CORREIO BRAZILIENSE - 14/01
No jogo de conquista de territórios, cada um tem um objetivo secreto a ser cumprido. O do PT, nessa fase, é “destruir Eduardo Campos” e os exércitos dele. Para isso, o editorial petista chamando o governador de Pernambuco de “tolo” extrapolou o mundo virtual e começa a tomar conta dos estados.
“Há um movimento claro do PT no sentido de tentar empurrar a candidatura de Eduardo Campos para a direita. E isso evidencia o temor deles (dos petistas) de que Eduardo avance sobre um eleitorado do qual eles se julgam proprietários, o eleitorado de esquerda”, diz o vice-presidente do PSB, Roberto Amaral. Antes, era apenas Pernambuco, mas, agora, Sergipe, Bahia e Rio Grande do Sul já registraram mal-estar entre os dois partidos. Ou seja, não tem mais volta.
“Irremovível”
Assim, os peemedebistas definiram a candidatura de Luiz Fernando Pezão ao governo do Rio de Janeiro. E não aceitam palanque duplo. Isso significa que não dão opção ao PT que não seja retirar a candidatura de Lindbergh Farias. Eles não se importam com Anthony Garotinho (PR) ou Marcelo Crivella (PRB). Mas é simbólico que o PT permaneça aliado do PMDB no Rio.
Cacife
As exigências dos peemedebistas têm uma razão básica: os dados da economia, até aqui, não permitem ao PT o luxo de dispensar aliados ou fazer muitas exigências em termos eleitorais. Para completar, esta semana ainda tem reunião do Copom, com perspectiva de alta de juros e, em Brasília, muitos postos subiram um pouquinho mais o preço da gasolina. Se continuar nesse ritmo, outros “irremovíveis” aparecerão.
Faroeste nacional
Os senadores que visitaram o presídio de Pedrinhas, no Maranhão, descobriram até mesmo presos que já terminaram de cumprir a pena e continuam por lá, porque a decisão de soltura ainda não foi expedida. Enquanto isso, policiais eram feitos reféns em Rondônia. É a panela de pressão do sistema prisional brasileiro explodindo.
O nome de Roseana
Se a governadora Roseana Sarney (PMDB-MA) decidir ficar no cargo até o fim do ano, ela dará preferência ao ministro do Turismo, Gastão Vieira, para concorrer ao Senado. Falta combinar com ele, que tem a reeleição certa para deputado federal.
Aécio e a CEF
O presidente do PSDB, Aécio Neves, pré-candidato a presidente da República, passou parte do dia ontem estudando a possibilidade de acionar o governo na Justiça devido à manobra da Caixa Econômica Federal de contabilizar como lucro o salto de contas inativas da poupança.
CURTIDAS
Tá na chuva…/ …É para se molhar. É assim que o vice-presidente da Câmara, deputado André Vargas (foto), do PT do Paraná, se refere à bronca de Eduardo Campos com o texto publicado em uma rede social criticando o governador de Pernambuco. “A política é polêmica. Todos os dias, Eduardo Campos bate na Dilma descaradamente. Ele bateu, bateu e, de repente, caiu no salão e agora fica reclamando.”
Tá ligado/ O presidente do PT, Rui Falcão, tem dedicado esses dias a reuniões internas para avaliar a situação nos estados. Ontem, conversou com o deputado João Paulo Lima, de Pernambuco.
O chamado/ O vice-presidente Michel Temer saiu de almoço no Rio ontem direto para o gabinete da presidente em Brasília. Não teve tempo nem sequer de passar na própria sala.
Viva dom Orani!/ A presidente Dilma Rousseff e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, gravaram uma saudação especial pela indicação de dom Orani Tempesta para integrar o cardinalato da Igreja Católica. A mensagem foi exibida ontem na Rede Vida, uma das emissoras ligadas à Igreja.
terça-feira, janeiro 14, 2014
MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO
FOLHA DE SP - 14/01
Varejista de SC investe R$ 160 mi em lojas
Décimo maior grupo de supermercados do país, com faturamento ao redor de R$ 2,35 bilhões, o Angeloni instalará quatro novas unidades neste ano.
Juntos, os empreendimentos demandarão cerca de R$ 160 milhões. Serão duas lojas maiores, com 30 mil metros quadrados de área construída cada uma, no Paraná e duas menores em Santa Catarina --Estado-sede da rede.
As unidades de grande porte deverão ter, em média, 25 lojas de apoio e receber R$ 50 milhões em investimentos. Elas serão construídas em Curitiba e em Londrina.
"Nosso modelo é de supermercados maiores voltados para as classe A e B", diz José Augusto Fretta, presidente da empresa.
Com esses dois empreendimentos, a companhia passará a ter seis pontos no Paraná. Para atendê-los, planeja um centro de distribuição em Curitiba.
"O início das obras do centro de logística dependerá da abertura dessas novas lojas", afirma o executivo.
A partir de 2015, o Paraná deverá ser o foco de expansão do grupo.
"A avaliação que fazemos é que há muito espaço para crescer no Estado nos próximos anos."
Em Santa Catarina, os planos para 2014 são uma unidade em São José, na região de Florianópolis, com 25 mil metros quadrados de área construída, e outra em Itapema (cerca de 70 km ao norte da capital), com 18 mil.
Aplicações com isenção de IR têm alta de 45,7% em estoque, diz Cetip
O estoque de ativos que oferecem isenção de imposto de renda para pessoa física fechou 2013 com alta de 45,7% na Cetip, companhia que atua com serviços de registro, central depositária, negociação e liquidação de títulos.
O volume total passou de R$ 118 bilhões em dezembro de 2012 para R$ 172 bilhões no último mês de 2013.
O montante inclui a soma de CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio), CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários), LCAs (Letras de Crédito do Agronegócio) e LCIs (Letras de Crédito Imobiliário).
A isenção de imposto de renda representa um ganho significativo para os investidores em um cenário de juros menores, diz Ricardo Magalhães, executivo da empresa.
"Embora os juros tenham aumentado um pouco recentemente, se observa cada vez mais uma busca por diversificação e por melhores alternativas de investimento."
"A Bolsa não teve um bom desempenho nos últimos tempos e isso também ajudou [a impulsionar a renda fixa]."
NAVIO ATRACADO
A movimentação de contêineres na Portonave, terminal portuário da Triunfo Participações em Santa Catarina, aumentou 13,8% no ano passado.
As importações foram responsáveis por puxar esse crescimento, com alta de 18,5%. Plásticos e cerâmicas foram os principais produtos desembarcados.
As cargas que saíram do porto para outros países registraram elevação de 11,4%. Carnes congeladas representam a maior parte das mercadorias exportadas.
13,8%
foi o crescimento na movimentação de contêineres no porto
705.790
é o número de TEUs (unidade de medida equivalente a um contêiner de 20 pés) movimentados em 2013
620.026
haviam sido movimentados no ano anterior
41%
das exportações do terminal foram de cargas refrigeradas
RECUPERAÇÃO AMERICANA
A confiança do consumidor americano atingiu seu patamar mais elevado dos últimos sete meses, de acordo com pesquisa da Ipsos.
Neste mês, o indicador da empresa chegou a 51,5 pontos --1,8 ponto a mais que o registrado em dezembro.
Em junho, último recorde do índice, a confiança havia alcançado 51,8 pontos.
O levantamento da companhia mostra também que os americanos estão mais propensos a realizar investimentos --o índice que mensura a probabilidade de aportar recursos passou de 41,5 pontos em dezembro para 44,7.
Entre os cinco quesitos que compõem o indicador, o relacionado às expectativas foi o único a registrar baixa --de 58,9 no mês anterior para 57,8 em janeiro.
A pesquisa aponta ainda que 25% dos entrevistados conhecem alguma pessoa que perdeu o emprego nos últimos seis meses. Essa foi a menor parcela desde 2007.
Foram entrevistadas cerca de mil pessoas.
PROJETOS PARA 2014
O percentual de empresas que pretendem ampliar o número de funcionários é o mais alto dos últimos dois anos, segundo pesquisa feita pela EIU (Economist Intelligence Unit) a pedido da consultoria EY. Foram ouvidos 1.600 executivos de 72 países.
Quase a metade deles (48%) afirmou que pretende contratar. Cortes na folha estão entre os planos de 11% dos entrevistados.
A maioria dos consultados (85%) aposta em algum crescimento neste ano. Apenas 2% acreditam em retração.
Os chineses são os mais confiantes (82%), seguidos pelos franceses (80%). Próximos da média mundial (65%), estão os americanos (66%), os japoneses (68%) e os alemães (68%).
Quando perguntados sobre a meta para este ano da companhia que dirigem, 58% dos executivos responderam que miram no crescimento. Aproximadamente um terço (32%) quer reduzir gastos e aumentar a eficiência das operações, e 2% planejam sobreviver.
Expansão em curso Com foco no Sudeste e no Nordeste, a rede de cursos profissionalizantes Cebrac quer chegar a 500 unidades até 2018. A empresa paranaense deve abrir 50 escolas neste ano --hoje são 143.
Intercâmbio A rede de intercâmbio e turismo CI pretende abrir mais dez lojas em 2014. O objetivo é ampliar em 20% o faturamento, que em 2013 foi de R$ 242 milhões. Hoje, são 73 pontos.
Bolsa de couro A Couro&Cia, de bolsas e acessórios, abrirá dez novas lojas neste ano. O plano é dobrar a produção e chegar a 24 mil unidades por mês.
Varejista de SC investe R$ 160 mi em lojas
Décimo maior grupo de supermercados do país, com faturamento ao redor de R$ 2,35 bilhões, o Angeloni instalará quatro novas unidades neste ano.
Juntos, os empreendimentos demandarão cerca de R$ 160 milhões. Serão duas lojas maiores, com 30 mil metros quadrados de área construída cada uma, no Paraná e duas menores em Santa Catarina --Estado-sede da rede.
As unidades de grande porte deverão ter, em média, 25 lojas de apoio e receber R$ 50 milhões em investimentos. Elas serão construídas em Curitiba e em Londrina.
"Nosso modelo é de supermercados maiores voltados para as classe A e B", diz José Augusto Fretta, presidente da empresa.
Com esses dois empreendimentos, a companhia passará a ter seis pontos no Paraná. Para atendê-los, planeja um centro de distribuição em Curitiba.
"O início das obras do centro de logística dependerá da abertura dessas novas lojas", afirma o executivo.
A partir de 2015, o Paraná deverá ser o foco de expansão do grupo.
"A avaliação que fazemos é que há muito espaço para crescer no Estado nos próximos anos."
Em Santa Catarina, os planos para 2014 são uma unidade em São José, na região de Florianópolis, com 25 mil metros quadrados de área construída, e outra em Itapema (cerca de 70 km ao norte da capital), com 18 mil.
Aplicações com isenção de IR têm alta de 45,7% em estoque, diz Cetip
O estoque de ativos que oferecem isenção de imposto de renda para pessoa física fechou 2013 com alta de 45,7% na Cetip, companhia que atua com serviços de registro, central depositária, negociação e liquidação de títulos.
O volume total passou de R$ 118 bilhões em dezembro de 2012 para R$ 172 bilhões no último mês de 2013.
O montante inclui a soma de CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio), CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários), LCAs (Letras de Crédito do Agronegócio) e LCIs (Letras de Crédito Imobiliário).
A isenção de imposto de renda representa um ganho significativo para os investidores em um cenário de juros menores, diz Ricardo Magalhães, executivo da empresa.
"Embora os juros tenham aumentado um pouco recentemente, se observa cada vez mais uma busca por diversificação e por melhores alternativas de investimento."
"A Bolsa não teve um bom desempenho nos últimos tempos e isso também ajudou [a impulsionar a renda fixa]."
NAVIO ATRACADO
A movimentação de contêineres na Portonave, terminal portuário da Triunfo Participações em Santa Catarina, aumentou 13,8% no ano passado.
As importações foram responsáveis por puxar esse crescimento, com alta de 18,5%. Plásticos e cerâmicas foram os principais produtos desembarcados.
As cargas que saíram do porto para outros países registraram elevação de 11,4%. Carnes congeladas representam a maior parte das mercadorias exportadas.
13,8%
foi o crescimento na movimentação de contêineres no porto
705.790
é o número de TEUs (unidade de medida equivalente a um contêiner de 20 pés) movimentados em 2013
620.026
haviam sido movimentados no ano anterior
41%
das exportações do terminal foram de cargas refrigeradas
RECUPERAÇÃO AMERICANA
A confiança do consumidor americano atingiu seu patamar mais elevado dos últimos sete meses, de acordo com pesquisa da Ipsos.
Neste mês, o indicador da empresa chegou a 51,5 pontos --1,8 ponto a mais que o registrado em dezembro.
Em junho, último recorde do índice, a confiança havia alcançado 51,8 pontos.
O levantamento da companhia mostra também que os americanos estão mais propensos a realizar investimentos --o índice que mensura a probabilidade de aportar recursos passou de 41,5 pontos em dezembro para 44,7.
Entre os cinco quesitos que compõem o indicador, o relacionado às expectativas foi o único a registrar baixa --de 58,9 no mês anterior para 57,8 em janeiro.
A pesquisa aponta ainda que 25% dos entrevistados conhecem alguma pessoa que perdeu o emprego nos últimos seis meses. Essa foi a menor parcela desde 2007.
Foram entrevistadas cerca de mil pessoas.
PROJETOS PARA 2014
O percentual de empresas que pretendem ampliar o número de funcionários é o mais alto dos últimos dois anos, segundo pesquisa feita pela EIU (Economist Intelligence Unit) a pedido da consultoria EY. Foram ouvidos 1.600 executivos de 72 países.
Quase a metade deles (48%) afirmou que pretende contratar. Cortes na folha estão entre os planos de 11% dos entrevistados.
A maioria dos consultados (85%) aposta em algum crescimento neste ano. Apenas 2% acreditam em retração.
Os chineses são os mais confiantes (82%), seguidos pelos franceses (80%). Próximos da média mundial (65%), estão os americanos (66%), os japoneses (68%) e os alemães (68%).
Quando perguntados sobre a meta para este ano da companhia que dirigem, 58% dos executivos responderam que miram no crescimento. Aproximadamente um terço (32%) quer reduzir gastos e aumentar a eficiência das operações, e 2% planejam sobreviver.
Expansão em curso Com foco no Sudeste e no Nordeste, a rede de cursos profissionalizantes Cebrac quer chegar a 500 unidades até 2018. A empresa paranaense deve abrir 50 escolas neste ano --hoje são 143.
Intercâmbio A rede de intercâmbio e turismo CI pretende abrir mais dez lojas em 2014. O objetivo é ampliar em 20% o faturamento, que em 2013 foi de R$ 242 milhões. Hoje, são 73 pontos.
Bolsa de couro A Couro&Cia, de bolsas e acessórios, abrirá dez novas lojas neste ano. O plano é dobrar a produção e chegar a 24 mil unidades por mês.
Caixa se explica - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 14/01
A Caixa Econômica, ontem, corria atrás do prejuízo para explicar a confusão gerada pelo encerramento de contas. Informou que no próximo balanço a ser divulgado, no começo de fevereiro, haverá a anulação dessa apropriação do dinheiro das contas encerradas. Garantiu também que não prescreve o direito do portador da conta sobre o seu patrimônio, mesmo que ela tenha sido encerrada.
Em outras palavras: a qualquer momento que o dono do dinheiro aparecer, o dinheiro poderá ser sacado. Conversei ontem
com o vice-presidente de Finanças da Caixa, Márcio Percival, e ele esclareceu que as contas não foram encerradas por inatividade, mas porque os documentos eram irregulares.
— Por inatividade, nenhuma conta pode ser encerrada. Se ela ficar 100 anos sem movimentação, terá que continuar lá. O que nos levou a encerrar essas 496 mil contas foi o fato de que elas tinham CPFs ou CNPJs irregulares, e isso está respaldado por resolução do Conselho Monetário Nacional e Circular do Banco Central — disse. A notícia da “IstoÉ” falava em 525 mil contas, mas ele afirmou que o número final foi 496 mil.
Segundo o vice-presidente, a auditoria externa dizia que aquele valor (R$ 719 milhões, segundo a revista) não poderia
continuar no passivo da Caixa já que as contas teriam que ser encerradas de acordo com a regulamentação.
Perguntei a Percival se em algum momento eles comunicaram ao Banco Central que o dinheiro das contas seria apropriado como ativo da Caixa. Ele admitiu que não comunicou ao Banco Central.
O que é um CPF irregular? Segundo Percival, é CPF inexistente, que não bate com a base da Receita, de contribuinte que não faz declaração há muito tempo ou que teve documento roubado, tirou outro. Ou até — disse ele — números simplesmente inventados, como 99999.
Na gigantesca base de clientes da Caixa, há milhões de brasileiros que não estão no mercado de trabalho formal, têm baixa instrução ou baixa renda e, por isso, não fazem declaração de renda. Esse tipo de falha cadastral era de se esperar.
Segundo a direção da instituição, foi por isso que eles ficaram anos tentando corrigir os dados. Segundo ele, não foram três, mas mais de 10 anos tentando contatar esses poupadores. Tanto que no início do trabalho eram 853 mil e esse número foi reduzido para os atuais 496 mil contas.
A Caixa tinha várias formas de se comunicar com os detentores das contas com CPFs irregulares. Poderia, por exemplo, convocar uma coletiva e explicar aos jornalistas que estava sem contato com esses milhares de poupadores. Os caminhos para fazer a coisa certa são muitos. Mas ela escolheu o errado: o de considerar seus os recursos das contas e inflar seu lucro.
O jornalismo de economia sabe muito bem fazer reportagens de serviço. A tecnologia foi desenvolvida nos anos da hiperinflação e dos planos econômicos que alteravam as muitas regras e fórmulas que regem a vida econômica do devedor, poupador, contribuinte, consumidor. Isso, certamente, teria destaque nos jornais, nos telejornais, nas rádios. Os comentaristas tentariam entender para explicar.
E o que a CEF fez? Sem comunicar sequer à autoridade monetária, considerou que, se o distinto poupador tem um número errado no seu cadastro e não aparece, o dinheiro é dela, Caixa. E lançou como lucro e pagou impostos.
Quem agiu certo? A Controlado ria- Geral da União, que descobriu, achou estranho, informou ao Banco Central. A “IstoÉ” publicou a reportagem, e, mesmo com as correções que a Caixa tentava fazer, o banco não negava o fato de que, ao encerrar as contas, indevidamente transferira o dinheiro para o seu patrimônio. No próximo balanço, vai desfazer essa contabilidade.
A grande dúvida é se o imposto de renda pago em cima desse lucro que não houve será devolvido pela Receita à Caixa. O melhor seria que tudo tivesse sido comunicado ao Banco Central e ao distinto público desde o começo. Teria evitado esse enorme confusão.
A Caixa Econômica, ontem, corria atrás do prejuízo para explicar a confusão gerada pelo encerramento de contas. Informou que no próximo balanço a ser divulgado, no começo de fevereiro, haverá a anulação dessa apropriação do dinheiro das contas encerradas. Garantiu também que não prescreve o direito do portador da conta sobre o seu patrimônio, mesmo que ela tenha sido encerrada.
Em outras palavras: a qualquer momento que o dono do dinheiro aparecer, o dinheiro poderá ser sacado. Conversei ontem
com o vice-presidente de Finanças da Caixa, Márcio Percival, e ele esclareceu que as contas não foram encerradas por inatividade, mas porque os documentos eram irregulares.
— Por inatividade, nenhuma conta pode ser encerrada. Se ela ficar 100 anos sem movimentação, terá que continuar lá. O que nos levou a encerrar essas 496 mil contas foi o fato de que elas tinham CPFs ou CNPJs irregulares, e isso está respaldado por resolução do Conselho Monetário Nacional e Circular do Banco Central — disse. A notícia da “IstoÉ” falava em 525 mil contas, mas ele afirmou que o número final foi 496 mil.
Segundo o vice-presidente, a auditoria externa dizia que aquele valor (R$ 719 milhões, segundo a revista) não poderia
continuar no passivo da Caixa já que as contas teriam que ser encerradas de acordo com a regulamentação.
Perguntei a Percival se em algum momento eles comunicaram ao Banco Central que o dinheiro das contas seria apropriado como ativo da Caixa. Ele admitiu que não comunicou ao Banco Central.
O que é um CPF irregular? Segundo Percival, é CPF inexistente, que não bate com a base da Receita, de contribuinte que não faz declaração há muito tempo ou que teve documento roubado, tirou outro. Ou até — disse ele — números simplesmente inventados, como 99999.
Na gigantesca base de clientes da Caixa, há milhões de brasileiros que não estão no mercado de trabalho formal, têm baixa instrução ou baixa renda e, por isso, não fazem declaração de renda. Esse tipo de falha cadastral era de se esperar.
