiçoar ao longo de quase 12 anos no poder. Desde a eleição ao governo estadual do peemedebista Sérgio Cabral em 2006, coerente com a orientação da direção nacional do partido, o PMDB fluminense e o governador em particular posicionaram-se com armas e bagagens no séquito de Luiz Inácio Lula da Silva. A ligação entre Lula e Cabral parecia tão sólida que este chegou a sonhar, em 2010, em ser o vice de Dilma Rousseff. Teve de se contentar com a candidatura à reeleição.
Mas a decepção definitiva de Cabral veio quando, em vez de honrar a aliança apoiando o candidato dele à própria sucessão, o PT optou por aceitar o fato consumado da candidatura do senador Lindbergh Farias ao governo do Estado, até porque a popularidade de Cabral caíra vertiginosamente, contaminando a de Pezão. Agora, Cabral e o PMDB fluminense dão o troco. Oficialmente, Pezão e Cabral continuarão apoiando Dilma. Mas a poderosa máquina política do PMDB fluminense vai trabalhar por Aécio Neves.
Às más notícias no plano das alianças eleitorais a soberba lulopetista parece disposta a responder com mais do mesmo, a julgar por tudo que foi proclamado na convenção nacional que confirmou a candidatura de Dilma à reeleição. A começar pelo fato de que a presidente está agora oficialmente enquadrada, pela proverbial imodéstia de Lula, na condição subalterna de "criatura" do Grande Chefe.
A insatisfação generalizada dos brasileiros com a qualidade dos serviços públicos se manifesta vigorosamente nas ruas. Mas Lula, Dilma e o PT se gabam de terem inventado um novo país, criando uma nova realidade nacional de desenvolvimento econômico e conquistas sociais. Estariam plenamente credenciados, portanto, a se lançarem à campanha eleitoral com o apelo à continuidade das fantásticas realizações com que mudaram para melhor a face do País. Mas como não podem ignorar que os brasileiros não estão lá muito satisfeitos com o que veem e, principalmente, sentem, é melhor ir de "mudança". Aliás, "mais mudança", porque, afinal, o estoque de promessas não cumpridas está longe de se esgotar.
O pior é que as principais novidades das "mudanças" apontam na direção do retrocesso. Apesar de terem repudiado o "ódio" revelado pela "elite branca" contra Dilma no lamentável episódio da abertura da Copa do Mundo, o discurso petista continuará focado no estímulo à cizânia nacional, à divisão dos brasileiros entre "nós" e "eles", agora com uma pegada mais "esquerdista" que procurará dar destaque à necessidade do "controle social da mídia" e de uma reforma política destinada não a aperfeiçoar o sistema democrático a serviço de uma sociedade pluralista, mas a consolidar a hegemonia da nomenklatura petista. Não é outro o objetivo do decreto que, a pretexto de "regulamentar o texto constitucional", pretende aparelhar a estrutura do Poder Central com "conselhos populares" manipulados pelo Planalto.
E todo esse conteúdo "popular" se derramará na campanha petista, embalado pela demagogia dos chavões populistas que durante a convenção de sábado Dilma leu no teleponto: "Recolhamos as pedras que atiram contra nós e vamos transformá-las em tijolos para fazer mais casas do Minha Casa, Minha Vida. Vamos recolher os xingamentos, os impropérios e as grosserias e transformá-los em versos de canções de esperança no futuro do Brasil".
A soberba afasta aliados. A demagogia populista nem sempre atrai eleitores.
Abre o olho, Dilma! - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 24/06
BRASÍLIA - Em plena Copa, Dilma toma uma bola nas costas atrás da outra. A convenção do PT foi driblada pela deserção do PTB e depois por uma jogada bem ensaiada de Aécio com Cabral e Pezão no Rio. O "Aezão" agora é orgânico.
Assim, Dilma divide seus palanques no Rio com Aécio, que lhe roubou o PMDB, e com Eduardo Campos, que lhe subtraiu uma fatia da campanha do petista Lindbergh Farias.
Ela não vai repetir o passeio de 2010 no Rio e em Minas e vai ter de suar a camisa em São Paulo. Confirmam-se as dificuldades da petista no "Triângulo das Bermudas", ou "grupo da morte", com cerca de 40% dos votos nacionais.
Isso reforça a sensação de fragilidade que vai se generalizando ou, como disse o lulista Gilberto Carvalho, "a coisa desceu, vai gotejando". Na dúvida, basta olhar os aliados do PT e ver para onde eles vão.
