FOLHA DE SP - 23/08
BC anuncia 'ração semanal' de dólares, medida que não segura valor da moeda, mas evita acidentes
O BANCO CENTRAL do Brasil deu a entender, como era mais ou menos previsível, que não vai tomar atitudes heroicas a fim de lidar com a disparada do dólar, o que seria de resto inócuo. Também indicou, outra vez, que não vai acelerar o passo da alta de juros devido ao risco de inflação maior decorrente da alta do dólar.
O BC anunciou ontem que vai oferecer uma ração semanal de uma espécie de empréstimos em dólar ("leilão de linha": venda de dólares com compromisso de recompra daqui a "x" meses). Uma ração de US$ 1 bilhão por semana. Em tese e na ausência de acidentes outros, isso tranquiliza a praça. No curto prazo, o dólar pode tomar um tombo.
Mas tal medida não serve para segurar o preço do dólar nesse ou naquele degrau. Parece mais com um aumento do estoque de bolsas de sangue num hospital em épocas nas quais ocorrem mais acidentes. Se alguém precisar de sangue, tem. Ou seja, as instituições financeiras podem oferecer dólar a preço e juro razoável para clientes que estejam com a língua de fora.
Por língua de fora entendam-se empresas que tenham problemas com dívidas e rolagem neste período complicado, em que a oferta de dinheiro no mercado mundial (para emergentes) diminuiu e/ou ficou cara demais, quando não desapareceu.
Por exemplo, considere-se o caso elementar de uma empresa que deva em dólar, mas não tenha feito operação financeira para se proteger de alta tão rápida do dólar. Pior: o caso de que empresas e/ou instituições financeiras que em massa receiem disparada ainda maior do dólar e corram ao mercado para se proteger. O dólar ficaria ainda mais caro.
O BC ofereceu condições para que empresas e instituições financeiras se planejem e se acalmem. Oferecendo "empréstimos" (leilão de linha), o Banco Central evita acidentes (por asfixia de dólar) e estresses que podem fazer o dólar dar pulos ainda maiores, por motivos menores, o que pode causar mais acidentes.
O Banco Central já fez "leilões de linha" nesta temporada de estresse. Também o fez em momentos de desastre (2001 e 2002), em 2008 e 2009 (quando o crédito secou mesmo) e em 2011, num final de ano de crise greco-europeia pegando fogo.
Isto posto, os entendidos têm ainda menos ideia de para onde vai o dólar. Desde maio, tem seguido o aumento dos juros no mercado americano, que continuam subindo, mas também ninguém sabe para onde.
Seguindo ou não os juros americanos, é improvável que o dólar se aquiete. O real se desvalorizaria mais cedo ou mais tarde porque estamos consumindo demais, o que engorda nosso deficit externo (diferença entre o que importamos e exportamos em bens e serviços). Um dólar mais caro significa que o mundo está nos dando menos crédito para continuar a consumir. Com a presente revoada de dinheiros para os EUA, há menos crédito ainda.
O real se desvaloriza, pois. Ficamos relativamente mais pobres, talvez invistamos mais. Se o governo/BC segurarem a inflação, as coisas em algum momento melhoram, com dores pelo caminho. Isto é, menos crescimento, menos emprego, salários mais contidos, melhorias para a indústria, pioras para o setor de serviços.
Esta coluna foi concluída antes do anúncio do resultado da reunião do Conselho Monetário Nacional (20h44).
sexta-feira, agosto 23, 2013
Um Deus implacável - JOÃO MELLÃO NETO
O Estado de S.Paulo - 23/08
Tive a oportunidade de ler, uns 20 anos atrás, uma história que, por seu significado, muito me impressionou. Um dentista francês que fora tentar a sorte na América teve como um de seus primeiros clientes um cidadão que se trajava de modo austero e parecia homem de poucas palavras. O tratamento ia ser caro e demorado. Quando o odontólogo apresentou uma prévia do orçamento, o cliente abriu um sorriso amigável, passou-lhe um cartão de visita e foi logo dizendo: "Sou membro da Igreja Presbiteriana da Main Street e o senhor, se quiser, poderá tomar informações a meu respeito por lá".
Nada mais disse, o que deixou o francês intrigado. Ao reportar o ocorrido a um colega mais afeto aos costumes locais, foi tranquilizado: o que o cidadão quis dizer foi: não se preocupe quanto ao pagamento. Tudo foi quitado religiosamente em dia e com isso o gaulês teve sua primeira aula de América. Ele pôde perceber que os americanos honravam, como se sagrada fosse, a palavra que empenhavam.
No início do século passado, em 1904, o sociólogo alemão Max Weber esteve na América. Seu objetivo era claro: desejava conferir pessoalmente algumas características do povo local que já desconfiava que existissem e de suas pesquisas tirou conclusões inéditas e surpreendentes, que não só elevaram sua obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo à condição da mais importante do século 20, como também transformou de vez toda a estrutura da sociologia até então existente - antes lastreada unicamente no marxismo e no conceito materialista de "luta de classes".
Para Weber, a visão de Marx, apesar de seu potencial mobilizador - tanto que perdura até hoje -, nunca deixou de ser um whishful thinking, uma forma marota de atribuir ao próximo a responsabilidade por todas as nossas mazelas. Se a culpa é sempre dos outros, podemos todos nos eximir dos problemas. Nem sequer nos cabe fazer uma autocrítica sincera acerca de nossas eventuais deficiências.
Weber, que posteriormente escreveria um tratado sobre todas as principais religiões, chegou a conclusões opostas. Ao contrário de Marx, entendia que as raízes das nossas misérias, longe de ser materialistas, tinham todas elas um severo componente espiritual. Dependiam da nossa idealização de Deus.
Ao estudar o protestantismo, Weber notou que havia em quase todas as suas denominações um lugar-comum: Deus não perdoava as almas em função de sua vida aqui, na Terra; todos nós já teríamos um destino predeterminado antes mesmo de nascer e não teríamos nenhuma pista a respeito dele. O único indício sobre esse destino seria o grau de sucesso e prosperidade que viríamos a alcançar em nossos empreendimentos. Os ensinamentos de Weber extraídos do protestantismo inspiravam-se em suas vertentes mais radicais, representadas pelas palavras de João Calvino e alastradas pela América. Não por coincidência, foram os seguidores europeus e norte-americanos do teólogo franco-suíço os que lograram alcançar maior êxito na vida.
Segundo Weber, as virtudes associadas à honestidade, solidariedade, cumprimento fiel da palavra dada, somadas a trabalho duro e a padrões austeros de acumulação de riquezas, explicavam esse fenômeno: se todos agissem conforme tais normas, adquiririam já de início uma vantagem comparativa insuperável em relação aos demais.
A ética protestante, ademais, associava-se ao racionalismo na ciência, à jurisprudência, à observação somada à sistematização racional da administração pública. Era, por assim dizer, um desenvolvimento do Iluminismo. Essa ética ajudava, e muito, esse processo.
Paradoxalmente, foi a intransigência quanto aos usos e costumes o que mais contribuiu para seu êxito: aos cidadãos não era tolerado nenhum deslize. Qualquer escorregão ético era visto como um sinal evidente de que quem o cometera não estava entre os agraciados com a bênção divina. E isso não só torturava intimamente o pecador, como acarretava consequências sociais terríveis. As mais suaves implicavam o banimento do convívio em sociedade.
A quem deseje entender melhor esse fenômeno ouso recomendar um filme de décadas atrás chamado A Letra Escarlate. A trama é ambientada em Massachusetts, no século 17. Uma mulher jovem acredita ter perdido o marido (não me recordo das circunstâncias) e se apaixona por outro homem. Acontece que o marido não havia falecido. Tempos depois ele reaparece e a partir daí a vida dela se torna um inferno: as autoridades, para marcá-la como adúltera, ordenam que seja pregada em suas vestes uma enorme letra A de cor escarlate. A sociedade local, como era de prever, passou ostensivamente a evitá-la. E por muitas outras privações ela teve de passar antes que a morte viesse buscá-la.
Diante de toda essa severidade, o catolicismo ficava em desvantagem. Entre nós, católicos, existe o perdão. Isso torna a nossa religião mais humana, porque admite a redenção dos pecados, desde que o fiel demonstre sincero arrependimento. Somos mais tolerantes, mas pagamos um preço por isso.
Pelo sim, pelo não, o fato incontestável é que em quase todas as sociedades europeias são os protestantes que têm os melhores cargos, recebem os salários mais elevados e ocupam postos de liderança na comunidade. Isso não passou despercebido nem por Weber nem pelos pensadores que vieram depois.
Esse fenômeno significa que o protestantismo é, de alguma forma, superior ao catolicismo? Não há evidências sólidas para comprovar a tese. O que se pode afirmar com certeza é que o Deus dos protestantes é mais severo e intransigente que o Deus católico. O Deus protestante é intolerante e intransigente com seus fiéis. Já o Deus dos católicos se destaca por ser misericordioso, perdoar as nossas faltas, ser compreensivo com os pecadores. O Deus protestante conduz seus fiéis a um mundo sem pecado e com mais prosperidade. Mas, sem dúvida, é mais fácil amar o nosso Deus do que amar o Deus dos protestantes.
Tive a oportunidade de ler, uns 20 anos atrás, uma história que, por seu significado, muito me impressionou. Um dentista francês que fora tentar a sorte na América teve como um de seus primeiros clientes um cidadão que se trajava de modo austero e parecia homem de poucas palavras. O tratamento ia ser caro e demorado. Quando o odontólogo apresentou uma prévia do orçamento, o cliente abriu um sorriso amigável, passou-lhe um cartão de visita e foi logo dizendo: "Sou membro da Igreja Presbiteriana da Main Street e o senhor, se quiser, poderá tomar informações a meu respeito por lá".
Nada mais disse, o que deixou o francês intrigado. Ao reportar o ocorrido a um colega mais afeto aos costumes locais, foi tranquilizado: o que o cidadão quis dizer foi: não se preocupe quanto ao pagamento. Tudo foi quitado religiosamente em dia e com isso o gaulês teve sua primeira aula de América. Ele pôde perceber que os americanos honravam, como se sagrada fosse, a palavra que empenhavam.
No início do século passado, em 1904, o sociólogo alemão Max Weber esteve na América. Seu objetivo era claro: desejava conferir pessoalmente algumas características do povo local que já desconfiava que existissem e de suas pesquisas tirou conclusões inéditas e surpreendentes, que não só elevaram sua obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo à condição da mais importante do século 20, como também transformou de vez toda a estrutura da sociologia até então existente - antes lastreada unicamente no marxismo e no conceito materialista de "luta de classes".
Para Weber, a visão de Marx, apesar de seu potencial mobilizador - tanto que perdura até hoje -, nunca deixou de ser um whishful thinking, uma forma marota de atribuir ao próximo a responsabilidade por todas as nossas mazelas. Se a culpa é sempre dos outros, podemos todos nos eximir dos problemas. Nem sequer nos cabe fazer uma autocrítica sincera acerca de nossas eventuais deficiências.
Weber, que posteriormente escreveria um tratado sobre todas as principais religiões, chegou a conclusões opostas. Ao contrário de Marx, entendia que as raízes das nossas misérias, longe de ser materialistas, tinham todas elas um severo componente espiritual. Dependiam da nossa idealização de Deus.
Ao estudar o protestantismo, Weber notou que havia em quase todas as suas denominações um lugar-comum: Deus não perdoava as almas em função de sua vida aqui, na Terra; todos nós já teríamos um destino predeterminado antes mesmo de nascer e não teríamos nenhuma pista a respeito dele. O único indício sobre esse destino seria o grau de sucesso e prosperidade que viríamos a alcançar em nossos empreendimentos. Os ensinamentos de Weber extraídos do protestantismo inspiravam-se em suas vertentes mais radicais, representadas pelas palavras de João Calvino e alastradas pela América. Não por coincidência, foram os seguidores europeus e norte-americanos do teólogo franco-suíço os que lograram alcançar maior êxito na vida.
Segundo Weber, as virtudes associadas à honestidade, solidariedade, cumprimento fiel da palavra dada, somadas a trabalho duro e a padrões austeros de acumulação de riquezas, explicavam esse fenômeno: se todos agissem conforme tais normas, adquiririam já de início uma vantagem comparativa insuperável em relação aos demais.
A ética protestante, ademais, associava-se ao racionalismo na ciência, à jurisprudência, à observação somada à sistematização racional da administração pública. Era, por assim dizer, um desenvolvimento do Iluminismo. Essa ética ajudava, e muito, esse processo.
Paradoxalmente, foi a intransigência quanto aos usos e costumes o que mais contribuiu para seu êxito: aos cidadãos não era tolerado nenhum deslize. Qualquer escorregão ético era visto como um sinal evidente de que quem o cometera não estava entre os agraciados com a bênção divina. E isso não só torturava intimamente o pecador, como acarretava consequências sociais terríveis. As mais suaves implicavam o banimento do convívio em sociedade.
A quem deseje entender melhor esse fenômeno ouso recomendar um filme de décadas atrás chamado A Letra Escarlate. A trama é ambientada em Massachusetts, no século 17. Uma mulher jovem acredita ter perdido o marido (não me recordo das circunstâncias) e se apaixona por outro homem. Acontece que o marido não havia falecido. Tempos depois ele reaparece e a partir daí a vida dela se torna um inferno: as autoridades, para marcá-la como adúltera, ordenam que seja pregada em suas vestes uma enorme letra A de cor escarlate. A sociedade local, como era de prever, passou ostensivamente a evitá-la. E por muitas outras privações ela teve de passar antes que a morte viesse buscá-la.
Diante de toda essa severidade, o catolicismo ficava em desvantagem. Entre nós, católicos, existe o perdão. Isso torna a nossa religião mais humana, porque admite a redenção dos pecados, desde que o fiel demonstre sincero arrependimento. Somos mais tolerantes, mas pagamos um preço por isso.
Pelo sim, pelo não, o fato incontestável é que em quase todas as sociedades europeias são os protestantes que têm os melhores cargos, recebem os salários mais elevados e ocupam postos de liderança na comunidade. Isso não passou despercebido nem por Weber nem pelos pensadores que vieram depois.
Esse fenômeno significa que o protestantismo é, de alguma forma, superior ao catolicismo? Não há evidências sólidas para comprovar a tese. O que se pode afirmar com certeza é que o Deus dos protestantes é mais severo e intransigente que o Deus católico. O Deus protestante é intolerante e intransigente com seus fiéis. Já o Deus dos católicos se destaca por ser misericordioso, perdoar as nossas faltas, ser compreensivo com os pecadores. O Deus protestante conduz seus fiéis a um mundo sem pecado e com mais prosperidade. Mas, sem dúvida, é mais fácil amar o nosso Deus do que amar o Deus dos protestantes.
Como fragilizar uma empresa estatal - PAULO HADDAD
O ESTADO DE S. PAULO - 23/08
O conceito de fragilidade financeira teve maior destaque na obra de Hyman Minsky. Para ele, as unidades econômicas podem se situar numa posição financeira bastante favorável quando as receitas esperadas de seus ativos são suficientes para cobrir os compromissos financeiros no presente e no futuro. No outro extremo, elas não se habilitam, a partir de suas receitas esperadas, a fazer frente ao pagamento de suas estruturas de passivo nem aos juros que sobre elas incorrem. Para contribuir de forma significativa com o processo de desenvolvimento nacional, uma unidade econômica precisa dispor de margem de segurança financeira.
É claro que todas as unidades econômicas padecem de certo grau de fragilidade financeira numa economia em regime de recessão. Particularmente numa economia nacional globalizada econômica e financeiramente, quando a crise mundial se espraia,difunde-se, prolonga-se e se aprofunda. Mas a fragilidade financeira se amplifica para as empresas estatais do governo federal quando se consideram as questões das inadequadas escolhas estratégicas do seu controlador e as questões da ineficiência de sua gestão administrativa.
Quanto a esta última dimensão, as razões do relativo insucesso no desempenha econômico e financeiro de muitas empresas estatais estão em variados aspectos. Destacam-se a partilha político-partidária no recrutamento dos seus quadros técnicos e gerenciais; a indefinição de seus objetivos e de sua própria missão institucional; a estrutura organizacional precariamente estabelecida; e a desprofissionalização da alta direção.
De maneira sistemática, podemos identificar três mecanismos que o governo federal vem adotando e que resultaram num processo de fragilização das empresas estatais, comprometendo o seu futuro institucional. O primeiro mecanismo é a utilização da política, de preços dos bens e serviços produzidos por essas empresas para conter o processo inflacionário, o que se tolera apenas numa administração que caminha numa visão de curto em curto prazo. Quanto custa para o País a descapitalização da Petrobrás e das empresas do setor elétrico, em termos de sua capacidade de investimentos indispensáveis para o processo de desenvolvimento nacional? Essas empresas acabam sendo mergulhadas num ambiente de incerteza e de risco maior, o que resulta na perda de cadência e de intensidade na sua programação estratégica.
Um segundo mecanismo se refere à utilização das empresas financeiras do governo federal para resolver problemas que não puderam ser equacionados no orçamento fiscal. Há o risco, pois, de migrarem disfarçadamente para os três bancos públicos federais
(BNDES, Banco do Brasil e CEF) despesas próprias do governo, sem uma contabilização explícita. Esse procedimento pode levá-las a quebrar as regras prudenciais de sua missão institucional e do seu funcionamento, envolvendo-as em elevados níveis de riscos, de inadimplência e de fragilidade financeira. Em eventualidades e casos e como esses, há a formação de mega esqueletos financeiros que somente podem ser absorvidos, no médio prazo, pelo Tesouro Nacional. Este, em última instância, ao se endividar para equacionar o problema, transfere para a sociedade brasileira os custos da solução.
Na verdade, o que ocorre é a explicitação, no futuro, de um eventual endividamento público de forma indireta e disfarçada no presente. Ele, contudo, não passa despercebido pelo mercado financeiro, que o contabiliza no déficit potencial
Finalmente, a profunda restrição orçamentária para realizar uma política fiscal anticíclica de defesa dos níveis de renda e de emprego, assim como o baixo grau de implementabilidade do que o governo decide fazer, leva à tentação de jogar para as empresas estatais (mais flexíveis operacionalmente, com recursos mais livres, com bons quadros técnicos) a execução de tarefas ad hoc muito estranhas à missão institucional até mesmo para uma empresa estatal.
O conceito de fragilidade financeira teve maior destaque na obra de Hyman Minsky. Para ele, as unidades econômicas podem se situar numa posição financeira bastante favorável quando as receitas esperadas de seus ativos são suficientes para cobrir os compromissos financeiros no presente e no futuro. No outro extremo, elas não se habilitam, a partir de suas receitas esperadas, a fazer frente ao pagamento de suas estruturas de passivo nem aos juros que sobre elas incorrem. Para contribuir de forma significativa com o processo de desenvolvimento nacional, uma unidade econômica precisa dispor de margem de segurança financeira.
É claro que todas as unidades econômicas padecem de certo grau de fragilidade financeira numa economia em regime de recessão. Particularmente numa economia nacional globalizada econômica e financeiramente, quando a crise mundial se espraia,difunde-se, prolonga-se e se aprofunda. Mas a fragilidade financeira se amplifica para as empresas estatais do governo federal quando se consideram as questões das inadequadas escolhas estratégicas do seu controlador e as questões da ineficiência de sua gestão administrativa.
