O Estado de S.Paulo - 21/04
E se existisse uma taxa mágica, capaz de prever o futuro de uma eleição? De passagem pelo Brasil no começo de fevereiro, Clifford Young, diretor-gerente do Ipsos, um dos maiores e melhores institutos do mundo, calculou em 85% as chances de Dilma Rousseff se reeleger presidente. Faltou dizer que a previsão tinha prazo de validade - e ele estava expirando.
O que não lhe faltava era confiança, porém. Em abril de 2012, o Ipsos calculou os mesmos 85% de probabilidade de reeleição de Barack Obama nos EUA. Não foi coincidência, mas o resultado do mesmo modelo de projeção baseado em cálculos estatísticos. Como todo modelo, seu sucesso depende da base de comparação - no caso, centenas de eleições pelo mundo - e de algumas assunções.
A principal delas é que quem já está no poder e quer continuar lá tem 2,6 vezes mais chances de vitória do que um candidato apoiado por ele. Por essa assunção, a Dilma de 2014 é uma candidata com mais do que o dobro de chances de vitória do que a Dilma apadrinhada pelo então presidente Lula em 2010.
Quando Mr. Young fez sua previsão, parecia que o governo Dilma estava no limiar do paraíso: 56% de aprovação. Mas a notícia era velha, o quadro já estava mudando - e não era para melhor.
Segundo a tabela de redenção eleitoral do Ipsos, quando o governante tem de 40% a 45% de aprovação, sua chance de reeleição varia imensamente, de 54% a 81%. Pois Dilma está escorregando célere para o purgatório da opinião pública. Nas pesquisas do Ibope, a presidente caiu dos 56% de aprovação em dezembro para 53% em março e, chegou, na semana passada, a 47%.
Para Mr. Young, a presidente só precisa se preocupar se essa taxa cair abaixo de 40% - quando bate nessa marca, a chance de vitória do governante seria a mesma de ganhar no par ou ímpar. Outros cálculos, porém, mostram que o sinal vermelho no Palácio do Planalto já deveria ter acendido em março.
Por trás dos números e porcentagens está o simples desejo do eleitorado de continuar com o mesmo governante ou trocá-lo. Todas as tentativas de predição das urnas se resumem a aferir se a eleição é de continuidade ou de mudança. Se for de continuidade, dá governo; de mudança, oposição.
Contradições. No Brasil os sinais são contraditórios. Enquanto 2 a cada 3 eleitores dizem querer mudar tudo ou quase tudo no governo, a maior parte declara voto em Dilma. Até outubro, essas taxas vão necessariamente se aproximar. Mas qual vai puxar qual? A tentativa de resposta não tem a pompa de um modelo estatístico, mas se baseia na análise histórica das pesquisas do Ibope.
Melhor do que o simples "aprova ou desaprova o governo" é a pergunta que pede ao eleitor para qualificá-lo de "ótimo", "bom", "regular", "ruim" ou "péssimo". Nesse sistema há, além dos sinais positivo e negativo, uma medida de intensidade. Neste momento, por exemplo, a rejeição ao governo Dilma está quase tão intensa quanto ficou logo após os protestos de junho de 2013.
Pesquisa feita pela CEO do Ibope Inteligência, Marcia Cavallari, mostra que a conversão das taxas de "ótimo+bom" e de "regular" de um governante em intenção de voto é praticamente a mesma ao longo dos anos. Nas médias das eleições presidenciais, 84% de quem diz que o governo é ótimo ou bom e 36% de quem o chama de regular acabam declarando voto naquele presidente no 2.º turno.
Como há constantes, é possível criar cenários eleitorais de acordo com as variáveis. Traduzindo: sabendo-se o "ótimo+bom" e o "regular" de um governante dá para estimar qual sua votação no turno final. Se essas assunções estiverem corretas, Dilma precisa melhorar. A presidente necessitaria de ao menos 38% de "ótimo+bom" e de 34% de "regular" para se reeleger, raspando.
Em qual taxa mágica acreditar? Na tranquilizadora, que mostra Dilma ainda na zona de conforto eleitoral, ou na preocupante? Depende do viés de cada um.
segunda-feira, abril 21, 2014
Momento crítico - FRANCIS BOGOSSIAN E MARCIO PATUSCO
O GLOBO - 21/04
Setor de comunicações vive situação dramática
Após ter sido erguido praticamente do nada com a criação da Embratel e com a Telebras, nas décadas de 1960 e 1970, quando a integração nacional pelos sistemas terrestres, cabos submarinos e por satélite foi efetivamente realizada em nosso país, o setor de telecomunicações passa por uma situação dramática. Antes olhado como orgulho nacional, reconhecidamente um segmento de acertos da era militar, passa agora por um momento crítico. Pesquisa e desenvolvimento inexistem, a indústria nacional do setor está desmantelada, os serviços não atendem adequadamente ao cidadão, tarifas das mais altas no mundo, operadoras de telecomunicações líderes de reclamações nos órgãos de defesa do consumidor, serviços não adequadamente universalizados, importações indiscriminadas de equipamentos e falta de uma política industrial são alguns fatores que contribuem para a grande transformação de eficiência que o setor enfrenta.
No período pós-privatização, o Ministério das Comunicações e a Anatel não conseguiram fazer esse ecossistema funcionar para beneficiar a sociedade com serviços de qualidade e incentivo a uma cadeia produtiva que pudesse criar desenvolvimento tecnológico. Não por falta de arrecadação. As receitas brutas das operadoras de telecomunicações superam anualmente os R$ 200 bilhões, o quarto mercado de receitas do mundo. Um verdadeiro paraíso para as tão combalidas finanças das diversas operadoras multinacionais que aqui atuam e que remetem para suas sedes quase a totalidade de seus lucros, em vez de investirem em melhorias de suas infraestruturas locais, como noticiou O GLOBO em 09/03/2014.
Também não é por falta de previsão orçamentária. Os impostos setoriais criados para universalização, fiscalização e desenvolvimento das telecomunicações, que estão na casa dos R$ 10 bilhões por ano, vêm sendo seguidamente contingenciados para formação de superávits primários, deixando o setor sem os recursos necessários para implementação de políticas públicas adequadas. O resultado é uma balança de pagamentos com déficit de cerca de US$ 33 bilhões no setor eletroeletrônico em 2013, o setor com uma participação de 4% no PIB, enquanto em países desenvolvidos é de cerca de 12%, a industria nacional com fornecimentos de 2% do mercado, enquanto em 1997 era de 43%, tarifas maiores do que outros 92 países, 62º lugar em implementação de recursos de telecomunicações e informática, e um abismo de inclusão digital entre as diversas regiões do país.
Alegações de alta carga tributária e manifestações de júbilo pelo número crescente de terminações, sejam elas fixas ou móveis, não conseguem apagar o desconforto a que a população está submetida. A desindustrialização por que passa o país é grave. No setor de telecomunicações saímos de exportadores a importadores em uma década. De balança comercial positiva a negativa crescente. A maioria das empresas fabricantes fechou, faliu ou foi comprada por multinacionais. Postos de trabalho foram suprimidos ou substituídos por outros de menor qualificação. Vemos a necessidade de uma ampla discussão no sentido de encontrar um caminho de retomada das telecomunicações nacionais envolvendo segmentos do governo, sociedade civil e empresários.
Setor de comunicações vive situação dramática
Após ter sido erguido praticamente do nada com a criação da Embratel e com a Telebras, nas décadas de 1960 e 1970, quando a integração nacional pelos sistemas terrestres, cabos submarinos e por satélite foi efetivamente realizada em nosso país, o setor de telecomunicações passa por uma situação dramática. Antes olhado como orgulho nacional, reconhecidamente um segmento de acertos da era militar, passa agora por um momento crítico. Pesquisa e desenvolvimento inexistem, a indústria nacional do setor está desmantelada, os serviços não atendem adequadamente ao cidadão, tarifas das mais altas no mundo, operadoras de telecomunicações líderes de reclamações nos órgãos de defesa do consumidor, serviços não adequadamente universalizados, importações indiscriminadas de equipamentos e falta de uma política industrial são alguns fatores que contribuem para a grande transformação de eficiência que o setor enfrenta.
No período pós-privatização, o Ministério das Comunicações e a Anatel não conseguiram fazer esse ecossistema funcionar para beneficiar a sociedade com serviços de qualidade e incentivo a uma cadeia produtiva que pudesse criar desenvolvimento tecnológico. Não por falta de arrecadação. As receitas brutas das operadoras de telecomunicações superam anualmente os R$ 200 bilhões, o quarto mercado de receitas do mundo. Um verdadeiro paraíso para as tão combalidas finanças das diversas operadoras multinacionais que aqui atuam e que remetem para suas sedes quase a totalidade de seus lucros, em vez de investirem em melhorias de suas infraestruturas locais, como noticiou O GLOBO em 09/03/2014.
Também não é por falta de previsão orçamentária. Os impostos setoriais criados para universalização, fiscalização e desenvolvimento das telecomunicações, que estão na casa dos R$ 10 bilhões por ano, vêm sendo seguidamente contingenciados para formação de superávits primários, deixando o setor sem os recursos necessários para implementação de políticas públicas adequadas. O resultado é uma balança de pagamentos com déficit de cerca de US$ 33 bilhões no setor eletroeletrônico em 2013, o setor com uma participação de 4% no PIB, enquanto em países desenvolvidos é de cerca de 12%, a industria nacional com fornecimentos de 2% do mercado, enquanto em 1997 era de 43%, tarifas maiores do que outros 92 países, 62º lugar em implementação de recursos de telecomunicações e informática, e um abismo de inclusão digital entre as diversas regiões do país.
Alegações de alta carga tributária e manifestações de júbilo pelo número crescente de terminações, sejam elas fixas ou móveis, não conseguem apagar o desconforto a que a população está submetida. A desindustrialização por que passa o país é grave. No setor de telecomunicações saímos de exportadores a importadores em uma década. De balança comercial positiva a negativa crescente. A maioria das empresas fabricantes fechou, faliu ou foi comprada por multinacionais. Postos de trabalho foram suprimidos ou substituídos por outros de menor qualificação. Vemos a necessidade de uma ampla discussão no sentido de encontrar um caminho de retomada das telecomunicações nacionais envolvendo segmentos do governo, sociedade civil e empresários.
CPI neles! - RICARDO NOBLAT
O GLOBO - 21/04
“Quem não deve não teme. E quem deve tem que ser preso e algemado”
LULA
LULA
E continua a troca indireta de chumbo entre Dilma e Lula. Ligada a Dilma, Graça Foster, presidente da Petrobras, reconheceu que foi um mau negócio para a empresa a compra em 2006 da refinaria de Pasadena, no Texas. Deixou um rombo de meio bilhão de dólares. Ligado a Lula, José Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, replicou que Dilma não pode "fugir de sua responsabilidade" na compra da refinaria.
"Quem não deve não teme. E quem deve tem que ser preso e algemado" LULA
ERA LULA o presidente do Brasil quando Pasadena foi comprada. De princípio, apenas pela metade da refinaria, a Petrobras pagou praticamente o que o grupo belga Astra Oil havia pagado por ela inteira.
Quando o negócio foi fechado, era Dilma a ministra- chefe da Casa Civil e presidente do Conselho de Administração da Petrobras.
"NÃO POSSO fugir da minha responsabilidade, do mesmo jeito que a presidente Dilma não pode fugir da responsabilidade dela, que era presidente do conselho", disse Gabrielli em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo". E completou, dando mais uma estocada em Dilma: "Nós somos responsáveis pelas nossas decisões".
É GRANDE O desconforto de Lula e de Dilma com a exposição pública de mazelas da Petrobras. De Lula, porque foi nos oito anos de governo dele que avançou o processo de loteamento político de cargos na Petrobras - e tudo isso está vindo à luz agora.De Dilma, porque o caso Pasadena atingiu em cheio sua imagem de gestora notável.
LULA SAIU do governo com 80% de aprovação. Nega que pretenda voltar já - talvez daqui a quatro anos. Está pronto, contudo, para entrar em campo se Dilma teimar em perder cada vez mais pontos nas pesquisas sobre intenção de voto. O sonho de Dilma é o de se reeleger. Lula e Fernando Henrique Cardoso se reelegeram. Por que ela não?
DILMA COMO a mãe do Programa de Aceleração do Crescimento foi uma invenção de Lula. Como uma espécie de primeira-ministra foi uma invenção de Lula. E como melhor administradora do que ele foi uma invenção de Lula. Vote na mulher de Lula - eis a poderosa sugestão da propaganda que empurrou Dilma ladeira acima.
PASADENA EMPURRA Dilma ladeira abaixo. Onde se viu transação bilionária ser tratada de maneira tão descuidada e apressada como foi a de Pasadena? Ao longo de seis anos, a Petrobras desembolsou algo como US$ 1,2 bilhão pela refinaria, cujo valor atual de mercado é de US$ 200 milhões. Gestão temerária? Para dizer o mínimo. A conferir.
VEJAM SÓ: num dia, os membros do Conselho de Administração da Petrobras receberam o resumo técnico de uma página e meia da documentação completa de mais de 400 páginas referente ao negócio. No dia seguinte, aprovaram o negócio. A documentação completa esteve à disposição deles. Por que não a consultaram? Sabe-se lá...
SABE-SE QUE, ouvida recentemente pelo "O Estado de S. Paulo", Dilma alegou que se baseara num resumo técnico "falho e incompleto" para aprovar a compra da refinaria. O que aconteceu com o autor do resumo? Foi elogiado e transferido para outro cargo, onde passou a lidar com mais dinheiro. Só há pouco perdeu o cargo. Que tal?
A MINISTRA Rosa Weber, do STF, decidirá, esta semana, se concede liminar para instalação de CPI exclusiva da Petrobras. O mais provável é que conceda, sim. CPI é direito da minoria. Uma vez que exista fato determinado e que tenham sido cumpridas as regras para a criação da CPI, manda a jurisprudência do tribunal que ela seja instalada. E pronto.
"Quem não deve não teme. E quem deve tem que ser preso e algemado" LULA
ERA LULA o presidente do Brasil quando Pasadena foi comprada. De princípio, apenas pela metade da refinaria, a Petrobras pagou praticamente o que o grupo belga Astra Oil havia pagado por ela inteira.
Quando o negócio foi fechado, era Dilma a ministra- chefe da Casa Civil e presidente do Conselho de Administração da Petrobras.
"NÃO POSSO fugir da minha responsabilidade, do mesmo jeito que a presidente Dilma não pode fugir da responsabilidade dela, que era presidente do conselho", disse Gabrielli em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo". E completou, dando mais uma estocada em Dilma: "Nós somos responsáveis pelas nossas decisões".
É GRANDE O desconforto de Lula e de Dilma com a exposição pública de mazelas da Petrobras. De Lula, porque foi nos oito anos de governo dele que avançou o processo de loteamento político de cargos na Petrobras - e tudo isso está vindo à luz agora.De Dilma, porque o caso Pasadena atingiu em cheio sua imagem de gestora notável.
LULA SAIU do governo com 80% de aprovação. Nega que pretenda voltar já - talvez daqui a quatro anos. Está pronto, contudo, para entrar em campo se Dilma teimar em perder cada vez mais pontos nas pesquisas sobre intenção de voto. O sonho de Dilma é o de se reeleger. Lula e Fernando Henrique Cardoso se reelegeram. Por que ela não?
DILMA COMO a mãe do Programa de Aceleração do Crescimento foi uma invenção de Lula. Como uma espécie de primeira-ministra foi uma invenção de Lula. E como melhor administradora do que ele foi uma invenção de Lula. Vote na mulher de Lula - eis a poderosa sugestão da propaganda que empurrou Dilma ladeira acima.
PASADENA EMPURRA Dilma ladeira abaixo. Onde se viu transação bilionária ser tratada de maneira tão descuidada e apressada como foi a de Pasadena? Ao longo de seis anos, a Petrobras desembolsou algo como US$ 1,2 bilhão pela refinaria, cujo valor atual de mercado é de US$ 200 milhões. Gestão temerária? Para dizer o mínimo. A conferir.
VEJAM SÓ: num dia, os membros do Conselho de Administração da Petrobras receberam o resumo técnico de uma página e meia da documentação completa de mais de 400 páginas referente ao negócio. No dia seguinte, aprovaram o negócio. A documentação completa esteve à disposição deles. Por que não a consultaram? Sabe-se lá...
SABE-SE QUE, ouvida recentemente pelo "O Estado de S. Paulo", Dilma alegou que se baseara num resumo técnico "falho e incompleto" para aprovar a compra da refinaria. O que aconteceu com o autor do resumo? Foi elogiado e transferido para outro cargo, onde passou a lidar com mais dinheiro. Só há pouco perdeu o cargo. Que tal?
A MINISTRA Rosa Weber, do STF, decidirá, esta semana, se concede liminar para instalação de CPI exclusiva da Petrobras. O mais provável é que conceda, sim. CPI é direito da minoria. Uma vez que exista fato determinado e que tenham sido cumpridas as regras para a criação da CPI, manda a jurisprudência do tribunal que ela seja instalada. E pronto.
Clamor - AÉCIO NEVES
FOLHA DE SP - 21/04
Nos últimos dez anos, a solenidade tem sido marcada pela defesa de um novo pacto federativo que signifique maior responsabilidade e solidariedade da União para com os Estados e municípios.
Como acontece todos os anos, revisitamos os valores e princípios do 21 de Abril e outros trechos de história para refletir sobre os grandes desafios do Brasil do nosso tempo, que deveriam pontuar acima dos interesses políticos, pessoais e partidários. É uma pena constatar como desapareceu o espaço para a convergência nacional, apesar de hoje não nos faltarem causas legítimas capazes de mobilizar a solidariedade política e a ação compartilhada dos brasileiros. Pelo contrário: para onde quer que se olhe, as demandas se avolumam e continua havendo quase tudo por se fazer.
