sábado, março 08, 2014

Retomando o controle - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 08/03


O presidente do PMDB, Valdir Raupp, está sendo aconselhado por integrantes da cúpula a se antecipar ao movimento dos insatisfeitos e marcar a convenção para abril. Com isso, teria margem para negociar a pauta, evitando que dela conste rompimento com o governo, e tempo para tentar reunificar o partido. A ideia será discutida amanhã na reunião com a presidente Dilma.

"Ou nós ou ele"
No Planalto, a leitura é que a crise com o PMDB influencia pouco, na prática, o dia a dia do governo e a campanha presidencial. E tem prazo para se esgotar, as convenções oficiais de junho, quando se acertarão os palanques nos estados. Por isso, a presidente Dilma decidiu não ceder e enfrentar o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha. Um ministro disse que a orientação é clara: "Ou nós (governo) ou ele (Cunha)". Risca-se o chão, e deputados e senadores escolham a quem atender. Se os deputados não querem indicar os ministros da Agricultura e do Turismo, afirmou um auxiliar de Dilma, então "entregaremos os cargos aos senadores."




"Estes boatos sobre a volta de Lula são só uma tentativa de desestabilizar o governo e a presidente Dilma. Ele não volta, é um assunto sepultado".
Vicentinho Deputado federal (SP), líder do PT na Câmara

Reaproximação
O ministro Aloizio Mercadante vai conversar com o presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), para propor pauta de votações, a pedido da presidente Dilma. A intenção é puxá-lo para o governo e afastá-lo de Eduardo Cunha.

Tiro ao alvo
Pesou na decisão do senador Vital do Rêgo (PMDB-PB) de não aceitar a indicação para o Ministério do Turismo o fato de que viraria um alvo dos deputados de seu partido.
Vital explicou à cúpula do partido que não poderia assumir com uma guerra interna em curso que prejudicaria sua curta gestão de pouco mais de oito meses.

Sem bola dividida
Para colocar mais lenha na fogueira na crise entre PT e PMDB, o ex-presidente Lula reafirmou em reunião com a presidente Dilma, no Alvorada, que não irá a palanques em que petistas e aliados estejam em guerra. Disse que a prioridade é a reeleição nacional e que não ajudará a enfraquecer o projeto do seu partido.

Jogo limpo
Na partida entre Fluminense e Duque de Caxias, amanhã, pelo Campeonato Carioca, os jogadores se integrarão à campanha "Eu jogo limpo com o turista". Abrirão faixa pedindo preços justos e que o Brasil se una em torno da ideia.

A arte de sentar em cima
Primeira na lista tríplice para vaga no TRF-2, Letícia Mello aguarda decisão da presidente Dilma desde junho passado. É filha do ministro do STF Marco Aurélio Mello. O Planalto não está com a menor pressa de preencher a vaga.

Zen
O vice-governador Luiz Fernando Pezão se distanciou do tiroteio do PMDB do Rio com o governo Dilma. Apesar do clima ruim, ainda cultiva a ideia de que até junho, prazo das convenções, é possível reviravolta no quadro.

FORA DO AR. Temendo ação na Justiça, a Caixa suspendeu propaganda que fazia referência a mulheres poderosas e ao combate à miséria.

Casa ou não casa? - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 08/03

Ajustes regionais freiam o anúncio da chapa de Eduardo Campos e Marina Silva, previsto para este mês. A ideia de aproveitar encontro dos dois no Rio, dia 15, esbarra na indefinição sobre se o PSB vai apoiar Miro Teixeira (Pros) ou lançar Alfredo Sirkis. Em São Paulo, outro possível palco, Márcio França enfrenta resistência da Rede. Diante dos percalços, cresce o desânimo interno com a estagnação de Campos nas pesquisas e a demora na migração de votos de Marina para ele.

Osmose Inicialmente resistente à chapa formada por Campos para a eleição em Pernambuco, o PPS estadual deve aprovar amanhã uma manifestação de apoio à candidatura de Paulo Câmara.

Bote Interlocutores de Campos acham que o governador deveria aproveitar a crise com o PT para se aproximar do PMDB. Com isso, dizem, ele coletaria, no mínimo, apoios de prefeitos e vereadores descontentes com o PT, que poderiam ajudar a dar corpo à campanha.

Antibiótico Com a crise no Congresso, o Planalto reforçou a articulação para liberar cerca de R$ 400 milhões referentes a emendas de deputados e senadores que não
saíram do papel em 2013.

A conferir Depois da decisão de tentar desarticular o "blocão" insurgente na Câmara atuando junto a cada um dos partidos, o Planalto recebeu dos líderes uma contabilidade que indica que haveria votos suficientes para aprovar o texto de Alessandro Molon (PT-RJ) no projeto do Marco Civil da Internet.

Sem partido A conclusão de pesquisas qualitativas feitas por João Santana e mostradas ao QG dilmista, segundo a qual a presidente ganha pontos junto ao eleitorado quando resiste às reivindicações consideradas fisiológicas dos políticos, já apareceu em levantamentos similares encomendados pelos demais presidenciáveis.

Nem mordomia Nessas pesquisas, comportamentos que rendiam votos, como aparecer em estádios de futebol e em eventos como Carnaval, passaram a ser malvistos pelos eleitores. Eduardo Campos se baseou nesses dados para tomar decisões como a de que não haverá Fan Fest no Recife na Copa.

Estrela Os spots de TV que o PRB de São Paulo leva ao ar a partir de hoje darão destaque ao ex-deputado Celso Russomanno. Escalado como puxador de votos do partido na eleição para a Câmara, ele ocupará 80% do tempo da propaganda.

Prorrogação 1 Auxiliares de Geraldo Alckmin (PSDB) dizem que, como não houve definição das trocas em seu secretariado até o Carnaval, já não há mais motivos para que o governador antecipe a saída dos auxiliares que serão candidatos.

Prorrogação 2 O anúncio das trocas, dizem, deve ficar para perto da data limite prevista pela legislação eleitoral, no início de abril. Sete auxiliares do primeiro escalão disputarão a eleição.

Linha... Com a disputa em dois turnos dada como certa em São Paulo, aliados de Alckmin dizem ver com bons olhos a possível candidatura do vereador Gilberto Natalini (PV) ao governo.

... auxiliar? Os tucanos esperam que ele faça mais críticas a Alexandre Padilha que ao governador. Mas o PV paulista é ligado a Gilberto Kassab (PSD), aliado do PT e desafeto de Alckmin.

Mais essa Além da possibilidade de racionamento de água na Grande São Paulo por conta do baixo nível do sistema Cantareira, a Sabesp tem mais um motivo para se preocupar: servidores do Vale do Ribeira prometem iniciar greve na segunda-feira.

Jogo Luiz Fernando Pezão (PMDB) passará as próximas semanas "estudando" a fundo as ações do governo do Rio, que passará a comandar quando Sérgio Cabral renunciar. "Ser coordenador de infraestrutura é uma coisa. Ser governador é diferente."


tiroteio
"Entre PT e PMDB, é impossível saber qual faz jogadas mais espúrias. Nessa briga, pode dar um pelo outro e certamente não voltará troco."
DO DEPUTADO ROBERTO FREIRE (SP), presidente do PPS, sobre as acusações recíprocas do petista Rui Falcão e do líder peemedebista, Eduardo Cunha.

contraponto

Apertem os cintos
 O voo em que tucanos paulistas voltaram do velório de Sérgio Guerra sofreu turbulência no pouso, o que assustou José Serra. Nele também estavam Geraldo Alckmin e Aloysio Nunes. Diante da cena, outro dirigente tucano brincou:
-Se o avião cair, o grande beneficiado será Gilberto Kassab: Guilherme Afif assume o governo e prepara o terreno para a candidatura dele. Airton Sandoval vira senador no lugar do Aloysio e ainda arruma apoio do PMDB e de Paulo Skaf para o ex-prefeito.

Terreno fértil - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 08/03


Os socialistas não estão brincando em serviço quando organizam a agenda de seu pré-candidato a presidente, Eduardo Campos. Na segunda-feira, a palestra na Associação Comercial de São Paulo casará direitinho com a divulgação do Índice de Confiança dos Empresários do Comércio, Icec, de fevereiro. A queda foi de 2,8% em relação a janeiro. É o menor índice do período, se comparado com os anos anteriores. Ou seja, é uma área promissora para exercitar o discurso de oposição como um todo.

Não por acaso, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) tem feito viagens ao interior do estado e, em breve, terá uma maratona de compromissos na capital. Ambos vão tentar surfar um pouco nesse período pós-carnaval em que o país volta das férias para pagar as contas e impostos. É a hora de os oposicionistas aproveitarem o embalo dos índices de insatisfação com a economia. E no Sudeste, que reúne praticamente 50% do eleitorado nacional, esse discurso parece pegar.

Questão de motor
Convidado a ocupar o Ministério do Turismo, o senador Vital do Rego Filho (PMDB-PB) está cada vez mais sem graça perante seus colegas de legenda. É que se sente muito mal em ocupar um cargo que a bancada da Câmara faz questão de manter. Para completar, os paraibanos do PMDB veem a área de turismo como uma bicicletinha, enquanto o adversário deles, o ministro Aguinaldo Ribeiro, do PP, pilota o Ministério das Cidades, a que os políticos comparam a uma Ferrari.

Mais do mesmo
Os peemedebistas não têm muita expectativa em relação ao encontro entre a presidente Dilma Rousseff e o vice-presidente Michel Temer, amanhã. Calculam que ela dirá que Temer deve resolver os problemas de seu partido sem dar os instrumentos para que ele possa fazer isso, ou seja, ministérios e palanques nos estados.

Definições em curso
Enquanto Dilma se reúne com o PMDB, o PPS de Pernambuco reúne seu diretório estadual para decidir acompanhar o resto do partido no apoio a Paulo Câmara, do PSB, para governador.

Empacou geral
Enquanto em alguns estados a construção dos palanques flui rapidamente, em São Paulo continua tudo travado. O PSB vai usar todo o período regulamentar, ou seja, o mês de março, para avaliar se fecha com Geraldo Alckmin. E o PT não consegue encontrar o tal “vice amplo” no meio empresarial para fazer parceria com Alexandre Padilha.

O consultor/ Dia sim, dia não, o senador Aécio Neves e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (foto) trocam impressões sobre a pré-campanha. O ex-presidente está cada vez mais engajado e disposto a fazer o debate com Lula, deixando Dilma para debater diretamente com Aécio.

