O Estado de S.Paulo - 10/10
O impressionante nas entrevistas sobre os 25 anos da Constituição de 1988 é que ninguém sabe direito o que ela assegura. Na empolgação da época, a nova Carta serviria para resgatar a "dívida social" acumulada ao longo de vários anos. Mas mexeu em tanta coisa que é difícil fazer uma síntese das principais mudanças.
Trabalhei em vários governos no auge de sua implementação e percebi a dificuldade futura para cumprir todas as promessas ali embutidas. Preocupava-me, principalmente, a instalação do Estado de Bem-Estar Social, a meu ver sua marca principal. Mesmo sendo um país pobre relativamente à média do mundo ocidental, o Brasil resolveu adotar uma rede de proteção comparável às vigentes nas principais democracias.
O resultado é que hoje a União paga benefícios assistenciais e previdenciários a 50 milhões de pessoas, comprometendo 60% do Orçamento. E deve atender, com transferência de dinheiro financiada por impostos, mais da metade da população, se admitirmos que cada contracheque beneficia duas pessoas. Um exagero para um país no estágio do nosso, pois os programas assistenciais nem sempre contemplam os efetivamente mais pobres.
Ainda somos uma economia de renda média, e, mesmo com uma população relativamente jovem, o porcentual de idosos cresce a uma velocidade avassaladora. Em parceria com analistas amigos, estimei que o gasto real total com benefícios previdenciários e assistenciais deve simplesmente dobrar nos próximos 40 anos. Como vamos dar conta de pagar tudo isso? Uma agravante: boa parte desses benefícios paga um salário mínimo, obra da Constituição de 1988. Uma vez que atualmente ele é reajustado pela inflação mais o crescimento do PIB, a conta implícita é explosiva.
Outro grande obstáculo é a exigência constitucional de o serviço público empregar exclusivamente por meio do regime estatutário, responsável por estabilidade no emprego e aposentadoria integral. Primeiro, porque, em muitas atividades, a existência de um regime de pessoal mais flexível é fundamental para assegurar serviços de qualidade mínima. Segundo, porque cria um grupo privilegiado de trabalhadores, admissível apenas em casos muito especiais.
Para financiar todos os aumentos de gastos, a carga tributária subiu assustadoramente nos últimos anos, situando-se hoje perto de 40% do PIB, acima da média de qualquer grupo de países onde se costumam aglutinar as estatísticas macroeconômicas. A carga atual sufoca a população e impede o Brasil de ter um desempenho econômico comparável à média dos países emergentes.
Restam ainda mais duas limitações cabeludas a merecer consideração. Uma é a forte contração dos investimentos públicos nas últimas décadas, legando aos brasileiros uma das piores infraestruturas do mundo. Outra é a ineficácia do investimento feito, pois, mesmo nas áreas contempladas com maior volume de recursos públicos - educação, por exemplo -, os indicadores de desempenho se situam abaixo da média de países comparáveis ao nosso em termos de renda per capita.
O capítulo final desses constrangimentos é o viés estatista predominante em muitas administrações do País. Sabe-se que o Estado é ineficiente, ou seja, ao atuar, corrói recursos da sociedade e dispõe de cada vez menor volume de dinheiro para investir. Ainda assim, os governos insistem em impor ao setor privado a prestação de serviços de qualidade a preço de banana nas várias áreas em que o Tesouro não tem condições de atuar.
A proximidade das eleições de 2014 traz óbvias limitações a uma discussão profunda do tema e ao alinhamento de reformas destinadas a evitar uma grande crise no futuro. Espero, no entanto, que o alerta das manifestações de junho e a mexida no tabuleiro político ocorrida no fim de semana proporcionem uma oportunidade de discussão mais profícua dos grandes temas nacionais. São perspectivas que trazem novo alento à sociedade brasileira.
quinta-feira, outubro 10, 2013
Entre o mercado e o social - CARLOS ALBERTO SARDENBERG
O GLOBO - 10/10
Lula e Dilma inventaram os truques para aumentar o gasto público e a dívida total. O resultado aparece na inflação mais alta, no baixo crescimento, na falta de investimentos, no Custo Brasil recorde, e na situação delicada de estatais
Ouvi Eduardo Campos falar para empresários e investidores de São Paulo — e o pessoal gostou muito do que o governador contou sobre sua administração em Pernambuco e sobre sua visão de Brasil. Não estavam no grupo aqueles nomes tradicionais, tipo chapa-branca, que, no fundo da alma, não gostam do PT, mas, do fundo do bolso, desgostam mais ainda de brigar com o governo. E acham que sempre se pode arrumar negócio bom mesmo numa administração ruim e/ou hostil ao capital privado.
Estavam no grupo pessoas de dinheiro, é claro, preocupadas, por exemplo, com o imposto sobre grandes fortunas. Aliás, perguntaram ao governador e adoraram a resposta. Campos disse: há impostos demais no Brasil; é preciso reduzi-los e torná-los mais progressivos; ricos devem pagar mais, mas não se pode esfolar o investidor e a empresa; e, finalmente, que o imposto sobre grandes fortunas é tecnicamente ruim, arrecada pouco e cria muita desconfiança. Ou seja, muito barulho ideológico para pouco dinheiro.
Perguntaram também sobre o chavismo e os bolivarianos. Campos aproveitou bem a deixa para mostrar seu lado “gauche”. Atacou ferozmente as velhas oligarquias venezuelanas (e, por tabela, as latino-americanas) que enriqueceram à custa de privilégios e verdadeiros assaltos ao Estado. Esse contraste entre uma elite muito rica e um povo muito pobre deu origem a Chávez e seus seguidores. Trata-se de um caminho equivocado, um atraso contra outro atraso, disse Campos, mas a forma de escapar disso é um regime moderno, democrático, capitalista e social.
Me lembrei de Tony Blair. Ou Bill Clinton. No Velho Continente, existia (ainda existe) uma esquerda socialista, estatizante, que se opunha à direita liberal tipo Thatcher. Blair inventou aí a Terceira Via: economia de mercado, ambiente de negócios amigável ao empreendedor, liberdade financeira, com forte investimento estatal nas áreas sociais, sobretudo saúde e educação. Mas, atenção: o setor público deve seguir as regras de eficiência do privado, com metas e meritocracia.
Campos encantou aquela plateia quando falou de sua gestão nas escolas de Pernambuco — diretores, professores e alunos premiados por bom desempenho, medido e avaliado regularmente — e nos hospitais, vários entregues à gestão privada.
Nos EUA, Clinton claramente colocou-se entre Ronald Reagan, seu antecessor, e a esquerda do seu Partido Democrata, esta representada por seu vice, Al Gore, e agressivamente contra o que chamava (e chama) debig money e suas variações (big oil, big pharma etc.).
FHC e Lula, o do primeiro mandato, ajudaram a formar essa Terceira Via por aqui, ainda que em condições bem diferentes. Nunca tivemos nossa Thatcher (ou nosso Reagan), de modo que FHC, um social democrata europeu, teve que tocar boa parte da agenda liberal para conquistar a estabilidade macroeconômica (metas de inflação, abertura comercial, câmbio flutuante, privatizações, responsabilidade fiscal). Começou também os programas sociais — Bolsa Escola, por exemplo, e o aumento real do salário mínimo —, seu lado esquerdo. Mas perdeu o ímpeto reformista no segundo mandato.
Lula, de origem, digamos, mais socialista, foi obrigado a manter a base da estabilidade e, ainda, sob influência de Palocci, avançou nas reformas microeconômicas, especialmente nas leis e regras que garantiram a concessão e ampliação do crédito. E mais o Bolsa Família e os aumentos do salário mínimo.
No segundo mandato e depois da crise de 2008/09, Lula começou a estragar tudo, tarefa seguida por Dilma Rousseff. Inventaram os truques para aumentar o gasto público e a dívida total, sem o confessar, e expandiram a intervenção estatal — da regulação e controle cada vez maior do setor privado ao avanço forçado das estatais, incluindo bancos, e à tentativa de aceleração de grandes obras. Sem contar o ambiente de incerteza criado por decisões do governo e dos tribunais que a todo momento criam novas obrigações e custos aos negócios. Cabe aqui a mão pesada do Fisco na interpretação e criação de regras que geram impostos e multas bilionários, numa ação ao mesmo tempo hostil ao grande capital e com o objetivo de gerar receita perdida com os subsídios aos setores privilegiados.
O resultado aparece na inflação mais alta, no baixo crescimento, na falta de investimentos (pela desconfiança do setor privado e ineficiência do setor público), no Custo Brasil recorde, na situação delicada de estatais como a Petrobras e as elétricas.
É curioso: quando se apresenta como terceira via entre PT e PSDB, Campos, na verdade, parece querer recuperar os lados positivos de FHC e Lula e mais a agenda de reformas que ficou pelo caminho. Como? Com Marina?
Voltaremos.
Lula e Dilma inventaram os truques para aumentar o gasto público e a dívida total. O resultado aparece na inflação mais alta, no baixo crescimento, na falta de investimentos, no Custo Brasil recorde, e na situação delicada de estatais
Ouvi Eduardo Campos falar para empresários e investidores de São Paulo — e o pessoal gostou muito do que o governador contou sobre sua administração em Pernambuco e sobre sua visão de Brasil. Não estavam no grupo aqueles nomes tradicionais, tipo chapa-branca, que, no fundo da alma, não gostam do PT, mas, do fundo do bolso, desgostam mais ainda de brigar com o governo. E acham que sempre se pode arrumar negócio bom mesmo numa administração ruim e/ou hostil ao capital privado.
Estavam no grupo pessoas de dinheiro, é claro, preocupadas, por exemplo, com o imposto sobre grandes fortunas. Aliás, perguntaram ao governador e adoraram a resposta. Campos disse: há impostos demais no Brasil; é preciso reduzi-los e torná-los mais progressivos; ricos devem pagar mais, mas não se pode esfolar o investidor e a empresa; e, finalmente, que o imposto sobre grandes fortunas é tecnicamente ruim, arrecada pouco e cria muita desconfiança. Ou seja, muito barulho ideológico para pouco dinheiro.
Perguntaram também sobre o chavismo e os bolivarianos. Campos aproveitou bem a deixa para mostrar seu lado “gauche”. Atacou ferozmente as velhas oligarquias venezuelanas (e, por tabela, as latino-americanas) que enriqueceram à custa de privilégios e verdadeiros assaltos ao Estado. Esse contraste entre uma elite muito rica e um povo muito pobre deu origem a Chávez e seus seguidores. Trata-se de um caminho equivocado, um atraso contra outro atraso, disse Campos, mas a forma de escapar disso é um regime moderno, democrático, capitalista e social.
Me lembrei de Tony Blair. Ou Bill Clinton. No Velho Continente, existia (ainda existe) uma esquerda socialista, estatizante, que se opunha à direita liberal tipo Thatcher. Blair inventou aí a Terceira Via: economia de mercado, ambiente de negócios amigável ao empreendedor, liberdade financeira, com forte investimento estatal nas áreas sociais, sobretudo saúde e educação. Mas, atenção: o setor público deve seguir as regras de eficiência do privado, com metas e meritocracia.
Campos encantou aquela plateia quando falou de sua gestão nas escolas de Pernambuco — diretores, professores e alunos premiados por bom desempenho, medido e avaliado regularmente — e nos hospitais, vários entregues à gestão privada.
Nos EUA, Clinton claramente colocou-se entre Ronald Reagan, seu antecessor, e a esquerda do seu Partido Democrata, esta representada por seu vice, Al Gore, e agressivamente contra o que chamava (e chama) debig money e suas variações (big oil, big pharma etc.).
FHC e Lula, o do primeiro mandato, ajudaram a formar essa Terceira Via por aqui, ainda que em condições bem diferentes. Nunca tivemos nossa Thatcher (ou nosso Reagan), de modo que FHC, um social democrata europeu, teve que tocar boa parte da agenda liberal para conquistar a estabilidade macroeconômica (metas de inflação, abertura comercial, câmbio flutuante, privatizações, responsabilidade fiscal). Começou também os programas sociais — Bolsa Escola, por exemplo, e o aumento real do salário mínimo —, seu lado esquerdo. Mas perdeu o ímpeto reformista no segundo mandato.
Lula, de origem, digamos, mais socialista, foi obrigado a manter a base da estabilidade e, ainda, sob influência de Palocci, avançou nas reformas microeconômicas, especialmente nas leis e regras que garantiram a concessão e ampliação do crédito. E mais o Bolsa Família e os aumentos do salário mínimo.
No segundo mandato e depois da crise de 2008/09, Lula começou a estragar tudo, tarefa seguida por Dilma Rousseff. Inventaram os truques para aumentar o gasto público e a dívida total, sem o confessar, e expandiram a intervenção estatal — da regulação e controle cada vez maior do setor privado ao avanço forçado das estatais, incluindo bancos, e à tentativa de aceleração de grandes obras. Sem contar o ambiente de incerteza criado por decisões do governo e dos tribunais que a todo momento criam novas obrigações e custos aos negócios. Cabe aqui a mão pesada do Fisco na interpretação e criação de regras que geram impostos e multas bilionários, numa ação ao mesmo tempo hostil ao grande capital e com o objetivo de gerar receita perdida com os subsídios aos setores privilegiados.
O resultado aparece na inflação mais alta, no baixo crescimento, na falta de investimentos (pela desconfiança do setor privado e ineficiência do setor público), no Custo Brasil recorde, na situação delicada de estatais como a Petrobras e as elétricas.
É curioso: quando se apresenta como terceira via entre PT e PSDB, Campos, na verdade, parece querer recuperar os lados positivos de FHC e Lula e mais a agenda de reformas que ficou pelo caminho. Como? Com Marina?
Voltaremos.
Historinha de uma agonia - VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 10/10
'Nova política econômica' murchou; precisamos de crise para nos mexermos?
A ÚLTIMA MUDANÇA relevante na política econômica ocorreu em 2008-09. Foi quando Lula pegou o bonde mundial das intervenções estatais contra a crise medonha que estourou em 2008, o que deu no desenvolvimentismo acidental dos anos recentes.
Os "experimentos" econômicos mundiais legitimaram medidas excepcionais anticrise que, enfim, se tornaram um programa de intervenções estatais mal-ajambradas, um desenvolvimentismo improvisado, acidental.
Vieram o financiamento estatal da criação de oligopólios e megaempresas privados, a estatização do crédito bancário e métodos inusuais de administração da moeda e do crédito (política monetária).
Mais tarde, Dilma Rousseff aumentaria a dose e a mistura dessa vitamina. Gastou mais, tentou controles mais ou menos indiretos de preços, "política de rendas", "gerenciamento" do investimento privado (via tapas e beijos) e outras expansões estatais (como no pré-sal).
O fiasco da tentativa de colocar a economia em marchinha forçada não produziu nem estrépito, nem crise, nem nada. Embora genuinamente espantado com o fiasco, o governo apenas começou a mudar de assunto.
Não trata mais de lucro e juro alto de banco. De inventar empresas "campeãs nacionais", as "múltis brasileiras". De turbinar bancos públicos por meio de endividamento público. De estropiar ainda mais as contas públicas. De enfiar estatais em concessões malfeitas ao setor privado, embora nesse caso o cachimbo ainda tenha deixado a boca bem torta.
Provavelmente, o governo jogou a toalha devido ao efeito pífio dos anabolizantes fiscais e de crédito, ao descrédito doméstico e externo da sua política e, enfim, à falta de meios para continuar na mesma toada.
O governo não tem como gastar muito mais sem risco de crise. A inflação ficou em torno de 6% e caiu na boca do povo. O deficit externo se aproxima do número mítico de 4% do PIB. Haverá menos capital barato no mundo. Acabou o gás.
Mas não há "crise", tumulto. O desemprego é baixo, a renda sobe, não estamos perto de colapso fiscal (governo sem crédito) ou externo (sem dólares). Um observador com pouca paciência poderia dizer que ainda podemos fazer besteira por algum tempo antes de nos metermos em convulsão.
O que vai nos tirar da modorra? Em geral, crises fazem o serviço. Porém, mesmo uma crise horrível, como a hiperinflação de 1981-94 num país mais desigual e que empobrecia, foi empurrada com a barriga. Isto é, com planos econômicos milagreiros, com a morfina da correção monetária e com esperanças de mudança imediata derivada da política (democratização, Constituição).
A crise financeira mundial de 1997-98, mais os desequilíbrios do real, produziu alguma mudança econômica sob FHC (desvalorização de 1999, metas de inflação e maior controle fiscal). As crises do apagão e de 2001, mais o medo de Lula, levaram ao colapso de 2002-03, que colocou o governo no trilho "ortodoxo" (em termos) de 2003-07. Como se escreveu acima, a crise de 2008 abriu a porteira para o desenvolvimentismo acidental.
Vamos precisar de outra crise a fim de nos mexermos?
'Nova política econômica' murchou; precisamos de crise para nos mexermos?
A ÚLTIMA MUDANÇA relevante na política econômica ocorreu em 2008-09. Foi quando Lula pegou o bonde mundial das intervenções estatais contra a crise medonha que estourou em 2008, o que deu no desenvolvimentismo acidental dos anos recentes.
Os "experimentos" econômicos mundiais legitimaram medidas excepcionais anticrise que, enfim, se tornaram um programa de intervenções estatais mal-ajambradas, um desenvolvimentismo improvisado, acidental.
Vieram o financiamento estatal da criação de oligopólios e megaempresas privados, a estatização do crédito bancário e métodos inusuais de administração da moeda e do crédito (política monetária).
Mais tarde, Dilma Rousseff aumentaria a dose e a mistura dessa vitamina. Gastou mais, tentou controles mais ou menos indiretos de preços, "política de rendas", "gerenciamento" do investimento privado (via tapas e beijos) e outras expansões estatais (como no pré-sal).
O fiasco da tentativa de colocar a economia em marchinha forçada não produziu nem estrépito, nem crise, nem nada. Embora genuinamente espantado com o fiasco, o governo apenas começou a mudar de assunto.
Não trata mais de lucro e juro alto de banco. De inventar empresas "campeãs nacionais", as "múltis brasileiras". De turbinar bancos públicos por meio de endividamento público. De estropiar ainda mais as contas públicas. De enfiar estatais em concessões malfeitas ao setor privado, embora nesse caso o cachimbo ainda tenha deixado a boca bem torta.
Provavelmente, o governo jogou a toalha devido ao efeito pífio dos anabolizantes fiscais e de crédito, ao descrédito doméstico e externo da sua política e, enfim, à falta de meios para continuar na mesma toada.
O governo não tem como gastar muito mais sem risco de crise. A inflação ficou em torno de 6% e caiu na boca do povo. O deficit externo se aproxima do número mítico de 4% do PIB. Haverá menos capital barato no mundo. Acabou o gás.
Mas não há "crise", tumulto. O desemprego é baixo, a renda sobe, não estamos perto de colapso fiscal (governo sem crédito) ou externo (sem dólares). Um observador com pouca paciência poderia dizer que ainda podemos fazer besteira por algum tempo antes de nos metermos em convulsão.
O que vai nos tirar da modorra? Em geral, crises fazem o serviço. Porém, mesmo uma crise horrível, como a hiperinflação de 1981-94 num país mais desigual e que empobrecia, foi empurrada com a barriga. Isto é, com planos econômicos milagreiros, com a morfina da correção monetária e com esperanças de mudança imediata derivada da política (democratização, Constituição).
A crise financeira mundial de 1997-98, mais os desequilíbrios do real, produziu alguma mudança econômica sob FHC (desvalorização de 1999, metas de inflação e maior controle fiscal). As crises do apagão e de 2001, mais o medo de Lula, levaram ao colapso de 2002-03, que colocou o governo no trilho "ortodoxo" (em termos) de 2003-07. Como se escreveu acima, a crise de 2008 abriu a porteira para o desenvolvimentismo acidental.
Vamos precisar de outra crise a fim de nos mexermos?
Não é pelos 20 centavos - ENIO ROBERTO DOS REIS
ZERO HORA - 10/10
Demagogia não compra ônibus nem remunera mão de obra. Nós temos muitas perguntas
Este foi um ano atípico. De grandes manifestações como há muito não se via. Diferente do que alguns podem pensar, a mobilização social no país foi positiva para as empresas de transporte coletivo. Foi a partir dela que passou a ser atraente, aos olhos do poder público, a ideia de priorizar uma política para o setor. Nunca se falou tanto em desoneração de impostos para ônibus e outros meios de massa. As manifestações alavancaram a discussão. E isso era o que precisávamos há muito tempo. Que reconhecessem a importância do serviço que prestamos e que debatessem medidas de incentivo.
