sexta-feira, outubro 18, 2013

Os últimos são os primeiros - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 18/10

BRASÍLIA - Tudo indica que os candidatos de 2014 serão Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos, mas as suas "sombras" não apenas se mexem como falam cada vez mais.

Lula, o instintivo, até na Argentina insiste em bater na imprensa, para desqualificar as críticas, e provoca: "Falem mal, mas falem de mim".

Serra, o persistente, aproveitou uma passadinha por Brasília para deitar falação de candidato e criticar o PSDB pela antecipação do debate eleitoral, mandando um recado para o partido: "Estou disponível para o que der e vier".

E Marina, a dissidente, conseguiu o maior feito político da semana: bater boca com Dilma, presidente da República e líder nas pesquisas, e jogar no ar da sucessão uma palavra ardida. Segundo ela, a marca do governo Dilma é o "retrocesso" em relação a FHC e a Lula. Lulistas e tucanos concordam.

O mais interessante é que bastou Marina sair da disputa para virar o centro das atenções, polarizar com Dilma e ganhar manchetes de jornais. Aécio e Campos podem se esgoelar à vontade que não encontram eco no Planalto, muito menos ganham manchetes.

Como explicar que uma ex-candidata tenha poder para tirar Dilma do sério e ocupar um espaço que os próprios candidatos não têm? Talvez porque o eleitorado esteja de fato mais atento ao que Marina diz e mais curioso sobre o que ela vai fazer. E, certamente, porque a rixa de Dilma e Marina não é de hoje, vem de longe.

No governo Lula, Dilma era a "gerentona", a "mãe do PAC", e vivia às turras com Marina, a "verde", a "guardiã da sustentabilidade". Foi por causa de Dilma, e por não ter chance de se candidatar pelo PT, que Marina saiu do governo e do partido para o voo sonhático.

Dilma acha que bater de frente com Marina diminui Aécio e Campos, mas deve avaliar melhor. Candidata ou não, é Marina quem está massificando o discurso da oposição.

Lesa-pátria - LUIZ GARCIA

O GLOBO - 18/10

Autoridades do ensino — nem todas, certamente — sofrem de um mal incurável: o desrespeito por esse patrimônio nacional que é o idioma que falamos e escrevemos



O Exame Nacional do Ensino Médio é, obviamente, instrumento indispensável para a avaliação da qualidade da educação no Brasil. Mais importante do que ele só pode ser o registro do avanço na alfabetização do nosso povo. Principalmente daqueles condenados, pelo berço, a não passarem das primeiras letras.

Mas, mesmo que o avanço no estabelecimento de relações saudáveis entre o ABC e a maioria dos brasileiros, no sertão e nas favelas, mostre índices animadores, é preciso, obviamente, ficarmos de olho no progresso do ensino médio. Simplesmente porque é dele que depende, em larga escala, o progresso do país. Talvez tanto, ou até mais, do que a qualidade do ensino universitário, inevitavelmente concentrado, quase todo ele, nos estados mais ricos.

As notícias mais recentes sobre o problema não são animadoras. O Exame Nacional do Ensino Médio do ano passado foi denunciado, por muitos professores — bons professores, evidentemente — por erros graves nos textos: candidatos que atropelaram sem dó o idioma conseguiram nota máxima. O próprio ministro da Educação, Aloízio Mercadante, prometeu que desta vez as provas serão — como sempre deveria ser — corrigidas severamente.

Em países que tratam a educação com o devido respeito, os professores que se revelarem incompetentes numa tarefa tão simples como a correção de provas do Ensino Médio serão reavaliados a propósito de sua competência para dar aulas.

Aqui, ocorre o fenômeno oposto. Em 2012, as normas para a correção das provas determinavam que erros na concordância dos verbos — um problema grave, certamente — “excluem a redação da pontuação mais alta”. Nas regras para 2013, essa exclusão não existe. Na verdade, não há qualquer referência aos erros de concordância. E ainda foi acrescentada uma colher de chá que não consegui entender: chama atenção para a existência do acento em “espanhóis”. Há algum tempo, uma reportagem do GLOBO registrou que provas do Enem com erros grosseiros, como “enchergar”, “rasoavel” e “trousse”, receberam nota máxima.

Pelo visto, as autoridades do ensino — nem todas, certamente — sofrem de um mal incurável: o desrespeito por esse patrimônio nacional que é o idioma que falamos e escrevemos. Não é grande exagero dizer que se trata de um crime de lesa-pátria.

Mais uma carta a Chico - LEONARDO CAVALCANTI

CORREIO BRAZILIENSE - 18/10

Sabe quando um texto não combina com o autor? O compositor decidiu atropelar tudo, louco para terminar logo a tese em defesa da censura, como deve ser chamado o veto às biografias não autorizadas. A pressa é inimiga da elegância, sabe-se. Restou o erro e um pedido de desculpas meio torto

É constrangedor escrever sobre alguém tão familiar, mas que, na verdade, não conhece você. Além do que o título acima é presunçoso, por mais que o cidadão, citado pelo apelido, tenha participado de todas as fases da vida de uma multidão, desde 1965, quando lançado o primeiro compacto, com Pedro Pedreiro e Sonho de um carnaval. As músicas de Chico Buarque são a trilha sonora dos brasileiros. Aqueles com menos de 48 anos escutam o compositor desde o nascimento. Não apenas as nossas filhas gostam dele, a gente também gosta — e aqui o primeiro e último trocadilho com a letra de Jorge Maravilha.

Antes de qualquer consideração, é preciso estabelecer que, neste espaço, não será apresentado um texto falsamente endereçado a Chico Buarque, um modelo cansado, repetido aos montes. Depois de duas semanas de controvérsia sobre as biografias não autorizadas e após todos os pitacos, sobram aspectos políticos e econômicos da polêmica, algo adequado a este espaço. Mas nada digno de direitos de respostas ou mesmo processos judiciais. Aos infernos. Trata-se apenas de um desabafo de quem ficou surpreso com o artigo publicado no jornal O Globo de quarta (16). A defesa de Chico Buarque do veto às biografias não autorizadas é esquisita, como se o texto não combinasse com o autor. Algo descolorido, samba sem cadência. Letra chata de uma música pop mal elaborada.

Bobagens
Primeiro, o apoio à atual legislação é bobo e, sim, deve ser tratado como veto, censura ou qualquer coisa ditatorial que o valha. Chico Buarque escreve de maneira feia, diria até um tanto apressada, como se louco para terminar aquilo ali. Não é fácil escrever no calor da hora, aliás é sempre um risco, como quase tudo na vida. E mais: antes da perfeição, a pressa é inimiga da elegância. Com os atropelos, tudo fica reduzido a pequenos casos para explicar o conjunto, no caso explicar a falta de liberdade, um item caro à sociedade. Então, vamos aos fatos e às declarações indefensáveis, mesmo para advogados formais e informais de Chico Buarque. Ainda pergunto por qual razão ele entrou nisso.

Dois artigos do Código Civil proíbem, quando acionados, a biografia de gente pública, como Caetano, Gilberto Gil ou políticos, por exemplo. No texto de Chico Buarque, a legislação é citada como positiva por ter barrado livros infames. Um dos argumentos de artistas para tal defesa é a invasão de privacidade. De pessoas públicas, de gente que decidiu por conta e risco ser artista ou parlamentar? Êpa, isso não cola nem aqui nem na Rússia nem na China — ou mesmo na Arábia Saudita e Cuba —, países que decidiram controlar as biografias, autorizando apenas as autorizadas pelos biografados ou parentes. Seria tudo muito monótono para uma vida. Ler apenas o que alguém autorizou ser lido.

Academia
E aqui chegamos ao segundo argumento dos censores: o erro, a calúnia, a difamação, o aproveitamento de charlatões fantasiados de biógrafos. Pode ocorrer tal coisa? Claro que sim, com atores, cantores ou políticos. Mas para isso existem os processos, os advogados, o próprio mercado editorial brasileiro, sujeito às regras de conduta. Mas isso não é motivo para vetar a produção literária de não ficção. E do que falar sobre as pesquisas acadêmicas? Imagine agora, historiadores sendo interpelados por familiares de personagens públicos. Pode ser um exagero, mas ninguém está a salvo com a censura. Daí o argumento da ex-ministra Ana de Holanda ser mais razoável do que o do irmão, Chico. “Afinal, sou filha de um historiador”, disse ela ao jornal O Globo. O compositor parece ter esquecido de tal detalhe.

A controvérsia das biografias não autorizadas se estabeleceu depois da criação do grupo Procure saber, coordenado por Paula Lavigne, ex-mulher de Caetano Veloso. Era previsível que a controvérsia se estabelecesse com a dupla. Ou mesmo mensagens truncadas, estridentes e vazias, como a manifestação de um Black Bloc. Vide a última aparição do cantor baiano mascarado. Mas com Chico Buarque imaginava-se algo diferente, com a elegância sutil de Bobô. Sem bolas divididas ou chutes para a arquibancada. Restou o erro ao dizer que nunca tinha sido entrevistado pelo biógrafo Paulo Cesar de Araújo e o pedido de desculpas meio torto. Foi decepcionante.

Felipão e torcedores gritam. Que mudará? - WASHINGTON NOVAES

O Estado de S.Paulo - 18/10

Em julho de 1998, quando a seleção brasileira de futebol perdeu a oportunidade de ser pentacampeã mundial - após o episódio em que o jogador Ronaldo Fenômeno (na época chamado de Ronaldinho) entrou em campo contra a França (e nada fez) após sofrer uma convulsão, perder os sentidos, ser levado a hospital e de nada se lembrar horas depois -, o autor destas linhas escreveu um artigo indignado, neste mesmo espaço, sob o título Futebol, ética e informação. Nele se mostrava inconformado com a falta de reação, no episódio, de dirigentes esportivos, técnicos, médicos, profissionais e empresários de futebol e outros, diante do desrespeito a todas as dezenas de milhões de torcedores, assim como da população em geral, que tinham o direito de ser informadas de tudo o que acontecera - e quem foram os responsáveis pela escalação do jogador sem nenhuma condição de saúde e emocional.

"Ele parecia estar morrendo" na hora da convulsão, testemunhou Edmundo, companheiro de Ronaldo, no programa de Jô Soares. Mas ainda assim foi escalado. Chegou-se a falar em envenenamento, subornos, bruxarias, imposições comerciais de empresas patrocinadoras da seleção, e por aí afora. Mas nenhuma entidade representativa dos setores envolvidos se manifestou. Nem o Congresso Nacional fez nada para apurar o que acontecera e dar satisfações à Nação.

