sexta-feira, junho 21, 2013

Uma saída para qualquer parte - MARIA CRISTINA FERNANDES

Valor Econômico - 21/06

Foi a CUT que agitou a reunião das centrais sindicais com o ex-presidente Lula no instituto que leva seu nome. Na véspera, a Prefeitura de São Paulo sacudira como uma bastilha. Naquela tarde em que os sindicalistas procuraram o ex-presidente no instituto, a periferia da cidade, longe da moçada da USP e das câmeras de televisão, aderia às manifestações.

A motivação era queremista, mas a quietude do dono da casa não abriu espaço à pauta. Os sindicalistas desfiaram suas queixas costumeiras da falta de interlocução no Planalto e comunicaram sua adesão às manifestações. Com a hostilidade dos manifestantes às suas bandeiras talvez sejam obrigados a recuar.

A Volvo, uma das maiores fabricantes de ônibus do mundo, pagou R$ 30 mil reais aos funcionários em participação nos lucros e resultados. Os motoristas de ônibus em São Paulo tiveram reajuste acima da inflação. A prefeitura participou da negociação temendo greve, mas o barco adernou do outro lado. Nem a Volvo deve pagar mais um PLR desses nem os motoristas, com o recuo na tarifa, deverão ter dissídio tão generoso. Deve ser por isso que querem aderir, mas é outro o tempo.

Já se passaram oito anos desde que Lula ameaçou chamar os sindicatos para defender seu mandato da turbulência do mensalão. Não foi o carro de som que garantiu o segundo mandato de Lula e a eleição de Dilma Rousseff, mas o gasto de governo e consumidores.

Agora a galera não quer só comida, diversão ou arte. Busca saída para qualquer parte que os Titãs, por tiozinhos, não devem mais saber onde fica.

Naquela época Lula defenestrou Antonio Palocci e se resguardou com a turma do carro de som para se manter no poder. Agora são as duas pontas que parecem unidas para levar o homem de volta. Mercado financeiro e sindicalistas talvez acreditem que só Lula conheça a regência dessa orquestra de acordes dissonantes. O problema é que o ruído agora é novo. Ainda não apareceu um diapasão sintonizado. E não há sinais, pelo que se vê e ouve nas ruas, que o tom esteja em São Bernardo.

O discurso que Dilma e seu partido adotaram mostra que governo e PT querem fazer parte da manifestação como se não exercessem os poderes constituídos. É como se dissessem: queremos as mesmas coisas que vocês e, se não o fazemos, é porque o PMDB e os mercados não deixam. Unam-se a nós que juntos chegaremos lá.

Não é só a presença de Guilherme Afif no governo que obstrui os caminhos do PT.

O marqueteiro sopra no ouvido de Dilma e Rui Falcão e o discurso sai arrumado. Mas não resolve. A nota que a juventude do PT soltou se limita à lógica da dualidade de poder com o PSDB. Não surpreende que tenham sido hostilizados ontem na rua.

Os jovens tucanos soltaram nota que os deixa mais grisalhos que Fernando Henrique Cardoso. Os tucaninhos se recusaram a sair às ruas porque veem nas manifestações um instrumento para desgastar o governo Geraldo Alckmin. Em resposta, os petistinhas redigiram uma nota focada na violência da polícia estadual, como se nela se resumissem as manifestações.

A julgar pela citação solitária na entrevista ao Roda Viva de dois jovens do Movimento do Passe Livre, o economista Ladislau Dowbor talvez seja o que há de mais próximo de "ideólogo" do movimento. Em sua página na internet lê-se uma tentativa de explicar o que se passa na cabeça de uma geração criada longe da rua e cujos pais têm carro na garagem, saem de madrugada de casa, voltam à noite, se jogam no computador ou adormecem em frente à TV: "Se todos nós estamos ocupados em ganhar a vida, em subir nos degraus do sucesso, como as crianças vão entender nosso sacrifício como útil?".

Não é fácil perfilar uma manifestação que trocou as bandeiras por cartolinas escritas a mão. Em sua tentativa, Wanderley Guilherme dos Santos assume o risco de ser rotulado de conservador. Presidente do Diretório Central dos Estudantes da Faculdade Nacional de Filosofia no final dos anos 1950, mandou confeccionar uma faixa giganteë: "Esta faculdade é nacionalista". O embate daqueles dias era a instalação de uma metalúrgica americana no Rio. A faculdade logo ficou repleta de faixas. E o DCE não demorou a descobrir que o engajamento em massa dos estudantes era patrocinado pela concorrente nacional da American Can.

Wanderley Guilherme nunca viu nada igual ao que está nas ruas, mas nesses 60 anos aprendeu a não comprar os fatos pelo seu valor de face. Não se arrisca a dizer onde a coisa vai parar, mas duvida que, pelos elevados custos de participação, os manifestantes prossigam por tempo indeterminado com o mesmo poder de mobilização.

Vê na rápida mudança na estratificação social a criação de um denominador comum para massa tão amorfa de manifestantes. Não é a miséria que gera mobilização popular. A mudança traz expectativas que não param de crescer mesmo quando a situação material, apesar de melhor, já não segue o mesmo ritmo. Fica sempre aquém do que se aspira.

O altruísmo e a juventude sempre andaram juntos bem antes de Wanderley Guilherme chegar ao DCE. Naquele tempo queriam o socialismo, justiça e a África livre do colonialismo. Mas o altruísmo, diz, não basta para fazer dos jovens portadores de futuro. Os jovens altruístas de sua geração construíram o capitalismo brasileiro que está aí sendo contestado pela moçada de hoje.

O futuro é desenhado. E não necessariamente pelas instituições que estão aí. Da diversidade desse movimento talvez surjam novos canais, desde que não se aceite como canalização a depredação de uma assembleia legislativa ou a invasão do Itamaraty.

Está claro que os presidenciáveis de 2014, a começar pela candidata à reeleição, vão mobilizar todos os recursos para canalizar em seu benefício o barulho das ruas.

Se essa moçada busca um jeito novo de fazer a coisa talvez valha procurar perto de casa, na vizinhança que lhes faltou na infância. Carcomidas câmaras municipais, como a de São Paulo, estão para revisar o plano diretor que rege a ocupação urbana. O trânsito por ali é livre, bem como nas audiências públicas que vão discutir o contrato de R$ 46 bilhões para o transporte público. Que levem os cartazes, a irreverência, a persistência e, sobretudo, o altruísmo. Se conseguirem melhorar o ônibus talvez façam uma melhor escolha para presidente.

Despreparo - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 21/06

O governo Dilma não preparou a economia para o novo tranco que vem com o desmonte da política de incentivos promovida pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos).

Não houve ainda nenhuma mudança nos Estados Unidos nem no Fed. Pelo que se sabe das informações passadas pelo seu presidente, Ben Bernanke, na quarta-feira, o despejo de dólares no mercado americano, de US$ 85 bilhões por mês, só deverá começar a diminuir a partir do final deste ano. Entenda-se: não é nem o fim das emissões de moeda destinadas à compra de títulos, nem muito menos o início do recolhimento desses dólares no mercado por meio da revenda dos títulos em poder do Fed. Será apenas o começo de um período de redução das emissões de moeda - e de compra de títulos pelo Fed.

No entanto, apenas com a perspectiva de que, lá na frente, um forte volume de títulos seja devolvido ao mercado, a rejeição de ativos e a retenção de dólares já é enorme.

Diante dessa nova baixa disposição a assumir riscos, a economia do Brasil já não se comporta como em 2008, quando o que chegou a nossas praias foi "apenas uma marolinha".

É que naquele momento ainda havia uma política fiscal bem mais robusta, uma política monetária (política de juros)mais calibrada para o tamanho das fragilidades estruturais da economia e os resultados das Contas Externas eram sólidos. Não levantavam preocupações, como agora, de que, a despeito das reservas internacionais, pode escassear moeda estrangeira.

Durante meses, tanto a presidente Dilma como o ministro da Fazenda, Guido Mantega, vinham se queixando do excesso de dólares nos mercados e não paravam de denunciar, aqui e nos fóruns internacionais, o que chamaram de "tsunami monetário" e "guerra cambial". Queriam a reversão do programa de incentivos praticado pelo Fed. Mas, agora que têm a perspectiva dessa reversão, se dão conta de que o estrago será potencialmente maior do que aquele que temiam antes, quando a operação era inversa.

Pior, essa reversão pega a economia brasileira fragilizada, incapaz de crescer a ritmo satisfatório, com uma inflação que já fura os telhados e com preocupantes vazamentos nos resultados do balanço de pagamentos. E nem se fale na situação política, agora revirada por essas manifestações vitoriosas, com que ninguém contava.

Até o momento, o governo federal resistiu a mudar os rumos de sua política econômica de modo a reforçar as defesas. Entendeu que isso implicaria sacrifícios capazes de colocar em risco a candidatura de Dilma à reeleição. Atenção: a inflação que vem vindo aí, agora em consequência da alta do dólar, não vai ceder apenas porque as autoridades pedem paciência.

O melhor que a presidente Dilma poderia fazer seria acatar a sugestão do ex-ministro Delfim Netto e produzir uma rearrumação da economia que garantisse a obtenção de um déficit nominal zero ao cabo de três anos. Trata-se de apresentar um rigoroso equilíbrio entre receitas e despesas públicas, incluídos aí os juros da dívida. Se anunciada com credibilidade, a nova postura se encarregaria imediatamente de restabelecer um mínimo de confiança que ajudaria a economia a se preparar para o que vem aí.

