O Estado de S.Paulo - 24/04
O vilão da inflação é o governo, como provou mais uma vez o ministro da Fazenda, Guido Mantega, em sua patética entrevista sobre a disparada dos preços. "Eu tenho certeza de que vamos terminar o ano dentro do limite de 6,5%. Não vamos ultrapassar", assegurou. A meta oficial é de 4,5%, mas as falas do ministro e da presidente Dilma Rousseff geralmente passam longe desse detalhe. A preocupação efetiva, como têm confirmado os números nos últimos quatro anos, é alcançar qualquer ponto até o limite da margem de tolerância. Tanto melhor se o resultado ficar em torno de 6%, de preferência pouco abaixo, como em 2012 e 2013. Mas esse pormenor é meramente decorativo. Mais de uma vez a presidente negou qualquer tolerância à inflação. Mais de uma vez a política oficial desmentiu suas palavras e desmoralizou suas promessas. Igualmente desmoralizante, a entrevista do ministro Mantega ainda acrescentou um toque grotesco ao cenário.
No dia anterior, a pesquisa Focus do Banco Central (BC), realizada com cerca de cem especialistas do mercado financeiro e de consultorias, havia mostrado pela primeira vez neste ano uma projeção de inflação acima do limite de tolerância. Na semana anterior, a mediana das projeções havia chegado a 6,47%, quase batendo no limite. O número divulgado na terça-feira, depois do feriadão, foi 6,51%. A novidade teve um enorme valor simbólico e político.
No mesmo dia circularam em Brasília, segundo registrou O Globo, conversas sobre uma possível mudança no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), referência oficial para o regime de metas. Dois temas incômodos foram acrescentados, portanto, à pauta de qualquer figura importante da equipe econômica. Não haveria como evitá-los.
Coube ao ministro da Fazenda enfrentar os dois desafios. Ele negou qualquer plano de alteração do IPCA. Segundo as conversas noticiadas, a ideia seria excluir do cálculo os preços dos alimentos.
No Brasil, nenhum argumento estatístico poderia justificar essa mudança. O custo da alimentação ainda é um componente importante do orçamento da maior parte das famílias. Eliminá-lo do índice cheio seria falsificar os dados do custo de vida. Além disso, quem quiser saber como ficaria o IPCA sem os preços dos alimentos e dos combustíveis pode satisfazer sua curiosidade consultando os núcleos calculados por várias consultorias.
Detalhe muito importante: as tendências mostradas por esses núcleos são às vezes piores que aquelas apontadas pelo índice completo. É uma tolice tentar explicar uma inflação tão alta quanto a brasileira pela evolução de um ou outro grupo de preços, os famigerados vilões.
Mas o ministro fala como se acreditasse nessa tolice. Segundo ele, a alta do IPCA acumulada em 12 meses poderá ultrapassar o limite de 6,5% em breve, mas logo diminuirá e ficará abaixo dessa marca no fim do ano.
Os analistas do mercado poderiam estar certos quanto ao curtíssimo prazo, mas errados em relação ao número final de 2014. Ótimo para o ministro e para a presidente, se eles se contentarem, como nos últimos anos, com qualquer resultado até o limite de tolerância, de 6,5%.
O ministro baseia sua convicção numa pitoresca teoria dos vilões da alta de preços. "Todo ano tem algum vilão na história da inflação, mas o importante é que seja apenas um vilão e os outros preços possam flutuar e cair ao longo do tempo, de acordo com a sazonalidade."
Quantos vilões serão necessários para explicar os resultados dos últimos quatro anos - 5,91% em 2010, 6,5% em 2011, 5,84% em 2012 e 5,91% em 2013? E quantos são os vilões em atividade neste ano?
O ministro mencionou os preços de alimentos, as tarifas de energia elétrica (reprimidas desde o ano passado) e outros preços administrados, cada qual com "sua regra específica". E como falar em vilão, quando os preços em alta oscilam entre 65% e 70% do total, como têm oscilado?
Diplomado em economia, o ministro parece desconhecer fatores como as limitações da oferta e o excesso de demanda alimentado pelos estímulos ao consumo e pela gastança pública. Quem leva em conta esses fatores identifica o verdadeiro vilão.
quinta-feira, abril 24, 2014
Justiça americana põe cota racial em xeque - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 24/04
Como os EUA foram o berço das ‘ações afirmativas’, a revogação do critério da cor da pele na matrícula em faculdades públicas americanas deveria levar Brasília à reflexão
Chega a ser curioso que não muito tempo depois de o Supremo Tribunal Federal brasileiro carimbar a cota racial para efeito de ingresso nas universidades públicas, a Suprema Corte dos Estados Unidos, berço deste tipo de ação afirmativa, decida, por maioria de votos, que a revogação deste critério discricionário na seleção de alunos, criado supostamente para combater desigualdades, não é inconstitucional.
É relevante a decisão porque os Estados Unidos, ao contrário do Brasil, construíram uma sociedade com base na ideia de “raças", conceito cientificamente errado, além de política e socialmente deplorável. Mas mesmo lá, como se vê, não se trata de assunto pacífico.
O debate sobre cotas se reaviva a partir desta decisão, anunciada terça-feira, tomada sobre processo movido contra plebiscito realizado no estado de Michigan, no qual a revogação de cotas raciais e de gênero, para efeito de admissão em faculdades estaduais, foi aprovada por 58% dos eleitores. O objeto da consulta era a emenda à Constituição estadual que revoga as cotas na avaliação dos estudantes.
A redução do apoio a cotas não é de hoje. Vários estados já as proíbem — como Califórnia, Washington, Texas, Flórida. A decisão desta semana abre caminho a que outros estados sigam o mesmo caminho. Entre eles, Ohio, Missouri e Utah. A Suprema Corte também já havia vetado o uso de cotas em valores percentuais, mantendo apenas a aplicação do conceito na avaliação dos estudantes.
Não se trata de acabar com a política em si de ações afirmativas, mas de torná-las razoáveis, sem discriminar, por exemplo, o branco pobre. Nem servir de atenuante a governos que deixam de executar políticas amplas e eficientes de melhoria da educação pública básica, a melhor das ações afirmativas.
O ensino básico americano está em crise, e não é de agora. O fato tem sido observado na sequência de exames internacionais de proficiência (Pisa), em que o estudante adolescente americano tem apresentado baixo rendimento, principalmente em comparação com asiáticos (chineses, sul-coreanos) e alguns europeus. E é certo que a aplicação burocrática de cotas não favorece os americanos nessas comparações.
O jornal “New York Times” noticiou ontem que, diante da decisão dos juízes, reitores e outros responsáveis por estabelecimentos públicos de ensino superior já discutem alternativas às cotas, para continuar a incentivar a diversidade em suas escolas.
O critério de renda foi citado, a chamada cota social, também existente no Brasil. Esta não faz a odiosa discriminação pela cor da pele, não segrega o branco pobre.
O alerta vem dos Estados Unidos quando, no Brasil, o racialismo não para de avançar. Deveria fazer pensar por que cotas começam a cair em desgraça junto aos próprios americanos.
Como os EUA foram o berço das ‘ações afirmativas’, a revogação do critério da cor da pele na matrícula em faculdades públicas americanas deveria levar Brasília à reflexão
Chega a ser curioso que não muito tempo depois de o Supremo Tribunal Federal brasileiro carimbar a cota racial para efeito de ingresso nas universidades públicas, a Suprema Corte dos Estados Unidos, berço deste tipo de ação afirmativa, decida, por maioria de votos, que a revogação deste critério discricionário na seleção de alunos, criado supostamente para combater desigualdades, não é inconstitucional.
É relevante a decisão porque os Estados Unidos, ao contrário do Brasil, construíram uma sociedade com base na ideia de “raças", conceito cientificamente errado, além de política e socialmente deplorável. Mas mesmo lá, como se vê, não se trata de assunto pacífico.
O debate sobre cotas se reaviva a partir desta decisão, anunciada terça-feira, tomada sobre processo movido contra plebiscito realizado no estado de Michigan, no qual a revogação de cotas raciais e de gênero, para efeito de admissão em faculdades estaduais, foi aprovada por 58% dos eleitores. O objeto da consulta era a emenda à Constituição estadual que revoga as cotas na avaliação dos estudantes.
A redução do apoio a cotas não é de hoje. Vários estados já as proíbem — como Califórnia, Washington, Texas, Flórida. A decisão desta semana abre caminho a que outros estados sigam o mesmo caminho. Entre eles, Ohio, Missouri e Utah. A Suprema Corte também já havia vetado o uso de cotas em valores percentuais, mantendo apenas a aplicação do conceito na avaliação dos estudantes.
Não se trata de acabar com a política em si de ações afirmativas, mas de torná-las razoáveis, sem discriminar, por exemplo, o branco pobre. Nem servir de atenuante a governos que deixam de executar políticas amplas e eficientes de melhoria da educação pública básica, a melhor das ações afirmativas.
O ensino básico americano está em crise, e não é de agora. O fato tem sido observado na sequência de exames internacionais de proficiência (Pisa), em que o estudante adolescente americano tem apresentado baixo rendimento, principalmente em comparação com asiáticos (chineses, sul-coreanos) e alguns europeus. E é certo que a aplicação burocrática de cotas não favorece os americanos nessas comparações.
O jornal “New York Times” noticiou ontem que, diante da decisão dos juízes, reitores e outros responsáveis por estabelecimentos públicos de ensino superior já discutem alternativas às cotas, para continuar a incentivar a diversidade em suas escolas.
O critério de renda foi citado, a chamada cota social, também existente no Brasil. Esta não faz a odiosa discriminação pela cor da pele, não segrega o branco pobre.
O alerta vem dos Estados Unidos quando, no Brasil, o racialismo não para de avançar. Deveria fazer pensar por que cotas começam a cair em desgraça junto aos próprios americanos.
Conformismo com inflação - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 24/04
Para o governo, o atual período de alta inflacionária vai passar e o país fechará 2014 com o aumento dos preços contido dentro da meta de 6,5% ao ano, embora esse seja o teto definido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Bom, essa é a tese do ministro da Fazenda, Guido Mantega. E ele justifica tanta confiança com explicação singela: "É assim que acontece todos os anos". Resta saber se o comandante da economia combinou a repetição da história com os russos - como diria o eterno craque Garrincha, questionando o técnico da Seleção de 1958 se o comportamento recomendado a ele em campo estava acertado com o adversário para ser tão facilmente executado.
No caso de Mantega, certamente não há nada combinado. Seja do lado do consumidor, seja do lado do mercado, o que há é apreensão. A expectativa de quem compra caiu, em março, ao menor nível desde julho de 2009, atingindo 108,8 pontos, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Já a confiança de quem vende, calculada pela Fundação Getulio Vargas (FGV), teve queda de 2,1% no primeiro trimestre, na comparação com o mesmo período do ano passado. Motivação não faltou para que tais reações coincidissem, até porque nenhuma delas é fundamentada em pessimismo fortuito. Pelo contrário, são ambas fundadas na dura realidade nacional.
Afinal, já nos três primeiros meses de 2014, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 2,18%. A título de comparação, nesse período, a poupança rendeu 1,70% e a média de rendimento dos fundos de investimento foi de 2,04%. Ou seja, o brasileiro não tem para onde correr. Assim, Mantega é quase uma ilha de despreocupação. Tudo bem, é verdade que o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, esteja afinado com ele quanto à inflação fechar o ano no teto da meta. Mas o próprio BC previu na terça-feira, por meio do Boletim Focus, que o IPCA vai a 6,51% até dezembro. Na semana passada, a previsão era de 6,47%, portanto, ainda dentro do limite.
O que Mantega disse ontem que está em plenas condições de cumprir - e é melhor acreditar que assim será - é que o governo não fará uso de medidas heterodoxas para controlar, ou melhor, manipular, a inflação. Nada de mágica, como um expurgo aqui outro ali. A aposta dele é que a pressão inflacionária ceda naturalmente, com mercados sujeitos a sazonalidades e produtos que estão na entressafra - especialmente os hortifrutigranjeiros, que citou como prejudicados pelas chuvas mais escassas - vencendo os períodos difíceis e apresentando melhor oferta. Assim seja. Mas o país ficará menos desconfortável se o governo não cruzar os braços diante desse prognóstico.
Nem sequer é razoável seguir a toada de uma nota só da política monetária. Tentar domar a fera apenas com o garrote dos juros, enquanto o gigantesco Estado a alimenta com gastos perdulários, é enxugar gelo. Conformar-se com a inflação roçando o teto, outra atitude incompreensível das autoridades, só compatível com o crescimento igualmente despretencioso do Produto Interno Bruto. Este país precisa pensar grande. Sem rigoroso ajuste fiscal, ora relaxado, os preços serão sempre uma ameaça. O Brasil já perdeu oportunidades demais. É hora de encarar os problemas com firmeza e arrumar de vez a casa, para que as conquistas sociais possam ser mantidas e até ampliadas.
No caso de Mantega, certamente não há nada combinado. Seja do lado do consumidor, seja do lado do mercado, o que há é apreensão. A expectativa de quem compra caiu, em março, ao menor nível desde julho de 2009, atingindo 108,8 pontos, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Já a confiança de quem vende, calculada pela Fundação Getulio Vargas (FGV), teve queda de 2,1% no primeiro trimestre, na comparação com o mesmo período do ano passado. Motivação não faltou para que tais reações coincidissem, até porque nenhuma delas é fundamentada em pessimismo fortuito. Pelo contrário, são ambas fundadas na dura realidade nacional.
Afinal, já nos três primeiros meses de 2014, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 2,18%. A título de comparação, nesse período, a poupança rendeu 1,70% e a média de rendimento dos fundos de investimento foi de 2,04%. Ou seja, o brasileiro não tem para onde correr. Assim, Mantega é quase uma ilha de despreocupação. Tudo bem, é verdade que o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, esteja afinado com ele quanto à inflação fechar o ano no teto da meta. Mas o próprio BC previu na terça-feira, por meio do Boletim Focus, que o IPCA vai a 6,51% até dezembro. Na semana passada, a previsão era de 6,47%, portanto, ainda dentro do limite.
O que Mantega disse ontem que está em plenas condições de cumprir - e é melhor acreditar que assim será - é que o governo não fará uso de medidas heterodoxas para controlar, ou melhor, manipular, a inflação. Nada de mágica, como um expurgo aqui outro ali. A aposta dele é que a pressão inflacionária ceda naturalmente, com mercados sujeitos a sazonalidades e produtos que estão na entressafra - especialmente os hortifrutigranjeiros, que citou como prejudicados pelas chuvas mais escassas - vencendo os períodos difíceis e apresentando melhor oferta. Assim seja. Mas o país ficará menos desconfortável se o governo não cruzar os braços diante desse prognóstico.
Nem sequer é razoável seguir a toada de uma nota só da política monetária. Tentar domar a fera apenas com o garrote dos juros, enquanto o gigantesco Estado a alimenta com gastos perdulários, é enxugar gelo. Conformar-se com a inflação roçando o teto, outra atitude incompreensível das autoridades, só compatível com o crescimento igualmente despretencioso do Produto Interno Bruto. Este país precisa pensar grande. Sem rigoroso ajuste fiscal, ora relaxado, os preços serão sempre uma ameaça. O Brasil já perdeu oportunidades demais. É hora de encarar os problemas com firmeza e arrumar de vez a casa, para que as conquistas sociais possam ser mantidas e até ampliadas.
Vargas vai para cima - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 24/04
O deputado petista André Vargas, que se viu compelido a deixar a vice-presidência da Câmara ao emergirem os seus negócios com o grão-doleiro Alberto Youssef - o que levou o Conselho de Ética da Casa a abrir contra ele processo por quebra de decoro parlamentar -, deve se achar um guerreiro. Não tem, é claro, a movimentada biografia de um José Dirceu, o ex-presidente do PT, ex-deputado e ex-ministro da Casa Civil que cumpre pena na Papuda como capo do mensalão, a quem os companheiros assim reverenciam, acrescentando, para rimar, "do povo brasileiro".
Mas, para quem ignorasse os métodos, não propriamente solares, graças aos quais André Luiz Vargas Ilário fez carreira no PT de Londrina - começando por dirigir o Albergue Noturno local até chegar ao comando da sigla no Paraná em 1998 e ao Congresso Nacional em 2006 -, foi na esteira do encarceramento de Dirceu que ele apareceu na mídia nacional. O robusto parlamentar valeu-se da circunstância de estar ao lado do presidente do STF, Joaquim Barbosa, na abertura do atual ano legislativo, para erguer o punho esquerdo em solidariedade aos mensaleiros condenados, vítimas, segundo ele, de um julgamento injusto.
O bravo Ilário acabaria, porém, metendo os pés pelas mãos, quando se revelou que viajara de férias a bordo de um jatinho providenciado por Youssef. O episódio virou notícia porque, a essa altura, ele tinha sido preso sob a acusação de operar uma usina de lavagem de dinheiro que branqueara R$ 10 bilhões. (O mundo é pequeno. Como o Estado revelou, o ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, que fugiu para a Itália para não fazer companhia aos correligionários cumprindo pena pelo mensalão, é considerado pela Justiça italiana suspeito de ligações com uma lavanderia chefiada por um certo Valter Lavitola, que prestava serviços ao ex-premiê Sílvio Berlusconi.)
Primeiro, Vargas negou que conhecesse Youssef. Depois se enrolou em um cipoal de novas mentiras até, contrito, dizer que se "equivocou". Tudo poderia ser reduzido a um pecadilho, e punido, quem sabe, com advertência ou suspensão do mandato. Mas o seu mundo caiu quando a Polícia Federal descobriu que ele atolara com o doleiro na tentativa de tomar R$ 31 milhões do Ministério da Saúde para medicamentos a serem produzidos por uma empresa cujo dono oculto é Youssef. Exposto o tráfico de influência, Vargas imaginou que, se renunciasse ao mandato, mataria o processo no Conselho de Ética. Assim, poderia candidatar-se de novo este ano.
Desfeita a ilusão, renunciou à anunciada renúncia - e deixou o PT em polvorosa, a ponto de ameaçá-lo de expulsão se insistisse em manter-se deputado. O partido tem pelo menos dois bons motivos para tirar Vargas de cena - e nenhum deles tem que ver com um improvável surto ético pós-mensalão da legenda de Lula. O primeiro se chama Gleisi Hoffman. O segundo, Alexandre Padilha. A ex-ministra da Casa Civil de Dilma é candidata ao governo do Paraná, onde os adversários poderiam usar contra ela a folha corrida de Vargas. Já o ex-ministro da Saúde, candidato em São Paulo, teria de ficar explicando que, afinal, a pasta não fechou o negócio com Youssef mediado pelo parlamentar.
No limite, a própria campanha reeleitoral da presidente poderia ser atingida pelos detritos da era Vargas. Nem esse argumento dissuadiu o deputado valentão. Numa reunião com a cúpula partidária, na terça-feira, ele peitou os cobradores. "Não renuncio. Agora vou até o fim", avisou. E, no que poderia ser tomado como um acesso de megalomania não fossem o que são os conflitos internos do PT, provocou: "Vou fazer o meu sucessor (na Mesa da Câmara)". De fato, embora o presidente da sigla, Rui Falcão, tenha lhe dito que "já devia ter renunciado", porque não conseguirá "sustentar a sua versão dos fatos no Conselho e no plenário", há quem divirja.
Figuras carimbadas como os deputados paulistas José Mentor e Cândido Vaccarezza e o carioca Luiz Sérgio estão fechados com o teimoso, que se gaba de ter o apoio de 1/3 dos 88 membros da bancada. Como diria Lula, ele "foi para cima".
O deputado petista André Vargas, que se viu compelido a deixar a vice-presidência da Câmara ao emergirem os seus negócios com o grão-doleiro Alberto Youssef - o que levou o Conselho de Ética da Casa a abrir contra ele processo por quebra de decoro parlamentar -, deve se achar um guerreiro. Não tem, é claro, a movimentada biografia de um José Dirceu, o ex-presidente do PT, ex-deputado e ex-ministro da Casa Civil que cumpre pena na Papuda como capo do mensalão, a quem os companheiros assim reverenciam, acrescentando, para rimar, "do povo brasileiro".
Mas, para quem ignorasse os métodos, não propriamente solares, graças aos quais André Luiz Vargas Ilário fez carreira no PT de Londrina - começando por dirigir o Albergue Noturno local até chegar ao comando da sigla no Paraná em 1998 e ao Congresso Nacional em 2006 -, foi na esteira do encarceramento de Dirceu que ele apareceu na mídia nacional. O robusto parlamentar valeu-se da circunstância de estar ao lado do presidente do STF, Joaquim Barbosa, na abertura do atual ano legislativo, para erguer o punho esquerdo em solidariedade aos mensaleiros condenados, vítimas, segundo ele, de um julgamento injusto.