Enquanto isso, no PT…/ Os lulistas mais emperdenidos jogaram a toalha esta semana, depois da reunião em torno da pré-campanha de Dilma Rousseff. “Agora, temos que nos acostumar com o jeitão dela, que é diferente mesmo, e esquecer o movimento ‘Volta, Lula’ para este ano”, comentou um deles, em conversa reservada.

Cronômetro/ Os políticos que estão naquela fase de não ter o que conversar — leia-se: adversários eleitorais — deram um jeito de não ficar frente a frente no velório do deputado Sérgio Guerra. Quando chegou o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, a maioria dos tucanos já tinha saído, inclusive Aécio Neves e José Serra. Tasso Jereissati, entretanto, ligadíssimo a Guerra, ficou até o final, em tempo de encontrar o ministro.

Moral da história/ “A presença maciça de políticos dos mais variados partidos demonstra o apreço que ele tinha e a capacidade de diálogo que exerceu Sérgio Guerra exerceu em sua carreira política”, lembra o deputado Bruno Araújo, do PSDB de Pernambuco.

Às leitoras/ Feliz Dia Internacional da Mulher!

Erros elétricos - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 08/03

Na reunião de quinta-feira no Palácio do Planalto, o primeiro a falar foi o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp. E fez um cenário otimista sobre as chuvas nos próximos três meses. A presidente Dilma mandou pôr o climatologista Carlos Nobre no viva voz. Os participantes entenderam que ele não era tão otimista, mas também que havia muitas incertezas.

“Então, não há nada conclusivo!”, disse a presidente, quando desligou o telefone.

O ministro Edison Lobão, o presidente da EPE, Maurício Tolmasquim, e o secretário executivo do MME, Márcio Zimmerman, continuaram a dar força à ideia de que as águas vão rolar e tudo vai se resolver naturalmente.

Os meteorologistas estão prevendo chuva neste fim de semana no Sudeste e os próximos dias podem ser mesmo aguados. Mas o governo tem empreendido neste caso uma marcha da insensatez. O racionamento pode ser evitado, mas já se formou um grande problema fiscal na energia. Agora o governo prepara duas canetadas para empurrar tudo para diante.

Uma canetada que se espera no setor é a de interferência na formação de preços no mercado spot. Em vez de ser o preço mais alto da energia até o limite de R$ 822 o MWh, passará a ser o preço médio da energia que entra no sistema. Com isso, melhora a situação das distribuidoras que estão descontratadas, ou seja, as que não conseguiram fechar contrato de compra com preço certo de toda a energia que têm que entregar e, por isso, estão expostas aos preços altos do mercado spot.

— Tudo bem, isso melhora a situação das distribuidoras, mas quem vai pagar o custo da energia mais cara? — pergunta um especialista do setor.

Outra forma de tapar o sol com a peneira será mais gasto público para cobrir o rombo criado pelo uso das usinas térmicas. Ontem à noite, a Fazenda já anunciou um aporte de R$ 1,2 bi na Conta de Desenvolvimento Energético, apenas para cobrir gastos de janeiro. Em fevereiro, segundo cálculos do setor, serão necessários mais R$ 2,5 bi, e a conta deve chegar ao final do ano em R$ 23 bilhões. No futuro, as distribuidoras repassarão isso aos consumidores.

O ONS divulgou que as previsões de chuva para março são de 77% da média histórica. No começo do mês, previa 67%, e, na primeira semana, choveu apenas 55%. Aí ele decidiu rever para cima. O número só será atingido se chover, na média, 81% no resto do mês.

O Fórum das Associações do Setor Elétrico, entidades que representam o setor, foi ao ministro Edison Lobão com uma carta em que, no tom mais suave possível, pediu para ser ouvida. Segundo o texto, “Nesse cenário de escassez de recursos hidráulicos e de recursos térmicos com capacidade instalada limitada, em nossa opinião, a situação merece cautela. Qualquer proposição deve ser tecnicamente embasada para que se possa encontrar, em conjunto com os agentes, soluções para fazer frente ao atual quadro de dificuldades e, adicionalmente, preservar o fluxo de pagamentos ao longo da cadeia entre produção e consumo, dando estabilidade ao setor.”

No último parágrafo, o setor reclama que a decisão de que eles participariam do Conselho de Monitoramento do Setor Elétrico foi revogada. O que todos os integrantes das diversas entidades, associações e empresas do setor dizem é que não há interlocutor. Eles não são ouvidos nem têm com quem conversar. Um deles contou que recentemente tentou explicar para uma autoridade o erro técnico que havia numa medida. E ouviu que ele fosse até a presidente Dilma para explicar o problema. “Se ela me chamar eu vou concordar com você; mas não vou lá dizer isso a ela.”Conclusão: os integrantes do governo na área elétrica têm medo da presidente. Preferem errar.

A cena que Garcia viu - DEMÉTRIO MAGNOLI

FOLHA DE SP  - 08/03

O 'povo valente' de Maduro não são os venezuelanos, mas apenas os chavistas. O ministro-fantasma ouviu

Temos dois ministros das Relações Exteriores. O ministro oficial, Luiz Alberto Figueiredo, não tem jurisdição na América do Sul, esfera de operação do ministro-fantasma, Marco Aurélio Garcia, que opera como plenipotenciário do presidente fantasma, Lula da Silva. Garcia assistiu, na Venezuela, às cerimônias governamentais que marcaram o primeiro aniversário da morte de Hugo Chávez. Ele viu, mas não falará.

Ele viu o desfile no Paseo de Los Próceres, a esplanada de Caracas delimitada por postes de iluminação situada no perímetro do Forte Tiuna e adornada por objetos esculturais de inspiração helenística que se abre para o monumento aos heróis da independência. Não foi exatamente um evento em memória ao caudilho "bolivariano", mas uma exibição do equipamento militar importado da Rússia e da China: caças Sukhoi, mísseis terra-ar, blindados T72. Nos discursos, entremeados por torrentes de palavras de ordem, Chávez foi mencionado como "comandante eterno", "nosso pai" e "líder supremo", enquanto a Venezuela ganhou a qualificação de "pátria socialista, revolucionária e majoritariamente chavista".

A nação, Garcia viu, é um movimento, um partido, um ponto de vista político, uma ideologia. Isso, porém, não passa de déjà vu. O novo é outra coisa, que Garcia também viu. O presidente Nicolás Maduro alertou que "somos um povo valente na defesa de nossos direitos" e --mensagem direta!-- insistiu em esclarecer o sentido de conjunto da performance em curso. Maduro disse que as tropas equipadas, as milícias armadas e os franco-atiradores treinados cumprem uma função política: estão ali para enfrentar "quem ouse se contrapor ao projeto cívico-militar". O "povo valente" de Maduro não são os venezuelanos, mas apenas os chavistas. Garcia viu e ouviu.

O conceito de "inimigo interno" tem história na América do Sul. À sua sombra, deflagraram-se os golpes militares no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai. Em nome do combate ao "inimigo interno", a Junta Militar promulgou o AI-5 e, entre tantos outros, Dilma Rousseff foi presa e torturada. A linguagem da "revolução bolivariana", expressa tanto em discursos oficiais como nos palanques dos comícios, estrutura-se em torno do mesmo conceito que sustentou as "ditaduras de segurança nacional". Garcia permaneceu calado. O governo brasileiro afunda-se na cumplicidade com um regime que, imitando Cuba, qualifica a divergência política como traição à pátria. 

A Venezuela não é, ainda, uma ditadura: ditaduras não promovem eleições em cenários

Não culpem o tomate nem o petróleo - ROLF KUNTZ

O Estado de S.Paulo - 08/03

Parem de caluniar o petróleo e o tomate. Nem o tomate foi culpado pela inflação, no ano passado, nem o petróleo é o vilão da balança comercial, como andaram dizendo nos últimos dias. Se os preços no varejo continuam subindo muito mais que no resto do mundo, é porque há desequilíbrios graves na economia brasileira, como tem havido há muitos anos. E o comércio exterior vai mal porque a atividade interna também vai mal, com custos altos e crescentes, produtividade baixa, indústria emperrada e governo incompetente. Se as importações de combustíveis e lubrificantes consumiram em fevereiro US$ 3,59 bilhões, 7,9% mais que um ano antes, foi principalmente porque a produção nacional tem sido insuficiente para acompanhar a demanda.

Em janeiro a produção interna de petróleo e líquido de gás natural (LGN) foi 2,4% menor que em dezembro - apenas a continuação de uma longa queda. O volume produzido caiu de 2,02 milhões de barris/dia em 2011 para 1,98 milhão em 2012 e 1,93 milhão no ano passado. Em contrapartida, a extração de água, em algumas áreas, passou a igualar a de petróleo.

Desde a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a interferência do governo central na condução dos negócios da Petrobrás levou a empresa a investimentos errados no Brasil e no exterior, distorceu prioridades, afetou a geração de caixa, aumentou seu endividamento e derrubou seu valor de mercado. A perda de produção e a maior dependência da importação de derivados foram desdobramentos dessa história de irresponsabilidades. A maior empresa brasileira foi subordinada às ambições políticas do grupo governante, usada para uma diplomacia contrária a seus interesses e convertida em instrumento de uma política industrial anacrônica.

Mas a decadência empresarial da Petrobrás explica só em parte o mau desempenho comercial do Brasil. A cena fica mais clara quando se consideram os números do primeiro bimestre. Em janeiro e fevereiro as exportações somaram US$ 31,96 bilhões, valor 1,4% maior que o de um ano antes. Mas a variação se torna negativa - queda de 3,4% - quando se comparam as médias dos dias úteis (42 em 2013 e 40 em 2014). No caso das importações, a comparação entre os valores absolutos indica um aumento de 3,6%. Quando se confrontam as médias dos dias úteis, o resultado é uma queda de 1,4%, bem menor que a das vendas ao exterior. Em 12 meses, pelo mesmo critério, a receita diminuiu 0,9% e a despesa aumentou 4,4%.

O déficit comercial de US$ 6,18 bilhões no primeiro bimestre é um retrato de um País com graves desarranjos. A receita obtida com a venda de produtos básicos aumentou de US$ 13,6 bilhões para R$ 14,06 bilhões, mas o valor médio diário diminuiu 1,5%. Considerando-se a evolução dos preços, foi um bom resultado. Ruins, mesmo, foram as vendas de produtos da indústria.

