FOLHA DE SP - 30/12
Empresa de auditoria abrirá unidades no interior do país no próximo ano
A empresa de auditoria e consultoria PwC (PricewaterhouseCoopers) pretende abrir dois ou três escritórios no país em 2014.
As inaugurações fazem parte do projeto de interiorização da companhia. Neste ano, foram instaladas unidades em Maringá (PR) e Goiânia.
Cidades das regiões Centro-Oeste, Sul e Nordeste estão em análise, segundo Fernando Alves, presidente da PwC.
"O município tem de ter uma base [de negócios] forte, caso contrário, podemos atuar remotamente", diz.
A PwC no Brasil fechou 2013 com 18 escritórios e cerca de 5.500 funcionários --1.400 a mais que em 2012.
Em 2014, o quadro de colaboradores deve ter nova expansão com a incorporação de dez sócios da Booz & Company, empresa que se fundiu com a PwC neste ano.
"Com a união, vamos melhorar nossa estrutura e ampliar a atuação em planejamento estratégico", diz Alves, sem comentar alterações que poderão ocorrer. Hoje, a companhia é mais forte na área operacional.
O segmento de auditoria, por sua vez, é responsável por 40% do faturamento. Esse ramo poderá ter seu crescimento acelerado com a entrada de novas empresas na Bolsa.
"Há indicativos de que 2014 poderá ser melhor em IPOs [oferta inicial de ações, na sigla em inglês]", diz.
"O Brasil tem mais de 6 milhões de empresas, nem 500 estão na CVM [Comissão de Valores Mobiliários]. Há um grande caminho a percorrer."
ANTES DA TOPADA
Com o cenário de grande incerteza na economia, um ano de eleições pela frente e mudanças no cenário americano, a McKinsey viu crescer nas empresas no Brasil a busca por aumento de produtividade e redução de custos.
"Por precaução, como se diz no sul de Minas, o pessoal está enfaixando o pé antes da topada", diz Vicente Assis, diretor da firma no país.
"Continuamos com trabalhos de estratégia, de crescimento, mas há a preocupação de estar mais preparado."
Há três anos, afirma, uma minoria dos trabalhos da consultoria eram focados em aumento de eficiência.
"Hoje representam cerca de 30%, com perspectiva de crescer." Os sócios, porém, seguem otimistas para 2014, diz. Ainda mais depois de um ano "espetacular para firma" --embora não tão bom quanto o anterior, reconhece.
"Em 2011 e 2012, o escritório do país foi um dos melhores do mundo." Entre os setores de maior demanda, destaca os de infraestrutura e saúde, além dos governos, que contrataram consultorias.
INJEÇÃO REFORÇADA
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, liberou na sexta-feira passada R$ 86,2 milhões para a aquisição de equipamentos para 142 novas UPAs (Unidades de Pronto-Atendimento).
Os recursos serão distribuídas em 137 municípios de 24 Estados. As unidades beneficiadas estão em fase final de construção, segundo a pasta.
Cada uma delas deverá receber entre R$ 600 mil e R$ 1 milhão, conforme a capacidade de atendimento.
As maiores unidades conseguem atender até 9.000 pessoas em um mês, conforme estimativa do ministério.
O número de UPAs em funcionamento no país aumentou 140% entre 2010 e 2013, ao completar 296 unidades.
Nesse período, o investimento federal alocado na construção e na ampliação de UPAs ultrapassou R$ 1 bilhão.
Para 2014, está prevista a construção de 20 UPAs apenas na cidade de São Paulo. Os recursos para a saúde destinados à capital do Estado subirão de cerca de R$ 21 milhões, previstos para 2013, para R$ 685 milhões.
O QUE EU ESTOU LENDO
Christian Hallot, embaixador da H.Stern
"A História do Mundo em 100 Objetos", de Neil MacGregor (ed. Intrínseca), é o livro que o porta-voz da joalheria H.Stern, Christian Hallot, tem à sua mesa. O embaixador da grife acabou de ler as cinco peças de "Ensaio sobre o Genius, por uma obra nem tão completa", de Rodrigo Moura (edição do autor). "O leitor escolhe o final", diz. "Pode ser diferente do imaginado pelo vizinho e já se sai com algo para falar com ele", ri.
NATAL EM BAIXA
A intenção de consumo entre os paulistanos ficou estável em dezembro, na comparação com o mês anterior, aponta a FecomercioSP.
O indicador permaneceu em 125,3 pontos pelo terceiro mês consecutivo --valores acima de cem significam que a população está satisfeita.
Na comparação com dezembro de 2012, o índice retraiu 11,4%.
Todos os itens analisados apresentaram baixa em relação ao mesmo mês do ano anterior. O acesso ao crédito (-18,4%) e a perspectiva profissional (-10,1%) estão entre as maiores quedas.
segunda-feira, dezembro 30, 2013
Feliz 2014! - PAULO GUEDES
O GLOBO - 30/12
A espécie humana insiste na extraordinária ousadia de rejeitar suas despretensiosas origens. O homem criou narrativas de fuga de sua modesta natureza. Demos fôlego a nossas precárias existências elaborando as primeiras crenças e religiões. Era preciso dar sentido a vidas biologicamente acidentais, fragilíssimas e sobretudo curtas. O encantamento do mundo foi uma exigência de mentes primitivas assombradas pela grandiosidade de um incompreensível universo. Filósofos e teólogos deram significado a vidas efêmeras construindo pontes para mundos transcendentes, habitados por almas eternas. Sopros de esperança e magia alimentando nossa vontade de viver.
"O homem, um curioso acidente ocorrido num canto do universo, é inteligível: sua mistura de virtudes e vícios é aquela que se pode esperar do resultado de uma origem fortuita.
Se me fosse concedida a onipotência e milhões de anos para experimentá-la, não me gabaria de ser o homem o resultado de todos os meus esforços", observa o resoluto ateísta Bertrand Russell. "É curiosa a ideia de que uma proposta cósmica superior esteja especialmente voltada ao nosso pequeno planeta, pois seremos destruídos quando o Sol explodir e se tornar uma estrela anã fria e branca daqui a 1 bilhão de anos", prossegue Russell em suas dúvidas quanto às boas intenções do universo em relação aos humanos. O matemático e filósofo inglês tinha especial afeição por Baruch Spinoza, o farol holandês do iluminismo radical, cuja negação dos milagres e do sobrenatural, anúncio da morte do diabo e denúncia da credulidade das massas deram início ao desencantamento do mundo.
Compreender é um milagre ainda maior que existir. A consciência da transitoriedade de nossas vidas e de sua improvável transcendência torna imperativo realizar nossas possibilidades com ainda maior intensidade. Criamos significados para nossas vidas aperfeiçoando nossos talentos e cooperando com os demais em busca de sonhos comuns. Para Rousseau, a diferença entre o homem e o animal está na faculdade de aperfeiçoamento, de fuga de seus instintos naturais. "A vontade ainda fala quando já se calou a natureza." Que possamos dar mais significados a nossas vidas, aperfeiçoando-nos a cada dia de 2014.
Afinal, temos ainda 1 bilhão de anos pela frente.
"O homem, um curioso acidente ocorrido num canto do universo, é inteligível: sua mistura de virtudes e vícios é aquela que se pode esperar do resultado de uma origem fortuita.
Se me fosse concedida a onipotência e milhões de anos para experimentá-la, não me gabaria de ser o homem o resultado de todos os meus esforços", observa o resoluto ateísta Bertrand Russell. "É curiosa a ideia de que uma proposta cósmica superior esteja especialmente voltada ao nosso pequeno planeta, pois seremos destruídos quando o Sol explodir e se tornar uma estrela anã fria e branca daqui a 1 bilhão de anos", prossegue Russell em suas dúvidas quanto às boas intenções do universo em relação aos humanos. O matemático e filósofo inglês tinha especial afeição por Baruch Spinoza, o farol holandês do iluminismo radical, cuja negação dos milagres e do sobrenatural, anúncio da morte do diabo e denúncia da credulidade das massas deram início ao desencantamento do mundo.
Compreender é um milagre ainda maior que existir. A consciência da transitoriedade de nossas vidas e de sua improvável transcendência torna imperativo realizar nossas possibilidades com ainda maior intensidade. Criamos significados para nossas vidas aperfeiçoando nossos talentos e cooperando com os demais em busca de sonhos comuns. Para Rousseau, a diferença entre o homem e o animal está na faculdade de aperfeiçoamento, de fuga de seus instintos naturais. "A vontade ainda fala quando já se calou a natureza." Que possamos dar mais significados a nossas vidas, aperfeiçoando-nos a cada dia de 2014.
Afinal, temos ainda 1 bilhão de anos pela frente.
Rumo a 2015 - LUÍS EDUARDO ASSIS
O Estado de S.Paulo - 30/12
Com a possível exceção do risco de ouvir a cantora Simone anunciando que então é Natal, uma das coisas mais difíceis no fim de ano é conviver com as previsões que os economistas fazem para o ano que se inicia.
No fim de 2012, os analistas poderiam ter se contentado em prever que o ano acabará amanhã, no que, possivelmente, estarão certos. Não se contiveram e foram além. Em dezembro de 2012, a pesquisa Focus, do Banco Central, projetava um superávit comercial de US$ 15,2 bilhões em 2013. Fecharemos o ano com pouco mais de US$ 1 bilhão de saldo, o mais baixo em 12 anos. A taxa de câmbio era estimada em R$ 2,09, bem menos do que sinaliza o mercado nos últimos dias. A previsão da taxa Selic para o final de 2013 há um ano era de 7,25%. Muito diferente dos 10% que temos hoje. Tomando a previsão do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) que se fez com um ano de antecedência, a variação acumulada desde 2010 deveria estar hoje em 11,5%, quase o dobro dos 6,1% que conseguimos de fato crescer. Num país onde o passado é imprevisível, fazer estimativas é sempre muito perigoso.
Ainda assim, desafiando o bom senso, aqui vai uma previsão: nada de importante acontecerá na economia brasileira em 2014.
O próximo ano será mais do mesmo que aconteceu em 2013. No front externo, o banco central americano já deu sinais de que a alteração da política monetária será prudente e cuidadosa. O pior da crise vai ficando para trás. A região do euro também não promete grandes emoções. O crescimento será pífio, mas o suficiente para afastar rupturas. A China, por sua vez, decidiu mudar seu modelo econômico de forma substancial, mas não abandonará o pragmatismo que evita guinadas e surpresas.
Por aqui, no Brasil, seria de esperar que o governo estivesse disposto a fazer loucuras para assegurar a reeleição no final do ano. Nem isso conseguirá. O fracasso da "nova matriz econômica" foi tão acachapante que o próprio espaço para cometer equívocos ficou reduzido. Uma forte expansão dos gastos públicos em 2014 - sempre uma tentação em ano eleitoral - poderia precipitar um rebaixamento na avaliação de risco das agências internacionais, o que pressionaria o dólar e a inflação, corroendo o poder aquisitivo dos salários e tornando os eleitores menos favoráveis a um segundo mandato. O governo encalacrou-se numa armadilha que combina baixo potencial de crescimento, inflação alta e deterioração das finanças públicas. Não será em 2014 que isso mudará.
Por que chegamos a esse ponto? Três critérios podem ser escolhidos para uma possível taxonomia dos equívocos da política econômica recente. As piores medidas foram aquelas que: 1) refletiram uma concepção inexata daquilo que já se conhece hoje sobre teoria econômica; 2) contrariaram a própria visão que o governo tem sobre o funcionamento dos mercados; e 3) geraram distorções que se acumulam ao longo do tempo.
Neste contexto, os piores deslizes foram a ideia de que a desoneração fiscal induziria um aumento nos investimentos (uma descabida versão tropical do liberalismo do governo Reagan), o descaso com os investimentos de infraestrutura (que poderia ser esperado apenas de um governo que acreditasse que o mercado resolve tudo) e o represamento dos preços dos combustíveis (que sucateou a mais emblemática das empresas estatais, justo ao contrário do ideário do governo).
São erros dentro do erro, desnecessários e onerosos. Sair dessa situação não será simples e nada de complicado poderá ser feito na economia em 2014. Não há condições sequer para discutir as reformas que conduziriam o País a um ritmo mais acelerado de crescimento, já que temas como desindexação, modernização da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ou reforma da previdência são tabus eleitorais.
Em boa medida, a falta de clareza na definição de prioridades da política econômica reflete a própria insipiência do debate existente na sociedade, que prefere acreditar, enganosamente, que tudo se resolve apenas com o combate à corrupção e a utilização judiciosa do dinheiro público. É muito mais do que isso. Somos pobres ainda e assumimos compromissos de solidariedade social que, embora louváveis, exigem transferências vultosas de recursos e uma carga tributária asfixiante. Nosso caminho é, desta forma, mais sinuoso.
A presidente Dilma Rousseff se confortaria se lesse o último livro do economista John Kay (Obliquity, 2010), articulista do Financial Times. Para ele, as soluções dos problemas podem ser mais facilmente atingidas de forma indireta, da mesma forma que o traçado do Canal do Panamá não privilegiou a rota mais curta entre o Atlântico e o Pacífico ou a arquitetura modernista de Le Corbusier, nas suas palavras, foi incapaz de apreender a complexidade das interações sociais. Pode ser um consolo, mas não é uma solução. No nosso caso, nem sequer temos soluções tortuosas. Não andamos em zigue-zague; andamos em círculos. Nossa opção por alternativas "oblíquas" é muito custosa. Se crescermos, nos próximos 25 anos, à taxa do governo Lula (4% ao ano), chegaremos a 2038 com uma renda per capita, ajustada pelo padrão de preços, acima do nível que têm atualmente Portugal ou Grécia. Se, no entanto, mantivermos neste período o crescimento do governo Dilma (2% ao ano apenas), teremos no final uma renda per capita menor que o patamar atual (!) do México ou da Malásia. Faz toda diferença.
Acelerar as taxas de crescimento é fundamental. O mundo mudou. Se não quisermos ficar para trás, é preciso mudar também. Procrastinar decisões difíceis pode garantir a reeleição em 2014, mas 2015 está à espreita e dele não escaparemos.
No fim do próximo ano, será ainda mais fácil errar as previsões econômicas.
Com a possível exceção do risco de ouvir a cantora Simone anunciando que então é Natal, uma das coisas mais difíceis no fim de ano é conviver com as previsões que os economistas fazem para o ano que se inicia.
No fim de 2012, os analistas poderiam ter se contentado em prever que o ano acabará amanhã, no que, possivelmente, estarão certos. Não se contiveram e foram além. Em dezembro de 2012, a pesquisa Focus, do Banco Central, projetava um superávit comercial de US$ 15,2 bilhões em 2013. Fecharemos o ano com pouco mais de US$ 1 bilhão de saldo, o mais baixo em 12 anos. A taxa de câmbio era estimada em R$ 2,09, bem menos do que sinaliza o mercado nos últimos dias. A previsão da taxa Selic para o final de 2013 há um ano era de 7,25%. Muito diferente dos 10% que temos hoje. Tomando a previsão do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) que se fez com um ano de antecedência, a variação acumulada desde 2010 deveria estar hoje em 11,5%, quase o dobro dos 6,1% que conseguimos de fato crescer. Num país onde o passado é imprevisível, fazer estimativas é sempre muito perigoso.
Ainda assim, desafiando o bom senso, aqui vai uma previsão: nada de importante acontecerá na economia brasileira em 2014.
O próximo ano será mais do mesmo que aconteceu em 2013. No front externo, o banco central americano já deu sinais de que a alteração da política monetária será prudente e cuidadosa. O pior da crise vai ficando para trás. A região do euro também não promete grandes emoções. O crescimento será pífio, mas o suficiente para afastar rupturas. A China, por sua vez, decidiu mudar seu modelo econômico de forma substancial, mas não abandonará o pragmatismo que evita guinadas e surpresas.
Por aqui, no Brasil, seria de esperar que o governo estivesse disposto a fazer loucuras para assegurar a reeleição no final do ano. Nem isso conseguirá. O fracasso da "nova matriz econômica" foi tão acachapante que o próprio espaço para cometer equívocos ficou reduzido. Uma forte expansão dos gastos públicos em 2014 - sempre uma tentação em ano eleitoral - poderia precipitar um rebaixamento na avaliação de risco das agências internacionais, o que pressionaria o dólar e a inflação, corroendo o poder aquisitivo dos salários e tornando os eleitores menos favoráveis a um segundo mandato. O governo encalacrou-se numa armadilha que combina baixo potencial de crescimento, inflação alta e deterioração das finanças públicas. Não será em 2014 que isso mudará.
Por que chegamos a esse ponto? Três critérios podem ser escolhidos para uma possível taxonomia dos equívocos da política econômica recente. As piores medidas foram aquelas que: 1) refletiram uma concepção inexata daquilo que já se conhece hoje sobre teoria econômica; 2) contrariaram a própria visão que o governo tem sobre o funcionamento dos mercados; e 3) geraram distorções que se acumulam ao longo do tempo.
Neste contexto, os piores deslizes foram a ideia de que a desoneração fiscal induziria um aumento nos investimentos (uma descabida versão tropical do liberalismo do governo Reagan), o descaso com os investimentos de infraestrutura (que poderia ser esperado apenas de um governo que acreditasse que o mercado resolve tudo) e o represamento dos preços dos combustíveis (que sucateou a mais emblemática das empresas estatais, justo ao contrário do ideário do governo).
São erros dentro do erro, desnecessários e onerosos. Sair dessa situação não será simples e nada de complicado poderá ser feito na economia em 2014. Não há condições sequer para discutir as reformas que conduziriam o País a um ritmo mais acelerado de crescimento, já que temas como desindexação, modernização da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ou reforma da previdência são tabus eleitorais.
Em boa medida, a falta de clareza na definição de prioridades da política econômica reflete a própria insipiência do debate existente na sociedade, que prefere acreditar, enganosamente, que tudo se resolve apenas com o combate à corrupção e a utilização judiciosa do dinheiro público. É muito mais do que isso. Somos pobres ainda e assumimos compromissos de solidariedade social que, embora louváveis, exigem transferências vultosas de recursos e uma carga tributária asfixiante. Nosso caminho é, desta forma, mais sinuoso.
