terça-feira, maio 06, 2014

Imagina depois da Copa! - PAULO G.M. DE MOURA

O Estado de S.Paulo - 06/05

No marketing político, as pesquisas qualitativas são importantes ferramentas para auxiliar os estrategistas no posicionamento, na administração da imagem pública e na calibragem do discurso das candidaturas. Informações veiculadas pela Folha de S.Paulo recentemente dão conta de que a presidente-candidata Dilma Rousseff teria mudado seu discurso sobre a Copa de 2014 após ver pesquisas de avaliação do impacto das jornadas de junho de 2013 na opinião pública. Segundo essas sondagens, a população vê com ceticismo o legado da Copa e como "maquiagem" as obras para garantir o sucesso do mundial.

Em razão disso, a presidente-candidata passou a minimizar a retórica do legado da Copa associado às obras de infraestrutura, passando a focar seu discurso no orgulho ufanista dos brasileiros, eufóricos em ver o "país do futebol" sediar o principal evento global contemporâneo. O bordão desse novo discurso de Dilma seria "a Copa das Copas", sugerido pelo consagrado publicitário Nizan Guanaes, que foi o estrategista das campanhas vitoriosas de FHC em 1994 e 1998.

Por trás da percepção de "maquiagem" relacionada às obras da Copa residiria o sentimento da sociedade de que, passado o evento, tudo voltará a ser como antes e de que subjacente ao propalado legado da Copa estaria o velho "jeitinho brasileiro", agora percebido como algo negativo. Apesar do ufanismo de parte da população, a Copa de 2014 estaria sendo contaminada pelo temor da falta de segurança pública e pela herança de um amontoado de obras inacabadas.

Por fim, a associação do governo com a Fifa seria foco "das mais cáusticas críticas", razão pela qual o governo passou a se apresentar à opinião pública como fiscal das obras, e não como construtor dos estádios - elogiados pela qualidade, mas criticados pelo contraste com os péssimos serviços públicos de transporte, saúde, educação e segurança.

Neste momento em que as pesquisas quantitativas publicadas projetam o favoritismo da presidente-candidata, as conclusões dessa sondagem qualitativa do governo suscitam reflexões.

Em primeiro lugar, chama a atenção a percepção revelada pela pesquisa de que o "jeitinho brasileiro", que antes era visto como atributo de criatividade, agora é associado à conotação de "esperteza" e "maquiagem". Em segundo lugar, impressiona a consciência dessa parcela da sociedade, que já percebeu que os verdadeiros legados da Copa serão os estádios vazios e mal acabados, obras urbanas inacabadas, corrupção e desperdício de dinheiro público. Foi essa camada da população que forçou a presidente-candidata a reposicionar seu discurso para o foco no bordão "a Copa das Copas".

E o que sugere o slogan "a Copa das Copas"? No mínimo, que "nunca antes na história" deste planeta haveria uma Copa tão grandiosa como a Copa de 2014. Certo, Monsieur Jérôme Valcke? Mas o que seria a melhor Copa do Mundo de todos os tempos? Aquela em que o Brasil terá um desempenho arrasador, infinitamente superior ao dos adversários, vencendo todas as partidas de goleada e sagrando-se hexacampeão? É isso, Nizan Guanaes? Será, João Santana?

Se não, então "a Copa das Copas" seria aquela em que o Brasil daria um show de cobertura de TV, superando espetacularmente a qualidade midiática das Copas anteriores? Nossa televisão, notadamente na cobertura do futebol, já é uma das melhores do mundo. Estamos bem nesse quesito, mas certamente não será por isso que a Copa de 2014 seria "a Copa das Copas". Certo, Galvão Bueno?

O que seria "a Copa das Copas" para o povo brasileiro? Levando em conta as expectativas forjadas e alimentadas pelo ex-presidente Lula quando se envolveu de forma direta - e inédita para um presidente da República - com a atração da Copa de 2014 para o Brasil, intui-se que a sociedade brasileira foi levada a crer que, após o crescimento de 7,5% do PIB em 2010 e a eleição da presidente Dilma, o ano que se inicia seria o da entrada triunfal do Brasil no G8+1. Com direito a trem-bala, assento no Conselho de Segurança da ONU e, é claro, a reeleição de Dilma para um quarto mandato consecutivo do PT na Presidência da República.

Teríamos, assim, pelas mãos de Lula, chegado àquele momento mágico da história da Nação em que o gigante se levantaria do berço esplêndido para transformar em presente o bordão do regime militar, que nos anos 70 nos vendeu o sonho do "país do futuro". E legou-nos a hiperinflação e dívidas astronômicas.

No entanto, aprende-se nas disciplinas de qualquer curso de introdução ao marketing que o produto cujo conteúdo não corresponde aos atributos anunciados na embalagem e enaltecidos pela publicidade não sobrevive no mercado.

O que dizer deste "produto", o Brasil com que Lula embalou os sonhos da maioria que elegeu Dilma? O ex-presidente Lula está entregando ao povo o Brasil que "vendeu"? O Brasil que Lula nos lega "nunca antes" foi este país que temos hoje?

Serviços públicos "padrão Fifa"? Esquece! Mas e os estádios? Sim, pelo menos as arenas "padrão Fifa" Lula precisaria nos entregar para termos uma Copa equivalente à da África do Sul. Mas nem isso, presidente Lula? O que dizer da infraestrutura urbana? Maquiagem e improviso na finalização dos estádios; obras inacabadas; jeitinho aqui, jeitinho ali; desperdício; corrupção; dívidas bilionárias.

Assim, a Copa de 2014, com ou sem vitória do Brasil, se esgota como produto de consumo, no mês de julho, substituída que será pela pauta da eleição presidencial. As pesquisas qualitativas já apontavam, em 2013, o "mercado" dividido na percepção do legado deste evento. Já ali existia a sensação da população de que, passada a Copa, "tudo voltará a ser como antes". Que sentimento prevalecerá quando a avalanche de euforia midiática da "Copa das Copas" se converter em horário eleitoral gratuito, em pleno "mês do cachorro louco"?

Os estragos do governo petista em estatais - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 06/05

É de suprema ironia que, ao subordinar empresas à visão intervencionista em voga no Planalto, o governo do PT aja como grande inimigo de companhias públicas



É um paradoxo que importantes estatais enfrentem enormes dificuldades num governo do PT, partido que se arvora em intransigente defensor das empresas públicas. Usa, inclusive, esta imagem como instrumento eleitoral. Foi assim em 2006, quando o partido acusou os tucanos e seu candidato a presidente, Geraldo Alckmin, de tramarem mais um programa de privatização, num apelo ao instinto nacionalista das ruas. O PSDB não soube responder à manobra e Alckmin perdeu para Lula.

Tudo desandou no governo de Dilma Roussef, no qual a Petrobras e o braço estatal do setor elétrico sob controle da União enfrentam sérios problemas, curiosamente impostos por políticas equivocadas do Planalto. Se fosse outro governo, com o PT na oposição, já teriam ocorrido tentativas de instalar CPIs no Congresso, e haveria grande mobilização política, em torno de um alegado projeto de levar estatais à ruína, para privatizá-las a preço vil.

Os dados objetivos sobre a Petrobras e a Eletrobras denunciam uma gestão desastrosa. No caso, do principal acionista das empresas.

O mergulho dado pela cotação das ações das duas é revelador. A da Petrobras estava em R$ 29 quando Dilma assumiu. Desabou para abaixo dos R$ 15. Defensores do governo argumentam que, por trás da oscilação do valor de mercado da empresa, há variações no preço do petróleo no mercado internacional. Sim, mas enquanto as cotações voltavam a subir no mundo, a Petrobras continuava a se desvalorizar.

Há, portanto, causas específicas na desvalorização patrimonial da empresa. Duas delas: o uso da estatal como instrumento de controle da inflação, com o virtual congelamento do preço de combustíveis, vendidos no mercado interno abaixo do custo de importação, e a sua conversão em instrumento de substituição de importações de equipamentos, mesmo sob o risco de atrasos na execução de projetos e perda de eficiência operacional. Na administração de Graça Foster, há tentativas de se flexibilizar algumas dessas regras para não prejudicar ainda mais a eficiência da empresa.

No plano geral, é a subordinação da Petrobras a objetivos político-ideológicos que afasta investidores de suas ações. No caso do sistema elétrico, há também a subjugação da Eletrobras e subsidiárias ao projeto eleitoreiro de corte da conta de luz em 20%, também a qualquer custo. Resultado: o valor de mercado da Eletrobras caiu 75,8% desde 2010, de R$ 46 bilhões para R$ 11 bilhões. Como para a Petrobras, isso dificulta a capitalização futura da companhia via mercado de ações. Tem sido tão ruinosa a intervenção do governo no setor elétrico que ela gera um rombo fiscal nas contas públicas, devido a subsídios para evitar repasses ao consumidor antes da urnas de outubro.

É de suprema ironia que, ao subordinar estatais à visão intervencionista em voga no Planalto, o governo do PT aja como grande inimigo de empresas públicas.

A segunda unção de Dilma - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 06/05

O primeiro-companheiro Luiz Inácio Lula da Silva e a cúpula do PT cumpriram à risca no último fim de semana a inadiável tarefa de relançar a candidatura da presidente Dilma Rousseff à reeleição. Inadiável porque, desde fevereiro de 2013, quando o seu padrinho achou necessário antecipar em mais de um ano a sagração da pré-candidata, precisamente para extinguir os focos de "Volta, Lula" que já crepitavam dentro e fora do partido, a tendência a recusar uma segunda chance à titular do Planalto só se encorpou.

Para resumir o efeito acumulado do desgaste do seu patrimônio eleitoral e a progressiva perda de confiança na sua capacidade de cumprir um segundo mandato com menos teimosia, incompetência, ideias fora do lugar e desdém pela opinião alheia, basta dizer que Dilma jamais conseguiu se recuperar politicamente do baque nas pesquisas de avaliação do seu governo à época das manifestações de junho passado. Os protestos puseram em evidência o padrão inaceitável dos serviços públicos a que precisa recorrer a grande maioria da população, toda ela, aliás, altamente taxada.

Ainda que o Executivo federal não tenha o monopólio da culpa pelas agruras dos brasileiros - cuja qualidade de vida, já se disse, só melhorou da porta de casa para dentro -, é natural que a mais alta autoridade do País seja cobrada também pela parte que não lhe toca diretamente no descalabro. Além disso, até as malpassadas respostas de Dilma às demandas da rua - incluindo a jogada populista de fazer a reforma política por plebiscito - foram ofuscadas pela reaparição do inimigo número um do povo: a alta dos preços. O novo surto inflacionário é a mais importante causa singular da erosão do favoritismo de Dilma nas sondagens.