É difícil saber, por exemplo, qual é a crise mais séria, a prioridade mais aguda, se na segurança ou na saúde. Ambas estão no mesmo patamar das graves emergências nacionais e têm como consequência a perda de vidas de brasileiros, seja pela omissão ou pela incapacidade do Estado de prover serviços necessários. Omissão e incapacidade que se refletem na ausência de serviços de saúde e nos 50 mil assassinatos contados por ano no país.
Mais inaceitável ainda é a desmobilização do Estado nacional para o enfrentamento de problemas tão graves e gigantescos. Eles só ganham algum destaque na agenda oficial quando a mídia torna intoleráveis os desacertos ou os escândalos, mazelas que caminham juntas no regime do compadrio e da má gestão.
Parece inacreditável que, entre 2002 e 2011, segundo fontes oficiais, o governo federal tenha perdido R$ 6,9 bilhões para a corrupção. Um dado muito menor que as projeções realizadas por outras instituições, mas que não deixa de impressionar. Na saúde foram R$ 2,3 bilhões neste período, cerca de 30% do total de recursos federais desviados.
Na segurança os números também chamam a atenção: segundo o Contas Abertas, entre 2011 e 2012, R$ 3,3 bilhões deixaram de ser investidos na área. Entre 2003 e 2012, foram R$ 7,5 bilhões. No ano passado, dos R$ 2,2 bilhões orçados, apenas cerca de 30% foram efetivamente investidos.
No 21 de abril, celebra-se, mais que uma data, a permanência de valores que inspiram uma nação. Entre eles, o respeito às liberdades e à legítima capacidade de indignação de um povo.
Impossível, no dia de hoje, não reconhecer como o clamor dos brasileiros por um país mais justo permanece atual.
O pensamento que o brasileiro espera - EVERALDO PEREIRA
FOLHA DE SP - 21/04
Chegou a hora de dizer não ao aparelhamento do Estado e à tentativa de construir uma hegemonia que enfraquece a democracia
O PSC (Partido Social Cristão) vem surpreendendo a sociedade brasileira nos últimos anos. Em 2011, anunciou que teria candidatura própria à Presidência da República. Em 2013, o partido assumiu a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados tornando-a um instrumento de debate sobre questões controversas.
No último dia 8 de abril, reafirmou o compromisso assumido em 2011 com o lançamento oficial da nossa pré-candidatura à Presidência da República e com a apresentação da nossa Carta de Princípios e Diretrizes para o Brasil.
A nossa essência política é o conservadorismo. Muitas vezes mal compreendida, é uma das filosofias mais abrangentes e a que melhor traduz os sentimentos naturais do ser humano, pois ser conservador é trabalhar em busca do bem comum e da dignidade humana. Ser conservador é respeitar os valores humanos e a tradição, inovando-a, e defender a liberdade individual como direito inegociável.
Foram duas pessoas íntegras e exemplares, Vitor Nósseis e padre Aleixo, que fortaleceram o PSC no cenário político nacional.
Em 2003, ingressei no partido desenvolvendo um trabalho de expansão partidária que o levou a pular de um deputado federal naquele ano para 17 em 2010. É um claro sinal de que a nossa doutrina cristã representa os interesses de muitos brasileiros e tem legitimidade para oferecer um pensamento inovador.
O nosso partido tem um posicionamento firme, claro e objetivo em respeito à família e aos cidadãos brasileiros. A nossa Carta de Princípios e Diretrizes para o Brasil aponta na direção de um Estado cidadão, com um novo modelo de gestão, mais eficiente e verdadeiramente participativo.
Seus dez princípios são o da vida e dignidade da pessoa humana, o da ordem moral tradicional, o do respeito aos costumes sociais, o da democracia, o da prudência, o da estabilidade e inovação como processos complementares, o da desconcentração e descentralização do poder, o da liberdade individual, o da isonomia perante a lei e o da independência civil e propriedade privada.
Esses são os eixos centrais que fundamentam o nosso pensamento e que promovem as diretrizes que tornam objetiva a visão que temos sobre o Brasil e sobre o papel que o Estado deve assumir a partir de 1º de janeiro de 2015.
O PSC trabalha para tornar realidade uma nova opção para a eleição de 2014, reafirmando sempre o nosso compromisso com o Estado democrático de Direito e com o fortalecimento das instituições. Chegou a hora de dizer não ao aparelhamento do Estado e à tentativa de construir uma hegemonia que enfraquece o regime democrático.
Se a sociedade brasileira está desanimada com os rumos da política nacional e das pré-candidaturas que ora se apresentam como mudança, terá a partir de agora uma opção legítima para reacender o debate político e tornar as eleições de 2014 o momento adequado para se discutir o futuro do Brasil.
Nós, do PSC, estamos prontos para o desafio de apresentar à sociedade um novo projeto de país.
Pra frente, Brasil - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 21/04
O governo federal prepara uma "forte campanha de mídia" para convencer o contribuinte de que a realização da Copa do Mundo é boa para o País. Nas palavras do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, há a necessidade de fazer um esforço de propaganda para servir de contraponto ao noticiário negativo. "A imprensa mente para caramba", declarou Carvalho, na característica linguagem autoritária do governo petista, para o qual qualquer crítica equivale a uma tentativa de golpe.
Segundo disse o ministro em encontro com militantes de movimentos sociais, o governo se equivocou ao permitir que se criasse "uma visão parcial e distorcida" a respeito dos gastos com estádios e dos atrasos de obras. Na opinião dos governistas, portanto, os inúmeros problemas relativos à Copa não existem - trata-se de manipulação da imprensa.
"Nós nos demos conta de que cometemos um erro ao não fazer um investimento para valer na comunicação e deixamos de informar aos cidadãos o que a Copa significa", afirmou Carvalho, segundo o jornal O Globo.
Não é a primeira vez que o ministro sugere que os brasileiros que protestam contra os gastos relativos à Copa não entenderam os esforços do governo para lhes proporcionar uma vida melhor. Em janeiro passado, Carvalho queixou-se dos manifestantes que foram às ruas em junho de 2013, dizendo que o governo tomou um "susto". "Houve uma certa dor, uma incompreensão, e quase um sentimento de ingratidão. Foi como dizer: fizemos tanto por essa gente e agora eles se levantam contra nós", lamentou o ministro, dando a exata dimensão da arrogância lulopetista.
A estratégia de desqualificar os críticos vai muito além dos meros ataques à imprensa. O objetivo é dividir o País entre "nós" e "eles". O ministro do Turismo, Vinicius Lages, por exemplo, disse ao jornal Valor que é preciso aceitar que o futebol "não é mais uma unanimidade" no Brasil. Segundo essa versão, os que protestam contra os gastos da Copa são aqueles que simplesmente não gostam de futebol.
Mas estes são uma minoria. A "maioria", disse Lages, "entende que a Copa é uma oportunidade sem igual, que nos projetará, e muito". Na mesma linha foi o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo. Ao comentar pesquisas que mostram notável queda do apoio popular à realização da Copa, Rebelo disse que esse tipo de levantamento integra uma "campanha contra a Copa".
Esse cenário explica a ofensiva midiática que Carvalho anunciou. Será preciso convencer cada vez mais pessoas de que as obras superfaturadas, os atrasos vexatórios e a irrelevância da Copa para a economia nacional são mera ilusão criada pelos inimigos do governo petista - e, por extensão, dos brasileiros. Um dos motes da campanha será dizer que a Copa está gerando milhões de empregos - a estimativa oficial brandida pela tropa governista é de extravagantes 3,6 milhões de vagas - e que trará grandes ganhos econômicos. Uma simples olhada nos prejuízos que a África do Sul teve com a Copa deveria servir para alertar sobre essa fantasia.
Segundo a propaganda do governo, no entanto, apontar esses problemas é jogar contra o Brasil. "Vamos ser críticos da Copa, sim, vamos dar pau, mas não vamos nos somar aos que querem que a Copa não dê certo, que o povo brasileiro não tenha uma vitória", disse Carvalho. "Deformaram as informações com um propósito claro de criar um problema, para que nosso projeto não vá em frente."
Das informações "deformadas" às quais o ministro se refere, as principais dizem respeito ao volume de dinheiro público usado na construção de estádios, em vez de ter sido destinado a áreas muito carentes, como saúde e educação.
A Copa brasileira será a mais cara de todos os tempos: as arenas deverão custar em torno de R$ 8,9 bilhões, mais do que a soma do que gastaram África do Sul e Alemanha quando sediaram o torneio. Só isso já seria motivo suficiente para fazer os brasileiros saírem às ruas para protestar. E, ao contrário do que pensam as autoridades petistas, a maioria desses brasileiros continua a gostar muito de futebol. Eles só não gostam de ser tapeados.
O governo federal prepara uma "forte campanha de mídia" para convencer o contribuinte de que a realização da Copa do Mundo é boa para o País. Nas palavras do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, há a necessidade de fazer um esforço de propaganda para servir de contraponto ao noticiário negativo. "A imprensa mente para caramba", declarou Carvalho, na característica linguagem autoritária do governo petista, para o qual qualquer crítica equivale a uma tentativa de golpe.
Segundo disse o ministro em encontro com militantes de movimentos sociais, o governo se equivocou ao permitir que se criasse "uma visão parcial e distorcida" a respeito dos gastos com estádios e dos atrasos de obras. Na opinião dos governistas, portanto, os inúmeros problemas relativos à Copa não existem - trata-se de manipulação da imprensa.
"Nós nos demos conta de que cometemos um erro ao não fazer um investimento para valer na comunicação e deixamos de informar aos cidadãos o que a Copa significa", afirmou Carvalho, segundo o jornal O Globo.
Não é a primeira vez que o ministro sugere que os brasileiros que protestam contra os gastos relativos à Copa não entenderam os esforços do governo para lhes proporcionar uma vida melhor. Em janeiro passado, Carvalho queixou-se dos manifestantes que foram às ruas em junho de 2013, dizendo que o governo tomou um "susto". "Houve uma certa dor, uma incompreensão, e quase um sentimento de ingratidão. Foi como dizer: fizemos tanto por essa gente e agora eles se levantam contra nós", lamentou o ministro, dando a exata dimensão da arrogância lulopetista.
A estratégia de desqualificar os críticos vai muito além dos meros ataques à imprensa. O objetivo é dividir o País entre "nós" e "eles". O ministro do Turismo, Vinicius Lages, por exemplo, disse ao jornal Valor que é preciso aceitar que o futebol "não é mais uma unanimidade" no Brasil. Segundo essa versão, os que protestam contra os gastos da Copa são aqueles que simplesmente não gostam de futebol.
Mas estes são uma minoria. A "maioria", disse Lages, "entende que a Copa é uma oportunidade sem igual, que nos projetará, e muito". Na mesma linha foi o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo. Ao comentar pesquisas que mostram notável queda do apoio popular à realização da Copa, Rebelo disse que esse tipo de levantamento integra uma "campanha contra a Copa".
Esse cenário explica a ofensiva midiática que Carvalho anunciou. Será preciso convencer cada vez mais pessoas de que as obras superfaturadas, os atrasos vexatórios e a irrelevância da Copa para a economia nacional são mera ilusão criada pelos inimigos do governo petista - e, por extensão, dos brasileiros. Um dos motes da campanha será dizer que a Copa está gerando milhões de empregos - a estimativa oficial brandida pela tropa governista é de extravagantes 3,6 milhões de vagas - e que trará grandes ganhos econômicos. Uma simples olhada nos prejuízos que a África do Sul teve com a Copa deveria servir para alertar sobre essa fantasia.
Segundo a propaganda do governo, no entanto, apontar esses problemas é jogar contra o Brasil. "Vamos ser críticos da Copa, sim, vamos dar pau, mas não vamos nos somar aos que querem que a Copa não dê certo, que o povo brasileiro não tenha uma vitória", disse Carvalho. "Deformaram as informações com um propósito claro de criar um problema, para que nosso projeto não vá em frente."
Das informações "deformadas" às quais o ministro se refere, as principais dizem respeito ao volume de dinheiro público usado na construção de estádios, em vez de ter sido destinado a áreas muito carentes, como saúde e educação.
A Copa brasileira será a mais cara de todos os tempos: as arenas deverão custar em torno de R$ 8,9 bilhões, mais do que a soma do que gastaram África do Sul e Alemanha quando sediaram o torneio. Só isso já seria motivo suficiente para fazer os brasileiros saírem às ruas para protestar. E, ao contrário do que pensam as autoridades petistas, a maioria desses brasileiros continua a gostar muito de futebol. Eles só não gostam de ser tapeados.
Especulações eleitorais - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 21/04
Volta dos investidores ao Brasil não parece resultado de súbito aumento de confiança, mas de ação para aproveitar altos juros do país
Nas últimas semanas o mercado financeiro colecionou boas notícias. O real se valorizou, a bolsa subiu, e os juros de empréstimos com prazos mais longos recuaram.
Tal acomodação é bem-vinda para o governo, que precisa chegar até as eleições sem abalos maiores na economia. Ela ocorreu a despeito do agravamento do problema da inflação e do acúmulo de evidências de que o PIB se desacelerará mais nos próximos meses.
Houve ao menos três elementos determinantes, nenhum dos quais derivou de ações do governo federal. O primeiro sinal, mais importante, veio da política monetária americana: a ociosidade persistente no mercado de trabalho e a redução da inflação indicam que pode demorar a eventual alta dos juros (que afastaria investidores do Brasil).
A perspectiva de aceleração da economia chinesa também ajudou. No primeiro trimestre, a alta do PIB foi de apenas 5,5% (anualizados), o que levou as autoridades a adotar mais um pacote de estímulos. A expectativa, com isso, é que o PIB volte a crescer perto de 7%.
Por fim, houve alta nos preços das matérias-primas, especialmente alimentos, o que favorece as contas externas de países exportadores desses produtos, como o Brasil.
O resultado dessa combinação foi a retomada do fluxo de capitais para os emergentes. No caso brasileiro, amplificada pelos juros internos, que voltaram ao nível da estratosfera e atraem a especulação de curto prazo.
Além disso, pesquisas eleitorais mostraram recuo na aprovação do governo. Cada vez mais investidores e empresários avaliam que seria positiva para a economia uma alternância no poder.
Uma grande questão para 2015 é como o próximo governo --seja com Dilma Rousseff, Aécio Neves ou Eduardo Campos-- lidará com os problemas econômicos acumulados: o represamento das tarifas de energia e transportes e a necessidade de elevar o superavit primário (soma de receitas e despesas antes do pagamento de juros) e de reduzir a inflação.
Dilma deu um primeiro sinal de que talvez esteja disposta a fazer ao menos parte desse ajuste. Encaminhou ao Congresso o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2015 com metas mais firmes para o saldo primário (2,5% do PIB, com redução de até 0,5% no caso de menor arrecadação). Se isso vier a ser feito, resultaria em melhor controle da dívida interna e menos pressões inflacionárias.
Por ora, a volta de investidores ao Brasil não parece resultar de um súbito aumento de confiança no país. Trata-se, sim, de ação oportunista para aproveitar-se, infelizmente, dos juros muito altos.
Tal acomodação é bem-vinda para o governo, que precisa chegar até as eleições sem abalos maiores na economia. Ela ocorreu a despeito do agravamento do problema da inflação e do acúmulo de evidências de que o PIB se desacelerará mais nos próximos meses.
Houve ao menos três elementos determinantes, nenhum dos quais derivou de ações do governo federal. O primeiro sinal, mais importante, veio da política monetária americana: a ociosidade persistente no mercado de trabalho e a redução da inflação indicam que pode demorar a eventual alta dos juros (que afastaria investidores do Brasil).
A perspectiva de aceleração da economia chinesa também ajudou. No primeiro trimestre, a alta do PIB foi de apenas 5,5% (anualizados), o que levou as autoridades a adotar mais um pacote de estímulos. A expectativa, com isso, é que o PIB volte a crescer perto de 7%.
Por fim, houve alta nos preços das matérias-primas, especialmente alimentos, o que favorece as contas externas de países exportadores desses produtos, como o Brasil.
O resultado dessa combinação foi a retomada do fluxo de capitais para os emergentes. No caso brasileiro, amplificada pelos juros internos, que voltaram ao nível da estratosfera e atraem a especulação de curto prazo.
Além disso, pesquisas eleitorais mostraram recuo na aprovação do governo. Cada vez mais investidores e empresários avaliam que seria positiva para a economia uma alternância no poder.
Uma grande questão para 2015 é como o próximo governo --seja com Dilma Rousseff, Aécio Neves ou Eduardo Campos-- lidará com os problemas econômicos acumulados: o represamento das tarifas de energia e transportes e a necessidade de elevar o superavit primário (soma de receitas e despesas antes do pagamento de juros) e de reduzir a inflação.
Dilma deu um primeiro sinal de que talvez esteja disposta a fazer ao menos parte desse ajuste. Encaminhou ao Congresso o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2015 com metas mais firmes para o saldo primário (2,5% do PIB, com redução de até 0,5% no caso de menor arrecadação). Se isso vier a ser feito, resultaria em melhor controle da dívida interna e menos pressões inflacionárias.
Por ora, a volta de investidores ao Brasil não parece resultar de um súbito aumento de confiança no país. Trata-se, sim, de ação oportunista para aproveitar-se, infelizmente, dos juros muito altos.
Brasília em construção - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 21/04
Ao completar 54 anos, Brasília permanece a obra em construção que nasceu das pranchetas de Lucio Costa e Oscar Niemeyer. Abertas as retas e curvas, erguidos os prédios e coberta a terra vermelha de asfalto e verde, a capital do Brasil recebeu moradores dos 26 estados do país. Os bandeirantes do século 20 vieram para o Planalto Central em busca de oportunidade capaz de lhes abrir as portas de nova era.
Hoje 2,6 milhões de pessoas vivem no Distrito Federal. Aqui trabalham, estudam, consomem, usufruem o equipamento urbano. Foi tão rápido o crescimento que a cidade parece ter diminuído de tamanho. Congestionamentos infernizam a vida de motoristas que trafegam em qualquer área da capital. Ônibus e metrôs são insuficientes para atender a demanda com rapidez e eficiência.