A política fiscal não é anticíclica? Pois então chegou a hora de colocá-la no ciclo certo.

O Brasil na encruzilhada - REGIS ARSLANIAN

O GLOBO - 21/06
O anúncio da conformação da Aliança do Pacífico, em nosso próprio espaço geográfico, nos pegou no contrapé e serviu para acirrar o apelo para que o Governo se lance, de vez, em negociações de acordos comerciais, na ânsia de evitar a perda irreparável dos poucos espaços que ainda restam para nossos bens industrializados nos mercados mundiais.

Até os EUA e a União Europeia estão negociando a abertura recíproca de seus mercados. É bem verdade que o Brasil, em meio às manobras dilatórias da Argentina, também tem buscado lançar sua bandeira a favor da retomada da negociação Mercosul-UE.

Mas, antes de nos comprometer em novos empreendimentos negociadores, e mesmo com vistas à possível retomada da Rodada Doha, deveríamos adotar, de uma vez por todas, um modelo de negociação de espectro mais amplo, que inclua dispositivos regulatórios, deixando de nos aferrar apenas ao conceito clássico de acesso a mercados, voltado basicamente para calendários de desgravação tarifária.

Hoje, diante da grave defasagem competitiva que vive a indústria brasileira, a negociação de acordos comerciais deveria estar focada em uma dimensão estratégica, que adote, a partir de nossos interesses, padrões globais e uma regulação transfronteiriça para nosso comércio.

Trata-se de estabelecer instrumentos comerciais que nos possibilitem integrar nossas práticas de mercado aos padrões de vanguarda no comércio e nas cadeias de produtividade dos mercados internacionais, ajudando-nos, com isso, a superar ou, pelo menos, mitigar a persistente crise de competividade em que vive o país na indústria de transformação.

Ainda que já tardiamente, não podemos postergar o início de um debate mais aprofundado que identifique, sob essa nova perspectiva, os reais interesses da classe empresarial, que é, afinal, a principal beneficiada - ou prejudicada - nas negociações comerciais. Cabe a ela opinar, em primeira mão, dentro de cada segmento produtivo e comercial, sobre o alcance das concessões a serem efetuadas e dos pleitos a serem apresentados no quadro negociador, de forma a orientar e balizar a posição brasileira. Só assim os acordos comerciais poderão trazer benefícios estruturais para a economia do país.

A proposta do setor empresarial ao Governo deve ser abrangente e precisa, arrolando suas pretensões e também seus limites. Caberá ao Governo e aos negociadores brasileiros a responsabilidade de defendê-la, ao coordenar-se com o Mercosul e na mesa de negociações extrabloco.

A realidade hoje impõe repensar nosso modelo negociador. A menos que nos conformemos em participar como meros coadjuvantes das cadeias de produção global, impedindo-nos de escapar da perversa armadilha de sermos grandes fornecedores de "commodities", mas produtores de manufaturados apenas para o mercado doméstico, crescentemente tolhido, aliás, pela competividade externa.

Navegar é preciso - LETÍCIA SANDER

FOLHA DE SP - 21/06

RIO DE JANEIRO - No verão passado, o empresário Eike Batista seguiu o itinerário de nove entre dez novos ricos e, com um punhado de amigos, rumou para St. Barths, apelido de St. Barthélemy, uma charmosa ilha no Caribe, destino comum de endinheirados no verão.

Alheio ao alto luxo da rede hoteleira local, o empresário símbolo da ousadia da nova geração de empreendedores alugou um superiate e o ancorou. Os diversos andares, quartos, elevadores e a criadagem estavam à disposição de meia dúzia de amigos, numa noite reunidos à mesa para um jantar informal.

Presente, um publicitário brasileiro importante. A conversa teve um pouco de tudo, até que Eike surgiu com uma ideia: e se o publicitário o ajudasse a convencer a família Marinho a colocar numa próxima novela das nove da TV Globo o personagem de um empresário boa-praça, inspirado nele?

Passaram-se uns bons meses. Na semana passada, pela primeira vez, as ações da petroleira OGX, menina dos olhos do conglomerado X, chegaram a valer menos de R$ 1 nas Bolsas. Numa atitude raríssima para tentar acalmar o mercado, o empresário veio a público para anunciar o alongamento de suas dívidas.

É cada vez mais evidente que as coisas vão mal no mundo X, dos grandes aos pequenos empreendimentos, a despeito de toda a ajuda, pública inclusive, que o conglomerado recebeu nos últimos anos.

A cada semana, demissões e cortes de vagas são anunciadas ao mercado. O estilo Eike de gerenciar tem afastado executivos, e a desconfiança em torno de seus empreendimentos já é generalizada no mercado.

No fim das contas, o projeto de ir parar em rede nacional andou, mas não do jeito que o empresário gostaria. Nos protestos que varrem o Rio desde a semana passada, ele só fica atrás do governador e do prefeito. Malhados, todos os dias.

Onda contrária - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 21/06

Manifestação a favor só é fácil fazer em ditaduras. O PT e outros partidos governistas que tentaram pegar carona nas passeatas de ontem não conseguiram fazer a tal “onda vermelha”. É claro que não é por paixão pelo
governo de Dilma Rousseff que milhares têm ido às ruas. Também não é a favor da oposição. A reação é difusa, mas uma bandeira frequente é a que condena a corrupção.

O PT tentou transformar as passeatas de ontem numa manifestação de apoio ao governo. Inútil. A presidente Dilma Rousseff tem tentado capitalizar o protesto com o elogio que fez ao movimento e o jogo de empurra para queimar a imagem dos prefeitos. A nota emitida pela ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, afirmando que eles poderiam até reduzir as tarifas é prova dessa tentativa de jogar a batata quente sobre os outros. Depois, a desastrada ministra se desmentiu, mas a primeira nota revelou a manobra.

Os prefeitos de São Paulo e Rio aceitaram participar da maquiagem da inflação de janeiro, atendendo ao pedido do ministro Guido Mantega de jogar o reajuste para junho. Após os protestos, eles anularam o aumento. O prefeito Fernando Haddad fez de tarde o que havia definido como “populismo” na parte da manhã. Mudança radical de convicção. Seja como for, por ter sido revogada, a alta dos ônibus deixou de ser a questão central. Isso tem um efeito político: a insatisfação difusa ocupou o centro do protesto. E nela se sobressaem algumas bandeiras: contra a corrupção, contra a tentativa de neutralizar o Ministério Público, através da PEC 37, por uma educação melhor, uma saúde mais eficiente. Tudo o que tem se acumulado no descontentamento diário dos brasileiros. Não há contorcionismo do PT que transforme o protesto em manifestação a favor do governo. Ele não é o único alvo, mas está entre os alvos. 

Enquanto o povo está nas ruas, a situação econômica tem piorado. Sem relação de um fato com o outro. O anúncio
do presidente do Fed, Ben Bernanke, de que a economia americana vai bem e os estímulos monetários podem ser reduzidos no ano que vem, indicou ao mercado financeiro que a tendência é de um dólar mais forte no futuro. Isso
fez o dólar subir no mundo inteiro. No Brasil subiu mais porque há falta de confiança na política econômica. As agências de risco estão colocando a nota do Brasil em viés negativo pela deterioração fiscal do país. Foram anos de truques contábeis que, acumulados, minaram a consistência dos indicadores fiscais do país.

A anulação dos reajustes dos ônibus e o recuo de aumentos dados anteriormente em outras cidades vão atenuar a inflação de junho. Mas o alívio é pontual. Em nove de 29 meses do governo Dilma, até maio, a inflação esteve acima do teto da meta. Ficará novamente acima quando sair o dado deste mês. O dólar mais alto baterá em bens de consumo duráveis, e em todos os preços que têm cotação internacional, exatamente no momento em que a inflação poderia começar a cair. Os IGPs voltaram a subir. O IGP-M de junho deu 0,7% após estar em 0,01% em maio. Os IGPs são os mais afetados pelo dólar. A moeda americana subiu 12% em um mês. Isso já representa um choque cambial.

Os erros da política econômica estão cobrando sua conta. Foram inúmeras as medidas de renúncia fiscal com o sinal trocado, como contei ontem aqui. Só com o fim da Cide o governo tirou R$ 22 bilhões dos cofres públicos, em cinco anos. Dinheiro que tinha destino certo: pela lei, tem que ser investido em infraestrutura de transporte. Foram tomadas medidas de efeito imediato sem pensar nas distorções que elas têm acumulado. Isso criou um quadro econômico de inflação persistente, baixo crescimento, deterioração fiscal e déficit em conta corrente. O que o consumidor sente neste momento é o desconforto da perda de poder aquisitivo pela inflação e a redução da capacidade de endividamento das famílias.

O valor intangível dessas manifestações é avisar aos políticos, administradores públicos, governantes de todos os níveis que o país que pensavam que jamais reagiria aos desaforos sequenciais não está mais disposto a permanecer em silêncio diante de tantos e tão frequentes abusos do cotidiano brasileiro. Se na economia nem todos os erros são fáceis de serem entendidos, na política as ofensas ao sentimento do país foram criando a vontade de ir para as ruas. E pelo que se viu ontem: de norte a sul do país. 