Nesse quadro, como no proverbial círculo vicioso, o "Volta, Lula" com força renovada debilitou ainda mais a já combalida liderança de Dilma, a ponto de um político do PR governista se fazer fotografar pendurando o retrato do ex-presidente no seu gabinete. (Os deputados da legenda se queixam de não terem visto ainda este ano a cor do dinheiro para as emendas parlamentares de que dependem para se reeleger.) Dilma, fiel ao seu costume de atirar primeiro, mesmo que no próprio pé, e pensar depois, respondeu que "vai tocar em frente", com ou sem a base aliada. A essa altura, de todo modo, a operação corta-fogo já tinha sido acertada a quatro mãos com Lula.

Dilma fez a sua parte na véspera do Dia do Trabalho com um pronunciamento de palanque. Em 12 minutos na rede nacional, anunciou bondades, atacou a oposição e deixou claro até para um recém-chegado de Marte que não arredaria pé da candidatura.

Dois dias depois, foi Lula quem tomou posição sob os holofotes. Para a elite partidária presente ao 14.º Encontro Nacional do PT, instada já na abertura do show a dar o sinal vermelho - no sentido petista - à recandidatura Dilma, "a lenda", como ela chamou o seu mentor, cobrou da afilhada outras sortidas de borduna em punho, exortou-a a divulgar melhor as suas presumíveis realizações, desancou a imprensa e disse as palavras que, por dever de ofício, ela destacaria no dia seguinte.

"É preciso parar de imaginar que existe outro candidato (em lugar de Dilma)", como se ele mesmo não tivesse imaginado essa possibilidade quando o governo deu os primeiros sinais de fazer água. "Quando a gente brinca com isso, os adversários aproveitam." Ele sabe muito bem que gente saudosa do seu companheirismo no poder e da naturalidade com que beneficiava quem lhe conviesse só fala daquilo a sério. Mesmo em setores do eleitorado de Aécio Neves e de Eduardo Campos não haverão de ser irrisórios os nostálgicos da era Lula. Terminada a festa petista no Anhembi, em São Paulo, Lula deixou - inadvertidamente ou não - uma sombra no ambiente.

"Se algum dia eu tiver que ser candidato a alguma coisa", avisou assim que ungiu a sua candidatura, "a primeira pessoa a saber será a companheira Dilma." Segundo uma leitura desprevenida, a frase, indicando um futuro distante, seria apenas uma demonstração de lealdade. Mas haverá quem ache aí a esperança de que o futuro venha ainda este ano.

Discurso eleitoreiro - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 06/05

Em campanha na busca do segundo mandato, pronunciamento de Dilma Rousseff alusivo ao Dia do Trabalho não teve surpresas



Cumprindo a praxe, a presidente Dilma Rousseff falou em cadeia nacional de rádio e televisão na véspera do Dia do Trabalho. Seria apenas mais um pronunciamento presidencial típico dessa data se não fosse o fato de a presidente estar em campanha na busca do segundo mandato. Dilma tratou de muitos assuntos, começando por culpar a crise internacional pelas dificuldades do país e atribuindo os tropeços na área de energia aos problemas climáticos.

Referindo-se aos escândalos na maior empresa do país, a Petrobras –alguns ocorridos no período em que Dilma Rousseff presidia o Conselho de Administração da empresa –, a presidente reafirmou sua disposição para combater a corrupção e investigar todas as denúncias. Essa parte da fala presidencial não bate com a disposição férrea do governo de impedir que o Congresso Nacional investigue o caso por meio de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).

No terreno do concreto, a presidente anunciou algumas medidas como a correção da tabela do Imposto de Renda em 4,5%. Esse tributo incide com alíquotas diferentes conforme a faixa de renda e, pela nova tabela a vigorar em 2015, estará isento quem ganhar até R$ 1.868,22 por mês. Desse valor em diante, seguem as alíquotas de 7,5%, 15%, 22,5% e 27,5%, pois o imposto é progressivo e paga mais quem tem renda maior. Vale lembrar que existe inflação no país (a estimativa para 2014 é que o IPCA fique na casa dos 6,5%) e os reajustes salariais iguais à inflação não melhoram a vida do trabalhador, pois apenas fazem a reposição do poder de compra corroído pela elevação dos preços.

Assim, a correção da tabela em 4,5% não cobre sequer a inflação do ano, mas foi divulgada por Dilma como se fosse um benefício ao trabalhador. A verdade é bem outra. O próprio sindicato dos auditores fiscais da Receita Federal informa que essa tabela está defasada em 61,4%. Ao não corrigi-la pelos índices de inflação desde 1996, na prática o governo está aumentando a tributação real sobre os rendimentos do trabalho. Apesar disso, a presidente declarou textualmente que “isso vai significar um importante ganho salarial indireto e mais dinheiro no bolso do trabalhador”.

Outra medida anunciada foi o reajuste no valor do Bolsa Família em 10%, elevando o benefício básico do programa de R$ 70 para R$ 77. Segundo a ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campelo, o valor médio recebido pelas famílias beneficiadas chegará a R$ 167 por mês e custará aumento de despesas de R$ 1,7 bilhão até o fim deste ano e R$ 2,7 bilhões em 2015 (o gasto total do Bolsa Família em 2014 está orçado em R$ 24,6 bilhões).

O Bolsa Família é uma consolidação de vários programas sociais implantados desde o governo Sarney (o programa do leite), passando pelo governo Fernando Henrique (o Bolsa Escola, o Auxílio Gás, o Bolsa Alimentação, o Cartão Alimentação) e pelo governo Lula (o Fome Zero). Hoje, 36 milhões de brasileiros são beneficiados e trata-se de uma política de transferência de renda incorporada à realidade do país, tornando-se um programa de Estado, que será mantido independentemente de quem venha a ser o governante.

A presidente se comprometeu também a manter a política de reajustes do salário mínimo, atualmente em R$ 724, e deu alfinetadas nos que, segundo ela, dizem ter havido elevação maior do que devia. Alguns analistas afirmam que os salários médios na indústria cresceram mais que a produtividade/hora do trabalho, prejudicando a capacidade competitiva da indústria nacional. Quando isso ocorre, a única forma de evitar que os exportadores tenham prejuízos é pela desvalorização do real frente ao dólar, a fim de compensar a sobrelevação dos salários internos. O efeito indesejável do aumento do preço do dólar está no risco de aumento da inflação decorrente da elevação, em reais, dos custos das matérias-primas importadas.

A presidente afirmou ainda que seu governo está comprometido com o crescimento, a estabilidade, o controle rigoroso da inflação e a administração correta das contas públicas. Trata-se de afirmação parcialmente verdadeira, pois se há uma área em que o atual governo relaxou foi na gestão das contas fiscais. A diminuição do superávit primário e as constantes manipulações contábeis feitas pelo governo para melhorar os números da economia brasileira pegaram muito mal, razão por que a agência de classificação de riscos Standard & Poor’s rebaixou, em março passado, a nota do Brasil. Se Dilma quiser realmente colocar em prática o seu discurso, o governo terá muito trabalho nos próximos meses.

Racionamento afastado - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 06/05
Governador Geraldo Alckmin descarta rodízio de água neste ano, mas segurança hídrica da Grande São Paulo não está de todo garantida
Após a abertura da Parada do Orgulho Gay de São Paulo, anteontem, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) deixou de lado a hesitação das últimas semanas e afirmou de modo categórico que não haverá racionamento de água na capital paulista ao longo de 2014.
Não deixa de ser uma declaração tranquilizadora, sobretudo no momento em que o volume armazenado do sistema Cantareira, cadente há meses, atinge meros 10% de sua capacidade útil.

Os dados e as ponderações do governo tucano, porém, ainda precisam passar pelo crivo de especialistas para se tornarem irrefutáveis. Diversos técnicos vinham considerando inevitável haver restrições na distribuição de água, e a ausência de explicações claras nos últimos meses gerou compreensível desconfiança na população.

Partiram do secretário de Saneamento e Recursos Hídricos, Mauro Arce, os números por trás do argumento. Três providências principais seriam responsáveis por afastar a perspectiva de racionamento --medida que, de resto, oferece riscos a uma rede antiquada, devido às repetidas variações de pressão.

As duas primeiras ações serviram para conter a utilização de água do Cantareira, que atendia quase 9 milhões de pessoas com uma vazão de 31,77 metros cúbicos por segundo (m³/s) em fevereiro.

O bônus de 30% para quem reduziu o consumo em 20% permitiu cortar em 1,64 m³/s a demanda (em breve deverá vir uma sobretaxa equivalente para quem aumentar o consumo). Além disso, 1,6 milhão de clientes foram remanejados para os sistemas Alto Tietê e Guarapiranga. A retirada de água caiu para 25,3 m³/s em abril.

A terceira providência deve gerar resultado em questão de semanas: o uso do chamado volume morto da represa --ou seja, água que hoje está abaixo do nível de captação.

Com os equipamentos instalados, o nível das represas passaria dos atuais 10% para 28,5%, na primeira etapa (e ganharia outros 21,5 pontos percentuais num segundo momento). Seria o suficiente para garantir o abastecimento até fevereiro de 2015, bem além do reinício das chuvas, em setembro.

O governo de Geraldo Alckmin relaciona ainda investimentos, realizados e contratados, que elevariam em 16,1 m³/s a produção de água tratada para a Grande São Paulo. Um deles, no sistema São Lourenço, exigirá buscar água a 83 km da capital.

A estiagem inusitada mostrou a parte da população paulista que é considerável a insegurança hídrica em que vive. Pressionado, o governo do Estado explicou-se sobre o que faz (ou deixa de fazer) para enfrentar a situação. Baixar a guarda e descuidar da vigilância, de ora em diante, implica aceitar o risco de que a crise se repita.

Portos deficientes - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 06/05

O Brasil é uma das maiores economias do mundo - sexta ou sétima, segundo o critério de cálculo -, mas aparece em modestíssimo 22.º lugar na lista dos exportadores. Que ocorreria, se a indústria nacional, de repente, se tornasse tão competitiva quanto o agronegócio e seu potencial de exportações fosse mais compatível com o tamanho da economia? Parte da resposta é fácil: haveria uma catástrofe logística. Se fosse possível levar a produção exportável aos portos, os contêineres ficariam acumulados em pilhas imensas, porque os navios teriam de partir, como hoje, com carregamento abaixo de sua capacidade. Além disso, faltam condições aos principais portos para receber os navios mais modernos e de maior calado, como informou reportagem no Estado de ontem.

O governo federal, segundo a reportagem, gastou R$ 1,6 bilhão com o programa de dragagem lançado em 2007, mas os resultados foram muito inferiores aos planejados. Continuam com capacidade muito limitada os portos de Santos (SP), o maior e mais importante do Brasil, e os de Salvador (BA), Itapoá (SC) e Rio Grande (RS), entre outros. As deficiências permanecem ou porque o trabalho foi incompleto ou inadequado, ou porque os canais perderam a profundidade por falta de manutenção.

Em Santos, uma ressaca provocou o assoreamento do canal depois da dragagem e foi necessária uma obra emergencial de recuperação.