Mas, durante o percurso, avaliações desastrosamente repetidas desencadearam problemas que até o momento não têm solução. Muito se falou que não era pelos 20 centavos. Nós também endossamos o coro. Não é pelos 20 centavos _ ou 26, mais precisamente, que é o que falta hoje para um valor que comporte os custos. É, sim, pelo que representa essa diferença na prestação do nosso trabalho. É pela quantidade de indefinições que temos e respostas que não recebemos.
Dentro de três meses, se iniciarão as negociações de dissídio que atingem os mais de 9 mil funcionários das 13 empresas de ônibus de Porto Alegre. Como faremos uma boa proposta se não temos indicativos do que está por vir? Não sabemos se a tarifa será reajustada, se teremos algum subsídio ou se as isenções serão revistas. Até que ponto será possível impedir uma mobilização provocada pela desmotivação e insegurança que experimentamos? Não temos a resposta.
Até agora não sabemos qual método será utilizado para calcular a tarifa. Ninguém sabe. Será a metodologia que diz a lei, baseada em estudos e aplicada com convicção durante anos, ou será a que alguém inventar? Não temos sinalização do poder público sobre questionamentos do edital de licitação, nem a certeza sobre a implantação do metrô ou sobre o início da operação do BRT. Não sabemos quando poderemos renovar veículos. Somente neste ano, deixamos de comprar 200 novos ônibus; no ano que vem, serão mais 200 que não vamos adquirir. E assim caminhamos para um sucateamento da frota difícil de ser revertido.
Como vamos investir, ou como vão investir potenciais interessados no sistema de Porto Alegre, sem que as regras estejam claras? Não cabe usar demagogia nesse quesito. Demagogia não compra ônibus nem remunera mão de obra. Nós temos muitas perguntas. Quem tem as respostas?
Demagogia não compra ônibus nem remunera mão de obra. Nós temos muitas perguntas
Este foi um ano atípico. De grandes manifestações como há muito não se via. Diferente do que alguns podem pensar, a mobilização social no país foi positiva para as empresas de transporte coletivo. Foi a partir dela que passou a ser atraente, aos olhos do poder público, a ideia de priorizar uma política para o setor. Nunca se falou tanto em desoneração de impostos para ônibus e outros meios de massa. As manifestações alavancaram a discussão. E isso era o que precisávamos há muito tempo. Que reconhecessem a importância do serviço que prestamos e que debatessem medidas de incentivo.
Mas, durante o percurso, avaliações desastrosamente repetidas desencadearam problemas que até o momento não têm solução. Muito se falou que não era pelos 20 centavos. Nós também endossamos o coro. Não é pelos 20 centavos _ ou 26, mais precisamente, que é o que falta hoje para um valor que comporte os custos. É, sim, pelo que representa essa diferença na prestação do nosso trabalho. É pela quantidade de indefinições que temos e respostas que não recebemos.
Dentro de três meses, se iniciarão as negociações de dissídio que atingem os mais de 9 mil funcionários das 13 empresas de ônibus de Porto Alegre. Como faremos uma boa proposta se não temos indicativos do que está por vir? Não sabemos se a tarifa será reajustada, se teremos algum subsídio ou se as isenções serão revistas. Até que ponto será possível impedir uma mobilização provocada pela desmotivação e insegurança que experimentamos? Não temos a resposta.
Até agora não sabemos qual método será utilizado para calcular a tarifa. Ninguém sabe. Será a metodologia que diz a lei, baseada em estudos e aplicada com convicção durante anos, ou será a que alguém inventar? Não temos sinalização do poder público sobre questionamentos do edital de licitação, nem a certeza sobre a implantação do metrô ou sobre o início da operação do BRT. Não sabemos quando poderemos renovar veículos. Somente neste ano, deixamos de comprar 200 novos ônibus; no ano que vem, serão mais 200 que não vamos adquirir. E assim caminhamos para um sucateamento da frota difícil de ser revertido.
Como vamos investir, ou como vão investir potenciais interessados no sistema de Porto Alegre, sem que as regras estejam claras? Não cabe usar demagogia nesse quesito. Demagogia não compra ônibus nem remunera mão de obra. Nós temos muitas perguntas. Quem tem as respostas?
Alívio temporário - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 10/10
Como era previsto, em setembro a inflação em 12 meses medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) caiu para nível inferior aos 6,0% ou, mais precisamente, para 5,86%. O resultado não deixa de passar certa sensação de alívio. Tudo indica que o ano fechará com um avanço do custo de vida mais ou menos nessas proporções. Mas não dá para garantir que a desaceleração será duradoura.
O ponto positivo é que, apesar da esticada nos preços do pão, não se confirmou nova onda altista na área dos alimentos, em geral a maior fonte de pressão sobre o orçamento do consumidor médio.
No entanto, a inflação continua espalhada e resistente. O índice de difusão, que é o número de itens da cesta de consumo com aumento de preços, ainda é relativamente alto (57,8%), o que sugere uma demanda acentuada causada por um volume excessivo de moeda no mercado. Para a mesma direção aponta a inflação dos serviços, que atingiu 0,64% em setembro e 8,73% em 12 meses. São preços que não sofrem a concorrência do produto importado. Essas são as principais razões pelas quais o Banco Central continua puxando para cima os juros básicos (Selic).
Em médio prazo, os preços continuam pressionados pelo menos por dois fatores: (1) pela excessiva despesa do setor público, que tende a acentuar-se à medida que esquentar a temporada eleitoral; e (2) pelo aperto do mercado de trabalho em situação de pleno emprego, que continua puxando os salários acima dos ganhos de produtividade. A temporada das vendas de final de ano, que demanda mais emprego de mão de obra temporária, deverá acentuar a escassez de pessoal, especialmente no comércio.
Também é preciso levar em conta que certos preços controlados pelo governo continuam fortemente represados, como é notório na área dos combustíveis. Os preços monitorados tiveram um avanço acumulado em 12 meses de apenas 1,13%, muito abaixo da inflação. Mais cedo ou mais tarde, o governo terá de admitir correções que se propagarão por outros segmentos da economia, especialmente sobre os transportes. Não se pode desprezar, também, o risco de novo avanço sazonal nos preços dos alimentos. E, no início de 2014, espera-se mais uma paulada nos custos do ensino (mensalidades e material escolar).
Em compensação, espera-se certo alívio nos repasses da alta do dólar para os preços da cesta do consumo. A indicação da economista Janet Yellen para ocupar a presidência do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) deve ajudar a desarmar a principal bomba de efeito retardado que ameaçava a disparada das cotações das moedas estrangeiras também em reais. Sua nomeação para o cargo agora é praticamente certa. Yellen deverá ser cuidadosa na esperada operação de reversão da atual política monetária excessivamente expansionista. Isso significa que a temida volta da turbulência dos mercados em consequência de repentina escassez de dólares poderá ser evitada ou, se não isso, reduzida. Menos mau.
Como era previsto, em setembro a inflação em 12 meses medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) caiu para nível inferior aos 6,0% ou, mais precisamente, para 5,86%. O resultado não deixa de passar certa sensação de alívio. Tudo indica que o ano fechará com um avanço do custo de vida mais ou menos nessas proporções. Mas não dá para garantir que a desaceleração será duradoura.
O ponto positivo é que, apesar da esticada nos preços do pão, não se confirmou nova onda altista na área dos alimentos, em geral a maior fonte de pressão sobre o orçamento do consumidor médio.
No entanto, a inflação continua espalhada e resistente. O índice de difusão, que é o número de itens da cesta de consumo com aumento de preços, ainda é relativamente alto (57,8%), o que sugere uma demanda acentuada causada por um volume excessivo de moeda no mercado. Para a mesma direção aponta a inflação dos serviços, que atingiu 0,64% em setembro e 8,73% em 12 meses. São preços que não sofrem a concorrência do produto importado. Essas são as principais razões pelas quais o Banco Central continua puxando para cima os juros básicos (Selic).
Em médio prazo, os preços continuam pressionados pelo menos por dois fatores: (1) pela excessiva despesa do setor público, que tende a acentuar-se à medida que esquentar a temporada eleitoral; e (2) pelo aperto do mercado de trabalho em situação de pleno emprego, que continua puxando os salários acima dos ganhos de produtividade. A temporada das vendas de final de ano, que demanda mais emprego de mão de obra temporária, deverá acentuar a escassez de pessoal, especialmente no comércio.
Também é preciso levar em conta que certos preços controlados pelo governo continuam fortemente represados, como é notório na área dos combustíveis. Os preços monitorados tiveram um avanço acumulado em 12 meses de apenas 1,13%, muito abaixo da inflação. Mais cedo ou mais tarde, o governo terá de admitir correções que se propagarão por outros segmentos da economia, especialmente sobre os transportes. Não se pode desprezar, também, o risco de novo avanço sazonal nos preços dos alimentos. E, no início de 2014, espera-se mais uma paulada nos custos do ensino (mensalidades e material escolar).
Em compensação, espera-se certo alívio nos repasses da alta do dólar para os preços da cesta do consumo. A indicação da economista Janet Yellen para ocupar a presidência do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) deve ajudar a desarmar a principal bomba de efeito retardado que ameaçava a disparada das cotações das moedas estrangeiras também em reais. Sua nomeação para o cargo agora é praticamente certa. Yellen deverá ser cuidadosa na esperada operação de reversão da atual política monetária excessivamente expansionista. Isso significa que a temida volta da turbulência dos mercados em consequência de repentina escassez de dólares poderá ser evitada ou, se não isso, reduzida. Menos mau.
Um século depois - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 10/10
Foram 100 longos anos até chegar o momento em que houvesse a indicação de uma mulher para presidir o Fed. E o que tem isso? Ora, por que não uma mulher? Janet Yellen tem todas as credenciais de outros postulantes e não tem alguns dos defeitos do que se retirou da disputa quando era o favorito do presidente Barack Obama, o conflituoso Lawrence Summers.
a política o principal problema econômico americano. Por isso, a economista Monica de Bolle acha ociosa a discussão sobre se Yellen é "pomba" ou "falcão"; categorias nas quais os economistas dividem os mais brandos e os mais duros em questões monetárias.
— Não faz mais sentido dizer que com Yellen o ritmo de retirada dos estímulos monetários seria mais lento. Neste momento, essa redução dos estímulos ficou para segundo plano. O mais urgente é evitar os danos econômicos da paralisação do govemo americano. O Congresso pode até encontrar uma solução para evitar a moratória e manter o govemo parado. A interrupção das atividades governamentais afetará os fornecedores diretos e indiretos para a máquina pública elevar essas empresas a demitir, exatamente quando o emprego estava se recuperando — diz Monica de Bolle.
Ela define Janet Yellen como sendo uma "acade-micona" no sentido de ter passado a maior parte da sua vida dentro da academia, como Bernanke, apesar de ter a intensa experiência recente da vice-presidência do Fed:
— Sim, ela será cautelosa na redução dos estímulos monetários, mas deve seguir um plano de voo muito parecido com o do Bernanke. O que precisa ser entendido é que o Banco Central americano tem duplo mandato: emprego e inflação. Atualmente, a inflação não preocupa e o emprego começou a se recuperar, mas de forma frágil. A paralisação do govemo impede até a divulgação do dado do desemprego que já deveria ter sido divulgado.
Ontem foi divulgada a ata da última reunião do Fed, de 16 a 17 de setembro. Eles dizem que foi bem apertada a decisão de adiar a retirada dos estímulos. Hoje, no entanto, o contexto é outro. Houve um agravamento da tensão política. Yellen, ao comentar ontem sua indicação, disse que é preciso fazer mais para fortalecer a recuperação.
O Fed foi criado em dezembro de 1913 e começou a funcionar no final de 1914. Sempre teve presidentes homens. Yellen foi a primeira vice-presidente e agora assumirá a presidência. O fato de ser mulher faz diferença?
— É uma boa sinalização o fato de o Fed ser capitaneado por uma mulher, principalmente porque ela vem com um excelente currículo, que nada fica a dever aos outros postulantes e, neste caso, por que teria que ser alguém do sexo oposto ao nosso? — pergunta Monica.
Ontem, estava reunido o Copom e houve nova alta dos juros. Chega a ser insultuosa a unanimidade masculina naquele grupo. Uma foto publicada neste fim de semana, de uma reunião do Copom, mostrou que nem mesmo no corpo técnico, que se senta atrás dos diretores, há uma única mulher. O Brasil anda para trás. O Comitê já foi mais diverso. Na reunião de ontem, decidiram elevar em 0,5 ponto percentual os juros.
A escolha de Yellen representa continuidade da política monetária, mas, como disse Monica, o fato político é determinante agora:
— Ela vai demorar a subir juros e a retirada dos estímulos será lenta, não pelas características de Yellen, mas pelo grave quadro político formado pelo impasse entre o Partido Democrata e o Partido Republicano em torno da discussão orçamentária.
O mandato de Bernanke vai até 31 de janeiro do ano que vem, mas ele pode sair antes. Yellen assumirá o cargo em um momento difícil da política e da economia americana.
Para romper a inércia do atraso - JOSÉ SERRA
O Estado de S.Paulo - 10/10
Na segunda-feira um homem falou comigo simpaticamente no elevador do prédio onde está meu escritório: "Olhe, desculpe-me a liberdade de lhe perguntar, o senhor nem me conhece, mas o que vai acontecer na disputa eleitoral do ano que vem?". Eu tinha apenas alguns segundos até chegar ao meu andar e sorri: "Francamente, não sei. E se alguém lhe disser que sabe, é porque está por fora, não compreende nada do que está acontecendo".
Uma certeza, no entanto, é possível ter: a diversidade e o tamanho dos problemas que o presidente que vier a ser eleito terá de enfrentar a partir de 2015 para administrar o País e corresponder às expectativas da população. O problema n.º 1 será o desequilíbrio externo da economia, que trava o crescimento com qualidade. O indicador mais sintético é a evolução do déficit em conta corrente do balanço de pagamentos, perto de 4% do PIB este ano - cerca de US$ 75 bilhões. O Brasil, na última década, não utilizou a notável bonança externa - juros internacionais baixíssimos e preços de nossas exportações agrominerais nas nuvens - para investir e fortalecer a competitividade. O modelo lulista transformou os recursos dessa bênção em consumo privado e público, substituindo boa parte da produção doméstica da indústria, que vem regredindo em marcha forçada, perdendo mercado interno e capacidade para exportar.
O desequilíbrio no balanço de pagamentos não vai ser atenuado durante o próximo mandato por algum novo surto de bonança externa: pode não ocorrer um desabamento dos preços das commodities, mas não haverá novo salto para cima. E os juros internacionais vão subir, pois, tudo indica, as economias desenvolvidas vão puxar o crescimento mundial. Assim, o governo terá de enfrentar duas questões difíceis: a desvalorização do real, pressionando a inflação, e os juros reais domésticos elevados, a fim de atrair capitais para fechar as contas externas. As grandes reservas de divisas do Brasil não são panaceia nesse caso. Este ano o Banco Central já vendeu US$ 50 bilhões a câmbio futuro para segurar o valor do real.
O próximo presidente será o herdeiro da falta de uma política de comércio exterior, uma anomalia para uma nação continental e tão dependente do exterior. A ponta do novelo dessa aberração está no Mercosul, um monumental equívoco. Ao eliminar a soberania comercial brasileira, forneceu pretexto à inércia nos acordos bilaterais e à doutrina do dolce far niente do Itamaraty.
A inflação será o terceiro grande problema: não é explosiva, mas, no mundo de hoje, é alta, mesmo sendo reprimida. O novo governo não terá raio de manobra para expandir os atuais preços controlados - haverá pressão para absorvê-los. Até quando os preços de combustíveis e tarifas de transporte podem ser reprimidos? Mais ainda, o próximo presidente terá de lidar com a indexação da economia, ampliada e intensificada no último decênio.
Dominará a agenda uma quarta questão: a da infraestrutura de energia e transportes, hoje em estado crítico em razão da incapacidade das gestões petistas de investir, seja diretamente, seja mediante parcerias com a área privada. Nessa área, o PT não revelou apenas impaciência para aprender. Contaram também a ideologia, a propaganda e a malandragem com dinheiro público. Exemplo eloquente em transportes: o frete de livros brasileiros impressos na China, por navio, é inferior ao custo Rio-São Paulo.
Será preciso também encarar a estreiteza do espaço para manobras fiscais. Não há perspectiva de desastre até 2015, mas cessou o repertório abusivo do último decênio, que permitiu sustentar o consumo governamental, fazer financiamentos públicos sem critérios e, em suma, desperdiçar recursos. Nem mesmo é possível elevar a carga tributária, hoje a maior do mundo em desenvolvimento, expediente principal do combate ao déficit público desde a segunda metade da década de 1990. Essa carga explica três quintos do custo Brasil, que corresponde ao acréscimo de 25% nos preços da produção doméstica na comparação com a média dos nossos parceiros comerciais!
Essa perda do raio de manobra fiscal vai limitar não apenas a gastança em consumo governamental, mas também a chamada "bolsa BNDES" e, mais amplamente, a atuação do Tesouro Nacional como fonte transbordante de crédito da economia. Acrescente-se que o próximo presidente é que terá de arcar com os inevitáveis micos na cobrança dos juros e do principal desses financiamentos.
Um sexto problema, mas não nessa ordem, será o enfrentamento das demandas de saúde, principal item de insatisfação no Brasil de hoje. A demonização da classe médica é só uma cortina de fumaça que esconde os problemas de má gestão e de encolhimento relativo dos gastos do governo federal no setor em relação a Estados e municípios. Com realismo, sem uma recomposição para cima da distribuição das despesas as dificuldades prosseguirão, com ou sem a fantasia dos recursos do pré-sal.
Os nós da educação são ainda mais difíceis de desatar. Apesar do expressivo aumento de despesas públicas, o setor é administrado com mediocridade e controlado pelo corporativismo. Os números da propaganda mal escondem a incapacidade de atrelar a educação à questão do desenvolvimento. Só por isso o setor é considerado estratégico mundo afora. Por enquanto, entende-se a educação só pelo viés de uma suposta justiça social. É evidente que isso faz sentido, mas é só primeiro passo da equação. Há ainda questões prementes como a epidemia de drogas ou a sustentabilidade ambiental, ignoradas pelo petismo.
O fecho da lista de problemas é a necessidade de um novo estilo de governar, que aposente a estridência publicitária e a balcanização do Estado brasileiro. Esse modelo não só não resolve as dificuldades, como cria entraves adicionais. O primeiro passo para romper a inércia do atraso é o reconhecimento de que os problemas existem. E as respostas certamente não podem ser dadas por quem fez dessas dificuldades a razão de sua força.
Na segunda-feira um homem falou comigo simpaticamente no elevador do prédio onde está meu escritório: "Olhe, desculpe-me a liberdade de lhe perguntar, o senhor nem me conhece, mas o que vai acontecer na disputa eleitoral do ano que vem?". Eu tinha apenas alguns segundos até chegar ao meu andar e sorri: "Francamente, não sei. E se alguém lhe disser que sabe, é porque está por fora, não compreende nada do que está acontecendo".
Uma certeza, no entanto, é possível ter: a diversidade e o tamanho dos problemas que o presidente que vier a ser eleito terá de enfrentar a partir de 2015 para administrar o País e corresponder às expectativas da população. O problema n.º 1 será o desequilíbrio externo da economia, que trava o crescimento com qualidade. O indicador mais sintético é a evolução do déficit em conta corrente do balanço de pagamentos, perto de 4% do PIB este ano - cerca de US$ 75 bilhões. O Brasil, na última década, não utilizou a notável bonança externa - juros internacionais baixíssimos e preços de nossas exportações agrominerais nas nuvens - para investir e fortalecer a competitividade. O modelo lulista transformou os recursos dessa bênção em consumo privado e público, substituindo boa parte da produção doméstica da indústria, que vem regredindo em marcha forçada, perdendo mercado interno e capacidade para exportar.
O desequilíbrio no balanço de pagamentos não vai ser atenuado durante o próximo mandato por algum novo surto de bonança externa: pode não ocorrer um desabamento dos preços das commodities, mas não haverá novo salto para cima. E os juros internacionais vão subir, pois, tudo indica, as economias desenvolvidas vão puxar o crescimento mundial. Assim, o governo terá de enfrentar duas questões difíceis: a desvalorização do real, pressionando a inflação, e os juros reais domésticos elevados, a fim de atrair capitais para fechar as contas externas. As grandes reservas de divisas do Brasil não são panaceia nesse caso. Este ano o Banco Central já vendeu US$ 50 bilhões a câmbio futuro para segurar o valor do real.
O próximo presidente será o herdeiro da falta de uma política de comércio exterior, uma anomalia para uma nação continental e tão dependente do exterior. A ponta do novelo dessa aberração está no Mercosul, um monumental equívoco. Ao eliminar a soberania comercial brasileira, forneceu pretexto à inércia nos acordos bilaterais e à doutrina do dolce far niente do Itamaraty.