A receita dos manufaturados caiu 5,6%. A de semimanufaturados diminuiu 7,2%. O problema da competitividade continua muito grave. Além disso, o País sofre os efeitos da crise na Argentina, seu maior parceiro na América Latina e um dos principais mercados para a indústria brasileira. Em janeiro e fevereiro as vendas para o mercado argentino, US$ 2,37 bilhões, foram 16% menores que as do primeiro bimestre de 2013.

O melhor resultado foi o das vendas para a China. A receita de US$ 5,02 bilhões nos dois primeiros meses foi 25,5% maior que a de um ano antes. As exportações para os Estados Unidos também avançaram bem e renderam US$ 3,96 bilhões, 7,4% mais que em janeiro e fevereiro do ano passado. Mesmo com alguma desaceleração, o mercado chinês continua absorvendo enormes volumes de matérias-primas e de bens intermediários.

Mas o comércio com os Estados Unidos tem uma composição muito mais equilibrada, porque o mercado americano absorve boa parte das exportações brasileiras de manufaturados. Em janeiro, último mês com números detalhados até esse nível, apenas 4,5% das vendas brasileiras à China foram de manufaturados. O total dos industrializados (com inclusão dos semimanufaturados) chegou a 25,78%. Quase metade das exportações para os Estados Unidos (45%) foi de manufaturados. Os industrializados corresponderam a 66,23%.

O Império, portanto, é um bom cliente da indústria brasileira, enquanto o grande emergente, eleito como parceiro estratégico pela diplomacia brasiliense, mantém com o Brasil um comércio de tipo colonial.

Não há nenhum mal em exportar grandes volumes de commodities. Algumas das potências mais desenvolvidas, como Estados Unidos e Canadá, também são grandes vendedoras de matérias-primas e bens intermediários. A grande besteira cometida pelas autoridades brasilienses, a partir de 2003, foi desprezar os acordos comerciais com os mercados mais desenvolvidos, dar prioridade ao chamado comércio Sul-Sul e deixar esboroar-se o poder de competição da indústria nacional. O agronegócio ainda se mantém competitivo, mas até quando? A tentativa de ressuscitar políticas industriais talhadas segundo o modelo dos anos 50 e 60 produziu o efeito esperado pelas pessoas sensatas e menos provincianas. O fracasso era tão previsível quanto os efeitos da tolerância à inflação.

A esperança de resultados melhores com a depreciação do câmbio e a reativação do mercado global é igualmente enganadora. O câmbio é a menor parte do problema, como já mostraram os números do ano passado, e um mercado mundial mais favorável será aproveitado principalmente pelos produtores mais eficientes. Isso é óbvio, exceto para o governo brasileiro e, curiosamente, para uma parcela dos empresários da indústria. Mas essa parcela tem diminuído, como indicam as boas análises publicadas por algumas entidades do setor, como o Instituto de Estudos do Desenvolvimento Industrial (Iedi).

A má-fé - KÁTIA ABREU

FOLHA DE S. PAULO - 08/03
O novo Código Florestal é fruto de longo trabalho de negociação e diálogo; como pode ter havido um golpe?

Estou perplexa, se não indignada, com a falta à verdade da ex-ministra Marina Silva, em sua coluna de ontem, neste jornal. Os que leram o texto "Quem não sabia?" ficam agora sabendo que a candidata a presidente da República ou a vice-presidente --não se sabe ao certo-- tem sérias dificuldades em aceitar o ambiente democrático.

Torna-se necessário reconhecer que o novo Código Florestal é fruto de um longo trabalho de negociação e diálogo, envolvendo produtores de alimentos e ambientalistas. Deputados e senadores, em sua esmagadora maioria, aprovaram a nova legislação.

Como pode ter, então, havido um golpe? Se há golpe, ele se deve às posições da ex-ministra, que não sabe conviver com o diálogo, procurando impor as suas próprias opiniões. O dogma e o conflito são os seus alimentos. A natureza é só um pretexto.

O CAR (Cadastro Ambiental Rural) é um dos grandes avanços do novo Código Florestal, algo que a hoje candidata jamais conseguiu implementar quando era ministra.

O Brasil será um exemplo para o mundo ao passar a possuir um instrumento de controle ambiental via satélite, mapeando todas as propriedades deste país. RLs (Reservas Legais), APPs (Áreas de Preservação Permanente) e áreas de produção poderão ser facilmente detectadas. Acaba o achismo ambiental. Passaremos a ter uma efetiva ferramenta de gestão do território.

Ocorre que tal ferramenta está sendo elaborada com a audiência de todos os interessados e envolvidos, em um ambiente democrático de discussão, com a participação dos ministérios da Agricultura, do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Agrário.

O que desagrada à atual candidata é que tal processo não é controlado por umas poucas ONGS nacionais e internacionais, que a têm como oráculo. A soberania do país é realmente exercida no interesse de todos os cidadãos. Há, infelizmente, os que não podem suportar que o país tenha se tornado, em poucos anos, um dos maiores produtores de alimentos do mundo, conservando 61% de suas florestas e matas nativas.

Se a regulamentação do CAR ainda não saiu, isso se deve, somente, ao ambiente de diálogo e de discussão, voltado para equacionar os conflitos e as posições divergentes.

Um dos pontos que geram discussão diz respeito ao conceito de imóvel rural. Ocorre que, por questões imobiliárias, registrais e de financiamento, um único imóvel rural pode ter mais de uma matrícula e, mesmo assim, terá um único CAR. Não há nenhuma ilegalidade nisso. É o que diz a lei.

Utilizando a má-fé, a candidata passa a falsa mensagem de que os empreendedores rurais estão tapeando a lei, reduzindo suas áreas de preservação ambiental ou fugindo de eventuais multas. Estão simplesmente agindo de acordo com a legislação vigente.

Não há nenhum "golpe". Golpe haveria se estivesse ocorrendo desmembramento de matrículas para burlar a legislação, o que não é evidentemente o caso. O novo Código Florestal, aliás, veda que eventuais desmembramentos sejam utilizados para a obtenção de qualquer benesse. Vale a situação das propriedades em 22 de julho de 2008.

Não deveria causar nenhuma surpresa que os pequenos produtores rurais tenham sido beneficiados. Eles representam 86% das propriedades rurais de nosso país. Não foram usados como massa de manobra, como insinua a ex-ministra. Eles, de fato, merecem o tratamento diferenciado que lhes foi dado. Sem ele, seriam expurgados da atividade.

O desmatamento não aumentou com a aprovação do novo Código Florestal. Assim como o antigo, ele prevê a abertura de novas áreas apenas com licença ambiental, no estrito cumprimento da legislação vigente.

Aliás, a ex-ministra refere-se ao aumento do desmatamento como uma maldição do novo Código Florestal. Não é. Ela esqueceu de mencionar que os 30% de aumento em 2013, a que se refere, representam a segunda menor área desmatada da história das medições (5.843 km?). Também esqueceu que, quando era ela a ministra, em 2004, vivemos o oposto: o segundo maior desmatamento da série histórica (27.772 km?).

Pobre do país que convive com personalidades no meio político com esse nível de preconceito.

Como ela escreveu "eu avisei", agora sou eu quem avisa: tomem cuidado!

A finlandização da Ucrânia - ALBERTO DINES

GAZETA DO POVO - PR - 08/03

“O Putin tem cara de Guerra Fria”, escreveu nesta sexta o humorista José Simão, na Folha de S. Paulo. A frase lembra a genial tirada de Woody Allen: “Toda vez que ouço Wagner tenho vontade de invadir a Polônia”. Há fisionomistas que discordam do diagnóstico: Putin teria mais semelhança com os sanguinários boiardos mostrados por Eisenstein em Ivan, o Terrível.

Quaisquer que sejam os paradigmas psicofaciais do czar russo, a verdade é que a imprensa ocidental não está ajudando a baixar as tensões numa zona de atrito historicamente classificada como barril de pólvora. A Ucrânia foi campo de batalha entre os impérios austro-húngaro e russo na Primeira Guerra (1914-1918); durante os confrontos que se seguiram à Revolução Comunista em 1917, nas suas estepes enfrentaram-se os exércitos vermelho e branco. E, quando Hitler invadiu o território russo em 1941, foi nesta mesma Ucrânia que a colaboração dos fascistas locais com os nazistas alemães foi mais intensa.

O passado encharcado de sangue resultou numa nação algo ambidestra e esquizofrênica. Mas também multiétnica, multicultural e multilíngue. Não muito diferente da Alsácia, entre a França e Alemanha, nos séculos 19 e 20. Um ponto de discórdia pode ser convertido em ponto de convergência: basta que as leis da dinâmica se sobreponham às do determinismo.

É compreensiva, legítima, a fascinação dos rebeldes ucranianos pela União Europeia. Mas não poderia ser exacerbada a ponto de converter o país numa trincheira antirrussa. Era essa a essência do acordo assumido entre negociadores europeus, rebeldes e o governo Yanukovich. Um cronograma foi estabelecido para antecipar eleições e distensionar o ambiente. Durou apenas 48 horas: um golpe legislativo levou tudo para a estaca zero e ainda radicalizou a exaltação nacionalista, levando alguns grupos a desafiar o domínio militar russo no Território Autônomo da Crimeia. Provocação pueril: equivaleria a validar uma tentativa cubana de desalojar os americanos de Guantánamo.

Ações políticas num mundo interdependente, globalizado, exigem um pouco mais de sangue frio, prudência. Sobretudo, atenção à realpolitik. Isto é: aos interesses contrariados. Não confundir com apaziguamento ou capitulação. Trazer de volta a postura covarde do premiê Chamberlain, curvando-se em 1938 ao diktat de Hitler, é recurso falacioso.

Vladimir Putin – qualquer que seja a nossa reação diante da sua imagem e currículo – já está suficientemente ameaçado na Síria. Encurralá-lo ainda mais na mesma região – o espaço mediterrâneo – é insensato. Não se pisa no mesmo calo da acompanhante na dança. Arrisca-se a receber uma canelada instintiva.

Henry Kissinger, em artigo reproduzido nesta mesma sexta, no Estadão, adverte para o perigo da demonização de Putin e lembra, de passagem, a Finlândia como exemplo bem-sucedido de racionalidade. Evitou o substantivo “finlandização”, inventado pelos alemães no pós-guerra com conotações pejorativas para os nacionalistas finlandeses e os exaltados de todos os quadrantes. Não lembrou que Harry Truman poderia ter evitado a Guerra da Coreia, em 1950, se a península fosse finlandizada. Acabará sendo, para a felicidade das suas partes.