O PTB escancarou sua posição e o PMDB se mexe sorrateiramente rumo à oposição. Garantiu a Vice-Presidência para Michel Temer, mas liberou os pemedebistas para fazer o que bem entenderem nos Estados. Muitos deles estão entendendo que o mais conveniente é partir para outra.
Além do Rio, isso se reflete em outros Estados chaves, como Bahia e Rio Grande do Sul. E quer dizer muita coisa, principalmente a irritação com a vocação hegemônica do PT e a falta de confiança nas chances de vitória de Dilma.
Com esses dois argumentos, líderes do PSD pressionam Gilberto Kassab para que o partido opte pela neutralidade. Ele parece irredutível, mas perdeu o rumo sem a vaga de vice de Alckmin e foi à convenção do PT rapidinho, só a tempo de ser vaiado.
À Folha Gilberto Carvalho fez um diagnóstico realista sobre o clima negativo, que Lula quer enfrentar com a "adrenalina" da militância. Tempo de TV ajuda, mas não resolve, e marketing é científico, não faz milagres. Aliás, o slogan é reconhecimento das dificuldades: Dilma candidata das "mudanças"? Não cola.
BRASÍLIA - Em plena Copa, Dilma toma uma bola nas costas atrás da outra. A convenção do PT foi driblada pela deserção do PTB e depois por uma jogada bem ensaiada de Aécio com Cabral e Pezão no Rio. O "Aezão" agora é orgânico.
Assim, Dilma divide seus palanques no Rio com Aécio, que lhe roubou o PMDB, e com Eduardo Campos, que lhe subtraiu uma fatia da campanha do petista Lindbergh Farias.
Ela não vai repetir o passeio de 2010 no Rio e em Minas e vai ter de suar a camisa em São Paulo. Confirmam-se as dificuldades da petista no "Triângulo das Bermudas", ou "grupo da morte", com cerca de 40% dos votos nacionais.
Isso reforça a sensação de fragilidade que vai se generalizando ou, como disse o lulista Gilberto Carvalho, "a coisa desceu, vai gotejando". Na dúvida, basta olhar os aliados do PT e ver para onde eles vão.
O PTB escancarou sua posição e o PMDB se mexe sorrateiramente rumo à oposição. Garantiu a Vice-Presidência para Michel Temer, mas liberou os pemedebistas para fazer o que bem entenderem nos Estados. Muitos deles estão entendendo que o mais conveniente é partir para outra.
Além do Rio, isso se reflete em outros Estados chaves, como Bahia e Rio Grande do Sul. E quer dizer muita coisa, principalmente a irritação com a vocação hegemônica do PT e a falta de confiança nas chances de vitória de Dilma.
Com esses dois argumentos, líderes do PSD pressionam Gilberto Kassab para que o partido opte pela neutralidade. Ele parece irredutível, mas perdeu o rumo sem a vaga de vice de Alckmin e foi à convenção do PT rapidinho, só a tempo de ser vaiado.
À Folha Gilberto Carvalho fez um diagnóstico realista sobre o clima negativo, que Lula quer enfrentar com a "adrenalina" da militância. Tempo de TV ajuda, mas não resolve, e marketing é científico, não faz milagres. Aliás, o slogan é reconhecimento das dificuldades: Dilma candidata das "mudanças"? Não cola.
Equívoco conceitual - FÁBIO GIAMBIAGI
O ESTADO DE S.PAULO - 24/06
A saída para a situação de baixo crescimento em que se encontra a economia brasileira requer um diagnóstico correto das causas desse desempenho. É nesse ponto que reside o problema da estratégia oficial que vem sendo adotada para lidar com os problemas da economia. Se Drummond dizia que no meio do caminho tinha uma pedra, no caso brasileiro no meio do caminho temos um erro de diagnóstico.
Desde a eleição de 2002, aqueles que viriam a ocupar posições no governo a partir de 2003 pregavam simultaneamente três teses. A primeira era que a retomada do crescimento deveria se basear na constituição de um amplo consumo de massas, o que implicaria que o consumo deveria liderar o crescimento. A segunda - consensual - é que a taxa de investimento deveria aumentar. E a terceira, que era necessário atacar o desequilíbrio externo, o que na ocasião significava aumentar as exportações a uma taxa maior que a das importações. Estaríamos todos de acordo, exceto por um detalhe: era impossível cumprir com os três objetivos ao mesmo tempo, pela simples razão de que a soma das partes deve ser igual ao todo. Consumo, investimento e saldo das relações com o exterior não podem aumentar como proporção do PIB ao mesmo tempo.
