terça-feira, dezembro 10, 2013

Chuvas & trovoadas na CMO - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 10/12

Começou a contagem regressiva para estourar uma “greve” na Comissão Mista de Orçamento (CMO). O estopim foi o fato de a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, dizer aos líderes partidários da base aliada que o governo não tem compromisso com o orçamento impositivo inscrito na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). Isso significa que só fará a liberação automática das emendas parlamentares se houver uma emenda à Constituição.

Os deputados acham que o governo adota isso apenas para enrolar a base e não executar a totalidade das emendas dos parlamentares ao Orçamento no ano eleitoral. Ao que tudo indica, o fim do ano será longo por ali. Ontem, já não houve votação na CMO. E o prazo está cada vez mais curto.

Cofre fechado
Os deputados que estiveram em reunião com Ideli Salvatti saíram frustrados. A todos ela tem dito que o governo já liberou tudo o que podia em termos de emendas parlamentares de 2013. Ou seja, o saco de bondades de Papai Noel está vazio.

Daqui pra frente...
Os líderes alertaram para os perigos que o governo tem pela frente, na hipótese de não liberar o Orçamento. Um deles é fazer crescer apoios a uma CPI para apurar as denúncias de Tuma Jr. sobre direcionamento do aparato policial a adversários do governo. O segundo, a derrubada de vetos polêmicos que estão em pauta, como o do bom e velho fator previdenciário.

...Tudo vai ser diferente
Outra ameaça se refere ao Orçamento de 2014, o primeiro ano em que o governo não poderá contar com a chamada autorização provisória para investimentos diretos, nem mesmo nas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Portos em chamas
O terminal de Libra, no Porto de Santos, está em guerra com caminhoneiros. Eles reivindicam o pagamento da estadia quando ficarem mais de cinco horas lá e, ainda, o aumento do valor do frete. Desde a semana passada, o movimento dos trabalhadores do setor de cargas está impedindo a recepção de contêineres. Até agora, nem a polícia nem a política conseguiram resolver. Está no ponto de o governo federal (e/ou estadual) ter de intervir.

Atores & diretores/ Os senadores querem o Orçamento aprovado em 17 deste mês. Os deputados querem impor condições. Ontem, mal o presidente da CMO, Lobão Filho (foto), abriu a sessão, o deputado Danilo Forte (PMDB-CE) pediu a palavra. Lobão, sabendo que ele tentaria suspender a sessão, foi direto: “Peraí! Deixa eu terminar de, pelo menos, ler a pauta!!” Reflexos da crise entre o chefe da Câmara, Henrique Eduardo Alves, e o do Senado, Renan Calheiros.

Dilma & presidentes/ Houve quem apostasse que Fernando Henrique e Lula não viajariam juntos com Dilma ontem para o velório de Nelson Mandela. Agora, espera-se aí uma réstia de abertura de diálogo entre governo e oposição. Vejamos a volta.

Hora dos livros I/ Os economistas Fábio Giambagi e Cláudio Porto lançam hoje, às 18h, na CNI, Propostas para o governo 2015-2018. O trabalho reúne artigos de 40 analistas que apontam políticas públicas para o crescimento competitivo do Brasil. Com o pibinho que rola por aqui, a ideia é colocar as propostas no centro do debate pré-eleitoral.

Hora dos livros II/ Na Câmara, o jornalista Magno Martins lança, às 19hs, Reféns da Seca, o mundo dos excluídos dos programas sociais.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

FOLHA DE SP - 10/12

Grupos planejam três novos hotéis para o turismo de negócios no Rio
Com projetos voltados para a hospedagem corporativa, a Facility lançará três novos hotéis no Rio de Janeiro. Os investimentos são estimados em R$ 150 milhões.

Os empreendimentos serão operados pela rede Vert, que representa no Brasil o grupo internacional Wyndham, dono da bandeira Ramada, entre outras marcas.

Os edifícios serão erguidos nos municípios de Niterói, Itatiaia e Nova Iguaçu.

"São cidades onde há demanda por hotelaria de negócios por causa de novos projetos que surgiram, como o parque industrial de Itatiaia", afirma a empresária Bianca Carvalho, da Facility, que atua no setor imobiliário.

Além de capital próprio, haverá aportes de investidores, segundo ela. "É uma hotelaria de implantação mais barata e com retorno garantido porque as taxas de ocupação estão sempre em alta."

Juntos, os três novos meios de hospedagem terão 490 apartamentos. Eles deverão entrar em operação em 2016.

"Serão hotéis de padrão econômico. O de Itatiaia será um Days Inn e, os outros dois, Ramada", afirma Amilcar Mielmiczuk, da Vert.

As duas empresas são parceiras em outros cinco projetos já lançados e em fase de comercialização, todos eles na capital fluminense.

A Vert tem em funcionamento quatro hotéis nos municípios de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte (MG) e Linhares (ES).

"Até agosto de 2014 outros oito serão inaugurados nos Estados de São Paulo e Minas Gerais", afirma Mielmiczuk.

IMPOSTO NA CEIA
A carga tributária embutida no preço de alguns dos produtos mais comprados durante as festas de Natal e Réveillon supera 50%, de acordo com levantamento da consultoria BDO.

Na compra de fogos de artifício, por exemplo, a incidência chega a 64,25%. Em segundo lugar estão os espumantes e as champanhes, com 54,25% cada um.

"O ICMS e o IPI são regidos pelo princípio da essencialidade. Assim, quanto mais supérfluo for o produto, mais elevada é a carga", afirma Valmir Oliveira, da área de tributos da consultoria.

Enfeites, presépios e árvores de Natal apresentam a mesma alíquota embutida no preço final: 47,25%.

Os produtos com menor índice são o panetone e o peru, com 21,25% cada um.

O estudo não considerou outras alíquotas, como Imposto de Renda e CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido).

FREIO NO EMPREGO
Os empregadores brasileiros pretendem diminuir o ritmo de contratação no primeiro trimestre do ano que vem.

Pesquisa da empresa de recrutamento Manpower mostra que 68% dos entrevistados pretendem manter seu quadro de funcionários estável. Pouco mais de 20% devem aumentar e 11%, diminuir.

O índice de contratação (parcela dos que dizem que irão admitir menos os que afirmam que vão dispensar) ajustado, permitindo a variação sazonal, ficou em 16%.

O número é o menor da série histórica, que começou a ser elaborada no Brasil no quarto trimestre de 2009.

Dos 42 países que participaram do levantamento, o Brasil ficou na sétima posição entre os que mais preveem contratações, empatado com Peru e Turquia.

Taiwan (39%) e Índia (33%) lideraram. Foram entrevistadas 65 mil pessoas.

Setor de chocolates deve terminar 2013 com expansão
Apesar de registrar uma queda na produção de 0,7% no acumulado deste ano até setembro, a indústria de chocolates prevê encerrar 2013 com expansão.

A Abicab (associação dos fabricantes), no entanto, não projeta um percentual específico de incremento.

"Terminaremos o ano com crescimento. Será pequeno, mas positivo", afirma Ubiracy Fonseca, vice-presidente da entidade.

No terceiro trimestre, o setor se recuperou de forma discreta: alta de 1,8% na comparação com o mesmo período de 2012.

Os resultados do segmento são consequência do desempenho econômico brasileiro, segundo Fonseca.

No ano passado, o mercado que engloba chocolates, achocolatados e coberturas com o sabor avançou 3%.

Quando se consideram apenas bombons, ovos de Páscoa e barras, porém, não houve nenhuma elevação.

Para 2014, a expectativa é que os resultados melhorem: "É ano de eleições. Vamos ter também a Copa. Projetamos um crescimento maior do que o de 2013".

O Brasil é o terceiro maior produtor de chocolates do mundo, atrás dos Estados Unidos e da Alemanha.

PRODUTO DE CARA NOVA
Após a aquisição da empresa de utilidades domésticas Santa Marina --e com ela mais cem novos produtos--, a fabricante de utensílios em vidro Nadir Figueiredo reestruturou a identidade das marcas de seu portfólio.

"Contratamos uma equipe especializada em gestão de marcas para definirmos qual é a cara de cada item para organizarmos o catálogo da empresa", diz José Eduardo Vidigal Pontes, presidente da Nadir Figueiredo.

Com a reestruturação, a companhia passou a ter cinco grandes segmentos: assadeiras e tigelas, potes e jarras, coparia, assadeiras para o dia a dia e artigos de mesa.

A empresa inaugura hoje sua loja de fábrica, anexa à planta de Suzano, no interior de São Paulo.

A unidade atenderá funcionários e o público externo, e terá preços mais baixos que os praticados no varejo.

Formal O Sebrae fez um acordo com a OIT (Organização Internacional do Trabalho) para pesquisar a formalização de trabalhadores.

Novos sócios João Luís Ribeiro de Almeida, Luciana Goulart Penteado e Marcelo Della Mônica Silva passarão a compor a mesa de sócios do Demarest Advogados a partir de 1º de janeiro do ano que vem.

Direito... O escritório Godke Silva & Rocha Advogados acaba de abrir uma filial em Miami, nos EUA.

...na Flórida O objetivo da banca é fortalecer sua estrutura de serviços na região.

Passagem A Bayer investiu R$ 5 milhões em uma ponte perto de sua sede, no Socorro, em São Paulo, a ser inaugurada no dia 17. A ideia é facilitar o acesso de funcionários e moradores à estação de trem e do metrô, diz a farmacêutica.

A porta de saída do Bolsa família - MAÍLSON DA NÓBREGA

REVISTA VEJA

O Bolsa Família, título que Lula deu ao conjunto de programas sociais herdados do governo FHC, completou dez anos de êxito. Na realidade, ao longo de mais de duas décadas, os programas de transferência condicionada de renda têm sido uma experiência vitoriosa em todo o mundo, embora sujeita a erros de interpretação. Um deles é rotulá-los de assistencialistas; outro é achar que criar empregos é a porta de saída para eliminar a dependência do benefício.

Tais programas começaram a ser pensados nos anos 1970, quando se provou a correlação positiva entre educação, produtividade e crescimento econômico. Este é maior quanto menor for a pobreza. Depois, a neurociência constatou que existe um período crítico durante o qual a criança se prepara para o continuado avanço no conhecimento. É aí que ela deve estar na escola.

