segunda-feira, novembro 04, 2013

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

FOLHA DE SP - 04/11

Empresa do Rio Grande do Sul planeja 16 hotéis para os próximos quatro anos
Com seis hotéis hoje, a rede Laghetto, de Gramado (RS), pretende mais que triplicar o número de unidades até 2017. A intenção é alcançar 22 operações.

O investimento médio em cada projeto ficará em torno de R$ 30 milhões --um total de R$ 480 milhões.

A empresa deverá entrar como proprietária em 30% dos empreendimentos. Nos outros, será responsável pela gestão.

"Até 2007, tínhamos só um hotel. Em 2008, apareceu a oportunidade para fazermos uma administração. Vimos que era uma bom negócio", afirma Plínio Ghisleni, sócio- fundador da companhia.

Para o próximo ano, estão previstas três inaugurações --duas em Gramado (onde a empresa já tem outras quatro) e uma em Porto Alegre (na qual o primeiro projeto acaba de ser inaugurado).

A entrada em novos mercados, entre eles Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Minas Gerais, além do Uruguai, também está programada.

"Gramado tem tradição em hospedagem confortável, com café da manhã farto e atendimento mais personalizado. Vamos adotar isso nos hotéis das cidades em que nos instalarmos."

No Estado de São Paulo, Ribeirão Preto e Campinas estão em análise.

Acostumada com hotéis voltados para o turismo, a rede precisou desenvolver quatros bandeiras (econômica, luxo e executiva) para o projeto de expansão.

O número de apartamentos da Laghetto passará dos atuais 710 para 2.300. A projeção é que os funcionários saltem dos 285 para 750.

MÃOS AO ALTO
O modelo de caminhão Mercedes Benz Axor é o principal alvo de ladrões de veículos no país, de acordo com o grupo Tracker, do mercado de rastreamento.

Dos veículos pesados com rastreador da empresa que foram roubados ou furtados neste ano, pouco mais de 10% eram desse modelo.

Hyundai HR, Ford Cargo, Volvo FH440 e Iveco Stralis também são bastante visados. Juntos, corresponderam a 33% do total.

No primeiro semestre de 2013, a companhia registrou 291 roubos ou furtos de caminhões --cerca de três a cada dois dias.

Enquanto os crimes contra veículos pesados aumentaram 22,14% no terceiro trimestre deste ano, na comparação com o mesmo período de 2012, os roubos de carros cresceram 7,82%.

A diferença decorre do interesse dos ladrões pelas cargas carregadas.

Dos automóveis recuperados pela companhia entre julho e setembro, 14% eram caminhões. Os utilitários correspondiam a 21%.

LÍNGUA AFIADA
A rede de idiomas CNA vai adotar uma estratégia de expansão mais agressiva para alcançar a marca de mil unidades até 2017.

O projeto é resultado de um mapeamento que identificou cidades fora do eixo Rio-São Paulo com potencial para receber novas franquias, como Belém, Palmas, São Luiz, Petrópolis (RJ) e Gravataí (RS).

"Enquanto mais de 55% da nossa receita vem de São Paulo, temos alguns mercados onde a rede ainda pode e deve crescer bastante", afirma Décio Pecin, presidente da CNA.

Para cidades de pequeno porte, a empresa lançou um modelo de franquia enxuto, com número de quatro a cinco salas por unidade.

A mineira Up Time pretende se expandir nas regiões Norte e Nordeste.

"Nossa meta é abrir 40 unidades por ano", diz Sérgio Monteiro, presidente da rede que atua em 21 Estados.

O investimento inicial em cada franquia varia entre R$ 65 mil e R$ 139 mil, de acordo com Monteiro.

PITADA NO COSMÉTICO
A Ajinomoto transferiu de sua matriz no Japão duas linhas de umectantes que são usados na indústria cosmética para a fábrica de Limeira, no interior de São Paulo.

Um dos motivos para a mudança é que a empresa utiliza o ácido glutâmico, derivado da cana-de-açúcar, como principal ingrediente na fabricação dos produtos.

"Antes, esse material retirado da cana-de-açúcar era processado no Brasil e enviado para o Japão, onde eram feitos os umectantes", afirma Elaine Afonso, executiva da área de especialidades químicas da companhia.

Com a transferência para o Brasil, os produtos passam a ser fabricados integralmente no país e vendidos para companhias locais e estrangeiras.

A multinacional fornece ingredientes cosméticos para aproximadamente 3.000 empresas em 50 países.

A companhia também produz insumos para as indústrias de alimentos, farmacêutica e de nutrição. O Brasil é o terceiro maior mercado, atrás do Japão e da Tailândia.

Os investimentos feitos na unidade do interior paulista não foram informados.

Mudança no Indusval
A Guide Investimentos, marca que vai substituir a BI&P Indusval Corretora, inicia hoje suas operações no mercado, durante a abertura do pregão da Bovespa.

A empresa manterá o atendimento a clientes institucionais e passará a atuar também na gestão de recursos para investidores pessoas físicas de alta renda.

"A gente quer ter R$ 4,2 bilhões [em recursos gerenciados] nos próximos três anos", afirma Jean Sigrist, um dos sócios da companhia e ex-diretor do Itaú.

Além do banco Indusval e de Sigrist, a nova gestora tem como acionistas os executivos Aline Sun, Alexandre Atherino e Marcelo Macedo, que já atuaram no Itaú, no Banco Fator e no BTG Pactual, respectivamente.

Apenas Atherino já era sócio da BI&P.

Quem avisa, amigo é - GUSTAVO LOYOLA

VALOR ECONÔMICO - 04/11

Duas análises recentemente divulgadas por organizações internacionais - FMI e OCDE - apontaram para a existência de sérios problemas na política econômica que impedem o Brasil de crescer de forma mais acelerada. De um modo geral, a reação do governo a esses diagnósticos foi a de minimizá-los, talvez porque se julga no caminho correto com as políticas atuais. Contudo, a dura realidade do baixo crescimento econômico brasileiro dá razão à maioria das conclusões de ambos os relatórios.

O relatório do Fundo ( Staff Report for the 2013 Article IV Consultation - disponível no site do FMI) atribui a queda do crescimento da economia brasileira a partir de 2011 às limitações de oferta e ao aumento da incerteza em relação às políticas macroeconômicas. O documento critica o excesso de estímulos à demanda e de sintonia fina característicos da gestão macroeconômica recente. Na visão do Fundo, a situação exige aperto das condições monetárias e fiscais, com vistas a equilibrar oferta e demanda e restaurar a confiança no arcabouço macroeconômico. Há também críticas explícitas ao uso dos bancos públicos como instrumentos de expansão de demanda, assim como à perda de transparência na política fiscal.

No mesmo diapasão veio o documento da OCDE ( Economic Survey of Brazil , disponível no site da organização), no que concerne às críticas às políticas monetária e fiscal e ao uso dos bancos públicos. O BC teria sido tolerante com a inflação que sistematicamente tem ficado acima do centro da meta, enquanto está sendo comprometida a gestão fiscal pela perda de transparência e pela necessidade de operações não usuais para o cumprimento das metas orçamentárias.

Há pouco de novidade nos diagnósticos e recomendações do FMI e da OCDE. Não é de hoje que os equívocos do governo têm sido apontados por inúmeros analistas. Os relatórios citados, porém, são indicadores do grau de deterioração da percepção externa sobre a gestão macroeconômica, da mesma forma que os mais recentes pronunciamentos das agências de classificação de risco acenando para a possibilidade de rebaixamento da nota de risco do país nos próximos meses.

Adicionalmente, os dois relatórios tocam na tecla da necessidade de políticas para o aumento da produtividade e da competitividade, o que elevaria o potencial de crescimento da economia brasileira. Nesse sentido, fundamental seria a retomada das reformas nas áreas tributária, previdenciária e trabalhista, assim como de toda a agenda de redução do custo Brasil .

O ambiente externo têm se modificado nos últimos meses, em razão das perspectivas de início da retirada dos estímulos monetários pelo Federal Reserve. Houve a apreciação do dólar americano e o aumento dos juros de longo prazo nos EUA, o que tem levado à diminuição da liquidez para os países emergentes e a pressões baixistas sobre o preço das commodities . A conjuntura internacional, assim, tornou os mercados mais seletivos em relação às economias emergentes produtoras de bens primários, o que afeta de forma negativa o Brasil. Lastimavelmente, tal mudança coincide com a queda da confiança dos investidores na gestão macroeconômica brasileira e com maior ceticismo em relação às perspectivas de crescimento de nossa economia.

Com isso, tornou-se ainda mais premente fazer a correção de rumos recomendada nos mencionados relatórios. Se de um lado o contexto pré-eleitoral desfavorece quaisquer esforços maiores de reformas legislativas neste ano e em 2014, por outro há muito espaço para uma meia-volta corretiva na política macroeconômica, com vistas a fortalecer a trajetória fiscal e a credibilidade do regime de metas para inflação. Aqui e acolá se observa alguns passos do governo na direção correta - como a intenção de reduzir os repasses de recursos do Tesouro para os bancos públicos -, mas insuficientes para afastar os riscos de rebaixamento da nota de risco soberano do Brasil. Rebatendo crítica de Marina Silva, a presidente Dilma declarou que seu governo jamais abandonou o tripé macroeconômico. Penso ser o caso de deixar isso bem claro, por meio de ações concretas principalmente na esfera fiscal.

Além disso, mais além do campo puramente macroeconômico, o governo deveria abandonar a veleidade de direcionar as decisões dos empresários e investidores por meio de estímulos setoriais e prebendas, passando a adotar políticas horizontais que favoreçam a competitividade e o crescimento da produtividade. O recente relatório Doing Business do Banco Mundial continua mostrando o Brasil em vexatória posição - 116ª entre 189 países avaliados - o que por si só indica o fracasso dos governos recentes quando se trata de melhorar o ambiente de negócios em nosso país. Não basta assegurar que os leilões de concessão sejam bem sucedidos. A agenda é mais ampla e começa pelo abandono do viés ideológico responsável pela paralisia do ímpeto reformista na economia brasileira, substituído que foi por um ativismo ineficaz e gerador de incertezas.


A Petrobras volta ao passado - ADRIANO PIRES

O GLOBO - 04/11

Com a chegada do PT ao governo em 2003, foi iniciado um desordenado processo de intervenção nos preços da gasolina e do diesel, que deixaram a Petrobras na pior situação econômica e financeira da sua história. Agora, para solucionar o problema de caixa da empresa, que terá de realizar investimentos gigantescos nos próximos anos, volta-se ao passado, trazendo novamente a utilização de uma fórmula para alinhamento dos preços domésticos dos combustíveis aos preços internacionais. Segundo o fato relevante divulgado pela Petrobras, a introdução de uma fórmula de precificação do diesel e da gasolina tem o objetivo de dar maior previsibilidade à geração de caixa e reduzir os índices de alavancagem da empresa.