Para a maioria dos brasileiros – exceto jogadores de futebol –, a Ucrânia é longe; a Finlândia, mais ainda. Mas a finlandização (como a trégua) pode esvaziar conflitos e preparar entendimentos.

A indústria emagrece - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 08/03

Ano a ano, a indústria brasileira vai perdendo participação na economia. À parte a repetida reclamação de que a falta de ação do governo produz desindustrialização, o empresário, em geral, não sabe o que quer e, quando quer, muitas vezes quer a coisa errada. Tende a dar mais valor a picolés e cala-bocas oficiais do que a políticas estruturantes de longo prazo.

São raros os que partem do diagnóstico correto, como começa a fazer o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento da Indústria (Iedi). O ponto de vista recorrente é que a indústria está nessa paradeira porque o câmbio e os juros estão "fora de lugar". Em vez de entender qual a função do câmbio e dos juros no arranjo macroeconômico e de pedir consequência, o empresário clama por desvalorização cambial (alta do dólar) e juros baixos para lhe dar competitividade artificial, sem considerar a arrumação da casa.

O pressuposto dessas reivindicações é o de que qualquer governo põe o câmbio e os juros onde quer e o interesse máximo da política econômica não é dar condições sustentáveis ao crescimento econômico e ao emprego, mas fornecer andadores apenas para a indústria, eterna adolescente.

O modelo recorrente é a China, cujo governo definiu, sim, o que quer e põe o câmbio e os juros onde têm de estar para garantir o efeito pretendido. Mas o Brasil não é a China, não tem uma poupança equivalente a 51% do PIB e, por isso, não pode empilhar reservas à vontade nem operar permanentemente com uma moeda desvalorizada. Bastou, por exemplo, que, a partir de maio de 2013, o governo brasileiro passasse a manobrar para puxar as cotações do dólar para que, logo em seguida, o Banco Central tivesse de trabalhar para evitar que a disparada do câmbio provocasse uma inflação insuportável. Além disso, não está claro que uma forte desvalorização do dólar seja do interesse de uma indústria que pretende se inserir no sistema global de produção e distribuição e que, portanto, depende de suprimento externo de equipamentos, matérias-primas e de certo endividamento em moeda estrangeira.

Com os juros ocorreu quase o mesmo. Por um momento, as lideranças da indústria imaginaram que a política monetária não tem importância no processo de controle dos preços. Assim, os juros poderiam ser baixados até os níveis internacionais sem que produzissem inflação significativa no Brasil. A experiência foi feita, o Banco Central derrubou os juros a 2% reais e, a partir de abril de 2013, foi obrigado a puxá-los para os níveis anteriores porque a inflação disparou.

Durante anos, os chefões da indústria também repeliram propostas de abertura comercial, sob o argumento de que tiravam mercado em vez de proporcionar novos acessos a consumidores. O resultado é que, junto com o Brasil, a indústria brasileira ficou do lado errado. Tem agora como clientes preferenciais argentinos e venezuelanos que não podem pagar por encomendas. A indústria automobilística em parte modernizou suas carroças, mas não consegue competir nem mesmo com uma tarifa alfandegária de 35% mais proteção extra proporcionada por sobrecarga de IPI cobrados sobre as vendas de veículos importados.

A cor da mente - CRISTOVAM BUARQUE

O GLOBO - 08/03

Analfabeto adulto é filho e neto de analfabetos


Nos anos 70, a televisão mostrou uma série com o nome de “Raízes”, contando a trajetória de uma família de negros americanos, desde seu passado na África. A série emocionou centenas de milhões de pessoas ao mostrar o sofrimento de sucessivas gerações que tinham em comum a cor da pele e a escravidão por serem negras.

Trazida para o presente, a série “Raízes” pode ser escrita sob outro ângulo: as sucessivas gerações de pessoas carregando a característica do analfabetismo. A genealogia de um analfabeto mostra quase toda sua linha de transmissão no analfabetismo. Raramente o filho de alfabetizados cai no analfabetismo. Já o analfabeto adulto é filho e neto de analfabetos.

Mas diferentemente da transmissão da escravidão pela cor irremovível, a transmissão do analfabetismo decorre da falta de programas educativos para sua erradicação. Porque a cor da mente é mutável pela educação.

Muito provavelmente, os 13 milhões de analfabetos de hoje são descendentes dos 6,5 milhões de analfabetos que povoavam o território brasileiro em 1889. Naquele ano, a elite republicana fez uma bandeira com um lema escrito, mesmo sabendo que seus cidadãos eram incapazes de reconhecê-lo porque não sabiam ler. E desde então 125 anos se passaram sem um gesto enfático e duradouro que abolisse a tragédia, que permitisse a todos os brasileiros lerem a sua bandeira.

A repetição genealógica do analfabetismo é causada pelo descaso com a educação das crianças, que deixa aberta a torneira por onde surgem novos analfabetos adultos, e pela falta de um programa concreto e persistente para a erradicação desta tragédia entre os adultos.

Para resolver o problema em cinco anos seria necessária a mobilização de 130 mil jovens bolsistas ao custo anual inferior a R$ 1 bilhão, e mais R$ 2 bilhões de outros gastos operacionais.

Essa era a intenção do Ministério da Educação no primeiro ano do governo Lula ao criar uma Secretaria Extraordinária da Erradicação do Analfabetismo, destinada a gerir o programa Brasil Alfabetizado. A secretaria chegou a formular o Programa de Apoio ao Estudante, proposto no projeto de lei nº 2.853/2003, pelo qual os alunos de universidades particulares receberiam bolsas para pagar seus estudos, desde que aceitassem exercer atividades relacionadas à alfabetização de adultos, por seis horas semanais, durante um dos semestres de seus cursos.

Além disso, foram implantados programas de “leituração” para manter a alfabetização conquistada. Em 2004, a secretaria foi extinta, e o programa perdeu vigor; o PAE se transformou em Prouni sem exigência aos beneficiados. O resultado é que o problema continua e, em 2013, houve aumento no número de analfabetos: os 6,5 milhões de 1889 duplicaram, em 2013, para 13 milhões.

Quem sabe se, neste ano, algum candidato a presidente vai apresentar o compromisso e dizer como, quanto custa e de onde sairão os recursos, financeiros e humanos para romper a genealogia do analfabetismo, mudando a cor da mente desses brasileiros.

Valores difusos num país sujo - FERNANDO RODRIGUES

FOLHA DE S. PAULO - 08/03

BRASÍLIA - Com o fim formal da ditadura (1985) e a estabilização da economia (1994), o Brasil passou a enxergar com mais clareza o seu atraso civilizatório. Ficou mais visível como são difusos os valores da nação. O vídeo do prefeito do Rio, Eduardo Paes, jogando sujeira no chão é apenas um microexemplo do caráter e dos costumes nacionais.

Há alguns anos, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu um bombom de cupuaçu. Comeu e também jogou o papel no chão sem nenhuma cerimônia.

A greve dos garis no Rio expôs ao país como sua população é composta por Eduardos e Lulas. O volume de lixo jogado nas ruas do balneário fluminense é incompatível com uma sociedade desenvolvida. O brasileiro em geral se comporta como se o espaço público não fosse seu. Todo tipo de porcaria é arremessado na calçada, sem o menor remorso.

Seria possível escrever um tratado a respeito. Ficarei apenas no capítulo sobre a responsabilidade dos políticos e governantes em geral. O Brasil gasta bilhões de reais com publicidade estatal. Quase nunca esses recursos são usados para algum tipo de campanha a favor, por exemplo, de hábitos mais civilizados das pessoas nas ruas. Pior: certas propagandas com apelo cívico erram o alvo, como aquele comercial paraestatal martelando que "o melhor do Brasil é o brasileiro", cujo objetivo era melhorar o astral geral do país.

Se há um povo com excesso de autoestima é o brasileiro. Em ano de Copa do Mundo, nota-se até uma certa arrogância no ar. A campanha de uma marca de guaraná estrelada pelo jogador Neymar eleva ao paroxismo o mau-caratismo nacional. Reedita a "Lei de Gérson". O camisa 10 brasileiro escreve frases em português para estrangeiros que não sabem o idioma se autoridicularizarem ao pedir a bebida (http://bit.ly/Neymar-trote-guarana). Ao final, fala o anunciante: "Todo mundo quer, mas só a gente tem". É verdade.

Indignação e desamparo - RUGGERO LEVY

ZERO HORA - 08//03

O fato é que estamos vivendo num ambiente selvagem, violento, perigoso e vamos nos adaptando a ele



Escrevo movido pela indignação com a violência a que temos assistido e vivido em nosso país. Amigos, irmãos de amigos, homens de bem, jovens promissores, cidadãos valiosos, mulheres, mães, pais, filhos sendo assassinados cruelmente diante das câmeras de “segurança”, às quais assistimos impotentes. O que está acontecendo? Por que essa violência desenfreada, tantas brigas e disputas no trânsito, tanta violência nas escolas? Concordo com David Coimbra (ZH, 28/02) em que a miséria não explica tudo. O que explica, então? Vejamos alguns fatores.
Creio que estamos vivendo no Brasil um problema singular e grave, que é a ruptura dos códigos coletivos. O que é isso?
A impunidade é um dos fatores que conduzem a essa quebra. Ou seja, a lei é um código coletivo que sinaliza que qualquer um que infringi-la será punido. Na medida em que isso não é cumprido, crimes ocorrem e não são punidos, seja por um desaparelhamento da polícia, seja pela interferência do poder político e econômico, várias mensagens são enviadas. A primeira, óbvia, é que o caminho está livre para a prática criminosa. Mas outra, muito preocupante, é que vivemos numa cultura em que “é cada um por si”. Cada um se proteja e proteja os seus como puder, e se puder. Há uma perda de confiança num sistema coletivo protetor.
Um segundo fator de quebra dos códigos coletivos é o esvaziamento do poder da palavra. A palavra é talvez o maior código coletivo que temos. Cadeira deve ser cadeira para todos. Se alguém chama uma cama de cadeira, dizemos que ele está louco, psicótico. Pois, no Brasil temos visto, especialmente em alguns políticos, que, frente às evidências de corrupção, de desmandos e incompetências administrativas, diz-se qualquer coisa. Explica-se qualquer coisa e com desfaçatez. Ou seja, a realidade é uma, todos estão vendo, e diz-se qualquer coisa. A palavra não serve mais para refletir a realidade, óbvia para todos. Ora, isso faz com que nosso código coletivo mais básico que é a palavra perca a sua força. Tudo é possível, há uma perda total dos limites, qualquer coisa poderá será chamada de qualquer palavra, e aí voltamos ao “cada um por si”.
Uma ilustração singela desta cultura do “cada um por si”, de quebra de outro código coletivo, é o nosso trânsito, espaço público a ser compartido por todos. Em nossa cidade vige um clima em que um não dá espaço ao outro. Se um motorista está numa via pública e outro precisa entrar nela, sofrerá para encontrar uma boa alma que lhe dê passagem. A maioria acelerará seu carro para não dar uma brecha que viabilize a entrada do pobre infeliz. Este, por sua vez, privado do código coletivo que a via pública é de todos, que o outro tem direito a nela entrar, que existem leis e códigos de convivência, quando estiver na via pública não dará espaço ao próximo necessitado. É o “cada um por si”. O “cada um por si” é a falência da lei, da moral e da ética.
O fato é que estamos vivendo num ambiente selvagem, violento, perigoso e vamos nos adaptando a ele, mas subjaz um sentimento de desamparo, pois sente-se que o poder público está inoperante para lidar com esta realidade. Não por falta de homens competentes, mas por uma estrutura pervertida. Polícia, professores, médicos e demais profissionais da saúde mal pagos, insuficientes e sem condições de trabalho. Ou seja, segurança, educação e saúde precários. Há sintoma maior?
Indignação!