O bravo Ilário acabaria, porém, metendo os pés pelas mãos, quando se revelou que viajara de férias a bordo de um jatinho providenciado por Youssef. O episódio virou notícia porque, a essa altura, ele tinha sido preso sob a acusação de operar uma usina de lavagem de dinheiro que branqueara R$ 10 bilhões. (O mundo é pequeno. Como o Estado revelou, o ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, que fugiu para a Itália para não fazer companhia aos correligionários cumprindo pena pelo mensalão, é considerado pela Justiça italiana suspeito de ligações com uma lavanderia chefiada por um certo Valter Lavitola, que prestava serviços ao ex-premiê Sílvio Berlusconi.)
Primeiro, Vargas negou que conhecesse Youssef. Depois se enrolou em um cipoal de novas mentiras até, contrito, dizer que se "equivocou". Tudo poderia ser reduzido a um pecadilho, e punido, quem sabe, com advertência ou suspensão do mandato. Mas o seu mundo caiu quando a Polícia Federal descobriu que ele atolara com o doleiro na tentativa de tomar R$ 31 milhões do Ministério da Saúde para medicamentos a serem produzidos por uma empresa cujo dono oculto é Youssef. Exposto o tráfico de influência, Vargas imaginou que, se renunciasse ao mandato, mataria o processo no Conselho de Ética. Assim, poderia candidatar-se de novo este ano.
Desfeita a ilusão, renunciou à anunciada renúncia - e deixou o PT em polvorosa, a ponto de ameaçá-lo de expulsão se insistisse em manter-se deputado. O partido tem pelo menos dois bons motivos para tirar Vargas de cena - e nenhum deles tem que ver com um improvável surto ético pós-mensalão da legenda de Lula. O primeiro se chama Gleisi Hoffman. O segundo, Alexandre Padilha. A ex-ministra da Casa Civil de Dilma é candidata ao governo do Paraná, onde os adversários poderiam usar contra ela a folha corrida de Vargas. Já o ex-ministro da Saúde, candidato em São Paulo, teria de ficar explicando que, afinal, a pasta não fechou o negócio com Youssef mediado pelo parlamentar.
No limite, a própria campanha reeleitoral da presidente poderia ser atingida pelos detritos da era Vargas. Nem esse argumento dissuadiu o deputado valentão. Numa reunião com a cúpula partidária, na terça-feira, ele peitou os cobradores. "Não renuncio. Agora vou até o fim", avisou. E, no que poderia ser tomado como um acesso de megalomania não fossem o que são os conflitos internos do PT, provocou: "Vou fazer o meu sucessor (na Mesa da Câmara)". De fato, embora o presidente da sigla, Rui Falcão, tenha lhe dito que "já devia ter renunciado", porque não conseguirá "sustentar a sua versão dos fatos no Conselho e no plenário", há quem divirja.
Figuras carimbadas como os deputados paulistas José Mentor e Cândido Vaccarezza e o carioca Luiz Sérgio estão fechados com o teimoso, que se gaba de ter o apoio de 1/3 dos 88 membros da bancada. Como diria Lula, ele "foi para cima".
As quatro leis da entropia petista - JOSÉ SERRA
O Estado de S.Paulo - 24/04
Arrumando meus papéis, encontrei transcrições completas dos debates em rede nacional da campanha presidencial de 2010. De forma um tanto masoquista, li todas elas e lembrei de um juízo que formei na época e disse a uma assessora: "Dilma Rousseff tem o dom de empregar o máximo de palavras para expressar o mínimo de pensamento (*). Mesmo assim, um mínimo errado".
Arrumando meus papéis, encontrei transcrições completas dos debates em rede nacional da campanha presidencial de 2010. De forma um tanto masoquista, li todas elas e lembrei de um juízo que formei na época e disse a uma assessora: "Dilma Rousseff tem o dom de empregar o máximo de palavras para expressar o mínimo de pensamento (*). Mesmo assim, um mínimo errado".
Ao longo desses debates, eu tinha duas preocupações essenciais. A primeira, como é óbvio, perder no segundo turno, não tanto pelo desempenho de Dilma, mas pela avaliação do governo Lula: no período entre junho e setembro, mais de 75% das pessoas achavam o governo ótimo ou bom e 85% o aprovavam. As vendas a varejo cresciam a 11%, a massa real de rendimentos, 8%, e a supervalorização cambial chegava ao seu ponto máximo, subsidiando o consumo importado e o turismo no exterior - naquele ano, o dólar valeu em média R$ 1,7. Precisava mais?
A outra preocupação era com o futuro do Brasil em si, independentemente de minha participação no processo. Estava convencido de que o boom econômico capotaria logo, de que a herança de Lula seria bastante adversa e de que, se fosse eleita, Dilma Rousseff faria um governo atrapalhado e ruim, pisando no acelerador do atraso. Passara a campanha mostrando que não conhecia os problemas brasileiros e que não tinha nenhuma qualificação especial como administradora pública. Pelo contrário.
Uma coisa é fazer uma previsão pessimista, outra é vê-la se cumprir, ver a intuição virar razão: quando isso ocorre, não fico exatamente surpreso, mas sou tomado de certa estupefação.
A lei do máximo de palavras para um mínimo de conteúdo está acoplada a três "antileis" afins, a começar pela que estabeleceu que a menor distância entre dois pontos não é uma linha reta, mas alguma curva tridimensional e espiralada, teorema antieuclidiano que o governo Dilma segue à risca. Outra "antilei" sagrada tem origem na volta ao geocentrismo, ou seja, à ideia de que o sol e os planetas giram em torno da Terra, que é o centro do universo. A presidente Rousseff e o PT se comportam como se fossem o centro do universo brasileiro, em torno do qual tudo e todos têm de girar: o conhecimento, a moral, a ética, a Justiça, a imprensa e todos os políticos e seus respectivos partidos.
Por fim, adotaram a "antilei" que afeta o funcionamento da economia: a da inépcia inovadora, segundo a qual as facilidades não devem ser aproveitadas, mas tornadas em dificuldades. Por exemplo, se o modelo anterior de concessão na exploração de petróleo funcionava bem, para que aproveitá-lo no pré-sal? Não! Preferiu-se um novo método, que não traz mais dinheiro ao País e ao Fisco, mas colabora para quebrar a Petrobrás.
Houve bastante originalidade nos erros do governo Dilma, mas quase nada que não pudesse ter sido previsto em 2010, seja pelo que já estava se fazendo no governo Lula (com forte participação da então ministra), seja pelo que ela já anunciava na disputa eleitoral. Suas intervenções na campanha presidencial daquele ano preconizavam a conversão das quatro leis citadas em verdadeiro método de governo. Ilustro com dois exemplos eloquentes.
Volto aos meus papéis e vejo como é fácil banalizar com conversa mole e discursos balofos ações que dizem respeito à vida de milhões de pessoas. Afirmou, por exemplo, a então candidata petista: "No caso da segurança pública, nós iremos apostar nisso que está dando muito certo que são as Unidades de Polícia Pacificadora já implantadas no Rio de Janeiro". Ou ainda: "(Para combater o tráfico de drogas) compramos veículos aéreos não tripulados, chamados Vants, que são aqueles que policiam as fronteiras e permitem que a gente localize o tráfico. Os Vants chegaram em setembro e até o final do ano mais dois vão chegar, e eu pretendo transformar esse policiamento das fronteiras num policiamento sistemático, com mais 14 Vants".
Como se sabe, as UPPs não foram implantadas Brasil afora e, em setembro de 2010, não havia nenhum Vant em funcionamento. Neste ano, 2014, só há dois voando de fato nas fronteiras do País, apesar dos 14 anunciados pela candidata.
Das alturas cerúleas para as profundezas da Terra, mais uma fala da candidata Dilma: "Com o pré-sal, eu vou poder ter no Brasil mais milhares de equipamentos para controlar a fronteira... Mas não se pode deixar de olhar que a questão do pré-sal é fundamental. Quando eu coloco o problema da privatização, eu estou preocupada com o quê? Com esses recursos do pré-sal, que, segundo o candidato Serra, só vão chegar no final da década. Mas ele é mal informado. Os recursos do pré-sal já começaram".
O "candidato Serra", como ela se referiu a mim, não dizia nada que o "indivíduo Serra" não pudesse sustentar. A ideia de que o óleo do pré-sal iria proporcionar "milhares de equipamentos" para controlar a fronteira é emblemática não só da ignorância desmedida de quem preparou as fichas nas quais a então candidata acreditou, mas também da ligeireza com que se tratava algo tão sério: observem que se acusava o candidato da oposição de pretender privatizar o pré-sal e acabar com os recursos que seriam destinados ao narcotráfico... Um completo despropósito. Note-se à margem que a produção de petróleo no governo Dilma estagnou, a proclamada autossuficiência não aconteceu, jogaram-se muitos bilhões de dólares na aventura das refinarias, nada sobrou para o controle das fronteiras nem para a Petrobrás, que hoje é a empresa não financeira mais endividada do mundo, tendo perdido 50% do seu valor de mercado.
Poderia me estender aqui com dezenas de exemplos, mas esses dois, que saltaram primeiro à mão ao mexer nas minhas anotações, são bastante eloquentes. Essas "antileis" - ou as quatro leis da entropia petista - não são uma questão corriqueira, que se resume ao discurso. Elas têm consequências práticas na vida dos brasileiros e no futuro do País. Formam os alicerces do atraso, que sustentam um projeto de poder.
(*) Referência ao que dissera Winston Churchill sobre o primeiro-ministro Ramsay MacDonald.
A outra preocupação era com o futuro do Brasil em si, independentemente de minha participação no processo. Estava convencido de que o boom econômico capotaria logo, de que a herança de Lula seria bastante adversa e de que, se fosse eleita, Dilma Rousseff faria um governo atrapalhado e ruim, pisando no acelerador do atraso. Passara a campanha mostrando que não conhecia os problemas brasileiros e que não tinha nenhuma qualificação especial como administradora pública. Pelo contrário.
Uma coisa é fazer uma previsão pessimista, outra é vê-la se cumprir, ver a intuição virar razão: quando isso ocorre, não fico exatamente surpreso, mas sou tomado de certa estupefação.
A lei do máximo de palavras para um mínimo de conteúdo está acoplada a três "antileis" afins, a começar pela que estabeleceu que a menor distância entre dois pontos não é uma linha reta, mas alguma curva tridimensional e espiralada, teorema antieuclidiano que o governo Dilma segue à risca. Outra "antilei" sagrada tem origem na volta ao geocentrismo, ou seja, à ideia de que o sol e os planetas giram em torno da Terra, que é o centro do universo. A presidente Rousseff e o PT se comportam como se fossem o centro do universo brasileiro, em torno do qual tudo e todos têm de girar: o conhecimento, a moral, a ética, a Justiça, a imprensa e todos os políticos e seus respectivos partidos.
Por fim, adotaram a "antilei" que afeta o funcionamento da economia: a da inépcia inovadora, segundo a qual as facilidades não devem ser aproveitadas, mas tornadas em dificuldades. Por exemplo, se o modelo anterior de concessão na exploração de petróleo funcionava bem, para que aproveitá-lo no pré-sal? Não! Preferiu-se um novo método, que não traz mais dinheiro ao País e ao Fisco, mas colabora para quebrar a Petrobrás.
Houve bastante originalidade nos erros do governo Dilma, mas quase nada que não pudesse ter sido previsto em 2010, seja pelo que já estava se fazendo no governo Lula (com forte participação da então ministra), seja pelo que ela já anunciava na disputa eleitoral. Suas intervenções na campanha presidencial daquele ano preconizavam a conversão das quatro leis citadas em verdadeiro método de governo. Ilustro com dois exemplos eloquentes.
Volto aos meus papéis e vejo como é fácil banalizar com conversa mole e discursos balofos ações que dizem respeito à vida de milhões de pessoas. Afirmou, por exemplo, a então candidata petista: "No caso da segurança pública, nós iremos apostar nisso que está dando muito certo que são as Unidades de Polícia Pacificadora já implantadas no Rio de Janeiro". Ou ainda: "(Para combater o tráfico de drogas) compramos veículos aéreos não tripulados, chamados Vants, que são aqueles que policiam as fronteiras e permitem que a gente localize o tráfico. Os Vants chegaram em setembro e até o final do ano mais dois vão chegar, e eu pretendo transformar esse policiamento das fronteiras num policiamento sistemático, com mais 14 Vants".
Como se sabe, as UPPs não foram implantadas Brasil afora e, em setembro de 2010, não havia nenhum Vant em funcionamento. Neste ano, 2014, só há dois voando de fato nas fronteiras do País, apesar dos 14 anunciados pela candidata.
Das alturas cerúleas para as profundezas da Terra, mais uma fala da candidata Dilma: "Com o pré-sal, eu vou poder ter no Brasil mais milhares de equipamentos para controlar a fronteira... Mas não se pode deixar de olhar que a questão do pré-sal é fundamental. Quando eu coloco o problema da privatização, eu estou preocupada com o quê? Com esses recursos do pré-sal, que, segundo o candidato Serra, só vão chegar no final da década. Mas ele é mal informado. Os recursos do pré-sal já começaram".
O "candidato Serra", como ela se referiu a mim, não dizia nada que o "indivíduo Serra" não pudesse sustentar. A ideia de que o óleo do pré-sal iria proporcionar "milhares de equipamentos" para controlar a fronteira é emblemática não só da ignorância desmedida de quem preparou as fichas nas quais a então candidata acreditou, mas também da ligeireza com que se tratava algo tão sério: observem que se acusava o candidato da oposição de pretender privatizar o pré-sal e acabar com os recursos que seriam destinados ao narcotráfico... Um completo despropósito. Note-se à margem que a produção de petróleo no governo Dilma estagnou, a proclamada autossuficiência não aconteceu, jogaram-se muitos bilhões de dólares na aventura das refinarias, nada sobrou para o controle das fronteiras nem para a Petrobrás, que hoje é a empresa não financeira mais endividada do mundo, tendo perdido 50% do seu valor de mercado.
Poderia me estender aqui com dezenas de exemplos, mas esses dois, que saltaram primeiro à mão ao mexer nas minhas anotações, são bastante eloquentes. Essas "antileis" - ou as quatro leis da entropia petista - não são uma questão corriqueira, que se resume ao discurso. Elas têm consequências práticas na vida dos brasileiros e no futuro do País. Formam os alicerces do atraso, que sustentam um projeto de poder.
(*) Referência ao que dissera Winston Churchill sobre o primeiro-ministro Ramsay MacDonald.
Feitiço contra o feiticeiro - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 24/04
Graças a um erro estratégico da presidente Dilma, o governismo, de maneira geral, abrangendo mesmo aqueles que não gostariam de ter que apoiar a reeleição da presidente, está tendo dificuldades para enfrentar os problemas políticos decorrentes do mau negócio que a Petrobras realizou comprando a refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos.
Digo erro estratégico porque até pouco tempo atrás todos os envolvidos na transação, inclusive a própria presidente, tinham a mesma versão de que a compra fora um bom negócio, justificável pelo plano estratégico da empresa. Mesmo que hoje se saiba que essa explicação não corresponde à verdade, foi graças à irritabilidade da presidente Dilma que ficamos sabendo disso, e com detalhes como as cláusulas omitidas no resumo técnico levado ao Conselho da Petrobras.
Muitos se espantaram com minhas críticas ao sincericídio de Dilma, como se estivesse criticando-a por ter falado a verdade. Minha crítica é mais extensa: acho que a presidente Dilma não tem condições políticas para esclarecer o caso, e tentou, com sua nota oficial de próprio punho, livrar sua responsabilidade no caso, como acentuou o ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli.
Tanto é verdade que ainda presidente do Conselho, mas já sabendo que as negociações para a compra de Pasadena haviam sido omitidas, aceitou que o diretor responsável pelo relatório falho técnica e juridicamente fosse transferido para outra diretoria da Petrobras Distribuidora, com elogios formais do Conselho por sua atuação. E em nenhum momento fez críticas à atuação da diretoria da Petrobras.
A ministra-chefe da Casa Civil toda-poderosa conviveu com a diretoria da Petrobras, da qual discordava, sem criar marolas políticas, pois já estava trabalhando para ser a candidata oficial à sucessão de Lula em 2010. Portanto, o seu sincericídio , em vez de significar uma reação a uma maneira de fazer política empresarial da qual discorda, é muito mais um ato voluntarioso de uma pessoa que não está acostumada a ser contrariada, não tem maiores consequências na mudança de rumos da gestão da Petrobras.
Mas, voltando às dificuldades que o PT está tendo para justificar sua posição na crise da Petrobras, é bom lembrar que logo depois da eleição de 2006, em entrevista a Fernando Rodrigues, da Folha , o marqueteiro João Santana revelou que o debate sobre as privatizações fora utilizado como maneira de reavivar emoções políticas no imaginário do brasileiro comum.
Santana admitiu na entrevista que a impressão de que algo obscuro acontecera nas privatizações deveu-se a um erro de comunicação do governo FH, que poderia ter vendido o benefício das privatizações de maneira mais clara . O erro do PSDB fora, segundo ele, não ter defendido as privatizações como maneira de alcançar o desenvolvimento . No caso da telefonia, teve um sucesso fabuloso que não foi capitalizado pela oposição, dizia ele.
João Santana foi claro quando respondeu se não seria desonesto explorar sentimentos que ele sabia não exprimirem a verdade: Trabalho com o imaginário da população. Numa campanha, trabalhamos com produções simbólicas .
Pois hoje a exploração das produções simbólicas no imaginário da população está causando graves problemas para o governismo, acusado pela oposição de ter privatizado a Petrobras para um grupo político. O governo ainda tenta sair das cordas acusando a oposição de estar fazendo uma campanha contra a Petrobras , mas a falta de sentido dessa acusação não encontra eco no cidadão comum, que está vendo a crise na Petrobras como uma grave falha do governo.
Aliás, o PT no poder tem como hábito assumir o papel do Estado brasileiro, e, quando sua atuação é criticada, seus líderes atribuem as críticas a uma campanha contra o país . O ex-presidente Lula já se cansou de acusar o ex-presidente Fernando Henrique de falar mal do país em suas conferência internacionais. A presidente Dilma Rousseff volta e meia diz que tem gente torcendo para o país dar errado .
Na verdade, tanto Lula quanto Dilma se referem a oposicionistas que criticam a atuação do governo, e não o país. Um governo representa o país, é fato, mas pode representar mal e merecer críticas. Assim como críticas à gestão de uma empresa não representam campanha contra ela.
Graças a um erro estratégico da presidente Dilma, o governismo, de maneira geral, abrangendo mesmo aqueles que não gostariam de ter que apoiar a reeleição da presidente, está tendo dificuldades para enfrentar os problemas políticos decorrentes do mau negócio que a Petrobras realizou comprando a refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos.
Digo erro estratégico porque até pouco tempo atrás todos os envolvidos na transação, inclusive a própria presidente, tinham a mesma versão de que a compra fora um bom negócio, justificável pelo plano estratégico da empresa. Mesmo que hoje se saiba que essa explicação não corresponde à verdade, foi graças à irritabilidade da presidente Dilma que ficamos sabendo disso, e com detalhes como as cláusulas omitidas no resumo técnico levado ao Conselho da Petrobras.
Muitos se espantaram com minhas críticas ao sincericídio de Dilma, como se estivesse criticando-a por ter falado a verdade. Minha crítica é mais extensa: acho que a presidente Dilma não tem condições políticas para esclarecer o caso, e tentou, com sua nota oficial de próprio punho, livrar sua responsabilidade no caso, como acentuou o ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli.
Tanto é verdade que ainda presidente do Conselho, mas já sabendo que as negociações para a compra de Pasadena haviam sido omitidas, aceitou que o diretor responsável pelo relatório falho técnica e juridicamente fosse transferido para outra diretoria da Petrobras Distribuidora, com elogios formais do Conselho por sua atuação. E em nenhum momento fez críticas à atuação da diretoria da Petrobras.
A ministra-chefe da Casa Civil toda-poderosa conviveu com a diretoria da Petrobras, da qual discordava, sem criar marolas políticas, pois já estava trabalhando para ser a candidata oficial à sucessão de Lula em 2010. Portanto, o seu sincericídio , em vez de significar uma reação a uma maneira de fazer política empresarial da qual discorda, é muito mais um ato voluntarioso de uma pessoa que não está acostumada a ser contrariada, não tem maiores consequências na mudança de rumos da gestão da Petrobras.
Mas, voltando às dificuldades que o PT está tendo para justificar sua posição na crise da Petrobras, é bom lembrar que logo depois da eleição de 2006, em entrevista a Fernando Rodrigues, da Folha , o marqueteiro João Santana revelou que o debate sobre as privatizações fora utilizado como maneira de reavivar emoções políticas no imaginário do brasileiro comum.
Santana admitiu na entrevista que a impressão de que algo obscuro acontecera nas privatizações deveu-se a um erro de comunicação do governo FH, que poderia ter vendido o benefício das privatizações de maneira mais clara . O erro do PSDB fora, segundo ele, não ter defendido as privatizações como maneira de alcançar o desenvolvimento . No caso da telefonia, teve um sucesso fabuloso que não foi capitalizado pela oposição, dizia ele.
