quinta-feira, julho 18, 2013

Diagonal e exógeno - LUIZ CARLOS AZEDO

CORREIO BRAZILIENSE - 18/07

A presidente Dilma Rousseff prometeu ontem que a inflação ficará dentro da meta este ano, durante a reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), no Itamaraty. Destacou que o índice tem diminuído ao longo dos meses. A meta para 2013 é 4,5%, podendo variar de 2,5% a 6,5%. Não é bem uma novidade, pois, na prática, o governo vem trabalhando com uma inflação que raspa o teto da meta. Para a maioria dos economistas, essa estratégia é como dançar um tango à beira do precipício.

Dilma rebateu aqueles que a criticam e pedem a cabeça do ministro da Fazenda, Guido Mantega. “É incorreto falar de descontrole da inflação ou das despesas do governo. É desrespeito aos dados, à lógica, para dizer o mínimo. A informação parcial, da forma como muitas vezes é explorada, confunde a opinião pública e pode criar um ambiente de pessimismo que não interessa a nenhum de nós”, disse.

De onde vem tanta certeza? De dados recentes da inflação, como destacou o reconhecido economista Chico Lopes no Valor Econômico. Um dos formuladores do Plano Real e econometrista, com PhD por Harvard, questiona a maioria dos analistas: “Como interpretar o tom pessimista sobre a inflação quando se verifica que o IPCA, em 2013, vem tendo o seguinte comportamento: janeiro, 0,86%; fevereiro, 0,60%; março, 0,47%; abril, 0,55%; maio, 0,37%; e junho 0,26%?”. Chico Lopes presidiu o Banco Central por breve período. Caiu depois anunciar uma “banda diagonal exógena” para administrar o câmbio. Ninguém entendeu.

Crescimento
Chico Lopes deixou perplexo o mercado ontem ao afirmar que o país está crescendo 4%. Segundo ele, os números do IBC-BR indicam que, no segundo trimestre, a economia crescia a 4% ao ano. “Não é piada ou expressão de desejo. Para se ter ideia precisa do que ocorre na economia, é mais seguro olhar variações em 12 meses”, explica.

Os números
A tese surpreende, mas vem ao encontro de Dilma Rousseff e sua equipe econômica, que inclui os ministros do Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, e o ministro da Educação, Aloizio Mercadante. “Se comparamos o trimestre de março a maio com o mesmo período de 2012, obtemos 3,74%. (…)Mesmo se em junho houver queda de 2,5% em relação a maio, a variação em 12 meses para o segundo trimestre será de 3,95%”, argumenta Lopes. Segundo ele, o mesmo erro ocorre na análise da inflação.

Ufanismo
O presidente do PSDB, senador Aécio Neves (foto), de Minas, criticou o que chamou de “ufanismo” da presidente Dilma Rousseff. “Essa postura compromete o diagnóstico dos problemas que o país precisa enfrentar. O momento atual é resultado de muito esforço do governo da presidente Dilma e de seu antecessor para desmontar os pilares macroeconômicos que receberam do presidente FHC”, disse. Segundo ele, os investidores estão transferindo as aplicações das empresas brasileiras para as americanas.

Cinco contra um
O atual presidente do PT, o deputado estadual paulista Rui Falcão, concorre à reeleição com o apoio da antiga Articulação, hoje denominada Construindo um Novo Brasil. Enfrenta cinco candidatos supostamente sem a menor chance de vitória: o deputado federal Paulo Teixeira; o secretário do partido, Renato Simões, além dos membros do diretório nacional Valter Pomar, Serge Goulart e Markus Sokol. A eleição serve, porém, para garantir a presença de todas as tendências da legenda no diretório nacional de 81 membros.

Quem fim levou
O juiz federal Márcio Assad Guardia, da 8ª Vara Federal Criminal de São Paulo, adiou o depoimento das testemunhas de defesa do Rio, de São Paulo e de Curitiba no caso do acidente com o avião da TAM em 2007. Em 3, 9 e 10 de dezembro, serão ouvidas as testemunhas de defesa de São Paulo. O julgamento não tem previsão. Morreram no acidente 199 pessoas

Reforma
O grupo de trabalho da Câmara que debate temas para a reforma política concluiu ontem que as propostas não valerão para as eleições do ano que vem. Segundo o coordenador do grupo, Cândido Vaccarezza (PT-SP), isso dará tranquilidade ao debate. “Isso pode desagradar a alguns, mas, se iniciarmos os trabalhos pensando em mudanças paras as próximas eleições, seria o começo do fim”, alertou o deputado. Pela Constituição, qualquer mudança eleitoral tem que ser aprovada com um ano de antecedência do próximo pleito.

Mais Médicos/ O Programa Mais Médicos recebeu 11.701 inscrições de profissionais e 753 inscrições de municípios em uma semana, segundo o Ministério da Saúde. Cerca de 80% dos médicos inscritos formaram-se no Brasil; 92% dos interessados são brasileiros. As inscrições vão até o dia 25 deste mês.

Patrocínios/ Marco Nanini e Fernanda Montenegro, ao lado da ministra da Cultura, Marta Suplicy, participaram do lançamento do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura (PPDC), ontem, no Rio de Janeiro. A terceira edição do PPDC teve um crescimento de 30% nas inscrições em relação à última seleção, somando 420 projetos. Um dos destaques foi a Região Nordeste, com alta de 70% no número de inscritos.

Duas táticas// O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), promove hoje um almoço no Recife com deputados federais que desejam aderir à sua candidatura. Pretende reafirmar a intenção de concorrer à Presidência da República e desfazer as versões de que estaria se reaproximando do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff.

Solidário não é subserviente - CLÓVIS ROSSI

FOLHA DE SP - 18/07

Está na hora de o Brasil deixar de confundir apoio aos vizinhos com aceitação de seguidos desaforos


Se a ameaça de inspecionar o avião do presidente Evo Morales, quando pretendia voar de Moscou a La Paz, foi considerada um ato "neocolonial" pela Unasul, como é que os países desse bloco chamariam a efetiva inspeção em três ocasiões de aparelhos do Estado brasileiro?

Não diriam nada, pela simples razão de que a vítima, no caso o governo brasileiro, se limitou a uma nota que parece aquela velha piada do pequenininho cujo pé está sendo pisado pelo grandão e ameaça: "Você tem três anos para tirar o pé de cima do meu, ou vou reagir".

Dizia a nota da embaixada brasileira em La Paz: "Caso persista a execução de tais procedimentos, o Brasil poderá adotar (...) o princípio da reciprocidade". Se a nota tivesse sido emitida após o primeiro "de tais procedimentos", ainda vá lá. Mas depois do segundo e do terceiro, persistir na mera retórica é aceitar um ato neocolonial, paradoxalmente praticado por quem foi outrora colonizado (e não pelo Brasil, aliás).

Os incidentes são uma microdemonstração de um viés da política externa brasileira em relação a seus vizinhos, o de tolerância excessiva.

Desde o governo Itamar Franco, a ideia --nem sempre explicitada tão claramente-- é de que não adianta querer ser um país rico cercado por vizinhos pobres. A tese é perfeitamente defensável: desde que estabilizou a economia, o Brasil tornou-se crescentemente mais próspero que seus vizinhos, a grande maioria dos quais já era mais pobre mesmo quando o Brasil era uma baita confusão econômica.

Imagine então depois de anos de crescimento razoável com inflação sob controle.

Foi esse argumento que norteou as relações de Lula com o casal Kirchner. O Brasil aceitou um punhado de medidas protecionistas sempre a partir da tese de que eram necessárias para que o vizinho saísse da crise a que fora levado primeiro pela ditadura militar (1976/83) e depois pelas loucuras do período Carlos Menem (1989/99).

Agora, no entanto, o argumento perdeu o prazo de validade. A Argentina, é verdade, continua com dificuldades econômicas, mas, primeiro, cresceu mais que o Brasil nos anos mais recentes e, segundo, seus problemas agora não são herança do passado, mas consequência de políticas do governo que se protege do Brasil.

No caso da Bolívia, os desaforos de Evo Morales são antigos, anteriores até aos episódios dos aviões. Quando desapropriou instalações da Petrobras, em 2006, o presidente boliviano não teve nem sequer a cortesia mínima de telefonar para seu amigo Lula para avisá-lo da ocupação militar da refinaria.

É bom deixar claro que Lula não reclamou da desapropriação (considerou-a um direito da Bolívia, ademais anunciada durante a campanha eleitoral que elegeu Morales). Reclamou da descortesia de não ter sido avisado da data exata, embora Evo estivesse reunido com outros dois parceiros de Lula (Hugo Chávez e Fidel Castro) em Havana no dia anterior.

Está na hora, pois, de deixar de confundir a solidariedade com os vizinhos mais pobres com subserviência.