Teorias conspiratórias - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 08/03
Desde que o Supremo reviu a pena de formação de quadrilha no julgamento do mensalão, estabeleceu-se no país debate completamente paranoico sobre o aparelhamento do plenário do STF pelo fato de que os dois novos ministros, Luis Roberto Barroso e Teori Zavascki, indicados pela presidente Dilma, foram decisivos para a mudança da condenação em absolvição.
Os petistas, por sua vez, consideraram uma vitória a absolvição por quadrilha e correram a alardear um suposto reconhecimento de que o Supremo errara no primeiro julgamento.

Não concordo com a
 teoria da conspiração que denuncia um plenário manipulado, embora pessoalmente defenda a tese de que não seria possível a realização de um assalto ao dinheiro público tão bem planejado, em diversos níveis de atuação, se não houvesse um comando central de uma organização criminosa por trás.
Do mesmo modo, é risível a tentativa de transformar a mudança do STF em indicativo de que há espaço para uma revisão criminal que anule o julgamento. Tanto a formação de quadrilha quanto a lavagem de dinheiro - outro crime que possivelmente será anulado pelo novo plenário na análise dos embargos infringentes - são de definição controversa, e é perfeitamente natural a interpretação da lei em sentido inverso, tanto que, dos 12 que votaram no julgamento a esse respeito, metade foi para um lado, e a outra metade, para o outro.

Não é à toa que minha leiga percepção da questão teve o respaldo de nada menos que seis ministros do STF no decorrer do julgamento, enquanto ao fim outros seis ministros votaram em sentido contrário. A maioria "feita sob medida" a que se referiu pejorativamente o presidente do STFJoaquim Barbosa, foi formada circunstancialmente, mas não tem nada de anormal. A Suprema Corte dos Estados Unidos tende a ficar mais liberal ou conservadora à medida que presidentes democratas ou republicanos nomeiam ministros. Segundo Diego Werneck Arguelhes, professor da Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas e especialista no sistema Judiciário americano, sabe-se que há uma tendência geral a um alinhamento de crenças e valores básicos entre o indicado e quem indicou.

Nas últimas décadas, isso significa que presidentes mais liberais tendem a indicar ministros com crenças mais progressistas em questões morais e mais simpáticos à regulação estatal, enquanto presidentes mais à direita indicam ministros do outro lado do espectro nessas questões. Os juízes John Roberts e Samuel Alito, indicados por George W. Bush, são publicamente próximos do Partido Republicano. Já as juízas Elena Kagan e Sonia Sotomayor, indicadas por Obama, têm perfil significativamente mais progressista. A diferença é que a Suprema Corte não trata de questões criminais, ao contrário do STF.

Talvez essa seja uma grande diferença, pois ser conservador ou liberal quanto a questões éticas e morais é uma coisa, outra é definir o quanto os valores morais e políticos de um ministro, claramente importante na interpretação constitucional, podem e devem, ou não, influir no julgamento de uma ação criminal originária. Mas, no fundo, estamos falando da mesma coisa se considerarmos que não ver crime de quadrilha no mensalão equivale a compreender o caso como consequência das leis eleitorais e não como ação delinquencial de políticos petistas.

Se pegarmos a história dos dois novos ministros, não há qualquer indicação de que sejam juízes ou juristas sujeitos a pressões ou manipuláveis.

Têm simplesmente seus pontos de vista, revelados em anos de atuação. O que ocorre, pelo menos no caso do Barroso, é que ele tem "proximidades ideológicas" com o governo petista e visão bastante próxima da dos que defendem a tese de que houve "apenas" caixa 2 eleitoral. Barroso, considerado um dos maiores constitucionalistas do país, sempre foi um advogado ligado à esquerda.

Defendeu a interrupção da gravidez de fetos anencéfalos, pesquisa com células-tronco embrionárias, união homoafetiva e rejeição da extradição de Cesare Battisti, todos temas caros à esquerda que se autointitula progressista.

Zavascki é muito respeitado pela doutrina criada nas áreas de Direito Administrativo e Tributário, com atuação de destaque no STJ. O que deve ter acontecido é que, vendo posições anteriores dos dois, o Planalto os tenha escolhido sem mesmo precisar macular a sabatina com pergunta direta sobre suas posições específicas.(Continua amanhã)

Quem foi o padre José de Anchieta? - DOM ODILO P. SCHERER

O Estado de S.Paulo - 08/03

Nos primeiros dias de abril deste ano o papa Francisco proclamará "santo" o padre José de Anchieta, um missionário que marcou profundamente o Brasil nos seus inícios.

Anchieta nasceu em San Cristóbal de la Laguna (Canárias), em 19 de março de 1534. Seu pai, Juan López de Anchieta, vinha de importante família basca e foi opositor político no País Basco do imperador Carlos V, da Espanha. Juan López acabou encontrando refúgio nas Canárias para escapar das perseguições sofridas. A mãe, Mencía Díaz de Clavijo y Llerena, era natural das ilhas.

Enviado para estudar em Portugal quando tinha 14 ou 15 anos de idade, durante seus estudos de Filosofia na Universidade de Coimbra teve contato com os jesuítas, apenas fundados como ordem religiosa; em 1.º de maio de 1551 entrou na Companhia de Jesus. Enquanto na comunidade local eram lidas as cartas dos primeiros missionários jesuítas no Oriente, entre os quais São Francisco Xavier, nasceu em José de Anchieta o desejo de também seguir o mesmo caminho missionário. Mas foi enviado para o Brasil pelo próprio Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus; em Salvador, de fato, já estavam em ação o padre Manuel da Nóbrega e alguns companheiros.

Partiu de Lisboa em 8 de maio de 1553 e desembarcou em Salvador no dia 13 de julho seguinte, ainda noviço e com apenas 19 anos de idade. Após um breve período de adaptação, Anchieta acompanhou o padre Nóbrega à nova missão de Piratininga, aonde chegaram em 24 de janeiro de 1554. No dia seguinte, festa litúrgica da conversão do apóstolo São Paulo, foi celebrada a primeira missa nessa missão, que recebeu o nome de São Paulo em homenagem ao apóstolo missionário. Essa data é reconhecida oficialmente como marco histórico da fundação da cidade de São Paulo.

Anchieta desempenhou ali intenso trabalho no colégio, o primeiro dos jesuítas na América. Ensinou a língua portuguesa aos filhos de índios e portugueses, mas também estudou a língua dos indígenas e compôs a primeira gramática da língua tupi; no mesmo idioma dos índios escreveu um catecismo, várias peças de teatro e hinos. E ainda compôs poemas e escreveu obras em português, latim e tupi e guarani.

Nos primeiros meses de 1563 acompanhou o padre Nóbrega na negociação da paz entre portugueses e tamoios - estes ameaçavam a colônia de São Vicente. Para dar provas de sinceridade na proposta de paz Anchieta entregou-se como refém aos índios, ficando mais de seis meses entre eles, enquanto Nóbrega e seus companheiros negociavam com a Confederação dos Tamoios. Nesse mesmo período, nada fácil e de contínuos riscos para sua vida, Anchieta escreveu nas areias de uma praia de Ubatuba seu Poema à Virgem Maria.

Uma vez conseguida a chamada Paz de Iperoig, ele se dedicou às missões de São Vicente e de São Paulo, sempre atento à educação, à saúde e à assistência religiosa de indígenas e portugueses. Em 6 de junho de 1566 recebeu, na Catedral de Salvador, a ordenação sacerdotal. Tinha então, quase 32 anos de idade.

Em janeiro de 1567 partiu com o padre Manuel da Nóbrega para o Rio de Janeiro, para fundar o colégio local, que também regeu como reitor entre 1570 e 1573. Nos anos seguintes foi o responsável pela missão de São Vicente, onde se dedicou sobretudo à catequese entre os índios tapuias.

Enquanto isso, escrevia longos relatos aos superiores da Companhia de Jesus sobre as suas atividades missionárias. Fino observador dos usos e costumes indígenas, suas cartas estão repletas de elementos preciosos para os estudos antropológicos dos primeiros habitantes do Brasil. Mas também são muitas as suas anotações sobre a flora, a fauna, a geografia e o clima da terra brasileira. José de Anchieta pode ser considerado um dos primeiros antropólogos e naturalistas do Brasil.

Em 1576 tornou-se o quinto provincial da Companhia de Jesus no Brasil, ocupando esse cargo até 1587. Apesar de sua saúde, nunca boa, empreendeu constantes viagens, percorrendo o litoral desde Cananeia até o Recife, para acompanhar as várias missões que os jesuítas já possuíam no Brasil. Foi também com a sua colaboração que tiveram início as reduções do Paraguai, com sede inicial em Assunção e que se estenderam para o território da Argentina e do sul do Brasil, ao longo dos Rios Paraguai, Paraná e Uruguai.