Lula julgou ter encontrado a solução mágica para resolver aquela impossibilidade graças ao "paraíso zodiacal" que o País viveu no seu segundo mandato. A mágica atendeu pelo nome de melhora dos termos de troca. Foi ela que permitiu que as importações funcionassem como variável de ajuste, crescendo muito acima das exportações, viabilizando o atendimento da expansão do consumo e do investimento e sem afetar pesadamente o balanço de pagamentos (BP). Entre 2004 e 2010, enquanto as exportações, pelos dados da Funcex, cresceram em termos reais a uma média anual de 2%, as importações cresceram nada menos que 12% a.a. Apesar disso, o superávit comercial de 2010 foi ainda de US$ 20 bilhões, graças ao desempenho excepcional dos termos de troca. Hoje, a festa acabou e essa mágica não é mais possível: se o consumo e o investimento crescerem muito, as importações avançarão na frente das exportações e o balanço de pagamentos exibirá um déficit monstruoso.
O que ocorreu naqueles anos, mitigado pelos termos de troca, respondia ao esquema de quem se acostumou a pensar no mundo da restrição de demanda. Nesse caso, de fato, não importam muito os coeficientes relativos ao PIB, porque é possível que o numerador de todos os coeficientes se expanda e a expansão do consumo e do investimento seja satisfeita pelo aumento de tamanho do PIB, sem pressionar excessivamente a balança comercial em termos absolutos. Quando a restrição é de oferta, porém, maior absorção doméstica bate "na veia" no setor externo, que é rapidamente afetado pelos gargalos domésticos existentes. É esse o caso da economia brasileira em tempos recentes.
É um erro imaginar que a insuficiência de investimentos do País se resolve apenas com melhora de gestão e aprimoramento dos projetos. É claro que se conseguirmos isso teremos dado um passo fantástico, à luz das enormes falhas desse tipo de processos. O que se quer frisar, porém, é que isso é somente parte do problema. Melhorar a gestão é condição necessária, mas não suficiente, para que o investimento ocorra. Para isso, é preciso mudar o perfil da economia: precisamos aumentar a taxa de investimento sem "arrebentar" com o BP, o que só pode ter uma solução: diminuir a relação entre o consumo e o PIB.
O problema é que a agenda nacional vai na direção contrária. Independentemente do seu mérito, as reivindicações em favor de "mais isso e mais aquilo" redundam no que se deveria evitar. Qualquer que seja o(a) presidente, em 2015 ele(a) terá de explicar para a cidadania que é preciso dosar as demandas, pois se elas forem satisfeitas, o investimento terá um desempenho raquítico ou o déficit em conta corrente alcançará mais de US$ 100 bilhões. Não é uma questão (apenas) de gestão: há decisões difíceis a tomar.
A saída para a situação de baixo crescimento em que se encontra a economia brasileira requer um diagnóstico correto das causas desse desempenho. É nesse ponto que reside o problema da estratégia oficial que vem sendo adotada para lidar com os problemas da economia. Se Drummond dizia que no meio do caminho tinha uma pedra, no caso brasileiro no meio do caminho temos um erro de diagnóstico.
Desde a eleição de 2002, aqueles que viriam a ocupar posições no governo a partir de 2003 pregavam simultaneamente três teses. A primeira era que a retomada do crescimento deveria se basear na constituição de um amplo consumo de massas, o que implicaria que o consumo deveria liderar o crescimento. A segunda - consensual - é que a taxa de investimento deveria aumentar. E a terceira, que era necessário atacar o desequilíbrio externo, o que na ocasião significava aumentar as exportações a uma taxa maior que a das importações. Estaríamos todos de acordo, exceto por um detalhe: era impossível cumprir com os três objetivos ao mesmo tempo, pela simples razão de que a soma das partes deve ser igual ao todo. Consumo, investimento e saldo das relações com o exterior não podem aumentar como proporção do PIB ao mesmo tempo.
Lula julgou ter encontrado a solução mágica para resolver aquela impossibilidade graças ao "paraíso zodiacal" que o País viveu no seu segundo mandato. A mágica atendeu pelo nome de melhora dos termos de troca. Foi ela que permitiu que as importações funcionassem como variável de ajuste, crescendo muito acima das exportações, viabilizando o atendimento da expansão do consumo e do investimento e sem afetar pesadamente o balanço de pagamentos (BP). Entre 2004 e 2010, enquanto as exportações, pelos dados da Funcex, cresceram em termos reais a uma média anual de 2%, as importações cresceram nada menos que 12% a.a. Apesar disso, o superávit comercial de 2010 foi ainda de US$ 20 bilhões, graças ao desempenho excepcional dos termos de troca. Hoje, a festa acabou e essa mágica não é mais possível: se o consumo e o investimento crescerem muito, as importações avançarão na frente das exportações e o balanço de pagamentos exibirá um déficit monstruoso.