Leitos de hospitais encolhem enquanto os enfermos se multiplicam. Apagões e cortes de água se tornaram rotina indesejável. Alagamentos atrapalham o dia a dia de motoristas, pedestres e moradores tanto do Plano Piloto quanto das cidades do DF. O avanço da violência sugere que a lei e a ordem perderam a guerra contra os malfeitos e a bandidagem.
O cenário lembra pais desatentos que, sem perceber o passar dos anos, não renovaram o enxoval do filho. Crescido, ele se aperta em roupas de bebê. O resultado é um só: falta pano e sobra corpo. A inferência, porém, peca pelo simplismo. Realidade semelhante aflige as demais unidades da Federação.
Várias razões explicam a desordem reinante. Mas duas sobressaem. A primeira: as metrópoles não se prepararam para a explosão demográfica, que, em poucos anos, mudou o perfil de grandes, médias e pequenas urbes. A outra: a rápida ascensão da classe C criou demandas para as quais a infraestrutura não estava apta a dar respostas satisfatórias.
São desafios que os governos precisam enfrentar com urgência. Impõe-se manter o tecido social saudável para dar respostas a realidades muito novas, sofisticadas e surpreendentes. Esgarçada, a sociedade cobra preço que a ninguém interessa pagar. O poder público tem de demonstrar competência para dar o salto qualitativo exigido pelos novos tempos em que não só ventos locais sopram.
No mundo globalizado, sofrem-se influências e pressões simultâneas dos cinco continentes. Daí a urgência. Urgência que não admite ensaios e erros. Ao contrário. Exige planejamento e profissionalismo. O crescimento de Brasília é caminho sem volta. Medidas de curto, médio e longo prazo devem se fazer sentir na educação, na saúde, na mobilidade e na segurança.
Aos 54 anos, a capital precisa aplainar o caminho que a levará aos 540 anos. Com o conhecimento técnico que se tem hoje, é possível crescer com controle. Diferentemente do ocorrido na trajetória de São Paulo, Rio ou Salvador, que avançaram ao acaso, Brasília conta com a ciência, que aponta rumos e impõe limites. Sabe-se que os recursos naturais são limitados. Opõem-se ao coração de mãe. Neles nem sempre cabe mais um.
Hoje 2,6 milhões de pessoas vivem no Distrito Federal. Aqui trabalham, estudam, consomem, usufruem o equipamento urbano. Foi tão rápido o crescimento que a cidade parece ter diminuído de tamanho. Congestionamentos infernizam a vida de motoristas que trafegam em qualquer área da capital. Ônibus e metrôs são insuficientes para atender a demanda com rapidez e eficiência.
Leitos de hospitais encolhem enquanto os enfermos se multiplicam. Apagões e cortes de água se tornaram rotina indesejável. Alagamentos atrapalham o dia a dia de motoristas, pedestres e moradores tanto do Plano Piloto quanto das cidades do DF. O avanço da violência sugere que a lei e a ordem perderam a guerra contra os malfeitos e a bandidagem.
O cenário lembra pais desatentos que, sem perceber o passar dos anos, não renovaram o enxoval do filho. Crescido, ele se aperta em roupas de bebê. O resultado é um só: falta pano e sobra corpo. A inferência, porém, peca pelo simplismo. Realidade semelhante aflige as demais unidades da Federação.
Várias razões explicam a desordem reinante. Mas duas sobressaem. A primeira: as metrópoles não se prepararam para a explosão demográfica, que, em poucos anos, mudou o perfil de grandes, médias e pequenas urbes. A outra: a rápida ascensão da classe C criou demandas para as quais a infraestrutura não estava apta a dar respostas satisfatórias.
São desafios que os governos precisam enfrentar com urgência. Impõe-se manter o tecido social saudável para dar respostas a realidades muito novas, sofisticadas e surpreendentes. Esgarçada, a sociedade cobra preço que a ninguém interessa pagar. O poder público tem de demonstrar competência para dar o salto qualitativo exigido pelos novos tempos em que não só ventos locais sopram.
No mundo globalizado, sofrem-se influências e pressões simultâneas dos cinco continentes. Daí a urgência. Urgência que não admite ensaios e erros. Ao contrário. Exige planejamento e profissionalismo. O crescimento de Brasília é caminho sem volta. Medidas de curto, médio e longo prazo devem se fazer sentir na educação, na saúde, na mobilidade e na segurança.
Aos 54 anos, a capital precisa aplainar o caminho que a levará aos 540 anos. Com o conhecimento técnico que se tem hoje, é possível crescer com controle. Diferentemente do ocorrido na trajetória de São Paulo, Rio ou Salvador, que avançaram ao acaso, Brasília conta com a ciência, que aponta rumos e impõe limites. Sabe-se que os recursos naturais são limitados. Opõem-se ao coração de mãe. Neles nem sempre cabe mais um.
Censura à publicidade - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 21/04
Uma resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança (Conanda), órgão subordinado à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, está provocando forte reação do mercado publicitário, por conter o indesejável componente da censura. Publicado no Diário Oficial da União, o texto aprovado em assembleia do conselho impõe uma série de proibições à propaganda infantil, entre as quais a veiculação de campanhas com músicas cantadas por crianças, o uso de bonecos e de desenhos animados, e o excesso de cores. Tais restrições praticamente inviabilizam a publicidade direcionada a crianças, deixando espaço apenas para campanhas institucionais de utilidade pública.
É inquestionável a boa intenção por trás da medida. O Conanda certamente quer proteger as crianças da exposição a apelos publicitários incompatíveis com a maturidade psíquica e mental do público infantil. O questionável é a legitimidade do órgão para impor uma medida censória desta natureza, ainda mais numa área de rigorosa autorregulamentação. Para evitar abusos em propagandas já existe o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), que tem sido atuante e inflexível no que se refere à publicidade infantil. Além disso, como alegam os publicitários inconformados com a medida, a competência de legislar sobre a publicidade comercial é do Congresso Nacional e não de um conselho ligado ao governo.
É evidente a intromissão indevida do Estado e também o equívoco da decisão unilateral, pois a melhor proteção às crianças é a educação familiar e o diálogo com os pais. A proibição, da maneira como está posta, pune igualmente as empresas responsáveis, que anunciam seus produtos com cuidado e respeito ao público infantil. Sem contar que, no mundo interconectado, as restrições à publicidade na mídia não impedem que as crianças continuem expostas a apelos consumistas existentes em todos os segmentos da sociedade.
Uma resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança (Conanda), órgão subordinado à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, está provocando forte reação do mercado publicitário, por conter o indesejável componente da censura. Publicado no Diário Oficial da União, o texto aprovado em assembleia do conselho impõe uma série de proibições à propaganda infantil, entre as quais a veiculação de campanhas com músicas cantadas por crianças, o uso de bonecos e de desenhos animados, e o excesso de cores. Tais restrições praticamente inviabilizam a publicidade direcionada a crianças, deixando espaço apenas para campanhas institucionais de utilidade pública.
É inquestionável a boa intenção por trás da medida. O Conanda certamente quer proteger as crianças da exposição a apelos publicitários incompatíveis com a maturidade psíquica e mental do público infantil. O questionável é a legitimidade do órgão para impor uma medida censória desta natureza, ainda mais numa área de rigorosa autorregulamentação. Para evitar abusos em propagandas já existe o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), que tem sido atuante e inflexível no que se refere à publicidade infantil. Além disso, como alegam os publicitários inconformados com a medida, a competência de legislar sobre a publicidade comercial é do Congresso Nacional e não de um conselho ligado ao governo.
É evidente a intromissão indevida do Estado e também o equívoco da decisão unilateral, pois a melhor proteção às crianças é a educação familiar e o diálogo com os pais. A proibição, da maneira como está posta, pune igualmente as empresas responsáveis, que anunciam seus produtos com cuidado e respeito ao público infantil. Sem contar que, no mundo interconectado, as restrições à publicidade na mídia não impedem que as crianças continuem expostas a apelos consumistas existentes em todos os segmentos da sociedade.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
GOVERNO GASTA R$ 117 MIL POR DIA COM CARTÕES
É ano de eleição e os gastos do governo federal seguem no mesmo ritmo acelerado de sempre: R$ 117,4 mil por dia desde janeiro. De acordo com o Portal da Transparência, a gastança já superou a cifra de R$ 6,9 milhões. Campeã de sempre, a Presidência é responsável por um terço da farra (R$ 2,14 milhões), mas o detalhamento dos gastos é protegido por sigilo sob a velha justificativa de “segurança e do Estado”.
Muito justo
O Ministério da Justiça ficou em 2º lugar entre os gastos com R$ 1,7 milhão, quase tudo na conta da Polícia Federal e no maior sigilo.
Detalhes inúteis
Sete dos dez cartões com a fatura mais cara são do IBGE e, apesar de detalhados, os gastos se referem a saques em espécie de até R$ 1 mil.
Tudo em segredo
Dos R$ 2,14 milhões em cartões corporativos torrados pela Presidência da República, 96% são sigilosos, sem detalhamento de gastos.
Dinheiro sem rastro
O governo torrou R$ 942 mil apenas com saques em espécie nos cartões corporativos. Tem até retirada de R$ 2.
PE: cobrança indevida já gerou R$ 154 milhões
A cobrança de ICMS feita pelo governo de Eduardo Campos (PSB-PE) sobre o subsídio dado pelo governo federal desde o ano passado nas contas de luz já rendeu, irregularmente, R$ 154 milhões aos cofres estaduais. A redução nas tarifas residenciais seria de 18%, mas com a cobrança indevida do ICMS desde fevereiro de 2013, o desconto para a população foi menor e a diferença fica com o governo pernambucano.
Receita garantida
A arrecadação da fazenda estadual aumenta em R$ 11 milhões ao mês com a edição do decreto regularizando a taxação do subsídio federal.
Olho nas urnas
Para a oposição de Campos, a cobrança seria uma estratégia para que o povo não sinta o desconto dado por Dilma e ela perca eleitorado.
Não está só
Outros estados governados pela oposição, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul também cobram ICMS sobre desconto na luz.
Em cima do muro
A executiva PMDB-RS fez apelo ao senador Pedro Simon para manter seu nome ao Senado até o partido encontrar uma saída. Chateado com desistência pública de Germano Rigotto, Simon queria deixar a disputa.
#BeijinhoNoOmbro
O deputado Paulo Teixeira (PT-SP) comemorou o início do funcionamento da ampliação do aeroporto de Brasília. Postou uma foto em suas redes sociais e disparou: “Para os urubus de plantão”.
Sob pressão
Tentando conter debandada de prefeitos pró-Paulo Hartung (PMDB), o governador Renato Casagrande (PSB) almoçou com sete prefeitos da Região Metropolitana e com a Associação de Municípios do ES.
Lorota
Presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar (PSD-SP) descarta que o relator do caso André Vargas, Júlio Delgado, esteja sob suspeição: “Ele falou do relatório preliminar, não prejudicou em nada o processo”.
Folga ‘forçada’
Apesar de ser ponto facultativo na quinta, os gabinetes que tentaram manter seus funcionários trabalhando se deram mal. Foram todos barrados pelo Departamento de Segurança Legislativa da Câmara.
Impede manobras
O deputado Marcos Rogério (PDT-RO) apresentou projeto para acabar com o relatório preliminar no Conselho de Ética, obrigando a Câmara a investigar toda e qualquer denúncia, sem depender de admissibilidade.
Dentista de Páscoa
O deputado Amauri Teixeira (PT-BA) contou no Twitter que vai aproveitar o feriadão para adiantar seu tratamento dentário. “Tô sem poder falar”, escreveu. Só não disse se a conta será do contribuinte.
Inflação de Barroso
Após nomear o fluminense Luis Roberto Barroso para o Supremo, a presidenta Dilma nomeou outro Barroso, José Filho, este paulista, para o Superior Tribunal Militar. O novo ministro é juiz-auditor, tomou posse e já ocupa a cadeira destinada aos magistrados da Justiça Militar.
Pensando bem...
...o deputado petista sai-não-sai André Vargas tem algo em comum com Tiradentes: ambos acabaram com a corda no pescoço.
PODER SEM PUDOR
Mr. Quadros, o tio
Jânio Quadros, governador de São Paulo, viajou à Europa, deixando no seu lugar o vice, general Porfírio da Paz. O interino recebeu a visita de um antigo professor de direito:
- Mestre, mas que honra recebê-lo aqui!
- Vim fazer-lhe uma visita, meu general. Muito trabalho?
- Nossa! Jânio me deixou uma papelada que Deus me livre. Mas faço questão de entregar o gabinete do jeito que ele deixou. Não mexo em nada: livros, cinzeiros, o retrato do tio na parede... deixo tudo no lugar.
- Mas que quadro, Porfírio? - interessou-se o antigo professor.
O governador em exercício apontou o retrato de Abraham Lincoln.
- Porfírio, aquele é o retrato de Lincoln, o grande presidente americano!
- Ah... é mesmo? Que coisa! Pois me haviam dito que esse homem aí se chamava Lincoln, um tio do governador que mora no Mato Grosso...
É ano de eleição e os gastos do governo federal seguem no mesmo ritmo acelerado de sempre: R$ 117,4 mil por dia desde janeiro. De acordo com o Portal da Transparência, a gastança já superou a cifra de R$ 6,9 milhões. Campeã de sempre, a Presidência é responsável por um terço da farra (R$ 2,14 milhões), mas o detalhamento dos gastos é protegido por sigilo sob a velha justificativa de “segurança e do Estado”.
Muito justo
O Ministério da Justiça ficou em 2º lugar entre os gastos com R$ 1,7 milhão, quase tudo na conta da Polícia Federal e no maior sigilo.
Detalhes inúteis
Sete dos dez cartões com a fatura mais cara são do IBGE e, apesar de detalhados, os gastos se referem a saques em espécie de até R$ 1 mil.
Tudo em segredo
Dos R$ 2,14 milhões em cartões corporativos torrados pela Presidência da República, 96% são sigilosos, sem detalhamento de gastos.
Dinheiro sem rastro
O governo torrou R$ 942 mil apenas com saques em espécie nos cartões corporativos. Tem até retirada de R$ 2.
PE: cobrança indevida já gerou R$ 154 milhões
A cobrança de ICMS feita pelo governo de Eduardo Campos (PSB-PE) sobre o subsídio dado pelo governo federal desde o ano passado nas contas de luz já rendeu, irregularmente, R$ 154 milhões aos cofres estaduais. A redução nas tarifas residenciais seria de 18%, mas com a cobrança indevida do ICMS desde fevereiro de 2013, o desconto para a população foi menor e a diferença fica com o governo pernambucano.
Receita garantida
A arrecadação da fazenda estadual aumenta em R$ 11 milhões ao mês com a edição do decreto regularizando a taxação do subsídio federal.
Olho nas urnas
Para a oposição de Campos, a cobrança seria uma estratégia para que o povo não sinta o desconto dado por Dilma e ela perca eleitorado.
Não está só
Outros estados governados pela oposição, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul também cobram ICMS sobre desconto na luz.
Em cima do muro
A executiva PMDB-RS fez apelo ao senador Pedro Simon para manter seu nome ao Senado até o partido encontrar uma saída. Chateado com desistência pública de Germano Rigotto, Simon queria deixar a disputa.
#BeijinhoNoOmbro
O deputado Paulo Teixeira (PT-SP) comemorou o início do funcionamento da ampliação do aeroporto de Brasília. Postou uma foto em suas redes sociais e disparou: “Para os urubus de plantão”.
Sob pressão
Tentando conter debandada de prefeitos pró-Paulo Hartung (PMDB), o governador Renato Casagrande (PSB) almoçou com sete prefeitos da Região Metropolitana e com a Associação de Municípios do ES.
Lorota
Presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar (PSD-SP) descarta que o relator do caso André Vargas, Júlio Delgado, esteja sob suspeição: “Ele falou do relatório preliminar, não prejudicou em nada o processo”.
Folga ‘forçada’
Apesar de ser ponto facultativo na quinta, os gabinetes que tentaram manter seus funcionários trabalhando se deram mal. Foram todos barrados pelo Departamento de Segurança Legislativa da Câmara.
Impede manobras
O deputado Marcos Rogério (PDT-RO) apresentou projeto para acabar com o relatório preliminar no Conselho de Ética, obrigando a Câmara a investigar toda e qualquer denúncia, sem depender de admissibilidade.
Dentista de Páscoa
O deputado Amauri Teixeira (PT-BA) contou no Twitter que vai aproveitar o feriadão para adiantar seu tratamento dentário. “Tô sem poder falar”, escreveu. Só não disse se a conta será do contribuinte.
Inflação de Barroso
Após nomear o fluminense Luis Roberto Barroso para o Supremo, a presidenta Dilma nomeou outro Barroso, José Filho, este paulista, para o Superior Tribunal Militar. O novo ministro é juiz-auditor, tomou posse e já ocupa a cadeira destinada aos magistrados da Justiça Militar.
Pensando bem...
...o deputado petista sai-não-sai André Vargas tem algo em comum com Tiradentes: ambos acabaram com a corda no pescoço.
PODER SEM PUDOR
Mr. Quadros, o tio
Jânio Quadros, governador de São Paulo, viajou à Europa, deixando no seu lugar o vice, general Porfírio da Paz. O interino recebeu a visita de um antigo professor de direito:
- Mestre, mas que honra recebê-lo aqui!
- Vim fazer-lhe uma visita, meu general. Muito trabalho?
- Nossa! Jânio me deixou uma papelada que Deus me livre. Mas faço questão de entregar o gabinete do jeito que ele deixou. Não mexo em nada: livros, cinzeiros, o retrato do tio na parede... deixo tudo no lugar.
- Mas que quadro, Porfírio? - interessou-se o antigo professor.
O governador em exercício apontou o retrato de Abraham Lincoln.