Segundo a direção da instituição, foi por isso que eles ficaram anos tentando corrigir os dados. Segundo ele, não foram três, mas mais de 10 anos tentando contatar esses poupadores. Tanto que no início do trabalho eram 853 mil e esse número foi reduzido para os atuais 496 mil contas.
A Caixa tinha várias formas de se comunicar com os detentores das contas com CPFs irregulares. Poderia, por exemplo, convocar uma coletiva e explicar aos jornalistas que estava sem contato com esses milhares de poupadores. Os caminhos para fazer a coisa certa são muitos. Mas ela escolheu o errado: o de considerar seus os recursos das contas e inflar seu lucro.
O jornalismo de economia sabe muito bem fazer reportagens de serviço. A tecnologia foi desenvolvida nos anos da hiperinflação e dos planos econômicos que alteravam as muitas regras e fórmulas que regem a vida econômica do devedor, poupador, contribuinte, consumidor. Isso, certamente, teria destaque nos jornais, nos telejornais, nas rádios. Os comentaristas tentariam entender para explicar.
E o que a CEF fez? Sem comunicar sequer à autoridade monetária, considerou que, se o distinto poupador tem um número errado no seu cadastro e não aparece, o dinheiro é dela, Caixa. E lançou como lucro e pagou impostos.
Quem agiu certo? A Controlado ria- Geral da União, que descobriu, achou estranho, informou ao Banco Central. A “IstoÉ” publicou a reportagem, e, mesmo com as correções que a Caixa tentava fazer, o banco não negava o fato de que, ao encerrar as contas, indevidamente transferira o dinheiro para o seu patrimônio. No próximo balanço, vai desfazer essa contabilidade.
A grande dúvida é se o imposto de renda pago em cima desse lucro que não houve será devolvido pela Receita à Caixa. O melhor seria que tudo tivesse sido comunicado ao Banco Central e ao distinto público desde o começo. Teria evitado esse enorme confusão.
Carga pesada - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 14/01
O ano começa carregado de heranças malditas de 2013 e de antes. As mais notórias são o baixo ritmo de crescimento econômico, provavelmente inferior a 2%, e a elevada inflação, que volta a saltar para a casa dos 6%.
O governo Dilma inicia o quarto ano de administração sem ter conseguido entregar nenhuma das suas metas mais importantes de política econômica. Até mesmo seus eventuais sucessos vêm sendo apontados como fonte adicional de problemas. Um deles é o nível sem precedentes de pleno-emprego: apenas 4,6% não conseguiam trabalho em novembro. Não é a oposição, é o próprio Banco Central que identifica aí uma das principais fontes de custos e de alta de preços.
Resultados ruins não apenas se repetem por três anos consecutivos (2011, 2012 e 2013), como, também, são projetados para 2014 (veja o gráfico). Deveria ser indicador mais do que suficiente para levar o governo a rever sua política econômica enquanto não for tarde demais para mudar.
Em 2013, a inflação só não furou os 7% porque o governo recorreu a represamentos artificiais de tarifas, especialmente da energia elétrica, dos combustíveis e dos transportes urbanos. Como foi apontado aqui na edição de sábado, em 2013, enquanto os preços livres subiram 7,27%, os preços administrados não evoluíram mais do que 1,52%.
As distorções que daí provieram já são tão fortes que fica difícil continuar com essas práticas de segurar os preços a muque. Por outro lado, os juros básicos (Selic) subiram 2,75 pontos porcentuais ao ano desde abril e muito provavelmente subirão mais meio ponto na reunião do Copom prevista para amanhã. Até onde o Banco Central precisaria puxar a Selic para evitar novas esticadas da inflação? E o que custará essa alta de juros em despesas extras do Tesouro Nacional com o serviço da dívida pública?
Também está mais do que demonstrado que a política fiscal (contas públicas) não está calibrada o suficiente para evitar efeitos inflacionários. Naquela linguagem do Banco Central, a política fiscal não está suficientemente apertada para garantir sua neutralidade em relação à inflação. Ao contrário, a falta de transparência na administração da economia é, por si só, fator de perda de credibilidade, o que piora tudo porque leva empresários e outros formadores de preços a remarcar exageradamente mercadorias e serviços de maneira a se defender de riscos futuros.
Neste início de ano, não é só o baixo crescimento e a inflação alta que aumentam a carga e azedam o ambiente. Também pesa o rombo crescente nas contas externas, fator responsável pelas pressões de procura por moeda estrangeira, que também produzem desconfiança.
O governo Dilma parece determinado a evitar correções que possam prejudicar seus objetivos eleitorais. O problema é que chega ao ponto em que a falta de soluções também produz custos políticos. Além disso, hoje já é difícil de distinguir problemas meramente administrativos dos problemas de credibilidade, porque ambos se reforçam e acentuam as distorções. Não basta mudar; é preciso agora principalmente convencer.
O ano começa carregado de heranças malditas de 2013 e de antes. As mais notórias são o baixo ritmo de crescimento econômico, provavelmente inferior a 2%, e a elevada inflação, que volta a saltar para a casa dos 6%.
O governo Dilma inicia o quarto ano de administração sem ter conseguido entregar nenhuma das suas metas mais importantes de política econômica. Até mesmo seus eventuais sucessos vêm sendo apontados como fonte adicional de problemas. Um deles é o nível sem precedentes de pleno-emprego: apenas 4,6% não conseguiam trabalho em novembro. Não é a oposição, é o próprio Banco Central que identifica aí uma das principais fontes de custos e de alta de preços.
Resultados ruins não apenas se repetem por três anos consecutivos (2011, 2012 e 2013), como, também, são projetados para 2014 (veja o gráfico). Deveria ser indicador mais do que suficiente para levar o governo a rever sua política econômica enquanto não for tarde demais para mudar.
Em 2013, a inflação só não furou os 7% porque o governo recorreu a represamentos artificiais de tarifas, especialmente da energia elétrica, dos combustíveis e dos transportes urbanos. Como foi apontado aqui na edição de sábado, em 2013, enquanto os preços livres subiram 7,27%, os preços administrados não evoluíram mais do que 1,52%.
As distorções que daí provieram já são tão fortes que fica difícil continuar com essas práticas de segurar os preços a muque. Por outro lado, os juros básicos (Selic) subiram 2,75 pontos porcentuais ao ano desde abril e muito provavelmente subirão mais meio ponto na reunião do Copom prevista para amanhã. Até onde o Banco Central precisaria puxar a Selic para evitar novas esticadas da inflação? E o que custará essa alta de juros em despesas extras do Tesouro Nacional com o serviço da dívida pública?
Também está mais do que demonstrado que a política fiscal (contas públicas) não está calibrada o suficiente para evitar efeitos inflacionários. Naquela linguagem do Banco Central, a política fiscal não está suficientemente apertada para garantir sua neutralidade em relação à inflação. Ao contrário, a falta de transparência na administração da economia é, por si só, fator de perda de credibilidade, o que piora tudo porque leva empresários e outros formadores de preços a remarcar exageradamente mercadorias e serviços de maneira a se defender de riscos futuros.
Neste início de ano, não é só o baixo crescimento e a inflação alta que aumentam a carga e azedam o ambiente. Também pesa o rombo crescente nas contas externas, fator responsável pelas pressões de procura por moeda estrangeira, que também produzem desconfiança.
O governo Dilma parece determinado a evitar correções que possam prejudicar seus objetivos eleitorais. O problema é que chega ao ponto em que a falta de soluções também produz custos políticos. Além disso, hoje já é difícil de distinguir problemas meramente administrativos dos problemas de credibilidade, porque ambos se reforçam e acentuam as distorções. Não basta mudar; é preciso agora principalmente convencer.
Um rolê pelo rolezinho - VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 14/01
'Movimento' está sendo adotado por militantes, mas tem algo de 'footing' e molecagem de férias
O ROLEZINHO está prestes a se tornar uma grande causa célebre dos combatentes das efêmeras guerras culturais que têm transbordado das ruas para as "redes sociais" e vice-versa.
Ou talvez a polêmica e o movimento já tenham chegado ao seu ápice. Teriam sido paixões transitórias como os confrontos em torno do deputado Feliciano e a "cura gay", do grande resgate de beagles, da irrupção do movimento ciclista, de cotas raciais etc.
O rolezinho tornou-se motivo de outro conflito estereotipado entre "esquerda" e "direita". Seu "sentido é disputado", como se dizia dos protestos de junho, por comentaristas e ideólogos.
De molecagem, no bom e no mau sentido, o "rolê" está sendo "ressignificado" como "Occupy Shopping" (como o protesto iniciado em Nova York contra a finança) ou como um paralelo de protestos que se ensaiam contra a Copa ("Não vai ter shopping", "Não vai ter Copa").
Claro que a iniciativa significante não parte dos garotos do rolê, mas de gente de esquerda. Para essa vaga esquerda, a repressão do rolê, ilegal, é evidência de racismo e do apartheid informal do Brasil, outro momento em que a elite branca ruim revela seu horror a pobres e crioulos.
Para a "direita", o movimento seria um transtorno ao comércio e à paz pública. Para transeuntes menos reflexivos, um proto-arrastão, coisa de "maloqueiros", típico insulto racista paulistano, adotado por todas as classes.
O rolê que deu origem à série, em Itaquera, teria juntado (incríveis) 6.000 garotos num sábado, 7 de dezembro; teve momentos de tumulto e uns poucos furtos. Outros foram marcados e realizados em shoppings da periferia.
Parecem juntar meninos que estudam numa Escola Estadual Professor Lonjura da Silva, adeptos de "street fashion" funk, "pardos" como a maioria de nós, em especial os mais pobres.
As convocatórias dos rolês sugerem que a intenção dos adolescentes não difere muito daquela de quem fazia o "footing", o passeio rotatório nas praças de quase qualquer cidade entre os anos 1930 e 1960: namorar e fazer uma onda.
"Vamos colar no shop amanhã gente tem nada memo pra fazer, meninas levar as amiguinhas e os mlk a mema fita vamo cata mulher, fuma uns beck ve quem nunca viu pessoalmente é isso", dizia a página do Facebook que convidava para um rolê.
"Ai vamo colar, no shop sem esses arrastão ai sem maldade, colar pra fikar suave tirar foto pegar mulher fumar maconha, bebe, e é isso, vamo que vamo."
"Catá mulher" e "fumá uns beck" não têm o ar provinciano e reprimido do "footing". Esses meninos são desencantados e cínicos em relação a suas expectativas reduzidas. Mas a ideia é a mesma, reciclada com os meios de um "flash mob" de 2003 ou de "primavera" política.
À parte discussões legais, o fato é que o rolê ameaçou cruzar fronteiras definidas na "limpeza étnica" que reservou o centro paulistano para os mais ricos, "zoando" costumes exclusivistas, o que dá combustível para o típico confronto político destes dias, comportamental, que passa longe de economia e de "questões de Estado". Sabe-se lá se decola a "aliança" entre inconscientes de classe e ideólogos de esquerda. Mas desde 2013 há disposição para "causar".
'Movimento' está sendo adotado por militantes, mas tem algo de 'footing' e molecagem de férias
O ROLEZINHO está prestes a se tornar uma grande causa célebre dos combatentes das efêmeras guerras culturais que têm transbordado das ruas para as "redes sociais" e vice-versa.
Ou talvez a polêmica e o movimento já tenham chegado ao seu ápice. Teriam sido paixões transitórias como os confrontos em torno do deputado Feliciano e a "cura gay", do grande resgate de beagles, da irrupção do movimento ciclista, de cotas raciais etc.
O rolezinho tornou-se motivo de outro conflito estereotipado entre "esquerda" e "direita". Seu "sentido é disputado", como se dizia dos protestos de junho, por comentaristas e ideólogos.
De molecagem, no bom e no mau sentido, o "rolê" está sendo "ressignificado" como "Occupy Shopping" (como o protesto iniciado em Nova York contra a finança) ou como um paralelo de protestos que se ensaiam contra a Copa ("Não vai ter shopping", "Não vai ter Copa").
Claro que a iniciativa significante não parte dos garotos do rolê, mas de gente de esquerda. Para essa vaga esquerda, a repressão do rolê, ilegal, é evidência de racismo e do apartheid informal do Brasil, outro momento em que a elite branca ruim revela seu horror a pobres e crioulos.
Para a "direita", o movimento seria um transtorno ao comércio e à paz pública. Para transeuntes menos reflexivos, um proto-arrastão, coisa de "maloqueiros", típico insulto racista paulistano, adotado por todas as classes.
O rolê que deu origem à série, em Itaquera, teria juntado (incríveis) 6.000 garotos num sábado, 7 de dezembro; teve momentos de tumulto e uns poucos furtos. Outros foram marcados e realizados em shoppings da periferia.
Parecem juntar meninos que estudam numa Escola Estadual Professor Lonjura da Silva, adeptos de "street fashion" funk, "pardos" como a maioria de nós, em especial os mais pobres.
As convocatórias dos rolês sugerem que a intenção dos adolescentes não difere muito daquela de quem fazia o "footing", o passeio rotatório nas praças de quase qualquer cidade entre os anos 1930 e 1960: namorar e fazer uma onda.
"Vamos colar no shop amanhã gente tem nada memo pra fazer, meninas levar as amiguinhas e os mlk a mema fita vamo cata mulher, fuma uns beck ve quem nunca viu pessoalmente é isso", dizia a página do Facebook que convidava para um rolê.
"Ai vamo colar, no shop sem esses arrastão ai sem maldade, colar pra fikar suave tirar foto pegar mulher fumar maconha, bebe, e é isso, vamo que vamo."
"Catá mulher" e "fumá uns beck" não têm o ar provinciano e reprimido do "footing". Esses meninos são desencantados e cínicos em relação a suas expectativas reduzidas. Mas a ideia é a mesma, reciclada com os meios de um "flash mob" de 2003 ou de "primavera" política.
À parte discussões legais, o fato é que o rolê ameaçou cruzar fronteiras definidas na "limpeza étnica" que reservou o centro paulistano para os mais ricos, "zoando" costumes exclusivistas, o que dá combustível para o típico confronto político destes dias, comportamental, que passa longe de economia e de "questões de Estado". Sabe-se lá se decola a "aliança" entre inconscientes de classe e ideólogos de esquerda. Mas desde 2013 há disposição para "causar".
A política externa e as eleições - RUBENS BARBOSA
O Estado de S.Paulo - 14/01
As convenções partidárias que confirmarão os candidatos a presidente da República serão realizadas em junho, pouco antes da Copa do Mundo. A partir de agosto, todas as atenções estarão voltadas para as eleições. Haverá pouco tempo para um efetivo debate sobre os temas maiores que afetarão a economia, políticas sociais, meio ambiente e políticas externa e de comércio exterior no próximo governo, a partir de 2015.
Por isso, parece oportuno que alguns temas comecem a ser discutidos para influir nos programas dos futuros candidatos. Um dos temas que mais suscitaram controvérsia nos últimos 12 anos foi o da formulação e execução da política externa e a condução do Itamaraty, que era considerada uma das instituições de excelência na vida pública brasileira.
O senador Aécio Neves (PSDB-MG), candidato provável da oposição em outubro, foi o primeiro a apresentar suas ideias sobre áreas que considera prioritárias para discussão durante a campanha eleitoral. Dentre os temas ressaltados em sua cartilha e que se espera sejam desdobrados em propostas concretas para consideração da sociedade brasileira, está o papel do Itamaraty, os desdobramentos da política externa e suas implicações para a política de comércio exterior. Como reintegrar o Brasil no mundo e aumentar sua credibilidade e projeção externa são os desafios.
Segundo Aécio Neves, "o viés ideológico imposto à nossa política externa nos últimos anos está isolando o Brasil do mundo. Demos as costas para importantes nações democráticas e abraçamos regimes de clara inclinação totalitária, em flagrante contraste com as melhores tradições da nossa diplomacia. Com visão de futuro, o compromisso é conquistar um lugar privilegiado para o Brasil no mundo. É necessário abandonar a política externa de alinhamento ideológico adotada nos últimos anos e resgatar a tradição de competência e a atuação independente da diplomacia brasileira. O Itamaraty deve servir ao Brasil e defender o interesse nacional, acima de todo e qualquer interesse partidário. Nossa diplomacia deve, também, recuperar no exterior os compromissos que defendemos internamente, como o repúdio às tiranias, o direito à paz, a solidariedade internacional em defesa da democracia, o respeito aos direitos humanos e ao meio ambiente".
A cartilha ressalta ainda que "a partidarização da política externa tem consequências severas na política de comércio exterior: acentua o isolamento, ao invés de ampliar a integração; produz atritos, em lugar de cooperação produtiva; empobrece nossa pauta de comércio, ao invés de dinamizar trocas e oportunidades. As decisões equivocadas de política externa fizeram com que, nos últimos anos, o Brasil não negociasse acordos com as principais economias e os principais blocos, de forma a dinamizar nossas relações de comércio. A integração regional está se desfazendo e o Brasil continua a reboque dos acontecimentos. Deixamos de abrir mercados para os produtos brasileiros e de ampliar a modernização da estrutura produtiva interna, pela falta de acesso à inovação e à tecnologia de ponta".
"Especificamente em relação ao Mercosul, o bloco precisa voltar a ser o que era quando da sua concepção: uma área voltada à liberalização do comércio e à abertura de mercados. O Brasil deve assumir a efetiva liderança regional e propor as mudanças que se fazem necessárias para o crescimento do nosso comércio internacional e o desenvolvimento de nossa economia. A negociação de um acordo abrangente e equilibrado entre Mercosul e União Europeia deve ser concluída, mesmo que, para tanto, o Brasil avance mais rapidamente que outros membros do bloco, para deles não ficar refém. O Brasil precisa voltar a integrar-se num mundo em que, cada vez mais, as relações são interdependentes. Nossas empresas produzem com qualidade, mas com cada vez menos competitividade, dados os altos custos internos. É preciso criar condições para ajudá-las a se integrar nas cadeias produtivas globais, por meio de profunda melhoria, racionalização e simplificação do ambiente econômico interno".
A cartilha, em três parágrafos, lança o debate envolvendo questões que interessam aos empresários, aos trabalhadores e à sociedade em geral. O principal objetivo é a recuperação do prestígio do Itamaraty e de sua centralidade no processo decisório interno. O trabalho da Chancelaria deveria ter como meta apenas o interesse nacional, acima de plataformas de partidos políticos. Entre outros temas, caberia discutir como aperfeiçoar sua gestão para evitar situações equivocadas e para responder aos desafios atuais; como voltar a projetar o Brasil no mundo por meio de políticas sem preconceitos ideológicos; como ampliar o relacionamento com nossos vizinhos sul-americanos e a integração regional, hoje os maiores problemas da política externa; como voltar a dar prioridade às relações com os países desenvolvidos de onde poderá vir a cooperação para a inovação e tecnologia; como reexaminar a estratégia de negociação comercial externa, paralisada pelo isolamento do Brasil, que em 12 anos negociou apenas três acordos de livre-comércio; como aprofundar os acordos de comércio com Peru, Colômbia e México; como iniciar conversações tendentes a associar o Brasil aos acordos regionais e bilaterais com países desenvolvidos para integrar as empresas nacionais nas cadeias produtivas globais; como completar a negociação com a União Europeia, que se arrasta há mais de 12 anos; como aperfeiçoar o processo decisório interno para fortalecer a Câmara de Comércio Exterior (Camex) e dar mais relevância e apoio ao setor externo, que só conseguiu apresentar superávit em 2013 em razão de manobras petroleiras contábeis.
Esses são alguns dos temas que o futuro governo deverá enfrentar e que em boa hora começamos a debater.
As convenções partidárias que confirmarão os candidatos a presidente da República serão realizadas em junho, pouco antes da Copa do Mundo. A partir de agosto, todas as atenções estarão voltadas para as eleições. Haverá pouco tempo para um efetivo debate sobre os temas maiores que afetarão a economia, políticas sociais, meio ambiente e políticas externa e de comércio exterior no próximo governo, a partir de 2015.
Por isso, parece oportuno que alguns temas comecem a ser discutidos para influir nos programas dos futuros candidatos. Um dos temas que mais suscitaram controvérsia nos últimos 12 anos foi o da formulação e execução da política externa e a condução do Itamaraty, que era considerada uma das instituições de excelência na vida pública brasileira.
O senador Aécio Neves (PSDB-MG), candidato provável da oposição em outubro, foi o primeiro a apresentar suas ideias sobre áreas que considera prioritárias para discussão durante a campanha eleitoral. Dentre os temas ressaltados em sua cartilha e que se espera sejam desdobrados em propostas concretas para consideração da sociedade brasileira, está o papel do Itamaraty, os desdobramentos da política externa e suas implicações para a política de comércio exterior. Como reintegrar o Brasil no mundo e aumentar sua credibilidade e projeção externa são os desafios.