A essa altura já trabalhavam no vasto território brasileiro 140 missionários da Companhia de Jesus, os quais Anchieta visitava duas vezes por ano, dando origem a novas iniciativas missionárias, mesmo no interior do Brasil, fundando escolas e colégios. No Rio de Janeiro, em 1582, iniciou a construção da Santa Casa de Misericórdia, destinada a assistir os doentes e as vítimas das frequentes epidemias.

Anchieta foi sempre um religioso profundamente interessado nas pessoas, dando especial atenção aos pobres e aos doentes - percorria grandes distâncias para visitar algum enfermo -, mas também aos grupos indígenas ameaçados e aos negros escravizados. À noite, principalmente, passava longas horas em oração e seu desejo era levar a todos a luz do Evangelho de Cristo. A educação era parte integrante de seu trabalho missionário; ele soube respeitar e valorizar os elementos culturais dos povos originários do Brasil.

Em 1587, deixando o cargo de superior provincial, respondeu por vários anos, como reitor, pelo colégio de Vitória. Ali começou a sentir mais fortemente a doença que o levaria à morte em 9 de junho de 1597, enquanto se encontrava em Reritiba, uma localidade no Espírito Santo por ele mesmo fundada e que recebeu, mais tarde, o nome de Anchieta.

Seu corpo foi levado para Vitória para os solenes funerais, durante os quais ele já passou a ser reconhecido como o "Apóstolo do Brasil".

O risco de descuidar da inflação - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 08/03

Com a inflação ainda resistente e longe da meta de 4,5%, o Banco Central (BC) entrará num jogo perigoso se afrouxar a política anti-inflacionária, nos próximos meses, para esperar os efeitos das medidas já em vigor. O primeiro sinal tangível de afrouxamento surgiu na semana passada, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu o ritmo de alta da taxa básica de juros. A taxa passou de 10,5% para 10,75%. A elevação havia sido de 0,5 ponto em cada uma das seis mudanças anteriores. Quem esperava encontrar uma boa e clara justificativa na ata da reunião, divulgada na quinta-feira, ficou decepcionado. Segundo analistas do mercado financeiro, o texto indica duas possibilidades principais: ou o ciclo de alta já terminou ou haverá, no máximo, mais um aumento de 0,25 ponto em abril. Qualquer das duas hipóteses poderá ser confirmada e qualquer palpite, neste momento, será especulativo. Certo, mesmo, só um ponto: nenhuma projeção incluída no documento justifica um esforço menor no combate à alta de preços.

A inflação, segundo as projeções do próprio BC, continuará acima da meta neste e no próximo ano. A estimativa para 2014 considerada em janeiro foi mantida na reunião da semana passada. Nenhuma melhora significativa, portanto, no cenário básico. Para 2015 está previsto um declínio, mas o número final ainda será superior a 4,5%. As projeções do mercado, também citadas, desautorizam qualquer otimismo. Desde janeiro, a inflação prevista para este ano foi mantida em 6%, enquanto a taxa estimada para o próximo ano subiu de 5,5% para 5,7%. Alguns parágrafos adiante, um detalhe nada tranquilizador: apesar de alguma redução da alta mensal de preços, a resistência da inflação "tem-se mostrado ligeiramente acima" da esperada.

Se esse é o caso, como justificar a mudança no ritmo do aperto monetário? O cenário fica mais estranho quando se consideram algumas hipóteses mencionadas na ata: nenhum aumento dos preços da gasolina, do gás de bujão e da telefonia fixa; aumento de 7,5% para a tarifa residencial de eletricidade; elevação de 4,5% para o conjunto dos preços administrados por contrato e monitorados. Se essas premissas estiverem corretas, os preços da Petrobrás - entre outros - permanecerão arrochados e o governo continuará administrando e maquiando os índices de inflação.

A ata contém previsões vagamente otimistas para o conjunto da economia. A expansão do Produto Interno Bruto (PIB) em 2014 será parecida com a do ano passado (2,3%). Não se manterá, portanto, o ritmo de 0,7% registrado no trimestre final de 2013 e equivalente, em termos anuais, a uma taxa de 2,8%. De toda forma, os técnicos do BC mantêm uma projeção melhor que a do mercado, de 1,7%. A previsão mais otimista, no entanto, refere-se à composição do crescimento: o consumo terá menos peso e aumentará a participação do investimento e da exportação. No caso da exportação, o otimismo é associado à expectativa de um câmbio mais desvalorizado e de um cenário externo mais favorável.

Mas essas apostas ainda são muito inseguras. Por enquanto, o cenário ainda é de desajuste entre a demanda, puxada principalmente pelo consumo, e a oferta interna. Esse descompasso tende a diminuir, segundo a ata, mas em nenhum momento se informa quando o cenário ficará razoavelmente equilibrado. Ao contrário: a demanda total continuará robusta, segundo afirmam. O consumo será sustentado pelo crédito e pelo aumento da renda e o investimento será dinamizado pelos financiamentos, pela concessão de serviços públicos e pela ampliação das áreas de exploração de petróleo.

Mas também os eventos no "âmbito parafiscal" serão considerados na formulação da política monetária. "Âmbito parafiscal" é um nome complicado para as operações dos bancos oficiais alimentados pelo Tesouro. Além disso, a ata menciona, de novo, os desequilíbrios no mercado de trabalho e o efeito inflacionário dos aumentos salariais superiores aos ganhos de produtividade. A própria ata fornece, portanto, argumentos poderosos contra um afrouxamento da política. Argumentos a favor, mas fora do texto, só os de natureza eleitoral.

Pelo fim do Dia da Mulher - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 08/03
A existência de um dia dedicado à mulher seria patética numa sociedade livre de discriminação de gênero. Se não patética, pelo menos folclórica, extravagância de satisfeitos que não têm mais nada por que lutar. Ou, em hipótese menos cor-de-rosa, em países em que impera a igualdade de direitos - mulher e homem com as mesmas prerrogativas e deveres estabelecidos na lei.
No Brasil, a Constituição é clara. O art. 5º veda toda forma de discriminação. As demais leis não apresentam tendência a tratamento desigual baseado em sexo. Sabe-se, porém, que, apesar da legislação moderna, tratam-se diferentemente as pessoas em razão de pertencerem ao universo masculino ou feminino. A atrasada e persistente distinção tem raízes culturais profundas. No século 21, parte da sociedade ainda olha para os tempos sintetizados pelo padre Antônio Vieira.

"A mulher", escreveu o jesuíta nos anos 1600, "só deve sair de casa três vezes: no batizado, no casamento e no enterro." Mira ainda, talvez saudosa, o longo período em que a mulher era proibida de votar e ser votada, de disputar cargo público ou vaga no mercado de trabalho. Frequentar escola era sonho irrealizável; ler e escrever, privilégio masculino. Os afazeres domésticos, sim, lhe pertenciam. A ela cabia, sobretudo, cuidar da casa, dos filhos e do marido.

O país avançou a passos largos a partir da metade do século passado. Graças aos movimentos libertários que sacudiram o mundo na década de 1960, entre os quais sobressai o feminista, conquistas se multiplicaram. Hoje, a brasileira tem média de escolaridade maior que a do brasileiro. Está amplamente inserida no mercado de trabalho. Dilma Rousseff chefia o Executivo ungida pelo voto popular.

Mas falta muito para alcançar a efetiva igualdade de direitos. Excluído o serviço público que recruta mão de obra por meio de concurso aberto, os salários delas estão aquém dos pagos a eles no desempenho das mesmas funções. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad-2007), mulheres e homens só vão alcançar a equiparação em 2100. Não só. Os dados da violência são alarmantes. Segundo a ONU, uma mulher sofre agressão a cada cinco minutos. O responsável por 70% dos atos de barbárie é gente de casa - marido ou namorado.

Há muitas barreiras a serem derrubadas. Mudar condutas sociais históricas, porém, é processo longo. Exige o empenho dos diferentes segmentos da sociedade. Estado, escola, igreja, clubes sociais, mídia precisam se comprometer com a causa. O Dia da Mulher, embora simbólico, precisa se tornar obsoleto, triste memória do passado que virou a página. A expectativa é de que seja breve. O Brasil não pode aguardar a virada do século para chegar lá.

Venezuela afunda na crise pela falta de diálogo - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 08/03

População não vislumbra solução para o enfrentamento, que ameaça conquistas do chavismo na área social e joga o país numa grande zona de incerteza



O primeiro aniversário da morte de Hugo Chávez, quarta-feira, deu a seu sucessor, Nicolás Maduro, oportunidade para promover um grande evento com a presença de alguns de seus aliados externos, como o presidente Raúl Castro, de Cuba. “Chávez vive” foi uma das frases mais ouvidas em discursos e na programação das TVs estatais, no esforço para recriar a comoção causada pelo desaparecimento do fundador do chavismo. E, ao mesmo tempo, para respirar diante da onda de descontentamento popular causada pela mais séria crise que o país atravessa nos últimos 15 anos. Mas o truque de tentar governar ao lado de um cadáver tem prazo de validade. Que, pelo visto, se esgotou.

Tanto que o alívio, se houve, durou pouco. Logo o número de mortos em confrontos entre opositores e partidários do regime, em choques com a polícia bolivariana e em ataques dos “coletivos” (bandos pró-governo armados, em motocicletas) subiu para 20 desde o dia 12 de fevereiro. Relatores especiais da ONU para direitos humanos enviaram a Maduro uma carta pedindo explicações sobre o uso da violência e a prisão de manifestantes, jornalistas e trabalhadores dos meios de comunicação.

Surgiram sinais de fissura no dispositivo militar sobre o qual se apoia o chavismo. Três coronéis da Guarda Nacional Bolivariana foram destituídos e estão sob investigação porque teriam expressado descontentamento com os excessos na repressão a manifestantes em Carabobo.

Chávez encomendou a crise ao esbanjar petrodólares em programas sociais populistas, estatizar empresas e assim desestimular a produção nacional em todas as áreas, financiar o governo cubano e apoiar outroscompañeros como Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador) e Cristina Kirchner (Argentina). Ao herdar o comando do chavismo, Maduro não teve capacidade nem coragem de mudar o rumo. Pelo contrário, decidiu aprofundar a revolução bolivariana. Hoje, a Venezuela sangra sob índices recordes de criminalidade; pena nas filas para comprar produtos de primeira necessidade, comida e remédios; desorganiza-se sob uma inflação anual de 56%; acende velas para enfrentar os apagões; sai às ruas para protestar sob risco crescente de repressão; não tem como se informar porque o governo controla os meios de comunicação.