Uma fórmula paramétrica já havia sido adotada em 1998, regulamentando o artigo 69 da lei nº 9.478/1997, que abriu o mercado de petróleo.

O artigo n. 69 dizia que, durante um período de transição, os preços do petróleo, gás natural e seus derivados seriam fixados por uma portaria interministerial do Ministério da Fazenda e de Minas e Energia. A fórmula definida para regulamentar este artigo determinava que, em todo início do mês, se olhava para os três meses anteriores e se calculava a média móvel da variação dos preços no mercado internacional, seguidamente convertidos em reais pela taxa de câmbio. Dessa forma, os derivados, como a gasolina, eram reajustados todos os meses para baixo ou para cima. Em 31 de dezembro de 2001, com a criação da Cide, o artigo 69 foi revogado e os preços dos derivados nas refinarias passaram a ser totalmente livres, com o objetivo de atrair investidores privados para o refino.

Segundo a Petrobras, a nova metodologia contemplará um "reajuste automático do preço do diesel e da gasolina em periodicidade a ser definida, com base em variáveis como o preço de referência dos derivados no mercado internacional, taxa de câmbio e ponderação associada à origem do derivado vendido" Sob a ótica do governo faz sentido diferenciar derivado produzido x importado. Estão limitando o buraco das importações e dando algum chão para a produção local. O fato de ponderar pela origem do derivado mostra que a empresa tem o objetivo de estancar as perdas efetivas com a importação de combustível. As perdas por vender combustível produzido nacionalmente abaixo do mercado internacional poderão ser absorvidas pela empresa. A conferir. Ou seja, aparentemente a Petrobras vai adotar uma média móvel. O número de períodos dessa média móvel também representa uma difícil escolha. Quanto maior o número de períodos, menor a volatilidade nos preços domésticos, mas também é maior o descolamento dos preços internacionais. A um ano das eleições existe uma tendência de adotar um período maior, talvez de 12 meses. Essas novidades deixam o ambiente melhor do que estava, mas longe do ideal.

Para bancar investimentos fortes nos próximos anos e não deixar o país refém de importações de gasolina e diesel, a Petrobras precisa de parceiros privados para novas refinarias. A adoção de uma fórmula não resolve a questão de atração de investimentos privados para o setor de refino. Somente um mercado livre e com a correta sinalização de preços contribuirá para investimentos privados, tirando da Petrobras o peso de carregar o refino no Brasil. A racionalidade das empresas privadas não se encaixa nesse modelo de fórmula. O correto seria respeitar a lei mantendo os preços livres nas refinarias e utilizar a política fiscal e monetária para controlar a inflação. 

Armazenagem, o elo perdido do agronegócio - RENATO CASALI PAVAN

O Estado de S.Paulo - 04/11

Comprovadamente competitivo, líder mundial na produção de várias commodities e com um aumento de 60 milhões de toneladas nos últimos dez anos, o agronegócio brasileiro passa a enfrentar sérios problemas a partir da colheita, principalmente de soja e milho, por falta, entre outras coisas, de infraestrutura de armazéns, que não acompanhou a evolução da produção. Nada menos que R$ 20 bilhões são perdidos por ano por causa desse grave problema, que se arrasta há mais de 30 anos.

Nessa questão, há uma falsa avaliação do déficit do sistema de armazenagem quando o cálculo é feito pela diferença entre a produção e a capacidade instalada de armazéns. Como o Brasil produz 180 milhões de toneladas de grãos e a capacidade de armazenagem é de 140 milhões de toneladas, o resultado apontado por vários especialistas é de 40 milhões de toneladas. Mas isso está errado, o déficit é muito maior, pois a armazenagem é dividida em níveis.

Os produtores dos Estados Unidos, nossos maiores concorrentes e considerados referência em eficiência, armazenam em suas fazendas uma safra e meia, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O produtor brasileiro armazena somente 15%, cerca de 30 milhões de toneladas, com um déficit de 150 milhões de toneladas para uma safra. A deficiência de armazenagem provoca enormes perdas, as quais ocorrem ao longo da cadeia produtiva.

A primeira perda se dá na colheita. A recomendação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) é que o grão seja colhido com umidade entre 15% e 18%. Nesse caso há necessidade de secar e armazenar na propriedade. Quando não há armazém, o grão é colhido mais seco para retardar o processo de fermentação, ocasionando uma perda de 5%.

A segunda perda ocorre após a colheita. Uma vez colhido, o produto é transportado por caminhão para a cooperativa ou para os armazéns coletores. O aumento na demanda encarece o frete, além do que o caminhão enfrenta uma enorme fila para levar o produto para ser limpo e seco. Como ele está úmido, fermenta, perde qualidade e, consequentemente, o preço pode cair até 5%.

A perda anual de 10% entre a colheita e o armazém coletor representa R$ 12,6 bilhões, que, somados aos R$ 8 bilhões estimados pela Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), implica uma perda total no ano da ordem de R$ 20 bilhões, diminuindo a renda do produtor.

A terceira perda é na exportação. Por falta de armazenagem na propriedade, todos querem levar os seus produtos para o porto ao mesmo tempo, congestionando as rodovias e ferrovias. De acordo com a Anec, por causa do congestionamento há mais um prejuízo de R$ 8 bilhões por ano. O Brasil movimenta pelos portos cerca de 32 milhões de toneladas de soja e 15 milhões de toneladas de milho, ou seja, 47 milhões de toneladas/ano. A necessidade é de 2,5 milhões de toneladas estáticas.

Como se nota, o grande gargalo de armazenagem se encontra na propriedade, o que provoca deficiência em cadeia e torna inviável a movimentação racional da safra. Com o programa de financiamento de armazéns nas propriedades rurais, recentemente anunciado pelo governo federal, será possível ao produtor recuperar o elo perdido na área de armazenagem, pois terá, finalmente, condições de acesso a linhas de crédito que lhe permitam fazer os investimentos elevados necessários à construção de silos. O custo médio de um armazém é de R$ 400 por tonelada, o que exige um investimento de R$ 60 bilhões em 12 anos.

O Banco do Brasil e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) puseram à disposição cerca de R$ 5 bilhões ao ano para financiar armazéns na propriedade rural, com 15 anos para pagar, três anos de carência e juros de 3,5% ao ano, com custo total de R$ 35 por tonelada/ano. Considerando que o preço médio dos grãos é de R$ 700 a tonelada na região de produção, o produtor terá um ganho de 10%, ou R$ 70 por tonelada. Além de pagar o financiamento, ainda tem uma receita adicional de R$ 35 por tonelada.

Essa notícia ganha ainda mais importância com a decisão da Caixa Econômica Federal de aderir ao esforço de financiamento para o armazenamento. O que está faltando é maior divulgação do programa, para que os produtores possam interessar-se e começar a desengavetar os seus projetos. Aqui há ainda um adicional positivo, que é recuperar o poder produtivo das indústrias de silos, gerando mais empregos e aquecendo um importante segmento da economia.

Paralelamente ao anúncio de investimentos na melhoria das condições de armazenagem, há também boas perspectivas em relação à malha ferroviária e rodoviária. No caso das estradas, está previsto para 2014 o tráfego na Rodovia BR-163 (entre Mato Grosso e Pará), com transbordo em Miritituba (Rio Tapajós, PA) para barcaças, com destino a Vila do Conde e Santarém, que movimentará inicialmente 10 milhões de toneladas por ano. Também no ano que vem entrará em operação no Porto de Itaqui, no Maranhão, o Terminal Tegram, com capacidade para movimentar cerca de 5 milhões de toneladas por ano. Com a ativação desses terminais haverá uma diminuição da pressão sobre os portos do Sul e do Sudeste.

De toda maneira, torna-se necessária a união de forças e uma forte divulgação, que motive principalmente os produtores a se tornarem independentes quanto à armazenagem dos seus produtos e aumentarem a sua renda. A Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja) estão engajadas nesse projeto. Com certeza, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e suas federações também darão uma enorme contribuição nesse sentido.

Reinventando o comércio - LULI RADFAHRER

FOLHA DE SP - 04/11

O consumidor poderá 'assinar' um serviço para usar produtos por um tempo limitado


Os processos comerciais evoluíram, mas o modelo não seria estranho a um consumidor do século 17. A matéria-prima ainda é industrializada, transportada e apresentada em lojas, onde é trocada por dinheiro, em uma relação que raramente se estende além do período da garantia. Não há muita diferença entre um iPhone comprado na Amazon e um peixe comprado em um mercado de rua em Marselha.

O comércio eletrônico varreu esse problema para debaixo do tapete. Por mais que as lojas estejam abertas o tempo todo, disponíveis nos bolsos, o processo ainda é o mesmo, dependente dos mesmos agentes. Mas isso está para mudar.

A começar pelo dinheiro. As transações pela internet criaram uma facilidade, mas geraram um gigantesco controle de informação pelos bancos e companhias de cartão de crédito. Eles sabem, a cada transação, quem você é, onde está e do que gosta. O preço pago pela comodidade digital é a perda de privacidade.

Não há, na internet, algo equivalente a dinheiro: anônimo, rápido e definitivo. Ou não havia, até o surgimento do Bitcoin --não surpreende vermos tantas críticas.

Há indícios que a própria ideia de dinheiro esteja com os dias contados. A intensa troca de informações pelas redes sociais permite o surgimento de novas formas de pagamento. Há projetos de economia colaborativa, estimulando o desenvolvimento de economias locais e trocas de conhecimento específico. Usados em ambientes tão diversos quanto o mundo acadêmico e as moedas sociais, esse novo intermediário ajuda e reconstruir as relações de valor e sua aplicação.

Facebook e Google mostram que é possível pagar por serviços úteis com uma moeda que há pouco tempo era tão difícil de minerar que sua aplicação prática se tornava inviável: a informação. Aparentemente gratuitos, eles registram e analisam os dados de visitação de seus usuários, convertendo-os em orçamentos de mídia para anunciantes. É o mesmo princípio de patrocínio que antigamente sustentava os programas da TV e sustenta blogs e redes.

Em um futuro próximo não será difícil imaginar um restaurante em que o cardápio, em um tablet, comparará o histórico do consumidor com os dados de estoque e disponibilidade dos pratos para formar combinações que sejam mais valiosas para todos.