Passados 15 anos, com novas conformações, o episódio se repete, nas declarações do técnico da seleção, Luiz Felipe Scolari, inconformado com o direito de duas empresas - da Arábia Saudita e da Inglaterra - escolherem os adversários (Coreia do Sul e Zâmbia), datas e locais (Seul e Pequim) para jogos amistosos do Brasil. Segundo Felipão, isso prejudica a já difícil preparação do selecionado para a Copa do Mundo. E de novo fica tudo por isso mesmo.

Isso acontece numa hora já de crise para o futebol por aqui, com vários dos maiores e mais tradicionais clubes de São Paulo e do Rio de Janeiro, principalmente, mergulhados em crise profunda, rebaixados de divisão alguns, ameaçados outros. E sempre em meio a negociações, que envolvem cifras gigantescas, de venda e compra de jogadores. O noticiário fala em mais de mil jogadores que hoje atuam nos melhores clubes da Europa, da Ásia, do Oriente Médio, dos Estados Unidos - enquanto por aqui se tem de conviver com o que sobra. Com jogadores revoltados a cada transação que paga mais aos seus novos companheiros de clube - e "fazendo corpo de mole" sem a equiparação.

Não espanta mais ninguém saber que empresários têm agentes que buscam no País todo novos jogadores - para isso cercam e levam para os clubes meninos de 12 anos em diante. Podem até ser índios, como o autor destas linhas testemunhou há pouco tempo, procurado por um índio do Xingu: um empresário queria levar para um grande clube de Goiânia seu filho, então com 16 anos de idade, mas oferecia um contrato pelo qual o jovem abriria mão de parte da ajuda de custo que o clube lhe daria para moradia e alimentação. Bem como abriria mão de praticamente todos os direitos na hipótese de seu "passe" ser negociado com outro clube - o dinheiro seria dividido pelo empresário com o clube. Com a ajuda de um dirigente do clube, o contrato foi reformulado.

Em 1998 já se perguntava aqui, e pode-se repetir agora, após as declarações de Felipão: onde estão as instituições que representam jogadores e não se manifestam em episódios como esses? Onde está o ministério que regula as questões do esporte e nada diz nem faz? Onde ficam instituições que representam técnicos de futebol? Que deveriam fazer as instituições de profissionais da comunicação, que têm o dever de zelar pelo direito da sociedade à informação? Por que não atua o Ministério Público - que tem a obrigação legal de proteger, por meio de inquérito civil e ação pública, os chamados interesses difusos e coletivos (a emoção da sociedade, no caso), amparados pelo artigo 129, inciso IV, da Constituição, que está completando um quarto de século?

No final da década de 1980, a extraordinária Fernanda Montenegro perguntou, ao ver 1 milhão de pessoas chorando e correndo atrás do esquife do presidente eleito, e não empossado, Tancredo Neves: "Isso não é a cultura de um povo? Um milhão de pessoas, em absoluta ordem, sem nenhum comando, correndo nas ruas de São Paulo atrás de um caixão, para manifestar sua perda e sua dor? Não é isso a cultura de um povo?".

A paixão nacional pelo futebol é parte dessa cultura, move setores imensos da sociedade todos os dias, leva-os a buscar informações nos meios de comunicação, a ir (cada vez menos, diante dos problemas atuais) aos estádios, a dar nome de jogadores a seus filhos, a discutir nos bares, etc., etc. Então, é preciso proteger essa paixão.

Não faz o menor sentido que o calendário, os locais de jogos e os adversários da representante maior dessa paixão - a seleção brasileira - sejam comandados em segredo apenas por empresários, à revelia do próprio técnico, dos jogadores, dos torcedores. Futebol não é apenas um negócio. E mesmo que seja um negócio, precisa estar conformado e regulado pelos direitos da sociedade.

Não seria estranho, assim, ver daqui a pouco, nas ruas, também o chamado "esporte bretão" ser objeto de protestos populares (além do custo dos estádios) - embora isso não assegure que algo vá mudar. Porque não está atado a projetos políticos, que levem ao campo institucional interesses específicos. E porque as próprias instituições parecem imobilizadas ou ineficazes - basta ver tudo o que alinhou como conquistas da Câmara dos Deputados o seu presidente, em pronunciamento em rede de televisão; e tudo o que arrolou continua a parecer distante.

Sendo assim, vamos ver se pelo menos o grito de Felipão pode mover as instituições, que já deveriam estar protegendo as grandes emoções nacionais.

O maior livro - JOSÉ PIO MARTINS

GAZETA DO POVO - PR - 18/10


Um amigo me perguntou: “Se você tivesse de passar uma década em uma ilha deserta antes de voltar à civilização e tivesse de escolher um único livro para lhe fazer companhia, qual livro seria?”. Embora a escolha seja cruel, eu não tenho dúvida: escolheria Ação Humana, obra de Ludwig von Mises, publicada em 1949, com quase mil páginas, e que somente em 1990 foi traduzida para o português.

O amigo perguntou-me a razão pela qual eu escolheria esse livro e não outro. A razão é simples. Embora traga grafado o subtítulo de Um Tratado de Economia, em Ação Humana o autor trata das três ciências (ou doutrinas) que mais me apaixonam: a Filosofia, a Psicologia e a Economia.

A obra é tão maravilhosa que mereceu de Rose Wilder Lane, americana nascida em 1886 e falecida em 1968, tida como uma das maiores intelectuais de seu tempo no campo da política e da sociologia, um comentário jubiloso. “Eu penso que Ação Humana é indubitavelmente o produto mais poderoso da mente humana de nosso tempo, e acredito que ele irá mudar a vida dos homens para melhor durante os próximos séculos, tão profundamente quanto o marxismo mudou nossas vidas para pior neste século”, disse ela logo após o lançamento do livro.

O desconhecimento desse livro nos cursos de Economia, Sociologia e Filosofia é incompreensível e eu nunca entendi a razão pela qual ele levou 41 anos depois de lançado em inglês para ser traduzido para o português. E sua tradução e publicação no Brasil, em 1990, somente foi possível ao esforço sobre-humano de um homem curioso: Donald Stewart, um empreiteiro, amante da economia e do liberalismo clássico, colecionador de livros, que estudou inglês apenas para poder ler as grandes obras que ninguém se interessou em traduzir para nossa língua.

Fiquei tão encantado com esse livro que comprei dois exemplares logo após sua publicação por aqui e nunca mais vi um único volume sequer, como também nunca encontrei alguém que tivesse lido a obra. Trata-se dessas coisas que não comportam compreensão nem explicação. Ou seja, o livro que para mim é o maior é completamente ignorado no Brasil. Ou pelo menos era até hoje...

Fui tomado de surpresa ao deparar-me em algumas livrarias com o livro reeditado, capa nova, miolo mais bonito, fonte agradável de ler, esperando que outros descubram que ali está o livro que eu escolheria caso tivesse uma única opção. Segundo Ludwig von Mises, “ação humana é comportamento propositado; é a vontade posta em funcionamento, transformada em força motriz; é o uso de meios para atingir fins, quaisquer que tenham sido os fins escolhidos”.

Mais adiante, ele afirma que “o campo da ciência econômica é a ação humana e não os eventos psicológicos que determinam a ação. As razões por que o homem age de uma forma e não de outra é tarefa da psicologia explicar”. Assim, Mises transita pela filosofia, pela psicologia, pela sociologia e pela política... e de uma maneira bela e profunda oferece uma das melhores análises sobre a economia, o homem e a sociedade.

Dado seu apreço pela liberdade e pelos direitos individuais, os marxistas não estão entre os que apreciam as teses de Mises. Mas mesmo eles teriam um ganho enorme se lessem Ação Humana. Ou entenderiam melhor suas próprias teorias, ou as abandonariam e adotariam outras, o que não é nenhum demérito, pois a verdade não é patrimônio de ninguém. No mundo moderno, algumas teses de Mises precisam de ajustes. Afinal, seu livro foi escrito na década de 1940. Mas continua sendo uma obra-prima.

Chegou a vez do avesso - JOÃO MELLÃO NETO

O Estado de S.Paulo - 18/10

Em relação ao Brasil, alguém já constatou que somos um povo em nada original. A cada 15 ou 20 anos - 30, no máximo - estamos condenados a repetir os mesmos erros da etapa anterior, sempre convictos de que a mudança da ocasião é ímpar e, portanto, única em nossa História. Isso se deve, em grande parte, ao cristianismo e ao seu conceito de "flecha do tempo". Para a maioria das civilizações, o tempo é cíclico, para não dizer "circular". Para nós, não. Se, ao contrário, pensássemos como os outros, certamente nos teríamos poupado de um sem-número de dissabores. Mas o que há de se fazer?

Sou adepto da tese de que a História se repete, sim. E ai daqueles que não se acautelam contra isso. Como os raios, que caem frequentemente nos mesmos lugares, as enchentes e as secas se alternam com a mesma frequência e, no que tange à política nacional, ditaduras e democracias sempre se alternam no poder. E sempre haverá salvadores da Pátria, mesmo que pouco lhes importe saber se a Pátria deseja realmente ser salva.

Para comprovar esse raciocínio basta lembrarmos o que era e almejava o Brasil de 36 anos atrás. O ano de 1977 foi marcante para mim, pois foi quando entrei na faculdade. Com a abertura política durante o governo Ernesto Geisel, já se prenunciava o ocaso da ditadura militar, enfim consumado em 15 de março de 1985, com a saída do Planalto do general João Figueiredo.

Às vésperas da transição para a chamada Nova República, o clima era de fim de festa. Os militares, ao menos os mais sinceros e idealistas, queriam realmente deixar o poder. O que temiam eram represálias. Todavia o presidente eleito, Tancredo de Almeida Neves, com sua experiência e sua autoridade moral, garantiu-lhes que nada disso aconteceria. Tancredo já havia dialogado com todas as lideranças representativas da Nação e arrancara de cada uma delas o compromisso de manter a paz, custasse o que custasse.

Assim sendo, nada impedia uma transição pacífica. Quer dizer, nada a não ser a saúde do próprio Tancredo Neves. Os fados do tempo sempre nos pregaram peças... E foi justamente no dia anterior à posse que eles ressurgiram e terminaram por nos infligir a morte do futuro presidente da República, depois de longa agonia, em 21 de abril de 1985.

Na manhã de 15 de março o Congresso Nacional empossara o vice interinamente. E logo surgiu uma suposta lista de ministros escolhidos por Tancredo, cuja autenticidade, se ninguém podia comprovar, tampouco se atreveria a contestar publicamente. O documento, divulgado postumamente, deu força de lei ao que hipoteticamente seria a vontade de Tancredo Neves. Assim, José Sarney assumiu a Presidência com um Ministério que estava longe de ser o de sua escolha pessoal.