Segundo Aécio Neves, "o viés ideológico imposto à nossa política externa nos últimos anos está isolando o Brasil do mundo. Demos as costas para importantes nações democráticas e abraçamos regimes de clara inclinação totalitária, em flagrante contraste com as melhores tradições da nossa diplomacia. Com visão de futuro, o compromisso é conquistar um lugar privilegiado para o Brasil no mundo. É necessário abandonar a política externa de alinhamento ideológico adotada nos últimos anos e resgatar a tradição de competência e a atuação independente da diplomacia brasileira. O Itamaraty deve servir ao Brasil e defender o interesse nacional, acima de todo e qualquer interesse partidário. Nossa diplomacia deve, também, recuperar no exterior os compromissos que defendemos internamente, como o repúdio às tiranias, o direito à paz, a solidariedade internacional em defesa da democracia, o respeito aos direitos humanos e ao meio ambiente".
A cartilha ressalta ainda que "a partidarização da política externa tem consequências severas na política de comércio exterior: acentua o isolamento, ao invés de ampliar a integração; produz atritos, em lugar de cooperação produtiva; empobrece nossa pauta de comércio, ao invés de dinamizar trocas e oportunidades. As decisões equivocadas de política externa fizeram com que, nos últimos anos, o Brasil não negociasse acordos com as principais economias e os principais blocos, de forma a dinamizar nossas relações de comércio. A integração regional está se desfazendo e o Brasil continua a reboque dos acontecimentos. Deixamos de abrir mercados para os produtos brasileiros e de ampliar a modernização da estrutura produtiva interna, pela falta de acesso à inovação e à tecnologia de ponta".
"Especificamente em relação ao Mercosul, o bloco precisa voltar a ser o que era quando da sua concepção: uma área voltada à liberalização do comércio e à abertura de mercados. O Brasil deve assumir a efetiva liderança regional e propor as mudanças que se fazem necessárias para o crescimento do nosso comércio internacional e o desenvolvimento de nossa economia. A negociação de um acordo abrangente e equilibrado entre Mercosul e União Europeia deve ser concluída, mesmo que, para tanto, o Brasil avance mais rapidamente que outros membros do bloco, para deles não ficar refém. O Brasil precisa voltar a integrar-se num mundo em que, cada vez mais, as relações são interdependentes. Nossas empresas produzem com qualidade, mas com cada vez menos competitividade, dados os altos custos internos. É preciso criar condições para ajudá-las a se integrar nas cadeias produtivas globais, por meio de profunda melhoria, racionalização e simplificação do ambiente econômico interno".
A cartilha, em três parágrafos, lança o debate envolvendo questões que interessam aos empresários, aos trabalhadores e à sociedade em geral. O principal objetivo é a recuperação do prestígio do Itamaraty e de sua centralidade no processo decisório interno. O trabalho da Chancelaria deveria ter como meta apenas o interesse nacional, acima de plataformas de partidos políticos. Entre outros temas, caberia discutir como aperfeiçoar sua gestão para evitar situações equivocadas e para responder aos desafios atuais; como voltar a projetar o Brasil no mundo por meio de políticas sem preconceitos ideológicos; como ampliar o relacionamento com nossos vizinhos sul-americanos e a integração regional, hoje os maiores problemas da política externa; como voltar a dar prioridade às relações com os países desenvolvidos de onde poderá vir a cooperação para a inovação e tecnologia; como reexaminar a estratégia de negociação comercial externa, paralisada pelo isolamento do Brasil, que em 12 anos negociou apenas três acordos de livre-comércio; como aprofundar os acordos de comércio com Peru, Colômbia e México; como iniciar conversações tendentes a associar o Brasil aos acordos regionais e bilaterais com países desenvolvidos para integrar as empresas nacionais nas cadeias produtivas globais; como completar a negociação com a União Europeia, que se arrasta há mais de 12 anos; como aperfeiçoar o processo decisório interno para fortalecer a Câmara de Comércio Exterior (Camex) e dar mais relevância e apoio ao setor externo, que só conseguiu apresentar superávit em 2013 em razão de manobras petroleiras contábeis.
Esses são alguns dos temas que o futuro governo deverá enfrentar e que em boa hora começamos a debater.
Dilma e os tigres do mercado - DAVID FRIEDLANDER
FOLHA DE SP - 14/01
SÃO PAULO - No filme "As aventuras de Pi", um sucesso no ano passado, um garoto é forçado a dividir um bote com um tigre-de-bengala para se salvar de um naufrágio. Foram 227 dias à deriva, iniciados com medo e desconfiança de parte a parte. Ao longo da jornada, os dois conseguiram estabelecer uma trégua, que os salvou. O Fórum Econômico Mundial, na próxima semana em Davos, na Suíça, é o bote da presidente Dilma e dos tigres do mercado.
Dilma não está indo pela primeira vez a Davos por ter sido capturada pelas forças do mercado. É uma tentativa de acalmar as feras. Lá estarão os empresários e investidores mais ricos do mundo. A maioria tem um pé atrás em relação a ela.
Descrevem seu governo como um repelente contra investidores: intervencionista, estatizante e fraco em matéria econômica. Alguns começam a dizer que ela vai radicalizar esse modelo, caso vença a eleição. E o sentimento negativo pode ficar ainda pior se o país vier a ser rebaixado pelas agências de risco.
Dilma e sua equipe agora reconhecem que sem a confiança do setor privado não há política econômica que dê certo. Já subiram os juros para combater a inflação, ajeitaram as regras de concessões do jeito que o mercado queria, mas nada surtiu efeito. Por isso, apostam alto em Davos para quebrar a tensão. Acham que a força da estratégia não está na mensagem, mas na mensageira.
A primeira vez da presidente em Davos seria um sinal de atenção para com o mercado. Ela vai falar de seu compromisso com o combate à inflação, o equilíbrio das contas públicas e com a continuidade das concessões. Tudo isso já foi dito várias vezes pelos ministros e não adiantou.
O que pode fazer a diferença, espera Dilma, é que ela tem as concessões de estradas e aeroportos do fim do ano passado para apresentar. Mais do que isso: o recado desta vez será dado pela própria presidente --que tem enormes chances de continuar no cargo por outros quatro anos.
SÃO PAULO - No filme "As aventuras de Pi", um sucesso no ano passado, um garoto é forçado a dividir um bote com um tigre-de-bengala para se salvar de um naufrágio. Foram 227 dias à deriva, iniciados com medo e desconfiança de parte a parte. Ao longo da jornada, os dois conseguiram estabelecer uma trégua, que os salvou. O Fórum Econômico Mundial, na próxima semana em Davos, na Suíça, é o bote da presidente Dilma e dos tigres do mercado.
Dilma não está indo pela primeira vez a Davos por ter sido capturada pelas forças do mercado. É uma tentativa de acalmar as feras. Lá estarão os empresários e investidores mais ricos do mundo. A maioria tem um pé atrás em relação a ela.
Descrevem seu governo como um repelente contra investidores: intervencionista, estatizante e fraco em matéria econômica. Alguns começam a dizer que ela vai radicalizar esse modelo, caso vença a eleição. E o sentimento negativo pode ficar ainda pior se o país vier a ser rebaixado pelas agências de risco.
Dilma e sua equipe agora reconhecem que sem a confiança do setor privado não há política econômica que dê certo. Já subiram os juros para combater a inflação, ajeitaram as regras de concessões do jeito que o mercado queria, mas nada surtiu efeito. Por isso, apostam alto em Davos para quebrar a tensão. Acham que a força da estratégia não está na mensagem, mas na mensageira.
A primeira vez da presidente em Davos seria um sinal de atenção para com o mercado. Ela vai falar de seu compromisso com o combate à inflação, o equilíbrio das contas públicas e com a continuidade das concessões. Tudo isso já foi dito várias vezes pelos ministros e não adiantou.
O que pode fazer a diferença, espera Dilma, é que ela tem as concessões de estradas e aeroportos do fim do ano passado para apresentar. Mais do que isso: o recado desta vez será dado pela própria presidente --que tem enormes chances de continuar no cargo por outros quatro anos.
Mérito? Não é aqui - J. R. GUZZO
REVISTA VEJA
E se em lugar de Flying Dutchman falassem de "um país chamado Brasil"? Em 1- de janeiro de 2003, sob o comando do almirante de esquadra Lula da Silva, ele levantou ferros do Lago Paranoá falando em vencer mares nunca dantes navegados e em edificar um novo reino social. Hoje, onze anos após a partida e já sob o comando da imediata Dilma Rousseff, a nau continua a procurar o reino que tinha prometido. Ao contrário do barco holandês, o navio brasiliense está abarrotado de gente; só de ministros são quase quarenta, e contando os subs, mais os subs dos subs, a coisa vai para a faixa dos milhares de tripulantes. Mas está na cara que os fantasmas do Flying Dutchman levam o seu barco muito melhor que os humanos de Dilma; pelo menos sabem o que estão fazendo. Já o nosso navio — bem, é certo que algo deu fabulosamente errado com ele. Não navega para lugar nenhum. A tripulação não sabe distinguir proa de popa, e acha que o contrário de bombordo é mau bordo. A nau não perdeu o rumo — na verdade, nunca chegou a saber que rumo era esse.
Como poderia saber alguma coisa, se a esta altura da viagem o presidente do Senado, Renan Calheiros, ainda requisita um avião militar para levá-lo de Brasília ao Recife, onde foi implantar 10 000 fios de cabelo numa clínica para carecas? O problema, é óbvio, não está com Renan; ele é assim mesmo. O problema é de quem manda nos aviões — a cadeia de comando da Aeronáutica, que só em 2013 já deixou o senador lhe passar a perna duas vezes. Nesta última, foi ao extremo de soltar uma nota oficial dizendo que não iria avaliar "o mérito" da viagem, e que sua função se limita a fornecer "a aeronave" solicitada. Como assim? Se os senhores brigadeiros não avaliam o mérito — e a legalidade — de seus próprios atos, que raio estão fazendo nos seus postos? Estamos falando da Força Aérea Brasileira, santo Deus. A lei diz que os aviões da FAB só podem ser utilizados por autoridades em atos de serviço, questões de segurança e emergência médica. Em qual caso se encaixariam, aí, os 10 000 fios de cabelo do senador? A lei diz também que desrespeitar essa norma é "infração administrativa grave", passível de punições "civis e penais". O comandante da FAB que serviu de piloto particular para Renan poderia perfeitamente ter pedido ao senador, com toda a educação, que lhe fizesse uma curta descrição por escrito, assinada embaixo, contando que serviço iria fazer no Recife — "mera formalidade, doutor, só isso". Por que não agiu assim? Porque tem certeza, como toda a tripulação, de que está numa nau sem rumo onde cumprir a regra só dá confusão.
O navio Brasil está precisando de muita coisa. Uma delas é um oficial macho, que tenha entre os seus valores a decência comum, e que um belo dia diga algo assim: "Sinto muito, Excelência, mas a lei me impede de atender à sua solicitação". Iríamos ver, aí, quem entre os seus superiores hierárquicos teria a coragem de prendê-lo por "insubordinação", enquanto Sua Excelência ficaria livre, contando vantagem do tipo "comigo ninguém brinca". Nesse dia abrirá falência o Táxi Aéreo FAB — e nosso navio, talvez, comece a encontrar seu rumo.
Valem quanto pesam - DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 14/01
Alguém está ouvindo ou vendo algum partido brigar pelo Ministério da Cultura, pela pasta de Assuntos Estratégicos, por um lugar ao sol no Desenvolvimento Agrário ou na Previdência e seus inúmeros problemas?
Não, os postos disputados nas negociações que a presidente Dilma Rousseff abre esta semana para formatar a dita reforma ministerial - que de reformuladora não tem nada - são os comandos da Integração Nacional, dos Transportes e do Ministério das Cidades. Já, já detalharemos os motivos.
Partindo da premissa de que estamos todos bem crescidos para saber que a discussão não envolve o aprimoramento das políticas públicas nem a melhoria do desempenho de cada um desses setores. O critério é só um: o que os partidos podem fazer pela reeleição da presidente e o que os ministérios podem dar em troca aos partidos.
Não está, contudo, muito clara para a maioria, e vale a pena esmiuçar, a motivação do toma lá dá cá. Quais as vantagens objetivas que rendem de parte a parte essas transações?
Por que para a presidente é tão importante acomodar partido x ou y na equipe? Para atraí-los a uma coalizão oficial e com isso assegurar maior tempo na propaganda de rádio e televisão; para impedir que esse tempo vá para a oposição; para com uma base ampla de apoio criar um clima político favorável.
Por que para os partidos é vantajoso ocupar um ministério mesmo durante poucos meses? Primeiro, depende do ministério. Os três citados acima como os mais disputados reúnem as condições ideais.
Eles têm dinheiro, instrumentos para liberação de recursos para prefeituras (excelentes cabos eleitorais para deputados que, por sua vez, se empenham para eleger governadores e presidente), obras a serem realizadas e contato com potenciais financiadores de campanha, principalmente empreiteiras.
Trata-se, em suma, de manuseio de interesses partidários com vista a incrementar as condições eleitorais de cada um, fundadas em dois pilares: dinheiro e visibilidade.
A presidente poderá optar por soluções "técnicas", nomeando os secretários executivos para o lugar dos ministros que serão candidatos? Em tese sim. O então presidente Lula fez isso em 2010.
Mas na época ele não era candidato, estava com a popularidade nas alturas e o PIB de quase 8% de crescimento ao ano. Dilma está em situação diferente, que a posiciona desfavoravelmente em relação aos partidos. Em português claro, terá de ceder. Ou se arriscar.
Andança. O novo líder do PSDB na Câmara Federal, Antonio Imbassahy, está se preparando para assumir o posto em fevereiro ciente de que os movimentos da bancada terão como referência a candidatura presidencial de Aécio Neves.
Imbassahy fez uma rodada pelo País a fim de conferir as possibilidades de aliança. A última semana passou no Rio de Janeiro para conversar com gente do grupo que sustenta o programa a ser apresentado pela área econômica.
Dos contatos políticos saiu com as seguintes impressões: a despeito da resistência do grupo de Marina Silva, haveria espaço em São Paulo para um acordo com PSB em torno da candidatura ao Senado; no Nordeste há jogo favorável na Bahia, no Ceará (ambos em parceria com o PMDB), no Piauí e no Maranhão em acerto com o candidato Flávio Dino, do PC do B.
No Estado dominado pelo clã Sarney os tucanos contam com a armadilha em que está preso o PT nacional. Diante do monumental desgaste da família, nem Lula nem Dilma poderão aparecer por lá sem risco de contágio. Como são cobrados por lealdade aos Sarney (em 2010 a candidata do PT teve 80% dos votos maranhenses), tampouco têm salvo-conduto para liberar o apoio dos petistas a Flávio Dino.
Alguém está ouvindo ou vendo algum partido brigar pelo Ministério da Cultura, pela pasta de Assuntos Estratégicos, por um lugar ao sol no Desenvolvimento Agrário ou na Previdência e seus inúmeros problemas?
Não, os postos disputados nas negociações que a presidente Dilma Rousseff abre esta semana para formatar a dita reforma ministerial - que de reformuladora não tem nada - são os comandos da Integração Nacional, dos Transportes e do Ministério das Cidades. Já, já detalharemos os motivos.
Partindo da premissa de que estamos todos bem crescidos para saber que a discussão não envolve o aprimoramento das políticas públicas nem a melhoria do desempenho de cada um desses setores. O critério é só um: o que os partidos podem fazer pela reeleição da presidente e o que os ministérios podem dar em troca aos partidos.
Não está, contudo, muito clara para a maioria, e vale a pena esmiuçar, a motivação do toma lá dá cá. Quais as vantagens objetivas que rendem de parte a parte essas transações?
Por que para a presidente é tão importante acomodar partido x ou y na equipe? Para atraí-los a uma coalizão oficial e com isso assegurar maior tempo na propaganda de rádio e televisão; para impedir que esse tempo vá para a oposição; para com uma base ampla de apoio criar um clima político favorável.
Por que para os partidos é vantajoso ocupar um ministério mesmo durante poucos meses? Primeiro, depende do ministério. Os três citados acima como os mais disputados reúnem as condições ideais.
Eles têm dinheiro, instrumentos para liberação de recursos para prefeituras (excelentes cabos eleitorais para deputados que, por sua vez, se empenham para eleger governadores e presidente), obras a serem realizadas e contato com potenciais financiadores de campanha, principalmente empreiteiras.
Trata-se, em suma, de manuseio de interesses partidários com vista a incrementar as condições eleitorais de cada um, fundadas em dois pilares: dinheiro e visibilidade.
A presidente poderá optar por soluções "técnicas", nomeando os secretários executivos para o lugar dos ministros que serão candidatos? Em tese sim. O então presidente Lula fez isso em 2010.
Mas na época ele não era candidato, estava com a popularidade nas alturas e o PIB de quase 8% de crescimento ao ano. Dilma está em situação diferente, que a posiciona desfavoravelmente em relação aos partidos. Em português claro, terá de ceder. Ou se arriscar.
Andança. O novo líder do PSDB na Câmara Federal, Antonio Imbassahy, está se preparando para assumir o posto em fevereiro ciente de que os movimentos da bancada terão como referência a candidatura presidencial de Aécio Neves.
Imbassahy fez uma rodada pelo País a fim de conferir as possibilidades de aliança. A última semana passou no Rio de Janeiro para conversar com gente do grupo que sustenta o programa a ser apresentado pela área econômica.
Dos contatos políticos saiu com as seguintes impressões: a despeito da resistência do grupo de Marina Silva, haveria espaço em São Paulo para um acordo com PSB em torno da candidatura ao Senado; no Nordeste há jogo favorável na Bahia, no Ceará (ambos em parceria com o PMDB), no Piauí e no Maranhão em acerto com o candidato Flávio Dino, do PC do B.
No Estado dominado pelo clã Sarney os tucanos contam com a armadilha em que está preso o PT nacional. Diante do monumental desgaste da família, nem Lula nem Dilma poderão aparecer por lá sem risco de contágio. Como são cobrados por lealdade aos Sarney (em 2010 a candidata do PT teve 80% dos votos maranhenses), tampouco têm salvo-conduto para liberar o apoio dos petistas a Flávio Dino.
Fim de guerra - JOSÉ CASADO
O GLOBO - 14/01
A Guerra do Pacífico começou há 134 anos. Chegou ao século XXI nas sombras, com espiões como "Oscar". Vai terminar dia 27, com o mapa da nova fronteira entre o Chile e o Peru
Depois de 134 anos, a Guerra do Pacífico vai acabar. Na segunda-feira, 27, um tribunal das Nações Unidas divulga a nova fronteira entre o Chile e o Peru.
O redesenho desse pedaço do mapa da América do Sul é o tema político mais relevante e sensível para 57,8 milhões de pessoas que vivem nos territórios a oeste de Brasília. Sinais de acordo são evidentes. "Espero que nunca mais tenhamos um problema de fronteira com o Peru", disse ontem o presidente chileno Sebastián Piñera, enquanto o líder peruano Ollanta Humalla reafirmava "a convicção nos nossos argumentos, sem que se deva confundir com triunfalismo".
A guerra começou em 1879. O Chile invadiu o Peru e a Bolívia. O confronto naval e terrestre durou quatro anos. Os chilenos tomaram o porto de Arica —mais tarde devolveram a cidade de Tacna ao Peru—, e fecharam a saída boliviana para o mar, deixando o país sem portos.
No rastro da derrota floresceu o desejo de vingança, que balizou a política externa e militar do Peru e da Bolívia — jornais bolivianos ainda publicam editoriais semanais incitando o governo à retomada da rota perdida para o Oceano Pacífico. Foi um fator determinante na corrida armamentista chilena e peruana.
A Guerra do Pacífico chegou ao século XXI nas sombras. Prova viva é o suboficial da Força Aérea do Peru Víctor Ariza Mendoza, 37 anos. Na pele de "Oscar", sem físico ou resquício do arquétipo James Bond, ele trabalhou anos em silêncio como espião chileno pago pelos governos socialistas de Ricardo Lagos (2000-2006) e Michele Bachelet (2006-2010) no coração do Departamento de Planos e Operações do comando aéreo peruano, em Lima. Para os chilenos, foi uma fonte valiosa porque naquela seção transitavam informações sobre os projetos bélicos e as operações de espionagem da Aeronáutica, do Exército e da Marinha peruana.