A mensagem da ‘segunda Tahrir’ - DEMÉTRIO MAGNOLI

O GLOBO - 18/07

O Exército é a espinha dorsal do Estado egípcio. Os oficiais do grupo de Gamal Abdel Nasser derrubaram a monarquia, em 1952, consolidando a independência, e governaram o país durante seis décadas, moldando uma elite dirigente. A revolução em curso no Egito é obscurecida, distorcida e desviada pelas interferências do Exército, que procura estabelecer-se como uma espécie de Poder Moderador numa democracia limitada. Mesmo assim, não é correto descrever a derrubada de Mohamed Mursi como um golpe militar. O presidente islâmico caiu sob o impacto de um levante popular que representa, de muitas formas, a continuidade do levante da Praça Tahrir de 2011 contra a ditadura de Hosni Mubarak.

Nomes têm importância. O golpe militar antimonárquico de Nasser foi batizado com o nome de Revolução Nacional. Mursi não era um ditador, mas um presidente eleito em meio à turbulenta transição revolucionária. A Irmandade Muçulmana classifica a sua remoção, por ordem do general Abdel Fatah al-Sisi, como um golpe de Estado. As multidões incontáveis de egípcios que fizeram a “segunda Tahrir” têm opinião bem diferente.

“Sisi seguia a vontade do povo”, disse um manifestante ao repórter do jornal “Guardian”, sintetizando uma narrativa possível sobre a nova revolução no núcleo político do mundo árabe. O cenário é mais complexo do que isso, como atesta a vasta adesão às manifestações convocadas pela Irmandade Muçulmana para exigir a restauração de Mursi. Contudo, atrás da óbvia divisão política entre os egípcios, evidencia-se que a Primavera Árabe não se encerrou pela substituição de tiranias militares por tiranias religiosas. Pelo contrário, e para surpresa de tantos comentaristas ocidentais, ela prossegue desafiando o fundamentalismo islâmico.

Fundada em 1928, a Irmandade Muçulmana é uma instituição tão importante quanto o Exército na sociedade egípcia. Ao longo das décadas de autoritarismo militar, ela foi proscrita e perseguida, mas deitou raízes na mesquita, na universidade, em amplos setores das classes médias e, sobretudo, entre os pobres. A Irmandade é, além disso, a nascente principal do moderno fundamentalismo islâmico em todo o mundo árabe, inspirando organizações similares que operam na Tunísia, na Argélia, na Síria e na Palestina. De uma de suas costelas, nasceu na década de 1960 a corrente radical que, na estufa ideológica da Arábia Saudita, geraria o jihadismo contemporâneo. Depois daquela cisão, a organização egípcia renunciou à violência e, convencendo-se de que o tempo era seu aliado, decidiu percorrer o longo caminho da persuasão.

A aposta na moderação rendeu frutos após o levante contra Mubarak. A Irmandade aderiu tardia e relutantemente à “primeira Tahrir”, mas se beneficiou da desorganização das correntes laicas, tanto as liberais quanto as socialistas, na hora das eleições. Na moldura de um sistema eleitoral confuso, arranjado às pressas, a revolução popular caiu no colo da única organização política implantada em todo o país. A maioria dos eleitores não votou pela instalação de um Estado islâmico, algo ausente da plataforma eleitoral da Irmandade. O governo de Mursi, contudo, interpretou erradamente a mensagem das urnas — e o próprio sentido da democracia.

Mursi fracassou porque se recusou a enfrentar a ala tradicionalista de seu movimento e a erguer pontes na direção das correntes laicas. A Irmandade imaginou a democracia do voto como uma ferramenta para a reinvenção da sociedade egípcia segundo as linhas de sua própria doutrina. A “segunda Tahrir” esclareceu as coisas: a diversidade política e cultural do Egito não cabe na caixa apertada do fundamentalismo islâmico. A nova revolução egípcia, precipitada pela onda de manifestações antifundamentalistas da Praça Taksim, na Turquia, assinala a reversão de uma tendência. O Islã político encontra-se, agora, na defensiva.

Não é apenas o futuro do Egito que está na balança. A “segunda Tahrir” acendeu um facho intenso de luz sobre a questão da compatibilidade histórica entre o Islã e a democracia. Se a Irmandade extrair a lição completa da dura derrota, terá a oportunidade de reformar-se a si mesma, desistindo de esconder seus erros atrás de fantasmagóricas conspirações ocidentais, abandonando os resquícios da linguagem da jihad e aprendendo as virtudes da separação entre política e religião. Nessa hipótese benigna, a Primavera Árabe realizaria as esperanças que suscitou e o mundo árabe encontraria um caminho para escapar ao círculo de ferro da intolerância e do fanatismo.

Nem tudo, porém, depende da Irmandade. A prisão de Mursi, as perseguições contra outros líderes islâmicos e o massacre de manifestantes que pediam a restauração do presidente deposto são nítidas provocações da cúpula militar. Na direção oposta à dos chefes militares da Tunísia, a cúpula do Exército egípcio não admite a hipótese da retirada para os quartéis. O antigo poder almeja empurrar a Irmandade para a clandestinidade e, mais além, para a via desastrosa do terrorismo. Nessa hipótese, um inverno melancólico congelaria a Primavera Árabe.

“Transitar do fascismo religioso para o fascismo militar não é algo que mereça celebração”, disse Mariam Kollos, uma ativista de direitos humanos que participou ativamente dos levantes contra Mubarak e Mursi. O termo “fascismo” pode não ser apropriado, mas o que vale é o sentido da sentença. A “segunda Tahrir” revela tanto a vitalidade da revolução democrática no Egito quanto o fracasso dos profetas que condenaram de antemão a Primavera Árabe como uma queda no precipício do fundamentalismo islâmico. Em pouco mais de dois anos, os egípcios derrubaram uma ditadura militar e um governo eleito que pretendia aprisionar as liberdades no calabouço da ortodoxia religiosa. Depois disso, a tese do “choque de civilizações” deveria ser recolhida ao museu das relíquias ideológicas.

PORTA ABERTA - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 18/07

O governo federal começa amanhã uma "mobilização" para atrair mais prefeituras para o Mais Médicos, divulgando o programa nos municípios. Até ontem, 753 cidades tinham se inscrito para receber profissionais em seus ambulatórios.

PORTA ABERTA 2
Pelos cálculos do governo, 1.900 municípios têm menos de um profissional para cada 3.000 habitantes. Entre estes, 700 não têm doutores.

CARTEIRADA
O homem que tentou pagar uma garota de programa com um cartão do Bolsa Família, em Itapetinga (BA), também não tinha dinheiro para pagar pela diária do Mirage Motel. O caso foi parar na polícia, pois o cliente Deixou como garantia um toca-CD e o cartão do trabalhador, emitido pela Caixa, para consultas e saques do FGTS e outros benefícios. "Ele voltou na madrugada e pagou os R$ 58", relata Paulo, funcionário do motel. A garota de programa ficou no prejuízo.

CARTEIRADA 2
Para piorar a situação, ele é casado. Quem recebe o benefício do Bolsa Família é sua mulher. "Ele é muito conhecido na cidade", explica Tiago Bottino, policial militar e dono do blog Itapetinga Agora, que divulgou a notícia. "O fato ocorreu em 27 de junho. Fui informado pelos PMs que foram chamados até o motel."

BEATLE SHOP
O site oficial do Beatles já tem uma bandeira do Brasil, sob comando de João Marcello Bôscoli. Em setembro será a vez de Elvis Presley.

NÃO VOLTAREI
Não, o ex-presidente Lula não será candidato a presidente em 2014. Foi o que ele garantiu aos escritores Fernando Morais e Lira Neto, anteontem, ao recebê-los para almoço em seu instituto.

NÃO VOLTAREI 2
Lira Neto, que lançará o segundo livro da série sobre Getúlio Vargas, pediu a Lula que fingisse que ele, Neto, era Samuel Wainer. Em 1949, o jornalista fez histórica entrevista em que perguntou a Vargas se ele tinha planos de morar no Rio, então capital do país. "Voltarei como um líder de massas", respondeu o então ex-presidente, eleito um ano depois. "E o senhor, tem planos de voltar a morar em Brasília?", perguntou Lira Neto. Lula, depois de uma gargalhada, disse: "Não".

FEIJÃO E ARROZ
E o ex-presidente teve agenda intensa anteontem, divulgada por sua assessoria no site do Instituto Lula em meio a boatos de que estaria internado em estado grave em um hospital de SP --o que se espalhou pelo mercado financeiro e na internet. "Lula não só não está na UTI como está forte como um touro. Almoçou um vasto prato de salada, espaguete ao alho e óleo, frango grelhado, arroz e feijão. Nunca o vi tão bem", diz Fernando Morais.