- Porfírio, aquele é o retrato de Lincoln, o grande presidente americano!
- Ah... é mesmo? Que coisa! Pois me haviam dito que esse homem aí se chamava Lincoln, um tio do governador que mora no Mato Grosso...
domingo, abril 20, 2014
Casa comigo - MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 20/04
Os dois namorados estavam dentro do carro, à noite, estacionados em frente ao prédio da excelentíssima, discutindo a relação. Discutindo mesmo, aos berros, brigando. Em meio a algum pra mim chega!, surgiram dois meliantes armados e interromperam aquele bate-boca. Transferiram os namorados para o banco de trás e saíram em disparada com eles: sequestro relâmpago. Rodaram a cidade durante 50 minutos, fizeram saques em caixas eletrônicos, até que os levaram para um lugar ermo, no meio do mato.
Duas coronhadas, uma em cada um, rostos sangrando, mas era pouco: despiram os dois, deixando-os apenas com a roupa de baixo, e os amarraram em troncos de árvores. Não houve agressão sexual, mas não se pode dizer que foi um passeio no bosque. Em plena madrugada, abandonaram o casal imobilizado e seguiram com o carro do rapaz rumo à impunidade garantida.
Restou o silêncio. Assustados, os dois tentaram, tentaram de novo, e conseguiram, finalmente, se desamarrar. Livres, sozinhos, sem saber onde estavam, olharam um para o outro e tiveram um ataque de riso. Ele a abraçou fortemente e só conseguiu dizer duas palavras: “Casa comigo”.
Aconteceu mesmo. Quem me contou, olho no olho, foi a protagonista feminina da história. Eu não conseguiria imaginar pedido de casamento mais romântico. Sem vinho, sem luz de velas e sem anel de brilhantes – um pedido movido simplesmente pela emergência da vida, pela busca de uma felicidade genuína, pela supressão da razão em detrimento da emoção verdadeira.
Estavam para morrer, os dois. Foram unidos pelo mesmo pensamento desde que foram surpreendidos por dois estranhos armados: acabou. Não tem mais por que discutir a relação. Não tem mais relação. Não tem mais manhã seguinte. Não tem mais futuro. Acabou. Que perda de tempo. Para que brigar? Para que se estressar com ciúmes, com queixas, com mágoas? Acabou.
E então descobrem que não acabou. Desamarram-se, estão nus por fora e por dentro, despidos de qualquer racionalidade, apenas aliviados com o desfecho da aventura e absolutamente tomados pela potência do que é essencial na vida. O amor.
Casa comigo.
Estão casados há 10 anos. Não sei se plenamente felizes. É provável que os motivos dos ciúmes e das queixas e de tudo aquilo que explodiu naquela discussão dentro do carro antes do sequestro tenha se repetido outras vezes. A realidade impõe os seus caprichos. Obriga a gente a pensar e manter a sanidade. Maldita sanidade.
Mas houve um momento em que eles não pensaram. Só sentiram. Sentiram tudo. Sentiram sem amarras. Sentiram soltos. Sentiram livres. Pura emoção. E a emoção se impôs: casa comigo. Tiveram os piores padrinhos do mundo: a violência e o medo. Mas que beijo deve ter sido dado ali no meio do nada.
Reconhecer erros, um bom negócio - GAUDÊNCIO TORQUATO
O Estado de S.Paulo - 20/04
"Foi um mau negócio." A sincera confissão feita no Senado pela presidente da Petrobrás, Maria das Graças Foster, sobre a aquisição da refinaria americana de Pasadena foi um ato de coragem, mas não suficiente para desfazer o enredo que deixa em lençóis sujos a empresa-símbolo do Brasil. Há que completar o processo deflagrado pela comandante Foster, tarefa que compete aos órgãos de controle e investigação, entre os quais Polícia Federal, Tribunal de Contas, Corregedoria-Geral e Advocacia da União, sob o olhar atento do Ministério Público.
A questão que remanesce é: depois de oito anos do ato consumado, com cabais demonstrações de prejuízos aos cofres do Tesouro e perdas para o bolso de milhares de investidores que adquiriram ações da empresa, quem será punido por transgressão ao ordenamento legal? Não importa se a CPI em discussão no Congresso Nacional e em análise pela Corte Suprema terá escopo restrito ou ampliado. Importa, sim, chegar às respostas objetivas que impliquem responsabilização de agentes, desmontagem de conluios entre a res publica e os negócios privados e a devida apenação de envolvidos.
Ao reforçar a abordagem da presidente Dilma Rousseff (que em 2006 presidia o Conselho da Petrobrás) de que a compra da refinaria se deu por ato falho, ou seja, pela não apresentação das cláusulas Put Option e Marlim pelo então diretor da Área Internacional Nestor Cerveró, Graça Foster foi fiel ao script recomendado pelo Palácio do Planalto, mas se obriga, para preservar a imagem técnica, a dar continuidade às investigações internas que mandou realizar. É imperiosa a resposta às indagações que correm pelos contingentes de formação de opinião e já chegam aos ouvidos periféricos.
Como é sabido, o balão da opinião pública começa a se encher com os ares insuflados de grupos do meio da pirâmide social e ganha volume com as ondas que, em círculos concêntricos, descem até às margens. A condição para desinflá-lo reside em respostas diretas sobre as responsabilidades dos gestores públicos. Daí a pergunta que se faz ao ex-diretor: por que a proposta apresentada omitiu - tanto no PowerPoint que usou quanto na exposição oral - cláusulas que obrigavam a Petrobrás a comprar a outra parte da unidade? Responde ele: porque eram irrelevantes.
Imaginemos a situação. Setembro de 2006, meia-noite na Avenida Paulista, em São Paulo. O coordenador do trânsito avança o sinal vermelho. Para se livrar de um carro que vinha velozmente de uma rua transversal derruba um poste de iluminação e acaba deixando sem luz o expressivo cartão-postal da maior metrópole do País. Dois anos depois, tomando conhecimento da ação intempestiva do servidor, o secretário dos Transportes transfere-o de posto. Não teria sido esse o enredo? Cerveró, ao deixar de lado cláusulas básicas para tornar viável a aquisição da refinaria, não estaria ultrapassando o sinal vermelho? Ou ele não viu nenhum sinal vermelho?
Alegar que a chamada cláusula Put Option é comum em contratos desse tipo parece bater de frente na disposição da então presidente do Conselho de Administração da Petrobrás de vetar a transação se soubesse de tal dispositivo, que regulava a saída do parceiro. A conta não fecha. Será que uma avenida vazia em plena madrugada (a Petrobrás sem muitos controles) teria aberto a brecha para um "desvio de atenção"? Teria sido por excesso de confiança (achar que tudo era sabido) que decidiu fazer o que fez e como fez? O ex-diretor garante não saber com certeza se o conselho recebeu toda a documentação sobre a compra. Como gestor público, sabe quais procedimentos motivam dolo, incúria, inépcia, desleixo. Teria havido isso na Petrobrás? As investigações vão mostrar.
O caso remete a uma reflexão sobre as teias de interesses que se multiplicam na administração pública. Os desvios, veredas escuras e teias de corrupção que agem nos intestinos das estruturas públicas, nas três instâncias federativas, produzem o monumental PIB do desperdício. Sob outro olhar, são utilizados também para encher os cofres de Tios Patinhas e agregados que se espalham por territórios partidários, a serem usados nos múltiplos projetos de poder, alguns a perder de vista, de tão longevos.
O desconsolo é constatar que o discurso de "choque de gestão", "renovação de métodos", "meritocracia", de tão banalizado, não chega a sensibilizar a numerosa categoria dos gestores públicos. Não se criaram no País meios para implementar uma gestão moderna, racional, sob critérios de metas, resultados, eficiência e eficácia. A cada ciclo governativo as máquinas administrativas, ao contrário da tendência de racionalização e enxugamento, são inchadas e encharcadas pela representação feudal de partidos e grupos. O lema de lorde Acton ressurge esplendoroso em nossas plagas: "O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente".
Ora, na antevéspera de um pleito eleitoral que tende a ser um dos mais contundentes de nossa História, em função da forte expressão que emerge dos mais diferentes grupos da sociedade, um grande bem que os candidatos fariam seria o compromisso com uma profunda reforma no campo da administração. Que deveria abrigar os territórios técnicos, imexíveis pelos comandos políticos; a adoção de critérios de mérito e qualidade no aproveitamento de quadros; a transparência absoluta de contas e processos de licitação; a demissão sumária de dirigentes de empresas e autarquias flagrados em ilícitos, com o respectivo processo de apuração; a abertura de canais com os consumidores e facilitação de acesso às investigações da mídia, entre outros aspectos. Não é mais possível conviver com a mania de jogar a sujeira para debaixo do tapete. O ciclo da gestão eficaz pode ser aberto com a adoção do costume de reconhecer o erro. E acabar com a mistificação.
"Foi um mau negócio." A sincera confissão feita no Senado pela presidente da Petrobrás, Maria das Graças Foster, sobre a aquisição da refinaria americana de Pasadena foi um ato de coragem, mas não suficiente para desfazer o enredo que deixa em lençóis sujos a empresa-símbolo do Brasil. Há que completar o processo deflagrado pela comandante Foster, tarefa que compete aos órgãos de controle e investigação, entre os quais Polícia Federal, Tribunal de Contas, Corregedoria-Geral e Advocacia da União, sob o olhar atento do Ministério Público.
A questão que remanesce é: depois de oito anos do ato consumado, com cabais demonstrações de prejuízos aos cofres do Tesouro e perdas para o bolso de milhares de investidores que adquiriram ações da empresa, quem será punido por transgressão ao ordenamento legal? Não importa se a CPI em discussão no Congresso Nacional e em análise pela Corte Suprema terá escopo restrito ou ampliado. Importa, sim, chegar às respostas objetivas que impliquem responsabilização de agentes, desmontagem de conluios entre a res publica e os negócios privados e a devida apenação de envolvidos.
Ao reforçar a abordagem da presidente Dilma Rousseff (que em 2006 presidia o Conselho da Petrobrás) de que a compra da refinaria se deu por ato falho, ou seja, pela não apresentação das cláusulas Put Option e Marlim pelo então diretor da Área Internacional Nestor Cerveró, Graça Foster foi fiel ao script recomendado pelo Palácio do Planalto, mas se obriga, para preservar a imagem técnica, a dar continuidade às investigações internas que mandou realizar. É imperiosa a resposta às indagações que correm pelos contingentes de formação de opinião e já chegam aos ouvidos periféricos.
Como é sabido, o balão da opinião pública começa a se encher com os ares insuflados de grupos do meio da pirâmide social e ganha volume com as ondas que, em círculos concêntricos, descem até às margens. A condição para desinflá-lo reside em respostas diretas sobre as responsabilidades dos gestores públicos. Daí a pergunta que se faz ao ex-diretor: por que a proposta apresentada omitiu - tanto no PowerPoint que usou quanto na exposição oral - cláusulas que obrigavam a Petrobrás a comprar a outra parte da unidade? Responde ele: porque eram irrelevantes.
Imaginemos a situação. Setembro de 2006, meia-noite na Avenida Paulista, em São Paulo. O coordenador do trânsito avança o sinal vermelho. Para se livrar de um carro que vinha velozmente de uma rua transversal derruba um poste de iluminação e acaba deixando sem luz o expressivo cartão-postal da maior metrópole do País. Dois anos depois, tomando conhecimento da ação intempestiva do servidor, o secretário dos Transportes transfere-o de posto. Não teria sido esse o enredo? Cerveró, ao deixar de lado cláusulas básicas para tornar viável a aquisição da refinaria, não estaria ultrapassando o sinal vermelho? Ou ele não viu nenhum sinal vermelho?
Alegar que a chamada cláusula Put Option é comum em contratos desse tipo parece bater de frente na disposição da então presidente do Conselho de Administração da Petrobrás de vetar a transação se soubesse de tal dispositivo, que regulava a saída do parceiro. A conta não fecha. Será que uma avenida vazia em plena madrugada (a Petrobrás sem muitos controles) teria aberto a brecha para um "desvio de atenção"? Teria sido por excesso de confiança (achar que tudo era sabido) que decidiu fazer o que fez e como fez? O ex-diretor garante não saber com certeza se o conselho recebeu toda a documentação sobre a compra. Como gestor público, sabe quais procedimentos motivam dolo, incúria, inépcia, desleixo. Teria havido isso na Petrobrás? As investigações vão mostrar.
O caso remete a uma reflexão sobre as teias de interesses que se multiplicam na administração pública. Os desvios, veredas escuras e teias de corrupção que agem nos intestinos das estruturas públicas, nas três instâncias federativas, produzem o monumental PIB do desperdício. Sob outro olhar, são utilizados também para encher os cofres de Tios Patinhas e agregados que se espalham por territórios partidários, a serem usados nos múltiplos projetos de poder, alguns a perder de vista, de tão longevos.
O desconsolo é constatar que o discurso de "choque de gestão", "renovação de métodos", "meritocracia", de tão banalizado, não chega a sensibilizar a numerosa categoria dos gestores públicos. Não se criaram no País meios para implementar uma gestão moderna, racional, sob critérios de metas, resultados, eficiência e eficácia. A cada ciclo governativo as máquinas administrativas, ao contrário da tendência de racionalização e enxugamento, são inchadas e encharcadas pela representação feudal de partidos e grupos. O lema de lorde Acton ressurge esplendoroso em nossas plagas: "O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente".
Ora, na antevéspera de um pleito eleitoral que tende a ser um dos mais contundentes de nossa História, em função da forte expressão que emerge dos mais diferentes grupos da sociedade, um grande bem que os candidatos fariam seria o compromisso com uma profunda reforma no campo da administração. Que deveria abrigar os territórios técnicos, imexíveis pelos comandos políticos; a adoção de critérios de mérito e qualidade no aproveitamento de quadros; a transparência absoluta de contas e processos de licitação; a demissão sumária de dirigentes de empresas e autarquias flagrados em ilícitos, com o respectivo processo de apuração; a abertura de canais com os consumidores e facilitação de acesso às investigações da mídia, entre outros aspectos. Não é mais possível conviver com a mania de jogar a sujeira para debaixo do tapete. O ciclo da gestão eficaz pode ser aberto com a adoção do costume de reconhecer o erro. E acabar com a mistificação.
Anatomia de uma maracutaia - ELIO GASPARI
FOLHA DE SP - 20/04
Os planos de saúde queriam o céu: descumpririam o que contrataram e a multa de R$ 4.000 sairia por R$ 40
A doutora Dilma Rousseff ganhou um presente. A Câmara e o Senado puseram a bola na marca do pênalti, para que ela vete o dispositivo da medida provisória 627, que alivia as multas devidas pelos planos de saúde que negam aos clientes o atendimento contratado. Enfiaram num texto que tratava de outros assuntos uma nova sistemática para a cobranças dessas penalidades. É o Pró-Delinquente. Se uma operadora nega ao freguês um procedimento médico, ele se queixa à Agência Nacional de Saúde e tem seu direito reconhecido, a empresa deve pagar uma multa de R$ 2.000. Se essa mesma empresa nega dez procedimentos, pagará R$ 20 mil. Com a mudança, se o plano de saúde negar de 2 a 50 procedimentos, pagará duas multas (R$ 4.000, em vez de até R$ 100 mil). Daí em diante, haverá uma escala. Quanto pior o serviço da operadora, menor será a multa. A empresa que estivesse espetada com mais de mil multas, pagaria apenas o equivalente a 20. Incentivando a infração, se um plano nega dois procedimentos, paga R$ 4.000. Se nega mil procedimentos, paga R$ 40 por infração.
O Pró-Delinquente foi um dos 523 contrabandos enfiados na MP 627. Como emenda parlamentar não é o vírus da gripe, que vem no ar, alguém a pôs no texto. O relator da medida provisória foi o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Ele chegou a defender o dispositivo durante a votação pela Câmara. Dias depois, recuou, explicando-se: a mágica foi discutida com os ministérios da Saúde e da Fazenda, bem como com a Casa Civil da Presidência. Como esses prédios não falam, faltou dizer com quem discutiu o assunto. Além de Cunha, o relator da MP, não há registro de outro parlamentar patrocinando a iniciativa.
A mágica foi aprovada na Câmara com o beneplácito das lideranças do governo e da oposição. Remetida ao Senado, aconteceu a mesma coisa. Tantos são os interesses embutidos na MP que os senadores preferiram apressar a tramitação, esperando que a doutora Dilma vete o Pró-Delinquente.
Criou-se um novo absurdo. Os senadores abdicaram da prerrogativa republicana do consentimento. Se o Senado aprova um projeto esperando que o Executivo vete a maluquice, fica a pergunta: para que serve o Senado, cujos doutores têm assistência médica gratuita?
Quando a doutora Dilma vetar o Pró-Delinquente (se vetar) ficará no heroico papel de defensora da Viúva, dos pobres e dos oprimidos, mesmo sabendo-se que seu governo e sua base aliada permitiram que o contrabando fosse colocado na medida provisória e aprovado no Congresso.
A PIOR TACADA
A Comissão de Valores Mobiliários encaminhou à Polícia Federal o inquérito que trata de tráfico de informações com operações das empresas de Eike Batista nas Bolsas de Valores.
Quando a OGX parecia ser uma fábrica de milionários, Eike, o homem mais rico do Brasil, foi a um jantar em Miami, na casa do milionário Jeffrey Soffer, marido da modelo Elle MacPherson. Lá, conversando com Alex Rodriguez, que estava com sua mulher, Cameron Diaz, disse-lhe que nos próximos dias sua empresa anunciaria fantásticas descobertas de petróleo. Alex, o melhor jogador de beisebol dos dias de hoje, sacou o telefone, foi para um canto e conversou com seu corretor.
Trouxe de volta o recado do operador: "Ele disse para eu
esquecer essa história e não voltar a mencioná-la, porque se o fizesse, iríamos os dois para a cadeia".