Os problemas podem ter características diferentes nos vários portos. A profundidade pode ser a desejada nos berços de atracação e insuficiente no canal de acesso. O contrário também pode ocorrer. A profundidade natural pode ser adequada, mas as condições de manobra podem impedir o aproveitamento do canal. Além do mais, segundo fonte citada pelo jornal, as batimetrias para verificação da profundidade são incompatíveis com os padrões da Organização Hidrográfica Internacional e isso dificulta a homologação pela Marinha.

Mais uma vez a escassez de recursos foi o menor dos problemas. Muito mais que dinheiro, faltou ao governo capacidade para planejar, acompanhar e avaliar obras de infraestrutura muito custosas e muito importantes para o crescimento da economia. A inadequação dos portos foi reconhecida há muito tempo como importante obstáculo ao desenvolvimento do País, mas o poder público foi incapaz, até agora, de cuidar do problema com um mínimo de eficiência. Falhou na mobilização de capitais privados e nos investimentos mantidos sob sua responsabilidade.

Segundo o secretário de infraestrutura portuária da Secretaria de Portos, Tiago de Barros Correia, o primeiro Programa Nacional de Dragagem (PND 1) foi um aprendizado. Pode ter sido, mas programas desse tipo estão longe de ser uma novidade e obviamente faltou preparação ao governo brasileiro para cuidar do assunto. Não há nisso grande novidade. Incompetência gerencial tem sido demonstrada em outros programas de infraestrutura. Quanto a isso o desempenho dos vários setores envolvidos em planejamento, contratação e administração de obras ferroviárias, rodoviárias, portuárias e aeroportuárias tem sido homogêneo.

O novo PND envolverá investimentos de R$ 3,8 bilhões. O aprendizado resultará na adoção de novos critérios, destinados a aumentar a segurança quanto aos resultados. Uma das inovações será a adoção de margem de tolerância: as profundidades planejadas serão maiores que as necessárias, para garantir o resultado e a homologação pela Marinha.

É muito arriscado, neste momento, afirmar se o novo plano terá mais sucesso que o primeiro. Por enquanto, qualquer otimismo pode ser precipitado. As más condições de recepção, carregamento e operação de navios são um complemento perfeito para as dificuldades de acesso aos portos, um pesadelo vivido a cada ano pelos exportadores agrícolas. Mas o governo insiste em atribuir as dificuldades econômicas do Brasil às más condições do mercado internacional nos últimos anos. Se os brasileiros mal conseguem embarcar seus produtos de exportação, como reclamar das condições externas?

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“A empresa vai querer tirar lucro no futuro”
Ministro Joaquim Barbosa, presidente do STF, contra doações de empresas a políticos


REVELAÇÕES DE EX-DIRETOR PODEM ‘INCENDIAR’ O PAÍS

Pessoas ligadas ao ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, preso na Operação Lava Jato, garantem: ele não repetirá Marcos Valério, que aguentou firme, não entregou ninguém, preservou o ex-presidente Lula e foi condenado a 37 anos de prisão. Costa pode “incendiar” o País, recorrendo à delação premiada, e contar tudo sobre negociatas, não só na Petrobras, e o envolvimento de autoridades federais e estaduais.

PRIMEIRO, A FAMÍLIA

A delação premiada de Paulo Roberto Costa poderá reduzir sua pena e livrar familiares, que correm risco de cadeia por obstruírem a Justiça.

SOB PROTEÇÃO

São tão graves as esperadas revelações do ex-diretor que sua defesa poderá solicitar sua inclusão no Programa de Proteção a Testemunhas.

SEGURANÇA MÁXIMA

Paulo Roberto Costa foi levado de volta à carceragem da PF para sua segurança. No presídio comum, poderia ser alvo de queima de arquivo.

SILÊNCIO DE OURO

Fornecedores ou parceiros de grande e médio portes da Petrobras, estão insones, rezando para que Paulo Roberto Costa fique calado.

NEGÓCIO NA ÁFRICA DE BANQUEIRO AMIGO VAI À CPI

Será alvo da CPI a venda amiga dos poços de petróleo da Petrobras na África para o BTG, banco de André Esteves, quando ainda era “amigo de infância” do ex-presidente Lula e de Antônio Palocci, em 2012. A oposição quer saber como ativos na Nigéria, Tanzânia, Angola, Benin, Gabão e Namíbia, avaliados em US$ 7 bilhões por Jorge Zelada, ex-diretor da área internacional, foram dados ao BTG por US$ 1,5 bilhão.

PREÇOS ALTERADOS

O valor dos ativos da Petrobras na África foram reestimados depois da posse de Graça Foster na presidência da estatal, em 2012.

PECHINCHA AMIGA

Avaliados em US$ 7 bilhões, os poços africanos caíram para US$ 4,5 bi, US$ 3,16 bi, até o BTG levar o negócio pela bagatela de US$ 1,5 bi.

IMPRESSIONANTE

Com a CPI, a oposição quer entender como em menos de 1 ano o BTG obteve retorno de US$ 150 milhões na África, a título de dividendos.

LIGAÇÕES ESTREITAS

O presidente do Santa Cruz, Antônio Luiz Neto, há muitos anos garante sua reeleição, como vereador pelo PTB no Recife, com sua ligação à torcida organizada “Inferno coral” (cujos integrantes ele fez sócios do clube), acusada de matar um rival com vaso sanitário atirado do alto.

LIVRE BARBÁRIE

Somente a torcida “Inferno coral”, do Santa Cruz, teria o poder – “sem ser notada pela segurança” – de arrancar privadas, subir dois lances e atirá-las do alto da arquibancada, matando o torcedor Paulo Ricardo.

CUMPLICIDADE

O senador Alvaro Dias (PSDB-PR) não economizou críticas e acusou o governo de ser cúmplice dos mascarados Black Blocs. “É armação terrorista com a complacência do governo”.

DISTANCIAMENTO

Não passou despercebido o distanciamento entre presidente Dilma e o antecessor Lula, no Encontro Nacional do PT. Ao fim do evento, ela foi embora e Lula ficou no local, distribuindo abraços e poses para fotos.

ATÉ TU, TEMER?

Dirigentes do PMDB acharam no mínimo esquisita a decisão do vice-presidente Michel Temer de não colocar os pés no Encontro Nacional do PT, que lançou a pré-candidatura Dilma à reeleição.

MARA NÃO VIU

A deputada Mara Gabrilli (PSDB), que disse há dias que José Dirceu tem regalias na prisão, sequer conseguiu entrar na cela por causa da cadeira de rodas. Ela ficou na porta, embaixo de uma goteira.

AQUELA MÃOZINHA

Responsável pela imagem nacional do PMDB, o publicitário Elsinho Mouco foi convidado a dar suporte na coordenação de comunicação da campanha do senador Lobão Filho ao governo do Maranhão.

MANUAL ASSASSINO

O manual de guerra dos Black Blocs, revelada pela coluna, ensina como fazer uma bazuca caseira gastando apenas R$ 9,00. O livro destaca ainda que “com sorte e boa mira” o disparo pode ser letal. Material semelhante matou o cinegrafista Santiago Andrade, da Band.

PENSANDO BEM...

...só o jornal britânico Financial Times está rindo muito das trapalhadas econômicas de Dilma, que as comparou aos impagáveis Irmãos Marx.



PODER SEM PUDOR

PRAGA DE GAFANHOTOS

Depois de um duro discurso contra a medida provisória para combater a praga de gafanhoto no Senegal (!), o deputado José Thomaz Nonô (PFL-AL) foi abordado por um repórter: "O senhor não acha justa essa MP?"

- Eu seria favorável se fosse para acabar os gafanhotos nacionais. Não apenas o gafanhoto biológico, aquele que come verdinhos, mas principalmente um outro tipo de gafanhoto, o que come verdinhas...

Referia-se ao escândalo dos "gafanhotos", assalto de autoridades de Roraima aos cofres públicos, revelado por uma operação policial.

segunda-feira, maio 05, 2014

'True philosopher' - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 05/05

Uma máxima moral: a virtude é silenciosa e cresce sempre num terreno que lhe é hostil

"Há uma luta entre a luz e as trevas", diz o detetive Rust Cohle (Matthew McConaughey) na série "True Detective", na última cena do último episódio da primeira temporada. 

Já disse e repito que as séries americanas são hoje, de longe, o maior experimento dramatúrgico nos EUA, porque o cinema americano quase não existe, derretido pelo medo do politicamente correto, esta praga que em breve terá destruído toda a criatividade ocidental, à semelhança da arte soviética. Qualquer artista que submeta sua arte ao projeto "para um mundo melhor" é um artista ruim. 

A ideia de que há uma luta deste tipo é comum à filosofia, teologia e literatura. Dostoiévski diz algo semelhante nos "Irmãos Karamazov": "Há uma luta entre Deus e o Diabo e o placo é o coração humano".

Nos "Manuscritos do Mar Morto", textos judaicos datados do período em torno do nascimento da era cristã, encontrados em cavernas do mar Morto nos anos 40, afirma-se a mesma luta entre os filhos da luz e os filhos das trevas. Nathan de Gaza, século 17, "profeta" do falso Messias Sabatai Tzvi, dizia que o mundo, assim como a alma de Tzvi, um melancólico, era dilacerado por forças antagônicas de luz e trevas. Vejo nisso uma poética da agonia como habitat da alma humana. 

Rust Cohle é um detetive filósofo típico da tradição que vai de Sam Spade (interpretado por Humphrey Bogart) a Philip Marlowe (interpretado por Elliott Gould e Robert Mitchum). Niilistas, todos eles trazem a marca de uma visão pessimista sobre a humanidade. 

Cohle, no primeiro episódio, afirma que é pessimista (e define essa condição como sendo "ruim em festas"). E afirma sua "cosmologia": a consciência humana é um erro da evolução.

Segundo nosso "true philosopher", todos pensamos que somos "eus", mas somos apenas seres que arrastam essa ilusão em meio a uma programação genética que nos obriga a sobreviver. Um diálogo entre o niilismo nietzschiano e o determinismo darwinista de Richard Dawkins não seria muito diferente. 

De onde vem esse pessimismo que dá a esses detetives um tom maior do que meros personagens à procura de criminosos? 

No caso especifico de Cohle, esse pessimismo vem de uma família de origem destroçada, de uma filha morta muito jovem, de um casamento destruído devido a esta morte, de muita bebida e muita droga, de quatro anos infiltrado no narcotráfico e de uma longa investigação entre satanistas, pedófilos "cristãos" e serial killers de mulheres (esta investigação é o conteúdo dramatúrgico dos oito capítulos da primeira temporada). 

Entretanto, sua grandeza não é redutível às suas "pequenas causas" psicológicas. Se assim o fosse, ele seria apenas um deprimido. Sua grandeza como personagem se dá devido ao modo como ele constrói, a partir de sua miséria pessoal, um julgamento preciso da humanidade. Julgamento este que impacta por sua possível consistência. 