Sem favoritos - DENISE ROTHENBURG


CORREIO BRAZILIENSE - 21/06

Fracassou a ideia do ex-presidente Lula de tentar tirar o PT do sanduíche pela aba das manifestações, misturando os militantes do partido aos sem-bandeiras. Em várias cidades, os defensores partidários foram acuados aos gritos de “mensaleiros”. Isso mostra que, pelo menos até aqui, a marca do escândalo de 2005 não saiu, embora os petistas ainda tenham a preferência do eleitorado, de acordo com as pesquisas, e a rejeição não tenha sido privilégio do PT. Todos os partidos que testaram a força nas mobilizações de ontem foram rechaçados. E, se a onda pega, a campanha de 2014 será mais animada do que qualquer outra disputada desde a primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994.

Àqueles carecas de conhecer a história política do Brasil, que me perdoem, mas vale um histórico dos motes eleitorais de lá para cá. Em 1994, Fernando Henrique Cardoso foi guindado ao poder no embalo do Plano Real. Depois, com o discurso de que a economia sofria sérios riscos caso não fosse reeleito, o então presidente conquistou mais um mandato. Em 2002, com a economia enfrentando problemas, foi a vez de o PT chegar com o discurso de equilíbrio social. Assim, Lula, em sua quarta eleição presidencial, conquista o poder não sem antes prometer que seria equilibrado na economia.

Se Fernando Henrique Cardoso conquistou a reeleição com o discurso de que era o melhor para conduzir a economia e evitar aventuras, Lula fez o mesmo com a mensagem de que o PSDB não manteria as conquistas sociais de seu governo e ainda faria uma gama de privatização de serviços públicos. Saiu tão popular que fez a sucessora, Dilma Rousseff, até o início deste ano considerada imbatível do ponto de vista eleitoral. Dilma aos poucos superou o próprio Lula em termos de popularidade e intenção de voto. Ganhou apoios na classe média, hoje mais robusta.

Agora — ufa, vamos ao que interessa! — tudo mudou. O repúdio aos petistas e a todos os partidos nos dá um sinal de que esta eleição que vem por aí em 2014 não terá um nome que predomine a anos-luz dos demais. É precipitado, entretanto, dizer que estejamos chegando novamente àquela temporada que resultou na eleição de Fernando Collor de Mello. A única comparação é a de que o país está farto dos políticos tradicionais.

Desta vez, o que os brasileiros reivindicam de maneira geral são serviços com qualidade e competência, e a boa aplicação de seus impostos. Ou seja, o óbvio. Quem conseguir convencer o eleitor de que é capaz de fornecer isso, certamente terá mais chances numa eleição, seja estadual, seja a própria Presidência da República. Num processo eleitoral tão antecipado, essa corrida já está em curso.

Enquanto isso, nos partidos...
Obviamente, quem está no poder sofre mais as consequências e a queda de avaliação. E, no momento, os partidos que têm candidato a presidente da República são poder. O PT está mais exposto por ter a Presidência, mas o PSDB também terá que prestar conta de serviços nos estados que governa, caso de Minas Gerais, São Paulo e Paraná. O PSB também será cobrado. Não por acaso, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, deflagrou ontem obras em emergências de três hospitais públicos do estado. E Marina Silva, que, a princípio, parece mais beneficiada, ainda não tem partido.

Os manifestantes dizem que se os governantes, de um modo geral, perceberem o perigo da exclusão eleitoral e se agarrarem no serviço de realmente melhorar aquilo que afeta a vida das pessoas, a irritação nos olhos causada pelo gás de pimenta ontem à noite já terá valido a pena.

Bola cantada - VERA MAGALHÃES - PAINEL

FOLHA DE SP - 21/06

A decisão de Rui Falcão de convocar militantes do PT às ruas ontem preocupou o governo federal antes mesmo da explosão de violência em protestos em várias cidades do país. Segundo relatos, o presidente do partido não discutiu a ideia com o Palácio do Planalto, que desde cedo temia que um eventual confronto entre petistas e outros grupos das passeatas respingasse em Dilma Rousseff. "Se der errado, a culpa é de quem?", questionava um membro da equipe presidencial.

Liquidação Enquanto participantes da passeata em São Paulo relatavam nas redes sociais casos de agressão a militantes de vários partidos, o perfil do PT paulista no Twitter anunciava: "Lojinha do PT-SP: bandeiras oficiais com 10% de desconto".

Que ano é? Na reunião em que Dilma ouviu de Lula conselhos sobre a condução do governo, anteontem em São Paulo, estavam presentes Antonio Palocci e Franklin Martins. Os dois foram ministros de Lula, e Palocci, também do governo de Dilma.

Curso O ex-presidente recebeu ontem em seu instituto Pablo Capile, da Casa Fora do Eixo, coletivo que reúne movimentos sociais. Eles discutiram sobre os protestos generalizados pelo país e sobre cultura. Ele integra o grupo que transmite em vídeo as manifestações de São Paulo.

Mal-me-quer Numa reunião recente entre parlamentares petistas, um deputado questionou os demais sobre se tinham certeza de que Dilma gostava de alguém ali. Ninguém se pronunciou.

Ressaca Dilma ligou para Fernando Haddad depois do anúncio da redução da tarifa. Ontem, o prefeito telefonou para um pequeno grupo do PT para desabafar: disse ter ficado aborrecido com a pressão que sofreu dela e de Lula e reclamou que os dois não entendiam o efeito que o recuo teria sobre sua imagem.

Deixa estar A irritação de Haddad se estende até a membros de seu primeiro escalão que não lhe deram suporte. Passada a crise, o prefeito deve mexer na equipe para tirar os quinta-coluna''.

Debate O secretário de Segurança de São Paulo, Fernando Grella, almoçou ontem com o ex-governador José Serra no restaurante A Bela Sintra, nos Jardins, na capital. Os dois fizeram um balanço da onda de protestos.

Lentes Grella, em determinado momento, comentou o fato de as manifestações terem desviado o foco das cobranças ao governo paulista pela escalada de casos de roubo e latrocínio em São Paulo.

Mapa... Nas 24 horas depois de governo e prefeitura de São Paulo anunciarem a volta do preço das passagens para R$ 3,00, o ativismo nas redes sociais atingiu 36,8 milhões de pessoas. Os dados são de levantamento do grupo Máquina/Brandviewer.

... digital Dos usuários que postaram sobre os protestos, 59,9% são homens, e o Twitter é a rede favorita (62,8%), seguido por Facebook (23,5%) e Google+ (8,4%). A hashtag mais usada foi #vemprarua (2,4 milhões de menções). São Paulo responde por 38,4% dos posts.

Sem clima 1 O bloco governista no Senado já enxerga sinais claros de que o projeto que dificulta a criação de novos partidos deve ser derrubado quando o STF julgar o mérito, caso seja aprovado.

Sem clima 2 Os parlamentares, no entanto, pretendem levar a votação adiante no Congresso e esperam aval do Palácio do Planalto para dar nova redação à proposta, retirando do texto pontos que podem ser considerados inconstitucionais.

com ANDRÉIA SADI e BRUNO BOGHOSSIAN

tiroteio
"O governo federal deveria desistir desse projeto maluco do trem-bala e investir o dinheiro em metrô e trem nas cidades."
DO SENADOR ALOYSIO NUNES FERREIRA (PSDB-SP), criticando a defesa, por ministros, da desoneração de transportes feita pela presidente Dilma Rousseff.

contraponto


Conversa de botequim
A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado discutia projeto de Lindbergh Farias (PT) que regulamenta o rateio das gorjetas em bares e restaurantes. Roberto Requião (PMDB) ironizou a defesa dos garçons pelo petista.

--Vou sugerir aos meus amigos e companheiros do Bar Cervantes, em Copacabana, que coloquem uma fotografia do Lindbergh na sala, como patrono dos garçons.

Após cochichar com Pedro Taques (PDT), acrescentou:

--E o senador Taques faz uma sugestão bem brasileira: que, diante da foto do Lindbergh, o cliente peça uma pinga e jogue um pouco no chão para o santo.

Acerto de contas - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 21/06

A oposição não está só. Também há petistas associando a queda da popularidade da presidente Dilma com os protestos. Esses petistas, em sua maioria paulistas e do entorno do ex-presidente Lula, fomentam o movimento "Volta Lula" a cada dificuldade. O argumento de agora é que Dilma foi vendida como "a porta de entrada do PT na classe média", segmento que tomou as ruas.

Rega-bofe
No jogo Brasil x Japão, no Mané Garricha, um garçom encosta na presidente Dilma. Ela olha a bandeja e pergunta: "O que é isso?". "Caviar", responde o garçom. "Eu sei! Mas em jogo de futebol, que eu saiba, come-se pipoca, churrasquinho de gato e cerveja, para quem bebe", respondeu, irritada. Ao olhar para os lados, cascatas de camarões, champanhe, uísque. Silêncio constrangedor. Em seguida, os garçons voltaram com pipoca nas bandejas.