A ideia inicial era assegurar uma renda mínima às famílias pobres. O pioneiro foi o economista americano Milton Friedman (1912-2006). um conservador. Mais tarde, evoluiu-se para condicionar a concessão do benefício à obrigação de pôr os filhos na escola e de levá-los aos postos de saúde para vacinação e outros cuidados. No Brasil, o programa surgiu em 1995, em Campinas e no Distrito Federal. Depois se espalhou por outros locais. No período FHC, recebeu o apoio federal. Ficou conhecido como Bolsa Escola.

A área acadêmica se interessou pelo assunto. Foi o caso do economista José Márcio Camargo, professor da PUC-Rio. Ele mostrou que as famílias pobres dependiam do trabalho dos filhos para sua própria sustentação. As crianças não iam para a escola e por isso seriam os pobres de amanhã. E assim sucessivamente. José Márcio defendeu uma versão ampliada do Bolsa Escola, o que permitiria reduzir drasticamente a pobreza e a desigualdade. O círculo vicioso se interromperia. As famílias "receberiam" para retirar os filhos do trabalho e colocá-los na escola. José Márcio escreveu um texto com Francisco H.G. Ferreira que propunha a unificação dos programas existentes (o Bolsa Escola e outros como o Vale-Gás). O estudo, que deve ter inspirado o Bolsa Família, está no endereço http://www. econ.puc-rio.br/pdf/td443.pdf.

Além de ideias para evitar fraudes e desperdícios, o estudo abordava formas de assegurar a oferta de serviços públicos de saúde e educação. Lula tinha outra proposta, a do inviável Fome Zero, mas, a exemplo do que fizera em relação à gestão macroeconômica de FHC, resolveu manter os programas herdados e ampliá-los. Sábia decisão. Infelizmente, ainda não foi possível prover educação de qualidade às crianças abrangidas pelo programa.

O Bolsa Família atende 13,8 milhões de famílias ao custo relativamente baixo de 0,5% do PIB. Contribuiu para reduzir a pobreza e a desigualdade. Se receberem educação de qualidade, as crianças beneficiadas pelo programa se tornarão adultos capazes de chefiar famílias livres da pobreza. Por isso, esse é o único programa social autofágico.

Uma das consequências positivas do programa é permitir às mães abandonar o mercado de trabalho e dedicar-se aos seus filhos. Elas recebem os pagamentos mensais e gerenciam as despesas familiares. Assim, caiu a oferta de empregadas domésticas, o que é um bom sinal. Erra quem pensa que isso é ruim. O programa acelerou a transição natural observada em outros países, nos quais o acesso à educação permitiu às mulheres disputar melhores postos de trabalho, diminuindo o universo das que buscavam o emprego doméstico. A menor oferta provocou o aumento dos respectivos salários.

O Bolsa Família não é assistencialista. Seu objetivo é assegurar que as próximas gerações das famílias assistidas não sejam pobres. Quanto à saída, esta não é o emprego, pois os pais não têm habilitações para preencher as respectivas vagas. Tenderão a permanecer em trabalho de menor remuneração. A saída é preparar as crianças para futuramente disputarem o mercado de trabalho, o que exige o cumprimento da condicionalidade básica do programa, isto é, mantê-las na escola. Sem isso, a pobreza continuará a reproduzir-se e se terá garantido apenas uma renda mínima sem ascensão social das famílias. O desafio é a educação de qualidade.

Faxina nas gambiarras - JOSÉ PAULO KUPFER

O Estado de S.Paulo - 10/12

É certo que a presidente Dilma Rousseff poderá continuar anunciando, como já está fazendo, que, por mais um ano, seu governo manteve a inflação dentro da meta. Muito provavelmente, quando 2013 fechar, poderá até se vangloriar de a variação do IPCA de 2013 ter ficado abaixo da registrada no ano anterior. É claro que ficará faltando dizer que o resultado passou longe do centro da meta, contou com o represamento de preços administrados e exigiu o retorno dos juros básicos aos dois dígitos.

Nessa mesma linha de argumentação, o governo encontrará suporte para afirmar que, apesar da carga pesada dos críticos, praticamente cumpriu a meta de superávit primário. Depois de projeções de um primário até abaixo de 1% do PIB, em 2013, a conta deve fechar perto de 1,8% do PIB. Sim, também aqui faltará acrescentar que o resultado "positivo" se deveu a uma combinação de sucessivos descontos "legais", manobras contábeis e, finalmente, receitas atípicas, que não se repetirão, como as obtidas com leilões de concessão, com o notável destaque do campo petrolífero de Libra, e renegociações de dívidas do Refis.

Também em relação às contas externas, embora não seja possível estufar o peito e proclamar resultados satisfatórios, quando o saldo negativo em contas correntes salta quase 50% entre 2012 e 2013, se aproximando de 4% do PIB, o governo tratará de comemorar, no encerramento do ano, uma balança comercial no azul, ainda que nas beiradas do zero a zero. Mas, obedecendo ao seu estilo, não lembrará, entre outras manobras, das "exportações" de plataformas de petróleo que nunca saíram do lugar, mas ajudaram a evitar o primeiro déficit comercial em mais de uma dúzia de anos.

Não são necessários mais exemplos, ainda que muitos outros estejam por aí, para concluir que existe uma desarrumação na contabilidade do conjunto de indicadores brasileiros macroeconômicos. Bem possível, por sinal, que seja esse o maior problema da política econômica do governo Dilma. Assim, embora seja compreensível que os críticos aproveitem a barafunda que se armou para bater na aplicação de modelos de política econômica diferentes daqueles em que acreditam, eles miram no alvo errado.

Se hoje é fácil dizer que linhas de política econômica heterodoxas deram errado, era tão fácil quanto dizer que estavam equivocadas as ações tidas como ortodoxas que levaram aos péssimos resultados dos primeiros anos da década passada.

A verdade é que, sem primeiro limpar as contas dos truques insistentes e liberar os represamentos, recompondo a ordenação natural dos indicadores, nenhum modelo puro de política econômica terá a capacidade de corrigir as distorções provocadas pelas armações.

Acossado pela dupla ameaça de perda do grau de investimento, conferido ao País em 2008 pelas agências de classificação de risco, e da fuga de recursos externos para a economia americana, no momento em que parece se aproximar o início da reversão dos estímulos monetários, nos Estados Unidos, o governo Dilma está diante de um problema que pode ser encarado como oportunidade para promover uma faxina nas gambiarras que, claramente, estão conturbando a administração da economia.

São muitos os que, seguindo o roteiro convencional, contrataram apenas para 2015 a adoção de políticas corretivas, dando de barato que, em ano eleitoral, não se mexe na economia. Nem tanto pelo previsto novo ano de baixo crescimento, mas acima de tudo pela alta probabilidade de um recrudescimento da inflação às vésperas da eleição, pelo menos desta vez poderia ser um pouco diferente. A propósito, não deixa de ser alentador que movimentos na direção de evitar o aprofundamento de tantos erros comecem a dar o ar da graça.

O pensamento vivo de Dilma - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 10/12

Ideias econômicas da presidente parecem não ter mudado, apesar dos reveses do crescimento


O ATUAL ESTADO das ideias econômicas da presidente Dilma Rousseff é de grande interesse na praça do mercado.

Os reveses da vida, a aridez do Planalto e a falta de chuvas na horta da economia em seus anos de governo teriam transformado o pensamento de Dilma sobre economia? Quais são as intenções da presidente em 2014? Caso reeleita? A presidente teria mudado de ideia, mas não vai tomar atitudes que produzam marolas reais antes da eleição?

Dilma Rousseff tem dificuldade de esconder o que pensa, digamos assim. Difícil, pois, de acreditar que faria um discurso para inglês ver, como o que fez ontem ao lado do americano Bill Clinton.

"Até fins de 2012, experimentamos uma expansão de nossa economia depois de um longo período de estagnação. Diferentemente do passado, essa expansão não se fez à custa da desigualdade social, do desequilíbrio macroeconômico ou da vulnerabilidade externa", discursou.

É mais ou menos verdade. Sem mais desigualdade, decerto. Sem vulnerabilidade externa, dá para aceitar (o país tornou-se e ainda é credor, livrou-se de séculos de dívida externa, eterna), embora a coisa já não seja tão simples. Quanto a desequilíbrio econômico, aí já não dá.

De meados dos anos 2000 até agora, o deficit externo do Brasil cresceu o equivalente a cinco pontos percentuais do PIB. Isto é, a diferença entre o que vendemos e compramos lá fora ficou no vermelho. A balança pendeu para um lado. Houve desequilíbrio.

O déficit não é mortal, de nos quebrar as pernas como até 2002, mas está ficando chatinho e não foi bem muito aproveitado. Gastamos mais (tomando emprestado lá fora) para consumir, não para investir muito mais. De resto, gastamos mais lá fora porque a vida está cara demais aqui, para consumidores e empresas. Isto é, nossa inflação está relativamente alta demais (porque somos pouco produtivos e investimos pouco).

A presidente ainda acha que isso não é um problema (custos em alta). "No Brasil, como também em muitos outros países da América do Sul, depois da crise da dívida externa, nós erigimos a solidez das finanças públicas e o controle da inflação como fundamentos da nossa macroeconomia", disse a presidente.

Bem, a inflação na Argentina e na Venezuela está horrível. A do Brasil está chatinha. A de Chile, Peru, México e Colômbia está quieta, tanto que eles podem manter juros bem baixinhos por lá (mas o governo não gosta da política econômica desses países). Nossos juros estão em alta.

"A inflação atingiu em 2012, e também vai fechar este ano de 2013, num dos seus patamares de estabilidade em torno dos 5,8%, 5,9%. E isso significa que ela se manteve dentro da meta traçada nos últimos dez anos", disse ademais Dilma.

Hum. "Patamares de estabilidade"? A inflação está fora da meta faz meia década, por aí, mas dentro de uma banda bem larga (parecemos o fumante que promete largar o vício em cinco anos). Estáveis nesse patamar, os custos ajudam a desmanchar a indústria brasileira, demandam juros mais altos, que causam o aumento da despesa com a dívida, o que limita investimentos em "obras" e gastos em políticas sociais, entre outros muitos problemas.

Mas a presidente acredita que está tudo equilibrado. Dominado.

Ainda é pouco - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 10/12

Não há quem não aplauda o primeiro acordo de comércio exterior em 18 anos no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), obtido no último fim de semana.

Foi, também, a primeira vitória pessoal do atual gerente-geral, o embaixador brasileiro Roberto Azevêdo, apenas três meses após ser empossado no cargo, o que também reúne forças para os próximos passos que se destinam a retomar as negociações da Rodada Doha, paradas desde 2008.