Em hangares industriais, máquinas de precisão imprimirão automóveis ou casas com personalização e detalhe não imaginados hoje. As limitações estariam na precisão do modelo e qualidade do material.

Não demorará para que boa parte dos produtos sejam transformados em serviços.

Em vez de comprar um par de tênis, o consumidor poderá "assinar" um serviço para usar produtos por um tempo limitado e devolvê-los para o fabricante, que se encarregará de sua reciclagem. Basta olhar qualquer armário para notar como a prática faz mais sentido do que o processo industrial de hoje, em que materiais preciosos são arrancados do solos e depois seguem para aterros sanitários.

A evolução tecnológica nos mostra que a única forma de ampliar a qualidade de vida ao mesmo tempo em que se acomodam mais e mais habitantes no planeta está em desafiar a imaginação.

As alianças no segundo turno - RENATO JANINE RIBEIRO

VALOR ECONÔMICO - 04/11
A 26 de outubro de 2014, daqui a quase um ano, deveremos escolher o próximo presidente entre Dilma Rousseff e um candidato da oposição. Hoje, este é o cenário provável. Dilma terá sido a mais votada no primeiro turno, mas com menos votos do que os sufrágios tucanos somados aos da Rede+PSB. Matematicamente, isso significa que a oposição poderá vencer - mas apenas se o oposicionista que for para o segundo turno conseguir a transferência quase integral dos votos do oposicionista que não for.
A grande questão, desde já, é: os dois candidatos de oposição - que se opõem mais ao PT do que entre si - se unirão para o segundo turno? Desculpem, a pergunta está errada. Pode bem ser, sim, que se unam. Mas a verdadeira questão é: os eleitores do terceiro colocado, que estará fora da disputa, apoiarão quem disputar a final contra Dilma? Eis o ponto. 

Nosso eleitor não dá tanta importância às recomendações dos candidatos em quem votou antes. Decide em função de outros critérios. Isso pode decorrer de uma politização menor do que na Europa, mas tem o condão de deixar nosso votante mais independente, de permitir surpresas políticas e de dar mais oportunidade política à renovação. Os movimentos de votos que ocorrerão entre 5 e 26 de outubro não resultarão tanto de um acordo tardio entre os dois oposicionistas. Mas serão influenciados, sim, por suas campanhas.

Para que a aritmética (PSDB + PSB > PT) se torne realidade, será preciso muita política. Será necessário os candidatos de oposição blindarem seus eleitores contra a sereia petista - e isso começando agora, pensando já no segundo turno. Essa é a condição para uma transferência bem sucedida de votos. Têm assim de convencer seus eleitores de que a distância entre eles dois (Aécio ou Serra e Eduardo ou Marina) é menor do que o abismo separando todos eles do governo. Só que não adiantará pregar isso depois de abertas as urnas do primeiro turno. Na França, a cada eleição presidencial, aguarda-se com ansiedade o perdedor do primeiro turno - sempre um centrista - anunciar quem apoiará. No Brasil, será tarde. Nosso eleitor fará sua escolha para a final das presidenciais considerando, sim, o que dirá seu ex-candidato, mas apenas entre vários outros considerandos.

Se a oposição quiser levar em outubro de 2014, precisa começar a trabalhar desde já. Precisa preparar uma aliança implícita, não enunciada, discreta, que possa ter sucesso no segundo turno. Ou seja, não pode deixar para anunciar sua união após a primeira volta das eleições. Mas tampouco pode se apresentar unida antes do pleito. Os dois partidos precisam ter seus candidatos. Precisam ser diferentes. Precisam disputar para valer.

Não se trata de um pacto de não agressão. Agora deve baixar bastante o teor de críticas dos tucanos à Rede+PSB, ou desta ao PSDB. Mas o principal, para ambos, é fechar seus eleitores ao PT.

Um sinal disso se vê no aumento da tensão de Marina e mesmo Campos com o petismo. Até agora, Marina Silva se apresentou como a terceira via, propondo uma alternativa ao condomínio PT-PSDB que disputa o poder entre nós há quase 20 anos. Eduardo Campos procurava uma posição intermediária entre esses partidos, cultivando ao mesmo tempo Lula e Aécio, lançando-se candidato mas mantendo-se de bem com os dois. Marina é mais conceitual, mais utópica. Campos é intensamente pragmático. Ela é mais inovadora, queria uma terceira via; Campos, apenas um meio termo. Suas trajetórias, tão diferentes entre si, se os afastavam do PT, não os jogavam nos braços do PSDB. Agora, porém, ambos estão sendo marcados como oposicionistas.

Por itinerários distintos, os dois ex-ministros de Lula - que, separados, podiam não bater de frente no PT - ao se juntarem passaram a navegar em águas que têm mais traços tucanos do que petistas. Isso lhes dá força e fraqueza. Tornam-se fracos, porque o discurso da novidade, da terceira via de Marina, da moderação de Campos cede lugar a um endereço carimbado na oposição. Mas se fortalecem porque passam a disputar, com chances de êxito, o lugar que ainda é dos tucanos. Se Serra tem um teto baixo, limitando seu crescimento, e se Aécio não decola, abre-se espaço para um novo candidato, especialmente se for o membro mais popular da nova aliança, Marina.

Se ela ou Campos for para a final, contra Dilma, o eleitorado tucano os seguirá sem muita discussão. Se Aécio ou Serra for o finalista, a transferência é menos óbvia. Mas interessa aos dois partidos o apoio recíproco na final. E o importante é que, na cultura política brasileira, isso não se define em negociações entre as cúpulas partidárias na última hora, mas se lapida ao longo do tempo, na construção aos olhos do povo de duas figuras essenciais, a do antagonista e a do mero adversário.

Desde agora, na campanha para o primeiro turno, cada candidato elege um antagonista, aquele a quem vai se opor fortemente. Para o PSDB, é o PT, e vice-versa. E cada um elege adversários, com quem vai disputar, mas conservando espaço ou para seu apoio explícito, ou ao menos para garimpar votos entre seus eleitores.

Nesse conflito dos dois rivais históricos, o novo ator ganha, mas nem tanto. Porque o PT tentará desconstruir Marina e Campos com vários argumentos, acusando-os de abandonar seus compromissos históricos e procurando afastar deles os eleitores que valorizem a questão social. Porque Marina e Eduardo também se enfraquecem, ao deixarem de ser terceira via. Perdem justamente o que os distinguia. Em suma, os 12 meses prometem não ser fáceis para ninguém.

Mais - GUILHERME RIZZO AMARAL

GAZETA DO POVO - PR - 04/11

Mais médicos, mais saúde. Simples assim. Parece que finalmente encontramos a solução para os males que assolam o povo brasileiro. Podemos, agora, avançar. Mais professores, mais educação. Mais policiais, mais segurança. Mais juízes, mais justiça. O Brasil vai dar certo.

Não precisamos nos preocupar se professores brasileiros entenderem que mais vale seguir carreira numa grande capital que dar aulas dentro de um contêiner de metal durante um inverno rigoroso numa cidade interiorana. Haverá professores estrangeiros dispostos ao nobre desafio.

Também pouco importa se policiais brasileiros entenderem que mais vale um bico de segurança que trocar tiros de 38 com bandidos munidos de fuzis AR-15. Bravos policiais de além-mar haverão de atender ao nosso chamado.

E, se um juiz brasileiro entender ser uma demasia julgar sozinho 8 mil processos por ano – veja só, que petulância –, bastará convocarmos milhares de magistrados de países vizinhos, dar-lhes treinamento jurídico e voilà: justiça será feita.

O melhor de tudo isso é que o revolucionário conceito do programa Mais Médicos permite que a administração pública “economize” recursos. Noticia-se que em vários municípios brasileiros médicos contratados pelas prefeituras já estão sendo demitidos para dar lugar a profissionais do programa Mais Médicos, com os quais não há compromisso de atendimento a uma série de regras trabalhistas.

Tudo isso em muito boa hora, pois assim temos dinheiro de sobra para investir em pujantes estádios de futebol, muito mais importantes que aparelhos de ressonância magnética, ambulâncias, livros e coletes à prova de balas.

Ironias à parte, o Brasil parece ter chegado ao limite da irresponsabilidade no trato da coisa pública. Só não vê quem não quer: a gestão pública está exclusivamente focada na perpetuação de grupos de interesses no poder, por meio da adoção de um discurso altamente populista, proselitista e beirando o tirânico, quando leva à satanização de toda uma classe de profissionais, responsabilizando-a por mazelas causadas em grande parte pelos próprios acusadores e por seus antecessores.

O único caminho para a solução de problemas tão intrincados quanto a crise na saúde pública, segurança e educação é a gestão responsável e eficiente dos recursos públicos, com a devida prestação de contas à população. Parece, no entanto, que nossos gestores públicos estão pouco interessados nisso.

Oxalá algum estrangeiro se interesse no desafio.

Manual de sobrevivência - RICARDO MELO

FOLHA DE SP - 04/11

Quando alguém sugerir que a espécie humana é inviável, acredite. Mas conforme-se: é nela que estamos


Desconfie de quem ataca programas destinados aos pobres. O Bolsa Família mostra que garantir a sobrevivência, no sentido literal, é questão básica. Fora os dividendos políticos da empreitada.

Fique de pé atrás quando autores de tais proezas considerarem a missão cumprida. Depois que o sujeito mata a fome, com razão vai querer comer melhor, cuidar da família, estudar, subir na vida, compartilhar as benesses da tecnologia e do progresso. A meta não é democratizar o SUS, mas socializar o Sírio-Libanês. O governante incapaz de perceber isso está fadado a levar um susto com manchetes e ganhar o troféu Maria Antonieta. Ou achar que tudo se resolve com a sirene da polícia.

Quando um militante enaltecer o caráter democrático do partido dele, pergunte há quanto tempo os integrantes da base se reuniram, quem eles elegeram e como seus dirigentes foram escolhidos. A má notícia: dificilmente algum vai satisfazê-lo. A boa notícia: você não é obrigado a optar por nenhum. Tampouco a votar, desde que pague uma multa simbólica. Recomenda-se ainda virar a página quando políticos do mesmo partido, sabidamente adversários, começam a trocar elogios. Costuma ser o sinal de que vem pela frente uma enxurrada de dossiês.

Caso tenha algo importante a tratar, leve em conta, mas nunca se deixe seduzir pelo posto ou cargo do interlocutor. Há procuradores que, apesar do nome, procuram, procuram, mas dizem que são incapazes de encontrar a pasta certa na hora de investigar roubalheiras em trens e metrôs. Existem ainda consultores que, no passado, contracenaram com uma inflação de 80% ao mês e hoje ganham rios de dinheiro dando lições de moral em economia --sem contar os que ficaram ricos da noite para o dia enquanto baldeavam entre gabinetes brasilienses.