Com acesso ao inventário diário do material de guerra, e a detalhes do estado operacional de cada equipamento, sua localização, rotas de transporte e áreas de armazenamento, "Oscar" repassou a Santiago, por exemplo, cópias do "Plan Maldonado", para reequipamento da Força Aérea peruana com caças MIG-29, Sukhoi-25, Mirage-2000 e Airbus-37B; dados, fotografias e planos das principais bases e posições dos aviões de combate; os códigos diplomáticos da embaixada no Chile; os programas de reparo de aviões e de helicópteros, além das identidades de espiões peruanos.
Por coincidência, no período em que atuou, o Chile alavancou as compras militares. Lagos e Bachelet gastaram quase US$ 10 bilhões no bazar mundial de equipamentos bélicos. Os peruanos Alejandro Toledo (2001-2006) e Alan García (2006-2011) reponderam com a duplicação das aquisições. A Venezuela, sob Hugo Chávez, entrou no jogo, multiplicou seus gastos por cinco — e passou a financiar parte do orçamento militar da Bolívia de Evo Morales. O Brasil, por razões domésticas, se conteve no projeto de construção de um submarino nuclear.
Descoberto em 2009, "Oscar" foi condenado a 35 anos de prisão. Em janeiro do ano passado recebeu mais 15 anos, por lavagem de dinheiro (foram localizados US$ 156 mil pagos pelo Chile em suas contas bancárias nos Estados Unidos).
Os governos do Chile e do Peru anunciam um feriado informal para o dia 27, quando se prevê um novo mapa de fronteira. É fim de uma guerra de 134 anos na América do Sul.
A Guerra do Pacífico começou há 134 anos. Chegou ao século XXI nas sombras, com espiões como "Oscar". Vai terminar dia 27, com o mapa da nova fronteira entre o Chile e o Peru
Depois de 134 anos, a Guerra do Pacífico vai acabar. Na segunda-feira, 27, um tribunal das Nações Unidas divulga a nova fronteira entre o Chile e o Peru.
O redesenho desse pedaço do mapa da América do Sul é o tema político mais relevante e sensível para 57,8 milhões de pessoas que vivem nos territórios a oeste de Brasília. Sinais de acordo são evidentes. "Espero que nunca mais tenhamos um problema de fronteira com o Peru", disse ontem o presidente chileno Sebastián Piñera, enquanto o líder peruano Ollanta Humalla reafirmava "a convicção nos nossos argumentos, sem que se deva confundir com triunfalismo".
A guerra começou em 1879. O Chile invadiu o Peru e a Bolívia. O confronto naval e terrestre durou quatro anos. Os chilenos tomaram o porto de Arica —mais tarde devolveram a cidade de Tacna ao Peru—, e fecharam a saída boliviana para o mar, deixando o país sem portos.
No rastro da derrota floresceu o desejo de vingança, que balizou a política externa e militar do Peru e da Bolívia — jornais bolivianos ainda publicam editoriais semanais incitando o governo à retomada da rota perdida para o Oceano Pacífico. Foi um fator determinante na corrida armamentista chilena e peruana.
A Guerra do Pacífico chegou ao século XXI nas sombras. Prova viva é o suboficial da Força Aérea do Peru Víctor Ariza Mendoza, 37 anos. Na pele de "Oscar", sem físico ou resquício do arquétipo James Bond, ele trabalhou anos em silêncio como espião chileno pago pelos governos socialistas de Ricardo Lagos (2000-2006) e Michele Bachelet (2006-2010) no coração do Departamento de Planos e Operações do comando aéreo peruano, em Lima. Para os chilenos, foi uma fonte valiosa porque naquela seção transitavam informações sobre os projetos bélicos e as operações de espionagem da Aeronáutica, do Exército e da Marinha peruana.
Com acesso ao inventário diário do material de guerra, e a detalhes do estado operacional de cada equipamento, sua localização, rotas de transporte e áreas de armazenamento, "Oscar" repassou a Santiago, por exemplo, cópias do "Plan Maldonado", para reequipamento da Força Aérea peruana com caças MIG-29, Sukhoi-25, Mirage-2000 e Airbus-37B; dados, fotografias e planos das principais bases e posições dos aviões de combate; os códigos diplomáticos da embaixada no Chile; os programas de reparo de aviões e de helicópteros, além das identidades de espiões peruanos.
Por coincidência, no período em que atuou, o Chile alavancou as compras militares. Lagos e Bachelet gastaram quase US$ 10 bilhões no bazar mundial de equipamentos bélicos. Os peruanos Alejandro Toledo (2001-2006) e Alan García (2006-2011) reponderam com a duplicação das aquisições. A Venezuela, sob Hugo Chávez, entrou no jogo, multiplicou seus gastos por cinco — e passou a financiar parte do orçamento militar da Bolívia de Evo Morales. O Brasil, por razões domésticas, se conteve no projeto de construção de um submarino nuclear.
Descoberto em 2009, "Oscar" foi condenado a 35 anos de prisão. Em janeiro do ano passado recebeu mais 15 anos, por lavagem de dinheiro (foram localizados US$ 156 mil pagos pelo Chile em suas contas bancárias nos Estados Unidos).
Os governos do Chile e do Peru anunciam um feriado informal para o dia 27, quando se prevê um novo mapa de fronteira. É fim de uma guerra de 134 anos na América do Sul.
"Rolezinho" na elite - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 14/01
BRASÍLIA - Assim como poderosos em geral, políticos em particular e a mídia se surpreenderam com as manifestações de junho de 2013, ninguém sabe agora como agir diante dos "rolezinhos". Isso vai longe.
As manifestações embolaram ricos e classe média, velhos e jovens, letrados e uma minoria arruaceira. O movimento paulista é de jovens de periferia que nem são adolescentes em situação de risco, que roubam tênis de R$ 500 dos "riquinhos", nem se contentam em serem olhados como cidadãos de segunda categoria. Querem igualdade, ocupar espaços, gritar e ser ouvidos.
Os que invadiram as ruas --contra o aumento de tarifas de ônibus e/ou por exaustão contra a corrupção e as mordomias - foram recebidos com perplexidade, depois borrachadas, e só cresceram. Deixaram seu recado, retiraram-se quando os vândalos ocuparam a cena pública e continuam assombrando o sono da presidente, de governadores e prefeitos.
Os que agora invadem os shoppings contra a discriminação e o preconceito refletem a grande maioria e se organizam, também sem líderes, para "zoar, dar uns beijos, rolar umas paqueras" ou "tumultuar, pegar geral, se divertir, sem roubos". Ou seja: botar a cara de fora, curtir as férias e dividir o ar condicionado. Também foram recebidos com perplexidade, agora com borrachadas e tendem a se multiplicar por outros Estados.
Não administro shoppings, não tenho loja nem moro em São Paulo, mas, à distância, acho inacreditável a reação contra a garotada e os "rolezinhos". Proibir aglomeração em locais públicos? Fazer triagem? Jogar a polícia em cima? Reprimir com cassetete? É lenha na fogueira.
Se alunos de bairros ricos (que não têm mais a ALN, a Polop, o partidão, nem ditadura, para protestar) decidirem aderir, vai ficar engraçado. Mesmo que não, como deixar uns entrarem e os outros não nos shoppings? Pela cor, roupa, sapato ou o jeitão? Talvez os cifrões na carteira...
Não vai dar certo. E a Copa vem aí.
BRASÍLIA - Assim como poderosos em geral, políticos em particular e a mídia se surpreenderam com as manifestações de junho de 2013, ninguém sabe agora como agir diante dos "rolezinhos". Isso vai longe.
As manifestações embolaram ricos e classe média, velhos e jovens, letrados e uma minoria arruaceira. O movimento paulista é de jovens de periferia que nem são adolescentes em situação de risco, que roubam tênis de R$ 500 dos "riquinhos", nem se contentam em serem olhados como cidadãos de segunda categoria. Querem igualdade, ocupar espaços, gritar e ser ouvidos.
Os que invadiram as ruas --contra o aumento de tarifas de ônibus e/ou por exaustão contra a corrupção e as mordomias - foram recebidos com perplexidade, depois borrachadas, e só cresceram. Deixaram seu recado, retiraram-se quando os vândalos ocuparam a cena pública e continuam assombrando o sono da presidente, de governadores e prefeitos.
Os que agora invadem os shoppings contra a discriminação e o preconceito refletem a grande maioria e se organizam, também sem líderes, para "zoar, dar uns beijos, rolar umas paqueras" ou "tumultuar, pegar geral, se divertir, sem roubos". Ou seja: botar a cara de fora, curtir as férias e dividir o ar condicionado. Também foram recebidos com perplexidade, agora com borrachadas e tendem a se multiplicar por outros Estados.
Não administro shoppings, não tenho loja nem moro em São Paulo, mas, à distância, acho inacreditável a reação contra a garotada e os "rolezinhos". Proibir aglomeração em locais públicos? Fazer triagem? Jogar a polícia em cima? Reprimir com cassetete? É lenha na fogueira.
Se alunos de bairros ricos (que não têm mais a ALN, a Polop, o partidão, nem ditadura, para protestar) decidirem aderir, vai ficar engraçado. Mesmo que não, como deixar uns entrarem e os outros não nos shoppings? Pela cor, roupa, sapato ou o jeitão? Talvez os cifrões na carteira...
Não vai dar certo. E a Copa vem aí.
Os caças suecos e a lógica de supermercado - OLIVEIROS S. FERREIRA
O Estado de S.Paulo - 14/01
A solução dada ao problema da compra dos novos caças para a FAB deve ser observada num horizonte mais amplo. Cabe ao Comando da Força Aérea perceber que já há quem aponte, discretamente, que o governo gastará bilhões com a compra de equipamento militar enquanto populações civis sofrem e morrem em inundações e secas que se repetem.
Procurando examinar a questão de perspectiva diferente da usual, o primeiro ponto para o qual desejo chamar a atenção é este: o tempo perdido na solução permite reafirmar que a "classe política" (tanto Executivo quanto Legislativo) não presta a mínima atenção aos problemas de Estado. Demorar tantos e tantos anos para decidir uma questão que afeta a defesa do território, das populações e do próprio Estado brasileiros apenas indica, quando não prova, que as questões de governo, às vezes as eleitorais, tiveram e ainda têm prioridade. Para não dizer que a política posta em prática nas últimas décadas - perdidas do ponto de vista estratégico - reforça a tese dos que veem principalmente na política militar dos governos do PT a clara intenção de deixar os problemas de defesa (consequentemente, os das Forças Armadas) em plano secundário.
Um estagiário em informática de uma empresa qualquer que não cuidasse de copiar os arquivos antes de substituir o sistema dos computadores seria sumariamente demitido, pela simples e boa razão de que teria posto em risco toda a documentação arquivada. Observe-se que a decisão sobre a compra dos caças se deu poucos dias antes que os Mirages da FAB realizassem seu último voo. O que permite que se faça um raciocínio simples, partindo de algumas premissas administrativas, nada mais.
Dando aos que procrastinaram o benefício da dúvida - não tiveram a intenção de deixar a FAB de asas... perdão, de mãos abanando -, o mínimo que podemos dizer é que decidiram como quem vai ao supermercado e colhe das prateleiras os produtos que faltam na despensa doméstica. Se não os encontra aqui, ou se estão caros, estarão à venda ali, mais baratos, e bastará cruzar a rua. Ou, na urgência, pedi-los emprestados ao vizinho.
Ao longo das duas décadas perdidas na defesa - é de notar que desde o governo Fernando Henrique há um ministério que legalmente (?) cuida de defender o Brasil - não foi considerada a situação que se criava com a compra, em 2005, de 12 Mirages defasados, desativados pela Armée de L'Air, e com o atraso nas decisões: quem garantiria a defesa do território, das populações, do Estado quando deixassem de voar? A solução foi de "dona de casa". Decidida a compra dos aviões suecos, de repente, como que acordando de um pesadelo, vemos que os céus estarão vazios contra eventuais inimigos que podem chegar na velocidade Mach 2 pelo menos. Resta tapar o buraco!
É evidente - devem ter pensado - que os suecos não rejeitarão pedido de empréstimo ou aluguel. É de seu interesse emprestar ou alugar. Que assim seja. Por quanto tempo? Por um ou dois anos, até que cheguem os primeiros caças novos, com o título de propriedade em ordem. Farão isso antes que o contrato de compra esteja assinado? Com certeza, pois têm interesse econômico. Assim pensado, assim resolvido e comunicado à imprensa. Geladeira cheia!
Os leigos, acostumados a ir ao supermercado e também a trocar de automóvel quando possível e necessário, terão algumas perguntas a fazer. Os aviões emprestados ou alugados são da mesma geração técnica que os que serão comprados? Tudo indica que não: serão de uma geração anterior. Os pilotos da FAB, os famosos "jaguares", têm treinamento para pilotá-los? Tudo indica que não! Quantas horas serão necessárias para que possam voar sem riscos desnecessários? Haverá, no Orçamento, previsão para isso? Ou se apelará a uma mágica orçamentária para que, com algumas horas, com certeza poucas, as minimamente necessárias, os pilotos possam voar? Por quantas semanas o espaço aéreo ficará indefeso?
Os que decidem com a lógica de supermercado aplicada à defesa nacional não se preocuparam com esses pormenores, que, por serem "pormenores", não têm importância. Se não há previsão orçamentária para treinamento, fechem-se algumas bases, como foi noticiado há dias, e transfira-se a verba para outra rubrica. Se o TCU não permitir manobras contábeis do gênero, recorra-se ao Exército, que deve estar pouco satisfeito por ver que muitos pelotões de fronteira precisam esperar, às vezes, semanas para receber mantimentos e medicamentos porque os aviões da FAB para lá não voam por não terem pistas de pouso em condições.
Há outro elemento na lógica de supermercado: muitas vezes se compra para revender. Quando vamos ao supermercado, temos a certeza de que os fabricantes dos produtos ali vendidos têm o direito de vendê-los porque pagaram o devido pela tecnologia de fabricação, se dela não forem detentores legais. E o que se alardeia é que montaremos os aviões suecos no Brasil - haverá, com certeza, mercado para eles...
O comércio de armamentos é diferente do de comes e bebes: cada produto vem com a cláusula de "destinatário final". A Embraer tem muito a ensinar a esse respeito: não pôde vender o Super Tucano à Venezuela porque o avião tem componentes norte-americanos. O governo dos EUA proibiu a venda...
Pelo que sabemos, o caça sueco tem componentes norte-americanos - donde se segue que a Suécia deverá obter o "nada obsta" para que o Brasil possa transferir a outros governos esses componentes. E se Washington disser "não!"?
Os norte-americanos são mais rudes que os franceses, sem dúvida, mas igualmente não gostam de ser passados para trás, ainda mais quando foi seu presidente quem amargou o cancelamento de uma visita de Estado durante a qual, diz-se, o Brasil compraria os F-18. Enfim...
A solução dada ao problema da compra dos novos caças para a FAB deve ser observada num horizonte mais amplo. Cabe ao Comando da Força Aérea perceber que já há quem aponte, discretamente, que o governo gastará bilhões com a compra de equipamento militar enquanto populações civis sofrem e morrem em inundações e secas que se repetem.
Procurando examinar a questão de perspectiva diferente da usual, o primeiro ponto para o qual desejo chamar a atenção é este: o tempo perdido na solução permite reafirmar que a "classe política" (tanto Executivo quanto Legislativo) não presta a mínima atenção aos problemas de Estado. Demorar tantos e tantos anos para decidir uma questão que afeta a defesa do território, das populações e do próprio Estado brasileiros apenas indica, quando não prova, que as questões de governo, às vezes as eleitorais, tiveram e ainda têm prioridade. Para não dizer que a política posta em prática nas últimas décadas - perdidas do ponto de vista estratégico - reforça a tese dos que veem principalmente na política militar dos governos do PT a clara intenção de deixar os problemas de defesa (consequentemente, os das Forças Armadas) em plano secundário.
Um estagiário em informática de uma empresa qualquer que não cuidasse de copiar os arquivos antes de substituir o sistema dos computadores seria sumariamente demitido, pela simples e boa razão de que teria posto em risco toda a documentação arquivada. Observe-se que a decisão sobre a compra dos caças se deu poucos dias antes que os Mirages da FAB realizassem seu último voo. O que permite que se faça um raciocínio simples, partindo de algumas premissas administrativas, nada mais.
Dando aos que procrastinaram o benefício da dúvida - não tiveram a intenção de deixar a FAB de asas... perdão, de mãos abanando -, o mínimo que podemos dizer é que decidiram como quem vai ao supermercado e colhe das prateleiras os produtos que faltam na despensa doméstica. Se não os encontra aqui, ou se estão caros, estarão à venda ali, mais baratos, e bastará cruzar a rua. Ou, na urgência, pedi-los emprestados ao vizinho.
Ao longo das duas décadas perdidas na defesa - é de notar que desde o governo Fernando Henrique há um ministério que legalmente (?) cuida de defender o Brasil - não foi considerada a situação que se criava com a compra, em 2005, de 12 Mirages defasados, desativados pela Armée de L'Air, e com o atraso nas decisões: quem garantiria a defesa do território, das populações, do Estado quando deixassem de voar? A solução foi de "dona de casa". Decidida a compra dos aviões suecos, de repente, como que acordando de um pesadelo, vemos que os céus estarão vazios contra eventuais inimigos que podem chegar na velocidade Mach 2 pelo menos. Resta tapar o buraco!
É evidente - devem ter pensado - que os suecos não rejeitarão pedido de empréstimo ou aluguel. É de seu interesse emprestar ou alugar. Que assim seja. Por quanto tempo? Por um ou dois anos, até que cheguem os primeiros caças novos, com o título de propriedade em ordem. Farão isso antes que o contrato de compra esteja assinado? Com certeza, pois têm interesse econômico. Assim pensado, assim resolvido e comunicado à imprensa. Geladeira cheia!
Os leigos, acostumados a ir ao supermercado e também a trocar de automóvel quando possível e necessário, terão algumas perguntas a fazer. Os aviões emprestados ou alugados são da mesma geração técnica que os que serão comprados? Tudo indica que não: serão de uma geração anterior. Os pilotos da FAB, os famosos "jaguares", têm treinamento para pilotá-los? Tudo indica que não! Quantas horas serão necessárias para que possam voar sem riscos desnecessários? Haverá, no Orçamento, previsão para isso? Ou se apelará a uma mágica orçamentária para que, com algumas horas, com certeza poucas, as minimamente necessárias, os pilotos possam voar? Por quantas semanas o espaço aéreo ficará indefeso?
Os que decidem com a lógica de supermercado aplicada à defesa nacional não se preocuparam com esses pormenores, que, por serem "pormenores", não têm importância. Se não há previsão orçamentária para treinamento, fechem-se algumas bases, como foi noticiado há dias, e transfira-se a verba para outra rubrica. Se o TCU não permitir manobras contábeis do gênero, recorra-se ao Exército, que deve estar pouco satisfeito por ver que muitos pelotões de fronteira precisam esperar, às vezes, semanas para receber mantimentos e medicamentos porque os aviões da FAB para lá não voam por não terem pistas de pouso em condições.
Há outro elemento na lógica de supermercado: muitas vezes se compra para revender. Quando vamos ao supermercado, temos a certeza de que os fabricantes dos produtos ali vendidos têm o direito de vendê-los porque pagaram o devido pela tecnologia de fabricação, se dela não forem detentores legais. E o que se alardeia é que montaremos os aviões suecos no Brasil - haverá, com certeza, mercado para eles...
O comércio de armamentos é diferente do de comes e bebes: cada produto vem com a cláusula de "destinatário final". A Embraer tem muito a ensinar a esse respeito: não pôde vender o Super Tucano à Venezuela porque o avião tem componentes norte-americanos. O governo dos EUA proibiu a venda...
Pelo que sabemos, o caça sueco tem componentes norte-americanos - donde se segue que a Suécia deverá obter o "nada obsta" para que o Brasil possa transferir a outros governos esses componentes. E se Washington disser "não!"?
Os norte-americanos são mais rudes que os franceses, sem dúvida, mas igualmente não gostam de ser passados para trás, ainda mais quando foi seu presidente quem amargou o cancelamento de uma visita de Estado durante a qual, diz-se, o Brasil compraria os F-18. Enfim...
Jango e o realismo fantástico - MARCO ANTONIO VILLA
FOLHA DE SP - 14/01
Era um cardiopata. E de longa data. No México, em 1962, assistindo a uma exibição do balé folclórico, teve um ataque cardíaco
O Brasil é um país fantástico. Mais ainda, é um país do realismo fantástico, onde ficção se mistura com história e produz releituras ao sabor dos acontecimentos. A última tem como tema a morte do ex-presidente João Goulart, o Jango, na Argentina.