Grande corretor. Alex Rodriguez esteve a um passo da pior tacada de sua vida. Cada dólar que tivesse posto na OGX valeria hoje um centavo.
PT
Pela primeira vez desde 2005, quando surgiu o escândalo do mensalão, o PT enfrenta uma divisão perigosa.
De um lado, a turma do "partir para cima", defendendo qualquer companheiro, em qualquer situação, liderada pelo deputado Cândido Vaccarezza. De outro, o grupo que prefere jogar alguma carga ao mar. Nele, fica o presidente do partido, Rui Falcão.
Falta pouco para que se possa dizer que a nação petista tem dois blocos: um com alguma ideologia e algum fisiologismo; outro, só com fisiologismo.
ARITMÉTICA
As últimas pesquisas são insuficientes para que se preveja o resultado da próxima eleição, mas uma mesma conclusão atravessa todos os números: o PT está sem puxador de votos.
Um mau desempenho da doutora Dilma afetará todo o partido.
*COBRAS DA PF *
O andar de cima da Polícia Federal, como o Itamaraty, é um ninho de cobras que alimentam inconfidências sobre promoções e remoções.
O último assunto desse ofidiário são as transferências ocorridas nos quadros da Polícia Federal do Paraná, onde rolam as investigações sobre as atividades do doleiro Alberto Youssef e suas conexões no triângulo dos três pês: PT, PP e Petrobras.
TROPA NA COPA
O Planalto está com transtorno bipolar quando lida com a Copa. Como diria a doutora Dilma, "no que se refere" aos seus discursos, ela anuncia que não vai tolerar desordens e que as Forças Armadas serão mobilizadas para garantir a ordem. Conversa de comissário de polícia.
No que se refere à marquetagem, contrata agências de publicidade para adocicar o evento.
Presidente zangado, o Brasil já teve um, o general João Figueiredo (1979-1985). Deu no que deu.
*GARCÍA MÁRQUEZ *
Para a memória de Gabriel García Márquez:
Havia um jantar em Havana e Fidel Castro, um retardatário imperial e compulsivo, chegou atrasado. Faltava Gabriel García Márquez. Quando ele chegou, o Comandante alfinetou-o:
-As pessoas mais importantes sempre são as últimas a chegar.
-Por isso, e também porque vim de longe. Respondeu o escritor.
UMA LIÇÃO QUE VEM DA CHINA
O doutor Eduardo Cunha, relator da MP 627, fez uma breve "villegiatura" pela China. Teve a oportunidade de conhecer a inovação que o presidente Xi Jinping introduziu na política do Império do Meio. Convivendo numa cleptocracia na qual há espertalhões amigos e inimigos, ele parece ter mudado o padrão de combate aos larápios. Há dois anos ele afastou o czar da segurança chinesa (Zhou Yongkang, mas não adianta tentar memorizar esse nome). Desde então, dedica-se a desmantelar seu aparelho. Na semana passada, prendeu pelo menos dois mandarins, mas a novidade está em outra ponta. Em vez de sair prendendo, o companheiro avança sobre o patrimônio dos comissários. Com todas as ressalvas que devem acompanhar detalhes da política interna chinesa, já teriam sido confiscados US$ 14,5 bilhões de 300 amigos e protegidos do comissário. Antes de ir para o aparelho de segurança, ele fez fama na burocracia do petróleo. Condenar ladrão a viver como pobre talvez seja mais prático do que mantê-lo na cadeia.
Enfim, descobriram o óbvio - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 20/04
A incapacidade do atual governo de entregar o que promete chegou às páginas do New York Times.
A realização da Copa do Mundo, que deveria ser a vistosa prova da capacidade brasileira de ombrear com as grandes potências globais, acabou servindo para chamar a atenção do mundo para as deficiências crônicas do País. A principal delas, conforme constatou o NY Times, é desperdiçar dinheiro e energia em projetos que nunca chegam a termo ou que se provam inúteis ou caros demais.
Assinada pelo correspondente Simon Romero e intitulada Grandes visões fracassam no Brasil (no Boston Globe, onde foi reproduzida, o título foi Da explosão do crescimento à ferrugem, grandes projetos definham no Brasil), a reportagem mostra que pouco se sustenta na narrativa triunfalista do governo.
Bilhões de reais foram gastos com obras que deveriam comprovar a irresistível ascensão do Brasil em meio a um cenário de relativa bonança financeira - em seu primeiro mandato, ao anunciar a caríssima e ainda inconclusa transposição do Rio São Francisco, o então presidente Lula disse que faria "uma obra que Dom Pedro II queria fazer há 200 anos".
Quando o efeito dessa enlevação passou, veio o que Romero chamou de "ressaca", que "está expondo os líderes do País a duras críticas, alimentando denúncias de desperdício de dinheiro e de incompetência, enquanto os serviços básicos para milhões de pessoas continuam deploráveis".
A reportagem explora, claro, os atrasos das obras para a Copa do Mundo, pois é isso o que atualmente chama a atenção internacional. Constata, por exemplo, que há projetos de transporte público que deveriam servir aos torcedores, mas que "não estarão prontos senão muito depois que o campeonato tiver acabado".
É evidente que a Copa é irrelevante quando se levam em conta as necessidades de infraestrutura do País, razão pela qual pouco importa se as obras de mobilidade urbana estarão prontas antes ou depois do Mundial. O importante é que sejam finalizadas no prazo mais curto possível e que sirvam adequadamente aos brasileiros em seu duro cotidiano.
Mas é compreensível o espanto do jornalista estrangeiro ao constatar a divergência entre o discurso retumbante do governo sobre a capacidade do Brasil de realizar a Copa do Mundo e a realidade dos atrasos das obras anunciadas e dos gastos exorbitantes com elas.
Além de abordar esses problemas, o correspondente do Times foi ao Piauí para ver de perto uma parte das obras da Transnordestina, ferrovia que começou a ser construída em 2006, deveria estar concluída em 2010 e que hoje, ainda incompleta, tem vários trechos que, abandonados, servem de ganha-pão para catadores de sucata.
Na hipótese de ser concluída algum dia, a obra de 1,8 mil km, de vital importância para o Nordeste, ligará o sudeste do Piauí, o sul do Maranhão e o oeste da Bahia aos Portos de Suape (PE) e de Pecém (CE). No momento, contudo, o que se vê, nas palavras do jornalista americano, são "longos trechos desertos onde trens de carga deveriam estar trafegando", enquanto "vaqueiros magrelos cuidam de seu gado à sombra de pontes ferroviárias abandonadas". Certamente não foi a isso que Lula quis se referir quando lançou a Transnordestina, ao dizer que a ferrovia seria a "redenção" do Nordeste.
Como sempre, os governistas se defendem responsabilizando os outros. Ouvido na reportagem, o ministro dos Transportes, César Borges, atribuiu os atrasos à burocracia e à necessidade de emissão de diversas licenças. Lula, por sua vez, admitiu que uma parte dessas exigências foi criada pelo próprio PT quando o partido estava na oposição, para dificultar o trabalho do governo, "sem levar em conta que, um dia, podíamos chegar ao poder".
Esse discurso maroto, porém, serve apenas para tentar disfarçar algo que todos - brasileiros e estrangeiros - já começaram a perceber: que concluir obras e evitar desperdício de dinheiro público definitivamente não é o forte do atual governo.
A incapacidade do atual governo de entregar o que promete chegou às páginas do New York Times.
A realização da Copa do Mundo, que deveria ser a vistosa prova da capacidade brasileira de ombrear com as grandes potências globais, acabou servindo para chamar a atenção do mundo para as deficiências crônicas do País. A principal delas, conforme constatou o NY Times, é desperdiçar dinheiro e energia em projetos que nunca chegam a termo ou que se provam inúteis ou caros demais.
Assinada pelo correspondente Simon Romero e intitulada Grandes visões fracassam no Brasil (no Boston Globe, onde foi reproduzida, o título foi Da explosão do crescimento à ferrugem, grandes projetos definham no Brasil), a reportagem mostra que pouco se sustenta na narrativa triunfalista do governo.
Bilhões de reais foram gastos com obras que deveriam comprovar a irresistível ascensão do Brasil em meio a um cenário de relativa bonança financeira - em seu primeiro mandato, ao anunciar a caríssima e ainda inconclusa transposição do Rio São Francisco, o então presidente Lula disse que faria "uma obra que Dom Pedro II queria fazer há 200 anos".
Quando o efeito dessa enlevação passou, veio o que Romero chamou de "ressaca", que "está expondo os líderes do País a duras críticas, alimentando denúncias de desperdício de dinheiro e de incompetência, enquanto os serviços básicos para milhões de pessoas continuam deploráveis".
A reportagem explora, claro, os atrasos das obras para a Copa do Mundo, pois é isso o que atualmente chama a atenção internacional. Constata, por exemplo, que há projetos de transporte público que deveriam servir aos torcedores, mas que "não estarão prontos senão muito depois que o campeonato tiver acabado".
É evidente que a Copa é irrelevante quando se levam em conta as necessidades de infraestrutura do País, razão pela qual pouco importa se as obras de mobilidade urbana estarão prontas antes ou depois do Mundial. O importante é que sejam finalizadas no prazo mais curto possível e que sirvam adequadamente aos brasileiros em seu duro cotidiano.
Mas é compreensível o espanto do jornalista estrangeiro ao constatar a divergência entre o discurso retumbante do governo sobre a capacidade do Brasil de realizar a Copa do Mundo e a realidade dos atrasos das obras anunciadas e dos gastos exorbitantes com elas.
Além de abordar esses problemas, o correspondente do Times foi ao Piauí para ver de perto uma parte das obras da Transnordestina, ferrovia que começou a ser construída em 2006, deveria estar concluída em 2010 e que hoje, ainda incompleta, tem vários trechos que, abandonados, servem de ganha-pão para catadores de sucata.
Na hipótese de ser concluída algum dia, a obra de 1,8 mil km, de vital importância para o Nordeste, ligará o sudeste do Piauí, o sul do Maranhão e o oeste da Bahia aos Portos de Suape (PE) e de Pecém (CE). No momento, contudo, o que se vê, nas palavras do jornalista americano, são "longos trechos desertos onde trens de carga deveriam estar trafegando", enquanto "vaqueiros magrelos cuidam de seu gado à sombra de pontes ferroviárias abandonadas". Certamente não foi a isso que Lula quis se referir quando lançou a Transnordestina, ao dizer que a ferrovia seria a "redenção" do Nordeste.
Como sempre, os governistas se defendem responsabilizando os outros. Ouvido na reportagem, o ministro dos Transportes, César Borges, atribuiu os atrasos à burocracia e à necessidade de emissão de diversas licenças. Lula, por sua vez, admitiu que uma parte dessas exigências foi criada pelo próprio PT quando o partido estava na oposição, para dificultar o trabalho do governo, "sem levar em conta que, um dia, podíamos chegar ao poder".
Esse discurso maroto, porém, serve apenas para tentar disfarçar algo que todos - brasileiros e estrangeiros - já começaram a perceber: que concluir obras e evitar desperdício de dinheiro público definitivamente não é o forte do atual governo.
Sem dança da chuva - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 20/04
Os dirigentes do Banco Central (BC) estão se sentindo na obrigação de explicar que não promovem uma inútil dança da chuva para acabar com a inflação. É que depois de 12 meses de alta seguida dos juros básicos, num total de 3,75 pontos porcentuais, para a altura dos 11% ao ano, a escalada continua.
"A política monetária não funciona", provocam os céticos de dentro e de fora do governo Dilma. "Funciona, sim, mas está sendo atrapalhada pelo governo", proclama o outro lado.
Quando a presidente Dilma ou as autoridades do Ministério da Fazenda insistem em que a inflação braba não é culpa do governo, mas de choques de oferta provocados pela seca, também passam o recado ao BC de que não adianta insistir com os juros. A oferta de tomate ou de batata só vai se normalizar, argumentam, quando as culturas se recuperarem da seca.
Quarta-feira, o diretor de Política Econômica do BC, Carlos Hamilton Araújo, veio a público para repetir que a política monetária é, sim, eficaz. Mas reconheceu que outras políticas do próprio governo trabalham contra.
No Brasil, o sistema de metas de inflação ainda enfrenta renitentes objeções ideológicas. Até economistas de renome entendem que os juros poderiam ser derrubados aos níveis internacionais, sem que nada de grave ocorresse com a inflação. Outros insistem em que juro alto é resultado de conspiração de interesses, entre banqueiros, rentistas e capital internacional, com o objetivo de ganhar dinheiro fácil à custa da dívida pública brasileira. Muitos empresários concordam com isso e a cada reunião do Copom já têm previamente redigidas declarações de que a nova alta de juros é absurda porque só eleva os custos das empresas e não atua no combate à inflação.
A política monetária é um mecanismo que regula o volume de dinheiro na economia. Se a inflação está forte demais, o BC retira moeda (aumenta os juros) e, com isso, reduz combustível no motor. Se a inflação está mais fraca, pode voltar a injetar dinheiro e o maior volume de combustível concorre para aumentar a atividade econômica.
Hamilton reconhece que algumas correias de transmissão desse mecanismo estão emperradas e, por isso, a "taxa neutra de juros", isto é, aquele nível dos juros que não produzem nem derrubam a inflação pode ter subido muito no Brasil.
É que, se o governo gasta demais como agora, o dinheiro retirado pelo BC é reinjetado pelo Tesouro, por meio de pagamento de despesas públicas. Ou então, se o governo exige que determinado volume de recursos dos bancos vá obrigatoriamente para o financiamento da agricultura ou da casa própria; ou se o BNDES está sempre disposto a irrigar com crédito a juros subsidiados empresas que nem precisariam dessas bondades, é combustível adicional para essas atividades. Se, além disso, o governo define que certas tarifas, como as de energia elétrica, dos combustíveis ou dos transportes urbanos, fiquem congeladas, também para esses setores, não adianta elevar ou reduzir os juros, porque os preços ficam onde estão. Ou seja, só aí, mais de 25% dos preços (preços administrados) não são atingidos pelos juros.
Mas, se a política monetária é entendida como dança da chuva e se o BC está sendo obrigado a defender sua razão de ser, como é que pode seguir comandando as expectativas, uma de suas principais funções na defesa da moeda?
Os dirigentes do Banco Central (BC) estão se sentindo na obrigação de explicar que não promovem uma inútil dança da chuva para acabar com a inflação. É que depois de 12 meses de alta seguida dos juros básicos, num total de 3,75 pontos porcentuais, para a altura dos 11% ao ano, a escalada continua.
"A política monetária não funciona", provocam os céticos de dentro e de fora do governo Dilma. "Funciona, sim, mas está sendo atrapalhada pelo governo", proclama o outro lado.
Quando a presidente Dilma ou as autoridades do Ministério da Fazenda insistem em que a inflação braba não é culpa do governo, mas de choques de oferta provocados pela seca, também passam o recado ao BC de que não adianta insistir com os juros. A oferta de tomate ou de batata só vai se normalizar, argumentam, quando as culturas se recuperarem da seca.
Quarta-feira, o diretor de Política Econômica do BC, Carlos Hamilton Araújo, veio a público para repetir que a política monetária é, sim, eficaz. Mas reconheceu que outras políticas do próprio governo trabalham contra.
No Brasil, o sistema de metas de inflação ainda enfrenta renitentes objeções ideológicas. Até economistas de renome entendem que os juros poderiam ser derrubados aos níveis internacionais, sem que nada de grave ocorresse com a inflação. Outros insistem em que juro alto é resultado de conspiração de interesses, entre banqueiros, rentistas e capital internacional, com o objetivo de ganhar dinheiro fácil à custa da dívida pública brasileira. Muitos empresários concordam com isso e a cada reunião do Copom já têm previamente redigidas declarações de que a nova alta de juros é absurda porque só eleva os custos das empresas e não atua no combate à inflação.
A política monetária é um mecanismo que regula o volume de dinheiro na economia. Se a inflação está forte demais, o BC retira moeda (aumenta os juros) e, com isso, reduz combustível no motor. Se a inflação está mais fraca, pode voltar a injetar dinheiro e o maior volume de combustível concorre para aumentar a atividade econômica.
Hamilton reconhece que algumas correias de transmissão desse mecanismo estão emperradas e, por isso, a "taxa neutra de juros", isto é, aquele nível dos juros que não produzem nem derrubam a inflação pode ter subido muito no Brasil.
É que, se o governo gasta demais como agora, o dinheiro retirado pelo BC é reinjetado pelo Tesouro, por meio de pagamento de despesas públicas. Ou então, se o governo exige que determinado volume de recursos dos bancos vá obrigatoriamente para o financiamento da agricultura ou da casa própria; ou se o BNDES está sempre disposto a irrigar com crédito a juros subsidiados empresas que nem precisariam dessas bondades, é combustível adicional para essas atividades. Se, além disso, o governo define que certas tarifas, como as de energia elétrica, dos combustíveis ou dos transportes urbanos, fiquem congeladas, também para esses setores, não adianta elevar ou reduzir os juros, porque os preços ficam onde estão. Ou seja, só aí, mais de 25% dos preços (preços administrados) não são atingidos pelos juros.
Mas, se a política monetária é entendida como dança da chuva e se o BC está sendo obrigado a defender sua razão de ser, como é que pode seguir comandando as expectativas, uma de suas principais funções na defesa da moeda?
A rebelião do IBGE - SUELY CALDAS
O ESTADO DE S. PAULO - 20/04
Nesta crise (mais uma!) vivida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nos últimos dias faltou uma reflexão: o que aconteceria se os funcionários do IBGE cedessem à pressão política de dois senadores e prevalecesse a decisão de suspender a divulgação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua?
No Requerimento de Informação que enviaram ao IBGE, Gleisi Hoff-mann (PT-PR) e Armando Monteiro (PTB-PE) sugeriram a "reestruturação da metodologia da pesquisa" para evitar "avaliação equivocada ae parte dos Estados". Comparado à equipe do IBGE que trabalhou muitos anos para estruturar a pesquisa e enquadrar sua metodologia nos padrões de qualidade internacionais, o conhecimento técnico e científico dos dois senadores sobre o assunto é zero, nulo, um retrocesso. Ou seja, eles questionam o que não conhecem e foram mais longe, propondo que o IBGE ouça argumentos de governadores.