João Santana foi claro quando respondeu se não seria desonesto explorar sentimentos que ele sabia não exprimirem a verdade: Trabalho com o imaginário da população. Numa campanha, trabalhamos com produções simbólicas .
Pois hoje a exploração das produções simbólicas no imaginário da população está causando graves problemas para o governismo, acusado pela oposição de ter privatizado a Petrobras para um grupo político. O governo ainda tenta sair das cordas acusando a oposição de estar fazendo uma campanha contra a Petrobras , mas a falta de sentido dessa acusação não encontra eco no cidadão comum, que está vendo a crise na Petrobras como uma grave falha do governo.
Aliás, o PT no poder tem como hábito assumir o papel do Estado brasileiro, e, quando sua atuação é criticada, seus líderes atribuem as críticas a uma campanha contra o país . O ex-presidente Lula já se cansou de acusar o ex-presidente Fernando Henrique de falar mal do país em suas conferência internacionais. A presidente Dilma Rousseff volta e meia diz que tem gente torcendo para o país dar errado .
Na verdade, tanto Lula quanto Dilma se referem a oposicionistas que criticam a atuação do governo, e não o país. Um governo representa o país, é fato, mas pode representar mal e merecer críticas. Assim como críticas à gestão de uma empresa não representam campanha contra ela.
Refresco para Dilma - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 24/04
BRASÍLIA - Assim como a espionagem americana garantiu um bom momento para Dilma na ONU, a NETMundial proporciona um refresco político para ela nesta semana.
Com a denúncia de espionagem de Edward Snowden, em 2013, Dilma pôde empinar o nariz, cancelar a visita a Barack Obama e fazer um discurso forte e afirmativo na ONU, recebendo elogios a torto e a direito.
Com a NETMundial, ontem e hoje em São Paulo, ela cobrou lealdade da base aliada, demonstrou força no Congresso e criou um bom momento para foto ao sancionar o Marco Civil da Internet diante de representantes de dezenas de países. O texto serve de base para os debates no encontro e pode ser bastante útil para novas legislações mundo afora.
Um momento de alívio para quem tropeçou nas próprias pernas --e no próprio voluntarismo-- ao jogar a crise da Petrobras dentro do gabinete presidencial no Planalto e ficar durante semanas sob tensão pelo prejuízo da compra da refinaria de Pasadena e pelo mau desempenho da principal empresa brasileira.
Dilma, porém, não deixou de cair em suas próprias pegadinhas na NETMundial. Tudo bem que voltasse a criticar a espionagem americana como "inaceitável" e defendesse uma governança da internet "em pé de igualdade" (ou seja, não imposta por uma única potência). Mas não precisava espicaçar os EUA de graça.
Como relatado pela própria internet, ela sorriu e aplaudiu de pé quando enalteceram Snowden, um dos piores inimigos de Washington neste momento. Foi uma provocação boba, quase tão infantil e impensada quanto a nota em que, ao tentar lavar as mãos no caso Pasadena, incendiou uma questão até então fria.
Além disso, o NETMundial acaba, mas a Petrobras e o renitente deputado André Vargas ficam --e assombrando o PT, Dilma e candidaturas petistas que resvalam na dupla Vargas-Youssef. O Marco Civil da internet é só refresco, a fervura continua.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Vou continuar insistindo para ver se o convenço”
Rui Falcão, presidente do PT, defendendo a renúncia do deputado André Vargas (PR)
LULA E WAGNER TENTAM CALAR A BOCA DE GABRIELLI
O ex-presidente Lula e o governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), foram acionados para tentar “acalmar” o ex-presidente da Petrobras Sergio Gabrielli. Irritado, ele afirmou que a presidente Dilma Rousseff, então presidente do conselho de administração da estatal, “precisa assumir as responsabilidades dela” pela decisão de comprar por US$ 1,3 bilhão a refinaria norte-americana avaliada em US$ 42,5 milhões.
O MANDANTE
Lula anda preocupado porque decisões tão importantes, como comprar a refinaria, passavam por ele. E sabe que o caso impactará na eleição.
TIRANDO O CORPO
Após o caso ser denunciado, Dilma informou em nota que um parecer do ex-diretor Nestor Cerveró a induziu ao erro de aprovar o negócio.
MAU NEGÓCIO
Também irritou Gabrielli a afirmação de Graça Foster, que o substituiu na presidência da Petrobras, de que a refinaria foi um mau negócio.
ATÉ O PESCOÇO
Indicado por Jaques Wagner, Sergio Gabrielli presidia a Petrobras em 2006, quando foi fechado o negócio da refinaria de Pasadena.
GREVE POR ‘LUCRO’ DE ESTATAL QUEBRADA VIROU PIADA
Funcionários do sistema Eletrobras iniciaram à meia-noite uma “greve de advertência”, como esta coluna antecipou, exigindo “participação nos lucros”. Parece notícia de “1º de abril”, mas não é piada: a estatal registrou prejuízos de R$ 6,8 bilhões em 2012 e R$ 6,2 bilhões em 2013. Grevistas não mencionam “participação nos prejuízos” de mais de R$ 13,2 bilhões em apenas dois anos. Devem culpar o contribuinte.
IMPEACHMENT
O Movimento de Combate à Corrupção protocola hoje na Assembleia do RN pedido de impeachment da governadora Rosalba Ciarlini (DEM).
TREMEI, RUSSOS
Agora vai: após um mês e meio, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara aprovou moção pela “soberania territorial da Ucrânia”.
SALADA NO SOFÁ
Para combater a inflação, o governo federal vai tirar os alimentos do índice. Deveria começar pelo pepino, nabo, abacaxi e batata quente.
CHEGA DE ESQUIVAS
Após tentativas frustradas de notificar André Vargas (PT-PR) do seu processo de cassação, o presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar (PSD-SP) decidiu publicá-la no Diário Oficial da União.
MARCO CIVIL
Na Câmara dos Deputados, “marco civil” deve ser o gesto de meter a mão no bolso do contribuinte desavisado: suas excelências deverão ganhar notebooks novinhos, da Lenovo, ao preço de R$ 23,7 milhões.
MÃE DOS POBRES
O Brasil vai emprestar R$ 18 milhões ao Quênia para comprar tratores, sem taxas de importação, aliviando produtores de cana de açúcar. De lá. E fazendo a festa de vendedores de tratores. De cá.
MARQUETEIRO
O candidato do PSDB ao governo do DF, Luiz Pitiman, fechou contrato com Chico Santa Rita, para tocar sua campanha eleitoral. Santa Rita foi marqueteiro, em São Paulo, de políticos como Orestes Quércia.
QUE PENA
Em Módena, para o aniversário da tomada de Montese pelo Brasil, em 1945, o embaixador em Roma, Ricardo Tavares, não encontrará a comitiva chefiada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, que irá à cerimônia de santificação de João Paulo II e João XXIII, domingo.
DILIGÊNCIA
A Comissão de Direitos Humanos fará diligência na Papuda, para verificar eventuais regalias do ex-ministro José Dirceu. O ministro Joaquim Barbosa usa a suspeita como pretexto para manter na gaveta o processo que concede ao preso o direito de trabalhar durante o dia.
DOS MALES O MENOR
Com medo de cassação no plenário, Carlos Leréia (PSDB-GO), amigo do bicheiro Carlos Cachoeira, fez périplo ontem na Câmara para pedir aos deputados que aprovem apenas sua suspensão de 90 dias.
EMBRAPA, 41
A presidente Dilma foi convidada pelo presidente da Embrapa, Maurício Antônio Lopes, a participar nesta quinta (24) com o ministro Neri Geller (Agricultura), em Brasília, da comemoração dos 41 anos da empresa.
PENSANDO BEM...
...o deputado petista indeciso André Vargas é o Delúbio Soares amanhã. Só falta mesmo a Papuda.
PODER SEM PUDOR
OBRAS LIGEIRAS
Jânio Quadros, presidente da República, fazia uma viagem ao Recife. Aproveitando que o chefe não estava em Brasília, um assessor chamou um engenheiro da estatal Novacap para construir um canil no Palácio da Alvorada. Estava convencido de que o presidente iria adorar a surpresa.
Jânio já encontrou a obra pronta, ao retornar da viagem. Mandou chamar o engenheiro responsável:
- Quanto tempo o senhor levou para construir esta maravilha?
- Doze horas, excelência - gabou-se o homem.
Apontando para o canil, Jânio pôs fim à felicidade do engenheiro:
- Pois então tem exatas duas horas para botar tudo no chão. Tudo!
Rui Falcão, presidente do PT, defendendo a renúncia do deputado André Vargas (PR)
LULA E WAGNER TENTAM CALAR A BOCA DE GABRIELLI
O ex-presidente Lula e o governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), foram acionados para tentar “acalmar” o ex-presidente da Petrobras Sergio Gabrielli. Irritado, ele afirmou que a presidente Dilma Rousseff, então presidente do conselho de administração da estatal, “precisa assumir as responsabilidades dela” pela decisão de comprar por US$ 1,3 bilhão a refinaria norte-americana avaliada em US$ 42,5 milhões.
O MANDANTE
Lula anda preocupado porque decisões tão importantes, como comprar a refinaria, passavam por ele. E sabe que o caso impactará na eleição.
TIRANDO O CORPO
Após o caso ser denunciado, Dilma informou em nota que um parecer do ex-diretor Nestor Cerveró a induziu ao erro de aprovar o negócio.
MAU NEGÓCIO
Também irritou Gabrielli a afirmação de Graça Foster, que o substituiu na presidência da Petrobras, de que a refinaria foi um mau negócio.
ATÉ O PESCOÇO
Indicado por Jaques Wagner, Sergio Gabrielli presidia a Petrobras em 2006, quando foi fechado o negócio da refinaria de Pasadena.
GREVE POR ‘LUCRO’ DE ESTATAL QUEBRADA VIROU PIADA
Funcionários do sistema Eletrobras iniciaram à meia-noite uma “greve de advertência”, como esta coluna antecipou, exigindo “participação nos lucros”. Parece notícia de “1º de abril”, mas não é piada: a estatal registrou prejuízos de R$ 6,8 bilhões em 2012 e R$ 6,2 bilhões em 2013. Grevistas não mencionam “participação nos prejuízos” de mais de R$ 13,2 bilhões em apenas dois anos. Devem culpar o contribuinte.
IMPEACHMENT
O Movimento de Combate à Corrupção protocola hoje na Assembleia do RN pedido de impeachment da governadora Rosalba Ciarlini (DEM).
TREMEI, RUSSOS
Agora vai: após um mês e meio, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara aprovou moção pela “soberania territorial da Ucrânia”.
SALADA NO SOFÁ
Para combater a inflação, o governo federal vai tirar os alimentos do índice. Deveria começar pelo pepino, nabo, abacaxi e batata quente.
CHEGA DE ESQUIVAS
Após tentativas frustradas de notificar André Vargas (PT-PR) do seu processo de cassação, o presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar (PSD-SP) decidiu publicá-la no Diário Oficial da União.
MARCO CIVIL
Na Câmara dos Deputados, “marco civil” deve ser o gesto de meter a mão no bolso do contribuinte desavisado: suas excelências deverão ganhar notebooks novinhos, da Lenovo, ao preço de R$ 23,7 milhões.
MÃE DOS POBRES
O Brasil vai emprestar R$ 18 milhões ao Quênia para comprar tratores, sem taxas de importação, aliviando produtores de cana de açúcar. De lá. E fazendo a festa de vendedores de tratores. De cá.
MARQUETEIRO
O candidato do PSDB ao governo do DF, Luiz Pitiman, fechou contrato com Chico Santa Rita, para tocar sua campanha eleitoral. Santa Rita foi marqueteiro, em São Paulo, de políticos como Orestes Quércia.
QUE PENA
Em Módena, para o aniversário da tomada de Montese pelo Brasil, em 1945, o embaixador em Roma, Ricardo Tavares, não encontrará a comitiva chefiada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, que irá à cerimônia de santificação de João Paulo II e João XXIII, domingo.
DILIGÊNCIA
A Comissão de Direitos Humanos fará diligência na Papuda, para verificar eventuais regalias do ex-ministro José Dirceu. O ministro Joaquim Barbosa usa a suspeita como pretexto para manter na gaveta o processo que concede ao preso o direito de trabalhar durante o dia.
DOS MALES O MENOR
Com medo de cassação no plenário, Carlos Leréia (PSDB-GO), amigo do bicheiro Carlos Cachoeira, fez périplo ontem na Câmara para pedir aos deputados que aprovem apenas sua suspensão de 90 dias.
EMBRAPA, 41
A presidente Dilma foi convidada pelo presidente da Embrapa, Maurício Antônio Lopes, a participar nesta quinta (24) com o ministro Neri Geller (Agricultura), em Brasília, da comemoração dos 41 anos da empresa.
PENSANDO BEM...
...o deputado petista indeciso André Vargas é o Delúbio Soares amanhã. Só falta mesmo a Papuda.
PODER SEM PUDOR
OBRAS LIGEIRAS
Jânio Quadros, presidente da República, fazia uma viagem ao Recife. Aproveitando que o chefe não estava em Brasília, um assessor chamou um engenheiro da estatal Novacap para construir um canil no Palácio da Alvorada. Estava convencido de que o presidente iria adorar a surpresa.
Jânio já encontrou a obra pronta, ao retornar da viagem. Mandou chamar o engenheiro responsável:
- Quanto tempo o senhor levou para construir esta maravilha?
- Doze horas, excelência - gabou-se o homem.
Apontando para o canil, Jânio pôs fim à felicidade do engenheiro:
- Pois então tem exatas duas horas para botar tudo no chão. Tudo!
QUINTA NOS JORNAIS
- Estadão: Ministra do STF decide por CPI exclusiva da Petrobrás
- Folha: Ministra do STF manda abrir CPI só da Petrobras
- Globo: Auditoria descobre saque de R$ 10 milhões sem registro
- Correio: O último a sair apague a luz
- Zero Hora: Operação lava-jato: Doleiro apontado como chefe de fraude vira réu
- Brasil Econômico: Divergência provoca desmonte de conselho da CCEE
quarta-feira, abril 23, 2014
Tudo junto e misturado - JOSÉ NÊUMANNE
O Estado de S.Paulo - 23/04
Ultimamente no Brasil tudo vira Fla-Flu. E terminada a refrega, tudo vai para o forno de pizza, que a todos é servida sem parcimônia nem pudor. Neste escândalo da Petrobrás, estamos em plena disputa, em que ninguém dá bola para a torcida e os jogadores brigam com o árbitro e entre si em campo, enquanto torcedores "organizados" se matam na plateia.
Na semana passada, a presidente da Petrobrás, Graça Foster, foi ao Senado e lá reconheceu que a compra da refinaria da Astra Oil belga em Pasadena, no Texas, foi "um mau negócio". Trata-se de um evidente passa-moleque, similar ao eufemismo da chefona geral Dilma Rousseff, que costuma chamar ladroeira de "malfeito". Mas pouco se importaram os senadores que a inquiriram. Ela convenceu os governistas. Para os oposicionistas, o depoimento tornou indispensável a comissão parlamentar de inquérito (CPI) entalada no Supremo Tribunal Federal (STF). No dia seguinte, o bode expiatório Nestor Cerveró, ex-diretor internacional da estatal, jurou que não quis enganar a presidente do Conselho de Administração da maior empresa brasileira, à época a atual presidente da República. Governistas deixaram tudo passar em brancas nuvens. Oposicionistas voltaram a clamar por CPI. Domingo passado, este Estado publicou entrevista do ex-presidente José Sérgio Gabrielli, que assumiu a responsabilidade pelo negócio, segundo ele, "bom", mas transferiu parte desta para Dilma, o mais ululante dos óbvios de Nelson Rodrigues. E os oposicionistas insistiram na CPI.
Enquanto se joga o Fla-Flu, que poderá ser prorrogado pela CPI afora, se o STF surpreender o País e não obedecer a quem nomeou seus membros, todos se esquecem daquilo que Antoine de Saint-Exupéry cunhou em O Pequeno Príncipe, leitura predileta das misses, espécime em extinção: "O essencial é invisível para os olhos".
No caso em tela, o essencial é simples. A Petrobrás gastou ao todo, segundo cálculos confiáveis, US$ 1,2 bilhão na aquisição e operação da refinaria de Pasadena. Informações também confiáveis dão conta de que tentativa recente de vender o ativo podre desta resultou em avaliações feitas por instituições de boa reputação, segundo as quais a refinaria, construída em 1920 e nunca reformada, sucatada e com sérios problemas ambientais (apud Veja nas bancas), não seria vendida por mais de US$ 200 milhões. Ou seja, a estatal brasileira teve prejuízo de, no mínimo, US$ 1 bilhão. Para bajuladores dos poderosos de plantão, "troco de pinga". Para o pobretão que paga as contas em impostos escorchantes, uma fortuna incalculável. Com a sem-cerimônia com que burocratas de altos escalões tratam recursos públicos e baseada em informações às quais só ela tem acesso, Foster reduziu tal rombo a US$ 500 milhões. Continua sendo uma fortuna. No entanto, ninguém, das bancadas leais ao governo ou das adversárias, lhe perguntou no Senado o que foi feito de tanto dinheiro. A ninguém interessa saber se os belgas pagaram dezenas ou centenas de milhões de dólares pelo mico oito meses antes de a Petrobrás resolver salvá-lo da extinção. Importante é saber para onde foi tal prejuízo.
Perguntaram-lhe, sim, por que Cerveró não foi punido por ter tentado enganar o Conselho de Administração, composto por Dilma e por pétalas da fina-flor da burguesia nacional do porte de Gerdau Johannpeter, Fábio Barbosa e Claudio Haddad, entre outros agraciados pela aliança pete-peemedebista. Mas premiado com a direção financeira da Braspetro, distribuidora dos combustíveis da Petrobrás. Ela fez pouco-caso, dizendo que o emprego não tem importância. Ninguém se interessou em perguntar para informar ao favelado que vive de bicos e paga a conta em quanto importaram os salários e benefícios pagos ao desatento servidor desde o relatório incompleto até a demissão sem desonra.
Enquanto Foster e Cerveró eram tratados com deferência nos interrogatórios no Congresso, a Polícia Federal (PF) continuava seu trabalho, a Operação Lava Jato, que já desmascarou o doleiro do poder, Alberto Youssef. E pôs em maus lençóis o influente vice-presidente da Câmara dos Deputados e ex-secretário de Comunicação do Partido dos Trabalhadores (PT), André Vargas (PR). O distinto público pode avaliar, então, por que este senhor provocou o presidente do STF em público, em defesa dos colegas condenados pela cúpula do Judiciário, e combateu com tanto denodo a liberdade de informação, de braços dados com o presidente petista, Rui Falcão. Por que não o deixaram fazer seu "malfeitozinho" em paz, ora? A PF vasculhou até escritórios da sede da maior empresa brasileira em busca de provas contra o ex-diretor Paulo Roberto Costa, que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamava carinhosamente de Paulinho.
A revista Época desta semana publicou outras explicações para a queda pela metade do valor do patrimônio da Petrobrás, que, de acordo com o Financial Times (agora, na certa, incluído na lista dos membros do Partido da Imprensa Golpista, PIG, porco em inglês), passou de 12.º para 120.º no ranking das empresas mundiais. E mais: mostrou evidências de que "está tudo junto e misturado" no propinoduto do escândalo do momento. As conexões do doleiro estendem-se a Carlinhos Cachoeira, o bicheiro que derrubou Valdomiro Diniz, factótum de José Dirceu, réu número um do mensalão, e o senador Demósthenes Torres, "varão de Plutarco" da oposição, indo, portanto, do Paraná do casal Gleisi Hoffman-Paulo Bernardo a Goiás do bicheiro. No mesmo embrulho cabem a Delta de Fernando Cavendish, amigo de Sérgio Cabral, e a sabedoria estratégica de Pedro Paulo Leoni Ramos, companheiro de farras de juventude do aliado senador alagoano Fernando Collor, que o PT ajudou a apear da Presidência da República em escândalo similar. Se, em vez de Fla-Flu e pizza, houvesse investigação pra valer, muita gente fina nesta República estaria perdendo o sono em celas infectas, reservadas apenas às prostitutas, aos pretos e aos pobres de sempre, salvo desonradas exceções.
Ultimamente no Brasil tudo vira Fla-Flu. E terminada a refrega, tudo vai para o forno de pizza, que a todos é servida sem parcimônia nem pudor. Neste escândalo da Petrobrás, estamos em plena disputa, em que ninguém dá bola para a torcida e os jogadores brigam com o árbitro e entre si em campo, enquanto torcedores "organizados" se matam na plateia.