Frase
"A conta será paga nos três níveis. E pelos três Poderes. Os consensos:a plataforma que viabilizou os protestos foi a internet; o denominador comum é o sentimento antissistema (tudo aí incluído...)"
Antônio Lavareda Cientista político, consultor do governo FHC

De olho nas ruas
O vídeo da presidente Dilma ("Meu governo está ouvindo estas vozes pela mudança") bateu todos os recordes, com 551 mil visualizações, no YouTube. O anterior, 198 mil, era do ex-presidente Lula defendendo Julian Assange (WikiLeaks).

Estado de espírito
A despeito de o PP ser adversário do PT em vários estados, o ministro Aguinaldo Ribeiro (Cidades) diz que seu partido vai defender a manutenção da aliança federal e o apoio à reeleição da presidente Dilma. Ele explica que "a questão regional são posições administráveis". O partido aposta na vitória da senadora Ana Amélia (RS).

Barrados no baile
Os protestos não adiaram apenas o lançamento do Plano Safra do Semiárido, hoje, em Salvador. A presidente pretendia aproveitar que estaria na Bahia para se encontrar e posar para fotos ao lado do técnico da seleção, Luiz Felipe Scolari.

Articulação em favor de Dallari
As duas baixas na Comissão da Verdade, Gilson Dipp e Cláudio Fontelles, preocupam o governo. A presidente Dilma havia delegado à comissão escolher um nome de consenso para a vaga de Dipp. Ela deve tomar a frente do processo e escolher um nome que não tenha nenhuma resistência. Nos ministérios petistas, há muita simpatia pela escolha do jurista Dalmo Dallari.

Mais votado x mais alinhado
Cresce entre os petistas no governo a simpatia pela indicação de Deborah Duprat para o lugar de Roberto Gurgel na PGR. Sua posição favorável à lei que inibe a criação de novos partidos agradou. O primeiro da fila é Rodrigo Janot.

Rodada de reconhecimento
O ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) recebe semana que vem os três indicados para a PGR: Rodrigo Janot, Deborah Duprat e Ela Wiecko. A presidente Dilma tem até 15 de agosto para escolher o substituto de Roberto Gurgel.

Avaliação do governo Dilma: O protesto é contra o "status quo". É contra tudo e contra todos. Vai respingar no governo federal. Mas todo mundo vai pagar

O truque envelheceu - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 21/06

A aplicação do velho lema que aconselha adesão ao inimigo que não se pode vencer é o que se evidenciou na convocação da militância petista às ruas feita - e depois negada - pelo presidente do PT, Rui Falcão.

Ousado, foi o primeiro partido a tentar marcar presença nos protestos a despeito do repúdio dos participantes a quaisquer conotações partidárias. "Não temos medo das ruas", disse Falcão.

As ruas, no entanto, não receberam bem essa tentativa do PT de posar de estilingue para se desviar das pedras atiradas nas vidraças. Não as reais, das depredações cada vez mais difíceis de serem qualificadas como atos isolados devido à constância com que têm ocorrido em praticamente todas as manifestações País afora.

As pedras que o PT quer evitar são as simbólicas, atiradas como expressão do descontentamento geral com serviços mal prestados pelo poder público e o mau comportamento de representantes do poder político.

A estratégia é clara e já estava delineada no discurso da presidente Dilma Rousseff logo após reunião de emergência para tratar dos protestos com o ex-presidente Lula, o marqueteiro João Santana, o presidente do PT e o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, recentemente levado à condição de eminência parda.

Dilma parou de chamar críticas de "terrorismo" e tratou de demonstrar seu apreço à "mensagem direta das ruas", cuja essência, segundo ela, é "o repúdio à corrupção e ao uso indevido de dinheiro público".

Lula convocou para um encontro as centrais sindicais das quais ouviu - e segundo consta anotou - queixas contundentes aos modos da pessoa que conseguiu eleger convencendo a maioria de que seria a mais preparada para governar o Brasil. Prometeu ajeitar o meio de campo, mas ao que se sabe não defendeu sua criatura.

O partido e o governo fizeram questão de deixar patente a insatisfação com o comportamento do prefeito Fernando Haddad, atribuindo a ele o desgaste por não ter percebido a real dimensão dos movimentos e atuado politicamente no sentido de obter dividendos. Como se qualquer outra autoridade tivesse notado e estivesse preparada para reagir à altura sem prejuízos políticos. Haddad virou o bode expiatório dos companheiros.

Juntem-se esses movimentos e o que se obtém é o desenho de uma manobra na qual o PT é mestre: a transformação do malefício em benefício mediante a manipulação de fatos e falas.

Fez isso diversas vezes ao longo dos últimos dez anos (para não falar da época em que foi oposição na posse da bandeira ética chamada de "udenismo" quando levantada pelos adversários), com destaque para o escândalo do mensalão que conseguiu disfarçar como "defeito do sistema" até o Supremo Tribunal Federal rasgar essa fantasia.

Tentou agora de novo. Em sua nota convocatória, Falcão faz referências à identidade do partido com os "movimentos populares" e diz que a participação do PT impede que a "mídia conservadora" e a "direita" influenciem a pauta das manifestações.

Seria engraçado não fosse mais um exemplo da desfaçatez de um partido que governa o Brasil há dez anos e agora tenta capitalizar insatisfações que ele mesmo transformou em panela de pressão ao obstruir todos os canais de expressão do contraditório mediante o uso abusivo dos instrumentos de poder.

A julgar pela reação das tão queridas ruas, a manipulação encontrou um limite e o velho truque envelheceu.

Que dúvida... O mundo político insiste em dizer que desconhece as causas dos protestos. Recorrendo ao de Nelson Rodrigues: se quem protesta não sabe exatamente no que bate, seus alvos sabem perfeitamente por que apanham.

Sra. Rousseff, alguma coisa acontecendo - FERNANDO GABEIRA

O ESTADÃO - 21/06

Alguma coisa está acontecendo e eu não sei exatamente o que é. Antes dos conflitos de rua no Brasil, recebi o livro de Manuel Castells Redes de Indignação e Esperança. Castells é professor numa universidade da Califórnia e dedica-se ao estudo das redes e sua importância neste início do século. Examinou a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, o movimento dos indignados na Espanha e o caso da Islândia.

Antes mesmo desses movimentos, Castells via nas redes o caminho por meio do qual uma nova geração de ativistas buscaria mudança política fora do alcance dos métodos habituais de controle político e econômico. Segundo Castells, esses movimentos são mais voltados para explorar o sentido da vida do que para conquistar o Estado capitalista.

Essa observação é, para mim, curiosa. Nos anos 60, alguns, como eu, transitaram do existencialismo para o marxismo. Agora, o existencialismo parece estar de volta. De novo, uma parcela da juventude sai em busca do sentido: conectar as mentes, criar significados, contestar o poder é a frase que Castells utilizou para sintetizar o programa dessas redes.

Se isso é verdadeiro para o Brasil, os R$ 0,20 de aumento dos ônibus foram apenas um dos pretextos para expressar a revolta. E os grupos da esquerda clássica, apesar de seu estardalhaço, funcionam aí apenas como aquelas lavagens na pedra que dão aparência de velho ao jeans que acaba de ser fabricado.

Criar significados em política significa também colocá-los na mesa para o debate. Não posso, por exemplo, condenar o Movimento Passe Livre porque no passado apoiei a tese do fim do passaporte no mundo. Até que me deparei com a gigantesca realidade da imigração internacional. A inquietação com o transporte coletivo pode ser existencialmente resolvida com a palavra de ordem passe livre. Mas apenas ela não muda a realidade dos que usam ônibus no Brasil.

O preço é amparado no aumento da inflação, que não deveria ser a única referência. Conforto, pontualidade, respeito ao usuário, condições de trabalho dos motoristas, tudo precisa ser monitorado. Mas existe uma cumplicidade histórica de vereadores e deputados com as empresas de ônibus. No Rio de Janeiro, por anos, houve até pagamento mensal na Câmara. Mensalinho, mensalão, olha pro céu olha pro chão.

Lutar só pelo passe livre nos remete a um ônibus utópico. O que fazer com pessoas esgotadas depois de um dia de trabalho? Dizer, ano após ano, "coragem, irmão, o reino de Deus está próximo"?

A única cidade que adotou o passe livre, Porto Real, no Rio de Janeiro, o fez para atrair grandes empresas que queriam se instalar lá: Coca Cola e Citroën Peugeot. Foi um cálculo econômico e eu vou lá para estudar o caso.

Um dos aprendizados mais importantes para a geração que saiu às ruas no passado é o compromisso com a democracia, o que significa rejeitar a tese de que os fins justificam os meios. A violência derruba as melhores intenções. Ela é o inimigo interno que corrói a simpatia popular e acaba esvaziando as ruas. Em alguns lugares do mundo, governos usam provocadores infiltrados para desmoralizar o adversário.

Conselhos são vistos com desprezo num momento como este. Mas a história não começa do zero. Essa presunção é absurda e só tem validade na cabeça do PT, que acredita ter inaugurado o Brasil, em 2003.

Como as inquietações se transformam em mudanças, se a própria timoneira parece perdida? Dilma diz que está tudo maravilhoso, e tome vaia da torcida. O governo trouxe a Copa do Mundo para o Brasil por achar que isso era uma trunfo eleitoral imbatível. Todos os seus defensores afirmam que foi uma condenação da classe média alta. Como se fosse preciso examinar a renda antes de avaliar o peso de um protesto e como se as ruas de todo o País, de São Paulo a São Gonçalo, estivessem tomadas por gente da alta classe média.