A presidente Dilma Rousseff se confortaria se lesse o último livro do economista John Kay (Obliquity, 2010), articulista do Financial Times. Para ele, as soluções dos problemas podem ser mais facilmente atingidas de forma indireta, da mesma forma que o traçado do Canal do Panamá não privilegiou a rota mais curta entre o Atlântico e o Pacífico ou a arquitetura modernista de Le Corbusier, nas suas palavras, foi incapaz de apreender a complexidade das interações sociais. Pode ser um consolo, mas não é uma solução. No nosso caso, nem sequer temos soluções tortuosas. Não andamos em zigue-zague; andamos em círculos. Nossa opção por alternativas "oblíquas" é muito custosa. Se crescermos, nos próximos 25 anos, à taxa do governo Lula (4% ao ano), chegaremos a 2038 com uma renda per capita, ajustada pelo padrão de preços, acima do nível que têm atualmente Portugal ou Grécia. Se, no entanto, mantivermos neste período o crescimento do governo Dilma (2% ao ano apenas), teremos no final uma renda per capita menor que o patamar atual (!) do México ou da Malásia. Faz toda diferença.
Acelerar as taxas de crescimento é fundamental. O mundo mudou. Se não quisermos ficar para trás, é preciso mudar também. Procrastinar decisões difíceis pode garantir a reeleição em 2014, mas 2015 está à espreita e dele não escaparemos.
No fim do próximo ano, será ainda mais fácil errar as previsões econômicas.
"Use com moderação" - ALMIR PAZZIANOTTO PINTO
CORREIO BRAZILIENSE - 30/12
A realidade da América do Sul, desde que os países se tornaram independentes de Espanha e Portugal, consiste em ininterruptos projetos de reforma. A estranha obsessão por mudanças tenta ocultar o fracasso de projetos que permanecem no papel, para logo serem esquecidos e abandonados.
Veja-se a declaração da socialista Michelle Bachelet, ao ser reconduzida à Presidência do Chile, no primeiro comício após a vitória: "Finalmente é o momento de fazer mudanças". Finalmente, por quê? Não poderia tê-las levado avante no primeiro mandato? Reencontrou o país estraçalhado? Certamente, não. Afinal, segundo a opinião de viajantes, seria o Chile uma espécie de oásis, dentro de desolador cenário político sul-americano.
A proclamação peca pela ausência de originalidade. Não há candidato, na tumultuada história do continente, que economize promessas de estabilidade econômica, geração de emprego e renda, saúde, educação, transporte, segurança, sem abrir mão das garantias democráticas. Com raras exceções, assumem compromissos irreais de combate à corrupção e juram estar dispostos a lutar pela moralização dos costumes. Poucos, entretanto, têm a coragem de dizer que desenvolvimento é fruto de trabalho pesado e persistente, austeridade nos gastos, equilíbrio das contas públicas, que não haverá progresso se não houver um mínimo de entendimento entre governo, oposição e povo.
Caso singular é o do Uruguai. A única reforma que até agora promoveu o presidente José Mujica consiste na liberação do plantio e da comercialização da maconha. Fazendo fronteira com o Brasil, no Rio Grande do Sul, já antevemos os reflexos que a medida insana trará ao nosso país, que hoje enfrenta o dramático problema da expansão do baseado entre jovens de todas as classes sociais, o crescente consumo de crack, cocaína, heroína e outros produtos proibidos. Vozes já se ouvem entre nós em defesa de idêntica bandeira. Talvez venhamos a ter, em maços de cigarro de maconha, e embalagens de cocaína, a inócua frase "use com moderação", encontrada em latas e garrafas de bebidas alcoólicas.
Voltando as atenções para Argentina, Bolívia, Equador, Venezuela e Colômbia, em décadas de luta contra o narcotráfico, percebemos o perigo que nos circunda, e a necessidade de proteção ao Estado Democrático de Direito, em particular do Poder Judiciário, cuja majestade o PT procura desacreditar após a prisão dos mensaleiros.
É útil o paralelo entre América do Sul e Europa. Enquanto, por aqui, a urgência de medidas corajosas e inovadoras se resolve com promessas, no Velho Continente, crises são combatidas sem o temor da adoção de medidas de austeridade. Experiências acumuladas com guerras, fome, desemprego fizeram com que eleitores e políticos se convencessem da inexistência de medidas simples e rápidas para derrotar desafios que demandam firmeza, integridade e severas punições para transgressores. Acreditamos, como Fernando Pessoa, que "Deus quer e, o homem sonha, a obra nasce".
Com o fim do regime militar, foi devolvida à nação a responsabilidade de sustentar a democracia e resolver problemas de governabilidade e desenvolvimento. Após malogrados esforços para conter os preços, durante os governos de José Sarney e Fernando Collor, havíamos conseguido, com Fernando Henrique Cardoso, aquilo que era tido como impossível: estabilizar a moeda, deter a inflação, preparar a retomada do crescimento. Numerosos obstáculos tiveram que ser superados pela equipe econômica, liderada por Pedro Malan, ministro da Fazenda, para combater o pessimismo e neutralizar opositores e especuladores, beneficiados pelo ambiente anárquico dominante na economia.
Doze anos depois, o país está em marcha a ré. O ministro Mantega fala em crescimento com pernas mancas, para justificar o pífio Produto Interno Bruto (PIB). Esquece-se de que foi o governo quem comprometeu o tripé estabilizador: câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e meta de inflação.
Poucas são as esperanças da oposição em 2014. Sob a dupla PT-CUT, teremos reformas, ou o Brasil se perderá na inconsistência populista dos discursos? Iludir a realidade com promessas demagógicas, acreditar na eficácia mágica das palavras, é típico dos subdesenvolvidos.
Nostri nosmet paenitet. Nós somos o nosso próprio tormento, ensinava o filósofo Terêncio. As provas, nesse sentido, são robustas.
O embuste ideológico - DENIS LERRER ROSENFIELD
O GLOBO - 30/12
O assassinato político tornou-se uma forma ‘corriqueira’ de a esquerda resolver os seus conflitos intestinos
O assassinato político de Jang Song-Thaek, tio e mentor político de Kim Jong-un, Líder Máximo da Coreia do Norte, apesar de grotesco, não deixa de ser algo, digamos, “normal”, dada a característica stalinista deste regime político. Nada muito diferente do que a esquerda totalitária fez na extinta União Soviética, nos hoje amplamente conhecidos Processos de Moscou, que eliminaram a velha guarda bolchevique.
Em outro célebre episódio, Trotsky primeiro foi apagado de uma foto junto a Lênin em uma comemoração revolucionária para, depois, ser “apagado” com uma machadinha na cabeça, no México. Quem perpetrou tal assassinato foi um agente de Stálin, Ramón Mercader, que acabou placidamente os seus dias, em Cuba, com todos os privilégios da nomenclatura castrista.
Nada tampouco distinto do que Mao fez na China. Os camaradas, amigos de ontem, tornavam-se os inimigos de hoje, taxados de contrarrevolucionários a serviço do capitalismo.
No Brasil, ainda atualmente, há os que admiram Marighella e a guerrilha do Araguaia, que compartilhavam das mesmas concepções marxistas. Há, em todos esses casos, uma patológica perversão das ideias.
O assassinato político tornou-se uma forma “corriqueira” de a esquerda resolver os seus conflitos intestinos. Processos jurídicos de fachada, tortura, acusações infundadas e mortes eram características próprias da esquerda no Poder. Não há sequer uma experiência histórica de compatibilização entre socialismo/comunismo e democracia. Lá onde o socialismo vingou, a democracia jamais germinou. Cuba e Coreia do Norte são rebentos deste período.
Se tomarmos a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, teremos uma oportunidade rara de comparação entre socialismo e capitalismo. O capitalismo sul-coreano produziu uma sociedade próspera, com alto grau de desenvolvimento industrial, científico e tecnológico. Empresas e universidades lá se retroalimentam. Sua educação tornou-se referência mundial. A democracia é o seu regime político.
A Coreia do Norte, por sua vez, é um regime tirânico, liberticida, que reduz a sua população a uma vida miserável. A fome grassa e os servos deste país sucumbem à falta de alimentos. Nada funciona, a não ser o Exército dotado de armamento nuclear, usado como ameaça constante à Coreia do Sul. Os seus processos políticos são uma caricatura, tendo sido neste país instaurada uma monarquia comunista, com direito de hereditariedade!
O século XX também apresentou outra experiência altamente significativa. Só os tolos hesitam em extrair dela o seu ensinamento. Havia duas Alemanhas, a Ocidental, capitalista, e a Oriental, socialista.
A primeira se caracterizava pela pujança, pelo respeito às liberdades, por uma vida sindical forte, por um crescimento econômico notável e por condições sociais invejáveis. Sua indústria tornou-se um exemplo mundial. Veio a ser uma das maiores economias do Planeta.
A segunda tinha como característica central a dominação violenta de sua população, com uso do partido e de sua polícia política. As suas condições sociais eram precárias e a liberdade era sistematicamente pisoteada. Tais eram seus problemas que o socialismo sucumbiu às suas próprias contradições. Nem os prussianos resistiram ao socialismo. A queda do Muro de Berlim foi um símbolo da derrocada socialista/comunista. A ideia socialista esborrachou-se no chão.
A esquerda tupiniquim, porém, teima em nada aprender. Parafraseando Talleyrand, discorrendo sobre a aristocracia emigrada, que se obstinava em não reconhecer os eventos revolucionários: “Eles nada aprenderam e nada esqueceram.”
Para essa esquerda, o socialismo continua plenamente vigente, sendo superior ao capitalismo, compreendido como fonte de todos os males. Trata-se de uma visão religiosa: o capitalismo é o pecado, o mal sobre a Terra, a origem do egoísmo e do lucro, enquanto o socialismo seria a redenção da humanidade, a solidariedade enfim conquistada entre os homens.
O embuste consiste no seguinte. O capitalismo não é comparado ao socialismo. Se isto fosse feito, a comparação, por exemplo, deveria ser entre a Alemanha capitalista e a socialista, ou ainda, entre a Coreia capitalista e a socialista. Os termos da comparação teriam parâmetros que serviriam de critério para qualquer avaliação.
A “comparação” é de outro tipo. Compara-se o capitalismo real, existente, com a ideia do socialismo, forjada por aqueles que lhe atribuem todas as perfeições. Ou seja, atribui-se ao socialismo todas as perfeições e, de posse destes atributos, passa-se a verificar se eles “existem” no capitalismo.
Isto é equivalente a comparar uma sociedade perfeita a uma imperfeita, ou ainda, a comparar o homem a Deus. É claro que o homem, com suas imperfeições, sairá sempre perdendo quando comparado a Deus. O mesmo destino teria a comparação entre uma sociedade perfeita (ideal) e uma imperfeita (real).
Mais curiosa ainda é a afirmação de alguns segundo os quais haveria plena compatibilidade entre socialismo e democracia, quando isto não se verificou historicamente em nenhum lugar. O socialismo no Poder se caracterizou pela tirania totalitária. O “pensamento” esquerdista, se é que se pode utilizar essa palavra, é totalmente capturado pelo dogma, esse repouso dos que se recusam a pensar. É o mundo das ideias descontroladas, que não podem ser verificadas empiricamente. Ora, só onde o capitalismo prosperou é que a democracia representativa foi consolidada e os cidadãos puderam usufruir da liberdade.
Há uma mentalidade religiosa, teológico-política, que guia a esquerda tupiniquim. Vive de “preconceitos” contra a economia de mercado e o direito de propriedade, postulando, como se fosse uma coisa teoricamente séria, a “utopia” ou o “socialismo” enquanto ideias “superiores” ao capitalismo. Na ausência de conceitos, contenta-se com diatribes contra o “neoliberalismo” e outras patranhas do mesmo tipo, como se fazer política residisse somente em enganar o próximo, em abusar da inteligência alheia.
O assassinato político tornou-se uma forma ‘corriqueira’ de a esquerda resolver os seus conflitos intestinos
O assassinato político de Jang Song-Thaek, tio e mentor político de Kim Jong-un, Líder Máximo da Coreia do Norte, apesar de grotesco, não deixa de ser algo, digamos, “normal”, dada a característica stalinista deste regime político. Nada muito diferente do que a esquerda totalitária fez na extinta União Soviética, nos hoje amplamente conhecidos Processos de Moscou, que eliminaram a velha guarda bolchevique.
Em outro célebre episódio, Trotsky primeiro foi apagado de uma foto junto a Lênin em uma comemoração revolucionária para, depois, ser “apagado” com uma machadinha na cabeça, no México. Quem perpetrou tal assassinato foi um agente de Stálin, Ramón Mercader, que acabou placidamente os seus dias, em Cuba, com todos os privilégios da nomenclatura castrista.
Nada tampouco distinto do que Mao fez na China. Os camaradas, amigos de ontem, tornavam-se os inimigos de hoje, taxados de contrarrevolucionários a serviço do capitalismo.
No Brasil, ainda atualmente, há os que admiram Marighella e a guerrilha do Araguaia, que compartilhavam das mesmas concepções marxistas. Há, em todos esses casos, uma patológica perversão das ideias.
O assassinato político tornou-se uma forma “corriqueira” de a esquerda resolver os seus conflitos intestinos. Processos jurídicos de fachada, tortura, acusações infundadas e mortes eram características próprias da esquerda no Poder. Não há sequer uma experiência histórica de compatibilização entre socialismo/comunismo e democracia. Lá onde o socialismo vingou, a democracia jamais germinou. Cuba e Coreia do Norte são rebentos deste período.
Se tomarmos a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, teremos uma oportunidade rara de comparação entre socialismo e capitalismo. O capitalismo sul-coreano produziu uma sociedade próspera, com alto grau de desenvolvimento industrial, científico e tecnológico. Empresas e universidades lá se retroalimentam. Sua educação tornou-se referência mundial. A democracia é o seu regime político.
A Coreia do Norte, por sua vez, é um regime tirânico, liberticida, que reduz a sua população a uma vida miserável. A fome grassa e os servos deste país sucumbem à falta de alimentos. Nada funciona, a não ser o Exército dotado de armamento nuclear, usado como ameaça constante à Coreia do Sul. Os seus processos políticos são uma caricatura, tendo sido neste país instaurada uma monarquia comunista, com direito de hereditariedade!
O século XX também apresentou outra experiência altamente significativa. Só os tolos hesitam em extrair dela o seu ensinamento. Havia duas Alemanhas, a Ocidental, capitalista, e a Oriental, socialista.
A primeira se caracterizava pela pujança, pelo respeito às liberdades, por uma vida sindical forte, por um crescimento econômico notável e por condições sociais invejáveis. Sua indústria tornou-se um exemplo mundial. Veio a ser uma das maiores economias do Planeta.
A segunda tinha como característica central a dominação violenta de sua população, com uso do partido e de sua polícia política. As suas condições sociais eram precárias e a liberdade era sistematicamente pisoteada. Tais eram seus problemas que o socialismo sucumbiu às suas próprias contradições. Nem os prussianos resistiram ao socialismo. A queda do Muro de Berlim foi um símbolo da derrocada socialista/comunista. A ideia socialista esborrachou-se no chão.
A esquerda tupiniquim, porém, teima em nada aprender. Parafraseando Talleyrand, discorrendo sobre a aristocracia emigrada, que se obstinava em não reconhecer os eventos revolucionários: “Eles nada aprenderam e nada esqueceram.”
Para essa esquerda, o socialismo continua plenamente vigente, sendo superior ao capitalismo, compreendido como fonte de todos os males. Trata-se de uma visão religiosa: o capitalismo é o pecado, o mal sobre a Terra, a origem do egoísmo e do lucro, enquanto o socialismo seria a redenção da humanidade, a solidariedade enfim conquistada entre os homens.
O embuste consiste no seguinte. O capitalismo não é comparado ao socialismo. Se isto fosse feito, a comparação, por exemplo, deveria ser entre a Alemanha capitalista e a socialista, ou ainda, entre a Coreia capitalista e a socialista. Os termos da comparação teriam parâmetros que serviriam de critério para qualquer avaliação.
A “comparação” é de outro tipo. Compara-se o capitalismo real, existente, com a ideia do socialismo, forjada por aqueles que lhe atribuem todas as perfeições. Ou seja, atribui-se ao socialismo todas as perfeições e, de posse destes atributos, passa-se a verificar se eles “existem” no capitalismo.
Isto é equivalente a comparar uma sociedade perfeita a uma imperfeita, ou ainda, a comparar o homem a Deus. É claro que o homem, com suas imperfeições, sairá sempre perdendo quando comparado a Deus. O mesmo destino teria a comparação entre uma sociedade perfeita (ideal) e uma imperfeita (real).
Mais curiosa ainda é a afirmação de alguns segundo os quais haveria plena compatibilidade entre socialismo e democracia, quando isto não se verificou historicamente em nenhum lugar. O socialismo no Poder se caracterizou pela tirania totalitária. O “pensamento” esquerdista, se é que se pode utilizar essa palavra, é totalmente capturado pelo dogma, esse repouso dos que se recusam a pensar. É o mundo das ideias descontroladas, que não podem ser verificadas empiricamente. Ora, só onde o capitalismo prosperou é que a democracia representativa foi consolidada e os cidadãos puderam usufruir da liberdade.
Há uma mentalidade religiosa, teológico-política, que guia a esquerda tupiniquim. Vive de “preconceitos” contra a economia de mercado e o direito de propriedade, postulando, como se fosse uma coisa teoricamente séria, a “utopia” ou o “socialismo” enquanto ideias “superiores” ao capitalismo. Na ausência de conceitos, contenta-se com diatribes contra o “neoliberalismo” e outras patranhas do mesmo tipo, como se fazer política residisse somente em enganar o próximo, em abusar da inteligência alheia.
A perna manca de 2014 - VALDO CRUZ
FOLHA DE SP - 30/12
BRASÍLIA - O ano das estripulias econômicas do governo Dilma chega ao fim com algumas boas notícias. A inflação voltou a ser tratada como um mal a ser combatido. Ajustes foram feitos e as concessões decolaram. Falta, contudo, uma perna ainda manca, a da política fiscal.