O que está por trás da investida dos senadores é o rateio de dinheiro,entre Estados, do Fundo de Participação dos Estados (FPE), que será definido com base na renda domiciliar per capita, calculada pela Pnad Contínua para cada Estado da Federação.
Quando se trata de ratear dinheiro público, a classe política costuma ser extremamente zelosa, rigorosa e atenta - claro, no sentido de nada perder e de levar tudo o que for possível. Daí o questionamento dos atentos senadores. E não só deles. Em entrevista ao jornal O Globo} a presidente do IBGE, Wasmália Bivar, confessa ter sido questionada por muitos outros políticos sobre o assunto. Trata-se de mais um capítulo da interminável novela da interferência política em áreas técnicas, que o governo deveria tratar de barrar. É o ponto que merece reflexão: a mão grande da classe política sobre o dinheiro público não pode seguir prevalecendo acima dos interesses das instituições e da população. A imediata e oportuna rebelião dos técnicos do IBGE parece ter virado esse jogo. Voltaremos a ele adiante.
A direção do IBG E reconhece o equívoco de vir trabalhando com o crono-grama errado: o prazo da lei para os dados da renda domiciliar per capita que balizarão o rateio do FPE é janeiro ae 2015 e o IBGE contava conclui-los em dezembro de 2015. Essa diferença de prazos teria levado a direção do Instituto a suspender a divulgação da Pnad Contínua, que mede a taxa de desemprego do País e em cada Estado e cuja metodologia passou por rigorosos testes antes de ser validada. O que tem que ver uma coisa com a outra? A presidente do IBGE argumenta que o prazo encurtado força mudar a metodologia da Pnad Contínua, que será usada também para calcular a renda domiciliar.
A suspensão da divulgação e a expectativa de mudar uma metodologia que levou anos sendo aperfeiçoada provocaram uma rebelião jamais vista no IBGE. Duas diretoras se demitiram, os demais puseram os cargos à disposição, 45 técnicos assinaram um comunicado garantindo não haver razão para interromper a divulgação, manifestações de protesto de funcionários ocorreram em várias capitais e não está descartada uma greve.
Em 80 anos de existência o IBGE construiu reputação de qualidade técnica, independência, seriedade e respeito, inclusive no exterior. Essa imagem não pode ser abalada por ingerência política de quem não conhece um centésimo do conteúdo do trabalho do corpo técnico. A rebelião fez a direção do IBGE recuar, e tudo indica que a divulgação da pesquisa não será interrompida. Mas restam duas dúvidas: o que realmente motivou a direção do IBGE a tomar posição tão oposta ao seu perfil técnico? A continuidade da divulgação e do cálculo dos da- dos da Pnad Contínua garante a manutenção da metodologia? Ou a direção do IBGE pretende mudá-la para atender a classe política?
Felizmente, os funcionários conseguiram virar o jogo. Já pensou se eles cedem às pressões que buscam moldar o trabalho técnico a interesses políticos? As pesquisas do IBGE servem, entre outros fins, para planejar investimentos e definir políticas públicas, como a do rateio do FPE em questão. Já imaginou se a cada formato delas a classe política opine, como quer a senadora Gleisi Hoffmann? Vai virar uma bagunça geral, alvo de disputa de demandas, cada um tentando emplacar a sua. E, se abrir a porteira para um boi, atrás vem uma abundante boiada. Aí, senadora, é que os questionamentos jurídicos vão prosperar.
0 PT e a democracia. As freqüentes interferências dos governos do PT em instituições públicas refletem um despreparado e obtuso entendimento do significado de Democracia, com letra maiúscula. Porque foram eleitos pelo voto, os petistas se consideram com direitos absolutos para intervir em qualquer esfera do governo. Tal prática está mais para autoritarismo do que para uma verdadeira Democracia.
São raros os quadros do PT que sabem, por exemplo, diferenciar funções de governo de funções de Estado. O IBGE, o Banco Central, a Receita Federal, a Polícia Federal, as agências reguladoras, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) são instituições típicas de Estado, precisam atuar longe de influências políticas, com independência, autonomia e isenção para executarem sua missão de servirá sociedade. Governos são transitórios, Estado é permanente. Mas parece que a senadora Gleisi Hoffmann não entende ou não aceita essa regra da Democracia. E não só ela.
Ao chegar ao governo, em 2003, o ex-presidente Lula reclamou das agências reguladoras: "Terceirizaram o governo", espantou-se, referindo- se à autonomia de ação e decisão das agências, que logo ele tratou de destruir. Outro exemplo de uso político: com a função de denunciar transações bancárias suspeitas, o Coaf (subordinado ao Ministério da Fazenda) identificou, e nada fez contra, mais de uma centena de saques em dinheiro vivo, de valores entre RS 100 mil e R$5 400 mil, efetuados entre 2003 e 2005 pelas empresas do operador do mensalão, Marcos Valério. Pela lei, o Coaf é obrigado a comunicar ao Ministério Público saques ou depósitos em dinheiro de valores acima de 10 mil. Mas os do mensalão passaram batido, o Coaf não viu nenhum.
Hoje o Coaf atua com maior autonomia. Que o governo e os políticos tratem o IBGE com igual respeito.
Nesta crise (mais uma!) vivida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nos últimos dias faltou uma reflexão: o que aconteceria se os funcionários do IBGE cedessem à pressão política de dois senadores e prevalecesse a decisão de suspender a divulgação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua?
No Requerimento de Informação que enviaram ao IBGE, Gleisi Hoff-mann (PT-PR) e Armando Monteiro (PTB-PE) sugeriram a "reestruturação da metodologia da pesquisa" para evitar "avaliação equivocada ae parte dos Estados". Comparado à equipe do IBGE que trabalhou muitos anos para estruturar a pesquisa e enquadrar sua metodologia nos padrões de qualidade internacionais, o conhecimento técnico e científico dos dois senadores sobre o assunto é zero, nulo, um retrocesso. Ou seja, eles questionam o que não conhecem e foram mais longe, propondo que o IBGE ouça argumentos de governadores.
O que está por trás da investida dos senadores é o rateio de dinheiro,entre Estados, do Fundo de Participação dos Estados (FPE), que será definido com base na renda domiciliar per capita, calculada pela Pnad Contínua para cada Estado da Federação.
Quando se trata de ratear dinheiro público, a classe política costuma ser extremamente zelosa, rigorosa e atenta - claro, no sentido de nada perder e de levar tudo o que for possível. Daí o questionamento dos atentos senadores. E não só deles. Em entrevista ao jornal O Globo} a presidente do IBGE, Wasmália Bivar, confessa ter sido questionada por muitos outros políticos sobre o assunto. Trata-se de mais um capítulo da interminável novela da interferência política em áreas técnicas, que o governo deveria tratar de barrar. É o ponto que merece reflexão: a mão grande da classe política sobre o dinheiro público não pode seguir prevalecendo acima dos interesses das instituições e da população. A imediata e oportuna rebelião dos técnicos do IBGE parece ter virado esse jogo. Voltaremos a ele adiante.
A direção do IBG E reconhece o equívoco de vir trabalhando com o crono-grama errado: o prazo da lei para os dados da renda domiciliar per capita que balizarão o rateio do FPE é janeiro ae 2015 e o IBGE contava conclui-los em dezembro de 2015. Essa diferença de prazos teria levado a direção do Instituto a suspender a divulgação da Pnad Contínua, que mede a taxa de desemprego do País e em cada Estado e cuja metodologia passou por rigorosos testes antes de ser validada. O que tem que ver uma coisa com a outra? A presidente do IBGE argumenta que o prazo encurtado força mudar a metodologia da Pnad Contínua, que será usada também para calcular a renda domiciliar.
A suspensão da divulgação e a expectativa de mudar uma metodologia que levou anos sendo aperfeiçoada provocaram uma rebelião jamais vista no IBGE. Duas diretoras se demitiram, os demais puseram os cargos à disposição, 45 técnicos assinaram um comunicado garantindo não haver razão para interromper a divulgação, manifestações de protesto de funcionários ocorreram em várias capitais e não está descartada uma greve.
Em 80 anos de existência o IBGE construiu reputação de qualidade técnica, independência, seriedade e respeito, inclusive no exterior. Essa imagem não pode ser abalada por ingerência política de quem não conhece um centésimo do conteúdo do trabalho do corpo técnico. A rebelião fez a direção do IBGE recuar, e tudo indica que a divulgação da pesquisa não será interrompida. Mas restam duas dúvidas: o que realmente motivou a direção do IBGE a tomar posição tão oposta ao seu perfil técnico? A continuidade da divulgação e do cálculo dos da- dos da Pnad Contínua garante a manutenção da metodologia? Ou a direção do IBGE pretende mudá-la para atender a classe política?
Felizmente, os funcionários conseguiram virar o jogo. Já pensou se eles cedem às pressões que buscam moldar o trabalho técnico a interesses políticos? As pesquisas do IBGE servem, entre outros fins, para planejar investimentos e definir políticas públicas, como a do rateio do FPE em questão. Já imaginou se a cada formato delas a classe política opine, como quer a senadora Gleisi Hoffmann? Vai virar uma bagunça geral, alvo de disputa de demandas, cada um tentando emplacar a sua. E, se abrir a porteira para um boi, atrás vem uma abundante boiada. Aí, senadora, é que os questionamentos jurídicos vão prosperar.
0 PT e a democracia. As freqüentes interferências dos governos do PT em instituições públicas refletem um despreparado e obtuso entendimento do significado de Democracia, com letra maiúscula. Porque foram eleitos pelo voto, os petistas se consideram com direitos absolutos para intervir em qualquer esfera do governo. Tal prática está mais para autoritarismo do que para uma verdadeira Democracia.
São raros os quadros do PT que sabem, por exemplo, diferenciar funções de governo de funções de Estado. O IBGE, o Banco Central, a Receita Federal, a Polícia Federal, as agências reguladoras, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) são instituições típicas de Estado, precisam atuar longe de influências políticas, com independência, autonomia e isenção para executarem sua missão de servirá sociedade. Governos são transitórios, Estado é permanente. Mas parece que a senadora Gleisi Hoffmann não entende ou não aceita essa regra da Democracia. E não só ela.
Ao chegar ao governo, em 2003, o ex-presidente Lula reclamou das agências reguladoras: "Terceirizaram o governo", espantou-se, referindo- se à autonomia de ação e decisão das agências, que logo ele tratou de destruir. Outro exemplo de uso político: com a função de denunciar transações bancárias suspeitas, o Coaf (subordinado ao Ministério da Fazenda) identificou, e nada fez contra, mais de uma centena de saques em dinheiro vivo, de valores entre RS 100 mil e R$5 400 mil, efetuados entre 2003 e 2005 pelas empresas do operador do mensalão, Marcos Valério. Pela lei, o Coaf é obrigado a comunicar ao Ministério Público saques ou depósitos em dinheiro de valores acima de 10 mil. Mas os do mensalão passaram batido, o Coaf não viu nenhum.
Hoje o Coaf atua com maior autonomia. Que o governo e os políticos tratem o IBGE com igual respeito.
O Brasil rebaixado - SACHA CALMONA
CORREIO BRAZILIENSE - 20/04
O rebaixamento do Brasil de BBB para BBB- (mas com viés de estável) foi extremamente generoso. O nosso caso é muito mais grave do que se pensa. Se os governantes brasileiros - ao que parece, "bolivarianos" - continuarem a tratar tão primariamente a economia do país, como acontece na Venezuela e na Argentina, em menos de 18 meses estaremos em situação crítica.
O modelo econômico idealizado pela dupla Dilma/Mantega está completamente falido. Depois de desestruturar as matrizes elétricas (Eletrobras e Petrobras), estamos praticando ativamente o controle de preços fundamentais da economia: o da energia elétrica, o dos combustíveis fósseis e os das tarifas de transporte. Se não estivessem garroteados, a nossa inflação estaria girando a 8% ao ano, numa espiral de alta. Enquanto os preços livres giram a 6%, os administrados correm a 2%. Os efeitos danosos são inúmeros, porém três são os mais deletérios.
Em primeiro lugar vem o efeito do aumento do deficit público, por bancar o "congelamento" (subsídio governamental), comprometendo o caixa do Tesouro, o BNDES, o BB e a geração de recursos próprios pelo sistema elétrico e a Petrobras, cada vez mais endividada e sem poder de investimento.
O segundo efeito é que tais preços entram no custo de quase todos os preços da economia. Energia elétrica, combustíveis e transportes são insumos universais que entram na composição dos preços relativos (que foram alinhados pela URV e pelo Plano Real). A política econômica de Dilma é irracional, mas ela e seus áulicos acreditam que estão certos e persistem no erro.
O terceiro efeito danoso é que um dia esses preços vão subir, ou melhor, cair na realidade, ou a economia entrará em transe, como na Venezuela e na Argentina, onde o mesmo receituário foi aplicado à risca: controle de preços; uso da máquina pública e das estatais para programas sociais de estímulo ao consumo (gerando inflação, queda do investimento, fuga de capitais e desabastecimento).
Vale dizer: a continuar assim, caminhamos a passos largos para a desorganização da economia nacional. Para acabar com essa descida ao inferno, será preciso aumentar os preços da energia em 28% e os dos combustíveis em 30% e liberar as tarifas de transportes, o que provocaria, num primeiro momento, um aumento generalizado de preços (realinhamento inevitável), mas que obrigaria de imediato os consumidores (pessoas jurídicas e privadas) ao uso comedido da energia e dos combustíveis (autocontrole e inovações para economizar), devolvendo aos sistemas elétrico, de petróleo e gás capacidade de investimento, além de ressuscitar o etanol, enterrado pelo preço controlado da gasolina.
Sob a desculpa de que isso provocaria retração e queda no emprego e na renda, o governo prossegue no rumo errado. Mas lá na frente será pior. Ao invés de retração, haverá recessão. Ao revés de queda no emprego, haverá desemprego em massa, perda de crédito, queima das reservas cambiais e descrédito internacional. Tudo indica que o governo, primeiro, quer ganhar as eleições. Mas aumentará os preços administrados logo, sob pena de sofrer novos rebaixamentos. Não serão os aumentos suficientes, serão paulatinos. O governo age não por vontade própria, mas empurrado pelas análises do FMI, do Banco Mundial, da OMC e das agências de risco. Tudo à meia boca, de olho nas eleições.
O fraco desempenho das exportações brasileiras, com impacto no saldo comercial de 2014, evidencia o isolamento do país no comércio global. O Brasil vendia muito petróleo para os americanos, mas tivemos problemas com a produção, ao mesmo tempo em que eles aumentaram a exploração do gás de xisto. Os europeus, por causa da crise, tomaram outros mercados e conseguiram espaço no Brasil.
Para a Argentina, vão 50% dos nossos produtos manufaturados e 87% dos nossos automóveis exportados. O país vizinho está em crise cambial e a situação é péssima, sem conserto. Depois da tempestade de 2013, vem a falta de ar em 2014! O jeito é ouvir um tango, enquanto Dilma pensa em sua reeleição. Conseguirá? Depende de nós.
A grande indagação é: se Dilma for reeleita, mudará a receita econômica que está nos levando ao caos? Marco Aurélio Garcia, conselheiro da presidente, disse que a Venezuela passa por uma "crise de crescimento" (a indústria não deu conta do aumento da renda). Omitiu que 50% das fábricas fecharam. Mantega disse que a recuperação da Europa e dos EUA nos trará a bonança. É um vendedor de ilusões. Eles estão é entrando em nossos mercados, pois não temos competitividade, tamanho o sufoco tributário e os "gastos sociais" do governo, perdulário e populista. Pelas demonstrações de seus funcionários e assessores mais graduados, é possível medir o pensamento da atual presidente do Brasil. A vitória de Dilma fará o Brasil enfrentar sua primeira crise estrutural do século 21.
O modelo econômico idealizado pela dupla Dilma/Mantega está completamente falido. Depois de desestruturar as matrizes elétricas (Eletrobras e Petrobras), estamos praticando ativamente o controle de preços fundamentais da economia: o da energia elétrica, o dos combustíveis fósseis e os das tarifas de transporte. Se não estivessem garroteados, a nossa inflação estaria girando a 8% ao ano, numa espiral de alta. Enquanto os preços livres giram a 6%, os administrados correm a 2%. Os efeitos danosos são inúmeros, porém três são os mais deletérios.
Em primeiro lugar vem o efeito do aumento do deficit público, por bancar o "congelamento" (subsídio governamental), comprometendo o caixa do Tesouro, o BNDES, o BB e a geração de recursos próprios pelo sistema elétrico e a Petrobras, cada vez mais endividada e sem poder de investimento.
O segundo efeito é que tais preços entram no custo de quase todos os preços da economia. Energia elétrica, combustíveis e transportes são insumos universais que entram na composição dos preços relativos (que foram alinhados pela URV e pelo Plano Real). A política econômica de Dilma é irracional, mas ela e seus áulicos acreditam que estão certos e persistem no erro.
O terceiro efeito danoso é que um dia esses preços vão subir, ou melhor, cair na realidade, ou a economia entrará em transe, como na Venezuela e na Argentina, onde o mesmo receituário foi aplicado à risca: controle de preços; uso da máquina pública e das estatais para programas sociais de estímulo ao consumo (gerando inflação, queda do investimento, fuga de capitais e desabastecimento).
Vale dizer: a continuar assim, caminhamos a passos largos para a desorganização da economia nacional. Para acabar com essa descida ao inferno, será preciso aumentar os preços da energia em 28% e os dos combustíveis em 30% e liberar as tarifas de transportes, o que provocaria, num primeiro momento, um aumento generalizado de preços (realinhamento inevitável), mas que obrigaria de imediato os consumidores (pessoas jurídicas e privadas) ao uso comedido da energia e dos combustíveis (autocontrole e inovações para economizar), devolvendo aos sistemas elétrico, de petróleo e gás capacidade de investimento, além de ressuscitar o etanol, enterrado pelo preço controlado da gasolina.