Tudo isso custaria muito caro à Nação. A torrente de "gastos sociais" aprovados por muito pouco não levou o País à bancarrota. Mas levou ao FMI, o que, na prática, dava na mesma. O Brasil tornara-se um pária do mercado internacional.

Esses fatos, somados a outros tantos, começaram a abrir caminho para a hipótese PT. E esta acabou por se tornar viável nas eleições de 2002.

O Partido dos Trabalhadores funcionava como uma verdadeira orquestra. Cada um de seus membros - foi provado depois - sabia exatamente como agir ou deixar de fazê-lo. No comando de todos estava José Dirceu - personagem singular e fascinante, que sempre traiu, mas nunca fora traído, foi mais esperto que os irmãos Fidel e Raúl Castro e virou herói de guerra sem nunca ter entrado em combate. Também fez fortuna sem jamais ter trabalhado. Segundo a acusação na Ação Penal 470 (mensalão), Dirceu era nada menos que o cérebro de uma "organização criminosa". Ele foi o guardião das moçoilas do interior, bem como objeto de desejo das balzaquianas das capitais. Por sinal, uma delas frequenta as páginas das revistas e consta que ganha muito dinheiro traficando influência e "facilitando" negócios espúrios.

Mas agora, completando mais um ciclo, o pêndulo da História dá evidentes demonstrações de que caminha para o lado oposto. Eis que surge uma chapa para concorrer à próxima eleição presidencial que se lastreia na ética como o seu principal trunfo. Aliás, se não fosse assim, nem sequer teria razão de existir. O voto em Marina Silva brota do descontentamento das ruas. E as ruas, como está patente desde junho, não estão dispostas a tolerar o menor deslize que seja.

Como eu defendia no início deste artigo, o tempo é cíclico. E com a mesma certeza com que esperamos pelo verão após a primavera e pelo dia após a noite, sabemos que depois da tempestade sempre vem a bonança - ou a enchente, segundo os mais pessimistas...

O PT abusou do "direito" de delinquir. Enquanto a economia parecia ir bem, o povo tolerou os seus desmandos. Não é mais o caso. A economia estagnou, a inflação ameaça disparar e nós descobrimos que o sonho do Brasil potência que acalentávamos não passou disso mesmo: foi apenas um sonho, mais um em nossa atribulada vida.

Agora, depois de todas essas barbaridades, um novo ciclo, que é a antítese do atual, se apresenta no horizonte, com Eduardo Campos, moralmente avalizado por Marina Silva. É o avesso do que temos visto, ao menos nos últimos dez anos

Por menos que se queira, Eduardo e Marina representam, sim, um alento de renovação na política brasileira. Ela é evangélica e intransigente defensora da preservação das matas e do "povo dos bosques", de acordo com suas próprias palavras. Seu modo de se exprimir trai uma espécie de ingenuidade rara de se ver. E indica também as suas convicções. Ele, por sua vez, traz a fama de excelente administrador.

Falta-nos saber se Eduardo Campos é, como Bayard, un chevalier sans peur et sans reproche (um cavaleiro sem medo e sem jaça, em tradução livre). Mas agora não nos cabe sequer desistir. A pior da renúncias, sem dúvida, é a renúncia à esperança.

Falta de responsabilidade - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 18/10

A crise entre o Congresso e a Casa Branca nos Estados Unidos, finalmente superada antes que findasse o prazo para elevar a capacidade de endividamento do Departamento do Tesouro, remete-nos à discussão que ocorre no Congresso brasileiro sobre a aprovação do que está sendo chamado em linguagem de marketing de orçamento impositivo .

Nos EUA, o Orçamento obedece ao princípio secular de que não pode haver tributação sem representação, a célebre máxima no taxation without representation , que marcou a revolta das colônias americanas contra o Congresso inglês, que assumia uma representação virtual das colônias e se sentia autorizado a definir seus impostos. Por isso, a Casa Branca não pode aumentar os gastos do Tesouro sem autorização expressa do Legislativo, e os funcionários públicos são mandados para casa porque não há dinheiro para pagar seus salários sem a aprovação do Orçamento. Não importa aqui discutir se radicais do Partido Republicano estão agindo bem ou não ao exigir mudanças no sistema de saúde aprovado por Obama para liberar dinheiro para o governo, por exemplo, mas o entendimento do que seja o Orçamento de um país.

O acordo fechado ontem prevê a formação de uma comissão bipartidária, com integrantes das duas Casas e comandada pelos presidentes dos comitês de Orçamento da Câmara e do Senado, com o objetivo de apresentar um plano fiscal para os próximos dez anos. Como em qualquer lugar do mundo, com exceção do Brasil e provavelmente de alguns outros países com desenvolvimento institucional prejudicado, o Orçamento é uma peça legislativa que tem que ser cumprida.

Aqui, ele é considerado uma mera referência e chamado de autorizativo , isto é, o Executivo tem o poder de não pagar certas despesas aprovadas do Orçamento, fazendo o contingenciamento do montante necessário ao cumprimento das metas fiscais. E os legisladores supervalorizam as receitas para aumentar os gastos das emendas parlamentares .

O que historicamente foi a origem do Parlamento, a necessidade de definir o financiamento das obras públicas e as prioridades de um governo, passou a ser um detalhe da atividade parlamentar. Deputados experientes no Congresso avaliam que o Legislativo se tornou um departamento do Poder Executivo. Ao contrário dos países mais desenvolvidos, onde 70% do trabalho do Legislativo tratam da definição do Orçamento, no Brasil quem o define é o Executivo.

Na Constituição de 1946, os parlamentares podiam emendar o Orçamento inteiro, como nos EUA. A partir da ditadura militar, o orçamento passou a ser tratado como um decreto-lei, o Congresso só podia aprová-lo ou rejeitá-lo, não emendá-lo. A Constituição de 1988 retomou o espírito da de 1946, com a capacidade de emenda do Congresso. Mas o escândalo dos anões do Orçamento provocou a centralização do Orçamento novamente no Executivo.

O orçamento impositivo na verdade só trata de parte ínfima do Orçamento, a das emendas parlamentares, e estas é que se tornariam impositivas. Há quem avalie que a sua aprovação pode acabar com o é dando que se recebe , provocando uma redefinição de forças no Congresso, porque parlamentares deixariam de se alinhar automaticamente com o governo só para liberar suas emendas.

Essa expressão de São Francisco de Assis, utilizada no contexto da troca de votos por verbas pelo então deputado paulista Roberto Cardoso Alves, dá à opinião pública uma péssima impressão da relação entre os congressistas e o Executivo, ampliando a sensação de que o fisiologismo impera.

Mas os críticos do tal orçamento impositivo veem nesse privilégio das emendas parlamentares um perigo adicional: elas se transformariam em verdadeiras moedas de troca, com o malefício se espalhando pelas casas legislativas do país. O mandato seria, então, a garantia de ter uma verba de milhões para negociar.

Compartilhar - MARINA SILVA

FOLHA DE SP - 18/10

Li e quero compartilhar o artigo de Sérgio Abranches (em www.ecopolitica.com.br) que mostra com clareza a ideia de aliança programática, dando exemplos de como ocorre na Europa e do avanço que pode trazer à política brasileira.

Uso, assim, um instrumento comum na internet, onde se desenvolvem novos aplicativos para a democracia. Pelo compartilhamento recebo contribuições vindas de diferentes lugares e pessoas. Mas gosto da ideia para além do ambiente virtual, quando acontece na vida em sociedade: compartilhar é distribuir, colocar à disposição, recomendar. Assim se ampliam as possibilidades de uma nova política, na qual prospera um ativismo autoral, sem o controle das estruturas estagnadas de poder.

A democracia controlada pelos partidos, com a participação popular reduzida ao voto nas eleições, é só o passo inicial de uma longa evolução. Lutamos para conquistá-la, devemos defendê-la contra qualquer tentativa de retrocesso. Porém essa defesa não pode ser passiva, estacionária, tem que se dar num movimento de ampliar e aprofundar.

Podemos superar a ideia de hegemonia, que baseou a formação dos movimentos políticos modernos. Partidos buscam hegemonia na política, facções lutam pela hegemonia em cada partido, indivíduos o fazem dentro de cada facção. Paradoxalmente, a democracia torna-se o ambiente em que todos buscam reduzir a própria democracia.

A hegemonia se faz na ocupação de espaços, na divisão de cargos, na coalizão baseada em acúmulo de poder. O atraso político leva tudo isso ao pântano, ao ponto de degradar até a linguagem das negociações. Tome-se, por exemplo, a distribuição de ministérios e secretarias "com porteira fechada", expressão que designa o controle de todos os cargos pela facção que recebe aquele pedaço do Estado.

Só um realinhamento político ancorado num programa pode desconstruir as máquinas de hegemonia e controle através do compartilhamento, da distribuição horizontal do poder e de ideias oriundas de vários centros não hierarquizados.

É possível ter estabilidade e "fazer as coisas" com uma política radicalmente democrática? Essa dúvida vem do medo de aceitar o outro, ouvir sua voz, compreender a necessidade de sua presença. Permanece entre nós a ideia militarista de divisão, embate, ordem unida. Eis a bipolaridade: governo contra oposição, aliados contra inimigos. No final das contas, brasileiros contra brasileiros. Repete-se o "ame-o ou deixe-o", como se fosse impossível amar e discordar.

Numa agenda pactuada com a sociedade, compartilhando poder e responsabilidades, podemos criar um campo virtuoso em que a democracia é o ambiente no qual se gera mais democracia.

Chegaremos lá.

O desencontro entre voto e ideologia - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 18/10

Se houvesse correlação de fato entre tendência política autodeclarada e escolha nas eleições, não haveria espaço para a esquerda no Brasil



A classificação de ideologias pelos termos “direita” e “esquerda”, inspirados na localização física dos blocos conservador e revolucionário na Assembleia Nacional durante a Revolução Francesa, no final do século XVIII, nem sempre consegue ser fiel à realidade. E cada vez menos.

O fim do “socialismo real”, com a implosão da União Soviética, provocada por suas próprias contradições — como explicaria um marxista — embaralhou ainda mais as coisas. O populismo chavista é de direita ou de esquerda? Vargas, saudado pela esquerda, namorou o Terceiro Reich nazista e o fascismo de Mussolini. A lista de aparentes paradoxos é extensa. A situação fica também confusa quando se pergunta, hoje, ao eleitor brasileiro em que ponto cardial ele se situa no mapa da ideologia, e se cruza a informação com a intenção de voto de cada um. É o que o Datafolha fez na última pesquisa eleitoral, segundo a “Folha de S.Paulo”.