A Câmara dos Deputados fez uma investigação, ouviu dezenas de testemunhas e elaborou um longo relatório. Concluiu que não havia indícios de assassinato. Em entrevista a Geneton Moraes Neto, publicada no livro “Dossiê Brasil: as histórias por trás da História recente do país”, a senhora Maria Tereza Goulart descartou qualquer suspeita de assassinato do seu marido: “Eu estava ao lado de Jango o tempo todo, nos últimos dias. Jango morreu do coração. Tinha feito um regime violento e mal controlado. Chegou a perder 17 quilos em dois meses. E estava fumando muito. O médico já tinha dito que ele não poderia fumar.”
Jango era um cardiopata. E de longa data. No México, a 10 de abril de 1962, em visita oficial, assistindo a uma exibição do balé folclórico mexicano, no Teatro Belas Artes, o presidente teve um ataque cardíaco. Ficou desfalecido por um minuto. Atendido por médicos mexicanos, ficou impossibilitado de continuar a cumprir a agenda presidencial, sendo substituído por San Tiago Dantas. No retorno ao Brasil, o grande assunto era o estado de saúde de Jango e a possibilidade de que renunciasse à Presidência. Afinal, era o segundo ataque cardíaco em apenas oito meses. Dois meses depois, quando da recepção em palácio da seleção brasileira que partiria para a Copa do Mundo no Chile, Pelé manifestou preocupação com a saúde do presidente: “Presidente, como vão estas coronárias?” E Jango respondeu: “Estão boas, mas não tanto quanto as suas.”
Às vésperas do célebre comício da Central (13 de março de 1964), seu estado de saúde inspirava cuidados. Foi advertido que poderia ter sérias complicações com o coração. Jango desdenhou e manteve seu ritmo costumeiro de vida sedentária, alimentação inadequada, excesso no consumo de bebidas e vivendo em permanente estresse. No exílio uruguaio, também devido aos problemas com o coração, foi atendido pelo dr. Zerbini. Na França, onde esteve várias vezes, foi cuidar do coração e chegou a tentar uma consulta com o dr. Christian Barnard, na África do Sul, médico que dirigiu a equipe que fez o primeiro transplante de coração.
A transformação de Jango em um perigoso adversário do regime militar — tanto que o seu assassinato teria sido planejado pela Operação Condor — não passa de uma farsa. No exílio uruguaio, especialmente nos anos 1970, não tinha qualquer atuação política.
Tudo não passa de mais uma tentativa de mitificação, da hagiografia política sempre tão presente no Brasil. O figurino de democrata, reformista e comprometido com os deserdados foi novamente retirado do empoeirado armário. Agora pelos seus antigos adversários, os petistas. Mero oportunismo. É que a secretária dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, pretende ser candidata ao Senado pelo Rio Grande do Sul. E, como boa petista, não se importa de reescrever a história ao seu bel-prazer.
O cinquentenário dos acontecimentos de março/abril de 1964 é uma boa oportunidade para rever o governo Jango. O início dos anos 1960 esteve marcado pela agudização das mais variadas contradições. O esgotamento do ciclo econômico que alcançou seu auge na presidência JK era evidente. A grande migração tinha criado uma sociedade urbana e novas demandas que os governos não sabiam como atender. A tensão gerada pela Guerra Fria azedava qualquer conflito, por mais comezinho que fosse.
É nesta conjuntura que Jango tentou governar. E foi um desastre. Raciocinava sempre imaginando algum tipo de ação que significasse o abandono da política, do convencimento do adversário. Era tributário de uma tradição golpista, típica da política brasileira da época.
Nunca fez questão de esconder seu absoluto desinteresse pelas questões mais complexas da administração pública, distantes da politicagem do dia a dia. Celso Furtado, nas suas memórias (“A fantasia desorganizada”), relatou que entregou o Plano Trienal — que buscava planejar a economia nos anos 1963-1965 — ao presidente depois de exaustivas semanas de trabalho. Jango mal passou os olhos pela primeira página. Em entrevista à revista “Playboy”, em abril de 1999, Furtado foi direto: Jango “era um primitivo, um pobre de caráter”.
No polo ideológico oposto, o embaixador Roberto Campos, também nas suas memórias (“A lanterna na popa”), contou que escreveu um documento de 30 páginas relatando os contenciosos do Brasil com os Estados Unidos, em 1962, quando da visita do presidente a Washington. San Tiago Dantas, ministro das Relações Exteriores, pediu ao embaixador que reduzisse ao máximo a extensão do texto, pois com aquele volume de páginas o presidente não leria. Obediente, o embaixador sintetizou os problemas em cinco páginas, que foram consideradas excessivas. Diminuiu para três páginas. Mesmo assim, segundo Campos, Jango não leu o documento.
As reformas de base, palavra de ordem repetida à exaustão naqueles tempos, nunca foram apresentadas no seu conjunto. A definição — ainda que vaga — apareceu somente na mensagem presidencial encaminhada ao Congresso Nacional quando do início do ano legislativo, a 15 de março de 1964. E lembrar que foram apresentadas como soluções de curto prazo — mesmo sendo mudanças estruturais — durante três anos...
Deixou um país dividido, uma economia em estado caótico e com as instituições desmoralizadas. E abriu caminho para duas décadas de arbítrio
Era um cardiopata. E de longa data. No México, em 1962, assistindo a uma exibição do balé folclórico, teve um ataque cardíaco
O Brasil é um país fantástico. Mais ainda, é um país do realismo fantástico, onde ficção se mistura com história e produz releituras ao sabor dos acontecimentos. A última tem como tema a morte do ex-presidente João Goulart, o Jango, na Argentina.
A Câmara dos Deputados fez uma investigação, ouviu dezenas de testemunhas e elaborou um longo relatório. Concluiu que não havia indícios de assassinato. Em entrevista a Geneton Moraes Neto, publicada no livro “Dossiê Brasil: as histórias por trás da História recente do país”, a senhora Maria Tereza Goulart descartou qualquer suspeita de assassinato do seu marido: “Eu estava ao lado de Jango o tempo todo, nos últimos dias. Jango morreu do coração. Tinha feito um regime violento e mal controlado. Chegou a perder 17 quilos em dois meses. E estava fumando muito. O médico já tinha dito que ele não poderia fumar.”
Jango era um cardiopata. E de longa data. No México, a 10 de abril de 1962, em visita oficial, assistindo a uma exibição do balé folclórico mexicano, no Teatro Belas Artes, o presidente teve um ataque cardíaco. Ficou desfalecido por um minuto. Atendido por médicos mexicanos, ficou impossibilitado de continuar a cumprir a agenda presidencial, sendo substituído por San Tiago Dantas. No retorno ao Brasil, o grande assunto era o estado de saúde de Jango e a possibilidade de que renunciasse à Presidência. Afinal, era o segundo ataque cardíaco em apenas oito meses. Dois meses depois, quando da recepção em palácio da seleção brasileira que partiria para a Copa do Mundo no Chile, Pelé manifestou preocupação com a saúde do presidente: “Presidente, como vão estas coronárias?” E Jango respondeu: “Estão boas, mas não tanto quanto as suas.”
Às vésperas do célebre comício da Central (13 de março de 1964), seu estado de saúde inspirava cuidados. Foi advertido que poderia ter sérias complicações com o coração. Jango desdenhou e manteve seu ritmo costumeiro de vida sedentária, alimentação inadequada, excesso no consumo de bebidas e vivendo em permanente estresse. No exílio uruguaio, também devido aos problemas com o coração, foi atendido pelo dr. Zerbini. Na França, onde esteve várias vezes, foi cuidar do coração e chegou a tentar uma consulta com o dr. Christian Barnard, na África do Sul, médico que dirigiu a equipe que fez o primeiro transplante de coração.
A transformação de Jango em um perigoso adversário do regime militar — tanto que o seu assassinato teria sido planejado pela Operação Condor — não passa de uma farsa. No exílio uruguaio, especialmente nos anos 1970, não tinha qualquer atuação política.
Tudo não passa de mais uma tentativa de mitificação, da hagiografia política sempre tão presente no Brasil. O figurino de democrata, reformista e comprometido com os deserdados foi novamente retirado do empoeirado armário. Agora pelos seus antigos adversários, os petistas. Mero oportunismo. É que a secretária dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, pretende ser candidata ao Senado pelo Rio Grande do Sul. E, como boa petista, não se importa de reescrever a história ao seu bel-prazer.
O cinquentenário dos acontecimentos de março/abril de 1964 é uma boa oportunidade para rever o governo Jango. O início dos anos 1960 esteve marcado pela agudização das mais variadas contradições. O esgotamento do ciclo econômico que alcançou seu auge na presidência JK era evidente. A grande migração tinha criado uma sociedade urbana e novas demandas que os governos não sabiam como atender. A tensão gerada pela Guerra Fria azedava qualquer conflito, por mais comezinho que fosse.
É nesta conjuntura que Jango tentou governar. E foi um desastre. Raciocinava sempre imaginando algum tipo de ação que significasse o abandono da política, do convencimento do adversário. Era tributário de uma tradição golpista, típica da política brasileira da época.
Nunca fez questão de esconder seu absoluto desinteresse pelas questões mais complexas da administração pública, distantes da politicagem do dia a dia. Celso Furtado, nas suas memórias (“A fantasia desorganizada”), relatou que entregou o Plano Trienal — que buscava planejar a economia nos anos 1963-1965 — ao presidente depois de exaustivas semanas de trabalho. Jango mal passou os olhos pela primeira página. Em entrevista à revista “Playboy”, em abril de 1999, Furtado foi direto: Jango “era um primitivo, um pobre de caráter”.
No polo ideológico oposto, o embaixador Roberto Campos, também nas suas memórias (“A lanterna na popa”), contou que escreveu um documento de 30 páginas relatando os contenciosos do Brasil com os Estados Unidos, em 1962, quando da visita do presidente a Washington. San Tiago Dantas, ministro das Relações Exteriores, pediu ao embaixador que reduzisse ao máximo a extensão do texto, pois com aquele volume de páginas o presidente não leria. Obediente, o embaixador sintetizou os problemas em cinco páginas, que foram consideradas excessivas. Diminuiu para três páginas. Mesmo assim, segundo Campos, Jango não leu o documento.
As reformas de base, palavra de ordem repetida à exaustão naqueles tempos, nunca foram apresentadas no seu conjunto. A definição — ainda que vaga — apareceu somente na mensagem presidencial encaminhada ao Congresso Nacional quando do início do ano legislativo, a 15 de março de 1964. E lembrar que foram apresentadas como soluções de curto prazo — mesmo sendo mudanças estruturais — durante três anos...
Deixou um país dividido, uma economia em estado caótico e com as instituições desmoralizadas. E abriu caminho para duas décadas de arbítrio
Marina, Eduardo etc. - JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 14/01
A reunião de dirigentes do PSB sem a participação de Marina tem um ingrediente inegável de animosidade
O choque de objetivos se complica e se acirra entre Marina Silva e Eduardo Campos no PSB. Os grupos de ambos acusam a existência apenas de intrigas da imprensa, mas Eduardo Campos e sua corrente partiram para iniciativas que os recuperem da noticiada perda de força na sua relação com Marina Silva. Tudo sugere, porém, que as iniciativas adotadas não levarão ao resultado pretendido, e, sim, à permanência mais agravada do choque.
A maneira como Eduardo quis invalidar a recusa de Marina a apoiar a recandidatura de Geraldo Alckmin --doou ao PSDB uma secretaria e um cargo de segundo nível no governo de Pernambuco-- nem arranhou a intenção da Rede de lançar candidato próprio em São Paulo. E, atraindo peessedebistas de Aécio Neves para a sua candidatura, leva o comando nacional do PSDB a reagir com a proibição de acordos estaduais sem a sua concordância prévia. O que pode trazer danos indiretos ao PSB em outros Estados.
O entendimento com o PSDB de Pernambuco, sem entendimento a respeito com Marina, teve a desculpa de ser ato do governo. Já a planejada reunião, na próxima sexta-feira, de dirigentes do PSB sem a participação de Marina, tem, por si só, um ingrediente inegável de animosidade. E vai muito além disso, com os já antecipados propósitos de acelerar o compromisso de apoio à recandidatura de Alckmin e cravar Marina Silva como candidata a vice de Eduardo Campos.
Por ora, o pretendido avanço da corrente de Eduardo Campos parece pouco para demover Marina Silva de suas posições e propósitos. Mas suficiente para criar novos embaraços na relação em que Eduardo Campos ainda está por demonstrar algum ganho com sua apressada criação do PSB-Rede.
CRIMINOSOS
É esperada para hoje a divulgação do gordo dossiê que denuncia ao Tribunal Penal Internacional os crimes de morte, tortura e brutalidades sexuais cometidos por militares do Reino Unido, sobretudo ingleses e australianos, durante seis anos no Iraque ocupado. Se o tribunal tiver, enfim, a decência de efetivar um processo contra chefes políticos e militares de uma potência ocidental --o que a melhor imprensa europeia acha improvável-- veremos ministros e generais ingleses nos bancos dos réus.
Em certa medida, seria uma satisfação moral dada também ao Brasil. Quando se fala, aqui, dos crimes da ditadura, os ingleses jamais são citados. Muitos dos métodos torturantes de interrogatório e castigo aqui usados foram criados pela associação de ingleses e israelenses, como as maneiras de desestruturar mentalmente o preso, muitas vezes de modo irreversível. A exemplo das celas com sons altos e iluminação permanentes. Além das torturas físicas. Tudo adotado pelos ingleses para aplicar contra os irlandeses na segunda metade do século passado.
SEM IRONIA
Em carta de ontem no Painel do Leitor, o desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima, de Belo Horizonte, queixa-se dos leitores que o criticaram por sua carta anterior, contra a ministra Maria do Rosário, Paulo Sérgio Pinheiro, contra mim "e outros tantos admiráveis defensores dos direitos humanos no Brasil", por criticarmos as monstruosidades em presídio maranhense. Apenas, diz ele agora, "indaguei, com ironia, o que esses paladinos dos direitos humanos' têm a oferecer além de retórica e tinta de impressora".
Que coisa feia, um desembargador mentiroso. Leitores o criticaram por escrever, isso sim, a bobice de que cada um dos citados levasse "para casa um preso carente de direitos humanos". Sua carta nada "indagou", ou, em resposta, eu lhe ofereceria uma sugestão: tomar conhecimento da Constituição brasileira.
A reunião de dirigentes do PSB sem a participação de Marina tem um ingrediente inegável de animosidade
O choque de objetivos se complica e se acirra entre Marina Silva e Eduardo Campos no PSB. Os grupos de ambos acusam a existência apenas de intrigas da imprensa, mas Eduardo Campos e sua corrente partiram para iniciativas que os recuperem da noticiada perda de força na sua relação com Marina Silva. Tudo sugere, porém, que as iniciativas adotadas não levarão ao resultado pretendido, e, sim, à permanência mais agravada do choque.
A maneira como Eduardo quis invalidar a recusa de Marina a apoiar a recandidatura de Geraldo Alckmin --doou ao PSDB uma secretaria e um cargo de segundo nível no governo de Pernambuco-- nem arranhou a intenção da Rede de lançar candidato próprio em São Paulo. E, atraindo peessedebistas de Aécio Neves para a sua candidatura, leva o comando nacional do PSDB a reagir com a proibição de acordos estaduais sem a sua concordância prévia. O que pode trazer danos indiretos ao PSB em outros Estados.
O entendimento com o PSDB de Pernambuco, sem entendimento a respeito com Marina, teve a desculpa de ser ato do governo. Já a planejada reunião, na próxima sexta-feira, de dirigentes do PSB sem a participação de Marina, tem, por si só, um ingrediente inegável de animosidade. E vai muito além disso, com os já antecipados propósitos de acelerar o compromisso de apoio à recandidatura de Alckmin e cravar Marina Silva como candidata a vice de Eduardo Campos.
Por ora, o pretendido avanço da corrente de Eduardo Campos parece pouco para demover Marina Silva de suas posições e propósitos. Mas suficiente para criar novos embaraços na relação em que Eduardo Campos ainda está por demonstrar algum ganho com sua apressada criação do PSB-Rede.
CRIMINOSOS
É esperada para hoje a divulgação do gordo dossiê que denuncia ao Tribunal Penal Internacional os crimes de morte, tortura e brutalidades sexuais cometidos por militares do Reino Unido, sobretudo ingleses e australianos, durante seis anos no Iraque ocupado. Se o tribunal tiver, enfim, a decência de efetivar um processo contra chefes políticos e militares de uma potência ocidental --o que a melhor imprensa europeia acha improvável-- veremos ministros e generais ingleses nos bancos dos réus.
Em certa medida, seria uma satisfação moral dada também ao Brasil. Quando se fala, aqui, dos crimes da ditadura, os ingleses jamais são citados. Muitos dos métodos torturantes de interrogatório e castigo aqui usados foram criados pela associação de ingleses e israelenses, como as maneiras de desestruturar mentalmente o preso, muitas vezes de modo irreversível. A exemplo das celas com sons altos e iluminação permanentes. Além das torturas físicas. Tudo adotado pelos ingleses para aplicar contra os irlandeses na segunda metade do século passado.
SEM IRONIA
Em carta de ontem no Painel do Leitor, o desembargador Rogério Medeiros Garcia de Lima, de Belo Horizonte, queixa-se dos leitores que o criticaram por sua carta anterior, contra a ministra Maria do Rosário, Paulo Sérgio Pinheiro, contra mim "e outros tantos admiráveis defensores dos direitos humanos no Brasil", por criticarmos as monstruosidades em presídio maranhense. Apenas, diz ele agora, "indaguei, com ironia, o que esses paladinos dos direitos humanos' têm a oferecer além de retórica e tinta de impressora".
Que coisa feia, um desembargador mentiroso. Leitores o criticaram por escrever, isso sim, a bobice de que cada um dos citados levasse "para casa um preso carente de direitos humanos". Sua carta nada "indagou", ou, em resposta, eu lhe ofereceria uma sugestão: tomar conhecimento da Constituição brasileira.
O BC e a crise de confiança - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S. Paulo - 14/01
Derrotado pela inflação de 5,91% em 2013, o Comitê de Política Monetária (Copom) reúne-se hoje e amanhã para definir os próximos lances do combate à alta de preços. A situação está longe de ser rotineira e está em jogo, mais uma vez, a credibilidade da instituição. Durante todo o ano, o comitê, formado por diretores do Banco Central (BC), prometeu um resultado melhor que o do ano anterior, de 5,84%. Foi a mesma promessa convertida em mantra pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. A única diferença foi a linguagem. No jargão do BC, o objetivo era fazer a inflação convergir para a meta oficial, de 4,5%, embora lentamente. Em linguagem comum, a tarefa era conseguir uma taxa menor que a de 2012 e com tendência de queda nos dois anos seguintes. Nenhum item desse programa foi cumprido e os primeiros números coletados em janeiro indicam pressões inflacionárias crescentes.
Diante do fiasco, alguém teria de falar em nome do BC sobre a disparada do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado como referência para o regime de metas de inflação. O indicador mostrou resistência "ligeiramente acima" da esperada, afirmou em nota o presidente da instituição, Alexandre Tombini. Além disso, "a inflação se posicionou dentro do intervalo de tolerância fixado para o ano".
Em outras palavras, o quadro teria sido pior, se o acumulado ficasse acima de 6,5%. É quase escandaloso o presidente do BC usar um argumento como esse. Margem de tolerância, ele sabe muito bem, é para acomodar eventos excepcionais. Não houve nada parecido em 2013.
Mais surpreendente que os números finais, no entanto, é a alegação de surpresa. A alta de 0,92% em dezembro ficou acima das projeções conhecidas, mas a aceleração dos aumentos, muito clara a partir de agosto, estava embutida em todos os cálculos sérios. Falar em surpresa diante de um salto pouco maior que o esperado é quase enveredar, como diria Sérgio Porto, pelo perigoso caminho da galhofa. Não deve ter sido essa a intenção do presidente do BC. Mas o Copom deve uma demonstração mais clara de empenho no tratamento da inflação. Mesmo um resultado pouco abaixo de 5,84% em 2013 teria sido muito ruim pelo menos por três motivos, para citar só os mais evidentes.
Primeiro, os números oficiais do ano passado vieram com maquiagem, por causa das intervenções políticas em preços e tarifas. Sem esses truques, a taxa anual teria chegado a 6,71% e estourado a margem de tolerância, segundo cálculo publicado no Estado de sábado.
Segundo, a meta de 4,5%, com margem de 2 pontos porcentuais, é muito mais alta que a de países governados mais seriamente - incluídos alguns sul-americanos.
Terceiro, porque a tolerância à inflação abre espaço à farra fiscal (gastança, concessão arbitrária de benefícios, promiscuidade entre Tesouro e bancos oficiais, etc.), além de produzir outros desarranjos graves (no câmbio, por exemplo). Parte dos problemas enfrentados pela indústria brasileira no comércio internacional está associada aos desajustes cambiais. Para alguns economistas, o problema está na gestão cambial. Errado: a tolerância à inflação é muito mais grave.