Quanto a esta última dimensão, as razões do relativo insucesso no desempenha econômico e financeiro de muitas empresas estatais estão em variados aspectos. Destacam-se a partilha político-partidária no recrutamento dos seus quadros técnicos e gerenciais; a indefinição de seus objetivos e de sua própria missão institucional; a estrutura organizacional precariamente estabelecida; e a desprofissionalização da alta direção.
De maneira sistemática, podemos identificar três mecanismos que o governo federal vem adotando e que resultaram num processo de fragilização das empresas estatais, comprometendo o seu futuro institucional. O primeiro mecanismo é a utilização da política, de preços dos bens e serviços produzidos por essas empresas para conter o processo inflacionário, o que se tolera apenas numa administração que caminha numa visão de curto em curto prazo. Quanto custa para o País a descapitalização da Petrobrás e das empresas do setor elétrico, em termos de sua capacidade de investimentos indispensáveis para o processo de desenvolvimento nacional? Essas empresas acabam sendo mergulhadas num ambiente de incerteza e de risco maior, o que resulta na perda de cadência e de intensidade na sua programação estratégica.
Um segundo mecanismo se refere à utilização das empresas financeiras do governo federal para resolver problemas que não puderam ser equacionados no orçamento fiscal. Há o risco, pois, de migrarem disfarçadamente para os três bancos públicos federais
(BNDES, Banco do Brasil e CEF) despesas próprias do governo, sem uma contabilização explícita. Esse procedimento pode levá-las a quebrar as regras prudenciais de sua missão institucional e do seu funcionamento, envolvendo-as em elevados níveis de riscos, de inadimplência e de fragilidade financeira. Em eventualidades e casos e como esses, há a formação de mega esqueletos financeiros que somente podem ser absorvidos, no médio prazo, pelo Tesouro Nacional. Este, em última instância, ao se endividar para equacionar o problema, transfere para a sociedade brasileira os custos da solução.
Na verdade, o que ocorre é a explicitação, no futuro, de um eventual endividamento público de forma indireta e disfarçada no presente. Ele, contudo, não passa despercebido pelo mercado financeiro, que o contabiliza no déficit potencial
Finalmente, a profunda restrição orçamentária para realizar uma política fiscal anticíclica de defesa dos níveis de renda e de emprego, assim como o baixo grau de implementabilidade do que o governo decide fazer, leva à tentação de jogar para as empresas estatais (mais flexíveis operacionalmente, com recursos mais livres, com bons quadros técnicos) a execução de tarefas ad hoc muito estranhas à missão institucional até mesmo para uma empresa estatal.
Bons de bico - DORA KRAMER
O ESTADÃO - 23/08
Quando o PSDB elegeu o senador Aécio Neves presidente do partido, em maio último, automaticamente consolidou seu nome para concorrer à Presidência da República em 2014. Os tucanos não queriam dar mais espaço às tergiversações e aos vaivéns que marcam suas decisões sobre candidaturas presidenciais há mais de dez anos.
O próprio Aécio já havia dado ao assunto atestado de questão vencida, ao declarar que sua eleição significava a virada da página das divisões e disputas internas no partido. Portanto, não há que se falar em prévias para escolha da candidatura presidencial sem se atentar para a evidência de que se trata de uma fabulação em torno de um fato consumado.
O partido abre um debate a respeito de algo decidido; de onde, não há remota possibilidade de ocorrer uma disputa na acepção do termo. Então, qual a utilidade de tudo isso? Pelo jeito, só para ganhar tempo e espaço no noticiário, conquanto tal atitude não preste as devidas homenagens ao discernimento do respeitável público de um filme visto e revisto.
Essa história de prévias surgiu a partir da disposição cada vez mais clara do ex-governador José Serra de se candidatar em 2014 –preferencialmente à Presidência. Seus aliados resistem a deixar o PSDB e ele, por sua vez, mede o efeito da saída sobre esse grupo.
Diante do falatório, o senador Aécio resolveu rebater dizendo que aceita as prévias e Serra devolveu a bola afirmando que tudo bem, mas quer conhecer as regras sobre a abrangência de participação, prazos, condições de igualdade na competição e saber qual a “taxa democrática” da disputa.
O jogo de cena agride a lógica. Primeiro, não existe a hipótese de resultado que não a vitória de Aécio. E depois Serra fala de exigências que sabe muito bem que não vão e não podem ser cumpridas. Exemplo: como se mede a “taxa democrática”?
Falam por falar. Os tucanos não querem que Serra saia. Por menos chance que ele tenha devido à alta rejeição nas pesquisas e às dificuldades de alianças e financiamento numa campanha pelo PPS que negocia a filiação com ele, dividiria o eleitorado no mesmo campo e reduziria as chances do PSDB de estar no segundo turno.
A preliminar é: Serra quer mesmo ser candidato a presidente? Na interpretação de tucanos, a declaração dada por ele em Brasília na última quarta-feira admitindo a possibilidade é um sinal de que está iniciando os preparativos para sair do partido. Justamente porque tem perfeita noção da impossibilidade de ser candidato pelo PSDB.
Poderia ficar e disputar o Senado? Poderia, mas não há garantia de nada. Aliás, nada está garantido, saindo ou ficando. Trata-se agora de avaliar qual a decisão menos prejudicial.
De um lado, seus (ainda) companheiros de partido tentam convencê-lo de que é melhor ficar. A dúvida é: melhor para quem, para ele ou para eles?
De outro lado, o presidente do PPS, deputado Roberto Freire, repete nas conversas com Serra que a insegurança é geral. “Não se dizia que a reeleição de Dilma Rousseff estaria assegurada? Hoje esta é uma possibilidade, mas não é uma certeza como já foi”, argumenta.
Embora admita que existam muitas críticas em relação ao (ainda) tucano, Freire percebe reconhecimento aos atributos dele como gestor. “Num quadro de crise econômica, o eleitor vai levar em conta a capacidade dos candidatos de enfrentar situações difíceis e este é um ativo inegável de Serra.”
As tratativas com o PPS estão avançadas, embora não concluídas. O limite para a decisão, em tese, é o dia 5 de outubro. Na prática, porém, o prazo legal não é o mesmo que o prazo político.
Se resolver mesmo trocar de partido, mas deixar para anunciar a decisão na última hora, José Serra não terá tempo para articular adesões reduzindo a densidade política de sua filiação ao PPS para ser candidato a presidente.
Quando o PSDB elegeu o senador Aécio Neves presidente do partido, em maio último, automaticamente consolidou seu nome para concorrer à Presidência da República em 2014. Os tucanos não queriam dar mais espaço às tergiversações e aos vaivéns que marcam suas decisões sobre candidaturas presidenciais há mais de dez anos.
O próprio Aécio já havia dado ao assunto atestado de questão vencida, ao declarar que sua eleição significava a virada da página das divisões e disputas internas no partido. Portanto, não há que se falar em prévias para escolha da candidatura presidencial sem se atentar para a evidência de que se trata de uma fabulação em torno de um fato consumado.
O partido abre um debate a respeito de algo decidido; de onde, não há remota possibilidade de ocorrer uma disputa na acepção do termo. Então, qual a utilidade de tudo isso? Pelo jeito, só para ganhar tempo e espaço no noticiário, conquanto tal atitude não preste as devidas homenagens ao discernimento do respeitável público de um filme visto e revisto.
Essa história de prévias surgiu a partir da disposição cada vez mais clara do ex-governador José Serra de se candidatar em 2014 –preferencialmente à Presidência. Seus aliados resistem a deixar o PSDB e ele, por sua vez, mede o efeito da saída sobre esse grupo.
Diante do falatório, o senador Aécio resolveu rebater dizendo que aceita as prévias e Serra devolveu a bola afirmando que tudo bem, mas quer conhecer as regras sobre a abrangência de participação, prazos, condições de igualdade na competição e saber qual a “taxa democrática” da disputa.
O jogo de cena agride a lógica. Primeiro, não existe a hipótese de resultado que não a vitória de Aécio. E depois Serra fala de exigências que sabe muito bem que não vão e não podem ser cumpridas. Exemplo: como se mede a “taxa democrática”?
Falam por falar. Os tucanos não querem que Serra saia. Por menos chance que ele tenha devido à alta rejeição nas pesquisas e às dificuldades de alianças e financiamento numa campanha pelo PPS que negocia a filiação com ele, dividiria o eleitorado no mesmo campo e reduziria as chances do PSDB de estar no segundo turno.
A preliminar é: Serra quer mesmo ser candidato a presidente? Na interpretação de tucanos, a declaração dada por ele em Brasília na última quarta-feira admitindo a possibilidade é um sinal de que está iniciando os preparativos para sair do partido. Justamente porque tem perfeita noção da impossibilidade de ser candidato pelo PSDB.
Poderia ficar e disputar o Senado? Poderia, mas não há garantia de nada. Aliás, nada está garantido, saindo ou ficando. Trata-se agora de avaliar qual a decisão menos prejudicial.
De um lado, seus (ainda) companheiros de partido tentam convencê-lo de que é melhor ficar. A dúvida é: melhor para quem, para ele ou para eles?
De outro lado, o presidente do PPS, deputado Roberto Freire, repete nas conversas com Serra que a insegurança é geral. “Não se dizia que a reeleição de Dilma Rousseff estaria assegurada? Hoje esta é uma possibilidade, mas não é uma certeza como já foi”, argumenta.
Embora admita que existam muitas críticas em relação ao (ainda) tucano, Freire percebe reconhecimento aos atributos dele como gestor. “Num quadro de crise econômica, o eleitor vai levar em conta a capacidade dos candidatos de enfrentar situações difíceis e este é um ativo inegável de Serra.”
As tratativas com o PPS estão avançadas, embora não concluídas. O limite para a decisão, em tese, é o dia 5 de outubro. Na prática, porém, o prazo legal não é o mesmo que o prazo político.
Se resolver mesmo trocar de partido, mas deixar para anunciar a decisão na última hora, José Serra não terá tempo para articular adesões reduzindo a densidade política de sua filiação ao PPS para ser candidato a presidente.
O voto vencido - MARIA CRISTINA FERNANDES
VALOR ECONÔMICO - 23/08
O acórdão do mensalão tem 1.336 trechos suprimidos de manifestações de ministros do Supremo Tribunal Federal ao longo de 53 sessões. Dessas, 65% são de autoria do ministro Celso de Mello.
Foi na condição de decano, a quem se reconhece autoridade para serenar conflitos, que Celso de Mello, desde a véspera, dedicou-se a obter uma retratação do presidente da Casa, Joaquim Barbosa. Mas foi também na condição de quem mais zelou para que impropriedades proferidas durante o julgamento fossem excluídas do registro oficial da história, que Celso de Mello, tentou chamar Barbosa à razão.
Ao dizer que jamais deveria ter sido necessário aquele lapidar sermão, o ministro decano deixava claro, de partida, que aquele pronunciamento seria desnecessário se Barbosa tivesse se retratado da acusação contra Ricardo Lewandowski.
Celso de Mello remeteu-se a outro discurso, feito há 12 anos, quando saudou a posse de Marco Aurélio Mello na presidência da Casa. Naquele dia, evocou dois magistrados, um do STF e outro da Corte Suprema dos Estados Unidos, para homenagear os votos vencidos.
O primeiro foi Joaquim de Toledo Piza e Almeida, ministro da turma inaugural do Supremo, de 1890. Integrou o julgamento do habeas corpus apresentado por Rui Barbosa em defesa de 46 parlamentares, generais e intelectuais, entre os quais Olavo Bilac, presos e desterrados para a Amazônia. No habeas corpus, o primeiro da história brasileira, aquele Barbosa atacava o estado de sítio decretado por Floriano Peixoto, seu colega no gabinete Deodoro da Fonseca: "Nenhuma virtude pode pôr acima da lei o chefe de uma nação republicana".
Piza e Almeida, paulista de Capivari e abolicionista como Rui Barbosa, foi o único dos 11 a votar pelo habeas corpus. Enquanto a maioria do tribunal escudara-se na necessidade de um pronunciamento prévio do Congresso, Piza e Almeida sustentou a tese de que abusos do Executivo estão na jurisdição imediata do Supremo tenha ou não o Congresso se pronunciado sobre as medidas de exceção.
Antes de sair do tribunal, Rui Barbosa beijou-lhe a mão. Dias depois publicaria um artigo em que lhe prestaria homenagem: "Medo, venalidade, paixão partidária, respeito pessoal, subserviência, espírito conservador, interpretação restritiva, razão de Estado, interesse supremo, como quer que te chames, prevaricação judiciária, não escaparás ao ferrete de Pilatos! O bom ladrão salvou-se. Mas não há salvação para o juiz covarde".
O outro juiz citado por Celso de Mello foi contemporâneo de Piza e Almeida. Nos 30 anos em que foi ministro da suprema corte americana, Oliver Wendell Holmes Jr, se rebelaria contra a condição de prisioneiro da jurisprudência e passaria à história como um dos juristas mais citados daquela Casa.
Combatente da Guerra Civil americana ao lado dos confederados, Holmes criticava ativistas judiciais à direita e à esquerda. Dizia que tão importante para um juiz quanto conhecer as leis é estudar as motivações de seu tempo e evitar a grandiloquência: "Grandes questões e questões complicadas fazem um péssimo direito. Os grandes julgamentos são chamados de grandes não tanto pela importância que têm em delinear a jurisprudência a ser seguida, mas prioritariamente porque um acidente qualquer provocou um demasiado interesse no caso, apelando para sentimentos que distorcem o julgamento".
O julgamento em que exerceu seu mais famoso voto vencido aconteceu em 1895 quando o dono de uma padaria em Nova York recorreu de uma lei local que proibia mais de 60 horas por semana de trabalho.
Enquanto seus pares advogavam a proteção da 14ª Emenda ao liberalismo econômico, Holmes se contrapôs à maioria dizendo que a Constituição não era guardiã de teorias econômicas sejam quais fossem suas cores ideológicas. Defendia o direito de juízes novaiorquinos impor limites à atividade econômica com base na experiência vivida pela sociedade local.
A Joaquim Toledo Piza e Almeida e Oliver Wendell Holmes Jr. o decano do Supremo ainda acrescentaria Raimundo Faoro no rol dos juristas que louvam o voto vencido como legitimador das decisões judiciais: "É o voto da coragem, de quem não teme ficar só...".
Sobre o vencido da vez, Ricardo Lewandowski, registre-se a ordem que Victor Gabriel Rodriguez, antigo assessor, hoje professor da USP, relata, em livro, ter recebido ("AP 470", de Gustavo Pedrina, org.): "Leia sempre com atenção esses manuscritos, que terão sempre muitas deficiências quanto a requisitos de um habeas corpus ao Supremo Tribunal, mas que foram escritos por alguém em absoluto desespero que não tem quem fale por ele".
Lewandowski deu o caso por encerrado mas o incidente continuou a contrariar Barbosa, especialmente depois que Marco Aurélio Mello, na condição de segundo decano, descalçou as luvas para complementar Celso de Mello: "Censurar posturas diversas daquela que se tem e, a um só tempo, alardear modernidade e pluralidade soa, no mínimo, como hipocrisia. Uma sociedade aberta, tolerante e consciente pressupõe escolhas pautadas nas várias concepções sobre os mesmos fatos".
"Ao trabalho, ministro Toffoli", disse Barbosa, impaciente, em meio a intermináveis desagravos. A disposição de ministros em se alinhar ao lado de Lewandowski não se traduziu, como se previa, em voto de adesão.
Na sessão que originou o imbróglio da chicana, o revisor do mensalão se dissera arrependido de ter votado contra a demanda de Bispo Rodrigues de ter sua condenação por corrupção passiva regida pela lei anterior à atual. A mudança da lei se deu no decorrer do crime pelo qual foi condenado. Vencido por oito de seus colegas, Lewandowski talvez tenha sido um dos derrotados mais desagravados do Supremo.
"A história tem registrado que, nos votos vencidos, reside, algumas vezes, a semente das grandes transformações", disse o decano ao concluir sua fala. O ministro mais zeloso com os anais deixava registrado ali sua intenção de não passar a história como a voz que ignorou tão eloquente voto vencido.
O mais novo magistrado da Casa, Luís Roberto Barroso, que já afirmara ser o mensalão não o maior escândalo de corrupção e, sim, o mais investigado, voltou à carga dizendo que teria se posicionado de forma distinta da maioria em muitas das condenações se estivesse no julgamento desde o início.
Definidos vencedores e vencidos, a disputa dos que julgaram o mensalão é pelo registro que deles fará a história.
Jabuticaba no banco dos réus - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 23/08
BRASÍLIA - Se já há um grande condenado na segunda fase do julgamento do mensalão é o festival de recursos no Brasil. Atenção: a condenação não é ao princípio, que é questão de justiça, mas ao abuso.
Ao se manifestar contra os embargos infringentes, que podem recomeçar partes importantes do julgamento praticamente do zero, o ministro Gilmar Mendes lembrou que não há precedentes desse tipo de embargo nem no próprio STF, nem no STJ nem nos outros tribunais, o que tornaria esse recurso "mais uma jabuticaba" --ou seja, algo tipicamente brasileiro.
Na avaliação dos contrários a esses embargos, eles são cabíveis como recurso a instâncias superiores, não à mesma instância, com os mesmos ministros, o mesmo número de votos. Só estão sendo aventados por uma brecha burocrática: o regimento do Supremo prevê, mas a lei que rege julgamentos de ações penais em tribunais superiores, não.
Na véspera, o novato Luís Roberto Barroso já tinha dado uma aula ao vivo para milhões de telespectadores, condenando, em tese, "o uso de recursos de maneira manifestamente protelatória" e chamando a atenção para o descompasso do sistema brasileiro de recursos "com as demandas da sociedade".
Sua descrição é estonteante: há o recurso extraordinário, o tribunal nega; vem o agravo de instrumento, o relator desprovê; saca-se o agravo contra o desprovimento, depois entra-se com o embargo de declaração e, não raro, com um segundo embargo de declaração, que é, mais ou menos, o embargo do embargo.
"Essa praxe recorrente não é boa para a advocacia, não é boa para a sociedade nem para as partes", disse o novo ministro, defendendo dar um basta: "Verificado o caráter protelatório, declara-se o trâmite em julgado". E ponto final.
É assim, ou mudando a lei, que se pode tentar evitar a já rotineira eternização dos processos. Bem... quando o réu é rico e famoso.
BRASÍLIA - Se já há um grande condenado na segunda fase do julgamento do mensalão é o festival de recursos no Brasil. Atenção: a condenação não é ao princípio, que é questão de justiça, mas ao abuso.
Ao se manifestar contra os embargos infringentes, que podem recomeçar partes importantes do julgamento praticamente do zero, o ministro Gilmar Mendes lembrou que não há precedentes desse tipo de embargo nem no próprio STF, nem no STJ nem nos outros tribunais, o que tornaria esse recurso "mais uma jabuticaba" --ou seja, algo tipicamente brasileiro.