Na semana passada, a presidente da Petrobrás, Graça Foster, foi ao Senado e lá reconheceu que a compra da refinaria da Astra Oil belga em Pasadena, no Texas, foi "um mau negócio". Trata-se de um evidente passa-moleque, similar ao eufemismo da chefona geral Dilma Rousseff, que costuma chamar ladroeira de "malfeito". Mas pouco se importaram os senadores que a inquiriram. Ela convenceu os governistas. Para os oposicionistas, o depoimento tornou indispensável a comissão parlamentar de inquérito (CPI) entalada no Supremo Tribunal Federal (STF). No dia seguinte, o bode expiatório Nestor Cerveró, ex-diretor internacional da estatal, jurou que não quis enganar a presidente do Conselho de Administração da maior empresa brasileira, à época a atual presidente da República. Governistas deixaram tudo passar em brancas nuvens. Oposicionistas voltaram a clamar por CPI. Domingo passado, este Estado publicou entrevista do ex-presidente José Sérgio Gabrielli, que assumiu a responsabilidade pelo negócio, segundo ele, "bom", mas transferiu parte desta para Dilma, o mais ululante dos óbvios de Nelson Rodrigues. E os oposicionistas insistiram na CPI.
Enquanto se joga o Fla-Flu, que poderá ser prorrogado pela CPI afora, se o STF surpreender o País e não obedecer a quem nomeou seus membros, todos se esquecem daquilo que Antoine de Saint-Exupéry cunhou em O Pequeno Príncipe, leitura predileta das misses, espécime em extinção: "O essencial é invisível para os olhos".
No caso em tela, o essencial é simples. A Petrobrás gastou ao todo, segundo cálculos confiáveis, US$ 1,2 bilhão na aquisição e operação da refinaria de Pasadena. Informações também confiáveis dão conta de que tentativa recente de vender o ativo podre desta resultou em avaliações feitas por instituições de boa reputação, segundo as quais a refinaria, construída em 1920 e nunca reformada, sucatada e com sérios problemas ambientais (apud Veja nas bancas), não seria vendida por mais de US$ 200 milhões. Ou seja, a estatal brasileira teve prejuízo de, no mínimo, US$ 1 bilhão. Para bajuladores dos poderosos de plantão, "troco de pinga". Para o pobretão que paga as contas em impostos escorchantes, uma fortuna incalculável. Com a sem-cerimônia com que burocratas de altos escalões tratam recursos públicos e baseada em informações às quais só ela tem acesso, Foster reduziu tal rombo a US$ 500 milhões. Continua sendo uma fortuna. No entanto, ninguém, das bancadas leais ao governo ou das adversárias, lhe perguntou no Senado o que foi feito de tanto dinheiro. A ninguém interessa saber se os belgas pagaram dezenas ou centenas de milhões de dólares pelo mico oito meses antes de a Petrobrás resolver salvá-lo da extinção. Importante é saber para onde foi tal prejuízo.
Perguntaram-lhe, sim, por que Cerveró não foi punido por ter tentado enganar o Conselho de Administração, composto por Dilma e por pétalas da fina-flor da burguesia nacional do porte de Gerdau Johannpeter, Fábio Barbosa e Claudio Haddad, entre outros agraciados pela aliança pete-peemedebista. Mas premiado com a direção financeira da Braspetro, distribuidora dos combustíveis da Petrobrás. Ela fez pouco-caso, dizendo que o emprego não tem importância. Ninguém se interessou em perguntar para informar ao favelado que vive de bicos e paga a conta em quanto importaram os salários e benefícios pagos ao desatento servidor desde o relatório incompleto até a demissão sem desonra.
Enquanto Foster e Cerveró eram tratados com deferência nos interrogatórios no Congresso, a Polícia Federal (PF) continuava seu trabalho, a Operação Lava Jato, que já desmascarou o doleiro do poder, Alberto Youssef. E pôs em maus lençóis o influente vice-presidente da Câmara dos Deputados e ex-secretário de Comunicação do Partido dos Trabalhadores (PT), André Vargas (PR). O distinto público pode avaliar, então, por que este senhor provocou o presidente do STF em público, em defesa dos colegas condenados pela cúpula do Judiciário, e combateu com tanto denodo a liberdade de informação, de braços dados com o presidente petista, Rui Falcão. Por que não o deixaram fazer seu "malfeitozinho" em paz, ora? A PF vasculhou até escritórios da sede da maior empresa brasileira em busca de provas contra o ex-diretor Paulo Roberto Costa, que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamava carinhosamente de Paulinho.
A revista Época desta semana publicou outras explicações para a queda pela metade do valor do patrimônio da Petrobrás, que, de acordo com o Financial Times (agora, na certa, incluído na lista dos membros do Partido da Imprensa Golpista, PIG, porco em inglês), passou de 12.º para 120.º no ranking das empresas mundiais. E mais: mostrou evidências de que "está tudo junto e misturado" no propinoduto do escândalo do momento. As conexões do doleiro estendem-se a Carlinhos Cachoeira, o bicheiro que derrubou Valdomiro Diniz, factótum de José Dirceu, réu número um do mensalão, e o senador Demósthenes Torres, "varão de Plutarco" da oposição, indo, portanto, do Paraná do casal Gleisi Hoffman-Paulo Bernardo a Goiás do bicheiro. No mesmo embrulho cabem a Delta de Fernando Cavendish, amigo de Sérgio Cabral, e a sabedoria estratégica de Pedro Paulo Leoni Ramos, companheiro de farras de juventude do aliado senador alagoano Fernando Collor, que o PT ajudou a apear da Presidência da República em escândalo similar. Se, em vez de Fla-Flu e pizza, houvesse investigação pra valer, muita gente fina nesta República estaria perdendo o sono em celas infectas, reservadas apenas às prostitutas, aos pretos e aos pobres de sempre, salvo desonradas exceções.
Crise? Que crise? - ELIO GASPARI
O GLOBO - 23/04
Arma-se mais uma bolsa, resta saber se é a Bolsa Montadora, a Bolsa Metalúrgico, ou um mimo híbrido
A repórter Cleide Silva revelou que a Casa Civil da Presidência da República, as montadoras e os sindicatos estão discutindo um socorro para os trabalhadores ameaçados com a perda do emprego por causa da queda nas vendas de veículos. No ano passado elas caíram 0,9%, e, no último trimestre, mais 2,1% em relação ao mesmo período de 2013. Cerca de 1.500 operários já perderam seus empregos.
As empresas e os sindicatos discutem a importação de um mecanismo eficaz, usado na Alemanha. Nele, o trabalhador reduz sua carga horária, mantém seus benefícios e, durante um período de seis meses a dois anos, recebe até 67% do que lhe é devido. No limite, recebe mesmo sem trabalhar. Um pedaço dessa conta vai para a Viúva. Aí está o primeiro problema.
O segundo está no exemplo. O mecanismo alemão foi acionado pela primeira vez no século passado, quando a banda federal engoliu a comunista. Depois, em 2009, diante da crise financeira mundial, quando a venda de veículos caiu 30% e o PIB do país sofreu uma contração de 4%. Nada a ver com o que sucede no Brasil, onde a taxa desemprego é baixa, mas o ministro Guido Mantega repete a marchinha: “Este ano não vai ser igual àquele que passou.”
Ninguém quer ver trabalhadores desempregados e as montadoras, com razão, preferem preservar sua mão de obra qualificada. Contudo, do jeito que as empresas e os sindicatos formularam-na, a proposta assemelha-se mais a uma empulhação do que a um programa social. Mais um caso em que a sacrossanta “destruição criadora” do capitalismo é reciclada no Brasil destruindo a Bolsa da Viúva para criar puxadinhos de cartórios. A redução dos impostos cobrados às montadoras permitiu que vendessem 3,8 milhões de veículos em 2012. Seus operários mantiveram os empregos, mas não viram a cor desses lucros. Essa mesma desoneração resultou em menos arrecadação e, portanto, em menos dinheiro de volta para quem paga impostos. (Admitindo-se que o dinheiro pago volta, o que é uma licença poética.)
Se os empresários e sindicalistas estão diante de uma crise, devem botar a boca no mundo, expondo as razões pelas quais as vendas de veículos caíram. É verdade que isso não faria bem à campanha eleitoral da doutora Dilma e de seu comissariado. Coisas da vida. O que não se pode é viver num país sem problemas, importando-se um mecanismo de amparo social usado na Alemanha quando ela estava engolindo uma nação sucateada ou quando o mundo estava se acabando.
Resta também discutir o tamanho da conta. É uma Bolsa Metalúrgico ou uma Bolsa Montadora? Num aspecto, o problema deriva da rigidez das leis trabalhistas nacionais. Lula entrou na política dizendo que a Consolidação das Leis do Trabalho era “o Ato Institucional nº 5 dos trabalhadores”. O PT está no Planalto há 11 anos, refestelado no conforto que essa legislação dá a quem tem a chave do cofre do Ministério do Trabalho.
O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Moan, diz que “esse é o momento para retomarmos a discussão sobre um plano de estabilização dos empregos, mas pensamos no longo prazo, e não apenas na situação atual”. Ótimo, para todos os setores da economia e para todos os trabalhadores.
Arma-se mais uma bolsa, resta saber se é a Bolsa Montadora, a Bolsa Metalúrgico, ou um mimo híbrido
A repórter Cleide Silva revelou que a Casa Civil da Presidência da República, as montadoras e os sindicatos estão discutindo um socorro para os trabalhadores ameaçados com a perda do emprego por causa da queda nas vendas de veículos. No ano passado elas caíram 0,9%, e, no último trimestre, mais 2,1% em relação ao mesmo período de 2013. Cerca de 1.500 operários já perderam seus empregos.
As empresas e os sindicatos discutem a importação de um mecanismo eficaz, usado na Alemanha. Nele, o trabalhador reduz sua carga horária, mantém seus benefícios e, durante um período de seis meses a dois anos, recebe até 67% do que lhe é devido. No limite, recebe mesmo sem trabalhar. Um pedaço dessa conta vai para a Viúva. Aí está o primeiro problema.
O segundo está no exemplo. O mecanismo alemão foi acionado pela primeira vez no século passado, quando a banda federal engoliu a comunista. Depois, em 2009, diante da crise financeira mundial, quando a venda de veículos caiu 30% e o PIB do país sofreu uma contração de 4%. Nada a ver com o que sucede no Brasil, onde a taxa desemprego é baixa, mas o ministro Guido Mantega repete a marchinha: “Este ano não vai ser igual àquele que passou.”
Ninguém quer ver trabalhadores desempregados e as montadoras, com razão, preferem preservar sua mão de obra qualificada. Contudo, do jeito que as empresas e os sindicatos formularam-na, a proposta assemelha-se mais a uma empulhação do que a um programa social. Mais um caso em que a sacrossanta “destruição criadora” do capitalismo é reciclada no Brasil destruindo a Bolsa da Viúva para criar puxadinhos de cartórios. A redução dos impostos cobrados às montadoras permitiu que vendessem 3,8 milhões de veículos em 2012. Seus operários mantiveram os empregos, mas não viram a cor desses lucros. Essa mesma desoneração resultou em menos arrecadação e, portanto, em menos dinheiro de volta para quem paga impostos. (Admitindo-se que o dinheiro pago volta, o que é uma licença poética.)
Se os empresários e sindicalistas estão diante de uma crise, devem botar a boca no mundo, expondo as razões pelas quais as vendas de veículos caíram. É verdade que isso não faria bem à campanha eleitoral da doutora Dilma e de seu comissariado. Coisas da vida. O que não se pode é viver num país sem problemas, importando-se um mecanismo de amparo social usado na Alemanha quando ela estava engolindo uma nação sucateada ou quando o mundo estava se acabando.
Resta também discutir o tamanho da conta. É uma Bolsa Metalúrgico ou uma Bolsa Montadora? Num aspecto, o problema deriva da rigidez das leis trabalhistas nacionais. Lula entrou na política dizendo que a Consolidação das Leis do Trabalho era “o Ato Institucional nº 5 dos trabalhadores”. O PT está no Planalto há 11 anos, refestelado no conforto que essa legislação dá a quem tem a chave do cofre do Ministério do Trabalho.
O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Moan, diz que “esse é o momento para retomarmos a discussão sobre um plano de estabilização dos empregos, mas pensamos no longo prazo, e não apenas na situação atual”. Ótimo, para todos os setores da economia e para todos os trabalhadores.
Onde estamos? - ROBERTO DAMATTA
O Estado de S.Paulo - 23/04
Transcrevo, com as omissões devidas, uma carta que recebi do professor Richard Moneygrand.
Um estado de transição tem um pouco do agora e do depois sem, entretanto, ser nenhum dos dois. Vocês não sabem onde o vendaval (ou a "tempestade perfeita" como alguns chamam) vai desabar, mas não podem deixar de pressenti-lo. Ela tem a sua própria realidade, a qual demanda posicionamentos e atitudes nem sempre confortáveis porque todo drama exige confronto entre liberdade e determinismo.
Alguns sugerem examinar as contradições e paradoxos vividos; outros, querem uma revalidação de princípios e valores que marcaram os erros desta fase histórica, os quais faliram precisamente porque as pessoas e o partido que administrou o país são os principais atores deste momento indeciso. Indecisões, acentue-se, promovem a crítica a valores ditos como indiscutíveis. No caso do Brasil, uma história transcendental que iria libertar os oprimidos e os miseráveis e os diretores dessa fase tidos como politicamente invencíveis.
Uma das dimensões deste momento liminar tem a ver com o desmascaramento dos salvadores do Brasil. A era inaugurada faz mais de uma década pelo governo de "esquerda" revelou teimosamente personagens tão ou mais ávidos de enriquecimento pessoal do que os velhos e abomináveis mandões do mal dos filmes de Glauber Rocha. A revelação cínica de que o sujeito é honesto até chegar ao poder, quando se transforma num canalha, é um dos dados mais fortes deste "onde estamos" de vocês.
Afinal, há ou não uma boa noção de quem fez alguma diferença, liquidando a inflação e governando com competência e bom senso? Entre a administração de FHC (acentuada pelo reestabelecimento do dinheiro como um valor estável); e a era do absolutismo petista de Lula e de sua invenção, a gerentona Dilma, se desmascara ou não - pergunto - o viés acentuado pelos arranjos políticos e por um ruidoso aparelhamento do Estado em benefício de um projeto de poder contrário ao regime liberal em qualquer manifestação de capitalismo? Sobretudo desse capitalismo sem peias como o vosso? O sono do Brasil não teria como base a crença numa resolução messiânica para todos os seus problemas; daí a atração pelo conceito de "revolução" em toda a latinidade americana, quando - agora - acho que vocês começam a desconfiar que nada neste mundo de Deus pode ser resolvido paulatinamente, a não ser por todos e cada um? E com a descoberta de que para se viver num país igualitário é preciso dizer não aos amigos e, acima de tudo, a si mesmo?
As crises marcadas pelo enriquecimento pessoal rápido, absurdamente ganancioso e ardiloso dos políticos no poder em carreiras que confundem o técnico e o político, não foram inventados pelos vossos jornais e cronistas reacionários e antigovernistas. Não é a mídia que inventa o desaparecimento do avião, os assassinatos de meninos por meninos nas escolas americanas, os escândalos da Petrobrás, o desacerto do gerenciamento e de um Brasil alarmantemente desconsertado. São os fatos inexoráveis nas suas contradições - um governo do povo que tira desse povo - que engendram interpretações, promovem vergonha e demandam apurações.
Contemplar a liberdade sem nenhuma contrapartida de responsabilidade produz - ao lado de estruturas mal discutidas como o estilo aristocrático de vida do Brasil onde uma pequena camada pode usar o proibir definitivo do proibido proibir - uma poderosa demanda de igualitarismo que ninguém tem a coragem de conter. Sobretudo, num ano eleitoral. Trata-se de um drama em que movimentos geram movimentos de movimentos, cada qual o mais extremado e contraditório.
Vocês estão passando do "não pode" ao "tudo pode". Quem vai tirar o Brasil do seu leito de gigante adormecido?
Vai ser um programa baseado na consciência de que não é mais admissível usar o Estado como instrumento de enriquecimento pessoal? Vai ser o uso mais consciencioso do bom senso que impede o emprego partidariamente motivado de dois pesos e medidas como tem ocorrido nesta era lulo-petista? Ou será um jogo com regras que todos conhecem e aceitam como ocorre nos esportes?
O passo adiante vai dizer. E quem vai dar esse passo são vocês.
Take care,
Dick
Transcrevo, com as omissões devidas, uma carta que recebi do professor Richard Moneygrand.
Um estado de transição tem um pouco do agora e do depois sem, entretanto, ser nenhum dos dois. Vocês não sabem onde o vendaval (ou a "tempestade perfeita" como alguns chamam) vai desabar, mas não podem deixar de pressenti-lo. Ela tem a sua própria realidade, a qual demanda posicionamentos e atitudes nem sempre confortáveis porque todo drama exige confronto entre liberdade e determinismo.
Alguns sugerem examinar as contradições e paradoxos vividos; outros, querem uma revalidação de princípios e valores que marcaram os erros desta fase histórica, os quais faliram precisamente porque as pessoas e o partido que administrou o país são os principais atores deste momento indeciso. Indecisões, acentue-se, promovem a crítica a valores ditos como indiscutíveis. No caso do Brasil, uma história transcendental que iria libertar os oprimidos e os miseráveis e os diretores dessa fase tidos como politicamente invencíveis.
Uma das dimensões deste momento liminar tem a ver com o desmascaramento dos salvadores do Brasil. A era inaugurada faz mais de uma década pelo governo de "esquerda" revelou teimosamente personagens tão ou mais ávidos de enriquecimento pessoal do que os velhos e abomináveis mandões do mal dos filmes de Glauber Rocha. A revelação cínica de que o sujeito é honesto até chegar ao poder, quando se transforma num canalha, é um dos dados mais fortes deste "onde estamos" de vocês.
Afinal, há ou não uma boa noção de quem fez alguma diferença, liquidando a inflação e governando com competência e bom senso? Entre a administração de FHC (acentuada pelo reestabelecimento do dinheiro como um valor estável); e a era do absolutismo petista de Lula e de sua invenção, a gerentona Dilma, se desmascara ou não - pergunto - o viés acentuado pelos arranjos políticos e por um ruidoso aparelhamento do Estado em benefício de um projeto de poder contrário ao regime liberal em qualquer manifestação de capitalismo? Sobretudo desse capitalismo sem peias como o vosso? O sono do Brasil não teria como base a crença numa resolução messiânica para todos os seus problemas; daí a atração pelo conceito de "revolução" em toda a latinidade americana, quando - agora - acho que vocês começam a desconfiar que nada neste mundo de Deus pode ser resolvido paulatinamente, a não ser por todos e cada um? E com a descoberta de que para se viver num país igualitário é preciso dizer não aos amigos e, acima de tudo, a si mesmo?
As crises marcadas pelo enriquecimento pessoal rápido, absurdamente ganancioso e ardiloso dos políticos no poder em carreiras que confundem o técnico e o político, não foram inventados pelos vossos jornais e cronistas reacionários e antigovernistas. Não é a mídia que inventa o desaparecimento do avião, os assassinatos de meninos por meninos nas escolas americanas, os escândalos da Petrobrás, o desacerto do gerenciamento e de um Brasil alarmantemente desconsertado. São os fatos inexoráveis nas suas contradições - um governo do povo que tira desse povo - que engendram interpretações, promovem vergonha e demandam apurações.
Contemplar a liberdade sem nenhuma contrapartida de responsabilidade produz - ao lado de estruturas mal discutidas como o estilo aristocrático de vida do Brasil onde uma pequena camada pode usar o proibir definitivo do proibido proibir - uma poderosa demanda de igualitarismo que ninguém tem a coragem de conter. Sobretudo, num ano eleitoral. Trata-se de um drama em que movimentos geram movimentos de movimentos, cada qual o mais extremado e contraditório.
Vocês estão passando do "não pode" ao "tudo pode". Quem vai tirar o Brasil do seu leito de gigante adormecido?
Vai ser um programa baseado na consciência de que não é mais admissível usar o Estado como instrumento de enriquecimento pessoal? Vai ser o uso mais consciencioso do bom senso que impede o emprego partidariamente motivado de dois pesos e medidas como tem ocorrido nesta era lulo-petista? Ou será um jogo com regras que todos conhecem e aceitam como ocorre nos esportes?
O passo adiante vai dizer. E quem vai dar esse passo são vocês.
Take care,
Dick
Insegurança em propriedades rurais - ONYX LORENZONI
ZERO HORA - 23/04
A ilusão de que o crime reside somente nos grandes centros não se sustenta há muito tempo
Saudoso o tempo em que as regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos eram conhecidas por serem redutos de paz e tranquilidade. Essa nostálgica lembrança, infelizmente, fica cada vez mais no passado. Recentemente, uma fazenda na área rural do Rio Grande do Sul foi invadida por criminosos que abateram sete novilhos com tiros de revólver, para roubarem partes consideradas “nobres” das carnes.