Cuidado com as armadilhas do vernáculo. Antes, patrão era patrão, empregado era empregado. De repente, todos viraram colaboradores. Certo que uns andam de Porsche; outros, a maioria, de Mercedes --este, o busão mesmo. Mas quem liga para isso? Quem sabe um dia você chegue lá, desde que tenha um bom sobrenome ou rale sem parar. Abrir um banco ou uma igreja são alternativas.

Também antigamente, trabalhador era demitido e virava desempregado. Hoje o sujeito descobre que seu posto deixou de ser necessário por motivos de reestruturação, sua função foi descontinuada e ele, veja só, foi premiado com a procura de novos desafios. Só esqueceram de mudar o nome do diabo do fim do mês.

Para ser educado, faça cara de sério quando políticos, empresários ou frequentadores de colunas sociais fingirem espanto com fraudes de fiscais imobiliários ou empreiteiras. Não esqueço até hoje do lamento unânime de gente poderosa quando Fernando Collor, em boa hora, foi enxotado do Planalto. "Dez por cento, tudo bem, mas o cara tá querendo trinta, quarenta! Assim não dá."

Até por isso, desconfie sempre de aumento de impostos à esquerda e à direita. Óbvio que, no capitalismo, ninguém é tonto para apostar em alguma paz social sem que os que ganhem mais paguem mais. Até Warren Buffet, ele mesmo, o bilionário, defendeu taxação maior para os ricos. O problema é saber para onde está indo a receita do imposto. E, pelo menos no Brasil, o habitual é que ela acabe no bolso de uns poucos --nunca no nosso.

Quando alguém sugerir que a espécie humana é inviável, acredite. Mas, a seu gosto, conforme-se com o fato: é nela que estamos. Viver do próprio trabalho e lutar contra a injustiça social talvez amenize o dilema.

A quem serve a violência? - PAULO BROSSARD

ZERO HORA - O4/11

Depois de duas vezes haver externado crescentes preocupações acerca do poder paralelo exercido ostensivamente por uma entidade mascarada, repetidamente arrostando o poder do Estado, não voltaria ao assunto; contudo, mas me parece conveniente apenas lembrar que, semana passada, novamente a entidade que depreda, incendeia, agride, fere servidores, repetiu a cena nas ruas da capital paulista.
Coronel da Polícia Militar, chefe do Comando de Policiamento de Área Metropolitana, foi espancado por mascarados, ferido e hospitalizado, o que levou os dois maiores jornais do Estado de São Paulo a condenarem a situação, notando que o maior Estado da federação “está à mercê desses criminosos fascistoides, que estão cada vez mais à vontade para cometer seus crimes”, chegando ao fechamento da Rodovia Fernão Dias nos dois sentidos.
No curso da semana foi divulgado que a polícia paulista investiga a possível participação do PCC nos protestos violentos que vêm se tornando cada vez mais agressivos. Se procedentes os indícios aludidos, se ficar apurado que efetivamente o PCC tem participado das manifestações, a questão assume nível de suma periculosidade, visto que o poder público ver-se-á em conflito aberto com uma facção criminosa de sentenciados.

***
Outro aspecto de nossa real situação foi desmascarado, com a divulgação de um fato, a majoração dos preços do petróleo e que não impediu que a senhora presidente da República interferisse no caso ordenando que inalterado permaneceria o combustível na bomba; como era evidente e inevitável o resultado se fez sentir nas contas da Petrobras. Por quanto tempo a maior empresa poderá sustentar-se com os seus preços congelados e os preços das matérias primas de que dependem, são reajustáveis e reajustados, era a pergunta que qualquer homem comum se fazia. E não tardou muito que os fatos evidenciassem a inapelabilidade das consequências da medida ordenada pela senhora Presidente. Por maior que fosse a empresa, como a Petrobras, dificilmente resistiria a um período razoável, ainda que por determinação partisse de presidente da República. Não surpreendeu a ninguém que o governo anunciasse ou reconhecesse que recomporia o preço ao consumidor, na medida das alterações verificadas no preço do petróleo. Não foi anunciado em que dia se daria a recomposição do preço, mas foi adiantado que, a cada mudança do preço do petróleo, para mais ou para menos, o preço na bomba seria igualmente corrigido na mesma medida.
Diante dos últimos acontecimentos, dados os precedentes, não teria ocorrido à argúcia da chefe do governo que os ajustamentos dos preços dos combustíveis, como de outros, não seriam bem recebidos por mascarados armados e decididos em fazer prevalecer nas prerrogativas nascidas das ruas, das máscaras, das barras de ferro, do fósforo e do que mais seja ajudar para contestar e dominar o poder do próprio Estado?
O que me pergunto é se, vindo a ocorrer o aumento do preço do combustível, seja ele qual for não ocorrerá nova e mais formal bate-barba ou a estória não está bem contada e nela falta alguma coisa? Porque há pontos não esclarecidos e nem abordados. Estaria a sonhar esses empeços ou eles saltam aos olhos? Esta é uma questão previa a ser considerada, mas há outra a esta ligada, apenas de alcance diferente. Qual o procedimento da senhora presidente em face de regra que vem sendo bosquejada segundo a qual, qualquer medida governamental, seja de que natureza e finalidade for, passe a ser vetada por mascarados portadores de barras de ferro ou de outra maneira armados? Estarei eu a delirar diante do que vem acontecendo nos dois maiores centros urbanos do país, Rio e São Paulo?

Desordem e regresso - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO

O Estado de S.Paulo - 04/11

O Latinobarômetro é o mais tradicional estudo sobre a opinião pública latino-americana. Na edição divulgada sexta-feira, o Brasil foi o país onde a percepção de progresso mais regrediu: 19 pontos a menos de 2011 para 2013. No primeiro ano de governo Dilma, 52% dos brasileiros diziam que o País estava progredindo. Dois anos depois, a taxa desceu a 33%. O Brasil caiu de 3.º para 11.º no ranking de progresso. Não foi só o País.

Dilma Rousseff também perdeu posições. Na classificação dos 18 presidentes, ela passou da vice-liderança em 2011 para a 7.ª colocação em 2013. O governo da brasileira tinha 67% de aprovação dois anos atrás, contra 56% este ano. É uma tendência.

A crise econômica dos países ricos desgasta a popularidade dos governantes latino-americanos. A média de aprovação dos governos do continente caiu de 60% em 2009 para 49% em 2013.

O problema de Dilma é que ela perdeu mais apoiadores do que os presidentes que vinham logo atrás no ranking. Se em 2011 a brasileira só não tinha mais aprovação do que seu colega colombiano, em 2013 Dilma perde para os presidentes de República Dominicana, Equador, Bolívia, El Salvador, Uruguai e Nicarágua. Ela só ultrapassou o da Colômbia, que caiu para o 8.º lugar.

O levantamento de opinião para o Latinobarômetro, feito no Brasil pelo Ibope, coincidiu com os protestos de rua aqui. As entrevistas foram feitas na segunda quinzena de junho. Pesquisa CNI/Ibope realizada poucos dias antes apontava ainda 71% de aprovação para o governo Dilma. A insatisfação pública cresceu tão rapidamente quanto o tamanho das manifestações.

O auge do descontentamento dos brasileiros com seus governantes ocorreu em julho. Dias depois de fazer a pesquisa para o Latinobarômetro, o Ibope voltou a campo e encontrou apenas 45% de brasileiros aprovando o governo Dilma.

Desde então, a presidente recuperou um terço da popularidade perdida com os protestos. Mas a taxa de aprovação do seu governo ainda está pouco abaixo de onde estava na véspera de as pessoas irem às ruas: bateu em 53% em outubro, segundo o Ibope, contra 56% quando o Latinobarômetro foi a campo. O otimismo é bem menor do que no final do governo Lula e no começo da gestão de Dilma.

Em 2009 e 2010, Lula era o governante mais aprovado da América Latina. Alcançou aprovação de 85% e 87%, respectivamente. Dilma beneficiou-se dessa inércia, mas o capital popular deixado pelo padrinho vem se desgastando à medida que mais brasileiros passam a ver o País sem progresso.

Pesquisas feitas entre agosto e outubro mostram que nas capitais e maiores cidades, principalmente do Sudeste, o descontentamento com o governo Dilma permanece alto, apesar de ela ter recuperado popularidade no interior do País e no Nordeste.

O comando da campanha da presidente tem buscado garantir o apoio de quem já é simpatizante de Dilma. Daí a prioridade para atividades presidenciais em cidades do interior e suas entrevistas para rádios locais e regionais. O alcance dessa tática tem se mostrado limitado - insuficiente para ela superar o teto de 38% de ótimo/bom e os 53% de aprovação.

Uma possível explicação para esse limite ao crescimento da popularidade de Dilma é que a confiança do consumidor continua andando de lado desde junho. O consumo de massa foi o motor que fez a aprovação de Lula disparar e elegeu Dilma.

Não é coincidência que a popularidade presidencial tenha caído justamente quando a confiança do consumidor se viu abalada. Tampouco é acaso que nenhuma das duas taxas tenha se recuperado desde então. O clima de opinião é desfavorável.

Os protestos viraram desordem. Perderam volume e apoio, mas ganharam frequência e incômodo. Já o progresso econômico, aos olhos de quem compra, se não regrediu, parou. E, com ele, a popularidade presidencial.

Ritmo frenético - VALDO CRUZ

FOLHA DE SP - 04/11

BRASÍLIA - Pura provocação brasiliense, mas com um fundo de verdade. A presidente Dilma Rousseff tem se dedicado tanto a eventos de cunho eleitoral de segunda a sexta-feira que foi obrigada a convocar sua equipe para trabalhar no sábado, feriado do Dia dos Finados.

Pelo menos serviu almoço para sua equipe, lembrou um ministro aliviado, que saiu do Palácio da Alvorada por volta das 17h.

Nada contra hora extra, ainda mais no setor público. Deveria ser motivo para elogios, mas o fato é que o Palácio do Planalto, desde a queda de popularidade presidencial, entrou nos últimos meses num ritmo eleitoral para lá de frenético.

São viagens, eventos, pronunciamentos e liberações de verbas aos borbotões, tudo com um toque carregado de promoção eleitoral.

Em defesa do Planalto, eles estão colhendo o que de bom plantaram na área social. E desde sempre foi assim. Ainda mais depois da reeleição. Talvez sem tantos exageros.