Embora seja de alto valor simbólico, especialmente diante do emperramento anterior da OMC, esse novo acordo ainda é pouco abrangente. Limitou-se a desburocratizar parcialmente os trâmites alfandegários.

Não é pouca coisa, pode-se argumentar, mas os grandes temas de liberalização do comércio global e da redução dos subsídios comerciais que distorcem o jogo econômico global ainda parecem distantes.

É muito difícil de arrancar uma decisão quando estão em jogo interesses conflitantes de 159 países-membros, cada um deles com poder de veto sobre um acordo total, bastando que, para isso, se recuse a acatar apenas um item do documento. A obrigatoriedade de decisão por unanimidade é cláusula que precisa ser revista para que a OMC tenha um mínimo de funcionalidade enquanto organismo destinado a xerifar as práticas de comércio global, num ambiente cada vez mais competitivo.

Ao longo do governo PT, o Brasil fez uma opção de risco. Apostou todas as suas fichas nas negociações multilaterais, que não conseguem avançar. Enquanto isso, a maior parte das grandes potências comerciais saiu a campo para negociação e fechamento de acordos bilaterais ou entre blocos. Atualmente, mais de 300 acordos desse tipo estão em vigor, situação que alija progressivamente do mercado global o setor exportador dos países que ficaram parados, como o Brasil. Esta é a razão pela qual as empresas brasileiras vêm perdendo preferência comercial em grandes mercados.

Estados Unidos e União Europeia estão, neste momento, negociando um entendimento que aos poucos deverá abrir um ao outro os dois maiores mercados do mundo. Além deste, dentro de mais alguns dias, representantes de 12 países, que incluem Estados Unidos, Canadá, Japão, Peru, México, Vietnã e Chile, deverão reunir-se em Cingapura para avançar num Acordo Transpacífico que interessará a 800 milhões de pessoas e envolverá cerca de 40% da economia global.

O governo brasileiro parece não dar a devida importância a essas iniciativas. Aposta temerariamente em que o conflito de interesses acabe emperrando as negociações. Ainda persiste dentro da atual administração o entendimento de que acordos parciais de livre-comércio (como era o da proposta da Alca) concorrem para achatar o emprego industrial nos países em desenvolvimento. Não é o que pensam hoje as lideranças da indústria brasileira. Estas sentem que seus negócios estão sendo progressivamente afastados do núcleo do comércio global.

Há condições para um melhor 2014 - ANTONIO DELFIM NETTO

VALOR ECONÔMICO - 10/12

Do ponto de vista econômico, o Brasil é um país relativamente fechado: as exportações representam 13% e as importações 14% do PIB a preços de mercado. Mesmo assim, a conjuntura mundial tem alguma influência sobre as variações do nosso PIB, através da flutuação das exportações e importações físicas e da relação dos seus preços relativos, que chamamos de "relação de troca".

Quando ela cresce, ganhamos um "bônus" do mundo equivalente a um aumento acidental da nossa produtividade. É por isso que existe uma correlação (uma variação concomitante) entre a conjuntura mundial e a nacional: temos maior facilidade para crescer um pouco mais com uma conjuntura mundial favorável. A relação é tênue, mas talvez seja uma componente - juntamente com o pequeno declínio da relação de troca - de parte da explicação da dramática redução do crescimento do PIB nos últimos três anos. O resto é responsabilidade da nossa própria política econômica.

A tabela abaixo revela que entre o terceiro trimestre de 2002 e o terceiro trimestre de 2010, o PIB cresceu 3,8% ao ano. Entre o terceiro trimestre de 2010 e igual período de 2013, o crescimento foi de 1,8%, com uma composição profundamente diferente.

A queda de 80% do crescimento do setor industrial, somada à redução da expansão da economia mundial, talvez seja responsável por cerca de metade da redução de 2% da taxa de crescimento do PIB entre os dois períodos. Há seguramente outras causas e podemos sofisticar à vontade a qualidade do diagnóstico. No curto prazo, entretanto, é muito difícil deixar de aceitar o fato que foi a brutal queda de demanda da produção de manufaturados produzidos no Brasil, como consequência da combinação mortal da supervalorização cambial acompanhada de paulatina desorganização do sistema de tarifas efetivas e da ausência do "draw-back verde amarelo" que um dia tivemos.

O gráfico abaixo registra o saldo comercial (exportação menos importação) do setor de produtos manufaturados e a taxa de câmbio real (taxa de câmbio nominal dividida pelo salário nominal de cada ano). Com uma defasagem de 2 anos, o saldo responde às variações do câmbio real. Trata-se de visão puramente impressionista. Não é preciso procurar explicação mais sofisticada para entender que entre 2002 e 2007 o importante superávit (produzido pela correção cambial imposta pelo mercado em 1999), de US$ 139 bilhões, foi transformado num déficit de US$ 171 bilhões, entre 2008 e 2013, graças principalmente, à excessiva valorização cambial. No período, a política econômica "roubou" bilhões de dólares de demanda externa e interna da indústria de manufaturados nacional. A carga tributária elevada, a maior taxa de juro real do mundo e o câmbio mais valorizado do mundo (devido aos aumentos de salários nominais muito acima da produtividade do trabalho), usado como instrumento de controle da inflação, congelaram o "espírito animal" do empresário nacional e aumentaram os riscos de novos investimentos. Felizmente, o mercado, de novo, impôs a correção do câmbio. A taxa de juros real (com suas idas e vindas) é menor. Isso sugere que, entre 12 e 18 meses, a indústria de manufaturados usará melhor os fatores de que dispõe, ajudando na recuperação do crescimento.

Por outro lado, a clara disposição do governo de manter a busca da "modicidade tarifária" com amigável audiência e respeito aos limites do setor privado, aumentou a probabilidade de sucesso dos leilões de concessão de infraestrutura, até no setor ferroviário. Elas serão poderosas alavancas para acelerar os investimentos em infraestrutura. Finalmente, a lenta recuperação da economia mundial talvez possa nos dar um pequeno alento adicional. Esses três fatores poderão nos proporcionar um razoável 2014.

Se insistirmos, com a cooperação do Congresso, numa forte coordenação entre adequadas políticas fiscal e monetária, afastaremos as ameaças e as incertezas que hoje nos cercam. A dissipação da possível "tempestade perfeita", que seria o acontecimento simultâneo da queda de um ponto no nosso rating soberano e o início ("tapering") do afrouxo monetário dos EUA - que será, como sempre, desajeitado - depende apenas de uma ação firme e crível do governo brasileiro. É o que reforça a esperança de termos um 2014 um pouco melhor do que 2013.

Como se faz um candidato - JOSÉ CASADO

O GLOBO - 10/12

Aos 68 anos, Lula constrói outra candidatura improvável, prepara o discurso e a campanha. Nas últimas eleições, elegeu seus ‘postes’ mais desdenhados pelos adversários



O desafio: eleger um candidato desconhecido até mesmo no próprio partido, numa região distante oito mil quilômetros de sua base eleitoral, onde os adversários detêm o poder e conservam a hegemonia política há três décadas .
O ex-presidente Lula tenta convencer seu PT a superar o ceticismo e ir à luta pelo governo de São Paulo carregando um candidato com “jeitão de médico do interior e falinha mansa”, como define. Ele atropelou todos os aspirantes para ungir Alexandre Padilha, de 42 anos, um paraense de Santarém que nunca disputou um mandato, cresceu na sombra da burocracia partidária e hoje é ministro da Saúde.

Sexta-feira passada, Lula apresentou Padilha a uma plateia de vereadores em Itupeva (SP). Ele era apenas um garoto de dez anos quando o PT começou a construir a máquina eleitoral que nas duas últimas eleições garantiu-lhe 12 anos na Presidência da República, maioria no Congresso, 665 cadeiras nas Câmaras e 73 prefeituras em São Paulo, inclusive a capital.

Lula tentava estimular candidato e audiência:

— Quem viu a morte passar perto e ficou com medo até de não poder falar, não tem por que ficar regateando. Perdemos as eleições aqui, várias vezes, porque nos faltaram 20% dos votos. E esses 20% não estão na esquerda. Se estivessem, era fácil. Poderia propor, Padilha, fazer uma aliança com o PSTU e o PSOL...

A plateia irrompeu em gargalhadas.

— Mas não está lá, não — prosseguiu. — Está numa parte difusa ideologicamente da nossa sociedade que foi impregnada pelo preconceito... E nós temos que quebrar isso. Temos de tentar colocar uma cunha no meio da base deles, porque não é possível fazer campanha com todo mundo contra nós. E tem sido sempre assim.

— Qual é o sonho de consumo político do petista? —provocou. — É ter uma chapa só do PT, sem coligação e a gente ganhar. Outro sonho de consumo seria fazer uma aliança só pela esquerda mas, além do PT, tá difícil saber quem é esquerda... Vamos procurar outros parceiros, e você tem que ter a habilidade de construir essa aliança que nos dê a base para competir.

Lula lembrou que não será suficiente dividir adversários, aliando-se à centro-direita:

— Precisamos fazer um programa que seja como factível, e não pareça ficção ou peça eleitoral. E vamos comparar tudo. Aquele negócio que fiz, na eleição da Dilma, de comparar 2002 a 2010, aquilo matava, porque não era eu falando, eram estatísticas.

Voltou-se para o candidato: — Então, Padilha, vai se entender com a nossa presidente, porque nos primeiros três meses você vai ter de estudar o estado, seus problemas e as soluções... Eu acho que você é o cara. Vou me dedicar, me dividir um pouco com você e a Dilma, até porque acho que a Dilma está numa situação mais confortável, mas também não é fácil. Agora, com cara boa, viu Padilha. Vai dar zebra, como dizia a música que o (Marcelo) Déda cantava:

Esse ano vai dar zebra

Com certeza vai dar

O povo trabalhador

Já cansou de esperar

Aos 68 anos, Lula está à caça de votos. Goste-se ou não, nas duas últimas rodadas eleitorais ele construiu candidatos, preparou-lhes o discurso e as táticas de campanha. E, no final, elegeu seus “postes” mais desdenhados pelos adversários.

Conviver com o contraditório - RODRIGO CONSTANTINO

O GLOBO - 10/12

Nunca conheci pessoas mais dogmáticas do que aquelas que falam em pluralidade o tempo todo, assim como nunca conheci pessoas mais intolerantes do que as que pregam tolerância o tempo todo. A esquerda caviar que o diga: seu discurso é só da boca pra fora. Pura retórica vazia.