É evidente que as autoridades de segurança pública não conseguem dar resposta ao crescente número de atos ilícitos, entre outras razões, devido à distância das propriedades rurais e à falta de efetivo. Todavia, não satisfeitas em não oferecerem proteção ao homem do campo e sua família, cerceiam o direito à legítima defesa, restringindo com dispositivos burocráticos a concessão da posse e porte de armas de fogo, assim como a renovação dos registros. Desta forma, fomentam a ilegalidade nessas regiões.
Segundo o responsável por uma loja regularizada de armas de fogo e munições, da região sul do país, o prazo entre a aquisição de uma arma e a posse legal pode chegar a até um ano e meio. Tempo suficiente para que uma tragédia possa vir a acontecer. Nesse ínterim, o fazendeiro encontra-se rendido aos criminosos.
Iniciativa interessante acontece em Minas Gerais. Produtores rurais reivindicaram porte e uso de arma para defesa de suas propriedades. Por meio do sindicato rural local, uma proposta foi entregue à Polícia Militar, que inclui preparação, treinamento e manuseio das armas pelos fazendeiros.
É evidente que o cidadão de bem que anseia a posse e porte de arma de fogo, para proteger sua família e propriedade, de forma alguma pode ser equiparado com o criminoso. Pelo contrário, uma vez que os artigos 23 e 25 do Código Penal asseguram o direito à autodefesa. Desta feita, o Estado não pode negar a quem anseia se defender para dissuadir um eventual ataque injusto que porventura venha a sofrer.
A ilusão de que o crime reside somente nos grandes centros não se sustenta há muito tempo. Hoje, o crime não escolhe mais localidade, como é sabido por toda a sociedade brasileira, à exceção do governo federal, que continua apostando em uma tese que a realidade desconstrói diuturnamente.
A ilusão de que o crime reside somente nos grandes centros não se sustenta há muito tempo
Saudoso o tempo em que as regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos eram conhecidas por serem redutos de paz e tranquilidade. Essa nostálgica lembrança, infelizmente, fica cada vez mais no passado. Recentemente, uma fazenda na área rural do Rio Grande do Sul foi invadida por criminosos que abateram sete novilhos com tiros de revólver, para roubarem partes consideradas “nobres” das carnes.
É evidente que as autoridades de segurança pública não conseguem dar resposta ao crescente número de atos ilícitos, entre outras razões, devido à distância das propriedades rurais e à falta de efetivo. Todavia, não satisfeitas em não oferecerem proteção ao homem do campo e sua família, cerceiam o direito à legítima defesa, restringindo com dispositivos burocráticos a concessão da posse e porte de armas de fogo, assim como a renovação dos registros. Desta forma, fomentam a ilegalidade nessas regiões.
Segundo o responsável por uma loja regularizada de armas de fogo e munições, da região sul do país, o prazo entre a aquisição de uma arma e a posse legal pode chegar a até um ano e meio. Tempo suficiente para que uma tragédia possa vir a acontecer. Nesse ínterim, o fazendeiro encontra-se rendido aos criminosos.
Iniciativa interessante acontece em Minas Gerais. Produtores rurais reivindicaram porte e uso de arma para defesa de suas propriedades. Por meio do sindicato rural local, uma proposta foi entregue à Polícia Militar, que inclui preparação, treinamento e manuseio das armas pelos fazendeiros.
É evidente que o cidadão de bem que anseia a posse e porte de arma de fogo, para proteger sua família e propriedade, de forma alguma pode ser equiparado com o criminoso. Pelo contrário, uma vez que os artigos 23 e 25 do Código Penal asseguram o direito à autodefesa. Desta feita, o Estado não pode negar a quem anseia se defender para dissuadir um eventual ataque injusto que porventura venha a sofrer.
A ilusão de que o crime reside somente nos grandes centros não se sustenta há muito tempo. Hoje, o crime não escolhe mais localidade, como é sabido por toda a sociedade brasileira, à exceção do governo federal, que continua apostando em uma tese que a realidade desconstrói diuturnamente.
Presidente faixa preta - FERNANDO CANZIAN
FOLHA DE SP - 23/04
Goste-se ou não, o capitalismo tem à mão um porrete enorme, capaz de botar de joelhos o mais bem-intencionado governo. Basta ousar sair da linha. Esse mesmo sistema financia campanhas políticas. Desagradar a quem bombeia o dinheiro, sangue desse organismo quase totalitário, tem-se revelado inútil.
Barack Obama e outros "socialistas" (os da zona do euro) que o digam. Juras de enquadrar bancos e banir bônus inacreditáveis de executivos não deram em nada. A conta da crise do fim da década passada é paga pelos massacrados. Quem perdeu emprego, casa e poupança sofre com cortes de serviços públicos. Seus governantes precisam cobrir a dívida pública que tapou o buraco dos bancos e salvou gigantes falidos em 2008.
É a lógica dominante. Pode-se argumentar que a Grande Recessão de seis anos atrás foi engendrada nessa configuração leniente. Por que políticos e governantes não mudaram tudo a partir dela? Ao que parece, não conseguem. Dependem dela. O Brasil de Dilma Rousseff e sua vizinhança tentam subverter essa lógica.
Na Venezuela, as maiores reservas de petróleo do mundo não vêm à tona por falta de investimentos. Nem papel higiênico Caracas tem a oferecer à sua população.
No Brasil, a imposição inicial de baixos retornos em concessões na infraestrutura, a bagunça no setor produtivo com desonerações pontuais, o represamento de tarifas e gastos públicos e a inflação em alta cortaram o crescimento de Dilma à metade do da era Lula.
Pode-se alegar que os donos do dinheiro são uns sacanas, que só investem quando mimados. Qual é a alternativa se o Estado não tem poupança suficiente para nada e deturpa --com política e corrupção-- entes e agências que poderiam minimamente estabilizar as regras?
O fim da era FHC e os anos Lula tiraram 40 milhões de pessoas da miséria porque atenderam às demandas do capital. Programas sociais, empregos, moradia e distribuição de renda custam dinheiro. Quem financiou? Geração espontânea não existe.
Prevaleceu a técnica do judô: uso da força "adversária" em proveito próprio. Não havia banqueiro, empresário ou ex-miserável triste, dizia-se. Deu até para eleger poste.
Com Dilma, isso parou. Amedrontaram o bicho mais medroso do mundo, o dono do dinheiro. O Brasil não cabe mais em seu PIB. O desconforto geral explodiu e os donos da gaita se retraíram. O baixo crescimento e a inflação renitente vêm daí.
Oferecer um tapete vermelho bem regulado a quem pode nos tirar desse sufoco, recepcionado por um presidente faixa preta. Temos um candidato que pode fazer isso?
A difícil relação entre a política e o dinheiro - ANA CLAUDIA SANTANO
GAZETA DO POVO - PR - 23/04
Em julgamento ainda em andamento da ADI 4650, seis ministros do Supremo Tribunal Federal entenderam que se deve declarar inconstitucional a possibilidade de pessoas jurídicas realizarem doações para as campanhas eleitorais e para os partidos políticos – o que significa dizer que, por mais que os demais ministros votem pela improcedência da ação, o resultado não se alterará. Tal medida tem uma intenção bastante moralizadora e pretende tornar a democracia mais igual, as forças mais equilibradas, bem como extirpar o poder econômico do processo político.
No entanto, pouco ou nada foi refletido a respeito dos efeitos que essa declaração de inconstitucionalidade pode causar, uma vez que o problema não se apresenta somente com o vazio provocado na legislação eleitoral e partidária, mas reflete-se também na indireta estatização dos partidos, já que, sem financiamento vindo das empresas e com o pífio valor das doações de pessoas físicas, não restará outra solução senão o Estado assumir essa carga em prol da sobrevivência das agremiações partidárias e da continuidade das campanhas eleitorais.
Países do Velho Continente, como a Espanha, vêm sofrendo duramente com a dependência dos partidos para com os recursos públicos, já que estes correspondem a aproximadamente 95% da sua receita total. Na Itália, a sociedade já disse “não” ao financiamento público de partidos por meio de um referendo, o que levou o sistema à beira de um colapso econômico. Desnecessário dizer que, em ambos os países, os escândalos de corrupção são tão – ou até mais – frequentes que no Brasil, e ainda assim estamos insistindo para dar os mesmos passos que eles.
É inocência pensar que a igualdade virá só pelo fato de que as empresas não doarão mais recursos econômicos, ou que casos de “caixa dois” cessarão. Objetivou-se tão-somente proibir, em vez de adotar mecanismos de fiscalização e transparência eficazes. Nesse processo, o eleitor continuará não sabendo de onde virão os valores gastos nas campanhas, já que o dinheiro – como a água – continuará se infiltrando nos recintos políticos. Por outro lado, a petrificação lenta e constante do sistema de partidos também prevalecerá, pois o eleitor, sem conhecer as opções políticas alternativas às conhecidas devido a uma campanha eleitoral pautada muito mais pela proibição que pela informação, votará naqueles que ele conhece, nos que já habitam o Congresso há décadas, nos filhos dos pais políticos, ou nos que detêm o poder dos meios de comunicação.
Esqueceu-se de que uma campanha informativa faz parte do jogo democrático. Se as campanhas estão custando um valor exorbitante, bastaria que os partidos usassem melhor esse dinheiro sob a supervisão dos eleitores, possibilitando-lhes escolher em quem votar a partir disso, e não que se penalizasse radicalmente as doações privadas. Percebe-se que o alvo principal eram as empresas, ainda que a expressão “pessoas jurídicas” abarque muito mais, limitando a mobilização cidadã sadia e tolhendo o direito de participação política, como se já não bastassem todas as limitações referentes à propaganda eleitoral. Tudo em nome de uma moralização externa que, ao fim, se traduzirá em um esforço ineficaz contra o verdadeiro cerne da questão: a falta de uma ética interna da classe política.
Em julgamento ainda em andamento da ADI 4650, seis ministros do Supremo Tribunal Federal entenderam que se deve declarar inconstitucional a possibilidade de pessoas jurídicas realizarem doações para as campanhas eleitorais e para os partidos políticos – o que significa dizer que, por mais que os demais ministros votem pela improcedência da ação, o resultado não se alterará. Tal medida tem uma intenção bastante moralizadora e pretende tornar a democracia mais igual, as forças mais equilibradas, bem como extirpar o poder econômico do processo político.
No entanto, pouco ou nada foi refletido a respeito dos efeitos que essa declaração de inconstitucionalidade pode causar, uma vez que o problema não se apresenta somente com o vazio provocado na legislação eleitoral e partidária, mas reflete-se também na indireta estatização dos partidos, já que, sem financiamento vindo das empresas e com o pífio valor das doações de pessoas físicas, não restará outra solução senão o Estado assumir essa carga em prol da sobrevivência das agremiações partidárias e da continuidade das campanhas eleitorais.
Países do Velho Continente, como a Espanha, vêm sofrendo duramente com a dependência dos partidos para com os recursos públicos, já que estes correspondem a aproximadamente 95% da sua receita total. Na Itália, a sociedade já disse “não” ao financiamento público de partidos por meio de um referendo, o que levou o sistema à beira de um colapso econômico. Desnecessário dizer que, em ambos os países, os escândalos de corrupção são tão – ou até mais – frequentes que no Brasil, e ainda assim estamos insistindo para dar os mesmos passos que eles.
É inocência pensar que a igualdade virá só pelo fato de que as empresas não doarão mais recursos econômicos, ou que casos de “caixa dois” cessarão. Objetivou-se tão-somente proibir, em vez de adotar mecanismos de fiscalização e transparência eficazes. Nesse processo, o eleitor continuará não sabendo de onde virão os valores gastos nas campanhas, já que o dinheiro – como a água – continuará se infiltrando nos recintos políticos. Por outro lado, a petrificação lenta e constante do sistema de partidos também prevalecerá, pois o eleitor, sem conhecer as opções políticas alternativas às conhecidas devido a uma campanha eleitoral pautada muito mais pela proibição que pela informação, votará naqueles que ele conhece, nos que já habitam o Congresso há décadas, nos filhos dos pais políticos, ou nos que detêm o poder dos meios de comunicação.
Esqueceu-se de que uma campanha informativa faz parte do jogo democrático. Se as campanhas estão custando um valor exorbitante, bastaria que os partidos usassem melhor esse dinheiro sob a supervisão dos eleitores, possibilitando-lhes escolher em quem votar a partir disso, e não que se penalizasse radicalmente as doações privadas. Percebe-se que o alvo principal eram as empresas, ainda que a expressão “pessoas jurídicas” abarque muito mais, limitando a mobilização cidadã sadia e tolhendo o direito de participação política, como se já não bastassem todas as limitações referentes à propaganda eleitoral. Tudo em nome de uma moralização externa que, ao fim, se traduzirá em um esforço ineficaz contra o verdadeiro cerne da questão: a falta de uma ética interna da classe política.
Problemas às pencas - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 23/04
Nos últimos dias, o PT anda às voltas com problemas que afetam sua imagem, faltando poucos meses para a eleição presidencial. Alguns deles poderiam ser evitados, outros, não.
Cada notícia sobre os atrasos das obras para a Copa, especialmente os estádios de futebol, é mais um ponto negativo na avaliação da capacidade de gestão do governo. Poderia ter sido evitado se o governo, desde que foi anunciada a decisão da Fifa, em 2007, tivesse trabalhado com seriedade.
Mas, por um bom tempo, pareceu que a propaganda seria o suficiente para aumentar a popularidade do governo. A realidade tratou de colocar as coisas nos devidos trilhos, e o gasto excessivo (que seria bancado pelo setor privado, lembram-se da promessa?) acabou explicitando as verdadeiras necessidades da população: hospitais e escolas "padrão Fifa", e não estádios de futebol.
A crise da Petrobras poderia ter sido evitada se a presidente Dilma não tivesse furado, com seu "sincericídio", a bolha de mentiras que protegia o mau negócio da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. Uma reação correta, mas atrasada, que parece estava martelando a cabeça da presidente - que evitou estourar a bolha antes para não atrapalhar a eleição do presidente Lula em 2006.
Estávamos lidando com os escândalos do mensalão, e seria demais surgir outro escândalo, e logo na Petrobras. Foi nessa campanha, aliás, que o governo jogou todas as suas fichas na demonização das privatizações, e deu certo, para espanto do próprio marqueteiro João Santana - que, mais tarde, admitiu em entrevista que ficara surpreso com a falta de reação do PSDB em defesa da privatização da telefonia, por exemplo, que levara os celulares para a classe média e até para os trabalhadores.
Como presidente do conselho, a presidente Dilma lutou contra a compra da outra metade de Pasadena, mas, como agora, não tinha condições de ir mais fundo na apuração. Hoje, ela bate boca em público com o ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli, mas não tem condições de ir adiante, pois exporá ao cidadão as transações ocorridas na gestão da Petrobras durante o governo Lula.
O caso do deputado André Vargas, que insiste em não renunciar, porém, é exemplar de como a situação política foge ao controle dos caciques petistas, até mesmo do maior deles, o ex-presidente Lula. Na já famosa entrevista aos "blogueiros confiáveis", como definiu muito bem um "jornalista confiável", o ex-presidente Lula jogou Vargas ao mar, dizendo que ele tinha que se explicar, "porque senão é o PT que paga o pato".
Foi nessa entrevista também que Lula, num ato falho, pediu empenho para impedir a CPI da Petrobras, lembrando que uma CPI para investigar uma corrupção de R$ 3 mil nos Correios do PTB acabou se transformando na CPI do mensalão. Lula tem toda a razão de temer que a CPI da Petrobras acabe em coisa pior para o governo e para o petismo, e é por isso que recomenda que o governo se dedique a inviabilizá- la.
Também a ex-ministra Gleisi Hoffmann mostra- se preocupada com a situação de Vargas e fez um comentário bizarro sobre essa situação: "O envolvimento do deputado com um doleiro não encontra justificativa para ter acontecido e acaba impactando no PT e na política". Como não encontra justificativa para ter ocorrido, senadora? A senhora não ouviu o diálogo de Vargas com o doleiro Alberto Youssef em que este diz ao deputado que está tratando da "independência financeira" dos dois? Mas tanto Lula quanto Gleisi Hoffmann têm razão em uma coisa: esses casos estão mesmo impactando a imagem do PT, já muito abalada desde os tempos do mensalão.
Cada notícia sobre os atrasos das obras para a Copa, especialmente os estádios de futebol, é mais um ponto negativo na avaliação da capacidade de gestão do governo. Poderia ter sido evitado se o governo, desde que foi anunciada a decisão da Fifa, em 2007, tivesse trabalhado com seriedade.
Mas, por um bom tempo, pareceu que a propaganda seria o suficiente para aumentar a popularidade do governo. A realidade tratou de colocar as coisas nos devidos trilhos, e o gasto excessivo (que seria bancado pelo setor privado, lembram-se da promessa?) acabou explicitando as verdadeiras necessidades da população: hospitais e escolas "padrão Fifa", e não estádios de futebol.
A crise da Petrobras poderia ter sido evitada se a presidente Dilma não tivesse furado, com seu "sincericídio", a bolha de mentiras que protegia o mau negócio da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. Uma reação correta, mas atrasada, que parece estava martelando a cabeça da presidente - que evitou estourar a bolha antes para não atrapalhar a eleição do presidente Lula em 2006.
Estávamos lidando com os escândalos do mensalão, e seria demais surgir outro escândalo, e logo na Petrobras. Foi nessa campanha, aliás, que o governo jogou todas as suas fichas na demonização das privatizações, e deu certo, para espanto do próprio marqueteiro João Santana - que, mais tarde, admitiu em entrevista que ficara surpreso com a falta de reação do PSDB em defesa da privatização da telefonia, por exemplo, que levara os celulares para a classe média e até para os trabalhadores.
Como presidente do conselho, a presidente Dilma lutou contra a compra da outra metade de Pasadena, mas, como agora, não tinha condições de ir mais fundo na apuração. Hoje, ela bate boca em público com o ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli, mas não tem condições de ir adiante, pois exporá ao cidadão as transações ocorridas na gestão da Petrobras durante o governo Lula.
O caso do deputado André Vargas, que insiste em não renunciar, porém, é exemplar de como a situação política foge ao controle dos caciques petistas, até mesmo do maior deles, o ex-presidente Lula. Na já famosa entrevista aos "blogueiros confiáveis", como definiu muito bem um "jornalista confiável", o ex-presidente Lula jogou Vargas ao mar, dizendo que ele tinha que se explicar, "porque senão é o PT que paga o pato".
Foi nessa entrevista também que Lula, num ato falho, pediu empenho para impedir a CPI da Petrobras, lembrando que uma CPI para investigar uma corrupção de R$ 3 mil nos Correios do PTB acabou se transformando na CPI do mensalão. Lula tem toda a razão de temer que a CPI da Petrobras acabe em coisa pior para o governo e para o petismo, e é por isso que recomenda que o governo se dedique a inviabilizá- la.
Também a ex-ministra Gleisi Hoffmann mostra- se preocupada com a situação de Vargas e fez um comentário bizarro sobre essa situação: "O envolvimento do deputado com um doleiro não encontra justificativa para ter acontecido e acaba impactando no PT e na política". Como não encontra justificativa para ter ocorrido, senadora? A senhora não ouviu o diálogo de Vargas com o doleiro Alberto Youssef em que este diz ao deputado que está tratando da "independência financeira" dos dois? Mas tanto Lula quanto Gleisi Hoffmann têm razão em uma coisa: esses casos estão mesmo impactando a imagem do PT, já muito abalada desde os tempos do mensalão.
Lulopetismo reage à acusação de Dilma - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 23/04
A discussão pública entre o ex-presidente da Petrobras e a presidente da República reforça as dúvidas sobre a compra da refinaria e a defesa da CPI
Governo e PT tentam de todas as formas evitar que a história muito mal explicada da compra da refinaria de Pasadena pela Petrobras seja investigada por uma CPI no Congresso. Mas os desdobramentos do caso se sucedem, contra os interesses do Planalto e do partido. Dessa vez, foi a entrevista concedida pelo ex-presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, ao “Estado de S.Paulo”, na edição de domingo, em que ele afronta a presidente Dilma ao dizer que ela “não pode fugir da sua responsabilidade” naquele negócio.
Dilma, na condição de presidente do Conselho de Administração da empresa, em 2006, quando era chefe da Casa Civil e Gabrielli, presidente da Petrobras, aprovou aquela operação, que mais tarde se mostraria um “mau negócio", como disse a atual responsável pela companhia, Graça Foster, em depoimento ao Senado, e concorda Dilma.