O chavismo tem pontos positivos, como o esforço para dar educação, assistência médica e melhoria de renda aos mais pobres. Por isso, ainda tem muitos seguidores. Mas não irá longe sem um diálogo nacional e uma agenda comum para os graves problemas do país, que incluem o terrorismo de Estado, agora nas ruas. Não será com manobras para desviar o debate para fóruns onde só há aliados, como a Unasul, para fugir aos multilaterais, como a OEA, que Caracas conseguirá algo de positivo. Só um estadista recuaria agora para iniciar a reconstrução das instituições democráticas. Mas Maduro parece muito longe disto.

Ministro e PDT sob suspeita - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 08/03

A Polícia Federal (PF) encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) inquérito e pediu autorização para investigar desvio de recursos do Ministério do Trabalho (MT) pelo ministro Manuel Dias, acusado de participar de esquema que empregava militantes do Partido Democrático Trabalhista (PDT) como "fantasmas". No relatório, a PF reproduziu depoimento em que o ex-presidente da Juventude do partido em Santa Catarina John Sievers repetiu denúncia que fez em entrevista ao Estado. Segundo Sievers, em 2008, quando era presidente do diretório catarinense do PDT, foi remunerado para trabalhar na Agência de Desenvolvimento Regional do Vale do Rio Tijucas e Itajaí-Mirim (ADRVale), de Brusque (SC), administrada por pedetistas e aquinhoada com R$ 11 milhões em contratos federais. Mas, segundo ele, prestava serviços à Universidade Leonel Brizola, órgão partidário para formar militantes. "Quem me passou (as orientações) foi o Manuel (Dias). Meu salário foi pago através da ADRVale", contou.

De acordo com reportagem publicada no Estado, outros filiados ao PDT confirmaram que constavam da folha de pagamento da ONG sem nunca ter trabalhado para ela. Auditoria da Controladoria-Geral da União concluída em outubro listou 38 filiados do PDT entre os beneficiários de pagamento da ADRVale. A maioria deles não comprovou ter prestado serviços à entidade e pertence aos quadros do partido em Santa Catarina, comandado há anos por Dias. Este, que negou tudo, garantiu: "Nunca me envolvi em corrupção". E atribuiu a acusação a "fogo amigo".

Em socorro do colega de governo, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, lembrou o óbvio: investigado não é automaticamente culpado. "A Polícia Federal cumpriu seu papel nos termos da lei. A Constituição é muito clara quando diz que ninguém é culpado sem prévia sentença judicial. O fato de haver uma investigação não atinge em momento algum a situação de qualquer cidadão brasileiro", disse. É óbvio. Mas omitiu o fato de que só suspeitos são investigados.

Fato é que o denunciante entregou à PF extratos bancários e lhe contou que, depois do acerto feito com o ministro na sede do PDT em Florianópolis, ele recebeu de R$ 800 a R$ 1.335 mensais entre fevereiro e outubro de 2008, para ser "vigilante" e "assistente" da ONG. Nunca, contudo, prestou esses serviços: de fato, viajava para cidades do interior catarinense a serviço da escola do partido, à época comandada por Dias.

Dúvidas sobre má conduta de dirigentes do PDT no comando do Ministério do Trabalho não são propriamente novas. Nomeado por Lula e mantido por Dilma, Carlos Lupi, presidente do partido, foi acusado de ter cobrado propinas para autorizar registros de sindicatos e cometido irregularidades em contratos do MT com ONGs. E foi demitido. Substituído por 11 meses no Ministério pelo correligionário Brizola Neto, que não segue sua orientação, porém, Lupi voltou a dominar o MT, ao indicar em março para o posto Manuel Dias, de seu grupo político e secretário-geral do partido fundado por Leonel Brizola, mas hoje controlado por seu ex-ministro. Preocupada com a possibilidade de não se reeleger (de preferência no primeiro turno), Dilma Rousseff não achou prudente se arriscar a perder o tempo do PDT na propaganda eleitoral, a presença dos líderes pedetistas em seu palanque e seu apoio aos projetos do governo nas votações do Congresso.

Se autorizar a PF a investigar Dias e o MT, o STF contribuirá para eliminar e punir a prática daninha à democracia de nomear para cargos de alta importância na cúpula do Executivo dirigentes partidários que, em troca, apoiam o governo na eleição e nas votações de seu interesse no Legislativo. No caso específico do Ministério do Trabalho, afrouxar critérios para permitir a participação de novos sindicatos na divisão do imposto sindical e fazer contratos com ONGs para sustentar militantes contribui para manter a máquina partidária pedetista em funcionamento. Se as denúncias ora feitas contra Dias e o PDT forem confirmadas, então, muita coisa será esclarecida sobre essa barganha espúria.

Comissão inócua - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 08/03

A Comissão de Ética Pública da Presidência da República se especializou em engavetar denúncias, e por isso já existe quem queira sua extinção



Em viagem de retorno da Suíça e em direção a Cuba, a presidente Dilma Rousseff faz uma escala aparentemente não programada em Lisboa. Hospedam-se – ela e sua numerosa comitiva – em hotel de diária exorbitante e aproveitam a ocasião para um jantar regado a bons vinhos num dos mais caros restaurantes da capital portuguesa.

A ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, vai a Santa Catarina, estado onde mantém domicílio eleitoral, e compraz-se em visitar suas bases utilizando-se de helicóptero de uso exclusivo da Polícia Rodoviária Federal. O Ministério Público investigou, concluiu pela irregularidade no uso da aeronave e exigiu ressarcimento no valor de R$ 35 mil.

Nas vésperas de assumir o cargo de ministro da Saúde, o médico Arthur Chioro convenientemente transferiu para sua mulher o comando da sociedade de uma empresa que faturava na prestação de serviços para o Ministério da Saúde. Para completar a tarefa de não caracterizar a burla, o ministro prometeu que a empresa será mantida inativa enquanto durar sua permanência na pasta.

O ministro do Trabalho, Manoel Dias, transferia verbas oficiais para uma ONG em Santa Catarina. E era (ou é) nesta ONG que ele emprega funcionários fantasmas, naturalmente correligionários políticos. Também foi acusado, ao lado do antecessor Carlos Lupi, de conceder facilidades para a criação de sindicatos em troca de recursos não contabilizados.

Repetem-se diuturnamente, no governo federal, casos tão escabrosos quanto os poucos exemplos enumerados acima. Alguns chegam à esfera da Comissão de Ética Pública da Presidência da República, organismo criado ainda sob o governo de Fernando Henrique Cardoso e que tem a incumbência de fiscalizar e aplicar sanções aos agentes públicos que transgredirem preceitos éticos definidos no código de conduta.

O resultado, porém, costuma ser o mesmo para quase todos os casos: a Comissão de Ética, cujos membros são nomeados pela própria Presidência, entende que não houve transgressão alguma e simplesmente apõe o carimbo de “arquive-se” nos processos que lhe chegam para examinar. Ou seja: a comissão parece existir apenas para convalidar atos sobre os quais recaem sólidas suspeitas de uso indevido e antiético do poder e das verbas públicas. Não é à toa que o deputado tucano Antonio Imbassahy chegou a pedir a dissolução da comissão, após o episódio envolvendo Ideli Salvatti.

Já houve um pequeno período, no início de seu governo, em que Dilma Rousseff chegou a ser reconhecida como “faxineira”, no sentido de que afastava de seus cargos os auxiliares que se metiam em encrencas éticas. Praticamente numa só leva, foram para o olho da rua seis ministros de Estado, o que rendeu a Dilma imediatos aplausos – logo, porém, silenciados pela constatação de que os demitidos continuavam mandando e indicando substitutos para os postos que deixaram. Caso típico do Ministério do Trabalho, feudo do presidente nacional do PDT, a quem coube colocar no mesmo lugar outro da mesma turma e praticante dos mesmos desvios.

Para que serve, então, a Comissão de Ética Pública? Não seria mais conveniente que ela fosse composta por representantes independentes da sociedade, em vez de membros indicados a dedo pela Presidência? É bem possível que esta fosse, teoricamente, a solução mais adequada – embora não suficiente para eliminar a repetição cotidiana das agressões à ética no âmbito público. Até porque o país já conta com diversas outras instituições cujo mister se assemelha, em grande parte, ao da Comissão de Ética, como os Tribunais de Contas, o Ministério Público e o próprio Congresso. Que a corrupção e o mau uso do dinheiro público floresçam mesmo com tantas instâncias de fiscalização é uma prova de que a solução não está na profusão de órgãos, mas em que eles trabalhem bem.

Telefone sem sinal - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE S. PAULO - 08/03
Ainda em estudo, novo modelo para leilão do 4G ajuda o governo a fazer caixa, mas pode afetar exigência de cobertura e qualidade Depois do apuro que passou e das manobras contábeis a que precisou recorrer para alcançar a meta de poupança de 2013, a equipe da presidente Dilma Rousseff (PT) mostra-se neste ano propensa a começar mais cedo sua busca por recursos excedentes.
Ilustra essa disposição a notícia, veiculada por esta Folha, de que o governo decidiu mudar as regras da segunda fase do leilão do 4G (telefonia celular de quarta geração), a ser realizada em agosto. Com a modificação, o valor cobrado pelas licenças saltará de R$ 6 bilhões para até R$ 15 bilhões.

Dito dessa forma, a iniciativa poderia ser vista com bons olhos. Seria, afinal, uma maneira de evitar a chamada contabilidade criativa na apresentação de resultados de arrecadação e gastos.

De fato, o anúncio, feito no mês passado, de que o setor público procurará economizar o equivalente a 1,9% do PIB a título de superavit primário (diferença entre receitas e despesas, antes do pagamento dos juros da dívida) foi bem recebido pelos mercados.

Restaram, no entanto, dúvidas pertinentes quanto à viabilidade do compromisso assumido. Basta dizer que, no cenário considerado pela administração federal, a economia brasileira crescerá 2,5% em 2014, ritmo bem mais intenso do que o estimado por analistas.

Estaria sendo omisso o governo que, diante dessas circunstâncias, não tentasse melhorar suas contas. Há, para isso, fórmulas consagradas, como diminuir despesas e melhorar a eficiência da máquina.

Tais preceitos, porém, não parecem ter grande valor para Dilma. A presidente e sua equipe preferem lançar mão de outras medidas, mesmo que isso signifique sacrificar a qualidade do serviço oferecido --cálculo que leva em conta antes as eleições do que o desenvolvimento do país no longo prazo.