Na avaliação dos contrários a esses embargos, eles são cabíveis como recurso a instâncias superiores, não à mesma instância, com os mesmos ministros, o mesmo número de votos. Só estão sendo aventados por uma brecha burocrática: o regimento do Supremo prevê, mas a lei que rege julgamentos de ações penais em tribunais superiores, não.
Na véspera, o novato Luís Roberto Barroso já tinha dado uma aula ao vivo para milhões de telespectadores, condenando, em tese, "o uso de recursos de maneira manifestamente protelatória" e chamando a atenção para o descompasso do sistema brasileiro de recursos "com as demandas da sociedade".
Sua descrição é estonteante: há o recurso extraordinário, o tribunal nega; vem o agravo de instrumento, o relator desprovê; saca-se o agravo contra o desprovimento, depois entra-se com o embargo de declaração e, não raro, com um segundo embargo de declaração, que é, mais ou menos, o embargo do embargo.
"Essa praxe recorrente não é boa para a advocacia, não é boa para a sociedade nem para as partes", disse o novo ministro, defendendo dar um basta: "Verificado o caráter protelatório, declara-se o trâmite em julgado". E ponto final.
É assim, ou mudando a lei, que se pode tentar evitar a já rotineira eternização dos processos. Bem... quando o réu é rico e famoso.
A mania de culpar os outros - JOSÉ PIO MARTINS
GAZETA DO POVO - PR - 23/08
O ser humano é um animal curioso. Entre seus vários cacoetes, há um que se presta a situações jocosas como também a situações sérias. Trata-se da mania de atribuir a si próprio as causas do sucesso e transferir a terceiros os erros do fracasso. Como diz o ditado popular: “A vitória tem muitos pais; a derrota é órfã”.
Há anos, o jornal italiano Corriere della Sera noticiava que um idoso mais que septuagenário, após quatro anos de humilhante impotência, redescobrira a vitalidade perdida devido a uma dose reforçada de Viagra. Logo depois, ele abandonaria o lar deixando um recado: Scusa, cara, ma io voglio morire da stallone (“Perdoe-me, querida, mas quero morrer como um garanhão”).
A esposa, sexagenária, estaria processando o marido fujão por perdas e danos e informava que também iria processar o laboratório Pfizer por não ter etiquetado o remédio como “perigoso para o casamento”. Ela argumentava que “não se pode dar um fuzil carregado a quem não sabe usá-lo”. Quer dizer, ela transferia ao laboratório parte da culpa pelas estripulias do garanhão geriátrico.
Quando essa mania permanece em situações individuais, cujas consequências ficam restritas à vida de uns poucos, não há maiores problemas. Porém, quando se torna um hábito nacional, as consequências podem ser graves. Nos anos 70, o Brasil elegeu três inimigos externos, que seriam os culpados pelo atraso e pobreza local: a dívida externa, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e as multinacionais.
Políticos ditos de esquerda (coisa que, no Brasil, não significa absolutamente nada) se elegeram por vários mandatos apenas fazendo discursos inflamados contra esses inimigos, sem se dar ao trabalho de explicar por que malditas razões eles, e não nós, eram os culpados pelo atraso nacional. Um a um, esses inimigos perderam o charme e, agora, não dá para culpá-los de nada.
Mas a psique nacional, sobretudo a que acomete a paisagem política de Brasília, insiste em buscar inimigos externos. Quando o quadro internacional se mostrou favorável e os preços das commodities exportadas pelo Brasil subiram por nove anos, de 2002 a 2010, revelando a sorte que Lula teve, o governo atribuía a si uma penca de milagres. Lula estimulava que seus ministros e membros de seu partido divulgassem sempre de forma enfática que “nunca antes na história deste país” houvera governo tão proficiente.
O governo Lula teve vários méritos, mas daí a achar que a boa situação das contas externas e a dispensa do FMI como financiador de nossos déficits comerciais foram obra de sua genialidade é um pouco demais. Tanto é verdade que Dilma, treinada no governo Lula em dois ministérios, está amargando a deterioração da situação externa e a piora de alguns indicadores econômicos internos.
Se a vitória era obra do governo Lula, como eles viviam brandindo, é necessário atribuir a Dilma a culpa pelos problemas de hoje. Mas não é assim que o governo age. Mesmo Dilma continua com a mania de atribuir a si e ao PT todos os louros das boas coisas que acontecem e de transferir ao mundo e aos outros a culpa das coisas ruins. Uma adaptação de velho provérbio diz que “errar é humano, culpar os outros... isso é política”.
Os partidos que governam o Brasil se esmeraram na prática de dois esportes: um, brigar com a lógica econômica; outro, inventar culpados externos. A mania de culpar os outros também se encontra nas organizações – o que é ruim, pois um dos meios para a correção de rumos é admitir o erro, entender sua gênese e descobrir as soluções. A negação do erro é a perda de uma oportunidade para evoluir.
O ser humano é um animal curioso. Entre seus vários cacoetes, há um que se presta a situações jocosas como também a situações sérias. Trata-se da mania de atribuir a si próprio as causas do sucesso e transferir a terceiros os erros do fracasso. Como diz o ditado popular: “A vitória tem muitos pais; a derrota é órfã”.
Há anos, o jornal italiano Corriere della Sera noticiava que um idoso mais que septuagenário, após quatro anos de humilhante impotência, redescobrira a vitalidade perdida devido a uma dose reforçada de Viagra. Logo depois, ele abandonaria o lar deixando um recado: Scusa, cara, ma io voglio morire da stallone (“Perdoe-me, querida, mas quero morrer como um garanhão”).
A esposa, sexagenária, estaria processando o marido fujão por perdas e danos e informava que também iria processar o laboratório Pfizer por não ter etiquetado o remédio como “perigoso para o casamento”. Ela argumentava que “não se pode dar um fuzil carregado a quem não sabe usá-lo”. Quer dizer, ela transferia ao laboratório parte da culpa pelas estripulias do garanhão geriátrico.
Quando essa mania permanece em situações individuais, cujas consequências ficam restritas à vida de uns poucos, não há maiores problemas. Porém, quando se torna um hábito nacional, as consequências podem ser graves. Nos anos 70, o Brasil elegeu três inimigos externos, que seriam os culpados pelo atraso e pobreza local: a dívida externa, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e as multinacionais.
Políticos ditos de esquerda (coisa que, no Brasil, não significa absolutamente nada) se elegeram por vários mandatos apenas fazendo discursos inflamados contra esses inimigos, sem se dar ao trabalho de explicar por que malditas razões eles, e não nós, eram os culpados pelo atraso nacional. Um a um, esses inimigos perderam o charme e, agora, não dá para culpá-los de nada.
Mas a psique nacional, sobretudo a que acomete a paisagem política de Brasília, insiste em buscar inimigos externos. Quando o quadro internacional se mostrou favorável e os preços das commodities exportadas pelo Brasil subiram por nove anos, de 2002 a 2010, revelando a sorte que Lula teve, o governo atribuía a si uma penca de milagres. Lula estimulava que seus ministros e membros de seu partido divulgassem sempre de forma enfática que “nunca antes na história deste país” houvera governo tão proficiente.
O governo Lula teve vários méritos, mas daí a achar que a boa situação das contas externas e a dispensa do FMI como financiador de nossos déficits comerciais foram obra de sua genialidade é um pouco demais. Tanto é verdade que Dilma, treinada no governo Lula em dois ministérios, está amargando a deterioração da situação externa e a piora de alguns indicadores econômicos internos.
Se a vitória era obra do governo Lula, como eles viviam brandindo, é necessário atribuir a Dilma a culpa pelos problemas de hoje. Mas não é assim que o governo age. Mesmo Dilma continua com a mania de atribuir a si e ao PT todos os louros das boas coisas que acontecem e de transferir ao mundo e aos outros a culpa das coisas ruins. Uma adaptação de velho provérbio diz que “errar é humano, culpar os outros... isso é política”.
Os partidos que governam o Brasil se esmeraram na prática de dois esportes: um, brigar com a lógica econômica; outro, inventar culpados externos. A mania de culpar os outros também se encontra nas organizações – o que é ruim, pois um dos meios para a correção de rumos é admitir o erro, entender sua gênese e descobrir as soluções. A negação do erro é a perda de uma oportunidade para evoluir.
As duas mortes de Martinez - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 23/08
Ontem caiu por terra mais um dos factoides que vêm sendo criados desde o início do julgamento do mensalão na tentativa de formar um clima de suspeição sobre as decisões tomadas pelo plenário do STF. Há meses circula pela internet um vídeo, de sessão do ano passado, em que está registrado um erro de fato, ontem levantado pelo ministro Ricardo Lewandowski: a data da morte do então presidente do PTB José Carlos Martinez.
Ocorrida de fato em outubro de 2003, no acórdão a data registrada é dezembro de 2003, de acordo com a informação dada na ocasião pelo relator do processo,Joaquim Barbosa. Durante meses afirmou-se na internet, nos blogs oficiais e oficialistas que lutam desesperadamente para evitar que o ex-ministro José Dirceu e seus companheiros vão para a prisão fechada, que Barbosa cometera o erro propositalmente, para assim poder agravar as penas de corrupção ativa e passiva dos réus.
Com base nesse pressuposto, a defesa de Bispo Rodrigues, do PL, pediu a revisão de sua pena, e as defesas de José Dirceu e Delúbio Soares uniram-se a ele para fazer o mesmo, apoiadas na tese que o ministro Lewandowski defendia de que o deputado do PL cometera o crime antes da edição do novo Código Penal, que agravou as penas para crimes de corrupção ativa e passiva.
O assunto já fora resolvido na véspera, quando o plenário do Supremo confirmara a condenação de Rodrigues pelo recebimento da propina, ocorrido em dezembro de 2003, já, portanto, na vigência da lei mais dura. Ontem, o pleito de Delúbio Soares foi a julgamento, e coube a ninguém menos que Lewandowski admitir o óbvio: o erro material em nada interferiria na pena dos condenados como Delúbio, pois tanto ele quanto Dirceu foram condenados por uma série de crimes que, iniciados antes da morte de Martinez, continuaram sendo praticados, até 2005, quando o então deputado federal Roberto Jefferson denunciou o esquema.
Assim, condenados por continuidade delitiva, receberam a pena mais dura segundo a jurisprudência do STF registrada na súmula 711. No mesmo vídeo em que está registrado o erro de fato do ministro Joaquim Barbosa, definindo a data da morte como dezembro de 2003, aparece o Ministro Marco Aurélio Mello querendo se certificar da data, dizendo que ela é importante para definir quando começou o esquema.
Ele queria certamente definir que os crimes de corrupção começaram quando combinado o acordo entre PTB, PL e PT. No decorrer do julgamento, porém, essa data perdeu a importância, pois a maioria dos condenados continuou cometendo os crimes depois dos acordos partidários, caracterizando uma "continuidade delitiva", cuja pena é determinada pela última ocasião em que o crime foi cometido, e não pela primeira.
Casos como o de Bispo Rodrigues, condenado por apenas um crime de corrupção passiva, são definidos pela data em que receberam o dinheiro. O Ministro Marco Aurélio, com seu humor característico, ainda encontrou uma brecha para brincar, dizendo que, "como ninguém morre duas vezes", seria importante corrigir o acórdão.
Mesmo que a data não tenha a menor importância, é evidente que o acórdão tem de ser corrigido para que não registre uma informação errada. Como se vê, o que foi considerado "um erro crasso" que poderia provocar uma reviravolta no julgamento do mensalão, livrando da cadeia em regime fechado os petistas mais ilustres, acabou sendo apenas um fato curioso, sem a menor importância para a definição do que quer que seja.
Mesmo que os embargos infringentes venham a ser aceitos pelo Supremo, o que parece improvável a esta altura do julgamento, a data da morte de José Carlos Martinez não terá qualquer serventia para os que querem livrar os petistas da cadeia, pois somente seriam revistos os crimes de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.
O julgamento dos embargos de declaração tem sido marcado pela rapidez da revisão e pela manutenção do acórdão. Tudo indica que essa será a tendência do Supremo Tribunal Federal até o final, previsto para a primeira semana de setembro.
Ocorrida de fato em outubro de 2003, no acórdão a data registrada é dezembro de 2003, de acordo com a informação dada na ocasião pelo relator do processo,Joaquim Barbosa. Durante meses afirmou-se na internet, nos blogs oficiais e oficialistas que lutam desesperadamente para evitar que o ex-ministro José Dirceu e seus companheiros vão para a prisão fechada, que Barbosa cometera o erro propositalmente, para assim poder agravar as penas de corrupção ativa e passiva dos réus.
Com base nesse pressuposto, a defesa de Bispo Rodrigues, do PL, pediu a revisão de sua pena, e as defesas de José Dirceu e Delúbio Soares uniram-se a ele para fazer o mesmo, apoiadas na tese que o ministro Lewandowski defendia de que o deputado do PL cometera o crime antes da edição do novo Código Penal, que agravou as penas para crimes de corrupção ativa e passiva.
O assunto já fora resolvido na véspera, quando o plenário do Supremo confirmara a condenação de Rodrigues pelo recebimento da propina, ocorrido em dezembro de 2003, já, portanto, na vigência da lei mais dura. Ontem, o pleito de Delúbio Soares foi a julgamento, e coube a ninguém menos que Lewandowski admitir o óbvio: o erro material em nada interferiria na pena dos condenados como Delúbio, pois tanto ele quanto Dirceu foram condenados por uma série de crimes que, iniciados antes da morte de Martinez, continuaram sendo praticados, até 2005, quando o então deputado federal Roberto Jefferson denunciou o esquema.
Assim, condenados por continuidade delitiva, receberam a pena mais dura segundo a jurisprudência do STF registrada na súmula 711. No mesmo vídeo em que está registrado o erro de fato do ministro Joaquim Barbosa, definindo a data da morte como dezembro de 2003, aparece o Ministro Marco Aurélio Mello querendo se certificar da data, dizendo que ela é importante para definir quando começou o esquema.
Ele queria certamente definir que os crimes de corrupção começaram quando combinado o acordo entre PTB, PL e PT. No decorrer do julgamento, porém, essa data perdeu a importância, pois a maioria dos condenados continuou cometendo os crimes depois dos acordos partidários, caracterizando uma "continuidade delitiva", cuja pena é determinada pela última ocasião em que o crime foi cometido, e não pela primeira.
Casos como o de Bispo Rodrigues, condenado por apenas um crime de corrupção passiva, são definidos pela data em que receberam o dinheiro. O Ministro Marco Aurélio, com seu humor característico, ainda encontrou uma brecha para brincar, dizendo que, "como ninguém morre duas vezes", seria importante corrigir o acórdão.
Mesmo que a data não tenha a menor importância, é evidente que o acórdão tem de ser corrigido para que não registre uma informação errada. Como se vê, o que foi considerado "um erro crasso" que poderia provocar uma reviravolta no julgamento do mensalão, livrando da cadeia em regime fechado os petistas mais ilustres, acabou sendo apenas um fato curioso, sem a menor importância para a definição do que quer que seja.
Mesmo que os embargos infringentes venham a ser aceitos pelo Supremo, o que parece improvável a esta altura do julgamento, a data da morte de José Carlos Martinez não terá qualquer serventia para os que querem livrar os petistas da cadeia, pois somente seriam revistos os crimes de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.
O julgamento dos embargos de declaração tem sido marcado pela rapidez da revisão e pela manutenção do acórdão. Tudo indica que essa será a tendência do Supremo Tribunal Federal até o final, previsto para a primeira semana de setembro.
Última fronteira - HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 23/08
SÃO PAULO - Receio que o governo ainda não tenha entendido bem o que a internet significa. Um dos aspectos mais notáveis da rede é que ela, se não elimina, ao menos enfraquece muito a noção de fronteira. Fica, assim, entre o quixotesco e o reacionário a disposição da Anatel e da Ancine de cobrar tributos de empresas estrangeiras de internet, como Google, Netflix etc.
Não é que a ideia de igualar as condições em que atuam firmas sediadas no Brasil e fora dele não faça sentido. Não dá para classificar como justa a concorrência na qual um paga encargos da ordem de 25%, e o outro, uma fração disso. O problema está em tentar fechar a equação pelo lado da arrecadação. Se a carga imposta aos forasteiros não é muito grande, eles se dispõem a pagá-la para garantir facilidades como manter escritórios no país e CNPJs brasileiros.
Se a conta das obrigações ficar muito pesada, entretanto, como é a tendência por aqui, as empresas estrangeiras podem simplesmente fechar sua representação no Brasil e continuar operando sem muitos transtornos, já que o consumidor local pode perfeitamente acessar um site no exterior. Anúncios também continuariam a ser comercializados por meio de transações com cartão de crédito internacional. Para impedir isso, o governo precisaria adotar medidas liberticidas e francamente impopulares, como a censura à rede e limitações a compras à distância.
Se a meta é mesmo equalizar a situação de empresas nacionais e estrangeiras, o caminho é reduzir os impostos que o Brasil cobra nessas operações, colocando-os em linha com a prática internacional. O interessante aqui é que a internet detona o confortável monopólio de que Estados gozavam para decidir sobre tributos e introduz um pouco da saudável concorrência nesse setor.
PS - Minha coluna on-line de ontem (folha.com/no1329937) responde ao pouco do que me parece pertinente no artigo de Salem H. Nasser.
SÃO PAULO - Receio que o governo ainda não tenha entendido bem o que a internet significa. Um dos aspectos mais notáveis da rede é que ela, se não elimina, ao menos enfraquece muito a noção de fronteira. Fica, assim, entre o quixotesco e o reacionário a disposição da Anatel e da Ancine de cobrar tributos de empresas estrangeiras de internet, como Google, Netflix etc.
Não é que a ideia de igualar as condições em que atuam firmas sediadas no Brasil e fora dele não faça sentido. Não dá para classificar como justa a concorrência na qual um paga encargos da ordem de 25%, e o outro, uma fração disso. O problema está em tentar fechar a equação pelo lado da arrecadação. Se a carga imposta aos forasteiros não é muito grande, eles se dispõem a pagá-la para garantir facilidades como manter escritórios no país e CNPJs brasileiros.
Se a conta das obrigações ficar muito pesada, entretanto, como é a tendência por aqui, as empresas estrangeiras podem simplesmente fechar sua representação no Brasil e continuar operando sem muitos transtornos, já que o consumidor local pode perfeitamente acessar um site no exterior. Anúncios também continuariam a ser comercializados por meio de transações com cartão de crédito internacional. Para impedir isso, o governo precisaria adotar medidas liberticidas e francamente impopulares, como a censura à rede e limitações a compras à distância.
Se a meta é mesmo equalizar a situação de empresas nacionais e estrangeiras, o caminho é reduzir os impostos que o Brasil cobra nessas operações, colocando-os em linha com a prática internacional. O interessante aqui é que a internet detona o confortável monopólio de que Estados gozavam para decidir sobre tributos e introduz um pouco da saudável concorrência nesse setor.
PS - Minha coluna on-line de ontem (folha.com/no1329937) responde ao pouco do que me parece pertinente no artigo de Salem H. Nasser.
