FOLHA DE SP - 22/07
Shopping de R$ 250 mi será instalado no Recife
Com um aporte de R$ 250 milhões, a incorporadora e gestora de shopping centers Ancar Ivanhoe irá instalar uma nova unidade na região oeste do Recife.
"Quase todos os outros shoppings do município estão perto do litoral. O empreendimento vai ser construído em uma área onde a cidade está crescendo", afirma Marcelo Carvalho, copresidente da empresa.
O centro de compras será voltado para as classes B e C. Das 22 unidades que a companhia tem em operação ou em obras, oito trabalham com esse público.
A construção do empreendimento do Recife está prevista para começar em maio de 2014. A inauguração deve ocorrer no primeiro semestre de 2016, segundo Carvalho.
A empresa negocia também mais um shopping para o Rio de Janeiro, onde já administra outros seis --Botafogo Praia Shopping, Boulevard Rio Shopping, Downtown, Rio Design Barra, Rio Design Leblon e Shopping Nova América.
"Preferimos atuar nas capitais, porque estamos acostumados com projetos maiores, que precisam de um grande volume de trabalhadores. O que não quer dizer que áreas metropolitanas não nos interessem", diz.
A Ancar Ivanhoe surgiu em 2006 com uma parceria entre a brasileira Ancar e a canadense do setor imobiliário Ivanhoé Cambridge.
TIME REFORÇADO
As indústrias automotiva, eletroeletrônica e química apoiaram o envio de uma carta da Coalização Empresarial Brasileira ao Itamaraty favorável a um acordo entre Mercosul e União Europeia.
Inicialmente reticentes a uma abertura comercial, juntaram-se a outros setores da indústria e da agricultura, segundo Carlos Abijaodi, diretor de desenvolvimento industrial da CNI (Confederação Nacional da Indústria).
"Alguns setores não se sentiam preparados, mas mudaram a posição", diz Abijaodi.
"O documento declara ao governo brasileiro que as entidades da CEB estão de acordo com a forma como o país está tocando as negociações."
O processo está avançado, segundo o Itamaraty. A última reunião entre as partes estipulou que, até o fim de 2013, trocarão listas de ofertas.
Marinha aprova obras que visam aumentar uso de hidrovia no Pará
A Marinha deu sinal verde para um projeto que tem o objetivo de estimular a navegação pelo rio Tocantins.
Um conjunto de pedras prejudica a passagem em um trecho de 43 km, entre as cidades de Tucuruí e Marabá (PA). Com isso, as eclusas de Tucuruí ficam subutilizadas.
Concluídas em 2010, após três décadas de obras, as eclusas custaram cerca de R$ 1,5 bilhão. Em dois anos, porém, foram feitas 55 transposições, segundo a Eletronorte, responsável pela operação.
O parecer da Marinha foi entregue na semana passada ao Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), que abrirá licitação para explodir as pedras.
O projeto mais viável custa R$ 500 milhões, estima a Ahimor (administração das hidrovias da região, vinculada ao Ministério dos Transportes).
"A hidrovia tem potencial para escoar produtos de siderurgia, soja e gado até o porto de Vila do Conde, no norte do Estado, e fazer o caminho inverso, em direção ao sul do país", diz o superintendente do órgão, Michel Dib Tachy.
Novidade na prateleira
O lançamento de novas marcas no mercado divide opiniões em 24 países pesquisados pela Ipsos.
Das 18.300 pessoas consultadas em abril, 52% demonstraram interesse em provar novidades, mas 48% disseram que preferem comprar sempre os mesmos produtos.
As mulheres (55%) se mostraram mais receptivas a inovar no supermercado do que os homens (49%).
Assim como o público masculino, entrevistados de ambos os sexos entre 50 e 64 anos também se mostraram mais conservadores (54%), com preferência por marcas já conhecidas.
A maioria dos consultados com menos de 35 anos (55%) gosta de testar produtos que nunca usaram antes.
Foram ouvidos consumidores do Brasil, dos EUA e da Inglaterra, entre outros países.
REFORÇO DAS FRANQUIAS
De olho na volta às aulas, redes de reforço escolar se preparam para lançar novas unidades no segundo semestre deste ano.
A Tutores, com 89 franquias em funcionamento e 16 em implantação, tem a meta de fechar 2013 com mais 50.
"É um mercado em forte expansão, pois [calculamos que] 54 milhões de alunos precisam melhorar o desempenho", diz o sócio-diretor da Tutores, Artur Hipólito.
A Smartz, criada em 2011 pelo Grupo Multi (de marcas como Wizard e Microlins), planeja abrir 40 unidades até o fim do ano. Hoje, são 170.
Além do modelo tradicional, a rede lançará em agosto uma opção para microempreendedores individuais.
"O professor receberá uma caixa com todo o material necessário para montar sua própria escola na sala de casa", afirma o diretor de expansão, Arno Krug Jr.
A Ensina Mais, fundada em 2012, conta com 207 franquias e quer chegar a 257.
"O modelo do negócio é atrativo, com baixo investimento", diz o presidente, Rogério Gabriel. Segundo ele, a demanda nas regiões Norte e Nordeste tem crescido de forma significativa.
segunda-feira, julho 22, 2013
Aborto – silêncio e rito sumário - CARLOS ALBERTO DI FRANCO
ESTADÃO - 22/07
Em pouco mais de dois meses, sob a proteção de um gritante silêncio, foi aprovado um projeto que abre portas para a ampliação do aborto no Brasil. A iniciativa partiu do ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Em reunião com o deputado Henrique Alves, presidente da Câmara dos Deputados, em fevereiro deste ano, Padilha pediu que, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, fosse votado no plenário da Câmara, em regime de urgência, o Projeto de Lei 60/1999. O projeto trata do atendimento prioritário nos hospitais à mulher vítima de violência.
O deputado José Guimarães, irmão do deputado José Genoino e líder do PT na Câmara, pediu a tramitação do projeto em regime de urgência. Na ausência de Alves, a presidência da Câmara foi assumida pelo deputado André Vargas, secretário nacional de Comunicação do PT. O regime de urgência foi, então, aprovado. No mesmo dia, o projeto foi emendado e apresentado ao plenário da Câmara. Renomeado como PLC 3/2013, o texto foi aprovado em 5 de março e, três dias depois, foi encaminhado para o Senado. Velocidade incomum para os padrões parlamentares. O texto, estrategicamente, evita mencionar a palavra aborto, mas abre atalhos para sua ampliação.
O artigo 1.º afirma que os hospitais – todos eles, sem distinção – “devem oferecer atendimento emergencial e integral decorrentes de violência sexual, e o encaminhamento, se for o caso, aos serviços de assistência social”. Atendimento emergencial significa que ele deve ser realizado imediatamente após o pedido. Atendimento integral significa que nenhum aspecto pode ser omitido – subentende-se que, se a vítima de violência sexual estiver grávida, deverá ser encaminhada aos serviços de aborto. É todo um jogo malandro de palavras que conduz a um objetivo bem determinado: ampliar o aborto no Brasil.
O artigo 2.º define que, para efeitos desta lei, “violência sexual é qualquer forma de atividade sexual não consentida”. A expressão “tratamento do impacto da agressão sofrida”, constante do artigo primeiro do texto original, foi suprimida e substituída por “agravos decorrentes de violência sexual”, para deixar claro que a violência sexual não necessita ser configurada por uma agressão comprovável em um exame de corpo de delito. Uma vez que o projeto não especifica nenhum procedimento para provar que uma atividade sexual não tenha sido consentida, e o consentimento é uma disposição interna da vítima, bastará a afirmação da vítima de que ela não consentiu na relação sexual para que ela seja considerada, para efeitos legais, vítima de violência e, se ela estiver grávida, possa exigir um aborto ou o encaminhamento para o aborto por parte de qualquer hospital.
O inciso IV do artigo 3.º menciona, ainda, como obrigação de todos os hospitais, em casos de relação sexual não consentida, “a profilaxia da gravidez”. O termo é novo e estrategicamente plantado neste projeto de lei. Terá, portanto, mais adiante, de ser regulamentado ou interpretado, pelo Legislativo ou pelo Judiciário, quando surgirem as primeiras dúvidas sobre o seu significado.
A presidente Dilma Rousseff, em 2010, empenhou sua palavra ao rejeitar qualquer iniciativa do seu governo em favor da implantação do aborto. Compete-lhe, agora, vetar o projeto, e sobretudo garantir a objeção de consciência do médico e da instituição. É o mínimo.
As passeatas mostram o nascimento de um novo Brasil. Os cidadãos exigem transparência dos seus governantes e liberdade para manifestar seus pontos de vista. E o que está em jogo não é coisa pequena. É a preservação de um valor fundamental: o direito à vida.
Em pouco mais de dois meses, sob a proteção de um gritante silêncio, foi aprovado um projeto que abre portas para a ampliação do aborto no Brasil. A iniciativa partiu do ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Em reunião com o deputado Henrique Alves, presidente da Câmara dos Deputados, em fevereiro deste ano, Padilha pediu que, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, fosse votado no plenário da Câmara, em regime de urgência, o Projeto de Lei 60/1999. O projeto trata do atendimento prioritário nos hospitais à mulher vítima de violência.
O deputado José Guimarães, irmão do deputado José Genoino e líder do PT na Câmara, pediu a tramitação do projeto em regime de urgência. Na ausência de Alves, a presidência da Câmara foi assumida pelo deputado André Vargas, secretário nacional de Comunicação do PT. O regime de urgência foi, então, aprovado. No mesmo dia, o projeto foi emendado e apresentado ao plenário da Câmara. Renomeado como PLC 3/2013, o texto foi aprovado em 5 de março e, três dias depois, foi encaminhado para o Senado. Velocidade incomum para os padrões parlamentares. O texto, estrategicamente, evita mencionar a palavra aborto, mas abre atalhos para sua ampliação.
O artigo 1.º afirma que os hospitais – todos eles, sem distinção – “devem oferecer atendimento emergencial e integral decorrentes de violência sexual, e o encaminhamento, se for o caso, aos serviços de assistência social”. Atendimento emergencial significa que ele deve ser realizado imediatamente após o pedido. Atendimento integral significa que nenhum aspecto pode ser omitido – subentende-se que, se a vítima de violência sexual estiver grávida, deverá ser encaminhada aos serviços de aborto. É todo um jogo malandro de palavras que conduz a um objetivo bem determinado: ampliar o aborto no Brasil.
O artigo 2.º define que, para efeitos desta lei, “violência sexual é qualquer forma de atividade sexual não consentida”. A expressão “tratamento do impacto da agressão sofrida”, constante do artigo primeiro do texto original, foi suprimida e substituída por “agravos decorrentes de violência sexual”, para deixar claro que a violência sexual não necessita ser configurada por uma agressão comprovável em um exame de corpo de delito. Uma vez que o projeto não especifica nenhum procedimento para provar que uma atividade sexual não tenha sido consentida, e o consentimento é uma disposição interna da vítima, bastará a afirmação da vítima de que ela não consentiu na relação sexual para que ela seja considerada, para efeitos legais, vítima de violência e, se ela estiver grávida, possa exigir um aborto ou o encaminhamento para o aborto por parte de qualquer hospital.
O inciso IV do artigo 3.º menciona, ainda, como obrigação de todos os hospitais, em casos de relação sexual não consentida, “a profilaxia da gravidez”. O termo é novo e estrategicamente plantado neste projeto de lei. Terá, portanto, mais adiante, de ser regulamentado ou interpretado, pelo Legislativo ou pelo Judiciário, quando surgirem as primeiras dúvidas sobre o seu significado.
A presidente Dilma Rousseff, em 2010, empenhou sua palavra ao rejeitar qualquer iniciativa do seu governo em favor da implantação do aborto. Compete-lhe, agora, vetar o projeto, e sobretudo garantir a objeção de consciência do médico e da instituição. É o mínimo.
As passeatas mostram o nascimento de um novo Brasil. Os cidadãos exigem transparência dos seus governantes e liberdade para manifestar seus pontos de vista. E o que está em jogo não é coisa pequena. É a preservação de um valor fundamental: o direito à vida.
Taquicardia - LIGIA BAHIA
O GLOBO - 22/07
Um sistema público de saúde, tal como qualquer área de política social, deve ser eficiente, equitativo e bem administrado. Sinteticamente, é uma combinação de impostos, contribuições sociais arrecadados e benefícios ofertados, tendo como objetivo a maximização das condições de saúde da população, por meio de uma quantidade adequada de ações preventivas e assistenciais qualificadas. A chave que abre a perspectiva efetiva de reverter o quadro de desigualdades na saúde não é apenas o aumento do número de médicos. No Brasil, o sistema de saúde como um todo é ineficiente porque a maioria da população que o sustenta, inclusive o setor privado, com seus inúmeros e vultosos subsídios fiscais, tem menos acesso e usa menos serviços de saúde.
Enquanto a resposta à altura da radicalidade das manifestações das ruas reivindicando o SUS padrão Fifa for tentar gritar mais alto e não se disser com clareza a que saúde pública o governo se refere, não existirá espaço para diálogos produtivos. Socializar o ensino médico é uma medida decorrente do efetivo funcionamento de sistemas universais de saúde. O aumento na quantidade de médicos e a alocação de profissionais de saúde, inclusive estrangeiros, em regiões remotas e nas periferias das grandes cidades são tentativas meritórias para a redução das desigualdades, mas o fio conector para a resolução dos problemas é o SUS. Haverá mais médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, farmacêuticos e todos os demais profissionais de saúde, mais generalistas e melhor distribuição no território nacional de serviços e ações de saúde, se o SUS der certo.
Imaginar que a consciência solidária, humanista e SUSista possa ser cultivada em ambientes apropriados ao contato entre médicos e o povo, tal como este vive e sofre, e que daí derive uma revolução cultural, liderada por profissionais desaburguesados que ponham o sistema de saúde de cabeça para baixo, é puro idealismo. O heroísmo de David Capistrano, um dos formuladores do SUS, preso e torturado diversas vezes pelo regime militar, e a psicopatia assassina de médicos que voluntariamente participaram de supliciamentos não foram ensinados nas faculdades. Estudantes e profissionais de saúde não são diferentes das demais pessoas. Agem em função de contextos de trabalho que influenciam as inclinações favoráveis ou desfavoráveis à compreensão, à compaixão e comprometimento com os pacientes.
O modelo de formação dos médicos é determinado pela inserção profissional, e não o contrário. Nesse caso, é importante discernir quem vem primeiro, se o ovo ou a galinha, para evitar apresentar um juízo moral como política. A precedência do trabalho e as relações entre saber e fazer já foram estabelecidas em diversos estudos sobre ensino e prática profissional. Do jeito como está organizado o sistema de saúde, a proposta de prolongamento do curso médico conjugada ao fato de que a maioria dos postos de trabalho no Brasil está no setor privado significa que levaremos mais tempo e gastaremos mais recursos públicos para formar gente para atuar junto aos planos privados. A definição de conteúdos e prazos para a formação de profissionais de saúde é uma atividade de natureza eminentemente técnico-acadêmica, e não político-partidária.
A saúde já tem um pacto democraticamente estabelecido pela Constituição de 1988. O pacote Mais Médicos não é um pacto da saúde, e sim um embrulho, pós abandono da proposta de importação de médicos cubanos, que procura dar conta simultaneamente dos resultados de pesquisas de opinião que indicam queixas relacionadas com a falta de médicos na rede SUS, demandas de prefeitos de cidades do interior, especialmente das regiões Norte e Nordeste, e clamores por direitos sociais efetivos nas grandes cidades.
Até agora, a atuação do governo Dilma na saúde pode ser resumida como um conjunto de tentativas e erros. Primeiro veio o anúncio da construção de milhares de prédios, logo depois, na onda do aprimoramento da gestão, a colocação de câmeras nos hospitais diretamente ligadas ao Palácio do Planalto, e mais recentemente a decretação de prazos para o tratamento de pacientes com diagnóstico de neoplasias. Esses lampejos, não submetidos a qualquer fórum de discussão da saúde, foram insuficientes para refrear a insatisfação com a situação do sistema de saúde.
O Mais Médicos, graças às manifestações nas ruas, traz uma novidade: finalmente, o governo voltou a falar sobre o SUS, reconheceu que a saúde vai mal, que é preciso intervir para mudar e promete mexer no mercado de trabalho via aumento das vagas para residência médica. É uma agenda torta, mas qualquer iniciativa que mencione gente e SUS é melhor do que as medidas para a saúde baseadas só na engenharia civil ou na retórica gerencialista. Contudo, o pacto da saúde poderá causar muita agitação, mas deixará tudo exatamente no mesmo lugar, se o sujeito das intervenções estatais anti-SUS permanecer oculto.
A indicação, neste mês, de mais um integrante do quadro de uma empresa de planos privados de saúde para diretor da ANS foi apenas um equivoco ou as regras de jogo, completamente desfavoráveis ao SUS, permanecem as mesmas? Os nós da saúde não serão deslindados entre quatro paredes e muito menos por decreto. A polarização a favor ou contra proposições cumulativas e inócuas, lançadas de crise em crise, causam uma síndrome de taquicardia imobilizadora. Que tal inverter o fluxo do decisório? Seguir penando para conseguir audiências fechadas com a Presidência da Republica dá muito trabalho e não modifica o padrão ambíguo, ora estatizante, ora privatizante das reais políticas governamentais. É tempo de quem define os rumos do sistema de saúde comparecer a reuniões abertas organizadas por partidos políticos, entidades profissionais e de usuários.