Há um enorme desencontro entre a autodeclarada posição ideológica e a opção de voto. Um exemplo é a presidente Dilma Rousseff, do PT, símbolo da esquerda, receber 39% dos votos dos que se dizem de direita, mais que o tucano Aécio Neves (24%), considerado candidato direitista pela militância do PT.

Se houvesse uma correlação lógica entre ideologia autodeclarada e eleição, os partidos e candidatos ditos de esquerda não teriam vez. Afinal, 49% do eleitorado brasileiro se consideram de “centro-direita” e “direita”, contra apenas 30% de “esquerda” e “centro-esquerda”.

Há várias possibilidades de análise, como a que questiona a capacidade de a grande massa da população se qualificar entre direita e esquerda. Mais ainda nestes tempos de geleia geral ideológica. Pode ser, ainda, que, dada a baixa qualidade da educação política em geral, o voto seja, na sua essência, destinado a quem, em troca, concede ao eleitorado melhorias de qualidade de vida — emprego, aumentos salariais, inflação baixa. Independentemente do posicionamento ideológico do governante.

Por trás de tudo, há, ainda, uma estrutura partidária distorcida, sem legitimidade e, portanto, de baixa qualidade de representação. Dos 32 partidos, dos quais 24 com bancadas no Congresso, poucos têm uma postura ideológica com alguma definição clara.

A grande maioria é de legendas nanicas, usadas no balcão de negociatas político-eleitorais. Como a legislação é leniente, há uma excessiva pulverização de partidos, especializados em negociar, literalmente, a cessão de tempo na propaganda gratuita em TV e rádio, a moeda de troca do baixo clero.

Os partidos políticos brasileiros não contribuem, então, para o aprimoramento político-ideológico do eleitorado, nem de espaço de formulação de efetivas propostas de governo e poder. São apenas meio de vida, às vezes escuso. Um dos reflexos deste quadro de mediocridade está nesta pesquisa da Datafolha.

PAC imobiliário, de novo - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 18/10

Apresentado pelo governo como principal componente de sua política de desenvolvimento, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) continua sendo, acima de tudo, um grande empreendimento imobiliário. Foram aplicados até o fim de agosto, em todos os projetos, R$ 665 bilhões, 67,2% do total previsto para o PAC 2, desenhado para o período 2011-2014, segundo o balanço divulgado ontem pelos ministros do Planejamento, Miriam Belchior, e da Fazenda, Guido Mantega. Mas R$ 217,4 bilhões, cerca de um terço do valor aplicado, foram destinados a financiamentos imobiliários. Juntando a essa parcela os R$ 60 bilhões gastos com o Minha Casa, Minha Vida, chega-se a 41,7% do total aplicado.

A predominância dos projetos imobiliários fica ainda mais ressaltada quando se consideram somente as "ações concluídas" a partir de 2011 e avaliadas em R$ 448,1 bilhões. A soma destinada a construções habitacionais, financiamentos imobiliários e urbanização de assentamentos precários chegou a R$ 277,7 bilhões, ou 62%, quase dois terços, portanto, daquelas ações.

Ninguém contesta a importância de programas de moradia e de urbanização. Ao contrário: ainda faltaria investir muito mais em saneamento para complementar essas iniciativas de interesse social. Mas um programa acelerador do crescimento - com efeitos estruturais e, portanto, de longo prazo - só produzirá os benefícios prometidos e alardeados pelo governo se for destinado à eliminação de gargalos e à elevação da produtividade geral da economia, atualmente muito baixa.

No entanto, a parte mais bem-sucedida do PAC continua sendo a imobiliária e isso se explica facilmente: é muito mais simples liberar financiamentos do que elaborar e executar projetos de infraestrutura ou estabelecer parcerias com o setor privado.

Um dia antes da apresentação do oitavo balanço do PAC 2, o ministro dos Transportes, César Borges, falou sobre o baixo grau de realização de investimentos em sua área - pouco menos de metade dos R$ 15 bilhões previstos para o ano. Ele atribuiu o resultado à greve de dois meses no Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), às dificuldades de elaboração de projetos executivos e aos problemas de obtenção de licenças ambientais. Num balanço mais sintético, a grande dificuldade é mesmo o despreparo do governo federal para preparar projetos e entregar resultados. Frequentemente, nem sequer as normas do Tribunal de Contas da União (TCU) são levadas em conta e também isso resulta em suspensão e em atraso de obras.

Na apresentação oficial, a maior parte dos projetos do PAC tem sempre andamento satisfatório e quase tudo caminha no ritmo desejável. Na prática, raramente essa avaliação se revela adequada, porque a apresentação otimista muitas vezes oculta a revisão de planos e o alongamento de prazos. O atraso na realização dos contratos de concessão na área de logística desmente o discurso otimista. Um ano depois de lançado o plano setorial, muito pouco foi licitado, porque os critérios do governo têm sido rejeitados pelos investidores potenciais. Novo teste importante deve ocorrer neste mês, com a licitação do Campo de Libra, no pré-sal.

Em longo discurso na apresentação do balanço, o ministro da Fazenda falou com aparente entusiasmo sobre o crescimento econômico do Brasil - como se o País estivesse desde 2011 em vigorosa expansão - e ressaltou uma feliz combinação entre planejamento e investimento. Mas essa combinação é imaginária, assim como a solidez fiscal e a inflação na meta e sob controle, realizações alardeadas pela presidente Dilma Rousseff.

Se as projeções mais otimistas forem confirmadas, o total investido em máquinas, equipamentos, obras civis e projetos de infraestrutura voltará neste ano para pouco mais de 19% do Produto Interno Bruto, depois de uma queda no ano passado. Até setembro, o Tesouro só pagou 35,7% dos R$ 91,2 bilhões autorizados para investimento no Orçamento federal de 2013, segundo a organização Contas Abertas. Descontada a inflação, o valor pago foi menor que o de um ano antes. Não dá para soltar rojões por esse resultado.

Chantagem e lição enviesa da nos EUA - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 18/10
Não serve de consolo, mas não é só no Brasil que a deterioração do exercício da política e a perda de qualidade da representação parlamentar têm produzido mais tumultos do que soluções para o bom funcionamento da economia. O que se viu nas últimas semanas na maior democracia do mundo, os Estados Unidos, foi mais uma demonstração de quanto é perigosa para qualquer país a transformação de diferenças partidárias saudáveis em uma guerra, na base do quanto pior, melhor.
Temerosos do sucesso do presidente Barack Obama, eleito pelo Partido Democrata, seus opositores, do Partido Republicano, mais conservador, decidiram sabotar Os programas de cunho social do governo, especialmente o da saúde, que passou a atender os mais pobres com recursos públicos. 

Graças à credibilidade conquistada, por jamais o país deixar de honrar sua dívida externa, os bônus do Tesouro norte-americano (os chamados treasures) tornaram-se o destino seguro da poupança de inúmeros países, mesmo pagando juros baixos. O Brasil é hoje o terceiro maior comprador de títulos norte-americanos: US$ 256 bilhões de nossas reservas cambiais.

Com isso, a dívida externa do EUA já ronda os US$ 16 trilhões. Para conter sua expansão desenfreada, leis deram ao Congresso a atribuição exclusiva de aprovar a eventual elevação do teto de endividamento. Mas é comum o governo pedir essa autorização, para não correr o risco de ficar sem caixa para pagar os títulos que estão vencendo.
Nos Estados Unidos, o ano fiscal termina em 30 de setembro. Por isso, antes de 1º de outubro o Orçamento tem de estar aprovado, assim como a definição do teto da dívida. Os republicanos usam sua maioria na Câmara para exigir o fim do programa de saúde em troca dessas aprovações. Este ano, a oposição conseguiu paralisar várias atividades do governo por 16 dias, provocando perdas de US$ 24 bilhões, que deixaram de circular na economia. E colocaram o país na iminência de dar o primeiro calote de sua história.

Só ontem afrouxaram a chantagem, aceitando um acordo provisório: vale até 15 de janeiro para o orçamento e 7 de fevereiro para o teto da dívida. Ninguém duvida de que esse extremismo irresponsável vai patrocinar nova queda de braço nessas datas. E o mais provável é que a questão da dívida seja solucionada; afinal, o estrago na economia dos Estados Unidos e do mundo será grande demais para que os republicanos tirem vantagem dele.
Mas é certo também que o impasse atual já arranhou a crença na capacidade dos EUA de continuarem sendo o cofre do mundo. Os republicanos, com sua cegueira partidária, podem ter inspirado iniciativas internacionais de substituir o dólar e os bônus norte-americanos por referências menos sujeitas a perigosas emboscadas da política local.

Uma solução temporária - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 18/10

Os congressistas norte-americanos deram prazos definidos para o governo seguir se endividando e pagando seus funcionários, e os grandes dilemas que levaram ao shutdown, e quase ao calote, nem de longe estão resolvidos


Na última hora, como se imaginava, o pragmatismo e a vontade de preservar biografias prevaleceram sobre o discurso intransigente: os congressistas norte-americanos não quiseram passar para a história como a primeira legislatura a permitir que os Estados Unidos se tornassem um país caloteiro, e aprovaram, na noite de quarta, a elevação do teto da dívida norte-americana, que seria atingido ontem (agora, os Estados Unidos poderão tomar dinheiro emprestado até 7 de fevereiro de 2014), e uma medida que financia o governo federal até 15 de janeiro do ano que vem, permitindo o fim do shutdown e o retorno do funcionalismo federal ao trabalho.

O acordo não foi exatamente motivo de comemoração. “Não há vencedores aqui. Todo analista acredita que [o shutdown] freou nosso crescimento. Famílias ficaram sem pagamentos”, disse o presidente Barack Obama. “Nós combatemos o bom combate. Só não vencemos”, lamentou o presidente da Câmara de Representantes, o republicano John Boehner. A agência de classificação de risco Standard and Poor’s avaliou o estrago causado pela paralisação em US$ 24 bilhões. E tudo isso por uma solução temporária, não só porque há prazos definidos para o governo seguir se endividando e pagando seus funcionários, mas principalmente porque os grandes dilemas que levaram ao impasse nem de longe estão resolvidos.

Em primeiro lugar, está a reforma do sistema nacional de saúde, apelidada de “Obamacare”. A nova legislação obriga os norte-americanos que não estão cobertos por nenhum plano de saúde (seja o Medicare, para idosos; o Medicaid, para os mais pobres; ou planos privados) a buscar cobertura até 2014, com subsídios para os que não são pobres o suficiente para serem atendidos pelo Medicaid, mas também não podem bancar sozinhos um plano particular. Os que podem pagar, mas escolherem não adquirir cobertura, pagarão multas leves. Os republicanos, contrários ao Obamacare, tentaram primeiro derrubá-lo completamente. Ao perceber que não teriam sucesso, agora tentam adiar a entrada em vigor das novas regras. Foi esse impasse que levou ao shutdown.