Ao retomar a elevação dos juros em abril de 2013, o Copom começou a recobrar sua credibilidade e a mostrar-se capaz de tomar decisões independentes, sem se dobrar às opiniões formuladas no Palácio do Planalto. Mas sua reação, além de tardia, foi insuficiente para compensar os desmandos cometidos pelo governo em outras áreas.
A credibilidade do Executivo perante as pessoas informadas está obviamente comprometida. O resultado fiscal de 2013 - um superávit primário de R$ 75 bilhões, segundo o ministro da Fazenda - foi obviamente inflado. Além de receitas atípicas, como os R$ 15 bilhões do bônus do Campo de Libra, o governo usou vários outros componentes para melhorar o resultado, como o grande aumento dos restos a pagar e o atraso em transferências a Estados e municípios. Ao decidir o próximo passo, os membros do Copom deveriam levar em conta a crise de confiança na gestão federal e os custos do agravamento dessa crise.
Derrotado pela inflação de 5,91% em 2013, o Comitê de Política Monetária (Copom) reúne-se hoje e amanhã para definir os próximos lances do combate à alta de preços. A situação está longe de ser rotineira e está em jogo, mais uma vez, a credibilidade da instituição. Durante todo o ano, o comitê, formado por diretores do Banco Central (BC), prometeu um resultado melhor que o do ano anterior, de 5,84%. Foi a mesma promessa convertida em mantra pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. A única diferença foi a linguagem. No jargão do BC, o objetivo era fazer a inflação convergir para a meta oficial, de 4,5%, embora lentamente. Em linguagem comum, a tarefa era conseguir uma taxa menor que a de 2012 e com tendência de queda nos dois anos seguintes. Nenhum item desse programa foi cumprido e os primeiros números coletados em janeiro indicam pressões inflacionárias crescentes.
Diante do fiasco, alguém teria de falar em nome do BC sobre a disparada do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado como referência para o regime de metas de inflação. O indicador mostrou resistência "ligeiramente acima" da esperada, afirmou em nota o presidente da instituição, Alexandre Tombini. Além disso, "a inflação se posicionou dentro do intervalo de tolerância fixado para o ano".
Em outras palavras, o quadro teria sido pior, se o acumulado ficasse acima de 6,5%. É quase escandaloso o presidente do BC usar um argumento como esse. Margem de tolerância, ele sabe muito bem, é para acomodar eventos excepcionais. Não houve nada parecido em 2013.
Mais surpreendente que os números finais, no entanto, é a alegação de surpresa. A alta de 0,92% em dezembro ficou acima das projeções conhecidas, mas a aceleração dos aumentos, muito clara a partir de agosto, estava embutida em todos os cálculos sérios. Falar em surpresa diante de um salto pouco maior que o esperado é quase enveredar, como diria Sérgio Porto, pelo perigoso caminho da galhofa. Não deve ter sido essa a intenção do presidente do BC. Mas o Copom deve uma demonstração mais clara de empenho no tratamento da inflação. Mesmo um resultado pouco abaixo de 5,84% em 2013 teria sido muito ruim pelo menos por três motivos, para citar só os mais evidentes.
Primeiro, os números oficiais do ano passado vieram com maquiagem, por causa das intervenções políticas em preços e tarifas. Sem esses truques, a taxa anual teria chegado a 6,71% e estourado a margem de tolerância, segundo cálculo publicado no Estado de sábado.
Segundo, a meta de 4,5%, com margem de 2 pontos porcentuais, é muito mais alta que a de países governados mais seriamente - incluídos alguns sul-americanos.
Terceiro, porque a tolerância à inflação abre espaço à farra fiscal (gastança, concessão arbitrária de benefícios, promiscuidade entre Tesouro e bancos oficiais, etc.), além de produzir outros desarranjos graves (no câmbio, por exemplo). Parte dos problemas enfrentados pela indústria brasileira no comércio internacional está associada aos desajustes cambiais. Para alguns economistas, o problema está na gestão cambial. Errado: a tolerância à inflação é muito mais grave.
Ao retomar a elevação dos juros em abril de 2013, o Copom começou a recobrar sua credibilidade e a mostrar-se capaz de tomar decisões independentes, sem se dobrar às opiniões formuladas no Palácio do Planalto. Mas sua reação, além de tardia, foi insuficiente para compensar os desmandos cometidos pelo governo em outras áreas.
A credibilidade do Executivo perante as pessoas informadas está obviamente comprometida. O resultado fiscal de 2013 - um superávit primário de R$ 75 bilhões, segundo o ministro da Fazenda - foi obviamente inflado. Além de receitas atípicas, como os R$ 15 bilhões do bônus do Campo de Libra, o governo usou vários outros componentes para melhorar o resultado, como o grande aumento dos restos a pagar e o atraso em transferências a Estados e municípios. Ao decidir o próximo passo, os membros do Copom deveriam levar em conta a crise de confiança na gestão federal e os custos do agravamento dessa crise.
Prisões para quem? - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 14/01
Sistema carcerário brasileiro não cumpre sua missão; país precisa aprofundar debate sobre função das penas privativas de liberdade
Para que servem as prisões?
A pergunta precisa ser levada a sério. Deveria ser o ponto de partida de toda discussão a respeito do sistema carcerário brasileiro. De sua resposta depende o encaminhamento de soluções para monstruosidades como as registradas em Pedrinhas, maior penitenciária do Maranhão.
Até o século 18, prevalecia a noção de que a finalidade das sanções penais era fazer o criminoso pagar por seus atos delituosos. Regras como "olho por olho, dente por dente" ou os castigos físicos impingidos nas masmorras medievais constituíam somente desdobramentos dessa tese.
Desse ponto de vista, quem ainda hoje nega direitos humanos a delinquentes talvez entenda que ninguém deveria se preocupar com a selvageria dentro das cadeias; os maus-tratos seriam espécie de bônus não previsto no Código Penal.
Mas entre os 548 mil indivíduos entulhados em 310 mil vagas sob a custódia do Estado brasileiro, 195 mil são presos provisórios --sem condenação definitiva. Além disso, calcula-se que mais de 5% estejam indevidamente encarcerados.
Mesmo que sevícias ainda fossem aceitáveis nas democracias atuais, seria forçoso reconhecer que, nas penitenciárias brasileiras, o suplício não preserva nem pessoas que podem ser inocentes.
A humanidade, felizmente, avançou muito desde o final da Idade Média. O Estado moderno não abre mão --ao menos em teoria-- de proteger os direitos humanos de todos, indistintamente.
No que respeita às sanções penais, também houve notáveis progressos. Ao caráter punitivo acrescentaram-se três funções: evitar novos danos à sociedade; dissuadir outros cidadãos de cometer um delito; ressocializar o criminoso.
Não é preciso esforço para notar que o sistema carcerário brasileiro é mais medieval do que moderno.
As punições, no cotidiano prisional, extrapolam o aceitável e não guardam proporção com o crime cometido. Há muito tempo o horror das cadeias é descrito em relatórios da ONU e do Conselho Nacional de Justiça, mas o vídeo divulgado por esta Folha com imagens de Pedrinhas mostrou que qualquer adjetivo é mero eufemismo.
Chega a ser surreal esperar ressocialização após uma temporada numa instituição mais propensa a retirar dos prisioneiros o que lhes resta de humanidade. As penitenciárias são antes escolas do crime, e estima-se que mais de 60% dos detentos retornem a elas.
Diante de reincidência tão elevada, soa pueril falar em dissuasão. De resto, a certeza da condenação presta-se mais a esse propósito do que a gravidade da pena. No Brasil, porém, menos de 10% dos homicídios resultam em prisão.
Sobraria ao cárcere a função de afastar bandidos do convívio social, protegendo os demais cidadãos. Mas nem isso ocorre. Partem, de dentro das celas, ordens de comando para ações criminosas nas ruas, como o ataque cruel que matou Ana Clara, 6, na região metropolitana de São Luís.
As prisões, como se vê, têm servido para muito pouco, ou nada.
O momento é oportuno para discutir uma reorientação radical do sistema. Esta Folhatem defendido há mais de uma década que as penas privativas de liberdade deveriam ser reservadas apenas a infratores que empreguem violência ou grave ameaça em seus crimes.
A tese pode causar surpresa, mas seu fundamento é racional. Baseia-se no princípio de que o encarceramento só é necessário a fim de apartar indivíduos violentos da sociedade, interrompendo a ameaça que representam; nos demais casos, as funções da pena deveriam ser atendidas com medidas de natureza menos medieval.
A punição pode ocorrer na forma de multa, restrições de direitos (impedimento de viajar ou de exercer uma atividade, por exemplo) e sanções alternativas --desde que suficientemente duras e proporcionais ao delito.
Além de implicarem uma retribuição social inexistente na prisão, as alternativas penais, segundo diversos estudos, são muito mais eficientes para prevenir novas infrações, com índice de reincidência oscilando entre 5% e 12%.
O custo também é muito menor. Um preso comum não sai por menos de R$ 24 mil/ano (sem contar a construção de presídios, que demanda R$ 33 mil por vaga); o gasto anual com pena alternativa pode ficar abaixo de R$ 500 por pessoa.
Some-se ainda outra vantagem: a diminuição da população carcerária, tornando mais fácil monitorar os prisioneiros. Como consequência, facções criminosas seriam afetadas, já que a superlotação é benéfica para elas. Hoje, indivíduos pouco perigosos terminam, voluntariamente ou à força, servindo aos interesses dos chefes dentro das cadeias.
Não há, portanto, razão para manter o sistema prisional brasileiro inalterado. Dos pontos de vista pragmático e filosófico ou da perspectiva dos direitos humanos, sobram motivos para o país iniciar um novo debate sobre o tema.
Sistema carcerário brasileiro não cumpre sua missão; país precisa aprofundar debate sobre função das penas privativas de liberdade
Para que servem as prisões?
A pergunta precisa ser levada a sério. Deveria ser o ponto de partida de toda discussão a respeito do sistema carcerário brasileiro. De sua resposta depende o encaminhamento de soluções para monstruosidades como as registradas em Pedrinhas, maior penitenciária do Maranhão.
Até o século 18, prevalecia a noção de que a finalidade das sanções penais era fazer o criminoso pagar por seus atos delituosos. Regras como "olho por olho, dente por dente" ou os castigos físicos impingidos nas masmorras medievais constituíam somente desdobramentos dessa tese.
Desse ponto de vista, quem ainda hoje nega direitos humanos a delinquentes talvez entenda que ninguém deveria se preocupar com a selvageria dentro das cadeias; os maus-tratos seriam espécie de bônus não previsto no Código Penal.
Mas entre os 548 mil indivíduos entulhados em 310 mil vagas sob a custódia do Estado brasileiro, 195 mil são presos provisórios --sem condenação definitiva. Além disso, calcula-se que mais de 5% estejam indevidamente encarcerados.
Mesmo que sevícias ainda fossem aceitáveis nas democracias atuais, seria forçoso reconhecer que, nas penitenciárias brasileiras, o suplício não preserva nem pessoas que podem ser inocentes.
A humanidade, felizmente, avançou muito desde o final da Idade Média. O Estado moderno não abre mão --ao menos em teoria-- de proteger os direitos humanos de todos, indistintamente.
No que respeita às sanções penais, também houve notáveis progressos. Ao caráter punitivo acrescentaram-se três funções: evitar novos danos à sociedade; dissuadir outros cidadãos de cometer um delito; ressocializar o criminoso.
Não é preciso esforço para notar que o sistema carcerário brasileiro é mais medieval do que moderno.
As punições, no cotidiano prisional, extrapolam o aceitável e não guardam proporção com o crime cometido. Há muito tempo o horror das cadeias é descrito em relatórios da ONU e do Conselho Nacional de Justiça, mas o vídeo divulgado por esta Folha com imagens de Pedrinhas mostrou que qualquer adjetivo é mero eufemismo.
Chega a ser surreal esperar ressocialização após uma temporada numa instituição mais propensa a retirar dos prisioneiros o que lhes resta de humanidade. As penitenciárias são antes escolas do crime, e estima-se que mais de 60% dos detentos retornem a elas.
Diante de reincidência tão elevada, soa pueril falar em dissuasão. De resto, a certeza da condenação presta-se mais a esse propósito do que a gravidade da pena. No Brasil, porém, menos de 10% dos homicídios resultam em prisão.
Sobraria ao cárcere a função de afastar bandidos do convívio social, protegendo os demais cidadãos. Mas nem isso ocorre. Partem, de dentro das celas, ordens de comando para ações criminosas nas ruas, como o ataque cruel que matou Ana Clara, 6, na região metropolitana de São Luís.
As prisões, como se vê, têm servido para muito pouco, ou nada.
O momento é oportuno para discutir uma reorientação radical do sistema. Esta Folhatem defendido há mais de uma década que as penas privativas de liberdade deveriam ser reservadas apenas a infratores que empreguem violência ou grave ameaça em seus crimes.
A tese pode causar surpresa, mas seu fundamento é racional. Baseia-se no princípio de que o encarceramento só é necessário a fim de apartar indivíduos violentos da sociedade, interrompendo a ameaça que representam; nos demais casos, as funções da pena deveriam ser atendidas com medidas de natureza menos medieval.
A punição pode ocorrer na forma de multa, restrições de direitos (impedimento de viajar ou de exercer uma atividade, por exemplo) e sanções alternativas --desde que suficientemente duras e proporcionais ao delito.
Além de implicarem uma retribuição social inexistente na prisão, as alternativas penais, segundo diversos estudos, são muito mais eficientes para prevenir novas infrações, com índice de reincidência oscilando entre 5% e 12%.
O custo também é muito menor. Um preso comum não sai por menos de R$ 24 mil/ano (sem contar a construção de presídios, que demanda R$ 33 mil por vaga); o gasto anual com pena alternativa pode ficar abaixo de R$ 500 por pessoa.
Some-se ainda outra vantagem: a diminuição da população carcerária, tornando mais fácil monitorar os prisioneiros. Como consequência, facções criminosas seriam afetadas, já que a superlotação é benéfica para elas. Hoje, indivíduos pouco perigosos terminam, voluntariamente ou à força, servindo aos interesses dos chefes dentro das cadeias.
Não há, portanto, razão para manter o sistema prisional brasileiro inalterado. Dos pontos de vista pragmático e filosófico ou da perspectiva dos direitos humanos, sobram motivos para o país iniciar um novo debate sobre o tema.
Planejamento duvidoso da energia térmica - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 14/01
Nos últimos meses, apareceram mais evidências de equívocos no modelo de energia elétrica. Por exemplo, o vulto dos subsídios concedidos pelo governo federal às geradoras para compensar a mudança tarifária de 2013; os danos provocados no mercado de gás natural pelos subsídios dados ao preço do óleo combustível; o descontrole das despesas correntes em usinas estatais; ou a cobrança de R$ 12 bilhões da União pela Eletrobrás como indenização pela antecipação de concessões. Em contrapartida, há o exemplo de empreendedores privados que, em plena crise, em pouco mais de uma década montaram o parque eólico de Caetité, na Bahia, descrito na reportagem de Renée Pereira, no Estado de domingo.
Mas predominam os maus exemplos da política energética, mostrou estudo do Instituto Acende Brasil sobre a falta de transparência do modelo brasileiro de energia, que é analisada desde o racionamento de 2001.
Um dos erros de planejamento das usinas térmicas fica exposto com clareza nos períodos em que as termoelétricas são muito acionadas, como em 2011 e 2012, quando os reservatórios das hidrelétricas apresentaram níveis baixos, que impunham a operação intensiva das térmicas, sob pena de pôr em risco a oferta de energia.
As térmicas, segundo o presidente do instituto, Claudio Sales, foram feitas para operar por curtos períodos, só em épocas de fragilidade do regime pluviométrico. Por isso os empreendedores investiram o mínimo possível. "Desde que o custo do capital fosse pequeno, as térmicas poderiam ter um custo operacional elevado, já que ficariam desligadas", notou Sales. Assim, apenas 30% da eletricidade gerada nas usinas térmicas tem custo módico, de até R$ 100 o MWh. Mas 54% da energia produzida pelo parque térmico tem custo alto, a metade entre R$ 100 e R$ 200 o MWh e a outra metade de até R$ 400 o MWh, informou o jornal Valor. Um pequeno porcentual da energia térmica (3,7%) chega a ter custo entre R$ 600 e R$ 800 o MWh. Os projetos térmicos negligenciaram ainda outros atributos, como a localização e a flexibilidade operacional, que lhes dariam mais eficiência.
O problema é agravado por outros erros, como o de superestimar a oferta de armazenamento dos reservatórios - e, portanto, de oferta de energia. O resultado é um aumento dos custos da energia, cabendo ao governo reconhecer a necessidade de aprimorar as informações e corrigir os erros de planejamento.
Nos últimos meses, apareceram mais evidências de equívocos no modelo de energia elétrica. Por exemplo, o vulto dos subsídios concedidos pelo governo federal às geradoras para compensar a mudança tarifária de 2013; os danos provocados no mercado de gás natural pelos subsídios dados ao preço do óleo combustível; o descontrole das despesas correntes em usinas estatais; ou a cobrança de R$ 12 bilhões da União pela Eletrobrás como indenização pela antecipação de concessões. Em contrapartida, há o exemplo de empreendedores privados que, em plena crise, em pouco mais de uma década montaram o parque eólico de Caetité, na Bahia, descrito na reportagem de Renée Pereira, no Estado de domingo.
Mas predominam os maus exemplos da política energética, mostrou estudo do Instituto Acende Brasil sobre a falta de transparência do modelo brasileiro de energia, que é analisada desde o racionamento de 2001.
Um dos erros de planejamento das usinas térmicas fica exposto com clareza nos períodos em que as termoelétricas são muito acionadas, como em 2011 e 2012, quando os reservatórios das hidrelétricas apresentaram níveis baixos, que impunham a operação intensiva das térmicas, sob pena de pôr em risco a oferta de energia.
As térmicas, segundo o presidente do instituto, Claudio Sales, foram feitas para operar por curtos períodos, só em épocas de fragilidade do regime pluviométrico. Por isso os empreendedores investiram o mínimo possível. "Desde que o custo do capital fosse pequeno, as térmicas poderiam ter um custo operacional elevado, já que ficariam desligadas", notou Sales. Assim, apenas 30% da eletricidade gerada nas usinas térmicas tem custo módico, de até R$ 100 o MWh. Mas 54% da energia produzida pelo parque térmico tem custo alto, a metade entre R$ 100 e R$ 200 o MWh e a outra metade de até R$ 400 o MWh, informou o jornal Valor. Um pequeno porcentual da energia térmica (3,7%) chega a ter custo entre R$ 600 e R$ 800 o MWh. Os projetos térmicos negligenciaram ainda outros atributos, como a localização e a flexibilidade operacional, que lhes dariam mais eficiência.
O problema é agravado por outros erros, como o de superestimar a oferta de armazenamento dos reservatórios - e, portanto, de oferta de energia. O resultado é um aumento dos custos da energia, cabendo ao governo reconhecer a necessidade de aprimorar as informações e corrigir os erros de planejamento.
Poupar para crescer - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 14/01
Ao dar tanta importância ao curtíssimo prazo, estimulando o consumo desenfreado, comprometemos nosso futuro
De janeiro a setembro de 2013, os brasileiros – cidadãos, empresas, governos – pouparam R$ 533 bilhões, o equivalente a 15% do Produto Interno Bruto (PIB) do período, segundo os dados mais recentes do IBGE. A chamada “taxa de poupança”, equivalente à diferença entre a renda e as despesas do país, revela qual é a disposição da nação de abdicar do consumo imediato em troca de benefícios futuros.
Os números mostram que, tanto na comparação com outros países quanto em relação ao próprio histórico brasileiro, nossa inclinação para poupar – e, portanto, para pensar no futuro – anda baixíssima. A taxa de poupança de 15% do PIB foi a menor desde 2001, considerando-se os nove primeiros meses de cada ano. Um índice muito inferior à média global (de quase 22%), e que nos coloca no 102.º lugar de um ranking de 144 países.
Estamos muito atrás de emergentes como China (que poupa 50% de seu PIB), Rússia (30%), Índia (29%), México (22%) e Turquia (20%), e também de vizinhos como Venezuela (29%), Equador (27%), Bolívia (27%), Argentina (24%), Peru (23%), Chile (21%) e Colômbia (20%).