Sob a desculpa de que isso provocaria retração e queda no emprego e na renda, o governo prossegue no rumo errado. Mas lá na frente será pior. Ao invés de retração, haverá recessão. Ao revés de queda no emprego, haverá desemprego em massa, perda de crédito, queima das reservas cambiais e descrédito internacional. Tudo indica que o governo, primeiro, quer ganhar as eleições. Mas aumentará os preços administrados logo, sob pena de sofrer novos rebaixamentos. Não serão os aumentos suficientes, serão paulatinos. O governo age não por vontade própria, mas empurrado pelas análises do FMI, do Banco Mundial, da OMC e das agências de risco. Tudo à meia boca, de olho nas eleições.
O fraco desempenho das exportações brasileiras, com impacto no saldo comercial de 2014, evidencia o isolamento do país no comércio global. O Brasil vendia muito petróleo para os americanos, mas tivemos problemas com a produção, ao mesmo tempo em que eles aumentaram a exploração do gás de xisto. Os europeus, por causa da crise, tomaram outros mercados e conseguiram espaço no Brasil.
Para a Argentina, vão 50% dos nossos produtos manufaturados e 87% dos nossos automóveis exportados. O país vizinho está em crise cambial e a situação é péssima, sem conserto. Depois da tempestade de 2013, vem a falta de ar em 2014! O jeito é ouvir um tango, enquanto Dilma pensa em sua reeleição. Conseguirá? Depende de nós.
A grande indagação é: se Dilma for reeleita, mudará a receita econômica que está nos levando ao caos? Marco Aurélio Garcia, conselheiro da presidente, disse que a Venezuela passa por uma "crise de crescimento" (a indústria não deu conta do aumento da renda). Omitiu que 50% das fábricas fecharam. Mantega disse que a recuperação da Europa e dos EUA nos trará a bonança. É um vendedor de ilusões. Eles estão é entrando em nossos mercados, pois não temos competitividade, tamanho o sufoco tributário e os "gastos sociais" do governo, perdulário e populista. Pelas demonstrações de seus funcionários e assessores mais graduados, é possível medir o pensamento da atual presidente do Brasil. A vitória de Dilma fará o Brasil enfrentar sua primeira crise estrutural do século 21.
Estilos em confronto - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 20/04
Ao que tudo indica teremos na campanha eleitoral para presidente da República, este ano, uma disputa de estilos de fazer política que testará até que ponto chega a desilusão do eleitor, e se está mesmo superada a maneira de se aproximar do cidadão através de máquinas eleitorais tradicionais.
O choque entre a política partidária e a das mídias sociais será visto internamente, na campanha da chapa Eduardo Campos - Marina Silva, e também na disputa entre os três principais candidatos, que já estão trabalhando com as mídias sociais, mas em intensidades distintas. O uso das novas tecnologias deverá ser mais intenso na campanha do PSB, por influência dos marineiros , mas, sobretudo, por imposição de um pragmatismo irrecusável: o partido não tem estrutura para sustentar uma campanha presidencial disputada, como será esta.
A ideia, defendida por Marina, de que a campanha se fará através de ondas de disseminação de projetos pelos grupos de eleitores, independentemente das máquinas partidárias, prevalece, para marcar a chapa como a esperança de um novo tempo político. Ao contrário de disputar com seu adversário cordial Aécio Neves os palanques regionais, como faziam no início da campanha, o ex-governador de Pernambuco decidiu explicitar uma discordância com a política tradicional, que até aqui o tinha levado a posições de destaque.
Nada tem de banal a afirmação de que levará o PMDB para a oposição se vencer a eleição presidencial. Com isso, Campos tenta se firmar como candidato da ruptura com o que chama de velha política , apesar das contradições inerentes à sua vida partidária pregressa, e promete quebrar uma norma da política brasileira do período recente, a de que ninguém governa sem o apoio do PMDB. Com essa postura, muito devida à pressão do grupo de Marina, Campos está abrindo mão de palanques fortes, e não apenas contra o PMDB. No Rio Grande do Sul, perdeu o apoio da candidata favorita ao governo, a senadora Ana Amélia do PP, que fechou acordo com o candidato do PSDB, Aécio Neves.
Em São Paulo, pode deixar o palanque do governador Geraldo Alckmin, uma aliança que seria natural já que seu partido apoia o governador tucano desde o início do governo. E no Rio terá como suporte a candidatura do deputado federal Miro Teixeira, um dos principais aliados da Rede, de Marina.
Como Marina foi muito bem votada nos principais estados, ela impôs como premissa da aliança com o PSB ter candidaturas próprias neles, em vez do apoio de máquinas estaduais tradicionais. As dificuldades que essa estratégia traz para a formação de palanques regionais teriam de ser compensadas pela transferência de votos de Marina, não concretizada nas pesquisas.
A aposta é que a transferência não se faz da noite para o dia, mas pela confirmação de um estilo de fazer política que leva a uma identificação com os anseios do eleitorado. As ondas de contaminação ocorrem em ritmo próprio, como o que aconteceu com Marina em 2010, ou com Fernando Gabeira na disputa pela prefeitura do Rio, em 2008.
Ao contrário, o candidato do PSDB, senador Aécio Neves, está empenhado em montar palanques regionais na base da política tradicional e de muitos acordos de bastidores. No Rio, já recebeu o apoio de parte considerável do PMDB e nos próximos dias terá o de partidos como o PP, PSD e Solidariedade, todos da base do ex-governador Sérgio Cabral e da presidente Dilma. Na Bahia, terá uma coligação heterodoxa em nível nacional, mas com amplo alcance na regional, com PMDB e DEM. No Maranhão, fechou acordo com o PCdoB do favorito à eleição para governador, Flávio Dino.
Os movimentos de Aécio mexem com a estrutura partidária que está fora de acordos oficiais, pois é pouco provável que ele consiga apoio formal de partidos da base do governo, que darão seu tempo de TV à reeleição de Dilma. O PT nunca esteve em um papel tão oficialista quanto nesta eleição, dependendo mais de sua força institucional, que gera poder e dinheiro, como o principal partido de apoio ao governo. Sua força eleitoral não tem mais aquele componente moral que já deu ao PT a liderança da mudança política. Ao contrário, hoje, depois de 12 anos de governo, representa a maior força conservadora do país, e utiliza a máquina governamental para garantir a permanência no poder. Com todo o desgaste que essa posição acarreta.
O choque entre a política partidária e a das mídias sociais será visto internamente, na campanha da chapa Eduardo Campos - Marina Silva, e também na disputa entre os três principais candidatos, que já estão trabalhando com as mídias sociais, mas em intensidades distintas. O uso das novas tecnologias deverá ser mais intenso na campanha do PSB, por influência dos marineiros , mas, sobretudo, por imposição de um pragmatismo irrecusável: o partido não tem estrutura para sustentar uma campanha presidencial disputada, como será esta.
A ideia, defendida por Marina, de que a campanha se fará através de ondas de disseminação de projetos pelos grupos de eleitores, independentemente das máquinas partidárias, prevalece, para marcar a chapa como a esperança de um novo tempo político. Ao contrário de disputar com seu adversário cordial Aécio Neves os palanques regionais, como faziam no início da campanha, o ex-governador de Pernambuco decidiu explicitar uma discordância com a política tradicional, que até aqui o tinha levado a posições de destaque.
Nada tem de banal a afirmação de que levará o PMDB para a oposição se vencer a eleição presidencial. Com isso, Campos tenta se firmar como candidato da ruptura com o que chama de velha política , apesar das contradições inerentes à sua vida partidária pregressa, e promete quebrar uma norma da política brasileira do período recente, a de que ninguém governa sem o apoio do PMDB. Com essa postura, muito devida à pressão do grupo de Marina, Campos está abrindo mão de palanques fortes, e não apenas contra o PMDB. No Rio Grande do Sul, perdeu o apoio da candidata favorita ao governo, a senadora Ana Amélia do PP, que fechou acordo com o candidato do PSDB, Aécio Neves.
Em São Paulo, pode deixar o palanque do governador Geraldo Alckmin, uma aliança que seria natural já que seu partido apoia o governador tucano desde o início do governo. E no Rio terá como suporte a candidatura do deputado federal Miro Teixeira, um dos principais aliados da Rede, de Marina.
Como Marina foi muito bem votada nos principais estados, ela impôs como premissa da aliança com o PSB ter candidaturas próprias neles, em vez do apoio de máquinas estaduais tradicionais. As dificuldades que essa estratégia traz para a formação de palanques regionais teriam de ser compensadas pela transferência de votos de Marina, não concretizada nas pesquisas.
A aposta é que a transferência não se faz da noite para o dia, mas pela confirmação de um estilo de fazer política que leva a uma identificação com os anseios do eleitorado. As ondas de contaminação ocorrem em ritmo próprio, como o que aconteceu com Marina em 2010, ou com Fernando Gabeira na disputa pela prefeitura do Rio, em 2008.
Ao contrário, o candidato do PSDB, senador Aécio Neves, está empenhado em montar palanques regionais na base da política tradicional e de muitos acordos de bastidores. No Rio, já recebeu o apoio de parte considerável do PMDB e nos próximos dias terá o de partidos como o PP, PSD e Solidariedade, todos da base do ex-governador Sérgio Cabral e da presidente Dilma. Na Bahia, terá uma coligação heterodoxa em nível nacional, mas com amplo alcance na regional, com PMDB e DEM. No Maranhão, fechou acordo com o PCdoB do favorito à eleição para governador, Flávio Dino.
Os movimentos de Aécio mexem com a estrutura partidária que está fora de acordos oficiais, pois é pouco provável que ele consiga apoio formal de partidos da base do governo, que darão seu tempo de TV à reeleição de Dilma. O PT nunca esteve em um papel tão oficialista quanto nesta eleição, dependendo mais de sua força institucional, que gera poder e dinheiro, como o principal partido de apoio ao governo. Sua força eleitoral não tem mais aquele componente moral que já deu ao PT a liderança da mudança política. Ao contrário, hoje, depois de 12 anos de governo, representa a maior força conservadora do país, e utiliza a máquina governamental para garantir a permanência no poder. Com todo o desgaste que essa posição acarreta.
Quando a verdade doía - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 20/04
BRASÍLIA - Nada como um dia após o outro para impor os fatos sobre as versões e mostrar quem é quem.
ministro da Fazenda de Itamar Franco, duas décadas atrás, o embaixador Rubens Ricupero foi derrubado pelo PT por uma conversa informal com um jornalista em que ele dizia poucas e boas verdades, dessas que políticos não falam.
Naqueles tempos, antes da massificação da internet e dos celulares, a conversa foi captada por antena parabólica. Acabou na campanha do PT e transformada em escândalo. Itamar não resistiu à pressão petista e Ricupero caiu por uma bobagem.
O que ele falou de tão grave? Foi mais ou menos assim: "O que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde". Pura verdade, válida para todos os governos de antes e de depois. Atire a primeira pedra o presidente --ou "presidenta"-- que nunca seguiu essa cartilha.
Vejamos com Dilma: a maquiagem dos dados fiscais; a propaganda dos juros baixos e o silêncio nos juros altos; a badalação eleitoral do PAC e o atual esquecimento; os holofotes sobre os bons índices de emprego e a suspensão da Pnad Contínua... Tudo isso é o quê? A máxima de Ricupero.
Já que falamos da Pnad Contínua, que mexeu com os brios do IBGE, uma das mais respeitadas instituições brasileiras, aqui vai uma sugestão: ouvir a fala de Ricupero que lhe custou um dos cargos mais importantes da República em 1994. Tem cópia no YouTube.
Ele citou, por exemplo, a suspeita de que o IBGE estava virando um "covil do PT". Lembre-se de que o PT recusou apoio a Itamar --que encarnou consensualmente a transição pós-Collor. Luiza Erundina, um dos ícones éticos do país, rebelou-se, aliou-se a Itamar e foi praticamente banida. Soa inacreditável.
Se na oposição o PT já estava infiltrado nas instituições, imagine-se como ficou ao chegar ao poder...
P.S.: Gabriel García Márquez, esse, sim, é verdadeiramente imortal.
O abominável legado da Copa - EDITORIAL - CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 20/04
Amazonas, Ceará, Pernambuco, Bahia. Em portos desses estados, salta aos olhos a vulnerabilidade de crianças e adolescentes, sujeitos a todo tipo de exploração. O legado da Copa do Mundo para esses menores chegou antecipadamente, por vias transversas, na forma de piora da qualidade de vida, como a confirmar a máxima de que notícia ruim anda mais rápido. É que, longe de trazer cidadania, obras de revitalização e evolução econômica em áreas portuárias (mas não apenas) têm expulsado e desagregado famílias, agravando o problema.
Essa realidade foi exposta ao longo da última semana na série de reportagens "Cais do abandono", publicada pelo Correio Braziliense. Para cidadãos colocados no caminho do "progresso", restou mais marginalidade. É o caso, por exemplo, do VLT que cruza 20 bairros de Fortaleza. Num deles, ironicamente conhecido como Alto da Paz, máquinas da prefeitura apareceram antes do transporte moderno, demolindo barracos que abrigavam 400 famílias. Para a comunidade, a data entrou para a história como Dia do Desespero.
Pessoas postas à margem da sociedade e que, de repente, ficam até sem os barracos e os vizinhos (não raro, parentes separados à força), se veem num quadro de fragilidade ainda maior. Algumas delas tiveram o lar derrubado para que se construísse uma praça. Outras, paradoxalmente, terminaram ao relento para que os terrenos em que viviam abrissem espaço a promessas de conjuntos habitacionais, com o suposto direito a casas, serviços públicos e regularização fundiária, enquanto enfrentam mais desamparo. Faltam inclusive canais de comunicação, informações precisas, espécie de garantia, nem que seja para o futuro.
Primeiro, o Estado falha ao não assegurar direitos fundamentais aos cidadãos. Depois, omite-se perante a força do poder econômico e os interesses do mercado imobiliário. Em seguida, terá de buscar soluções para problemas mais graves, como a exploração do trabalho infantojuvenil, o abuso sexual de menores, o envolvimento de crianças e adolescentes com o consumo e o tráfico de drogas, a explosão da já intolerável violência. As autoridades precisam abrir os olhos para as consequências dos próprios atos. Não bastam as propagandas federais em que craques do futebol advertem contra esses crimes.
É inaceitável que o poder público, em nome de hipotético desenvolvimento, produza mais miséria. É inconcebível que o tal padrão Fifa sirva para definir a qualidade das obras diretamente ligadas à realização da Copa do Mundo no Brasil, sem enquadrar a questão humana no mesmo gabarito. Esse legado, o país - ciente de que o principal patrimônio de uma nação, qualquer nação, é o seu povo - há de rejeitar, com a consciência, também, que não se trata de casos isolados. A situação foi flagrada em quatro estados, num trabalho que levou 12 dias e traçou um percurso de 8 mil quilômetros.
Essa realidade foi exposta ao longo da última semana na série de reportagens "Cais do abandono", publicada pelo Correio Braziliense. Para cidadãos colocados no caminho do "progresso", restou mais marginalidade. É o caso, por exemplo, do VLT que cruza 20 bairros de Fortaleza. Num deles, ironicamente conhecido como Alto da Paz, máquinas da prefeitura apareceram antes do transporte moderno, demolindo barracos que abrigavam 400 famílias. Para a comunidade, a data entrou para a história como Dia do Desespero.
Pessoas postas à margem da sociedade e que, de repente, ficam até sem os barracos e os vizinhos (não raro, parentes separados à força), se veem num quadro de fragilidade ainda maior. Algumas delas tiveram o lar derrubado para que se construísse uma praça. Outras, paradoxalmente, terminaram ao relento para que os terrenos em que viviam abrissem espaço a promessas de conjuntos habitacionais, com o suposto direito a casas, serviços públicos e regularização fundiária, enquanto enfrentam mais desamparo. Faltam inclusive canais de comunicação, informações precisas, espécie de garantia, nem que seja para o futuro.
Primeiro, o Estado falha ao não assegurar direitos fundamentais aos cidadãos. Depois, omite-se perante a força do poder econômico e os interesses do mercado imobiliário. Em seguida, terá de buscar soluções para problemas mais graves, como a exploração do trabalho infantojuvenil, o abuso sexual de menores, o envolvimento de crianças e adolescentes com o consumo e o tráfico de drogas, a explosão da já intolerável violência. As autoridades precisam abrir os olhos para as consequências dos próprios atos. Não bastam as propagandas federais em que craques do futebol advertem contra esses crimes.
É inaceitável que o poder público, em nome de hipotético desenvolvimento, produza mais miséria. É inconcebível que o tal padrão Fifa sirva para definir a qualidade das obras diretamente ligadas à realização da Copa do Mundo no Brasil, sem enquadrar a questão humana no mesmo gabarito. Esse legado, o país - ciente de que o principal patrimônio de uma nação, qualquer nação, é o seu povo - há de rejeitar, com a consciência, também, que não se trata de casos isolados. A situação foi flagrada em quatro estados, num trabalho que levou 12 dias e traçou um percurso de 8 mil quilômetros.
Empréstimos liberados - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - 20/04
O episódio que levou a PGE a pedir até a prisão do secretário do Tesouro Nacional ajuda a jogar luzes sobre as relações entre Brasília e o Centro Cívico
Parece surreal que, para conseguir a liberação de um empréstimo de R$ 817 milhões, o governo do Paraná tenha precisado pedir a prisão do secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin. Mas o episódio, ocorrido na semana passada, lança muitas luzes sobre as dificuldades que o Paraná tem tido para receber verbas cuja liberação depende da boa vontade de Brasília.