Arena tucana - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 23/08
Esta semana marcou o ingresso do PSDB com os dois pés na campanha pré-eleitoral. Tudo por causa da provocação do ex-governador de São Paulo, José Serra, que andou sondando seus aliados na legenda a respeito da realização das prévias para escolha do candidato a presidente da República. Com a perspectiva da realização da consulta, que conta com a simpatia do presidente do partido, senador Aécio Neves, os diretórios estaduais começaram a se movimentar em torno do tema. O líder da Minoria, Nilson Leitão (PSDB-MT), comanda a legenda em Mato Grosso e promete ingressar na reunião da cúpula partidária, na próxima terça-feira, pedindo a prévia para outubro.
"Não podemos deixar esse assunto para o ano que vem. Quero conhecer logo o meu candidato a presidente, para que ele possa percorrer o país e mobilizar os nossos filiados. Vou propor que a prévia seja em 20 de outubro", disse ele, já antecipando o voto em favor de Aécio Neves.
Ainda não existe nada fechado em termos de data e regras para as prévias. Sabe-se apenas que, se houver, será depois de passado o prazo de filiação partidária para os candidatos às eleições do ano que vem, ou seja, 5 de outubro. Mas só a perspectiva de prévias obriga todos no PSDB a saírem da toca. Há dois dias em Brasília, José Serra admitiu que pode concorrer na prévia, o senador Álvaro Dias, do Paraná, também se apresentou. O presidente do partido, Aécio Neves, é considerado por muitos o nome mais forte contra Dilma, dado o poderio que desfruta em Minas Gerais, onde terminou o governo muito bem avaliado, e de seu jeito de fazer política.
O jogo da prévia, ainda que esteja apenas no início, coloca uma nova cor no tabuleiro do PSDB. Da parte de José Serra, que até aqui vinha sendo jogado para escanteio dentro do partido, ficou claro que ele está vivo, tem peso e não pode ser desprezado como desejavam alguns. Da parte de Aécio, a perspectiva da prévia lhe dá a permanência de Serra no ninho tucano. Assim, Serra perderia a capacidade de dividir votos que podem ser cruciais para levar o candidato do partido, seja quem for, ao segundo turno da eleição presidencial.
O problema, entretanto, é que até agora muita gente vê esse jogo da prévia como uma encenação. Os aliados de Aécio queriam, sinceramente, que ele começasse a percorrer o país como pré-candidato e não como presidente do partido. Mas podem encenar vontade de realizar a prévia apenas para garantir a permanência de Serra no PSDB. Entre os aliados de Serra, entretanto, há quem suspeite que também se trata de uma encenação dos serristas e o receio de que estejam apenas armando uma desculpa para, logo ali na frente, dizer que as regras não ficaram definidas. E assim, sem garantias de igualdade de condições, a saída de Serra seria buscar a candidatura presidencial fora do PSDB. É importante frisar ainda que, há dois dias, Serra chegou a dizer que era preciso ter regras claras para não parecer encenação.
Essa tese de que Serra joga para escancarar a porta de saída não é compartilhada por todos os aliados do ex-governador paulista. Há quem diga que ele deseja sinceramente a prévia. Esses amigos de Serra defendem que, na hipótese de não vencer a disputa, Serra deveria se colocar à disposição do partido para ajudar onde fosse necessário, largando a obsessão de chegar à Presidência da República. Ouvi de alguns que ele poderia ser inclusive candidato a deputado federal para puxar uma grande bancada tucana de São Paulo e, de dentro do Congresso, empreender a reforma tributária, um projeto que ninguém consegue fazer, dada a falta de acordos e diálogo franco entre os entes federativos.
Por falar em diálogo franco.
O problema para essa união de Serra em favor de Aécio e vice-versa é tão difícil quanto subir uma escada rolante em sentido contrário. A relação entre os dois não é das melhores. Nas duas vezes em que foi candidato a presidente da República, Serra considerou que Aécio não trabalhou com todo o afinco para ajudá-lo, embora o ex-governador paulista tenha vencido em Belo Horizonte. Não são poucos os relatos de conversas ríspidas entre os dois no período da campanha presidencial.
O perigo dessas rusgas agora é o eleitor cansar das desavenças tucanas da mesma forma que parece enfadado do toma-lá-dá-cá dos cargos, enquanto as carências do país estão aí, muitas sem uma solução. É aí que um terceiro pode se criar. Não por acaso estão todos de olho na Rede de Marina Silva e nos movimentos do governador de Pernambuco, Eduardo Campos.
"Não podemos deixar esse assunto para o ano que vem. Quero conhecer logo o meu candidato a presidente, para que ele possa percorrer o país e mobilizar os nossos filiados. Vou propor que a prévia seja em 20 de outubro", disse ele, já antecipando o voto em favor de Aécio Neves.
Ainda não existe nada fechado em termos de data e regras para as prévias. Sabe-se apenas que, se houver, será depois de passado o prazo de filiação partidária para os candidatos às eleições do ano que vem, ou seja, 5 de outubro. Mas só a perspectiva de prévias obriga todos no PSDB a saírem da toca. Há dois dias em Brasília, José Serra admitiu que pode concorrer na prévia, o senador Álvaro Dias, do Paraná, também se apresentou. O presidente do partido, Aécio Neves, é considerado por muitos o nome mais forte contra Dilma, dado o poderio que desfruta em Minas Gerais, onde terminou o governo muito bem avaliado, e de seu jeito de fazer política.
O jogo da prévia, ainda que esteja apenas no início, coloca uma nova cor no tabuleiro do PSDB. Da parte de José Serra, que até aqui vinha sendo jogado para escanteio dentro do partido, ficou claro que ele está vivo, tem peso e não pode ser desprezado como desejavam alguns. Da parte de Aécio, a perspectiva da prévia lhe dá a permanência de Serra no ninho tucano. Assim, Serra perderia a capacidade de dividir votos que podem ser cruciais para levar o candidato do partido, seja quem for, ao segundo turno da eleição presidencial.
O problema, entretanto, é que até agora muita gente vê esse jogo da prévia como uma encenação. Os aliados de Aécio queriam, sinceramente, que ele começasse a percorrer o país como pré-candidato e não como presidente do partido. Mas podem encenar vontade de realizar a prévia apenas para garantir a permanência de Serra no PSDB. Entre os aliados de Serra, entretanto, há quem suspeite que também se trata de uma encenação dos serristas e o receio de que estejam apenas armando uma desculpa para, logo ali na frente, dizer que as regras não ficaram definidas. E assim, sem garantias de igualdade de condições, a saída de Serra seria buscar a candidatura presidencial fora do PSDB. É importante frisar ainda que, há dois dias, Serra chegou a dizer que era preciso ter regras claras para não parecer encenação.
Essa tese de que Serra joga para escancarar a porta de saída não é compartilhada por todos os aliados do ex-governador paulista. Há quem diga que ele deseja sinceramente a prévia. Esses amigos de Serra defendem que, na hipótese de não vencer a disputa, Serra deveria se colocar à disposição do partido para ajudar onde fosse necessário, largando a obsessão de chegar à Presidência da República. Ouvi de alguns que ele poderia ser inclusive candidato a deputado federal para puxar uma grande bancada tucana de São Paulo e, de dentro do Congresso, empreender a reforma tributária, um projeto que ninguém consegue fazer, dada a falta de acordos e diálogo franco entre os entes federativos.
Por falar em diálogo franco.
O problema para essa união de Serra em favor de Aécio e vice-versa é tão difícil quanto subir uma escada rolante em sentido contrário. A relação entre os dois não é das melhores. Nas duas vezes em que foi candidato a presidente da República, Serra considerou que Aécio não trabalhou com todo o afinco para ajudá-lo, embora o ex-governador paulista tenha vencido em Belo Horizonte. Não são poucos os relatos de conversas ríspidas entre os dois no período da campanha presidencial.
O perigo dessas rusgas agora é o eleitor cansar das desavenças tucanas da mesma forma que parece enfadado do toma-lá-dá-cá dos cargos, enquanto as carências do país estão aí, muitas sem uma solução. É aí que um terceiro pode se criar. Não por acaso estão todos de olho na Rede de Marina Silva e nos movimentos do governador de Pernambuco, Eduardo Campos.
Dois elefantes na sala de Dilma Rousseff - CLAUDIA SAFATLE
VALOR ECONÔMICO - 23/08
O preço dos combustíveis está para a presidente Dilma Rousseff assim como a taxa de câmbio esteve para Fernando Henrique Cardoso em 1998, comparou uma fonte qualificada. Ela pode tentar segurar o reajuste da gasolina e do diesel até passar as eleições, como fez FHC com o câmbio. Ou pode não esticar tanto a corda - seriam ainda quatorze meses de congelamento de preços da Petrobras até as eleições de outubro de 2014 - e começar a resolver já.
O fato é que a depreciação da taxa de câmbio - marcada por uma alta volatilidade das últimas semanas - acentuou a defasagem dos derivados do petróleo, amplificando os problemas e colocando dois elefantes na sala da presidente, cuja remoção tem implicações econômicas e políticas.
"Você já viu algum presidente da República reajustar a gasolina às vésperas das eleições?", devolveu um ministro diante das insistentes perguntas desta coluna para saber quão iminente é a decisão do governo.
Já. Em 2002, durante a gestão FHC, a Petrobras aumentou os preços em 9,7% poucos dias antes das eleições de outubro. Fato que deixou contrariado o então candidato à presidência pelo PSDB, José Serra.
Nos últimos dias os mercados de juros e câmbio ficaram sob intenso stress. A depreciação do real frente ao dólar produz mais inflação. O aumento dos combustíveis também. Portanto, só haveria uma alternativa: o Banco Central aumentar ainda mais os juros, levando a Selic, quem sabe, para a faixa de dois dígitos. Mas um aperto monetário mais forte poderia ser letal para o frágil crescimento.
Avalia-se também que o câmbio, no país, está em depreciação mais acelerada do que em outros emergentes, portanto a situação do Brasil é muito pior do que a dos seus pares (exceto África do Sul, cuja desvalorização soma 17,58% no ano).
Ontem pela manhã o noticiário doméstico já estava povoado de expectativas do mercado à espera de uma reunião extraordinária e emergencial do Conselho Monetário Nacional. Esperava-se também o anúncio de medidas fiscais restritivas para dar um choque de credibilidade no governo. A reunião do CMN, ordinária, estava programada e a discussão fiscal é relativa ao orçamento que será enviado ao Congresso no dia 31.
O mercado se fia em qualquer coisa quando está nervoso e sem parâmetros ou quando quer mais volatilidade nos preços dos ativos para engordar seus lucros.
À noite o Banco Central anunciou um expressivo programa de leilões de câmbio que pode acalmar o mercado demandante de "hedge".
O Brasil não está à beira da falência como ocorreu nos anos 80, em 1998 e em 2002, por razões distintas. Ao contrário, as contas externas são mais sólidas do que eram nesses períodos, apesar de terem piorado nos anos mais recentes; dispõe de reservas cambiais da ordem de US$ 370 bilhões; tem um passivo externo de melhor composição; e não vive uma fuga de capital.
Todos os países emergentes estão com suas moedas em forte depreciação desde que o Federal Reserve anunciou que pretende reduzir o ritmo da expansão monetária e, portanto, a liquidez global. Só que alguns apanham mais do que outros. Enquanto a lira turca e o peso mexicano acumulam desvalorização de 10,46% e 2,08% no ano, respectivamente, a rúpia indiana teve depreciação de 14,91% e o real, de 16%.
Argumenta-se que o real se desvaloriza mais do que as outras moedas porque foi também a que mais se apreciou de 2008 para cá. E mesmo no patamar em que está atualmente, ainda estaria ligeiramente abaixo da taxa de câmbio real de junho de 1994 (Plano Real).
A perda de confiança dos investidores no governo não é apenas fruto da imaginação. Tem origens e efeitos concretos.
Começou com o governo inventando uma nova matriz econômica em substituição ao tripé que inspirava confiança nos agentes. Trocou-se o compromisso transparente com metas de inflação e de superávit primário das contas públicas e com o regime de câmbio flutuante por uma política econômica que seria sustentada por juros baixos, gasto público em expansão, taxa de câmbio desvalorizada e preços administrados sob a interferência do governo. O caso mais estridente é o da Petrobras, mas não é o único.
Dentre outros elementos de preocupação, o déficit em conta corrente do balanço de pagamentos aumentou nos anos mais recentes e se aproxima de 4% do Produto Interno Bruto (PIB), numa clara deterioração das contas externas. Agora ele tende a cair com a depreciação do real. Estudos feitos pelo JP Morgan indicam que o déficit cairia a zero, no Brasil, a partir de uma desvalorização de 20%. Uma das razões pelas quais a Índia e o Brasil estariam pagando mais do que outros emergentes seria exatamente pelo crescente déficit externo que, num mundo de menor liquidez, fica mais difícil de financiar, e por uma inflação alta. O país também está com baixa capacidade de crescimento e investe pouco.
Se o país não está a beira de um colapso como já viveu no passado, poderia estar melhor não fossem as suas jabuticabas.
As tentativas de burlar a lógica nas contas públicas, o experimentalismo nos modelos originais das concessões, os vacilos cometidos no combate à inflação, a contínua capitalização dos bancos públicos para financiar a expansão do crédito e do consumo, prejudicaram a formação das expectativas dos agentes econômicos.
Porém, o Brasil, que nem estava tão bem há três, quatro anos, nem ficou tão ruim hoje, precisa que esses barulhentos obstáculos se afastem para que governo, mercado, sociedade, tenham clareza dos rumos de suas políticas para enxergar melhor seu futuro.
Pobres (médicos) cubanos - PLÁCIDO FERNANDES VIEIRA
CORREIO BRAZILIENSE - 23/08
Imagine pessoas esquecidas dos grotões brasileiros sendo atendidas por um médico pela primeira vez na vida. Sim: por atenciosos e solícitos profissionais cubanos. Já pensou a carga de emoção contida em arrebatadoras imagens dessa natureza? Pois é: em 2014, certamente, você verá muitas. Elas devem povoar a cena eleitoral dos candidatos governistas. Agora, pergunto: alguém de boa-fé pode ser contra uma iniciativa que, à primeira vista, se afigura humanitária? Claro que não. E não se trata, aqui, de fazer oposição a tão nobre programa.
O foco é a medida eleitoreira e o trabalho escravo por trás da mis-en-scène. Por que, em mais de 10 anos de administração petista, o governo nunca se empenhou de verdade em criar condições (sobretudo de infraestrutura, não apenas salarial) para levar profissionais de saúde brasileiros aos mais distantes rincões do país?
Simples: porque nunca teve real interesse em oferecer à população saúde e hospitais bem equipados - ou até com padrão Fifa, como cobraram manifestantes nas ruas em junho. O que se vê, em geral, é um sistema de saúde falido, com hospitais e postos de saúde sucateados até mesmo nas principais capitais do país. Quantos políticos correm pro SUS quando adoecem? Nunca soube de nenhum.
Outra pergunta: algum cubano se inscreveu livremente no Programa Mais Médicos? Você se lembra, caro leitor? Outra vez, a resposta é nenhum. E não se inscreveram, sabe por quê? Porque não têm liberdade para isso. Virão ao Brasil num misto de trabalho escravo e de agentes de propaganda eleitoral. Serão contratados diretamente ao governo de Cuba, que é quem embolsará a grana e ficará responsável por remunerá-los. De cada R$ 10 mil dos nossos impostos remetidos à ilha, estima-se que apenas R$ 3 mil serão destinados a esses profissionais.
Como ocorreu na Venezuela, na Bolívia e no Equador, eles serão mandados ao Brasil, mas continuarão reféns de Havana, porque suas famílias ficarão em Cuba, para que ninguém nem sonhe em desertar. Mesmo assim, ainda é possível que fiquem felizes em trabalhar como escravos aqui. Isso porque, no país deles, em eterna crise devido ao criminoso embargo americano e ao fim da ajuda recebida do então império soviético -, liberdades individuais praticamente inexistem e as condições de vida são ainda mais precárias. Pobres cubanos: lutaram tanto para se livrar de uma ditadura servil a Washington e acabaram reféns de uma tirania pseudossocialista.
O foco é a medida eleitoreira e o trabalho escravo por trás da mis-en-scène. Por que, em mais de 10 anos de administração petista, o governo nunca se empenhou de verdade em criar condições (sobretudo de infraestrutura, não apenas salarial) para levar profissionais de saúde brasileiros aos mais distantes rincões do país?
Simples: porque nunca teve real interesse em oferecer à população saúde e hospitais bem equipados - ou até com padrão Fifa, como cobraram manifestantes nas ruas em junho. O que se vê, em geral, é um sistema de saúde falido, com hospitais e postos de saúde sucateados até mesmo nas principais capitais do país. Quantos políticos correm pro SUS quando adoecem? Nunca soube de nenhum.
Outra pergunta: algum cubano se inscreveu livremente no Programa Mais Médicos? Você se lembra, caro leitor? Outra vez, a resposta é nenhum. E não se inscreveram, sabe por quê? Porque não têm liberdade para isso. Virão ao Brasil num misto de trabalho escravo e de agentes de propaganda eleitoral. Serão contratados diretamente ao governo de Cuba, que é quem embolsará a grana e ficará responsável por remunerá-los. De cada R$ 10 mil dos nossos impostos remetidos à ilha, estima-se que apenas R$ 3 mil serão destinados a esses profissionais.
Como ocorreu na Venezuela, na Bolívia e no Equador, eles serão mandados ao Brasil, mas continuarão reféns de Havana, porque suas famílias ficarão em Cuba, para que ninguém nem sonhe em desertar. Mesmo assim, ainda é possível que fiquem felizes em trabalhar como escravos aqui. Isso porque, no país deles, em eterna crise devido ao criminoso embargo americano e ao fim da ajuda recebida do então império soviético -, liberdades individuais praticamente inexistem e as condições de vida são ainda mais precárias. Pobres cubanos: lutaram tanto para se livrar de uma ditadura servil a Washington e acabaram reféns de uma tirania pseudossocialista.
Dever ser - MARINA SILVA
FOLHA DE SP - 23/08
Aconcheguei-me aos meus filhos e chamei os amigos Jane, Treici, Marcelo e Natalia para ver outra vez o filme em que a atriz Barbara Sukowa vive um dos períodos mais significativos na vida da filósofa Hannah Arendt. Numa pequena pausa da agenda intensa, alimento para a mente e o coração.
Para mim, o filme de Margarethe von Trotta é "de ação". Não pelo frenesi típico desse gênero, mas pelo que tem de instigante, pelo alvoroço do pensar que interrompe o automatismo a que somos empurrados cotidianamente. A repetição apenas atende ao querer alheio de si mesmo, do que dizer, fazer e ouvir. É impotente para criar, infalível para estagnar.
O filme impressiona pela fidelidade ao pensamento em ação de Hannah Arendt, que, ao relatar o julgamento do nazista Adolf Eichmann, recusa a comodidade da condenação fácil e escolhe a imprevisível singularidade de um mergulho mais profundo. Denuncia, assim, que a banalização do mal pode esconder-se por trás do que poderíamos chamar de banalização do bem: a repetição sem reflexão do que um sistema autoritário consagra como normal, desejável e bom.
Nas escolhas de Hannah afirmam-se a autenticidade e o irredutível desejo de autoria com os quais uma pessoa consegue situar-se no mundo por sua singularidade, sem limitar-se a atender o que dela se espera em previsíveis demandas.