A inflação será o terceiro grande problema: não é explosiva, mas, no mundo de hoje, é alta, mesmo sendo reprimida. O novo governo não terá raio de manobra para expandir os atuais preços controlados - haverá pressão para absorvê-los. Até quando os preços de combustíveis e tarifas de transporte podem ser reprimidos? Mais ainda, o próximo presidente terá de lidar com a indexação da economia, ampliada e intensificada no último decênio.
Dominará a agenda uma quarta questão: a da infraestrutura de energia e transportes, hoje em estado crítico em razão da incapacidade das gestões petistas de investir, seja diretamente, seja mediante parcerias com a área privada. Nessa área, o PT não revelou apenas impaciência para aprender. Contaram também a ideologia, a propaganda e a malandragem com dinheiro público. Exemplo eloquente em transportes: o frete de livros brasileiros impressos na China, por navio, é inferior ao custo Rio-São Paulo.
Será preciso também encarar a estreiteza do espaço para manobras fiscais. Não há perspectiva de desastre até 2015, mas cessou o repertório abusivo do último decênio, que permitiu sustentar o consumo governamental, fazer financiamentos públicos sem critérios e, em suma, desperdiçar recursos. Nem mesmo é possível elevar a carga tributária, hoje a maior do mundo em desenvolvimento, expediente principal do combate ao déficit público desde a segunda metade da década de 1990. Essa carga explica três quintos do custo Brasil, que corresponde ao acréscimo de 25% nos preços da produção doméstica na comparação com a média dos nossos parceiros comerciais!
Essa perda do raio de manobra fiscal vai limitar não apenas a gastança em consumo governamental, mas também a chamada "bolsa BNDES" e, mais amplamente, a atuação do Tesouro Nacional como fonte transbordante de crédito da economia. Acrescente-se que o próximo presidente é que terá de arcar com os inevitáveis micos na cobrança dos juros e do principal desses financiamentos.
Um sexto problema, mas não nessa ordem, será o enfrentamento das demandas de saúde, principal item de insatisfação no Brasil de hoje. A demonização da classe médica é só uma cortina de fumaça que esconde os problemas de má gestão e de encolhimento relativo dos gastos do governo federal no setor em relação a Estados e municípios. Com realismo, sem uma recomposição para cima da distribuição das despesas as dificuldades prosseguirão, com ou sem a fantasia dos recursos do pré-sal.
Os nós da educação são ainda mais difíceis de desatar. Apesar do expressivo aumento de despesas públicas, o setor é administrado com mediocridade e controlado pelo corporativismo. Os números da propaganda mal escondem a incapacidade de atrelar a educação à questão do desenvolvimento. Só por isso o setor é considerado estratégico mundo afora. Por enquanto, entende-se a educação só pelo viés de uma suposta justiça social. É evidente que isso faz sentido, mas é só primeiro passo da equação. Há ainda questões prementes como a epidemia de drogas ou a sustentabilidade ambiental, ignoradas pelo petismo.
O fecho da lista de problemas é a necessidade de um novo estilo de governar, que aposente a estridência publicitária e a balcanização do Estado brasileiro. Esse modelo não só não resolve as dificuldades, como cria entraves adicionais. O primeiro passo para romper a inércia do atraso é o reconhecimento de que os problemas existem. E as respostas certamente não podem ser dadas por quem fez dessas dificuldades a razão de sua força.
Ao trem pagador - DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 10/10
No que depender do pragmatismo de seus aliados, a presidente Dilma Rousseff corre sério risco de acabar ajudando a ex-senadora Marina Silva a construir um cenário bastante compreensível ao senso comum sobre o contraponto entre a velha que vigora e a nova política que vem pregando.
Por enquanto, a união de Marina com Eduardo Campos provocou só efeitos políticos. Nesse ambiente, o lance foi recebido como nada menos que magistral. Faltam, contudo, as consequências eleitorais, no momento, impossíveis de serem previstas, pois reféns das circunstâncias e da tão propagada quanto indispensável combinação com os "russos". Vale dizer, o respeitável público.
Ninguém sabe como reagirá o eleitorado nem tão cedo essa resposta aparecerá nas pesquisas de opinião. Já a reação do baronato do fisiologismo grudado nas glândulas mamárias do governo (qualquer um) já se desenha com a clareza de sempre.
Os partidos que haviam recolhido as armas temporariamente quando a presidente da República recuperou pontos expressivos na popularidade e resolveu amenizar o tom das conversas com eles, depois do anúncio do último sábado começaram a mostrar as garras preparando-se para o que um experiente ator da cena política qualifica como um legítimo "escalpo".
Na falta de cerimônia que lhes é peculiar reivindicam mais espaços no governo, endurecem as exigências para alianças e providenciam as facas para espetar o pescoço da presidente. A maior ou menor pressão, o sucesso ou fracasso da empreitada vão depender do resultado da combinação com os russos referida acima.
Se a aliança entre Campos e Marina der sinais de prosperidade eleitoral a rapaziada que sente esse tipo de aroma de longe vai exigir mundos e fundos (principalmente fundos) - não necessariamente com a intenção de entregar o prometido apoio - e o governo não terá saída a não ser ceder. Nesta hipótese, em nada remota, Dilma ficará diante do eleitorado com o ônus da face mais carcomida da política.
Duplex. Lula e Dilma não fazem uma dobradinha na linha dois em um? Então, Campos e Marina adotarão modelo parecido, que ficará demonstrado no modelo do programa do PSB que irá hoje ao ar.
Até agora só o PT contava com essa dupla militância em prol de uma candidatura, agregando forças dos setores mais pobres aos de classe média.
O PSB entra em campo com o governador falando a linguagem da administração eficiente, sensível ao empresariado, e a ex-senadora fazendo o discurso do bom combate para a modernização da política, tão caro às ruas.
O PSDB perdeu a oportunidade de fazer algo semelhante em 2010 quando não levou adiante a ideia da chapa puro-sangue entre José Serra e Aécio Neves.
Consultivo. O governador Eduardo Campos tem ouvido de amigos e aliados ponderações para que deixe de lado a discrição dos últimos meses e aproveite o momento para circular, falar e se dar a conhecer ao grande público.
Se não se mostrar, ponderam, não haverá aliança que o faça subir nas pesquisas.
Outro conselho que vem recebendo: preservar o pacto de não agressão com Aécio Neves e investir na construção de coligações com os tucanos nos Estados a fim de retirar palanques do governo.
Painho. Se a Venezuela é um país onde há até "excesso" de democracia, como disse uma vez Lula da Silva, se o projeto de poder do falecido Hugo Chávez é visto como símbolo de justiça social, do que reclamam os petistas quando Marina Silva se refere ao "chavismo" do partido?
A coerência aconselharia a tomarem a expressão como elogio.
No que depender do pragmatismo de seus aliados, a presidente Dilma Rousseff corre sério risco de acabar ajudando a ex-senadora Marina Silva a construir um cenário bastante compreensível ao senso comum sobre o contraponto entre a velha que vigora e a nova política que vem pregando.
Por enquanto, a união de Marina com Eduardo Campos provocou só efeitos políticos. Nesse ambiente, o lance foi recebido como nada menos que magistral. Faltam, contudo, as consequências eleitorais, no momento, impossíveis de serem previstas, pois reféns das circunstâncias e da tão propagada quanto indispensável combinação com os "russos". Vale dizer, o respeitável público.
Ninguém sabe como reagirá o eleitorado nem tão cedo essa resposta aparecerá nas pesquisas de opinião. Já a reação do baronato do fisiologismo grudado nas glândulas mamárias do governo (qualquer um) já se desenha com a clareza de sempre.
Os partidos que haviam recolhido as armas temporariamente quando a presidente da República recuperou pontos expressivos na popularidade e resolveu amenizar o tom das conversas com eles, depois do anúncio do último sábado começaram a mostrar as garras preparando-se para o que um experiente ator da cena política qualifica como um legítimo "escalpo".
Na falta de cerimônia que lhes é peculiar reivindicam mais espaços no governo, endurecem as exigências para alianças e providenciam as facas para espetar o pescoço da presidente. A maior ou menor pressão, o sucesso ou fracasso da empreitada vão depender do resultado da combinação com os russos referida acima.
Se a aliança entre Campos e Marina der sinais de prosperidade eleitoral a rapaziada que sente esse tipo de aroma de longe vai exigir mundos e fundos (principalmente fundos) - não necessariamente com a intenção de entregar o prometido apoio - e o governo não terá saída a não ser ceder. Nesta hipótese, em nada remota, Dilma ficará diante do eleitorado com o ônus da face mais carcomida da política.
Duplex. Lula e Dilma não fazem uma dobradinha na linha dois em um? Então, Campos e Marina adotarão modelo parecido, que ficará demonstrado no modelo do programa do PSB que irá hoje ao ar.
Até agora só o PT contava com essa dupla militância em prol de uma candidatura, agregando forças dos setores mais pobres aos de classe média.
O PSB entra em campo com o governador falando a linguagem da administração eficiente, sensível ao empresariado, e a ex-senadora fazendo o discurso do bom combate para a modernização da política, tão caro às ruas.
O PSDB perdeu a oportunidade de fazer algo semelhante em 2010 quando não levou adiante a ideia da chapa puro-sangue entre José Serra e Aécio Neves.
Consultivo. O governador Eduardo Campos tem ouvido de amigos e aliados ponderações para que deixe de lado a discrição dos últimos meses e aproveite o momento para circular, falar e se dar a conhecer ao grande público.
Se não se mostrar, ponderam, não haverá aliança que o faça subir nas pesquisas.
Outro conselho que vem recebendo: preservar o pacto de não agressão com Aécio Neves e investir na construção de coligações com os tucanos nos Estados a fim de retirar palanques do governo.
Painho. Se a Venezuela é um país onde há até "excesso" de democracia, como disse uma vez Lula da Silva, se o projeto de poder do falecido Hugo Chávez é visto como símbolo de justiça social, do que reclamam os petistas quando Marina Silva se refere ao "chavismo" do partido?
A coerência aconselharia a tomarem a expressão como elogio.
Frente de oposições - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 10/10
BRASÍLIA - Em meio a tantas notícias e a tantas emoções, a coluna do mestre Elio Gaspari no domingo (6) está no topo da lista de importância, ao mostrar o que aconteceu com o núcleo dos "campeões nacionais", ou seja, das empresas que receberam perto de R$ 20 bilhões do BNDES para mergulharem no fantástico mundo das grandes mundiais.
Em resumo, foram para o vinagre, ou acabaram fundidas, ou perderam abrupto valor de mercado, o grupo OGX, a "supertele" Oi, o frigorífico Marfrig, a campeã do ramo de laticínios LBR, a Fibria e o Bertin. Gaspari deixou uma pergunta no ar: quanto custou a brincadeira?
Além do dinheiro jogado fora, há aí toda uma questão altamente política. A outra pergunta que não quer calar é se os tais "campeões nacionais" valiam por si, ou valiam pela então capacidade de sustentar o projeto de 20 anos do PT no poder.
O BNDES, portanto, vem se somar à Petrobras como carro-chefe do discurso de oposição ao PT e a Dilma nas eleições de 2014, invertendo o uso político. Se as duas instituições foram usadas a favor do projeto petista, serão agora usadas contra ele.
Isso é mais evidente na campanha de Aécio Neves, mas o que está se desenhando para o ano que vem não é mais a polarização entre PSDB e PT, mas, sim, uma frente de oposições contra a reeleição, unindo Aécio, Eduardo Campos e Marina Silva.
É melhor para Dilma forçar a vitória no primeiro turno, e é nessa direção que Lula se move, mas esse cenário parece cada vez mais distante.
Na hipótese de segundo turno, Aécio não tem outra alternativa senão apoiar a dupla Eduardo Campos-Marina Silva (que tende a ser nessa ordem, mas não necessariamente). E Campos e Marina tenderão a apoiar Aécio, pois entraram numa rota de oposição que não tem volta.
No quadro de hoje, Dilma é franca favorita. Mas os "anões" --como João Santana ironizou os candidatos de oposição-- dessa vez têm discurso e um objetivo comum.
BRASÍLIA - Em meio a tantas notícias e a tantas emoções, a coluna do mestre Elio Gaspari no domingo (6) está no topo da lista de importância, ao mostrar o que aconteceu com o núcleo dos "campeões nacionais", ou seja, das empresas que receberam perto de R$ 20 bilhões do BNDES para mergulharem no fantástico mundo das grandes mundiais.
Em resumo, foram para o vinagre, ou acabaram fundidas, ou perderam abrupto valor de mercado, o grupo OGX, a "supertele" Oi, o frigorífico Marfrig, a campeã do ramo de laticínios LBR, a Fibria e o Bertin. Gaspari deixou uma pergunta no ar: quanto custou a brincadeira?
Além do dinheiro jogado fora, há aí toda uma questão altamente política. A outra pergunta que não quer calar é se os tais "campeões nacionais" valiam por si, ou valiam pela então capacidade de sustentar o projeto de 20 anos do PT no poder.
O BNDES, portanto, vem se somar à Petrobras como carro-chefe do discurso de oposição ao PT e a Dilma nas eleições de 2014, invertendo o uso político. Se as duas instituições foram usadas a favor do projeto petista, serão agora usadas contra ele.
Isso é mais evidente na campanha de Aécio Neves, mas o que está se desenhando para o ano que vem não é mais a polarização entre PSDB e PT, mas, sim, uma frente de oposições contra a reeleição, unindo Aécio, Eduardo Campos e Marina Silva.
É melhor para Dilma forçar a vitória no primeiro turno, e é nessa direção que Lula se move, mas esse cenário parece cada vez mais distante.
Na hipótese de segundo turno, Aécio não tem outra alternativa senão apoiar a dupla Eduardo Campos-Marina Silva (que tende a ser nessa ordem, mas não necessariamente). E Campos e Marina tenderão a apoiar Aécio, pois entraram numa rota de oposição que não tem volta.
No quadro de hoje, Dilma é franca favorita. Mas os "anões" --como João Santana ironizou os candidatos de oposição-- dessa vez têm discurso e um objetivo comum.
Ruas sem nome - DEMÉTRIO MAGNOLI
O GLOBO - 10/10
Amarildo foi executado e seu corpo desapareceu porque ele residia num lugar não cartografado pelos Correios
Procure no Google Maps. Na vasta faixa da Rocinha, apenas duas vias têm nome: a Estrada da Gávea, na superfície, e o Túnel Zuzu Angel, no subterrâneo. Os Correios não dispõem de um mapa de ruas da Rocinha. Na favela, só recebem cartas em casa os assinantes dos serviços do Carteiro Amigo, empresa formada por antigos recenseadores do IBGE que cartografaram a área e criaram um cadastro informal de CEP. Amarildo de Souza morreu sob tortura, executado por policiais da UPP da Rocinha, porque não era reconhecido como indivíduo e cidadão, mas apenas como integrante de uma “comunidade”. José Mariano Beltrame narra a tragédia como um evento singular: o produto da ação de um bando de “maçãs podres” da PM. A narrativa verdadeira é outra: o destino de Amarildo evidencia o fracasso da política das UPPs.
O conceito das UPPs não foi elaborado no governo de Sérgio Cabral, mas no de Anthony Garotinho, pelo então secretário de Segurança Pública Luiz Eduardo Soares, que tentou substituir a política de invasões de favelas pela implantação de unidades policiais permanentes. Garotinho interrompeu as iniciativas embrionárias, mas a ideia estava semeada: a presença policial deveria funcionar como passo inicial para a plena integração das favelas à cidade. Pacificadas as favelas, o Estado não mais teria desculpas para deixar de prover os serviços públicos universais a seus residentes. Cabral disseminou UPPs, mas pouco avançou na etapa seguinte. As ruas sem nomes oficiais são atestados eloquentes da recusa do poder público de cumprir suas obrigações.
Favela é a “outra cidade”, a cidade formada por ocupações, que carece de títulos de propriedade de terrenos e imóveis. Na novilíngua empregada por autoridades (e artistas), a palavra precisa caiu em desuso, cedendo lugar a “comunidade”, um termo que, tanto na Biologia quanto na Sociologia, não designa um espaço geográfico, mas uma coletividade distinta e singular. Involuntariamente, os inventores da nova palavra estão dizendo aquilo que, de fato, pensam: os moradores de favelas vivem (e devem viver) segundo normas particulares, diferentes daquelas vigentes na “cidade legal”. A causa mortis de Amarildo encontra-se exatamente nessa persistente rejeição do Estado a reconhecer os direitos de cidadania dos habitantes da “outra cidade”.
Para que as UPPs tenham futuro, explicou Soares numa entrevista concedida quase dois anos atrás, seria preciso “refundar” as polícias. “Enquanto uma UPP é criada, a PM continua incursionando em favelas de forma irresponsável, policiais militares criam novas milícias e promovem mais execuções extrajudiciais”, alertou o ex-secretário. Cabral soube converter o programa das UPPs em sedutor ativo eleitoral, mas recuou diante do imperativo de refundar as polícias, um passo que demandaria ousadas rupturas políticas. Beltrame aceitou conduzir uma política amputada, que ruma previsivelmente para o abismo. Como consequência disso, condenou-se ao papel deplorável que cumpre hoje, quando tenta enquadrar o assassinato de Amarildo na moldura da fatalidade.
Na Zona Oeste, longe do foco das câmeras de TV, as milícias articulam-se à sombra das UPPs e disputam poder com o tráfico. Na Favela do Jacarezinho, que tem uma UPP desde janeiro, o comércio fechou as portas em 19 de abril, cumprindo ordens de traficantes que decretaram luto coletivo devido à morte de dois dos seus. Na Cidade de Deus, onde inaugurou-se uma UPP em 2009, crianças continuam a vender drogas no varejo. A casa de um sargento da PM na Praça Seca, no centro da Favela da Chacrinha, que serve como base da milícia local, foi pintada com o padrão de cores e a inscrição “UPP”. A mensagem, dirigida aos residentes, não exige esforço de tradução: os chefes da área avisavam que a “polícia do B” é uma costela da polícia oficial. A causa mortis de Amarildo está aí, na teia de relações que borra as fronteiras entre a polícia e o crime organizado.
Os registros estatísticos indicam que, somente em 2010, 854 pessoas — entre as quais, 463 menores — foram mortas em ações policiais no Estado do Rio de Janeiro. “Há duas mortes que precisam ser mais bem investigadas: a morte da pessoa e a morte do inquérito”, enfatizou o sociólogo Michel Misse, que participa da campanha Desaparecidos da Democracia. A corajosa juíza Patrícia Acioli foi executada em agosto de 2011 por policiais decididos a matar os inquéritos sobre a guerra suja nas favelas, que não foi interrompida pelas UPPs. Ela se tornou um cadáver ilustre sobre o pano de fundo do cortejo de mortos sem nome e, não poucas vezes, até mesmo sem corpo. Amarildo seria apenas um número adicional nas estatísticas macabras, não fosse a circunstância fortuita de que seu “desaparecimento” coincidiu com a onda de manifestações populares iniciadas em junho. Não, Beltrame: Amarildo não é uma mancha acidental no tecido limpo da política de segurança pública de Cabral.
“O importante agora é manter a integridade da UPP da Rocinha, que tem a aprovação da grande maioria dos moradores”, declarou Beltrame na hora da prisão dos dez policiais acusados de tortura, execução e ocultação de cadáver. A UPP da Rocinha foi inaugurada, com direito a discurso de Cabral, em setembro do ano passado. O comandante da UPP, agora afastado, está entre os indiciados. Ao longo dos últimos seis meses, segundo o inquérito da Polícia Civil, pelo menos 22 moradores sofreram torturas infligidas por policiais da unidade. O que significa, nesse contexto, “manter a integridade” da UPP da Rocinha? A linguagem orwelliana de Beltrame deve ser classificada com os adjetivos apropriados: acinte e desaforo. É essa “integridade” a causa mortis de Amarildo.
Amarildo foi executado e seu corpo desapareceu porque ele residia numa rua sem nome, num lugar não cartografado pelos Correios. O inquérito policial não basta. Precisamos de um inquérito político.
Amarildo foi executado e seu corpo desapareceu porque ele residia num lugar não cartografado pelos Correios
Procure no Google Maps. Na vasta faixa da Rocinha, apenas duas vias têm nome: a Estrada da Gávea, na superfície, e o Túnel Zuzu Angel, no subterrâneo. Os Correios não dispõem de um mapa de ruas da Rocinha. Na favela, só recebem cartas em casa os assinantes dos serviços do Carteiro Amigo, empresa formada por antigos recenseadores do IBGE que cartografaram a área e criaram um cadastro informal de CEP. Amarildo de Souza morreu sob tortura, executado por policiais da UPP da Rocinha, porque não era reconhecido como indivíduo e cidadão, mas apenas como integrante de uma “comunidade”. José Mariano Beltrame narra a tragédia como um evento singular: o produto da ação de um bando de “maçãs podres” da PM. A narrativa verdadeira é outra: o destino de Amarildo evidencia o fracasso da política das UPPs.