Há uma questão maior aqui, e que une os grandes detetives nesta concepção niilista de mundo: a experiência com a (sua própria) natureza humana. Sim, natureza humana, este conceito que muitos "especialistas" teimam em dizer que não existe. 

Não vou entrar nesta discussão sem fim, prefiro usar a ideia de natureza humana como "licença poética". Há muito que não me importo com debates "especializados". 

Sabe-se bem, mesmo entre policiais na vida real, que a proximidade com a miséria humana mais pura pode levar alguém à descrença na natureza dos homens. 

Ainda que, como bem mostram esses três personagens, isso não impede virtudes como coragem, generosidade, sinceridade, doçura. Muito pelo contrário, muitas vezes é justamente a dureza do desencanto com a natureza humana e o sofrimento psicológico que ela traz no cotidiano (como no caso de Cohle) que possibilita tais virtudes.

A virtude é silenciosa e cresce sempre num terreno que lhe é hostil. Máxima ignorada por todos que, principalmente em épocas do novo puritanismo político que assola o mundo da cultura, cantam seu amor e sua misericórdia pelo mundo e pelos que sofrem. O amor ao mundo deve ser escondido como uma pérola.

Internet ameaçada - LÚCIA GUIMARÃES

O Estado de S.Paulo - 05/05

Quando não tinha cabelo grisalho e ainda denunciava desmandos de Washington, que decidiu adotar ao se mudar para lá, o então senador Barack Obama repetia nos discursos de campanha: seria o maior defensor da neutralidade da rede. Mesmo com a passagem da lei do Marco Civil da internet, é importante prestar atenção no que vai acontecer nos próximos meses nos Estados Unidos como resultado da quebra da promessa de Obama. A lei brasileira prevê a neutralidade mas, como de hábito, Deus está nos detalhes.

A neutralidade da rede é o sistema que nos permite acessar a internet como quem dirige em estradas públicas, sem tratamento preferencial. O fim da neutralidade da rede, para usar a analogia das estradas, seria o equivalente ter que escolher entre triplicar o tempo para chegar ao trabalho ou pagar pedágio a uma companhia privada para percorrer o trajeto mais rápido.

"Acho que isto destrói o que a internet tem de melhor: a igualdade. O Facebook e o Google poderiam não ter decolado sem o acesso igualitário à rede." O candidato Obama disse isto em 2007. Mas, em 2013, o presidente Obama decidiu chamar uma raposa para tomar conta do galinheiro. Nomeou Tom Wheeler, um ex-lobista da indústria, para presidir a agência encarregada de manter a internet neutra, FCC, Comissão Federal de Comunicações. No dia 15 de maio, a FCC vai votar uma proposta de Wheeler, um tapa na cara de quem acreditou na promessa de Obama. Em vez de entrar para a história como o homem que preservou a praça para o povo, Wheeler arrisca ser lembrado como o burocrata que selou a desigualdade de acesso à rede. Ele tem tentado apagar o incêndio provocado pelo vazamento de detalhes de sua proposta com desmentidos que não convencem. O Washington Post cita fontes da FCC e revela que a intenção de Wheeler é dar às concessionárias de banda larga a "habilidade de negociar individualmente com provedores de conteúdo" desde que ofereçam um pacote básico de acesso à rede. A negociação individual, na história de carochinha do ex-lobista Wheeler, teria que ser conduzida de "maneira comercial razoável". Pausa para risada sarcástica.

O fornecimento de banda larga é a galinha dos ovos de ouro de uma indústria cada vez mais monopolista. As altas margens de lucro foram descritas por um analista como "cômicas". As quatro gigantes americanas que podem virar três, se for adiante a fusão da Time Warner Cable com a Comcast, passariam a ter um poder assustador sobre a experiência individual de acesso à rede.

As repercussões seriam sentidas muito além do entretenimento ou da conveniência de se comunicar por e-mail ou mensagem de texto. A internet começou, criada pelo governo americano, como um instrumento de comunicação entre instituições de pesquisa. Ou, como diz Vladimir Putin, foi inventada pela CIA para espionar. A versão de neotsarista Putin é útil para termos uma medida da importância da defesa do acesso igualitário à rede.

Ciência, educação e o futuro da inovação podem ser drasticamente afetados se os monopólios das Telecoms começarem a cobrar por rapidez, acesso e até mesmo excluir conteúdo. No cenário proposto pela FCC, seria virtualmente impossível o aparecimento de uma Wikipédia.

Se você acha a sua conta de TV a cabo exorbitante e se irrita com a pobreza dos pacotes básicos, imagine quando seus hábitos, como bater papo com a família via Skype, consultar seu médico à distância, fazer um curso online ficarem mais caros e seus passos forem selecionados por um provedor de internet.

Só uma gritaria viral pode espantar Tom Wheeler, que instalou várias outras raposas no galinheiro da FCC. Nos próximos meses, vai haver um período de consulta pública em que qualquer cidadão pode enviar sua opinião para o governo. A desculpa usada pelo governo Obama é que a neutralidade da rede já foi derrubada duas vezes na Justiça. Contra ações judiciais, há uma arma simples e letal: a FCC pode declarar a internet uma utilidade pública como a eletricidade ou telefonia. Por causa da pressão inicial, Wheeler teria se comprometido a manter a possibilidade de igualar a internet a um serviço público, o que significa comprar uma briga com Godzilla. "Vai ser a Terceira Guerra Mundial", ameaçou Michael Powell, CEO da associação americana de Cabo e Telecomunicações.

Mas a truculência da indústria pode estar subestimando um inimigo poderoso na infantaria dos consumidores. Não se trata da cobrança extorsiva por este ou aquele canal de TV paga, ou do fato de que eu subvenciono clubes de esporte por ser obrigada a pagar por canais que jamais assisto, neste modelo obsceno de negócio. A esta altura do jogo, a nossa relação com a internet é muito mais visceral, é entrincheirada numa rotina que, se sofrer uma ruptura, pode inspirar adesões de aliados por enquanto passivos.

Não corremos apenas o risco de um aumento da conta mensal para ter acesso à rede. Contemplamos o fim da internet que conhecemos.

Pesquisas e eleição - DENIS LERRER ROSENFIELD

O Estado de S.Paulo - 05/05

Estranho, para um país que se aproxima da Copa, é o interesse crescente por pesquisas eleitorais. Parece que há uma tendência de menos pão e circo e mais política, no sentido amplo de preocupação para com o bem-estar nacional nos próximos anos. A multiplicação dessas pesquisas, porém, tem dado lugar a julgamentos precipitados. Nessa perspectiva, os números têm sido frequentemente triturados. Não podemos nos esquecer de que pesquisas se aproximam de diagnósticos que, bem examinados, podem indicar tendências que estejam se delineando. Vejamos um esboço deste quadro.

As pesquisas divulgadas durante o mês de abril consolidam, na comparação com as anteriores, a queda da popularidade do governo. Datafolha aponta 36% de ótimo/bom; Ibope, 34%; e Vox Populi, 32%. São, pois, porcentuais preocupantes e que seguramente levam a disputa para o segundo turno. Há configurada uma crise de popularidade, com implicações diretas para a reeleição. Com o atual porcentual, pode-se dizer que sua reeleição corre perigo. A margem de segurança começaria com 40%, embora esse número não assegure por si mesmo a reeleição.

Note-se que há uma tendência geral de queda, abarcando, mesmo, o eleitorado tradicional petista. Por exemplo, no grupo de eleitores com rendimentos familiares mensais de mais de 1 a 2 salários mínimos, que representa 32% dos entrevistados pelo Ibope, o cenário é negativo para os interesses do governo. O ótimo/bom está em queda e o ruim/péssimo, em tendência ascendente. Em fevereiro, a presidente tinha 46% de ótimo/bom, cai para 40% em março e continua caindo, em abril, para 38%.

Há uma questão que merece ser bem destacada e que faz com que "o jogo ainda não esteja jogado". Trata-se do grau de desconhecimento dos candidatos Aécio e Eduardo. São duas figuras públicas particularmente desconhecidas do grosso do eleitorado, ao contrário de Dilma, que é conhecida por praticamente todos os eleitores. A petista está em posição privilegiada e a vantagem que tem sobre os demais candidatos é tributária, em alguma medida, desse seu alto grau de conhecimento, por um lado, e de desconhecimento de seus adversários, por outro.

Segundo a pesquisa Datafolha, no caso de Aécio, 35% dos eleitores dizem conhecê-lo "só de ouvir falar" e outros 25% simplesmente não o conhecem. Na soma, há 60% de desconhecimento. Para Eduardo o quadro é ainda mais prejudicial, porque 33% só o conhecem "de ouvir falar" e 42% jamais ouviram falar de sua figura pública. Há, aqui, 75% de desconhecimento. No caso de os dois serem desconhecidos do grande público - e particularmente dos eleitores mais pobres e de menor escolarização -, isso significa uma barreira importante para o crescimento em termos de intenção de voto.

Ainda segundo a mesma pesquisa, 65% dos brasileiros acreditam que a inflação irá aumentar, 45% que o desemprego vai aumentar e 28% confiam em que o poder de compra de seu salário será incrementado nos próximos meses. Inflação, poder de compra e pleno-emprego são partes constitutivas do que poderíamos chamar de "tripé social", que assenta a popularidade do governo. Com a deterioração de sua percepção positiva, inevitavelmente a candidatura de Dilma será prejudicada. São indicadores de percepção social que podem vir a ter a maior importância eleitoral, pois afetam diretamente a atual política governamental.

Vale, ainda, destacar que atualmente os candidatos de partidos menores somam 6% de intenção de voto. Ora, é um porcentual nada desprezível, confirmado por vários institutos.

Chama particularmente a atenção a participação, pouco assinalada, do Pastor Everaldo, do PSC, que ostenta nada desprezíveis intenções de voto de 2% ou 3%. Para um candidato pouco conhecido, de um pequeno partido, a sua intenção de voto é digna de nota. Ele atinge um eleitorado conservador, defensor da família, de menor renda e predominantemente evangélico. No entanto, sua candidatura pode perfeitamente alcançar outros estratos religiosos e sociais, uma vez que os valores que defende têm abrangência muito maior. Um candidato como esse pode ser um fator decisivo para um segundo turno.

As pesquisas de abril mostram um amplo contingente de intenções de votos brancos/nulos e não sabe/não respondeu, configurando um grupo significativo de indecisos que pode decidir as eleições. A soma dos dois grupos na pesquisa Datafolha monta a 29%; no Ibope, a 37%; e na CNT/MDA, a 29,4%. Particular atenção deve ser data a esses grupos, pois eles podem ser a mostração, por assim dizer, de um descontentamento com os políticos em geral, independentemente das preferências partidárias. As Jornadas de Junho apresentaram tais grupos em ação, exigindo melhores condições de mobilidade urbana e expondo um descontentamento generalizado com os serviços públicos. O governo não soube atendê-los nem compreendê-los, enquanto os candidatos oposicionistas estão, também, à margem deles.