QUEDA DE BRAÇO
O empresário Eugênio Staub, da Gradiente, lança "o novo iPhone" da marca na próxima segunda, com uma estratégia agressiva: vai cobrar 50% do valor que a Apple define para seus aparelhos. "Se eles baixarem o preço, eu baixo também", diz. Ele trava batalha judicial no Brasil pelo uso do nome "iPhone", já que registrou a marca antes no INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial).

POSITIVO E OPERANTE
Eduardo Campos (PSB-PE) recebe políticos hoje para almoço no Recife. Entre os convidados estão a deputada federal Keiko Ota (PSB-SP) e o marido, o vereador Masataka Ota (PSB-SP). Segundo ela, a conversa com o pré-candidato a presidente será sobre o quadro político em SP. "Ele quer que a gente ande com ele nas capitais para torná-lo mais conhecido", diz Keiko.

SANTA FASHION
Sarah Sheeva prepara o lançamento de uma grife de roupas para o ano que vem. "Para mulheres que querem se vestir como princesas e não como cachorras", diz a pastora e cantora gospel. Ela vai desenhar as coleções e avisa: nada de decotes e modelitos justíssimos. "Quero resgatar o romantismo nas vestes femininas", explica.

DESINIBIDA Fernanda Machado, a vilã Leila de "Amor à Vida", posou para André Schiliró, produzida por Marco Antonio de Biaggi; a atriz estuda proposta para ensaio nu

PINTANDO O SETE
Comemoraram os sete anos da Galeria Emma Thomas, nos Jardins, o fotógrafo Gui Mohallem, a editora de moda Olivia Hanssen, o artista plástico Rodrigo Bueno e Flaviana Bernardo, sócia do espaço e anfitriã da noite.

REVOLUÇÃO NA PISTA
Um dia depois da comemoração da queda da Bastilha, o cônsul-geral da França em São Paulo, Damien Loras, e sua mulher, Alexandra Loras, receberam o ex-jogador Raí, o cônsul do Líbano, Kabalan Frangieh, e a estilista Serpui Marie, entre outros convidados, para o Bailinho da Bastille, no Sesc Pompeia.

CURTO-CIRCUITO
Paula Lima canta hoje no Bourbon Street, em Moema, às 23h30. 18 anos.

O Domenico Ristorante recebe o trompetista Buiu, hoje, às 19h30, nos Jardins.

"Corteo", do Cirque du Soleil, deixa SP no próximo domingo, dia 21. Livre.

O Villa Mix inicia com show de Gusttavo Lima, em 31 de julho, parceria com a Vevo para transmitir ao vivo pela internet apresentações na casa.

Reforma política e trapaça - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 18/07

Com o respeito que lhe é devido por ter na vida real a honesta profissão que não raros de seus colegas de Congresso Nacional enxovalham com sua conduta, registre-se o equívoco do deputado Tiririca ao lançar o bordão "pior do que está não fica". A mais recente prova de que, na política, tudo sempre pode ficar pior está nas gelatinosas movimentações dos partidos para apresentar em 90 dias um projeto de reforma política. Se o trabalho da comissão criada para esse fim for aprovado, o texto será submetido a referendo nas eleições de 2014. Os indícios apontam para o retrocesso.

A se consumar, deixará saudade de algumas das regras atuais, que a presidente Dilma Rousseff tentou alterar estabanadamente - primeiro, com a desatinada ideia de convocar uma Assembleia Constituinte exclusiva sem a participação do Legislativo; depois, mediante um plebiscito irrealista em que o eleitor seria chamado às pressas a se servir de um bufê de propostas de duvidosa digestão, entrando em vigor as mais consumidas já no pleito do ano que vem. A Constituinte caiu por sua clamorosa ilegalidade. O plebiscito, por ter sido rejeitado pelo PMDB, valendo-se da avaliação da Justiça Eleitoral de que seriam necessários pelo menos 70 dias para realizá-lo, a contar da definição dos seus quesitos.

Ficou patente, de todo modo, que Dilma quis apenas mostrar-se antenada com a voz das ruas. Não estava. Embora os políticos e a corrupção se destacassem entre os variados alvos das jornadas de junho - motivadas principalmente pelo custo do transporte público e a percepção do descalabro dos serviços públicos em geral -, apenas uma parcela mínima dos manifestantes incluiu a reforma política no seu embornal de demandas. Só que o oportunismo da presidente produziu outras consequências, além de aumentar o seu desgate. No PT, assistiu-se à patética disputa entre os deputados Henrique Fontana, do Rio Grande do Sul, e Cândido Vaccarezza, de São Paulo, por uma vaga na citada comissão dos 90 dias, impedindo que o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, a instalasse na semana passada. Ficou para agosto.

Alves deu ao paulista a coordenadoria do colegiado. Amuado, o gaúcho foi-se embora. Como Henry Kissinger disse certa vez, as brigas por posições às vezes são inversamente proporcionais à sua efetiva importância. Para o PT, importante continua sendo o plebiscito, ainda que para vigorar só em 2016, mediante decreto legislativo. A sua primeira versão teve o mesmo destino dos lances de suposta esperteza de Dilma: foi rebarbada até pelos companheiros de viagem do petismo no Congresso, quando se deram conta de que o texto continha, camufladas, propostas de adoção do financiamento público das campanhas - a enganadora resposta petista ao escândalo do mensalão - e o polêmico voto em lista fechada para deputados e vereadores.

O rol dos quesitos, por sinal, discrepa das "sugestões" arroladas por Dilma na sua mensagem em favor do plebiscito. No fundo, tanto faz. É improvável que o PT consiga reunir as 171 assinaturas necessárias para a inclusão de sua proposta de decreto na pauta da Câmara. Já o que a cúpula do PMDB prepara é de levar a sério - e recear. O partido fala pela base aliada muito mais do que o seu rival no governo - ainda mais nestes tempos de queda da popularidade de sua titular. E o principal projeto peemedebista é um insulto ao clamor por transparência. Os seus caciques querem acabar com as doações diretas aos candidatos por pessoas físicas e jurídicas. Os interessados em patrocinar campanhas depositariam as suas contribuições na conta das respectivas siglas, que as distribuiriam entre os seus candidatos.

É uma trapaça. Antes da transferência, financiadores, partidos e candidatos terão se acertado sobre o destino da bolada. A armação convém ao doador, porque o seu nome não aparece; ao partido, porque é praticamente impossível rastrear o percurso do dinheiro que fez escala nos seus cofres; e ao candidato, porque dele não se poderá dizer, se eleito, que está a soldo de terceiros. Só o eleitor ficará no escuro. Isso já existe. Chama-se "doação oculta", contestada pelo Ministério Público. Só falta instituí-la, desmentindo o iludido Tiririca.


MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

FOLHA DE SP - 18/07

L'Oréal torna sua unidade brasileira mais independente
Entre o sexto e o sétimo lugar no ranking geral do grupo L'Oréal (dependendo do câmbio), a unidade brasileira da empresa torna-se mais independente da matriz, com direito a produtos locais. Até o final deste ano, a L'Oréal Brasil terá lançado 500 artigos.

"As decisões têm de estar nos mercados. Teremos cada vez mais autonomia no desenvolvimento de produtos e para fazer campanhas publicitárias no Brasil e para o Brasil. Desde o início deste mês, todas as grandes decisões passam a ser pilotadas diretamente daqui", diz o francês Didier Tisserand, CEO da companhia no país.

A estratégia também se repete na China e na Índia.

"O que estamos fazendo são investimentos importantes para transformar a L'Oréal Brasil de uma empresa principalmente capilar para uma multicategorias, como a companhia é no mundo todo."

Nos últimos três anos, os segmentos que mais cresceram no Brasil foram tratamento para pele, maquiagem e desodorantes.

Nessa fase de aceleração de novas categorias, a empresa decidiu entrar em um canal de distribuição diferente: as lojas.

"Para a Maybelline, vamos abrir quiosques e unidades próprias. Até o final de julho, teremos 18 inaugurados e, até o final do ano, 50. A ideia é que sejam 200 pontos da marca no país em 2016", diz.

"Queremos dobrar o faturamento no Brasil nos próximos cinco anos e ser um dos quatro maiores mercados da L'Oréal no mundo."

Hoje, a empresa tem 80 pesquisadores. A estimativa é que sejam 200 em dezembro de 2015, quando estará pronto um segundo centro de inovação no país.

As obras começam neste trimestre. O empreendimento ficará na Ilha de Bom Jesus, ao lado do Parque Tecnológico do Fundão (Rio) e receberá R$ 80 milhões em recursos.

Ao todo, com centros e fábricas, serão cerca de R$ 200 milhões em investimentos em dois anos.