A imprensa brasileira tem claro viés de esquerda. Os jornalistas e colunistas “progressistas” estão em muito maior quantidade do que os assumidamente conservadores ou liberais. O mesmo ocorre na academia, com as universidades dominadas pelo marxismo. Eis um fato facilmente comprovado no dia a dia.

De uns tempos para cá, porém, tem ocorrido uma tímida reação, e a direita tem conquistado algum espaço. Ainda é minoria, sem dúvida. Não obstante, essa presença tem sido suficiente para despertar o pânico nos esquerdistas, acostumados com sua confortável hegemonia.

Basta ver a reação geral. Míriam Leitão chegou a escrever um artigo contra a tal “direita hidrófoba” que, segundo ela, empobrece o debate no país. Mas seu texto só tinha ofensas e rótulos, sem argumentos. É assim que o debate será elevado pelos “moderados”?

A ombudsman da “Folha” rotulou Reinaldo Azevedo de “rotweiller” logo após seu artigo de estreia no jornal, que continha apenas argumentos e fatos. Paulo Nogueira afirmou que a “Veja” virou um veículo de Olavo de Carvalho, ignorando Caio Blinder e outros que lá escrevem com viés de esquerda. Ainda me colocou no rol dos “discípulos entusiasmados” do filósofo. Ignorância ou má-fé?

Verissimo, em sua coluna de domingo, disse que só há economistas liberais seguidores de Hayek na imprensa, enquanto um “herói” isolado chamado Paul Krugman enfrenta todos na defesa do keynesianismo. Como pode alguém inverter totalmente os fatos com tanta cara de pau? Gostaria de saber um só economista “austríaco” na imprensa, à minha exceção.

A esquerda acusa os jornais independentes de fazerem parte da tal “mídia golpista”. Mas, usando o caso deste jornal, temos o próprio Verissimo, Francisco Bosco, Caetano Veloso e tantos outros defensores da esquerda, até mesmo a mais radical (PSOL, black blocs etc). Na “Folha” temos Vladimir Safatle, Clovis Rossi, Andre Singer e vários outros também.

Ou seja, o que a esquerda parece não suportar é justamente a pluralidade que tanto diz defender. Prega a “diversidade”, desde que todos concordem com seus pensamentos. Não tolera aqueles que ousam discordar com mais veemência de suas bandeiras politicamente corretas.

Olavo de Carvalho resumiu bem a coisa: “Só o que isso prova é que esses sujeitos acham tão natural ser donos da mídia, que a simples presença de um bicho estranho no seu curral lhes causa uma indignação sincera e dolorida.”

Alguns chegaram a levantar a tese de que a internet e as redes sociais estariam polarizando demais o debate político. Mas tenho uma tese alternativa: a internet tem dado voz a uma imensa quantidade de pessoas cansadas justamente da hegemonia de esquerda na grande imprensa.

Enquanto o casamento da Daniela Mercury ou o jantar beneficente de artistas em homenagem a Amarildo parecem ser as notícias mais importantes do mundo em alguns veículos, o povo quer saber de saneamento básico que não chega nas favelas, ou da polícia prendendo bandidos, que não são vistos como “vítimas da sociedade”, como ocorre com boa parte da esquerda.

Pesquisas recentes do Datafolha mostram que metade da população defende menos estado, menos impostos, e mais liberdade individual. Mas qual o partido que endossa tais propostas? Qual partido prega a redução do papel estatal na economia e em nossas vidas? A direita é órfã política.

É isso que finalmente começa a mudar. A direita liberal ou conservadora esboça uma reação, ainda que tardia. Há ventos de mudança no ar. Os eleitores estão cansados do domínio esquerdista na política, e os leitores estão saturados da hegemonia de esquerda na imprensa.

Qualquer democracia avançada tem partidos fortes conservadores ou liberais, e veículos de imprensa abertamente de direita, como a Fox americana, para se contrapor à CNN ou à MSNBC. É parte do jogo democrático.

Já no Brasil, até o PSDB é visto como “neoliberal” ou “direita”, um partido que em qualquer lugar do mundo desenvolvido seria visto como centro-esquerda. Isso mostra a hegemonia esquerdista em nosso país, assim como o atraso de nosso debate político.

A direita democrática acordou, e tem avançado. Isso está tirando o sono da esquerda, que reage com histeria, rótulos e ofensas. Precisa aprender a conviver com o contraditório. Isso é democracia.

Ilegalidade consentida - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 10/12

A falta de cerimônia no uso da máquina pública para fins eleitorais não é novidade, alcança políticos de diversos partidos e ocorre de maneira explícita sem que o Ministério Público faça sequer um lembrete a suas excelências a respeito da observância aos princípios da legalidade, moralidade e impessoalidade, exigida pela Constituição.

A cada ano que passa o baile corre mais solto. A cada eleição a ousadia aumenta e o desrespeito se consolida como regra. Se o MP não se manifesta, os partidos mesmo é que não o farão.

Sob a ótica deles a coisa funciona assim: ninguém perturba o outro para não ser por ele importunado. O PSDB, por exemplo, não tem interesse em representar contra andanças de ministros País afora liberando verbas e participando de inaugurações que nada têm a ver com suas pastas, porque seus governos estaduais - notadamente o de São Paulo - usam de expediente semelhante. Bem como o PSB do governador Eduardo Campos, o PMDB com seus nichos e assim por diante.

A diferença é que quem tem o poder federal nas mãos pode muitíssimo mais, ferindo outro preceito legal que é o do equilíbrio de condições entre concorrentes eleitorais.

Nosso tema aqui não é campanha antecipada. Esse é um assunto praticamente vencido. Primeiro porque a limitação temporal é uma bobagem. Na prática não restringe nada, apenas consolida uma situação de absoluta desigualdade entre candidatos governistas e oposicionistas. O sentido da lei, o de impedir o abuso de poder, foi para o espaço há muito tempo.

A punição pecuniária é irrisória e a cassação de registro de candidatura é tardia, acontece quando a eleição já passou. Por estas razões e por outras relativas ao absoluto menosprezo à Justiça Eleitoral, reclamar de campanha eleitoral antecipada é chuva que já caiu.

Mas o uso abusivo (ou simples uso) dos instrumentos de Estado para, nas palavras da presidente Dilma Rousseff, "fazer o diabo" por uma eleição deveria ao menos espantar, já que repudiar na atual conjuntura parece ser pedir muito.

Os episódios são diários. Um em especial, no entanto, chama atenção pelo misto de simplicidade e desfaçatez. Aconteceu sexta-feira passada, na sede da Prefeitura de São Paulo. Era uma cerimônia para anunciar a criação de uma casa para abrigar mulheres vítimas de violência.

Nada a ver com o Ministério da Saúde, mas lá estava compondo a mesa e discursando o ministro da área, Alexandre Padilha, provável candidato do PT ao governo paulista.

A ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, tomou do microfone, elogiou muito o ministro e encerrou sua fala assim: "Não era para fazer campanha, mas eu fiz".

E quem achar ruim que vá reclamar ao bispo, faltou dizer.

Urgência. O PT do Rio tem pressa de deixar seus cargos no governo de Sérgio Cabral Filho para que o candidato do partido ao Palácio Guanabara, Lindbergh Farias, possa "bater" à vontade no governador com alto índice de rejeição e cujo candidato está em quinto lugar nas pesquisas.

Pelo mesmo motivo, visto pelo lado oposto, Cabral faz gestões junto a Lula para que o PT adie ao máximo o desembarque. Enquanto petistas estiverem sentados em secretarias do Estado Lindbergh precisa se conter nos ataques. O problema ali é local e não a aliança nacional, conforme se alega.

A "construção" do candidato do PT como o anti-Cabral na percepção do eleitorado requer tempo. Por isso a seção regional do partido insiste na saída em dezembro e o governador faz força para que isso só ocorra em março.

Quando o governador Eduardo Campos quis confirmar que era mesmo candidato, a primeira providência foi ordenar a saída do PSB do governo federal, em setembro. Justamente para liberar a crítica.

Turbulência - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 10/12

BRASÍLIA - Ok, a Anac tem de cuidar dos interesses dos passageiros e punir as empresas que passem dos limites. Logo, faz sentido multar a Gol em R$ 2,5 milhões (até agora) por causa do caos do fim de semana. E os feriados de Natal nem começaram, a Copa é só no ano que vem...

Mas... a culpa do caos aéreo não é de uma só companhia, nem só das companhias. Sem falar nas condições meteorológicas, a culpa é também do governo, da infraestrutura, da falta de investimentos.

Como toda hora sobem e descem aviões no Alasca, já no círculo polar, debaixo de neve, e basta chover forte para pousos e decolagens serem interrompidos nos principais centros brasileiros? Porque faltam condições, tecnologia, equipamentos.

E o caos dos aeroportos ilustra a própria situação do setor aéreo, provocando uma nova comparação constrangedora para o país.

Como é que Cingapura e Dubai, por exemplo, têm as melhores companhias aéreas e os melhores aeroportos do mundo, com índices invejáveis de turismo, enquanto o Brasil enterra uma empresa atrás da outra, não consegue ter ao menos um aeroporto entre os cem primeiros mundiais e não atrai turistas?

Sem contar a velha Panair e várias pequenas, que nem dá para citar, o cemitério do setor inclui Vasp, Transbrasil e Varig (não venham me dizer que está viva, por favor...).

O país, que já teve quase 20 companhias, hoje tem muito menos e depende de Tam, Gol, Avianca e Azul, todas com desempenho financeiro mais ou menos --ou mais para menos--, apesar das seguidas promoções e dos aviões lotados. É o custo Brasil! Entre outros...

O mercado quer é retorno e é por isso que, independente das limitações da lei, ninguém quer investir na aviação aqui. Na Latam, grosso modo, a Tam tem frota e faturamento muito maiores, mas as ações da Lan valem mais. E como é que o Brasil quer ser tudo o que diz, ou pensa que é, sem marca(s) aérea(s) forte(s)?

Triênio para esquecer - MARCO ANTONIO VILLA

FOLHA DE SP - 10/12

A política de energia ficou restrita à manipulação dos preços dos combustíveis fornecidos pela Petrobras



É muito difícil encontrar na história brasileira um triênio presidencial com resultados tão pífios como o da presidente Dilma Rousseff. Desde a redemocratização de 1985, o único paralelo possível é com o triênio de Fernando Collor, que conseguiu ser pior que o da presidente. Em dois dos três anos houve recessão (1990 e 1992).