Enquanto a resposta à altura da radicalidade das manifestações das ruas reivindicando o SUS padrão Fifa for tentar gritar mais alto e não se disser com clareza a que saúde pública o governo se refere, não existirá espaço para diálogos produtivos. Socializar o ensino médico é uma medida decorrente do efetivo funcionamento de sistemas universais de saúde. O aumento na quantidade de médicos e a alocação de profissionais de saúde, inclusive estrangeiros, em regiões remotas e nas periferias das grandes cidades são tentativas meritórias para a redução das desigualdades, mas o fio conector para a resolução dos problemas é o SUS. Haverá mais médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, farmacêuticos e todos os demais profissionais de saúde, mais generalistas e melhor distribuição no território nacional de serviços e ações de saúde, se o SUS der certo.
Imaginar que a consciência solidária, humanista e SUSista possa ser cultivada em ambientes apropriados ao contato entre médicos e o povo, tal como este vive e sofre, e que daí derive uma revolução cultural, liderada por profissionais desaburguesados que ponham o sistema de saúde de cabeça para baixo, é puro idealismo. O heroísmo de David Capistrano, um dos formuladores do SUS, preso e torturado diversas vezes pelo regime militar, e a psicopatia assassina de médicos que voluntariamente participaram de supliciamentos não foram ensinados nas faculdades. Estudantes e profissionais de saúde não são diferentes das demais pessoas. Agem em função de contextos de trabalho que influenciam as inclinações favoráveis ou desfavoráveis à compreensão, à compaixão e comprometimento com os pacientes.
O modelo de formação dos médicos é determinado pela inserção profissional, e não o contrário. Nesse caso, é importante discernir quem vem primeiro, se o ovo ou a galinha, para evitar apresentar um juízo moral como política. A precedência do trabalho e as relações entre saber e fazer já foram estabelecidas em diversos estudos sobre ensino e prática profissional. Do jeito como está organizado o sistema de saúde, a proposta de prolongamento do curso médico conjugada ao fato de que a maioria dos postos de trabalho no Brasil está no setor privado significa que levaremos mais tempo e gastaremos mais recursos públicos para formar gente para atuar junto aos planos privados. A definição de conteúdos e prazos para a formação de profissionais de saúde é uma atividade de natureza eminentemente técnico-acadêmica, e não político-partidária.
A saúde já tem um pacto democraticamente estabelecido pela Constituição de 1988. O pacote Mais Médicos não é um pacto da saúde, e sim um embrulho, pós abandono da proposta de importação de médicos cubanos, que procura dar conta simultaneamente dos resultados de pesquisas de opinião que indicam queixas relacionadas com a falta de médicos na rede SUS, demandas de prefeitos de cidades do interior, especialmente das regiões Norte e Nordeste, e clamores por direitos sociais efetivos nas grandes cidades.
Até agora, a atuação do governo Dilma na saúde pode ser resumida como um conjunto de tentativas e erros. Primeiro veio o anúncio da construção de milhares de prédios, logo depois, na onda do aprimoramento da gestão, a colocação de câmeras nos hospitais diretamente ligadas ao Palácio do Planalto, e mais recentemente a decretação de prazos para o tratamento de pacientes com diagnóstico de neoplasias. Esses lampejos, não submetidos a qualquer fórum de discussão da saúde, foram insuficientes para refrear a insatisfação com a situação do sistema de saúde.
O Mais Médicos, graças às manifestações nas ruas, traz uma novidade: finalmente, o governo voltou a falar sobre o SUS, reconheceu que a saúde vai mal, que é preciso intervir para mudar e promete mexer no mercado de trabalho via aumento das vagas para residência médica. É uma agenda torta, mas qualquer iniciativa que mencione gente e SUS é melhor do que as medidas para a saúde baseadas só na engenharia civil ou na retórica gerencialista. Contudo, o pacto da saúde poderá causar muita agitação, mas deixará tudo exatamente no mesmo lugar, se o sujeito das intervenções estatais anti-SUS permanecer oculto.
A indicação, neste mês, de mais um integrante do quadro de uma empresa de planos privados de saúde para diretor da ANS foi apenas um equivoco ou as regras de jogo, completamente desfavoráveis ao SUS, permanecem as mesmas? Os nós da saúde não serão deslindados entre quatro paredes e muito menos por decreto. A polarização a favor ou contra proposições cumulativas e inócuas, lançadas de crise em crise, causam uma síndrome de taquicardia imobilizadora. Que tal inverter o fluxo do decisório? Seguir penando para conseguir audiências fechadas com a Presidência da Republica dá muito trabalho e não modifica o padrão ambíguo, ora estatizante, ora privatizante das reais políticas governamentais. É tempo de quem define os rumos do sistema de saúde comparecer a reuniões abertas organizadas por partidos políticos, entidades profissionais e de usuários.
Operação Francisco - VERA MAGALHÃES - PAINEL
FOLHA DE SP - 20/07
Relatório da Polícia Federal que chegou ao governo aponta que o Rio terá manifestações durante todos os dias da visita do papa Francisco. Os protestos que, segundo a PF, terão maior adesão serão os de amanhã, quinta-feira e domingo. Não foram previstos atos na ida do papa a Aparecida. Policiais federais de todo o país foram deslocados para o Rio para reforçar o esquema de segurança. No Distrito Federal, a PF ficará sem 50% do efetivo. Investigações foram sustadas no período.
No escuro Dilma Rousseff saiu da reunião com os ministros José Eduardo Cardozo (Justiça), Celso Amorim (Defesa) e Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral), no sábado, com uma certeza: nem a igreja brasileira sabe o que Francisco dirá ou como será seu contato com os fiéis durante a estada no Brasil.
Peregrino Ex-seminarista e interlocutor com a Igreja Católica desde o primeiro mandato de Lula, Gilberto Carvalho vai passar a semana toda no Rio. Será o elo entre o Planalto e a Jornada Mundial da Juventude.
Gênese Aliados de Sérgio Cabral (PMDB) relatam que apuração do governo do Rio identificou policiais e milicianos ligadas ao deputado e ex-governador Anthony Garotinho (PR) por trás dos atos de vandalismo na cidade.
Caixa aberta A Justiça autorizou o PSDB a ter acesso a todo o inquérito que apura a origem do boato sobre o fim do Bolsa Família em vários Estados. A diretoria jurídica da Caixa Econômica Federal também obteve a íntegra.
No pé 1 O presidente do PSDB, Aécio Neves, ironiza o fato de o Palácio do Planalto ter divulgado telefonema do vice-presidente dos EUA, Joe Biden, para Dilma, para explicar a suposta espionagem de cidadãos brasileiros por agências norte-americanas.
No pé 2 "Num governo do PSDB, a chamada seria direcionada para o gabinete do vice-presidente. A liturgia do cargo manda que, para pedir desculpas à presidente, telefone o presidente'', diz o virtual presidenciável tucano.
Slogan Eduardo Campos (PSB) colocou como capa de sua página no Facebook a frase É possível fazer mais; é possível fazer diferente''.
Inimigo íntimo De um integrante do governo federal, minutos antes de entrar no cinema para uma sessão de "Meu Malvado Favorito 2", ontem: "Esse filme é sobre o Eduardo Cunha?''.
Cavalo de pau Cândido Vaccarezza (PT-SP) era o mais cotado para relatar a medida provisória do programa Mais Médicos na Câmara. Mas, depois das últimas polêmicas entre ele e o Planalto, o ministro Alexandre Padilha (Saúde) interveio e emplacou o deputado Rogério Carvalho (PT-SE) na função.
Parceiros Padilha e Carvalho são amigos desde os tempos do movimento estudantil. Carvalho sucedeu Padilha na Denem (Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina).
Exército verde José Serra almoçou na semana passada com dirigentes do PV. De novo disse que não tem "pressa'' para anunciar seu destino político, e fez várias críticas ao governo Dilma, entre elas ao Mais Médicos.
Tapetão 1 A Mensagem ao Partido deverá recorrer contra deliberação da reunião de sábado do Diretório Nacional do PT que alterou pontos do estatuto da sigla.
Tapetão 2 O DN anulou a exigência de que o filiado, para votar na eleição interna, tenha de participar de uma atividade do PT. A Mensagem diz que só o Encontro Nacional poderia mudar a regra.
com ANDRÉIA SADI e BRUNO BOGHOSSIAN
tiroteio
"O papa deverá condenar a marginalização dos pobres, a corrupção e a hipocrisia dos políticos. As orelhas de muitos vão arder."
DO DEPUTADO CHICO ALENCAR (PSOL-RJ), da ala mais à esquerda da Igreja Católica, prevendo que Francisco deverá dar tom político às prédicas no Rio.
contraponto
É um milagre!
José Maria Alkmin era deputado federal no governo de Getúlio Vargas, quando era muito difícil se comprar bebida importada no Brasil. Em viagem a Roma, o mineiro embarcou com uma caixa de uísque escocês. Na chegada ao Brasil, foi questionado na alfândega:
--Deputado, o que o sr. traz nesta caixa?
--Estive em Roma e trouxe água benta pelo papa.
O oficial pediu que Alkmin abrisse a caixa.
--Mas deputado, é uísque... --disse, sem graça.
--Pois já começou a operar milagres! --emendou o parlamentar, sem o menor constrangimento.
Relatório da Polícia Federal que chegou ao governo aponta que o Rio terá manifestações durante todos os dias da visita do papa Francisco. Os protestos que, segundo a PF, terão maior adesão serão os de amanhã, quinta-feira e domingo. Não foram previstos atos na ida do papa a Aparecida. Policiais federais de todo o país foram deslocados para o Rio para reforçar o esquema de segurança. No Distrito Federal, a PF ficará sem 50% do efetivo. Investigações foram sustadas no período.
No escuro Dilma Rousseff saiu da reunião com os ministros José Eduardo Cardozo (Justiça), Celso Amorim (Defesa) e Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral), no sábado, com uma certeza: nem a igreja brasileira sabe o que Francisco dirá ou como será seu contato com os fiéis durante a estada no Brasil.
Peregrino Ex-seminarista e interlocutor com a Igreja Católica desde o primeiro mandato de Lula, Gilberto Carvalho vai passar a semana toda no Rio. Será o elo entre o Planalto e a Jornada Mundial da Juventude.
Gênese Aliados de Sérgio Cabral (PMDB) relatam que apuração do governo do Rio identificou policiais e milicianos ligadas ao deputado e ex-governador Anthony Garotinho (PR) por trás dos atos de vandalismo na cidade.
Caixa aberta A Justiça autorizou o PSDB a ter acesso a todo o inquérito que apura a origem do boato sobre o fim do Bolsa Família em vários Estados. A diretoria jurídica da Caixa Econômica Federal também obteve a íntegra.
No pé 1 O presidente do PSDB, Aécio Neves, ironiza o fato de o Palácio do Planalto ter divulgado telefonema do vice-presidente dos EUA, Joe Biden, para Dilma, para explicar a suposta espionagem de cidadãos brasileiros por agências norte-americanas.
No pé 2 "Num governo do PSDB, a chamada seria direcionada para o gabinete do vice-presidente. A liturgia do cargo manda que, para pedir desculpas à presidente, telefone o presidente'', diz o virtual presidenciável tucano.
Slogan Eduardo Campos (PSB) colocou como capa de sua página no Facebook a frase É possível fazer mais; é possível fazer diferente''.
Inimigo íntimo De um integrante do governo federal, minutos antes de entrar no cinema para uma sessão de "Meu Malvado Favorito 2", ontem: "Esse filme é sobre o Eduardo Cunha?''.
Cavalo de pau Cândido Vaccarezza (PT-SP) era o mais cotado para relatar a medida provisória do programa Mais Médicos na Câmara. Mas, depois das últimas polêmicas entre ele e o Planalto, o ministro Alexandre Padilha (Saúde) interveio e emplacou o deputado Rogério Carvalho (PT-SE) na função.
Parceiros Padilha e Carvalho são amigos desde os tempos do movimento estudantil. Carvalho sucedeu Padilha na Denem (Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina).
Exército verde José Serra almoçou na semana passada com dirigentes do PV. De novo disse que não tem "pressa'' para anunciar seu destino político, e fez várias críticas ao governo Dilma, entre elas ao Mais Médicos.
Tapetão 1 A Mensagem ao Partido deverá recorrer contra deliberação da reunião de sábado do Diretório Nacional do PT que alterou pontos do estatuto da sigla.
Tapetão 2 O DN anulou a exigência de que o filiado, para votar na eleição interna, tenha de participar de uma atividade do PT. A Mensagem diz que só o Encontro Nacional poderia mudar a regra.
com ANDRÉIA SADI e BRUNO BOGHOSSIAN
tiroteio
"O papa deverá condenar a marginalização dos pobres, a corrupção e a hipocrisia dos políticos. As orelhas de muitos vão arder."
DO DEPUTADO CHICO ALENCAR (PSOL-RJ), da ala mais à esquerda da Igreja Católica, prevendo que Francisco deverá dar tom político às prédicas no Rio.
contraponto
É um milagre!
José Maria Alkmin era deputado federal no governo de Getúlio Vargas, quando era muito difícil se comprar bebida importada no Brasil. Em viagem a Roma, o mineiro embarcou com uma caixa de uísque escocês. Na chegada ao Brasil, foi questionado na alfândega:
--Deputado, o que o sr. traz nesta caixa?
--Estive em Roma e trouxe água benta pelo papa.
O oficial pediu que Alkmin abrisse a caixa.
--Mas deputado, é uísque... --disse, sem graça.
--Pois já começou a operar milagres! --emendou o parlamentar, sem o menor constrangimento.
Qual o rumo do governo? - RENATO JANINE RIBEIRO
VALOR ECONÔMICO - 22/07
Que repercussões os recentes protestos terão nas eleições de 2014? A pesquisa divulgada esta semana pela CNT mostra que Dilma Rousseff continua líder, mas com só um terço dos votos, enquanto Marina Silva garante 20%, seguindo-se Aécio Neves, com 15%, e fechando a fila com Eduardo Campos e seus 7,4%. É uma escadinha. Assim Dilma ainda pode se reeleger, com certa dificuldade, mas os tucanos ficariam fora da final pela primeira vez desde 1989. Só que tudo pode mudar.
Pode mudar, mas há parâmetros novos: Dilma tem pouco mais do que o piso petista. Os votos adicionais, que desde a campanha de 2002 permitiram uma sucessão de vitórias do PT, foram embora. Já Marina pode ter apenas um soluço de popularidade. Ela não ofende, soma em vez de agredir e seu discurso é o mais próximo das manifestações de rua. Mas seu partido é, parte por convicção, parte por fragilidade mesmo, pouco sólido para assegurar um bom desempenho em 2014 - até porque, segundo a sabedoria convencional, ele precisaria de palanques nos Estados, ou seja, como já afirmei aqui, necessita assegurar a governabilidade antes, e não depois, das eleições. Eduardo Campos bem pode desistir, porque não sei se lhe interessa concorrer para ter menos de dez por cento dos sufrágios; isso pode comprometer projetos futuros. Resta Aécio.
Neste momento, se Marina é a challenger moral de Dilma, porque une todos os atributos para propor outro rumo ao País, Aécio é seu desafiante político. Pode estar atrás dela - e isso é normal, dado o protagonismo que Marina alcançou - mas tem os governadores, prefeitos e parlamentares que escoram uma campanha eleitoral. Quando sonhos e utopias cederem lugar ao feijão e ao fator prosaico da política, os tucanos avançarão nas pesquisas. O tempo da usura e do desgaste milita em seu favor. Basta não cometer erros maiores - e já vimos que Aécio não os fará. Pode falhar, mas não errar. Explico: Serra errou, por agressividade. Aécio demorou a assumir posições, não se projetou ainda como presidenciável para valer, mas a restrição a ele não vai além do "ainda", o que, para um político jovem e cheio de vida, não constitui um problema maior.
Marina cresce mas Aécio pode colher os frutos
Assim, na hora de ver quem ganhou e quem perdeu com a mudança no panorama político desde o dia seguinte ao Dia dos Namorados, dá para dizer: perderam Dilma e o PT, que podem se recuperar, mas terão que dar duro; ganha Marina, mas o que em teatro se chama um "succès d"estime", um sucesso de crítica, que não necessariamente se traduz em sucesso de público: é a vitoriosa moral; e ganham os tucanos.
Isso é curioso. Dos quatro presidenciáveis que citei, quem mais apareceu foi Marina Silva, seguida de Dilma Rousseff, que não podia se omitir quando entraram em cheque seu governo e partido. Mas o possível beneficiário político da crise é justamente - assim como Eduardo Campos - quem menos falou, porque talvez menos tivesse a dizer, sobre o clamor popular.
Agora, o que fica interessante é que tanto Marina quanto Aécio colocam a necessidade de uma nova agenda para o País, a do pós-Bolsa Família, como ele a chamou. Com efeito, os programas petistas mais populares, essa bolsa e o Pró-Uni, são medidas emergenciais contra a miséria e a injustiça social; ora, como ficará o País depois que sair da emergência? Quando as políticas - justamente - do PT tiverem levado o Brasil a uma normalidade, a uma saúde social, o que terão os candidatos a propor? Aqui me parece estar a questão quase fatal posta a cada um dos aspirantes ao Planalto.