Ao contrário do individualismo, que atomiza a força integradora das relações, essas pessoas se dispõem à troca na diferença. Não fazem o que querem nem o que os outros querem, mas o que devem fazer. Conhecem o direito, mas conhecem mais ainda o irrenunciável dever contido no direito: de ser o que é, de afirmar o que sua singularidade lhes possibilita que sejam, como o psicanalista francês Alain Didier poeticamente insiste em caracterizar o dever-ser.
É contra essa irreflexão, de atender sem atender-se, essa "descapacidade" de agir sem pensar, que Hannah Arendt se insurge e denuncia como a causa profunda das bestialidades e da banalização do mal. Não por acaso, pagou muito caro por recusar-se a depositar a oferta de seu pensamento sofisticado e generoso no mercado das demandas alheias, sempre ávidas por inquirir, condenar e matar a tudo o que possa rotular de heresia. Tornou-se o que deveria ter sido. Foi capaz de dizer, em seu tempo, o que os ouvidos e mentes deste outro tempo, longínquo futuro, não poderiam ser privados de ouvir.
Hannah nos sussurra a coragem de seguir a nossa consciência sem nos deixar ensurdecer pelos que profetizam a ausência de futuro e nos querem fazer acreditar que a história termina neles. Em "A Condição Humana", expressa sua esperança, nosso legado: "Os homens, ainda que devam morrer, não nasceram para morrer, mas para recomeçar."
Aconcheguei-me aos meus filhos e chamei os amigos Jane, Treici, Marcelo e Natalia para ver outra vez o filme em que a atriz Barbara Sukowa vive um dos períodos mais significativos na vida da filósofa Hannah Arendt. Numa pequena pausa da agenda intensa, alimento para a mente e o coração.
Para mim, o filme de Margarethe von Trotta é "de ação". Não pelo frenesi típico desse gênero, mas pelo que tem de instigante, pelo alvoroço do pensar que interrompe o automatismo a que somos empurrados cotidianamente. A repetição apenas atende ao querer alheio de si mesmo, do que dizer, fazer e ouvir. É impotente para criar, infalível para estagnar.
O filme impressiona pela fidelidade ao pensamento em ação de Hannah Arendt, que, ao relatar o julgamento do nazista Adolf Eichmann, recusa a comodidade da condenação fácil e escolhe a imprevisível singularidade de um mergulho mais profundo. Denuncia, assim, que a banalização do mal pode esconder-se por trás do que poderíamos chamar de banalização do bem: a repetição sem reflexão do que um sistema autoritário consagra como normal, desejável e bom.
Nas escolhas de Hannah afirmam-se a autenticidade e o irredutível desejo de autoria com os quais uma pessoa consegue situar-se no mundo por sua singularidade, sem limitar-se a atender o que dela se espera em previsíveis demandas.
Ao contrário do individualismo, que atomiza a força integradora das relações, essas pessoas se dispõem à troca na diferença. Não fazem o que querem nem o que os outros querem, mas o que devem fazer. Conhecem o direito, mas conhecem mais ainda o irrenunciável dever contido no direito: de ser o que é, de afirmar o que sua singularidade lhes possibilita que sejam, como o psicanalista francês Alain Didier poeticamente insiste em caracterizar o dever-ser.
É contra essa irreflexão, de atender sem atender-se, essa "descapacidade" de agir sem pensar, que Hannah Arendt se insurge e denuncia como a causa profunda das bestialidades e da banalização do mal. Não por acaso, pagou muito caro por recusar-se a depositar a oferta de seu pensamento sofisticado e generoso no mercado das demandas alheias, sempre ávidas por inquirir, condenar e matar a tudo o que possa rotular de heresia. Tornou-se o que deveria ter sido. Foi capaz de dizer, em seu tempo, o que os ouvidos e mentes deste outro tempo, longínquo futuro, não poderiam ser privados de ouvir.
Hannah nos sussurra a coragem de seguir a nossa consciência sem nos deixar ensurdecer pelos que profetizam a ausência de futuro e nos querem fazer acreditar que a história termina neles. Em "A Condição Humana", expressa sua esperança, nosso legado: "Os homens, ainda que devam morrer, não nasceram para morrer, mas para recomeçar."
Os médicos trabalham, o ditador lucra - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 23/08
A natureza do acordo para a vinda de médicos cubanos os coloca em posição de inferioridade em relação aos demais colegas, e serve como meio de o Brasil financiar o regime dos Castro
Em maio, o governo brasileiro recuou da ideia de importar 6 mil médicos cubanos, após duras críticas das associações de classe, como o Conselho Federal de Medicina (CFM). Nesta semana, o país descobriu que se tratava apenas de uma retirada estratégica. Na quarta-feira, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, confirmou que 4 mil médicos farão as malas para deixar a ilha dos Castro rumo ao Brasil – 400 deles chegam já na semana que vem, e até novembro todos eles já estarão em solo brasileiro.
Somando todas as demandas feitas por prefeitos para o programa Mais Médicos, seriam necessários 15.460 profissionais; após o primeiro mês de inscrições e seleção, apenas 10,5% das vagas foram preenchidas, e 701 cidades não registraram nenhum interessado – é para esses municípios (84% deles nas regiões Norte e Nordeste) que os cubanos serão enviados, com o detalhe de que eles não poderão escolher a localidade onde trabalharão.
O problema não é a mera importação de médicos. Afinal, se há localidades onde os profissionais brasileiros não têm interesse em atuar – seja pelo salário, seja pelas condições de trabalho, seja por outras circunstâncias –, e se há estrangeiros que desejam exercer a medicina nesses locais, nada mais lógico que aproveitar seu interesse. É preciso lembrar que o programa não está trazendo apenas cubanos, mas também médicos de outros países, inclusive da Europa. Como esta Gazeta do Povo já defendeu no ano passado, o país se beneficia ao receber um fluxo de bons profissionais, com ganho em talento e incentivo ao empreendedorismo.
A ação do governo brasileiro, no entanto, começa a ficar questionável ao reduzir as exigências que seriam feitas normalmente aos médicos estrangeiros (ou brasileiros formados no exterior) que desejam trabalhar no país. Quando as entidades de classe manifestam sua preocupação com a qualidade dos profissionais que virão para o Mais Médicos, referem-se especificamente ao Revalida, o exame necessário para que um médico diplomado fora do Brasil possa exercer a profissão por aqui. Para se ter uma ideia, dos 884 inscritos na edição 2012 da prova, apenas 77 foram aprovados. No entanto, os estrangeiros do programa Mais Médicos foram dispensados do exame.
O Ministério da Saúde alega que esses médicos ficarão no Brasil em caráter provisório, e trabalharão apenas nos locais para os quais forem designados pelo governo. No Brasil, eles passarão por treinamentos e avaliações (diferentes do Revalida), além de aulas de português. Obviamente, em casos extremos seria possível – e até necessário – colocar de lado algumas exigências em prol do bem público; e, para quem mora em uma localidade sem médicos, um médico sem Revalida ainda é melhor que médico nenhum. Mas a preocupação com o nível de formação dos estrangeiros é pertinente, ainda mais no caso dos cubanos, cujas escolas de Medicina não têm um currículo tão extenso quanto o brasileiro. Com o Revalida, haveria a garantia de que os médicos estrangeiros teriam um nível pelo menos compatível ao dos brasileiros.
Mais preocupante ainda é a natureza do convênio assinado entre Brasil e Cuba. Enquanto todos os outros profissionais do Mais Médicos, brasileiros e estrangeiros, têm garantida sua bolsa de R$ 10 mil mensais, os cubanos são colocados em uma posição de inferioridade. Em vez de fazer o óbvio e pagar diretamente aos médicos, o governo brasileiro enviará o dinheiro à Organização Pan-Americana de Saúde (Opas, a “intermediadora” do contrato), que o repassará ao governo cubano, que, por sua vez, fará o pagamento. Se for seguido o modelo de convênios entre Cuba e outros países, os médicos cubanos só levarão 30% daquilo a que teriam direito se tivessem qualquer outra nacionalidade. Até fevereiro de 2014, o Brasil enviará R$ 511 milhões a Cuba – como nem metade disso deve chegar aos médicos, a conclusão é de que o acordo, no fim, também é uma maneira de o Brasil financiar a falida ditadura dos irmãos Castro, tradicionais aliados ideológicos do PT, à custa do trabalho de profissionais que receberão muito menos que seus colegas para cumprir as mesmas funções.
A natureza do acordo para a vinda de médicos cubanos os coloca em posição de inferioridade em relação aos demais colegas, e serve como meio de o Brasil financiar o regime dos Castro
Em maio, o governo brasileiro recuou da ideia de importar 6 mil médicos cubanos, após duras críticas das associações de classe, como o Conselho Federal de Medicina (CFM). Nesta semana, o país descobriu que se tratava apenas de uma retirada estratégica. Na quarta-feira, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, confirmou que 4 mil médicos farão as malas para deixar a ilha dos Castro rumo ao Brasil – 400 deles chegam já na semana que vem, e até novembro todos eles já estarão em solo brasileiro.
Somando todas as demandas feitas por prefeitos para o programa Mais Médicos, seriam necessários 15.460 profissionais; após o primeiro mês de inscrições e seleção, apenas 10,5% das vagas foram preenchidas, e 701 cidades não registraram nenhum interessado – é para esses municípios (84% deles nas regiões Norte e Nordeste) que os cubanos serão enviados, com o detalhe de que eles não poderão escolher a localidade onde trabalharão.
O problema não é a mera importação de médicos. Afinal, se há localidades onde os profissionais brasileiros não têm interesse em atuar – seja pelo salário, seja pelas condições de trabalho, seja por outras circunstâncias –, e se há estrangeiros que desejam exercer a medicina nesses locais, nada mais lógico que aproveitar seu interesse. É preciso lembrar que o programa não está trazendo apenas cubanos, mas também médicos de outros países, inclusive da Europa. Como esta Gazeta do Povo já defendeu no ano passado, o país se beneficia ao receber um fluxo de bons profissionais, com ganho em talento e incentivo ao empreendedorismo.
A ação do governo brasileiro, no entanto, começa a ficar questionável ao reduzir as exigências que seriam feitas normalmente aos médicos estrangeiros (ou brasileiros formados no exterior) que desejam trabalhar no país. Quando as entidades de classe manifestam sua preocupação com a qualidade dos profissionais que virão para o Mais Médicos, referem-se especificamente ao Revalida, o exame necessário para que um médico diplomado fora do Brasil possa exercer a profissão por aqui. Para se ter uma ideia, dos 884 inscritos na edição 2012 da prova, apenas 77 foram aprovados. No entanto, os estrangeiros do programa Mais Médicos foram dispensados do exame.
O Ministério da Saúde alega que esses médicos ficarão no Brasil em caráter provisório, e trabalharão apenas nos locais para os quais forem designados pelo governo. No Brasil, eles passarão por treinamentos e avaliações (diferentes do Revalida), além de aulas de português. Obviamente, em casos extremos seria possível – e até necessário – colocar de lado algumas exigências em prol do bem público; e, para quem mora em uma localidade sem médicos, um médico sem Revalida ainda é melhor que médico nenhum. Mas a preocupação com o nível de formação dos estrangeiros é pertinente, ainda mais no caso dos cubanos, cujas escolas de Medicina não têm um currículo tão extenso quanto o brasileiro. Com o Revalida, haveria a garantia de que os médicos estrangeiros teriam um nível pelo menos compatível ao dos brasileiros.
Mais preocupante ainda é a natureza do convênio assinado entre Brasil e Cuba. Enquanto todos os outros profissionais do Mais Médicos, brasileiros e estrangeiros, têm garantida sua bolsa de R$ 10 mil mensais, os cubanos são colocados em uma posição de inferioridade. Em vez de fazer o óbvio e pagar diretamente aos médicos, o governo brasileiro enviará o dinheiro à Organização Pan-Americana de Saúde (Opas, a “intermediadora” do contrato), que o repassará ao governo cubano, que, por sua vez, fará o pagamento. Se for seguido o modelo de convênios entre Cuba e outros países, os médicos cubanos só levarão 30% daquilo a que teriam direito se tivessem qualquer outra nacionalidade. Até fevereiro de 2014, o Brasil enviará R$ 511 milhões a Cuba – como nem metade disso deve chegar aos médicos, a conclusão é de que o acordo, no fim, também é uma maneira de o Brasil financiar a falida ditadura dos irmãos Castro, tradicionais aliados ideológicos do PT, à custa do trabalho de profissionais que receberão muito menos que seus colegas para cumprir as mesmas funções.
Causas internas da desvalorização do real - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 23/08
‘Contabilidade criativa’, capitalização de bancos por meio de endividamento, intervenção na formação de preços e inflação aumentam fuga de divisas
O fato de a desvalorização do real não ser algo isolado, fazer parte de um movimento planetário que atinge economias emergentes, parece álibi perfeito para a reação típica de autoridades de culpar causas externas por problemas domésticos. Mas não é bem assim.
Por trás de tudo, está a proximidade do fim do “relaxamento monetário”, instituído pelo banco central americano (Fed) para recuperar a economia, por meio da injeção periódica de bilhões de dólares, via recompra de títulos. Depois de mais de US$ 3 trilhões colocados em circulação, a economia americana firma uma tendência de recuperação. Para não gerar pressões inflacionárias perigosas, o Fed suspenderá essas operações, e o capital financeiro que gira no mundo, diante da perspectiva de alta dos juros americanos, começa a buscar títulos do Tesouro dos EUA. Natural que economias emergentes percam atratividade. Porém, há emergentes mais atingidos que outros. Por fragilidades próprias, caso do Brasil.
No inventário de decisões erradas na condução da economia, que hoje cobram um preço na forma de desvalorização exacerbada da moeda, está a “contabilidade criativa”, idealizada para, ingenuamente, tentar camuflar uma política fiscal expansionista enquanto o discurso oficial é o oposto. Relacionado a esta “criatividade”, há o uso desregrado do endividamento público para capitalizar BNDES, BB, CEF, aumentando o risco fiscal. Tudo mina a credibilidade do país diante do investidor externo — e interno —, problema amplificado pela leniência demonstrada com a inflação. Há, ainda, o intervencionismo na formatação de leilões de concessão, com o tabelamento de taxas de retorno. Bem como o dirigismo estatal no congelamento de combustíveis, dramático para o caixa a Petrobras, quando a empresa precisa de recursos para ampliar a fronteira de exploração do pré-sal.
Ainda no quesito da formação artificial de preços, há um subsídio na conta de luz, a fim de bancar o corte pré-definido de 20% no custo final da energia. Nele, há o risco de se criar no Tesouro um daqueles "esqueletos" fiscais descobertos quando o Plano Real estabilizou a economia.
Há entre os agentes econômicos a correta percepção de que os subsídios apenas reprimem inflação. Formam no subsolo da economia um tsunami de inflação represada.
Pode ser que o governo já tenha se convencido de alguns desses erros. O mal, porém, no entendimento do mercado, está feito. E como a percepção dos descaminhos na política econômica coincidiram com o início da contagem regressiva do fim da política do Fed de "relaxamento monetário", a fuga de divisas para o mercado americano pune o Brasil mais que outros países, inclusive latino-americanos. Claro que quanto mais cedo os rumos da política econômica forem ajustados, também mais cedo a dose extra de punição será atenuada. O mundo acompanhará com atenção as próximas reuniões do Copom e as licitações de portos, estradas e ferrovias que se aproximam.
‘Contabilidade criativa’, capitalização de bancos por meio de endividamento, intervenção na formação de preços e inflação aumentam fuga de divisas
O fato de a desvalorização do real não ser algo isolado, fazer parte de um movimento planetário que atinge economias emergentes, parece álibi perfeito para a reação típica de autoridades de culpar causas externas por problemas domésticos. Mas não é bem assim.
Por trás de tudo, está a proximidade do fim do “relaxamento monetário”, instituído pelo banco central americano (Fed) para recuperar a economia, por meio da injeção periódica de bilhões de dólares, via recompra de títulos. Depois de mais de US$ 3 trilhões colocados em circulação, a economia americana firma uma tendência de recuperação. Para não gerar pressões inflacionárias perigosas, o Fed suspenderá essas operações, e o capital financeiro que gira no mundo, diante da perspectiva de alta dos juros americanos, começa a buscar títulos do Tesouro dos EUA. Natural que economias emergentes percam atratividade. Porém, há emergentes mais atingidos que outros. Por fragilidades próprias, caso do Brasil.
No inventário de decisões erradas na condução da economia, que hoje cobram um preço na forma de desvalorização exacerbada da moeda, está a “contabilidade criativa”, idealizada para, ingenuamente, tentar camuflar uma política fiscal expansionista enquanto o discurso oficial é o oposto. Relacionado a esta “criatividade”, há o uso desregrado do endividamento público para capitalizar BNDES, BB, CEF, aumentando o risco fiscal. Tudo mina a credibilidade do país diante do investidor externo — e interno —, problema amplificado pela leniência demonstrada com a inflação. Há, ainda, o intervencionismo na formatação de leilões de concessão, com o tabelamento de taxas de retorno. Bem como o dirigismo estatal no congelamento de combustíveis, dramático para o caixa a Petrobras, quando a empresa precisa de recursos para ampliar a fronteira de exploração do pré-sal.
Ainda no quesito da formação artificial de preços, há um subsídio na conta de luz, a fim de bancar o corte pré-definido de 20% no custo final da energia. Nele, há o risco de se criar no Tesouro um daqueles "esqueletos" fiscais descobertos quando o Plano Real estabilizou a economia.
Há entre os agentes econômicos a correta percepção de que os subsídios apenas reprimem inflação. Formam no subsolo da economia um tsunami de inflação represada.
Pode ser que o governo já tenha se convencido de alguns desses erros. O mal, porém, no entendimento do mercado, está feito. E como a percepção dos descaminhos na política econômica coincidiram com o início da contagem regressiva do fim da política do Fed de "relaxamento monetário", a fuga de divisas para o mercado americano pune o Brasil mais que outros países, inclusive latino-americanos. Claro que quanto mais cedo os rumos da política econômica forem ajustados, também mais cedo a dose extra de punição será atenuada. O mundo acompanhará com atenção as próximas reuniões do Copom e as licitações de portos, estradas e ferrovias que se aproximam.
Os efeitos do radicalismo - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 23/08
Os dirigentes sindicais dos metalúrgicos de São José dos Campos estão colhendo os resultados do radicalismo político e de greves insensatas para sustentar reivindicações irrealistas. Em resposta às dificuldades que criaram, a General Motors (GM) fechou várias linhas de produção no grande complexo industrial que há mais de cinco décadas mantém na cidade, afetando com isso quase toda a economia do Vale do Paraíba.
Os problemas começaram há dois ou três anos, quando a empresa precisou renovar seus produtos, substituindo modelos defasados por outros tecnologicamente mais modernos. Enfrentando uma concorrência cada vez mais acirrada nos mercados interno e externo, como ocorre com outras empresas industriais instaladas no País, a GM também foi obrigada a desenvolver programas de redução de custos operacionais e de aumento de produtividade em seu complexo industrial em São José dos Campos, para defender seus mercados e, se possível, ampliá-los.