"A planta do Rio vai ser ampliada no mesmo local, o que permitirá dobrar a capacidade produtiva", diz.

A companhia também terá uma nova central de distribuição em Duque de Caxias, em uma área de 40 mil m2.

Depois de um forte primeiro trimestre, com alta de 13,7% ante o mesmo período de 2012, a L'Oréal Brasil acelerou nos três meses seguintes e atingiu um crescimento de 15,8%, segundo dados dos resultados da unidade brasileira ainda não divulgados.

Investimento à vista
O governo de Goiás e o grupo de distribuição de produtos atacadistas Martins negociam a implantação de uma unidade da empresa no Estado.

A companhia investirá cerca de R$ 70 milhões na construção de uma sede regional de negócios, segundo o secretário de Indústria e Comércio de Goiás, Alexandre Baldy.

A obra será construída no município de Aparecida de Goiânia, na região metropolitana da capital.

O secretário vai se reunir hoje com representantes da empresa para definir os termos do acordo.

"Vamos discutir os incentivos fiscais e outros detalhes da parceria", diz.

A empresa confirmou a negociação com o governo de Goiás, mas não deu mais detalhes do empreendimento.

R$ 70 MILHÕES
será o custo da unidade regional de negócios

200
empregos diretos serão gerados

R$ 4,1 BILHÕES
foi o faturamento do grupo Martins em 2012

Tecido novo
A marca Carmen Steffens se prepara para entrar no segmento de vestuário no segundo semestre deste ano.

A grife vai lançar a Maison CS, linha que reunirá vestidos, camisas e calças, além dos já tradicionais sapatos, bolsas e acessórios.

"Havia uma demanda reprimida das nossas clientes por roupa há muito tempo", diz Mario Spaniol, presidentes da empresa.

As 500 lojas licenciadas da marca no país vão receber 120 mil artigos de vestuário entre agosto e setembro. Algumas unidades, como a da rua Oscar Freire, em São Paulo, terão decoração especial.

A partir de setembro, a grife pretende abrir estabelecimentos exclusivos para a venda da Maison CS. A primeira será em Joinville (SC).

"Para este ano, não esperamos um aumento significativo no nosso faturamento, mas queremos que as roupas representem 30% do valor até 2016", diz Spaniol.

3 MILHÕES
foi o número de peças vendidas em 2012

42
são as lojas da marca fora do Brasil, em 16 países

11
é a quantidade de coleções que a grife lança por ano

Cabos brasileiros
A brasileira ProCable e a japonesa Fujikura criaram uma joint venture para instalar uma fábrica de cabos de alumínio e de cabos com fibra ótica em Montenegro (RS). Elas investirão R$ 30 milhões no empreendimento.

"Já temos projetos com a companhia de eletricidade do Estado, por isso devemos ter uma boa demanda na região", afirma Fumitaka Nishimura, presidente da companhia brasileira.

A ProCable, cujo faturamento foi de R$ 140 milhões em 2012, faz hoje a engenharia e a instalação de cabos elétricos, mas importa o material.

LAR SEGURO
O seguro residencial em imóveis paulistas movimentou R$ 377,3 milhões nos primeiros cinco meses do ano, um aumento de 19,7% ante janeiro e maio de 2012.

O Rio de Janeiro foi o segundo colocado no ranking da arrecadação, com R$ 93,8 milhões, segundo levantamento da FenSeg (federação de seguros gerais).

Em números proporcionais, o Rio Grande do Sul teve o maior aumento: 30%.

Para a FenSeg, o resultado positivo é consequência do aumento na construção e da oferta maior de seguradoras, o que reduz o preço. Estima-se que 10% das casas brasileiras tenham esse seguro.

Sem luxo A Amazonastur, empresa de turismo do governo do Amazonas, publica hoje edital para um programa de hospedagem alternativa na Copa-2014. Turistas que visitarem Manaus poderão ficar em casas selecionadas pela iniciativa.

Negócios... A busca de pequenas empresas por oportunidades de negócios relacionados à Copa-2014 apresentou crescimento em junho, período da Copa das Confederações, de acordo com o Sebrae.

...da Copa Criado para orientar pequenos empreendedores sobre as oportunidades, o portal Sebrae 2014 recebeu cerca de 20 mil acessos no período, uma alta de 430% ante junho do ano passado.

Qual meta? - CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O GLOBO - 18/07

Em nome da clareza também seria bom para o debate que a presidente explicitasse a que meta de inflação se refere. Se 6% ou 6,5% ao ano estão dentro da meta, então o BC está errado em aumentar os juros



Disse ontem a presidente Dilma: "Temos certeza que vamos fechar o ano com a inflação dentro da meta".

Diz o Conselho Monetário Nacional : a meta de inflação é de 4,5%, considerando-se o índice do IBGE (o IPCA).

Logo, o Brasil chega a dezembro de 2013 com a inflação em 4,5%, certo?

Errado. Quer dizer, não é bem assim. Começa que ninguém, nem mesmo no governo, acredita que o IPCA termine o ano naquele nível. O próprio Banco Central, justamente o encarregado de acertar a meta, se compromete com um objetivo mais folgado: alcançar uma inflação menor que a do ano passado, que foi de 5,84%. Estará feliz com uns 5,80%, que é consenso entre analistas fora do governo.

Isso significa que a presidente, digamos, faltou com a verdade?

Bem, quer dizer, tem aqui um joguinho de palavras ou de conceitos. A mesma resolução do CMN que fixa a meta de 4,5% acrescenta: "com intervalo de tolerância" de dois pontos para mais ou para menos.

Quem for ao site do BC, encontrará informação com o mesmo conteúdo. Meta: 4,5%; banda, 2 pontos.

A regra, portanto, é clara. Os dois pontos são extra-meta, uma margem para acomodar momentos excepcionais em que ocorram eventos inesperados, fora do alcance dos controles do BC.

Pode ser desde uma guerra entre países do petróleo ou uma escassez de alimentos, eventos que provocam altas de preços. Nesses casos, em vez de agir imediatamente elevando juros, o BC topa conviver algum tempo com a inflação elevada.

Mas, pela lógica do sistema e pela prática mundial, inclusive brasileira, isso é necessariamente provisório. O BC deve organizar suas políticas para logo buscar de novo a meta.

Ocorre que a inflação no governo Dilma foi de 6,5% em 2011 e de 5,84% em 2012. Pela regra, comenta-se assim: a inflação esteve acima da meta mas dentro do intervalo ou banda de tolerância.

Mas aqui entra o jogo oficial de palavras: da presidente aos ministros e ao BC, passou-se a dizer que os 4,5% são o "valor central" de uma meta que vai até 6,5%. Torturaram a regra e a deixaram meio grogue.

Por isso que a presidente Dilma não dá o número. Ela diz que vamos ficar "dentro da meta". Só pela linguagem governamental passada e presente, pode-se concluir que é qualquer coisa abaixo de 6,51% - e esse é o novo objetivo oficial.

Mas por que estamos discutindo esses quase detalhes? Na verdade, a presidente tenta passar a conclusão de que a inflação está sob controle e em níveis aceitáveis.

Não está. Começa que os 4,5% já constituem uma meta elevada. Nos países emergentes, em geral, não passa de 3% - e vem sendo cumprida na maior parte dos casos. Aqui na vizinhança da América Latina, o nível mais alto depois do Brasil é do México, com 4% ao ano. (Claro, Argentina e Venezuela não contam, pela desorganização, assim como outras nações, como a Índia, pelo histórico de inflação elevada).

Além disso, uma inflação rodando a 6%, por tanto tempo, é danosa para a economia brasileira. Querem saber por que? Basta dar uma lida nos documentos recentes do BC, nos quais a instituição explica por que resolveu iniciar um processo de alta de juros. Se a inflação estivesse confortável e sob controle, o BC não precisaria elevar juros, não é mesmo?

No mesmo discurso de ontem, a presidente Dilma reclamou do "ambiente de pessimismo", criado a partir de suposta exploração de informações parciais e em "desrespeito aos dados, à lógica".

Pois em nome da clareza também seria bom para o debate que a presidente explicitasse a que meta de inflação se refere. Isso faz muita diferença. Por exemplo: se 6% ou 6,5% ao ano estão dentro da meta, então o BC está errado em aumentar os juros.

Por outro lado, se a meta é mesmo 4,5%, a taxa de juros precisa subir mais forte - e isso afetaria consumo e produção.

É exatamente a crítica que se tem feito ao governo: a falta de clareza na definição dos objetivos e na execução de política econômica.

E por falar em ambiente: todos os recentes índices de confiança, baseados em pesquisas junto ao consumidores e empresas, mostraram um aumento do pessimismo em relação à situação atual e futura da economia.