O que ocorreu naqueles anos, mitigado pelos termos de troca, respondia ao esquema de quem se acostumou a pensar no mundo da restrição de demanda. Nesse caso, de fato, não importam muito os coeficientes relativos ao PIB, porque é possível que o numerador de todos os coeficientes se expanda e a expansão do consumo e do investimento seja satisfeita pelo aumento de tamanho do PIB, sem pressionar excessivamente a balança comercial em termos absolutos. Quando a restrição é de oferta, porém, maior absorção doméstica bate "na veia" no setor externo, que é rapidamente afetado pelos gargalos domésticos existentes. É esse o caso da economia brasileira em tempos recentes.
É um erro imaginar que a insuficiência de investimentos do País se resolve apenas com melhora de gestão e aprimoramento dos projetos. É claro que se conseguirmos isso teremos dado um passo fantástico, à luz das enormes falhas desse tipo de processos. O que se quer frisar, porém, é que isso é somente parte do problema. Melhorar a gestão é condição necessária, mas não suficiente, para que o investimento ocorra. Para isso, é preciso mudar o perfil da economia: precisamos aumentar a taxa de investimento sem "arrebentar" com o BP, o que só pode ter uma solução: diminuir a relação entre o consumo e o PIB.
O problema é que a agenda nacional vai na direção contrária. Independentemente do seu mérito, as reivindicações em favor de "mais isso e mais aquilo" redundam no que se deveria evitar. Qualquer que seja o(a) presidente, em 2015 ele(a) terá de explicar para a cidadania que é preciso dosar as demandas, pois se elas forem satisfeitas, o investimento terá um desempenho raquítico ou o déficit em conta corrente alcançará mais de US$ 100 bilhões. Não é uma questão (apenas) de gestão: há decisões difíceis a tomar.
Abreu e Lima continua a assombrar governo - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 24/06
Interesses de partidos, ideologias e pessoas fizeram com que o custo operacional da refinaria deva ser duas vezes superior à média mundial
A Petrobras oficialmente insiste que tudo transcorre dentro da normalidade, enquanto o governo atua no front político para evitar qualquer possibilidade de investigação séria no Congresso, onde há uma CPI chapa-branca instalada no Senado e outra, mista, de deputados e senadores, em que existe algum risco para o Planalto.
Mas, apesar de todas as manobras, os gritantes desmandos na execução do projeto da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, continuam a se impor por si mesmos. São tamanhos os desvios que, recorrendo à imagem desgastada do lixo jogado para baixo do tapete, conclui-se que a capacidade de toda a indústria de tecelagem não parece capaz de encobrir tudo que tem sido descoberto nessa história exemplar de como não se pode subordinar a ação do Estado a interesses de partidos, ideologias e pessoas. Houve a conjugação desses três fatores no escândalo de Abreu e Lima.
Não é sempre, mesmo na indústria do petróleo, onde as cifras são contabilizadas em bilhões de dólares, que um projeto orçado há 11 anos em US$ 2,3 bilhões chega a US$ 18,5 bilhões, dado de abril, e pode ter um custo final de US$ 20,1 bilhões.
Reportagens publicados pelo GLOBO domingo e ontem traçam o roteiro de como o projeto, uma decisão conjunta dos amigos e aliados político-ideológicos Lula e Hugo Chávez, atropelou a sensatez e relatórios técnicos, para fazer surgir uma refinaria cujo preço do barril refinado será de US$ 87 mil, mais que o dobro da média mundial. E pior para o Brasil, pois Chávez morreu e os venezuelanos, que já não colocavam dinheiro no projeto, deixaram de vez a pesada fatura com a Petrobras. Por tabela, para o Tesouro, sustentado pelo contribuinte.
Cada vez mais se entende o sentido da afirmação do ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa à “Folha de S.Paulo”, entre uma prisão preventiva e outra, de que Abreu e Lima foi aprovada a partir de uma “conta de padeiro”. Quer dizer, a Petrobras, à época sob controle do lulopetismo sindicalista e aparelhada por indicações políticas, mesmo de técnicos da casa, se subordinou à vontade política do Planalto e do partido no poder.