Para isso, a montadora tentou negociar com os dirigentes sindicais dos metalúrgicos a adoção de jornadas diferenciadas, novos padrões de remuneração e a redefinição dos planos de benefícios. Propôs, também, o sistema de banco de horas, por meio do qual os operários, em troca da garantia do emprego, aceitam trabalhar mais, quando a demanda do mercado aumenta, e reduzir a jornada, quando as vendas caem.
Mas, como as discussões não avançaram, por causa do radicalismo do Sindicato dos Metalúrgicos de São José, que é dominado por representantes do PSTU e de seu braço sindical, a Conlutas, a GM reduziu paulatinamente suas atividades na cidade, deslocando-as para outras unidades, como as de São Caetano do Sul (SP), Joinville (SC) e Gravataí (RS). Dos R$ 5,5 bilhões investidos pela empresa nos últimos quatro anos, apenas R$ 800 milhões foram destinados ao complexo industrial de São José dos Campos. Dos 7,5 mil operários que ali trabalhavam, mil já foram despedidos. E, com o fechamento definitivo da linha que produzia o sedã Classic, anunciado há uma semana, outros cortes são esperados.
Com a decisão da GM de transferir parte de suas atividades de São José dos Campos, os fabricantes de autopeças terão de fazer o mesmo, o que provocará algum esvaziamento econômico na cidade. No início do ano, por exemplo, a Johnson Controls desativou sua fábrica de poltronas para veículos na cidade. A GM era sua única cliente na região. A TI Automotive, que produz sistemas de ar-condicionado para automóveis, já transferiu parte de seus empregados para a unidade de Piracicaba, onde está sediada uma das fábricas da Hyundai.
Para a direção da Associação Comercial e Industrial de São José dos Campos, o fechamento de linhas de produção da GM acarreta desemprego, dissemina insegurança e afeta negativamente, o comércio, Já a prefeitura espera que o problema do desemprego na região seja atenuado com a expansão de outros setores econômicos, principalmente o petrolífero e o aeroespacial. A cidade abriga a principal fábrica da Embraer e uma das principais unidades da Petrobrás.
Mais uma vez arremetendo contra a lógica da economia e das relações trabalhistas modernas, os dirigentes dos metalúrgicos de São José dos Campos prometeram "reação dura" contra a GM.
Eles podem fazer barulho, mas dificilmente conseguirão reverter as decisões da montadora. O que está ocorrendo em São José dos Campos não é inédito. Em resposta às ameaças de greve, a Renault e a Opel fecharam fábricas na França e na Alemanha e as transferiram para o Leste Europeu, O que os dirigentes dos metalúrgicos de São José dos Campos não compreendem é que, ao fazerem reivindicações trabalhistas absurdas, encarecem os custos das empresas.
E quando elas são obrigadas a se transferir para onde possam produzir a custos mais baixos, a cadeia automotiva muda, trabalhadores são demitidos e a economia local entra em declínio.
Os problemas começaram há dois ou três anos, quando a empresa precisou renovar seus produtos, substituindo modelos defasados por outros tecnologicamente mais modernos. Enfrentando uma concorrência cada vez mais acirrada nos mercados interno e externo, como ocorre com outras empresas industriais instaladas no País, a GM também foi obrigada a desenvolver programas de redução de custos operacionais e de aumento de produtividade em seu complexo industrial em São José dos Campos, para defender seus mercados e, se possível, ampliá-los.
Para isso, a montadora tentou negociar com os dirigentes sindicais dos metalúrgicos a adoção de jornadas diferenciadas, novos padrões de remuneração e a redefinição dos planos de benefícios. Propôs, também, o sistema de banco de horas, por meio do qual os operários, em troca da garantia do emprego, aceitam trabalhar mais, quando a demanda do mercado aumenta, e reduzir a jornada, quando as vendas caem.
Mas, como as discussões não avançaram, por causa do radicalismo do Sindicato dos Metalúrgicos de São José, que é dominado por representantes do PSTU e de seu braço sindical, a Conlutas, a GM reduziu paulatinamente suas atividades na cidade, deslocando-as para outras unidades, como as de São Caetano do Sul (SP), Joinville (SC) e Gravataí (RS). Dos R$ 5,5 bilhões investidos pela empresa nos últimos quatro anos, apenas R$ 800 milhões foram destinados ao complexo industrial de São José dos Campos. Dos 7,5 mil operários que ali trabalhavam, mil já foram despedidos. E, com o fechamento definitivo da linha que produzia o sedã Classic, anunciado há uma semana, outros cortes são esperados.
Com a decisão da GM de transferir parte de suas atividades de São José dos Campos, os fabricantes de autopeças terão de fazer o mesmo, o que provocará algum esvaziamento econômico na cidade. No início do ano, por exemplo, a Johnson Controls desativou sua fábrica de poltronas para veículos na cidade. A GM era sua única cliente na região. A TI Automotive, que produz sistemas de ar-condicionado para automóveis, já transferiu parte de seus empregados para a unidade de Piracicaba, onde está sediada uma das fábricas da Hyundai.
Para a direção da Associação Comercial e Industrial de São José dos Campos, o fechamento de linhas de produção da GM acarreta desemprego, dissemina insegurança e afeta negativamente, o comércio, Já a prefeitura espera que o problema do desemprego na região seja atenuado com a expansão de outros setores econômicos, principalmente o petrolífero e o aeroespacial. A cidade abriga a principal fábrica da Embraer e uma das principais unidades da Petrobrás.
Mais uma vez arremetendo contra a lógica da economia e das relações trabalhistas modernas, os dirigentes dos metalúrgicos de São José dos Campos prometeram "reação dura" contra a GM.
Eles podem fazer barulho, mas dificilmente conseguirão reverter as decisões da montadora. O que está ocorrendo em São José dos Campos não é inédito. Em resposta às ameaças de greve, a Renault e a Opel fecharam fábricas na França e na Alemanha e as transferiram para o Leste Europeu, O que os dirigentes dos metalúrgicos de São José dos Campos não compreendem é que, ao fazerem reivindicações trabalhistas absurdas, encarecem os custos das empresas.
E quando elas são obrigadas a se transferir para onde possam produzir a custos mais baixos, a cadeia automotiva muda, trabalhadores são demitidos e a economia local entra em declínio.
Sem saída - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 23/08
Apesar das negativas do governo federal de que seja iminente um reajuste dos preços dos combustíveis _ o porta-voz da Presidência, Thomas Traumann, veio ontem a público contestar a informação de que a presidente Dilma Rousseff tenha discutido o assunto _, trata-se de medida previsível diante do atual cenário macroeconômico. O petróleo é uma commodity, assim como os grãos e os minérios, e tem seus preços cotados nas bolsas internacionais. No caso do mercado petrolífero, porém, há uma peculiaridade: o Oriente Médio, principal região produtora, caracteriza-se há quase cem anos pela instabilidade política, que muitas vezes degenera em guerras. Essa característica tende a provocar oscilações bruscas no preço do barril, com impacto imediato sobre derivados, como gasolina e diesel. Apesar de ter alcançado a autossuficiência na produção do óleo em 2006, o Brasil continua importando o produto por não contar com capacidade de refino para atender à demanda interna. Como empresa pública (com mais de 50% do capital nas mãos do Estado brasileiro), a Petrobras atua em conformidade com a política de preços do governo. É por isso que, desde o começo dos anos 2000, a empresa mantém os preços domésticos abaixo dos internacionais a fim de não provocar impacto indesejado nos índices de inflação.
A direção da Petrobras já teria pedido formalmente ao governo o reajuste do preço dos combustíveis, conforme o jornal O Estado de S. Paulo. No ano passado, a presidente da estatal, Maria das Graças Foster, havia manifestado a necessidade de um aumento de 15% nos preços. A disparada do dólar nos últimos dias tornou praticamente inviável a manutenção do diferencial entre os preços domésticos e internacionais no patamar atual. Na atual conjuntura, a companhia precisa gastar cada vez mais em moeda nacional para adquirir no mercado externo a mesma quantidade de combustível. Não resta dúvida de que o aumento terá efeito inflacionário, uma vez que será inevitavelmente repassado aos preços. Para o Palácio do Planalto, porém, trata-se agora de optar entre a pressão sobre os índices de inflação provocada pelo aumento e o comprometimento da capacidade de investimento da Petrobras, que já tem problemas graves de caixa e pode até mesmo ter sua nota rebaixada pelas agências de classificação de risco, perdendo o grau de investimento. Uma turbulência desta dimensão nas contas da empresa seria fatal para a credibilidade do país no Exterior.
É compreensível que o governo tema riscos eleitorais por conta do efeito cascata do aumento dos combustíveis. Inflação em alta compromete, em tese, as perspectivas de reeleição da presidente. Espera-se que o governo coloque os interesses do país à frente de seus próprios cálculos eleitorais e tente compensar os efeitos do eventual reajuste com uma compressão nos seus gastos. A condução da política macroeconômica não pode ser posta à sombra dos palanques. É preciso ter visão de longo prazo e rechaçar qualquer possibilidade de que a estatal brasileira de petróleo acabe por financiar os planos de reeleição de quem quer que seja.
Apesar das negativas do governo federal de que seja iminente um reajuste dos preços dos combustíveis _ o porta-voz da Presidência, Thomas Traumann, veio ontem a público contestar a informação de que a presidente Dilma Rousseff tenha discutido o assunto _, trata-se de medida previsível diante do atual cenário macroeconômico. O petróleo é uma commodity, assim como os grãos e os minérios, e tem seus preços cotados nas bolsas internacionais. No caso do mercado petrolífero, porém, há uma peculiaridade: o Oriente Médio, principal região produtora, caracteriza-se há quase cem anos pela instabilidade política, que muitas vezes degenera em guerras. Essa característica tende a provocar oscilações bruscas no preço do barril, com impacto imediato sobre derivados, como gasolina e diesel. Apesar de ter alcançado a autossuficiência na produção do óleo em 2006, o Brasil continua importando o produto por não contar com capacidade de refino para atender à demanda interna. Como empresa pública (com mais de 50% do capital nas mãos do Estado brasileiro), a Petrobras atua em conformidade com a política de preços do governo. É por isso que, desde o começo dos anos 2000, a empresa mantém os preços domésticos abaixo dos internacionais a fim de não provocar impacto indesejado nos índices de inflação.
A direção da Petrobras já teria pedido formalmente ao governo o reajuste do preço dos combustíveis, conforme o jornal O Estado de S. Paulo. No ano passado, a presidente da estatal, Maria das Graças Foster, havia manifestado a necessidade de um aumento de 15% nos preços. A disparada do dólar nos últimos dias tornou praticamente inviável a manutenção do diferencial entre os preços domésticos e internacionais no patamar atual. Na atual conjuntura, a companhia precisa gastar cada vez mais em moeda nacional para adquirir no mercado externo a mesma quantidade de combustível. Não resta dúvida de que o aumento terá efeito inflacionário, uma vez que será inevitavelmente repassado aos preços. Para o Palácio do Planalto, porém, trata-se agora de optar entre a pressão sobre os índices de inflação provocada pelo aumento e o comprometimento da capacidade de investimento da Petrobras, que já tem problemas graves de caixa e pode até mesmo ter sua nota rebaixada pelas agências de classificação de risco, perdendo o grau de investimento. Uma turbulência desta dimensão nas contas da empresa seria fatal para a credibilidade do país no Exterior.
É compreensível que o governo tema riscos eleitorais por conta do efeito cascata do aumento dos combustíveis. Inflação em alta compromete, em tese, as perspectivas de reeleição da presidente. Espera-se que o governo coloque os interesses do país à frente de seus próprios cálculos eleitorais e tente compensar os efeitos do eventual reajuste com uma compressão nos seus gastos. A condução da política macroeconômica não pode ser posta à sombra dos palanques. É preciso ter visão de longo prazo e rechaçar qualquer possibilidade de que a estatal brasileira de petróleo acabe por financiar os planos de reeleição de quem quer que seja.
Horrores na Síria - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 23/08
São chocantes as imagens que vêm da Síria. Nos vídeos postados na internet, adultos e crianças estrebucham enquanto sofrem com aparente privação de ar. Nas fotografias, contam-se dezenas de mortos enfileirados.
Seriam, segundo ativistas de oposição ao ditador Bashar al-Assad, sinais de que o governo usou armas químicas contra os rebeldes. Embora provável, a hipótese não está comprovada --há dúvidas até sobre quem foi o responsável pelo ataque. O Conselho de Segurança da ONU convocou reunião de emergência para tentar esclarecer o episódio.
Para os insurgentes, que vêm perdendo terreno nos últimos meses, o suposto ataque é uma demonstração de que o regime despreza a comunidade internacional.
Aliados de Assad afirmam que as imagens são parte de uma armação para provocar intervenção externa --o presidente dos EUA, Barack Obama, já declarou que o uso de armas químicas equivaleria a cruzar a "linha vermelha".
Se comprovada, a utilização do gás sarin, agente paralisante que dificulta a respiração, de fato tornaria ainda mais desumano o cenário da guerra na Síria. Após quase dois anos e meio de violência, são mais de 100 mil mortos e quase 1,8 milhão de refugiados --o equivalente a 70% da população de Damasco, capital do país.
É crucial esclarecer as circunstâncias que deram origem às imagens de ambientes repletos de mortos. O chanceler francês, Laurent Fabius, defendeu ontem que a comunidade internacional reaja com força contra Assad se for confirmado o uso de armas químicas.
Não se trata de decisão trivial. Além do princípio da autodeterminação dos povos, a experiência pregressa desestimula a solução militar. Resultaram em desastre, por exemplo, as intervenções na Somália e na Bósnia, nos anos 1990.
No caso sírio, o contexto é ainda mais complexo porque EUA e Rússia --fornecedora de armas de Damasco-- estão em lados opostos na mesa de negociações.
Até aqui incapaz de conter Assad, a comunidade internacional precisa encontrar instrumentos de pressão mais efetivos, antes que a situação justifique uma ação militar sob os auspícios da ONU.
São chocantes as imagens que vêm da Síria. Nos vídeos postados na internet, adultos e crianças estrebucham enquanto sofrem com aparente privação de ar. Nas fotografias, contam-se dezenas de mortos enfileirados.
Seriam, segundo ativistas de oposição ao ditador Bashar al-Assad, sinais de que o governo usou armas químicas contra os rebeldes. Embora provável, a hipótese não está comprovada --há dúvidas até sobre quem foi o responsável pelo ataque. O Conselho de Segurança da ONU convocou reunião de emergência para tentar esclarecer o episódio.
Para os insurgentes, que vêm perdendo terreno nos últimos meses, o suposto ataque é uma demonstração de que o regime despreza a comunidade internacional.
Aliados de Assad afirmam que as imagens são parte de uma armação para provocar intervenção externa --o presidente dos EUA, Barack Obama, já declarou que o uso de armas químicas equivaleria a cruzar a "linha vermelha".
Se comprovada, a utilização do gás sarin, agente paralisante que dificulta a respiração, de fato tornaria ainda mais desumano o cenário da guerra na Síria. Após quase dois anos e meio de violência, são mais de 100 mil mortos e quase 1,8 milhão de refugiados --o equivalente a 70% da população de Damasco, capital do país.
É crucial esclarecer as circunstâncias que deram origem às imagens de ambientes repletos de mortos. O chanceler francês, Laurent Fabius, defendeu ontem que a comunidade internacional reaja com força contra Assad se for confirmado o uso de armas químicas.
Não se trata de decisão trivial. Além do princípio da autodeterminação dos povos, a experiência pregressa desestimula a solução militar. Resultaram em desastre, por exemplo, as intervenções na Somália e na Bósnia, nos anos 1990.
No caso sírio, o contexto é ainda mais complexo porque EUA e Rússia --fornecedora de armas de Damasco-- estão em lados opostos na mesa de negociações.
Até aqui incapaz de conter Assad, a comunidade internacional precisa encontrar instrumentos de pressão mais efetivos, antes que a situação justifique uma ação militar sob os auspícios da ONU.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Para onde vai, nós não sabemos”
Ministro Guido Mantega (Fazenda), com dificuldades para entender a alta do dólar
PASSAPORTE ‘ANTIFUGA’ AMARRA MÉDICOS CUBANOS
Anunciada pelo Ministério da Saúde na quarta (21), a “importação” de 4 mil médicos cubanos ao Brasil desperta, além de controvérsias sobre a legalidade da contratação, expectativa sombria sobre a continuidade do serviço, através da Organização Panamericana de Saúde e seu braço direito cubano privado, a Servimed: a possibilidade de deserção. Mas Cuba contorna o “problema” com um passaporte válido apenas na ilha.
ALERTA VERMELHO
Presidente nos EUA da ONG Cuba Archive, a cubana Maria Werlau diz que o “passaporte vermelho” substitui papéis retidos por “supervisores”.
GRANDE IRMÃO
Muitos médicos se inscrevem em Cuba visando possível fuga, mas o controle depende do país: cerca de 2 mil fugiram entre 2006 e 2010.
PORTA FECHADA
Se aplicada aqui a “Lei de Tarso” (Genro), que deportou dois pugilistas cubanos que queriam asilo, o “passaporte vermelho” está descartado.
VAI VENDO
Lula e Dilma são a prova viva da eficiente medicina cubana: curaram o câncer em São Paulo, mas Hugo Chávez morreu da doença em Cuba.
É TENSO RELACIONAMENTO DE DONADON NA PAPUDA
Às vésperas da cassação do irmão, deputado Natan Donadon, preso na penitenciária da Papuda, em Brasília, o ex-prefeito Melki Donadon (PTB-RO) procurou o presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), para se queixar de que o deputado considerado ladrão transitado em julgado tem problemas de saúde (é asmático) e de relacionamento tenso na prisão, além de não se alimentar nem dormir direito.
AÇÃO INTENSA
Acompanhado de Nilton Capixaba (PTB-RO) e de Jovair Arantes (PTB-GO), o irmão de Donadon se reuniu com Henrique Alves duas vezes.
MÃOS ATADAS
Henrique Alves ouviu o relato, mas deixou claro que não há nada a fazer. A cassação será votada no Plenário da Câmara na quarta (28).
DE MAU A PIOR
Melki Donadon cogitou pedir a transferência de Natan para Vilhena, em Rondônia, mas concluiu que seria ainda pior na delegacia de lá.
CHAPA DE PESO
Em busca de palanque no Rio, Eduardo Campos (PSB) também cogita apoiar Miro Teixeira (PDT) ao governo, com o ex-ministro José Gomes Temporão (PSB) de vice e Marcelo Freixo (PSOL) ao Senado.
INICIATIVA EXEMPLAR
A três meses do final de sua gestão na presidência do Tribunal Superior Eleitoral, a ministra Cármen Lúcia inovou, pedindo ao TCU auditoria prévia nos atos e contratos de sua gestão. O grupo designado pelo TCU começa os trabalhos nesta quinta-feira. A iniciativa é inédita.
BARBOSA DISSE BEM
Advogados voltaram a criticar o ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal. É que sua frase, reproduzida inclusive nesta coluna (“Justiça que tarda não é justiça”), seria de outro Barbosa, o Rui.