O leilão do 4G é o exemplo mais recente dessa miopia administrativa. Os bilhões adicionais que o governo pretende arrecadar virão em troca --se de fato vierem-- de uma redução das obrigações a serem cumpridas pelas empresas.

Em outras palavras, pelo modelo em estudo, as teles pagarão mais para obter licenças, mas não estarão comprometidas com metas de cobertura. Regiões sem poder de compra dificilmente receberão o serviço, a fiscalização será afetada e até programas do governo, como o da banda larga, terminarão prejudicados.

Poucos segmentos evidenciam com tanta clareza a falta de preparo do Brasil para seu crescimento. Disparou, a partir de 2003, o consumo de telefones celulares no país --já são mais de 250 milhões de aparelhos--, mas a infraestrutura não acompanhou a demanda.

Não é por acaso que o setor lidera listas de reclamações de consumidores insatisfeitos. Em vez de enfrentar o gargalo, o atual governo se inclina a criar novos problemas para os usuários de telefonia.

Além da condenação - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 08/03

O futebol é apenas uma janela de visibilidade dessa deformação, pela cobertura intensa que recebe dos meios de comunicação. Ironias, anedotas de conotação racial, apelidos e tratamento desrespeitoso em decorrência da aparência física proliferam também em outros espaços da vida social brasileira.


O racismo é tão abominável, que nem os racistas se assumem como tais. Então, é absolutamente pacífico que atitudes como as praticadas contra o árbitro Márcio Chagas da Silva por alguns torcedores presentes ao estádio Montanha dos Vinhedos, de Bento Gonçalves, na última quarta-feira, devem ser condenadas sem contemporização, até mesmo porque se constituem em crime inafiançável e imprescritível pela legislação brasileira. Considerando-se essas premissas, os autores das ofensas e depredações, assim como o clube Esportivo, sob o qual estava a guarda do carro do árbitro, devem ser responsabilizados criminalmente e também pelas leis desportivas. Mas o episódio não pode se encerrar por aí.
Em primeiro lugar, cabe lembrar que fatos semelhantes têm ocorrido com indesejável frequência nos campos de futebol do país e do Exterior. Na verdade, sempre ocorreram, mas nos últimos anos, graças à conscientização maior dos próprios profissionais e aos avanços legislativos em questões sociais, já não passam despercebidos. As vítimas habituais passaram a denunciá-los e as autoridades já não os relevam como no passado. Só para ficarmos com duas ocorrências semelhantes das últimas semanas, vale lembrar que o jogador Tinga, do Cruzeiro, foi hostilizado com gritos e imitações de macaco pelos torcedores do clube peruano Real Garcilaso, em jogo da Libertadores, e o volante Arouca, do Santos, também ouviu ofensas racistas de torcedores presentes no estádio Romildão, em Mogi Mirim.
Aí está um contraste preocupante, que merece ser debatido: as pessoas sabem que manifestações discriminatórias e preconceituosas sobre raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional podem resultar até em pena de reclusão, mas os xingamentos, as imitações e as comparações ofensivas continuam ocorrendo. E não apenas nos estádios. O futebol é apenas uma janela de visibilidade dessa deformação, pela cobertura intensa que recebe dos meios de comunicação. Ironias, anedotas de conotação racial, apelidos e tratamento desrespeitoso em decorrência da aparência física proliferam também em outros espaços da vida social brasileira.
Essa realidade desfaz o mito de democracia racial, criado por historiadores e legitimado convenientemente por governantes e políticos? Não totalmente. A miscigenação no Brasil é uma realidade. O convívio pacífico entre os descendentes das diversas etnias que formaram o nosso povo também é. Afora o período da escravidão, o país não registrou conflitos raciais nem apartheid explícito. Mas o racismo velado se manteve e se mantém, infelizmente, muito por conta de distorções educacionais no âmbito familiar e também no ambiente escolar. Nossa tolerância com pequenos preconceitos, com mecanismos subliminares de diferenciação e até com a sátira racial acaba criando uma cultura da discriminação que invariavelmente resulta em agressividade. Não se pode esquecer que foi o pensamento racista, aquele que leva indivíduos a se considerarem superiores por características físicas, hereditárias e diferenças biológicas, que serviu de pretexto para a escravidão, para o nazismo, para a eugenia e para genocídios de toda ordem.
Não há inocência no racismo. Chamar um jogador de futebol ou um árbitro de macaco é, sim, uma ofensa hedionda, embora revele muito mais a indigência intelectual do agressor do que a suposta inferioridade do ofendido. O racista de estádio é também o homofóbico de estádio, o passional do estádio, aquele que xinga o árbitro e os adversários com os piores palavrões, e depois vai para casa como se nada tivesse acontecido. Nem por isso são atitudes aceitáveis. O olhar preconceituoso gera desconfianças e rancores. A manifestação discriminatória gera reação igualmente excludente, até pelo natural sentimento de autodefesa de quem se vê agredido. Não é por outro motivo que estádios de futebol têm se transformado em praças de guerra, ocasionalmente até com mortos e feridos.
Não precisamos conviver com esse ódio. Temos que extirpá-lo dos estádios de futebol e das nossas vidas. Se os racistas merecem condenação por suas ações criminosas, o racismo merece uma atenção ainda maior de todos nós, para que possamos atacá-lo na sua origem e construir uma cultura de tolerância para as próximas gerações. A educação familiar _ com o exercício da tolerância e menos transigência com piadinhas, palavras e gestos discriminatórios _ é um bom antídoto preventivo para essa praga que assola o país.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Lula segura de lá e eu de cá”
Presidente do PMDB, Valdir Raupp, tentando garantir a aliança com o PT de Lula



MENSALEIROS PODEM SER TRANSFERIDOS DA PAPUDA

Poderá custar caro aos meliantes do mensalão uma resposta irônica do governo do DF – como sugere a minuta do documento, que vazou – a questionamentos da Vara de Execuções Penais sobre regalias aos petistas presos na Papuda. Os detentos podem ser transferidos para presídios em outros estados, inclusive de segurança máxima, caso a resposta do governo petista do DF não seja considerada satisfatória.

PROVOCAÇÃO

O presidente do STF, Joaquim Barbosa, que visita a África, não gostou das expressões de deboche na minuta da resposta do governo do DF.

DESTINO: PEDRINHAS

Mensagens iradas ao STF sugerem que o ministro Joaquim Barbosa transfira os mensaleiros para o Presídio de Pedrinhas, no Maranhão.

ELITE MUSICAL

Após Gilberto Gil, o PSB sonha faturar apoio de Caetano Veloso à candidatura da senadora Lídice da Mata ao governo da Bahia.

TUDO POR PALANQUE

Sob pressão de Eduardo Campos, o PSB de Sergipe poderá definir em 11 de abril a candidatura do senador Antônio Valadares ao governo.

PETROBRAS MAIS PERTO DA ‘AUTOINEFICIÊNCIA’

A Petrobras continua divulgando com estardalhaço produção recorde (407 mil barris/dia) do pré-sal, mas não informa que, a rigor, a produção está em queda. Dados da própria empresa deixam claro que sem os 400 mil barris do pré-sal, a produção dos demais poços, incluindo os “descobertos” em anos eleitorais na última década, é menor que em 2006, quando o ex-presidente Lula anunciou a “autossuficiência”.

MEIO A MEIO

Dados da Agência Nacional do Petróleo apontam para a extração de um barril de água para cada barril de petróleo dos poços pós-sal.

AUTOSSUFICIÊNCIA É SONHO

O Brasil importou quase R$ 93 bilhões em petróleo e derivados, em 2013. Nos últimos três anos, foram R$ 11 bilhões só em gasolina.

LIÇÕES DE HISTÓRIA

O Twitter perde a guerra, mas não o humor: internauta lembrou ao presidente doidivanas Putin, da Rússia, que “a Crimeia não compensa”.

ACERTANDO O SCRIPT

O vice Michel Temer combinou com o presidente do PMDB, Valdir Raupp (RO), uma viagem juntos de São Paulo para Brasília, neste domingo, para a reunião com Dilma sobre a crise com o PT.

DESENCALACROU

O ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil) avisou ao presidente do PP, Ciro Nogueira (PI), que a reforma ministerial deve estar resolvida até o fim desta semana. A sigla indicará sucessor ao Ministério das Cidades.

BANDA DE MÚSICA

Foi vice de audiência a entrevista do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) ao Programa do Ratinho no SBT, quinta-feira (6). Ele distribuiu bordoadas a torto e a direito no governo Dilma Rousseff e nos petistas em geral.

VAI TER VOLTA

Presidente do PMDB-BA, Lúcio Vieira critica o silêncio do vice Michel Temer nas declarações de Rui Falcão de que o partido é comprável com emendas: “Ele precisa falar para a Dilma segurar o pit-bull dela”.

CRISTÃ-NOVA

Pegou mal na bancada do Senado a aparição de Kátia Abreu (TO) no programa nacional do PMDB, na TV. Presidente da Confederação Nacional da Agricultura, ela deixou o PSD há apenas cinco meses.

DE MOLHO

O senador Aécio Neves (MG) colocou na geladeira a ideia de realizar ainda este mês a convenção do PSDB para lançar sua candidatura à Presidência. Ele quer, antes, organizar os palanques estaduais.

AMAPÁ

O governador do Amapá, Camilo Capiberibe (PSB), monta uma chapa no mínimo inusitada para sua reeleição, com Charles Chelala (PSOL) na vice e a ex-governadora Dora Nascimento (PT) para o Senado.

GOVERNABILIDADE

O senador Eduardo Braga (AM), preterido por Dilma para o ministério, após sua bronca colossal na ministra Ideli Salvatti, lembra ao PT que o PMDB do Senado “tem garantido a governabilidade do País”.

PERGUNTA AO PASSARINHO

Morador da residência oficial nas montanhas, o prefeito sujismundo Eduardo Paes (PMDB-RJ), jogou lixo no mato na greve dos lixeiros?


PODER SEM PUDOR

RUMO AO CENTENÁRIO

O senador Edison Lobão (PMDB-MA), gentil, telefonou ao colega Antonio Carlos Magalhães, que estava num hotel, em São Paulo, após receber alta do hospital com um marca-passo no peito:

- Seu coração está preparado para mais 50 anos, senador!

- Cinquenta eu não digo - reagiu o babalaô, então aos 77 anos - mas uns 25 já tava bom...

ACM faleceu em julho de 2007, aos 79 anos de idade.