É verdade que, ao contrário do Brasil, vários desses países não dispõem de grandes sistemas públicos de previdência ou de saúde, o que força suas populações a guardar mais dinheiro. Mas essa ressalva não encobre o fato de que nossos índices são absurdamente baixos. Eles resultam não só de hábitos arraigados há séculos, mas também da recente compulsão do governo federal em incentivar o consumo a qualquer custo, a pretexto de alimentar um crescimento econômico que, como parecia óbvio, perdeu força tão logo a explosão do endividamento esgotou a capacidade das famílias de continuar comprando.
O poder público tem outro papel, ainda mais determinante, na baixa taxa de poupança brasileira. Por meio de tributos que somam mais de 35% do PIB, o Estado limita a capacidade das famílias e do setor privado de guardarem dinheiro; e, ainda por cima, gasta muito mais do que arrecada. O resultado é que a “contribuição” do setor público para a poupança acaba sendo muito negativa: ele “despoupa” algo em torno de 5% do PIB.
A primeira reportagem da série “O Brasil envelhece”, publicada pela Gazeta em 5 de janeiro, mostrou que, ao dar tanta importância ao curtíssimo prazo, comprometemos nosso futuro de pelo menos duas formas. A primeira é que, ao não poupar, ou poupar muito pouco, ficamos mais vulneráveis às emergências da vida e, na velhice, mais dependentes da aposentadoria do INSS – que, ao que tudo indica, ficará cada vez mais minguada. A segunda é que, ao não guardar dinheiro, também impedimos que esses recursos sejam direcionados, via financiamentos do sistema financeiro, a investimentos. Entre eles, os que poderiam melhorar a competitividade de nossa economia e a qualidade de nossa infraestrutura, com a reforma e ampliação de estradas, ferrovias, portos, aeroportos e outros.
A poupança, portanto, guarda uma forte correlação com o investimento e, consequentemente, com o crescimento econômico de longo prazo. Não é de estranhar que nossa taxa de investimento esteja rondando a tímida marca de 18%, ao passo que, para termos um crescimento econômico mais sólido (na casa de 5% ao ano) e sustentável (sem variações bruscas de um ano para o outro, e sem pressionar a inflação), o recomendável seria algo próximo a 25% do PIB.
Como poupamos 15% e investimos 18% do PIB, essa diferença – uns 3% do PIB – é “importada” de outros países. São recursos que entram na forma de investimento estrangeiro direto (IED). Há quem considere que essa importação de poupança dispensa o Brasil de poupar mais. Mas o fato é que as reservas internas e externas têm papéis complementares.
Estudos recentes mostram que, ao servir de contrapartida local em projetos de longo prazo, a poupança nacional atrai IED. Assim, quanto mais pouparmos, mais atrairemos investimentos estrangeiros. Sendo eles um importante canal de transferência de tecnologia, a consequência natural será um aumento na produtividade da economia, o que por sua vez permitirá ao país crescer mais sem as inconveniências da inflação elevada. Está claro que o crescimento de nossa economia dependerá, mais e mais, de investimentos. E eles, de poupança. Em algum momento os responsáveis pela política econômica terão de se dar conta disso.
Ao dar tanta importância ao curtíssimo prazo, estimulando o consumo desenfreado, comprometemos nosso futuro
De janeiro a setembro de 2013, os brasileiros – cidadãos, empresas, governos – pouparam R$ 533 bilhões, o equivalente a 15% do Produto Interno Bruto (PIB) do período, segundo os dados mais recentes do IBGE. A chamada “taxa de poupança”, equivalente à diferença entre a renda e as despesas do país, revela qual é a disposição da nação de abdicar do consumo imediato em troca de benefícios futuros.
Os números mostram que, tanto na comparação com outros países quanto em relação ao próprio histórico brasileiro, nossa inclinação para poupar – e, portanto, para pensar no futuro – anda baixíssima. A taxa de poupança de 15% do PIB foi a menor desde 2001, considerando-se os nove primeiros meses de cada ano. Um índice muito inferior à média global (de quase 22%), e que nos coloca no 102.º lugar de um ranking de 144 países.
Estamos muito atrás de emergentes como China (que poupa 50% de seu PIB), Rússia (30%), Índia (29%), México (22%) e Turquia (20%), e também de vizinhos como Venezuela (29%), Equador (27%), Bolívia (27%), Argentina (24%), Peru (23%), Chile (21%) e Colômbia (20%).
É verdade que, ao contrário do Brasil, vários desses países não dispõem de grandes sistemas públicos de previdência ou de saúde, o que força suas populações a guardar mais dinheiro. Mas essa ressalva não encobre o fato de que nossos índices são absurdamente baixos. Eles resultam não só de hábitos arraigados há séculos, mas também da recente compulsão do governo federal em incentivar o consumo a qualquer custo, a pretexto de alimentar um crescimento econômico que, como parecia óbvio, perdeu força tão logo a explosão do endividamento esgotou a capacidade das famílias de continuar comprando.
O poder público tem outro papel, ainda mais determinante, na baixa taxa de poupança brasileira. Por meio de tributos que somam mais de 35% do PIB, o Estado limita a capacidade das famílias e do setor privado de guardarem dinheiro; e, ainda por cima, gasta muito mais do que arrecada. O resultado é que a “contribuição” do setor público para a poupança acaba sendo muito negativa: ele “despoupa” algo em torno de 5% do PIB.
A primeira reportagem da série “O Brasil envelhece”, publicada pela Gazeta em 5 de janeiro, mostrou que, ao dar tanta importância ao curtíssimo prazo, comprometemos nosso futuro de pelo menos duas formas. A primeira é que, ao não poupar, ou poupar muito pouco, ficamos mais vulneráveis às emergências da vida e, na velhice, mais dependentes da aposentadoria do INSS – que, ao que tudo indica, ficará cada vez mais minguada. A segunda é que, ao não guardar dinheiro, também impedimos que esses recursos sejam direcionados, via financiamentos do sistema financeiro, a investimentos. Entre eles, os que poderiam melhorar a competitividade de nossa economia e a qualidade de nossa infraestrutura, com a reforma e ampliação de estradas, ferrovias, portos, aeroportos e outros.
A poupança, portanto, guarda uma forte correlação com o investimento e, consequentemente, com o crescimento econômico de longo prazo. Não é de estranhar que nossa taxa de investimento esteja rondando a tímida marca de 18%, ao passo que, para termos um crescimento econômico mais sólido (na casa de 5% ao ano) e sustentável (sem variações bruscas de um ano para o outro, e sem pressionar a inflação), o recomendável seria algo próximo a 25% do PIB.
Como poupamos 15% e investimos 18% do PIB, essa diferença – uns 3% do PIB – é “importada” de outros países. São recursos que entram na forma de investimento estrangeiro direto (IED). Há quem considere que essa importação de poupança dispensa o Brasil de poupar mais. Mas o fato é que as reservas internas e externas têm papéis complementares.
Estudos recentes mostram que, ao servir de contrapartida local em projetos de longo prazo, a poupança nacional atrai IED. Assim, quanto mais pouparmos, mais atrairemos investimentos estrangeiros. Sendo eles um importante canal de transferência de tecnologia, a consequência natural será um aumento na produtividade da economia, o que por sua vez permitirá ao país crescer mais sem as inconveniências da inflação elevada. Está claro que o crescimento de nossa economia dependerá, mais e mais, de investimentos. E eles, de poupança. Em algum momento os responsáveis pela política econômica terão de se dar conta disso.
Aumenta a responsabilidade do BC - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 14/01
A margem de manobra para manter tarifas congeladas se esgotou e é óbvio o interesse eleitoral do Planalto em manter o mercado de trabalho aquecido
O Conselho de Política Monetária (Copom), do Banco Central, se reúne esta semana para decidir o que fazer com os juros básicos (Selic), logo depois de se saber que 2013 fechou com uma inflação de 5,91%, pouco acima do que era considerada a “meta informal” do banco, os 5,84% de 2012. Se o índice ficasse abaixo da inflação de 2012, seria comemorado como um êxito em Brasília.
Convenhamos que as pretensões do BC já foram mais ambiciosas. Mesmo que o IPCA do ano passado fosse de 5,5%, por exemplo, pouco haveria para comemorar, porque pelo, quarto ano consecutivo, o governo não consegue atingir a meta de 4,5% para a inflação. Em vez disso, ele se vale da margem de tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo, a fim de trombetear que está “dentro da meta”. Sim, mas o que deve ser perseguido é o centro dela. Não se menosprezem os efeitos negativos de um processo de inflação como este sobre investimentos e a renda das famílias, principalmente as mais pobres, os quais qualquer inquilino do Planalto diz defender. A elevação constante dos preços, aos níveis atuais, é inimiga feroz da justiça social.
O cenário da inflação aumenta a responsabilidade do BC, cuja missão legal é defender o poder aquisitivo da moeda, elementar para o crescimento sustentado. A inflação rondar os 6% é mais ainda perigoso num país com mecanismos de indexação e memória inflacionária. Empresas formadoras de preços projetam seus fluxos de caixa considerando remarcações neste nível. E assim tudo se perpetua até que um dia será necessário um choque fiscal e monetário, para evitar o pior.
Os 5,91% são mais preocupantes porque só foram atingidos devido à contenção artificial de tarifas públicas. Isso fez o índice dos preços administrados pelo poder público — combustíveis, tarifas de ônibus, conta de luz, etc — subir em 2013 apenas 1,5%, contra 8,75% dos serviços, que oscilam livremente. Se não fosse a mão oficial, a inflação teria ultrapassado o limite superior da meta.
As informações sobre as quais se debruçarão os diretores do BC, reunidos no Copom, hoje e amanhã, não são animadoras. A margem para manter algumas tarifas congeladas se esgotou. Além disso, por enquanto, além de palavrório nada há de concreto, da parte do governo, para conter o crescimento dos gastos de custeio, combustível que alimenta a pressão sobre a inflação. E há, ainda, as pressões decorrentes das desvalorizações cambiais. Existem avanços no front dos investimentos, com as licitações, mas, como há o evidente interesse eleitoral de Palácio em que o mercado de trabalho continue aquecido e os salários em alta, mesmo acima dos ganhos da produtividade, a guerra fiscal parece perdida pelo BC.
Prevê-se que, nesta semana, o Copom faça a sétima elevação consecutiva da Selic, já de volta aos dois dígitos, em 10%. A dificuldade está em decifrar o quanto de liberalidades fiscais o Planalto está disposto a fazer para ganhar as eleições, mesmo com um quadro pouco alvissareiro nos preços.
A margem de manobra para manter tarifas congeladas se esgotou e é óbvio o interesse eleitoral do Planalto em manter o mercado de trabalho aquecido
O Conselho de Política Monetária (Copom), do Banco Central, se reúne esta semana para decidir o que fazer com os juros básicos (Selic), logo depois de se saber que 2013 fechou com uma inflação de 5,91%, pouco acima do que era considerada a “meta informal” do banco, os 5,84% de 2012. Se o índice ficasse abaixo da inflação de 2012, seria comemorado como um êxito em Brasília.
Convenhamos que as pretensões do BC já foram mais ambiciosas. Mesmo que o IPCA do ano passado fosse de 5,5%, por exemplo, pouco haveria para comemorar, porque pelo, quarto ano consecutivo, o governo não consegue atingir a meta de 4,5% para a inflação. Em vez disso, ele se vale da margem de tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo, a fim de trombetear que está “dentro da meta”. Sim, mas o que deve ser perseguido é o centro dela. Não se menosprezem os efeitos negativos de um processo de inflação como este sobre investimentos e a renda das famílias, principalmente as mais pobres, os quais qualquer inquilino do Planalto diz defender. A elevação constante dos preços, aos níveis atuais, é inimiga feroz da justiça social.
O cenário da inflação aumenta a responsabilidade do BC, cuja missão legal é defender o poder aquisitivo da moeda, elementar para o crescimento sustentado. A inflação rondar os 6% é mais ainda perigoso num país com mecanismos de indexação e memória inflacionária. Empresas formadoras de preços projetam seus fluxos de caixa considerando remarcações neste nível. E assim tudo se perpetua até que um dia será necessário um choque fiscal e monetário, para evitar o pior.
Os 5,91% são mais preocupantes porque só foram atingidos devido à contenção artificial de tarifas públicas. Isso fez o índice dos preços administrados pelo poder público — combustíveis, tarifas de ônibus, conta de luz, etc — subir em 2013 apenas 1,5%, contra 8,75% dos serviços, que oscilam livremente. Se não fosse a mão oficial, a inflação teria ultrapassado o limite superior da meta.
As informações sobre as quais se debruçarão os diretores do BC, reunidos no Copom, hoje e amanhã, não são animadoras. A margem para manter algumas tarifas congeladas se esgotou. Além disso, por enquanto, além de palavrório nada há de concreto, da parte do governo, para conter o crescimento dos gastos de custeio, combustível que alimenta a pressão sobre a inflação. E há, ainda, as pressões decorrentes das desvalorizações cambiais. Existem avanços no front dos investimentos, com as licitações, mas, como há o evidente interesse eleitoral de Palácio em que o mercado de trabalho continue aquecido e os salários em alta, mesmo acima dos ganhos da produtividade, a guerra fiscal parece perdida pelo BC.
Prevê-se que, nesta semana, o Copom faça a sétima elevação consecutiva da Selic, já de volta aos dois dígitos, em 10%. A dificuldade está em decifrar o quanto de liberalidades fiscais o Planalto está disposto a fazer para ganhar as eleições, mesmo com um quadro pouco alvissareiro nos preços.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Foi uma manobra irresponsável e abominável”
Deputado Rubens Bueno (PR), líder do PPS, sobre a tunga em poupadores da Caixa
PT DE MG E DE SP BRIGAM PELO MINISTÉRIO NA SAÚDE
Candidato do PT ao governo de São Paulo, o ministro da Alexandre Padilha (Saúde), disputa poder com o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) postulante petista ao governo de Minas Gerais, a quem são atribuídas articulações para fazer do mineiro Helvécio Magalhães o futuro ministro da Saúde. Padilha quer no cargo seu auxiliar Mozart Sales, responsável pelo Programa Mais Médicos.
A FORÇA DE CADA UM
A força de Padilha está na sua ligação a Lula, que inventou sua candidatura. A força de Pimentel vem da presidente Dilma, sua amiga.
MENINA DOS OLHOS
Além de ter um dos maiores orçamentos do governo, o Ministério da Saúde ganhou força após a criação do Programa Mais Médicos.
CONVENIENTE
Dilma apressou-se em definir a reforma ministerial com o vice Michel Temer, para ajudar a ofuscar o escândalo do “lucro” maroto da Caixa.
NÃO DÁ IDEIA
Sugestão ontem no Twitter, com invasões de shoppings em São Paulo por adolescentes à toa: que tal um “rolezinho” na Câmara e Senado?.
MPF VAI INVESTIGAR CRIME FINANCEIRO NA CAIXA
O Ministério Público Federal decidiu apurar a apropriação indébita de R$ 719 milhões de pequenos poupadores pela Caixa Econômica Federal, para engordar artificialmente seu lucro. A instituição admite que “errou” ao aceitar 527 mil correntistas com dados supostamente “irregulares”, como se fosse possível no Brasil abrir conta em banco com documentos falsos. A Caixa prejudicou aqueles que “esquecem” suas economias depositadas na poupança, esperando vê-las crescer.
AÇÃO CRIMINOSA
“É um clássico exemplo de apropriação indébita. Não existe usucapião de dinheiro”, explicou o advogado Luiz Fernando Pereira.
SEM ENTENDER
A Caixa não consegue explicar como abriu 800 mil contas sem CPF existente, como agora alega para justificar a apropriação do dinheiro.
DIZ QUE MORRI
Suspeito de aprovar as manobras para fabricar um lucro para a Caixa maior que o real, o falante Guido Mantega (Fazenda) se finge de morto.
ROTA DE COLISÃO
Apesar de participar do governo Dilma, o PP terá dificuldades para apoiar sua reeleição. Os principais diretórios do partido estão fechados com Aécio Neves (PSDB): Minas, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
CHATA DE GALOCHA
Diplomatas franceses em Brasília entenderam a traição do presidente François Hollande, apaixonado pela doce atriz Julie Gayet. Sua mulher, jornalista Valerie Trierweiler, faz questão de ser ríspida e desagradável 24 horas por dia, como demonstrou durante a visita a Brasília, há um mês.
DUAS MEDIDAS
No Maranhão, cresce revolta com o secretário Ricardo Murad (Saúde), que contratou UTI aérea por R$ 83,7 mil para levar um cunhado
a São Paulo. Já Ana Clara, de 6 anos, queimada viva em um ônibus...
PREOCUPAÇÃO
Admiradores do FHC ficaram preocupados com sua saúde, ao vê-lo subindo com enorme dificuldade a escada de acesso ao restaurante do Hotel Kenoa, na praia da Barra de São Miguel, a 20km de Maceió.
PAÍS RICO
O Brasil terá que pagar bem mais que € 25 milhões até 2019 para permanecer na embaixada em Berlim: o dono não aceitou a proposta e abriu o prédio à visitação de hoteleiros. O aluguel é € 180 mil mensais.
OPORTUNISMO
José Genoino (PT) ganhou entre salários (R$ 27.600) e outros ganhos um total médio de R$ 52 mil mensais, em valores atuais, enquanto foi deputado federal por 25 anos. Mas ainda conta a lorota de ser “pobre” e não poder pagar a multa imposta pelo Supremo Tribunal Federal.
O NOME DO JOGO
Tem nome e sobrenome a crise de abastecimento no Rio, em plena canícula: a estatal Cedae recuou com o vazamento do plano, mas a diretoria responsável pela água está com a privatização pronta.
NÃO FALTA OPÇÃO
O líder do PTB, Jovair Arantes (GO), lista os “ministeriáveis” do seu partido: “Benito Gama pode ir para a Integração, Nelson Marquezelli é craque da Agricultura, e tem o Alex Canziani”.
PENSANDO BEM...
...a política econômica respira por aparelhos importados... da China.
PODER SEM PUDOR
CARDÁPIO DE ASSESSOR
Apreciador de uísque, como bom nordestino, Miguel Arraes era cuidadoso com o que comia. Numa viagem a Escada (PE), na Zona da Mata, "Doutor Arraes" foi levado ao restaurante A Pituzada, famoso pelo prato do crustáceo de água doce. A mesa já estava posta quando apareceu o assessor Sileno Guedes, atrasado. Diligente, checou os pedidos e gritou para o garçom:
- Quem foi o doente que pediu um bife grelhado?!
- Foi o Doutor Arraes.
- Então traz dois! - sacramentou Guedes, rápido no gatilho.
Deputado Rubens Bueno (PR), líder do PPS, sobre a tunga em poupadores da Caixa
PT DE MG E DE SP BRIGAM PELO MINISTÉRIO NA SAÚDE
Candidato do PT ao governo de São Paulo, o ministro da Alexandre Padilha (Saúde), disputa poder com o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) postulante petista ao governo de Minas Gerais, a quem são atribuídas articulações para fazer do mineiro Helvécio Magalhães o futuro ministro da Saúde. Padilha quer no cargo seu auxiliar Mozart Sales, responsável pelo Programa Mais Médicos.
A FORÇA DE CADA UM
A força de Padilha está na sua ligação a Lula, que inventou sua candidatura. A força de Pimentel vem da presidente Dilma, sua amiga.
MENINA DOS OLHOS
Além de ter um dos maiores orçamentos do governo, o Ministério da Saúde ganhou força após a criação do Programa Mais Médicos.
CONVENIENTE
Dilma apressou-se em definir a reforma ministerial com o vice Michel Temer, para ajudar a ofuscar o escândalo do “lucro” maroto da Caixa.
NÃO DÁ IDEIA
Sugestão ontem no Twitter, com invasões de shoppings em São Paulo por adolescentes à toa: que tal um “rolezinho” na Câmara e Senado?.
MPF VAI INVESTIGAR CRIME FINANCEIRO NA CAIXA
O Ministério Público Federal decidiu apurar a apropriação indébita de R$ 719 milhões de pequenos poupadores pela Caixa Econômica Federal, para engordar artificialmente seu lucro. A instituição admite que “errou” ao aceitar 527 mil correntistas com dados supostamente “irregulares”, como se fosse possível no Brasil abrir conta em banco com documentos falsos. A Caixa prejudicou aqueles que “esquecem” suas economias depositadas na poupança, esperando vê-las crescer.
AÇÃO CRIMINOSA
“É um clássico exemplo de apropriação indébita. Não existe usucapião de dinheiro”, explicou o advogado Luiz Fernando Pereira.
SEM ENTENDER
A Caixa não consegue explicar como abriu 800 mil contas sem CPF existente, como agora alega para justificar a apropriação do dinheiro.
DIZ QUE MORRI
Suspeito de aprovar as manobras para fabricar um lucro para a Caixa maior que o real, o falante Guido Mantega (Fazenda) se finge de morto.