Obama criticou duramente a estratégia republicana. “Você não gosta de uma política de governo ou de um presidente em particular? Então discuta sua posição. Vá em frente e vença uma eleição. Force por uma mudança, não pela quebra do que já existe”, disse, aparentemente ignorando que os republicanos venceram, sim, pelo menos uma eleição – afinal, eles são maioria na Câmara dos Representantes. Mas isso não justifica a tentativa de torcer o braço do presidente. O Obamacare é a menina dos olhos da Casa Branca; impossível pensar que os democratas cederão em algo que lhes é tão caro. Cabe aos republicanos trabalhar para consertar o que consideram errado no programa, e não derrubá-lo completamente. Se o Obamacare for um fracasso retumbante, isso será lembrado pelo eleitorado nas próximas disputas.

Resta o debate sobre a política fiscal norte-americana. Empréstimos são fundamentais para que governos possam fazer os grandes investimentos que julgam necessários, mas é preciso evitar o endividamento desnecessário ou irresponsável, que cria uma situação em que o país permanentemente gasta mais do que arrecada – e os EUA já devem o equivalente a 100% do seu PIB anual. Nisso os republicanos têm razão, embora sua estratégia de negociação, ao não aceitar praticamente nenhuma elevação de impostos, seja contraproducente. E também não ajuda o fato de democratas mais radicais não quererem nem ouvir falar em rever a política de benefícios sociais. Isso trava qualquer debate, por mais que Obama fale em “orçamento responsável”. Como o cenário político norte-americano anda monopolizado pelos intransigentes, que ofuscam os conciliadores, é quase certo que no início de 2014 os Estados Unidos passarão por novos momentos de angústia como os dos últimos dias.

Depois da luta - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 18/10

Congresso dos EUA aprova acordo temporário para evitar o calote de dívidas do país, após batalha em que republicanos são derrotados


Embora o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, tenha dito que não houve vencedores no cabo de guerra com a corda da dívida pública americana, é inevitável constatar que os republicanos saíram derrotados do episódio.

A aprovação do Partido Republicano caiu para 28%, a menor da história recente, e 53% dos americanos culparam a legenda pelo fechamento do governo, contra 31% que o atribuíam a Obama.

Nas mais de duas semanas de impasse sobre a dívida (hoje em US$ 16,7 trilhões, contra um PIB de US$ 16,2 trilhões), o governo dos EUA ficou paralisado. Sem ter aprovado o Orçamento no início do mês, quando começa o ano fiscal do país, não conseguia arcar com uma série de despesas ordinárias.

Ainda pior, se até ontem o governo não obtivesse do Congresso autorização para contrair novos empréstimos, os EUA precisariam dar o calote em diversas dívidas. À luz de seu papel central no sistema financeiro internacional, seria uma tormenta mundial.

Anteontem, felizmente, os congressistas chegaram a um acordo provisório, com elevação temporária do teto da dívida, que precisará ser renegociada até 7 de fevereiro. Por enquanto o governo voltará a funcionar, e o Orçamento deverá ser votado em dezembro.

A questão orçamentária é das mais controversas, pois vai ao âmago da tradição americana de preocupação com o tamanho do Estado. Embora o governo já tenha fechado 18 vezes desde 1976, o Congresso sempre aprovava o aumento do limite da dívida.

A novidade --a ameaça de calote-- surgiu nos últimos anos, sobretudo pela reação dos ultraconservadores do Tea Party ao programa de saúde aprovado em 2010, sob patrocínio de Obama.

O primeiro embate sério deu-se em 2011, quando o deficit público estava perto de 8% do PIB. Como o endividamento acelerava (a dívida bruta cresceu 61% de 2008 a 2012), era premente um acordo para aumentar receitas e limitar despesas.

A solução foi intermediária: elevou-se o limite, em troca de um prazo para negociar a redução do deficit. Caso isso não ocorresse, haveria o "sequestro" automático de despesas a partir de 2013.

Nos últimos dois anos, o deficit público caiu para 4,5% do PIB, mas a contenção de gastos subtraiu quase dois pontos percentuais do crescimento da economia americana --que, ainda assim, deve avançar perto de 2% neste ano.

Espera-se que, até 2015, o deficit caia para 2% do PIB, em um contexto de aceleração do crescimento, sem que sejam necessárias novas medidas. Do ponto de vista econômico, o pior momento passou.

Quanto ao Congresso, com o pêndulo de poder do lado de Barack Obama, é plausível esperar que, sem o mesmo acirramento, o país chegue a um acordo de longo prazo capaz de acomodar interesses democratas e republicanos.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Dois anos fazendo campanha. Cadê governo?”

José Serra (PSDB), ao criticar o desempenho que considera fraco do governo Dilma


JOSUÉ NO PMDB É OPÇÃO PARA VICE DE LULA EM 2014

O ex-presidente Lula jura que não quer, mas se prepara discretamente para a eventual “necessidade” de substituir a presidente Dilma, na campanha de 2014. Um grande indício é a filiação ao PMDB de Josué Gomes, filho do ex-vice-presidente José Alencar. Lula havia segredado a amigos íntimos que, “na hipótese remota” de voltar a disputar o Planalto, gostaria de ter o jovem empresário como alternativa para vice.

CARA NOVA

Lula manterá a aliança com o PMDB, após Eduardo Campos (PSB), seu ex-xodó, unir-se a Marina. E quer “cara nova” como vice: Josué.

MAIS DO MESMO

Lula sempre escolhe alguém para o PMDB fingir que indicou. Caso assuma a candidatura, deve fazer o mesmo com Josué Gomes.

PAULISTA, MEU

Josué pouco sabe sobre Minas, onde escolheu não viver. Foi a BH assinar a ficha de filiação ao PMDB e voltou a São Paulo, onde reside.

NEM AÍ

A filiação de Josué ao PMDB foi seu primeiro e último contato com o partido. Escafedeu-se. Está à espera de uma “convocação” de Lula.

PF JÁ NÃO AGUENTA CAPRICHOS DE MARIA DO ROSÁRIO

Fonte da Polícia Federal revelou ontem que a corporação anda farta dos caprichos da ministra da Secretaria de Direitos Humanos. Maria do Rosário parece gostar de se sentir poderosa, acionando e ocupando delegados e agentes em investigações bizarras. Foi dela a “denúncia” de que a oposição espalhara o boato sobre o calote ao Bolsa Família, e a PF concluiu depois que a responsabilidade fora da própria Caixa.

ELA TEM O PODER

Desta vez, Maria do Rosário fez o ministro da Justiça acionar a PF para intimidar um blogueiro que atribui a ela declarações que não fez.

SAI DE BAIXO

A presidente Dilma subiu nas tamancas com a história, inverídica, de que Maria do Rosário criticara o PM paulista filmado frustrando um assalto à bala.

DO OUTRO MUNDO

E o PT, quem diria, virou vidraça, privatizando o campo de Libra da Petrobras. Pelo menos ele não será dos yankees, mas dos chineses.

EMPREITEIRA VERDE

Sem alarde, cumprindo prazos e poupando cofres públicos, o Exército toca 23 obras para o governo: aeroporto de Guarulhos (SP), portos no Amazonas e em Santa Catarina, abertura de poços e recuperação de estradas no Nordeste. Na transposição do São Francisco foi nota 10.

CAMISA DE FORÇA NELE

Às vezes xingado de “louco de pedra”, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) ontem resolveu bajular os “black blocs” – aqueles que as utilizam como artefatos para ferir pessoas e depredar o patrimônio alheio.

NEM TE CONHEÇO

O senador José Agripino tem mais um motivo para se descolar da governadora Rosalba Ciarlini (DEM-RN), que ultrapassa 80% de rejeição entre potiguares: quer reeleger o filho, deputado Felipe Maia.

FAÇA O QUE DIGO

Da boca para fora, Manuela D’Ávila (RS) critica doações eleitorais de concessionárias ou permissionárias. Mas o PCdoB aceitou R$ 250 mil da empreiteira OAS para sua campanha à prefeitura da cidade Porto Alegre.

POLUIÇÃO VISUAL

Na contramão da minirreforma política, que promete diminuir gastos de campanha, o PTB apresentou emenda para acabar com a proibição, prevista na legislação, de propaganda eleitoral em outdoors.

IGUERRILHA

Críticos selvagens do “capitalismo”, os arruaceiros do Black Bloc ainda não se manifestaram sobre os
R$ 39,90 que a loja virtual do PT cobra por uma capa para iPhone com o rosto do “resistente” Che Guevara.

CUSTO ‘BRAZIL’

Jornais ingleses fazem a conta da despesa dos torcedores locais na Copa de 2014: o equivalente a R$ 30 mil. O preço cai um pouco se optarem por “hostels” nas favelas “pacificadas”. Isso não vai dar certo...

ASSUNTO CONFIDENCIAL

Estão a sete chaves as revelações do senador boliviano Roger Pinto aos deputados Jair Bolsonaro (PP-RJ), Marco Feliciano (PSC-SP) e ao senador Sérgio “Petecão” (PSD-AC), sobre o envolvimento da Bolívia com narcotráfico, que o obrigou a pedir asilo ao Brasil.

PENSANDO BEM...

...leitores que não leiam nem biografias desautorizadas serão o maior castigo para artistas que só aceitam “biografias autorizadas” por eles.

PODER SEM PUDOR


UM BARÃO NO PCDOB

Eram deputados na mesma época, no início dos anos 90, e tinham em comum apenas o fato de residirem no mesmo prédio, em Brasília. O direitista Cunha Bueno (PP-SP), monarquista fanático, e Haroldo Lima (BA), barulhento esquerdista da Câmara. Numa rara conversa entre eles, Lima revelou um segredo: “meu avô era barão”. Bueno gargalhou:

- Então estamos conversados: quando a monarquia for restabelecida no Brasil, você voltará a ser chamado de barão. Barão Vermelho!

SEXTA NOS JORNAIS

Globo: Mesmo com acordo nos EUA, dólar cai no mundo
Folha: Exército fará a segurança do 1º leilão do pré-sal, no Rio
Estadão: Greve contra primeiro leilão do pré-sal paralisa refinarias
Correio: Degradação do Paranoá
Valor: Pré-sal exige investimento de US$ 500 bi em 12 anos
Estado de Minas: Mais médicos desistem do programa em Minas
Jornal do Commercio: Suposto assassino foi filmado na PE-300
Zero Hora: Planalto aciona Exército para o leilão do pré-sal
- Brasil Econômico: Má gestão pública facilita a corrupção no país

quinta-feira, outubro 17, 2013

Piratarias em terra e mar - LUCAS MENDES

BBC Brasil - 17/10


Quando um texto é publicado na mídia com os podres de um político ou celebridade é reportagem investigativa. Se as mesmas informações forem publicadas numa biografia não autorizada, é pirataria do escritor. O repórter saqueou segredos e direitos do autografado.