O conceito das UPPs não foi elaborado no governo de Sérgio Cabral, mas no de Anthony Garotinho, pelo então secretário de Segurança Pública Luiz Eduardo Soares, que tentou substituir a política de invasões de favelas pela implantação de unidades policiais permanentes. Garotinho interrompeu as iniciativas embrionárias, mas a ideia estava semeada: a presença policial deveria funcionar como passo inicial para a plena integração das favelas à cidade. Pacificadas as favelas, o Estado não mais teria desculpas para deixar de prover os serviços públicos universais a seus residentes. Cabral disseminou UPPs, mas pouco avançou na etapa seguinte. As ruas sem nomes oficiais são atestados eloquentes da recusa do poder público de cumprir suas obrigações.
Favela é a “outra cidade”, a cidade formada por ocupações, que carece de títulos de propriedade de terrenos e imóveis. Na novilíngua empregada por autoridades (e artistas), a palavra precisa caiu em desuso, cedendo lugar a “comunidade”, um termo que, tanto na Biologia quanto na Sociologia, não designa um espaço geográfico, mas uma coletividade distinta e singular. Involuntariamente, os inventores da nova palavra estão dizendo aquilo que, de fato, pensam: os moradores de favelas vivem (e devem viver) segundo normas particulares, diferentes daquelas vigentes na “cidade legal”. A causa mortis de Amarildo encontra-se exatamente nessa persistente rejeição do Estado a reconhecer os direitos de cidadania dos habitantes da “outra cidade”.
Para que as UPPs tenham futuro, explicou Soares numa entrevista concedida quase dois anos atrás, seria preciso “refundar” as polícias. “Enquanto uma UPP é criada, a PM continua incursionando em favelas de forma irresponsável, policiais militares criam novas milícias e promovem mais execuções extrajudiciais”, alertou o ex-secretário. Cabral soube converter o programa das UPPs em sedutor ativo eleitoral, mas recuou diante do imperativo de refundar as polícias, um passo que demandaria ousadas rupturas políticas. Beltrame aceitou conduzir uma política amputada, que ruma previsivelmente para o abismo. Como consequência disso, condenou-se ao papel deplorável que cumpre hoje, quando tenta enquadrar o assassinato de Amarildo na moldura da fatalidade.
Na Zona Oeste, longe do foco das câmeras de TV, as milícias articulam-se à sombra das UPPs e disputam poder com o tráfico. Na Favela do Jacarezinho, que tem uma UPP desde janeiro, o comércio fechou as portas em 19 de abril, cumprindo ordens de traficantes que decretaram luto coletivo devido à morte de dois dos seus. Na Cidade de Deus, onde inaugurou-se uma UPP em 2009, crianças continuam a vender drogas no varejo. A casa de um sargento da PM na Praça Seca, no centro da Favela da Chacrinha, que serve como base da milícia local, foi pintada com o padrão de cores e a inscrição “UPP”. A mensagem, dirigida aos residentes, não exige esforço de tradução: os chefes da área avisavam que a “polícia do B” é uma costela da polícia oficial. A causa mortis de Amarildo está aí, na teia de relações que borra as fronteiras entre a polícia e o crime organizado.
Os registros estatísticos indicam que, somente em 2010, 854 pessoas — entre as quais, 463 menores — foram mortas em ações policiais no Estado do Rio de Janeiro. “Há duas mortes que precisam ser mais bem investigadas: a morte da pessoa e a morte do inquérito”, enfatizou o sociólogo Michel Misse, que participa da campanha Desaparecidos da Democracia. A corajosa juíza Patrícia Acioli foi executada em agosto de 2011 por policiais decididos a matar os inquéritos sobre a guerra suja nas favelas, que não foi interrompida pelas UPPs. Ela se tornou um cadáver ilustre sobre o pano de fundo do cortejo de mortos sem nome e, não poucas vezes, até mesmo sem corpo. Amarildo seria apenas um número adicional nas estatísticas macabras, não fosse a circunstância fortuita de que seu “desaparecimento” coincidiu com a onda de manifestações populares iniciadas em junho. Não, Beltrame: Amarildo não é uma mancha acidental no tecido limpo da política de segurança pública de Cabral.
“O importante agora é manter a integridade da UPP da Rocinha, que tem a aprovação da grande maioria dos moradores”, declarou Beltrame na hora da prisão dos dez policiais acusados de tortura, execução e ocultação de cadáver. A UPP da Rocinha foi inaugurada, com direito a discurso de Cabral, em setembro do ano passado. O comandante da UPP, agora afastado, está entre os indiciados. Ao longo dos últimos seis meses, segundo o inquérito da Polícia Civil, pelo menos 22 moradores sofreram torturas infligidas por policiais da unidade. O que significa, nesse contexto, “manter a integridade” da UPP da Rocinha? A linguagem orwelliana de Beltrame deve ser classificada com os adjetivos apropriados: acinte e desaforo. É essa “integridade” a causa mortis de Amarildo.
Amarildo foi executado e seu corpo desapareceu porque ele residia numa rua sem nome, num lugar não cartografado pelos Correios. O inquérito policial não basta. Precisamos de um inquérito político.
No jogo eleitoral - PAULA CESARINO COSTA
FOLHA DE SP -10/10
RIO DE JANEIRO - Se a surpreendente filiação de Marina Silva ao PSB de Eduardo Campos bagunçou a sucessão presidencial, o cenário eleitoral no Rio pode ser definido com termos como indefinido ou superlotado. Existe um congestionamento de nomes, sem que haja até o momento um favorito absoluto.
Há competidores já estabelecidos (mesmo que não confirmados) como o vice-governador, Pezão (PMDB), o ministro Crivella (PRB), o senador Lindbergh (PT), os deputados federais Garotinho (PR) e Miro Teixeira (Pros) e o vereador Cesar Maia (DEM).
Mas dois outros têm potencial para desequilibrar o jogo eleitoral: o deputado e ex-jogador Romário (PSB), que voltou poderoso ao partido, mas diz preferir disputar a prefeitura em 2016, e o técnico de vôlei Bernardinho, que resiste à ideia, mas se filiou ao PSDB e é o sonho dos tucanos.
No xadrez eleitoral de 2014, o Rio poderá representar papel importante no arranjo presidencial e na distribuição de poder regional. E o fator Marina poderá ter peso significativo. Está em jogo o futuro político de Cabral --que já representou uma esperança de renovação para o PMDB--, o sucesso do PT --o Rio é um dos Estados em que o partido tem chance de ganhar-- e o destino dos votos de quem apoiou Marina Silva em 2010.
Foi aqui que ela teve o segundo melhor desempenho da última eleição presidencial, tendo recebido 2,76 milhões de votos, ou 31,5% do total do Estado (no país, conseguiu 19%).
Como analisa o deputado Alfredo Sirkis (também uma opção do PSB), o voto presidencial é mais "sonhático". Na eleição para o governo, o eleitor tende a ser mais pragmático. Ou seja, é difícil prever para onde vai o simpatizante de Marina e aqueles que estão nas ruas desde junho.
Se até ela se confundiu no sábado ao definir sua aliança como pragmática ou programática, o eleitor tem motivos de sobra para sentir-se perdido ou alienado do jogo até aqui.
RIO DE JANEIRO - Se a surpreendente filiação de Marina Silva ao PSB de Eduardo Campos bagunçou a sucessão presidencial, o cenário eleitoral no Rio pode ser definido com termos como indefinido ou superlotado. Existe um congestionamento de nomes, sem que haja até o momento um favorito absoluto.
Há competidores já estabelecidos (mesmo que não confirmados) como o vice-governador, Pezão (PMDB), o ministro Crivella (PRB), o senador Lindbergh (PT), os deputados federais Garotinho (PR) e Miro Teixeira (Pros) e o vereador Cesar Maia (DEM).
Mas dois outros têm potencial para desequilibrar o jogo eleitoral: o deputado e ex-jogador Romário (PSB), que voltou poderoso ao partido, mas diz preferir disputar a prefeitura em 2016, e o técnico de vôlei Bernardinho, que resiste à ideia, mas se filiou ao PSDB e é o sonho dos tucanos.
No xadrez eleitoral de 2014, o Rio poderá representar papel importante no arranjo presidencial e na distribuição de poder regional. E o fator Marina poderá ter peso significativo. Está em jogo o futuro político de Cabral --que já representou uma esperança de renovação para o PMDB--, o sucesso do PT --o Rio é um dos Estados em que o partido tem chance de ganhar-- e o destino dos votos de quem apoiou Marina Silva em 2010.
Foi aqui que ela teve o segundo melhor desempenho da última eleição presidencial, tendo recebido 2,76 milhões de votos, ou 31,5% do total do Estado (no país, conseguiu 19%).
Como analisa o deputado Alfredo Sirkis (também uma opção do PSB), o voto presidencial é mais "sonhático". Na eleição para o governo, o eleitor tende a ser mais pragmático. Ou seja, é difícil prever para onde vai o simpatizante de Marina e aqueles que estão nas ruas desde junho.
Se até ela se confundiu no sábado ao definir sua aliança como pragmática ou programática, o eleitor tem motivos de sobra para sentir-se perdido ou alienado do jogo até aqui.
O grande trunfo - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 10/10
Em todas as rodas do Congresso que discutem política o tema recorrente é a nova aliança entre Marina Silva e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, pré-candidato do PSB à Presidência da República. E há uma razão básica para isso: os dois juntos hoje formam uma dupla praticamente inatacável pelos adversários. Do ponto de vista estratégico, nem o PT de Lula e Dilma Rousseff nem o PSDB de Aécio Neves e José Serra podem se dar ao luxo de bater neles. Daí, a perspectiva de uma eleição de gigantes, muito além do “jogo dos anões” vislumbrado pelo marqueteiro João Santana que, por sinal, terá que se desdobrar para enfrentar antigos aliados de Lula.
No caso do PT, a impossibilidade de ataque vai além do embate político atual. Tanto Marina quanto Eduardo são frutos do processo político resultante do governo Lula. Marina, por exemplo, já foi tratada como “Lula de saias”. Eduardo, por sua vez, foi fundamental no momento em que o presidente enfrentou o processo do mensalão na pré-campanha pela reeleição, em 2006. O máximo que Lula pode dizer é que Eduardo está indo com muita sede ao pote, que Marina não tinha nada que ter brigado e por aí vai. Mas ele sabe que eles têm a legitimidade de defesa do governo Lula, daí a dificuldade de ataque.
O PSDB também evitará ataques por causa de um raciocínio diametralmente oposto. No papel de candidato a presidente da República, o senador Aécio Neves poderia até dizer que Eduardo e Marina são cópias melhoradas do governo Dilma, pois também são crias de Lula. Mas não o fará por um único motivo: O PSDB também pleiteia a vaga no segundo turno e, sendo assim, não baterá em quem pode virar um potencial aliado.
Nesse jogo, fica cada vez mais claro que os embates ferrenhos daqui para frente não se darão entre potenciais candidatos. A briga para valer terá como palco os estados, onde os adversários dessa nova construção política tratam de semear a discórdia no ambiente de Eduardo e Marina. Não faltaram deputados e senadores para dizer a José Antônio Reguffe, do Distrito Federal, que ele tem mais é que insistir na candidatura própria ao governo, ainda que se afaste do senador Rodrigo Rollemberg. Reguffe, até onde se sabe, não mordeu a isca. Tem dito apenas que prefere esperar para ver o que acontecerá lá na frente.
Enquanto isso, no Planalto...
A presidente Dilma Rousseff está ciente desses detalhes. Tanto é que já orientou o marqueteiro João Santana a deixar de lado adversários futuros, evitar entrevistas arrogantes e manter o trabalho focado nos resultados do governo. Ela não está brincando quando diz que qualquer sucesso eleitoral passa antes por realizações de projetos governamentais e pelo bom desempenho da economia. E, até aqui, pelo menos no que se refere à economia, o Copom sinaliza aumento de juros e, em termos de infraestrutura, as obras que parecem caminhar em maior velocidade são as dos estádios da Copa do Mundo.
Paralelamente à governança, a presidente avalia a reforma ministerial de dezembro. Já está praticamente definido que o Ministério de Portos ficará com o Ceará de Ciro e Cid Gomes. Ainda que a indicação seja técnica deverá ter o aval deles. O mesmo ocorrerá no caso dos outros 11 ministérios incluídos na reforma. A ordem com a consulta aos partidos é evitar que Eduardo Campos e Aécio Neves arrebanhem insatisfeitos com as mudanças no primeiro escalão.
E em São Paulo...
Enquanto Dilma trabalha com a reforma e a economia, Eduardo trata de seu programa. Hoje, ele se reúne com os economistas que apoiaram Marina Silva, André Lara Rezende e Guilherme Leal, da Natura. Começa aí a montagem do projeto de economia sustentável para apresentar em 2014. Aécio cuidou do tema em sua viagem a Nova York. É 2014 em plena avenida nessa reta final de 2013.
E por falar em 2013...
Muita gente estranhou a falta de um discurso da presidente Dilma Rousseff na cerimônia de comemoração dos 25 anos da Constituição de 1988, ontem na Câmara. Mas era para ser assim mesmo. Não estava previsto pelo cerimonial. Foi, aliás, o único momento de paz do parlamento nos últimos tempos. Tão logo terminou a solenidade, voltaram as rusgas em torno do Mais Médicos, do orçamento impositivo e da luta pelos cargos no governo, conflitos, que, sinceramente, ainda vão ocupar muitas páginas de jornal.
Em todas as rodas do Congresso que discutem política o tema recorrente é a nova aliança entre Marina Silva e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, pré-candidato do PSB à Presidência da República. E há uma razão básica para isso: os dois juntos hoje formam uma dupla praticamente inatacável pelos adversários. Do ponto de vista estratégico, nem o PT de Lula e Dilma Rousseff nem o PSDB de Aécio Neves e José Serra podem se dar ao luxo de bater neles. Daí, a perspectiva de uma eleição de gigantes, muito além do “jogo dos anões” vislumbrado pelo marqueteiro João Santana que, por sinal, terá que se desdobrar para enfrentar antigos aliados de Lula.
No caso do PT, a impossibilidade de ataque vai além do embate político atual. Tanto Marina quanto Eduardo são frutos do processo político resultante do governo Lula. Marina, por exemplo, já foi tratada como “Lula de saias”. Eduardo, por sua vez, foi fundamental no momento em que o presidente enfrentou o processo do mensalão na pré-campanha pela reeleição, em 2006. O máximo que Lula pode dizer é que Eduardo está indo com muita sede ao pote, que Marina não tinha nada que ter brigado e por aí vai. Mas ele sabe que eles têm a legitimidade de defesa do governo Lula, daí a dificuldade de ataque.
O PSDB também evitará ataques por causa de um raciocínio diametralmente oposto. No papel de candidato a presidente da República, o senador Aécio Neves poderia até dizer que Eduardo e Marina são cópias melhoradas do governo Dilma, pois também são crias de Lula. Mas não o fará por um único motivo: O PSDB também pleiteia a vaga no segundo turno e, sendo assim, não baterá em quem pode virar um potencial aliado.
Nesse jogo, fica cada vez mais claro que os embates ferrenhos daqui para frente não se darão entre potenciais candidatos. A briga para valer terá como palco os estados, onde os adversários dessa nova construção política tratam de semear a discórdia no ambiente de Eduardo e Marina. Não faltaram deputados e senadores para dizer a José Antônio Reguffe, do Distrito Federal, que ele tem mais é que insistir na candidatura própria ao governo, ainda que se afaste do senador Rodrigo Rollemberg. Reguffe, até onde se sabe, não mordeu a isca. Tem dito apenas que prefere esperar para ver o que acontecerá lá na frente.
Enquanto isso, no Planalto...
A presidente Dilma Rousseff está ciente desses detalhes. Tanto é que já orientou o marqueteiro João Santana a deixar de lado adversários futuros, evitar entrevistas arrogantes e manter o trabalho focado nos resultados do governo. Ela não está brincando quando diz que qualquer sucesso eleitoral passa antes por realizações de projetos governamentais e pelo bom desempenho da economia. E, até aqui, pelo menos no que se refere à economia, o Copom sinaliza aumento de juros e, em termos de infraestrutura, as obras que parecem caminhar em maior velocidade são as dos estádios da Copa do Mundo.
Paralelamente à governança, a presidente avalia a reforma ministerial de dezembro. Já está praticamente definido que o Ministério de Portos ficará com o Ceará de Ciro e Cid Gomes. Ainda que a indicação seja técnica deverá ter o aval deles. O mesmo ocorrerá no caso dos outros 11 ministérios incluídos na reforma. A ordem com a consulta aos partidos é evitar que Eduardo Campos e Aécio Neves arrebanhem insatisfeitos com as mudanças no primeiro escalão.
E em São Paulo...
Enquanto Dilma trabalha com a reforma e a economia, Eduardo trata de seu programa. Hoje, ele se reúne com os economistas que apoiaram Marina Silva, André Lara Rezende e Guilherme Leal, da Natura. Começa aí a montagem do projeto de economia sustentável para apresentar em 2014. Aécio cuidou do tema em sua viagem a Nova York. É 2014 em plena avenida nessa reta final de 2013.
E por falar em 2013...
Muita gente estranhou a falta de um discurso da presidente Dilma Rousseff na cerimônia de comemoração dos 25 anos da Constituição de 1988, ontem na Câmara. Mas era para ser assim mesmo. Não estava previsto pelo cerimonial. Foi, aliás, o único momento de paz do parlamento nos últimos tempos. Tão logo terminou a solenidade, voltaram as rusgas em torno do Mais Médicos, do orçamento impositivo e da luta pelos cargos no governo, conflitos, que, sinceramente, ainda vão ocupar muitas páginas de jornal.
Estruturas de poder - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 10/10
A tentativa de quebra da polarização entre PT e PSDB na disputa presidencial, independentemente do candidato que surja como a terceira via, não tem sido exitosa em nossa História política, e o cientista político da PUC-Rio Cesar Romero Jacob é cético quanto ao êxito dessa empreitada, pois, desde a redemocratização, não há repetição de uma terceira via solidamente implantada no território, que é onde se faz a política, com máquina, militância, uma ação no plano do territorial.
Seriam três os pilares das estruturas de poder que viabilizam a disputa eleitoral para presidente: as oligarquias nos grotões; os pastores pentecostais e os políticos populistas na periferia; e a classe média urbana escolarizada. Essa constatação fragiliza em parte a tese de que o eleitor vota no candidato, não no partido, pois o partido é fundamental para o candidato ter consistência eleitoral. A terceira via tem sido questão muito episódica, lembra Romero Jacob.
Em cada eleição houve uma preponderância: Brizola era bem votado no Estado do Rio e no Rio Grande do Sul; Enéas, no entorno metropolitano; Ciro Gomes era muito centrado no Nordeste; Garotinho, muito no Rio e nos territórios evangélicos; não há a repetição, de uma eleição para outra, de uma terceira via com uma mesma base territorial. Isso se deve, segundo o cientista político, ao peso de São Paulo no jogo eleitoral: o estado tem 1/3 do PIB nacional e 1/4 do eleitorado, e os partidos solidamente implantados em São Paulo são o PSDB e o PT, o que, na sua opinião, condiciona o resto.
Ele ressalta que, em eleição presidencial, nosso sistema é bipartidário, no Parlamento é que há fragmentação eleitoral. O PSDB é forte na capital paulista e nos municípios do interior, e o PT no entorno da capital e no cinturão industrial. Esta é a primeira vez em que não há, por enquanto, candidato paulista na disputa, mas ao mesmo tempo Dilma e Aécio contarão com forças políticas importantes no estado de São Paulo.
Romero Jacob chama de maldição do terceiro colocado o que tem acontecido com os candidatos que a cada eleição surgem como novidade, mas não se firmam como alternativa de uma terceira via eleitoral que se contraponha à polarização entre PT-PSDB. Desta vez é Eduardo Campos quem aparece nesse papel.
A ex-senadora Marina, que não conseguiu partido para se candidatar e teve de entrar para o PSB como coadjuvante, pelo menos até agora vive essa maldição . Segundo Romero Jacob, a maldição pode ser medida pelo retrospecto dos candidatos que chegaram em terceiro lugar nas recentes eleições presidenciais após a redemocratização.