Mesmo a falha na questão prejudica, em vez de ajudar, Dilma. Se é fato que os muito pobres e miseráveis passaram de 100 a 50 milhões no governo Lula, o problema é que as dezenas de milhões faltantes são as mais difíceis de retirar da grande pobreza. Portanto, a agenda petista não caducou. Continua sendo necessário erradicar a miséria. Mas já não está em jogo o destino de metade dos brasileiros, e sim de um quarto. Para os outros, novas agendas são necessárias. Aécio propõe a criação de novos empregos graças ao setor privado. Marina faz uso da ambiguidade da palavra "sustentável" - que nasce para tratar do verde, porém se pode aplicar a tudo, até mesmo à sustentabilidade de uma empresa no plano econômico, o que, sozinho, nada tem em comum com a ecologia - para sugerir uma revisão radical da economia e da sociedade. É a candidata, é o partido (ou Rede) mais utópico - e mais intelectualizado. Mas, enquanto isso, Dilma tem que formular sua proposta para o "day after" à pobreza, ao mesmo tempo que precisa continuar a erradicá-la. Jornada dupla de trabalho...
Para dificultar as coisas, seus antecessores deixaram marcas claras e populares. FHC concluiu a luta contra a inflação iniciada por Itamar Franco. Lula virou a política brasileira pelo avesso com a inclusão social. Mas qual é a marca de Dilma? Mesmo suas iniciativas mais fortes, como a redução na taxa de juros, trazem críticas sérias. Estamos naquele momento difícil em que qualquer movimento do cobertor mais expõe ao frio do que protege do calor. Propostas tão diferentes entre si como o plebiscito e o Mais Médicos geram efeitos negativos de tudo o que é lado. Será um problema de comunicação, como atiladamente observou Jânio de Freitas? Ou será mais fundo: de concepção? Não está claro o que o governo pretende. E a inércia das coisas, que até meados de junho favorecia a reeleição, agora a submete a um bombardeio cerrado. A boa fortuna de Dilma é que ela tem algum tempo - não muito, mas talvez o bastante, se mostrar "virtù" suficiente, para desenhar uma marca a aplicar às coisas.
Votos religiosos e políticos - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO
O Estado de S.Paulo - 22/07
Em tempos de visita do papa ao Brasil, a pesquisa Ibope/Estadão sobre a sucessão presidencial revela como se misturam as crenças políticas e religiosas:
1) Os católicos são 60% do eleitorado nacional. Os evangélicos crescem a cada eleição e já são responsáveis por praticamente 1 a cada 4 votos. Todas as outras religiões somadas, mais os agnósticos e ateus, chegam a apenas 16% dos eleitores.
2) Dilma Rousseff (PT) vence Marina Silva (sem partido) por 32% a 19% entre católicos. No mesmo segmento, Aécio Neves (PSDB) chega a 13%, e Eduardo Campos (PSB) tem 5%.
3) Evangélica, Marina empata tecnicamente com Dilma entre os evangélicos: 28% a 29%. Campos vai a 7%, e Aécio desce a 11% nesse grupo.
4) Entre adeptos de outras religiões, ateus e agnósticos, está 26% para Dilma, contra 21% de Marina. Quase um empate técnico.
5) Dilma pode aproveitar o encontro com o papa Francisco para pedir uma bênção. Desde março, a maior queda da intenção de voto na presidente foi entre os católicos: perdeu 29 pontos.
6) Mesmo assim, o perfil do eleitorado de Dilma continua sendo mais católico do que a média: 2 em cada 3 eleitores que declaram voto na presidente seguem o catolicismo.
7) Uma das principais razões para a predominância do voto católico em Dilma é geográfica. A presidente só não caiu mais porque manteve uma força eleitoral acima da média no Nordeste, justamente a região mais católica do Brasil.
8) O maior crescimento de Marina nos últimos meses foi entre os evangélicos: ela ganhou 11 pontos entre eles.
9) O grupo dos sem-religião ou adeptos de outras religiões tem menos fé nos candidatos a presidente: 1 em cada 4 diz que vai anular ou votar em branco.
10) Não faria nada mal a Campos descolar uma indulgência do papa. Nem que fosse pelo Twitter. Ele é o presidenciável com menos católicos em seu rebanho. Só não pode exagerar na carolice para não afugentar eleitores sem religião e de outros credos, entre os quais vai melhor do que os rivais.
11) Como já ocorrera em 2010, Marina vai melhor entre evangélicos: 1 em cada 3 eleitores seus é dessa fé. Mas ela está conquistando um público mais ecumênico do que lograra conquistar há três anos. Com um eleitorado ideologicamente eclético, questões de fé são cada vez mais espinhosas para Marina.
12) A fé, mas de um outro tipo, é o que ainda mantém Dilma à frente. Ela só lidera por causa dos petistas. Tem 61% dos simpatizantes do PT, mas perde de Marina entre os militantes de outras siglas, inclusive do PMDB, e empata com a rival no maior grupo, o dos eleitores sem preferência partidária.
13) A crença no PT está em baixa, porém. Caiu a 22% do eleitorado - um vale fundo pelo qual o petismo não passava desde a crise do mensalão, oito anos atrás. Mesmo assim, segue sendo a igrejinha mais frequentada entre todos os partidos - quase 5 vezes mais do que as do PMDB e do PSDB.
Voto exclusivo. Um dos melhores indicadores da pesquisa Ibope/Estadão é a taxa de voto exclusivo dos candidatos a presidente. Ela é calculada a partir do potencial de voto, excluindo-se da conta os eleitores que dizem que votariam com certeza em mais de um presidenciável. O que sobra é o núcleo duro do eleitorado de cada candidato. Dilma lidera, com 24% de eleitores que só votariam nela. São proporcionalmente mais velhos, menos instruídos, mais pobres, moram em pequenas cidades e se concentram no Nordeste. Marina tem 12%, Aécio tem 8%, Campos e Joaquim Barbosa têm 3% cada.
Essas taxas confirmam a maior probabilidade de um segundo turno Dilma versus Marina. Mas mostram também como o cenário é volúvel e propício a mudanças repentinas: metade dos eleitores admite, hoje, votar em mais de um candidato - ou em nenhum deles.
Em tempos de visita do papa ao Brasil, a pesquisa Ibope/Estadão sobre a sucessão presidencial revela como se misturam as crenças políticas e religiosas:
1) Os católicos são 60% do eleitorado nacional. Os evangélicos crescem a cada eleição e já são responsáveis por praticamente 1 a cada 4 votos. Todas as outras religiões somadas, mais os agnósticos e ateus, chegam a apenas 16% dos eleitores.
2) Dilma Rousseff (PT) vence Marina Silva (sem partido) por 32% a 19% entre católicos. No mesmo segmento, Aécio Neves (PSDB) chega a 13%, e Eduardo Campos (PSB) tem 5%.
3) Evangélica, Marina empata tecnicamente com Dilma entre os evangélicos: 28% a 29%. Campos vai a 7%, e Aécio desce a 11% nesse grupo.
4) Entre adeptos de outras religiões, ateus e agnósticos, está 26% para Dilma, contra 21% de Marina. Quase um empate técnico.
5) Dilma pode aproveitar o encontro com o papa Francisco para pedir uma bênção. Desde março, a maior queda da intenção de voto na presidente foi entre os católicos: perdeu 29 pontos.
6) Mesmo assim, o perfil do eleitorado de Dilma continua sendo mais católico do que a média: 2 em cada 3 eleitores que declaram voto na presidente seguem o catolicismo.
7) Uma das principais razões para a predominância do voto católico em Dilma é geográfica. A presidente só não caiu mais porque manteve uma força eleitoral acima da média no Nordeste, justamente a região mais católica do Brasil.
8) O maior crescimento de Marina nos últimos meses foi entre os evangélicos: ela ganhou 11 pontos entre eles.
9) O grupo dos sem-religião ou adeptos de outras religiões tem menos fé nos candidatos a presidente: 1 em cada 4 diz que vai anular ou votar em branco.
10) Não faria nada mal a Campos descolar uma indulgência do papa. Nem que fosse pelo Twitter. Ele é o presidenciável com menos católicos em seu rebanho. Só não pode exagerar na carolice para não afugentar eleitores sem religião e de outros credos, entre os quais vai melhor do que os rivais.
11) Como já ocorrera em 2010, Marina vai melhor entre evangélicos: 1 em cada 3 eleitores seus é dessa fé. Mas ela está conquistando um público mais ecumênico do que lograra conquistar há três anos. Com um eleitorado ideologicamente eclético, questões de fé são cada vez mais espinhosas para Marina.
12) A fé, mas de um outro tipo, é o que ainda mantém Dilma à frente. Ela só lidera por causa dos petistas. Tem 61% dos simpatizantes do PT, mas perde de Marina entre os militantes de outras siglas, inclusive do PMDB, e empata com a rival no maior grupo, o dos eleitores sem preferência partidária.
13) A crença no PT está em baixa, porém. Caiu a 22% do eleitorado - um vale fundo pelo qual o petismo não passava desde a crise do mensalão, oito anos atrás. Mesmo assim, segue sendo a igrejinha mais frequentada entre todos os partidos - quase 5 vezes mais do que as do PMDB e do PSDB.
Voto exclusivo. Um dos melhores indicadores da pesquisa Ibope/Estadão é a taxa de voto exclusivo dos candidatos a presidente. Ela é calculada a partir do potencial de voto, excluindo-se da conta os eleitores que dizem que votariam com certeza em mais de um presidenciável. O que sobra é o núcleo duro do eleitorado de cada candidato. Dilma lidera, com 24% de eleitores que só votariam nela. São proporcionalmente mais velhos, menos instruídos, mais pobres, moram em pequenas cidades e se concentram no Nordeste. Marina tem 12%, Aécio tem 8%, Campos e Joaquim Barbosa têm 3% cada.
Essas taxas confirmam a maior probabilidade de um segundo turno Dilma versus Marina. Mas mostram também como o cenário é volúvel e propício a mudanças repentinas: metade dos eleitores admite, hoje, votar em mais de um candidato - ou em nenhum deles.
Que falem os fatos - RUBENS RICUPERO
FOLHA DE SP - 22/07
Por trás dessa aparente improvisação do papa Francisco, existe método e coerência
É pela revolução silenciosa dos atos e gestos de cada dia que o papa Francisco vem mudando a Igreja Católica de modo radical e profundo. Não houve relatório bombástico como o de Khruschov no 20º Congresso do Partido Comunista soviético. Tampouco se anunciou novo concílio ecumênico, como fez o papa João 23. Até agora, ninguém ouviu do papa um discurso programático de reforma.
Nesse particular, seu comportamento parece inspirado, mais que em são Francisco, num dos primeiros franciscanos, santo Antônio. Num sermão, dizia este: "A palavra é viva quando são as obras que falam. Cessem, portanto, os discursos e falem as obras. Estamos saturados de palavras, mas vazios de obras".
Palavras e gestos são simples. Numa manhã, o papa diz na missa, na presença dos funcionários do banco do Vaticano, que São Pedro nunca teve conta bancária... no dia seguinte, desculpa-se por não ir ao concerto onde deveria sentar-se em poltrona majestática isolada dos demais e explica: "Não sou um príncipe da Renascença!". Nas palavras dirigidas aos bispos italianos, censura o "mundanismo", o "carreirismo eclesiástico", lamenta os bispos que se portam como "funcionários preguiçosos". Depois, abraça um a um...
Os tradicionalistas denunciam que ele "fa il parocco, non fa il papa", isto é, que age como pároco de aldeia, que ameaça dessacralizar a função papal ao recusar habitar os apartamentos pontifícios e passar férias em Castel Gandolfo, ao preferir singeleza na liturgia, pondo de lado paramentos e ritos elaborados, ao morar em hotel, tomar refeições junto a outras pessoas e não no esplêndido isolamento onde se tramam as conspirações de mordomos e cortesãos.
Mas que ninguém se engane. Por trás dessa aparente improvisação, existe método e coerência. Tudo --atos, decisões, opiniões-- aponta na mesma direção: pobreza evangélica, serviço dos outros, sobretudo dos mais pobres, dos que habitam as periferias do mundo e da vida, exigência de conversão radical, de esforço para aliviar a dor e o sofrimento.
Num de seus livros, sugere como se deu sua própria conversão: "Os padres das periferias e das favelas impuseram uma transformação nas mentalidades e no comportamento das autoridades eclesiásticas".
O diretor do jornal do Vaticano captou assim os quatro eixos da mensagem de Francisco: "Falar de Deus em termos de misericórdia e ternura; exigir o engajamento cristão concreto; trabalhar na simplificação de si mesmo e da igreja; voltar-se às pessoas que estão na periferia do cristianismo".
Não há nada de melífluo ou piegas nesse programa. Muito mais árduo do que o discurso do moralismo sem compaixão é colocar a vida a serviço dos outros. É o programa de Teresa de Calcutá e Francisco de Assis. Quantos, crentes ou não, são capazes de segui-lo?
A visita ao Brasil e o encontro com a juventude oferecem ao papa a primeira oportunidade de sair da praça de São Pedro e enfrentar os desafios contemporâneos. No momento em que se extingue Mandela, o último herói de um mundo desesperançado, o que dirá Francisco aos jovens vindos de toda a parte e em especial aos jovens brasileiros que nas manifestações deram voz à esperança?
Por trás dessa aparente improvisação do papa Francisco, existe método e coerência
É pela revolução silenciosa dos atos e gestos de cada dia que o papa Francisco vem mudando a Igreja Católica de modo radical e profundo. Não houve relatório bombástico como o de Khruschov no 20º Congresso do Partido Comunista soviético. Tampouco se anunciou novo concílio ecumênico, como fez o papa João 23. Até agora, ninguém ouviu do papa um discurso programático de reforma.
Nesse particular, seu comportamento parece inspirado, mais que em são Francisco, num dos primeiros franciscanos, santo Antônio. Num sermão, dizia este: "A palavra é viva quando são as obras que falam. Cessem, portanto, os discursos e falem as obras. Estamos saturados de palavras, mas vazios de obras".
Palavras e gestos são simples. Numa manhã, o papa diz na missa, na presença dos funcionários do banco do Vaticano, que São Pedro nunca teve conta bancária... no dia seguinte, desculpa-se por não ir ao concerto onde deveria sentar-se em poltrona majestática isolada dos demais e explica: "Não sou um príncipe da Renascença!". Nas palavras dirigidas aos bispos italianos, censura o "mundanismo", o "carreirismo eclesiástico", lamenta os bispos que se portam como "funcionários preguiçosos". Depois, abraça um a um...
Os tradicionalistas denunciam que ele "fa il parocco, non fa il papa", isto é, que age como pároco de aldeia, que ameaça dessacralizar a função papal ao recusar habitar os apartamentos pontifícios e passar férias em Castel Gandolfo, ao preferir singeleza na liturgia, pondo de lado paramentos e ritos elaborados, ao morar em hotel, tomar refeições junto a outras pessoas e não no esplêndido isolamento onde se tramam as conspirações de mordomos e cortesãos.
Mas que ninguém se engane. Por trás dessa aparente improvisação, existe método e coerência. Tudo --atos, decisões, opiniões-- aponta na mesma direção: pobreza evangélica, serviço dos outros, sobretudo dos mais pobres, dos que habitam as periferias do mundo e da vida, exigência de conversão radical, de esforço para aliviar a dor e o sofrimento.
Num de seus livros, sugere como se deu sua própria conversão: "Os padres das periferias e das favelas impuseram uma transformação nas mentalidades e no comportamento das autoridades eclesiásticas".
O diretor do jornal do Vaticano captou assim os quatro eixos da mensagem de Francisco: "Falar de Deus em termos de misericórdia e ternura; exigir o engajamento cristão concreto; trabalhar na simplificação de si mesmo e da igreja; voltar-se às pessoas que estão na periferia do cristianismo".
Não há nada de melífluo ou piegas nesse programa. Muito mais árduo do que o discurso do moralismo sem compaixão é colocar a vida a serviço dos outros. É o programa de Teresa de Calcutá e Francisco de Assis. Quantos, crentes ou não, são capazes de segui-lo?
A visita ao Brasil e o encontro com a juventude oferecem ao papa a primeira oportunidade de sair da praça de São Pedro e enfrentar os desafios contemporâneos. No momento em que se extingue Mandela, o último herói de um mundo desesperançado, o que dirá Francisco aos jovens vindos de toda a parte e em especial aos jovens brasileiros que nas manifestações deram voz à esperança?
Boato que não foi boato - PAULO BROSSARD
ZERO HORA - 22/07
Pela primeira vez, desde que o Brasil é Brasil, em ato estatal um boato deixou de ser boato infame e até de ter existido
Se, em 2012, as projeções quanto ao PIB começaram em 3,3% da economia nacional, esta acabou crescendo menos de 1%, 0,9% para ser preciso; como no ano anterior, no início do ano em curso, as projeções andavam em 3,3%, mas não demoraram em cair para 2,4%, e a tendência é de repetir o resultado de 2012. Para isso concorrem vários fatores, em primeiro lugar está a situação que amarga a indústria; por conta da inflação, por três vezes aumentou-se a taxa de juros, agora em 8,5%. E se é verdade que a senhora presidente, em uma de suas diárias divagações televisionadas, assoalhou que a inflação está contida e deve chegar ao fim do ano segundo a meta estabelecida, o fato certo é que o Banco Central praticamente anunciou o próximo agravamento senão os necessários agravamentos da taxa de juros, o que importa em dizer que o impacto inflacionário tem resistido às medidas anti-inflacionárias.