Paulo Roberto Costa, diretor de Abastecimento, ele próprio apadrinhado (PP, PT e PMDB), conhece a história por dentro, porque presidiu o conselho de administração da refinaria. E nessa condição atuou na aprovação de inúmeros aditivos em contratos com empreiteiras e fornecedores de bens e serviços em geral, causa da explosão dos custos do projeto — em dólares, quase 800% acima do orçado.
Paulo Roberto está preso, de forma preventiva, a pedido da Polícia Federal, enquanto transcorre a Operação Lava-Jato, sobre bilionário esquema de lavagem de dinheiro administrado pelo doleiro Alberto Youssef, antigo conhecido do submundo da política. Impossível não relacionar uma coisa com a outra.
Interesses de partidos, ideologias e pessoas fizeram com que o custo operacional da refinaria deva ser duas vezes superior à média mundial
A Petrobras oficialmente insiste que tudo transcorre dentro da normalidade, enquanto o governo atua no front político para evitar qualquer possibilidade de investigação séria no Congresso, onde há uma CPI chapa-branca instalada no Senado e outra, mista, de deputados e senadores, em que existe algum risco para o Planalto.
Mas, apesar de todas as manobras, os gritantes desmandos na execução do projeto da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, continuam a se impor por si mesmos. São tamanhos os desvios que, recorrendo à imagem desgastada do lixo jogado para baixo do tapete, conclui-se que a capacidade de toda a indústria de tecelagem não parece capaz de encobrir tudo que tem sido descoberto nessa história exemplar de como não se pode subordinar a ação do Estado a interesses de partidos, ideologias e pessoas. Houve a conjugação desses três fatores no escândalo de Abreu e Lima.
Não é sempre, mesmo na indústria do petróleo, onde as cifras são contabilizadas em bilhões de dólares, que um projeto orçado há 11 anos em US$ 2,3 bilhões chega a US$ 18,5 bilhões, dado de abril, e pode ter um custo final de US$ 20,1 bilhões.
Reportagens publicados pelo GLOBO domingo e ontem traçam o roteiro de como o projeto, uma decisão conjunta dos amigos e aliados político-ideológicos Lula e Hugo Chávez, atropelou a sensatez e relatórios técnicos, para fazer surgir uma refinaria cujo preço do barril refinado será de US$ 87 mil, mais que o dobro da média mundial. E pior para o Brasil, pois Chávez morreu e os venezuelanos, que já não colocavam dinheiro no projeto, deixaram de vez a pesada fatura com a Petrobras. Por tabela, para o Tesouro, sustentado pelo contribuinte.
Cada vez mais se entende o sentido da afirmação do ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa à “Folha de S.Paulo”, entre uma prisão preventiva e outra, de que Abreu e Lima foi aprovada a partir de uma “conta de padeiro”. Quer dizer, a Petrobras, à época sob controle do lulopetismo sindicalista e aparelhada por indicações políticas, mesmo de técnicos da casa, se subordinou à vontade política do Planalto e do partido no poder.
Paulo Roberto Costa, diretor de Abastecimento, ele próprio apadrinhado (PP, PT e PMDB), conhece a história por dentro, porque presidiu o conselho de administração da refinaria. E nessa condição atuou na aprovação de inúmeros aditivos em contratos com empreiteiras e fornecedores de bens e serviços em geral, causa da explosão dos custos do projeto — em dólares, quase 800% acima do orçado.
Paulo Roberto está preso, de forma preventiva, a pedido da Polícia Federal, enquanto transcorre a Operação Lava-Jato, sobre bilionário esquema de lavagem de dinheiro administrado pelo doleiro Alberto Youssef, antigo conhecido do submundo da política. Impossível não relacionar uma coisa com a outra.
Administrar o tempo - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 24/06
A uma semana do prazo final para a definição das candidaturas para a eleição deste ano, quem soube administrar melhor o tempo de decisões, uma arte da política, levou vantagem na armação das coligações. No lado da oposição, o PSDB saiu na frente do PSB nesta primeira etapa da disputa, muito porque o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos perdeu tempo administrando sua relação com a Rede de Marina Silva.
A união com a ex-senadora pareceu, no primeiro momento, uma jogada de mestre de Campos para fortalecer a oposição, mas, com o passar do tempo, Marina mostrou-se mais isolacionista do que Campos se dispunha a ser. Marina levou o PSB a se colocar como oposição tanto ao PT quanto ao PSDB, na tentativa de marcar uma diferenciação entre as candidaturas de Campos e Aécio e quebrar a polarização dos dois principais concorrentes à Presidência.