Apesar das promessas, ainda não há uma clareza sobre a real disposição do governo de conter seus gastos. Por um simples motivo: é minoria na equipe presidencial o grupo que defende um aperto fiscal.
Em vez de admitir a realidade, Dilma e sua equipe preferem acusar o mercado de má vontade com o governo atual, só porque ele é do PT. Bem, vamos, então, aos números, que não costumam mentir.
No início de 2013, o governo prometeu economizar 3,1% do PIB para pagamento da dívida pública, a meta de superavit primário. Dela, 2,1% seriam de sua responsabilidade. Depois, reduziu a meta para 2,3%. Sua parte despencou para 1,5%.
E tudo indica que nem isso será cumprido. Ou seja, o governo gastou, sim, muito, jogando lenha na fogueira da inflação. Para 2014, os primeiros dados indicam um apetite ainda maior por mais gastos.
Ao elaborar o Orçamento do ano que vem, o governo fixou uma meta de superavit de 2,1% do PIB, menor do que a de 2,3% revisada deste ano. Não para aí. Da meta de 2,1%, a parte do governo federal seria de apenas 1,1%. Bem mais baixa do que a de 2013, que ficou em 1,5%.
Sinal ainda mais forte do desejo de gastança da equipe dilmista no ano da campanha da reeleição da chefe. Em sua defesa, o governo diz que tem elevado os gastos sociais. Só que não dá para aumentar despesas sem receitas para bancá-las. É insustentável no médio prazo.
Agora, diante do risco de a inflação voltar a subir no ano da reeleição, o governo promete elevar sua meta de superavit em 2014. A decisão ficou para janeiro. Saberemos, então, se o Brasil seguirá mancando ou, enfim, acertará o passo.
BRASÍLIA - O ano das estripulias econômicas do governo Dilma chega ao fim com algumas boas notícias. A inflação voltou a ser tratada como um mal a ser combatido. Ajustes foram feitos e as concessões decolaram. Falta, contudo, uma perna ainda manca, a da política fiscal.
Apesar das promessas, ainda não há uma clareza sobre a real disposição do governo de conter seus gastos. Por um simples motivo: é minoria na equipe presidencial o grupo que defende um aperto fiscal.
Em vez de admitir a realidade, Dilma e sua equipe preferem acusar o mercado de má vontade com o governo atual, só porque ele é do PT. Bem, vamos, então, aos números, que não costumam mentir.
No início de 2013, o governo prometeu economizar 3,1% do PIB para pagamento da dívida pública, a meta de superavit primário. Dela, 2,1% seriam de sua responsabilidade. Depois, reduziu a meta para 2,3%. Sua parte despencou para 1,5%.
E tudo indica que nem isso será cumprido. Ou seja, o governo gastou, sim, muito, jogando lenha na fogueira da inflação. Para 2014, os primeiros dados indicam um apetite ainda maior por mais gastos.
Ao elaborar o Orçamento do ano que vem, o governo fixou uma meta de superavit de 2,1% do PIB, menor do que a de 2,3% revisada deste ano. Não para aí. Da meta de 2,1%, a parte do governo federal seria de apenas 1,1%. Bem mais baixa do que a de 2013, que ficou em 1,5%.
Sinal ainda mais forte do desejo de gastança da equipe dilmista no ano da campanha da reeleição da chefe. Em sua defesa, o governo diz que tem elevado os gastos sociais. Só que não dá para aumentar despesas sem receitas para bancá-las. É insustentável no médio prazo.
Agora, diante do risco de a inflação voltar a subir no ano da reeleição, o governo promete elevar sua meta de superavit em 2014. A decisão ficou para janeiro. Saberemos, então, se o Brasil seguirá mancando ou, enfim, acertará o passo.
Careca de saber - RICARDO NOBLAT
O GLOBO - 30/12
"Renan estava careca de saber que não pode usar avião da FAB para viagem particular"
Chico Alencar, PSOL-RJ
O Senado deve ao distinto público a abertura de um processo para cassar por quebra de decoro o mandato do seu presidente, Renan Calheiros. Ou não é falta de decoro ignorar a lei? Ou não foi o que fez Renan ao voar em jatinho da FAB para se submeter no Recife a um implante de dez mil fios de cabelo? Com um agravante: depois de flagrado voando às nossas custas, tentou encenar uma farsa. Consultou a FAB sobre se de fato desrespeitara a lei.
A FAB NÃO respondeu à consulta. Deu-se ao respeito. Renan estava careca de saber que o decreto que regulamenta o uso por autoridades de jatinhos da FAB não prevê deslocamentos por razões particulares. É lícita a requisição de jatinho para viagens a serviço ou de volta ao seu estado, por exemplo. Ou em caso de emergência médica. Um implante capilar é tudo - até um luxo. Emergência, não é.
IMAGINE SE FOSSE possível escapar dos rigores da lei sob a desculpa de que desconhecia sua existência. "Sinto muito, mas nunca fora apresentado a essa lei". Não teríamos um Estado, não como o que conhecemos hoje. Mas um Estado de anarquia. Renan é político desde 1978. Foi duas vezes deputado federal por Alagoas, três vezes senador, líder do governo Collor e ministro da Justiça de Fernando Henrique.
UMA DE SUAS atividades é ajudar a fazer leis. Há várias de sua autoria. Fora centenas que ajudou a fazer.
Para isso, como deputado ou senador, sempre contou com a assessoria de dezenas de funcionários do quadro fixo da Câmara dos Deputados ou do Senado. Como presidente do Senado - o terceiro na linha direta da sucessão do presidente da República -, todas as suas dúvidas lhe são tiradas. Na hora.
COMO SUGERIR que possa ter sido traído pela memória? Ou que seus assessores possam ter-se enganado na interpretação da lei? Ou que caberia à FAB dizer se ele acertara ou não ao requisitar jato para uma viagem particular? E uma viagem que ele se empenhou para que não chamasse a atenção de ninguém? Como de costume, foi a imprensa que descobriu o malfeito de Renan.
NA NOITE DO último dia 18, uma quarta-feira, Renan voou a Recife a "serviço", conforme consta dos registros da FAB. A agenda dele no site do Senado omitiu a viagem. Uma vez lá, internou-se em uma clínica onde, no dia seguinte, teve dez mil fios de cabelo implantados na cabeça pelo cirurgião plástico Fernando Basto. A cirurgia durou oito horas. Seus resultados começarão a se tornar visíveis daqui a quatro meses.
DE RECIFE, Renan foi a Maceió. Um outro jatinho o levaria a Brasília quando quisesse. No que deu errado... Renan apelou para plano B - "A FAB tem a última palavra". Esqueceu de combinar com a FAB. Mandou um ofício ao comandante da FAB perguntando se cometera alguma "impropriedade" ao voar a Recife de jatinho. Não recebeu resposta. Decidiu então pagar à FAB os custos da viagem.
FINAL FELIZ? Quem, fora Renan, pode pensar assim? Ok, a imprensa esquecerá mais rapidamente o assunto por causa da decisão de Renan de reembolsar a FAB. E, se ela esquece, todo mundo muda de assunto. Mas Renan, além de tudo, é reincidente. Em junho passado, foi a Trancoso, na Bahia, para o casamento da filha do colega Eduardo Braga (PMDB-AM). Usou um jato da FAB. Flagrado, devolveu à FAB R$ 32 mil.
RENAN É TUDO - menos um inocente coitadinho. Ignorou a lei em junho, voltou a ignorá-la seis meses depois, só reembolsou a União quando os dois episódios se tornaram públicos. Do contrário... Razoável supor que teria embolsado nosso dinheiro em silêncio.
A FAB NÃO respondeu à consulta. Deu-se ao respeito. Renan estava careca de saber que o decreto que regulamenta o uso por autoridades de jatinhos da FAB não prevê deslocamentos por razões particulares. É lícita a requisição de jatinho para viagens a serviço ou de volta ao seu estado, por exemplo. Ou em caso de emergência médica. Um implante capilar é tudo - até um luxo. Emergência, não é.
IMAGINE SE FOSSE possível escapar dos rigores da lei sob a desculpa de que desconhecia sua existência. "Sinto muito, mas nunca fora apresentado a essa lei". Não teríamos um Estado, não como o que conhecemos hoje. Mas um Estado de anarquia. Renan é político desde 1978. Foi duas vezes deputado federal por Alagoas, três vezes senador, líder do governo Collor e ministro da Justiça de Fernando Henrique.
UMA DE SUAS atividades é ajudar a fazer leis. Há várias de sua autoria. Fora centenas que ajudou a fazer.
Para isso, como deputado ou senador, sempre contou com a assessoria de dezenas de funcionários do quadro fixo da Câmara dos Deputados ou do Senado. Como presidente do Senado - o terceiro na linha direta da sucessão do presidente da República -, todas as suas dúvidas lhe são tiradas. Na hora.
COMO SUGERIR que possa ter sido traído pela memória? Ou que seus assessores possam ter-se enganado na interpretação da lei? Ou que caberia à FAB dizer se ele acertara ou não ao requisitar jato para uma viagem particular? E uma viagem que ele se empenhou para que não chamasse a atenção de ninguém? Como de costume, foi a imprensa que descobriu o malfeito de Renan.
NA NOITE DO último dia 18, uma quarta-feira, Renan voou a Recife a "serviço", conforme consta dos registros da FAB. A agenda dele no site do Senado omitiu a viagem. Uma vez lá, internou-se em uma clínica onde, no dia seguinte, teve dez mil fios de cabelo implantados na cabeça pelo cirurgião plástico Fernando Basto. A cirurgia durou oito horas. Seus resultados começarão a se tornar visíveis daqui a quatro meses.
DE RECIFE, Renan foi a Maceió. Um outro jatinho o levaria a Brasília quando quisesse. No que deu errado... Renan apelou para plano B - "A FAB tem a última palavra". Esqueceu de combinar com a FAB. Mandou um ofício ao comandante da FAB perguntando se cometera alguma "impropriedade" ao voar a Recife de jatinho. Não recebeu resposta. Decidiu então pagar à FAB os custos da viagem.
FINAL FELIZ? Quem, fora Renan, pode pensar assim? Ok, a imprensa esquecerá mais rapidamente o assunto por causa da decisão de Renan de reembolsar a FAB. E, se ela esquece, todo mundo muda de assunto. Mas Renan, além de tudo, é reincidente. Em junho passado, foi a Trancoso, na Bahia, para o casamento da filha do colega Eduardo Braga (PMDB-AM). Usou um jato da FAB. Flagrado, devolveu à FAB R$ 32 mil.
RENAN É TUDO - menos um inocente coitadinho. Ignorou a lei em junho, voltou a ignorá-la seis meses depois, só reembolsou a União quando os dois episódios se tornaram públicos. Do contrário... Razoável supor que teria embolsado nosso dinheiro em silêncio.
Muito além da urna - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO
O Estado de S.Paulo - 30/12
Em ano de eleição presidencial, o Brasil discute problemas aparentemente essenciais: privatizar o privado, estatizar o público, bolsas e embolsos. Mas, para espanto dos políticos, a vida dos brasileiros depende pouco dos eleitos. As principais tendências da população mudam à revelia de Brasília.
E muita coisa está mudando. Mais instruída e integrada ao mercado de trabalho, a brasileira casa e tem filhos cada vez mais tarde. A idade média das mães cresceu 12 meses em uma década. Está em 26 anos e aumentando. Uma brasileira de 20 e 24 anos tem 62% de probabilidade de não ser mãe. Se a jovem for branca, a chance de não ter dado à luz chega a 70%.
Mais drástico ainda foi o amadurecimento das noivas. Em 2003, a idade típica da mulher solteira ao casar era 21 anos. Em 2012, já beirava os 25 anos. Essa média oculta um fenômeno dentro das estatísticas do registro civil: em 10 anos, duplicou o número de mulheres de 30 anos ou mais que se casam no papel.
Em parte, é fruto do envelhecimento da população, pois há também mais homens dessa idade se casando. Mas o fenômeno é 30% mais intenso entre as mulheres. As maduras estão mais casadoiras - ironicamente - devido ao novo padrão de mortalidade masculina.
Nasce um brasileiro a cada 10 segundos. Há 5% mais chances de o recém-nascido ser homem. A prevalência do sexo masculino nos nascimentos costumava ser rapidamente compensada pela maior sobrevivência das mulheres. Mas a drástica diminuição da mortalidade na infância faz com que o excedente masculino perdure cada vez mais.
Só quando os nascidos em 2012 completarem 37 anos haverá mais brasileiras do que brasileiros dessa mesma idade. Nas gerações seguintes, essa inversão vai levar mais e mais tempo. O excedente masculino provoca novos comportamentos e uma profunda transformação das relações entre os sexos - inclusive de poder.
Hoje, o mercado matrimonial favorece as mulheres até a faixa dos 30 anos. Além dos homens da mesma idade, mais numerosos, elas atraem também maridos mais velhos. Daí em diante, porém, a oferta de parceiras é maior do que a de parceiros da mesma geração - e muitos desses homens maduros casam com mulheres mais jovens.
É o que a demografia batizou de "pirâmide da solidão": à medida que a idade avançava, as brasileiras, principalmente separadas ou viúvas, tinham ao alcance um contingente cada vez menor de potenciais parceiros, enquanto para os homens a oferta de companheiras aumentava. Com o tempo, cresciam as solitárias e diminuíam os solitários. Mas a pirâmide começa a ruir.
Em 2012, para cada 100 divorciadas que voltaram a se casar, houve 136 divorciados que formalizaram nova união. Felizmente para as mulheres, a desproporção está diminuindo rapidamente. A diferença, que era de 45% só quatro anos antes, caiu para 36% e diminui ano a ano. Tende a desaparecer em pouco tempo. Mas como?
Morre um bebê a cada 15 minutos no Brasil, e a chance de a vítima ser menino é 25% maior. A fragilidade do dito sexo forte se mantém até os 80 anos, quando as mortes femininas pela primeira vez suplantam as masculinas em volume. Por isso, toda redução da mortalidade, principalmente nos primeiros anos de vida, aumenta a proporção de homens na população.
As próprias mulheres têm contribuído para isso: 61% das mães já fazem 7 ou mais consultas pré-natal. Agem em benefício próprio. Menor mortalidade implica maior número de homens, o que aumenta as oportunidades matrimoniais por um período mais longo. Elas ficam em posição de força para postergar a escolha do parceiro enquanto se afirmam profissional e politicamente. É uma revolução, e isso tem pouco ou quase nada a ver com a eleição.
Em ano de eleição presidencial, o Brasil discute problemas aparentemente essenciais: privatizar o privado, estatizar o público, bolsas e embolsos. Mas, para espanto dos políticos, a vida dos brasileiros depende pouco dos eleitos. As principais tendências da população mudam à revelia de Brasília.
E muita coisa está mudando. Mais instruída e integrada ao mercado de trabalho, a brasileira casa e tem filhos cada vez mais tarde. A idade média das mães cresceu 12 meses em uma década. Está em 26 anos e aumentando. Uma brasileira de 20 e 24 anos tem 62% de probabilidade de não ser mãe. Se a jovem for branca, a chance de não ter dado à luz chega a 70%.
Mais drástico ainda foi o amadurecimento das noivas. Em 2003, a idade típica da mulher solteira ao casar era 21 anos. Em 2012, já beirava os 25 anos. Essa média oculta um fenômeno dentro das estatísticas do registro civil: em 10 anos, duplicou o número de mulheres de 30 anos ou mais que se casam no papel.
Em parte, é fruto do envelhecimento da população, pois há também mais homens dessa idade se casando. Mas o fenômeno é 30% mais intenso entre as mulheres. As maduras estão mais casadoiras - ironicamente - devido ao novo padrão de mortalidade masculina.
Nasce um brasileiro a cada 10 segundos. Há 5% mais chances de o recém-nascido ser homem. A prevalência do sexo masculino nos nascimentos costumava ser rapidamente compensada pela maior sobrevivência das mulheres. Mas a drástica diminuição da mortalidade na infância faz com que o excedente masculino perdure cada vez mais.
Só quando os nascidos em 2012 completarem 37 anos haverá mais brasileiras do que brasileiros dessa mesma idade. Nas gerações seguintes, essa inversão vai levar mais e mais tempo. O excedente masculino provoca novos comportamentos e uma profunda transformação das relações entre os sexos - inclusive de poder.
Hoje, o mercado matrimonial favorece as mulheres até a faixa dos 30 anos. Além dos homens da mesma idade, mais numerosos, elas atraem também maridos mais velhos. Daí em diante, porém, a oferta de parceiras é maior do que a de parceiros da mesma geração - e muitos desses homens maduros casam com mulheres mais jovens.
É o que a demografia batizou de "pirâmide da solidão": à medida que a idade avançava, as brasileiras, principalmente separadas ou viúvas, tinham ao alcance um contingente cada vez menor de potenciais parceiros, enquanto para os homens a oferta de companheiras aumentava. Com o tempo, cresciam as solitárias e diminuíam os solitários. Mas a pirâmide começa a ruir.
Em 2012, para cada 100 divorciadas que voltaram a se casar, houve 136 divorciados que formalizaram nova união. Felizmente para as mulheres, a desproporção está diminuindo rapidamente. A diferença, que era de 45% só quatro anos antes, caiu para 36% e diminui ano a ano. Tende a desaparecer em pouco tempo. Mas como?
Morre um bebê a cada 15 minutos no Brasil, e a chance de a vítima ser menino é 25% maior. A fragilidade do dito sexo forte se mantém até os 80 anos, quando as mortes femininas pela primeira vez suplantam as masculinas em volume. Por isso, toda redução da mortalidade, principalmente nos primeiros anos de vida, aumenta a proporção de homens na população.
As próprias mulheres têm contribuído para isso: 61% das mães já fazem 7 ou mais consultas pré-natal. Agem em benefício próprio. Menor mortalidade implica maior número de homens, o que aumenta as oportunidades matrimoniais por um período mais longo. Elas ficam em posição de força para postergar a escolha do parceiro enquanto se afirmam profissional e politicamente. É uma revolução, e isso tem pouco ou quase nada a ver com a eleição.