É um momento duro para ela. Mas foi o PT que fez baixar o mais pesado manto de cinismo sobre a vida política brasileira. Dilma afirmou um dia que não tem perfil de candidata. Concordo com sua análise. No entanto, foi eleita num período de crescimento econômico, de esfuziantes gastos oficiais e milhões consumidos na máquina de propaganda.

Isaiah Berlin compara as habilidades de um governante às de um motorista que precisa de reflexos porque se vê, constantemente, diante de situações novas e inesperadas. De nada adiantam erudição e conhecimento histórico nem o batalhão de conselheiros. Há uma solidão inescapável no ofício do estadista.

Dilma foi embriagada pela dose de otimismo que o marketing ministrou. Afirma que são terroristas os que alertam para a inflação. Em seguida, diz que o governo vai dar a volta por cima. Segundo a própria canção, só se dá a volta por cima depois de uma queda e de sacudir a poeira.

Ela lançou uma lei de acesso a informações e proíbe os assessores de divulgar dados sobre suas viagens oficiais, hotéis, comitivas, gastos, sobretudo gastos.

Quando a maré baixa, dizem os analistas econômicos, fica evidente quem está nadando nu. Isso vale para os atores políticos nas grandes viradas históricas.

Lula diz que elegeu postes para melhor iluminar o Brasil. Referia-se a Dilma e a Fernando Haddad. É muito poético, até que se descubra a realidade úmida do poste, quando adotado pelos cachorros da vizinhança.

Para mim, o sistema de dominação que transformou a política brasileira num bordel entrou em declínio.

Na Islândia, que é muito pequena para ser um modelo, as revoltas desembocaram numa substituição do governo, numa nova maneira de gastar o dinheiro e numa Constituição moderna, que busca integrar a participação popular, potencializada pela revolução digital.

Alguma coisa está acontecendo no Brasil. Você pode ser contra, a favor ou mesmo ficar em cima do muro. Mas não pode negar a frase de Galileu Galilei: "Eppur si muove" (ainda se move).

Tarifa zero, um delírio? - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 21/06

SÃO PAULO - O ônibus deve ser grátis? Embora a proposta de tarifa zero seja, muitas vezes, pintada como uma utopia de jovens desmiolados ou radicais, a pergunta faz sentido.

Metrópoles desenvolvidas arcam com parte do custo do transporte público. Fazem-no não só por populismo dos políticos locais mas também para imprimir mais eficiência ao sistema. E, se a discussão se dá em termos de definir o nível ideal de subsídio, a gratuidade deixa de ser um delírio para tornar-se a posição mais extrema num leque de possibilidades.

Defendo o realismo tarifário para quase tudo, mas há casos em que ele não funciona. O ônibus é um deles. Se o passageiro tivesse de pagar integralmente o valor da viagem, a tarifa aumentaria sempre que os custos subissem por fatores tão diversos como o dissídio dos motoristas e a piora do trânsito. Isso seria um incentivo a mais para o cidadão trocar o transporte público pelo carro particular, com impacto negativo sobre o tráfego. O resultado é um círculo vicioso em que todos andamos mais devagar.

O remédio é criar estímulos para as pessoas deixarem o carro em casa e usarem o transporte coletivo. O mais óbvio deles é o preço. Viajar de ônibus tem de ser bem mais barato do que de carro. Se for mais rápido também, melhor, daí a necessidade dos corredores exclusivos. Outro mecanismo eficaz é o pedágio urbano, mas ainda não surgiu prefeito macho o bastante para adotá-lo.

Apesar dessas considerações, sou contra a tarifa zero, porque ela traz uma outra classe de problemas que já foi bem analisada pelo pessoal da teoria dos jogos: se não houver pagamento individual, aumenta a tendência de as pessoas usarem ônibus até para andar uma esquina, o que é ruim para o sistema e para a saúde. A passagem barata é preferível à grátis.

Para complicar mais, vale lembrar que a discussão surge no contexto de prefeituras com Orçamentos apertados e áreas ainda mais prioritárias como educação e saúde para atender.

Protestos - de onde vêm e para onde irão - WASHINGTON NOVAES

O ESTADÃO - 21/06

Ao mesmo tempo que se amiúdam na comunicação análises preocupadas com a situação econômica do País, vão-se tornando mais frequentes também manifestações populares de inconformismo e desapreço por governos, de protesto contra preço e qualidade de transportes, custo de vida, insatisfação com a saúde e educação ou ainda por causa do custo de construção de estádios de futebol. Que significado político mais amplo podem ter? Muitos, certamente. Mas índices de inflação e custos de alimentos têm tido presença importante.

Índices de inadimplência de famílias perante o sistema financeiro podem ser, por isso, um dos indicadores, já que em abril (Estado, 11/5) atingiram 7,6%. Já a porcentagem de famílias endividadas subiu, em maio, para 57,1%, a maior desde 2006. E 19,5% delas tinham mais de 50% da renda comprometido com dívidas. Os calotes no sistema bancário subiram para 19,5% em abril. Essa é uma das razões para o índice de confiança do consumidor haver baixado uns 6% desde abril do ano passado.

Segundo artigo de Amir Khair neste jornal (16/6), "o que causou a inflação foram os alimentos in natura", cujo preço cresceu 53% nos últimos 12 meses, inclusive por motivos climáticos (onde nos faltam políticas adequadas). Mas não apenas por isso. Diz a Organização para Alimentação e Agricultura da ONU (FAO) que é alta a perda de áreas plantadas com alimentos no mundo por causa do alto custo dos agrotóxicos e da produção em geral (25/3). No Brasil, arroz e feijão já perderam 50% das áreas plantadas há 25 anos (Folha de S.Paulo, 7/4). O feijão, inclusive por causa da seca no Semiárido, teve a produção reduzida em 7%. E agora os preços subiram 20% em um ano.

Tudo isso pesa muito num país que, embora tenha reduzido a pobreza por meio de programas como o Bolsa Família, de até R$ 70 mensais por pessoa, ainda tem estas e milhões de outras vivendo abaixo da linha da pobreza, que segundo a ONU é de US$ 1,25 (cerca de R$ 2,50) por dia, ou R$ 75 por mês, por pessoa. E nas palavras do papa Francisco (Estado, 2/5), "viver com 38 (pouco mais de R$ 100) por mês é trabalho escravo, vai contra Deus". Em sete regiões metropolitanas a taxa de desemprego nos primeiros meses do ano passou de 10%. E a população ocupada em fevereiro diminuiu 2% (Estado, 29/3). Caíram os índices de ocupação na indústria, na construção e nos serviços (26/4).

Christine Lagarde, dirigente do FMI, chama a atenção (5/6) para o "enfraquecimento da economia mundial em meses recentes". A seu ver, "perde ritmo a expansão econômica dos países emergentes" e no Brasil são "menos brilhantes" as perspectivas de investimentos. Não chega a surpreender. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) adverte (3/5) para os riscos de nova crise bancária na Europa, onde os bancos estão "precariamente capitalizados" e o PIB de 34 países pouco passará de um crescimento de 1% este ano. No Brasil, o superávit nas contas externas, de US$ 1,6 bilhão em 2007, recuou para um rombo de US$ 54,2 bilhões em 2012 (Panorama Econômico, 9/6). Por tudo isso, não são otimistas as projeções do mercado financeiros para o crescimento econômico este ano, juntamente com um "rombo externo" recorde e taxas de juros altas.

É inevitável, assim, retornar à crise econômico-financeira externa e às perguntas que vem suscitando nos últimos anos: quem pagará o custo astronômico das "bolhas financeiras" que explodiram, os bancos ou a sociedade (por meio da redução dos programas sociais e da alta do desemprego)? As classes de maior renda ou as menos favorecidas? Esses custos se limitarão aos países industrializados ou eles também tentam e tentarão repassá-los aos demais? Como tudo isso se traduzirá nos países fora da Europa e da América do Norte?

O desemprego nos EUA continua alto para padrões norte-americanos (7,6%). A crise de 2008 "deixou um déficit de 14 milhões de empregos no mundo, segundo a Organização Internacional do Trabalho; somados aos 16,7 milhões de jovens que chegarão ao mercado de trabalho em 2013, o déficit global será de 30,7 milhões de empregos" (Agência Estado, 4/6). Na Europa, o desemprego já está em 12,2%, ou 19,37 milhões de pessoas. Entre os menores de 15 anos, num recorde de 24,4% - 1 em 4 jovens desempregado; na Espanha, total de 26,7%; Portugal, 17,5%; Grécia, quase 27% (entre jovens, 64%). Não por acaso, 1 milhão de pessoas migraram da Europa desde 2008, o maior êxodo em meio século. Ainda assim, 40 milhões de pessoas no mundo ascenderão à classe C (6/4), o que aumentará o consumo e, certamente, terá reflexos nos preços, principalmente de alimentos.

É preciso dar atenção especial, no Brasil - pelas características da população -, ao quadro dos alimentos. Os preços dos insumos usados na agropecuária, controlados por um cartel global de fabricantes, estão em forte alta e o País é o maior consumidor mundial. O dos herbicidas subiu 71,1%; o dos inseticidas, 66,4%; e o dos fungicidas, 55,3% (IBGE, 13/5). Consumimos mais de 1 milhão de toneladas em 2010, segundo a Anvisa. Cerca de 1/5 do consumo mundial.