Gabrielli reage porque é atingido pela acusação da presidente da República de que ela e demais conselheiros deliberaram sobre uma operação, que custaria US$ 1,2 bilhão, a partir de um sumário “técnica e juridicamente falho", redigido pelo diretor Internacional da empresa, Nestor Cerveró, subordinado a Gabrielli. Paira a suspeita de que havia interesse em que a Petrobras fechasse um “mau negócio”, suposição que se torna mais grave quando são lembrados outros projetos cujos orçamentos também chegaram às estrelas (o da refinaria Abreu e Lima foi multiplicado por quase dez). E piora com a prisão do ex-diretor Internacional Paulo Roberto Costa, metido num esquema de lavagem de dinheiro, e colocado atrás das grades pela Polícia Federal.
A entrevista foi respondida por Dilma, por meio do ministro Aloizio Mercadante. A presidente mantém a opinião, por considerar um erro a omissão, no sumário, da existência de cláusulas, no negócio, as quais, se soubesse, não aprovaria a compra: rentabilidade mínima para os sócios belgas e aquisição compulsória das ações da outra parte, em caso de litígio. Gabrielli e Cerveró minimizam o fato.
Disso tudo, sai fortalecida ainda mais a ideia da CPI exclusiva — como deve ser, segundo juristas. E fica mais evidente o choque entre o lulopetismo e Dilma, em torno do passado nebuloso da Petrobras. Não esquecer que a gestão Gabrielli tem como patrono o presidente Lula, de cuja campanha à reeleição, em 2006, o então presidente da estatal participou com estrelinha na lapela do paletó. O conflito dentro de hostes do PT realça, ainda, o aparelhamento da estatal pelo lulopetismo, um combo de que participam sindicalistas e frações fisiológicas de partidos aliados na função de padrinhos de técnicos da casa, um estilo gerencial que marca a administração de Gabrielli.
Espera-se que as investigações da PF sobre o ex-diretor Paulo Roberto Costa, um dos elos naquele aparelhamento, ajude a desenrolar, pelo menos em parte, este novelo. Mas a CPI daria uma contribuição essencial no esclarecimento de desmandos e na defesa do patrimônio da Petrobras.
A discussão pública entre o ex-presidente da Petrobras e a presidente da República reforça as dúvidas sobre a compra da refinaria e a defesa da CPI
Governo e PT tentam de todas as formas evitar que a história muito mal explicada da compra da refinaria de Pasadena pela Petrobras seja investigada por uma CPI no Congresso. Mas os desdobramentos do caso se sucedem, contra os interesses do Planalto e do partido. Dessa vez, foi a entrevista concedida pelo ex-presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, ao “Estado de S.Paulo”, na edição de domingo, em que ele afronta a presidente Dilma ao dizer que ela “não pode fugir da sua responsabilidade” naquele negócio.
Dilma, na condição de presidente do Conselho de Administração da empresa, em 2006, quando era chefe da Casa Civil e Gabrielli, presidente da Petrobras, aprovou aquela operação, que mais tarde se mostraria um “mau negócio", como disse a atual responsável pela companhia, Graça Foster, em depoimento ao Senado, e concorda Dilma.
Gabrielli reage porque é atingido pela acusação da presidente da República de que ela e demais conselheiros deliberaram sobre uma operação, que custaria US$ 1,2 bilhão, a partir de um sumário “técnica e juridicamente falho", redigido pelo diretor Internacional da empresa, Nestor Cerveró, subordinado a Gabrielli. Paira a suspeita de que havia interesse em que a Petrobras fechasse um “mau negócio”, suposição que se torna mais grave quando são lembrados outros projetos cujos orçamentos também chegaram às estrelas (o da refinaria Abreu e Lima foi multiplicado por quase dez). E piora com a prisão do ex-diretor Internacional Paulo Roberto Costa, metido num esquema de lavagem de dinheiro, e colocado atrás das grades pela Polícia Federal.
A entrevista foi respondida por Dilma, por meio do ministro Aloizio Mercadante. A presidente mantém a opinião, por considerar um erro a omissão, no sumário, da existência de cláusulas, no negócio, as quais, se soubesse, não aprovaria a compra: rentabilidade mínima para os sócios belgas e aquisição compulsória das ações da outra parte, em caso de litígio. Gabrielli e Cerveró minimizam o fato.
Disso tudo, sai fortalecida ainda mais a ideia da CPI exclusiva — como deve ser, segundo juristas. E fica mais evidente o choque entre o lulopetismo e Dilma, em torno do passado nebuloso da Petrobras. Não esquecer que a gestão Gabrielli tem como patrono o presidente Lula, de cuja campanha à reeleição, em 2006, o então presidente da estatal participou com estrelinha na lapela do paletó. O conflito dentro de hostes do PT realça, ainda, o aparelhamento da estatal pelo lulopetismo, um combo de que participam sindicalistas e frações fisiológicas de partidos aliados na função de padrinhos de técnicos da casa, um estilo gerencial que marca a administração de Gabrielli.
Espera-se que as investigações da PF sobre o ex-diretor Paulo Roberto Costa, um dos elos naquele aparelhamento, ajude a desenrolar, pelo menos em parte, este novelo. Mas a CPI daria uma contribuição essencial no esclarecimento de desmandos e na defesa do patrimônio da Petrobras.
A crise volta ao Planalto - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 23/04
Bem que o ex-presidente Lula reclamou da sua afilhada Dilma Rousseff por "trazer para dentro do Planalto" a crise, até então restrita à Petrobrás, da compra da metade da Refinaria de Pasadena, em 2006. O que motivou o desolado comentário do mentor, em conversa com petistas, foi a já afamada nota da presidente ao Estado, em 17 de março passado, na qual confirmava que, na condição de titular do Conselho de Administração da estatal, aprovara a transação, que anos depois daria um prejuízo de US$ 530 milhões, apenas com base em um parecer de página e meia, "técnica e juridicamente falho", preparado pelo diretor da área internacional da empresa, Nestor Cerveró. Só mais tarde, segundo a sua versão, ela teria descoberto que o texto omitira duas cláusulas potencialmente lesivas à petroleira. Se delas tivesse tido conhecimento à época da decisão, garantiu, "seguramente" teria se oposto à compra.
Na semana passada, em depoimentos distintos na Câmara e no Senado, Cerveró, recém-demitido de um cargo na BR Distribuidora para o qual tinha sido removido, e a presidente da Petrobrás, Graça Foster, cuidaram, cada qual a seu modo, de manter a chefe do governo longe do fogo. Ela, por sua vez, saiu alegando que, ao propor uma CPI sobre esse e outros casos suspeitos, a oposição iniciara uma "campanha negativa" contra a empresa para, ao fim e ao cabo, promover a sua privatização. A blindagem de Dilma não estava, porém, completa. Faltou combinar - se é que teria sido possível - com o ex-presidente da Petrobrás José Sérgio Gabrielli, o primeiro defensor da parceria com o grupo belga Astra Oil, proprietário da refinaria. Numa entrevista a este jornal, publicada domingo, disse deliberadamente: "Não posso fugir da minha responsabilidade (pelo negócio), do mesmo jeito que a presidente Dilma não pode fugir da responsabilidade dela".
Assim como a nota oficial de Dilma, as palavras de Gabrielli são uma defesa prévia diante dos eventuais desdobramentos da admissão de Graça Foster de que a Petrobrás enterrou US$ 1,249 bilhão em Pasadena, segundo as contas oficiais. Com o argumento de que, em última análise, foi induzida a erro ao endossar a primeira parte da desastrosa transação, a presidente tentou resguardar-se da acusação de negligência, ou de ter cometido um ato de gestão temerária. Já Gabrielli, ao compartilhar a responsabilidade com Dilma, alvejou quem não gostava de sua gestão e tampouco disse uma palavra em sua defesa desde que o caso eclodiu. Ele não se limitou a isso. Reconhecendo que o Conselho não teve acesso às cláusulas citadas pela presidente, considerou-as irrelevantes. Por fim, na contramão do que ela escreveu sobre o que seguramente faria se as conhecesse, disse acreditar que o colegiado, ainda assim, "teria aprovado" a operação.
A diferença entre a manifestação de Dilma e a de Gabrielli é que a dela foi uma decisão solitária, temperamental - e, afinal de contas, contraproducente. Já a dele decerto resultou de conversas com seu bom companheiro Lula, que foi quem lhe entregou o comando da Petrobrás. Talvez Gabrielli tenha sido um pouco mais incisivo do que o ex-presidente apreciaria - a única concessão a Dilma na entrevista foi achar "legítimo que ela tenha dúvidas". Mas demarcou o seu território para o que der e vier e reiterou que a compra da refinaria "foi um bom negócio para a conjuntura de 2006, um mau negócio para a conjuntura de 2008 a 2011 e voltou a ser bom em 2013 e 2014". Só que, em 2007, a Petrobrás teria se recusado a revender à sua antiga proprietária, como esta queria, a metade que dela havia comprado, conforme noticiou ontem a Folha de S.Paulo. Coisas assim explicam o ostensivo empenho do governo em impedir a abertura de uma investigação parlamentar sobre, antes de tudo, as possíveis malfeitorias escondidas no subsolo de Pasadena.
Outras dúvidas pairam sobre a conduta da então dublê de ministra da Casa Civil e conselheira chefe da Petrobrás. Não é crível que, numa função ou na outra, ela tenha ignorado um ano das negociações com a Astra Oil, sabendo apenas acerca do seu desfecho o que constava no tal resumo executivo. E se, mesmo assim, aprovou a transação, foi - a palavra é esta - irresponsável.
Bem que o ex-presidente Lula reclamou da sua afilhada Dilma Rousseff por "trazer para dentro do Planalto" a crise, até então restrita à Petrobrás, da compra da metade da Refinaria de Pasadena, em 2006. O que motivou o desolado comentário do mentor, em conversa com petistas, foi a já afamada nota da presidente ao Estado, em 17 de março passado, na qual confirmava que, na condição de titular do Conselho de Administração da estatal, aprovara a transação, que anos depois daria um prejuízo de US$ 530 milhões, apenas com base em um parecer de página e meia, "técnica e juridicamente falho", preparado pelo diretor da área internacional da empresa, Nestor Cerveró. Só mais tarde, segundo a sua versão, ela teria descoberto que o texto omitira duas cláusulas potencialmente lesivas à petroleira. Se delas tivesse tido conhecimento à época da decisão, garantiu, "seguramente" teria se oposto à compra.
Na semana passada, em depoimentos distintos na Câmara e no Senado, Cerveró, recém-demitido de um cargo na BR Distribuidora para o qual tinha sido removido, e a presidente da Petrobrás, Graça Foster, cuidaram, cada qual a seu modo, de manter a chefe do governo longe do fogo. Ela, por sua vez, saiu alegando que, ao propor uma CPI sobre esse e outros casos suspeitos, a oposição iniciara uma "campanha negativa" contra a empresa para, ao fim e ao cabo, promover a sua privatização. A blindagem de Dilma não estava, porém, completa. Faltou combinar - se é que teria sido possível - com o ex-presidente da Petrobrás José Sérgio Gabrielli, o primeiro defensor da parceria com o grupo belga Astra Oil, proprietário da refinaria. Numa entrevista a este jornal, publicada domingo, disse deliberadamente: "Não posso fugir da minha responsabilidade (pelo negócio), do mesmo jeito que a presidente Dilma não pode fugir da responsabilidade dela".
Assim como a nota oficial de Dilma, as palavras de Gabrielli são uma defesa prévia diante dos eventuais desdobramentos da admissão de Graça Foster de que a Petrobrás enterrou US$ 1,249 bilhão em Pasadena, segundo as contas oficiais. Com o argumento de que, em última análise, foi induzida a erro ao endossar a primeira parte da desastrosa transação, a presidente tentou resguardar-se da acusação de negligência, ou de ter cometido um ato de gestão temerária. Já Gabrielli, ao compartilhar a responsabilidade com Dilma, alvejou quem não gostava de sua gestão e tampouco disse uma palavra em sua defesa desde que o caso eclodiu. Ele não se limitou a isso. Reconhecendo que o Conselho não teve acesso às cláusulas citadas pela presidente, considerou-as irrelevantes. Por fim, na contramão do que ela escreveu sobre o que seguramente faria se as conhecesse, disse acreditar que o colegiado, ainda assim, "teria aprovado" a operação.
A diferença entre a manifestação de Dilma e a de Gabrielli é que a dela foi uma decisão solitária, temperamental - e, afinal de contas, contraproducente. Já a dele decerto resultou de conversas com seu bom companheiro Lula, que foi quem lhe entregou o comando da Petrobrás. Talvez Gabrielli tenha sido um pouco mais incisivo do que o ex-presidente apreciaria - a única concessão a Dilma na entrevista foi achar "legítimo que ela tenha dúvidas". Mas demarcou o seu território para o que der e vier e reiterou que a compra da refinaria "foi um bom negócio para a conjuntura de 2006, um mau negócio para a conjuntura de 2008 a 2011 e voltou a ser bom em 2013 e 2014". Só que, em 2007, a Petrobrás teria se recusado a revender à sua antiga proprietária, como esta queria, a metade que dela havia comprado, conforme noticiou ontem a Folha de S.Paulo. Coisas assim explicam o ostensivo empenho do governo em impedir a abertura de uma investigação parlamentar sobre, antes de tudo, as possíveis malfeitorias escondidas no subsolo de Pasadena.
Outras dúvidas pairam sobre a conduta da então dublê de ministra da Casa Civil e conselheira chefe da Petrobrás. Não é crível que, numa função ou na outra, ela tenha ignorado um ano das negociações com a Astra Oil, sabendo apenas acerca do seu desfecho o que constava no tal resumo executivo. E se, mesmo assim, aprovou a transação, foi - a palavra é esta - irresponsável.
Credibilidade sob ameaça - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 23/04
O governo pressiona e consegue que o IBGE deixe de divulgar os dados da Pnad Contínua; felizmente, os técnicos do instituto estão reagindo
Não bastasse a criatividade contábil a que o Brasil recorre para fechar suas contas, o país está dando mais um passo para acordar amanhã como uma Argentina, nação cujas estatísticas, de tão manipuladas pelo kirchnerismo, valem tanto quanto uma cédula de R$ 3. Da mesmo forma como a presidente Cristina Kirchner interveio no Indec – congênere do nosso IBGE e até há pouco uma das mais respeitadas instituições de pesquisa do mundo –, também o governo brasileiro decidiu que índices que se mostrem desfavoráveis à administração do PT e da presidente Dilma Rousseff devem ser subtraídos do conhecimento público.
O prognóstico sobre o risco de cairmos no mesmo descrédito internacional que atinge os argentinos decorre da decisão oficial de suspender até 2015 a divulgação da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), quando o governo, pela voz de alguns parlamentares, dentre as quais a senadora paranaense Gleisi Hoffmann, percebeu que as realidades que emergiam dos números e índices do IBGE destoavam do discurso ufanista com que se procura engodar a opinião pública.
A Pnad Contínua consiste em investigar, de modo permanente, dados socieconômicos e demográficos, levantando quesitos a respeito de educação, trabalho, renda, habitação, previdência, migrações, fecundidade, saúde, nutrição e muitos outros. Trata-se de uma radiografia continuada das realidades nacional e regionais, útil não somente como informação, mas sobretudo como instrumento de planejamento e de intervenções necessárias para corrigir as distorções e fragilidades das políticas governamentais e empresariais.
A “censura” aos dados produzidos é um mal em si mesmo, mas o grau de malignidade se acentua quando interfere na autonomia do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), instituição que conquistou ao longo de décadas invejável conceito internacional. E, ao sofrer a intervenção – seria apenas a primeira? virão outras?, pode-se perguntar –, perde de modo generalizado, para todos os demais dados que produz, a qualidade que lhe é essencial: a credibilidade.
Desse modo, pode não estar longe o dia em que, a exemplo do que já aconteceu com o instituto argentino, o IBGE também deixará de ser uma referência confiável. A respeitada The Economist, “bíblia” em que a política e a economia mundiais se baseiam para aferir as realidades de todas as regiões do globo, já deixou de publicar dados originados do argentino Indec, transformado em aparelho político de Cristina Kirchner que, entre outras tarefas, dá-se até à de falsear vergonhosamente dados tão importantes como os da inflação do país, mostrando-a mais baixa que a real. Quando constatou as manipulações, a revista não teve dúvidas em afirmar, no editorial em que anunciou a decisão de não mais reproduzir os índices oficiais argentinos: “Estamos cansados de servir ao que parece ser uma tentativa deliberada de enganar os eleitores e de dar calote nos investidores”.
A reação do corpo técnico do IBGE à intervenção começou na semana passada e não deverá terminar tão cedo. Dois diretores entregaram seus cargos; 18 outros gerentes de pesquisa ligados à Pnad também ameaçam abandonar as funções; 45 técnicos assinaram manifesto garantindo a precisão dos dados que o instituto levantou. Articula-se até uma greve inusitada: servidores em protesto defendendo não seus eventuais direitos trabalhistas, mas o direito de trabalhar mais e melhor.
Não deixa de ser um alento ver que ainda há funcionários públicos dispostos a evitar que o Brasil de amanhã seja parecido com a Argentina de hoje.
O governo pressiona e consegue que o IBGE deixe de divulgar os dados da Pnad Contínua; felizmente, os técnicos do instituto estão reagindo
Não bastasse a criatividade contábil a que o Brasil recorre para fechar suas contas, o país está dando mais um passo para acordar amanhã como uma Argentina, nação cujas estatísticas, de tão manipuladas pelo kirchnerismo, valem tanto quanto uma cédula de R$ 3. Da mesmo forma como a presidente Cristina Kirchner interveio no Indec – congênere do nosso IBGE e até há pouco uma das mais respeitadas instituições de pesquisa do mundo –, também o governo brasileiro decidiu que índices que se mostrem desfavoráveis à administração do PT e da presidente Dilma Rousseff devem ser subtraídos do conhecimento público.
O prognóstico sobre o risco de cairmos no mesmo descrédito internacional que atinge os argentinos decorre da decisão oficial de suspender até 2015 a divulgação da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), quando o governo, pela voz de alguns parlamentares, dentre as quais a senadora paranaense Gleisi Hoffmann, percebeu que as realidades que emergiam dos números e índices do IBGE destoavam do discurso ufanista com que se procura engodar a opinião pública.
A Pnad Contínua consiste em investigar, de modo permanente, dados socieconômicos e demográficos, levantando quesitos a respeito de educação, trabalho, renda, habitação, previdência, migrações, fecundidade, saúde, nutrição e muitos outros. Trata-se de uma radiografia continuada das realidades nacional e regionais, útil não somente como informação, mas sobretudo como instrumento de planejamento e de intervenções necessárias para corrigir as distorções e fragilidades das políticas governamentais e empresariais.
A “censura” aos dados produzidos é um mal em si mesmo, mas o grau de malignidade se acentua quando interfere na autonomia do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), instituição que conquistou ao longo de décadas invejável conceito internacional. E, ao sofrer a intervenção – seria apenas a primeira? virão outras?, pode-se perguntar –, perde de modo generalizado, para todos os demais dados que produz, a qualidade que lhe é essencial: a credibilidade.
Desse modo, pode não estar longe o dia em que, a exemplo do que já aconteceu com o instituto argentino, o IBGE também deixará de ser uma referência confiável. A respeitada The Economist, “bíblia” em que a política e a economia mundiais se baseiam para aferir as realidades de todas as regiões do globo, já deixou de publicar dados originados do argentino Indec, transformado em aparelho político de Cristina Kirchner que, entre outras tarefas, dá-se até à de falsear vergonhosamente dados tão importantes como os da inflação do país, mostrando-a mais baixa que a real. Quando constatou as manipulações, a revista não teve dúvidas em afirmar, no editorial em que anunciou a decisão de não mais reproduzir os índices oficiais argentinos: “Estamos cansados de servir ao que parece ser uma tentativa deliberada de enganar os eleitores e de dar calote nos investidores”.
A reação do corpo técnico do IBGE à intervenção começou na semana passada e não deverá terminar tão cedo. Dois diretores entregaram seus cargos; 18 outros gerentes de pesquisa ligados à Pnad também ameaçam abandonar as funções; 45 técnicos assinaram manifesto garantindo a precisão dos dados que o instituto levantou. Articula-se até uma greve inusitada: servidores em protesto defendendo não seus eventuais direitos trabalhistas, mas o direito de trabalhar mais e melhor.
Não deixa de ser um alento ver que ainda há funcionários públicos dispostos a evitar que o Brasil de amanhã seja parecido com a Argentina de hoje.
Argentina problemática - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 23/04
A Mercedes-Benz paralisou ontem a montagem de caminhões em Juiz de Fora (MG). Os trabalhadores entraram em férias coletivas até 11 de maio para que a empresa consiga adequar a produção ao ritmo mais lento do mercado brasileiro este ano e, principalmente, à queda nos negócios com a Argentina, sem sinal de recuperação.
Esse não é um fato isolado. Pelo contrário, a crise cambial do país vizinho, agravada por repetidos desacertos na condução da política econômica do governo Cristina Kirchner, acabou afetando a indústria brasileira. Principal destino das exportações de produtos industrializados do Brasil, a Argentina já vinha se configurando um perigo para nossas contas externas.