O Julinho e o ensino - PAULO BROSSARD
ZERO HORA - 30/12
Um fato chocante e de inegável importância social foi divulgado por ZH dias antes do Natal ao retratar a alarmante deterioração de um dos mais conceituados colégios de Porto Alegre, o “Julinho”, como era familiarmente denominado o “Julio de Castilhos”. Ao tempo em que surgiam colégios de inspiração religiosa, logo consagrados pela excelência do ensino ministrados por notáveis educadores, o governo rio-grandense, de forte tintura comtiana, cuidou de formar seu colégio padrão, que viria a levar o nome do chefe republicano; cansei de ouvir referências respeitosas ao colégio laico destinado a cotejar com os católicos e evangélicos; o maior louvor suponho viesse daqueles que lhe houvessem frequentado. O trabalho da jornalista Letícia Duarte estendeu-se pelo ano escolar, 27 de fevereiro a 22 de novembro de 2013; registrando o colapso do que fora um colégio modelar; é impossível resumi-lo, o espaço seria insuficiente para um resumo do resumo, limito-me a dizer que, a todos os títulos, o quadro é deplorável.
É óbvio que sem professor não há escola nem ensino, no entanto, no Julinho, até sete professores por dia faltam às aulas, 89% dos alunos chegam ao final do Ensino Médio sem aprender o mínimo em matemática, 38% saem do Ensino Médio e chegam ao Superior e não sabem ler e escrever plenamente; ao fundo da sala alunos se divertem com equipamentos eletrônicos durante as aulas; essas singelas observações esclarecem porque a classificação do Brasil entre 65 nações ocupa posição desoladora. É de notar-se que isto acontece em um colégio que durante muitos anos foi dos melhores aqui existentes e em consequência no Brasil inteiro. Esta metamorfose não se operou de repente, o mal, por conseguinte não começou ontem. O colégio que foi o melhor não se transforma no pior da noite para o dia. E o mais grave é que a degradação se infiltra a setores relevantes do país, do governo inclusive a de instituições docentes. Dir-se-á que existem, Deus seja louvado, colégios da melhor e mais justificada reputação e eu sei disso e como brasileiro por isto me felicito, mas infelizmente isto não justifica a cota de colégios de inqualificável reputação. Segundo as repercussões até agora conhecidas verifica-se que há os que pensam que o fenômeno que deformou o Julinho tem caráter geral e há os que entendem que a falência do antigo e modelar ornamento do colégio oficial é uma exceção.
Não tenho elementos para opinar em favor de uma ou outra das interpretações, mas confesso a minha angústia cívica diante do espetáculo público do caso funesto e vexatório do Julinho uma vez que os efeitos dele se irradiam aos demais graus do ensino; é evidente que o ensino primário contamina o Ensino Médio e este compromete o Ensino Superior; a esse respeito, louvores seriam poucos, se as numerosas universidades emergentes realmente encarnassem o que a sua denominação anuncia. Confesso-me sem condições de opinar em assunto de tal relevância, pois não conheço o real teor do ensino oferecido e mais do que o ensino, da real formação de seus jovens frequentadores.
No entanto, há um dado idôneo que ajuda a esclarecer o problema em causa, não é segredo, foi amplamente divulgado que dos 65 países que participam do exame de avaliação internacional de alunos de 15 e 16 anos em várias áreas, ficou o Brasil na 55ª posição em leitura, 58ª em matemática e 59ª em ciências. Dispensável dizer que esses dados indicam as carências do ensino no Brasil. Os dados referidos são dolorosos para não dizer humilhantes. O caso do Julinho soa como uma espécie de S.O.S. partindo da educação.
Um fato chocante e de inegável importância social foi divulgado por ZH dias antes do Natal ao retratar a alarmante deterioração de um dos mais conceituados colégios de Porto Alegre, o “Julinho”, como era familiarmente denominado o “Julio de Castilhos”. Ao tempo em que surgiam colégios de inspiração religiosa, logo consagrados pela excelência do ensino ministrados por notáveis educadores, o governo rio-grandense, de forte tintura comtiana, cuidou de formar seu colégio padrão, que viria a levar o nome do chefe republicano; cansei de ouvir referências respeitosas ao colégio laico destinado a cotejar com os católicos e evangélicos; o maior louvor suponho viesse daqueles que lhe houvessem frequentado. O trabalho da jornalista Letícia Duarte estendeu-se pelo ano escolar, 27 de fevereiro a 22 de novembro de 2013; registrando o colapso do que fora um colégio modelar; é impossível resumi-lo, o espaço seria insuficiente para um resumo do resumo, limito-me a dizer que, a todos os títulos, o quadro é deplorável.
É óbvio que sem professor não há escola nem ensino, no entanto, no Julinho, até sete professores por dia faltam às aulas, 89% dos alunos chegam ao final do Ensino Médio sem aprender o mínimo em matemática, 38% saem do Ensino Médio e chegam ao Superior e não sabem ler e escrever plenamente; ao fundo da sala alunos se divertem com equipamentos eletrônicos durante as aulas; essas singelas observações esclarecem porque a classificação do Brasil entre 65 nações ocupa posição desoladora. É de notar-se que isto acontece em um colégio que durante muitos anos foi dos melhores aqui existentes e em consequência no Brasil inteiro. Esta metamorfose não se operou de repente, o mal, por conseguinte não começou ontem. O colégio que foi o melhor não se transforma no pior da noite para o dia. E o mais grave é que a degradação se infiltra a setores relevantes do país, do governo inclusive a de instituições docentes. Dir-se-á que existem, Deus seja louvado, colégios da melhor e mais justificada reputação e eu sei disso e como brasileiro por isto me felicito, mas infelizmente isto não justifica a cota de colégios de inqualificável reputação. Segundo as repercussões até agora conhecidas verifica-se que há os que pensam que o fenômeno que deformou o Julinho tem caráter geral e há os que entendem que a falência do antigo e modelar ornamento do colégio oficial é uma exceção.
Não tenho elementos para opinar em favor de uma ou outra das interpretações, mas confesso a minha angústia cívica diante do espetáculo público do caso funesto e vexatório do Julinho uma vez que os efeitos dele se irradiam aos demais graus do ensino; é evidente que o ensino primário contamina o Ensino Médio e este compromete o Ensino Superior; a esse respeito, louvores seriam poucos, se as numerosas universidades emergentes realmente encarnassem o que a sua denominação anuncia. Confesso-me sem condições de opinar em assunto de tal relevância, pois não conheço o real teor do ensino oferecido e mais do que o ensino, da real formação de seus jovens frequentadores.
No entanto, há um dado idôneo que ajuda a esclarecer o problema em causa, não é segredo, foi amplamente divulgado que dos 65 países que participam do exame de avaliação internacional de alunos de 15 e 16 anos em várias áreas, ficou o Brasil na 55ª posição em leitura, 58ª em matemática e 59ª em ciências. Dispensável dizer que esses dados indicam as carências do ensino no Brasil. Os dados referidos são dolorosos para não dizer humilhantes. O caso do Julinho soa como uma espécie de S.O.S. partindo da educação.
O mergulho - FÁBIO ZANINI
FOLHA DE SP - 30/12
SÃO PAULO - A cena é digna de Monty Python. Sem camisa, o governador Cid Gomes mergulha numa adutora para tentar consertá-la em Itapipoca, cidade afetada pela seca no Ceará. Fica longos segundos dentro d'água, apenas o cocuruto calvo à mostra.
Volta com o cabelo escorrido na cara, dá uma cusparada, pega ar e tenta de novo. Finalmente consegue fechar uma válvula com defeito. Um puxa-saco pede palmas ao Jacques Cousteau cearense (a cena está em folha.com/no1390844).
O ridículo da performance tornou-a saco de pancada nas impiedosas redes sociais, mas há que se admitir que o governador não está sozinho.
Sair do gabinete, pôr a mão na massa ou simplesmente aparecer de um jeito inusitado são hoje pré-requisitos do manual do governante em busca de popularidade.
Não apenas no Brasil. Talvez Cid tivesse em mente as histrionices do uruguaio José Mujica (esse sim um Deus para a turma do Facebook), que moldou a Presidência à sua imagem de velhinho excêntrico. A última foi aparecer de sandálias e unha de fora na posse de um ministro.
Exemplo ainda maior é o do papa Francisco, cuja façanha em 2013 foi chacoalhar a igreja menos com reais mudanças de doutrina que com gestos como pagar sua conta numa pousada ou carregar a maleta na subida do avião.
No Brasil pós-protestos, as antenas das autoridades estão ainda mais alertas. Certamente isso entrou no cálculo da presidente Dilma para interromper sua folga de Natal e sobrevoar áreas inundadas em Minas.
Para Cid Gomes, talvez o maior problema seja ter adotado tardiamente o estilo "gente que faz". Um único banho de adutora não deve ser suficiente para desfazer o estrago na imagem causado por farras como a contratação da cantora Ivete Sangalo a peso de ouro para inaugurar um hospital (inacabado) em Sobral, há um ano. Aguardemos, portanto, suas novas peripécias.
SÃO PAULO - A cena é digna de Monty Python. Sem camisa, o governador Cid Gomes mergulha numa adutora para tentar consertá-la em Itapipoca, cidade afetada pela seca no Ceará. Fica longos segundos dentro d'água, apenas o cocuruto calvo à mostra.
Volta com o cabelo escorrido na cara, dá uma cusparada, pega ar e tenta de novo. Finalmente consegue fechar uma válvula com defeito. Um puxa-saco pede palmas ao Jacques Cousteau cearense (a cena está em folha.com/no1390844).
O ridículo da performance tornou-a saco de pancada nas impiedosas redes sociais, mas há que se admitir que o governador não está sozinho.
Sair do gabinete, pôr a mão na massa ou simplesmente aparecer de um jeito inusitado são hoje pré-requisitos do manual do governante em busca de popularidade.
Não apenas no Brasil. Talvez Cid tivesse em mente as histrionices do uruguaio José Mujica (esse sim um Deus para a turma do Facebook), que moldou a Presidência à sua imagem de velhinho excêntrico. A última foi aparecer de sandálias e unha de fora na posse de um ministro.
Exemplo ainda maior é o do papa Francisco, cuja façanha em 2013 foi chacoalhar a igreja menos com reais mudanças de doutrina que com gestos como pagar sua conta numa pousada ou carregar a maleta na subida do avião.
No Brasil pós-protestos, as antenas das autoridades estão ainda mais alertas. Certamente isso entrou no cálculo da presidente Dilma para interromper sua folga de Natal e sobrevoar áreas inundadas em Minas.
Para Cid Gomes, talvez o maior problema seja ter adotado tardiamente o estilo "gente que faz". Um único banho de adutora não deve ser suficiente para desfazer o estrago na imagem causado por farras como a contratação da cantora Ivete Sangalo a peso de ouro para inaugurar um hospital (inacabado) em Sobral, há um ano. Aguardemos, portanto, suas novas peripécias.
Cabeça de Ruy Barbosa - RUBEM AZEVEDO LIMA
CORREIO BRAZILIENSE - 30/12
Bom Senso FC, movimento que acredita representar os jogadores de futebol no país, lamentou o fim do Campeonato Brasileiro "de forma melancólica", que, como disse o presidente da CBF, José Maria Marin, acabou "dentro do Tribunal". Este é aquele que guardou a medalha de ouro de um atleta. O repórter, tanto quanto Maria Marin, cumpre seu dever, mas acha que os atletas do Bom Senso nem conhecem os departamentos de seus clubes para saberem se eles estão quites com seus compromissos disciplinares. Tais diretorias costumam atender, em geral, mais os chamados craques, do que os indisciplinados.
Quem acompanhou a defesa dos advogados do Flamengo e da Portuguesa estranhou, pois eles pareciam estar mais preparados para atacar o clube adversário, valendo-se dos apupos do público flamenguista e lusitano ao advogado e ao clube adversário, interessados os dois. Mas a galhofa contra o Fluminense foi um trabalho malfeito e a maldade dos que prepararam os que tinham esse objetivo perdeu seu tempo.
Aliás, o Ministro Marco Aurélio, do STF, observou que "a celeuma no futebol que salvou o Fluminense tem um simbolismo: provou-se que as regras são para serem cumpridas e quem não cumpri-las será punido".
A psiquiatria de Freud diz que a inveja é um erro terrível à verdade sobre os erros morais. Camões diz, com Marco Aurélio: "A inverdade é o que nunca salvará a inveja. O bem de outrem merece o que o céu deseja".
No futebol, a bola com que se joga não chega ao céu. As jogadas tão altas normalmente não são dignas de craques. Pelo contrário; estes, em perigo, não hesitam em chutar.
O que periga é o Brasil. Mas não na política, face às eleições o Congresso está separado. Quanto à economia, idem, como a política, o governo mostra agir sem orientação.
O que pode nos salvar é a Justiça. Mas estamos às voltas com a corrupção. Vista nossa posição inferior na América do Sul, teremos de trabalhar muito para igualá-la e passá-la.
A descoberta do ministro do Supremo Marco Aurélio na IstoÉ é a celeuma do futebol brasileiro, no qual cada jogador joga para si mesmo. Basta educá-los para que os craques joguem unidos, não como se não jogassem todos por uns, na tragédia do Maracanã, de 70 mil brasileiros nas arquibancadas.
Quem acompanhou a defesa dos advogados do Flamengo e da Portuguesa estranhou, pois eles pareciam estar mais preparados para atacar o clube adversário, valendo-se dos apupos do público flamenguista e lusitano ao advogado e ao clube adversário, interessados os dois. Mas a galhofa contra o Fluminense foi um trabalho malfeito e a maldade dos que prepararam os que tinham esse objetivo perdeu seu tempo.
Aliás, o Ministro Marco Aurélio, do STF, observou que "a celeuma no futebol que salvou o Fluminense tem um simbolismo: provou-se que as regras são para serem cumpridas e quem não cumpri-las será punido".
A psiquiatria de Freud diz que a inveja é um erro terrível à verdade sobre os erros morais. Camões diz, com Marco Aurélio: "A inverdade é o que nunca salvará a inveja. O bem de outrem merece o que o céu deseja".
No futebol, a bola com que se joga não chega ao céu. As jogadas tão altas normalmente não são dignas de craques. Pelo contrário; estes, em perigo, não hesitam em chutar.
O que periga é o Brasil. Mas não na política, face às eleições o Congresso está separado. Quanto à economia, idem, como a política, o governo mostra agir sem orientação.
O que pode nos salvar é a Justiça. Mas estamos às voltas com a corrupção. Vista nossa posição inferior na América do Sul, teremos de trabalhar muito para igualá-la e passá-la.
A descoberta do ministro do Supremo Marco Aurélio na IstoÉ é a celeuma do futebol brasileiro, no qual cada jogador joga para si mesmo. Basta educá-los para que os craques joguem unidos, não como se não jogassem todos por uns, na tragédia do Maracanã, de 70 mil brasileiros nas arquibancadas.
Duas ou três coisas sobre 2013 - LUIZ SÉRGIO HENRIQUES
O Estado de S.Paulo - 30/12
Nada difícil encontrar sinais contraditórios para onde quer que se olhe, no mundo e no Brasil, a confirmar que vivemos situação inédita em que não basta a navegação de cabotagem, quando acidentes geográficos familiares, ao alcance da vista, asseguram a tranquilidade do viajante. Agora, de cada um dos atores da cena pública o que se requer é a renovação ousada do repertório de conceitos e valores, de modo que, num cenário subitamente em movimento, encontros imprevistos entre tradições diferentes e até antagônicas podem descortinar modos novos de fazer política e cultura, à altura da situação que alguns definem como de "emergência antropológica", tamanhos os riscos (e as possibilidades) inerentes à atual estrutura do mundo.
Esta é toda uma época, como comumente se diz, de globalização neoliberal ou, se quisermos, de agressiva afirmação do "comunismo dos capitalistas", sob a égide dos caprichos voláteis e tempos velozes da grande finança. Uma época que pode ser lida sob a ótica da unificação contraditória do gênero humano, que deixa de ser categoria filosófico-especulativa para se tornar realidade imediatamente palpável para cada pessoa: já se observou, por exemplo, que até as doenças são globais, a exigir medidas que muitas vezes superam o poder de reação das autoridades de determinado país.
Nem tudo é perdição. Não vivemos, como diagnosticou certa esquerda de tons apocalípticos há um século diante do flagelo da guerra, a era da pecaminosidade absoluta. Indicadores confiáveis trazem a boa-nova segundo a qual, com tal processo de unificação do gênero, diminuiu consistentemente a pobreza em termos absolutos, embora as desigualdades sejam crescentes entre países e no interior dos diferentes países. Fenômeno agravado nestes últimos anos de impenitente crise, com seu cortejo dramático de desemprego estrutural, migrações massivas, tragédias econômicas que marcam o destino de milhões de pessoas.
Um bom diagnóstico, não pessimista, mas rigoroso em suas implicações, é o de que vivemos descompasso crescentemente insustentável entre a internacionalização das forças econômicas, que têm o mundo inteiro como seu teatro real, e a timidez da política - certamente, da política democrática, essa que mobiliza o interesse e a consciência de grandes massas -, cujo âmbito ainda são os Estados nacionais, relativamente impotentes para redefinir e regular correntes que superam amplamente sua capacidade de intervenção.
Esta, a realidade efetiva, para empregar expressão ao gosto de um clássico renascentista de 500 anos, completados no ano que ora finda. Inútil retornar, entre outras categorias, ao "finalismo" do comunismo do século 20, que imaginava a transição para um Estado ideal - o socialismo ou o comunismo, precisamente -, determinado pelo desenvolvimento das forças produtivas, que concretizaria, após o grande evento revolucionário, a hipótese do governo como mera administração das coisas. Uma realidade que comportaria, ainda, a supressão progressiva da mediação política, uma vez extirpadas as fontes básicas do conflito entre os homens. Para que, então, pensar o Estado, o Direito, a política - fantasmagorias destinadas a perecer paulatinamente, à medida que se aproximasse aquela imaginária e transparente realidade final da convivência humana?