RECUPERAÇÃO
Pesquisa Ibope para o PR mostra o governador do DF, Agnelo Queiroz (PT), candidato competitivo à reeleição, ao contrário do que dizem os adversários. Nas referências espontâneas, ele empata em primeiro lugar. Nos cenários estimulados, mantém-se entre os primeiros.
BUSCA SOCORRO
Em queda nas pesquisas, o governador do Acre, Tião Viana (PT), está em alvoroço com a visita do ex-presidente Lula, hoje, ao Estado. Há dias, apareceu por lá a ministra Ideli Salvatti, um encanto de simpatia.
MENOS IGUAIS
Serão cidadãos de segunda classe os 4 mil médicos cubanos, que receberão da ditadura castrista apenas 7% dos R$ 10 mil pagos pelo Ministério da Saúde? O artigo 5º da Constituição diz que estrangeiros e brasileiros têm iguais direito à vida, liberdade, igualdade e segurança.
BLÁ-BLÁ-BLÁ
A Frente Parlamentar da Agropecuária saiu frustrada da reunião com o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) na quarta (21) para tratar da demarcação de terras indígenas e dos conflitos com produtores rurais.
VAI COM DEUS
O PSB não tem feito muito esforço para segurar Romário (RJ). A avaliação é que o ex-jogador não é nada discreto e ganhou inimigos, o que pode respingar na candidatura de Eduardo Campos em 2014.
PENSANDO BEM...
...se o paciente já não entende a letra do médico, agora também não vai entender o que ele fala.
PODER SEM PUDOR
AULA DE HISTÓRIA
Durante a audiência com Lula, certa vez, o então presidente da UNE, Gustavo Petta, pediu apoio financeiro do governo para reconstruir a sede da entidade na Praia do Flamengo, que foi incendiada. Lula reagiu:
- Quem tem de pagar é quem queimou.
- Foi o governo - respondeu Gustavo.
Lula ficou sem graça, mas não perdeu o rebolado:
- Então, a questão é com a gente mesmo.
Com isso, lá se foram R$ 30 milhões dos cofres públicos e a histórica inquietação da UNE velha de guerra.
Ministro Guido Mantega (Fazenda), com dificuldades para entender a alta do dólar
PASSAPORTE ‘ANTIFUGA’ AMARRA MÉDICOS CUBANOS
Anunciada pelo Ministério da Saúde na quarta (21), a “importação” de 4 mil médicos cubanos ao Brasil desperta, além de controvérsias sobre a legalidade da contratação, expectativa sombria sobre a continuidade do serviço, através da Organização Panamericana de Saúde e seu braço direito cubano privado, a Servimed: a possibilidade de deserção. Mas Cuba contorna o “problema” com um passaporte válido apenas na ilha.
ALERTA VERMELHO
Presidente nos EUA da ONG Cuba Archive, a cubana Maria Werlau diz que o “passaporte vermelho” substitui papéis retidos por “supervisores”.
GRANDE IRMÃO
Muitos médicos se inscrevem em Cuba visando possível fuga, mas o controle depende do país: cerca de 2 mil fugiram entre 2006 e 2010.
PORTA FECHADA
Se aplicada aqui a “Lei de Tarso” (Genro), que deportou dois pugilistas cubanos que queriam asilo, o “passaporte vermelho” está descartado.
VAI VENDO
Lula e Dilma são a prova viva da eficiente medicina cubana: curaram o câncer em São Paulo, mas Hugo Chávez morreu da doença em Cuba.
É TENSO RELACIONAMENTO DE DONADON NA PAPUDA
Às vésperas da cassação do irmão, deputado Natan Donadon, preso na penitenciária da Papuda, em Brasília, o ex-prefeito Melki Donadon (PTB-RO) procurou o presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), para se queixar de que o deputado considerado ladrão transitado em julgado tem problemas de saúde (é asmático) e de relacionamento tenso na prisão, além de não se alimentar nem dormir direito.
AÇÃO INTENSA
Acompanhado de Nilton Capixaba (PTB-RO) e de Jovair Arantes (PTB-GO), o irmão de Donadon se reuniu com Henrique Alves duas vezes.
MÃOS ATADAS
Henrique Alves ouviu o relato, mas deixou claro que não há nada a fazer. A cassação será votada no Plenário da Câmara na quarta (28).
DE MAU A PIOR
Melki Donadon cogitou pedir a transferência de Natan para Vilhena, em Rondônia, mas concluiu que seria ainda pior na delegacia de lá.
CHAPA DE PESO
Em busca de palanque no Rio, Eduardo Campos (PSB) também cogita apoiar Miro Teixeira (PDT) ao governo, com o ex-ministro José Gomes Temporão (PSB) de vice e Marcelo Freixo (PSOL) ao Senado.
INICIATIVA EXEMPLAR
A três meses do final de sua gestão na presidência do Tribunal Superior Eleitoral, a ministra Cármen Lúcia inovou, pedindo ao TCU auditoria prévia nos atos e contratos de sua gestão. O grupo designado pelo TCU começa os trabalhos nesta quinta-feira. A iniciativa é inédita.
BARBOSA DISSE BEM
Advogados voltaram a criticar o ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal. É que sua frase, reproduzida inclusive nesta coluna (“Justiça que tarda não é justiça”), seria de outro Barbosa, o Rui.
RECUPERAÇÃO
Pesquisa Ibope para o PR mostra o governador do DF, Agnelo Queiroz (PT), candidato competitivo à reeleição, ao contrário do que dizem os adversários. Nas referências espontâneas, ele empata em primeiro lugar. Nos cenários estimulados, mantém-se entre os primeiros.
BUSCA SOCORRO
Em queda nas pesquisas, o governador do Acre, Tião Viana (PT), está em alvoroço com a visita do ex-presidente Lula, hoje, ao Estado. Há dias, apareceu por lá a ministra Ideli Salvatti, um encanto de simpatia.
MENOS IGUAIS
Serão cidadãos de segunda classe os 4 mil médicos cubanos, que receberão da ditadura castrista apenas 7% dos R$ 10 mil pagos pelo Ministério da Saúde? O artigo 5º da Constituição diz que estrangeiros e brasileiros têm iguais direito à vida, liberdade, igualdade e segurança.
BLÁ-BLÁ-BLÁ
A Frente Parlamentar da Agropecuária saiu frustrada da reunião com o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) na quarta (21) para tratar da demarcação de terras indígenas e dos conflitos com produtores rurais.
VAI COM DEUS
O PSB não tem feito muito esforço para segurar Romário (RJ). A avaliação é que o ex-jogador não é nada discreto e ganhou inimigos, o que pode respingar na candidatura de Eduardo Campos em 2014.
PENSANDO BEM...
...se o paciente já não entende a letra do médico, agora também não vai entender o que ele fala.
PODER SEM PUDOR
AULA DE HISTÓRIA
Durante a audiência com Lula, certa vez, o então presidente da UNE, Gustavo Petta, pediu apoio financeiro do governo para reconstruir a sede da entidade na Praia do Flamengo, que foi incendiada. Lula reagiu:
- Quem tem de pagar é quem queimou.
- Foi o governo - respondeu Gustavo.
Lula ficou sem graça, mas não perdeu o rebolado:
- Então, a questão é com a gente mesmo.
Com isso, lá se foram R$ 30 milhões dos cofres públicos e a histórica inquietação da UNE velha de guerra.
SEXTA NOS JORNAIS
- Globo: No rastro dos ônibus – CPI tem pancadaria e é suspensa por liminar
- Folha: Contratação de cubanos fere a lei, diz procurador
- Estado: Siemens fez cartel em outras áreas, diz delator
- Valor: ‘Novo câmbio’ já muda as estratégias das empresas
- Zero Hora: 19 cidades do Estado terão médicos cubanos
- Brasil Econômico: ANP limita participação da Petrobras em novos gasodutos
- Correio Braziliense: Médicos querem barrar contratação de cubanos
- Jornal do Commercio: Todo rigor com o vandalismo
quinta-feira, agosto 22, 2013
A inveja dos outros - CONTARDO CALLIGARIS
FOLHA DE SP - 22/08
Na cultura do Facebook, o valor social de cada um se confunde com a inveja que ele suscita
Anos atrás, decidi que, salvo necessidade absoluta, em voo internacional, eu não viajaria mais de classe econômica. Quando não posso pagar pela executiva, é simples: não viajo.
A passagem de executiva dá direito ao uso de uma sala de espera confortável, que no Brasil é chamada de sala VIP (sigla de "very important person", pessoa muito importante). Há um quê de idiota na ideia de que alguém se torne importante por pagar uma passagem mais cara que os outros.
Mas o que me interessa agora é o fato de que os passageiros de classe executiva, confortavelmente instalados na sala VIP, poderiam esperar até o fim do embarque da classe econômica; aí eles iriam ao portão já esvaziado e subiriam no avião.
Não é o que acontece. Convidados a embarcar antes dos outros, eles entram no avião sob o olhar dos passageiros de classe econômica e ocupam seus assentos espaçosos, situados na parte da frente da aeronave, de forma que os passageiros de econômica, a caminho de suas poltronas-suplício, são obrigados a contemplar o privilégio dos que já estão instalados na executiva.
Por que essa irracionalidade? É que o passageiro de executiva não compra apenas um tratamento mais humano e um espaço compatível com as formas médias de um corpo: ele compra também a experiência (desejável, aparentemente) de ser objeto da inveja dos outros.
Numa recente viagem à Europa, eu já estava instalado na executiva, tomando suco e lendo um livro quando uma senhora chinesa, a caminho de seu lugar na econômica, passou do meu lado e espirrou molhada e barulhentamente em cima da minha cabeça. Por sorte, não era época de gripe aviária. Mas é isto: a inveja é uma mistura de idealização, amor e ódio.
Circulando de madrugada, passo pela entrada de uma balada. Há uma longa fila de espera, há seguranças imponentes e há uma "hostess" que escolhe quem pode entrar. Em Nova York, entram até desconhecidos, se forem bizarros, interessantes e decorativos. Em São Paulo, parece que a lista de clientes VIPs é soberana. Os outros esperam noite adentro, tentando ganhar a simpatia da "hostess". Vale a pena? O que acontecerá se eles forem admitidos? Pois é, será uma noite sensacional: eles tirarão fotos que postarão no Facebook e no Instagram.
Em geral, com as fotos, eles esperam receber a mesma inveja que eles destinam aos VIPs: por isso, exibirão poses parecidas com o que eles imaginam que os VIPs (os que entraram na balada há tempos) fazem quando se divertem (loucamente).
E o que fazem os VIPs? Pois é, essa é a parte mais estranha: os VIPs imitam as poses dos que os invejam e imitam, pois, eles constatam, essas são as poses que mais suscitam inveja.
De fato, na balada, muitos, VIPs e mortais comuns, apenas esperam a ressaca de amanhã. Mas, no círculo vicioso da inveja, a experiência efetiva é irrelevante; não é com tal ou tal outra vida e história concretas que se sonha: sonha-se ser o que os outros sonham.
A inveja é, por assim dizer, uma emoção abstrata: o privilégio não precisa dar acesso a uma fruição especial da vida (sensual ou espiritual, tanto faz), ele só precisa suscitar inveja. Ou seja, privilégio não é o que faço ou o que acontece de extraordinário em minha vida, mas o olhar invejoso dos outros.
Nesse mundo, em que a inveja é um regulador social, as aparências são decisivas porque elas comandam a inveja dos outros. Por exemplo, o que conta não é "ser feliz", mas parecer invejavelmente feliz.
Nesse mundo, o ter é mais importante do que o ser apenas porque, à diferença do ser, o ter pode ser mostrado facilmente. É simples mostrar o brilho de roupas e bugiganga aos olhos dos invejosos. Complicado seria lhes mostrar vestígios de vida interior e pedir que nos invejem por isso.
O Facebook é o instrumento perfeito para um mundo em que a inveja é um regulador social. Nele, quase todos mentem, mas circula uma verdade de nossa cultura: o valor social de cada um se confunde com a inveja que ele consegue suscitar.
Comecei a escrever essa coluna depois de assistir a "Bling Ring: A Gangue de Hollywood", de Sofia Coppola (uma tradução por "Bling Ring" seria "A Turma do Deslumbre"). A não ser que outro tema se imponha com força, voltarei a falar sobre o filme. Mas digo já: saí do cinema muito feliz por não ter levado nenhum adolescente comigo (respeitando a indicação para acima de 16 anos).
Na cultura do Facebook, o valor social de cada um se confunde com a inveja que ele suscita
Anos atrás, decidi que, salvo necessidade absoluta, em voo internacional, eu não viajaria mais de classe econômica. Quando não posso pagar pela executiva, é simples: não viajo.
A passagem de executiva dá direito ao uso de uma sala de espera confortável, que no Brasil é chamada de sala VIP (sigla de "very important person", pessoa muito importante). Há um quê de idiota na ideia de que alguém se torne importante por pagar uma passagem mais cara que os outros.
Mas o que me interessa agora é o fato de que os passageiros de classe executiva, confortavelmente instalados na sala VIP, poderiam esperar até o fim do embarque da classe econômica; aí eles iriam ao portão já esvaziado e subiriam no avião.
Não é o que acontece. Convidados a embarcar antes dos outros, eles entram no avião sob o olhar dos passageiros de classe econômica e ocupam seus assentos espaçosos, situados na parte da frente da aeronave, de forma que os passageiros de econômica, a caminho de suas poltronas-suplício, são obrigados a contemplar o privilégio dos que já estão instalados na executiva.
Por que essa irracionalidade? É que o passageiro de executiva não compra apenas um tratamento mais humano e um espaço compatível com as formas médias de um corpo: ele compra também a experiência (desejável, aparentemente) de ser objeto da inveja dos outros.
Numa recente viagem à Europa, eu já estava instalado na executiva, tomando suco e lendo um livro quando uma senhora chinesa, a caminho de seu lugar na econômica, passou do meu lado e espirrou molhada e barulhentamente em cima da minha cabeça. Por sorte, não era época de gripe aviária. Mas é isto: a inveja é uma mistura de idealização, amor e ódio.
Circulando de madrugada, passo pela entrada de uma balada. Há uma longa fila de espera, há seguranças imponentes e há uma "hostess" que escolhe quem pode entrar. Em Nova York, entram até desconhecidos, se forem bizarros, interessantes e decorativos. Em São Paulo, parece que a lista de clientes VIPs é soberana. Os outros esperam noite adentro, tentando ganhar a simpatia da "hostess". Vale a pena? O que acontecerá se eles forem admitidos? Pois é, será uma noite sensacional: eles tirarão fotos que postarão no Facebook e no Instagram.
Em geral, com as fotos, eles esperam receber a mesma inveja que eles destinam aos VIPs: por isso, exibirão poses parecidas com o que eles imaginam que os VIPs (os que entraram na balada há tempos) fazem quando se divertem (loucamente).
E o que fazem os VIPs? Pois é, essa é a parte mais estranha: os VIPs imitam as poses dos que os invejam e imitam, pois, eles constatam, essas são as poses que mais suscitam inveja.
De fato, na balada, muitos, VIPs e mortais comuns, apenas esperam a ressaca de amanhã. Mas, no círculo vicioso da inveja, a experiência efetiva é irrelevante; não é com tal ou tal outra vida e história concretas que se sonha: sonha-se ser o que os outros sonham.
A inveja é, por assim dizer, uma emoção abstrata: o privilégio não precisa dar acesso a uma fruição especial da vida (sensual ou espiritual, tanto faz), ele só precisa suscitar inveja. Ou seja, privilégio não é o que faço ou o que acontece de extraordinário em minha vida, mas o olhar invejoso dos outros.
Nesse mundo, em que a inveja é um regulador social, as aparências são decisivas porque elas comandam a inveja dos outros. Por exemplo, o que conta não é "ser feliz", mas parecer invejavelmente feliz.
Nesse mundo, o ter é mais importante do que o ser apenas porque, à diferença do ser, o ter pode ser mostrado facilmente. É simples mostrar o brilho de roupas e bugiganga aos olhos dos invejosos. Complicado seria lhes mostrar vestígios de vida interior e pedir que nos invejem por isso.
O Facebook é o instrumento perfeito para um mundo em que a inveja é um regulador social. Nele, quase todos mentem, mas circula uma verdade de nossa cultura: o valor social de cada um se confunde com a inveja que ele consegue suscitar.
Comecei a escrever essa coluna depois de assistir a "Bling Ring: A Gangue de Hollywood", de Sofia Coppola (uma tradução por "Bling Ring" seria "A Turma do Deslumbre"). A não ser que outro tema se imponha com força, voltarei a falar sobre o filme. Mas digo já: saí do cinema muito feliz por não ter levado nenhum adolescente comigo (respeitando a indicação para acima de 16 anos).
Lembram-se? Consenso de Washington - CARLOS ALBERTO SARDENBERG
O GLOBO - 22/08
Repararam no que pediram os empresários vencedores do Prêmio Valor Econômico? Menos intervenção do governo, menos regras
E essa agora, hein? O motor da economia mundial está de novo nos Estados Unidos. E não porque os EUA abandonaram a prática do seu capitalismo, mas, ao contrário, porque a energia do mercado funcionou amplamente.
Ora, mas isso é óbvio, poderiam dizer. A recuperação do capitalismo só poderia vir da principal economia capitalista.
Pois é, mas não era essa a história que se contava, com ampla aceitação, há poucos quatro anos.
Lembram-se? A crise financeira de 2008/09, criação dos EUA, seria o muro de Berlim do capitalismo; a Zona do Euro desabaria com suas políticas de ajuste; os Estados Unidos seriam superados pela China ; e os emergentes triunfariam com suas próprias forças, independentemente da liderança e da vontade dos ricos.
Dirigentes chineses diziam, entre irônicos e sérios: agora nós é que daremos lições ao Ocidente, inclusive na organização política. Líderes dos emergentes, Lula à frente, celebravam a política de intervenção estatal como a “nova economia”.
Analistas resumiam: sai o Consenso de Washington, entra o Consenso de Beijing.
O panorama visto hoje é o contrário disso. Começa pela recuperação dos EUA. Sim, o governo Obama gastou dinheiro público para impedir a quebradeira de bancos e grandes empresas. E o Federal Reserve, o banco central deles, evitou a grande depressão e criou bases para a retomada com a enorme injeção de dinheiro no mercado.
Mas impedir o desastre não garante a retomada. Esta veio do ajuste feito pelas empresas e famílias, reduzindo endividamento, saneando finanças, renovando investimentos e consumo. Privados, sobretudo no setor imobiliário. E com inovações, como o extraordinário evento do gás de xisto — um resultado acabado da economia de mercado.
George Mitchell, engenheiro e geólogo, acadêmico e empreendedor no negócio de petróleo, desenvolveu, durante anos de pesquisa e experimentos, uma nova tecnologia de extração do gás de xisto. Investiu dinheiro e conhecimento para simplesmente revolucionar o setor de energia. Quando o sistema finalmente funcionou, as imensas reservas no xisto tornaram-se economicamente viáveis e o preço do gás desabou nos EUA. Isso barateou investimentos em toda a indústria, especialmente na petroquímica, e reduziu gastos das famílias.
Tudo pelo mercado, não por políticas públicas. Mitchell teve espaço institucional para desenvolver sua livre iniciativa.