É fundamental ter muita atenção nessa área. Inclusive porque os protestos e manifestações de insatisfação recentes mostram que chega também a nós o caminho observado em muitos países da África e do Oriente Médio, de movimentação política não comandada por partidos, e, sim, por redes sociais - sem projetos políticos claros e definidos. Se não reorientarmos nossas políticas - que insistem num desenvolvimentismo à outrance (que inclui, por exemplo, incentivos bilionários à fabricação de automóveis que ninguém sabe onde poderão trafegar), conjugado com heranças da política externa concebida na década de 1960 -, certamente teremos pela frente momentos muito difíceis. Ainda mais com a grande maioria da corporação política praticamente descolada da sociedade, voltada para os interesses diretos de seus membros.

Aprendizado essencial - MARINA SILVA

FOLHA DE SP - 21/06

Ninguém deveria estar surpreso, sabíamos que iria ocorrer. A internet ajuda a mudar tudo: a cultura, os negócios, as comunicações. Por que só a política não seria afetada?

Carlos Nepomuceno diz que três fatores ajudaram a transformar o mundo: a impressão em papel, a Revolução Francesa e a independência dos EUA. Eles compuseram a realidade de dois séculos e nos trouxeram até aqui, mas são insuficientes para configurar um mundo com 7 bilhões de pessoas e uma ferramenta que quebra as estruturas convencionais para intermediar a informação, a internet.

Tenho falado, aqui mesmo na Folha, daquilo a que chamo movimentos de borda. Eles se afastam do centro político estagnado, das instituições enrijecidas, das disputas por dinheiro e poder. Neles predomina um ativismo autoral, não mais dirigido por partidos ou lideres carismáticos. A presença destes é residual e produz incômoda sensação de oportunismo. Não há comando único, há relação horizontal e lideranças móveis: hoje lidero, amanhã sou liderado; hoje sou arco, amanhã sou flecha.

Esse ativismo não tem porto, carrega sua âncora e estaciona onde quer. Basta ver quantos sites temporários há na internet, usados numa mobilização ou num momento.

O essencial é perceber o que está latente. Não são os 20 centavos no Brasil, as árvores da praça na Turquia, ou qualquer demanda simbólica visível. O que está em pauta é a democratização da democracia. As pessoas não querem ser meros espectadores, lugar em que foram colocadas pelos partidos que detêm o monopólio da política. Querem ser protagonistas, reconectar-se com a potência transformadora do ato político.

Deve-se reconhecer esse desejo e respeitar o sujeito político que surge. Muitos se apressaram em desqualificar os novos movimentos, os abaixo-assinados, a campanha de defesa das florestas, a solidariedade aos índios, o "Fora Renan". Agora se esforçam para descobrir uma forma de interlocução, mas mantendo a ansiedade de liderar, usurpar, controlar.

Não basta dar 20 centavos para tirar o incômodo da sala. O que está havendo é significativo: no país do futebol, durante a Copa das Confederações, as pessoas protestam contra o custo dos estádios e dizem que queremos nosso dinheiro em saúde e educação.

O Brasil pode aprender a fazer diferente: nem transição eterna e lenta nem ruptura brusca, mas o diálogo produtivo e criativo da democracia ampliada. Temor de vandalismo? Ora, cultivemos uma cultura de paz. Prefiro sentir-me representada pelas pessoas que estão nas ruas, dizendo o que não querem, a exigir que tenham projetos definidos.

Não há salvadores da pátria, há homens e mulheres que trabalham juntos. Que seja este nosso aprendizado essencial, nossa maior mudança.

Partidarismo rejeitado - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 21/06

O fato de militantes petistas com suas bandeiras terem sido rechaçados nas manifestações em diversos estados do país ontem é um bom indício de que o movimento que chegou aos corações e mentes da classe média não se deixou contaminar por partidarismos.

Depois de uma reunião da presidente Dilma com o ex-presidente Lula em São Paulo, onde estranhamente estavam presentes o presidente do PT Rui Falcão e o marqueteiro da presidência João Santana, ficou estabelecido que o prefeito Fernando Haddad deveria reduzir os preços das passagens, e o partido entrar nas manifestações ao lado dos movimentos sociais que controla - ONGs de diversos tipos, o MST a CUT, a UNE.

Uma reunião partidária, como se vê, com a presidente da República recebendo instruções de seu tutor político, numa clara demonstração de que depende dele para se posicionar em situações de crise. A desorientação petista é tamanha que há correntes dentro do partido que pressionam o governo a dar uma guinada à esquerda para supostamente se sintonizar com esses movimentos.

Já há movimentos dentro do PT a exigir do governo que deixe de fazer superávit primário para pagar a dívida e use esse dinheiro para investimentos em saúde e educação. Ou então para que o PT deixe de lado as coalizões partidárias com o PMDB e que tais e faça uma ligação direta com as massas. Renasce em alguns setores da esquerda o sonho da democracia direta, tão em voga nos regimes bolivarianos da América Latina.

É difícil saber no que vai dar tudo isso. Não há como definir o que vai prevalecer nessas manifestações.

Assim como há baderneiros infiltrados e toda uma gama de manifestantes dispostos ao vandalismo, que consideram a depredação a melhor maneira de enfrentar os governos, há também no próprio movimento do Passe Livre uma predominância de pensamento de esquerda radical. Agora que conseguiram a redução do preço das passagens, querem a tarifa zero e outras reivindicações que não estão na pauta da maioria que foi às ruas.

A tarifa zero é uma utopia do bem, que se pode tentar alcançar, e seria boa para todo mundo, embora me pareça impossível em cidades grandes como São Paulo e Rio. Mas há outras reivindicações que nada têm a ver com a grande massa que participou das manifestações, como o protesto contra o "latifúndio urbano".

E querem introduzir na pauta também a reforma agrária, uma reivindicação bastante discutível hoje no Brasil onde o agronegócio é um dos sustentáculos da economia brasileira e o latifúndio improdutivo praticamente desapareceu. Um processo de modernização agropecuária que, hoje, caracteriza o capitalismo no campo, fez com que nos últimos 30 anos o latifúndio se transformasse em grande empresa rural, tornando-se produtivo.

A maioria não está nem com os baderneiros nem com essa politização que, embora não seja partidária, é política, de grupos que lideram os movimentos.

A maioria está nas ruas por causa da melhoria do dia a dia, quer que o dinheiro público seja gasto com transparência e com prioridades claras, esse é o foco central da maioria. E é por isso que as manifestações contra o aumento de ônibus cresceram se ampliaram.

Houve a adesão de um grupo grande da classe média que está sentindo os efeitos da inflação, dos péssimos serviços públicos, da opressão do Estado, que viu nessas manifestações um caminho para extravasar suas frustrações e exprimir suas reivindicações.

E eles sabem porque a vida não é melhor: porque o dinheiro público é desperdiçado, roubado; os governos de maneira geral têm projetos imediatistas de poder e não projetos de longo prazo para o país.

Quem quiser levar os protestos para caminhos radicais, vai perder apoio.

No colo de Dilma - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 21/06

BRASÍLIA - Os governos recuaram, mas a guerra continua, mais forte do que nunca. Os manifestantes se descobrem com imenso poder, multiplicam-se pelo país, desdenham os partidos e, ontem, ameaçaram cercar o Palácio do Planalto.

As tropas fiéis à presidente Dilma Rousseff tiveram de montar duas trincheiras: uma de defesa do Planalto, fisicamente; outra da própria presidente, politicamente.

Enquanto os policiais fazem um cordão de isolamento para evitar que os manifestantes batam às portas ou nas vidraças do Planalto, os (poucos) políticos realmente dilmistas tentam neutralizar a base aliada e buscar um rumo para a presidente. Mas quem está no comando é Lula.

O núcleo do poder já discute a conveniência, ou a emergência, de jogar o ministro Guido Mantega às feras, antes que as manifestações e as notícias desastrosas da economia se embolem numa só bomba e caiam dentro do Planalto, no colo de Dilma.

As ruas do país estão em chamas, enquanto a Bolsa derrete, o dólar dispara e o índice de emprego --que se mantém muito bom-- já não dá para o gasto político. Foi engolido pelas más notícias na economia e pela frustração popular.

O curioso é que, saia Mantega ou não, a protagonista é outra e o filme está ficando repetitivo. Em janeiro, como escrito neste espaço, a ordem de Lula era "destravar" a economia e o governo ou, quem sabe, destravar a própria Dilma. Cinco meses depois, lê-se na própria Folha que agora Lula quer dar uma "chacoalhada" no governo (ou, quem sabe, chacoalhar a própria Dilma?).

De lá para cá, a coisa desandou rápida e surpreendentemente. A acusação a Dilma é que, em dois anos, ela torrou o patrimônio político, econômico e social que herdou de Lula. A família lulista está tão em pé de guerra quanto os manifestantes que, por pouco, não subiram a rampa do Planalto na quinta-feira de fúria. Até o fechamento desta edição.