Especialistas advertiram inúmeras vezes para a necessidade de Brasília redirecionar o foco da diplomacia comercial para acordos com economias mais promissoras. Não se tratava de abandonar o maior parceiro comercial do Mercosul, mas de perceber que a exclusão - por calote da dívida externa - da Argentina do mercado financeiro imporia sérias limitações ao vizinho. Era preciso aumentar a diversificação de nossos destinos comerciais de produtos fora da pauta de commodities.
Quase nada foi feito e, agora que o Brasil precisa retomar a produção industrial e, ao mesmo tempo, melhorar as contas externas, o comércio bilateral com os argentinos caiu 17% no primeiro trimestre, em relação a igual período de 2013. E o setor mais duramente atingido foi o automotivo, com queda de 32%.
O resultado não se deve apenas aos maus-tratos que a Argentina tem dispensado aos exportadores brasileiros (barreiras à importação de nossos produtos e até recomendação para que os importadores atrasem os pagamentos em dólares). Insistindo em destravar os negócios com parceiro tão malvisto pelo resto do mundo, o governo Dilma despachou para Buenos Aires o ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Mauro Borges. Ele não terá vida fácil.
Os argentinos aproveitam-se desses momentos para arrancar do Brasil vantagens excepcionais sem qualquer compensação. Querem, agora, que o país financie suas importações a juros subsidiados. A recuperação do comércio com o vizinho certamente nos interessa. Mas é preciso cautela para que não tenham mais do que é dado aos empreendedores nacionais, que, aqui, pagam elevada carga tributária.
Esse não é um fato isolado. Pelo contrário, a crise cambial do país vizinho, agravada por repetidos desacertos na condução da política econômica do governo Cristina Kirchner, acabou afetando a indústria brasileira. Principal destino das exportações de produtos industrializados do Brasil, a Argentina já vinha se configurando um perigo para nossas contas externas.
Especialistas advertiram inúmeras vezes para a necessidade de Brasília redirecionar o foco da diplomacia comercial para acordos com economias mais promissoras. Não se tratava de abandonar o maior parceiro comercial do Mercosul, mas de perceber que a exclusão - por calote da dívida externa - da Argentina do mercado financeiro imporia sérias limitações ao vizinho. Era preciso aumentar a diversificação de nossos destinos comerciais de produtos fora da pauta de commodities.
Quase nada foi feito e, agora que o Brasil precisa retomar a produção industrial e, ao mesmo tempo, melhorar as contas externas, o comércio bilateral com os argentinos caiu 17% no primeiro trimestre, em relação a igual período de 2013. E o setor mais duramente atingido foi o automotivo, com queda de 32%.
O resultado não se deve apenas aos maus-tratos que a Argentina tem dispensado aos exportadores brasileiros (barreiras à importação de nossos produtos e até recomendação para que os importadores atrasem os pagamentos em dólares). Insistindo em destravar os negócios com parceiro tão malvisto pelo resto do mundo, o governo Dilma despachou para Buenos Aires o ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Mauro Borges. Ele não terá vida fácil.
Os argentinos aproveitam-se desses momentos para arrancar do Brasil vantagens excepcionais sem qualquer compensação. Querem, agora, que o país financie suas importações a juros subsidiados. A recuperação do comércio com o vizinho certamente nos interessa. Mas é preciso cautela para que não tenham mais do que é dado aos empreendedores nacionais, que, aqui, pagam elevada carga tributária.
Bagunça F.C. - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 23/04
A menos de dois meses do início da Copa do Mundo, o Brasil continua a dar provas de desorganização tanto nos preparativos para o evento quanto na administração de seu próprio futebol.
São notórios os atrasos na entrega dos estádios e de obras de infraestrutura urbana. Algumas foram transferidas para depois do torneio, e outras, canceladas.
Em visita ontem ao Itaquerão, palco de abertura do Mundial, o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, admitiu, resignado, que o cronograma está apertado e que a arena será entregue no último minuto.
"O importante é o Brasil estar pronto", disse o cartola diante do fato consumado, num aparente esforço para evitar novos conflitos verbais com a organização local.
Na realidade, importante para o país --já no foco das atenções da imprensa internacional-- teria sido cumprir suas promessas dentro dos prazos e custos previstos, sem deixar incertezas acerca de sua capacidade de assumir compromissos de tal envergadura. Afinal, há uma Olimpíada pela frente.
Apesar dos problemas e improvisações, a realização da Copa no Brasil não parece fadada a fiasco. Os jogos acontecerão e o torneio chegará a termo, ainda que aquém das condições ideais.
Infelizmente, prevaleceu mais uma vez a cultura nacional da falta de planejamento, das decisões postergadas até a undécima hora, dos orçamentos estourados e das injunções políticas que se sobrepõem ao interesse público.
Nesse cenário de negligências, o futebol brasileiro, que em tese deveria beneficiar-se da Copa para engendrar um salto organizacional, continua a ser gerido de maneira confusa e amadorística.
Depois de um início de ano marcado por torneios estaduais pífios e deficitários, o Campeonato Brasileiro teve início sob a ameaça de desavenças e conflitos judiciais. A decisão da Justiça esportiva de punir a Portuguesa pela escalação irregular de um jogador, na competição do ano passado, levou a agremiação paulista à Série B. A situação gerou descontentamentos e disputas na Justiça comum.
A crise, ainda sem desfecho, só reforça a percepção de que o futebol nacional, técnica e financeiramente debilitado, permanece distante do patamar profissional de centros mais avançados, como a Europa, onde, não por acaso, atuam os principais atletas do país.
São notórios os atrasos na entrega dos estádios e de obras de infraestrutura urbana. Algumas foram transferidas para depois do torneio, e outras, canceladas.
Em visita ontem ao Itaquerão, palco de abertura do Mundial, o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, admitiu, resignado, que o cronograma está apertado e que a arena será entregue no último minuto.
"O importante é o Brasil estar pronto", disse o cartola diante do fato consumado, num aparente esforço para evitar novos conflitos verbais com a organização local.
Na realidade, importante para o país --já no foco das atenções da imprensa internacional-- teria sido cumprir suas promessas dentro dos prazos e custos previstos, sem deixar incertezas acerca de sua capacidade de assumir compromissos de tal envergadura. Afinal, há uma Olimpíada pela frente.
Apesar dos problemas e improvisações, a realização da Copa no Brasil não parece fadada a fiasco. Os jogos acontecerão e o torneio chegará a termo, ainda que aquém das condições ideais.
Infelizmente, prevaleceu mais uma vez a cultura nacional da falta de planejamento, das decisões postergadas até a undécima hora, dos orçamentos estourados e das injunções políticas que se sobrepõem ao interesse público.
Nesse cenário de negligências, o futebol brasileiro, que em tese deveria beneficiar-se da Copa para engendrar um salto organizacional, continua a ser gerido de maneira confusa e amadorística.
Depois de um início de ano marcado por torneios estaduais pífios e deficitários, o Campeonato Brasileiro teve início sob a ameaça de desavenças e conflitos judiciais. A decisão da Justiça esportiva de punir a Portuguesa pela escalação irregular de um jogador, na competição do ano passado, levou a agremiação paulista à Série B. A situação gerou descontentamentos e disputas na Justiça comum.
A crise, ainda sem desfecho, só reforça a percepção de que o futebol nacional, técnica e financeiramente debilitado, permanece distante do patamar profissional de centros mais avançados, como a Europa, onde, não por acaso, atuam os principais atletas do país.
Estupidez criminosa - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 23/04
Atentados a ônibus, como os de Osasco, estão cada vez mais associados ao crime organizado, contra o qual a sociedade espera ações efetivas.
Num país no qual a criminalidade parece cada dia mais indissociável do cotidiano e que figura com destaque crescente nos rankings internacionais de violência, é preocupante a banalização de atos como a destruição de ônibus, por meio de depredações ou incêndios criminosos. No caso mais recente, e um dos mais assustadores entre os já registrados até agora, mais de três dezenas de ônibus foram incendiados por criminosos que invadiram a garagem de uma empresa de transporte coletivo na cidade paulista de Osasco. O poder público precisa dar um basta a essas ações covardes, que causam transtornos à população e aos usuários do transporte coletivo. Além disso, prejudicam a própria imagem do país, já que as cenas deploráveis ganham espaço na mídia internacional, às vésperas da realização de um evento importante como a Copa do Mundo.
Os números são assustadores: só neste ano, nada menos de 364 ônibus foram atacados na capital paulista e em municípios da Grande São Paulo, sendo 115 deles incendiados. Em outras cidades do país, incluindo algumas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, também há registros frequentes de veículos coletivos queimados por traficantes, quadrilhas e até mesmo grevistas e participantes de manifestações de rua. No início do ano, ataques desse tipo já haviam resultado na morte de uma menina de seis anos no Maranhão. E, seja qual for o caso, o resultado concreto é que o usuário acaba arcando duplamente com o ônus. Primeiro, porque passa a contar com menos opções ainda para se locomover, como ocorreu ontem na cidade paulista. Depois, porque é chamado a responder também pelo custo financeiro.
A esses episódios, se somam outros igualmente assustadores, como os ataques coordenados a Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), intensificados nos últimos meses, no Rio de Janeiro. Mais recentemente, a greve dos policiais militares em Salvador, na Bahia, chamou a atenção para o quanto a violência pode transbordar para diferentes áreas quando os criminosos se sentem livres para agir. A contenção da criminalidade não deveria depender apenas de policiamento ostensivo, mas sobretudo de observância a princípios morais e legais. A simples ausência da polícia nas ruas, porém, foi suficiente para aumentar em 10 vezes o número de mortes diárias na capital baiana, o que é aterrador.
Nos casos específicos envolvendo transporte coletivo, os danos provocados, algumas vezes têm ligação com a insatisfação em relação à má qualidade dos serviços, que deu origem a protestos em série nas ruas há quase um ano. Atentados a ônibus, como os de Osasco, porém, estão cada vez mais associados ao crime organizado, contra o qual a sociedade espera ações efetivas.
Atentados a ônibus, como os de Osasco, estão cada vez mais associados ao crime organizado, contra o qual a sociedade espera ações efetivas.
Num país no qual a criminalidade parece cada dia mais indissociável do cotidiano e que figura com destaque crescente nos rankings internacionais de violência, é preocupante a banalização de atos como a destruição de ônibus, por meio de depredações ou incêndios criminosos. No caso mais recente, e um dos mais assustadores entre os já registrados até agora, mais de três dezenas de ônibus foram incendiados por criminosos que invadiram a garagem de uma empresa de transporte coletivo na cidade paulista de Osasco. O poder público precisa dar um basta a essas ações covardes, que causam transtornos à população e aos usuários do transporte coletivo. Além disso, prejudicam a própria imagem do país, já que as cenas deploráveis ganham espaço na mídia internacional, às vésperas da realização de um evento importante como a Copa do Mundo.
Os números são assustadores: só neste ano, nada menos de 364 ônibus foram atacados na capital paulista e em municípios da Grande São Paulo, sendo 115 deles incendiados. Em outras cidades do país, incluindo algumas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, também há registros frequentes de veículos coletivos queimados por traficantes, quadrilhas e até mesmo grevistas e participantes de manifestações de rua. No início do ano, ataques desse tipo já haviam resultado na morte de uma menina de seis anos no Maranhão. E, seja qual for o caso, o resultado concreto é que o usuário acaba arcando duplamente com o ônus. Primeiro, porque passa a contar com menos opções ainda para se locomover, como ocorreu ontem na cidade paulista. Depois, porque é chamado a responder também pelo custo financeiro.
A esses episódios, se somam outros igualmente assustadores, como os ataques coordenados a Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), intensificados nos últimos meses, no Rio de Janeiro. Mais recentemente, a greve dos policiais militares em Salvador, na Bahia, chamou a atenção para o quanto a violência pode transbordar para diferentes áreas quando os criminosos se sentem livres para agir. A contenção da criminalidade não deveria depender apenas de policiamento ostensivo, mas sobretudo de observância a princípios morais e legais. A simples ausência da polícia nas ruas, porém, foi suficiente para aumentar em 10 vezes o número de mortes diárias na capital baiana, o que é aterrador.
Nos casos específicos envolvendo transporte coletivo, os danos provocados, algumas vezes têm ligação com a insatisfação em relação à má qualidade dos serviços, que deu origem a protestos em série nas ruas há quase um ano. Atentados a ônibus, como os de Osasco, porém, estão cada vez mais associados ao crime organizado, contra o qual a sociedade espera ações efetivas.
As razões de um fracasso - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 23/04
Depois da última edição do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), que mais uma vez colocou o Brasil nas dez últimas posições de um ranking comparativo de 65 países, organizações não governamentais e entidades financiadas pela iniciativa privada passaram a pesquisar os fatores responsáveis pelo mau desempenho dos estudantes brasileiros em matemática, leitura, ciências e ao lidar com informações e problemas práticos da vida cotidiana. Promovido pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) desde 2002, o Pisa mede e compara o quanto e como esses países preparam seus jovens para uma vida adulta produtiva. Aplicado a cada três anos, o Pisa avalia 500 mil estudantes em 34 países desenvolvidos e em outros 31 convidados - como é o caso do Brasil.
Financiada pela Fundação Lemann, uma pesquisa ouviu cerca de 800 diretores de escolas que participaram da edição de 2012 do Pisa e identificou 19 fatores que explicam o mau desempenho do Brasil. Entre esses fatores, destacam-se problemas já conhecidos, como altas taxas de evasão nos cursos noturnos, absenteísmo dos professores e dos alunos, atrasos na chegada à escola, consumo de álcool e drogas por estudantes, bullying, falta de respeito pelos docentes, interrupções de aula e ambiente escolar.
Divulgado pelo jornal O Globo, o estudo da Fundação Lemann constatou que esses problemas prejudicam o aprendizado nas escolas brasileiras mais do que na média dos países da OCDE.
Para 24,57% dos diretores de escolas brasileiras entrevistados, as interrupções de aulas pelos estudantes prejudicam significativamente seu desempenho. Na OCDE, só 2,54% dos diretores de escolas reclamam desse problema. Em países como a Tailândia, Polônia, Canadá e Reino Unido, menos de 1% dos diretores de colégios apontam as interrupções como obstáculo para o aprendizado. Outro problema é o atraso dos alunos na entrada das salas de aula. Pelas pesquisas da OCDE, quando o índice de atraso é alto, a proficiência dos alunos tende a cair - e, inversamente, quando o índice de atrasos é baixo, o nível de aprendizado tende a ser mais alto. A pesquisa da Fundação Lemann mostrou que 9,18% dos diretores de escolas brasileiras consideram esse problema como grave e recorrente - na média da OCDE, somente 4,30% dos diretores de colégio se queixam dele.
Um dos problemas que mais têm prejudicado o aumento do nível de aprendizagem nas escolas brasileiras de ensino fundamental e de ensino médio, principalmente as situadas em bairros mais pobres e na periferia das regiões metropolitanas, é a agressividade dos alunos e a falta de respeito com os professores. Segundo o estudo da Fundação Lemann, 14,08% dos dirigentes escolares brasileiros entrevistados consideram esse problema preocupante. Eles alegam que a falta de respeito, além de colocar em risco a autoridade dos docentes em sala de aula, atrapalha o aprendizado dos alunos bons. Na média dos países da OCDE, apenas 1,88% dos diretores de escolas reclama da alta frequência de xingamentos e ameaças aos professores.
A pesquisa da Fundação Lemann mostra ainda que as dificuldades de aprendizagem dos estudantes brasileiros estão associadas à falta de empenho do professorado, à falta de planejamento escolar e à leniência nas avaliações - fatores que não estimulariam os alunos a atingir seu pleno potencial. A pesquisa mostrou que 8,32% dos diretores entrevistados apontaram o problema como muito grave e 28,15% responderam que ele dificulta "até certo ponto" o processo de aprendizagem. Na média da OCDE, os porcentuais são de 2,2% e 18,40%, respectivamente.
A pesquisa da Fundação Lemann é uma fonte de informações para a definição de prioridades e para a formulação de políticas pedagógicas. Iniciativas como essas são fundamentais para que o País consiga dar um salto de qualidade no ensino básico e melhorar sua posição nos rankings comparativos internacionais.
Depois da última edição do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), que mais uma vez colocou o Brasil nas dez últimas posições de um ranking comparativo de 65 países, organizações não governamentais e entidades financiadas pela iniciativa privada passaram a pesquisar os fatores responsáveis pelo mau desempenho dos estudantes brasileiros em matemática, leitura, ciências e ao lidar com informações e problemas práticos da vida cotidiana. Promovido pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) desde 2002, o Pisa mede e compara o quanto e como esses países preparam seus jovens para uma vida adulta produtiva. Aplicado a cada três anos, o Pisa avalia 500 mil estudantes em 34 países desenvolvidos e em outros 31 convidados - como é o caso do Brasil.
Financiada pela Fundação Lemann, uma pesquisa ouviu cerca de 800 diretores de escolas que participaram da edição de 2012 do Pisa e identificou 19 fatores que explicam o mau desempenho do Brasil. Entre esses fatores, destacam-se problemas já conhecidos, como altas taxas de evasão nos cursos noturnos, absenteísmo dos professores e dos alunos, atrasos na chegada à escola, consumo de álcool e drogas por estudantes, bullying, falta de respeito pelos docentes, interrupções de aula e ambiente escolar.
Divulgado pelo jornal O Globo, o estudo da Fundação Lemann constatou que esses problemas prejudicam o aprendizado nas escolas brasileiras mais do que na média dos países da OCDE.
Para 24,57% dos diretores de escolas brasileiras entrevistados, as interrupções de aulas pelos estudantes prejudicam significativamente seu desempenho. Na OCDE, só 2,54% dos diretores de escolas reclamam desse problema. Em países como a Tailândia, Polônia, Canadá e Reino Unido, menos de 1% dos diretores de colégios apontam as interrupções como obstáculo para o aprendizado. Outro problema é o atraso dos alunos na entrada das salas de aula. Pelas pesquisas da OCDE, quando o índice de atraso é alto, a proficiência dos alunos tende a cair - e, inversamente, quando o índice de atrasos é baixo, o nível de aprendizado tende a ser mais alto. A pesquisa da Fundação Lemann mostrou que 9,18% dos diretores de escolas brasileiras consideram esse problema como grave e recorrente - na média da OCDE, somente 4,30% dos diretores de colégio se queixam dele.
Um dos problemas que mais têm prejudicado o aumento do nível de aprendizagem nas escolas brasileiras de ensino fundamental e de ensino médio, principalmente as situadas em bairros mais pobres e na periferia das regiões metropolitanas, é a agressividade dos alunos e a falta de respeito com os professores. Segundo o estudo da Fundação Lemann, 14,08% dos dirigentes escolares brasileiros entrevistados consideram esse problema preocupante. Eles alegam que a falta de respeito, além de colocar em risco a autoridade dos docentes em sala de aula, atrapalha o aprendizado dos alunos bons. Na média dos países da OCDE, apenas 1,88% dos diretores de escolas reclama da alta frequência de xingamentos e ameaças aos professores.
A pesquisa da Fundação Lemann mostra ainda que as dificuldades de aprendizagem dos estudantes brasileiros estão associadas à falta de empenho do professorado, à falta de planejamento escolar e à leniência nas avaliações - fatores que não estimulariam os alunos a atingir seu pleno potencial. A pesquisa mostrou que 8,32% dos diretores entrevistados apontaram o problema como muito grave e 28,15% responderam que ele dificulta "até certo ponto" o processo de aprendizagem. Na média da OCDE, os porcentuais são de 2,2% e 18,40%, respectivamente.
A pesquisa da Fundação Lemann é uma fonte de informações para a definição de prioridades e para a formulação de políticas pedagógicas. Iniciativas como essas são fundamentais para que o País consiga dar um salto de qualidade no ensino básico e melhorar sua posição nos rankings comparativos internacionais.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“No último minuto”
Jérôme Valcke (Fifa) fazendo estimativa de quando ficará pronto o estádio Itaquerão
Nº 2 DA PREVIDÊNCIA ACUMULA SALÁRIOS DE MARAJÁ
Ao contrário de aposentados e pensionistas, o secretário-executivo do Ministério da Previdência, Carlos Eduardo Gabas, não tem de que reclamar, a julgar pelos hábitos caros como motos Harley Davidson. Site de médicos peritos do INSS, perito.med.br, apurou que Gabas ocupa cargos que podem render dezenas de milhares de reais mensais, segundo algumas estimativas bastante conservadoras.
RICAS BOQUINHAS
Gabas recebe como técnico do seguro social, secretário-executivo do Ministério da Previdência e outras boquinhas em conselhos estatais.
JETON LOTÉRICO
No conselho fiscal da confederação do comércio (CNC), Gabas ganhou belo jeton do chefão Antonio Oliveira Santos, que garantiu “blindagem”.