Esses dados servem para indicar os aspectos escuros da realidade nacional, cujas provas chegam aos feixes; sua confirmação está até na repentina descoberta de desnecessidade de 14 dos 39 ministérios. Em verdade, ninguém ignorava essa gritante anomalia, mas agora até em áreas oficiais houve quem percebesse que o rei estava nu _ e disse o que muitos não queriam ver. A consequência desse fato não é irrelevante, pois dele resultou a possibilidade da exclusão da senhora presidente no primeiro turno da eleição presidencial; sua reeleição, até então tida como pacífica, hoje não passa de mera possibilidade, quiçá remota.
Mudando de assunto ocorre-me registrar declaração do ministro da Fazenda, hábil em misturar temas para desfazer-se de alguns incômodos; em lugar de ocupar-se da reforma tributária, reclamada desde muito, esgueirou-se para distritos da denominada reforma política, misturando-a com plebiscito, e deixando no esquecimento a primeira das reformas, diretamente relacionada com o ministério que dirige. De repente, com engenho e arte, referindo-se às denominadas desonerações tributárias, aproveitou para dizer que elas durante dois anos e meio foram o centro da política do governo e para afiançar que "não há mais espaço para corte de impostos". Ora, como a carga tributária absorve mais da terça parte do PIB, disse sem dizer sequer adeus à reforma tributária, enterrou-a em silêncio, ao mesmo tempo que embalsamou as outras fossem quais fossem seus rótulos.
Encerrando, é relevante notar a publicação de uma nota singular, que visava apagar um boato malsinado. Dizia respeito à Bolsa Família, que teria sido extinta, fato que causara comoção entre milhares de pessoas nela interessadas. A senhora presidente qualificou a autora do boato de desumana e má, enquanto o ministro da Justiça asseverou que o plano fora orquestrado. A Polícia Federal, encarregada de apurar a autoria da infâmia, decorridos quase dois meses, concluiu pela ausência de qualquer ilicitude no suposto fato que provocara a indignação oficial, e foi solenemente publicado que o fato não ocorrera. E dessa maneira a infâmia deixou de existir, e as autoridades que se envolveram no caso não cometeram nenhuma precipitação ou leviandade, e até a direção da centenária e por muitos títulos benemérita instituição CEF foi mantida, porque nada menos elogiável teria acontecido. E desse modo findou um episódio raro, senão inédito, na crônica da administração pública, do qual tiveram participação conspícua algumas das eminências governamentais. E o governo lavrou um tento, pois, pela primeira vez, desde que o Brasil é Brasil, em ato estatal um boato deixou de ser boato infame e até de ter existido. Autêntico boato falso, falsíssimo como diria o José Dias, que adorava o superlativo.
Pela primeira vez, desde que o Brasil é Brasil, em ato estatal um boato deixou de ser boato infame e até de ter existido
Se, em 2012, as projeções quanto ao PIB começaram em 3,3% da economia nacional, esta acabou crescendo menos de 1%, 0,9% para ser preciso; como no ano anterior, no início do ano em curso, as projeções andavam em 3,3%, mas não demoraram em cair para 2,4%, e a tendência é de repetir o resultado de 2012. Para isso concorrem vários fatores, em primeiro lugar está a situação que amarga a indústria; por conta da inflação, por três vezes aumentou-se a taxa de juros, agora em 8,5%. E se é verdade que a senhora presidente, em uma de suas diárias divagações televisionadas, assoalhou que a inflação está contida e deve chegar ao fim do ano segundo a meta estabelecida, o fato certo é que o Banco Central praticamente anunciou o próximo agravamento senão os necessários agravamentos da taxa de juros, o que importa em dizer que o impacto inflacionário tem resistido às medidas anti-inflacionárias.
Esses dados servem para indicar os aspectos escuros da realidade nacional, cujas provas chegam aos feixes; sua confirmação está até na repentina descoberta de desnecessidade de 14 dos 39 ministérios. Em verdade, ninguém ignorava essa gritante anomalia, mas agora até em áreas oficiais houve quem percebesse que o rei estava nu _ e disse o que muitos não queriam ver. A consequência desse fato não é irrelevante, pois dele resultou a possibilidade da exclusão da senhora presidente no primeiro turno da eleição presidencial; sua reeleição, até então tida como pacífica, hoje não passa de mera possibilidade, quiçá remota.
Mudando de assunto ocorre-me registrar declaração do ministro da Fazenda, hábil em misturar temas para desfazer-se de alguns incômodos; em lugar de ocupar-se da reforma tributária, reclamada desde muito, esgueirou-se para distritos da denominada reforma política, misturando-a com plebiscito, e deixando no esquecimento a primeira das reformas, diretamente relacionada com o ministério que dirige. De repente, com engenho e arte, referindo-se às denominadas desonerações tributárias, aproveitou para dizer que elas durante dois anos e meio foram o centro da política do governo e para afiançar que "não há mais espaço para corte de impostos". Ora, como a carga tributária absorve mais da terça parte do PIB, disse sem dizer sequer adeus à reforma tributária, enterrou-a em silêncio, ao mesmo tempo que embalsamou as outras fossem quais fossem seus rótulos.
Encerrando, é relevante notar a publicação de uma nota singular, que visava apagar um boato malsinado. Dizia respeito à Bolsa Família, que teria sido extinta, fato que causara comoção entre milhares de pessoas nela interessadas. A senhora presidente qualificou a autora do boato de desumana e má, enquanto o ministro da Justiça asseverou que o plano fora orquestrado. A Polícia Federal, encarregada de apurar a autoria da infâmia, decorridos quase dois meses, concluiu pela ausência de qualquer ilicitude no suposto fato que provocara a indignação oficial, e foi solenemente publicado que o fato não ocorrera. E dessa maneira a infâmia deixou de existir, e as autoridades que se envolveram no caso não cometeram nenhuma precipitação ou leviandade, e até a direção da centenária e por muitos títulos benemérita instituição CEF foi mantida, porque nada menos elogiável teria acontecido. E desse modo findou um episódio raro, senão inédito, na crônica da administração pública, do qual tiveram participação conspícua algumas das eminências governamentais. E o governo lavrou um tento, pois, pela primeira vez, desde que o Brasil é Brasil, em ato estatal um boato deixou de ser boato infame e até de ter existido. Autêntico boato falso, falsíssimo como diria o José Dias, que adorava o superlativo.
Validade - AÉCIO NEVES
FOLHA DE SP - 22/07
Durou menos de 24 horas a validade das declarações da presidente da República na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, assegurando que a inflação não é motivo de preocupação e que as contas públicas estão sob controle.
O cenário descrito na ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada no dia seguinte, é outro --a inflação continua elevada e resistente, exigindo máxima atenção.
A ata também contradiz a presidente em relação às contas públicas. Enquanto a primeira mandatária garante que a "política fiscal é robusta", o Copom vê o "balanço do setor público em posição expansionista", com crescente elevação dos gastos públicos, o que acaba elevando a pressão inflacionária.
O documento cumpre ainda a missão de mostrar algumas verdades importantes.
A presidente verá que se engana atribuindo as críticas ao seu governo ao pessimismo generalizado da oposição, dos empresários e da imprensa. A preocupação de inúmeros setores decorre, na verdade, de reiterados erros da política econômica. Nos últimos dois anos, a inflação do setor de serviços manteve-se acima de 7,5% ao ano. A inflação dos alimentos, aquela que atinge e penaliza as famílias mais carentes, chegou, em junho deste ano, a quase 13% --muito acima da inflação média.
Se a prévia de julho felizmente veio menor, a explicação está na sazonalidade dos preços dos alimentos e no congelamento das tarifas de transporte, resultante dos movimentos de protesto em junho, e não na política econômica.
No que tange às contas públicas, o investimento federal, nos dois primeiros anos do governo ficou estacionado como percentual do PIB. De janeiro a maio deste ano, o gasto público do governo federal cresceu R$ 40 bilhões, uma expansão de 13%, o mesmo ritmo de crescimento dos primeiros cinco meses de 2012. No mesmo período, o crescimento do investimento público, de acordo com dados oficiais divulgados pelo Tesouro Nacional, foi de só R$ 604 milhões.
Vale dizer: apesar do crescimento exponencial do gasto federal, o investimento ficou praticamente estagnado. A expansão concentrou-se nas despesas de custeio, que pressionam a inflação, apontan- do uma menor economia fiscal no futuro.
O principal mal causado ao país por essa sucessão de equívocos está sinalizada no parágrafo 21 da ata do Copom com todas as letras: o documento aponta como fator de restrição à retomada do crescimento a desconfiança das famílias e das empresas no governo e em sua política econômica.
Sem confiança, as famílias não consomem, os empresários não investem e a economia não anda. Sem o diagnóstico correto, a terapia pode acabar agravando a doença.
Durou menos de 24 horas a validade das declarações da presidente da República na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, assegurando que a inflação não é motivo de preocupação e que as contas públicas estão sob controle.
O cenário descrito na ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada no dia seguinte, é outro --a inflação continua elevada e resistente, exigindo máxima atenção.
A ata também contradiz a presidente em relação às contas públicas. Enquanto a primeira mandatária garante que a "política fiscal é robusta", o Copom vê o "balanço do setor público em posição expansionista", com crescente elevação dos gastos públicos, o que acaba elevando a pressão inflacionária.
O documento cumpre ainda a missão de mostrar algumas verdades importantes.
A presidente verá que se engana atribuindo as críticas ao seu governo ao pessimismo generalizado da oposição, dos empresários e da imprensa. A preocupação de inúmeros setores decorre, na verdade, de reiterados erros da política econômica. Nos últimos dois anos, a inflação do setor de serviços manteve-se acima de 7,5% ao ano. A inflação dos alimentos, aquela que atinge e penaliza as famílias mais carentes, chegou, em junho deste ano, a quase 13% --muito acima da inflação média.
Se a prévia de julho felizmente veio menor, a explicação está na sazonalidade dos preços dos alimentos e no congelamento das tarifas de transporte, resultante dos movimentos de protesto em junho, e não na política econômica.
No que tange às contas públicas, o investimento federal, nos dois primeiros anos do governo ficou estacionado como percentual do PIB. De janeiro a maio deste ano, o gasto público do governo federal cresceu R$ 40 bilhões, uma expansão de 13%, o mesmo ritmo de crescimento dos primeiros cinco meses de 2012. No mesmo período, o crescimento do investimento público, de acordo com dados oficiais divulgados pelo Tesouro Nacional, foi de só R$ 604 milhões.
Vale dizer: apesar do crescimento exponencial do gasto federal, o investimento ficou praticamente estagnado. A expansão concentrou-se nas despesas de custeio, que pressionam a inflação, apontan- do uma menor economia fiscal no futuro.
O principal mal causado ao país por essa sucessão de equívocos está sinalizada no parágrafo 21 da ata do Copom com todas as letras: o documento aponta como fator de restrição à retomada do crescimento a desconfiança das famílias e das empresas no governo e em sua política econômica.
Sem confiança, as famílias não consomem, os empresários não investem e a economia não anda. Sem o diagnóstico correto, a terapia pode acabar agravando a doença.
Fala, Francisco! - RICARDO NOBLAT
O GLOBO - 22/07
"Como eu adoraria uma Igreja pobre para os pobres"
Papa Francisco, em 16 de março de 2013
"Algo aconteceu com nossa política, ficou defasada em relação às ideias, às propostas. As ideias saíram das plataformas políticas para a estética. Hoje, importa mais a imagem que o que se propõe. (...) Endeusamos a estatística e o marketing. Participar da vida política é uma maneira de honrar a democracia. Seria necessário distinguir entre a Política com P maiúsculo e a política com P minúsculo".
CIDADANIA. "A sociedade política só irá resistir se a satisfação das necessidades humanas for a nossa vocação. Esse é o papel do cidadão. (...) As pessoas são sujeitos históricos, o que significa cidadãos e membros da nação. O Estado e a sociedade devem gerar condições sociais que promovam e atuem como guardiãs de seus direitos, permitindo que sejam construtoras de seu próprio destino".
DIGNIDADE. "Não existe uma única violação da dignidade de um homem ou de uma mulher que possa ser justificada por qualquer outra coisa ou ideia. Nem uma única. (...) Quando uma pessoa ou um povo vende sua dignidade, ou a barganha, todo o resto perde consistência e deixa de ter valor".
VERDADE. "Em uma sociedade na qual as mentiras, os disfarces e a hipocrisia fizeram com que as pessoas perdessem a confiança básica no contrato social, o que poderia ser mais revolucionário do que a verdade?".
MARGINALIZAÇÃO. "Antes, em nossa sociedade, podíamos falar de opressores e oprimidos. Com o tempo, notamos que essa categorização não era suficiente, havia que acrescentar mais uma, a de incluídos e excluídos. Hoje em dia, a coisa ficou muito mais selvagem, e temos que acrescentar outra antinomia: os que entram e os que sobram. Nesta civilização consumista, hedonista, narcisista, estamos nos acostumando ao fato de que certas pessoas são descartáveis".
NEOLIBERALISMO. "A crise socioeconômica e o consequente aumento da pobreza têm suas origens em políticas inspiradas por formas de neoliberalismo que consideram o lucro e as leis do mercado como parâmetros absolutos acima da dignidade das pessoas ou dos povos. (...) Na predominante cultura neoliberal, o externo, o imediato, o visível, o rápido, o superficial: estes ocupam o primeiro lugar, e o real cede terreno às aparências".
GLOBALIZAÇÃO. "A globalização que uniformiza é essencialmente imperialista e instrumentalmente liberal, mas não é humana. Em última instância, é uma maneira de escravizar os povos. (...) A globalização, como uma imposição unidirecional e uniforme de valores, práticas e bens, anda de mãos dadas com a imitação e a subordinação cultural, intelectual e espiritual".
PÁTRIA. "A pátria é o patrimônio dos pais, o que recebemos daqueles que a fundaram. São os valores que nos entregaram em custódia, mas não para que os guardemos em uma lata de conserva, e, sim, para que, com o desafio do presente, os façamos crescer e os lancemos à utopia do futuro. Esse é o nosso patrimônio".
RELIGIÃO E POLÍTICA. "Pensar que o poder é impor o meu caminho, alinhar todo mundo e fazê-los andar por essa trilha me parece errado. Agora, se concebo o poder de uma maneira antropológica, como um serviço à comunidade, é outra coisa. A religião tem um patrimônio e o põe a serviço do povo, mas, se começa a se misturar com politicagem e a impor coisas por baixo do pano, transforma-se em um mau agente de poder. (...) Algumas pessoas me dizem: 'Padre, os políticos não estão fazendo nada'. Mas e você, o que está fazendo? Se não faz nada, então grite".
Papa Francisco, em 16 de março de 2013
"Algo aconteceu com nossa política, ficou defasada em relação às ideias, às propostas. As ideias saíram das plataformas políticas para a estética. Hoje, importa mais a imagem que o que se propõe. (...) Endeusamos a estatística e o marketing. Participar da vida política é uma maneira de honrar a democracia. Seria necessário distinguir entre a Política com P maiúsculo e a política com P minúsculo".
CIDADANIA. "A sociedade política só irá resistir se a satisfação das necessidades humanas for a nossa vocação. Esse é o papel do cidadão. (...) As pessoas são sujeitos históricos, o que significa cidadãos e membros da nação. O Estado e a sociedade devem gerar condições sociais que promovam e atuem como guardiãs de seus direitos, permitindo que sejam construtoras de seu próprio destino".
DIGNIDADE. "Não existe uma única violação da dignidade de um homem ou de uma mulher que possa ser justificada por qualquer outra coisa ou ideia. Nem uma única. (...) Quando uma pessoa ou um povo vende sua dignidade, ou a barganha, todo o resto perde consistência e deixa de ter valor".
VERDADE. "Em uma sociedade na qual as mentiras, os disfarces e a hipocrisia fizeram com que as pessoas perdessem a confiança básica no contrato social, o que poderia ser mais revolucionário do que a verdade?".
MARGINALIZAÇÃO. "Antes, em nossa sociedade, podíamos falar de opressores e oprimidos. Com o tempo, notamos que essa categorização não era suficiente, havia que acrescentar mais uma, a de incluídos e excluídos. Hoje em dia, a coisa ficou muito mais selvagem, e temos que acrescentar outra antinomia: os que entram e os que sobram. Nesta civilização consumista, hedonista, narcisista, estamos nos acostumando ao fato de que certas pessoas são descartáveis".
NEOLIBERALISMO. "A crise socioeconômica e o consequente aumento da pobreza têm suas origens em políticas inspiradas por formas de neoliberalismo que consideram o lucro e as leis do mercado como parâmetros absolutos acima da dignidade das pessoas ou dos povos. (...) Na predominante cultura neoliberal, o externo, o imediato, o visível, o rápido, o superficial: estes ocupam o primeiro lugar, e o real cede terreno às aparências".