ROTA DE COLISÃO
Apesar de participar do governo Dilma, o PP terá dificuldades para apoiar sua reeleição. Os principais diretórios do partido estão fechados com Aécio Neves (PSDB): Minas, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
CHATA DE GALOCHA
Diplomatas franceses em Brasília entenderam a traição do presidente François Hollande, apaixonado pela doce atriz Julie Gayet. Sua mulher, jornalista Valerie Trierweiler, faz questão de ser ríspida e desagradável 24 horas por dia, como demonstrou durante a visita a Brasília, há um mês.
DUAS MEDIDAS
No Maranhão, cresce revolta com o secretário Ricardo Murad (Saúde), que contratou UTI aérea por R$ 83,7 mil para levar um cunhado
a São Paulo. Já Ana Clara, de 6 anos, queimada viva em um ônibus...
PREOCUPAÇÃO
Admiradores do FHC ficaram preocupados com sua saúde, ao vê-lo subindo com enorme dificuldade a escada de acesso ao restaurante do Hotel Kenoa, na praia da Barra de São Miguel, a 20km de Maceió.
PAÍS RICO
O Brasil terá que pagar bem mais que € 25 milhões até 2019 para permanecer na embaixada em Berlim: o dono não aceitou a proposta e abriu o prédio à visitação de hoteleiros. O aluguel é € 180 mil mensais.
OPORTUNISMO
José Genoino (PT) ganhou entre salários (R$ 27.600) e outros ganhos um total médio de R$ 52 mil mensais, em valores atuais, enquanto foi deputado federal por 25 anos. Mas ainda conta a lorota de ser “pobre” e não poder pagar a multa imposta pelo Supremo Tribunal Federal.
O NOME DO JOGO
Tem nome e sobrenome a crise de abastecimento no Rio, em plena canícula: a estatal Cedae recuou com o vazamento do plano, mas a diretoria responsável pela água está com a privatização pronta.
NÃO FALTA OPÇÃO
O líder do PTB, Jovair Arantes (GO), lista os “ministeriáveis” do seu partido: “Benito Gama pode ir para a Integração, Nelson Marquezelli é craque da Agricultura, e tem o Alex Canziani”.
PENSANDO BEM...
...a política econômica respira por aparelhos importados... da China.
PODER SEM PUDOR
CARDÁPIO DE ASSESSOR
Apreciador de uísque, como bom nordestino, Miguel Arraes era cuidadoso com o que comia. Numa viagem a Escada (PE), na Zona da Mata, "Doutor Arraes" foi levado ao restaurante A Pituzada, famoso pelo prato do crustáceo de água doce. A mesa já estava posta quando apareceu o assessor Sileno Guedes, atrasado. Diligente, checou os pedidos e gritou para o garçom:
- Quem foi o doente que pediu um bife grelhado?!
- Foi o Doutor Arraes.
- Então traz dois! - sacramentou Guedes, rápido no gatilho.
TERÇA NOS JORNAIS
O Globo: Só 2% dos prédios no Rio fizeram autovistoria
Folha de SP: Em 5 ataques, 12 homens são mortos em Campinas
O Estado de S. Paulo: Indústria fecha 2013 com déficit externo recorde
Correio Braziliense: Polícia do DF monitora rolezinho em shopping
Estado de Minas: Atenção, senhores passageiros - Ladrões à solta em Confins
Jornal do Commercio: FGTS perde da inflação
Zero Hora: Contas refeitas: Poupança fica menos atraente com juro alto
Brasil Econômico: Estiagem seca cofres de cidades geradoras de energia
segunda-feira, janeiro 13, 2014
Covardia chique - LUIZ FELIPE PONDÉ
FOLHA DE SP - 13/01
Para Smith, o homem moderno poderia vir a ser um covarde viciado em seus pequenos luxos
Sabemos todos das críticas comuns ao capitalismo. Injustiça social, viramos mercadoria. Sonhamos com um mundo no qual todos terão praia sem trânsito, com areia e água igual para todos. Mulheres e homens se amariam sem ciúmes e também amariam outros animais e plantas de forma igualitária e com respeito. Um mundo no qual todos viveriam numa mistura de Islândia e França, com clima italiano.
Vulcões não engoliriam civilizações, tsunamis não invadiriam a terra, jacarés respeitariam os direitos humanos. Mulheres não desejariam mais de um vestido, homens não teriam medo da impotência. Todos integrados num sistema autorregulativo de paz e amor. Críticas de uma mente infantil.
A melhor crítica à sociedade de mercado foi feita por seu maior defensor, Adam Smith (século 18). Tradutor de Rousseau, Smith discutiu com ele a corrupção do caráter causada pelo sociedade comercial.
Rousseau entendia que a corrupção era política e seria resolvida com remédios políticos: revolução, destruição da cultura e técnica, frutos do mundo baseado em trocas comerciais, uma nova pedagogia que deixasse a harmonia e beleza da natureza humana inata se manifestar de novo na sua integração com a harmonia e beleza da natureza a nossa volta. E, assim sendo, de novo, voltaríamos ao mundo no qual o homem acordaria, caçaria de manhã, almoçaria ao meio-dia, escreveria um livro à noite, sem um tsunami ou inveja sequer.
Para Smith, a corrupção é moral, e não política. Interessante ver como aquele para quem a sociedade comercial era um trunfo humano a ser preservado, será o mesmo homem para quem o risco dessa mesma sociedade será muito mais difícil de curar do que para nosso filósofo da vaidade, Rousseau.
Smith temia que a sociedade de mercado causasse um enfraquecimento das virtudes heroicas. A perda dessas virtudes (coragem, disciplina e força), causada por uma vida baseada na produção de riquezas materiais e consequente riqueza de bens imateriais (hoje materializados em leis luxuosas sobre direitos, desejos e liberdades numa sociedade baseada em escolhas individuais contra sociedades que esmagam esta escolha sob a bota de modelos coletivistas tradicionais, religiosos ou marxistas), apareceria na covardia generalizada e no vício do bem-estar, material e imaterial.
Se a URSS tivesse ganho a Guerra Fria, seriamos todos pobres e ninguém teria esses luxos materiais e imateriais. O capitalismo deixou todo mundo frouxo.
Logo, o enriquecimento produz homens e mulheres covardes em larga escala porque produz demandas de luxo generalizado.
Para Smith, o homem moderno poderia vir a ser um covarde viciado em seus pequenos luxos. No entendimento do nosso iluminista escocês (o iluminismo britânico é infinitamente mais sofisticado do que o francês, o único ensinado no Brasil tacanho de nosso dia a dia), somos capazes de benevolência e empatia (ou simpatia), e buscamos uma certa imparcialidade em nossos julgamentos morais por percebermos como ela é importante para o convívio racional.
Entretanto, a virtude heroica da sociedade de mercado, pensava ele, era a autonomia, não a pura kantiana, mas a capacidade de assumirmos nossas decisões morais na vida alimentada por nosso desejo de sermos donos de nossa vida material, na medida do possível.
Ele bem sabia o quão duro é ser assim. Sempre foi. Mas a corrupção do caráter, baseada nos ganhos materiais e imateriais do bem-estar, nos tornaria uns frouxos. E isso aconteceu. E esta frouxidão se materializa numa demanda interminável de facilitação da própria vida.
Logo, vamos exigir a abolição do trabalho como direito. Ganhar a vida com o suor do rosto sem garantia de retribuição será considerado contra os direitos humanos.
O novo crescimento do socialismo rosa-choque, inclusive em lideres como Obama, é fruto dessa corrupção. Smith previu as bases para o surgimento do pensamento de Marx e Gramsci: a corrosão do caráter causada pelo enriquecimento das sociedades e suas demandas de supressão das condições reais da vida como dor, luta e trabalho sem garantias.
Para Smith, o homem moderno poderia vir a ser um covarde viciado em seus pequenos luxos
Sabemos todos das críticas comuns ao capitalismo. Injustiça social, viramos mercadoria. Sonhamos com um mundo no qual todos terão praia sem trânsito, com areia e água igual para todos. Mulheres e homens se amariam sem ciúmes e também amariam outros animais e plantas de forma igualitária e com respeito. Um mundo no qual todos viveriam numa mistura de Islândia e França, com clima italiano.
Vulcões não engoliriam civilizações, tsunamis não invadiriam a terra, jacarés respeitariam os direitos humanos. Mulheres não desejariam mais de um vestido, homens não teriam medo da impotência. Todos integrados num sistema autorregulativo de paz e amor. Críticas de uma mente infantil.
A melhor crítica à sociedade de mercado foi feita por seu maior defensor, Adam Smith (século 18). Tradutor de Rousseau, Smith discutiu com ele a corrupção do caráter causada pelo sociedade comercial.
Rousseau entendia que a corrupção era política e seria resolvida com remédios políticos: revolução, destruição da cultura e técnica, frutos do mundo baseado em trocas comerciais, uma nova pedagogia que deixasse a harmonia e beleza da natureza humana inata se manifestar de novo na sua integração com a harmonia e beleza da natureza a nossa volta. E, assim sendo, de novo, voltaríamos ao mundo no qual o homem acordaria, caçaria de manhã, almoçaria ao meio-dia, escreveria um livro à noite, sem um tsunami ou inveja sequer.
Para Smith, a corrupção é moral, e não política. Interessante ver como aquele para quem a sociedade comercial era um trunfo humano a ser preservado, será o mesmo homem para quem o risco dessa mesma sociedade será muito mais difícil de curar do que para nosso filósofo da vaidade, Rousseau.
Smith temia que a sociedade de mercado causasse um enfraquecimento das virtudes heroicas. A perda dessas virtudes (coragem, disciplina e força), causada por uma vida baseada na produção de riquezas materiais e consequente riqueza de bens imateriais (hoje materializados em leis luxuosas sobre direitos, desejos e liberdades numa sociedade baseada em escolhas individuais contra sociedades que esmagam esta escolha sob a bota de modelos coletivistas tradicionais, religiosos ou marxistas), apareceria na covardia generalizada e no vício do bem-estar, material e imaterial.
Se a URSS tivesse ganho a Guerra Fria, seriamos todos pobres e ninguém teria esses luxos materiais e imateriais. O capitalismo deixou todo mundo frouxo.
Logo, o enriquecimento produz homens e mulheres covardes em larga escala porque produz demandas de luxo generalizado.
Para Smith, o homem moderno poderia vir a ser um covarde viciado em seus pequenos luxos. No entendimento do nosso iluminista escocês (o iluminismo britânico é infinitamente mais sofisticado do que o francês, o único ensinado no Brasil tacanho de nosso dia a dia), somos capazes de benevolência e empatia (ou simpatia), e buscamos uma certa imparcialidade em nossos julgamentos morais por percebermos como ela é importante para o convívio racional.
Entretanto, a virtude heroica da sociedade de mercado, pensava ele, era a autonomia, não a pura kantiana, mas a capacidade de assumirmos nossas decisões morais na vida alimentada por nosso desejo de sermos donos de nossa vida material, na medida do possível.
Ele bem sabia o quão duro é ser assim. Sempre foi. Mas a corrupção do caráter, baseada nos ganhos materiais e imateriais do bem-estar, nos tornaria uns frouxos. E isso aconteceu. E esta frouxidão se materializa numa demanda interminável de facilitação da própria vida.
Logo, vamos exigir a abolição do trabalho como direito. Ganhar a vida com o suor do rosto sem garantia de retribuição será considerado contra os direitos humanos.
O novo crescimento do socialismo rosa-choque, inclusive em lideres como Obama, é fruto dessa corrupção. Smith previu as bases para o surgimento do pensamento de Marx e Gramsci: a corrosão do caráter causada pelo enriquecimento das sociedades e suas demandas de supressão das condições reais da vida como dor, luta e trabalho sem garantias.
O que é sucesso? - WANDA CAMARGO
GAZETA DO POVO - PR - 13/01
Nossas prioridades nos definem. A maioria de nós escolhe, humanamente, perseguir conforto, segurança, reconhecimento, até mesmo a fatuidade dos “símbolos de status”. Uns poucos, santos, demônios e artistas, preferem a eternidade – não têm a possibilidade de não preferi-la. A visão estética, política, de ideias ou de revolução os domina e leva a fazer grandes coisas, coisas terríveis, coisas medíocres, coisas geniais, sempre verdadeiras, ainda que nem sempre belas ou morais. O que de melhor e pior a humanidade já realizou foi por iniciativa dessas pessoas, que geralmente são indiferentes à riqueza, algo muito importante para os comuns mortais.
Já entre as pessoas que valorizam e obtêm sucesso material há as que nunca se sentem verdadeiramente seguras de sua sorte. Precisam de autoafirmação permanente, têm atitude ostensiva e arrogante, usam roupas e acessórios que custam muitas vezes mais do que realmente valem (mas trazem os sinais de seu preço à mostra), frequentam apenas “áreas vip”, gostam de champanhes caros servidos com fogos de artifício e de outras puerilidades. Parece que conseguem alguma ressonância, pois há entre muitos um sentimento difuso de que são realmente merecedores de deferência e inveja.
Ganha com isso repercussão o debate acerca do desinteresse pelos bens materiais representar na verdade uma espécie de fuga da sua busca. Qual seria o limite entre o direito individual a uma vida franciscana, de desapego, e o direito dos familiares e dependentes quando ainda não puderem prover o próprio sustento? Temos tendência a duvidar que essa desambição possa ser verdadeira – é quase como se acusássemos aquele que opta por ela de egoísmo ou infantilidade, por não dar maior importância àquilo que é fundamental na concepção da maioria. Mas possivelmente seja real – e uma das melhores coisas da vida.
Somos socialmente educados para valorizar apenas os símbolos fáceis de sucesso. Porém, este tem muitas vertentes, muitos significados, há infindas formas de tê-lo e, na maior parte delas, não estará ligado apenas à posse de bens materiais.
Tem-se valorizado muito pouco as conquistas intelectuais. Já quase não se admiram as pessoas por sua cultura e gentileza. Os heróis da ficção não são exatamente bons exemplos – são muitos os demagogos com belos discursos e escassas realizações.
Sem ter como referência um comportamento mais solidário, o desejo de desenvolvimento intelectual e uma boa reflexão sobre os valores sociais vigentes, até mesmo alguns que deveriam ser mais bem pensados antes de serem aceitos, será difícil mostrar aos jovens o verdadeiro valor da educação, embora seja possível e cada vez mais necessário.
Nossas prioridades nos definem. A maioria de nós escolhe, humanamente, perseguir conforto, segurança, reconhecimento, até mesmo a fatuidade dos “símbolos de status”. Uns poucos, santos, demônios e artistas, preferem a eternidade – não têm a possibilidade de não preferi-la. A visão estética, política, de ideias ou de revolução os domina e leva a fazer grandes coisas, coisas terríveis, coisas medíocres, coisas geniais, sempre verdadeiras, ainda que nem sempre belas ou morais. O que de melhor e pior a humanidade já realizou foi por iniciativa dessas pessoas, que geralmente são indiferentes à riqueza, algo muito importante para os comuns mortais.
Já entre as pessoas que valorizam e obtêm sucesso material há as que nunca se sentem verdadeiramente seguras de sua sorte. Precisam de autoafirmação permanente, têm atitude ostensiva e arrogante, usam roupas e acessórios que custam muitas vezes mais do que realmente valem (mas trazem os sinais de seu preço à mostra), frequentam apenas “áreas vip”, gostam de champanhes caros servidos com fogos de artifício e de outras puerilidades. Parece que conseguem alguma ressonância, pois há entre muitos um sentimento difuso de que são realmente merecedores de deferência e inveja.
Ganha com isso repercussão o debate acerca do desinteresse pelos bens materiais representar na verdade uma espécie de fuga da sua busca. Qual seria o limite entre o direito individual a uma vida franciscana, de desapego, e o direito dos familiares e dependentes quando ainda não puderem prover o próprio sustento? Temos tendência a duvidar que essa desambição possa ser verdadeira – é quase como se acusássemos aquele que opta por ela de egoísmo ou infantilidade, por não dar maior importância àquilo que é fundamental na concepção da maioria. Mas possivelmente seja real – e uma das melhores coisas da vida.
Somos socialmente educados para valorizar apenas os símbolos fáceis de sucesso. Porém, este tem muitas vertentes, muitos significados, há infindas formas de tê-lo e, na maior parte delas, não estará ligado apenas à posse de bens materiais.
Tem-se valorizado muito pouco as conquistas intelectuais. Já quase não se admiram as pessoas por sua cultura e gentileza. Os heróis da ficção não são exatamente bons exemplos – são muitos os demagogos com belos discursos e escassas realizações.
Sem ter como referência um comportamento mais solidário, o desejo de desenvolvimento intelectual e uma boa reflexão sobre os valores sociais vigentes, até mesmo alguns que deveriam ser mais bem pensados antes de serem aceitos, será difícil mostrar aos jovens o verdadeiro valor da educação, embora seja possível e cada vez mais necessário.
Com todo o respeito - RUY CASTRO
FOLHA DE SP - 13/01
RIO DE JANEIRO - Há três semanas, 8.000 mulheres confirmaram pelo Facebook sua presença num "toplessaço" em Ipanema, pela liberdade de ir à praia sem a parte de cima do biquíni --"como é normal na França e em Portugal", disse uma delas. A mídia mandou 200 jornalistas para o Posto 9 --seria a maior exposição de seios no Brasil desde 1500. Mas apenas três ou quatro ativistas compareceram e tiraram o sutiã.
Uma coisa é ostentar ousadias por um veículo ectoplásmico. Outra é desafiar ao vivo os próprios limites. E talvez o fiasco do evento não se deva ao conservadorismo da sociedade, como se disse, mas a alguma censura interna das próprias mulheres.
Afinal, este é o país cujas praias são um festival de glúteos sem paralelo no mundo --em todos os sentidos. Em nenhum outro os biquínis são fabricados para expor tanto as nádegas. Meninas, adolescentes, jovens adultas, mães de família e até avós os usam, sem provocar qualquer comoção. Tanto que o comentário da eterna vedete Carmen Verônica, "No meu tempo enfiava-se a bunda na calcinha; hoje, enfia-se a calcinha na bunda", foi só técnico, sem conotação moral.
Não se veem calcinhas tão micro nas praias de outros países --a mulher europeia mostra os seios com naturalidade, mas é recatada do cóccix para baixo. As próprias sungas masculinas brasileiras, de tão mínimas, são consideradas "inadequadas" na Califórnia e na Flórida. Então ficamos assim: alguns países não querem ver seios na praia; outros, não querem ver bundas.
Se os seios fossem uma parte tão inocente da anatomia, o grupo feminista internacional Femen não os usaria como arma política e de guerrilha, expondo-os de forma agressiva e antierótica. Como quem diz aos homens: "Estes vocês não vão ter, seus machistas!". Pena, porque algumas daquelas moças são --com todo o respeito-- uns chuchus.
RIO DE JANEIRO - Há três semanas, 8.000 mulheres confirmaram pelo Facebook sua presença num "toplessaço" em Ipanema, pela liberdade de ir à praia sem a parte de cima do biquíni --"como é normal na França e em Portugal", disse uma delas. A mídia mandou 200 jornalistas para o Posto 9 --seria a maior exposição de seios no Brasil desde 1500. Mas apenas três ou quatro ativistas compareceram e tiraram o sutiã.
Uma coisa é ostentar ousadias por um veículo ectoplásmico. Outra é desafiar ao vivo os próprios limites. E talvez o fiasco do evento não se deva ao conservadorismo da sociedade, como se disse, mas a alguma censura interna das próprias mulheres.
Afinal, este é o país cujas praias são um festival de glúteos sem paralelo no mundo --em todos os sentidos. Em nenhum outro os biquínis são fabricados para expor tanto as nádegas. Meninas, adolescentes, jovens adultas, mães de família e até avós os usam, sem provocar qualquer comoção. Tanto que o comentário da eterna vedete Carmen Verônica, "No meu tempo enfiava-se a bunda na calcinha; hoje, enfia-se a calcinha na bunda", foi só técnico, sem conotação moral.
Não se veem calcinhas tão micro nas praias de outros países --a mulher europeia mostra os seios com naturalidade, mas é recatada do cóccix para baixo. As próprias sungas masculinas brasileiras, de tão mínimas, são consideradas "inadequadas" na Califórnia e na Flórida. Então ficamos assim: alguns países não querem ver seios na praia; outros, não querem ver bundas.
Se os seios fossem uma parte tão inocente da anatomia, o grupo feminista internacional Femen não os usaria como arma política e de guerrilha, expondo-os de forma agressiva e antierótica. Como quem diz aos homens: "Estes vocês não vão ter, seus machistas!". Pena, porque algumas daquelas moças são --com todo o respeito-- uns chuchus.
Assinar:
Postagens (Atom)