Mas Collor encontrou um país destroçado. Recebeu o governo com uma inflação anual de 1.782%, as contas públicas em situação caótica e uma absoluta desorganização econômica.

Dilma assumiu a presidência com um crescimento do PIB de 7,5%. Claro que o dado puro é enganoso. Em 2009 o país viveu uma recessão. Mas o poder de comunicação de Lula foi tão eficaz que a taxa negativa de 0,2%, deu a impressão de crescimento ao ritmo chinês — naquele ano, a China cresceu 8,7%.

No campo da ética, o triênio foi decepcionante. Nos dois primeiros anos, a presidente bem que tentou assumir um discurso moralizador. Seus epígonos até cunharam a expressão “faxineira”. Ela iria, sem desagradar a seu criador, limpar o governo de auxiliares corruptos, supostamente herdados de Lula.

Fez algumas demissões. Chegou até a entusiasmar alguns ingênuos. Logo interrompeu as ações de limpeza e, mais importante, não apurou nenhuma das denúncias que levaram às demissões dos seus auxiliares. Todos — sem exceção — continuaram livres, leves e soltos. E mais: alguns passaram a ser consultores de fornecedores do Estado. Afinal, como conheciam tão bem o caminho das pedras....

Sem carisma e liderança, restou a Dilma um instrumento poderoso: o de abrir as burras do Tesouro para seus aliados. E o fez sem qualquer constrangimento. As contas públicas foram dilaceradas e haja contabilidade criativa para dar algum ar de normalidade.

Todos os programas do seu triênio fracassaram. Nenhum deles conseguiu atingir as metas. Passou três anos e não inaugurou nenhuma obra importante como um aeroporto, um porto, uma estrada, uma usina hidrelétrica. Nada, absolutamente nada.

O método petista de justificar a incompetência sempre foi de atribuir ao antecessor a culpa pelos problemas. É construído um discurso que sataniza o passado. Mas, no caso da presidente, como atribuir ao antecessor os problemas? A saída foi identificar os velhos espectros que rondam a história brasileira: os Estados Unidos, o capitalismo internacional, o livre mercado.

A política externa diminuiu o tom panfletário, que caracterizou a gestão Celso Amorim. Mas a essência permaneceu a mesma. O sentido antiamericano — cheirando a naftalina — esteve presente em diversas ocasiões. Em termos comerciais continuamos amarrados ao Mercosul, caudatários da Argentina e, quando Chávez vivia, da Venezuela (basta recordar a suspensão do Paraguai). Insistimos numa diplomacia Sul-Sul fadada ao fracasso. No triênio não foi assinado sequer um acordo bilateral de comércio.

A política de formar grandes grupos econômicos — as empresas “campeãs nacionais” — teve um fabuloso custo para o país: 20 bilhões de reais. E o BNDES patrocinou esta farra, associado aos fundos de pensão das empresas e bancos públicos. Frente à burguesia petista, J.J. Abdalla, o famoso mau patrão, seria considerado um exemplo de honorabilidade e eficiência.

A política de energia ficou restrita à manipulação dos preços dos combustíveis fornecidos pela Petrobras. Enquanto diversos países estão alterando a matriz energética, o Brasil ficou restrito ao petróleo e apostando na exploração do pré-sal, que poderá se transformar em uma grande armadilha econômica para o futuro do país.

A desindustrialização foi evidente. Nos últimos três anos o país continuou sem uma eficaz política industrial. Permaneceu dependente da matriz exportadora neocolonial, que gerou bons saldos na balança comercial, porém desperdiçando bilhões de reais que poderiam ser agregados ao valor das mercadorias exportadas.

O Ministério da Defesa sumiu do noticiário. Celso Amorim, tão falante quando estava à frente do ministério das Relações Exteriores, é uma espécie de titular fantasma. Pior, continuamos sem política de defesa, e as Forças Armadas estão muito distante do cumprimento das suas atribuições constitucionais. Sem recursos, sem treinamento, sem equipamento — sempre aguardando o recebimento da última sucata descartada pelos europeus e americanos.

A equipe ministerial ajuda a explicar a mediocridade do governo. Quem se arriscaria citar o nome de cinco ministros? Quem é o ministro dos Portos? E o da Integração Nacional? Alguém sabe quem é o ministro da Agricultura?

A presidente recebeu o governo com 38 ministérios. Não satisfeita com o inchaço administrativo, criou mais: o da micro e pequena empresa, tão inexpressivo que sequer possui um site.

Se as realizações do triênio são pífias, é inegável a eficiência da máquina de propaganda. O DIP petista deixou seu homônimo varguista no chinelo. De uma hora para outra, segundo o governo, o Brasil passou a ter mais 20 milhões de pessoas na classe média. Como? Tal movimento é impossível de ter ocorrido em tão curto espaço de tempo e, mais importante, com uma taxa de crescimento medíocre. Mas a repetição do “feito” transformou a fantasia estatística em realidade econômica.

Dilma Rousseff encerra seu triênio governamental melancolicamente. Em 2012, o crescimento médio mundial foi de 3,2% e o dos países emergentes de 5,1%. E o Brasil? A taxa de crescimento não estava correta. A “gerentona” exigiu a revisão dos cálculos. O PIB não cresceu 0,9%. O número correto é 1%! Fantástico.

Justiça para as massas - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 10/12

SÃO PAULO - O mundo não é perfeito. Injustiças, naturais e provocadas, ocorrem o tempo todo, colocando pessoas em conflito umas com as outras. São situações com as quais temos de lidar e, em sociedades de massa, o melhor modo de fazê-lo é criando sistemas judiciários, em que a disputa é arbitrada por um juiz neutro com legitimidade para impor uma solução às partes.

Faço essas considerações acerca da reforma do Código de Processo Civil, mais especificamente do efeito suspensivo das apelações. Hoje, basta entrar com esse recurso para que a decisão do juiz de primeira instância seja suspensa até que uma corte mais alta a confirme ou modifique.

Inspirado na necessidade de dar rapidez aos processos, o projeto do novo CPC, em análise no Congresso, trazia em seu texto um dispositivo que acabava com isso, mas a Câmara preferiu eliminar o artigo proposto e ficar com o efeito suspensivo. Parece-me um erro grave.

Não é que não existam razões para temer o estrago que uma sentença imprópria possa causar. Ele pode ser enorme, o que de fato recomendaria cautela. O problema é que a decisão absurda surge como uma possibilidade, enquanto a ineficácia e a morosidade do Judiciário têm peso de realidade que a todos afeta. Pior, afeta de modo especialmente perverso, beneficiando os maus pagadores (lista encabeçada pelo poder público).

Se queremos um Judiciário capaz de atender às necessidades de 200 milhões de habitantes, não há alternativa que não reforçar o papel da primeira instância. Suas decisões precisam ter eficácia, e o recurso, em vez de ser parte integrante do processo, como ocorre hoje, deve tornar-se uma ferramenta a ser utilizada apenas por quem ficou realmente inconformado com o resultado e tem bons motivos para pleitear uma revisão.

Simplesmente não faz sentido, lógico nem logístico, contratar um exército de juízes de primeira instância e ignorar suas decisões.

Aposentadorias achatadas - RENATO FOLLADOR

GAZETA DO POVO - PR - 10/12

Sempre me perguntam: o governo vai repor as perdas que as maiores aposentadorias tiveram como decorrência da correção do salário mínimo? Resposta: não. Vai continuar repondo só a inflação, uma obrigatoriedade pós-Constituição de 1988, pois até então ela nem era repassada integralmente para as aposentadorias, o que era uma forma de cortar benefícios.

Mas os aposentados de maior renda acham que isso não basta e pleiteiam a mesma correção da aposentadoria mínima do INSS, que equivale ao salário mínimo e prevê, além do INPC, um aumento real equivalente ao crescimento do PIB de dois anos antes.

Mantida a atual política, há um achatamento gradativo das maiores aposentadorias. Se projetarmos para o futuro a diferença média anual nos últimos dez anos – que dá 2,28% –, quem se aposentar após 2018 vai ganhar, no máximo, o equivalente a cinco salários e quem se aposentar após 2038, somente três salários mínimos (ou R$ 2.034 de hoje). Sobre isso, haverá o fator previdenciário, que pode reduzir ainda uns 40% da aposentadoria de quem se aposenta precocemente.

Na década de 70, o INSS pagou 20 salários; na década de 80, 15 salários; na década de 90, dez salários; nos anos 2000, 7,5 salários; e, hoje, paga 6,3 salários, no máximo; e vai continuar a diminuir. Para quem acha que, após aposentados, a correção monetária basta (e duvida da perda de seu poder aquisitivo), cito dois exemplos: um é o das despesas crescentes com saúde e medicamentos na terceira idade. Outro é a despesa com serviços dos quais o idoso depende (como, por exemplo, a empregada doméstica) e que têm o reajuste anual do salário mínimo. Pois só por causa dessa despesa, um aposentado com cinco salários que tem uma empregada de um salário mínimo vai perder o poder aquisitivo em 12% em 20 anos.

Por outro lado, enquanto produtivo, o trabalhador está sujeito à lei da oferta e demanda no mercado de trabalho e usa-se o salário mínimo como parâmetro para muitos acordos coletivos. Na sua esteira, carreiras são reestruturadas e readequadas, e categorias profissionais conseguem conquistas salariais além da mera correção monetária. Prova disso é que, só no ano passado, em 86% dos 91 acordos coletivos das maiores categorias houve um aumento real médio, acima do INPC, de 1,4 ponto porcentual.

Como ao teto do INSS (hoje de R$ 4.159) aplica-se a regra da correção das maiores aposentadorias (só o INPC), o padrão salarial dos trabalhadores mais qualificados vai se distanciando gradativamente desse teto e mais desprotegidos previdenciariamente eles ficam. Resultado: cresce a necessidade de previdência privada para manter o nível de renda do fim da carreira. Daí o notável aumento dos depósitos em PGBLs e VGBLs, que passaram de um patrimônio acumulado de R$ 50 bilhões para R$ 350 bilhões em uma década.

O maior propagandista da previdência privada é o INSS, com sua incapacidade de manter as maiores aposentadorias nos níveis praticados anteriormente. Para quem imagina estar ganhando acima de três salários no fim da carreira e espera providências do governo, vale a máxima: de onde a gente menos espera que venha alguma coisa... é que não vem nada mesmo. Por isso muitos já fizeram uma previdência privada.

Outros, desinformados ou preguiçosos, se acomodam. Para estes, um alerta: a preguiça caminha tão lentamente que a pobreza não precisa se esforçar muito para alcançá-la.