O problema é que pode estar faltando tempo ou convicção palaciana para enfrentar a colheita ruim do que foi semeado de forma equivocada ao longo do mandato.

As contas do caixa do governo tiveram, em setembro, o maior rombo desde o Plano Real. Dado revelador de como, a despeito das negativas, a situação anda frágil na área fiscal.

A balança comercial brasileira registra, até outubro, o pior saldo desde 1998. As contas externas fecharam setembro com recorde negativo para o período, maior do que o verificado em todo o ano passado.

O governo dirá que a inflação está sob controle, apesar de rondar os 6%; que o desemprego nunca esteve tão baixo, o que é um mérito, e que a renda segue alta. Tudo correto e, como dizem os petistas, deve ser suficiente para reeleger Dilma.

Só que as ervas daninhas produzidas nos últimos anos podem, depois, matar os frutos bons. Algo que já preocupa o ex-presidente Lula. A safra de 2015 promete ser ruim.

Indústria sitiada - PAULO GUEDES

O GLOBO - 04/11

A progressiva desindustrialização da economia brasileira resulta de um acúmulo de erros de natureza macroeconômica. O protecionismo do regime militar, no exato momento em que se iniciava uma revolução tecnológica nas áreas de computação, informática e comunicações, foi um desastre histórico. O subsequente mergulho no caos da hiper inflação, aumentando a incerteza e encurtando os horizontes de investimento, aprofundou o fenômeno de nossa desindustrialização. E finalmente o erro clássico de expandir os gastos públicos ao longo de décadas de combate à inflação, administrando-se doses equivocadas de políticas fiscal e monetária, condenou ao declínio uma indústria brasileira já diversificada, mas ainda emergente. O excesso de impostos, os juros estratosféricos e o câmbio sobrevalorizado derrubaram nossa competitividade nos mercados globais.

São bilhões de trabalhadores asiáticos sem encargos sociais e trabalhistas. Os juros estão baixíssimos em todo o mundo, enquanto no Brasil estamos voltando aos dois dígitos. E os impostos excessivos que incidem sobre as empresas reduzem sua lucratividade e a geração de recursos próprios para financiar seus investimentos. Tudo isso retarda dramaticamente o ritmo de acumulação de capital na indústria. O ex-presidente Juscelino Kubitschek tinha como proposta de governo fazer 50 anos em 5. Pois bem, neste ambiente hostil, nossa indústria precisa de 50 anos para financiar o que deveria investir em 5. Enquanto isso, com os juros de volta a 10% ao ano comparados com 0,25% anual nos EUA, rentistas fariam 40 anos em apenas 1, se o governo tivesse sucesso em estabilizar o câmbio com vendas maciças de reservas pelo Banco Central.

Mas há também neste início de século uma nova dimensão que induz à desindustrialização progressiva como fenômeno global. As novas tecnologias não apenas tomaram mais eficientes, mas estão reinventando os processos produtivos. Desde a especificação do produto até sua fabricação com ferramentas digitais de impressão tridimensional e corte a laser, há uma nova revolução tecnológica desindustrializando a economia mundial. O preocupante é que, diferentemente do Brasil, nos países avançados as velhas indústrias passaram de um terço da economia antes de iniciarem seu recuo. Mesmo nos Estados Unidos - onde houve enorme transferência de fábricas em busca dos baixos custos asiáticos, e os empregos nas indústrias de manufatura estão no ponto mais baixo dos últimos 100 anos, tanto em termos absolutos quanto em percentagem da população economicamente ativa -, um quarto da economia ainda consiste em produção industrial.

Se por um lado a reinvenção da indústria com as novas tecnologias digitais nos oferece uma extraordinária oportunidade de renovação por meio de um mergulho digital, por outro lado estamos sob a estranha ameaça de sermos desindustrializados antes mesmo de completarmos nosso processo de industrialização. A formação da classe média ocidental está associada a esse histórico processo de industrialização. A transferência acelerada da população rural para grandes centros urbanos em uma janela comprimida de tempo reedita-se agora na China. O Brasil já é urbano e industrializado. Mas tem ainda uma classe média emergente. Teremos de reformar o macroambiente e reinventar nossa indústria para criar uma dinâmica de crescimento sustentável.

A “caetanização”, ou a essência da intelectualidade brasileira - GABRIEL FERREIRA

GAZETA DO POVO - PR - 04/11

Que a situação educacional e intelectual do Brasil não é das melhores já é sabido. Para ser honesto, segundo índices e testes internacionais, ela é mesmo das piores. As causas são tantas e tão emaranhadas que é impraticável persegui-las aqui. No entanto, há um epifenômeno dessa situação deplorável cuja onipresença sufocante – e justamente por isso – é, ao mesmo tempo, obstinadamente ignorada.

Para sumarizar tal processo, ainda que de maneira informal, costumo batizá-lo a partir de um de seus máximos expoentes: o âmbito público de debate de ideias sofre, no país, de uma síndrome ainda e sempre renovada de “caetanização”. Não pretendo me concentrar aqui na análise da figura arquetípica do “pseudointelectual de miolo mole”, que já há anos foi denunciada por sujeitos do calibre de José Guilherme Merquior (o autor do epíteto anterior) e Bruno Tolentino. Mas pode ser útil compreender um tanto das causas e do processo que se repete incessantemente.

Há décadas o Brasil padece de uma falta tremenda de grandes expoentes intelectuais ou científicos. Que eles existam, escondidos aqui e ali, de nada adianta e só serve para exemplificar meu ponto, que consiste exatamente no fato de que tais exceções são, do ponto de vista do debate público, absolutamente irrelevantes. Essa falta de quórum é causa de uma das duas marcas definitórias da caetanização: a automática e imediata promoção de certos indivíduos de visibilidade pública inegável à esfera dos intelectuais. Aqui pouco importa a definição que se queira dar a essa classe, bastando apenas apontar seu efeito principal: a disponibilidade e a abertura subserviente dos meios de comunicação para que tais sujeitos nos brindem com suas opiniões sobre a mais variada pletora de temas e problemas, de economia e política a artes e mecânica quântica.

Nada contra a liberdade de expressão ou mesmo a participação dessas figuras na vida pública mais ampla, como cidadãos que são. O fenômeno que apontei seria apenas risível, se não fosse o segundo de seus caracteres distintivos: a trasladação instantânea do prestígio e sucesso alcançados em uma área específica para todo e qualquer assunto ou questão dos quais esses baluartes possam porventura tratar. O sucesso da música, da novela, da exposição; os gols feitos na rodada, ou a mais remota hipótese de perseguição durante a ditadura operam como uma espécie de toque de Midas espiritual sobre as faculdades intelectivas, que converte tudo o que é dito ou escrito não em ouro, mas em análise respeitável e a priori abalizada.

Não se pode ignorar a identificação entre sucesso e credibilidade, assim como a transferência de méritos de uma área não para outra que lhe seja adjacente, mas para todas. Isso é sintoma evidente do estado avançado da carência nacional de referências nos mais diversos campos. Tudo seria menos lamentável se o motivo fosse apenas uma falta de espaço ou a simples perseguição contra essa ou aquela posição, em vez da mais completa falta de exemplares e da consequente falta de parâmetros de comparação. E as mídias – velhas e novas – continuam transformando letristas ou músicos em poetas; atores e atrizes em economistas e cientistas políticos; jornalistas em pensadores. Se tiver um mínimo pendor para falar de maneira um tanto incompreensível, o sortudo poderá alçar os píncaros, tornando-se um “livre-pensador” ou filósofo. E não interessa se alguém mais preparado lhes corrigir ou contradisser; afinal, todos sabem que não existe esse negócio de alguém saber mais que outro, sobretudo se o outro for um medalhão “caetanizado”.

A não atentarmos a tempo, esse fenômeno será a substância primeira de toda a atividade intelectual do país. Se o leitor acha suspeito o que digo, dar-lhe-ei o golpe de misericórdia. Ou não.

Perderam - VINICIUS MOTA

FOLHA DE SP - 04/11

SÃO PAULO - Quem passou da infância à vida adulta nas décadas de 1980 e 1990 acostumou-se ao padrão. Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil nunca perdiam. Alinhados às boas causas, eram reputados como reserva de sabedoria de nossa vida pública corrompida.

Tratava-se, obviamente, de uma fábula. O primeiro compromisso desses artistas sempre foi com seus legítimos interesses profissionais e empresariais. A qualidade intrínseca de suas intervenções na política e no debate de ideias jamais se aproximou do seu desempenho como letristas.

A influência que exerciam nos palanques nacionais indicava a rarefação de nossa esfera pública. A conversão de capital cultural em capital político não é certa nem imediata nas democracias consolidadas, que separam muito bem esses campos.

Celebre-se, portanto, como sinal de amadurecimento do país a derrota esmagadora do (ex-)grupo Procure Saber, encabeçado pelo trio de ouro da MPB, no debate das biografias não autorizadas.

A causa era decerto ingrata. O grupo propunha-se a convencer a opinião pública de que biografias só poderiam circular mediante autorização do biografado ou de seus familiares. Não há meio de aceitar essa cláusula sem ferir a liberdade de expressão, consagrada na Carta de 88.

Sim, a liberdade de expressão é também a liberdade de injuriar, caluniar e difamar. Para esses males, a lei determina remédios. Mas é sobretudo a liberdade de criticar e contar histórias e versões menos abonadoras sobre quem quer que seja. E de oferecê-las ao crivo do debate público.

Habituados a despertar solidariedade automática nos círculos intelectuais e políticos, Chico, Caetano e Gil talvez pensassem que iriam levar mais esta. O tempo passou na janela, mas eles não notaram.

O Brasil começa a descobrir que, como políticos e intelectuais, eles são apenas bons compositores e empresários.

O uso político da violência - DENIS LERRER ROSENFIELD

O Estado de S.Paulo - 04/11

A discussão em torno da ação dos black blocs tem sido frequentemente enviesada, se não deturpada, por não estar focada no uso que tem sido dado à violência desse grupo nas consequências dela derivadas. Não se trata de manifestação "espontânea" nem da ação de bandos desorganizados, mas de um tipo de intervenção que se define por um propósito claramente político.

Pesquisas sobre o que dizem os que assim agem terminam por arranhar superficialmente o problema, porque seus agentes não são meros indivíduos, mas membros de uma organização com método em suas ações. Suas falas, individualmente, nesse sentido, são necessariamente limitadas, se não encobridoras, na medida em que suas ações em muito transcendem manifestações individuais.