Neste contexto, a realização da Copa exibe um problema de monta. A população brasileira já deu mostras de insatisfação com a sua realização. Por que privilegiar estádios, e não melhores condições de saúde, educação e transporte público? Se, ademais, a organização não for bem planejada, com obras inconclusas ou inexistentes, com promessas não cumpridas, a situação tende a se agravar. Há um imponderável, aqui, que foge do controle eleitoral. A Copa, com seus protestos previstos e a imprevisibilidade de seus desdobramentos, pode ser, neste momento, fator de desestabilização da candidatura à reeleição de Dilma. Soma-se ainda outro fator completamente imprevisível, de natureza completamente não política. Se o Brasil vencer a Copa, as chances da presidente aumentam. Se o Brasil perder, a oportunidade maior caberá às oposições. Preparo/despreparo de organização da Copa e vitória/derrota da seleção nacional são fatores imponderáveis e de repercussão eleitoral.

O futuro é incerto. A indefinição constitui o cenário atual.

Segurança para quem? - VALDO CRUZ

FOLHA DE SP - 05/05
BRASÍLIA - No país da Copa de estádios e aeroportos ainda inacabados, com promessas de segurança rigorosa, um torcedor morre em Recife atingido por um vaso sanitário atirado do alto de um estádio.
Ato de selvageria que tinha de ser evitado, naquele local, pelos donos do espetáculo, os clubes. Cena que vai circular o mundo, péssima propaganda para quem vai sediar o maior evento do futebol mundial.

E que deveria servir de reflexão sobre como ainda não conseguimos lidar de forma eficaz com o problema da (in)segurança, dentro e, principalmente, fora dos estádios.

De maneira geral, o Brasil e seus governos reagem a tragédias e só se planejam bem para eventos de repercussão mundial. Patinam, contudo, em encontrar soluções que gerem sensação de segurança na população no seu dia a dia.

Agora mesmo, a presidente Dilma prometeu a jornalistas que não vão colocar um dedo nas delegações estrangeiras durante a Copa, detalhando um esquema especial de segurança para o evento.

O governo do Rio anunciou que decidiu antecipar o início de uma operação especial para garantir paz na cidade-vitrine do país antes e durante os jogos da competição.

Tais esquemas extraordinários, para lá de justificáveis, costumam funcionar e bem. Já foram testados, com excelentes resultados. Mas são montados muito mais visando evitar uma propaganda negativa contra o Brasil mundo afora.

Aí, fica a pergunta no ar. Os brasileiros não merecem a mesma atenção e energia dos governantes? Têm sempre de contar com eventos de repercussão mundial para desfrutar de momentos de tranquilidade?

Por falar em Copa, sábado fui ao Mané Garrincha ver meu time jogar. Arena mais cara do evento, o estádio deveria estar um brinco. Não está. Por dentro, o acabamento parece de segunda. Por fora, piso inacabado. Os torcedores têm de enfrentar um trecho de terra pura

Efeitos e custos dos experimentos na economia - JOSÉ MATIAS-PEREIRA

CORREIO BRAZILIENSE - 05/05
O governo Dilma Rousseff deverá deixar como principal marca a promoção de diversos "experimentos" temerários no campo da economia. Esses experimentos de intervenção direta, feitos em diferentes setores, de maneira mais acentuada nos últimos dois anos, em particular, nas empresas estatais, estão provocando enormes estragos e desestabilizando a economia brasileira. Observa-se, no conjunto, que essas decisões equivocadas têm como objetivo final os interesses eleitorais da mandatária, em busca da reeleição.
A experiência mais emblemática de intervenção do Estado na economia foi a imposição aos bancos para baixar as taxas de juros, obrigando as instituições públicas a expandirem suas receitas, de forma descontrolada e sem critérios, na concessão de créditos. Os efeitos negativos dessas medidas intempestivas já repercutiram nos balanços de 2013 e vão continuar repercutindo nos próximos, em termos de aumento do nível de inadimplência do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal.

Torna-se relevante alertar que os custos dessas "experiências" nas principais empresas estatais, por meio de preços administrados, estão contribuindo para represar e distorcer os preços relativos na economia. Quando ocorrer a recomposição desses preços, eles irão refletir no aumento da inflação. Estima-se que o custo na conta do governo, conforme estudo recente da consultoria A.C. Pastore & Associados, para evitar o aumento de um ponto porcentual na inflação pode chegar a R$ 34 bilhões em 2014.

A recusa do governo de aumentar no nível adequado os preços administrados - em especial os da gasolina, da energia elétrica e, de forma indireta, oa dos transportes públicos - está perturbando o ambiente de negócios do país, gerando enormes inquietações no mercado e elevando o descrédito do governo na gestão da política fiscal. A decisão de proibir a Petrobras, em março de 2012, de reajustar os preços da gasolina, já defasados desde 2009, refletiu negativamente no caixa da empresa, aumentando seu endividamento e reduzindo sua capacidade de investir. A incerteza gerada pela contenção no preço da gasolina, por sua vez, inibiu novos investimentos no setor de etanol.

A promessa de redução da conta de energia elétrica feita pela presidente vai exigir uma ajuda às distribuidoras no valor de R$ 21 bilhões, sendo R$ 13 bilhões oriundos do Tesouro Nacional e os R$ 8 bilhões restantes de uma dívida emitida em nome da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), que tem como fonte de financiamento bancos públicos e privados. Deve-se destacar que essa atípica operação de empréstimo para a CCEE, diante da falta de garantias, dificilmente encontrará banco privado disposto a concedê-lo, o que deverá recair mais uma vez numa instituição pública. Trata-se de mais uma manobra de ajuste nas contas, conhecida como "contabilidade criativa".

O preço da adoção dessas "experiências" foi muito elevado para a Petrobras, a Eletrobras e o Banco do Brasil. Essas três empresas valiam R$ R$ 496,3 bilhões no fim de 2010, conforme estudo recente divulgado pela Consultoria Economática. Elas perderam, em 39 meses de governo Dilma, em valor de mercado, R$ 262,1 bilhões, ou seja, uma queda de 52,8% dos seus valores. A Petrobras valia R$ 380,2 bilhões no fim de 2010; em meados de março, estava valendo R$ 169,9 bilhões (55,3% de seu valor). Na Eletrobras, do setor de energia, que valia R$ 26,2 bilhões, teve o seu valor reduzido para R$ 8,5 bilhões (recuo de 67,5%). O valor de mercado do Banco do Brasil encolheu de R$ 89,8 bilhões em dezembro de 2010 para R$ 55,6 bilhões em meados de março de 2014.

Deve-se ressaltar, por fim, que a alta da inflação dos preços administrados em 2013 foi de apenas 1,5%, enquanto a dos preços livres chegou a 7,3%. Apesar do controle de preços, a inflação não perdeu o fôlego, o que vem obrigando o Banco Central a continuar com o ciclo de elevação de juros. Assim, a "experiência" do governo em administrar os preços controlados (combustíveis, energia elétrica, e indiretamente, transportes públicos) são decisões equivocadas, pois quanto mais tempo levar para o rompimento desse represamento, maiores serão os riscos de graves danos no controle da inflação, e por consequência, na vida da população brasileira.

Governo insiste no diagnóstico errado - GUSTAVO LOYOLA

VALOR ECONÔMICO -05/05

Diagnóstico errado, remédios ruins, piora da doença do crescimento.

O governo segue insistindo em um diagnóstico equivocado sobre as dificuldades atuais de crescimento da economia brasileira. Segundo matéria de Tainara Machado e Francine de Lorenzo publicada no Valor de 29 de abril, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, declarou em entrevista que "o PIB poderia estar crescendo cerca de 3% ao ano caso não houvesse restrições de crédito ao consumo". Para o ministro da Fazenda, o principal problema para a demanda seria a falta de crédito ao consumo, já que os bancos privados estariam mais rigorosos na concessão de crédito. Mantega incorre em dois erros palmares. O problema da economia hoje não é de demanda agregada e nem seria desejável, como insinua o ministro, induzir os bancos a relaxarem seus padrões de crédito na conjuntura atual.

A insistência do governo na expansão do consumo como motor de crescimento do PIB é inacreditável, após todas as evidências de que esse modelo se esgotou. Como indicam as estatísticas do desemprego, o mercado de trabalho praticamente não mostra folga alguma, tanto pela ocupação que se mantém elevada, quanto pela tendência recente de retração na oferta de mão de obra. Além disso, o comprometimento da renda dos consumidores com o pagamento de encargos e principal de dívida está em patamar relativamente elevado, não havendo muito espaço para expansão sadia do endividamento das famílias, ainda que os bancos relaxassem imprudentemente suas políticas de concessão de crédito.

Porém, o mais bizarro de tudo é o ministro da Fazenda ignorar os evidentes sinais de pressão inflacionária em seu diagnóstico sobre os males da economia brasileira.

A inflação corrente e as expectativas futuras estão no teto da banda estabelecida no regime de metas. Numa situação como essa, defender o aumento do consumo alavancado por crédito parece coisa de bombeiro querendo usar lança-chamas para combater um incêndio. Ademais, soa no mínimo estranho o ministro da Fazenda reclamar da falta de crédito em pleno ciclo de aperto monetário conduzido pelo Banco Central que elevou a taxa Selic sucessivamente nas últiermas nove reuniões do Copom.

A crise de crescimento da economia brasileira não tem suas raízes na insuficiência da demanda agregada. Não há remédio "k e y n e s i a n o" para os males atuais do Brasil, que se relacionam à diminuta taxa de crescimento da produtividade e à baixa taxa de investimento. De acordo com um estudo do Boston Consulting Group recentemente divulgado, a indústria brasileira foi a que mais perdeu competitividade na última década entre 25 países exportadores. O citado estudo mostra que hoje a nossa indústria tem custos 23% maiores do que a americana, enquanto em 2003 eram 3% menores. Fundamentalmente, o que ocorreu no período foi que a produtividade no Brasil cresceu pouco quando comparada com a elevação dos salários reais e dos outros custos de produção.

Entre 2003 e 2013, a taxa de desemprego medida pelo IBGE caiu de 12,4% para 5,4%. Um ótimo resultado, sem dúvida, mas que, sem crescimento da produtividade, teve papel central na perda de competitividade da indústria brasileira.

Para agravar o problema, as políticas de governo na última década foram perversas para a produtividade e o investimento. Os últimos dez anos se caracterizaram pelo forte aumento do intervencionismo do governo na economia, com o uso de instrumentos discricionários que amplificaram o desastre do baixo crescimento da produtividade.

O aumento das restrições burocráticas e tarifárias para a importação é exemplo típico que ilustra os prejuízos para a competitividade causados pelas intervenções equivocadas do governo.