Eis que descobrimos, ou redescobrimos, a ideia de que o movimento civilizatório é tudo, o fim é quase nada, ou, antes, será o que dele fizermos, em absoluta coerência com os meios de que lançarmos mão. Esquerda e direita ainda são palavras significativas na esfera pública, mas, além de palavras, devem se referir a coisas, situações, valores, classes, indivíduos. Apropriar-se, na medida do possível, dos mecanismos autonomizados que colonizam a vida dos indivíduos e lhes roubam autonomia e capacidade de escolha - essa deveria ser a tarefa fundamental das diferentes esquerdas.
Mas, assim como é um equívoco demonizar a direita - pois existem correntes moderadas e conservadoras que lutam legitimamente segundo as regras do jogo e, dentro da normal dialética democrática, não constituem retrocesso político ou social -, também não é suficiente, para a esquerda, a autocomplacência e a arrogância de se pretender, por definição, o "sal da terra". Apregoar pura e simplesmente "socialismo ou barbárie" significa cancelar, de modo míope, a tremenda realidade de que o século 20 conheceu formas bárbaras de socialismo, a seu tempo repudiadas pelas pessoas comuns às quais foram impostas.
Para onde quer que olhemos neste 2013, como dissemos, os sinais são às vezes iluminadores e às vezes, não. Por exemplo, perdemos Nelson Mandela, mas para reconstruir a esquerda a não violência é agora, e para sempre, valor estratégico. Como estratégico é compreender a política cada vez menos como coerção e cada vez mais como persuasão e convencimento mútuo. Sem abrir mão da intocável laicidade do Estado, patrimônio comum duramente conquistado, impossível ignorar, do ponto de vista da esquerda democrática, a bem-vinda presença de valores religiosos, revigorados por um pontífice que sob tantos aspectos traz à lembrança o afeto, a sabedoria e as luzes de João XXIII e seu Concílio Vaticano II - referência de diálogo entre as religiões, bem como entre religiosos e não religiosos.
Seria mesquinho reivindicar para um só lado do espectro político - qualquer que seja - o monopólio do terreno de encontro e diálogo. Ao contrário, a conquista maior consistiria em trazer para esse terreno a maior parte das forças políticas, sociais, intelectuais, sem apagar os bons motivos de diferença e divergência. Com isso aumentaríamos exponencialmente as chances de vencer os desafios da "emergência antropológica" à nossa frente. Mero desejo de um feliz 2014?
Nada difícil encontrar sinais contraditórios para onde quer que se olhe, no mundo e no Brasil, a confirmar que vivemos situação inédita em que não basta a navegação de cabotagem, quando acidentes geográficos familiares, ao alcance da vista, asseguram a tranquilidade do viajante. Agora, de cada um dos atores da cena pública o que se requer é a renovação ousada do repertório de conceitos e valores, de modo que, num cenário subitamente em movimento, encontros imprevistos entre tradições diferentes e até antagônicas podem descortinar modos novos de fazer política e cultura, à altura da situação que alguns definem como de "emergência antropológica", tamanhos os riscos (e as possibilidades) inerentes à atual estrutura do mundo.
Esta é toda uma época, como comumente se diz, de globalização neoliberal ou, se quisermos, de agressiva afirmação do "comunismo dos capitalistas", sob a égide dos caprichos voláteis e tempos velozes da grande finança. Uma época que pode ser lida sob a ótica da unificação contraditória do gênero humano, que deixa de ser categoria filosófico-especulativa para se tornar realidade imediatamente palpável para cada pessoa: já se observou, por exemplo, que até as doenças são globais, a exigir medidas que muitas vezes superam o poder de reação das autoridades de determinado país.
Nem tudo é perdição. Não vivemos, como diagnosticou certa esquerda de tons apocalípticos há um século diante do flagelo da guerra, a era da pecaminosidade absoluta. Indicadores confiáveis trazem a boa-nova segundo a qual, com tal processo de unificação do gênero, diminuiu consistentemente a pobreza em termos absolutos, embora as desigualdades sejam crescentes entre países e no interior dos diferentes países. Fenômeno agravado nestes últimos anos de impenitente crise, com seu cortejo dramático de desemprego estrutural, migrações massivas, tragédias econômicas que marcam o destino de milhões de pessoas.
Um bom diagnóstico, não pessimista, mas rigoroso em suas implicações, é o de que vivemos descompasso crescentemente insustentável entre a internacionalização das forças econômicas, que têm o mundo inteiro como seu teatro real, e a timidez da política - certamente, da política democrática, essa que mobiliza o interesse e a consciência de grandes massas -, cujo âmbito ainda são os Estados nacionais, relativamente impotentes para redefinir e regular correntes que superam amplamente sua capacidade de intervenção.
Esta, a realidade efetiva, para empregar expressão ao gosto de um clássico renascentista de 500 anos, completados no ano que ora finda. Inútil retornar, entre outras categorias, ao "finalismo" do comunismo do século 20, que imaginava a transição para um Estado ideal - o socialismo ou o comunismo, precisamente -, determinado pelo desenvolvimento das forças produtivas, que concretizaria, após o grande evento revolucionário, a hipótese do governo como mera administração das coisas. Uma realidade que comportaria, ainda, a supressão progressiva da mediação política, uma vez extirpadas as fontes básicas do conflito entre os homens. Para que, então, pensar o Estado, o Direito, a política - fantasmagorias destinadas a perecer paulatinamente, à medida que se aproximasse aquela imaginária e transparente realidade final da convivência humana?
Eis que descobrimos, ou redescobrimos, a ideia de que o movimento civilizatório é tudo, o fim é quase nada, ou, antes, será o que dele fizermos, em absoluta coerência com os meios de que lançarmos mão. Esquerda e direita ainda são palavras significativas na esfera pública, mas, além de palavras, devem se referir a coisas, situações, valores, classes, indivíduos. Apropriar-se, na medida do possível, dos mecanismos autonomizados que colonizam a vida dos indivíduos e lhes roubam autonomia e capacidade de escolha - essa deveria ser a tarefa fundamental das diferentes esquerdas.
Mas, assim como é um equívoco demonizar a direita - pois existem correntes moderadas e conservadoras que lutam legitimamente segundo as regras do jogo e, dentro da normal dialética democrática, não constituem retrocesso político ou social -, também não é suficiente, para a esquerda, a autocomplacência e a arrogância de se pretender, por definição, o "sal da terra". Apregoar pura e simplesmente "socialismo ou barbárie" significa cancelar, de modo míope, a tremenda realidade de que o século 20 conheceu formas bárbaras de socialismo, a seu tempo repudiadas pelas pessoas comuns às quais foram impostas.
Para onde quer que olhemos neste 2013, como dissemos, os sinais são às vezes iluminadores e às vezes, não. Por exemplo, perdemos Nelson Mandela, mas para reconstruir a esquerda a não violência é agora, e para sempre, valor estratégico. Como estratégico é compreender a política cada vez menos como coerção e cada vez mais como persuasão e convencimento mútuo. Sem abrir mão da intocável laicidade do Estado, patrimônio comum duramente conquistado, impossível ignorar, do ponto de vista da esquerda democrática, a bem-vinda presença de valores religiosos, revigorados por um pontífice que sob tantos aspectos traz à lembrança o afeto, a sabedoria e as luzes de João XXIII e seu Concílio Vaticano II - referência de diálogo entre as religiões, bem como entre religiosos e não religiosos.
Seria mesquinho reivindicar para um só lado do espectro político - qualquer que seja - o monopólio do terreno de encontro e diálogo. Ao contrário, a conquista maior consistiria em trazer para esse terreno a maior parte das forças políticas, sociais, intelectuais, sem apagar os bons motivos de diferença e divergência. Com isso aumentaríamos exponencialmente as chances de vencer os desafios da "emergência antropológica" à nossa frente. Mero desejo de um feliz 2014?
Feliz Brasil Novo - AÉCIO NEVES
FOLHA DE SP - 30/12
A última imagem do ano para milhões de brasileiros solidários é a do sofrimento das famílias vítimas da violência das chuvas. O Brasil assiste a um novo capítulo da mesma tragédia muitas vezes anunciada.
Nenhum governo é responsável por desastres naturais, por chuvas ou enchentes que arrastam vidas e esperanças. Mas são responsáveis pelo que fazem e deixam de fazer.
A presidente Dilma fez bem em simbolicamente levar a solidariedade do país aos brasileiros das regiões atingidas. Mas errou ao tratar essas situações tão graves como se não tivesse responsabilidade sobre elas. As visitas e as declarações da presidente seriam adequadas a alguém que tivesse assumido o cargo na véspera, mas não cabem a quem representa um governo que há 11 anos conduz o país.
Infelizmente, mais uma vez, o governo enfrenta um problema objetivo, acirrado pela sua própria omissão, sem reconhecer a sua parcela de responsabilidade e se limitando a fazer novas promessas. Promessas que, provavelmente, não serão cumpridas, como não foram as feitas no passado.
Na visita a Minas, vendo o sofrimento da cidade de Virgolândia, a presidente surpreendeu a muitos ao comentar que a cidade teve sorte por não ter um rio caudaloso passando por perto. E, em mais um lance de marketing, anunciou a liberação de um cartão "ilimitado" para as prefeituras.
Nenhuma palavra sobre as ações --ou a ausência delas-- do governo federal nos últimos anos. Nenhuma palavra sobre o fato de que das 630 obras acompanhadas no PAC 2, lançado em 2010 (mas que inclui obras anunciadas desde 2007), nas ações voltadas para a Prevenção de Áreas de Risco, apenas 54 tenham sido entregues até setembro passado.
Nenhum comentário sobre a constatação de que, dos R$ 11 bilhões anunciados pelo PAC 2 com a costumeira pompa para a mesma finalidade, apenas 0,5% correspondam às obras efetivamente entregues até a mesma data. Meio por cento! Números como esses falam mais do que qualquer propaganda.
Mais um ano se aproxima do seu final. E registro o que, em meio a tantos desafios, acredito que devemos especialmente celebrar: a consolidação da nossa democracia, com destaque para o Judiciário independente e a liberdade de imprensa assegurada.
A presença de milhares de brasileiros nas ruas, um coro de vozes que ainda ecoa à espera de respostas, é o retrato emblemático e inesquecível do ano que se encerra.
Que no final de 2014 possamos comemorar bem mais do que a "sorte" de cidades não terem rios, e celebrar vidas e esperanças que não terão sucumbido às inevitáveis chuvas que virão. E que possamos celebrar especialmente o resgate da confiança no futuro do país. Feliz Brasil Novo!
A última imagem do ano para milhões de brasileiros solidários é a do sofrimento das famílias vítimas da violência das chuvas. O Brasil assiste a um novo capítulo da mesma tragédia muitas vezes anunciada.
Nenhum governo é responsável por desastres naturais, por chuvas ou enchentes que arrastam vidas e esperanças. Mas são responsáveis pelo que fazem e deixam de fazer.
A presidente Dilma fez bem em simbolicamente levar a solidariedade do país aos brasileiros das regiões atingidas. Mas errou ao tratar essas situações tão graves como se não tivesse responsabilidade sobre elas. As visitas e as declarações da presidente seriam adequadas a alguém que tivesse assumido o cargo na véspera, mas não cabem a quem representa um governo que há 11 anos conduz o país.
Infelizmente, mais uma vez, o governo enfrenta um problema objetivo, acirrado pela sua própria omissão, sem reconhecer a sua parcela de responsabilidade e se limitando a fazer novas promessas. Promessas que, provavelmente, não serão cumpridas, como não foram as feitas no passado.
Na visita a Minas, vendo o sofrimento da cidade de Virgolândia, a presidente surpreendeu a muitos ao comentar que a cidade teve sorte por não ter um rio caudaloso passando por perto. E, em mais um lance de marketing, anunciou a liberação de um cartão "ilimitado" para as prefeituras.
Nenhuma palavra sobre as ações --ou a ausência delas-- do governo federal nos últimos anos. Nenhuma palavra sobre o fato de que das 630 obras acompanhadas no PAC 2, lançado em 2010 (mas que inclui obras anunciadas desde 2007), nas ações voltadas para a Prevenção de Áreas de Risco, apenas 54 tenham sido entregues até setembro passado.
Nenhum comentário sobre a constatação de que, dos R$ 11 bilhões anunciados pelo PAC 2 com a costumeira pompa para a mesma finalidade, apenas 0,5% correspondam às obras efetivamente entregues até a mesma data. Meio por cento! Números como esses falam mais do que qualquer propaganda.
Mais um ano se aproxima do seu final. E registro o que, em meio a tantos desafios, acredito que devemos especialmente celebrar: a consolidação da nossa democracia, com destaque para o Judiciário independente e a liberdade de imprensa assegurada.
A presença de milhares de brasileiros nas ruas, um coro de vozes que ainda ecoa à espera de respostas, é o retrato emblemático e inesquecível do ano que se encerra.
Que no final de 2014 possamos comemorar bem mais do que a "sorte" de cidades não terem rios, e celebrar vidas e esperanças que não terão sucumbido às inevitáveis chuvas que virão. E que possamos celebrar especialmente o resgate da confiança no futuro do país. Feliz Brasil Novo!
A confiança dos industriais - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 30/12
A recuperação da indústria pode estar começando, depois de dois anos muito ruins, mas as perspectivas para 2014 ainda são de crescimento muito moderado. De toda forma, há sinais de otimismo entre os dirigentes do setor e hoje há mais sinais positivos do que em novembro, comentou a pesquisadora Tabi Thuler Santos, da Fundação Getúlio Vargas, ao apresentar a edição de dezembro da Sondagem Conjuntural da Indústria de Transformação. Mas a sua avaliação foi complementada por um toque de prudência: é bom esperar a confirmação da tendência nos próximos meses. Sempre sensata, essa ressalva é especialmente justificável neste momento, quando a maior parte das previsões aponta mais um ano de crescimento econômico medíocre, inflação alta e sérias dificuldades no setor externo.
Três sinais positivos foram apontados pela coordenadora da sondagem, mas todos acompanhados de alguma restrição. O Índice de Confiança da Indústria, com variação de 1,1%, aumentou pelo segundo mês consecutivo e atingiu 100,1 pontos, o maior nível desde junho, mas ainda inferior à média dos últimos 60 meses (104 pontos). O Índice de Expectativas avançou pelo terceiro mês consecutivo e passou de 98,1 para 100,3, mas continuou abaixo da média histórica, de 103,2. A previsão de emprego para os próximos três meses subiu 3,1%, chegou a 100,4 pontos e, como os dois itens anteriores, continuou abaixo da média de cinco anos (112,2 pontos). Além disso, aponta mais para a estabilidade - período sem demissões - do que para mais contratações, observou a pesquisadora. O Índice de Situação Atual ficou praticamente estável, com variação de 00,9 para 100 pontos (média de 104,9).
Nenhum desses números valeria um comentário otimista, se a indústria de transformação estivesse operando em condições mais próximas da normalidade. Mas o setor esteve muito mal nos últimos dois anos. Perdeu espaço no comércio exterior e tem tido muita dificuldade para enfrentar os estrangeiros até no mercado interno, apesar da proteção oferecida a alguns segmentos pela política federal. Entre 1996 e 2012 a parcela de importados no consumo de bens industriais intermediários e finais passou de 12,5% para 22%. No terceiro trimestre de 2013 essa participação chegou a 22,8%, segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). O aumento de participação foi especialmente sensível nos últimos seis anos.
Segundo a CNI, a indústria de transformação deve ter crescido 2,3% neste ano e poderá crescer 2,5% no próximo. No ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB) de toda a indústria (mineração, transformação, construção e utilidade pública) diminuiu 0,8%. Para este ano a CNI estima 1,4% de expansão. O quadro geral, portanto, ainda é de estagnação, quando se leva em conta o desempenho a partir de 2011. Nos três primeiros anos do governo da presidente Dilma Rousseff o setor industrial permaneceu atolado em dificuldades. Os estímulos fiscais e financeiros adotados nesse período serviram muito mais para a expansão do consumo do que para o aumento da produção manufatureira.
Os sinais de otimismo detectados na sondagem da FGV podem ser antecipações de uma retomada do investimento industrial. O total investido pelo governo e pelo setor privado em todos os setores da economia continua abaixo de 20% do Produto Interno Bruto. No ano passado, o investimento diminuiu e a proporção em relação ao PIB foi pouco superior a 18%, uma taxa baixíssima em relação às necessidades nacionais (de, no mínimo, 24%) quanto e também quando comparada com os padrões das economias emergentes.
Para 2014 a CNI estima elevação de 5% no valor investido em máquinas, equipamentos e instalações públicas e privadas. Pelas projeções conhecidas até agora, ainda será insuficiente para alcançar 20% do PIB. Investimento depende só em parte da disponibilidade de recursos. A confiança na economia - e, portanto, na política econômica - é determinante. No País, essa confiança tem sido mais escassa que o financiamento.
A recuperação da indústria pode estar começando, depois de dois anos muito ruins, mas as perspectivas para 2014 ainda são de crescimento muito moderado. De toda forma, há sinais de otimismo entre os dirigentes do setor e hoje há mais sinais positivos do que em novembro, comentou a pesquisadora Tabi Thuler Santos, da Fundação Getúlio Vargas, ao apresentar a edição de dezembro da Sondagem Conjuntural da Indústria de Transformação. Mas a sua avaliação foi complementada por um toque de prudência: é bom esperar a confirmação da tendência nos próximos meses. Sempre sensata, essa ressalva é especialmente justificável neste momento, quando a maior parte das previsões aponta mais um ano de crescimento econômico medíocre, inflação alta e sérias dificuldades no setor externo.