Estarão todos equivocados? Seriam todos vítimas dos críticos parciais? Ou seria melhor admitir que as pessoas sabem de si e de sua situação?

Insuportável

É evidente a necessidade de uma reforma tributária, se diz nos EUA: quem pode lidar com uma Receita Federal cujas regras ocupam 72.536 páginas (dado de 2011)?

Bom, se a gente considerar dez regras por página, teríamos 725 mil normas e uns quebrados.

Segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, foram editadas no Brasil, desde a Constituição de 88, nada menos que 4,4 milhões de normas tributárias.

A inflação, esse boato malvado - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 18/07

Presidente parece acreditar que boato 'pessimista' levou o povo a acreditar que comida ficou cara


A PRESIDENTE tem "certeza" de que a inflação de 2013 vai ser menor do que o limite oficial de 6,5% ao ano. Essa certeza sustenta sua tese de que é "incorreto falar em descontrole da inflação", que seria uma "informação parcial", "muitas vezes" explorada de modo a confundir a opinião pública e a "criar um ambiente de pessimismo".

Foi o que Dilma Rousseff disse ontem ao Conselhão (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, de representantes da sociedade, de assessoria informal, do qual fazem parte vários empresários).

A presidente choveu no molhado com esse discurso de resto infeliz para quem em tese está dançando miudinho por causa dos efeitos da "voz das ruas".

Quase nenhum economista com algum crédito na praça acredita que a inflação vá passar de 6,5% ao fim de 2013, nem mesmo aqueles que detestam o governo de Dilma ou, nos casos mais extremos, nem aqueles de fato dedicados a difundir ideias pessimistas (como se tivessem tamanha audiência popular ou fosse necessário o esforço deles).

As pessoas comuns, que não dão a mínima para economistas ou comentaristas econômicos, começaram a fazer piadas amargas sobre o preço do tomate simplesmente porque os preços que mais pesam no seu orçamento e mais saltam à vista subiram um montão, simples assim: a comida ficou cara.

As piadas sobre o tomate começaram a circular por celulares e internets e conversas de rua ali por volta de março. O tomate era, claro, metáfora para supermercado salgado.

Talvez a presidente queira convocar a Polícia Federal para investigar a origem do rumor do tomate, lançado para "criar um ambiente de pessimismo". Mas seria mais simples verificar o IPCA de abril: foi nesse mês que a inflação da comida e bebida chegou a 14% (inflação acumulada em 12 meses). A tendência de alta vinha desde abril de 2012.

Preços de bens duráveis (carro, TV, eletrodomésticos) até chegaram a cair nesses meses. Mas as pessoas não compram carros rotineiramente; de resto, os preços de carros são tão revoltantes de altos que uma diferença de 2% mal chega a ser notada. O preço de comida, saúde, serviços e despesas pessoais, todos esses fomentadores de pessimismo cotidiano, subiram acima da inflação média. Subiram mais que o reajuste médio de salários no segundo trimestre deste ano.

Não entender tal coisa, que gasto com comida é tanto mais pesado quanto mais pobre o cidadão, atribuindo o pessimismo a "forças ocultas", é de fato entender muito pouco de gente e de "voz das ruas".

Enfim, é difícil lembrar de gente séria, da esquerda à direita, ou de movimentos horizontais e verticais que tenha falado em "descontrole da inflação". Muita gente falou é de descontrole do governo, que é outra coisa.

Porém estava óbvio que o Brasil se tornara um país caro, de dólar chegando a R$ 1,60, com deficit externo crescente (é mais barato comprar importados), com a margem de empresas eficientes caindo devido a custos altos, o que ajudou a derrubar investimentos etc. Da rua da feira às reuniões de empresários não se falava (fala) de outra coisa. Em que mundo vive a presidente?

Pouso suave - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 18/07

Ontem, em depoimento na Comissão de Serviços Financeiros da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), não disse nada de especialmente diferente do que já dissera em outras oportunidades. No entanto, seu discurso foi decisivo para acalmar o mercado financeiro global que enfrenta com um estresse exagerado a perspectiva de desmonte das políticas monetárias fortemente expansionistas que vêm desde a irrupção da crise global.

Até agora, o Fed sozinho já emitiu cerca de US$ 3,4 trilhões apenas para comprar títulos nos mercados, com o objetivo de ajudar a recuperação da atividade econômica dos Estados Unidos. Desde dezembro de 2012, a autoridade monetária despeja US$ 85 bilhões por mês nessa operação especial conhecida por afrouxamento quantitativo.

Apesar dos solavancos do mercado a cada declaração de diretor do Fed, a perspectiva de desmonte da operação é uma notícia fundamentalmente boa. Indica que a principal locomotiva do mundo começa a rodar, devagar, mas de forma consistente.

O maior medo dos administradores de capital é de que, a partir do início desse processo, os títulos públicos e privados voltem a ficar largados (e desvalorizados) nos mercados, fator que poderia voltar a destruir patrimônio financeiro e a provocar movimentos de fuga do risco.

Bernanke insistiu ontem em que a operação de desmonte não será feita abruptamente. Ao contrário, será gradual, cantada com grande antecedência e terá como contrapartida a melhora real da economia americana, especialmente do mercado de trabalho.

Não há data marcada para o início da operação. O que se supõe é que, se os sinais da recuperação econômica continuarem bons, a partir de setembro o Fed começará a reduzir as compras de títulos e, portanto, as emissões de moeda. Somente mais adiante é que deverão cessar as compras de ativos e só muito mais à frente é que o Fed começará a se desfazer dos seus estoques.

Em princípio, ninguém espera um procedimento muito diferente desse. O problema é que a resposta do Fed à crise é absoluta novidade em matéria de política monetária. E mares nunca dantes navegados provocam medos sem proporção, num campo (o dos capitais) que, por si só, já é fortemente vulnerável ao efeito manada, a ondas de pânico e a outros comportamentos considerados irracionais.

Bernanke entende que a transparência das ações do Fed contribuirá para a redução da atual volatilidade dos mercados. O diabo é que outros fatores aleatórios podem atuar em direção contrária e perturbar o comportamento dos mercados, como a eventual quebra de um banco ou uma súbita dificuldade de uma grande potência econômica em refinanciar sua dívida.

Do ponto de vista do Brasil, os tempos de abundância nunca vista de recursos externos estão com os dias contados. É a volta da maré baixa. A economia terá de contar mais com energia e poupança interna e isso, por si só, exigirá mais equilíbrio na condução das contas públicas.

Os fatos e os dados - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 18/07

A presidente Dilma garantiu que a inflação terminará o ano dentro da meta. Com alegria, registrei aqui na coluna, na terça-feira, que a inflação de julho deve ficar muito perto de zero e isso estará claro logo na prévia do IPCA, que vai ser divulgado amanhã. Ela voltará a cair no acumulado de 12 meses, mas a presidente erra quando faz uma análise benigna da inflação brasileira.

A meta é 4,5%, e isso ela não entregou nem entregará durante seu governo. O próprio BC já faz projeções para 2015 para conseguir cenários de convergência. Em um terço do seu governo, o IPCA esteve acima do teto. O que ela tem razão é que ficará no intervalo permitido de flutuação, mas foi assim, aceitando como bom qualquer resultado abaixo de 6,5%, que o governo Dilma passou a ideia de conivência com a inflação. Isso ajudou a deteriorar as expectativas.

Os preços têm caráter sazonal, diz a presidente, repetindo uma platitude. E a sazonalidade é mais forte nos produtos in natura. No ano passado houve um choque nos preços agrícolas pela seca americana. Mas tudo somado não explica o que aconteceu nos últimos meses: uma inflação alta, disseminada, resistente. Há uma lição que a inflação já deu ao Brasil durante décadas: nunca subestimá-la; jamais aceitar conviver com ela. Uma taxa alta fica vulnerável a qualquer choque. E uma inflação que ronda os 6% com o país crescendo tão pouco é um péssimo sinal. A briga tem que ser contra a inflação e não contra quem alerta que ela está alta.

O economista Francisco Lopes publicou artigo no "Valor" sustentando que o país está crescendo a 4%. Usou dados do IBC-Br, do BC. "Se compararmos o trimestre de março a maio com o mesmo período de 2012, obtemos 3,74%." Na visão dele, "mídia e analistas sofrem de pessimismo obsessivo". Infelizmente, os dados que confirmam que houve piora na economia são abundantes demais para serem apenas frutos de obsessão. Em 2013, o país vai crescer mais do que em 2012, mas é até difícil crescer menos que 0,9%.