Gestos - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 10/12
Como dizia Tancredo Neves, política se faz muito mais de gestos do que de palavras. A política é feita especialmente de gestos simbólicos, que indicam um comportamento futuro, esse, sim, conclusivo e gerador de fatos. Desse ponto de vista, o jantar que reuniu na noite de domingo, no Rio, o senador Aécio Neves e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, conta muito mais para o futuro da corrida presidencial, em que os dois concorrerão, do que para o presente, que ainda os mostra como adversários entre si.
Mas essa competição não impede que tracem estratégias comuns que os ajudem a atingir o objetivo. Para a primeira fase da campanha, já decidiram que considerar que a presidente Dilma tem lugar cativo no segundo turno só é bom para o PT. Começarão a tratar da eleição presidencial como uma questão em aberto, cujos desdobramentos podem levar até mesmo os dois a disputar o segundo turno entre si, decretando definitivamente o fim do ciclo petista.

Nesse caso, o PSB levaria vantagem teórica sobre o PSDB, pois, além de ter saído da base aliada do governo, tem uma coligação mais à esquerda, com o apoio da Rede Sustentabilidade de Marina Silva e do PPS. Dependendo da campanha, seria um candidato mais palatável ao eleitorado petista.

Já Aécio Neves parte para a campanha com o apoio do DEM e do Solidariedade de Paulinho da Força Sindical, que lhe dará mais tempo de televisão na campanha eleitoral no rádio e na televisão do que Campos.

Neste momento de formação de alianças nacionais e palanques regionais, tanto PSDB quanto PSB têm mais interesses divergentes, mas, quando é possível encontrar convergência, Aécio e Campos se aproximam. Como, por exemplo, nos dois estados que comandam politicamente, Minas e Pernambuco respectivamente, onde é possível encontrar pontos comuns.

A aliança com o PSB é um fato em Minas, onde o prefeito de Belo Horizonte é um socialista apoiado pelo PSDB. Nada mais natural que o PSB não lance candidato em Minas, para poder ter a reciprocidade em Pernambuco, onde o PSDB não tem candidato competitivo, mas, se lançasse o deputado Daniel Coelho, que teve 27% dos votos na recente eleição para prefeito de Recife, poderia impedir uma vitória do PSB no primeiro turno.

Onde for possível esse tipo de arranjo, será feito, inclusive com uma coligação regional. A sinalização é que há um fato novo: diferente da campanha presidencial em 2010, quando houve três candidaturas, e a ex-senadora Marina Silva não se considerou comprometida com a oposição, tentando preservar seu próprio cacife eleitoral para uma nova tentativa que acabou fracassando para 2014, desta vez temos dois candidatos de oposição que se comprometem previamente com apoio num eventual segundo turno, pois têm pontos em comum que levam a esse acordo.

Ambos acham que a condução da economia é extremamente perigosa para o Brasil, a ineficiência é absoluta, o aparelhamento da máquina governamental leva, sobretudo, a um desvirtuamento dos valores democráticos. Tanto Aécio Neves quanto Eduardo Campos buscam maior eficiência do Estado brasileiro - e os dois têm o que mostrar em suas respectivas administrações regionais - e têm o objetivo de ligar o país ao mundo desenvolvido, superando as barreiras ideológicas, com a busca de maiores investimentos, dando regras claras e garantias aos investidores privados.

Um conjunto de ideias que os aproxima e um objetivo comum: dar fim ao ciclo petista no governo.

Os pontos-chave



1 Do ponto de vista simbólico, o jantar que reuniu na noite de domingo, no Rio, Aécio Neves e Eduardo Campos conta muito para o futuro da corrida presidencial

2 Aécio e Campos começarão a tratar da eleição presidencial como questão em aberto, cujos desdobramentos podem levar até mesmo os dois a disputar o segundo turno entre si, decretando definitivamente o fim do ciclo petista

3 Desta vez temos dois candidatos de oposição que se comprometem previamente com apoio num eventual segundo turno

Em volta das arquibancadas - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 10/12

É possível processar a quase totalidade dos criminosos, e não só dois ou três como é feito, quando é feito


A grita em tantas direções não evita que seja difícil, senão impossível, encontrar entre os gritadores um que não seja corresponsável, em alguma medida, pelo espetáculo das bestas humanas nas arquibancadas de Joinville, e em todas as outras.

Já que estamos por aqui, podemos começar pelos meios de comunicação. Nenhum jornal, TV, revista ou rádio se interessou, jamais, por encarar para valer a violência que invadiu os estádios, no Brasil todo, há muito tempo. Assim como os bestalhões cometem periodicamente os seus acessos de brutalidade aproveitando o futebol, a imprensa (vá lá, engloba tudo) faz o seu surto de críticas como subsidiário do espetáculo boçal. E logo se segue a pausa, a imprensa à espera da clarinada dos boçais.

Na imprensa, poucos não sabem que muitos dos bandos são patrocinados com doações dos respectivos clubes, a pretexto de torcida para incentivo ao time. E que o patrocínio tem duplo interesse eleitoreiro, nas disputas pelo poder no clube e nas eleições político-partidárias: há muitos cabos eleitorais nas torcidas organizadas. É uma engrenagem bastante conhecida.

Se a engrenagem cria um enguiço maior, nem por isso a gritaria subsidiária avançará necessariamente mais. O episódio da Bolívia é exemplar. De repente foi "descoberto" lá no litoral paulista um "dimenor" apresentado como disparador do rojão sobre torcedores bolivianos, com a consequência de matar um menino de 14 anos. À família da vítima foi dado, não uma indenização, mas um cala a boca monetário, como complemento da "solução" incumbida a uma charmosa advogada e comentarista de jornal da TV Cultura. Ali o bando de boçais pouco se distinguiu de um grupo de querubins.

Se antes o assunto estava em estado mortiço, a "solução" cobriu-o de silêncio. Nem com tantos jornais, TVs, revistas e rádios, houve uma iniciativa de verificar se o "dimenor" ao menos viajou mesmo para a Bolívia, que algum rastro ficaria. Por falar nele, em que condições vivem, hoje, o próprio e sua família?

A legislação para o problema é uma grande farsa. Foi elaborada mais com interesses políticos do que para regramento efetivo. A chamada Justiça Esportiva não tem como coibir a ferocidade nas arquibancadas, mas finge ter, com medidas idiotas como "o jogo com fechamento dos portões" e a perda de mando de campo, que punem os futuros times adversários do time "punido". Mas assim se cumpre o objetivo dos mandatários do futebol, de não criarem problemas políticos e eleitorais para si e para seus correligionários.

E as autoridades da ordem? A Polícia Civil de São Paulo mostrou ontem o que é um verdadeiro trabalho policial. Prendeu duas dezenas de desordeiros e ladrões que investigou desde outubro, quando a morte de um menino por tiro policial serviu de pretexto para a interrupção da rodovia Fernão Dias, roubo de cargas e de caminhões, saques a lojas e incêndios de ônibus. Foi investigação, foi infiltração, foram interrogatórios, com um resultado que, por certo, irá além desse episódio: vai atemorizar muitos dos que têm feito tais ações sem dificuldade no ato e no pós-ato.

O trabalho excelente nesse caso demonstra que é possível identificar, prender e processar a quase totalidade dos criminosos das arquibancadas, e não só dois ou três como é feito, quando é feito. O que demonstra, também, que se não é feito é porque os governantes estaduais não querem e os setores que lhes podem cobrar não os cobram de verdade, não os põem xeque.

A gritaria tem razão de ser. Mas é também contra si mesma.

O Brasil e o sucesso da OMC - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 10/12

O governo brasileiro tem motivos especiais para festejar o sucesso da conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Bali, na Indonésia. O acordo entre os 159 participantes deu novo fôlego à maior negociação comercial da história, a Rodada Doha, reforçou o prestígio da OMC e foi a primeira vitória do novo diretor-geral da entidade, o brasileiro Roberto Azevêdo. Ruim para todos, o fracasso teria sido um desastre para o Brasil, porque seria mais uma derrota do sistema multilateral. Há dez anos a diplomacia petista pôs de lado os acordos com os países mais desenvolvidos, adotou uma política terceiro-mundista e subordinou a estratégia brasileira a um Mercosul cada vez mais emperrado pelo protecionismo argentino. Ao mesmo tempo, manteve a bandeira do multilateralismo, enquanto no resto do mundo se multiplicavam acordos bilaterais e inter-regionais.

Embora modesto em termos materiais, o pacote de Bali renova as possibilidades do multilateralismo. Mas novos avanços serão trabalhosos e acordos parciais continuarão sendo construídos. Em alguns casos, esses acordos poderão criar referências para a negociação mais ampla. Isso poderá ocorrer, por exemplo, na área de serviços, a partir de entendimentos entre várias grandes economias, incluídas a americana e a chinesa.

O governo brasileiro insistirá num erro perigoso, se continuar fora dos grandes arranjos parciais de comércio. O primeiro passo de uma ação mais eficiente será concluir um acordo com a União Europeia, com ou sem apoio argentino. Os europeus já mostraram disposição de avançar nesse entendimento, mesmo com a participação de apenas alguns países do Mercosul. Caberá à diplomacia brasileira, se for capaz de realismo no âmbito regional, criar uma solução para o impasse no bloco.

Será prudente seguir o mesmo critério nas próximas etapas da Rodada Doha, buscando objetivos ambiciosos e estimulando os parceiros regionais a tomar o mesmo caminho. O pacote de Bali só foi fechado quando o prazo inicial já estourava. Algo parecido havia ocorrido no lançamento da rodada, em 2001, no Catar, quando a negociação se estendeu muito além do tempo previsto. Mas a agenda era imensamente mais complicada e inovadora.

Em Bali, o compromisso mais importante foi sobre a facilitação de comércio - medidas para desburocratizar e simplificar entradas e saídas de mercadorias e dar mais transparência às regras. Ainda assim, será preciso oferecer assistência a alguns países para a realização do trabalho. Muito mais difícil foi o entendimento em torno da pretensão indiana de manter subsídios à formação de estoques de segurança alimentar.

Também foram acertados benefícios para os produtores africanos de algodão e os ministros do mundo rico reafirmaram o compromisso de liquidar em alguns anos os subsídios à exportação. Pacto semelhante havia sido firmado em Hong Kong, em 2005, para cumprimento até o fim deste ano. Mas, com a paralisação da rodada, em 2008, a promessa foi abandonada. Foi combinada em Bali, também, uma discussão de regras para a administração de cotas tarifárias - parcelas nem sempre preenchidas de importação com impostos reduzidos.