Três sinais positivos foram apontados pela coordenadora da sondagem, mas todos acompanhados de alguma restrição. O Índice de Confiança da Indústria, com variação de 1,1%, aumentou pelo segundo mês consecutivo e atingiu 100,1 pontos, o maior nível desde junho, mas ainda inferior à média dos últimos 60 meses (104 pontos). O Índice de Expectativas avançou pelo terceiro mês consecutivo e passou de 98,1 para 100,3, mas continuou abaixo da média histórica, de 103,2. A previsão de emprego para os próximos três meses subiu 3,1%, chegou a 100,4 pontos e, como os dois itens anteriores, continuou abaixo da média de cinco anos (112,2 pontos). Além disso, aponta mais para a estabilidade - período sem demissões - do que para mais contratações, observou a pesquisadora. O Índice de Situação Atual ficou praticamente estável, com variação de 00,9 para 100 pontos (média de 104,9).
Nenhum desses números valeria um comentário otimista, se a indústria de transformação estivesse operando em condições mais próximas da normalidade. Mas o setor esteve muito mal nos últimos dois anos. Perdeu espaço no comércio exterior e tem tido muita dificuldade para enfrentar os estrangeiros até no mercado interno, apesar da proteção oferecida a alguns segmentos pela política federal. Entre 1996 e 2012 a parcela de importados no consumo de bens industriais intermediários e finais passou de 12,5% para 22%. No terceiro trimestre de 2013 essa participação chegou a 22,8%, segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). O aumento de participação foi especialmente sensível nos últimos seis anos.
Segundo a CNI, a indústria de transformação deve ter crescido 2,3% neste ano e poderá crescer 2,5% no próximo. No ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB) de toda a indústria (mineração, transformação, construção e utilidade pública) diminuiu 0,8%. Para este ano a CNI estima 1,4% de expansão. O quadro geral, portanto, ainda é de estagnação, quando se leva em conta o desempenho a partir de 2011. Nos três primeiros anos do governo da presidente Dilma Rousseff o setor industrial permaneceu atolado em dificuldades. Os estímulos fiscais e financeiros adotados nesse período serviram muito mais para a expansão do consumo do que para o aumento da produção manufatureira.
Os sinais de otimismo detectados na sondagem da FGV podem ser antecipações de uma retomada do investimento industrial. O total investido pelo governo e pelo setor privado em todos os setores da economia continua abaixo de 20% do Produto Interno Bruto. No ano passado, o investimento diminuiu e a proporção em relação ao PIB foi pouco superior a 18%, uma taxa baixíssima em relação às necessidades nacionais (de, no mínimo, 24%) quanto e também quando comparada com os padrões das economias emergentes.
Para 2014 a CNI estima elevação de 5% no valor investido em máquinas, equipamentos e instalações públicas e privadas. Pelas projeções conhecidas até agora, ainda será insuficiente para alcançar 20% do PIB. Investimento depende só em parte da disponibilidade de recursos. A confiança na economia - e, portanto, na política econômica - é determinante. No País, essa confiança tem sido mais escassa que o financiamento.
Tempo perdido - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 30/12
Os bons resultados das licitações realizadas este ano para concessões no setor de infraestrutura de transportes (rodovias e aeroportos) ou para exploração de petróleo não deixam dúvida que o governo cometeu um grave erro quando interrompeu esse processo, basicamente por preconceito ideológico.
A campanha sistemática que o PT promoveu contra a privatização antes de chegar ao poder deixou os governos Lula e Dilma em situação embaraçosa. Politicamente, não seria possível admitir que as concessões privadas eram a opção racional para se deslanchar investimentos em infraestrutura diante da incapacidade financeira e gerencial do setor público. Os governos Lula e Dilma perderam tempo precioso tentando reinventar a roda.
Aperfeiçoamentos e ajustes nesse processo seriam naturais e recomendáveis a partir da experiência acumulada, mas o governo Lula e o de Dilma, inicialmente, estavam tão preocupados em não caracterizar concessões como uma forma de privatização que exageraram na dose de intervencionismo nas licitações que decidiram realizar. O número de interessados foi diminuindo, e o resultados nem sempre se mostraram satisfatórios.
No meio do mandato da presidente Dilma, com a economia brasileira dando clara demonstração que a fórmula de estímulo ao consumo doméstico não seria capaz de sustentar o ritmo de crescimento que o governo vinha apregoando (em determinado momento chegando à fanfarronice de querer dar lições aos países desenvolvidos, em crise), houve uma reviravolta e os equívocos começaram a ser corrigidos. O mercado passou a receber bem essas mudanças, e quase todas as licitações realizadas nos últimos três meses foram bem-sucedidas.
Mesmo sendo um ano eleitoral, tudo leva a crer que as licitações que o governo decidiu realizar em 2014 para concessões na infraestrutura de transporte terão bom resultado. Falta testar o modelo em novas ferrovias, mas se as autoridades ouvirem, também nesse segmento, as partes interessadas, o risco de dar errado será mínimo.
O preconceito contra a privatização é politicamente jurássica. O Estado tem muitas atribuições e missões a cumprir ao meio de restrições orçamentárias incontornáveis. Está alicerçado em uma estrutura pesada e tem de se submeter a regras que o tornam gerencialmente incapacitado a realizar investimentos e a gerir satisfatoriamente grandes rodovias, ferrovias, portos e aeroportos. Tais segmentos podem ser financeiramente autossustentáveis nas mãos de concessionários, em razão dos benefícios que proporcionam a seus usuários.
A economia brasileira convive há décadas com taxas de investimento insatisfatórias, que reduzem a capacidade produtiva do país. Para resolver grande parte de seus problemas, o Brasil precisa de uma economia mais competitiva, e sem multiplicar investimentos não conseguirá atingir o grau de eficiência que tanto precisa. E se licitação é ou não “privatização”, trata-se de discussão semântica.
Os bons resultados das licitações realizadas este ano para concessões no setor de infraestrutura de transportes (rodovias e aeroportos) ou para exploração de petróleo não deixam dúvida que o governo cometeu um grave erro quando interrompeu esse processo, basicamente por preconceito ideológico.
A campanha sistemática que o PT promoveu contra a privatização antes de chegar ao poder deixou os governos Lula e Dilma em situação embaraçosa. Politicamente, não seria possível admitir que as concessões privadas eram a opção racional para se deslanchar investimentos em infraestrutura diante da incapacidade financeira e gerencial do setor público. Os governos Lula e Dilma perderam tempo precioso tentando reinventar a roda.
Aperfeiçoamentos e ajustes nesse processo seriam naturais e recomendáveis a partir da experiência acumulada, mas o governo Lula e o de Dilma, inicialmente, estavam tão preocupados em não caracterizar concessões como uma forma de privatização que exageraram na dose de intervencionismo nas licitações que decidiram realizar. O número de interessados foi diminuindo, e o resultados nem sempre se mostraram satisfatórios.
No meio do mandato da presidente Dilma, com a economia brasileira dando clara demonstração que a fórmula de estímulo ao consumo doméstico não seria capaz de sustentar o ritmo de crescimento que o governo vinha apregoando (em determinado momento chegando à fanfarronice de querer dar lições aos países desenvolvidos, em crise), houve uma reviravolta e os equívocos começaram a ser corrigidos. O mercado passou a receber bem essas mudanças, e quase todas as licitações realizadas nos últimos três meses foram bem-sucedidas.
Mesmo sendo um ano eleitoral, tudo leva a crer que as licitações que o governo decidiu realizar em 2014 para concessões na infraestrutura de transporte terão bom resultado. Falta testar o modelo em novas ferrovias, mas se as autoridades ouvirem, também nesse segmento, as partes interessadas, o risco de dar errado será mínimo.
O preconceito contra a privatização é politicamente jurássica. O Estado tem muitas atribuições e missões a cumprir ao meio de restrições orçamentárias incontornáveis. Está alicerçado em uma estrutura pesada e tem de se submeter a regras que o tornam gerencialmente incapacitado a realizar investimentos e a gerir satisfatoriamente grandes rodovias, ferrovias, portos e aeroportos. Tais segmentos podem ser financeiramente autossustentáveis nas mãos de concessionários, em razão dos benefícios que proporcionam a seus usuários.
A economia brasileira convive há décadas com taxas de investimento insatisfatórias, que reduzem a capacidade produtiva do país. Para resolver grande parte de seus problemas, o Brasil precisa de uma economia mais competitiva, e sem multiplicar investimentos não conseguirá atingir o grau de eficiência que tanto precisa. E se licitação é ou não “privatização”, trata-se de discussão semântica.
Cenário sombrio - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 30/12
A economia brasileira deverá ser marcada no último ano do mandato da presidente - e economista - Dilma Rousseff pela consolidação de expectativas que a própria equipe plantou desde a posse. Sem surpresas, 2014 fechará com crescimento em torno de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) e com inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mais próxima de 6% que do centro da meta fixada pelo Banco Central (BC), de 4,5%.
Até mesmo o monstro que estava na jaula e ameaçava turvar esses prognósticos rasos foi domado antes mesmo de o novo ano chegar. Representado pela iminente suspensão dos pesados estímulos financeiros à economia dos Estados Unidos pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), o apocalipse financeiro não está mais à espreita.
Essa contenção de forte fator de alta sobre a cotação local do dólar e de limitação para outros indicadores de desempenho do país foi anunciada semana passada, sinalizando transição tranquila e gradual, a começar em janeiro. No último anúncio antes de deixar o cargo, Ben Bernanke, presidente do Fed, afirmou que as taxas de juros nos EUA poderão continuar baixas, próximas de zero, ainda por bom tempo, o mesmo necessário para o Brasil reduzir a fragilidade externa.
A agenda típica de ano eleitoral não vai dar chances a ajustes macroeconômicos impopulares, como os da Previdência e do mercado de trabalho. Nem os gastos públicos extras tão comuns nesse período vão impulsionar a atividade produtiva a ponto de acelerar o PIB, a exemplo do que foi o chamado pibão de 2010. O problema maior, contudo, está ao redor do cenário que está sendo desenhado para os próximos 12 meses.
Os fundamentos econômicos - como o da dívida externa, que engordou 37% desde 2011 - pioram, deixando conta salgada para 2015, o primeiro ano de um governo de oposição ao atual ou o começo da segunda gestão da presidente, com a qual se completariam 16 anos de PT no poder. A maior esperança de reversão do marasmo econômico que ronda a economia e deixa mais evidentes os problemas fiscais da União continua numa reação dos investimentos.
Sustentada até agora pelo consumo, com a liberação generosa de crédito e os cortes temporários de tributos, a economia está cada vez mais dependente da aplicação de recursos públicos e privados no aumento da capacidade de produção, da eficiência e, sobretudo, da infraestrutura. Por isso tudo, é fundamental continuar o avanço percebido no segundo semestre de 2013 das concessões de portos, ferrovias, aeroportos e rodovias.
Além de manter em alta as taxas de emprego e renda, os projetos para dotar o país de condições sustentáveis de crescimento são a única chance de estancar a perda de competitividade perante o mundo. Em paralelo, os ganhos reais de salários começaram a se estreitar, a oferta de crédito às pessoas físicas dá sinais de fadiga e as taxas de juros médias dos empréstimos seguem estrangulando o orçamento de um quarto das famílias brasileiras.
O esgotamento do modelo econômico em vigor desde a última década impôs uma agenda ao governo que ainda não se concluiu em razão da burocracia, da ineficiência estatal e das contingências políticas. O novo modelo, virtuoso e perene, poderá exigir rupturas, que só não virão se houver acomodação eleitoral diante da contínua mobilidade social dentro da classe média.
Até mesmo o monstro que estava na jaula e ameaçava turvar esses prognósticos rasos foi domado antes mesmo de o novo ano chegar. Representado pela iminente suspensão dos pesados estímulos financeiros à economia dos Estados Unidos pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), o apocalipse financeiro não está mais à espreita.
Essa contenção de forte fator de alta sobre a cotação local do dólar e de limitação para outros indicadores de desempenho do país foi anunciada semana passada, sinalizando transição tranquila e gradual, a começar em janeiro. No último anúncio antes de deixar o cargo, Ben Bernanke, presidente do Fed, afirmou que as taxas de juros nos EUA poderão continuar baixas, próximas de zero, ainda por bom tempo, o mesmo necessário para o Brasil reduzir a fragilidade externa.
A agenda típica de ano eleitoral não vai dar chances a ajustes macroeconômicos impopulares, como os da Previdência e do mercado de trabalho. Nem os gastos públicos extras tão comuns nesse período vão impulsionar a atividade produtiva a ponto de acelerar o PIB, a exemplo do que foi o chamado pibão de 2010. O problema maior, contudo, está ao redor do cenário que está sendo desenhado para os próximos 12 meses.
Os fundamentos econômicos - como o da dívida externa, que engordou 37% desde 2011 - pioram, deixando conta salgada para 2015, o primeiro ano de um governo de oposição ao atual ou o começo da segunda gestão da presidente, com a qual se completariam 16 anos de PT no poder. A maior esperança de reversão do marasmo econômico que ronda a economia e deixa mais evidentes os problemas fiscais da União continua numa reação dos investimentos.
Sustentada até agora pelo consumo, com a liberação generosa de crédito e os cortes temporários de tributos, a economia está cada vez mais dependente da aplicação de recursos públicos e privados no aumento da capacidade de produção, da eficiência e, sobretudo, da infraestrutura. Por isso tudo, é fundamental continuar o avanço percebido no segundo semestre de 2013 das concessões de portos, ferrovias, aeroportos e rodovias.
Além de manter em alta as taxas de emprego e renda, os projetos para dotar o país de condições sustentáveis de crescimento são a única chance de estancar a perda de competitividade perante o mundo. Em paralelo, os ganhos reais de salários começaram a se estreitar, a oferta de crédito às pessoas físicas dá sinais de fadiga e as taxas de juros médias dos empréstimos seguem estrangulando o orçamento de um quarto das famílias brasileiras.
O esgotamento do modelo econômico em vigor desde a última década impôs uma agenda ao governo que ainda não se concluiu em razão da burocracia, da ineficiência estatal e das contingências políticas. O novo modelo, virtuoso e perene, poderá exigir rupturas, que só não virão se houver acomodação eleitoral diante da contínua mobilidade social dentro da classe média.
Novas rotas em 2014 - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 30/12
O embarque de grãos nos portos do Arco Norte deve reorganizar o fluxo de cargas em mais da metade do mapa brasileiro, numa espécie de revolução logística com reflexos no Sul e no Sudeste
Escondida entre as perspectivas do agronegócio para 2014, uma questão com reflexo de longo prazo para a economia de todo o país vem sendo tratada como assunto de interesse exclusivo da agropecuária e da agroindústria. O embarque de grãos nos portos do Arco Norte deve reorganizar o fluxo de cargas em mais da metade do mapa brasileiro, numa espécie de revolução logística com reflexos nos principais portos do Sul e do Sudeste.
Embora as obras sejam demoradas, as mudanças começam nos próximos meses. Os terminais marítimos e fluviais do Norte, historicamente portas de entrada, vão assumir uma parcela significativa do escoamento das exportações agrícolas – sempre delegado à metade Sul do país – numa fase de expansão das lavouras.
O Terminal de Grãos do Maranhão (Tegram) vai inaugurar o primeiro de quatro armazéns para grãos no Porto de Itaqui, em São Luís (MA), em 2014. A capacidade operacional do porto está passando de 3,8 milhões para 5 milhões de toneladas. Uma tendência que se estende aos portos de Belém (PA), Macapá-Santana (AP) e Itacoatiara (AM).
O Arco Norte como um todo espera ter a capacidade operacional de seus portos ampliada de 11 milhões para 19 milhões de toneladas por força dos projetos em andamento. Isso dentro de um ou dois anos. A Confederação Nacional da Indústria avalia que essa capacidade chegará a 50 milhões de toneladas em 2020, considerando essencialmente investimentos privados. Esse volume equivale à movimentação total de cargas prevista para 2014 nos portos de Paranaguá e Antonina, no Paraná.
Para essa façanha, é claro, o Arco Norte depende também da conclusão de obras em rodovias e ferrovias da região. Numa das novas vias de escoamento, o trecho da BR-163 que liga Mato Grosso ao Pará, devem ser transportados 3 milhões de toneladas de grãos da safra que será colhida a partir de janeiro. A rodovia está sendo asfaltada, mas os caminhões ainda percorrem 400 quilômetros de estrada de terra. A navegação do percurso em direção ao Canal do Panamá começa ainda nos rios Madeira, Tapajós e Amazonas.
Confirmado o escoamento de 8 milhões de toneladas de grãos a mais pelos portos do Norte, isso não significará necessariamente queda na movimentação de soja e milho no Sul. Os portos de Paranaguá, São Francisco do Sul (SC) e Rio Grande (RS) fazem ajustes e investimentos, prevendo movimentação até 15% maior (ou incremento de 5 milhões de toneladas) em 2013/14. Isso dependerá de aumento na produção (e nas exportações) das regiões agrícolas mais próximas dos terminais.
A produção de grãos do país caminha para 200 milhões de toneladas nesta temporada, com avanço de 65 milhões de toneladas em cinco anos, e tende a continuar crescendo. Uma marca que entrará para a história, por antecipar números que seriam atingidos na metade final desta década. Com a expansão de 11% na safra de soja, para 90 milhões de toneladas, o país se firma como líder global na produção e na exportação.
A mudança no fluxo das cargas está diretamente relacionada a essa expansão. A ampliação de lavouras ocorre com mais força em Mato Grosso e nos estados que compõem a nova fronteira agrícola do Centro-Norte (Tocantins, Pará, Maranhão, Piauí e Bahia). Essas regiões vão movimentar os portos do Arco Norte e tendem a trabalhar menos com o Sul, embora ninguém aposte que Mato Grosso jamais exportará novamente milho por Rio Grande, ou que a Bahia deixará de embarcar algodão em Paranaguá.
Num ano de produção crescente e de “inauguração” de um novo plano logístico, o agronegócio torce por fatores externos. Os preços do mercado internacional é que vão determinar a renda do setor e o ritmo da expansão das lavouras na próxima temporada. E as operações dos portos do Norte serão estimuladas pela ampliação do Canal do Panamá. Com a obra de R$ 10 bilhões – a ser entregue exatamente um século após a inauguração do corredor de 1914 – entram na rota navios duas vezes maiores. A capacidade operacional do canal vai passar de 320 milhões para 600 milhões de toneladas. E o caminho do agronegócio do Brasil para a Ásia, continente que impulsiona a produção de alimentos, ficará ainda mais curto.