Ninguém emplacou na eleição seguinte. Brizola, em 1989, teve 16% dos votos, quase foi para o segundo turno contra Collor. Em 1994, teve apenas 3%; em 1998, foi vice de Lula; e terminou a carreira política sendo derrotado para senador. Enéas teve 7% de votos em 1994, caiu para 2% em 1998 e, em 2002, candidatou-se a deputado federal. Ciro Gomes teve 11% em 1998; 12% em 2002; mas, em 2006, se candidatou a deputado federal.
Garotinho teve 18% dos votos em 2002; em 2006, o PMDB não lhe deu legenda para concorrer. A senadora Heloisa Helena teve 6% dos votos em 2006 e não se elegeu senadora em Alagoas. Eles se tornam políticos regionais, caso de Ciro e Garotinho, ou locais, como Heloisa Helena, hoje vereadora em Alagoas.
Um trabalho da PUC-Rio que Romero Jacob coordena mostra que, até agora, a terceira via não se mostrou possível porque não se observa nada em comum, do ponto de vista eleitoral ou geográfico, entre os terceiros colocados nas eleições anteriores. Na verdade, cada uma das situações que levaram um candidato ao terceiro lugar foi pontual. Romero Jacob diz que nos seus estudos só há um registro de transferência de votos no segundo turno, o de Brizola em 1989, que transferiu para Lula todos os seus votos. Em 2002, por exemplo, Ciro teve 12% dos votos, e Garotinho, 18%, e os dois propuseram apoio a Lula, mas os votos foram meio a meio para Lula e Serra. Isso porque os votos de Ciro na Bahia não eram dele, mas de Antonio Carlos Magalhães, que estava em dissidência, os votos no Maranhão eram de Sarney. Assim como Garotinho, que não tinha votos na Amazônia, onde sua força vinha da Assembleia de Deus, cujo voto ele não decidia.
Em 2010, apesar de sua grande votação, Marina não transferiu votos para o Partido Verde, pelo qual concorreu. O mesmo pode acontecer com sua ida para o PSB.
O xadrez de Marina - ROGÉRIO GENTILE
FOLHA DE SP - 10/10
SÃO PAULO - Eduardo Campos não é um "zero", como Ciro Gomes o chamou na sua tola e habitual verborragia, tampouco é o estrategista político formidável, tal qual passou a ser pintado em Brasília após a surpreendente filiação da ex-senadora Marina Silva ao seu PSB.
O governador de Pernambuco é um construtor de pontes, paciente e habilidoso, que consegue se manter como interlocutor de quase todo o mundo, de Lula a Serra, de Bornhausen e Ronaldo Caiado a Marina. É um conciliador que parece mais mineiro do que o próprio Aécio Neves.
É evidente que esses traços o ajudaram a se posicionar no momento em que Marina precisava achar uma saída para o imbróglio em que se meteu ao não conseguir oficializar a tal Rede Sustentabilidade --não se filiar a um partido significaria abdicar totalmente da eleição presidencial; entrar numa sigla qualquer apenas para ser candidata seria um gesto personalista que poderia arranhar a imagem da nova política, que Marina tanto cultiva.
Mas, na prática, o governador pernambucano foi um agente passivo nessa história toda. Se alguém anteviu alguma coisa, foi Marina. A ex-senadora criou o principal fato político desde a eleição de Dilma e ainda jogou sobre Campos a responsabilidade de crescer nas pesquisas em pouco tempo, ao deixar claro que, se o governador não se viabilizar, ela pode concorrer.
No cenário anterior, Campos seria um vitorioso se terminasse a eleição presidencial do ano que vem com cerca de 15% dos votos. Atingiria seu objetivo de tornar-se um nome nacionalmente conhecido a fim de, quatro anos depois, disputar a sucessão para valer.
Agora, após o empurrão da ex-senadora, se Campos não atingir esse patamar nos próximos meses, antes mesmo de a campanha eleitoral começar, poderá ser forçado a abdicar da candidatura em favor de Marina. Sob o risco de ficar com o ônus de ter atrapalhado a real terceira via.
Sigam a história! - DEMÉTRIO MAGNOLI
O Estado de S.Paulo - 10/10
"Sigam o dinheiro", indicou o Garganta Profunda aos repórteres do Washington Post que terminariam por desnudar o rei, provocando a renúncia de Richard Nixon. Bob Woodward e Carl Bernstein sabiam que andavam sobre o abismo, mas persistiram na investigação, pois o editor do jornal lhes garantiu apoio. "Sigam a história, custe o que custar", teria dito Ben Bradlee. Dois meses atrás, o Washington Post foi vendido por meros US$ 250 milhões a Jeff Bezos, proprietário da Amazon. "Nós agora pertencemos a um cara tão rico que o jornal vale cerca de 1% de seu patrimônio líquido", disse um tristonho jornalista após o encontro da redação em que a família Graham comunicou o negócio. O episódio lança um jato de luz sobre a encruzilhada em que se encontra o jornalismo - e não só nos EUA.
John Milton pronunciou sua clássica defesa da liberdade de imprensa em 1644, quando surgiam os primeiros jornais modernos. Durante os dois séculos da "pré-história" do jornalismo, os jornais e a opinião pública configuraram um ao outro. Mas o jornalismo, tal como o conhecemos, nasceu em meados do século 19, com a primeira revolução da informação, propiciada pelo telégrafo. Antes dominados por textos de opinião, os jornais encheram-se de notícias - e firmaram-se como infraestruturas públicas das sociedades abertas. No 16 de abril de 1912, um dia depois do naufrágio do Titanic, milhares de pessoas aglomeraram-se diante das sedes dos jornais de Nova York, disputando edições extraordinárias com as notícias da tragédia.
Os Grahams renunciaram ao Washington Post, que controlavam desde 1933, depois de sete anos de prejuízos. A revolução da informação em curso tem efeitos opostos aos da revolução pioneira. A notícia tornou-se uma commodity, que já não paga o preço do papel de imprensa. O dinheiro deslocou-se das empresas jornalísticas para conglomerados de telecomunicações e de internet. Nos EUA, sob o pano de fundo de recuos gerais nas tiragens, na publicidade e na dimensão das redações, só o New York Times anuncia triunfos embrionários na árdua luta para se adaptar a um ambiente desafiador. O espectro da morte dos jornais ronda as sociedades - e provoca indagações sobre o futuro da democracia.
No Brasil a crise ainda é atenuada por uma expansão marginal das tiragens, mas o poder político tenta cavalgá-la para calar as vozes dissonantes. A paisagem salpicada de blogueiros chapa-branca que clamam pela censura em textos hidrófobos, circundados por banners da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil, é apenas um sintoma superficial. O projeto de fundo não é censurar, mas sujeitar. O ex-ministro Franklin Martins, um destacado assessor de Lula, repete há anos, incansavelmente, uma ameaça velada. Os jornais, explica, só têm as alternativas de aceitar o "controle social da mídia" ou enfrentar mudanças regulatórias que permitiriam a aquisição das empresas jornalísticas por grupos bilionários fincados no mercado de telecomunicações. Bezos repetiu a célebre instrução de Bradlee, prometendo respeitar os valores do Washington Post. Não é prudente, porém, esperar o mesmo de outros magnatas pós-modernos - especialmente se operam concessões públicas.
Os jornais precisam mudar se pretendem sobreviver e resguardar sua independência. Um caminho é a revalorização dos textos de opinião. "Um bom jornal é uma nação dialogando com ela mesma", disse certa vez Arthur Miller. Na internet cada esquina funciona como um palanque autossuficiente de opinião. Só os jornais, porém, têm o condão de reunir os interlocutores numa mesma praça, que não tem compromissos com o poder de turno. Esse curioso retorno às origens da imprensa não representa, todavia, mais que uma decifração precária do enigma da era da internet.
Numa época de informação abundante, o Estado protege como nunca seus próprios subterrâneos. "Sigam a história": só o jornalismo possui as competências para desnudar o rei, expondo à luz do sol as vísceras dos governos. Edward Snowden procurou o Guardian e o Washington Post porque a denúncia da máquina de espionagem em massa da NSA precisava dos filtros e da credibilidade dos jornais. Uma investigação de O Estado de S. Paulo revelou nada menos que a montagem de um Estado paralelo, partidário, ilegal e clandestino, sob as asas do programa federal Minha Casa, Minha Vida. Sem jornalistas treinados, redações estruturadas e critérios éticos de apuração os cidadãos só conheceriam as notícias manufaturadas por marqueteiros e assessores de comunicação. O jornal, impresso no papel ou distribuído em versões eletrônicas, continua a ser uma infraestrutura pública indispensável à democracia.
Minha trajetória pessoal se enlaça em pontos diversos com a história do Estadão. No início da adolescência aprendi bastante sobre a natureza das ditaduras pelos vislumbres proporcionados em páginas do jornal preenchidas com trechos de Os Lusíadas. À época eu produzia fragmentos de textos mentais na tentativa de imaginar as linhas que, riscadas pelos censores, jaziam ocultas debaixo dos versos de Camões. Nos últimos sete anos, a cada duas semanas, sem uma única interrupção, experimentei o privilégio de assinar artigos nesta página. Foram 183 textos, o equivalente a um livro de 560 páginas, que agora se encerra. Os difamadores do jornalismo, em geral regiamente remunerados, espalham a lenda de que "liberdade de imprensa é liberdade de empresa". Eu testemunho que sempre escrevi exatamente o que quis - e, mais, que meus editores nunca souberam o que eu escreveria antes de receberem o artigo pronto.
"Sigam o dinheiro!", dizem os estrategistas do rei aos jornais, animados com a perspectiva de transferir essas infraestruturas públicas a conglomerados que orbitam em torno do governo.
"Sigam a história!", digo eu na despedida, repetindo aquele editor, que não tinha medo de cara feia.
"Sigam o dinheiro", indicou o Garganta Profunda aos repórteres do Washington Post que terminariam por desnudar o rei, provocando a renúncia de Richard Nixon. Bob Woodward e Carl Bernstein sabiam que andavam sobre o abismo, mas persistiram na investigação, pois o editor do jornal lhes garantiu apoio. "Sigam a história, custe o que custar", teria dito Ben Bradlee. Dois meses atrás, o Washington Post foi vendido por meros US$ 250 milhões a Jeff Bezos, proprietário da Amazon. "Nós agora pertencemos a um cara tão rico que o jornal vale cerca de 1% de seu patrimônio líquido", disse um tristonho jornalista após o encontro da redação em que a família Graham comunicou o negócio. O episódio lança um jato de luz sobre a encruzilhada em que se encontra o jornalismo - e não só nos EUA.
John Milton pronunciou sua clássica defesa da liberdade de imprensa em 1644, quando surgiam os primeiros jornais modernos. Durante os dois séculos da "pré-história" do jornalismo, os jornais e a opinião pública configuraram um ao outro. Mas o jornalismo, tal como o conhecemos, nasceu em meados do século 19, com a primeira revolução da informação, propiciada pelo telégrafo. Antes dominados por textos de opinião, os jornais encheram-se de notícias - e firmaram-se como infraestruturas públicas das sociedades abertas. No 16 de abril de 1912, um dia depois do naufrágio do Titanic, milhares de pessoas aglomeraram-se diante das sedes dos jornais de Nova York, disputando edições extraordinárias com as notícias da tragédia.
Os Grahams renunciaram ao Washington Post, que controlavam desde 1933, depois de sete anos de prejuízos. A revolução da informação em curso tem efeitos opostos aos da revolução pioneira. A notícia tornou-se uma commodity, que já não paga o preço do papel de imprensa. O dinheiro deslocou-se das empresas jornalísticas para conglomerados de telecomunicações e de internet. Nos EUA, sob o pano de fundo de recuos gerais nas tiragens, na publicidade e na dimensão das redações, só o New York Times anuncia triunfos embrionários na árdua luta para se adaptar a um ambiente desafiador. O espectro da morte dos jornais ronda as sociedades - e provoca indagações sobre o futuro da democracia.
No Brasil a crise ainda é atenuada por uma expansão marginal das tiragens, mas o poder político tenta cavalgá-la para calar as vozes dissonantes. A paisagem salpicada de blogueiros chapa-branca que clamam pela censura em textos hidrófobos, circundados por banners da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil, é apenas um sintoma superficial. O projeto de fundo não é censurar, mas sujeitar. O ex-ministro Franklin Martins, um destacado assessor de Lula, repete há anos, incansavelmente, uma ameaça velada. Os jornais, explica, só têm as alternativas de aceitar o "controle social da mídia" ou enfrentar mudanças regulatórias que permitiriam a aquisição das empresas jornalísticas por grupos bilionários fincados no mercado de telecomunicações. Bezos repetiu a célebre instrução de Bradlee, prometendo respeitar os valores do Washington Post. Não é prudente, porém, esperar o mesmo de outros magnatas pós-modernos - especialmente se operam concessões públicas.
Os jornais precisam mudar se pretendem sobreviver e resguardar sua independência. Um caminho é a revalorização dos textos de opinião. "Um bom jornal é uma nação dialogando com ela mesma", disse certa vez Arthur Miller. Na internet cada esquina funciona como um palanque autossuficiente de opinião. Só os jornais, porém, têm o condão de reunir os interlocutores numa mesma praça, que não tem compromissos com o poder de turno. Esse curioso retorno às origens da imprensa não representa, todavia, mais que uma decifração precária do enigma da era da internet.
Numa época de informação abundante, o Estado protege como nunca seus próprios subterrâneos. "Sigam a história": só o jornalismo possui as competências para desnudar o rei, expondo à luz do sol as vísceras dos governos. Edward Snowden procurou o Guardian e o Washington Post porque a denúncia da máquina de espionagem em massa da NSA precisava dos filtros e da credibilidade dos jornais. Uma investigação de O Estado de S. Paulo revelou nada menos que a montagem de um Estado paralelo, partidário, ilegal e clandestino, sob as asas do programa federal Minha Casa, Minha Vida. Sem jornalistas treinados, redações estruturadas e critérios éticos de apuração os cidadãos só conheceriam as notícias manufaturadas por marqueteiros e assessores de comunicação. O jornal, impresso no papel ou distribuído em versões eletrônicas, continua a ser uma infraestrutura pública indispensável à democracia.
Minha trajetória pessoal se enlaça em pontos diversos com a história do Estadão. No início da adolescência aprendi bastante sobre a natureza das ditaduras pelos vislumbres proporcionados em páginas do jornal preenchidas com trechos de Os Lusíadas. À época eu produzia fragmentos de textos mentais na tentativa de imaginar as linhas que, riscadas pelos censores, jaziam ocultas debaixo dos versos de Camões. Nos últimos sete anos, a cada duas semanas, sem uma única interrupção, experimentei o privilégio de assinar artigos nesta página. Foram 183 textos, o equivalente a um livro de 560 páginas, que agora se encerra. Os difamadores do jornalismo, em geral regiamente remunerados, espalham a lenda de que "liberdade de imprensa é liberdade de empresa". Eu testemunho que sempre escrevi exatamente o que quis - e, mais, que meus editores nunca souberam o que eu escreveria antes de receberem o artigo pronto.
"Sigam o dinheiro!", dizem os estrategistas do rei aos jornais, animados com a perspectiva de transferir essas infraestruturas públicas a conglomerados que orbitam em torno do governo.
"Sigam a história!", digo eu na despedida, repetindo aquele editor, que não tinha medo de cara feia.
O não dito pelo dito - JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 10/10
A frase 'nós dois somos possibilidades', emitida por Marina, atinge Eduardo Campos pelas costas
A frase "nós dois somos possibilidades e sabemos disso", emitida por Marina Silva, é a precipitação talvez involuntária, mas certamente sincera e sem dúvida verdadeira, de um desmentido que atinge Eduardo Campos e sua candidatura pelas costas.
É clara e objetiva a admissão de candidatura própria na frase de Marina Silva, recolhida por Ranier Bragon e Matheus Leitão (Folha de ontem). Frase que não ficou contida por mais do que umas 24 horas após a revelação, pelo intermediário da entrada de Marina Silva no PSB, de que Eduardo Campos recebeu com resistência a proposta de adesão, preocupado em salvaguardar sua candidatura. Argumentou que não poderia retirá-la, e perguntou: "Vou ser constrangido?" [a retirá-la].
Resposta contada aos mesmos repórteres pelo próprio interlocutor de Eduardo Campos, deputado Walter Feldman: "Eu disse: A Marina pretende te apoiar, você não será constrangido a retirar sua candidatura, queremos uma aliança programática. Estamos no seu projeto".
Em texto dos dois entrevistadores: "Segundo relato do deputado, ele disse ao governador que Marina não tinha essa intenção [JF: de ser a candidata à Presidência] e que pretendia (mesmo com 26% das intenções de voto na última pesquisa Datafolha) apoiar o pessebista, com apenas 8%".
Ainda na relato de Feldman, Eduardo Campos relutou ante a sugestão de um encontro com Marina Silva, temeroso de desgaste se a conversa fracassasse. Por fim concordou, foi encontrá-la em Brasília, e nenhuma candidatura esteve sob condição.
Mas está. Desde já. Ou, quem sabe, desde antes. Eis o trecho todo nas palavras de Marina Silva:
"Para nós, não interessa agora ficar discutindo as posições. Nós dois somos possibilidades e sabemos disso. Que possibilidade seremos, o processo irá dizer e estamos abertos a esse processo".
Bem nítido: "Não interessa [discutir] AGORA", o mesmo que dizer da expectativa já existente de discutir a questão adiante. Quando? Não será Eduardo Campos a ter a palavra a respeito. Nem será o PSB que a decidir. "O processo irá dizer." E, mais do que falar por si, Marina se permite falar pelo próprio Campos: "ESTAMOS abertos a esse processo".
O oposto do assegurado a Eduardo Campos, como relatado por seu interlocutor, intermediário de Marina Silva e testemunha do encontro, Walter Feldman, que deixou o PSDB para acompanhar sua líder no projeto via PSB.
A situação de Eduardo Campos não deixa de ter graça. Ele começa a mostrar-se a verdadeira Dilma Rousseff imaginada nas tantas loas à jogada "brilhante e inovadora" de Marina Silva ao incorporar-se à candidatura do PSB, contra a da presidente à reeleição. Ao menos desde ontem pela manhã, quando publicada a entrevista de sua nova associada, Eduardo Campos só pode ser um exemplo de apreensão. Mas sorridente, muito sorridente. Obrigado a sorrir, a repetir-se feliz com o acordo e, claro, absolutamente confiante no apoio de Marina. E, quanto mais se mostre assim, mais será o contrário.
Até por uma possível dor nas costas.
A frase 'nós dois somos possibilidades', emitida por Marina, atinge Eduardo Campos pelas costas
A frase "nós dois somos possibilidades e sabemos disso", emitida por Marina Silva, é a precipitação talvez involuntária, mas certamente sincera e sem dúvida verdadeira, de um desmentido que atinge Eduardo Campos e sua candidatura pelas costas.
É clara e objetiva a admissão de candidatura própria na frase de Marina Silva, recolhida por Ranier Bragon e Matheus Leitão (Folha de ontem). Frase que não ficou contida por mais do que umas 24 horas após a revelação, pelo intermediário da entrada de Marina Silva no PSB, de que Eduardo Campos recebeu com resistência a proposta de adesão, preocupado em salvaguardar sua candidatura. Argumentou que não poderia retirá-la, e perguntou: "Vou ser constrangido?" [a retirá-la].
Resposta contada aos mesmos repórteres pelo próprio interlocutor de Eduardo Campos, deputado Walter Feldman: "Eu disse: A Marina pretende te apoiar, você não será constrangido a retirar sua candidatura, queremos uma aliança programática. Estamos no seu projeto".
Em texto dos dois entrevistadores: "Segundo relato do deputado, ele disse ao governador que Marina não tinha essa intenção [JF: de ser a candidata à Presidência] e que pretendia (mesmo com 26% das intenções de voto na última pesquisa Datafolha) apoiar o pessebista, com apenas 8%".
Ainda na relato de Feldman, Eduardo Campos relutou ante a sugestão de um encontro com Marina Silva, temeroso de desgaste se a conversa fracassasse. Por fim concordou, foi encontrá-la em Brasília, e nenhuma candidatura esteve sob condição.
Mas está. Desde já. Ou, quem sabe, desde antes. Eis o trecho todo nas palavras de Marina Silva:
"Para nós, não interessa agora ficar discutindo as posições. Nós dois somos possibilidades e sabemos disso. Que possibilidade seremos, o processo irá dizer e estamos abertos a esse processo".
Bem nítido: "Não interessa [discutir] AGORA", o mesmo que dizer da expectativa já existente de discutir a questão adiante. Quando? Não será Eduardo Campos a ter a palavra a respeito. Nem será o PSB que a decidir. "O processo irá dizer." E, mais do que falar por si, Marina se permite falar pelo próprio Campos: "ESTAMOS abertos a esse processo".