Chico é excelente economista e autor de estudos que estão na base teórica que levou à estabilização. Foram muitas as vezes em que ele me explicou, como entrevistado, como funciona a complexa economia brasileira. Uma das lições é que um dado isolado não diz nada. É preciso olhar um conjunto deles para entender a conjuntura. Especificamente, o IBC-Br tem problemas. Foi desenvolvido para antecipar o PIB do IBGE, mas claramente está precisando de aperfeiçoamentos porque tem errado para mais e para menos. Foram sete diferenças grandes em 13 comparações trimestrais (vejam no gráfico os números, extraídos de compilação feita mês atrás pelo Banco Fator).

Há uma lista de indicadores ruins: inflação acima da meta, PIB fraco, dívida bruta em alta, contas externas no vermelho, déficit na balança comercial, carga tributária recorde, taxas de poupança e de investimento em queda, endividamento recorde, superávit primário "real" cada vez menor. Infelizmente, são esses os dados e os fatos neste momento. Vamos torcer para que o país supere a má fase.

Laxismo e austeridade, desafios modernos - MARCO ANTONIO ROCHA

ESTADÃO - 18/07
O lado positivo do cenário de insegurança, incertezas e turbulências que os negócios vivem - aqui e no exterior - é o estímulo a uma discussão mais séria sobre como levar a economia a sair do marasmo. A resposta clássica ao desafio, desde os tempos de Adam Smith, sempre foi uma: austeridade!
Austeridade dos governos no manejo das finanças e das contas públicas, gastos e investimentos; austeridade das empresas no uso de seus haveres, na distribuição de lucros a seus acionistas e aos empregados nos sistemas de participação; austeridade dos sistemas bancários na concessão de empréstimos e nos cuidados com a inadimplência; austeridade nos reajustes salariais e no crédito.
E por que isso?
Porque o comportamento austero, tanto dos governos como das empresas e pessoas físicas, infunde confiança - palavra-chave na atração do investimento, privado principalmente. Como todo investimento embute risco, tanto maior quanto ele é maior, a confiança não só é um grande redutor da aversão aos riscos (moral hazzards) como é promotora de investimentos inovadores.
Mas o mundo testemunhou nos últimos 20 ou 30 anos uma espantosa disseminação do laxismo. Pior, uma adesão ao laxismo pelos governos, principalmente, e, por contágio, pelo setor privado. Laxismo é a "tendência de fugir ao dever e à lei, com base em razões pouco ou mal fundamentadas". (v. Aurélio).
Atrás de aprovação popular, os governos democráticos mais reconhecidamente austeros do planeta aderiram com grande irresponsabilidade ao laxismo em todas as esferas. Isso deveria, ter provocado um recolhimento do setor privado, por desconfiança. Mas o relaxamento das normas e da segurança chegou também ao setor bancário, ao mercado financeiro e de capitais, em meio a profunda crise de confiança, acompanhada de aumento excessivo da liquidez internacional. A soma da perda de confiança com aumento da liquidez levou ao emprego maciço de capitais não propriamente na produção de bens e no reforço da produtividade, mas na aquisição e fusão de empresas, ou seja, mais capitais entrando no estoque pouco crescente de ativos já existentes. O que valorizava os papéis financeiros: dinheiro aplicado em dinheiro criava mais dinheiro e a ilusão de enriquecimento de amplitude sem par na História, No Brasil, o caso típico foi o de Eike Batista, "um dos homens mais ricos do mundo" - quase só em papel timbrado.
A onda mundial de laxismo desaguou primeiro na famosa crise de 2008, mas não só: motivou a reunião dos "8" em Toronto, onde se decidiu "chega de laxismo", a ordem agora é "austeridade". Os governos europeus baixaram o facão nos orçamentos públicos, no crédito, nos reajustes de salários visando a restaurar a confiança e, com isso, atrair investimentos. Mas a violenta reação dos sindicatos e do povo em geral nas sociedades afetadas gerou mais insegurança e assustou os investidores mais do que a situação anterior de relax geral. A austeridade não levou à retomada, mas a mais estagnação.
A indagação que se lê hoje em artigos até de renomados economistas de cepa ortodoxa é por que a austeridade tem produzido efeitos contrários ao que dela se espera e se não seria o caso de um pouco de laxismo para combater a anemia econômica.
No Brasil, houve um curso com sinal trocado: uma equipe de laxistas assumiu o poder com Lula, apostrofando a ortodoxia tucana e seu quartel general, o Banco Central (BC), do Meirelles. Enquanto o mundo tentava reencontrar a austeridade, o governo brasileiro abandonava a pouca que tinha. Já agora, o mundo começa a pensar que um pouco de laxismo não é tão ruim para a economia, e o governo brasileiro se inclina para um pouco mais de austeridade, com o BC tentando voltar à ortodoxia.
Chegaremos aonde?
Os próximos meses dirão.

O problema é o crescimento - MARCELO MITERHOF

FOLHA DE SP - 18/07

Perseguir a meta central de inflação neste momento de perda de ritmo econômico significa provocar recessão


A pressão política em torno da inflação está se saindo vitoriosa. O Banco Central tem subido os juros desde abril e um novo aperto fiscal está sendo aprontado, ainda que a relação dívida pública/PIB esteja em modestos 35% pelo conceito líquido e 60% pelo indicador bruto, além de o deficit fiscal nominal ter sido, em 2012, de 2,5% do PIB, baixo para o padrão internacional.

Algo mudou em relação a agosto de 2011, quando o BC reduziu a taxa de juros, contrariando a expectativa do mercado, que, mesmo com a estagnação externa batendo à porta, apostava numa elevação em razão da "inflação preocupante".

Muitos dizem que o problema é a inflação "resistentemente alta". No entanto, a estimativa do IPCA para 2013, segundo a mediana dos "top 5" do boletim Focus do dia 12, é de 5,73%. Em 5 de abril, antes de o BC começar a subir os juros, tal estimativa era ligeiramente superior, 5,77%.

A inflação esperada para 2013 e o IPCA do ano passado (5,84%) estão dentro do padrão que vigora desde 1999, quando o câmbio passou a flutuar: em 15 anos, só em três (2006, 2007 e 2009) a inflação foi menor que tais valores; em 2005, o IPCA de 5,7% foi bem próximo deles.

A diferença é que nos últimos anos o crescimento real do PIB --2,73% em 2011, 0,87% em 2012 e a estimativa do Focus de 2,31% para este ano-- são os menores nos dez anos desde a retomada do crescimento sustentado, em 2004, com exceção de 2009 (-0,33%), quando a crise internacional atingiu o Brasil em cheio.

Portanto, diferentemente do que diz o senso comum, o problema atual não é a inflação, que estaria corroendo a renda real (descontada a inflação) da população. Mas, sim, o crescimento econômico fraco, que ameaça a trajetória de ganhos reais dos salários e o pleno emprego herdados do período anterior.

O país tem crescido pouco porque houve recrudescimento da crise externa em 2011 e a política fiscal não atuou suficientemente para fazer a demanda doméstica compensá-la. Houve um certo afrouxamento fiscal, mas em boa medida ligado às desonerações tributárias, que não têm impacto direto sobre a demanda.

Com câmbio menos valorizado e reservas internacionais elevadas, o Brasil nem precisa temer problemas de balanço de pagamentos: um aumento do gasto público seria capaz de propiciar a retomada do crescimento sustentado baseado no mercado interno, alavancando investimentos e ganhos de produtividade.

Isso exige romper com a receita convencional, que prega aperto fiscal, mesmo com as contas públicas ajustadas, e elevação de juros, evocando critérios artificiais ou fora de contexto, como o superavit primário e o regime de metas de inflação.

Uma boa questão é por que essa receita prevalece se o crescimento beneficia não só aos assalariados mas a todos, incluindo banqueiros e empresários, que aumentam seus lucros. Claro, há divergências no entendimento da economia. Porém uma resposta mais pragmática talvez venha da constatação de que o ciclo de crescimento de 2004 a 2010 levou o país ao pleno emprego.

O economista polonês Michael Kalecki trata dessa questão em um texto clássico de 1944, chamado "Aspectos políticos do pleno emprego", em que aponta três razões para que as elites capitalistas se oponham ao uso da política fiscal visando a manter um pleno emprego continuado.

Primeiro, sob um modelo liberal, o nível de emprego depende sobremaneira do investimento privado, o que dá grande poder aos empresários, obrigando o governo a evitar iniciativas que abalem a confiança e as expectativas do mercado.

Segundo, os capitalistas desejam manter a atuação do governo restrita a atividades --como educação e saúde-- que não concorram com os negócios privados. Porém, uma política ativa de gasto público pode exigir entrar em novas esferas de investimento. Por exemplo, criar estatais é tido como ruim por definição.

Por fim, um pleno emprego prolongado causa mudanças políticas e sociais que grande parte da elite não deseja: por exemplo, mesmo com lucros maiores, crescerá a tensão em torno das negociações salariais. Uma renda mais bem distribuída afeta a hierarquia social vigente. O incômodo com os novos direitos das domésticas ou com a movimentação nos aeroportos lembra alguma coisa?