Advogar um diálogo com eles, como se fossem a expressão de um descontentamento "social", significa tirar a questão de seu ponto central. A violência é avessa a qualquer diálogo, quanto mais empreendido por grupos que, se chegam a declarar alguma proposta, é com o intuito de que ela seja inexequível - por exemplo, a extinção do "lucro", da sociedade de "mercado", e assim por diante.

Note-se que tais grupos se caracterizam por ações metódicas e organizadas. São como células que respondem a um comando, dotadas de extrema mobilidade e que conseguem muitas vezes distrair a atenção policial. Atrair a atenção sobre um ato determinado de vandalismo e depredação, com o objetivo de empreender outro muito maior em outro local.

Agem quando de manifestações pacíficas, fazendo-as acabar em violência, visualizada com grande estardalhaço pela mídia. A finalidade é ocupar a cena pública. Quanto maior for o impacto televisivo, maior será seu "ganho", pois tais imagens se propagarão com força por todo o País e mesmo para além dele. Para quem não gosta do crescimento e da competitividade internacional do País, o "ganho" terá ainda um "reconhecimento" extra. Fora de nossas fronteiras, tais imagens adquirem o estatuto de manifestação "popular", como se o Brasil estivesse à beira de um problema institucional sério.

As jornadas de junho foram uma impressionante manifestação de cidadania, com mais de 1 milhão de pessoas nas ruas clamando contra a corrupção e a má qualidade dos serviços públicos, com foco, num primeiro momento, na mobilidade urbana. As pessoas, com toda a razão, estão cansadas de pagar altos impostos, tendo como "retribuição" andar de pé, apertadas, nos ônibus em péssimas condições. O transporte torna-se um calvário. Filas em postos de saúde e hospitais, com atendimento sofrível, mais o baixo nível da educação pública configuram um quadro lamentável: a feia pintura de nosso país.

O exercício da autonomia expresso em tais manifestações, não obedecendo a nenhuma orientação partidária, mostrou um outro País possível, alerta para os desmandos vigentes, não aceitando nenhum tipo de instrumentalização. Naquele momento era como se o País, surpreso, estivesse vendo desfilar uma banda da liberdade e da indignação. Contudo essa irrupção do novo assustou.

Assustou os que até então dominavam as ruas ou delas procuravam ter o monopólio, como os diferentes partidos de esquerda, sindicatos e movimentos sociais organizados, que tiveram, então, a intenção de se apropriar desse sopro de autonomia. A heteronomia entrou na pauta. O resultado foram "greves" e "manifestações" que terminaram em completo fiasco, expondo a dissociação entre a tentativa de manipulação e a legítima indignação das ruas.

Nesse contexto, a ação dos ditos "vândalos" passou a ter maior protagonismo, atuando em qualquer tipo de manifestação, relegando os demais a posição secundária. Na verdade, houve um processo de estranhamento: os manifestantes autônomos e indignados não mais se reconheceram naqueles mascarados. A violência exposta não era um espelho seu.

O resultado foi imediato: o refluxo das manifestações autônomas e legítimas. A expectativa nascida quando das jornadas de junho foi progressivamente minguando. Por enquanto, pode-se dizer que desapareceu, embora possa ressurgir em outro contexto. A violência enxotou os indignados da rua.

Logo, o efeito objetivo dos agentes da violência, os black blocs ou outros nomes que se lhes queira dar, foi o esvaziamento das manifestações autônomas e, mais do que isso, de suas bandeiras. Expulsaram da rua as bandeiras contra a corrupção, por um melhor serviço público e menos impostos. Eis a verdadeira consequência de suas ações. Ou melhor, eis o seu verdadeiro objetivo. A quem interessa isso?

Curiosamente, os que se dizem "anarquistas", em tese os defensores da autonomia e da liberdade, são os que buscam diretamente tornar inviável toda manifestação livre e autônoma. Nada têm eles de anarquistas no sentido estrito da palavra, são meros representantes de uma esquerda que usa irrestritamente a violência segundo suas conveniências políticas.

Observe-se que muitas agremiações que participaram das jornadas de junho, como o Movimento Passe Livre, e outras posteriores, de certos sindicatos de professores, nutrem simpatia por esses "vândalos", como se sua causa fosse a mesma, apesar de seus meios divergirem. Comportam-se como "companheiros". Companheiros de quê, precisamente? Da desmobilização popular? Do abandono das bandeiras contra a corrupção, o desvio de recursos do erário e a péssima qualidade dos serviços públicos? Da desresponsabilização de seus responsáveis?

Expressão disso é o fato, politicamente inquietante, de que bradam contra a "criminalização dos movimentos sociais". Traduzindo: a violência deveria ser permitida e defendida, pois seus agentes sustentam uma "causa social". Seu objetivo consiste em deixar a impunidade reinar e as instituições democráticas se enfraquecerem.

Perverso duas vezes - JOSÉ SERRA

O GLOBO - 04/11

O Enem foi criado pelo saudoso ministro Paulo Renato para ser um instrumento de aferição da qualidade do ensino médio no Brasil. O objetivo era criar ferramentas de intervenção para melhorar a qualidade da escola pública - e, em certa medida, da escola privada também.

O governo do PT distorceu gravemente o seu sentido. Sob o pretexto de acabar com os vestibulares nas universidades federais, os petistas transformaram o Enem no maior vestibular do mundo. Ora, se o exame para ingresso na universidade pública não era bom, então o ruim agora se agigantou. E com um prejuízo adicional: o Enem já não serve mais de instrumental para avaliar a escola pública.

Assim, afigura-se mera demagogia, calcada numa mentira escandalosa, a afirmação de que o governo federal extinguiu os vestibulares. Ao contrário: unificou-os. No seu 11? ano de gestão, não houve uma só ação voltada para a qualificação do ensino médio. No máximo, fala-se numa polêmica mudança da grade curricular, que, até onde se dá o debate, tende a criar uma enorme confusão. Há o risco de que professores sejam obrigados a ministrar conteúdos alheios à sua formação.À medida que o Enem se agiganta e que mais candidatos disputam a mesma vaga, a consequência óbvia é a ele vaçao ao grau ae dificuldade da prova - como se verificou neste ano. E não há mesmo outra saída: o Enem se tornou classificatório, como qualquer outro exame de seleção.

Tenho recebido relatos de que tanto alunos de escolas privadas como alunos de escolas núblicas iá recorrem a cursinhos pré-vestibular quando no terceiro ano do ensino médio para fazer a prova do Enem. Vale dizer: ainda que se quisesse ter a prova como um retrato do ensino médio no país, esse resultado já estaria gravemente comprometido.

Cada universidade federal faz seu vestibular ou todas elas fazem um só? É assim tão diferente? Creio que não! O tempo dirá se outra consequência deletéria não estará em curso. No vestibular tradicional, o candidato fazia a sua escolha, com uma eventual segunda opção. No geral, buscava aquela que considerava ser a sua vocação. O Enem permite, segundo a lógica das pontuações, que ele transite entre as carreiras e entre as universidades Brasil afora. Há o risco, potencial ao menos, de que vários cursos comecem a contar com muitas desistências no primeiro ou no segundo anos. Se acontecer, é dinheiro jogado no lixo. Ainda não há dados disponíveis a respeito.

O fim do vestibular foi uma mentira. Hoje, o MEC faz o maior do planeta. E o Enem já não serve para avaliar a qualidade do ensino médio. Assim, o alardeado bem do petismo acabou juntando duas perversidades. 

Futuro - AÉCIO NEVES

FOLHA DE SP - 04/11

Ao lado do Plano Real, nenhuma outra política de governança foi mais transformadora da realidade brasileira que os programas de transferência de renda gestados e instituídos nos anos 90 e continuados e adensados nos anos 2000.

A inútil e reincidente discussão sobre paternidade e protagonismo desses programas deixou de lado desafios importantes, sobre como aperfeiçoá-los ou acrescentar-lhes ativos ainda mais inovadores.

Nos últimos anos, o governo se conformou em fazer a gestão diária da pobreza, como se ela se reduzisse ao universo da renda e não alcançasse um elenco extenso e complexo de carências sociais.

Poucas inovações ocorreram neste tempo. Nem sequer foi tomada a iniciativa de institucionalizar o Bolsa Família, o que acabou por reforçar o seu aspecto de benemerência política de alto valor eleitoral.

Em perspectiva histórica, cabe lembrar a trajetória inversa percorrida por aquele que é o maior programa de transferência de renda em vigor no país, o Beneficio de Prestação Continuada (BPC), previsto pela Constituição de 1988, e implantado pelo governo do presidente Fernando Henrique.

Regulado pela Lei Orgânica da Assistência Social (Loas), o BPC paga um salário mínimo a cada idoso e deficiente que tenha renda per capita inferior a ¼ do salário mínimo. Nos últimos 10 anos, ele transferiu mais de R$ 180 bilhões à população. O Bolsa Família transferiu R$ 124 bilhões.

Na última semana, apresentei projeto de lei propondo a incorporação do Bolsa Família à Loas, para que ele deixe de ser ação de governo e se transforme em política de Estado, permanecendo como instrumento a favor dos brasileiros seja qual for o partido que esteja no Palácio do Planalto.

Com isso, podemos dar um passo importante: deixamos para trás, a cada quatro anos, a discussão se o Bolsa Família vai ou não permanecer e podemos avançar com confiança no debate sobre como aprimorá-lo. Nesse sentido, defendo uma primeira proposta que visa superar a insegurança de quem evita tentar o mercado de trabalho com medo de perder o benefício. Para eles, o BF deveria ser continuado por até seis meses.

É preciso também que seja reforçado o acompanhamento dos beneficiários, com especial atenção à educação e qualificação. É inexplicável que não haja acompanhamento a cerca de dois milhões de crianças atendidas pelo programa. A responsabilidade do Estado não pode terminar com a transferência do benefício.

Precisamos ter coragem de avançar. É preciso reconhecer que a pobreza é um conjunto de privações de renda, serviços e oportunidades. E é nessa abordagem multidimensional que precisa ser enfrentada e superada. Só assim faremos a travessia na direção da verdadeira inclusão social.