Mas a agenda total é muito mais ampla e os negociadores terão um ano para definir o roteiro. De toda forma, destravar a rodada foi uma realização importante. A OMC foi salva da irrelevância. Além do mais, a superação da crise internacional deverá criar um ambiente mais propício a compromissos globais.

Tecnicamente, está reaberto o caminho da modernização do comércio global. Só a facilitação de procedimentos poderá, segundo estimativa muito citada, abrir espaço para mais US$ 1 trilhão de negócios, graças à redução de custos e à simplificação de operações. Mas, para esse passo, foi preciso também vencer a resistência de Cuba, Venezuela, Nicarágua e Bolívia. Seus representantes cobraram o fim do bloqueio comercial dos Estados Unidos a Cuba, ameaçando vetar o acordo e levar a reunião ao fracasso. Acabaram recuando, mas deixaram clara, mais uma vez, a qualidade das alianças ideológicas do governo brasileiro.

Vergonha no futebol - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 10/12
O triste espetáculo que marcou a última rodada do Brasileirão cobre o gramado de vergonha. Aproveitando falhas na organização, torcidas se estranharam e partiram para o confronto. Na Arena Joinville (SC), vascaínos e atleticanos paranaenses se enfrentaram com violência e covardia poucas vezes vistas. Não faltaram chutes, pontapés e pancadas. Resultado: interrupção da partida por mais de uma hora e quatro feridos graves.
Só a sorte evitou que cadáveres se espalhassem pela arquibancada. Imagens divulgadas on-line pelos cinco continentes mostraram ao vivo e em cores cenas de barbárie que vêm se tornando rotina nos estádios brasileiros. Rapazes pisoteavam os rivais com ódio incontido. Pessoas desacordadas recebiam chutes no rosto e no corpo. Barras de ferro atingiam criaturas indefesas, na fúria de linchamento que movia os dois lados.

Sem policiais militares na arquibancada, a repressão coube a seguranças privados contratados pelo Atlético. A intervenção com armas que disparavam balas de borracha veio depois de injustificável demora. Enquanto a guerra transcorria entre os adversários, adultos e crianças que compraram ingresso para assistir à partida precisaram se defender dos atos sangrentos. Muitos fugiram antes do apito final.

Agressões promovidas por torcidas vêm se tornando triste rotina de norte a sul do país. Em agosto, para citar um caso, Brasília serviu de cenário do enfrentamento de organizadas em dois domingos consecutivos. O que está acontecendo? Resposta possível é a falta de preparo das forças de repressão para assegurar a tranquilidade em grandes eventos. Impõe-se, além de treinamento sério, recorrer à inteligência para a eficácia das medidas. A PM precisa ser convocada mesmo em evento privado.

Experiências internacionais servem de lição. Torcedores violentos não constituem exclusividade de nenhum país. Onde há brecha, eles aparecem. Se encontrarem terra fértil, sinônimo de impunidade, multiplicam-se como erva daninha. Desencorajá-los é a arma que os inibe. Vale um exemplo. Na década de 1980, a Inglaterra tinha uma das mais bárbaras torcidas do mundo. Hoje, transformou os estádios em ambientes agradáveis, com 100% de segurança para nacionais e estrangeiros.

A receita: punição dolorosa. Bandoleiros cumpriram pena, e os times ingleses foram suspensos dos campeonatos internacionais. O Brasil, que vai sediar dois certames mundiais nos próximos anos, tem de tomar medidas eficazes. Urge manter os vândalos distantes dos estádios. Como? Os times precisam rever a relação promíscua com as organizadas - dão-lhes ingressos e lhes facilitam a entrada. Não só. Impõe-se identificar os baderneiros, puni-los exemplarmente e impedi-los de atravessar os portões dos estádios. Os clubes também têm de ser responsabilizados para que sejam solidários com a segurança.

O acordo de Bali - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 10/12

As negociações tiveram vários lances difíceis, e um personagem sai fortalecido dessa rodada: o brasileiro Roberto Azevedo, diretor-geral da OMC


A globalização é destacada por sua capacidade de transformar o planeta Terra em um mercado único, uma verdadeira “aldeia global”, expressão cunhada por Herbert Marshall McLuhan para dizer que as novas tecnologias de comunicação encurtariam distâncias e, ao lado do progresso tecnológico, transformariam o mundo numa espécie de país único. Ao se intensificar nos últimos 30 anos, a globalização ampliou o movimento de mercadorias, de pessoas, de capitais e de tecnologias entre os países.

O avanço da globalização se deveu a várias fatores, com destaque para a liberalização do comércio internacional, a desregulamentação do fluxo internacional de capitais financeiros e a abertura das economias nacionais. Inicialmente, o movimento de abertura foi mais expressivo no mundo ocidental; logo adiante, incorporou os países nos quais o comunismo foi abolido; e, numa terceira etapa, envolveu vários países orientais. O aumento do comércio de bens, serviços e tecnologias entre as nações foi impulsionado pelo aumento da população global e pela necessidade de reduzir a pobreza.

Nesse cenário, um setor que teve menor velocidade de abertura e seguiu mantendo protecionismos nacionais foi a agricultura. Países como os Estados Unidos, Japão e várias nações europeias sempre relutaram em reduzir os subsídios a seus setores agrícolas e abrir suas economias a importações de alimentos oriundos de países cuja produção primária era mais eficiente. O Brasil é um dos países que há muito vinham demandando mais abertura e menos protecionismo à agricultura naqueles países, a fim de ampliar os mercados para exportação.

Após anos de fracasso nas negociações, os países membros da Organização Mundial do Comércio (OMC), reunidos em Bali, na Indonésia, acabaram de aprovar o primeiro acordo comercial geral em duas décadas, cuja conclusão chega a surpreender, pois depende da concordância de todos. Sem consenso não há acordo. Desta vez, coube à Aliança Bolivariana para as Américas (Alba) – da qual participam Bolívia, Cuba, Nicarágua e Venezuela – rejeitar o acordo inteiro, mesmo estando os países pobres, sobretudo aqueles nos quais há escassez de alimentos, entre os mais beneficiados com o acordo, uma vez que o pacote envolve medidas de estímulo e facilitação do comércio, da agricultura e do desenvolvimento. Mas depois de conseguirem chamar a atenção, os países componentes da Alba enfim deram seu aval à assinatura do acordo.

Estimativas iniciais feitas por organismos vinculados ao comércio internacional afirmam que os estímulos podem superar US$ 1 trilhão e têm potencial para gerar mais de 20 milhões de empregos na economia mundial, como destacou o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Parece que a oposição ao acordo, se houver, será de pequena expressão e localizada em países com interesses específicos eventualmente não beneficiados pelo acordo. As negociações tiveram vários lances difíceis, culminando com a aprovação final, e um personagem sai fortalecido dessa rodada: o brasileiro Roberto Azevedo, diretor-geral da OMC, que foi aplaudido na última sessão do encontro da organização, composta por 160 países membros.

As negociações envolveram itens de comércio exterior, transporte, barreiras não tarifárias, burocracia, normas jurídicas para solução de conflitos e medidas de facilitação do comércio. Espera-se que o setor primário mundial entre em novo tempo, com aumento da produção de alimentos, melhoria da produtividade e contribuição expressiva no combate à fome ao redor do mundo. Alguns pontos serão detalhados mais adiante e os procedimentos para a implementação dependem, pelo menos parte deles, de sistematização e divulgação.

Os países signatários do acordo agora passam à fase de adaptação de sua legislação e sua política interna a fim de que os efeitos das medidas aprovadas no âmbito da OMC se verifiquem na prática. As mudanças não serão imediatas no prazo curto, pois a extensão das medidas é expressiva e é grande o número de países envolvidos. Em relação ao comércio internacional, os termos combinados se transformam em norma a ser obedecida, cabendo à própria OMC o julgamento de eventuais conflitos levados a seus órgãos internos por qualquer parte considerada prejudicada.

Impunidade incentiva selvageria em estádios - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 10/12

É crucial punir arruaceiros e banir dos estádios as gangues disfarçadas de torcida. A barbárie de Joinville requer resposta imediata de CBF, Justiça, clubes e poder público



A partida de anteontem entre Vasco e Atlético Paranaense, em Joinville, foi uma tragédia anunciada. E não se pode atribuir ao lamentável desfecho, com torcidas organizadas dos dois times promovendo cenas de selvageria nas arquibancadas do estádio, influência circunstancial de uma tabela que programou para a última rodada do Campeonato Brasileiro um jogo entre uma equipe que lutava para não ser rebaixada e outra que brigava por uma vaga na Libertadores.

Essa carga de drama também esteve presente em outros confrontos da rodada, disputados sem quaisquer sinais de violência extracampo. Antes, deve-se identificar em que nível de decisões do poder público do Paraná efetivamente começou a cadeia de leniência e medidas irresponsáveis da qual resultou a estapafúrdia ordem de desprover o estádio de policiamento adequado. Neste sentido, é no mínimo risível o argumento de que o jogo se tratava de um “evento privado”.

Ora, também passeatas, por exemplo, podem ser classificadas como tal, e nem por isso as autoridades deixam de guarnecê-las com agentes públicos de segurança. Jogos de futebol têm o potencial de afetar a segurança pública e de colocar em risco multidões, como aconteceu em Joinville. Precisam ter aparato policial à altura.

Este é o viés pontual do problema — mas não o único a exigir providências exemplares. Outro, ainda mais grave, é o crescimento exponencial da violência nos estádios e seu entorno. Enquanto do ponto de vista administrativo o futebol brasileiro faz um louvável esforço para melhorar sua gestão (equacionamento do calendário, ações que buscam o saneamento financeiro dos clubes, modernização das arenas etc.), a questão da segurança dos torcedores continua sendo tratada sem que medidas para banir a violência nos jogos sejam efetivamente adotadas. O Estatuto do Torcedor, por exemplo, não vem sendo aplicado como deve, salvo exceções, como o Rio de Janeiro.

Diante de um quadro que se deteriora de forma cada vez mais perigosa, é irrecorrível que poder público e entidades tomem atitudes drásticas contra marginais que, travestidos de torcedores, entram nos estádios não com o propósito de acompanhar uma partida, mas de promover barbáries como a de domingo. A mais imediata é acabar com a praga das torcidas organizadas, protagonistas desde sempre de atos de selvageria.