A perseguição da meta central de inflação neste momento de perda de ritmo econômico significa provocar recessão e desemprego...

Sobreviver é a questão - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 18/07

Quatro proeminentes senadores do PT, entre os quais dois ex-governadores, um ex-ministro e um pretendente a governo estadual, sentaram-se por volta das 21h em restaurante de Brasília, na quinta-feira passada, para analisar a crise.

Levantaram-se depois das duas da madrugada com várias ideias na cabeça e um plano nas mãos: convencer a presidente Dilma Rousseff a executar uma operação salva-vidas do projeto de poder do PT.

Instinto de sobrevivência é a motivação. O ponto de partida, a busca de interlocutores influentes junto à presidente para discutir um roteiro com quatro itens - também chamados de "conceitos" - de execução imediata.

O primeiro: suspender toda e qualquer discussão ou especulação sobre a eleição de 2014. O segundo: medidas efetivas de governo que sinalizem à população a obtenção de benefícios, como, por exemplo, a suspensão do projeto do trem-bala e o uso do dinheiro para investimentos em linhas de metrô. O terceiro: a retomada de reformas estruturais envolvendo o Congresso não mais pela via da imposição, mas do debate programático.

O quarto ponto seria a troca da fisiologia pela meritocracia. Em miúdos, a reformulação da face do ministério com a convocação de bons executivos de notório conhecimento das respectivas áreas.

Não um ministério de "notáveis", como fez Fernando Collor já à beira do abismo, nem algo que sugira governo de "salvação nacional" porque equivaleria a admissão de fracasso total e seria, na interpretação dos petistas, o fim dos dias do partido no poder. A ideia é tentar transmitir à população a mensagem de que o governo estaria disposto a fazer o País funcionar.

A receita é difícil de ser aceita e dificílima de ser executada. Entretanto, na avaliação de seus autores, é o que há para ser feito nessa República em que o Executivo está sem norte, o Legislativo é comandado por dois parlamentares vulneráveis sob o aspecto legal e do Judiciário aparece nas pesquisas de opinião uma irrealista candidatura presidencial como expressão da demanda por mais decência.

Dada a urgência, ficou combinado que as primeiras conversas seriam feitas já nesta semana. A propósito disso, nenhum dos conselheiros ou porta-vozes do Planalto no auge da crise integra o rol dos interlocutores abalizados para levar o plano à presidente. Seria o mesmo que entregar ao problema a tarefa de encaminhar a solução.

Bonde perdido. O ex-presidente Lula defende uma "profunda reformulação" no PT a reboque das manifestações que, na sua proposital e habitualmente arrevesada versão dos fatos, teriam sido consequência do sucesso dos governos do partido.

A realidade diz ao contrário: o descontentamento é decorrência de uma situação que o próprio Lula levou ao agravamento quando deixou falando sozinhos os petistas que logo após o escândalo do mensalão defendiam justamente uma profunda reformulação no PT.

Depois da queda. Se o governo pensa que seus problemas de erosão de apoio se restringem ao Congresso e a movimentos liderados pelo PMDB, deveria ouvir o que dizia Emílio Odebrecht em recepção na Bahia no último fim de semana. Na roda, um ex-ministro e um ex-governador.

O empresário defendia de maneira contundente a candidatura de Lula em 2014. Com o governador Eduardo Campos de vice. Sobre Dilma Rousseff, a quem o empresariado conferia atributos de grande gestora antes da queda nas pesquisas, a avaliação seguia o mesmo diapasão do "senso de oportunidade" dos ditos aliados: sem chance de reeleição.

Interessante será observar a firmeza de opiniões caso a presidente venha a recuperar terreno.

'Ambiente de pessimismo' - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 18/07

BRASÍLIA - Enquanto a presidente Dilma Rousseff insistia no natimorto plebiscito para a reforma política, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, dava entrevista a Fernando Rodrigues, da Folha, defendendo o fim de 14 ministérios.

Parece briga de marido e mulher, mas é disputa entre Poderes e entre partidos aliados, com troca de provocações cada vez mais escancaradas.

Dilma e o ministro Gilberto Carvalho insistem "teimosamente" na estratégia marqueteira de dizer que o governo quer dar voz ao povo, mas o Congresso, esse malvado, não deixa.

Henrique Alves dá o troco. Vocaliza a pressão geral e o pedido formal do PMDB por uma reforma ministerial drástica, em nome da "redução de custos e da austeridade". A presidente, teimosa, e o governo, esse fraco, é que não têm coragem de fazer.

Convenhamos: nem Dilma está tão desesperada pelo plebiscito nem o nosso PMDB cansado de guerra (e cheio de cargos) parece tão preocupado com a moralidade pública e o corte de ministérios. Ambos apenas dizem o que a população quer ouvir e se esforçam em jogar a culpa um no outro por não dar certo.

O que se vê é Dilma e o Congresso testando forças, num momento de enorme fragilidade mútua e com o PT nitidamente dividido: um PT apoia o governo, o outro PT se alia ao PMDB contra o governo.

Dilma despenca nas pesquisas, fazendo um esforço enorme para mostrar que tudo está ótimo e atribuindo as críticas (à economia e à gestão) a quem quer criar um "ambiente de pessimismo". Já Henrique deixa claro o grau de compromisso e de lealdade ao Planalto e ao projeto Dilma: entre o governo e o Congresso, ele fica com o Congresso (e com o futuro).

O clima, portanto, é de guerra, mas de uma guerra interna no próprio governo e nos partidos governistas. E quem criou e alimenta o pessimismo não foram e não são os adversários. Foram e são a própria Dilma, o seu governo, a sucessão de erros e sua balofa base (não tão) aliada.

A paisagem vista do Planalto - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 18/07

A queda da presidente Dilma nas pesquisas não animou apenas a oposição. A base do governo está em alvoroço. O PT , dominado por “Pantagruel”, pressiona para ter ainda mais espaço. O PMDB também quer mais. Um ministro resume: “Eles aproveitam para tentar tirar tudo. Cada um usa sua arma. ” O PT vai de “Volta, Lula ”. O PMDB prega o fim da reeleição e ameaça com um rompimento.


“O PT e o PMDB estão pressionando para colocar gente no governo . Eles chegam para conversar com um indicado , e um currículo, no bolso do colete”
Ministro da presidente Dilma
Integrante do novo Conselho Político do Planalto sobre os boatos de reforma ministerial

Um recado para Aécio Neves
O ex-governador José Serra está propagando a tese de que o presidente do PSD, Gilberto Kassab, está buscando uma reaproximação. O que isso quer dizer: José Serra não desistiu de ser candidato à Presidência. Os que o conhecem afirmam com segurança que, pela quantidade de artigos e de intervenções que ele tem feito, nos últimos tempos, Serra não entregou os pontos. O clima entre os tucanos é de euforia com a queda da presidente Dilma nas pesquisas. O “já ganhou” contaminou o presidente do PSDB, Aécio Neves, e fez renascer a ambição de Serra. Para os tucanos, o potencial de Marina Silva (Rede), revelado nas mesmas pesquisas, não passa de mera ficção.

Realinhamento
O PSD mudou de posição na Lei dos Royalties. Votou contra o governo na última votação, mas pensou melhor e avisou que apoiará o Executivo na volta do recesso. O governo quer que seja usado apenas o rendimento do Fundo Social.

Reunindo forças
O vice de Agronegócio do Banco do Brasil, Osmar Dias, que foi senador pelo PDT , está deixando o trabalhismo. Ele está negociando seu ingresso no PMDB. As conversas fluem com o deputado João Arruda (PR), o presidente do PMDB, senador Valdir Raupp (RO), e com o vice Michel Temer. Osmar Dias seria candidato ao governo do Paraná.

Nova batalha: Câmara x Planalto
O sistema de partilha do FPM e do FPE é o novo contencioso entre os deputados e a presidente Dilma. Ela vai vetar artigo que obriga o governo a reembolsar perdas de receitas, de estados e de municípios, com desonerações tributárias.

República das bananas
O Ministério da Justiça e a Polícia Federal ficaram irritadíssimos com as informações dadas por Exército e Abin sobre o esquema de segurança do Papa Francisco. Os militares tiveram a intenção de desencorajar protestos, mas, para a PF , ele deveria ser mantido em sigilo. Os maiores incômodos: falar sobre monitoramento das redes sociais e abrir os fornecedores de softwares.