A Constituição do Brasil, como a americana, garante o direito de privacidade e a liberdade de expressão. Quem decide se uma informação é invasão de privacidade ou liberdade de expressão é o juiz. Qual é o mistério?

Nos Estados Unidos, há pelo menos um biografado que se sente pirateado por semana. Estamos na semana de Johnny Carson, um dos apresentadores/comediantes mais bem sucedidos, afáveis, moderados e engraçados dos talk showsda TV americana. Um modelo para o Jô.

Ele já está morto, mas os descendentes ou pessoas citadas no livro podem processar. O livro foi escrito por Henry Bushkin, advogado de Carson durante 18 anos. Conta as canalhices do animador com as mulheres, os filhos, com todos com quem conviveu de perto e, muitas vezes, também de longe. Foi um solitário incapaz de amar, ser amado e manter amizades. A culpa, dizia ele, era da mãe repressora.

Biografia autorizada nem sempre é garantia de retrato positivo. O historiador William Manchester tinha publicado uma biografia deslumbrada sobre o presidente John F. Kennedy quatro anos depois da morte deste. Jacqueline Kennedy e Bob Kennedy, irmão do presidente, encomendaram a Manchester um outro livro para contar a história do dia do assassinato em Dallas.

Pagaram a ele US$ 40 mil de adiantamento, teriam controle do conteúdo e os royalties iriam para a biblioteca Kennedy. Quando Manchester vendeu os direitos de serialização para a revista Look, por US$ 650 mil, os Kennedys protestaram. Além de exigir o dinheiro para a biblioteca, queriam fazer cortes.

Entre eles, trechos sobre Jacqueline fumando, um segredo, a informação que o presidente não tinha dormido com ela na véspera porque estava com diarreia e que, no avião, entre Dallas e Washington, com o corpo do marido a bordo, ela se olhava no espelho e fazia comentários preocupados com as rugas.

Manchester fez alguns cortes, mas não todos. Os Kennedys entraram na Justiça. A repercussão foi péssima para ela e quando ameaçou a campanha politica de Bob, fizeram um acordo antes do julgamento.

Se biografia não autorizada é pirataria, o maior pirata do nosso tempo é Kitty Kelley, que não é uma gatinha. Os pirateados dela foram ou são todos feras: Jacqueline Kennedy Onassis (dez anos depois da briga com Manchester), Frank Sinatra, Elizabeth Taylor, Nancy Reagan, quando ainda primeira-dama, a família Bush, a família real inglesa e Oprah Winfrey.

Cada biografia provocou desmentidos, insultos, pressões de todos os lados, mas só Sinatra processou. Queria US$ 2 milhões pelo que afirmava ser mentira ou difamação. Depois de dois anos desistiu.

Os Reagan conseguiram tirar o nome dela das manchetes do jornalWashington Post, mas não impediram que o livro fosse um best seller e vendesse mais de 1 milhão de exemplares, como quase todos outros.

Oprah Winfrey, com suas conexões e prestígio na mídia, conseguiu bloquear as aparições de Kitty Kelley nas redes de rádio e TV para promover o livro e bateu tanto na credibilidade da autora que o livro não passou dos 300 mil exemplares.

Além da biografia de Johnny Carson, há dois casos de pirataria nas manchetes dos tabloides desta semana. Captain Phillips, o filme com Tom Hanks sobre o navio Alabama, sequestrado por piratas na costa da Somália, estreou com sucesso, mas o capitão, um herói americano, está sendo processado por 11 de seus tripulantes que se sentem pirateados por ele. Querem US$ 50 milhões. Acusam o capitão de ter colocado a vida deles em risco porque tinha um desejo enrustido de ser sequestrado. Contrariando instruções, navegava muito muito perto da costa.

Mais bizarro e engraçado foi o golpe da polícia belga, que conseguiu convencer dois chefões da pirataria na Somália a ir a Bélgica acertar os detalhes para assinar um contrato e receber um pagamento pelos direitos de uma biografia e um filme sobre eles e os sequestro de um navio belga. Os dois patetas foram presos quando desceram do avião.

O guru das biografias não autorizadas é o advogado Lloyd Rich. Ele dá o passo a passo, são nove, para evitar processos. Passo fundamental, o autor precisa se cercar de provas. Entrevistas gravadas, recibos, fotos, imagens, o diabo.

Os biografados raramente processam porque correm o risco de pagar uma conta cara, perder a briga e ajudar a promover o livro.

De todas as biografias não autorizadas do nosso tempo, para mim, a mais audaciosa não foi sobre um poderoso ou uma celebridade. FoiHell's Angel, sobre Madre Teresa de Calcutá. Para o autor, Christopher Hitchens, ela era uma fraude, fanática e fundamentalista. Amiga da pobreza e não dos pobres porque era contra controle de natalidade e aborto. Aceitava doações de ditadores assassinos e escroques.

Em vez de processar, a Madre rezava para Hitchens e para família dele.

Qual romance você está lendo? - CONTARDO CALLIGARIS

FOLHA DE SP - 17/10

Se eu for chamado a sabatinar um candidato, perguntarei sem falta: qual romance você está lendo?


Sempre pensei que fosse sábio desconfiar de quem não lê literatura. Ler ou não ler romances é para mim um critério. Quer saber se tal político merece seu voto? Verifique se ele lê literatura. Quer escolher um psicanalista ou um psicoterapeuta? Mesma sugestão.

E, cuidado, o hábito de ler, em geral, pode ser melhor do que o de não ler, mas não me basta: o critério que vale para mim é ler especificamente literatura --ficção literária.

Você dirá que estou apenas exigindo dos outros que eles sejam parecidos comigo. E eu teria que concordar, salvo que acabo de aprender que minha confiança nos leitores de ficção literária é justificada.

Algo que eu acreditava intuitivamente foi confirmado em pesquisa que acaba de ser publicada pela revista "Science" (migre.me/gkK9J), "Reading Literary Fiction Improves Theory of Mind" (ler ficção literária melhora a teoria da mente), de David C. Kidd e Emanuele Castano.

Uma explicação. Na expressão "teoria da mente", "teoria" significa "visão" (esse é o sentido originário da palavra). Em psicologia, a "teoria da mente" é nossa capacidade de enxergar os outros e de lhes atribuir de maneira correta crenças, ideias, intenções, afetos e sentimentos.

A teoria da mente emocional é a capacidade de reconhecer o que os outros sentem e, portanto, de experimentar empatia e compaixão por eles; a teoria da mente cognitiva é a capacidade de reconhecer o que os outros pensam e sabem e, portanto, de dialogar e de negociar soluções racionais. Obviamente, enxergar o que os outros sentem e pensam é uma condição para ter uma vida social ativa e interessante.

Existem vários testes para medir nossa "teoria da mente" --os mais conhecidos são o RMET ou o DANVA, testes de interpretação da mente do outro pelo seu olhar ou pela sua expressão facial. Em geral, esses testes são usados no diagnóstico de transtornos que vão desde o isolamento autista até a inquietante indiferença ao destino dos outros da qual dão prova psicopatas e sociopatas.

Kidd e Castano aplicaram esses testes em diferentes grupos, criados a partir de uma amostra homogênea: 1) um grupo que acabava de ler trechos de ficção literária, 2) um grupo que acabava de ler trechos de não ficção, 3) um grupo que acabava de ler trechos de ficção popular, 4) um grupo que não lera nada.

Conclusão: os leitores de ficção literária enxergam melhor a complexidade do outro e, com isso, podem aumentar sua empatia e seu respeito pela diferença de seus semelhantes. Com um pouco de otimismo, seria possível apostar que ler literatura seja um jeito de se precaver contra sociopatia e psicopatia. Mais duas observações.

1) A pesquisa mede o efeito imediato da leitura de trechos literários. Não sabemos se existem efeitos cumulativos da leitura passada (hoje não tenho tempo, mas "já li muito na adolescência"): o que importa não é se você leu, mas se está lendo.

2) A pesquisa constata que a ficção popular não tem o mesmo efeito da literária. A diferença é explicada assim: a leitura de ficção literária nos mobiliza para entender a experiência das personagens.

"Como na vida real, os mundos da ficção literária são povoados por indivíduos complexos cujas vidas interiores devem ser investigadas, pois são raramente de fácil acesso." "Contrariamente à ficção literária, a ficção popular (...) tende a retratar o mundo e as personagens como internamente consistentes e previsíveis. Ela pode confirmar as expectativas do leitor em vez de promover o trabalho de sua teoria da mente."

Em suma, o texto literário é aquele que pede esforços de interpretação por aquelas caraterísticas que foram notadas pelos melhores leitores do século 20: por ser ambíguo (William Empson), aberto (Umberto Eco) e repleto de significações secundárias (Roland Barthes).

Na hora de fechar esta coluna, na terça-feira, encontro a mesma pesquisa comentada na seleção do "New York Times" oferecida semanalmente pela Folha. A jornalista do "Times" pensou que a leitura literária, ajudando-nos a enxergar e entender os outros, facilitaria nossas entrevistas de emprego ou nossos encontros românticos.

Quanto a mim, imaginei que, na próxima vez em que eu for chamado a sabatinar um candidato, não esquecerei de perguntar: qual é o romance que você está lendo? E espero que o candidato mencione um livro que conheço, para verificar se está falando a verdade.

:) :( >:/ : Máscaras em série - MARIO SERGIO CONTI

O GLOBO - 17/10

A rarefação dos sinais de pontuação não foi apenas aquilo que, black bloc das antigas, Eike Batista chamaria de concessão da imprensa ao mercado


Pode procurar; não há mais ponto e vírgula. Ele sumiu como as reticências, fila jururu de três pontinhos que prolongavam uma impressão ambígua e induziam a leitora a concluí-la, ainda que o escritor soubesse muito bem aonde queria levá-la... Desapareceu junto com o ponto de exclamação, dedo em riste ameaçador que ninguém mais aponta!

O ponto e vírgula, o de exclamação e as reticências, no entanto, configuram a linguagem oral, são a sua música — a pontuação marca pausas, inflexões, ênfases, acelera ou retarda a elocução. Agora é hora de soprar a trombeta de outro sinal gráfico, a serpente que se contrai e se concentra, toma impulso, dá um bote e indaga à leitora: por que a pontuação mudou? Tenho uma hipótese, responde ela.