Como já dissemos em outras ocasiões, é verdade que o governo paranaense vive na corda bamba em relação aos gastos com pessoal, frequentemente superando o limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal, embora mantendo-se sempre abaixo do limite que impede novos empréstimos. Semanas atrás, ao comentar a saída de Jozélia Nogueira da Secretaria de Estado da Fazenda, lembramos que a complicada situação fiscal do estado foi construída ao longo de vários mandatos, graças a cálculos político-eleitorais e falta de planejamento. O Executivo precisa, sim, se esforçar para caminhar mais longe do penhasco. Mas os últimos acontecimentos mostram que falta mais boa vontade em Brasília que no Centro Cívico.
Em 2012, o governo federal lançou o Programa de Apoio ao Investimento dos Estados e Distrito Federal (Proinveste), uma linha de crédito para ajudar os estados a superar os efeitos da crise financeira internacional. Todas as unidades da Federação receberam o dinheiro, menos o Paraná. A Secretaria do Tesouro Nacional (STN) se recusava a liberar os recursos alegando justamente os problemas nas contas do funcionalismo estadual. Mas, em fevereiro deste ano, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello concedeu uma liminar exigindo que a STN destravasse o empréstimo.
Mesmo assim, o Tesouro ignorou a liminar, agora alegando que o Paraná descumpriu o investimento mínimo em saúde no ano de 2013. No dia 3 de abril, Mello teve de voltar a agir, desta vez determinando multa diária de R$ 100 mil à União. Como nem isso serviu para amolecer o secretário Augustin, a Procuradoria-Geral do Estado foi novamente ao Supremo, no dia 8, pedindo o aumento da multa à União, além de uma multa pessoal ao chefe da STN e a expedição de um mandado de prisão contra ele, por crime de desobediência. Finalmente, no dia 10 de abril, o ministro do STF Luís Roberto Barroso concedeu nova liminar, referente não apenas aos R$ 817 milhões do Proinveste, mas também a outros quatro empréstimos. As cinco operações somam R$ 2,3 bilhões.
Se havia alguma dúvida quanto à alegada má vontade por parte do governo federal para com o Paraná, a atitude de Arno Augustin é reveladora do ânimo do Planalto em relação ao governo de Beto Richa. O Supremo analisou os dados e avaliou que o Paraná cumpria os requisitos para a liberação dos empréstimos; ora, decisões do STF existem para ser cumpridas, mas Augustin preferiu queimar dinheiro dos contribuintes e desafiar a autoridade da corte, tudo para manter os recursos longe dos cofres estaduais – isso apesar de, no dia 9, o secretário do Tesouro ter recebido uma comitiva suprapartidária de parlamentares paranaenses: deputados estaduais e federais, base aliada e oposição (tanto em relação a Dilma Rousseff quanto em relação a Beto Richa). Na ocasião, Augustin ainda apresentou uma nova justificativa: o dinheiro do Proinveste só não saiu porque o governo estadual teria pedido um aval da União para reduzir a taxa de juros do empréstimo, e na análise da documentação para a concessão desse aval teria aparecido a questão dos gastos com saúde.
Augustin, no entanto, está longe de ser o único criador de dificuldades para o estado. O senador Roberto Requião, que no fim de 2012 interveio para bloquear a liberação de um empréstimo de US$ 350 milhões do Banco Mundial, crédito esse que já havia sido autorizado por meio mundo – inclusive pela STN, pela presidente Dilma e pela então ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann –, fez o possível e o impossível para barrar a liberação, em uma atitude que parece mais guiada pelo desejo de prejudicar adversários políticos e alavancar a própria carreira que pelo cuidado com o Paraná. No fim do ano passado, encaminhou denúncia segundo a qual o estado descumpria a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) no que diz respeito aos gastos com pagamento de inativos. E, em fevereiro, pediu para entrar como parte na ação que culminou na primeira liminar de Marco Aurélio Mello, em mais uma tentativa de barrar o crédito. Felizmente, o pré-candidato ao governo do estado não teve êxito.
O episódio que levou a PGE a pedir até a prisão do secretário do Tesouro Nacional ajuda a jogar luzes sobre as relações entre Brasília e o Centro Cívico
Parece surreal que, para conseguir a liberação de um empréstimo de R$ 817 milhões, o governo do Paraná tenha precisado pedir a prisão do secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin. Mas o episódio, ocorrido na semana passada, lança muitas luzes sobre as dificuldades que o Paraná tem tido para receber verbas cuja liberação depende da boa vontade de Brasília.
Como já dissemos em outras ocasiões, é verdade que o governo paranaense vive na corda bamba em relação aos gastos com pessoal, frequentemente superando o limite prudencial da Lei de Responsabilidade Fiscal, embora mantendo-se sempre abaixo do limite que impede novos empréstimos. Semanas atrás, ao comentar a saída de Jozélia Nogueira da Secretaria de Estado da Fazenda, lembramos que a complicada situação fiscal do estado foi construída ao longo de vários mandatos, graças a cálculos político-eleitorais e falta de planejamento. O Executivo precisa, sim, se esforçar para caminhar mais longe do penhasco. Mas os últimos acontecimentos mostram que falta mais boa vontade em Brasília que no Centro Cívico.
Em 2012, o governo federal lançou o Programa de Apoio ao Investimento dos Estados e Distrito Federal (Proinveste), uma linha de crédito para ajudar os estados a superar os efeitos da crise financeira internacional. Todas as unidades da Federação receberam o dinheiro, menos o Paraná. A Secretaria do Tesouro Nacional (STN) se recusava a liberar os recursos alegando justamente os problemas nas contas do funcionalismo estadual. Mas, em fevereiro deste ano, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello concedeu uma liminar exigindo que a STN destravasse o empréstimo.
Mesmo assim, o Tesouro ignorou a liminar, agora alegando que o Paraná descumpriu o investimento mínimo em saúde no ano de 2013. No dia 3 de abril, Mello teve de voltar a agir, desta vez determinando multa diária de R$ 100 mil à União. Como nem isso serviu para amolecer o secretário Augustin, a Procuradoria-Geral do Estado foi novamente ao Supremo, no dia 8, pedindo o aumento da multa à União, além de uma multa pessoal ao chefe da STN e a expedição de um mandado de prisão contra ele, por crime de desobediência. Finalmente, no dia 10 de abril, o ministro do STF Luís Roberto Barroso concedeu nova liminar, referente não apenas aos R$ 817 milhões do Proinveste, mas também a outros quatro empréstimos. As cinco operações somam R$ 2,3 bilhões.
Se havia alguma dúvida quanto à alegada má vontade por parte do governo federal para com o Paraná, a atitude de Arno Augustin é reveladora do ânimo do Planalto em relação ao governo de Beto Richa. O Supremo analisou os dados e avaliou que o Paraná cumpria os requisitos para a liberação dos empréstimos; ora, decisões do STF existem para ser cumpridas, mas Augustin preferiu queimar dinheiro dos contribuintes e desafiar a autoridade da corte, tudo para manter os recursos longe dos cofres estaduais – isso apesar de, no dia 9, o secretário do Tesouro ter recebido uma comitiva suprapartidária de parlamentares paranaenses: deputados estaduais e federais, base aliada e oposição (tanto em relação a Dilma Rousseff quanto em relação a Beto Richa). Na ocasião, Augustin ainda apresentou uma nova justificativa: o dinheiro do Proinveste só não saiu porque o governo estadual teria pedido um aval da União para reduzir a taxa de juros do empréstimo, e na análise da documentação para a concessão desse aval teria aparecido a questão dos gastos com saúde.
Augustin, no entanto, está longe de ser o único criador de dificuldades para o estado. O senador Roberto Requião, que no fim de 2012 interveio para bloquear a liberação de um empréstimo de US$ 350 milhões do Banco Mundial, crédito esse que já havia sido autorizado por meio mundo – inclusive pela STN, pela presidente Dilma e pela então ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann –, fez o possível e o impossível para barrar a liberação, em uma atitude que parece mais guiada pelo desejo de prejudicar adversários políticos e alavancar a própria carreira que pelo cuidado com o Paraná. No fim do ano passado, encaminhou denúncia segundo a qual o estado descumpria a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) no que diz respeito aos gastos com pagamento de inativos. E, em fevereiro, pediu para entrar como parte na ação que culminou na primeira liminar de Marco Aurélio Mello, em mais uma tentativa de barrar o crédito. Felizmente, o pré-candidato ao governo do estado não teve êxito.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
DILMA PREFERE BOLSA FAMÍLIA À EDUCAÇÃO BÁSICA
Desde que tomou posse como presidenta da República em janeiro de 2011, Dilma Rousseff investiu mais no programa Bolsa Família do que em Educação Básica, segundo o Portal da Transparência do governo. Os gastos com a transferência de dinheiro que garante “agradecimento nas urnas” já superam os R$ 64,9 bilhões, quase 20% a mais do destinado para educação das crianças do País no mesmo período.
Exemplo do chefe
O ex-presidente Lula, mentor de Dilma, gastou R$ 47,8 bilhões com Bolsa Família em seu segundo mandato, 60% mais que em Educação.
Mais que banco
Segundo dados do Banco Central, o valor gasto pelo governo Dilma com Bolsa Família é superior aos lucros dos bancos no Brasil em 2013.
Apagão gerencial
A Eletrobras tem recorrido a empréstimos para pagar salários, e sua subsidiária Eletrosul já colocou a sede à venda pelo mesmo motivo.
Risca-faca
O senador Vital do Rêgo (PMDB-PB) resume bem a CPI criada para investigar Petrobras, Suape e Metrô de SP: “É a CPI do risca-faca”.
Em caso similar, Vargas quis punir Demóstenes
O deputado André Vargas (PT-PR), que renunciou à vice-presidência da Câmara após ser revelado seu envolvimento com um criminoso, defendeu, em 2012, investigação rigorosa da “cumplicidade” do então senador Demóstenes Tores (GO) com um “homem do crime”. Referia-se ao bicheiro Carlos Cachoeira, preso na Operação Monte Carlo. Exatamente como seu sócio Alberto Youssef, na Operação Lava-Jato.
Espelho, espelho meu
Para Vargas, a “bandeira da ética da oposição foi desmontada” quando um de seus arautos (Demóstenes) foi flagrado com o crime organizado.
Fica a dica
Ao falar de “matérias bombásticas” sobre corrupção, Vargas disse que deve haver um estoque de escutas clandestinas “lastreando” a mídia.
Pit-bull
Nos corredores do Senado, Gleisi Hoffmann (PT-PR) ganhou o apelido de “pit-bull da Dilma”, com a advertência jocosa: “Ela morde...”.
Pró-CPI
O deputado Osmar Terra (PMDB-RS), que acompanhou o depoimento do ex-diretor Nestor Cerveró, acredita que o discurso foi combinado com Planalto: “A Petrobras está no Pelourinho, precisamos investigar”
Tudo em família
Desafetos, Lula e o deputado federal e ex-prefeito de São Bernardo William Dib (PSDB-SP) trocaram figurinhas no casamento domingo (13) de uma assessora de Dib, filha de grande amigo de Lula.
‘Pilhado’
Explicado por que o deputado sai-não-sai André Vargas (PT-PR) está à beira de um ataque de nervos: torrou R$1,6 milhão de sua cota parlamentar em cafezinhos expressos de janeiro a março deste ano.
Zé Patinhas
Revolta nas redes sociais com um vídeo do filho da vice-prefeita de Parnamirim (RN) tomando uísque e rasgando uma nota de cem reais numa boate. É crime federal, com prisão de até três anos e multa.
Foco na energia
Aspirantes à Presidência, o ex-governador Eduardo Campos (PSB-PE) e a ex-senadora Marina Silva decidiram tratar da questão energética no primeiro seminário do PSB e Rede, que ocorrerá até o fim deste mês.
Alô, Anatel
Os telefones 1331 e 1332, da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), ainda estão mudos. A Anatel dá de ombros a reclamações de usuários que denunciam a existência do problema há mais de 30 dias.
Saiu da gaveta?
O Conselho de Ética da Câmara dos Deputados negou acatar um dos processos de cassação contra o deputado Carlos Leréia (PSDB-GO), amigo do bicheiro Carlinhos Cachoeira. A ideia agora é aplicar “penas alternativas” em nova ação que será votada nesta quarta-feira (23).
Crime sem castigo
Brasileira Patricia Fukimoto, que fugiu para o Brasil após avançar sinal e matar um bebê no Japão em 2005, só terá prisão de consciência: o crime prescreveu na Justiça paulista, segundo o jornal Japan Times.
Surpresa!
O deputado indeciso André Vargas (PR) é o Kinder Ovo do PT nesta Páscoa.
PODER SEM PUDOR
E DAÍ?
A Câmara dos Deputados investigava, na década de 50, as ligações entre o governo Getúlio Vargas e o jornal “Última Hora”, de Samuel Wainer. O empresário Francisco Matarazzo foi convocado para depor e ficou sob a mira de Carlos Lacerda, na CPI:
- Sr. Matarazzo, o senhor deu dinheiro ao Samuel Wainer?
- Dei, sim – confirmou, sem pestanejar.
- E por que? – insistiu Lacerda.
- Dei porque o dinheiro é meu e faço dele o que bem quiser.
E a questão foi encerrada.
Desde que tomou posse como presidenta da República em janeiro de 2011, Dilma Rousseff investiu mais no programa Bolsa Família do que em Educação Básica, segundo o Portal da Transparência do governo. Os gastos com a transferência de dinheiro que garante “agradecimento nas urnas” já superam os R$ 64,9 bilhões, quase 20% a mais do destinado para educação das crianças do País no mesmo período.
Exemplo do chefe
O ex-presidente Lula, mentor de Dilma, gastou R$ 47,8 bilhões com Bolsa Família em seu segundo mandato, 60% mais que em Educação.
Mais que banco
Segundo dados do Banco Central, o valor gasto pelo governo Dilma com Bolsa Família é superior aos lucros dos bancos no Brasil em 2013.
Apagão gerencial
A Eletrobras tem recorrido a empréstimos para pagar salários, e sua subsidiária Eletrosul já colocou a sede à venda pelo mesmo motivo.
Risca-faca
O senador Vital do Rêgo (PMDB-PB) resume bem a CPI criada para investigar Petrobras, Suape e Metrô de SP: “É a CPI do risca-faca”.
Em caso similar, Vargas quis punir Demóstenes
O deputado André Vargas (PT-PR), que renunciou à vice-presidência da Câmara após ser revelado seu envolvimento com um criminoso, defendeu, em 2012, investigação rigorosa da “cumplicidade” do então senador Demóstenes Tores (GO) com um “homem do crime”. Referia-se ao bicheiro Carlos Cachoeira, preso na Operação Monte Carlo. Exatamente como seu sócio Alberto Youssef, na Operação Lava-Jato.
Espelho, espelho meu
Para Vargas, a “bandeira da ética da oposição foi desmontada” quando um de seus arautos (Demóstenes) foi flagrado com o crime organizado.
Fica a dica
Ao falar de “matérias bombásticas” sobre corrupção, Vargas disse que deve haver um estoque de escutas clandestinas “lastreando” a mídia.
Pit-bull
Nos corredores do Senado, Gleisi Hoffmann (PT-PR) ganhou o apelido de “pit-bull da Dilma”, com a advertência jocosa: “Ela morde...”.
Pró-CPI
O deputado Osmar Terra (PMDB-RS), que acompanhou o depoimento do ex-diretor Nestor Cerveró, acredita que o discurso foi combinado com Planalto: “A Petrobras está no Pelourinho, precisamos investigar”
Tudo em família
Desafetos, Lula e o deputado federal e ex-prefeito de São Bernardo William Dib (PSDB-SP) trocaram figurinhas no casamento domingo (13) de uma assessora de Dib, filha de grande amigo de Lula.
‘Pilhado’
Explicado por que o deputado sai-não-sai André Vargas (PT-PR) está à beira de um ataque de nervos: torrou R$1,6 milhão de sua cota parlamentar em cafezinhos expressos de janeiro a março deste ano.
Zé Patinhas
Revolta nas redes sociais com um vídeo do filho da vice-prefeita de Parnamirim (RN) tomando uísque e rasgando uma nota de cem reais numa boate. É crime federal, com prisão de até três anos e multa.
Foco na energia
Aspirantes à Presidência, o ex-governador Eduardo Campos (PSB-PE) e a ex-senadora Marina Silva decidiram tratar da questão energética no primeiro seminário do PSB e Rede, que ocorrerá até o fim deste mês.
Alô, Anatel
Os telefones 1331 e 1332, da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), ainda estão mudos. A Anatel dá de ombros a reclamações de usuários que denunciam a existência do problema há mais de 30 dias.
Saiu da gaveta?
O Conselho de Ética da Câmara dos Deputados negou acatar um dos processos de cassação contra o deputado Carlos Leréia (PSDB-GO), amigo do bicheiro Carlinhos Cachoeira. A ideia agora é aplicar “penas alternativas” em nova ação que será votada nesta quarta-feira (23).
Crime sem castigo
Brasileira Patricia Fukimoto, que fugiu para o Brasil após avançar sinal e matar um bebê no Japão em 2005, só terá prisão de consciência: o crime prescreveu na Justiça paulista, segundo o jornal Japan Times.
Surpresa!
O deputado indeciso André Vargas (PR) é o Kinder Ovo do PT nesta Páscoa.
PODER SEM PUDOR
E DAÍ?
A Câmara dos Deputados investigava, na década de 50, as ligações entre o governo Getúlio Vargas e o jornal “Última Hora”, de Samuel Wainer. O empresário Francisco Matarazzo foi convocado para depor e ficou sob a mira de Carlos Lacerda, na CPI:
- Sr. Matarazzo, o senhor deu dinheiro ao Samuel Wainer?
- Dei, sim – confirmou, sem pestanejar.
- E por que? – insistiu Lacerda.
- Dei porque o dinheiro é meu e faço dele o que bem quiser.
E a questão foi encerrada.
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