O oposto do assegurado a Eduardo Campos, como relatado por seu interlocutor, intermediário de Marina Silva e testemunha do encontro, Walter Feldman, que deixou o PSDB para acompanhar sua líder no projeto via PSB.
A situação de Eduardo Campos não deixa de ter graça. Ele começa a mostrar-se a verdadeira Dilma Rousseff imaginada nas tantas loas à jogada "brilhante e inovadora" de Marina Silva ao incorporar-se à candidatura do PSB, contra a da presidente à reeleição. Ao menos desde ontem pela manhã, quando publicada a entrevista de sua nova associada, Eduardo Campos só pode ser um exemplo de apreensão. Mas sorridente, muito sorridente. Obrigado a sorrir, a repetir-se feliz com o acordo e, claro, absolutamente confiante no apoio de Marina. E, quanto mais se mostre assim, mais será o contrário.
Até por uma possível dor nas costas.
Questões postas a Dilma e ao PT - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 10/10
Acossados por problemas econômicos, governo e partido ainda enfrentam uma dissidência. Campanha eleitoral será um avanço se debater reformas
A aliança Marina Silva-Eduardo Campos, uma espécie de ponto fora da curva, traz um grande risco em potencial para a reeleição de Dilma Rousseff porque, entre outros motivos, tira do tabuleiro o jogo predileto petista, o de enfrentar os tucanos, os quais o PT já apendeu a derrotar. A presidente Dilma, no entanto, até que pesquisas mostrem o contrário, continua a grande favorita à reeleição.
Antes de mais nada, a aliança Marina-Campos, passada a euforia inicial, precisa vencer um percurso acidentado em busca de um programa comum que atenda à visão de Brasil de universos distantes entre si como, por exemplo, ambientalistas e o agronegócio.
Ensina a História que mudanças profundas costumam ocorrer quando há dissidências no bloco político no poder. Na democracia ou fora dela. Na ditadura, o mais claro exemplo, e próximo, é o da redemocratização brasileira, viabilizada, sem traumas, pelo racha no bloco civil e militar que havia 25 anos dava as cartas. Na fronteira ao Sul, há o caso em andamento na Argentina em que o ramo kirchnerista, com sonhos de perpetuação na Casa Rosada, pode vir a ser derrotado por um grupo dissidente do próprio peronismo.
No enfrentamento de dissidentes e da oposição já estabelecida, Dilma e PT têm o flanco vulnerável do esgotamento do modelo econômico lastreado em consumo sem investimentos e elevados gastos públicos. Dilma tentou criar uma “nova matriz econômica”, com juros baixos, câmbio desvalorizado e muita injeção de dinheiro público, proveniente de endividamento, pela mão dirigista do BNDES. Não deu certo. Colheu mais inflação, desequilíbrio nas finanças públicas (que tenta mascarar, em vão, pela "contabilidade criativa") e deterioração das contas externas. Na edição de ontem, o “New York Times”, em editorial, tratou de problemas que Dilma enfrenta, entre eles uma infraestrutura que ajuda a encarecer as mercadorias nas cidades e a baixa qualidade da educação.
Compõe o cenário a previsão de baixo crescimento confirmada anteontem pelo FMI, de 2,5%, para o ano que vem, idêntica à estimativa para este ano. A projeção de 2014 recuou 0,7 ponto percentual em relação à anterior.
Há, ainda, as manifestações, com características inéditas de violência, fato que precisa ser decifrado por governos e elites. Afinal, a renda subiu, o desemprego caiu e tudo parecia róseo, segundo o discurso oficial. Mas as ruas demonstram que não. Há um mal-estar assentado muito provavelmente na falta de perspectiva de uma juventude que não consegue boa qualificação no ensino público, padece, como a maioria da população, para se locomover nas regiões metropolitanas e tem sido castigada pela inflação, entre outras mazelas. A tal “nova” classe média pode estar se desiludindo.
É importante que o quadro político-eleitoral favoreça uma discussão profunda sobre a retomada das reformas (do Estado, tributária, previdenciária, trabalhista, política). Cada dia mais necessárias para abrir mais um ciclo de crescimento
Acossados por problemas econômicos, governo e partido ainda enfrentam uma dissidência. Campanha eleitoral será um avanço se debater reformas
A aliança Marina Silva-Eduardo Campos, uma espécie de ponto fora da curva, traz um grande risco em potencial para a reeleição de Dilma Rousseff porque, entre outros motivos, tira do tabuleiro o jogo predileto petista, o de enfrentar os tucanos, os quais o PT já apendeu a derrotar. A presidente Dilma, no entanto, até que pesquisas mostrem o contrário, continua a grande favorita à reeleição.
Antes de mais nada, a aliança Marina-Campos, passada a euforia inicial, precisa vencer um percurso acidentado em busca de um programa comum que atenda à visão de Brasil de universos distantes entre si como, por exemplo, ambientalistas e o agronegócio.
Ensina a História que mudanças profundas costumam ocorrer quando há dissidências no bloco político no poder. Na democracia ou fora dela. Na ditadura, o mais claro exemplo, e próximo, é o da redemocratização brasileira, viabilizada, sem traumas, pelo racha no bloco civil e militar que havia 25 anos dava as cartas. Na fronteira ao Sul, há o caso em andamento na Argentina em que o ramo kirchnerista, com sonhos de perpetuação na Casa Rosada, pode vir a ser derrotado por um grupo dissidente do próprio peronismo.
No enfrentamento de dissidentes e da oposição já estabelecida, Dilma e PT têm o flanco vulnerável do esgotamento do modelo econômico lastreado em consumo sem investimentos e elevados gastos públicos. Dilma tentou criar uma “nova matriz econômica”, com juros baixos, câmbio desvalorizado e muita injeção de dinheiro público, proveniente de endividamento, pela mão dirigista do BNDES. Não deu certo. Colheu mais inflação, desequilíbrio nas finanças públicas (que tenta mascarar, em vão, pela "contabilidade criativa") e deterioração das contas externas. Na edição de ontem, o “New York Times”, em editorial, tratou de problemas que Dilma enfrenta, entre eles uma infraestrutura que ajuda a encarecer as mercadorias nas cidades e a baixa qualidade da educação.
Compõe o cenário a previsão de baixo crescimento confirmada anteontem pelo FMI, de 2,5%, para o ano que vem, idêntica à estimativa para este ano. A projeção de 2014 recuou 0,7 ponto percentual em relação à anterior.
Há, ainda, as manifestações, com características inéditas de violência, fato que precisa ser decifrado por governos e elites. Afinal, a renda subiu, o desemprego caiu e tudo parecia róseo, segundo o discurso oficial. Mas as ruas demonstram que não. Há um mal-estar assentado muito provavelmente na falta de perspectiva de uma juventude que não consegue boa qualificação no ensino público, padece, como a maioria da população, para se locomover nas regiões metropolitanas e tem sido castigada pela inflação, entre outras mazelas. A tal “nova” classe média pode estar se desiludindo.
É importante que o quadro político-eleitoral favoreça uma discussão profunda sobre a retomada das reformas (do Estado, tributária, previdenciária, trabalhista, política). Cada dia mais necessárias para abrir mais um ciclo de crescimento
A demagogia da mobilidade - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 10/10
Ao levantar a bandeira (eleitoral) da mobilidade urbana, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e o secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto, assumiram o papel de defensores dos sem-carro e passaram a combater, sem pensar nas consequências, a multidão dos que se atrevem a sair às ruas em seus automóveis, mesmo tendo de enfrentar grandes congestionamentos todos os dias. Os congestionamentos são cada vez maiores, mas a dupla já começa a acumular resultados "positivos" nessa batalha, mais do que ousada, demagógica.
Ela deve melhorar a arrecadação da Prefeitura com o aumento das multas de trânsito e, assim, ajudar a pagar os subsídios às empresas de ônibus, que, com o congelamento da tarifa, devem atingir no próximo ano a impressionante quantia de R$ 1,65 bilhão.
Estima-se que os recursos provenientes das multas crescerão 22% em 2014, atingindo R$ 1,2 bilhão, um novo recorde. Nos primeiros oito meses deste ano, dos 6,4 milhões de multas aplicadas aos motoristas que circulam pela capital, 352,5 mil foram flagrantes de invasões em corredores e faixas exclusivas de ônibus, registrados por um exército de 1,5 mil fiscais de trânsito da CET e mais 690 da São Paulo Transportes (SPTrans).
Os donos dos 7 milhões de veículos da capital parecem não ter importância. Eles seriam apenas pessoas egoístas que rejeitam o transporte público. É como se não tivessem compromissos diários, serviços a prestar e nenhuma relevância para a vida econômica e social da cidade.
Tanto é assim que, nas próximas semanas, aos marronzinhos se somarão 200 novos radares para ajudar na batalha contra esses paulistanos que não resistem à tentação de circular pelos corredores e faixas de ônibus - espaços em grande parte vazios -, para tentar chegar a tempo aos seus compromissos.
Essa má vontade com o transporte individual prejudica a cidade. Não se discute a necessidade de dar prioridade ao transporte público e, no caso dos ônibus, de aumentar sua velocidade.
Mas não é preciso fazer isso criando dificuldades para os que usam o carro como instrumento de trabalho. Especialmente para aqueles - como médicos e enfermeiros, para citar dois exemplos - cuja profissão tem exigências que o transporte público não consegue atender.
Portanto, em vez de tratar o transporte individual como egoísta e elitista, é preciso estudar a fundo o papel que ele desempenha na vida de grande parte da população. Quanto aos paulistanos que usam ônibus, seus problemas são a falta de conforto, de itinerários que atendam a suas necessidades e a lentidão.
Por isso, entre ficar espremidos em ônibus superlotados, depois de longa espera nas filas dos pontos, e suportar os congestionamentos, os que podem preferem esta última opção.
No lugar de implantar, sem planejamento e a toque de caixa, as faixas exclusivas que servirão de cenários para os próximos programas eleitorais do PT na campanha para o governo do Estado, Haddad e Tatto deveriam adotar um plano capaz de harmonizar a utilização de carros com o transporte público, de acordo com as necessidades das várias regiões da cidade.
Antes de reduzir o espaço destinado aos carros para forçar seus proprietários a deixá-los nas garagens, é preciso criar mais vagas de estacionamento para eles, com a construção - há muito prometida e nunca concretizada - de garagens subterrâneas. E seria bom também retomar o plano de transporte do governo Marta Suplicy que deixava os corredores apenas para os ônibus maiores. Os veículos de média e pequena capacidade seriam os alimentadores dessas linhas-tronco.
Hoje, o que se vê são todos esses veículos, às vezes quase vazios, disputando entre si aquele espaço. E muitos invadem as poucas faixas destinadas aos carros para fugir do congestionamento nos corredores e faixas.
É preciso, em suma, mais planejamento e menos demagogia.
Ao levantar a bandeira (eleitoral) da mobilidade urbana, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e o secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto, assumiram o papel de defensores dos sem-carro e passaram a combater, sem pensar nas consequências, a multidão dos que se atrevem a sair às ruas em seus automóveis, mesmo tendo de enfrentar grandes congestionamentos todos os dias. Os congestionamentos são cada vez maiores, mas a dupla já começa a acumular resultados "positivos" nessa batalha, mais do que ousada, demagógica.
Ela deve melhorar a arrecadação da Prefeitura com o aumento das multas de trânsito e, assim, ajudar a pagar os subsídios às empresas de ônibus, que, com o congelamento da tarifa, devem atingir no próximo ano a impressionante quantia de R$ 1,65 bilhão.
Estima-se que os recursos provenientes das multas crescerão 22% em 2014, atingindo R$ 1,2 bilhão, um novo recorde. Nos primeiros oito meses deste ano, dos 6,4 milhões de multas aplicadas aos motoristas que circulam pela capital, 352,5 mil foram flagrantes de invasões em corredores e faixas exclusivas de ônibus, registrados por um exército de 1,5 mil fiscais de trânsito da CET e mais 690 da São Paulo Transportes (SPTrans).
Os donos dos 7 milhões de veículos da capital parecem não ter importância. Eles seriam apenas pessoas egoístas que rejeitam o transporte público. É como se não tivessem compromissos diários, serviços a prestar e nenhuma relevância para a vida econômica e social da cidade.
Tanto é assim que, nas próximas semanas, aos marronzinhos se somarão 200 novos radares para ajudar na batalha contra esses paulistanos que não resistem à tentação de circular pelos corredores e faixas de ônibus - espaços em grande parte vazios -, para tentar chegar a tempo aos seus compromissos.
Essa má vontade com o transporte individual prejudica a cidade. Não se discute a necessidade de dar prioridade ao transporte público e, no caso dos ônibus, de aumentar sua velocidade.
Mas não é preciso fazer isso criando dificuldades para os que usam o carro como instrumento de trabalho. Especialmente para aqueles - como médicos e enfermeiros, para citar dois exemplos - cuja profissão tem exigências que o transporte público não consegue atender.
Portanto, em vez de tratar o transporte individual como egoísta e elitista, é preciso estudar a fundo o papel que ele desempenha na vida de grande parte da população. Quanto aos paulistanos que usam ônibus, seus problemas são a falta de conforto, de itinerários que atendam a suas necessidades e a lentidão.
Por isso, entre ficar espremidos em ônibus superlotados, depois de longa espera nas filas dos pontos, e suportar os congestionamentos, os que podem preferem esta última opção.
No lugar de implantar, sem planejamento e a toque de caixa, as faixas exclusivas que servirão de cenários para os próximos programas eleitorais do PT na campanha para o governo do Estado, Haddad e Tatto deveriam adotar um plano capaz de harmonizar a utilização de carros com o transporte público, de acordo com as necessidades das várias regiões da cidade.
Antes de reduzir o espaço destinado aos carros para forçar seus proprietários a deixá-los nas garagens, é preciso criar mais vagas de estacionamento para eles, com a construção - há muito prometida e nunca concretizada - de garagens subterrâneas. E seria bom também retomar o plano de transporte do governo Marta Suplicy que deixava os corredores apenas para os ônibus maiores. Os veículos de média e pequena capacidade seriam os alimentadores dessas linhas-tronco.
Hoje, o que se vê são todos esses veículos, às vezes quase vazios, disputando entre si aquele espaço. E muitos invadem as poucas faixas destinadas aos carros para fugir do congestionamento nos corredores e faixas.
É preciso, em suma, mais planejamento e menos demagogia.
Cúmplices do vandalismo - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 10/10
Tão preocupante quanto a violência dos black blocs é a construção, nas universidades, de um arcabouço teórico que justifica a depredação verificada em grandes cidades brasileiras
Depois da baderna promovida no Sete de Setembro, os black blocs voltaram com força à cena pública, no embalo da greve dos professores no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nesta semana foram registradas as já conhecidas cenas de violência e depredação que não pouparam nada que estivesse no caminho dos vândalos mascarados. Apostando no despreparo das polícias, que muitas vezes respondem de forma desproporcional, piorando os confrontos, os black blocs espantaram das ruas os cidadãos que protestaram em junho, e agora encontraram um novo pretexto para dar vazão a impulsos de destruição que precisam ser contidos o quanto antes.
Nesse sentido, leis como a aprovada no Rio de Janeiro, que proíbe máscaras em manifestações, são mais que necessárias no cenário atual. A Constituição, que garante em seu artigo 5.º o direito à liberdade de expressão, já faz a ressalva de que é vedado o anonimato. Não vivemos em um Estado totalitário aos moldes socialistas, em que ser identificado em um protesto pacífico contra o governo poderia render consequências funestas. No contexto brasileiro, não existe nenhuma razão que justifique esconder o rosto quando há o objetivo de se manifestar pacificamente. Ao recorrer às máscaras, os black blocs anunciam de antemão seu intento criminoso de usar a violência para conseguir seus objetivos.
No entanto, além de criticar os métodos dos black blocs, é preciso chamar a atenção para uma tendência crescente: a de justificar a violência como meio legítimo de protesto em quaisquer circunstâncias. Como salientou o sociólogo Demétrio Magnoli em artigo publicado nesta Gazeta semanas atrás, a construção de um arcabouço intelectual para defender o uso da violência remonta aos chamados “autonomistas”, na Itália dos anos 70. Suas lições foram aprendidas pelos terroristas daquele país – alguns dos quais viveram ou ainda vivem muito bem, obrigado, no Brasil, protegidos por absurdos asilos ou trabalhando para partidos de esquerda, como Cesare Battisti e Achille Lollo.
A herança dos autonomistas italianos foi recolhida por intelectuais que estão atualmente na academia, formando os nossos jovens. Magnoli cita dois casos, o de Rafael Alcadipani Silveira, para quem os jovens das periferias “já são vítimas da violência cotidiana por parte do Estado e por isso os protestos violentos passam a fazer sentido para eles”, e de Pablo Ortellado, para quem a estratégia dos black blocs não é violenta por estar orientada a coisas, e não a pessoas. “A destruição de propriedade sem outro propósito que o de demonstrar descontentamento simboliza, e apenas simboliza, a ojeriza à exploração econômica ou à dominação do Estado”, escreveu em sua página no Facebook, acrescentando que a tática dos black blocs “deve ser entendida mais na interface da política com a arte do que da política com o crime”. Silveira leciona na Fundação Getulio Vargas, em São Paulo; Ortellado, na USP (que, talvez não por coincidência, esteja vivendo episódios similares de vandalismo, com uma nova invasão à reitoria).
Mas eles não são os únicos. “Como protestar pela palavra se é ela o suporte por meio do qual o Estado de Direito exerce violência? É preciso criar novas formas de comunicar: o Black Bloc pode ser uma delas”, diz o professor de Teoria Política Nildo Avelino, da Universidade Federal da Paraíba. São opiniões que não surpreendem, quando se leva em conta que um dos mais incensados intelectuais de esquerda da atualidade, Slavoj Zizek, defende a “violência revolucionária” como uma “terapia de choque”, uma resposta necessária para abalar as estruturas da sociedade.
É com esse nível de agressão à democracia que os professores da rede pública estão flertando quando acolhem os black blocs em suas manifestações, chegando ao cúmulo de entoar bordões como “uh, é black profes”, ouvido no Rio de Janeiro. Na menos pior das hipóteses, estão se aproveitando do vandalismo para forçar o governo a negociar, o que já é grave o suficiente, pois indica a prevalência de uma mentalidade segundo a qual os fins justificam os meios. No pior dos cenários, também os docentes se deixaram contaminar pela justificação intelectual da violência, mentalidade inaceitável, especialmente quando se trata dos responsáveis por formar nossa juventude.
Tão preocupante quanto a violência dos black blocs é a construção, nas universidades, de um arcabouço teórico que justifica a depredação verificada em grandes cidades brasileiras
Depois da baderna promovida no Sete de Setembro, os black blocs voltaram com força à cena pública, no embalo da greve dos professores no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nesta semana foram registradas as já conhecidas cenas de violência e depredação que não pouparam nada que estivesse no caminho dos vândalos mascarados. Apostando no despreparo das polícias, que muitas vezes respondem de forma desproporcional, piorando os confrontos, os black blocs espantaram das ruas os cidadãos que protestaram em junho, e agora encontraram um novo pretexto para dar vazão a impulsos de destruição que precisam ser contidos o quanto antes.
Nesse sentido, leis como a aprovada no Rio de Janeiro, que proíbe máscaras em manifestações, são mais que necessárias no cenário atual. A Constituição, que garante em seu artigo 5.º o direito à liberdade de expressão, já faz a ressalva de que é vedado o anonimato. Não vivemos em um Estado totalitário aos moldes socialistas, em que ser identificado em um protesto pacífico contra o governo poderia render consequências funestas. No contexto brasileiro, não existe nenhuma razão que justifique esconder o rosto quando há o objetivo de se manifestar pacificamente. Ao recorrer às máscaras, os black blocs anunciam de antemão seu intento criminoso de usar a violência para conseguir seus objetivos.
No entanto, além de criticar os métodos dos black blocs, é preciso chamar a atenção para uma tendência crescente: a de justificar a violência como meio legítimo de protesto em quaisquer circunstâncias. Como salientou o sociólogo Demétrio Magnoli em artigo publicado nesta Gazeta semanas atrás, a construção de um arcabouço intelectual para defender o uso da violência remonta aos chamados “autonomistas”, na Itália dos anos 70. Suas lições foram aprendidas pelos terroristas daquele país – alguns dos quais viveram ou ainda vivem muito bem, obrigado, no Brasil, protegidos por absurdos asilos ou trabalhando para partidos de esquerda, como Cesare Battisti e Achille Lollo.