O ponto e vírgula sumiu primeiro aqui, na imprensa. Ao almejar um público amplo e de educação desnivelada, o jornal privilegiou a comunicação rápida do imediato — e parou de empregá-lo. Isso não se deu por ignorância da norma que orienta o seu uso. À parte as exceções que são o néctar dos gramáticos, a regra é singela: o ponto e vírgula sinaliza uma pausa menor que a do ponto final e maior do que a da vírgula. A sua abolição emudeceu um compasso, em proveito do rumor contínuo do resfolegante trator que nivela as complicações da vida real.

Nas revistas, cujo tempo de fruição é mais dilatado que o do jornal diário, o ponto e vírgula veio também a sucumbir à generalização do desuso; restando as vírgulas. Numa delas, “The New Yorker”, o seu fundador, Harold Ross, era um fanático da virgulação. Fosse brasileiro, deveria se chamar Virgulino. Ele achava que as vírgulas são holofotes, esclarecem o escrito. A ponto de botar uma na frase “Depois do jantar, os homens foram para a sala de estar”. Um leitor achou a interrupção abusiva e, em alto e bom som, estrilou: por que a vírgula?! Foi-lhe dito que a vírgula dava tempo aos homens de afastar a cadeira e ficar de pé depois do jantar.

A “New Yorker” ainda virgula adoidada; vem até de ponto e vírgula. Mas nada que se equipare à redação entrecortada, aos solavancos dos anos de Harold Ross, no início do século passado, quando as vírgulas esclareciam, mas truncavam, reportagens; artigos; resenhas; perfis; peças de humor, até.

A rarefação dos sinais de pontuação não foi apenas aquilo que, black bloc das antigas, Eike Batista chamaria de concessão da imprensa ao mercado. A rarefação diz o que ocorreu na sociedade: se não há mais jantares onde os homens se retiram para fumar charuto e beber brandy numa sala aconchegante, a elegante vírgula de Ross perde sentido. Em tempos de lufa-lufa e restaurante a quilo, onde ninguém se ergue da cadeira com polidez, a vírgula inútil enfeita a petulância — os bons modos de quem teve berço — do redator, que a põe no texto como um cravo no smoking.

Imprensa é isso mesmo: redução. Não cabe, numa notícia de pé de página, remontar à vida pregressa e à situação material do motorista e do pedestre de um atropelamento no Aterro. A brutalidade da pontuação sem matizes corresponde à fúria veloz e desatenta da vida de hoje. Pau nele, no ponto e vírgula, como treinamento para os desastres da realidade.

Com a arte, a figura muda. Ela existe para captar o confuso e expressar o inexprimível, a trombada entre o indivíduo e a sociedade. É o que buscam três romances nacionais recentes, “A maçã dourada”, de Michel Laub; “Noites de alface”, de Vanessa Barbara; e “O drible”, de Sérgio Rodrigues. No conteúdo, o que os une é a violência contemporânea: massacre e suicídios no livro de Laub; assassinato e ocultação de cadáver no de Barbara; suicídio e incriminação no de Rodrigues. Na forma, nenhum deles emprega ponto e vírgula e parênteses (concha que encapsula outro sentido), o que leva a serpente a atacar de novo: por quê?

Sendo a pergunta absurda, não há resposta. Note-se contudo que o modernismo limpou a prosa artística do trololó beletrista, e os três autores a ele se filiam. E que eles, por serem jornalistas, talvez tenham levado para a ficção algo do reducionismo da imprensa. Como não há utilitarismo em arte, o uso nulo ou amiúde do ponto e vírgula não conduz a obras-primas — nem ao socialismo, como gostaria Eike Batista...

O que vale no romance é a expressão do autor. Desde que ele seja um artista, una conteúdo e forma num todo inextricável. Senão, poderá apelar para emoticons como os do título. Essas carinhas fofas — sirenes do kitsch, uivos da breguice — não dão música à emoção. Elas difundem máscaras em série, com as quais o indivíduo automático se anula na cidade onde todos têm o mesmo rosto. Já os sinais de pontuação, em vez de harmonizar da linguagem escrita, são cílios e ciscos que desenham a mudez conformada :)

Ou dão uma piscada ;)

A grande festa de Belém - CORA RÓNAI

O GLOBO - 17/10

Não dá para explicar o que é o Círio de Nazaré; não dá para se ter ideia do que é aquela quantidade compacta de gente, numa festa de paz


Ouço falar no Círio de Nazaré há muitas e muitas luas. Não pela mídia, mas pela fonte mais privilegiada no que lhe diz respeito, minha amiga Fafá de Belém, que vive, como ninguém, a maior festa religiosa da Amazônia. Há anos ela me diz que o Círio é algo que se tem que ver pessoalmente, que filmes e fotos não conseguem transmitir o que acontece no Pará quando todo mundo vai para a rua ao mesmo tempo, homenagear a sua santa padroeira. Pois este ano aceitei o desafio, e fui lá, conferir a grande romaria.

Fafá está certa. Não dá para explicar o que é o Círio de Nazaré; não dá para se ter ideia do que é aquela quantidade compacta de gente junta, numa festa de paz. Acomodada na varanda de uma casa antiga, eu olhava para a multidão que passava e não conseguia ver uma fresta entre os corpos. Às vezes havia um empurra-empurra, às vezes pessoas caíam desmaiadas e eram socorridas por padioleiros que iam e vinham afobados, cercados por gente encarregada de abrir caminho.

A primeira impressão — e a segunda, e a terceira — é de pânico. No sábado à noite, a procissão reuniu quase dois milhões de fiéis; no domingo pela manhã, foram cem mil a mais. Uma multidão dessas, num calor daqueles, está sempre a um passo da calamidade. Se alguma coisa der errado, dará muito errado — não há para onde correr. Não há Plano B.

Felizmente, ano após ano, entra Círio, sai Círio, nada dá muito errado. Como no nosso Réveillon, a energia geral é positiva, com a diferença de que ninguém vai ao Círio para beber. Cada uma daquelas pessoas está lá movida por um bom sentimento, pedindo alguma coisa, agradecendo uma graça alcançada, vivendo a sua fé.

É um mar de brasileirinhos que ainda não perdeu a esperança.

Puxando a famosa corda vem uma garotada implorando para passar no vestibular, ou agradecendo por ter passado. Aqui e ali se vê alguém trazendo o pequeno modelo de uma casa, um carro, um barco, uma lojinha. Há ex-votos clássicos também: braços, pernas, cabeças. E velas. Muitas velas.

Não sou uma pessoa religiosa. Não me impressiono com multidões. Mas tive vontade de abraçar cada uma daquelas pessoas que seguiam a santa com uma oferenda na cabeça, puxar para o canto e pedir que me contassem a sua história.

O Círio de Nazaré é uma antologia de lutas, trabalho, conquistas, alegrias e sofrimento.

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Fafá, que caiu no caldeirão de poção mágica quando era criancinha, é a grande animadora da festa. Sua varanda é o ponto alto da procissão, o epicentro de um engarrafamento de fiéis que ela dispersa entre uma música e outra: “Vamos andando, gente! A santa tem hora!” Suas canções embalam o cortejo noturno até a passagem do último peregrino e, poucas horas depois, animam o da manhã. Isso sem falar que, na sexta à noite, ela fez show com Teresa Salgueiro, Wagner Tiso e Márcio Mallard até tarde e, já no sábado, aos primeiros raios do sol, foi para o rio, participar da romaria fluvial. Ufa.

Já vi muitos shows da Fafá em teatros e espaços abertos, mas nada que se compare à sua atuação durante o Círio, o encontro perfeito entre uma artista e seu público. Os fiéis adoram Fafá, mas curiosamente não há distância entre eles: o que se percebe nas pessoas que passam encantadas diante da varanda é um misto de intimidade e de orgulho, como se alguém da família tivesse ido para o mundo e voltado em triunfo. E, no fundo, é disso mesmo que se trata.

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Sinal dos tempos: foi desenvolvido pela organização da festa um ótimo aplicativo sobre o Círio de Nazaré, que contemplou todas as plataformas de smartphones. Traz informações úteis, telefones de emergência, notícias, a história do Círio, orações e músicas. Seu ponto alto, porém, foi a localização da santa em tempo real, durante o trajeto, feita por GPS, através de um módulo chamado “KD a berlinda?”. Berlinda, fiquei sabendo, é aquela caixa de vidro na qual se transportam as imagens religiosas.

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Quanto mais a gente viaja por aí, mais se aflige com o que espera os incautos turistas que vêm à Copa. No aeroporto de Belém um ímã de geladeira dos mais feios sai a R$ 13. Não sei a quanto saem os bonitos porque não se encontram. Uma camiseta básica custa R$ 60.

O Pará tem um dos artesanatos mais ricos do Brasil. Tem cerâmica marajoara, que quando é bonita é muito bonita, tem cuias pintadas, tem palha, tem brinquedos encantadores feitos de miriti, tem bijuterias de sementes e penas coloridas, tem esculturas de madeira e o que mais se possa imaginar.

Fui a Belém num pé, voltei no outro, e supus que, no aeroporto, poderia encontrar algum desses tesouros. O que as lojas oferecem, porém, é triste, caro e importado. Não havia um só barquinho de miriti à venda.

Aqui no Rio, no Pão de Açúcar, onde por acaso estive no começo da semana, umas bonequinhas de pano de Carmem Miranda custam nada menos do que R$ 180. As lojas nas quais são vendidas, aliás, têm um repertório de lembrancinhas paupérrimo, e uma atitude ainda pior: os turistas não podem fotografar em seu interior, mania antipática que, no resto do mundo, já saiu de moda até nos museus.

Ueba! Biografia da Lassie pode? - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 17/10

Daqui a pouco, vai ter manifestação de biógrafos! Na Cinelândia! Black biógrafos! Rarará!


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Polêmica! Vou lançar a biografia não autorizada do Maluf: "Minha Vida é uma Esfirra Aberta". Vai ser um romance policial. Rarará!

Mas como disse um cara no Twitter: "Biografa, mas não mata". Subtítulos sugeridos: "Não tenho conta no exterior" ou "Minha vida foi uma roubada". Rarará!

O Maluf escreveu mesmo uma biografia chamada "Ele". E os advogados de defesa sugeriram mudar o nome pra "Não Foi Ele!". Rarará! E vou lançar a biografia autorizada do Sarney: "Moribundo de Fogo!". Rarará! E vou vender pro cinema: "Duro de Matar 5".

Aliás, aquele livro do Sarney "Dono do Mar" devia se chamar "Dono do Mar...anhão". Rarará! E eu vou escrever a biografia do Bial chamada: "OI, BIAL". Porque brasileiro já nasce falando "Oi, Bial". O Bial inventou um novo tipo de biografia: a BIALGRAFIA do doutor Marinho!