GLOBALIZAÇÃO. "A globalização que uniformiza é essencialmente imperialista e instrumentalmente liberal, mas não é humana. Em última instância, é uma maneira de escravizar os povos. (...) A globalização, como uma imposição unidirecional e uniforme de valores, práticas e bens, anda de mãos dadas com a imitação e a subordinação cultural, intelectual e espiritual".
PÁTRIA. "A pátria é o patrimônio dos pais, o que recebemos daqueles que a fundaram. São os valores que nos entregaram em custódia, mas não para que os guardemos em uma lata de conserva, e, sim, para que, com o desafio do presente, os façamos crescer e os lancemos à utopia do futuro. Esse é o nosso patrimônio".
RELIGIÃO E POLÍTICA. "Pensar que o poder é impor o meu caminho, alinhar todo mundo e fazê-los andar por essa trilha me parece errado. Agora, se concebo o poder de uma maneira antropológica, como um serviço à comunidade, é outra coisa. A religião tem um patrimônio e o põe a serviço do povo, mas, se começa a se misturar com politicagem e a impor coisas por baixo do pano, transforma-se em um mau agente de poder. (...) Algumas pessoas me dizem: 'Padre, os políticos não estão fazendo nada'. Mas e você, o que está fazendo? Se não faz nada, então grite".
O recado de Dilma - RICARDO BALTHAZAR
FOLHA DE SP - 22/07
SÃO PAULO - Na carta que enviou sábado à direção do PT, a presidente Dilma Rousseff usou nove vezes a palavra "novo" e suas variações ao interpretar o significado dos protestos de junho e dizer como os políticos deveriam responder a eles. No artigo que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva escreveu na semana passada para tratar do assunto, a palavra só é usada três vezes.
Examinados lado a lado, os dois textos expõem diferenças sutis entre a presidente e seu padrinho político. Os dois concordam ao descrever as manifestações como uma espécie de subproduto dos avanços ocorridos no país após a chegada do PT ao poder, e ao apontar o desejo de maior participação nas decisões políticas como principal reivindicação das ruas.
Mas cada um vai para um lado na hora de oferecer o remédio. Dilma insiste na realização de um plebiscito para a reforma do sistema político, dando ênfase a uma ideia rechaçada até no seu partido. Lula, que incluiu no artigo uma referência oblíqua a esse fiasco, acha que a prioridade agora deveria ser reatar os laços que uniam o PT aos movimentos sociais na época em que os petistas é que faziam barulho nas ruas.
Lula só diz o nome de sua sucessora uma vez no artigo. Após celebrar a energia das manifestações, o ex-presidente diz que "outra boa notícia" de junho foi a iniciativa tomada por Dilma ao defender o plebiscito e investimentos em educação, saúde e transporte público. Num lapso significativo, Lula ignorou dois pontos da agenda da presidente, o combate à corrupção e o equilíbrio fiscal.
Dilma cita o antecessor duas vezes em sua mensagem ao PT. Primeiro, para dizer que sempre esteve ao lado dele e, depois, para sugerir que continuem todos "juntos". Num momento em que berzoinis, falcões e vaccarezzas não param de fazer intriga contra Dilma e as pressões para que Lula volte a se candidatar nas próximas eleições só crescem, o recado da presidente parece simples: não há futuro para a nau petista sem ela.
SÃO PAULO - Na carta que enviou sábado à direção do PT, a presidente Dilma Rousseff usou nove vezes a palavra "novo" e suas variações ao interpretar o significado dos protestos de junho e dizer como os políticos deveriam responder a eles. No artigo que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva escreveu na semana passada para tratar do assunto, a palavra só é usada três vezes.
Examinados lado a lado, os dois textos expõem diferenças sutis entre a presidente e seu padrinho político. Os dois concordam ao descrever as manifestações como uma espécie de subproduto dos avanços ocorridos no país após a chegada do PT ao poder, e ao apontar o desejo de maior participação nas decisões políticas como principal reivindicação das ruas.
Mas cada um vai para um lado na hora de oferecer o remédio. Dilma insiste na realização de um plebiscito para a reforma do sistema político, dando ênfase a uma ideia rechaçada até no seu partido. Lula, que incluiu no artigo uma referência oblíqua a esse fiasco, acha que a prioridade agora deveria ser reatar os laços que uniam o PT aos movimentos sociais na época em que os petistas é que faziam barulho nas ruas.
Lula só diz o nome de sua sucessora uma vez no artigo. Após celebrar a energia das manifestações, o ex-presidente diz que "outra boa notícia" de junho foi a iniciativa tomada por Dilma ao defender o plebiscito e investimentos em educação, saúde e transporte público. Num lapso significativo, Lula ignorou dois pontos da agenda da presidente, o combate à corrupção e o equilíbrio fiscal.
Dilma cita o antecessor duas vezes em sua mensagem ao PT. Primeiro, para dizer que sempre esteve ao lado dele e, depois, para sugerir que continuem todos "juntos". Num momento em que berzoinis, falcões e vaccarezzas não param de fazer intriga contra Dilma e as pressões para que Lula volte a se candidatar nas próximas eleições só crescem, o recado da presidente parece simples: não há futuro para a nau petista sem ela.
O legado de Armênio, agora - LUIZ SÉRGIO HENRIQUES
ESTADÃO - 22/07
O título remete à serenidade e, indiretamente, à ideia de revolução e luta pelas liberdades, e o livro em si fala de um personagem que, nascido em 1918, nos dá a honra de ser seu contemporâneo, depois de ter acompanhado parte conspícua das batalhas pela democracia segundo a ótica de um pequeno, mas importante, partido da esquerda contemporânea. Refiro-me ao relato de Sandro Vaia sobre a vida de um comunista singular (Armênio Guedes - sereno guerreiro da liberdade, Barcarolla, 2013), cuja leitura convida simultaneamente a uma reavaliação do passado e a uma posição no presente - esta última sempre tão difícil de tomar, se é que, como diz o filósofo, a ave da sabedoria só levanta voo ao escurecer e, por isso, estamos humanamente condenados a travar os combates do dia com uma consciência tão só parcial e muitas vezes enganosa.
O partido, naturalmente, é o PCB, criado no significativo ano de 1922, prenhe de acontecimentos que assinalariam a modernidade brasileira. Entre seus quixotescos fundadores, Astrojildo Pereira, intelectual fora dos padrões convencionais, admirador e estudioso arguto de Machado de Assis - paixão que o acompanharia pela vida afora e muitas vezes o salvaria da aridez sectária tanto na política quanto na literatura. Armênio chegaria ao "partido" - assim entre aspas, como se fosse "o" partido por antonomásia e todos os demais não passassem de ficção ou figuras casuais - em circunstância diversa e posterior, por ocasião da mobilização antifascista que também iria abalar internamente o Estado Novo e propiciar, logo em seguida à redemocratização de 1945, o curto período de legalidade do PCB.
Astrojildo e Armênio se cruzariam na história partidária, já então profundamente marcada por um traço específico do nosso país - a admissão da ala esquerda do tenentismo, simbolizada na figura de Luís Carlos Prestes -, bem como por uma característica generalizada dos velhos partidos comunistas - a adesão à União Soviética e ao corpo doutrinário que daí se irradiava para os demais partidos "irmãos", o "marxismo-leninismo".
Tempos de ferro e fogo, de clandestinidade, prisões e exílios. E também de enrijecimento dogmático, de cisões e excomunhões estrepitosas, como, para dar o exemplo canônico, as que acompanharam a denúncia dos crimes de Stalin e do seu sistema de poder, no já distante ano de 1956.
Prestes e Armênio - uma visão que tendia a soluções militares, marcada por uma assimilação positivista do marxismo, e outra que tendia a valorizar a política e os recursos da democracia, em cujo cerne estão a dissuasão, e não a força, o consenso, e não a coerção. O mais tradicional e moderado dos partidos da esquerda chegaria cindido a 1964. "No embate entre Jango e seu mais feroz opositor, o governador Carlos Lacerda, da UDN, Prestes achava que o PCB podia ficar no meio da briga e sair ganhando o poder que sobraria depois da mortal briga entre os dois lados." Armênio e muitos outros, ao contrário, tiveram consciência imediata do alcance histórico da derrota e do salto de qualidade que o capitalismo iria conhecer entre nós, na sequência dos idos de março de 1964.
Debilitado pelas sucessivas cisões de quadros que iriam fazer a luta armada - Marighella, Gorender, Mário Alves -, o velho PCB, apesar de tudo, acharia forças para prestar um último e decisivo serviço à democracia brasileira, ao tornar-se "linha auxiliar do MDB" e apostar na crescente discrepância entre o arbítrio do regime dos atos institucionais e o resíduo de legalidade que se manifestava na competição eleitoral e no movimento associativo, mesmo sob severos condicionamentos. Uma estratégia que apontava, desde o início, para a derrota do regime discricionário mediante a obtenção de ampla anistia e, fundamentalmente, de uma Carta democrática - esta mesma a que lealmente nos devemos referir em todos os momentos, especialmente nos de crise e incerteza, como o que ora atravessamos.
Eis-nos, como dissemos no princípio, antes de um novo e iluminador voo da coruja, a nos haver não só com o legado de Armênio, como também com os problemas um tanto opacos do presente. Movemo-nos num ambiente em que o mundo virtual - num indício, talvez, de verdadeira mudança antropológica - facilita enormemente a difusão do anseio por uma "democracia direta" que, segundo seus adeptos radicais, eliminaria a mediação institucional e os organismos estáveis da representação.
Além do fato de o mundo virtual também estar atravessado de boas e más possibilidades, podendo gerar, no limite negativo, um "assembleísmo eletrônico" com todos os vícios do assembleísmo tradicional, resta a evidência de que a esquerda hegemônica não parece ter pela Carta de 1988 o apreço a que devem sentir-se convocados todos os cidadãos. Alguns dos seus dirigentes veem a crise como ocasião para "enfrentar a direita e levar o governo para a esquerda", ainda que, a rigor, não tenham nenhum projeto alternativo de País ou de sociedade. Enxergam o conflito social legítimo como oportunidade de processos constituintes espúrios ou plebiscitos mal-ajambrados, que supostamente reuniriam um Executivo ainda mais hipertrofiado e a massa da população, fora ou dentro das redes sociais - mas sempre ao largo das instituições.
Num paradoxo só aparente, o caminho da fidelidade às regras do jogo democrático, como poderia ter sido em 1964 e como se patentearia nos anos da resistência, continua a ser a via mestra das mudanças substantivas, sem aventuras ou saltos no escuro. No velho PCB, em circunstâncias muito mais difíceis, pôde germinar um reformismo como o de Armênio Guedes. A esquerda hegemônica, hoje, está desafiada a fazer o mesmo: hic Rhodus, hic salta, diria conhecido pensador. E já não seria sem tempo.
O título remete à serenidade e, indiretamente, à ideia de revolução e luta pelas liberdades, e o livro em si fala de um personagem que, nascido em 1918, nos dá a honra de ser seu contemporâneo, depois de ter acompanhado parte conspícua das batalhas pela democracia segundo a ótica de um pequeno, mas importante, partido da esquerda contemporânea. Refiro-me ao relato de Sandro Vaia sobre a vida de um comunista singular (Armênio Guedes - sereno guerreiro da liberdade, Barcarolla, 2013), cuja leitura convida simultaneamente a uma reavaliação do passado e a uma posição no presente - esta última sempre tão difícil de tomar, se é que, como diz o filósofo, a ave da sabedoria só levanta voo ao escurecer e, por isso, estamos humanamente condenados a travar os combates do dia com uma consciência tão só parcial e muitas vezes enganosa.
O partido, naturalmente, é o PCB, criado no significativo ano de 1922, prenhe de acontecimentos que assinalariam a modernidade brasileira. Entre seus quixotescos fundadores, Astrojildo Pereira, intelectual fora dos padrões convencionais, admirador e estudioso arguto de Machado de Assis - paixão que o acompanharia pela vida afora e muitas vezes o salvaria da aridez sectária tanto na política quanto na literatura. Armênio chegaria ao "partido" - assim entre aspas, como se fosse "o" partido por antonomásia e todos os demais não passassem de ficção ou figuras casuais - em circunstância diversa e posterior, por ocasião da mobilização antifascista que também iria abalar internamente o Estado Novo e propiciar, logo em seguida à redemocratização de 1945, o curto período de legalidade do PCB.
Astrojildo e Armênio se cruzariam na história partidária, já então profundamente marcada por um traço específico do nosso país - a admissão da ala esquerda do tenentismo, simbolizada na figura de Luís Carlos Prestes -, bem como por uma característica generalizada dos velhos partidos comunistas - a adesão à União Soviética e ao corpo doutrinário que daí se irradiava para os demais partidos "irmãos", o "marxismo-leninismo".
Tempos de ferro e fogo, de clandestinidade, prisões e exílios. E também de enrijecimento dogmático, de cisões e excomunhões estrepitosas, como, para dar o exemplo canônico, as que acompanharam a denúncia dos crimes de Stalin e do seu sistema de poder, no já distante ano de 1956.
Prestes e Armênio - uma visão que tendia a soluções militares, marcada por uma assimilação positivista do marxismo, e outra que tendia a valorizar a política e os recursos da democracia, em cujo cerne estão a dissuasão, e não a força, o consenso, e não a coerção. O mais tradicional e moderado dos partidos da esquerda chegaria cindido a 1964. "No embate entre Jango e seu mais feroz opositor, o governador Carlos Lacerda, da UDN, Prestes achava que o PCB podia ficar no meio da briga e sair ganhando o poder que sobraria depois da mortal briga entre os dois lados." Armênio e muitos outros, ao contrário, tiveram consciência imediata do alcance histórico da derrota e do salto de qualidade que o capitalismo iria conhecer entre nós, na sequência dos idos de março de 1964.
Debilitado pelas sucessivas cisões de quadros que iriam fazer a luta armada - Marighella, Gorender, Mário Alves -, o velho PCB, apesar de tudo, acharia forças para prestar um último e decisivo serviço à democracia brasileira, ao tornar-se "linha auxiliar do MDB" e apostar na crescente discrepância entre o arbítrio do regime dos atos institucionais e o resíduo de legalidade que se manifestava na competição eleitoral e no movimento associativo, mesmo sob severos condicionamentos. Uma estratégia que apontava, desde o início, para a derrota do regime discricionário mediante a obtenção de ampla anistia e, fundamentalmente, de uma Carta democrática - esta mesma a que lealmente nos devemos referir em todos os momentos, especialmente nos de crise e incerteza, como o que ora atravessamos.
Eis-nos, como dissemos no princípio, antes de um novo e iluminador voo da coruja, a nos haver não só com o legado de Armênio, como também com os problemas um tanto opacos do presente. Movemo-nos num ambiente em que o mundo virtual - num indício, talvez, de verdadeira mudança antropológica - facilita enormemente a difusão do anseio por uma "democracia direta" que, segundo seus adeptos radicais, eliminaria a mediação institucional e os organismos estáveis da representação.
Além do fato de o mundo virtual também estar atravessado de boas e más possibilidades, podendo gerar, no limite negativo, um "assembleísmo eletrônico" com todos os vícios do assembleísmo tradicional, resta a evidência de que a esquerda hegemônica não parece ter pela Carta de 1988 o apreço a que devem sentir-se convocados todos os cidadãos. Alguns dos seus dirigentes veem a crise como ocasião para "enfrentar a direita e levar o governo para a esquerda", ainda que, a rigor, não tenham nenhum projeto alternativo de País ou de sociedade. Enxergam o conflito social legítimo como oportunidade de processos constituintes espúrios ou plebiscitos mal-ajambrados, que supostamente reuniriam um Executivo ainda mais hipertrofiado e a massa da população, fora ou dentro das redes sociais - mas sempre ao largo das instituições.
Num paradoxo só aparente, o caminho da fidelidade às regras do jogo democrático, como poderia ter sido em 1964 e como se patentearia nos anos da resistência, continua a ser a via mestra das mudanças substantivas, sem aventuras ou saltos no escuro. No velho PCB, em circunstâncias muito mais difíceis, pôde germinar um reformismo como o de Armênio Guedes. A esquerda hegemônica, hoje, está desafiada a fazer o mesmo: hic Rhodus, hic salta, diria conhecido pensador. E já não seria sem tempo.
Maioridade e responsabilidade penal - RAIMUNDO HERMES BARBOSA
CORREIO BRAZILIENSE - 22/07
Em 2007, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) já alertava para a confusão conceitual que se fazia no Brasil a respeito de maioridade e responsabilidade penal. Atualmente, governantes, na tentativa de encobrir a incompetência em relação ao combate à violência e ao crescimento dos crimes - especialmente os homicídios -, buscam como tábua de salvação política a redução da maioridade penal.
A solução é complexa e não será resolvida num passe de mágica, simplesmente, porque houve redução da maioridade penal. A questão não se resume a essa providência, até porque, se reduzirmos a maioridade penal para 16 anos, teremos os crimes cometidos pelos menores dessa idade. Aliás, é o que tem se visualizado em muitos casos noticiados. E, nessas situações, o que fazer? Reduzir a maioridade para 12 anos?