A herança dos autonomistas italianos foi recolhida por intelectuais que estão atualmente na academia, formando os nossos jovens. Magnoli cita dois casos, o de Rafael Alcadipani Silveira, para quem os jovens das periferias “já são vítimas da violência cotidiana por parte do Estado e por isso os protestos violentos passam a fazer sentido para eles”, e de Pablo Ortellado, para quem a estratégia dos black blocs não é violenta por estar orientada a coisas, e não a pessoas. “A destruição de propriedade sem outro propósito que o de demonstrar descontentamento simboliza, e apenas simboliza, a ojeriza à exploração econômica ou à dominação do Estado”, escreveu em sua página no Facebook, acrescentando que a tática dos black blocs “deve ser entendida mais na interface da política com a arte do que da política com o crime”. Silveira leciona na Fundação Getulio Vargas, em São Paulo; Ortellado, na USP (que, talvez não por coincidência, esteja vivendo episódios similares de vandalismo, com uma nova invasão à reitoria).
Mas eles não são os únicos. “Como protestar pela palavra se é ela o suporte por meio do qual o Estado de Direito exerce violência? É preciso criar novas formas de comunicar: o Black Bloc pode ser uma delas”, diz o professor de Teoria Política Nildo Avelino, da Universidade Federal da Paraíba. São opiniões que não surpreendem, quando se leva em conta que um dos mais incensados intelectuais de esquerda da atualidade, Slavoj Zizek, defende a “violência revolucionária” como uma “terapia de choque”, uma resposta necessária para abalar as estruturas da sociedade.
É com esse nível de agressão à democracia que os professores da rede pública estão flertando quando acolhem os black blocs em suas manifestações, chegando ao cúmulo de entoar bordões como “uh, é black profes”, ouvido no Rio de Janeiro. Na menos pior das hipóteses, estão se aproveitando do vandalismo para forçar o governo a negociar, o que já é grave o suficiente, pois indica a prevalência de uma mentalidade segundo a qual os fins justificam os meios. No pior dos cenários, também os docentes se deixaram contaminar pela justificação intelectual da violência, mentalidade inaceitável, especialmente quando se trata dos responsáveis por formar nossa juventude.
Mais rigor contra más faculdades - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 10/10
O sinal vermelho pisca incessantemente no ensino superior brasileiro. Na semana passada, nossa única universidade colocada entre as 200 melhores do mundo, a de São Paulo (USP), passou a figurar no patamar da 226ª à 250ª, conforme o ranking da Times Higher Education para o período 2013-2014. Agora, o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) conferiu notas 1 e 2 (numa escala que vai até 5) a 29,99% de 7.228 cursos avaliados no país, resultado de provas aplicadas a 536 mil estudantes do penúltimo e do último semestre de 1.646 instituições.
Administração, ciências contábeis, ciências econômicas, comunicação social, design, direito, psicologia, relações internacionais, secretariado executivo, turismo, gestão comercial, gestão de recursos humanos, gestão financeira, logística, marketing e processos gerenciais foram os cursos avaliados, sendo 10 de bacharelado de ciências sociais aplicadas, humanas e áreas afins, além de seis de tecnologia. Os números são claros e incontestáveis: um terço deles tem má qualidade. Significa que põem na rua profissionais despreparados, em prejuízo deles mesmos, em primeiro lugar, mas, em última instância, de todo o país.
A deficiência certamente começa de baixo, dos ensinos fundamental e médio, o que não exime de responsabilidade as instituições da ponta de cima do sistema educacional. Tampouco o governo está livre de responder inclusive pela rede privada. Afinal, o Enade, aplicado desde 2004, com foco na avaliação dos conteúdos programáticos dos cursos, precisa ter consequências. Não pode ser reles indicador de qualidade. Se faculdades comprovadamente insatisfatórias continuam abertas, sem que ao menos a oferta de vagas seja limitada e o vestibular, suspenso, o Estado é omisso.
E a omissão sai cara. Cursos insatisfatórios são indústria de perpetuação da pobreza. Gasta-se tempo e dinheiro sem que se tenha condições de chegar a lugar algum. Se o ensino é precário, portanto, uma providência imediata deve ser o corte do Fundo de Financiamento Estudantil para novas matrículas. Programa do Ministério da Educação, o Fies apenas deve contemplar alunos matriculados em faculdades com nota 3 (regular) a 5 (excelente) no Enade. Eventual desobservância da regra premia a picaretagem e penaliza duplamente o contribuinte, pois o dinheiro dos impostos não retorna à sociedade.
O rigor do MEC não pode, naturalmente, ser menor em relação às unidades da rede pública tidas como insatisfatórias. Em ambos os casos, cabe ao governo, enfim, investigar a fundo as razões de tão elevado número de instituições mal avaliadas. O avanço a ser observar nesta edição do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes é que apenas 1,8% dos referidos cursos não passaram por seu crivo, percentual que chegou a 26,6% em 2009. Por sua vez, a distorção dificulta a comparação entre os dois momentos, como o fato de 37,8% terem sido classificadas como regulares e 10,7% de excelência naquele ano, percentuais que subiram, respectivamente, para 43,9% e 24,4% agora.
Administração, ciências contábeis, ciências econômicas, comunicação social, design, direito, psicologia, relações internacionais, secretariado executivo, turismo, gestão comercial, gestão de recursos humanos, gestão financeira, logística, marketing e processos gerenciais foram os cursos avaliados, sendo 10 de bacharelado de ciências sociais aplicadas, humanas e áreas afins, além de seis de tecnologia. Os números são claros e incontestáveis: um terço deles tem má qualidade. Significa que põem na rua profissionais despreparados, em prejuízo deles mesmos, em primeiro lugar, mas, em última instância, de todo o país.
A deficiência certamente começa de baixo, dos ensinos fundamental e médio, o que não exime de responsabilidade as instituições da ponta de cima do sistema educacional. Tampouco o governo está livre de responder inclusive pela rede privada. Afinal, o Enade, aplicado desde 2004, com foco na avaliação dos conteúdos programáticos dos cursos, precisa ter consequências. Não pode ser reles indicador de qualidade. Se faculdades comprovadamente insatisfatórias continuam abertas, sem que ao menos a oferta de vagas seja limitada e o vestibular, suspenso, o Estado é omisso.
E a omissão sai cara. Cursos insatisfatórios são indústria de perpetuação da pobreza. Gasta-se tempo e dinheiro sem que se tenha condições de chegar a lugar algum. Se o ensino é precário, portanto, uma providência imediata deve ser o corte do Fundo de Financiamento Estudantil para novas matrículas. Programa do Ministério da Educação, o Fies apenas deve contemplar alunos matriculados em faculdades com nota 3 (regular) a 5 (excelente) no Enade. Eventual desobservância da regra premia a picaretagem e penaliza duplamente o contribuinte, pois o dinheiro dos impostos não retorna à sociedade.
O rigor do MEC não pode, naturalmente, ser menor em relação às unidades da rede pública tidas como insatisfatórias. Em ambos os casos, cabe ao governo, enfim, investigar a fundo as razões de tão elevado número de instituições mal avaliadas. O avanço a ser observar nesta edição do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes é que apenas 1,8% dos referidos cursos não passaram por seu crivo, percentual que chegou a 26,6% em 2009. Por sua vez, a distorção dificulta a comparação entre os dois momentos, como o fato de 37,8% terem sido classificadas como regulares e 10,7% de excelência naquele ano, percentuais que subiram, respectivamente, para 43,9% e 24,4% agora.
Reação ao vandalismo - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 10/10
Governos e autoridades policiais do Rio e de São Paulo começaram a adotar esta semana uma série de medidas para conter depredações de bens públicos e privados, agressões e ataques à polícia, protagonizados por manifestantes – ou por marginais infiltrados nos movimentos reivindicatórios. O governo paulista correu o risco de ser exposto a críticas pesadas, com a decisão de autorizar a polícia a voltar a usar balas de borracha para conter tumultos. E um delegado chegou a enquadrar autores de atos violentos na Lei de Segurança Nacional, uma legislação de exceção, remanescente do regime militar, como tentativa extrema de desencorajar a violência que vem descaracterizando os protestos.
Nos dois casos, o setor público se socorre do que tem à mão para, com o apoio inclusive de especialistas em segurança e, no caso da Lei de Segurança, de respeitáveis juristas, fazer valer a ordem. No Rio, a população está traumatizada com a possibilidade de repetição dos atos que depredaram instituições como o Theatro Municipal e levaram a uma tentativa de incêndio da Câmara Municipal. Em São Paulo, a situação é a mesma, depois de ataques a instalações públicas e privadas e a confrontos diretos de mascarados com a polícia.
Em ambos os casos, ficou evidente que a radicalização já não é um gesto isolado e ocasional em meio à tensão presente nas ruas. O que se vê é a ação deliberada para a violência, com seus protagonistas agindo de forma planejada e articulada para quebrar, incendiar e afrontar as forças de segurança. Ainda que algumas metodologias da reação dos governantes sejam questionáveis, especialmente nos casos que configuram excesso policial, parece não haver dúvida de que a maioria da população apoia medidas que garantam a segurança e a ordem pública. Um contingente minoritário optou pela agressão sem limites, não só contra o patrimônio, com ações violentas que põem em risco, além dos policiais, os trabalhadores do transporte coletivo, do comércio e de repartições públicas. São atitudes que ultrapassam, e muito, o que genericamente, desde junho, define-se como vandalismo.
Os destruidores, em especial os que se apresentam com os rostos cobertos, não são militantes, mas boicotadores de manifestações democráticas que, na maioria dos casos, expressam apelos por demandas da população ou de categorias específicas, como é o caso dos protestos recentes de professores. Conter os radicais, enquadrá-los no que determina a lei e puni-los é a melhor forma de preservar o direito de quem se manifesta de forma civilizada. O vandalismo, sob qualquer pretexto, não tem nenhuma contribuição a dar às mobilizações, à política e à democracia.
Governos e autoridades policiais do Rio e de São Paulo começaram a adotar esta semana uma série de medidas para conter depredações de bens públicos e privados, agressões e ataques à polícia, protagonizados por manifestantes – ou por marginais infiltrados nos movimentos reivindicatórios. O governo paulista correu o risco de ser exposto a críticas pesadas, com a decisão de autorizar a polícia a voltar a usar balas de borracha para conter tumultos. E um delegado chegou a enquadrar autores de atos violentos na Lei de Segurança Nacional, uma legislação de exceção, remanescente do regime militar, como tentativa extrema de desencorajar a violência que vem descaracterizando os protestos.
Nos dois casos, o setor público se socorre do que tem à mão para, com o apoio inclusive de especialistas em segurança e, no caso da Lei de Segurança, de respeitáveis juristas, fazer valer a ordem. No Rio, a população está traumatizada com a possibilidade de repetição dos atos que depredaram instituições como o Theatro Municipal e levaram a uma tentativa de incêndio da Câmara Municipal. Em São Paulo, a situação é a mesma, depois de ataques a instalações públicas e privadas e a confrontos diretos de mascarados com a polícia.
Em ambos os casos, ficou evidente que a radicalização já não é um gesto isolado e ocasional em meio à tensão presente nas ruas. O que se vê é a ação deliberada para a violência, com seus protagonistas agindo de forma planejada e articulada para quebrar, incendiar e afrontar as forças de segurança. Ainda que algumas metodologias da reação dos governantes sejam questionáveis, especialmente nos casos que configuram excesso policial, parece não haver dúvida de que a maioria da população apoia medidas que garantam a segurança e a ordem pública. Um contingente minoritário optou pela agressão sem limites, não só contra o patrimônio, com ações violentas que põem em risco, além dos policiais, os trabalhadores do transporte coletivo, do comércio e de repartições públicas. São atitudes que ultrapassam, e muito, o que genericamente, desde junho, define-se como vandalismo.
Os destruidores, em especial os que se apresentam com os rostos cobertos, não são militantes, mas boicotadores de manifestações democráticas que, na maioria dos casos, expressam apelos por demandas da população ou de categorias específicas, como é o caso dos protestos recentes de professores. Conter os radicais, enquadrá-los no que determina a lei e puni-los é a melhor forma de preservar o direito de quem se manifesta de forma civilizada. O vandalismo, sob qualquer pretexto, não tem nenhuma contribuição a dar às mobilizações, à política e à democracia.
Cortar pela raiz - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 10/10
Projeto de lei que inibe criação de partidos políticos é bem-vindo, mas Congresso precisa ir além e instituir uma cláusula de desempenho
Não chega a ser a salvação da lavoura em que se cultivam as legendas de aluguel, mas o projeto de lei que inibe a criação de partidos políticos e o troca-troca entre as agremiações tem seus méritos.
Aprovado anteontem no Senado, o texto --que segue para sanção presidencial-- deixa claro que os recursos do Fundo Partidário, assim como o tempo de propaganda política no rádio e na televisão, serão divididos entre as siglas de maneira proporcional ao número de deputados federais eleitos no pleito imediatamente anterior.
Trata-se de mudança significativa em relação às regras atuais. Hoje, quando um deputado migra de uma agremiação para outra, ele leva consigo uma fatia do latifúndio das benesses partidárias.
O entendimento, nada explícito na lei sobre partidos políticos, foi consagrado no ano passado pelo Tribunal Superior Eleitoral durante julgamento de demanda do PSD.
A sigla então recém-criada pelo ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab conseguiu, na prática, transformar Fundo Partidário e propaganda eleitoral em atributos pessoais de cada deputado --e não da legenda, como deveria ser.
O projeto ora aprovado pelo Congresso Nacional corrige essa evidente distorção, que vinha distribuindo recursos públicos volumosos a agremiações antes mesmo de elas passarem pelo teste das urnas --casos do próprio PSD, do Pros (Partido Republicano da Ordem Social) e do Solidariedade.
Seria ingênuo supor que a nova lei estabelecerá um regime de plena fidelidade partidária no Brasil. Eliminará, porém, boa parte dos estímulos existentes para a criação de novas legendas.
É razoável supor que, na próxima quadratura, somente grupos que têm verdadeira pretensão de representar algum segmento populacional se arriscarão a lançar suas sementes --como parece ser o caso da Rede Sustentabilidade, de resto atingida pelas novas regras.
Além disso, a lei desestimulará o bandeamento de deputados. Das quase 60 migrações registradas na Câmara neste ano, 37 referem-se a parlamentares que se filiaram ao Solidariedade ou ao Pros. Nos Estados, foram 139 transferências, 53 das quais para as novas siglas --isentas das normas da fidelidade.
É preciso ir além, contudo. As benesses eleitorais são pagas pelos contribuintes. Não faz sentido que a elas tenham pleno direito partidos sem representatividade.
Insista-se: passou da hora de o Congresso aprovar uma cláusula de desempenho, restringindo Fundo Partidário e tempo de TV às agremiações de fato apoiadas pelos eleitores. A política brasileira precisa deixar de ser campo fértil para ervas daninhas.
Projeto de lei que inibe criação de partidos políticos é bem-vindo, mas Congresso precisa ir além e instituir uma cláusula de desempenho
Não chega a ser a salvação da lavoura em que se cultivam as legendas de aluguel, mas o projeto de lei que inibe a criação de partidos políticos e o troca-troca entre as agremiações tem seus méritos.
Aprovado anteontem no Senado, o texto --que segue para sanção presidencial-- deixa claro que os recursos do Fundo Partidário, assim como o tempo de propaganda política no rádio e na televisão, serão divididos entre as siglas de maneira proporcional ao número de deputados federais eleitos no pleito imediatamente anterior.
Trata-se de mudança significativa em relação às regras atuais. Hoje, quando um deputado migra de uma agremiação para outra, ele leva consigo uma fatia do latifúndio das benesses partidárias.
O entendimento, nada explícito na lei sobre partidos políticos, foi consagrado no ano passado pelo Tribunal Superior Eleitoral durante julgamento de demanda do PSD.
A sigla então recém-criada pelo ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab conseguiu, na prática, transformar Fundo Partidário e propaganda eleitoral em atributos pessoais de cada deputado --e não da legenda, como deveria ser.
O projeto ora aprovado pelo Congresso Nacional corrige essa evidente distorção, que vinha distribuindo recursos públicos volumosos a agremiações antes mesmo de elas passarem pelo teste das urnas --casos do próprio PSD, do Pros (Partido Republicano da Ordem Social) e do Solidariedade.
Seria ingênuo supor que a nova lei estabelecerá um regime de plena fidelidade partidária no Brasil. Eliminará, porém, boa parte dos estímulos existentes para a criação de novas legendas.
É razoável supor que, na próxima quadratura, somente grupos que têm verdadeira pretensão de representar algum segmento populacional se arriscarão a lançar suas sementes --como parece ser o caso da Rede Sustentabilidade, de resto atingida pelas novas regras.
Além disso, a lei desestimulará o bandeamento de deputados. Das quase 60 migrações registradas na Câmara neste ano, 37 referem-se a parlamentares que se filiaram ao Solidariedade ou ao Pros. Nos Estados, foram 139 transferências, 53 das quais para as novas siglas --isentas das normas da fidelidade.
É preciso ir além, contudo. As benesses eleitorais são pagas pelos contribuintes. Não faz sentido que a elas tenham pleno direito partidos sem representatividade.
Insista-se: passou da hora de o Congresso aprovar uma cláusula de desempenho, restringindo Fundo Partidário e tempo de TV às agremiações de fato apoiadas pelos eleitores. A política brasileira precisa deixar de ser campo fértil para ervas daninhas.
O problema dos portos - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 10/10
Também as licitações de áreas portuárias anunciadas pelo governo como parte do plano de modernização e ampliação do sistema portuário correm o risco de fracasso. É mais um problema que, por não ter conseguido definir um modelo de privatização adequado, o governo enfrenta para fazer avançar seu programa de transferência para o setor privado da responsabilidade pela expansão, melhoria e operação de rodovias, ferrovias, aeroportos e portos.
São tantas as divergências entre a proposta do governo para o arrendamento de áreas dos portos que fazem parte do segundo bloco de licitação - entre eles os de Paranaguá, o segundo mais importante do País, e o de São Sebastião - e as expectativas dos envolvidos na questão, como os administradores, os investidores e os usuários, que a consulta pública sobre a questão aberta na semana passada poderá ser encerrada sem que se tenha conseguido estabelecer um modelo aceitável.
O tempo para os acertos é curto, pois a consulta pública ficará aberta só até o dia 25. Até lá, haverá apenas uma audiência pública para discutir as propostas de arrendamento de áreas nos quatro portos que fazem parte do segundo bloco de licitação (os outros são os de Salvador e Aratu, na Bahia). Como só depois de encerrado o prazo para a consulta a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) concluirá a modelagem a ser submetida ao Tribunal de Contas da União (TCU), é pouco provável que a licitação ocorra ainda em 2013. Se as divergências não forem superadas, o atraso será ainda maior.
Tanto no caso de Paranaguá como no de São Sebastião critica-se o fato de os modelos elaborados pelo governo ignorarem completamente o que havia sido discutido pelos interessados e apresentado previamente às autoridades federais.
Para o Porto de Paranaguá, por exemplo, a autarquia estadual responsável por sua administração, a Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina (Appa), elaborou um projeto de concessão baseado no Plano de Desenvolvimento dos Portos Organizados do Estado, uma espécie de plano diretor que aponta as tendências de crescimento do porto nos próximos 20 anos. Mas nada do que os administradores paranaenses e os usuários do porto apresentaram ao governo federal foi aproveitado.
O plano do governo prevê a transformação de 17 áreas em 10 terminais que serão arrendados para a iniciativa privada, em troca de investimentos na infraestrutura, o que inclui a construção de 6 berços de atracação de navios. Estão previstos investimentos de R$ 2,6 bilhões até 2019.
O governo paranaense afirma que o modelo elaborado pela Estruturadora Brasileira de Projetos (EBP) - que vem preparando também outros projetos federais na área de concessão de infraestrutura - não levou em conta características técnicas, comerciais e operacionais do Porto de Paranaguá.
Um dos pontos mais criticados é a proposta de licitação unificada de três áreas independentes já ocupadas. "Vão substituir três operadores por um só. Isso pode inflacionar os preços", disse ao Estado o secretário executivo do Conselho de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), João Arthur Mohr. Já a Federação da Agricultura (Faep) disse, por meio de seu porta-voz, Carlos Albuquerque, que as autoridades federais "jogaram fora" a proposta elaborada pelos paranaenses, o que pode resultar no aumento exponencial das tarifas.
É grande o risco de a questão, que é técnica, ser transferida para o campo jurídico ou transformada em caso político. "Estamos dispostos a questionar na Justiça", disse ao Estado o secretário de Infraestrutura e Logística do Paraná, José Richa Filho. "Vamos até a última instância." O coordenador da bancada paranaense na Câmara, deputado Marcelo Almeida (PMDB), reconhece que o melhor é resolver o problema na esfera técnica. Mas adianta: "Se não der acordo, vamos para o embate".