E vou lançar a biografia do Edir Macedo intitulada: "EDÍRZIMO". Edírzimo Macedo! E vou lançar a biografia do Kid Bengala: "O Gigante Acordou". E entrar pra ABL com o apoio da Ana Maria Braga e Louro José! E eu já disse que duas coisas nunca deram certo: humor a favor e biografia autorizada.

E a manchete do Piauí Herald: "PM carioca reprime biógrafos com truculência". Daqui a pouco, vai ter manifestação de biógrafos! Na Cinelândia! Black biógrafos! Rarará! E acaba de sair uma nova versão do hit do Roberto Carlos: "O cara que censura toda hora/ qualquer livro da Jovem Guarda/ esse cara sou eu". Rarará!

E eu não gosto de biografia chapa-branca. Gosto de biografia chapa quente: com sexo, sangue e Doritos com Coca-Cola. Daquelas bem podres! E a Saraiva botou a biografia de Freud na seção de autoajuda! Rarará! É mole? É mole, mas sobe!

E eu não gosto de polêmica. Quem gosta de polêmica é o Nelson Rubens! Polêmica virou pauta do "TV Fama"! Já reparou nas manchetes do "TV Fama"? Todas começam com "POLÊMICA". Tipo: "Polêmica! Cantor sertanejo do Camaro Amarelo' diz que Miss Bumbum tem celulite". "Polêmica: Doutor Hollywood quer passar dois anos trabalhando no SUS de Rodeo Drive". Rarará!

E biografia da Lassie pode? Pode! Contanto que não chame ela de cachorra! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

MÃO NA MASSA - MONICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 17/10

O Fundo de Previdência dos funcionários do Judiciário foi formalizado nesta semana. Com R$ 26 milhões antecipados pelo Tesouro Nacional, ele já pode começar a funcionar. Um headhunter (caça-talentos) roda o país em busca de um executivo que possa tocar a empreitada.

MÃO 2
O fundo deve ser um dos maiores do país, com a adesão de funcionários de todos os tribunais superiores --entre eles, STF (Supremo Tribunal Federal), STJ (Superior Tribunal de Justiça), TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e TST (Tribunal Superior do Trabalho).

DAS ARÁBIAS
São Paulo vai abrigar o Museu da Língua e da Cultura Árabe, a primeira instituição do gênero no mundo. O diretor será o professor Paulo Daniel Farah, da USP, que foi curador da exposição "Islã", em 2010. "A Secretaria Municipal de Cultura ofereceu alguns espaços no centro e no Ipiranga para a futura sede do museu a ser inaugurado em 2014", diz Farah, que está visitando os locais para definir a sede.

DAS ARÁBIAS 2
A ideia é abrir um espaço para interessados na cultura árabe, entre eles os 16 milhões de descendentes que vivem hoje no Brasil.

MAIS RENDA
O aumento médio de renda dos alunos formados pelo programa ViraVida, que capacita jovens que passaram por exploração sexual, foi de R$ 183,55. Uma elevação de cerca de 45%, tão logo eles são inseridos no mercado de trabalho. De cada R$ 1 a mais de renda, R$ 0,40 vão compor o orçamento familiar.

MAIS RENDA 2
Os dados sobre o programa do Sesi (Serviço Social da Indústria), que já atendeu 3.700 estudantes em 23 cidades, serão apresentados hoje, em Washington, na 27ª Conferência Mundial de Avaliação de Programas, Tecnologias e Profissionais.

NOVELÃO
As fundações Roquete Pinto, Azeredo, Padre Anchieta e Fundac foram desqualificadas do processo de licitação para gerenciamento da TV Alerj, canal da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, sob a justificativa de que não possuem registro no Crea (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia). A única concorrente que atendia a tal requisito é a Digilab, atual administradora do canal.

NOVELÃO 2
Vencedora da nova licitação do canal da assembleia paulista após recorrer à Justiça para ser reabilitada no processo, a Fundac entrou com recurso administrativo contra a decisão no Rio. "Produtoras de TV precisam de engenheiros de telecomunicações, mas não de registro no Crea", afirma o advogado Danilo Mayriques, da fundação paulista. Em nota, a Alerj diz que a procuradoria-geral irá analisar a legalidade dos recursos.

CASO CONTRÁRIO
Ao erguer o caso de Glória Perez como bandeira para justificar a defesa que fazem da restrição à publicação de biografias, artistas como Chico Buarque e Caetano Veloso demonstram desconhecimento do assunto, segundo juristas e advogados ouvidos pela coluna.

CASO CONTRÁRIO 2
Quando a novelista conseguiu impedir a circulação do livro que o assassino de sua filha tentou publicar, na década de 90, o artigo 20 do Código Civil, que restringe as biografias, nem sequer existia. Ele entrou em vigor em 2003.

CALENDÁRIO
Outro caso citado por Chico Buarque ontem, em artigo no jornal "O Globo" --o de que já foi publicada uma biografia de Cabo Anselmo --esbarra na mesma questão. O livro sobre o delator foi lançado em 1999, antes da existência do artigo 20. Hoje, o autor teria dificuldade de publicar a obra sem autorização do personagem.

CALENDÁRIO 2
Também a biografia sobre Garrincha escrita pelo jornalista Ruy Castro foi recolhida em 1995, oito anos antes de o artigo 20 entrar em vigor. "A Constituição sempre garantiu o direito à privacidade e permitiu a discussão em tribunais", diz o advogado Fernando Lottenberg, que atuou em parte do caso Garrincha pela Companhia das Letras.

LENTE
Lottenberg, que é consultor da Companhia das Letras, mas já patrocinou causas contra em nome de personagens atingidos pela publicação de livros, diz que a discussão está desfocada. "A remoção do artigo 20 não é suficiente. É necessária uma regra que resguarde expressamente a livre expressão. A Constituição e outras normas continuariam garantindo o direito à reparação por danos causados e à retificação de informações falsas."

EM DIA
A Associação Procure Saber, da qual Chico e Caetano fazem parte, deve reunir em breve advogados para discutir as questões jurídicas relativas ao tema.

CASAL 
Cláudia Raia e seu namorado, Jarbas Homem de Mello, estreiam "Crazy for You", em 21 de novembro, no teatro do Complexo Ohtake Cultural, em SP; será o primeiro musical de sapateado da Broadway montado no país

NOITE DE ARRECADAÇÃO
Maria Bernadete Marques da Silva, da AACD, recebeu convidados no jantar beneficente promovido pela instituição anteontem, no restaurante Figueira Rubaiyat. A apresentadora Isabella Fiorentino, a relações-públicas Maysa Marques, o consultor da TV Globo Octávio Florisbal e o executivo Clovis Ermirio Scripilliti com a mulher, Marcia, estiveram no evento.

CURTO-CIRCUITO
Claudia Matarazzo autografa hoje o livro "Amor sem Frescura", às 19h, na Livraria Cultura do shopping Iguatemi.

As agências de marketing George P. Jonhson e Mill Publicitá fazem festa hoje para comemorar nova parceria, no hotel Hyatt.

Renata de Almeida abre hoje a 37ª Mostra Internacional de Cinema, às 20h30, no Auditório Ibirapuera.

Sem acordo no Rio - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 17/10

O governo Sérgio Cabral está só ganhando tempo ao pedir que o PT não desembarque de seu governo. O ex-presidente Lula disse, a um velho amigo petista, que está fechado com o senador Lindbergh Farias (PT) e aprecia seu estilo “determinado”. Quanto a Cabral, não acredita que ele se recupere e critica sua atitude “arrogante”. Sobre o vice Luiz Pezão, diz que é um candidato “pesado”.

Estado de espírito
O pouco tempo de propaganda na TV e os parcos recursos para fazer a campanha não assustam o candidato do PSB. O time do governador Eduardo Campos está convencido de que as eleições serão definidas pelo “contexto político e histórico” em que ela for disputada. Lembram que, em 2010, ao fazer 19% dos votos, Marina Silva acabou com os mitos do poder econômico, das alianças e da propaganda na TV. Sua equipe avalia que o mais importante é o candidato surfar na onda de opinião pública que se formar. Os socialistas acreditam que o país está cansado da briga PT x PSDB e quer um candidato que saiba construir a unidade, consensos e que promova a renovação.


“O nosso adversário é o Aécio (Neves). A presidente Dilma já está no segundo turno. Só tem duas vagas. Vamos disputar com quem?”
Roberto Amaral Vice-presidente nacional do PSB

Os padrinhos
Marina Silva apelidou o senador Pedro Simon (PMDB) de “patriarca” e a deputada Luiza Erundina (PSB) de “matriarca” da aliança PSB/Rede. Ontem, na reunião, disse que os dois foram fundamentais para seu ingresso no PSB.

As tarefas
O candidato tucano Aécio Neves vai se dedicar agora às alianças. Com o Solidariedade e o DEM fechados, a tarefa imediata é agarrar o PPS e o PV. Feito isso, diz o deputado Marcus Pestana (MG), na foto, o passo seguinte será tentar obter a neutralidade de partidos da base aliada, como PTB e PP. O objetivo é reduzir o tempo de TV da presidente Dilma.

No escurinho do cinema
Para convidados da presidente Dilma, será exibido na sexta-feira, no Palácio da Alvorada, o filme “O dia que durou 21 anos”, de Camilo Tavares. O documentário trata da efervescência dos anos 60 e dos bastidores do golpe militar.

Me deixa em paz. Não aguento mais
Ao final de reunião no Palácio do Jaburu, na noite de terça-feira, o vice Michel Temer estava irritado com a cúpula do PMDB no Senado. “Ela só falou em cargo, cargo, cargo. Os senadores querem a garantia da nomeação de Vital do Rêgo para a Integração”, explicou um deputado. Os senadores querem que Temer marque uma audiência com a presidente Dilma para colocá-la contra a parede.

Uns são mais iguais que outros
O deputado Newton Cardoso (PMDB-MG), na audiência com o presidente da Anac, Marcelo Guaranys, defendeu “tratamento diferenciado” para parlamentares nos aeroportos. Disse se sentir “desrespeitado” ao ser revistado.

Iniciativa pelo social
O novo presidente do Conselho Nacional de Secretários de Transportes, Júlio Lopes (RJ), vai deflagrar movimento para que o governo Dilma dê subsídios para a adoção do Bilhete Único em todas as regiões metropolitanas do país.

LIBRA. 
A presidente Dilma não vai ao primeiro leilão do pré-sal e do regime de partilha. Ministra de Minas e Energia, também não ia nesses eventos.