O governo e o clamor das ruas - ROGÉRIO FURQUIM WERNECK

O GLOBO - 21/06

Oportunismo do Planalto ajudou a precipitar a onda de protestos


Perplexo, o país tenta entender a onda de manifestações que vem tomando as ruas nas últimas semanas. Há muitas perguntas cruciais sem resposta satisfatória. Como e por que tais manifestações puderam se alastrar por todo o País em tão pouco tempo? Que insatisfações, aparentemente difusas e generalizadas, de fato as inspiram? E por que esse movimento ganhou tanta força logo agora, neste exato momento? São perguntas que o próprio governo deve estar se fazendo.

Três das fontes de insatisfação que vêm sendo apontadas como inspiradoras dos protestos deveriam merecer cuidadosa reflexão em Brasília: a inflação, os reajustes de tarifas de transporte coletivo e os investimentos requeridos para que o País hospede a Copa e as Olimpíadas.

A esta altura está mais do que claro que a presidente Dilma Rousseff mostrou complacência excessiva com a inflação. Basta notar que o Banco Central se dará ao luxo de atravessar todo o atual mandato presidencial com a inflação bem acima do centro da meta. Agora, colhendo o que plantou, o governo constata que uma inflação de 6,5% ao ano já começa a gerar tensões altamente desgastantes.

No vale-tudo em que se converteu a condução da política econômica nos últimos meses, o governo se permitiu tentar conter a inflação por meio de intervenções diretas em preços de maior relevância na composição do índice. No início do ano, desenterrando prática deplorável e oportunista, típica do período de alta inflação, o Planalto pressionou os prefeitos de São Paulo e do Rio para que adiassem o reajuste de tarifas de transporte coletivo por alguns meses.

Fascinado com os supostos benefícios imediatos dessa manipulação, o governo não parece ter dado a devida atenção aos custos do abandono da regra de reajustes de tarifas com periodicidade claramente definida. Quebrando a regra, sinalizou a possibilidade de que a magnitude e o momento do reajuste de tarifas de transporte coletivo passassem a ser objeto de negociação. Possibilidade na qual se agarram, agora, os manifestantes de cada grande cidade do País.

Percebendo afinal as proporções do equívoco, o Planalto deve estar amaldiçoando o momento em que teve a infeliz ideia de abrir essa caixa de Pandora. Se não tivesse “conseguido adiar” os aumentos de tarifas de transporte coletivo em São Paulo e no Rio e os reajustes tivessem sido anunciados normalmente nas datas previstas, no início do ano, é bem possível que os episódios que deflagraram a atual onda protestos não tivessem ocorrido.

Mas a insatisfação com os serviços de transporte coletivo nas grandes áreas metropolitanas do País tem razões bem mais profundas. A ilusão de que boa parte da população urbana poderia continuar para sempre gastando mais de três horas por dia entre a casa e o trabalho, sem maiores protestos, não fazia sentido. Mais cedo ou mais tarde, a conta do vergonhoso descaso com as carências do País em transporte de massa estava fadada a aparecer. Mas o governo tem outras prioridades. Insiste em incentivar a demanda de automóveis e subsidiar gasolina. E, por razões ideológicas, prefere investir em áreas, como petróleo e energia elétrica, onde a maior parte do investimento poderia perfeitamente ser deixado a cargo do setor privado.

Merece também menção a previsível ressaca de parte da opinião pública com o oba-oba dos custosos investimentos necessários para que o País hospede a Copa e as Olimpíadas. Quanto a isso, parece ter havido cálculo político equivocado em Brasília. “Pão e circo” é uma receita milenar e consagrada de populismo. Mas na Roma Antiga não havia nem Fifa nem Comitê Olímpico. E a entrada no Coliseu era grátis. Já aqui, o povão, visivelmente irritado, ficará de fora do dispendioso circo que está sendo montado. E o governo agora se deu conta de que o público pagante, em eventos transmitidos por televisão a 100 milhões de eleitores, será do tipo que vaia presidente da República. A ideia não era bem essa. Mas agora é tarde.

Fazer contas - CRISTOVAM BUARQUE

GAZETA DO POVO - 21/06

Há oito anos a população do Brasil se dedica à construção de estádios para a realização da Copa. Não se pode esperar algo diferente em um país que já foi chamado de “pátria de chuteiras”. A população do Distrito Federal, por exemplo, ainda não tem times que atraiam torcedores, mas está deslumbrada com um monumental estádio para 71 mil espectadores a custo superior a R$ 1,6 bilhão. Poucos, porém, fizeram as contas do que significa este custo.

A obra custou R$ 800 para cada brasiliense. Considerando apenas os adultos, o custo subiria para cerca de R$ 3 mil por pessoa. Se considerar o dinheiro que deixou de ir para os 208 mil moradores mais necessitados, com rendimentos de até um salário mínimo mensal, o custo foi de cerca de R$ 8 mil, mais ou menos um ano de trabalho de cada um deles. Se cada brasiliense soubesse que esse valor saiu do seu bolso e conhecesse seus usos alternativos, a euforia com o estádio não seria tão grande.

Com os recursos gastos com o estádio seria possível financiar a formação de 6,8 mil engenheiros de excelência, desde a 1.ª série do ensino fundamental em superescolas de qualidade internacional, ao custo anual de R$ 9 mil por aluno, pagando R$ 9,5 mil por mês para cada professor, até o fim do curso de Engenharia, em cursos universitários de excelência iguais aos do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). Esse número seria maior que a soma de todos os engenheiros já formados no ITA nos seus 64 anos de funcionamento. Além disso, a formação seria pública, igual para os filhos dos mais pobres e dos mais ricos, desde que tenham vocação e persistência.

Se considerarmos que cada um desses profissionais contribuiria para o desenvolvimento do país e geraria uma renda no mínimo igual ao salário, tomando para efeito de simulação a quantia de R$ 20 mil por mês, o montante gerado ao longo de 35 anos de trabalho resultaria em renda de aproximadamente R$ 63,6 bilhões. Algo equivalente a 40 estádios similares ao novo Mané Garrincha. Mais importante ainda é que esses profissionais serviriam como base para o desenvolvimento científico e tecnológico de que o Brasil tanto necessita.

Se considerarmos o custo de todos os 12 estádios da Copa, atualmente orçados em R$ 7,2 bilhões (e que certamente será maior), deixaremos de formar cerca de 30 mil cientistas e tecnólogos da mais alta qualidade. Por mais benefícios que traga a Copa, não há dúvida de que investir em ciência e tecnologia seria um melhor uso do dinheiro na construção do futuro do país. Alguns vão dizer que aproximadamente 4 mil trabalhadores receberam seus salários por terem emprego diretamente gerado pela obra no DF, mas eles poderiam ganhar o mesmo construindo hospitais e escolas. Podem dizer também que as arenas vão permitir atividades esportivas e culturais, mas isso já seria possível com pequenas melhorias nos estádios anteriores.

Os mais de 500 mil jovens que nos últimos dias fizeram das nossas ruas a maior arquibancada do Brasil ainda não fizeram contas. Se fizessem, não sairiam das ruas até que as prioridades dos governantes fossem outras, e visassem especialmente creches, educação, saúde, transporte público e mobilidade.

O Brasil tem muitos problemas; a juventude está percebendo isso, tanto nas grandes cidades como nas médias e pequenas. Mas um dos mais graves é não fazer contas.

A pergunta das ruas - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 21/06

Perplexos como toda a gente diante da força da onda de protestos que se espraiaram pelo País contra o aumento das tarifas de transportes urbanos, em primeiro lugar, os governos dos maiores Estados e municípios brasileiros, São Paulo e Rio de Janeiro, seguindo o exemplo de numerosos outros, capitularam na quarta-feira, 13 dias depois da eclosão das primeiras manifestações na capital paulistana. Os bilhetes voltaram a custar, respectivamente, R$ 3 e R$ 2,75, abolidos, nos dois casos, os execrados R$ 0,20 de aumento que desataram a ira geral - e acrescentaram ao vasto repertório brasileiro de siglas o MPL do Movimento Passe Livre, que defende o transporte coletivo gratuito e promete persistir na pregação.

O recuo mais dramático foi o do prefeito petista da capital, Fernando Haddad. Na véspera da rendição, não apenas a sede da municipalidade foi atacada por um bando de vândalos, como o prédio onde ele mora com a família esteve perto de ser invadido por agressores que o chamavam, entre outras coisas, de "covarde". Na manhã seguinte, ele foi o oposto disso.

Com um desassombro raro entre os governantes de quaisquer partidos, chegou a dizer que a redução das tarifas seria "uma decisão de caráter populista". O que ele queria era que o governo federal bancasse, de alguma forma, o custo da medida que a presidente Dilma Rousseff e o patrono de ambos, Luiz Inácio Lula da Silva, o pressionavam a tomar.

Instruído pela chefe, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse não. A Prefeitura que ajustasse o seu orçamento e os seus programas às receitas de que teria de abrir mão - R$ 200 milhões já este ano. Isolado, Haddad ainda teve o dissabor de receber uma ligação do prefeito peemedebista do Rio, Eduardo Paes, de quem ouviu que "não aguentava mais" e resolvera ceder. Do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, tampouco tinha algo a esperar. Ele argumentou que as coisas só ficariam piores sem a diminuição das passagens (que incluem as do metrô e trens de subúrbio, de alçada do Estado). O retrospecto dos dias recentes decerto lhe dava razão.