O embarque de grãos nos portos do Arco Norte deve reorganizar o fluxo de cargas em mais da metade do mapa brasileiro, numa espécie de revolução logística com reflexos no Sul e no Sudeste
Escondida entre as perspectivas do agronegócio para 2014, uma questão com reflexo de longo prazo para a economia de todo o país vem sendo tratada como assunto de interesse exclusivo da agropecuária e da agroindústria. O embarque de grãos nos portos do Arco Norte deve reorganizar o fluxo de cargas em mais da metade do mapa brasileiro, numa espécie de revolução logística com reflexos nos principais portos do Sul e do Sudeste.
Embora as obras sejam demoradas, as mudanças começam nos próximos meses. Os terminais marítimos e fluviais do Norte, historicamente portas de entrada, vão assumir uma parcela significativa do escoamento das exportações agrícolas – sempre delegado à metade Sul do país – numa fase de expansão das lavouras.
O Terminal de Grãos do Maranhão (Tegram) vai inaugurar o primeiro de quatro armazéns para grãos no Porto de Itaqui, em São Luís (MA), em 2014. A capacidade operacional do porto está passando de 3,8 milhões para 5 milhões de toneladas. Uma tendência que se estende aos portos de Belém (PA), Macapá-Santana (AP) e Itacoatiara (AM).
O Arco Norte como um todo espera ter a capacidade operacional de seus portos ampliada de 11 milhões para 19 milhões de toneladas por força dos projetos em andamento. Isso dentro de um ou dois anos. A Confederação Nacional da Indústria avalia que essa capacidade chegará a 50 milhões de toneladas em 2020, considerando essencialmente investimentos privados. Esse volume equivale à movimentação total de cargas prevista para 2014 nos portos de Paranaguá e Antonina, no Paraná.
Para essa façanha, é claro, o Arco Norte depende também da conclusão de obras em rodovias e ferrovias da região. Numa das novas vias de escoamento, o trecho da BR-163 que liga Mato Grosso ao Pará, devem ser transportados 3 milhões de toneladas de grãos da safra que será colhida a partir de janeiro. A rodovia está sendo asfaltada, mas os caminhões ainda percorrem 400 quilômetros de estrada de terra. A navegação do percurso em direção ao Canal do Panamá começa ainda nos rios Madeira, Tapajós e Amazonas.
Confirmado o escoamento de 8 milhões de toneladas de grãos a mais pelos portos do Norte, isso não significará necessariamente queda na movimentação de soja e milho no Sul. Os portos de Paranaguá, São Francisco do Sul (SC) e Rio Grande (RS) fazem ajustes e investimentos, prevendo movimentação até 15% maior (ou incremento de 5 milhões de toneladas) em 2013/14. Isso dependerá de aumento na produção (e nas exportações) das regiões agrícolas mais próximas dos terminais.
A produção de grãos do país caminha para 200 milhões de toneladas nesta temporada, com avanço de 65 milhões de toneladas em cinco anos, e tende a continuar crescendo. Uma marca que entrará para a história, por antecipar números que seriam atingidos na metade final desta década. Com a expansão de 11% na safra de soja, para 90 milhões de toneladas, o país se firma como líder global na produção e na exportação.
A mudança no fluxo das cargas está diretamente relacionada a essa expansão. A ampliação de lavouras ocorre com mais força em Mato Grosso e nos estados que compõem a nova fronteira agrícola do Centro-Norte (Tocantins, Pará, Maranhão, Piauí e Bahia). Essas regiões vão movimentar os portos do Arco Norte e tendem a trabalhar menos com o Sul, embora ninguém aposte que Mato Grosso jamais exportará novamente milho por Rio Grande, ou que a Bahia deixará de embarcar algodão em Paranaguá.
Num ano de produção crescente e de “inauguração” de um novo plano logístico, o agronegócio torce por fatores externos. Os preços do mercado internacional é que vão determinar a renda do setor e o ritmo da expansão das lavouras na próxima temporada. E as operações dos portos do Norte serão estimuladas pela ampliação do Canal do Panamá. Com a obra de R$ 10 bilhões – a ser entregue exatamente um século após a inauguração do corredor de 1914 – entram na rota navios duas vezes maiores. A capacidade operacional do canal vai passar de 320 milhões para 600 milhões de toneladas. E o caminho do agronegócio do Brasil para a Ásia, continente que impulsiona a produção de alimentos, ficará ainda mais curto.
O desafio da mobilidade - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 30/12
As manifestações populares de junho e julho colocaram no centro da agenda nacional o debate sobre transporte público e mobilidade urbana. Em boa hora: o país atravessou 2013 quase parando, em decorrência dos engarrafamentos diários nas grandes cidades. Neste ano que está terminando, a indústria automobilística bateu recorde de vendas, especialmente no primeiro semestre. Nos últimos 10 anos, entre setembro de 2003 e o mesmo período deste ano, enquanto a população brasileira cresceu 11%, houve um aumento de 123% na frota do país _ uma média de 12 mil carros por dia _, segundo registros do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). Como o país já concentra 85% de seus 200 milhões de habitantes nos grandes centros urbanos, é fácil imaginar onde fomos parar: no meio das ruas e avenidas, sem poder avançar.
Ter um carro deixou de ser sinônimo de autonomia, velocidade e conforto. Virou, em muitos casos, perda de tempo e de qualidade de vida. A saída viável, todos concordam, é a utilização do transporte coletivo e de alternativas como a bicicleta, mas nossas cidades não estão preparadas para tal transição, que exige, acima de tudo, uma mudança de mentalidade. O estímulo à compra e à utilização de veículos ainda é muito mais forte do que os apelos para as pessoas deixarem os carros em casa. Pior: as deficiências do transporte público e a precariedade das estruturas urbanas acabam desestimulando quem busca a solução coletiva.
O carro, como símbolo de sucesso, acabou subvertendo o uso do espaço público. As cidades têm sido pensadas para o automóvel e não para as pessoas que as habitam. Como carro polui, ocupa espaço e representa despesa considerável no orçamento doméstico, tende a perder o encanto, especialmente se os administradores públicos não encontrarem saídas para os problemas do trânsito.
Evidentemente, não é um desafio apenas dos governos, embora lhes caiba investir nas soluções viárias, organizar os espaços públicos e oferecer alternativas compatíveis com as necessidades da população. O desafio da mobilidade também exige atitudes individuais, mudanças de comportamento, menos egoísmo e mais compartilhamento. Trocar o carro pela bicicleta ainda parece absurdo para muitos brasileiros e simples aventura para outros. Mas já é prática comum para parcela expressiva das populações de muitas cidades da Europa e da Ásia.
No ano em que o Brasil saiu às ruas para reclamar transporte público mais qualificado e a preços mais acessíveis, ficamos todos com esse dever de casa: como sair do brete das estradas entupidas de veículos?
As manifestações populares de junho e julho colocaram no centro da agenda nacional o debate sobre transporte público e mobilidade urbana. Em boa hora: o país atravessou 2013 quase parando, em decorrência dos engarrafamentos diários nas grandes cidades. Neste ano que está terminando, a indústria automobilística bateu recorde de vendas, especialmente no primeiro semestre. Nos últimos 10 anos, entre setembro de 2003 e o mesmo período deste ano, enquanto a população brasileira cresceu 11%, houve um aumento de 123% na frota do país _ uma média de 12 mil carros por dia _, segundo registros do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). Como o país já concentra 85% de seus 200 milhões de habitantes nos grandes centros urbanos, é fácil imaginar onde fomos parar: no meio das ruas e avenidas, sem poder avançar.
Ter um carro deixou de ser sinônimo de autonomia, velocidade e conforto. Virou, em muitos casos, perda de tempo e de qualidade de vida. A saída viável, todos concordam, é a utilização do transporte coletivo e de alternativas como a bicicleta, mas nossas cidades não estão preparadas para tal transição, que exige, acima de tudo, uma mudança de mentalidade. O estímulo à compra e à utilização de veículos ainda é muito mais forte do que os apelos para as pessoas deixarem os carros em casa. Pior: as deficiências do transporte público e a precariedade das estruturas urbanas acabam desestimulando quem busca a solução coletiva.
O carro, como símbolo de sucesso, acabou subvertendo o uso do espaço público. As cidades têm sido pensadas para o automóvel e não para as pessoas que as habitam. Como carro polui, ocupa espaço e representa despesa considerável no orçamento doméstico, tende a perder o encanto, especialmente se os administradores públicos não encontrarem saídas para os problemas do trânsito.
Evidentemente, não é um desafio apenas dos governos, embora lhes caiba investir nas soluções viárias, organizar os espaços públicos e oferecer alternativas compatíveis com as necessidades da população. O desafio da mobilidade também exige atitudes individuais, mudanças de comportamento, menos egoísmo e mais compartilhamento. Trocar o carro pela bicicleta ainda parece absurdo para muitos brasileiros e simples aventura para outros. Mas já é prática comum para parcela expressiva das populações de muitas cidades da Europa e da Ásia.
No ano em que o Brasil saiu às ruas para reclamar transporte público mais qualificado e a preços mais acessíveis, ficamos todos com esse dever de casa: como sair do brete das estradas entupidas de veículos?
Equilíbrio judicial - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 30/12
Brasil ainda precisa achar ponto ideal entre ativismo e autocontenção dos tribunais em demandas relacionadas a políticas públicas
O ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso tem razão ao asseverar, em entrevista a esta Folha, que a inércia do Congresso Nacional por vezes oferece riscos à democracia.
Procurou justificar, dessa maneira, a atuação do STF em casos nos quais a decisão da corte parece extrapolar os limites da interpretação e invadir uma esfera que seria própria do Legislativo --como no julgamento sobre a constitucionalidade de doações eleitorais feitas por empresas.
Aos olhos de Barroso, o Supremo pode, com esse processo, recolocar a reforma política na pauta do Congresso. Seria uma forma de o Judiciário "empurrar a história".
A tese pode parecer sedutora, sobretudo quando se trata de sugerir aprimoramentos ao sistema político brasileiro. Não se pode deixar de observar, contudo, que esse ativismo do Judiciário também carrega seu feixe de ameaças ao funcionamento da democracia --e não são poucas nem desprezíveis.
Com a promulgação da Constituição de 1988, aumentou muito a chamada judicialização da política no Brasil. O fenômeno tornou-se a tal ponto abrangente que passou a afetar desde as regras eleitorais até programas de governo --como as privatizações-- e políticas públicas --como acesso à saúde, à educação e à moradia.
Reconheça-se que é função do Judiciário garantir a efetividade dos direitos políticos, econômicos e sociais sempre que o Legislativo e o Executivo deixarem de cumprir suas obrigações --ou seja, quando se abstiverem.
No limite, diante da omissão dos outros Poderes, um juiz não pode ser passivo sem com isso abdicar de sua principal missão.
A esse respeito, o STF tem se destacado. Casos envolvendo o sistema político --fidelidade partidária e verticalização de coligações--, demarcação de terras indígenas, casamento de pessoas do mesmo sexo e aborto de anencéfalos testemunham o protagonismo da corte.
É preciso considerar, por outro lado, que características inerentes ao Judiciário restringem sua capacidade de criar políticas públicas ou corrigir o rumo de decisões tomadas pelos outros Poderes.
Fazê-lo requer ações legislativas ou administrativas para as quais os tribunais não são capacitados nem vocacionados. Ainda pior, sempre haverá o risco de juízes modificarem para pior programas que, embora imperfeitos, foram concebidos por indivíduos eleitos --com maior legitimidade, portanto.
De resto, como as demandas que chegam às cortes são, em sua maioria, individuais, as intervenções judiciais contêm um efeito perverso em potencial: sem conseguirem medir ou antecipar os impactos distributivos de suas decisões, juízes podem privilegiar aqueles que, por terem recursos para pagar um advogado, puxam para si o cobertor curto das políticas públicas.
Chama a atenção, por essa razão, um caso recente envolvendo o direito à educação.
O Tribunal de Justiça de São Paulo determinou que a prefeitura crie 150 mil novas vagas para a educação infantil na cidade --105 mil em creches (para crianças de 0 a 3 anos) e o restante em pré-escolas (crianças de 4 e 5 anos).
A ordem judicial também estabeleceu um cronograma de implementação --metade das vagas deve estar disponível em até 18 meses-- e uma comissão de acompanhamento. Mais do que isso, chegou ao extremo --questionável-- de detalhar critérios substantivos para a distribuição dessas vagas.
A novidade é justamente um novo padrão de relacionamento entre tribunais e poderes políticos. A decisão do TJ abrange todo o contexto da educação infantil, e não apenas casos individuais --na cidade de São Paulo, cerca de 12 mil crianças conseguiram vagas em creches públicas por meio de ordem judicial em 2013, crescimento de 58% em relação ao ano passado.
Se conseguir de fato promover uma articulação funcional e cooperativa entre diferentes atores institucionais, a inovação jurisprudencial do TJ será virtuosa. O Brasil se aproximará, com isso, de países como os EUA, a Colômbia e a África do Sul, nos quais a judicialização de políticas públicas alcançou padrões mais elaborados, com ganhos para os cidadãos.
Se terminar usurpando competências do Executivo e ambicionar, em substituição ao governo, conduzir a política educacional, a decisão será desastrosa.
Em democracias consolidadas, tribunais se pautam pelo equilíbrio entre ativismo e autocontenção. Na jovem democracia brasileira, a busca por essa fórmula está em curso e dependerá, em boa medida, do sucesso (ou fracasso) de experiências como a do TJ-SP e da sobriedade dos ministros do Supremo Tribunal Federal.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
Farra com recursos da Conab continua no Sul
Líder nos gastos sob suspeita com o Programa de Aquisição de Alimentos, o Rio Grande do Sul continua encalacrado na farra investigada na Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), do Ministério da Agricultura. Após a compra irregular de sucos de uva, foram torrados R$ 13 milhões em leite em pó por três cooperativas registradas no sistema financeiro do governo, que também estão sob investigação.
Filho sem pai
Gente cara
Feio, porém simpático
Humberto Castello Branco tinha 22 anos quando foi apresentado pela irmã Lurdinha, em Belo Horizonte, a um grupo de moças interessadas em conhecer aquele rapaz “baixinho e feio”, mas culto e “muito inteligente”. Entre elas, estava a bela Argentina Viana, que, depois, entregaria os pontos:
- Não o acho tão feio assim, e ele é muito simpático.
Apaixonaram-se e foram casados por 41 anos. Ela morreu do coração um ano antes de ele assumir a Presidência da República, em 1964.
Líder nos gastos sob suspeita com o Programa de Aquisição de Alimentos, o Rio Grande do Sul continua encalacrado na farra investigada na Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), do Ministério da Agricultura. Após a compra irregular de sucos de uva, foram torrados R$ 13 milhões em leite em pó por três cooperativas registradas no sistema financeiro do governo, que também estão sob investigação.
Filho sem pai
Por bagunça ou má-fé, a Conab só reconhece uma compra, apesar do registro delas no Siafi, sistema de administração financeira do governo.
Uma mãe
Uma mãe
A Conab só admite a compra de leite em pó pela Cosulati, que recebeu R$ 1,5 milhão em julho, mas só entregará mercadoria um ano depois.
Sem dono
Sem dono
A Conab desconhece os “adiantamentos a fornecedores” para Cootap (R$ 3,2 milhões) e CPC (R$ 7 milhões), apesar de registrados no Siaf.
Nome ao ‘boi’
Nome ao ‘boi’
À frente da Conab está seu diretor de Operações, Silvio Porto, que, investigado, até já foi levado para depor na PF, mas continua no cargo.
Funcionalismo consome 71% da arrecadação
Durante o ano de 2013, já foram registrados gastos de R$ 1,13 trilhão em gastos diretos federais para o pagamento de pessoal e encargos. Isso significa que as despesas com o funcionalismo dos Três Poderes consomem quase 71% do total do esforço de arrecadação de tributos em todo o País, segundo dados do Portal da Transparência. Até agora, já foram arrecadados pela União mais de R$ 1,6 trilhão em impostos.
Renda minha
Funcionalismo consome 71% da arrecadação
Durante o ano de 2013, já foram registrados gastos de R$ 1,13 trilhão em gastos diretos federais para o pagamento de pessoal e encargos. Isso significa que as despesas com o funcionalismo dos Três Poderes consomem quase 71% do total do esforço de arrecadação de tributos em todo o País, segundo dados do Portal da Transparência. Até agora, já foram arrecadados pela União mais de R$ 1,6 trilhão em impostos.
Renda minha
É tanto dinheiro arrecadado com impostos que, redistribuído, daria um salário mínimo por mês para cada brasileiro, incluindo crianças.
É mesmo uma jornada
É mesmo uma jornada
Com expectativa de vida de 72 anos, cada brasileiro trabalha metade da vida só para pagar seus impostos ao governo.
Gente cara
A folha de pessoal dos Três Poderes corresponde a quase 50% do orçamento federal de R$ 2,5 trilhões aprovado pelo Congresso dia 18.
Cara de pau cara
Cara de pau cara
Após condenação do Supremo Tribunal Federal, os três ex-deputados mensaleiros ainda torraram R$ 197 mil da cota parlamentar. De junho a dezembro, Valdemar da Costa Neto (PR) gastou R$ 81,6 mil, Pedro Henry (PP) R$ 77 mil e Genoino (PT) torrou R$ 38 mil até setembro.
Daqui não saio
Daqui não saio
Com a família e amigos morando em Brasília, o mensaleiro Valdemar da Costa Neto quer permanecer preso no complexo da Papuda. Ele pretende ser “contratado” pelo PR, partido de sua propriedade.
Tem trânsito
Tem trânsito
O deputado Antônio Imbassahy (BA) telefonou ao tucano José Serra (SP) assim que foi eleito líder do PSDB em 2014. “Temos relação boa desde 1995, quando eu era da Eletrobras e ele, do Planejamento”.
Cover do PT
Cover do PT
O líder do PR, Bernardo Santana (MG), garante que maioria no partido apoia reeleição da presidente Dilma: “Além do alinhamento político nos estados, pesa a falta de alternativa. A oposição hoje só faz cover”.