Evidentemente o problema da impunidade vai persistir. Por isso sou contra a redução da maioridade penal, posto que, sob meu ponto de vista, não solucionará a criminalidade. Nos países desenvolvidos, temos outra forma de combater a criminalidade violenta, seja praticada por maiores ou menores de idade. E para isso precisamos avançar no sentido do afastamento da confusão conceitual e no de adequação da nossa legislação para o efetivo combate à criminalidade desenfreada que assola o país.
Assim, temos de caminhar para que o menor seja processado e condenado em conformidade com a gravidade do delito praticado, como ocorre nos países desenvolvidos, em sua grande maioria. Entretanto, para isso, precisamos adequar a legislação e reformar todo o sistema penitenciário, com urgência.
Não se trata de uma tarefa fácil, mas precisamos começar já. Até porque, essa balela de redução da maioridade penal para responsabilizar o menor infrator é uma falácia, haja vista que o menor já tem sua responsabilidade penal a partir dos 12 anos, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Precisamos, sim, adequá-lo à nova realidade do Brasil.
Dentre as ações imediatas e fundamentais estão: a alteração do Código Penal - elevando as penas para os adultos que se utilizarem de menores para a prática de delitos - e a alteração do ECA, para que, ao completar 18 anos, o menor possa ser transferido para um regime de reformatório, como existe nos Estados Unidos e em alguns países da Europa. Dessa forma, acaba-se com a farra do menor violento completar a maioridade saindo para praticar novos crimes, e com ficha limpa.
Vale ressaltar que o sistema penal precisa ser repensado e adequado, efetivamente. A Lei das Execuções Penais, como está, não pode continuar, especialmente quando criaturas humanas são tratadas desumanamente, em piores do que os animais.
Por enquanto, é apenas um sonho - ÁLVARO PALMA DE JORGE
O GLOBO - 22/07
O bem construído lema do governo federal, que associa a riqueza do país à ausência de pobreza, será um sonho distante caso o Brasil não enfrente com a seriedade necessária o problema da ausência de infraestrutura. Nos últimos anos, o tema esteve presente na agenda política, mas a implementação da vasta carteira de projetos da área ainda é muito acanhada.
A composição dos interesses envolvidos nos diversos setores da economia é tarefa árdua, o que faz com que os projetos de governo se arrastem por longo tempo até receberem a formatação final, como no caso do setor portuário.
Com a publicação neste ano da Lei nº 12.815/2013, que substitui a Lei dos Portos, foi estabelecido o novo regime de exploração direta e indireta das instalações portuárias no país. A tramitação da medida provisória no Congresso Nacional, desde sua adoção pela presidente Dilma Rousseff até a conversão em lei, foi extremamente atribulada e, ao que tudo indica, os interesses em jogo ainda não estão equacionados.
A intenção do Executivo com a edição da MP era alterar substancialmente diversos pontos polêmicos da antiga Lei dos Portos. O texto original da medida, porém, recebeu diversas emendas na Câmara dos Deputados e chegou ao Senado no último dia para a conversão em lei, tendo sido votada sem a devida ponderação pelos senadores, que foram contundentes em manifestar a insatisfação com a pressão sofrida.
Mesmo com forte articulação política do governo, as emendas parlamentares alteraram disposições nucleares propostas e, com isso, a presidente da República alegou vícios de inconstitucionalidade e contrariedade ao interesse público fazendo prevalecer sua intenção original, atitude que contrariou boa parte dos deputados federais.
Ainda haverá oportunidade para o contra-ataque dos congressistas porque os vetos presidenciais ao texto aprovado pelo Legislativo serão analisados pelo próprio Congresso Nacional. Apesar de terem a prerrogativa de rejeitar os vetos presidenciais, deputados e senadores não a exerciam verdadeiramente desde a promulgação da Constituição, em 1988. Recentemente, porém, o Congresso exerceu com rapidez seu poder ao derrubar o veto impeditivo da presidente sobre a divisão dos royalties do setor de petróleo e gás natural no que tange os contratos já licitados.
Vale a pergunta se a discussão em torno dos royalties foi um caso isolado ou se marcou realmente uma mudança na postura do Congresso diante dos poderes do Executivo. O caso da nova Lei dos Portos poderá ser um bom termômetro desse comportamento. Ao que parece, ainda não é chegado o momento em que o setor portuário alcançará a almejada segurança, imprescindível ao seu desenvolvimento.
Francisco e as ruas - VALDO CRUZ
FOLHA DE SP - 22/07
BRASÍLIA - Em dimensões diferentes, o papa Francisco e o mundo político brasileiro enfrentam desafios bem semelhantes: suas instituições se desconectaram das vozes das ruas e correm o risco de serem destronadas. Uma, a médio e longo prazos. Outra, a curtíssimo.
Se os governantes brasileiros, Dilma Rousseff à frente, têm sangria de popularidade, pondo seus projetos de poder sob perigo no ano que vem, a Igreja Católica só fez perder fiéis nos últimos anos, como mostrou a pesquisa Datafolha --os católicos são hoje 57% dos brasileiros, bem abaixo dos 75% em 1994.
Daí que, nesse contexto, ganha relevância para lá do simbólico a vinda do papa ao Brasil. Pode ser uma oportunidade única de início de transformações na vida dos rebanhos de católicos e de eleitores.
Primeiro papa latino-americano, Francisco assumiu o comando da Igreja Católica como um sopro bendito de renovação. Talvez seja a pessoa, isso mesmo, pessoa, não santidade, certa para o momento de questionamentos do catolicismo.
Hoje espírita, nasci em família católica e tive intensa atividade na igreja entre os 15 e os 25 anos. Em grupos ligados à ala progressista, participei de trabalhos sociais na periferia de Belo Horizonte. Meu grupo era tachado de comunista pelo padre da nossa paróquia.
Nossos líderes, entre eles o saudoso padre Toninho Haddad, foram perseguidos e afastados de nós. Como os dogmas da igreja já não tocavam mais meu coração e mente, acabei dela me afastando.
Quando Francisco foi escolhido, confesso ter sentido saudades dos dias de católico. Só que tomei caminho sem volta, mas torço para que o pontífice consiga, de fato, resgatar a opção preferencial pelos pobres.
Seus bons exemplos indicam ser esse seu rumo e objetivo. Algo bem em falta entre os políticos brasileiros --de direita, centro e esquerda. Enfim, talvez o papa e as ruas, juntos, operem milagres por aqui.
BRASÍLIA - Em dimensões diferentes, o papa Francisco e o mundo político brasileiro enfrentam desafios bem semelhantes: suas instituições se desconectaram das vozes das ruas e correm o risco de serem destronadas. Uma, a médio e longo prazos. Outra, a curtíssimo.
Se os governantes brasileiros, Dilma Rousseff à frente, têm sangria de popularidade, pondo seus projetos de poder sob perigo no ano que vem, a Igreja Católica só fez perder fiéis nos últimos anos, como mostrou a pesquisa Datafolha --os católicos são hoje 57% dos brasileiros, bem abaixo dos 75% em 1994.
Daí que, nesse contexto, ganha relevância para lá do simbólico a vinda do papa ao Brasil. Pode ser uma oportunidade única de início de transformações na vida dos rebanhos de católicos e de eleitores.
Primeiro papa latino-americano, Francisco assumiu o comando da Igreja Católica como um sopro bendito de renovação. Talvez seja a pessoa, isso mesmo, pessoa, não santidade, certa para o momento de questionamentos do catolicismo.
Hoje espírita, nasci em família católica e tive intensa atividade na igreja entre os 15 e os 25 anos. Em grupos ligados à ala progressista, participei de trabalhos sociais na periferia de Belo Horizonte. Meu grupo era tachado de comunista pelo padre da nossa paróquia.
Nossos líderes, entre eles o saudoso padre Toninho Haddad, foram perseguidos e afastados de nós. Como os dogmas da igreja já não tocavam mais meu coração e mente, acabei dela me afastando.
Quando Francisco foi escolhido, confesso ter sentido saudades dos dias de católico. Só que tomei caminho sem volta, mas torço para que o pontífice consiga, de fato, resgatar a opção preferencial pelos pobres.
Seus bons exemplos indicam ser esse seu rumo e objetivo. Algo bem em falta entre os políticos brasileiros --de direita, centro e esquerda. Enfim, talvez o papa e as ruas, juntos, operem milagres por aqui.
Preconceito ideológico - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 22/07
No dia 21 de outubro, a Agência Nacional de Petróleo realizará a primeira licitação de um campo na camada do pré-sal depois de adotado o regime de partilha de produção para esse tipo de reservatório. Pela potencialidade do campo de Libra, com possíveis reservas da ordem de 12 bilhões de barris e investimentos que alcançariam a casa de US$ 200 bilhões, é provável que a licitação venha a ser, isoladamente, o maior negócio na história do setor. Somente em bônus de assinatura, o consórcio vencedor terá de pagar ao Tesouro R$ 1,5 bilhão. Além disso, terá de assegurar ao governo pelo menos 41% da produção, descontada parte dos custos para extrair o petróleo
. A produção, prevista para iniciar no prazo de cinco anos, vai gerar royalties para os cofres públicos, prevendo-se também a formação e um Fundo Social a fim de que o resultado da atividade possa ser usufruído também por futuras gerações de brasileiros, tal qual ocorre em outros países (o melhor exemplo é a Noruega).
Ainda que o regime de partilha de produção tenha sido questionado diante da alternativa de se manter o de concessões que foi adotado em todas as licitações anteriores, tal investimento somente será viabilizado porque o Brasil instituiu uma nova lei do petróleo, abandonando o antigo e ultrapassado monopólio. A maior beneficiária dessa mudança foi exatamente a companhia estatal que exercia esse monopólio, pois desde então se tornou mais ágil e com mais autonomia para negociar parcerias societárias, operacionais, financeiras, tecnológicas e gerenciais, multiplicando assim sua capacidade de investimento. A chegada de muitas companhias e a criação de outras de capital nacional oxigenaram a indústria brasileira. Motivaram profissionais a enfrentar desafios vultosos. O parque tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Ilha do Fundão, abriga cada vez mais centros de pesquisas, com ênfase no petróleo, mas que se irradiam também para outras áreas e se intercomunicam com o mundo acadêmico de Norte a Sul do país, sem deixa de fazer uma ponte com o desenvolvimento da tecnologia no exterior.
Ao optar pelo mercado e a competição no lugar dos defasados monopólios estatais, o Brasil se livrou de amarras que limitavam o investimento pela ausência de capitais sob gestão privada. O exemplo das telecomunicações talvez seja o mais contundente. Com o antigo monopólio, a telefonia celular, o acesso à internet em alta velocidade e a TV por assinatura seriam hoje serviços distantes da maioria da população. Mesmo a universalização da energia elétrica continuaria sendo um sonho (assim como o é no saneamento básico, segmento dominado por companhias estatais estaduais).
O preconceito ideológico contra o mercado e mobilização de capitais privados ainda contamina a política no país, infelizmente, mesmo com todas as evidências que o Brasil estava marcando passo com a era dos monopólios estatais. Oxalá isso um dia seja superado.
No dia 21 de outubro, a Agência Nacional de Petróleo realizará a primeira licitação de um campo na camada do pré-sal depois de adotado o regime de partilha de produção para esse tipo de reservatório. Pela potencialidade do campo de Libra, com possíveis reservas da ordem de 12 bilhões de barris e investimentos que alcançariam a casa de US$ 200 bilhões, é provável que a licitação venha a ser, isoladamente, o maior negócio na história do setor. Somente em bônus de assinatura, o consórcio vencedor terá de pagar ao Tesouro R$ 1,5 bilhão. Além disso, terá de assegurar ao governo pelo menos 41% da produção, descontada parte dos custos para extrair o petróleo
. A produção, prevista para iniciar no prazo de cinco anos, vai gerar royalties para os cofres públicos, prevendo-se também a formação e um Fundo Social a fim de que o resultado da atividade possa ser usufruído também por futuras gerações de brasileiros, tal qual ocorre em outros países (o melhor exemplo é a Noruega).
Ainda que o regime de partilha de produção tenha sido questionado diante da alternativa de se manter o de concessões que foi adotado em todas as licitações anteriores, tal investimento somente será viabilizado porque o Brasil instituiu uma nova lei do petróleo, abandonando o antigo e ultrapassado monopólio. A maior beneficiária dessa mudança foi exatamente a companhia estatal que exercia esse monopólio, pois desde então se tornou mais ágil e com mais autonomia para negociar parcerias societárias, operacionais, financeiras, tecnológicas e gerenciais, multiplicando assim sua capacidade de investimento. A chegada de muitas companhias e a criação de outras de capital nacional oxigenaram a indústria brasileira. Motivaram profissionais a enfrentar desafios vultosos. O parque tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Ilha do Fundão, abriga cada vez mais centros de pesquisas, com ênfase no petróleo, mas que se irradiam também para outras áreas e se intercomunicam com o mundo acadêmico de Norte a Sul do país, sem deixa de fazer uma ponte com o desenvolvimento da tecnologia no exterior.
Ao optar pelo mercado e a competição no lugar dos defasados monopólios estatais, o Brasil se livrou de amarras que limitavam o investimento pela ausência de capitais sob gestão privada. O exemplo das telecomunicações talvez seja o mais contundente. Com o antigo monopólio, a telefonia celular, o acesso à internet em alta velocidade e a TV por assinatura seriam hoje serviços distantes da maioria da população. Mesmo a universalização da energia elétrica continuaria sendo um sonho (assim como o é no saneamento básico, segmento dominado por companhias estatais estaduais).
O preconceito ideológico contra o mercado e mobilização de capitais privados ainda contamina a política no país, infelizmente, mesmo com todas as evidências que o Brasil estava marcando passo com a era dos monopólios estatais. Oxalá isso um dia seja superado.
Cabides de emprego nas prefeituras - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 22/07
Os 5,5 mil municípios do país são responsáveis pela criação, na administração direta, de 64 mil cargos comissionados, de livre nomeação, preenchidos sem concurso público entre 2008 e 2012. A administração direta engloba secretarias, departamentos e outros órgãos, ficando de fora dessa conta pessoas jurídicas na forma de autarquias, fundações, empresas e associações públicas e sociedades de economia mista. Os números são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base na Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic) de 2012.
Há 10 dias, centenas de prefeitos estiveram em Brasília a fim de pressionar o governo federal para a liberação de recursos para suas cidades. Conseguiram de Dilma Rousseff R$ 3 bilhões, mas nenhum reajuste para o Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Alguns, mais afoitos, vaiaram a presidente, pois achavam que sairiam de lá com aval para gastar, em muitos casos, mais do que arrecadam. E a prova está no levantamento do IBGE: o percentual de cargos em comissão na administração direta dos municípios em relação ao total de servidores é de 12,4%. Nos municípios com população de até 5 mil habitantes, a fatia cai para 11,7%, e nos de 500 mil habitantes ou mais o percentual é de 4,6%.
Vê-se, portanto, que, quanto menor a prefeitura, maior o peso do funcionalismo comissionado. Por sua vez, os prefeitos das grandes cidades preferem contratar obras e proporcionar a geração de empregos. No meio dos que estiveram recentemente na capital federal reclamando dos cofres vazios, os primeiros primam pela contratação de pessoas sem concurso público, deixando, quando passam o poder, a batata quente nas mãos do sucessor. Paralelamente, queixam-se de que cabe às prefeituras a maior parte do fardo em serviços como saúde, educação e transporte. Afirmam que as desonerações fiscais concedidas pelo governo federal drenam recursos do FPM, do qual vem a maior parte das receitas.
O empreguismo desenfreado nos municípios pequenos prejudica as reivindicações dos prefeitos por mais recursos. A manutenção de um quadro inchado de cargos de confiança atinge o movimento na medula. Cabides de emprego não são privilégio dos municípios. Estão em todas as instâncias da administração pública, dificultando sobremaneira o desenvolvimento do país. De onde sai dinheiro para tanta benesse? Certamente que uma das fontes é a alta carga tributária vigente, atualmente em torno dos 37% do Produto Interno Bruto (PIB). Urge que a maioria dos prefeitos e vereadores se empenhem para enxugar a máquina pública.
Há 10 dias, centenas de prefeitos estiveram em Brasília a fim de pressionar o governo federal para a liberação de recursos para suas cidades. Conseguiram de Dilma Rousseff R$ 3 bilhões, mas nenhum reajuste para o Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Alguns, mais afoitos, vaiaram a presidente, pois achavam que sairiam de lá com aval para gastar, em muitos casos, mais do que arrecadam. E a prova está no levantamento do IBGE: o percentual de cargos em comissão na administração direta dos municípios em relação ao total de servidores é de 12,4%. Nos municípios com população de até 5 mil habitantes, a fatia cai para 11,7%, e nos de 500 mil habitantes ou mais o percentual é de 4,6%.
Vê-se, portanto, que, quanto menor a prefeitura, maior o peso do funcionalismo comissionado. Por sua vez, os prefeitos das grandes cidades preferem contratar obras e proporcionar a geração de empregos. No meio dos que estiveram recentemente na capital federal reclamando dos cofres vazios, os primeiros primam pela contratação de pessoas sem concurso público, deixando, quando passam o poder, a batata quente nas mãos do sucessor. Paralelamente, queixam-se de que cabe às prefeituras a maior parte do fardo em serviços como saúde, educação e transporte. Afirmam que as desonerações fiscais concedidas pelo governo federal drenam recursos do FPM, do qual vem a maior parte das receitas.