A estratégia não funcionou, muito também porque Campos escolheu a posição dúbia de centrar suas críticas à presidente Dilma e preservar o ex-presidente Lula, o que retirou de sua candidatura a marca de oposicionista, deixando o PSDB de Aécio livre nessa raia.
A união implícita do PSB com o PSDB caracterizava a candidatura de Campos na área oposicionista, e o potencial apoio recíproco no segundo turno fortalecia ambas as candidaturas. Na análise dos tucanos, Campos piscou muito cedo ao se colocar também como oposição ao PSDB, e deixou crescer a impressão de que poderia ser um aliado em potencial do PT no segundo turno, devido à sua ligação com Lula.
O ex-presidente também ajudou a colocar Campos na defensiva ao dizer que ele não podia exagerar nas críticas, porque, até pouco tempo, estava no campo governista. Lula, como já fizera anteriormente com José Serra, deixou sempre claro que sua candidata era Dilma, retirando a chance de que petistas descontentes encontrassem na candidatura de Campos uma alternativa na área de influência petista.
O receio de ficar sem identidade diante do eleitor confirmou-se com a queda nas pesquisas. Por isso, nas últimas semanas, Campos voltou ao ponto de partida para fazer alianças pragmáticas, como as que fechou em SP, apoiando o governador Geraldo Alckmin, e no Rio, em apoio à candidatura de Lindbergh Farias, do PT, ao governo do estado, contra a opinião de Marina.
O que perdeu em coerência ganhou em apoio político em dois dos principais colégios eleitorais do país. Em Minas, é possível que acabe mesmo apoiando a candidatura tucana de Pimenta da Veiga, como era o plano original. Já Aécio Neves conseguiu o que era considerado impossível: unir o PSDB.
Por incrível que pareça, o PSDB hoje é o único partido na disputa unido em torno da candidatura do senador mineiro, inclusive a regional paulista do partido. A administração inteligente do tempo partidário deu frutos, com a adesão do PTB à candidatura nacional e o acordo com o DEM no Rio para apoiar a candidatura de Pezão, do PMDB, ao governo do estado.
Deixando as convenções para o último dia do prazo oficial, Aécio ganhou tempo para negociar apoios e ainda espera duas novas defecções no bloco governista. A adesão do PSD, que seria a cereja no bolo com a indicação de Henrique Meirelles para a vice-presidência na sua chapa, parece difícil de se concretizar, mas é possível que o PP se decida pela neutralidade, o que tiraria alguns minutos da propaganda de Dilma.
A presidente, por sua vez, tem como seu grande apoio Lula, que traz com ele a expectativa de poder que mantém unida a maioria dos partidos da base aliada. Mas, se não reverter a situação de declínio em que se encontra nas pesquisas, mesmo estando à frente da disputa, pode ser simplesmente abandonada por seus aliados durante a campanha eleitoral.
A maioria deles entra dividido na campanha, mesmo os que oficialmente apoiam sua reeleição, até o PT, que tem em Lula seu candidato natural. O PMDB já tem dissidências abertas em vários estados. A maioria do PSD está em coligação com o PSDB nos estados, e somente a garantia pessoal do criador do partido, o ex-prefeito Gilberto Kassab, mantém o apoio oficial à reeleição de Dilma. O PP, mesmo que dê o tempo de propaganda ao PT, continuará dividido.
O que os une é a expectativa de vitória, que, mais que nunca, Lula mantém viva no banco de reservas, como principal cabo eleitoral de Dilma, ou, em último caso, como muitos ainda sonham, esperança de gol nos minutos finais do jogo, como Messi fez com a Argentina.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Estímulo à intolerância, ao ódio e à divisão do País”
Aécio Neves (PSDB) definindo as ameaças do PT de perseguir os críticos do governo
Abin cria aplicativo clone do Whatsapp
Após a espionagem dos Estados Unidos contra autoridades brasileiras, que não foi capaz de evitar, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) criou um aplicativo de troca instantânea de mensagens semelhante ao consagrado Whatsapp. Batizado de "Whatsbin", o aplicativo dos arapongas da Abin se chama na verdade Athenas e garante utilizar um sistema de mensagens criptografadas que seriam "ingrampeáveis".
Mercado
O “Whatsbin” interessa a políticos poderosos de Brasília, que temem a quebra de sigilo, porque seria, além de “ingrampeável”, “irrastreável”.
Clientela
Várias autoridades do governo passaram a usar o “Whatsbin”, como o secretário-adjunto da Casa Civil, Gilson Alceu Bittencourt.