Há convites e convites
O Planalto liga para dizer que os parlamentares são convidados para as solenidades com a presidente Dilma nos estados. Fato. Mas o convite que os aliados querem receber é para chegar aos estados e descer do “AeroLula” ao lado de Dilma

Discurso para efeitos políticos
A bancada do PMDB faz barulho, mas pesquisa aplicada pelo presidente da Fundação Ulysses Guimarães, Eliseu Padilha, revela que a ampla maioria não quer romper com o governo. Eles estão de olho nas eleições e querem prestígio.

PETISTAS, adeptos da reforma ministerial, andam resmungando pelos cantos que a presidente Dilma é “padrão Felipão ”. Não faz o que pedem.

Serviço indiscreto - VERA MAGALHÃES - PAINEL

FOLHA DE SP - 18/07

A superexposição da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) anteontem, ao divulgar sua preocupação com a segurança do papa Francisco no Brasil, contrariou o Palácio do Planalto. A agência abriu os alertas de risco sem ordem da presidente Dilma Rousseff. A falta de controle sobre a agência fez com que fosse retomado um desenho da reforma ministerial, que pode ocorrer em janeiro, em que a Abin deixaria o Planalto e ficaria sob comando do Ministério da Defesa.

Pra galera Emissários do governo tentaram demover o papa da ideia de circular em papamóveis sem blindagem. Não tiveram sucesso.

Aleluia Na gravação de boas-vindas de Dilma aos peregrinos, que vai ao ar semana que vem, ela diz que a Jornada Mundial da Juventude é o encontro da "energia" das ruas do Brasil com a mensagem da fraternidade católica.

Clínico geral Aloizio Mercadante, que não estava entre os oradores anunciados previamente na reunião do Conselhão, resolveu fazer uma apresentação. O tema: saúde. Exibiu todos os gráficos que Alexandre Padilha iria usar logo em seguida.

Sem palavras Na sua vez de falar, Padilha brincou: "Eu ia fazer uma apresentação aqui, mas meu colega Mercadante já falou quase tudo no quesito saúde".

Estratégia Líderes do PT de São Paulo vão conversar com o ex-presidente Lula sobre os cenários para a eleição do ano que vem. O encontro aconteceria esta semana, mas precisou ser cancelado.

Habitué Em sua passagem por Brasília, José Serra pediu para participar do próximo jantar mensal dos independentes'', grupo suprapartidário de 14 senadores.

Tempo Em encontro com dois aliados do PSDB, Serra se mostrou disposto a esperar até o limite do prazo para decidir se trocará o partido pelo PPS. Apostou que a imagem de Dilma pode se deteriorar mais com protestos na visita do papa e no 7 de Setembro.

Enquanto isso O ex-governador dará palestra para jovens empreendedores hoje, às 18h30, no Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) de Bauru.

Via... Geraldo Alckmin (PSDB) decidiu implantar um sistema de RDC (Regime Diferenciado de Contratação) para acelerar as obras do governo paulista. O tucano cobrou de secretários e dirigentes de empresas públicas a aplicação do modelo, que flexibiliza prazos e reduz exigências nos processos de licitação.

...rápida O governo formou um grupo de trabalho para redigir decretos, editais e contratos que permitam a aplicação do modelo no Estado, a exemplo do que faz o governo federal com obras do PAC e da Copa do Mundo.

Sem parar A lentidão de investimentos do governo volta a irritar Alckmin. Ele reclama que os secretários captam empréstimos para obras mas não tocam os projetos. Enquanto isso, o dinheiro fica parado e acumula juros.

Boletim Todas as noites, os secretários de Alckmin precisam enviar à Casa Civil uma lista de entrevistas concedidas e outras aparições na mídia. O governador cobra dos auxiliares maior divulgação das ações de sua gestão.

Supersimples Em época de campanha pela redução de cargos, o governo federal criou mais um: contratou um "diretor do Departamento de Racionalização das Exigências Estatais da Secretaria de Racionalização e Simplificação da Secretaria da Micro e Pequena Empresa da Presidência da República".

Sem brecha Passou ontem, em comissão especial do Senado, regra do novo Código de Processo Civil que impede que escritórios em que trabalham parentes de juízes assumam causas nos tribunais em que esses magistrados atuam. Hoje, só o advogado ligado à família do magistrado não pode assumir o processo depois de iniciado.

com ANDRÉIA SADI e BRUNO BOGHOSSIAN

tiroteio
"Já que estamos falando tanto em médicos, está na hora de trocar a equipe que cuida da economia, pois o paciente só piora a cada dia."
DO LÍDER DO PSB NA CÂMARA, BETO ALBUQUERQUE (RS), sobre os números da economia e a pressão pela mudança no comando do Ministério da Fazenda.

contraponto


Fora do baralho
"Na saída da reunião do Conselhão, ontem, o pré-candidato ao governo de São Paulo e presidente da Fiesp, Paulo Skaf (PMDB), foi cumprimentado pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, também cotado para a disputa.

--Meu governador! --disse o ministro.

Diante da surpresa de Skaf, o petista emendou:

--O senhor é meu governador, agora que estou preocupado em contratar mais médicos.

Não têm juízo - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 18/07
Mesmo com alguns sinais positivos, como a aprovação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do fim do voto secreto para a eleição do presidente do Senado e das comissões, permanecem mostras preocupantes de que deputados e senadores insistem em velhos hábitos já rejeitados pela voz das ruas.

O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, por exemplo, voltou a usar um avião da FAB para ir de Natal a Brasília, dando carona. Mesmo que esteja dentro da norma, pois ia de seu estado para Brasília, e que as caronas nada acrescentem ao custo do voo para a FAB, falta ao presidente da Câmara o bom senso de não dar demonstrações de arrogância num momento em que qualquer passo dos políticos está sob a lupa da opinião pública.

Não há qualquer necessidade de usar um avião da FAB quando os voos comerciais normais são acessíveis, e o deputado tem cota de passagens a seu dispor. Só mesmo o hábito de utilizar mordomias, juntamente com a necessidade de demonstrar força política no seu reduto eleitoral, explica decisão tão equivocada.

Outro que demonstrou que está no cargo para cuidar de seus interesses pessoais foi o suplente da ministra Marta Suplicy, o senador Antonio Carlos Rodrigues, do PR paulista, que, aliado do mensaleiro Valdemar Costa Neto, impediu a votação de proposta de emenda à Constituição que torna automática a perda do mandato de parlamentar nas hipóteses de improbidade administrativa ou de condenação por crime contra a administração pública, conhecida como a PEC dos Mensaleiros.

Com o pedido de vista, conseguiu adiar para agosto a discussão da mudança que colocaria imediatamente na cadeia, além de seu cupincha, os deputados petistas José Genoino e João Paulo Cunha, e Pedro Henry, do PP. Por fim, mesmo sabendo que no Congresso a tendência majoritária, da qual fazem parte muitos petistas, é que as reformas só valham a partir da eleição municipal de 2016, a presidente Dilma continua na defesa intransigente do plebiscito para a realização de reformas ainda em 2014, jogando para o Congresso a culpa de não termos reformas imediatas, quando não há mesmo prazo para aprová-las em tempo hábil, dentro das atuais regras constitucionais.

Agindo assim, a presidente arrisca-se a ter o Congresso contra o Executivo na volta dos trabalhos, piorando a crise política em que seu governo está envolvido. Parece faltar a todos juízo para enfrentar os momentos tensos que temos pela frente.

Quem fala fino

Chico Buarque, ao apoiar a candidatura de Dilma Rousseff em 2010, disse uma frase sobre o governo brasileiro que ficou famosa: "Ele não fala fino com Washington, nem fala grosso com a Bolívia". O que parecia uma qualidade de nossa política externa mostrou-se, no entanto, um defeito, pelo menos em relação a nossos vizinhos bolivarianos.

De fato, não falamos grosso com a Bolívia, nem com o Paraguai, nem com a Venezuela, mas deveríamos fazê-lo em algumas situações. Se antes tínhamos um "complexo de vira-lata" nas relações internacionais, segundo diagnóstico do ex-presidente Lula, hoje temos um "complexo de gorila".

Temos receio de sermos vistos como imperialistas na América do Sul e nos submetemos a vários vexames desnecessários e inaceitáveis. Agora mesmo ficamos sabendo que aviões da FAB usados por autoridades brasileiras, inclusive o ministro da Defesa, Celso Amorim, foram revistados abusivamente por agentes antidrogas do governo da Bolívia.

O acinte aconteceu não uma única vez, mas três, e somente então o governo brasileiro fez um protesto formal, que só se tornou público dois anos depois, quando o fato foi revelado pela imprensa.

A Bolívia já expropriou uma refinaria da Petrobras, e ficou por isso mesmo. Agora, recusa-se a permitir que o senador oposicionista Roger Pinto Molina, asilado há mais de um ano na embaixada em La Paz, embarque para o asilo político em Brasília. E nós, no nosso "complexo de gorila", vamos falando fino com nossos vizinhos.