As empresas que buscam importar bens de capital para melhorar a competitividade se submetem a um verdadeiro ordálio e muitas acabam desistindo, emaranhadas no cipoal burocrático criado pelo governo. Proliferam os regimes especiais (tipo Inovar Auto), assim como restrições disfarçadas como "políti - cas de conteúdo nacional". O resultado é que o Brasil se vê alijado das cadeias globais de produção e nossa indústria se contenta em produzir para um mercado doméstico protegido. Qualquer semelhança com os anos 50, não é mera coincidência! O dramático é que os equívocos do governo colocaram em marcha um círculo vicioso: políticas ruins pioram o crescimento o que, mantido o diagnóstico errado, leva a novas ações negativas para a produtividade e o crescimento.

Segundo o noticiário, o governo teria a intenção de criar um fundo para bancar a inadimplência nos financiamentos de automóveis. A medida faria parte de um novo pacote de ajuda ao setor automobilístico. Mais uma má ideia. Os bons pagadores pagariam pelos maus e se estaria estimulando o endividamento das famílias e a deseducação financeira.

Seria mais uma situação em que os esforços do Banco Central seriam prejudicados por políticas imaginadas pelo Ministério da Fazenda.

Assim caminha a atual gestão da economia. Enquanto o governo insistir em turbinar o consumo, custe o que custar, ignorando os verdadeiros problemas da economia, as perspectivas de crescimento continuarão ruins. Empresários e consumidores não são tolos e por isso as pesquisas de opinião mostram a generalização do pessimismo na sociedade brasileira no período recente.


Bem-vindo, presidente - PAULO GUEDES

O GLOBO - 05/05
A reflexão é do ex-presidente FHC no GLOBO deste domingo: "É um sem fim de escândalos. Sintomas de algo mais grave. É o próprio sistema político que está em causa: suas práticas eleitorais e partidárias. Nosso sistema é agora o presidencialismo de cooptação. A criação de 39 ministérios é a garantia do insucesso administrativo e da conivência com a corrupção. Por que não assumimos nossas responsabilidades para mudar o sistema e sair do lodaçal que afoga a política?" Finalmente. Bem-vindo à boa causa.
O PSDB e o PT se revezam no poder há cinco eleições presidenciais, com alianças que consideram oportunistas, retrógradas e, conforme acusações recíprocas, visceralmente corruptas.

Por que não houve uma proposta de reforma política? Por que as batalhas partidárias têm se limitado à tomada de poder? A resposta está no Princípio de Gause. Esta foi sempre uma guerra de extermínio entre espécies semelhantes - tucanos e petistas - pelo domínio de um nicho ecológico: a hegemonia social-democrata.

A corrupção sistêmica é filha bastarda de uma ininterrupta escalada de gastos públicos.

Uma vez no poder, por ignorância econômica, predisposição ideológica e também por conveniência política, continuam ambos expandindo os gastos públicos, mantendo as engrenagens centralizadas herdadas do Antigo Regime militar. Receberam em troca apoio das criaturas do pântano, políticos fisiológicos e grupos econômicos oportunistas. A hipertrofia e o aparelhamento da máquina do Estado são monumentos a essas perversas alianças.

O problema está exatamente na ausência de alternativas aos partidos social-democratas e seus obsoletos programas. O rei-sol da sociologia nativa suspeitaria de práticas não republicanas de seus partidários quando da emenda constitucional que lhe permitiu a reeleição? Teriam os petistas ultrapassado o ponto crítico até onde se poderia ir nas práticas de sempre? "A que ponto chegamos", constata enfim FHC, com o seu saber da Sorbonne.

Por que nunca antes, em qualquer lugar do mundo, houve um programa de combate à inflação que durasse décadas? Por que estaria o Brasil condenado à mais longa sequência de bilionários escândalos políticos da História? "Enormes somas passando pelas mãos do Estado", afirma Marx aos nossos socialistas

Por que estaria o Brasil condenado a um combate sem fim à inflação e à mais longa sequência de bilionários escândalos da História?

Discurso puramente eleitoral - PAULO BROSSARD

ZERO HORA - 05/05
A tradição brasileira era no sentido de vedar a reeleição do presidente, mais tarde estendida aos governadores. Faz pouco, a regra foi abolida, sendo seus beneficiários os presidentes Fernando Henrique e Luiz Inácio, e agora a pretende a presidente Dilma.
Não simpatizo com a ideia, a meu juízo, seus inconvenientes são maiores do que as eventuais conveniências. O caso vertente me fortalece a convicção. Quando escolhida por seu antecessor, falava-se que era a gerentona, dizem pela escassa delicadeza com os subordinados. O atual governo prova que falta gerência ao país, basta ver o que aconteceu com o setor elétrico e o descalabro na Petrobras.

Por isso, parcela de seus correligionários e amigos políticos divorciaram-se da corrente que postulava sua reeleição, o que a levou a reafirmar a candidatura e ao fazê-lo afiançou que tais restrições não a demoviam.

Outrossim, a oração da presidente no Dia do Trabalho foi um discurso puramente eleitoral, de uma candidata à reeleição, ou seja, não foi um discurso de presidente; no mínimo foi impróprio. Ao conceder generosidades que custarão cerca de R$ 9 bilhões ao erário, não procedeu como chefe de Estado.

Muitas seriam as razões pelas quais não me parece conveniente a reeleição. De mais a mais, só por exceção um governante, por melhor e mais capaz seja, que concretize seu projeto de governo, mil surpresas embaraçam suas intenções honestas. Uma segunda eleição asseguraria o cumprimento delas? Se a primeira não garante ao eleito o atendimento de todos os projetos, por que uma reeleição teria a virtude de assegurá-la? Até onde sei, nada autoriza a presunção. Ao contrário.

Por fim, distribuir dinheiro público às vésperas da eleição é quase a confissão de que a gerentona falhou na gerência.

No ritmo das pesquisas - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO

O Estado de S.Paulo - 05/05


Metodologias criativas à parte, a notícia é que Aécio Neves (PSDB) subiu nas pesquisas MDA e Sensus. Foram feitas ao mesmo tempo, logo após o programa eleitoral tucano de rádio e TV, e apontam Aécio com 20% a 22% das intenções de voto, dependendo do rol de adversários. É um patamar acima do que ele aparece em institutos que pesquisam com mais constância e frequência: em torno de 16% no Ibope e Datafolha.

A diferença importa pouco para o eleitor, mas muito para o candidato.

Números, nesta fase pré-campanha, dizem menos do que tendências. A imobilidade de Aécio criava uma narrativa ruim: uma candidatura pesada, com dificuldade de decolar e aproveitar a perda de popularidade da presidente Dilma Rousseff. MDA e Sensus deram o empurrão que lhe faltava.

O PSDB pode agora dizer a empresários e a outros partidos que seu presidenciável está em alta. Mesmo que os sinais sejam contraditórios em relação a Ibope e Datafolha - e apesar do uso pelo Sensus de uma lista em que Aécio aparece antes dos demais candidatos na hora de estimular o eleitor a dizer sua preferência (em vez da tradicional cartela circular que não privilegia qualquer dos nomes pesquisados).

A notícia cria confusão, alimenta a desconfiança sobre as pesquisas em geral e troca a narrativa sobre o imobilismo do tucano por uma polêmica envolvendo institutos e metodologias. Para a maioria que não está prestando atenção à campanha eleitoral o que sobra é um ruído: Aécio subiu. Seu nome ganha evidência e pode até subir de fato.

Mais do que se aproximar numericamente de Dilma, é importante para o tucano distanciar-se de Eduardo Campos (PSB). Entre empresários que querem o PT fora do poder - fonte indispensável de apoio financeiro para qualquer oposicionista - o pernambucano tem mais simpatia do que o mineiro. Por um cálculo frio: num segundo turno, Campos teria todos os eleitores de Aécio, mas Aécio não teria todos os de Campos.

De fato, o eleitorado do candidato do PSB se assemelha ao de Dilma - por exemplo, concentra-se no Nordeste. Em caso de disputa mano a mano entre a presidente e Aécio, temem esses financiadores, parte dos eleitores de Campos votaria na petista. Numa disputa apertada como a que se prenuncia, pode ser a diferença que a reelegeria. Já o eleitor de Aécio é tão antipetista que só lhe restaria votar em Campos.

Por isso é importante para Aécio mostrar que está conseguindo ampliar e diversificar seu eleitorado. E é por isso que as pesquisas dos dois institutos mineiros vieram na hora certa para ele. Ambas sugerem uma inesperada transfusão de eleitores de Dilma diretamente para o tucano (e só para ele), sem parar na coluna dos brancos, nulos e indecisos.

A feliz coincidência tem ainda mais efeitos positivos para Aécio. Serve de argumento para ele tentar impedir a coligação do PT de Dilma com o PMDB e outros partidos donos de preciosos minutos de propaganda eleitoral. Os peemedebistas nem precisam acreditar no argumento. Basta fingir que acreditam, e seu passe ficará ainda mais valorizado - poderão cobrar mais caro para fechar uma aliança, com quem for.

Como se vê, as pesquisas, a um só tempo, narram a corrida entre os candidatos e desencadeiam fatos políticos que interferem no ritmo da própria corrida. Tal interferência é consequência inerente a toda tentativa de medição, em qualquer área. É inútil tentar impedi-la. Sempre haverá os termômetros precisos e os defeituosos, fabricantes conscienciosos ou não. Nada disso se muda por decreto ou proibição.

As discrepâncias se corrigem com quantidade. Quanto mais pesquisas, melhor. Elas são o melhor instrumento para a sociedade vigiar os institutos, comparando-as umas às outras. Como há muito se sabe e se pratica nos EUA, os pontos fora da curva se anulam, as diferenças se corrigem e as pesquisas, na média, acabam dando os rumos da eleição.

28 de junho, BH - VINICIUS MOTA

FOLHA DE SP - 05/05
SÃO PAULO - Se a Copa do Mundo e as eleições tiverem um encontro marcado neste ano, ele ocorrerá no último fim de semana de junho, provavelmente às 13h de sábado, dia 28, em Belo Horizonte. Nessa data e nesse local vão se enfrentar, pelas oitavas de final, o primeiro colocado do grupo A, o do Brasil, e o segundo do B.
Caso se confirmem os favoritismos na fase inicial, a seleção brasileira vai disputar na capital mineira uma partida de vida ou morte contra a Espanha, atual campeã, ou a Holanda, a vice, que eliminou a equipe de Dunga no último Mundial.

Para o time e a torcida do Brasil, o final desse jogo será um daqueles eventos que não admitem meio-termo entre o êxtase arrebatador e a frustração profunda. Como se diz no interior, ou vai ou racha.

A eliminação precoce do Brasil colocaria em evidência a agenda negativa da competição: as escolhas perdulárias, os estádios bilionários que jamais serão lucrativos e a falácia dos legados urbanos.

Não seria bom para quem está no Executivo e pretende disputar o segundo mandato em outubro, como vários governadores e a presidente da República. À morte súbita do frenesi esportivo sucederia o parto prematuro da disputa eleitoral, em ambiente pedregoso para mandatários.