‘Te amo’
Entre os “traídos” pelo Whatsapp estão o doleiro Alberto Youssef e o deputado Luiz Argôlo (SDD-BA), pegos em grampos dos federais.
Flagra
A Operação Lava Jato, da PF, flagrou mais de duzentas mensagens de Whatsapp do deputado André Vargas (PT-PR) com o doleiro Youssef.
PF alega sigilo
Ignora-se o destino de dezenas de armas que a Polícia Federal destruiu quando começou a utilizar somente pistolas Glock em serviço. Confrontada num pedido de acesso à Lei da Informação, a PF alegou “informação sigilosa” para preservar “a segurança da sociedade e do Estado”, mesma alegação dos cartões corporativos do Planalto, recordistas em “sigilo” e gastança. Também não revela o nº de armas.
Mão no gatilho
A PF negou-se a dizer quem autorizou e também se as armas teriam sido entregues ao Exército, como deveria, a fim de destruí-las.
Falou demais
Muitos petistas reclamaram do interminável discurso de Dilma na convenção do PT. Boa parte dos delegados foi embora antes do final.
Base de lançamento
Merece uma chuva de ovos o jerico que colocou em pauta na Câmara dos Deputados um projeto criando o Dia Nacional do Ovo.
Nem pensar
Dos 11 pontos previstos para o Live Site, o “Fan Fest” dos Jogos Olímpicos, um já foi descartado: Santa Tereza. A ideia foi abandonada pelo Comitê de Segurança das Olimpíadas do Rio de Janeiro.
Pedindo demais
Gilberto Kassab (PSD) tentou uma última cartada: sair candidato ao governo paulista com o Solidariedade de vice, mas mantendo o apoio a Dilma. Fechado com Geraldo Alckmin (PSDB), o Solidariedade rejeitou.
Público virou privado
Senadores do PT utilizaram, sem o menor pudor, carro oficial do Senado para ir à convenção nacional do PT que ratificou no último sábado (23), em Brasília, candidatura à reeleição da presidente Dilma.
Sob controle
A cúpula do PP tranquilizou o Planalto quanto a rompimento com Dilma na convenção nacional, nesta quarta (25). O foco de rebeldia se limita ao Rio, de Francisco Dornelles, e Rio Grande do Sul, de Ana Amélia.
Rasteira
Causou mal estar no PP a decisão de Sérgio Cabral (PMDB), orientado pelo tucano Aécio Neves, de rifar a candidatura de Francisco Dornelles (PP) e oferecer a César Maia (DEM) a vaga para disputar ao Senado.
Mestre Maduro
Ignora-se a expertise da Venezuela em Segurança e Defesa, mas o ministro Celso Amorim despachou para lá um coronel do Exército para fazer mestrado de 11 meses às nossas custas, em setembro.
Último dia
O relator Marcos Rogério (PDT-RO) prorrogou até esta terça (24) o prazo para o deputado Luiz Argôlo (SDD-BA) apresentar defesa no Conselho de Ética sobre suas relações com doleiro Alberto Youssef.
Quase lá
Está praticamente fechada a candidatura de José Serra ao Senado em São Paulo. O tucano exige exclusividade, mas o PTB ameaça lançar a candidatura avulsa de Marlene Campos Machado.
Pensando bem...
...dizendo asneiras docemente desmentidas pela família petista, Lula lembra aquele tio velho meio demente, tolerado por ter a chave do cofre.
PODER SEM PUDOR
De política e virgindade
Exímio frasista, Geddel Vieira Lima certa vez reuniu a bancada da Bahia na Câmara, logo após a sua posse como ministro da Integração, sob o impacto da sugestão do então presidente Lula para que o americano George W. Bush buscasse seu "ponto G". Geddel resolveu explicar por que ele, de oposição ao PT, aliou-se a Lula:
- Em tempo de citações eróticas, devo dizer que aos 18 anos eu definia o caráter da mulher pela virgindade; aos 48, considero isso uma besteira...
Hoje aos 55 anos, ele se aligou aos "carlistas" na Bahia, que sempre o atacaram, para enfrentar a chapa liderada pelo PT.
Aécio Neves (PSDB) definindo as ameaças do PT de perseguir os críticos do governo
Abin cria aplicativo clone do Whatsapp
Após a espionagem dos Estados Unidos contra autoridades brasileiras, que não foi capaz de evitar, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) criou um aplicativo de troca instantânea de mensagens semelhante ao consagrado Whatsapp. Batizado de "Whatsbin", o aplicativo dos arapongas da Abin se chama na verdade Athenas e garante utilizar um sistema de mensagens criptografadas que seriam "ingrampeáveis".