Isso foi um marco, mas é o conjunto da economia americana que se move. Bancos e empresas que foram salvos pelo governo estão recomprando ações e devolvendo o dinheiro público. E até o ajuste das contas públicas está sendo feito antes do esperado. Saiu atrapalhado por conflitos políticos, Obama reclamou de cortes de gastos que foi obrigado a fazer, mas, quando foram ver, o déficit público despencava e a economia continuava andando com as pernas do setor privado.
Dizem que poderia ter andado mais se mantidos os gastos do governo. Pode ser, mas também é verdade que o arranjo das contas federais melhora o ambiente para os próximos meses.
Olhem agora para o outro lado. A China desacelera e começa a mudança de modelo. Qual mudança? Mais salário, mais consumo, e uma boa reforma no amplo setor estatal, de modo a privatizar, com o perdão da palavra, e dar mais eficiência a companhias do governo. Ou seja, mais mercado.
Nos países emergentes, a desaceleração é geral. Parte dela se deve à mudança da política monetária americana, que está levando capitais de volta aos EUA. Todos sofrem com isso, mas alguns sofrem mais. Quais? Aqueles que foram apanhados com baixo crescimento, inflação alta, déficit nas contas externas e desarranjo nas contas públicas, circunstâncias que levam a uma desvalorização maior da moeda local — e que devem exigir juros maiores.
Pensaram no Brasil?
Pois é. Mas repararam bem no diagnóstico? Falharam aqueles que desrespeitaram os fundamentos clássicos: não pode ter inflação (e 6% ao ano é, sim, inflação alta); não se pode aumentar gasto público sem adequado financiamento; as contas externas precisam estar equilibradas; e é preciso criar condições institucionais que estimulem os investimentos privados, especialmente no setor de infraestrutura.
Não é o que o governo Dilma faz, embora seja o que tem prometido. Mas assim de contragosto, porque, sem querer provocar, estão ali as bases do Consenso de Washington. Repararam no que pediram os empresários vencedores do Prêmio Valor Econômico? Menos intervenção do governo, menos regras.
Em resumo, fica a lição americana. A boa ação do Estado é aquela que abre espaço para o funcionamento do mercado. E o bom gasto público, financiado sem truques, deve se concentrar em educação, saúde, segurança.
As voltas que a história dá.
Repararam no que pediram os empresários vencedores do Prêmio Valor Econômico? Menos intervenção do governo, menos regras
E essa agora, hein? O motor da economia mundial está de novo nos Estados Unidos. E não porque os EUA abandonaram a prática do seu capitalismo, mas, ao contrário, porque a energia do mercado funcionou amplamente.
Ora, mas isso é óbvio, poderiam dizer. A recuperação do capitalismo só poderia vir da principal economia capitalista.
Pois é, mas não era essa a história que se contava, com ampla aceitação, há poucos quatro anos.
Lembram-se? A crise financeira de 2008/09, criação dos EUA, seria o muro de Berlim do capitalismo; a Zona do Euro desabaria com suas políticas de ajuste; os Estados Unidos seriam superados pela China ; e os emergentes triunfariam com suas próprias forças, independentemente da liderança e da vontade dos ricos.
Dirigentes chineses diziam, entre irônicos e sérios: agora nós é que daremos lições ao Ocidente, inclusive na organização política. Líderes dos emergentes, Lula à frente, celebravam a política de intervenção estatal como a “nova economia”.
Analistas resumiam: sai o Consenso de Washington, entra o Consenso de Beijing.
O panorama visto hoje é o contrário disso. Começa pela recuperação dos EUA. Sim, o governo Obama gastou dinheiro público para impedir a quebradeira de bancos e grandes empresas. E o Federal Reserve, o banco central deles, evitou a grande depressão e criou bases para a retomada com a enorme injeção de dinheiro no mercado.
Mas impedir o desastre não garante a retomada. Esta veio do ajuste feito pelas empresas e famílias, reduzindo endividamento, saneando finanças, renovando investimentos e consumo. Privados, sobretudo no setor imobiliário. E com inovações, como o extraordinário evento do gás de xisto — um resultado acabado da economia de mercado.
George Mitchell, engenheiro e geólogo, acadêmico e empreendedor no negócio de petróleo, desenvolveu, durante anos de pesquisa e experimentos, uma nova tecnologia de extração do gás de xisto. Investiu dinheiro e conhecimento para simplesmente revolucionar o setor de energia. Quando o sistema finalmente funcionou, as imensas reservas no xisto tornaram-se economicamente viáveis e o preço do gás desabou nos EUA. Isso barateou investimentos em toda a indústria, especialmente na petroquímica, e reduziu gastos das famílias.
Tudo pelo mercado, não por políticas públicas. Mitchell teve espaço institucional para desenvolver sua livre iniciativa.
Isso foi um marco, mas é o conjunto da economia americana que se move. Bancos e empresas que foram salvos pelo governo estão recomprando ações e devolvendo o dinheiro público. E até o ajuste das contas públicas está sendo feito antes do esperado. Saiu atrapalhado por conflitos políticos, Obama reclamou de cortes de gastos que foi obrigado a fazer, mas, quando foram ver, o déficit público despencava e a economia continuava andando com as pernas do setor privado.
Dizem que poderia ter andado mais se mantidos os gastos do governo. Pode ser, mas também é verdade que o arranjo das contas federais melhora o ambiente para os próximos meses.
Olhem agora para o outro lado. A China desacelera e começa a mudança de modelo. Qual mudança? Mais salário, mais consumo, e uma boa reforma no amplo setor estatal, de modo a privatizar, com o perdão da palavra, e dar mais eficiência a companhias do governo. Ou seja, mais mercado.
Nos países emergentes, a desaceleração é geral. Parte dela se deve à mudança da política monetária americana, que está levando capitais de volta aos EUA. Todos sofrem com isso, mas alguns sofrem mais. Quais? Aqueles que foram apanhados com baixo crescimento, inflação alta, déficit nas contas externas e desarranjo nas contas públicas, circunstâncias que levam a uma desvalorização maior da moeda local — e que devem exigir juros maiores.
Pensaram no Brasil?
Pois é. Mas repararam bem no diagnóstico? Falharam aqueles que desrespeitaram os fundamentos clássicos: não pode ter inflação (e 6% ao ano é, sim, inflação alta); não se pode aumentar gasto público sem adequado financiamento; as contas externas precisam estar equilibradas; e é preciso criar condições institucionais que estimulem os investimentos privados, especialmente no setor de infraestrutura.
Não é o que o governo Dilma faz, embora seja o que tem prometido. Mas assim de contragosto, porque, sem querer provocar, estão ali as bases do Consenso de Washington. Repararam no que pediram os empresários vencedores do Prêmio Valor Econômico? Menos intervenção do governo, menos regras.
Em resumo, fica a lição americana. A boa ação do Estado é aquela que abre espaço para o funcionamento do mercado. E o bom gasto público, financiado sem truques, deve se concentrar em educação, saúde, segurança.
As voltas que a história dá.
À espera do que virá - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 22/08
Ainda não sabemos quando a tempestade vai começar, nem sequer se vai mesmo haver tempestade. Para ontem, quando da divulgação da Ata da última reunião do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), esperava-se uma indicação mais firme sobre o início da reversão da atual política altamente expansionista. Veio uma enxurrada de ponderações em várias direções, para respaldar todo tipo de aposta. A rigor, o mercado internacional segue com a respiração suspensa e à procura de abrigo.
Desde o início da crise, o Fed vem recomprando títulos públicos e privados no mercado, com o objetivo de reativar a economia dos Estados Unidos. Nos últimos oito meses, essas compras se deram à proporção de US$ 85 bilhões por mês. Esses títulos são pagos com a emissão pura e simples de dólares. O resultado é, portanto, enorme despejo de moeda nos mercados.
A partir de declarações esparsas de membros do Fed, os analistas passaram a esperar que o processo de reversão terá início em setembro. Como há só mais nove dias até o início do mês e nenhuma segurança do que acontecerá de fato, é natural que o nervosismo aumente.
Não se espera que essa operação seja feita de modo abrupto. Primeiro, o Fed reduzirá o volume de compras de títulos, para mais à frente parar com essas emissões e, se tudo der certo, provavelmente não antes de meados de 2014, começar a revender esses títulos, ou seja, a retirar esses dólares dos mercados.
A aflição geral dos mercados, que já se reflete na alta global do dólar e na queda do valor de mercado dos títulos de renda fixa (expansão dos juros reais), se baseia no pressuposto de que essa transição não ocorrerá sem forte movimento de fuga das aplicações de risco. Nessas horas, aplicações de risco são as moedas de países com problemas na economia, títulos de países emergentes e títulos de renda variável, como ações e debêntures.
Com base nas indicações do presidente do Fed, Ben Bernanke, o mercado entendeu que a senha para o início de venda de títulos seria a queda do desemprego nos Estados Unidos, hoje em 7,4%, para 7,0% e tendência a uma inflação anual superior a 2%, indicadores da melhora da atividade econômica. Ontem, a Ata do Fed confirmou esses números, mas deixou claro que não serão os únicos deflagradores nem determinantes do ritmo de enxugamento de dólares.
O otimismo nos Estados Unidos está aumentando porque o mercado imobiliário, o detonador da crise iniciada em 2007, está reagindo. Afora isso, já se sabe que o capitão do Fed vai mudar em janeiro, fator que gera mais incerteza.
O real está entre as moedas emergentes mais expostas ao vendaval (veja o gráfico) e ontem foi mais um dia de disparada das cotações. Para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, essa busca de proteção é síndrome de pai novo na sala de espera da maternidade, onde a expectativa produz mais aflição do que o fato. Para ele, as turbulências diminuirão quando começar o processo de reversão da política monetária do Fed e ficar claro que não valeu a pena tanta angústia. Mas também é apenas uma aposta.
Ainda não sabemos quando a tempestade vai começar, nem sequer se vai mesmo haver tempestade. Para ontem, quando da divulgação da Ata da última reunião do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), esperava-se uma indicação mais firme sobre o início da reversão da atual política altamente expansionista. Veio uma enxurrada de ponderações em várias direções, para respaldar todo tipo de aposta. A rigor, o mercado internacional segue com a respiração suspensa e à procura de abrigo.
Desde o início da crise, o Fed vem recomprando títulos públicos e privados no mercado, com o objetivo de reativar a economia dos Estados Unidos. Nos últimos oito meses, essas compras se deram à proporção de US$ 85 bilhões por mês. Esses títulos são pagos com a emissão pura e simples de dólares. O resultado é, portanto, enorme despejo de moeda nos mercados.
A partir de declarações esparsas de membros do Fed, os analistas passaram a esperar que o processo de reversão terá início em setembro. Como há só mais nove dias até o início do mês e nenhuma segurança do que acontecerá de fato, é natural que o nervosismo aumente.
Não se espera que essa operação seja feita de modo abrupto. Primeiro, o Fed reduzirá o volume de compras de títulos, para mais à frente parar com essas emissões e, se tudo der certo, provavelmente não antes de meados de 2014, começar a revender esses títulos, ou seja, a retirar esses dólares dos mercados.
A aflição geral dos mercados, que já se reflete na alta global do dólar e na queda do valor de mercado dos títulos de renda fixa (expansão dos juros reais), se baseia no pressuposto de que essa transição não ocorrerá sem forte movimento de fuga das aplicações de risco. Nessas horas, aplicações de risco são as moedas de países com problemas na economia, títulos de países emergentes e títulos de renda variável, como ações e debêntures.
Com base nas indicações do presidente do Fed, Ben Bernanke, o mercado entendeu que a senha para o início de venda de títulos seria a queda do desemprego nos Estados Unidos, hoje em 7,4%, para 7,0% e tendência a uma inflação anual superior a 2%, indicadores da melhora da atividade econômica. Ontem, a Ata do Fed confirmou esses números, mas deixou claro que não serão os únicos deflagradores nem determinantes do ritmo de enxugamento de dólares.
O otimismo nos Estados Unidos está aumentando porque o mercado imobiliário, o detonador da crise iniciada em 2007, está reagindo. Afora isso, já se sabe que o capitão do Fed vai mudar em janeiro, fator que gera mais incerteza.
O real está entre as moedas emergentes mais expostas ao vendaval (veja o gráfico) e ontem foi mais um dia de disparada das cotações. Para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, essa busca de proteção é síndrome de pai novo na sala de espera da maternidade, onde a expectativa produz mais aflição do que o fato. Para ele, as turbulências diminuirão quando começar o processo de reversão da política monetária do Fed e ficar claro que não valeu a pena tanta angústia. Mas também é apenas uma aposta.
O governo até que está quieto - VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 22/08
Dado o tamanho do tumulto, governo fala pouco; parece não querer 'prender e arrebentar' o dólar
DADOS O NÍVEL costumeiro de ruído neste governo e o tamanho da encrenca, o pessoal de Brasília até que está quieto. Sim, ministros vários disseram uma ou outra coisa sobre o câmbio, mas em geral tratou-se apenas de espumas flutuantes. Ninguém apareceu com um "prendo e arrebento" o dólar.
De mais enfático, até porque mais raro, houve o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, a dizer "não vem que não tem" (alta de juros na semana que vem, um aumento da Selic maior que o esperado até agora pouco, antes do tumulto). Isto é, a dizer que a especulação com juros, prima da presente especulação com dólar, pode acabar num tombo feio.
Afora medidas heroicas, porém inglórias, o governo não tem mesmo muito o que fazer para segurar essa onda, o início do refluxo do "tsunami" de dinheiro que começou em 2008, que atingiu especialmente o país. Mas por ora mal piscou diante do tumulto, que não é pequeno.
Pode ser que esteja achando bom mesmo o real entre R$ 2,40 e R$ 2,50, se é que a coisa vai parar por aí. Ainda que seja esse o caso, o rescaldo da mudança de patamar do dólar não vai ser nada simples. Mas o governo tampouco deu indicações do que pretende fazer diante da nova situação, se pretende.
A presidente viaja em campanha pelo interior do país, entregando escavadeiras, lançando um programa "Mais Qualquer Coisa", citando ETs, beatas e enaltecendo a importância do "pacto fiscal" que anunciou quando ainda sentia a chapa quente das ruas. A conversa sobre o pacto continua tão absurda quanto antes, pois a responsabilidade maior pelo "pacto fiscal" é do governo federal, que não dá conta do próprio recado.
No mais, silêncio. Vez e outra, nos últimos dois dias, apareceram boatinhos sobre medidas administrativas com o fim de conter a especulação na Bolsa brasileira (BM&F), coisa que o pessoal do governo nega.
Comentam apenas o de sempre. A indústria "começa a respirar, vai ganhar força com o novo câmbio" e que " a produtividade começa a aumentar" (quer dizer, emprego e salários crescem menos, o que o pessoal do governo não menciona, claro). Ademais, os leilões de concessões a partir de outubro "vão representar uma virada", os "EUA voltando a crescer ajuda também" (por ora nem 1,7%, mas vá lá) e, enfim, o "Brasil neste ano vai crescer mais, pô!".
Enquanto isso, a especulação vai continuar enquanto o povo do mercado puder surfar na onda da alta de juros e outros deslocamentos tectônicos da política econômica americana. O amplo e bem instrumentado mercado brasileiro oferece muita oportunidade para fazer quizumba financeira.
Os bancos maiores brasileiros alteram suas previsões de taxa de câmbio para R$ 2,45-R$ 2,50 no final do ano. Sim, previsões de câmbio são das mais furadas. Faz dois meses, os bancões acreditavam em dólar a R$ 2,10 no final do ano.
Ainda assim, o tapa no termômetro ratifica a ideia de que o caldo engrossou. Mesmo que o BC não reveja o ritmo de aumento dos juros, talvez tenha de esticar a campanha altista. Se não precisar fazê-lo, estaremos crescendo ainda menos que 2,2%. O emprego vai minguando, em especial nas maiores metrópoles. Embora ainda se abram vagas, o saldo do ano tende a ficar perto do zero a zero.
Dado o tamanho do tumulto, governo fala pouco; parece não querer 'prender e arrebentar' o dólar
DADOS O NÍVEL costumeiro de ruído neste governo e o tamanho da encrenca, o pessoal de Brasília até que está quieto. Sim, ministros vários disseram uma ou outra coisa sobre o câmbio, mas em geral tratou-se apenas de espumas flutuantes. Ninguém apareceu com um "prendo e arrebento" o dólar.
De mais enfático, até porque mais raro, houve o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, a dizer "não vem que não tem" (alta de juros na semana que vem, um aumento da Selic maior que o esperado até agora pouco, antes do tumulto). Isto é, a dizer que a especulação com juros, prima da presente especulação com dólar, pode acabar num tombo feio.
Afora medidas heroicas, porém inglórias, o governo não tem mesmo muito o que fazer para segurar essa onda, o início do refluxo do "tsunami" de dinheiro que começou em 2008, que atingiu especialmente o país. Mas por ora mal piscou diante do tumulto, que não é pequeno.
Pode ser que esteja achando bom mesmo o real entre R$ 2,40 e R$ 2,50, se é que a coisa vai parar por aí. Ainda que seja esse o caso, o rescaldo da mudança de patamar do dólar não vai ser nada simples. Mas o governo tampouco deu indicações do que pretende fazer diante da nova situação, se pretende.
A presidente viaja em campanha pelo interior do país, entregando escavadeiras, lançando um programa "Mais Qualquer Coisa", citando ETs, beatas e enaltecendo a importância do "pacto fiscal" que anunciou quando ainda sentia a chapa quente das ruas. A conversa sobre o pacto continua tão absurda quanto antes, pois a responsabilidade maior pelo "pacto fiscal" é do governo federal, que não dá conta do próprio recado.
No mais, silêncio. Vez e outra, nos últimos dois dias, apareceram boatinhos sobre medidas administrativas com o fim de conter a especulação na Bolsa brasileira (BM&F), coisa que o pessoal do governo nega.
Comentam apenas o de sempre. A indústria "começa a respirar, vai ganhar força com o novo câmbio" e que " a produtividade começa a aumentar" (quer dizer, emprego e salários crescem menos, o que o pessoal do governo não menciona, claro). Ademais, os leilões de concessões a partir de outubro "vão representar uma virada", os "EUA voltando a crescer ajuda também" (por ora nem 1,7%, mas vá lá) e, enfim, o "Brasil neste ano vai crescer mais, pô!".
Enquanto isso, a especulação vai continuar enquanto o povo do mercado puder surfar na onda da alta de juros e outros deslocamentos tectônicos da política econômica americana. O amplo e bem instrumentado mercado brasileiro oferece muita oportunidade para fazer quizumba financeira.
Os bancos maiores brasileiros alteram suas previsões de taxa de câmbio para R$ 2,45-R$ 2,50 no final do ano. Sim, previsões de câmbio são das mais furadas. Faz dois meses, os bancões acreditavam em dólar a R$ 2,10 no final do ano.
Ainda assim, o tapa no termômetro ratifica a ideia de que o caldo engrossou. Mesmo que o BC não reveja o ritmo de aumento dos juros, talvez tenha de esticar a campanha altista. Se não precisar fazê-lo, estaremos crescendo ainda menos que 2,2%. O emprego vai minguando, em especial nas maiores metrópoles. Embora ainda se abram vagas, o saldo do ano tende a ficar perto do zero a zero.
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