Até a data da partida, final de junho, o horizonte já não parece favorável para os mandachuvas da política. É preciso pouca deterioração adicional, por exemplo, para que a taxa de aprovação da presidente Dilma Rousseff se aproxime dos cabalísticos 30%, abaixo dos quais a reeleição começaria a ficar menos provável.

A vitória do time de Felipão, se não seria bastante para reverter o quadro de desgaste na política, ao menos dividiria a atenção da sociedade por mais tempo. Já valeria um gol para Dilma, naquela que se insinua como a mais difícil campanha de reeleição presidencial desde que essa possibilidade foi instituída.

Novo malabarismo fiscal - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 05/05

Como ficaram evidentes as manobras de que o governo Dilma lançou mão até agora para alcançar resultados fiscais maquiados, mas próximos das metas prometidas, os responsáveis pelas finanças federais redescobriram velhos estratagemas. Estão retardando os repasses e os pagamentos devidos, inclusive da área social, para evitar que os números comprovem a persistente deterioração da política fiscal e ampliem a desconfiança com relação ao governo da presidente que busca avidamente a reeleição.

O governo já havia feito isso no fim do ano passado, quando, sem nenhum pudor, retardou os repasses do Sistema Único de Saúde (SUS) para Estados e municípios, necessários para o custeio da assistência médica à população. Agora, como mostrou reportagem do jornal O Globo (28/4), estendeu a prática para a Previdência Social, o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), o Bolsa Família e o programa Minha Casa, Minha Vida.

O objetivo é alcançar, por quaisquer meios, a meta de superávit primário, que, em fevereiro, foi revista para R$ 91,3 bilhões, ou 1,9% do PIB projetado para 2014 (era de 2,1% do PIB). A meta, porém, está se tornando cada vez mais distante, por causa da feroz resistência do governo aos cortes de despesas, das projeções superdimensionadas das receitas e subdimensionadas dos gastos e dos dispêndios adicionais em que o Tesouro incorrerá para corrigir graves erros do programa de redução da tarifa de energia elétrica anunciado pela presidente em 2012.

Os parâmetros utilizados para fixar essa meta são questionáveis, quando não inteiramente irreais. O déficit previsto do Regime Geral da Previdência Social (RGPS) é de cerca de R$ 40 bilhões, resultado que, se alcançado, reverteria a tendência histórica de aumento do rombo (em 2013, foi de R$ 50 bilhões), sem que nenhuma nova medida tenha sido adotada para justificar tal redução.

O déficit artificialmente comprimido da Previdência foi incluído nos documentos que acompanham o projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2015. Também no caso das despesas com seguro-desemprego e do abono salarial, as projeções que acompanham o projeto da LDO, de responsabilidade dos Ministérios da Fazenda e do Planejamento, são menores do que as previstas pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Os gastos com seguro-desemprego foram reduzidos de R$ 35,1 bilhões para R$ 27,7 bilhões e com abono salarial, de R$ 16,7 bilhões para R$ 15,2 bilhões.

Quanto mais distante a meta do superávit primário, maiores parecem ser o esforço e a criatividade da área financeira do governo na busca de artifícios para alcançá-la.

No caso da Previdência, de acordo com a reportagem citada, o governo negociou com o Conselho Nacional de Justiça o adiamento para novembro dos pagamentos de precatórios normalmente feitos em abril. O resultado só aparecerá em dezembro, depois da eleição presidencial. Também estão sendo retardados os repasses aos bancos para o pagamento de aposentadorias de até um salário mínimo. No Minha Casa, Minha Vida, os pagamentos às construtoras, antes liberados logo depois da medição, agora demoram até 30 dias.

Com o atraso de repasses, o FAT tornou-se devedor da Caixa Econômica Federal, responsável pelos pagamentos dos benefícios custeados pelo fundo. É um problema adicional para um fundo que, tendo registrado um rombo de R$ 10,3 bilhões no ano passado, precisará de aportes volumosos em 2014 e 2015 para equilibrar suas contas.

Segundo a reportagem mencionada, os pagamentos devidos, mas adiados já somam R$ 10 bilhões. A meta de superávit primário do governo federal é de R$ 80,8 bilhões (o restante compete a Estados e municípios). Mas essa meta foi montada sem levar em conta os R$ 10 bilhões das transferências adiadas, os prováveis R$ 10 bilhões a mais no déficit previdenciário e as despesas adicionais causadas pelos erros do programa de tarifas de energia, que podem somar dezenas de bilhões. Pode até ser alcançada, mas é enganosa.

Pacote é presente de grego - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 05/05
A presidente Dilma Rousseff não teve o menor constrangimento de usar a véspera do Dia do Trabalho para, numa mensagem transmitida em rede nacional obrigatória de tevê, agir como candidata à reeleição, muito mais do que como chefe do Estado. Fez críticas a seus adversários políticos e anunciou medidas embrulhadas num pacote que ela entregou como sendo de bondades.
As medidas, na verdade, se resumem à antecipação de duas providências que já se faziam necessárias, o que não quer dizer que havia necessidade de anunciá-las agora, a não ser pelo calendário eleitoral e os resultados da últimas pesquisas de intenção de voto.

A inflação tem andado a galope e os preços dos alimentos já começam a incomodar as pessoas de menor poder aquisitivo. Para essa extensa camada da população, o peso da feira e do supermercado costuma passar de 30% do orçamento doméstico.

Para o assalariado, não resta alternativa senão a de economizar até o próximo acordo salarial da categoria ou o aumento do salário mínimo, se for o caso. Mas, para quem depende de programas sociais, como o Bolsa Família, a elevação do custo de vida só pode ser enfrentada com mais benesses oficiais. Foi nessa direção que a presidente anunciou aumento de 10% nas mesadas desse programa a partir de 1º de junho. Beneficiários do Bolsa Família não são exatamente trabalhadores, mas a pressa em anunciar bondades fez o 1º de Maio parecer estratégico.

Na mesma data e com o mesmo propósito, era preciso anunciar algo do agrado de milhões de trabalhadores das classes média e média baixa. A saída foi antecipar o percentual do reajuste da tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física para 2015. Será de 4,5%.

Há pelo menos dois aspectos desse "pacote" que não devem passar despercebidos da cidadania. O primeiro é que, entre gastos diretos do Tesouro e receitas que deixarão de ser recolhidas, as duas medidas retiram R$ 8,9 bilhões do Orçamento do ano que vem.

O pior é que elas não estão sozinhas. Vão se juntar às trapalhadas do governo no campo energético: a demagogia de baixar as tarifas na marra gerou um buraco de cerca de R$ 30 bilhões, a ser coberto em parte pelos consumidores (uma fração foi jogada para 2015 e outra bateu recentemente na conta de luz e vai gerar mais inflação) e pelo menos R$ 11 bilhões saíram do Tesouro com destino às distribuidoras de eletricidade. Tudo somado, já são mais de R$ 40 bilhões na contramão da promessa de cumprir as metas de superavit fiscal de 2014 e 2015, sujando mais um pouco nosso cadastro junto dos agentes do mercado internacional.

O segundo é mais um avanço do governo no bolso do contribuinte, disfarçado de benesse. Trata-se do velho truque de corrigir a tabela do IR em percentual abaixo da inflação. Há ações na Justiça reclamando da distorção acumulada de 66% que essa manobra tem provocado desde o Plano Real. É simples: se o trabalhador tiver no ano que vem um aumento de salário que reponha a inflação de 2014 (em torno de 6%), ele vai pagar mais IR em 2015, e alguns, que hoje são isentos, sofrerão a mordida no contracheque. Ou seja, o governo fez foi tirar mais uma pedaço do salário do trabalhador. Um verdadeiro presente de grego.

Atalho é golpe - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 05/05

A reforma política está presente no discurso de todos os partidos. Mas nem sempre é evidente o que cada corrente política pensa de fato sobre esta reforma. Neste sentido, as manifestações de junho do ano passado ajudaram a tornar mais claras algumas intenções, como a de frações do PT.

Recordemos que, naquele momento, ao sair do estado de catalepsia — em que também ficou a oposição, reconheça-se —, a presidente Dilma, sob inspiração do PT, propôs, entre outros “pactos”, um para a convocação de “assembleia constituinte exclusiva”, via plebiscito, para atender a um dos supostos clamores das ruas, a reforma política. Supostos clamores porque não se viu nas ruas qualquer reivindicação mais forte por esta reforma. O sentido daquelas manifestações — até começarem a ser desvirtuadas por grupos radicais, ajudados pela violência policial — esteve voltado para críticas ao descaso do poder público com a infraestrutura de que depende a maioria população. Com destaque para transporte público de massa, educação e saúde/SUS. Grupos de petistas com acesso ao Planalto é que aproveitaram o momento e contrabandearam para o discurso oficial a proposta de inspiração chavista da “assembleia constituinte”. Por sinal, logo demolida, do ponto de vista da lógica e da Lei, por juristas e até ministros do Supremo, os quais alertaram para a inconstitucionalidade da proposta. A ideia é mesmo indefensável do ponto de vista do estado de direito. “Constituinte exclusiva” é uma excrescência jurídica. Convoca-se Assembleia Constituinte com poderes de revisão da Carta, sem a necessidade de quorum qualificado, apenas em rupturas institucionais. Ou fazem-se mudanças pontuais na Constituição, obedecida a regra de praxe: votação em dois turnos em cada uma das Casas do Congresso, com aprovação por 3/5 dos votos.

Convocar uma assembleia “exclusiva”, para tratar de temas pré-definidos, é golpe — ficou mais uma vez claro na repercussão daquela proposta petista, mantida pela legenda. Como é muito difícil conseguir a maioria necessária para alterações profundas na legislação político-eleitoral — um reflexo da multiplicidade de opiniões que há na sociedade —, a constituinte “exclusiva” foi o atalho encontrado por petistas para viabilizar a reforma dos sonhos do partido. Diante da ampla e contundente reação, os petistas encaminharam uma segunda proposta, sem abrir mão da primeira, para um plebiscito sobre mudanças feitas pelo Congresso, como se fosse possível uma consulta binária — “sim” ou “não” — sobre assuntos intrincados como sistema de votação etc. A intenção do PT é conhecida: aprovar o voto em lista fechada, condição para o financiamento público de campanha. Entendem petistas que foram ajudados pelo veto à contribuição de pessoas jurídicas a políticos e partidos, aprovado pelo STF.

São medidas que apenas favorecem as cúpulas partidárias e legendas já consolidadas, PT a principal delas. Não ajudam a melhorar a baixa qualidade da representação política no país, mas auxiliam o projeto de poder petista.

De avião, mas com atraso - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 05/05
Dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) revelam que as empresas do setor rodoviário perderam 7,1 milhões de passageiros entre 2005 e 2013. No mesmo período, as companhias aéreas ganharam 51,2 milhões de usuários em voos domésticos.
Em 2011, pela primeira vez, a quantidade de pessoas que usaram avião superou a dos que fizeram viagens interestaduais de ônibus. Entre 2002 e 2010, o transporte aéreo --no critério de passageiros-- cresceu 115%, contra uma queda de 31% registrada no rodoviário.