COMO CARRAPATO
Há 33 anos agarrado à chefia da CNC, Antônio Santos teve as contas rejeitadas pelo TCU (2010 e 2011) e está agora na mira da CGU.
INSACIÁVEL
Gabas embolsa remuneração do conselho e no “board” da Dataprev (órgão do ministério que chefia) e na Novacap, do governo do DF.
AÉCIO VAI FALAR A 2 MILHÕES NA FESTA DE 1O DE MAIO
Aspirante ao Palácio do Planalto, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) já confirmou presença na festa anual da Força Sindical pelo 1º de Maio, Dia do Trabalhador, que espera reunir este ano 2 milhões de pessoas na Praça Campo de Bagattele, na zona norte de São Paulo. Segundo o presidente do Solidariedade, Paulo Pereira, líder da Força, “outras centrais” foram excluídas “para evitar gente puxando saco do governo”.
VEMPRARUA
A Força Sindical espera mobilizar dez milhões de pessoas em atos por todo o País, no 1º de Maio, para falar mal do governo Dilma.
ESTRANHO NO NINHO
O ex-governador e presidenciável Eduardo Campos (PSB-PE) também foi convidado para o ato em São Paulo, mas ainda não informou se vai.
PERGUNTA NO BAILE FUNK
Com a presidente Dilma em queda livre nas pesquisas, o encontro com o MC Chaveirinho seria para aprender a descer até o chão?
TÁ FEIA A COISA
Petistas do Senado parecem cachorros perdidos em dia de mudança, ante as denúncias contra a Petrobras. Na reunião da bancada, ontem, os senadores pareciam perplexos e sem ter o que dizer. Ou fazer.
TENTE MAIS TARDE
Enfrenta um martírio quem quiser conhecer as tabelas de remuneração dos servidores federais, no Portal da Transparência. O link denuncia a sinceridade do site, exibindo a mensagem “Conteúdo não localizado”.
CHICANA, EU?
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), respondeu a um ofício da ministra Rosa Weber, do STF, negando que esteja enrolando para instalar a CPI da Petrobras. Mas está.
GOLPISMO
O ex-presidente socialista português Mario Soares aumenta a idade e diminui o juízo. Agora, ele prega a derrubada “por bem ou por mal” do governo do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, dos rivais do PSD, que tenta tirar Portugal da bancarrota na qual seu PS meteu o país.
COPA OLÍMPICA
Nem maquiagem dará jeito: em dia de chuva forte no Rio, os turistas terão que praticar o “rain jump” – salto à distância do meio-fio à rua, que viram bolsões de água suja em quase todos os bairros da cidade.
ENGAVETADORA-GERAL
A assessoria do governador do Paraná, Beto Richa (PSDB), informou que os empréstimos do Proinveste só foram liberados após encontro com a presidente Dilma e o ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil). Adversária de Richa, Gleisi Hoffmann reteve análises mais de um ano.
CHOQUE
O líder do PP na Câmara, Eduardo da Fonte, questiona a Aneel sobre o pretendido aumento de 18% nas contas de luz da Celpe, apesar do péssimo serviço e da imprudência da empresa de energia, que teria levado umas 60 pessoas à morte por choque nas ruas de Pernambuco.
PEIXE NA TOMADA
Cientista norte-americano e os três brasileiros do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia que descobriram nova espécie de peixe elétrico no Amazonas, ainda não sabem como tirar luz dele.
REALISMO MÁGICO
Fosse brasileiro, o saudoso Gabriel García Márquez, colombiano Nobel de Literatura, teria inventado o surrealismo grotesco.
PODER SEM PUDOR
MORTO A PULSO
Terminada a sessão de homenagem à memória de um político que acabara de falecer, um grupo de senadores se reuniu para um bate-papo. O assunto era lúgubre: o que cada um gostaria que fosse escrito em suas próprias lápides.
A célebre raposa política mineira fez questão de mencionar a sua vontade, que, aliás, não seria respeitada:
- Aqui jaz, muito a contragosto, Tancredo de Almeida Neves.
Jérôme Valcke (Fifa) fazendo estimativa de quando ficará pronto o estádio Itaquerão
Nº 2 DA PREVIDÊNCIA ACUMULA SALÁRIOS DE MARAJÁ
Ao contrário de aposentados e pensionistas, o secretário-executivo do Ministério da Previdência, Carlos Eduardo Gabas, não tem de que reclamar, a julgar pelos hábitos caros como motos Harley Davidson. Site de médicos peritos do INSS, perito.med.br, apurou que Gabas ocupa cargos que podem render dezenas de milhares de reais mensais, segundo algumas estimativas bastante conservadoras.
RICAS BOQUINHAS
Gabas recebe como técnico do seguro social, secretário-executivo do Ministério da Previdência e outras boquinhas em conselhos estatais.
JETON LOTÉRICO
No conselho fiscal da confederação do comércio (CNC), Gabas ganhou belo jeton do chefão Antonio Oliveira Santos, que garantiu “blindagem”.
COMO CARRAPATO
Há 33 anos agarrado à chefia da CNC, Antônio Santos teve as contas rejeitadas pelo TCU (2010 e 2011) e está agora na mira da CGU.
INSACIÁVEL
Gabas embolsa remuneração do conselho e no “board” da Dataprev (órgão do ministério que chefia) e na Novacap, do governo do DF.
AÉCIO VAI FALAR A 2 MILHÕES NA FESTA DE 1O DE MAIO
Aspirante ao Palácio do Planalto, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) já confirmou presença na festa anual da Força Sindical pelo 1º de Maio, Dia do Trabalhador, que espera reunir este ano 2 milhões de pessoas na Praça Campo de Bagattele, na zona norte de São Paulo. Segundo o presidente do Solidariedade, Paulo Pereira, líder da Força, “outras centrais” foram excluídas “para evitar gente puxando saco do governo”.
VEMPRARUA
A Força Sindical espera mobilizar dez milhões de pessoas em atos por todo o País, no 1º de Maio, para falar mal do governo Dilma.
ESTRANHO NO NINHO
O ex-governador e presidenciável Eduardo Campos (PSB-PE) também foi convidado para o ato em São Paulo, mas ainda não informou se vai.
PERGUNTA NO BAILE FUNK
Com a presidente Dilma em queda livre nas pesquisas, o encontro com o MC Chaveirinho seria para aprender a descer até o chão?
TÁ FEIA A COISA
Petistas do Senado parecem cachorros perdidos em dia de mudança, ante as denúncias contra a Petrobras. Na reunião da bancada, ontem, os senadores pareciam perplexos e sem ter o que dizer. Ou fazer.
TENTE MAIS TARDE
Enfrenta um martírio quem quiser conhecer as tabelas de remuneração dos servidores federais, no Portal da Transparência. O link denuncia a sinceridade do site, exibindo a mensagem “Conteúdo não localizado”.
CHICANA, EU?
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), respondeu a um ofício da ministra Rosa Weber, do STF, negando que esteja enrolando para instalar a CPI da Petrobras. Mas está.
GOLPISMO
O ex-presidente socialista português Mario Soares aumenta a idade e diminui o juízo. Agora, ele prega a derrubada “por bem ou por mal” do governo do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, dos rivais do PSD, que tenta tirar Portugal da bancarrota na qual seu PS meteu o país.
COPA OLÍMPICA
Nem maquiagem dará jeito: em dia de chuva forte no Rio, os turistas terão que praticar o “rain jump” – salto à distância do meio-fio à rua, que viram bolsões de água suja em quase todos os bairros da cidade.
ENGAVETADORA-GERAL
A assessoria do governador do Paraná, Beto Richa (PSDB), informou que os empréstimos do Proinveste só foram liberados após encontro com a presidente Dilma e o ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil). Adversária de Richa, Gleisi Hoffmann reteve análises mais de um ano.
CHOQUE
O líder do PP na Câmara, Eduardo da Fonte, questiona a Aneel sobre o pretendido aumento de 18% nas contas de luz da Celpe, apesar do péssimo serviço e da imprudência da empresa de energia, que teria levado umas 60 pessoas à morte por choque nas ruas de Pernambuco.
PEIXE NA TOMADA
Cientista norte-americano e os três brasileiros do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia que descobriram nova espécie de peixe elétrico no Amazonas, ainda não sabem como tirar luz dele.
REALISMO MÁGICO
Fosse brasileiro, o saudoso Gabriel García Márquez, colombiano Nobel de Literatura, teria inventado o surrealismo grotesco.
PODER SEM PUDOR
MORTO A PULSO
Terminada a sessão de homenagem à memória de um político que acabara de falecer, um grupo de senadores se reuniu para um bate-papo. O assunto era lúgubre: o que cada um gostaria que fosse escrito em suas próprias lápides.
A célebre raposa política mineira fez questão de mencionar a sua vontade, que, aliás, não seria respeitada:
- Aqui jaz, muito a contragosto, Tancredo de Almeida Neves.
terça-feira, abril 22, 2014
A armadilha do salário mínimo - JOSÉ PASTORE
O Estado de S.Paulo - 22/04
É inegável que grande parte da redução da desigualdade social no Brasil deve ser creditada à forte valorização do salário mínimo.
A fórmula de reajuste do salário mínimo leva em conta a inflação do ano anterior e o crescimento do PIB de dois anos atrás. Para 2015, o governo prevê a sua elevação dos atuais R$ 724,00 para cerca de R$ 780,00.
Os países diferem bastante quanto ao método de reajuste do salário mínimo. Há nações que fixam salários mínimos regionais, como fazia o Brasil no passado. Outras definem o valor por setor de atividade. Há ainda as que o fixam por categorias profissionais. Alguns países deixam a definição do valor para a negociação coletiva.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) fará uma avaliação dos diferentes métodos na Conferência Internacional do Trabalho a se realizar no próximo mês em Genebra.
Pela Constituição Federal de 1988, o Brasil optou por um salário mínimo nacional capaz de atender às necessidades básicas dos trabalhadores, independentemente de região, setor ou categoria profissional. E, em 2006, adotou a fórmula atual de reajuste que, para muitos, é virtuosa pelo fato de combinar o comportamento da inflação com o do PIB.
Por força da Lei 12.382/2011, o governo terá de apresentar em 2015 um projeto de lei instituindo uma nova fórmula ou mantendo a atual para ser usada no período de 2016-19. As discussões serão acaloradas, pois o tema tem uma indiscutível coloração política, com inúmeras consequências para a economia brasileira. Destaco algumas delas.
A combinação da variação da inflação com o comportamento do PIB é boa quando a inflação cai e o PIB cresce. Nessa condição, é possível conceder-se aumentos salariais sem efeitos inflacionários e sem prejuízos para o investimento.
Mas, nos últimos anos, a inflação subiu muito e o PIB cresceu pouco. Com exceção de 2010, quando o PIB cresceu 7,5% e a inflação (medida pelo IPCA) cresceu 5,9%, o quadro dos anos recentes foi bastante adverso. Em 2009, o PIB diminuiu 0,2% e a inflação subiu 4,3%. Em 2011, o PIB ficou em 2,7% e a inflação bateu na casa dos 6,5%. Em 2012, os números foram novamente divergentes para um PIB de apenas 0,9% e inflação de 5,8%. E em 2013, tivemos 2,3% e 5,9%, respectivamente.
O reajuste tem sido puxado muito mais pela inflação do que pelo PIB. Isso "pressiona" os salários próximos do salário mínimo e boa parte da pirâmide salarial, fazendo com que seus valores subam mais do que a produtividade do trabalho.
O descasamento entre salários e produtividade generalizou-se com a falta de mão de obra, fazendo explodir o custo unitário do trabalho. O Brasil deixou de ser um país de mão de obra abundante e barata para ser um país de mão de obra escassa e cara quando se leva em conta a produtividade do trabalho.
Os impactos da fórmula atual não param aí. Isso porque a própria fórmula é abandonada quando o seu resultado se mostra desfavorável a aumentos salariais. É o que ocorreu, por exemplo, com o reajuste do salário mínimo em 2011. Pela fórmula o aumento teria de ser de 5,7%, pois, da inflação de 2010 (5,9%) deveria ter sido subtraídos o - 0,2% do PIB de 2009. Ao aumentar de R$ 510 para R$ 545, o aumento foi de 6,8%.
A fórmula tem agravado também as finanças públicas na medida em que aumenta as despesas da Previdência Social, dos programas sustentados pela Lei Orgânica de Assistência Social (Loas), as Rendas Mensais Vitalícias (RMV), os Benefícios de Prestação Continuada (que são pagos aos idosos carentes portadores de deficiência) e o seguro-desemprego que é pago com recursos do FAT.
Os governos estaduais e municipais também sofrem porque grande parte dos seus funcionários ganha um salário mínimo (ou próximo disso) e a Lei de Responsabilidade Fiscal impõe restrições ao crescimento da folha de salários, o que coloca os governantes no meio de uma verdadeira camisa de força.
Há ainda outra complicação que, apesar de não decorrer da fórmula, se relaciona com ela. Por força da Lei Complementar 103/2000 os governadores definem o "piso estadual" sem nenhuma referência ao comportamento do PIB ou da inflação.
Na prática, o valor aprovado funciona como um salário mínimo estadual, influenciando os demais salários do Estado, dos municípios e das próprias negociações coletivas realizadas no setor privado. Os valores dos pisos estaduais têm ficado bem acima do salário mínimo nacional, atualmente de R$ 724,00. Por exemplo, para 2014, o Estado de São Paulo fixou o piso estadual na faixa de R$ 810,00 a R$ 835,00 conforme a categoria profissional. O Rio de Janeiro optou por uma faixa de R$ 835,00 a R$ 1.177,00. E o de Santa Catarina ficou entre R$ 835,00 e R$ 927,00.
Ou seja, apesar do bem-sucedido Plano Real, o Brasil não se livrou da indexação de salários. Em todo reajuste, é sempre a inflação mais alguma coisa, sem relação com a produtividade. Isso se torna particularmente grave na base da pirâmide salarial. Por meio da fórmula indicada e dos pisos estaduais, o Brasil vem forçando a elevação de salários de toda a estrutura salarial que, associada à mencionada falta de mão de obra, eleva o custo do trabalho para muito além do crescimento da produtividade. Isso compromete a eficiência da economia brasileira e solapa indiretamente a própria política de redução das desigualdades, transformando-se em verdadeira armadilha.
Sei que o assunto é polêmico. Todavia, não há como escapar. Mais cedo ou mais tarde, o Brasil terá de ajustar o salário mínimo pela variação da inflação e desvincular o mesmo do reajuste dos benefícios previdenciários. Como 2015 não é ano eleitoral, estaria ali a oportunidade para debater a nova fórmula à luz das consequências acima apontadas com vistas a evitar um desastre maior, inclusive para a própria política de redução de desigualdade que o País quer manter.
À luz da filosofia do diálogo social e do tripartismo pregados pela OIT, toda e qualquer decisão terá de ser precedida, é claro, por uma exaustiva discussão entre os atores sociais.
É inegável que grande parte da redução da desigualdade social no Brasil deve ser creditada à forte valorização do salário mínimo.
A fórmula de reajuste do salário mínimo leva em conta a inflação do ano anterior e o crescimento do PIB de dois anos atrás. Para 2015, o governo prevê a sua elevação dos atuais R$ 724,00 para cerca de R$ 780,00.
Os países diferem bastante quanto ao método de reajuste do salário mínimo. Há nações que fixam salários mínimos regionais, como fazia o Brasil no passado. Outras definem o valor por setor de atividade. Há ainda as que o fixam por categorias profissionais. Alguns países deixam a definição do valor para a negociação coletiva.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) fará uma avaliação dos diferentes métodos na Conferência Internacional do Trabalho a se realizar no próximo mês em Genebra.
Pela Constituição Federal de 1988, o Brasil optou por um salário mínimo nacional capaz de atender às necessidades básicas dos trabalhadores, independentemente de região, setor ou categoria profissional. E, em 2006, adotou a fórmula atual de reajuste que, para muitos, é virtuosa pelo fato de combinar o comportamento da inflação com o do PIB.
Por força da Lei 12.382/2011, o governo terá de apresentar em 2015 um projeto de lei instituindo uma nova fórmula ou mantendo a atual para ser usada no período de 2016-19. As discussões serão acaloradas, pois o tema tem uma indiscutível coloração política, com inúmeras consequências para a economia brasileira. Destaco algumas delas.
A combinação da variação da inflação com o comportamento do PIB é boa quando a inflação cai e o PIB cresce. Nessa condição, é possível conceder-se aumentos salariais sem efeitos inflacionários e sem prejuízos para o investimento.
Mas, nos últimos anos, a inflação subiu muito e o PIB cresceu pouco. Com exceção de 2010, quando o PIB cresceu 7,5% e a inflação (medida pelo IPCA) cresceu 5,9%, o quadro dos anos recentes foi bastante adverso. Em 2009, o PIB diminuiu 0,2% e a inflação subiu 4,3%. Em 2011, o PIB ficou em 2,7% e a inflação bateu na casa dos 6,5%. Em 2012, os números foram novamente divergentes para um PIB de apenas 0,9% e inflação de 5,8%. E em 2013, tivemos 2,3% e 5,9%, respectivamente.
O reajuste tem sido puxado muito mais pela inflação do que pelo PIB. Isso "pressiona" os salários próximos do salário mínimo e boa parte da pirâmide salarial, fazendo com que seus valores subam mais do que a produtividade do trabalho.
O descasamento entre salários e produtividade generalizou-se com a falta de mão de obra, fazendo explodir o custo unitário do trabalho. O Brasil deixou de ser um país de mão de obra abundante e barata para ser um país de mão de obra escassa e cara quando se leva em conta a produtividade do trabalho.
Os impactos da fórmula atual não param aí. Isso porque a própria fórmula é abandonada quando o seu resultado se mostra desfavorável a aumentos salariais. É o que ocorreu, por exemplo, com o reajuste do salário mínimo em 2011. Pela fórmula o aumento teria de ser de 5,7%, pois, da inflação de 2010 (5,9%) deveria ter sido subtraídos o - 0,2% do PIB de 2009. Ao aumentar de R$ 510 para R$ 545, o aumento foi de 6,8%.
A fórmula tem agravado também as finanças públicas na medida em que aumenta as despesas da Previdência Social, dos programas sustentados pela Lei Orgânica de Assistência Social (Loas), as Rendas Mensais Vitalícias (RMV), os Benefícios de Prestação Continuada (que são pagos aos idosos carentes portadores de deficiência) e o seguro-desemprego que é pago com recursos do FAT.
Os governos estaduais e municipais também sofrem porque grande parte dos seus funcionários ganha um salário mínimo (ou próximo disso) e a Lei de Responsabilidade Fiscal impõe restrições ao crescimento da folha de salários, o que coloca os governantes no meio de uma verdadeira camisa de força.
Há ainda outra complicação que, apesar de não decorrer da fórmula, se relaciona com ela. Por força da Lei Complementar 103/2000 os governadores definem o "piso estadual" sem nenhuma referência ao comportamento do PIB ou da inflação.
Na prática, o valor aprovado funciona como um salário mínimo estadual, influenciando os demais salários do Estado, dos municípios e das próprias negociações coletivas realizadas no setor privado. Os valores dos pisos estaduais têm ficado bem acima do salário mínimo nacional, atualmente de R$ 724,00. Por exemplo, para 2014, o Estado de São Paulo fixou o piso estadual na faixa de R$ 810,00 a R$ 835,00 conforme a categoria profissional. O Rio de Janeiro optou por uma faixa de R$ 835,00 a R$ 1.177,00. E o de Santa Catarina ficou entre R$ 835,00 e R$ 927,00.
Ou seja, apesar do bem-sucedido Plano Real, o Brasil não se livrou da indexação de salários. Em todo reajuste, é sempre a inflação mais alguma coisa, sem relação com a produtividade. Isso se torna particularmente grave na base da pirâmide salarial. Por meio da fórmula indicada e dos pisos estaduais, o Brasil vem forçando a elevação de salários de toda a estrutura salarial que, associada à mencionada falta de mão de obra, eleva o custo do trabalho para muito além do crescimento da produtividade. Isso compromete a eficiência da economia brasileira e solapa indiretamente a própria política de redução das desigualdades, transformando-se em verdadeira armadilha.
Sei que o assunto é polêmico. Todavia, não há como escapar. Mais cedo ou mais tarde, o Brasil terá de ajustar o salário mínimo pela variação da inflação e desvincular o mesmo do reajuste dos benefícios previdenciários. Como 2015 não é ano eleitoral, estaria ali a oportunidade para debater a nova fórmula à luz das consequências acima apontadas com vistas a evitar um desastre maior, inclusive para a própria política de redução de desigualdade que o País quer manter.
À luz da filosofia do diálogo social e do tripartismo pregados pela OIT, toda e qualquer decisão terá de ser precedida, é claro, por uma exaustiva discussão entre os atores sociais.
Assinar:
Postagens (Atom)