O empreguismo desenfreado nos municípios pequenos prejudica as reivindicações dos prefeitos por mais recursos. A manutenção de um quadro inchado de cargos de confiança atinge o movimento na medula. Cabides de emprego não são privilégio dos municípios. Estão em todas as instâncias da administração pública, dificultando sobremaneira o desenvolvimento do país. De onde sai dinheiro para tanta benesse? Certamente que uma das fontes é a alta carga tributária vigente, atualmente em torno dos 37% do Produto Interno Bruto (PIB). Urge que a maioria dos prefeitos e vereadores se empenhem para enxugar a máquina pública.
O corte minguante - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 22/07
As contas públicas vão mal e os apuros do governo ficarão evidentes, mais uma vez, quando o Executivo mandar ao Congresso, hoje, o relatório de execução orçamentária do terceiro trimestre. O documento conterá as novas projeções oficiais de crescimento econômico, da arrecadação e dos gastos e, naturalmente, do superávit primário, isto é, da economia planejada para o pagamento dos juros da dívida pública.
Na sexta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi ao Palácio do Planalto para examinar com a presidente Dilma Rousseff as possibilidades de corte do gasto federal. Diante da arrecadação minguante, só um ajuste rigoroso poderia evitar um resultado fiscal muito inferior àquele prometido até o mês passado. Mas as promessas de cortes também minguaram nas últimas semanas, enquanto se intensificavam em Brasília as discussões sobre a contenção de gastos aceitável numa crise como a deste ano.
O governo prometeu inicialmente um superávit primário equivalente a 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado para 2013. Isso deveria corresponder a cerca de R$ 155 bilhões. As autoridades anunciaram depois a intenção de abater até R$ 45 bilhões da meta.
Esse valor foi em pouco tempo elevado a R$ 65,2 bilhões. A redução, nesse caso, equivaleria à soma das desonerações tributárias previstas para o ano e dos valores aplicados no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Isso reduziria o resultado primário a 2,3% do PIB.
Essa porcentagem foi reafirmada como resposta às manifestações de rua, num esforço do governo para mostrar compromisso com a austeridade. A presidente Dilma Rousseff chegou a propor aos governadores um pacto de responsabilidade fiscal, como se o governo da União estivesse em condições de dar o exemplo e de cobrar o envolvimento de todos num espetáculo de seriedade. Essa atitude foi também uma tentativa de compensar o desgaste provocado por declarações do secretário do Tesouro, Arno Augustin, sobre novos padrões de política orçamentária.
A nova orientação, segundo ele, seria ajustar a execução fiscal ao ciclo econômico, com mais economia nos períodos de bonança e mais gastos nas fases de vacas magras. Como a tradição, no setor público, tem sido muito mais de gasto que de economia, essas declarações foram interpretadas como um anúncio de relaxamento geral da política. O pacto de responsabilidade proposto pela presidente deveria ser uma reafirmação dos compromissos de austeridade - de fato, jamais cumpridos pelo governo há muitos anos.
Para cumprir a meta fiscal, mesmo com o desconto de R$ 65,2 bilhões, o governo deveria, segundo as avaliações correntes, cortar alguns gastos. Começaram a circular números possíveis, com base em declarações tanto públicas quanto reservadas de autoridades federais.
Falou-se inicialmente num corte de cerca de R$ 20 bilhões. Seria mais realista interpretar essa promessa como anúncio de um contingenciamento, isto é, de uma contenção de gasto sujeita à evolução da receita do governo. Se a arrecadação fosse mais satisfatória do que se havia previsto, o dinheiro seria liberado.
Nunca se levou muito a sério essa promessa de austeridade. Afinal, o governo já estava providenciando a antecipação de dividendos de bancos e empresas sob controle da União. Além disso, já se previa o ingresso de R$ 15 bilhões como bônus de uma licitação de área do pré-sal. O corte de gasto acabaria sendo em boa parte uma encenação de austeridade.
Mas a história continuou. Em pouco tempo o corte estimado foi reduzido a R$ 15 bilhões e, logo em seguida, a algo abaixo desse valor. A conversa mudou de novo nos últimos dias. Diante da evidente fraqueza da economia, até no mercado financeiro analistas começaram a admitir a ideia de se chegar ao fim do ano sem nenhum corte de gasto. Para o governo, será um alívio abandonar o assunto neste ano. Mas a economia pouco ganhará com isso, por causa da baixa qualidade da gastança federal.
E no próximo ano? Em 2014 haverá eleição. Mais prático será deixar o assunto para depois.
Na sexta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi ao Palácio do Planalto para examinar com a presidente Dilma Rousseff as possibilidades de corte do gasto federal. Diante da arrecadação minguante, só um ajuste rigoroso poderia evitar um resultado fiscal muito inferior àquele prometido até o mês passado. Mas as promessas de cortes também minguaram nas últimas semanas, enquanto se intensificavam em Brasília as discussões sobre a contenção de gastos aceitável numa crise como a deste ano.
O governo prometeu inicialmente um superávit primário equivalente a 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado para 2013. Isso deveria corresponder a cerca de R$ 155 bilhões. As autoridades anunciaram depois a intenção de abater até R$ 45 bilhões da meta.
Esse valor foi em pouco tempo elevado a R$ 65,2 bilhões. A redução, nesse caso, equivaleria à soma das desonerações tributárias previstas para o ano e dos valores aplicados no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Isso reduziria o resultado primário a 2,3% do PIB.
Essa porcentagem foi reafirmada como resposta às manifestações de rua, num esforço do governo para mostrar compromisso com a austeridade. A presidente Dilma Rousseff chegou a propor aos governadores um pacto de responsabilidade fiscal, como se o governo da União estivesse em condições de dar o exemplo e de cobrar o envolvimento de todos num espetáculo de seriedade. Essa atitude foi também uma tentativa de compensar o desgaste provocado por declarações do secretário do Tesouro, Arno Augustin, sobre novos padrões de política orçamentária.
A nova orientação, segundo ele, seria ajustar a execução fiscal ao ciclo econômico, com mais economia nos períodos de bonança e mais gastos nas fases de vacas magras. Como a tradição, no setor público, tem sido muito mais de gasto que de economia, essas declarações foram interpretadas como um anúncio de relaxamento geral da política. O pacto de responsabilidade proposto pela presidente deveria ser uma reafirmação dos compromissos de austeridade - de fato, jamais cumpridos pelo governo há muitos anos.
Para cumprir a meta fiscal, mesmo com o desconto de R$ 65,2 bilhões, o governo deveria, segundo as avaliações correntes, cortar alguns gastos. Começaram a circular números possíveis, com base em declarações tanto públicas quanto reservadas de autoridades federais.
Falou-se inicialmente num corte de cerca de R$ 20 bilhões. Seria mais realista interpretar essa promessa como anúncio de um contingenciamento, isto é, de uma contenção de gasto sujeita à evolução da receita do governo. Se a arrecadação fosse mais satisfatória do que se havia previsto, o dinheiro seria liberado.
Nunca se levou muito a sério essa promessa de austeridade. Afinal, o governo já estava providenciando a antecipação de dividendos de bancos e empresas sob controle da União. Além disso, já se previa o ingresso de R$ 15 bilhões como bônus de uma licitação de área do pré-sal. O corte de gasto acabaria sendo em boa parte uma encenação de austeridade.
Mas a história continuou. Em pouco tempo o corte estimado foi reduzido a R$ 15 bilhões e, logo em seguida, a algo abaixo desse valor. A conversa mudou de novo nos últimos dias. Diante da evidente fraqueza da economia, até no mercado financeiro analistas começaram a admitir a ideia de se chegar ao fim do ano sem nenhum corte de gasto. Para o governo, será um alívio abandonar o assunto neste ano. Mas a economia pouco ganhará com isso, por causa da baixa qualidade da gastança federal.
E no próximo ano? Em 2014 haverá eleição. Mais prático será deixar o assunto para depois.
Nova etapa - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 22/07
Brasil precisa se acostumar com novo patamar do dólar e mudar sua estratégia econômica para tirar o melhor proveito da situação
A economia mundial passa por um período de grandes transformações que trará consequências duradouras para o Brasil.
Chegou ao fim a fase de bonança externa, que durou de 2004 a 2011 e decorreu da alta dos preços das exportações brasileiras --ocasionada pela demanda chinesa por matérias-primas e, mais recentemente, pelo aumento do fluxo de capitais para países emergentes.
Nesse período, os termos de troca (a relação entre os preços das exportações e os das importações) subiram 40%, algo inédito nas últimas décadas. Foi um presente externo que equivaleu, em seu melhor momento, a uma afluência de riqueza para o Brasil da ordem de 3% do PIB ao ano.
Graças a esses fatores, o Brasil acumulou US$ 370 bilhões em reservas internacionais. Os resultados dessa sobra de recursos foram a persistente valorização cambial --com a chegada de mais dólares ao país, a cotação cai-- e a redução estrutural da taxa de juros real (já descontada a inflação), que passou de cerca de 8% no início da década passada para 2,5%.
Aspectos internos também favoreceram a aceleração temporária do crescimento. Em 2004, havia enorme capacidade ociosa no mercado de trabalho --a taxa de desemprego caiu de 12,2% naquele ano para 5,5% em 2012-- e amplo espaço para a expansão do crédito --o volume de empréstimos ainda era muito baixo no Brasil.
Políticas de distribuição de renda completaram o ciclo, propiciando uma grande expansão do consumo e a ascensão da chamada nova classe média.
As consequências de tais episódios de abundância de liquidez externa são bem documentadas na história. Se não houver escolhas domésticas que a direcione mais para investimentos produtivos e menos para gastos do governo e consumo privado, a tendência é que se acumulem desequilíbrios.
Alguns dos principais: valorização excessiva do câmbio (que prejudica a competitividade da indústria local), aumento da inflação nos setores de serviços (propiciado pelo ganho de renda) e crescimento desmedido nos preços de ativos, especialmente imóveis.
São padrões visíveis no Brasil nos últimos anos, sobretudo após 2008, quando o governo resolveu dobrar sua aposta no crescimento do consumo e no afrouxamento dos gastos públicos.
Hoje, o ambiente é outro. Os EUA superam a crise e retomam uma trajetória de crescimento --o que deve absorver recursos direcionados aos países emergentes. A China cresce mais devagar --o que deve forçar uma diminuição dos preços de matérias-primas.
Vêm pela frente condições externas mais difíceis para o Brasil: não haverá a mesma abundância de recursos disponíveis, e os termos de troca já estão caindo --desde 2011, a redução foi de 10%.
Nesse ambiente, são mais rígidos os limites para a expansão do consumo que não seja abastecido pela produção doméstica. Recorrer às importações para satisfazer à demanda interna torna-se demasiado custoso. O deficit externo já disparou, e deve chegar a US$ 80 bilhões neste ano --o modelo é, como se vê, insustentável.
O resultado é um movimento estrutural de desvalorização do real. Com o dólar mais caro, diminui o poder de compra do trabalhador brasileiro. Em um cenário adverso como esse, os bancos reduzem a disposição para emprestar (até porque os clientes já estão endividados) e o preço dos imóveis tende a estacionar.
As empresas, por sua vez, param de contratar novos trabalhadores --e não se descarta que venham a demitir parte de sua mão de obra.
Ao lado desses novos riscos há oportunidades para corrigir rumos. É necessário que as estratégias empresariais mudem. O governo, por sua vez, precisa repensar a inserção do Brasil na economia mundial --o país, voltado para o mercado interno, ficou à margem das cadeias globais de produção.
A desvalorização estrutural do câmbio, em si, favorece uma nova etapa de industrialização --ao menos em tese, a produção nacional ganhará competitividade sobre os importados, ora mais caros.
Para que o setor tire proveito desse rearranjo, porém, é preciso focar em produtividade, redução de custos, infraestrutura e capacidade de inovação. Nada disso ocorrerá sem a reconstrução da competência gerencial do Estado e das parcerias com o setor privado.
Outro ponto crítico é o combate à inflação --mais difícil no novo cenário cambial--, para evitar que a vantagem obtida com um real mais fraco seja corroída pelos custos internos ao longo do tempo.
A agenda dos próximos anos exige renovação. Se o governo insistir em manter sua estratégia (ou a falta dela), sem reconhecer a necessidade de mudanças, o país continuará a perder tempo e, provavelmente, passará por adversidades.
Brasil precisa se acostumar com novo patamar do dólar e mudar sua estratégia econômica para tirar o melhor proveito da situação
A economia mundial passa por um período de grandes transformações que trará consequências duradouras para o Brasil.
Chegou ao fim a fase de bonança externa, que durou de 2004 a 2011 e decorreu da alta dos preços das exportações brasileiras --ocasionada pela demanda chinesa por matérias-primas e, mais recentemente, pelo aumento do fluxo de capitais para países emergentes.
Nesse período, os termos de troca (a relação entre os preços das exportações e os das importações) subiram 40%, algo inédito nas últimas décadas. Foi um presente externo que equivaleu, em seu melhor momento, a uma afluência de riqueza para o Brasil da ordem de 3% do PIB ao ano.
Graças a esses fatores, o Brasil acumulou US$ 370 bilhões em reservas internacionais. Os resultados dessa sobra de recursos foram a persistente valorização cambial --com a chegada de mais dólares ao país, a cotação cai-- e a redução estrutural da taxa de juros real (já descontada a inflação), que passou de cerca de 8% no início da década passada para 2,5%.
Aspectos internos também favoreceram a aceleração temporária do crescimento. Em 2004, havia enorme capacidade ociosa no mercado de trabalho --a taxa de desemprego caiu de 12,2% naquele ano para 5,5% em 2012-- e amplo espaço para a expansão do crédito --o volume de empréstimos ainda era muito baixo no Brasil.
Políticas de distribuição de renda completaram o ciclo, propiciando uma grande expansão do consumo e a ascensão da chamada nova classe média.
As consequências de tais episódios de abundância de liquidez externa são bem documentadas na história. Se não houver escolhas domésticas que a direcione mais para investimentos produtivos e menos para gastos do governo e consumo privado, a tendência é que se acumulem desequilíbrios.
Alguns dos principais: valorização excessiva do câmbio (que prejudica a competitividade da indústria local), aumento da inflação nos setores de serviços (propiciado pelo ganho de renda) e crescimento desmedido nos preços de ativos, especialmente imóveis.
São padrões visíveis no Brasil nos últimos anos, sobretudo após 2008, quando o governo resolveu dobrar sua aposta no crescimento do consumo e no afrouxamento dos gastos públicos.
Hoje, o ambiente é outro. Os EUA superam a crise e retomam uma trajetória de crescimento --o que deve absorver recursos direcionados aos países emergentes. A China cresce mais devagar --o que deve forçar uma diminuição dos preços de matérias-primas.
Vêm pela frente condições externas mais difíceis para o Brasil: não haverá a mesma abundância de recursos disponíveis, e os termos de troca já estão caindo --desde 2011, a redução foi de 10%.
Nesse ambiente, são mais rígidos os limites para a expansão do consumo que não seja abastecido pela produção doméstica. Recorrer às importações para satisfazer à demanda interna torna-se demasiado custoso. O deficit externo já disparou, e deve chegar a US$ 80 bilhões neste ano --o modelo é, como se vê, insustentável.
O resultado é um movimento estrutural de desvalorização do real. Com o dólar mais caro, diminui o poder de compra do trabalhador brasileiro. Em um cenário adverso como esse, os bancos reduzem a disposição para emprestar (até porque os clientes já estão endividados) e o preço dos imóveis tende a estacionar.
As empresas, por sua vez, param de contratar novos trabalhadores --e não se descarta que venham a demitir parte de sua mão de obra.
Ao lado desses novos riscos há oportunidades para corrigir rumos. É necessário que as estratégias empresariais mudem. O governo, por sua vez, precisa repensar a inserção do Brasil na economia mundial --o país, voltado para o mercado interno, ficou à margem das cadeias globais de produção.
A desvalorização estrutural do câmbio, em si, favorece uma nova etapa de industrialização --ao menos em tese, a produção nacional ganhará competitividade sobre os importados, ora mais caros.
Para que o setor tire proveito desse rearranjo, porém, é preciso focar em produtividade, redução de custos, infraestrutura e capacidade de inovação. Nada disso ocorrerá sem a reconstrução da competência gerencial do Estado e das parcerias com o setor privado.
Outro ponto crítico é o combate à inflação --mais difícil no novo cenário cambial--, para evitar que a vantagem obtida com um real mais fraco seja corroída pelos custos internos ao longo do tempo.
A agenda dos próximos anos exige renovação. Se o governo insistir em manter sua estratégia (ou a falta dela), sem reconhecer a necessidade de mudanças, o país continuará a perder tempo e, provavelmente, passará por adversidades.
O papa no Brasil - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 22/07
Francisco conhece, por experiência pessoal, as situações de pobreza que vivem muitos latino-americanos, e vem ao Brasil em um momento peculiar da história do país
O papa Francisco chega hoje ao Brasil para sua primeira viagem apostólica fora da Itália. Desde 2011, o país se preparava para receber novamente Bento XVI na Jornada Mundial da Juventude, mas a inesperada renúncia do pontífice alemão abriu espaço para a eleição do argentino Jorge Mario Bergoglio, em março. Um papa que conhece, por experiência pessoal, as situações de pobreza que vivem muitos latino-americanos, e que vem ao Brasil em um momento peculiar da história do país.