Entre os fatores responsáveis pela mudança, destacam-se o aumento de renda dos brasileiros, em especial a partir de 2007; a oferta, antes restrita, de crediário; e outras situações favoráveis ao setor aéreo, como a isenção de ICMS, que incide sobre bilhetes de ônibus.

O crescimento da procura por aviões, que se compara a fenômeno ocorrido nos EUA na década de 1950, dificilmente deixaria de gerar pressões sobre os principais aeroportos. Eles não estavam preparados para um incremento tão significativo e veloz. A maneira como o governo federal enfrentou a questão ajudou a agravar o quadro.

Hesitante, em meio a preconceitos ideológicos contra as privatizações, a administração petista, na época do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tardou em tomar as medidas necessárias. Quando o fez, já no governo de Dilma Rousseff, cometeu equívocos e dificultou a adesão de investidores.

Hoje, enfim, depois da concessão dos aeroportos do Galeão (RJ) e de Confins (MG), que se seguiu à de Guarulhos (SP), as perspectivas melhoraram. O governo conseguiu obter R$ 20,8 bilhões com os dois aeroportos, valor bastante acima dos R$ 5,9 bilhões mínimos previstos na disputa e indicativo do interesse despertado.

É fato que, devido aos atrasos, parte das obras necessárias não ficará pronta a tempo para a Copa. O problema principal, contudo, não reside nesse evento ou na Olimpíada de 2016. O país precisa avançar na infraestrutura de transportes para atender a sua própria demanda doméstica.

Tal exigência vai além dos aeroportos. Também as rodovias, os portos e as ferrovias estão à espera de mais investimentos para sanar uma defasagem que se tornou crítica e dificulta, além do transporte de passageiros, o próprio crescimento da economia nacional.

O Brasil movido a soja - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 05/05

Se solucionar ao menos em parte seus problemas logísticos, o país vai se tornar ainda mais competitivo no mercado da oleaginosa


O agronegócio e, consequentemente, a economia brasileira são cada vez mais movidos a soja. É o que mostra o avanço do grão na composição do Valor Bruto da Produção (VBP) da agropecuária. A arrecadação do setor primário está crescendo e os segmentos ligados ao campo se beneficiam desse ciclo de expansão sem data para terminar. Considerando apenas esta década, a oleaginosa subiu 2,5 pontos no VBP do Paraná, e 3,7 pontos no VBP nacional. O estado e o país estão ampliando a cada ano a área cultivada com soja e esses números significam que a estratégia resultou em crescimento da renda.

O VBP mede a arrecadação de “dentro da porteira”, ou seja, não traduz a realidade da indústria e da prestação de serviços. No entanto, o faturamento de setores como o de transporte e o de processamento de grãos acompanham o crescimento da soja. Neste ano, o Paraná espera faturar R$ 14 bilhões com o grão e o Brasil, R$ 99 bilhões. Como as previsões de queda no preço da commodity não estão se concretizando, não será surpresa se o estado atingir R$ 15 bilhões e o país alcançar a marca histórica de R$ 100 bilhões em receita com o produto.

A liquidez e a rentabilidade da soja faz da oleaginosa a melhor opção para a agricultura. Não à toa, culturas como o milho, o feijão e a própria pecuária a pasto cedem espaço ao grão. Em abril, o Brasil registrou exportação de 8,2 milhões de toneladas de soja em grão. O volume é o novo recorde mensal, equiparado ao dos Estados Unidos, tradicional maior produtor, e agora segundo maior exportador. No ritmo atual, as exportações brasileiras devem atingir a estimativa de 45 milhões de toneladas do grão em 2014 com tranquilidade.

O Brasil vem ocupando mais espaço no mercado internacional da soja porque mostra-se competitivo ante seus principais concorrentes: Estados Unidos, Argentina e Paraguai. Embora não tenha a infraestrutura desejável na malha de transporte interno e nos portos marítimos, cobra menos impostos sobre o grão. É como se isso fosse uma compensação pelos engarrafamentos nas rodovias, pela falta de espaço nas ferrovias e pela sobrecarga nos portos, que resultam em descontos (prêmios negativos) nas cotações.

A produtividade da soja no Brasil equivale e, em alguns anos, deve passar a norte-americana. Daí vem a certeza de que a situação pode melhorar ainda mais. Se solucionar ao menos em parte seus problemas logísticos, o país vai se tornar ainda mais competitivo. Ou seja, existe margem para domínio ainda maior do mercado internacional da soja.

O principal importador do produto no mundo, a China, mostra-se um parceiro mais promissor do que a União Europeia, antigo líder na compra da produção brasileira. O Brasil continua atendendo antigos clientes, mas cresce ao se pautar na evolução da economia asiática e da própria demanda internacional.

E não é verdade que esse crescimento da participação da soja na economia brasileira ocorre por falta de esforços na agregação de valor ao produto primário. A China tem estrutura própria de processamento e compra soja em grão. Mesmo assim, na própria lista dos produtos com maior peso no VBP, estão itens diretamente relacionados ao complexo industrial da oleaginosa.

No Paraná, o segundo produto com maior participação no VBP agropecuário é o frango, com 15,1% (2013). Líder na produção e na exportação de carne de ave, o estado encontrou nesse setor uma forma de faturar mais sobre a colheita de grãos, uma vez que a ração do frango é feita à base de soja e milho. Os aviários e frigoríficos são indústrias de proteína ligadas à agricultura. Em âmbito nacional, o segundo produto é o boi (13,2%), cada vez mais tratado a ração, e o terceiro posto é que fica com o frango (11,4%).

O crescimento da soja dentro do VBP mostra que o grão se sustenta como uma alternativa lucrativa. A renda obtida com as vendas in natura cresce mais que a média, que abrange itens como as carnes, o leite, a cana-de-açúcar e outros grãos. E essa expansão merece ser vista como uma aposta acertada, não só pelo avanço do setor da oleaginosa em si, mas pelos resultados em cascata benéficos à economia como um todo.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

‘LAVA JATO’ ATINGE O ‘BANCO CENTRAL’ DA CORRUPÇÃO
Importantes criminalistas estão de sobreaviso com a instalação da CPI da Petrobras. As investigações da Operação Lava Jato revelaram mais do que pretendia e a Polícia Federal pode ter chegado ao coração de um “banco central” da corrupção no País, com o desmantelamento do esquema do doleiro Alberto Youssef e comparsas. E será a estreia da Lei Anticorrupção, em vigor desde janeiro, que provoca calafrios.


SEM BLINDAGEM

Lei Anticorrupção prevê prisão até mesmo para poderosos presidentes de empresas corruptoras, sempre “blindados” nos escândalos.


QUEM PAGA

Grandes empresários, donos de empreiteiras parceiras ou fornecedoras da Petrobras deixaram seus criminalistas de plantão.


DOMÍNIO DO FATO

A “teoria do domínio do fato”, prevista na nova Lei Anticorrupção, pune empresários cujas companhias se envolverem em casos de corrupção.


REVOLUÇÃO

Com a nova lei, figurões como Marcelo Odebrecht, em tese, estão sujeitos a prisão por malfeitorias envolvendo empresas que presidem.


RORIZ PODE SUBIR NO PALANQUE SÓ POR HOLOGRAMA

A campanha José Roberto Arruda (PR) ao governo do Distrito Federal pode contar ao menos com a presença “virtual” do ex-senador Joaquim Roriz nos comícios. Com saúde debilitada, Roriz terá dificuldades de subir em palanques, por isso a campanha avalia sua presença por meio de projeção holográfica, em três dimensões, como ocorre em shows com a “participação” de artistas ausentes ou até mesmo falecidos.


FILHA NA CHAPA

A deputada distrital Liliane Roriz, filha do ex-governador – que está na fila de transplante de rins – será candidata a vice, na chapa de Arruda.


PLANO B

Caso o holograma de Joaquim Roriz se revele impraticável, até pelos custos, os comícios de Arruda poderão exibir sua imagem em telões.


ESTREIA

Holograma de Renato Russo foi exibido em um show no Estádio Mané Garrincha, em junho de 2013. O brinquedo custou R$ 4,5 milhões.


FREGUÊS DE CADERNO

O laboratório Labogen, que encrencou o doleiro Youssef com o ex-ministro Alexandre Padilha (Saúde), surgiu na inútil CPI das ONGs, em 2012, como beneficiário de R$ 30 milhões de “parceria” federal.


LUVAS DE GABINETE

O sonho do chanceler Luiz Alberto Figueiredo é ter um diplomata no Congresso. Como o secretário Jean Marcel Fernandes, candidato a deputado federal pelo PSB. Muito próximo do ex-chanceler Patriota, Fernandes era do Ministério do Turismo e voltou ao Itamaraty.


TUDO MENOS ELE

O deputado William Dib (PSDB-SP) disse ao ex-presidente Lula que até aceita apoiar o ex-ministro Alexandre Padilha ao governo de São Paulo, tudo para não ver o desafeto tucano Geraldo Alckmin reeleito.


SINAL AMARELO

Em reunião informal com o presidente do PT, Rui Falcão, sexta à noite, dirigentes petistas do DF avisaram que “pesquisas internas” indicam que Aécio Neves (PSDB) lidera as intenções de voto na Capital.


ENTENDIMENTO

Os tucanos estão animados com a possibilidade de aliança com o PSD de Gilberto Kassab na disputa presidência. Os partidos já se uniram no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, no Paraná e em Rondônia.

SEM 


O deputado Guilherme Campos (PSD-SP) não vê chance de Gilberto Kassab aceitar disputar a vice do governador Geraldo Alckmin (PSDB): “Só falta chamar o Afif, que o Geraldo demitiu, para costurar o acordo”.


IMORTALIZADO


O ministro aposentado Carlos Ayres Britto voltará ao Supremo Tribunal Federal nesta quarta-feira (7), no Salão Branco, para a solenidade de aposição do seu retrato na galeria de ex-presidentes do STF.


SEM CONSENSO


A bancada do PT se reúne na terça (6) para tentar definir um substituto para o parceiro do doleiro Alberto Youssef, André Vargas (PR), na vice-presidência da Câmara. Até agora são quatro candidatos.


PENSANDO BEM…

…foi “80% populista e 20% surreal” o aumento de 10% do Bolsa Família que Dilma anunciou na TV no Dia do Trabalho.

SEGUNDA NOS JORNAIS

- Estadão: Portos limitam entrada de navio por falta de manutenção
Folha: Ideais do PSB preocupam campanha de Campos
Globo: Rombo da Eletrobras é de R$ 13 bi em 2 anos
Correio: Tarifaço pode custar até R$ 46 bi ao consumidor
Zero Hora: 60 toneladas de remédios fora do prazo
Brasil Econômico: “Dilma está perdendo a condição de ser candidata”