Governo versus Petrobrás - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 04/11

Continuam em risco a saúde financeira e os planos de investimento da maior empresa nacional, a Petrobrás, enquanto o governo mantém suspense sobre a adoção de uma nova política de preços de combustíveis. Para disfarçar a inflação, o Palácio do Planalto e o Ministério da Fazenda têm recorrido há vários anos ao controle de preços, impondo graves perdas à companhia, atrapalhando a realização de seus planos e ainda prejudicando a produção de etanol. Informações divulgadas pela empresa motivaram durante alguns dias a expectativa de uma nova política, menos sujeita à demagogia e muito mais racional. Mas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, logo contra-atacou. Nenhum novo método para fixação de preços foi definido, disse ele na quarta-feira, em Brasília. No mesmo dia, a Petrobrás divulgou as linhas gerais de um novo critério de reajuste para o diesel e a gasolina, baseado em valores internacionais, taxa de câmbio e origem (Brasil ou exterior). A aplicação do critério seria automática.

Por estatuto, cabe à diretoria executiva da empresa fixar a estrutura e a política de preços, mas essa determinação tem sido atropelada, pelo menos desde o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pelos interesses políticos imediatos e também pelos objetivos eleitorais do grupo instalado no Palácio do Planalto. Na prática, prevalece, em relação aos preços, a orientação transmitida pelo presidente do Conselho de Administração da estatal, o ministro da Fazenda, porta-voz, nesse caso, da estratégia sacramentada no gabinete da presidente da República.

A política de preços é uma "decisão séria, importante", e é preciso evitar uma resolução "de afogadilho", disse o ministro. A frase seria apenas mais um inocente acacianismo, se a circunstância fosse outra. Para começar, a Petrobrás é uma empresa fundada há 60 anos e sua administração deve - ou deveria - dispor há muito tempo de critérios de fixação de preços. Um novo método só foi elaborado e aprovado por seus diretores porque a companhia está sujeita há muitos anos ao arbítrio desastroso do Palácio do Planalto.

Algumas consequências desse arbítrio ficaram claras, mais uma vez, no balanço publicado na sexta-feira passada. O lucro do terceiro trimestre, de R$ 3,39 bilhões, foi 45% menor que o do segundo e 39% inferior ao de igual período de 2012. Vários fatores foram apresentados no relatório para explicar essa queda, maior que a estimada pelos especialistas do mercado. Uma das mais importantes foi a defasagem de preços, agravada pela recente alta do dólar.

Ainda segundo o comunicado, uma nova "metodologia de precificação" seria submetida em 22 de novembro ao Conselho presidido pelo ministro. Para o mercado, essa notícia promissora acabou sendo mais importante que o mau resultado financeiro do terceiro trimestre. Se quisesse apenas desconversar ou evitar qualquer compromisso prematuro, o ministro da Fazenda poderia, nos dias seguintes, anunciar à imprensa a intenção de falar sobre o assunto só depois da reunião do dia 22. Mas ele foi muito além disso, ao negar a existência de um novo método definido e ao condenar qualquer decisão "de afogadilho". Com essas palavras, ele praticamente desqualificou o trabalho realizado na Petrobrás sobre a política de atualização de preços.

Se nenhuma reviravolta ocorrer, a Petrobrás provavelmente continuará servindo à política oficial de controle de índices da inflação - algo muito diferente de uma efetiva política anti-inflacionária. A diferença foi comprovada, mais uma vez, neste ano.

Forçando a redução das contas de energia, o corte das tarifas de transporte público e controlando os preços dos combustíveis, o governo conseguiu domar os índices durante alguns meses. Mas a mágica se dissipou e os indicadores voltaram a subir - mesmo os oficiais.

Apesar de seu esforço para maquiar os fatos, a administração petista foi incapaz, até agora, de forçar o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a falsificar as medidas da inflação. Nesse quesito, os Kirchners, na Argentina, foram mais eficazes. Mas ninguém deve subestimar a presidente Dilma Rousseff e sua trupe.

Fascismo na festa literária - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 04/11

Minoria hostil à liberdade de expressão impediu intelectuais de falar em evento na Bahia; a maioria comprometida com a democracia precisa deixar claro o seu repúdio a tais atitudes


Uma característica fundamental da democracia é o respeito à liberdade de expressão; sociedades democráticas e maduras garantem o direito à manifestação das opiniões, e incentivam o debate de ideias. Regimes e grupos totalitários, avessos ao debate, preferem tolher o direito à opinião; só pode falar quem comunga das mesmas convicções, enquanto os demais são calados, usando-se para isso os meios que forem necessários. A Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), na Bahia, viveu momentos que remetem ao fascismo no dia 26 de outubro, quando manifestantes conseguiram calar dois palestrantes.

O sociólogo Demétrio Magnoli e o filósofo Luiz Felipe Pondé estavam entre os convidados do evento. Ambos são colunistas do jornal Folha de S.Paulo, e Magnoli também escreve quinzenalmente em diversos jornais, inclusive na Gazeta do Povo. O sociólogo participava da mesa-redonda “Donos da terra? – os neoíndios, velhos bons selvagens”, ao lado de Maria Hilda Baqueiro Paraíso, na manhã do dia 26, quando algumas dezenas de manifestantes que estavam na plateia começaram a gritar palavras de ordem contra Magnoli, além de se despir e atirar uma cabeça de porco no palco. O tumulto impediu que a mesa-redonda continuasse, mas isso não foi suficiente para satisfazer o grupo, que exigiu também o cancelamento de um outro debate, programado para a noite, que teria a participação de Pondé e do sociólogo francês Jean-Claude Kaufmann, com o tema “As imposições do amor ao indivíduo”. A organização do evento cedeu, alegando não ter como garantir a integridade física tanto de Magnoli quanto de Pondé.

O que atraiu a hostilidade dos manifestantes foi o simples fato de ambos serem críticos contumazes das ideologias de esquerda. Para os fascistas que tumultuaram a Flica, isso basta para que Magnoli e Pondé não tenham o direito à palavra, e em nome desse objetivo vale desde acusá-los de crimes (os manifestantes chamaram os colunistas de “racistas”, por sua posição contrária à política de cotas) até ameaçá-los fisicamente, como ocorreu na Bahia. Na internet, sites e comentaristas demonstraram apoio à hostilidade contra Magnoli e Pondé.

A vida intelectual brasileira sofreu, por décadas, com o monopólio de um discurso único – primeiro, com a censura do regime militar ao pensamento de esquerda; depois, com a aplicação de um gramscismo antidemocrático que marginalizava o discurso de oposição ao ideário socialista. O pluralismo crescente dos últimos anos nas universidades e entre a opinião pública é um fenômeno bem-vindo, e qualquer intelectual digno do nome, independentemente de adesão ­ideológica, tem o dever de defendê-lo – aliás, essa é uma obrigação não apenas dos pensadores, mas de todo cidadão de boa vontade. É por meio do embate livre e sadio de ideias que a jovem democracia brasileira pode progredir.

E justamente quando o cenário intelectual brasileiro começa a ganhar com o pluralismo, surge uma minoria fascista cujo DNA totalitário a impele não a partir para o debate, mas para o patrulhamento e para a agressão. Hoje, é assim contra Magnoli e Pondé; ontem, foi assim contra a blogueira cubana Yoani Sánchez; como impedir que amanhã seja assim contra qualquer outro que ousar divergir?

A perspectiva, à primeira vista, não parece animadora. Por mais que a organização da Flica tenha convocado a segurança para proteger Magnoli, isso não foi suficiente para garantir sua participação, e os eventos foram cancelados. Ou seja, os manifestantes conseguiram o que desejavam. A mensagem que isso manda a quaisquer outros que estejam pensando em ações semelhantes é a de que agir assim dá resultado. Seria a consagração da violência como estratégia de ação política, adotada também pelos black blocs que vêm causando tanto transtorno em várias metrópoles. Mas, felizmente, os neofascistas são uma minoria; ainda há tempo para um repúdio firme e unânime a essas atitudes por parte dos intelectuais, dos políticos, enfim, de todos os cidadãos comprometidos com a democracia e a liberdade de expressão, de todas as correntes ideológicas e partidárias. Assim poderemos frear esses vândalos da vida intelectual brasileira.


A polêmica do Marco Civil da Internet - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 04/11
A busca de uma legislação - a mais equilibrada possível - para orientar a convivência de empresas e de pessoas na internet é um tema que mobiliza os governos de todo o mundo. No caso brasileiro, a questão polêmica ganha ainda o reforço dos aspectos políticos e culturais bem próprios do país, onde vivem dezenas de milhões de usuários cada vez mais ativos e conectados à rede. É nesse contexto que o Projeto de Lei conhecido como Marco Civil da Internet vem sendo discutido há quase quatro anos no Congresso Nacional, sem conseguir avançar em razão do duelo de interesses de operadores de telefonia e grandes multinacionais do mundo cibernético.
Nos últimos dois meses, as denúncias de espionagem norte-americana no país, tendo como alvo cidadãos comuns, grandes empresas como a Petrobras e até a presidente da República, colocaram a proposta de um arcabouço regulatório em nova perspectiva. Tornado prioritário na pauta do plenário da Câmara dos Deputados, o texto vem trancando votações de outros projetos e teve desfecho novamente adiado. A expectativa é que seja apreciado na noite de amanhã.

Os próprios parlamentares concordam que a definição de novas regras sobre armazenagem de dados, obrigações de grupos econômicos e garantias a pessoas físicas não elimina os riscos à privacidade. O Senado teria dificuldade em avaliar a matéria ainda em tempo de ser sancionada pela presidente Dilma Rousseff antes do encerramento dos trabalhos legislativos. Contudo, um desfecho para esse debate, independentemente das aflições geopolíticas geradas pela revelação de detalhes das invasões de e-mails e telefonemas patrocinadas pelos Estados Unidos, é do interesse da população.

A definição de parâmetros daria mais clareza aos limites da atuação da Justiça em temas corriqueiros envolvendo a internet e ainda deixaram mais sólidas as bases para os investimentos públicos e privados no explosivo mercado digital. A preservação do sigilo nas comunicações já é uma garantia da Constituição, mas a definição ou não pela chamada neutralidade da rede - o princípio da não interferência e da não discriminação dos provedores de acesso na velocidade de tráfego para todos os usuários -, tão criticada pelas empresas que atuam no setor, pode dar novo rumo à forma como os serviços são prestados e de como são resguardados os direitos autorais.

Pela importância que o Brasil tem na rede mundial dos computadores, que avança rapidamente agora nos dispositivos móveis, pelas grandes somas que os negócios cibernéticos movimentam e, sobretudo, pelo papel essencial que o meio digital tem ganho na vida das pessoas, o parlamento precisa dar uma resposta aos cidadãos.