Cenas de violência como as de Joinville são condenáveis em quaisquer circunstâncias. E a essa barbárie acresce-se a preocupação com a proximidade da Copa. O que implica, da parte de CBF, clubes, Justiça desportiva e poder público, resposta rápida e eficiente: julgamento e punição de arruaceiros, banimento dos brigões dos estádios, como já acontece na Europa, sem prejuízo das medidas penais, e punição de clubes cujas torcidas se envolvam em atos de violência (jogar com portões fechados e, no extremo, perda de pontos e desclassificação das competições). É crucial desestimular as gangues disfarçadas de torcedores

Mudanças inadiáveis - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 10/12

As instituições e seus eventuais ocupantes dispõem de um diagnóstico preciso das demandas mais urgentes dos brasileiros em pesquisas recentes realizadas pelos institutos Datafolha, Ibope e MDA. No conjunto, o que prepondera é a frustração com as carências em áreas essenciais, como saúde e segurança, e a preocupação generalizada com a corrupção. Apressadamente, pode-se concluir que as pesquisas indicam o que é óbvio. Se examinadas com cuidado, dão a dimensão da importância de cada questão e oferecem subsídios para que, se de fato desejarem, as autoridades se mobilizem em busca de soluções.
É crescente, como se vê, a insatisfação com a incapacidade dos governos de corresponder às necessidades básicas. Um exemplo: 87% dos entrevistados em todo o país consideram baixa ou muito baixa a qualidade dos postos de saúde e dos hospitais. O assustador é saber que, apesar desse alto índice, não há nenhum movimento inovador no sentido de reverter uma situação que não é apenas precária _ é desrespeitosa e degradante.
Fica evidente nas amostragens que a população estabelece uma relação entre a inépcia do setor público e os desperdícios e a corrupção. Pesquisas como essas constrangem o imobilismo de governos, de parlamentares e de outras esferas de poder. É inaceitável que um país com tantas potencialidades, e que corrigiu muitas de suas imperfeições da área econômica, seja incapaz de enfrentar com a mesma determinação os desafios das demandas sociais. É sintomático que o eleitor pesquisado defenda reformas estruturais na política e identifique os próprios políticos como alvos dos protestos de junho. O principal elemento presente nos levantamentos é um inquestionável desejo de mudanças, que precisará ser captado pelos pretendentes a cargos públicos e fazer parte dos seus compromissos.

Trincheiras na Venezuela - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 10/12

No primeiro teste eleitoral do presidente Nicolás Maduro, os pleitos municipais na Venezuela, realizados no domingo, evidenciaram, mais uma vez, um país dividido.

Em eleição definida como "plebiscitária" pela própria oposição, o PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) e outras siglas governistas conquistaram um número bem maior de prefeituras e obtiveram 49% do total de votos, contra 43% da MUD (Mesa de União Democrática) e seus aliados.

Foi o que bastou para Maduro celebrar o resultado e sacar, da cartilha chavista, declarações agressivas contra seu principal adversário, Henrique Capriles. Afirmou que o líder oposicionista é "fascista e prepotente" e o exortou a deixar a política, como se as urnas houvessem dado razão para tanto.

Longe de ser o caso. A oposição voltou a vencer em quatro dos cinco municípios que formam Caracas, além de seu distrito metropolitano. Manteve Maracaibo e Valencia, segunda e terceira maiores cidades do país, e tomou dos chavistas a prefeitura de Barinas, capital do Estado natal de Hugo Chávez.

Num país conturbado como a Venezuela, é difícil precisar quem se saiu melhor. Com o desabastecimento de alimentos e produtos de primeira necessidade, a inflação galopante (já perto de 60% ao ano), a falta de dólares na praça e a insegurança crescente, uma oposição mais forte talvez tivesse amealhado mais votos.

No entanto, são conhecidos os métodos chavistas. Os meios de comunicação são praticamente monopólio do governo, e eleitores têm fundados motivos para temer represálias caso votem na oposição.

Maduro, além disso, adotou medidas tão irresponsáveis quanto populistas a fim de obter sucesso eleitoral. Ordenou, mês passado, a redução do preço de eletrodomésticos em até 50%. A ação gerou uma onda de consumo e teve impacto na campanha, chamado por analistas de "efeito TV de plasma".

Vale, portanto, o mesmo raciocínio aplicado à oposição: não seria natural esperar votação mais expressiva dos governistas?

Do ponto de vista eleitoral, o copo está meio cheio, meio vazio. Já a situação da Venezuela não pode ser relativizada da mesma maneira. Entrincheirados em seus redutos, governo e oposição recusam-se a estabelecer um diálogo saudável. Cantam vitórias de pirro num país cada vez mais em frangalhos.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Não tenho detalhes”
Tarso Genro (PT), para quem Romeu Tuma Jr endereçou denúncias jamais apuradas


LULA IMPLANTOU ESTADO POLICIAL, DIZ ROMEU TUMA JR

O delegado Romeu Tuma Jr está pronto para atender a convite e prestar esclarecimentos ao Congresso, inclusive apresentando provas das denúncias do que chama de Estado Policial, implantado no governo Lula, no qual foi secretário nacional de Justiça por quatro anos, entre 2007 e 2010. As denúncias de perseguições e fabricação de dossiês contra adversários estão detalhadas nas 567 páginas do livro-bomba Assassinato de Reputações – Um crime de Estado (ed Topbooks, RJ).

VOLUME II A CAMINHO

Em entrevista a esta coluna, única que concedeu ontem, Romeu Tuma Jr diz que responderá a novos ataques com o Volume II do seu livro.

PRESTANDO CONTAS

Tuma Jr define o livro-bomba como “prestação de contas”, porque não pôde se defender de acusações que o fizeram deixar o cargo, em 2010.

ESQUECERAM DE MIM

Acusado de “ligações” a um suposto contrabandista, Tuma Jr jamais foi ouvido pela Polícia Federal, tampouco alvo de inquérito ou processo.

DOSSIÊS FAJUTOS

Romeu Tuma Jr contou que o ex-ministro Luiz Paulo Barreto (Justiça) e Aloizio Mercadante pediram a ele para “esquentar” dossiês fajutos.

DILMA ACABOU ÓRGÃO QUE ACABOU BRIGA EM ESTÁDIO

Dizendo-se chocada com a violência em Joinville (SC), a presidente Dilma anunciou novo factoide: a “Delegacia do Torcedor”. Mas foi o seu governo que acabou em 2011 a Câmara Técnica de Combate à Intolerância Esportiva, no Ministério da Justiça. Enquanto a Câmara existiu, por um ano, não houve um só caso de briga em estádios. A Câmara definia padrões de policiamento dentro e fora dos estádios.

DIZ QUE NÃO ESTOU

O Ministério da Justiça embromou ontem por mais de sete horas e não explicou por que o ministro José Eduardo Cardozo extinguiu a Câmara.

FOI PARA O SACO

Câmara de Combate à Intolerância Esportiva ultimava o Procedimento Policial Padrão (POP), a ser replicado em todos os estádios do País.

DE OLHO NA COPA

A Câmara elaborava o planejamento estratégico das medidas de segurança para a Copa do Mundo de 2014.

INFLUÊNCIA DE ARAQUE

Ex-futuro patrão de José Dirceu, Paulo Abreu adora se gabar da influência em tribunais, até os Superiores, o que pode induzi-los a erro, fazendo-os ignorar a jurisprudência. Mas dificilmente se dá bem.

MANDOU BEM

O ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) está feliz com o acordo histórico liderado pelo brasileiro Roberto Azevêdo, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio. Foi ele quem alertou Dilma, após visitar Genebra, que Azevêdo poderia vencer a eleição na OMC.

POBRES SUÍÇOS

O jornal Le Matin criticou o preço de pacote de 17 dias para três jogos da Suíça na Copa: R$ 30 mil com passagens e hotel duas estrelas, fora os ingressos. Genebra é uma das cidades mais caras do mundo.

ESTÁ EXPLICADO

A revelação de que Lula foi informante do Dops, no regime militar, dá sentido à gentileza do então delegado Romeu Tuma, permitindo que o então sindicalista deixasse sua breve cadeia de 31 dias para ir ao velório da mãe. A ditadura não fazia gentilezas aos seus reais inimigos.

EXPLOSÃO CRIATIVA

Além de jogar fora R$ 160 milhões no projeto, o Brasil ainda pagou o mico de topar a inspiração maoísta imposta pela China no foguete de sensoriamento remoto: o Longa Marcha 4 B mal chegou à esquina.

CASO DE POLÍCIA

Líder do PPS, Rubens Bueno (PR) entrou com pedido na Comissão de Segurança Pública da Câmara para convocar o ex-secretário de Justiça Romeu Tuma Jr para esclarecer denúncias de corrupção e de dossiês no governo PT: “Se ele tiver provas, vamos propor a criação de CPI”.

XADREZ ELEITORAL

A fim de aumentar chances de segundo turno em 2014, Eduardo Campos (PSB-PE) e Aécio Neves (PSDB-MG) cogitam incentivar o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO) a também disputar a Presidência.

MORTOS NÃO FALAM

Nelson Mandela, que uniu brancos e negros após o fim do apartheid na África do Sul, sem dúvida descartaria a “oportuna” visita póstuma de Lula, que já culpou “brancos de olhos azuis” pelos males do Brasil.

PENSANDO BEM...

...José Genoino é a prova (muito) viva que excesso de óleo de peroba faz mal à saúde.


PODER SEM PUDOR

CÔNSUL CEARENSE

Lucas Nogueira Garcez, governador de São Paulo, inaugurava obras em Mogi das Cruzes - onde há grande colônia japonesa - quando foi procurado por um eleitor nascido no Ceará, que lhe pediu "um cônsul".

- Um cônsul?...

- Sim, governador. Os japoneses têm cônsul e quando um deles vai preso, o cônsul solta. Os cearenses, não. Se um de nós vai preso, mofa na cadeia...

TERÇA NOS JORNAIS

Globo: Desatando o nó: Governo autoriza cinco novos portos privados no país
Folha: ‘Lista da propina’ de fiscal cita construtoras e hospitais
Estadão: Lista de propina do ISS tem shopping e grandes empresas
Zero Hora: Voto aberto é colocado à prova no Congresso
Brasil Econômico: Defasagem do preço de óleo para indústria é de 15%
Correio Braziliense: Futebol brasileiro é refém de 30 torcidas
Estado de Minas: Cerco a moradores de rua
Jornal do Commercio: Médico indiciado por morte após cirurgia