Mercado
O “Whatsbin” interessa a políticos poderosos de Brasília, que temem a quebra de sigilo, porque seria, além de “ingrampeável”, “irrastreável”.
Clientela
Várias autoridades do governo passaram a usar o “Whatsbin”, como o secretário-adjunto da Casa Civil, Gilson Alceu Bittencourt.
‘Te amo’
Entre os “traídos” pelo Whatsapp estão o doleiro Alberto Youssef e o deputado Luiz Argôlo (SDD-BA), pegos em grampos dos federais.
Flagra
A Operação Lava Jato, da PF, flagrou mais de duzentas mensagens de Whatsapp do deputado André Vargas (PT-PR) com o doleiro Youssef.
PF alega sigilo
Ignora-se o destino de dezenas de armas que a Polícia Federal destruiu quando começou a utilizar somente pistolas Glock em serviço. Confrontada num pedido de acesso à Lei da Informação, a PF alegou “informação sigilosa” para preservar “a segurança da sociedade e do Estado”, mesma alegação dos cartões corporativos do Planalto, recordistas em “sigilo” e gastança. Também não revela o nº de armas.
Mão no gatilho
A PF negou-se a dizer quem autorizou e também se as armas teriam sido entregues ao Exército, como deveria, a fim de destruí-las.
Falou demais
Muitos petistas reclamaram do interminável discurso de Dilma na convenção do PT. Boa parte dos delegados foi embora antes do final.
Base de lançamento
Merece uma chuva de ovos o jerico que colocou em pauta na Câmara dos Deputados um projeto criando o Dia Nacional do Ovo.
Nem pensar
Dos 11 pontos previstos para o Live Site, o “Fan Fest” dos Jogos Olímpicos, um já foi descartado: Santa Tereza. A ideia foi abandonada pelo Comitê de Segurança das Olimpíadas do Rio de Janeiro.
Pedindo demais
Gilberto Kassab (PSD) tentou uma última cartada: sair candidato ao governo paulista com o Solidariedade de vice, mas mantendo o apoio a Dilma. Fechado com Geraldo Alckmin (PSDB), o Solidariedade rejeitou.
Público virou privado
Senadores do PT utilizaram, sem o menor pudor, carro oficial do Senado para ir à convenção nacional do PT que ratificou no último sábado (23), em Brasília, candidatura à reeleição da presidente Dilma.
Sob controle
A cúpula do PP tranquilizou o Planalto quanto a rompimento com Dilma na convenção nacional, nesta quarta (25). O foco de rebeldia se limita ao Rio, de Francisco Dornelles, e Rio Grande do Sul, de Ana Amélia.
Rasteira
Causou mal estar no PP a decisão de Sérgio Cabral (PMDB), orientado pelo tucano Aécio Neves, de rifar a candidatura de Francisco Dornelles (PP) e oferecer a César Maia (DEM) a vaga para disputar ao Senado.
Mestre Maduro
Ignora-se a expertise da Venezuela em Segurança e Defesa, mas o ministro Celso Amorim despachou para lá um coronel do Exército para fazer mestrado de 11 meses às nossas custas, em setembro.
Último dia
O relator Marcos Rogério (PDT-RO) prorrogou até esta terça (24) o prazo para o deputado Luiz Argôlo (SDD-BA) apresentar defesa no Conselho de Ética sobre suas relações com doleiro Alberto Youssef.
Quase lá
Está praticamente fechada a candidatura de José Serra ao Senado em São Paulo. O tucano exige exclusividade, mas o PTB ameaça lançar a candidatura avulsa de Marlene Campos Machado.
Pensando bem...
...dizendo asneiras docemente desmentidas pela família petista, Lula lembra aquele tio velho meio demente, tolerado por ter a chave do cofre.
PODER SEM PUDOR
De política e virgindade
Exímio frasista, Geddel Vieira Lima certa vez reuniu a bancada da Bahia na Câmara, logo após a sua posse como ministro da Integração, sob o impacto da sugestão do então presidente Lula para que o americano George W. Bush buscasse seu "ponto G". Geddel resolveu explicar por que ele, de oposição ao PT, aliou-se a Lula:
- Em tempo de citações eróticas, devo dizer que aos 18 anos eu definia o caráter da mulher pela virgindade; aos 48, considero isso uma besteira...
Hoje aos 55 anos, ele se aligou aos "carlistas" na Bahia, que sempre o atacaram, para enfrentar a chapa liderada pelo PT.
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