O auge dos protestos de rua parece já ter passado, mas o Brasil ainda vive um rescaldo da onda de indignação que levou milhões de brasileiros a pedir melhores condições de saúde e educação, entre tantas outras reivindicações. Conhecendo a ênfase que o papa Francisco tem dado à questão da pobreza, é praticamente certo que ele se solidariza com o drama de tantos brasileiros que não têm acesso a serviços públicos de qualidade. O correspondente Juan Arias, do jornal espanhol El País, chegou a escrever, citando apenas uma “fonte fidedigna”, que o papa incluiria uma menção aos protestos em suas homilias no Rio e teria dito a bispos brasileiros que as manifestações “não contradizem o Evangelho”. A assessoria de imprensa do Vaticano desmentiu o jornal no dia seguinte, mas, como dizem os italianos, se non è vero, è ben trovato – ainda que o papa realmente não tenha dito isso, ele certamente concordaria com as reivindicações dos brasileiros, quando apresentadas de modo pacífico, como bem ressaltou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em um comunicado sobre o tema.
De outra natureza são os protestos específicos contra a visita de Francisco, a ponto de a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) ter manifestado preocupação com “grupos de pressão”. A versão carioca da Marcha das Vadias ocorrerá no dia 27, e uma associação de ateus promete um “desbatismo coletivo”. São grupos que estão no seu direito de protestar contra as doutrinas católicas, ou contra os gastos com a visita do papa (apesar das boas projeções de retorno financeiro para a cidade do Rio de Janeiro). No entanto, é imprescindível que os manifestantes saibam fazê-lo pacificamente, sem provocações como as observadas na JMJ de Madri, em 2011, quando grupos laicistas se esforçaram para desestabilizar os peregrinos, com mais ou menos sucesso.
Francisco também chega ao Brasil em um momento delicado para a defesa da vida no país. Está sobre a mesa de Dilma Rousseff o PLC 3/2013, que, sob o pretexto de regulamentar o atendimento à mulher vítima de violência sexual, abre as portas para a prática ampla do aborto. Grupos e parlamentares pró-vida vêm pedindo o veto, seja total, seja parcial, removendo os trechos introduzidos de forma sorrateira para facilitar o aborto. Em 2007, já na chegada ao Brasil, Bento XVI afirmou, diante do então presidente Lula: “estou certo de que em Aparecida, durante a Conferência Geral do Episcopado, será reforçada tal identidade [cristã], ao promover o respeito pela vida, desde a sua concepção até o seu natural declínio, como exigência própria da natureza humana”. Recentemente, por ocasião do Domingo Pela Vida (celebrado no Reino Unido no próximo dia 28), em mensagem aos católicos britânicos e irlandeses, Francisco pediu a eles que protegessem “os mais fracos e mais vulneráveis, o doente, o idoso, o nascituro e o pobre”. Por mais que o tema não seja recorrente na pregação de Francisco, é de se esperar do papa a firmeza habitual caso o tema do PLC 3/2013 apareça nas conversas com a presidente Dilma.
Por ocasião da JMJ, o papa vem se dirigir especialmente aos jovens, muitos dos quais estiveram nas ruas quando as passeatas envolveram o Brasil. Que as palavras do pontífice cujo estilo e pregação vêm cativando católicos e não católicos em todo o mundo saibam inspirar esses jovens em prol da justiça, da defesa da vida e do bem comum.
Francisco conhece, por experiência pessoal, as situações de pobreza que vivem muitos latino-americanos, e vem ao Brasil em um momento peculiar da história do país
O papa Francisco chega hoje ao Brasil para sua primeira viagem apostólica fora da Itália. Desde 2011, o país se preparava para receber novamente Bento XVI na Jornada Mundial da Juventude, mas a inesperada renúncia do pontífice alemão abriu espaço para a eleição do argentino Jorge Mario Bergoglio, em março. Um papa que conhece, por experiência pessoal, as situações de pobreza que vivem muitos latino-americanos, e que vem ao Brasil em um momento peculiar da história do país.
O auge dos protestos de rua parece já ter passado, mas o Brasil ainda vive um rescaldo da onda de indignação que levou milhões de brasileiros a pedir melhores condições de saúde e educação, entre tantas outras reivindicações. Conhecendo a ênfase que o papa Francisco tem dado à questão da pobreza, é praticamente certo que ele se solidariza com o drama de tantos brasileiros que não têm acesso a serviços públicos de qualidade. O correspondente Juan Arias, do jornal espanhol El País, chegou a escrever, citando apenas uma “fonte fidedigna”, que o papa incluiria uma menção aos protestos em suas homilias no Rio e teria dito a bispos brasileiros que as manifestações “não contradizem o Evangelho”. A assessoria de imprensa do Vaticano desmentiu o jornal no dia seguinte, mas, como dizem os italianos, se non è vero, è ben trovato – ainda que o papa realmente não tenha dito isso, ele certamente concordaria com as reivindicações dos brasileiros, quando apresentadas de modo pacífico, como bem ressaltou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em um comunicado sobre o tema.
De outra natureza são os protestos específicos contra a visita de Francisco, a ponto de a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) ter manifestado preocupação com “grupos de pressão”. A versão carioca da Marcha das Vadias ocorrerá no dia 27, e uma associação de ateus promete um “desbatismo coletivo”. São grupos que estão no seu direito de protestar contra as doutrinas católicas, ou contra os gastos com a visita do papa (apesar das boas projeções de retorno financeiro para a cidade do Rio de Janeiro). No entanto, é imprescindível que os manifestantes saibam fazê-lo pacificamente, sem provocações como as observadas na JMJ de Madri, em 2011, quando grupos laicistas se esforçaram para desestabilizar os peregrinos, com mais ou menos sucesso.
Francisco também chega ao Brasil em um momento delicado para a defesa da vida no país. Está sobre a mesa de Dilma Rousseff o PLC 3/2013, que, sob o pretexto de regulamentar o atendimento à mulher vítima de violência sexual, abre as portas para a prática ampla do aborto. Grupos e parlamentares pró-vida vêm pedindo o veto, seja total, seja parcial, removendo os trechos introduzidos de forma sorrateira para facilitar o aborto. Em 2007, já na chegada ao Brasil, Bento XVI afirmou, diante do então presidente Lula: “estou certo de que em Aparecida, durante a Conferência Geral do Episcopado, será reforçada tal identidade [cristã], ao promover o respeito pela vida, desde a sua concepção até o seu natural declínio, como exigência própria da natureza humana”. Recentemente, por ocasião do Domingo Pela Vida (celebrado no Reino Unido no próximo dia 28), em mensagem aos católicos britânicos e irlandeses, Francisco pediu a eles que protegessem “os mais fracos e mais vulneráveis, o doente, o idoso, o nascituro e o pobre”. Por mais que o tema não seja recorrente na pregação de Francisco, é de se esperar do papa a firmeza habitual caso o tema do PLC 3/2013 apareça nas conversas com a presidente Dilma.
Por ocasião da JMJ, o papa vem se dirigir especialmente aos jovens, muitos dos quais estiveram nas ruas quando as passeatas envolveram o Brasil. Que as palavras do pontífice cujo estilo e pregação vêm cativando católicos e não católicos em todo o mundo saibam inspirar esses jovens em prol da justiça, da defesa da vida e do bem comum.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
TCU RESERVA R$ 6,7 MILHÕES PARA TROCA DE MÓVEIS
Órgão fiscalizador dos gastos da União, o Tribunal de Contas se prepara para desembolsar R$ 6,7 milhões na renovação de sofás, mesas, armários, cortinas, cabideiros, TVs e cachepôs. Os seis editais de pregão eletrônico descrevem a qualidade da reforminha mobiliária. Só em poltronas e sofás de couro são reservados R$ 290 mil. Já os cabideiros para pendurar os bem cortados paletós custarão R$ 14 mil.
DIRETO DO TELÃO
No carrinho de compras do TCU, estão 41 televisores de 60 polegadas com tecnologiapentouch, estimados em R$ 237 mil – R$ 5,8 mil cada.
PREÇOS GARIBADOS
Poltronas de um lugar em design Barcelona, de couro preto, avaliadas no edital por R$ 3.793 são vendidas por R$ 1,5 mil em lojas de Brasília.
UM LUXO SÓ
As salas do TCU contarão com 35 cachepôs com frisos metálicos, avaliados em R$ 5.531,76, para decoração com plantas ornamentais.
NOVES FORA
O TCU afirmou que cancelará o edital de compra das 41 TVs sensíveis ao toque, que está fora do mercado, para comprar a tecnologia LED.
PPS OFERECE CARGOS PARA CONVENCER PMN DE FUSÃO
O PPS designou os deputados Raul Jungmann (PE), Carmen Zanotto (SC) e Arnaldo Jordy (PA) para tentar convencer, ainda esta semana, o PMN a voltar atrás na decisão de cancelar a fusão que criaria o partido Mobilização Democrática (MD). Em troca da fusão, o PPS oferece ao PMN – que terá encontro da Executiva no domingo (28) – o comando dos diretórios de Pernambuco, Minas, Rio de Janeiro, DF e Maranhão.
PEGOU MAL
O afastamento do PMN – logo depois de anunciar a fusão – gerou mal estar no PPS, que tenta ao menos eleger a atual bancada em 2014.
EM CIMA DO MURO
Em reunião do PPS, Soninha Francine alertou que, pelo que conhece de José Serra, ele só se decidirá sobre se filiar ao MD no último dia.
QUEM DER MOLE
Embora esteja mais inclinado para aliança com Serra, o PPS também flerta com os presidenciáveis Eduardo Campos (PSB) e Marina Silva.
FAZ-DE-CONTA
Apesar da ‘babação’ de ovo do governador Cid Gomes (PSB-CE) com a presidente Dilma, corre nos bastidores que o socialista, e seu irmão Ciro Gomes, já teriam fechado apoio ao presidenciável Eduardo Campos (PSB-PE) em 2014 e aguardam o momento certo para romper.
ESTILO OBAMA
O deputado Simplício Araújo (PPS) acusa o grupo do senador José Sarney (PMDB) de monitorar, por grampos ilegais, a oposição liderada pelo presidente da Embratur, Flávio Dino (PCdoB), no Maranhão.
TAMO JUNTO
O DEM, PSDB e PSD fecharam apoio ao deputado tucano Nilson Leitão caso ele dispute o governo de MT em 2014. Os prováveis adversários são senadores Pedro Taques (PDT) e Blairo Maggi (PR).
CAINDO A FICHA
O PT espera ter até o final do recesso 1,5 milhão de assinaturas para apresentar na Câmara dos Deputados projeto de lei popular, estilo Ficha Limpa, propondo Constituinte exclusiva para a reforma política.
ABUSO
O deputado Zé Rocha (PR-BA) estaria obrigando seu motorista a dirigir com um braço engessado, afirmam testemunhas de Brasília. Questionado por meio de sua assessoria, Rocha não se manifestou.
ASSIM É A VIDA
Nomeada pelo governador Sérgio Cabral (RJ) no quinto dos advogados no Tribunal de Justiça do Rio, a desembargadora Flávia Resende vai compor a banca do próximo concurso da magistratura, após reprovada em três concursos da Defensoria e dois do Ministério Público.
E O SALÁRIO, Ó!
Para Jair Bolsonaro (PP-RJ), o colega Jean Wyllys (PSOL-RJ) deveria estar contente com o que recebe: “Para o trabalho ele que faz, deveria ganhar salário mínimo. Aqui, ganho três vezes mais que no Exército”.
FORA DE ÁREA
Questionado sobre quem escreve os “bem articulados” artigos do ex-presidente Lula ao jornal americano The New York Times, o Instituto Lula manteve sua resposta padrão para esta coluna: Tum tum tum…
O DONO DA VOZ
O presidente da Fifa, Joseph Blatter, culpou indiretamente os manifestantes se a Copa sair do Brasil. Vem mais protesto por aí.
Órgão fiscalizador dos gastos da União, o Tribunal de Contas se prepara para desembolsar R$ 6,7 milhões na renovação de sofás, mesas, armários, cortinas, cabideiros, TVs e cachepôs. Os seis editais de pregão eletrônico descrevem a qualidade da reforminha mobiliária. Só em poltronas e sofás de couro são reservados R$ 290 mil. Já os cabideiros para pendurar os bem cortados paletós custarão R$ 14 mil.
DIRETO DO TELÃO
No carrinho de compras do TCU, estão 41 televisores de 60 polegadas com tecnologiapentouch, estimados em R$ 237 mil – R$ 5,8 mil cada.
PREÇOS GARIBADOS
Poltronas de um lugar em design Barcelona, de couro preto, avaliadas no edital por R$ 3.793 são vendidas por R$ 1,5 mil em lojas de Brasília.
UM LUXO SÓ
As salas do TCU contarão com 35 cachepôs com frisos metálicos, avaliados em R$ 5.531,76, para decoração com plantas ornamentais.
NOVES FORA
O TCU afirmou que cancelará o edital de compra das 41 TVs sensíveis ao toque, que está fora do mercado, para comprar a tecnologia LED.
PPS OFERECE CARGOS PARA CONVENCER PMN DE FUSÃO
O PPS designou os deputados Raul Jungmann (PE), Carmen Zanotto (SC) e Arnaldo Jordy (PA) para tentar convencer, ainda esta semana, o PMN a voltar atrás na decisão de cancelar a fusão que criaria o partido Mobilização Democrática (MD). Em troca da fusão, o PPS oferece ao PMN – que terá encontro da Executiva no domingo (28) – o comando dos diretórios de Pernambuco, Minas, Rio de Janeiro, DF e Maranhão.
PEGOU MAL
O afastamento do PMN – logo depois de anunciar a fusão – gerou mal estar no PPS, que tenta ao menos eleger a atual bancada em 2014.
EM CIMA DO MURO
Em reunião do PPS, Soninha Francine alertou que, pelo que conhece de José Serra, ele só se decidirá sobre se filiar ao MD no último dia.
QUEM DER MOLE
Embora esteja mais inclinado para aliança com Serra, o PPS também flerta com os presidenciáveis Eduardo Campos (PSB) e Marina Silva.
FAZ-DE-CONTA
Apesar da ‘babação’ de ovo do governador Cid Gomes (PSB-CE) com a presidente Dilma, corre nos bastidores que o socialista, e seu irmão Ciro Gomes, já teriam fechado apoio ao presidenciável Eduardo Campos (PSB-PE) em 2014 e aguardam o momento certo para romper.
ESTILO OBAMA
O deputado Simplício Araújo (PPS) acusa o grupo do senador José Sarney (PMDB) de monitorar, por grampos ilegais, a oposição liderada pelo presidente da Embratur, Flávio Dino (PCdoB), no Maranhão.
TAMO JUNTO
O DEM, PSDB e PSD fecharam apoio ao deputado tucano Nilson Leitão caso ele dispute o governo de MT em 2014. Os prováveis adversários são senadores Pedro Taques (PDT) e Blairo Maggi (PR).
CAINDO A FICHA
O PT espera ter até o final do recesso 1,5 milhão de assinaturas para apresentar na Câmara dos Deputados projeto de lei popular, estilo Ficha Limpa, propondo Constituinte exclusiva para a reforma política.
ABUSO
O deputado Zé Rocha (PR-BA) estaria obrigando seu motorista a dirigir com um braço engessado, afirmam testemunhas de Brasília. Questionado por meio de sua assessoria, Rocha não se manifestou.
ASSIM É A VIDA
Nomeada pelo governador Sérgio Cabral (RJ) no quinto dos advogados no Tribunal de Justiça do Rio, a desembargadora Flávia Resende vai compor a banca do próximo concurso da magistratura, após reprovada em três concursos da Defensoria e dois do Ministério Público.
E O SALÁRIO, Ó!
Para Jair Bolsonaro (PP-RJ), o colega Jean Wyllys (PSOL-RJ) deveria estar contente com o que recebe: “Para o trabalho ele que faz, deveria ganhar salário mínimo. Aqui, ganho três vezes mais que no Exército”.
FORA DE ÁREA
Questionado sobre quem escreve os “bem articulados” artigos do ex-presidente Lula ao jornal americano The New York Times, o Instituto Lula manteve sua resposta padrão para esta coluna: Tum tum tum…
O DONO DA VOZ
O presidente da Fifa, Joseph Blatter, culpou indiretamente os manifestantes se a Copa sair do Brasil. Vem mais protesto por aí.
SEGUNDA NOS JORNAIS
- O Globo: Jornada Mundial da Juventude - Ruas do Centro fecham às 15h para receber Papa
- Folha: Dilma proporá a Francisco ação conjunta contra pobreza
- O Estado de S. Paulo: Papa diz que dirigentes devem servir aos pobres
- Correio Braziliense: Um novo Brasil à espera de Francisco
- Valor Econômico: Setores desonerados ainda perdem para importados
- Estado de Minas: Encontro com Francisco
- Jornal do Commercio: Bem-vindo, Francisco
- Zero Hora: Abalo de Eike lança dúvidas sobre BNDES
- Brasil Econômico: ‘Político tem que saber que não pode ficar de salto alto’
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