A dimensão global conferida pela presidente Dilma ao assunto, levado por ela à tribuna das Nações Unidas, também não pode ser ignorada, sobretudo com os sucessivos fatos em série envolvendo bisbilhotagem com autoridades internacionais. Apesar disso, é sabido que o campo das relações diplomáticas tem seu próprio tempo e limites. O Brasil ainda deve uma resposta ao Brasil sobre em quais parâmetros jurídicos o irrefreável avanço da internet deve se balizar, sem prejuízos à cidadania, à liberdade de expressão e à livre iniciativa.

O país da insegurança - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 04/11

A morte de um menino de oito anos e de um policial durante tiroteio no fórum de Bangu, no Rio de Janeiro, numa tentativa frustrada de libertação de prisioneiros por uma quadrilha de criminosos, expõe mais uma vez, em dimensão nacional, o clima de insegurança do país. A criança passava na calçada, acompanhada pela avó, quando o grupo de pelo menos oito bandidos cercou e invadiu o local e trocou tiros com os policiais. A reação da avó é emblemática da perplexidade que sobrevive à banalização da violência: ela e o neto não deveriam, disse ela, estar naquele lugar naquele momento. Na verdade, lugares públicos aparentemente seguros passaram a oferecer, em qualquer momento, riscos à população, em metrópoles, cidades médias e em vilarejos.
O que ocorreu no Rio não é mais caso típico de uma capital violenta, onde o Estado se vê constantemente desafiado pelo tráfico. Esse não é mais um cenário urbano das grandes cidades. As estatísticas mostram que a violência, principalmente a que se manifesta em homicídios, não para de crescer. O número de assassinatos no país aumentou 7,6% ano passado em relação a 2011. Foram 50 mil casos.
Confirma-se assim a percepção generalizada de que governos, formuladores de leis e todas as instituições fracassam no combate ao crime. Fracassam na prevenção, na repressão e na investigação policial. Fracassam quando da formalização de indiciamentos pelo Ministério Público. E voltam a fracassar na Justiça, com processos inconclusos e o precário cumprimento das penas.
É compreensível que, ao lado da sensação de insegurança, prospere a certeza de que os responsáveis por todo tipo de violência se protegem na impunidade. No caso do menino assassinado, o governo do Estado determinou, enquanto procurava os invasores do fórum, que os dois traficantes que mobilizaram os comparsas deveriam ser transferidos para um presídio federal. É uma providência óbvia, mas sem maior significado diante do ocorrido. As autoridades deveriam ter evitado o que ocorreu. Numa situação normal, seria inconcebível que um grupo de marginais entrasse atirando num lugar que abriga a Justiça. No Brasil, nenhuma situação nessa área passa pelos parâmetros da normalidade.
A violência é diária e constante: bancos de pequenas cidades do Interior viraram alvo dos assaltantes, não há local seguro para estacionar um carro nas grandes metrópoles, é cada vez mais arriscado sair à noite, supermercados e shoppings são assaltados à luz do dia, o tráfico e o crime organizado atuam livremente até no interior dos presídios. Até quando? As autoridades e as instituições não podem continuar fracassando na busca de respostas.

Autonomia secundária - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 04/11

É testemunho dos tempos que tenha sido o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), com seu histórico duvidoso no que se refere ao fortalecimento das instituições, quem tentou acelerar a tramitação de projeto de lei para conceder autonomia formal ao Banco Central.

A investida, já abandonada, era sem dúvida um exercício de pressão do Congresso para obter favores do Executivo. Mas não só.

A participação do ex-presidente Lula tinha outro objetivo político --tentar conter a perda de prestígio do governo perante o setor privado, preocupado com a erosão da qualidade da política econômica.

São, de saída, dois péssimos motivos para defender a independência formal do BC. É ilusório pensar que instituições sólidas se constroem com a caneta da autoridade política de plantão, ou que basta copiar modelos estrangeiros.

As instituições resultam da evolução histórica, cultural e social específica de cada país. A autonomia do BC, formal ou não, será apenas cosmética e passível de reversão se não tiver raiz profunda.

Se o chefe do Banco Central não puder ser facilmente demitido, o que garante, por exemplo, que um presidente da República não indicará para o cargo alguém pouco técnico e maleável?

A verdade é que tem servido bem ao país o padrão de trabalho entre a autoridade monetária e o governo --relação tecida ao longo de quase três décadas.

Com o advento do sistema de metas para a inflação, em 1999, foi consolidado o modelo de autonomia na prática, pelo qual o Banco Central, com grande independência em suas decisões cotidianas, busca cumprir a meta determinada pelo Conselho Monetário Nacional --instância na qual o poder democraticamente eleito hoje define a missão do banco.

Neste período, o BC mais acertou do que errou. Teve papel destacado na conquista da estabilidade monetária e reforçou sua credibilidade perante a sociedade --o mais forte sustentáculo de sua independência operacional.

É neste quesito que peca a gestão atual do BC. Nos últimos anos, consolidou-se a percepção de que segue determinações da presidente da República e do ministro da Fazenda. Comprometeu-se com uma visão excessivamente otimista sobre a inflação e aceitou sem ressalvas a ideia de que o governo teria maior controle sobre suas contas.

O debate sobre a autonomia formal é apenas mais um sintoma de seu enfraquecimento.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

NOVO SENADOR FIGURA EM 519 AÇÕES NA JUSTIÇA

Cassado em 2009 por abuso de poder político, o ex-governador do Tocantins Marcelo Miranda (PMDB), que deve assumir a vaga de Vicentinho Alves (SDD-TO) no Senado, figura em impressionantes 519 processos, nas diversas esferas do Judiciário, do Supremo Tribunal Federal ao Tribunal de Justiça. Só no TRE-TO, por exemplo, está em 303 processos, e outras 108 ações no Tribunal Superior Eleitoral.

BUONA GENTE…

Em um dos processos no STF, Miranda é acusado pelo Ministério Público Federal de peculato, falsidade ideológica e corrupção passiva.

EXECUÇÃO

No Tribunal Regional Federal da 1ª Região, Marcelo Miranda responde a diversos processos de crimes ambientais e até execução fiscal.

ELEITORAL

Propaganda eleitoral irregular e abuso de poder político são frequentes nas acusações pelas quais responde o ex-governador tocantinense.

POSSE QUESTIONADA

Outro processo no Supremo ainda questiona a posse de Miranda no governo do Tocantins em 2006, cargo do qual foi cassado.

PATRIMÔNIO DE DEPUTADO CRESCE 1.200% EM 4 ANOS

O deputado federal Francisco Escórcio (PMDB-MA) conseguiu o milagre da multiplicação dos pães e do patrimônio, que cresceu 1.200% (12,1 vezes) em 4 anos, apesar de declarar apenas os rendimentos de parlamentar. Em 2006, Escórcio declarou bens de R$ 2,2 milhões ao Tribunal Superior Eleitoral; em 2010, seus bens já somavam R$ 26,8 milhões. Nesse período, seus salários totalizaram R$ 1,2 milhão.

MILAGRE

Escórcio, que amigos chamam de “Chiquinho”, recebe R$ 26,7 mil por mês, R$ 320,6 mil anuais. O patrimônio cresceu R$ 6 milhões por ano.

MENOS É MAIS

Foram vinte bens declarados por Escórcio, em 2006, avaliados em R$ 2,2 milhões. Em 2010, seus quinze bens já valiam R$ 26,8 milhões.

CORREÇÃO

Francisco Escórcio atribui seu enriquecimento ao “crescimento econômico”, em razão da “correção monetária” dos valores dos bens.

CORTINA DE FUMAÇA

Se autoridades querem mesmo combater em conjunto os baderneiros do Black Blocs no Rio, devem destruir o “território” do grupo na Lapa, centro da cidade, onde tem bandeira tremulando e maconha livre.

HERANÇA MALDITA

Assaltado e agredido na quinta (30) num restaurante em Brasília, o presidente do PT, Rui Falcão, pode dizer que foi vítima de um excluído do sistema social que ainda ignora os benefícios do Bolsa Família.

TEMPOS DE CÓLERA

Nesta data, há 43 anos, o ditador Emílio Garrastazzu Médici mandava prender toda a turma do Pasquim, genial criação de jornalistas e humoristas como Jaguar, Millôr Fernandes, Paulo Francis, Ivan Lessa, Ziraldo etc, que entraram para a história da resistência democrática.

ARROGÂNCIA

A chamada “governança” do Senado considerou arrogante a ausência do presidente da Anatel, João Rezende, a uma audiência pública, semana passada. Os senadores nem deixaram seu representante falar. Rezende ignorou seis de nove convites do gênero, no Senado.

JÁ OS BANDIDOS…

É de um ano o prazo de registro de armas no 1º Comando Militar, no Rio: 30 senhas por dia para 200 pessoas em meio expediente, além de taxas absurdas, incentivando a ilegalidade e o contrabando.

MEMÓRIAS DO CÁRCERE

As comissões da verdade da Presidência, da Câmara e do Senado farão diligência no próximo dia 11 (segunda), na 36a DP de São Paulo, onde funcionavam o Doi-Codi e a OBAN. Ainda visitarão a 6a Companhia de Polícia do Exército e Ilhas do Presídio, em Porto Alegre.

TUDO MENTIRA

O deputado Miro Teixeira (PROS-RJ) critica argumento falso de que o Marco Civil da Internet dificulta espionagem: “É a internet livre que permite que denúncias sejam feitas, por isso o governo quer controlar”.

EM MÃOS

Ao voltar do recesso, a procuradora-geral do Ministério Público do DF, Eunice Carvalhido, terá de decidir se acata pedido da ONG Adote um Distrital para ajuizar ação contra o diretor do DFTrans, Marco Campanella, acusado de intimidar servidores que apuram esquemas de corrupção.

SANTO DE CASA

Em conferência no Paraná, Lula chamou de “milagre” o resultado do Bolsa Família. De fato: o número dos carentes do programa só cresce.


SAÚDE DE TARTARUGA

Marco Maciel era ministro da Educação, no governo José Sarney, quando negou verbas para esportes a um grupo de estudantes que recebia.

- O sr. pratica algum esporte? – provocou uma estudante, contemplando sua finíssima estampa – o ministro deveria cuidar mais da saúde…

- Minha filha, você já viu tartaruga fazendo ginástica? – devolveu ele – E olhe que elas vivem 120 anos…

SEGUNDA NOS JORNAIS

Globo: Rio sem a perimetral
Folha: Governo brasileiro vigiou diplomatas estrangeiros
Estadão: Por discurso ambiental, Dilma prepara ação pró-índio
Correio: Crise das seguradoras ameaça o consumidor
Estado de Minas: Disfarce ambulante
Zero Hora: O placar das obras de Dilma
Brasil Econômico: “Brasil terá nível de desigualdade menor que os EUA”