A moda pegou
A moda pegou
Após o flagrante de Dilma cometendo a mesma infração com o neto, foi a vez da deputada Celina Leão (PDT), de Brasília, postar, no Instagram, foto “selfie” em que aparece uma criança no carro sem usar cadeirinha.
Uma paulada
Uma paulada
Cotado no PMDB para assumir o comando da Comissão de Finanças e Tributação em 2014, Mário Feitoza (CE) quer debater taxas abusivas de administração de fundos cobradas por bancos públicos e privados.
Droga de vida
Droga de vida
A boa notícia: cubanos poderão trocar suas banheiras americanas por carros novos. A má: serão chineses. A Geely vai abrir montadora na ilha e exportar o faz de conta pelo porto de Mariel, aquele do BNDES.
Bike IPI zero
Bike IPI zero
A rede Bicicleta para Todos já coletou 26,4 mil assinaturas pela isenção de IPI para bicicletas. O documento será entregue aos presidentes da Câmara, Henrique Alves, e Senado, Renan Calheiros, e de comissões.
Feliz 2014
Feliz 2014
Lula vai abrir champanhe em São Bernardo por não ser dele a correção da tabela do IR, o fim do IPI, o pior PIB entre os Brics e a Bolsa pífia.
O PODER SEM PUDOR
O PODER SEM PUDOR
Feio, porém simpático
Humberto Castello Branco tinha 22 anos quando foi apresentado pela irmã Lurdinha, em Belo Horizonte, a um grupo de moças interessadas em conhecer aquele rapaz “baixinho e feio”, mas culto e “muito inteligente”. Entre elas, estava a bela Argentina Viana, que, depois, entregaria os pontos:
- Não o acho tão feio assim, e ele é muito simpático.
Apaixonaram-se e foram casados por 41 anos. Ela morreu do coração um ano antes de ele assumir a Presidência da República, em 1964.
SEGUNDA NOS JORNAIS
- O Globo: Desembargadores receberam acima do teto em 23 estados
- Folha: Dilma afirma que governo sofre 'guerra psicológica'
- O Estado de S. Paulo: Na TV, Dilma diz que ‘guerra psicológica’ inibe investimentos
- Correio Braziliense: A gastança sem freio da Câmara Legislativa
- Jornal do Commercio: Minha Casa agora para a classe média
- Zero Hora: 11 cidades e um mesmo problema - Calor, falta d’água e indignação
- Brasil Econômico: "A Fifa não é uma OTAN. Não tem esta força"
- Folha: Dilma afirma que governo sofre 'guerra psicológica'
- O Estado de S. Paulo: Na TV, Dilma diz que ‘guerra psicológica’ inibe investimentos
- Correio Braziliense: A gastança sem freio da Câmara Legislativa
- Jornal do Commercio: Minha Casa agora para a classe média
- Zero Hora: 11 cidades e um mesmo problema - Calor, falta d’água e indignação
- Brasil Econômico: "A Fifa não é uma OTAN. Não tem esta força"
domingo, dezembro 29, 2013
Ano de fartura na DisneyLula - GUILHERME FIUZA
REVISTA ÉPOCA
O ano de 2014 é um dos mais previsíveis dos últimos tempos. Dá até para começar a pensar em 2015. Como a opinião pública brasileira está cada vez mais anestesiada, vale lembrar aos distraídos o que, daqui a 12 meses, terá sido 2014.
Ano de eleição presidencial, portanto festa na DisneyLula. Cada rincão onde aterrissar a companheira Dilma será uma apoteose. Prefeitos e aliados por todo o território nacional, devidamente abastecidos com a dinheirama que arrombou os gastos federais em 2013, farão bonito para receber a presidente-candidata, retribuindo-lhe toda a sua bondade.
Dilma será reeleita com tranquilidade. A campanha será para evitar o aborrecimento de um segundo turno e liberar logo em outubro o Romanée-Conti para a companheirada. Quem preferir Dom Pérignon também poderá se servir à vontade. O governo popular é plural e não discrimina as minorias.
A oposição ganhará novamente o prêmio de melhor coadjuvante do petismo.
Os adversários de Dilma tentarão desesperadamente parecer humildes, amigos dos pobres e estatizantes. Tentarão, enfim, com seus modernos marqueteiros, reproduzir a demagogia do PT para ganhar o eleitorado - e darão com os burros nágua mais uma vez, porque o eleitor não é bobo e sabe distinguir um demagogo autêntico de um imitador.
Em 2014, o Brasil sofrerá mais ainda com a pressão inflacionária, fruto da orgia populista. Mas esse e outros problemas reais do país não entrarão no debate eleitoral. O que se discutirá na campanha será o programa Mais Médicos - um truque de marketing fajuto que, sabe-se lá por quê, os brasileiros resolveram achar que é uma genial solução humanitária. A oposição, que só lê pesquisa e não pensa, já viu que a jogada deu certo e aparecerá com alguma versão incrementada da tolice, talvez o programa Muito Mais Médicos (substituindo os doutores cubanos por haitianos).
Como todos sabem (mas já esqueceram), a última coisa séria feita no Brasil foi o Plano Real. De lá para cá, só remendo e esparadrapo. Por isso, um país de 200 milhões de pessoas acredita que precisa de funcionários de Fidel Castro para cuidar da saúde da população carente.
O Mais Médicos ajudará na reeleição de Dilma e, principalmente, na eleição do ministro da Saúde - que está há três anos em campanha - para o governo paulista. Depois de eleger prefeito um ex-Ministro da Educação que não sabia aplicar provas do ENEM, São Paulo não se deu por satisfeito e propiciará ao PT a tríplice coroa. Com o Palácio do Planalto, a prefeitura e o governo de São Paulo nas mãos, o PT mostrará ao país o que é bom para a tosse.
Lula terminará 2014 declarando - com mais ênfase do que nunca - que é preciso "democratizar os meios de comunicação". Com a tríplice coroa no papo, o PT vai com tudo para o controle da mídia - a plataforma chavista em que o governo popular está mais atrasado, já tendo sido ultrapassado de longe pela companheira Cristina K., a viúva-negra.
O mensalão não será o menor problema para o PT no ano eleitoral. Lula até já disse "estamos juntos" ao condenado José Dirceu. Continua aparecendo nas pesquisas como o único capaz de vencer Dilma. Não tem jeito, eles mentem como ninguém, e o povo adora. Possivelmente, o Brasil ainda termine 2014 com pena dos "presos políticos" do valerioduto. Se o mensaleiro João Paulo Cunha se comparou a Nelson Mandela e não caiu no ridículo definitivo, o caminho está livre para o heroísmo parasitário.
Um mês depois da Copa do Mundo -que terá passeatas de manifestantes lunáticos contra tudo, menos contra quem torra seus impostos para se eternizar no poder -, o PT sentirá que a fatura da reeleição de Dilma está liquidada. E partirá para resolver Minas Gerais. Lula e Dilma gastarão todo o querosene necessário sobrevoando a Serra da Mantiqueira e pousando em cada palanque do ministro Fernando Pimentel, o consultor fantasma.
E ainda será o caso de queimar algum querosene no Rio de Janeiro. Num cenário cheio de candidatos mal-assombrados, o aventureiro Lindbergh Farias será o azarão do PT. E, se essa turma da pesada fizer Rio, São Paulo e Minas, além do Planalto, a grande noite dos vampiros estará longe de terminar. Mas não reclame: duas décadas passam voando (de AeroDilma).
O ano de 2014 é um dos mais previsíveis dos últimos tempos. Dá até para começar a pensar em 2015. Como a opinião pública brasileira está cada vez mais anestesiada, vale lembrar aos distraídos o que, daqui a 12 meses, terá sido 2014.
Ano de eleição presidencial, portanto festa na DisneyLula. Cada rincão onde aterrissar a companheira Dilma será uma apoteose. Prefeitos e aliados por todo o território nacional, devidamente abastecidos com a dinheirama que arrombou os gastos federais em 2013, farão bonito para receber a presidente-candidata, retribuindo-lhe toda a sua bondade.
Dilma será reeleita com tranquilidade. A campanha será para evitar o aborrecimento de um segundo turno e liberar logo em outubro o Romanée-Conti para a companheirada. Quem preferir Dom Pérignon também poderá se servir à vontade. O governo popular é plural e não discrimina as minorias.
A oposição ganhará novamente o prêmio de melhor coadjuvante do petismo.
Os adversários de Dilma tentarão desesperadamente parecer humildes, amigos dos pobres e estatizantes. Tentarão, enfim, com seus modernos marqueteiros, reproduzir a demagogia do PT para ganhar o eleitorado - e darão com os burros nágua mais uma vez, porque o eleitor não é bobo e sabe distinguir um demagogo autêntico de um imitador.
Em 2014, o Brasil sofrerá mais ainda com a pressão inflacionária, fruto da orgia populista. Mas esse e outros problemas reais do país não entrarão no debate eleitoral. O que se discutirá na campanha será o programa Mais Médicos - um truque de marketing fajuto que, sabe-se lá por quê, os brasileiros resolveram achar que é uma genial solução humanitária. A oposição, que só lê pesquisa e não pensa, já viu que a jogada deu certo e aparecerá com alguma versão incrementada da tolice, talvez o programa Muito Mais Médicos (substituindo os doutores cubanos por haitianos).
Como todos sabem (mas já esqueceram), a última coisa séria feita no Brasil foi o Plano Real. De lá para cá, só remendo e esparadrapo. Por isso, um país de 200 milhões de pessoas acredita que precisa de funcionários de Fidel Castro para cuidar da saúde da população carente.
O Mais Médicos ajudará na reeleição de Dilma e, principalmente, na eleição do ministro da Saúde - que está há três anos em campanha - para o governo paulista. Depois de eleger prefeito um ex-Ministro da Educação que não sabia aplicar provas do ENEM, São Paulo não se deu por satisfeito e propiciará ao PT a tríplice coroa. Com o Palácio do Planalto, a prefeitura e o governo de São Paulo nas mãos, o PT mostrará ao país o que é bom para a tosse.
Lula terminará 2014 declarando - com mais ênfase do que nunca - que é preciso "democratizar os meios de comunicação". Com a tríplice coroa no papo, o PT vai com tudo para o controle da mídia - a plataforma chavista em que o governo popular está mais atrasado, já tendo sido ultrapassado de longe pela companheira Cristina K., a viúva-negra.
O mensalão não será o menor problema para o PT no ano eleitoral. Lula até já disse "estamos juntos" ao condenado José Dirceu. Continua aparecendo nas pesquisas como o único capaz de vencer Dilma. Não tem jeito, eles mentem como ninguém, e o povo adora. Possivelmente, o Brasil ainda termine 2014 com pena dos "presos políticos" do valerioduto. Se o mensaleiro João Paulo Cunha se comparou a Nelson Mandela e não caiu no ridículo definitivo, o caminho está livre para o heroísmo parasitário.
Um mês depois da Copa do Mundo -que terá passeatas de manifestantes lunáticos contra tudo, menos contra quem torra seus impostos para se eternizar no poder -, o PT sentirá que a fatura da reeleição de Dilma está liquidada. E partirá para resolver Minas Gerais. Lula e Dilma gastarão todo o querosene necessário sobrevoando a Serra da Mantiqueira e pousando em cada palanque do ministro Fernando Pimentel, o consultor fantasma.
E ainda será o caso de queimar algum querosene no Rio de Janeiro. Num cenário cheio de candidatos mal-assombrados, o aventureiro Lindbergh Farias será o azarão do PT. E, se essa turma da pesada fizer Rio, São Paulo e Minas, além do Planalto, a grande noite dos vampiros estará longe de terminar. Mas não reclame: duas décadas passam voando (de AeroDilma).
Boa entrada - MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 29/12
Vou citar dois filmes antigos. Um é o inglês Mero Acaso, de 1999. Primeira cena: um rapaz bate na porta do vizinho, que é psiquiatra, e diz que precisa desabafar. São 6 horas da manhã, o vizinho ainda está de pijama, mas diante do inusitado da situação, convida-o para entrar e o acomoda numa poltrona.
O outro filme é o francês Confidências Muito Íntimas, de 2003. Um mulher está se separando e procura um psiquiatra pela primeira vez. Entra sala adentro e já começa a contar seu drama, sem dar tempo para o homem respirar. Ele fica absolutamente envolvido pela história dela.
Mesmo que você não tenha visto estes filmes, pode imaginar o que eles têm em comum. No filme inglês, o homem se enganou de porta e bateu na casa de um engenheiro, que ouve tudo quieto e só então avisa que o psiquiatra mora no apartamento ao lado.
Mesmíssima coisa no filme francês. A mulher se enganou de porta e invadiu o consultório de um contabilista. Mesmo depois do engano desfeito, os dois seguem se vendo para amenizar a solidão um do outro.
Ambos os filmes demonstram que terapia é, basicamente, uma via de desabafo, de investigação emocional, de elucidação de si mesmo, e tudo isso se dá quando estamos dispostos a falar.
Então qualquer amigo poderia substituir um profissional? Não. Conversar com amigos é ótimo, porém eles estão comprometidos afetivamente conosco. Conhecem a nossa história e já não prestam atenção nos detalhes. E tomam um tempo para falar deles mesmos, o que é natural. Além disso, estes papos são frequentemente interrompidos pela chegada do garçom, por um telefone que toca, por outras distrações. E, pra culminar, você não está pagando. Faz diferença. Você não é o centro das atenções. É um encontro, literalmente, gratuito. E, em terapia, o foco tem que estar todo em você. Vigilância total para você não fugir de si mesmo.
Longe de mim estimular alguém a bater na casa do vizinho para contar seus sonhos e fantasias secretas. Ele mandará você plantar batatas, com razão. O que interessa disso tudo é o crucial: o quanto é importante falar. E ser profundamente escutado. E, mais profundamente ainda, escutar a si mesmo. Não é fácil ouvir nossa própria voz verbalizando aquilo que sentimos de forma tão confusa e irregular. É quando passamos a reconhecer abertamente nossas inquietudes, medos, vergonhas. E a nos comprometer com o que está sendo dito. A verdade ganha legitimação. Deixa de habitar apenas o silêncio, onde tudo fica protegido demais.
Alguns não acreditam em terapia e dizem que não é qualquer um que merece ouvir nossas intimidades. Mas tem que ser qualquer um, no sentido de qualquer desconhecido, qualquer pessoa que não tenha nada contra e nada a favor de você, que não lhe conheça, para poder lhe ouvir sem uma opinião prévia sobre sua história. De preferência qualquer um com um diploma na parede e competência para ajudá-lo a se conhecer pra valer.
Que lhe faça descobrir os efeitos terapêuticos de ouvir a própria voz assumindo questões que até então não eram enfrentadas. Dá para fazer isso sozinho também, mas com um interlocutor é mais fácil. Ou menos difícil. Tente. Nada como bater na própria porta e entrar. Feliz 2014.
Vou citar dois filmes antigos. Um é o inglês Mero Acaso, de 1999. Primeira cena: um rapaz bate na porta do vizinho, que é psiquiatra, e diz que precisa desabafar. São 6 horas da manhã, o vizinho ainda está de pijama, mas diante do inusitado da situação, convida-o para entrar e o acomoda numa poltrona.
O outro filme é o francês Confidências Muito Íntimas, de 2003. Um mulher está se separando e procura um psiquiatra pela primeira vez. Entra sala adentro e já começa a contar seu drama, sem dar tempo para o homem respirar. Ele fica absolutamente envolvido pela história dela.
Mesmo que você não tenha visto estes filmes, pode imaginar o que eles têm em comum. No filme inglês, o homem se enganou de porta e bateu na casa de um engenheiro, que ouve tudo quieto e só então avisa que o psiquiatra mora no apartamento ao lado.
Mesmíssima coisa no filme francês. A mulher se enganou de porta e invadiu o consultório de um contabilista. Mesmo depois do engano desfeito, os dois seguem se vendo para amenizar a solidão um do outro.
Ambos os filmes demonstram que terapia é, basicamente, uma via de desabafo, de investigação emocional, de elucidação de si mesmo, e tudo isso se dá quando estamos dispostos a falar.
Então qualquer amigo poderia substituir um profissional? Não. Conversar com amigos é ótimo, porém eles estão comprometidos afetivamente conosco. Conhecem a nossa história e já não prestam atenção nos detalhes. E tomam um tempo para falar deles mesmos, o que é natural. Além disso, estes papos são frequentemente interrompidos pela chegada do garçom, por um telefone que toca, por outras distrações. E, pra culminar, você não está pagando. Faz diferença. Você não é o centro das atenções. É um encontro, literalmente, gratuito. E, em terapia, o foco tem que estar todo em você. Vigilância total para você não fugir de si mesmo.
Longe de mim estimular alguém a bater na casa do vizinho para contar seus sonhos e fantasias secretas. Ele mandará você plantar batatas, com razão. O que interessa disso tudo é o crucial: o quanto é importante falar. E ser profundamente escutado. E, mais profundamente ainda, escutar a si mesmo. Não é fácil ouvir nossa própria voz verbalizando aquilo que sentimos de forma tão confusa e irregular. É quando passamos a reconhecer abertamente nossas inquietudes, medos, vergonhas. E a nos comprometer com o que está sendo dito. A verdade ganha legitimação. Deixa de habitar apenas o silêncio, onde tudo fica protegido demais.
Alguns não acreditam em terapia e dizem que não é qualquer um que merece ouvir nossas intimidades. Mas tem que ser qualquer um, no sentido de qualquer desconhecido, qualquer pessoa que não tenha nada contra e nada a favor de você, que não lhe conheça, para poder lhe ouvir sem uma opinião prévia sobre sua história. De preferência qualquer um com um diploma na parede e competência para ajudá-lo a se conhecer pra valer.
Que lhe faça descobrir os efeitos terapêuticos de ouvir a própria voz assumindo questões que até então não eram enfrentadas. Dá para fazer isso sozinho também, mas com um interlocutor é mais fácil. Ou menos difícil. Tente. Nada como bater na própria porta e entrar. Feliz 2014.
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