No caso de São Sebastião, a surpresa da proposta do governo foi causada pelo fato de que ela ignora inteiramente as diretrizes do Plano Integrado Porto-Cidade, que já foi aprovado pelos interessados e aguarda apenas a análise do Ibama.
Também as licitações de áreas portuárias anunciadas pelo governo como parte do plano de modernização e ampliação do sistema portuário correm o risco de fracasso. É mais um problema que, por não ter conseguido definir um modelo de privatização adequado, o governo enfrenta para fazer avançar seu programa de transferência para o setor privado da responsabilidade pela expansão, melhoria e operação de rodovias, ferrovias, aeroportos e portos.
São tantas as divergências entre a proposta do governo para o arrendamento de áreas dos portos que fazem parte do segundo bloco de licitação - entre eles os de Paranaguá, o segundo mais importante do País, e o de São Sebastião - e as expectativas dos envolvidos na questão, como os administradores, os investidores e os usuários, que a consulta pública sobre a questão aberta na semana passada poderá ser encerrada sem que se tenha conseguido estabelecer um modelo aceitável.
O tempo para os acertos é curto, pois a consulta pública ficará aberta só até o dia 25. Até lá, haverá apenas uma audiência pública para discutir as propostas de arrendamento de áreas nos quatro portos que fazem parte do segundo bloco de licitação (os outros são os de Salvador e Aratu, na Bahia). Como só depois de encerrado o prazo para a consulta a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) concluirá a modelagem a ser submetida ao Tribunal de Contas da União (TCU), é pouco provável que a licitação ocorra ainda em 2013. Se as divergências não forem superadas, o atraso será ainda maior.
Tanto no caso de Paranaguá como no de São Sebastião critica-se o fato de os modelos elaborados pelo governo ignorarem completamente o que havia sido discutido pelos interessados e apresentado previamente às autoridades federais.
Para o Porto de Paranaguá, por exemplo, a autarquia estadual responsável por sua administração, a Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina (Appa), elaborou um projeto de concessão baseado no Plano de Desenvolvimento dos Portos Organizados do Estado, uma espécie de plano diretor que aponta as tendências de crescimento do porto nos próximos 20 anos. Mas nada do que os administradores paranaenses e os usuários do porto apresentaram ao governo federal foi aproveitado.
O plano do governo prevê a transformação de 17 áreas em 10 terminais que serão arrendados para a iniciativa privada, em troca de investimentos na infraestrutura, o que inclui a construção de 6 berços de atracação de navios. Estão previstos investimentos de R$ 2,6 bilhões até 2019.
O governo paranaense afirma que o modelo elaborado pela Estruturadora Brasileira de Projetos (EBP) - que vem preparando também outros projetos federais na área de concessão de infraestrutura - não levou em conta características técnicas, comerciais e operacionais do Porto de Paranaguá.
Um dos pontos mais criticados é a proposta de licitação unificada de três áreas independentes já ocupadas. "Vão substituir três operadores por um só. Isso pode inflacionar os preços", disse ao Estado o secretário executivo do Conselho de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), João Arthur Mohr. Já a Federação da Agricultura (Faep) disse, por meio de seu porta-voz, Carlos Albuquerque, que as autoridades federais "jogaram fora" a proposta elaborada pelos paranaenses, o que pode resultar no aumento exponencial das tarifas.
É grande o risco de a questão, que é técnica, ser transferida para o campo jurídico ou transformada em caso político. "Estamos dispostos a questionar na Justiça", disse ao Estado o secretário de Infraestrutura e Logística do Paraná, José Richa Filho. "Vamos até a última instância." O coordenador da bancada paranaense na Câmara, deputado Marcelo Almeida (PMDB), reconhece que o melhor é resolver o problema na esfera técnica. Mas adianta: "Se não der acordo, vamos para o embate".
No caso de São Sebastião, a surpresa da proposta do governo foi causada pelo fato de que ela ignora inteiramente as diretrizes do Plano Integrado Porto-Cidade, que já foi aprovado pelos interessados e aguarda apenas a análise do Ibama.
A censura prévia às biografias - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 10/10
O Procure Saber não exprime o pensamento unânime da classe artística; daí a importância da condenação dos intelectuais aos arroubos censórios do grupo
O debate sobre a exigência de autorização para a publicação de biografias não é novo. Desde o ano passado, espera a vez de entrar na pauta do Supremo uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin), ajuizada pela Associação Nacional dos Editores de Livros para arguir a legalidade de biografados, parentes e representantes proibirem, com base em artigos do Código Civil, a publicação de livros que retratem a vida de personalidades de notória vida pública. A iniciativa dos editores já abordava um problema de fato — o avanço contra o princípio da liberdade de expressão, de que foram vítimas autores de obras biográficas cuja circulação está vedada por decisões judiciais.
Portanto, trata-se de discussão antiga. Mas, nas últimas semanas, o tema ganhou força de um grande debate público, em razão de figuras de ponta da MPB — como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Djavan e outros — terem explicitamente se alinhado ao cantor Roberto Carlos, líder da cruzada contra biografias, sob disfarce de defesa da privacidade..
Reunidos no grupo Procure Saber, esses artistas tisnam as próprias biografias, quando nada pelo fato de, alguns deles, passarem de censurados a agentes da censura. E também por cavalgarem uma esperteza: o grupo surgiu no bojo de uma luta legítima, a defesa de direitos autorais, prerrogativa de quem cria uma obra artística, mas, sabe-se lá em nome de quê, contaminou-se com essa bizarra incursão pelo papel de juízes do que pode e do que não pode ser publicado por biógrafos. Nada diferente da censura que a ditadura lhes impunha. Os compositores do Procure Saber não representam o pensamento unânime da classe artística. Mas é inegável o seu poder de influenciar a opinião pública. Daí a importância de intelectuais que não compartilham com arroubos censórios darem seu testemunho sobre o mal que tais opiniões fazem à cultura do país. Caso, entre outros, de escritores como Ruy Castro, João Ubaldo Ribeiro, Verissimo, Benjamin Moser (autor de uma biografia de Clarice Lispector). A se registrar também a opinião do americano Jon Lee Anderson, biógrafo de Che Guevara: para ele, a censura prévia aproxima o Brasil de países repressores, disse ao GLOBO. O que está em questão não é a ideia de autores ganharem dinheiro com a fama alheia, argumento do Procure Saber, mas a liberdade de expressão. Censurar biografias empobrece a memória do país, pois, ao condicioná-las à prévia apreciação familiar, nelas cola o selo da historiografia chapa branca.
Ao julgar a Adin, o STF deve fazê-lo em coerência com decisões anteriores em que reafirmou o princípio da liberdade de expressão. Para regulá-la, existe o Código Penal, a que se pode recorrer contra jornalistas, escritores, biógrafos, etc. O tribunal precisa tomar uma decisão cristalina a respeito do choque entre o que estabelece os artigos 20 e 21 do CC, base da fúria obscurantista, e a Constituição. A prevalência, com certeza, há de ser a garantia da Carta ao direito à informação.
O Procure Saber não exprime o pensamento unânime da classe artística; daí a importância da condenação dos intelectuais aos arroubos censórios do grupo
O debate sobre a exigência de autorização para a publicação de biografias não é novo. Desde o ano passado, espera a vez de entrar na pauta do Supremo uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin), ajuizada pela Associação Nacional dos Editores de Livros para arguir a legalidade de biografados, parentes e representantes proibirem, com base em artigos do Código Civil, a publicação de livros que retratem a vida de personalidades de notória vida pública. A iniciativa dos editores já abordava um problema de fato — o avanço contra o princípio da liberdade de expressão, de que foram vítimas autores de obras biográficas cuja circulação está vedada por decisões judiciais.
Portanto, trata-se de discussão antiga. Mas, nas últimas semanas, o tema ganhou força de um grande debate público, em razão de figuras de ponta da MPB — como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Djavan e outros — terem explicitamente se alinhado ao cantor Roberto Carlos, líder da cruzada contra biografias, sob disfarce de defesa da privacidade..
Reunidos no grupo Procure Saber, esses artistas tisnam as próprias biografias, quando nada pelo fato de, alguns deles, passarem de censurados a agentes da censura. E também por cavalgarem uma esperteza: o grupo surgiu no bojo de uma luta legítima, a defesa de direitos autorais, prerrogativa de quem cria uma obra artística, mas, sabe-se lá em nome de quê, contaminou-se com essa bizarra incursão pelo papel de juízes do que pode e do que não pode ser publicado por biógrafos. Nada diferente da censura que a ditadura lhes impunha. Os compositores do Procure Saber não representam o pensamento unânime da classe artística. Mas é inegável o seu poder de influenciar a opinião pública. Daí a importância de intelectuais que não compartilham com arroubos censórios darem seu testemunho sobre o mal que tais opiniões fazem à cultura do país. Caso, entre outros, de escritores como Ruy Castro, João Ubaldo Ribeiro, Verissimo, Benjamin Moser (autor de uma biografia de Clarice Lispector). A se registrar também a opinião do americano Jon Lee Anderson, biógrafo de Che Guevara: para ele, a censura prévia aproxima o Brasil de países repressores, disse ao GLOBO. O que está em questão não é a ideia de autores ganharem dinheiro com a fama alheia, argumento do Procure Saber, mas a liberdade de expressão. Censurar biografias empobrece a memória do país, pois, ao condicioná-las à prévia apreciação familiar, nelas cola o selo da historiografia chapa branca.
Ao julgar a Adin, o STF deve fazê-lo em coerência com decisões anteriores em que reafirmou o princípio da liberdade de expressão. Para regulá-la, existe o Código Penal, a que se pode recorrer contra jornalistas, escritores, biógrafos, etc. O tribunal precisa tomar uma decisão cristalina a respeito do choque entre o que estabelece os artigos 20 e 21 do CC, base da fúria obscurantista, e a Constituição. A prevalência, com certeza, há de ser a garantia da Carta ao direito à informação.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“O Estado brasileiro foi apropriado por um partido e seus sócios”
José Serra (PSDB) durante um ataque direto o Partido dos Trabalhadores
PTB EXIGE MINISTÉRIO PARA NÃO VIRAR OPOSIÇÃO
O líder do PTB na Câmara, Jovair Arantes (GO), avisou ao presidente do PTB, Benito Gama, vice-presidente de governo do Banco do Brasil, que a presidente Dilma “terá de negociar cargo na Esplanada” para garantir o apoio da bancada, que ameaça abandonar a base aliada e se bandear para a oposição. O PTB tem 17 deputados federais e o PDT, com 18, tem o Ministério do Trabalho desde o governo Lula.
É DÍVIDA
Segundo Jovair, o Planalto prometeu dar a “próxima vaga” ao PTB, e o partido está de olho na Integração, também pretendido pelo PMDB.
ESTÁ VALENDO
O Ministério do Turismo, nas mãos de Gastão Vieira (MA), também é “azarado” pelo PTB, caso o Ministério da Integração vá para o PMDB.
NINGUÉM MEXE
O senador José Sarney (PMDB-AP) entrou em ação para segurar Gastão Vieira no Turismo, alvo da cobiça do PTB e também do PT.
TERROR NO RIO
Talvez a Polícia Civil e a Agência Brasileira de Inteligência não saibam, mas os Black Blocs planejam manifestação “de arromba”, segunda (21).
SAÍDA DE CID E CIRO FEZ MARINA OPTAR PELO PSB
A saída dos irmãos Cid e Ciro Gomes foi determinante para a opção da ex-senadora Marina Silva pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). Ela não esconde sua mágoa pelos ataques do ex-ministro Ciro Gomes, por isso o PSB jamais foi uma opção. Com a confirmação de que ele e o irmão governador do Ceará se filiaram ao PROS, um partido de aluguel, segundo interlocutores, ela achou que era momento de dar o troco.
EU ESPIONO, TU ESPIONAS
Se consola Dilma, o Canadá foi alvo de espionagem industrial de 20 países, diz o Canadian International Council, fórum de política externa.
IMPOSTÔMETRO
Outro consolo para Dilma: sem prestar serviços, os EUA recolheram US$ 57 bilhões em impostos, segundo o site da revista Fast Company.
LÁ, NÃO
Exportadora de médicos para 70 países, Cuba impede estrangeiros de clinicar, mesmo “companheiros” brasileiros formados na ilha de Fidel.
SOLIDÁRIO A ELE MESMO
O dono do Solidariedade, deputado Paulo Pereira da Silva (SP), diz “não se importar” com dinheiro, mas relatos de suas negociações nada republicanas, sobre partilha do fundo partidário, ainda vão encrencá-lo.
HORA DO RUSH
Não convidem para o mesmo evento sobre mobilidade urbana Lula e Fernando Haddad: o primeiro se orgulha de incentivar consumo em massa de carros, o prefeito luta para tirá-los das ruas São Paulo.
TRIPRESIDENTE
Eleito na terça, o ministro Marco Aurélio, um dos mais admirados magistrados brasileiros, assumirá a presidência do Tribunal Superior Eleitoral pela terceira vez. A posse está marcada para 19 de novembro.
CAPIVARA VERDE
O empresário Airton Garcia, de São Carlos (SP), acusado de crimes ambientais e fundiários, saiu do DEM e filiou-se ao PSB, junto com Marina Silva. Em 2008, foi considerado o candidato mais rico do País.
DELEGADOS NAS URNAS
Exatos 2.052 delegados federais elegem nesta quinta o presidente da ADPF, sua entidade. O atual presidente, Marcos Leôncio, disputa com Fernando Segóvia, corregedor substituto que é ligado à cúpula do DPF.
HIPÓTESE
Aliados de Eduardo Campos cogitam a possibilidade de Walter Feldman (PSB-SP) sair candidato a vice na chapa de Eduardo Campos (PE). Sem ofuscá-lo, Marina Silva (AC) disputaria cadeira ao Senado.
RESISTÊNCIA
Colaboradores da Rede têm descarregado e-mails inconformados com a ida da ex-senadora Marina Silva para o PSB do governador Eduardo Campos (PE) e ameaçam abandonar o projeto à Presidência em 2014.
FOI POR POUCO
Recém-filiado ao Solidariedade, Arthur Maia (BA) fez acordo e resgatou ontem a relatoria do projeto que regulamenta terceirização, que quase parou nas mãos de Ricardo Berzoini (PT) devido à mudança de partido.
SEM MEDO DE ‘SAPINHO’
Inoculada por vírus marqueteiro, Dilma diz que vive “fase de grandes beijos com todo o Brasil”. Traduzindo: quer cair na boca do povo.
PODER SEM PUDOR
ESTADO TOLERANTE
O senador Armando Monteiro Neto (PTB-PE) deu mostras de sua intolerância às criticas e à divergência quando presidiu a Confederação Nacional das Indústrias (CNI). Tem a quem puxar, mas não é ao pai progressista Armando Monteiro Filho, ex-ministro. Parece inspirar-se no avô Armando Monteiro, que foi deputado e também ministro, e proclamava nos tempos de Getúlio Vargas:
- A Justiça é uma tolerância do Estado Novo...
José Serra (PSDB) durante um ataque direto o Partido dos Trabalhadores
PTB EXIGE MINISTÉRIO PARA NÃO VIRAR OPOSIÇÃO
O líder do PTB na Câmara, Jovair Arantes (GO), avisou ao presidente do PTB, Benito Gama, vice-presidente de governo do Banco do Brasil, que a presidente Dilma “terá de negociar cargo na Esplanada” para garantir o apoio da bancada, que ameaça abandonar a base aliada e se bandear para a oposição. O PTB tem 17 deputados federais e o PDT, com 18, tem o Ministério do Trabalho desde o governo Lula.
É DÍVIDA
Segundo Jovair, o Planalto prometeu dar a “próxima vaga” ao PTB, e o partido está de olho na Integração, também pretendido pelo PMDB.
ESTÁ VALENDO
O Ministério do Turismo, nas mãos de Gastão Vieira (MA), também é “azarado” pelo PTB, caso o Ministério da Integração vá para o PMDB.
NINGUÉM MEXE
O senador José Sarney (PMDB-AP) entrou em ação para segurar Gastão Vieira no Turismo, alvo da cobiça do PTB e também do PT.
TERROR NO RIO
Talvez a Polícia Civil e a Agência Brasileira de Inteligência não saibam, mas os Black Blocs planejam manifestação “de arromba”, segunda (21).
SAÍDA DE CID E CIRO FEZ MARINA OPTAR PELO PSB
A saída dos irmãos Cid e Ciro Gomes foi determinante para a opção da ex-senadora Marina Silva pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). Ela não esconde sua mágoa pelos ataques do ex-ministro Ciro Gomes, por isso o PSB jamais foi uma opção. Com a confirmação de que ele e o irmão governador do Ceará se filiaram ao PROS, um partido de aluguel, segundo interlocutores, ela achou que era momento de dar o troco.
EU ESPIONO, TU ESPIONAS
Se consola Dilma, o Canadá foi alvo de espionagem industrial de 20 países, diz o Canadian International Council, fórum de política externa.
IMPOSTÔMETRO
Outro consolo para Dilma: sem prestar serviços, os EUA recolheram US$ 57 bilhões em impostos, segundo o site da revista Fast Company.
LÁ, NÃO
Exportadora de médicos para 70 países, Cuba impede estrangeiros de clinicar, mesmo “companheiros” brasileiros formados na ilha de Fidel.
SOLIDÁRIO A ELE MESMO
O dono do Solidariedade, deputado Paulo Pereira da Silva (SP), diz “não se importar” com dinheiro, mas relatos de suas negociações nada republicanas, sobre partilha do fundo partidário, ainda vão encrencá-lo.
HORA DO RUSH
Não convidem para o mesmo evento sobre mobilidade urbana Lula e Fernando Haddad: o primeiro se orgulha de incentivar consumo em massa de carros, o prefeito luta para tirá-los das ruas São Paulo.
TRIPRESIDENTE
Eleito na terça, o ministro Marco Aurélio, um dos mais admirados magistrados brasileiros, assumirá a presidência do Tribunal Superior Eleitoral pela terceira vez. A posse está marcada para 19 de novembro.
CAPIVARA VERDE
O empresário Airton Garcia, de São Carlos (SP), acusado de crimes ambientais e fundiários, saiu do DEM e filiou-se ao PSB, junto com Marina Silva. Em 2008, foi considerado o candidato mais rico do País.
DELEGADOS NAS URNAS
Exatos 2.052 delegados federais elegem nesta quinta o presidente da ADPF, sua entidade. O atual presidente, Marcos Leôncio, disputa com Fernando Segóvia, corregedor substituto que é ligado à cúpula do DPF.
HIPÓTESE
Aliados de Eduardo Campos cogitam a possibilidade de Walter Feldman (PSB-SP) sair candidato a vice na chapa de Eduardo Campos (PE). Sem ofuscá-lo, Marina Silva (AC) disputaria cadeira ao Senado.
RESISTÊNCIA
Colaboradores da Rede têm descarregado e-mails inconformados com a ida da ex-senadora Marina Silva para o PSB do governador Eduardo Campos (PE) e ameaçam abandonar o projeto à Presidência em 2014.
FOI POR POUCO
Recém-filiado ao Solidariedade, Arthur Maia (BA) fez acordo e resgatou ontem a relatoria do projeto que regulamenta terceirização, que quase parou nas mãos de Ricardo Berzoini (PT) devido à mudança de partido.
SEM MEDO DE ‘SAPINHO’
Inoculada por vírus marqueteiro, Dilma diz que vive “fase de grandes beijos com todo o Brasil”. Traduzindo: quer cair na boca do povo.
PODER SEM PUDOR
ESTADO TOLERANTE
O senador Armando Monteiro Neto (PTB-PE) deu mostras de sua intolerância às criticas e à divergência quando presidiu a Confederação Nacional das Indústrias (CNI). Tem a quem puxar, mas não é ao pai progressista Armando Monteiro Filho, ex-ministro. Parece inspirar-se no avô Armando Monteiro, que foi deputado e também ministro, e proclamava nos tempos de Getúlio Vargas:
- A Justiça é uma tolerância do Estado Novo...
QUINTA NOS JORNAIS
- Globo: Brasil grande: País volta a ter maior taxa de juro real do mundo
- Folha: BC sobe juros a 9,5%, na alta seguida 5ª alta seguida
- Estadão: Copom eleva juro e aponta para taxa em dois dígitos
- Correio: Geovana, 6, a menina que o descaso engoliu
- Valor: BC aumenta Selic e taxa deve voltar a dois dígitos
- Estado de Minas: Escolas se isentam de festa com álcool
- Jornal do Commercio: Venda de 246 planos volta a ser suspensa
- Zero Hora: Juro sobe outra vez e encosta em dois dígitos
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