Mas o prognóstico pessimista não há de ter sido o principal fator de seus cálculos - nem nos de todos os demais protagonistas, a começar da presidente que tem em comum com o tucano o fato de serem candidatos à reeleição nas suas esferas. No Rio, o governador Sérgio Cabral já não pode sê-lo, mas joga o seu futuro na candidatura do vice Luiz Fernando Pezão, a ponto de condicionar o seu apoio a Dilma à desistência do aspirante petista, senador Lindbergh Farias. Nas democracias de massa não há como ser diferente: a urna é a servidão dos políticos, e a racionalidade das planilhas é levada de roldão quando o sentimento popular se exprime com a súbita contundência destes dias de som e fúria.

Ela faz supor que a remoção dos R$ 0,20 talvez não equivalha à retirada do proverbial bode da sala, após o que os moradores se resignam a conviver com as mazelas de que tanto reclamavam antes de tudo ficar pior. As concentrações podem refluir por fadiga do material de que se compõem - embora poucos pareçam se dar conta do quanto são, numa palavra, divertidas para quem delas participa, principalmente se não tiver de acordar cedo no dia seguinte.

Mas há na atmosfera a forte impressão de que os protestos expuseram o nervo da demanda compartilhada pela imensa maioria das populações urbanas pela mudança no quadro de descalabro cotidiano que estão fartas de suportar.

Começando pelo detonador das passeatas: desde ontem, no Rio, e a partir de segunda-feira, em São Paulo, as tarifas voltaram ou voltarão ao que eram; mas a qualidade do transporte continuará péssima, em meio a engarrafamentos cada vez maiores e mais duradouros, o que apenas prolonga o suplício dos usuários. As manifestações, apesar do seu intolerável componente de violência - à qual o grosso dos participantes, justiça se lhe faça, se opôs -, tiveram a virtude de lançar em campo uma oportuna e inconveniente pergunta para os detentores do poder: se eles se dispõem a investir bilhões para fazer uma Copa com o "padrão Fifa", por que não adotam o mesmo critério, com a mesma urgência, para melhorar os serviços públicos?

Participar é assumir responsabilidade - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 21/06

As tarifas baixaram, mas as manifestações continuam com várias causas diferentes; é preciso ter cuidado com os que pretendem usar os números em seu favor, ou que tentam determinar quais temas podem ou não podem ganhar as ruas


Com a redução das tarifas de transporte coletivo em várias cidades, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, o objetivo inicial que levou brasileiros à rua foi atingido. Mesmo assim, as manifestações continuam, efetivamente comprovando que “não é só sobre 20 centavos”, um dos bordões frequentemente evocados nas mídias sociais e nas próprias passeatas. O meme humorístico da internet em que personagens com vassouras se perguntam “quem somos?” e “o que queremos?” bem poderia servir ao momento atual. O que querem os brasileiros que seguem nas ruas, depois de terem garantido que pagarão menos nas catracas de ônibus, trens e metrôs? As imagens dos cartazes não deixam dúvidas: há quase tantas reivindicações diferentes quanto pessoas nas ruas.

É justamente esse um dos grandes desafios apresentados pelos protestos: o número de manifestantes em cada cidade é um só; mas quantas pessoas cada causa está efetivamente mobilizando? É possível que um cidadão que vai às ruas empunhando um cartaz, por exemplo contra a corrupção, esteja inconscientemente endossando uma plataforma completamente diferente, e da qual ele pode até mesmo discordar? É verdade que essa é uma oportunidade única para o brasileiro manifestar seu descontentamento com certas situações, ou defender aquilo que ele acha correto. Mas, por outro lado, também é preciso estar atento, checar qual é o “pacote” que se está comprando, para não correr o risco – que não é desprezível – de ser transformado em um número em favor de causas que não necessariamente são as suas. É um questionamento que vale a pena fazer para que cada um veja seu direito à liberdade de expressão efetivamente respeitado, e não instrumentalizado.

Infelizmente, já existem movimentos e partidos tentando não apenas aproveitar os números gerais em favor de suas causas, mas também “privatizar” a pauta dos protestos, como se apenas eles pudessem decidir quais são as reivindicações legítimas e quais as que não deveriam ter espaço nas ruas. “Repudiamos várias das manifestações feitas nos atos”, disse Mayara Vivian, uma das líderes do Movimento Passe Livre (MPL) paulistano, referindo-se a cartazes contrários à legalização do aborto e favoráveis à redução da maioridade penal. “Tem gente que não consegue nem mobilizar dez pessoas e leva uma faixa com dizeres horríveis”, acrescentou. Em entrevista a um canal de televisão, Mayara prometeu luta por outras causas, como “reforma agrária, reforma urbana, contra o latifúndio agrário, contra o latifúndio urbano”.

A multiplicidade de opiniões presentes nas passeatas é apenas um ponto de partida. Especialmente quando se trata de temas controversos, a democracia realmente se fortalece não pela acumulação do número de manifestantes, nem pelo volume dos gritos de guerra, mas pelo diálogo, pela disposição de entender as opiniões alheias para construir as melhores propostas para o país. A legitimidade que o movimento ganha é diretamente proporcional ao espaço que ele abre para o debate de ideias. Por isso preocupa tanto que autoproclamados “donos” das passeatas queiram determinar que temas podem ou não ser levados às ruas. Agir assim é vetar a possibilidade de iniciar o diálogo, é matar o caráter democrático das manifestações. Quem participa delas tem, então, essa dupla responsabilidade: a de não se deixar instrumentalizar por militâncias alheias a suas convicções, e a de manter abertos os canais de debate iniciados pela mobilização popular.

Avanços e retrocessos - EDITORIAL ZERO HORA

EDITORIAL ZERO HORA - 21/06

Mesmo depois do anúncio de redução do preço das tarifas de transporte público em várias cidades, manifestações que se iniciaram pacíficas foram desvirtuadas por minorias radicais, comprometendo a legitimidade do movimento.



Houve inequívoco avanço da cidadania no país em decorrência do movimento popular que obrigou administradores de várias cidades a rever reajustes e a reduzir o preço de tarifas de transporte público. Mas as manifestações realizadas na noite de ontem em todo o país deixaram a impressão ruim de falta de autoridade em relação aos excessos cometidos por minorias radicais, que insistem em boicotar a legitimidade do movimento. A tentativa de invasão do Itamaraty, em Brasília, e os conflitos ocorridos em outras capitais causaram um desfecho preocupante para uma noite que começou pacífica e até festiva.

Antes das marchas programadas para ontem, autoridades de capitais como São Paulo, Rio e Porto Alegre e de municípios como Pelotas, Caxias do Sul, Foz do Iguaçu (PR), Várzea Grande (MT) e outros anunciaram redução de tarifas de transporte público ou envio de projetos e elaboração de estudos no mesmo sentido.

São corretas e elogiáveis as medidas adotadas pelos governantes, que respondem à legítima pressão da população por uma correção de rota na política oficial de transporte público. Não seria de se esperar outra atitude do poder público num momento de comoção nacional, quando uma parte dos cidadãos está justa e legitimamente mobilizada e outra, ainda que de forma passiva, simpatiza com as reivindicações apresentadas. É pena que tenha sido necessário um levante do Oiapoque ao Chuí para que os representantes do povo tenham se dado conta da necessidade de se debruçar sobre um martírio enfrentado diariamente por milhões de brasileiros: o do deslocamento de casa para o trabalho e vice-versa. Se há uma lição, entre tantas, a se tirar desse episódio, é o de que ainda será preciso percorrer um longo caminho até que nossa elite política seja capaz de representar de forma efetiva os anseios da população. O consolo é que o regime democrático e constitucional garante canais de expressão a todos os cidadãos e permite que se influencie e peticione os governantes e as instituições.

Vale ressaltar que as reduções anunciadas pelo poder público estão estribadas em distintas modalidades de isenção fiscal sobre combustíveis e empresas. Isso significa que o Erário está sendo chamado a subsidiar a tarifa e, mais certo ou mais tarde, os próprios contribuintes acabarão custeando os valores mais baixos cobrados nas catracas. Por trás dessa lógica, está o fato de que os serviços de ônibus, trens, metrô e barcas são prestados por empresas públicas ou privadas em regime de concessão pública, sendo as tarifas fixadas por organismos estatais. Não haverá, por isso, solução de longo prazo para a questão da passagem e do transporte sem que o país conte com uma política clara e transparente de transporte público, adotada a partir de uma pactuação com toda a sociedade.

Ressaca monetária - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 21/06

Dólar sobe no mundo todo após anúncio de reviravolta do Fed, e efeito no Brasil se agrava com as deficiências da política econômica de Dilma

Se o governo Dilma Rousseff antes perdia o sono com o "tsunami monetário" --como caracterizava o fluxo de entrada de capitais resultante da política do Fed (banco central americano) de inundar o mercado com recursos--, sobram agora razões para se preocupar com a retração da onda.

Os sinais de reversão da maré estão à vista de todos. Há mais otimismo com a recuperação da economia americana, que deve crescer 2% neste ano e talvez bem mais que isso em 2014. Com a melhora, o estímulo monetário deixaria de ser necessário.

O Fed já navega nessa direção. Seu presidente, Ben Bernanke, disse que as compras de títulos no mercado --hoje no ritmo de US$ 85 bilhões ao mês-- serão contraídas em breve e suspensas até meados de 2014. Para prevenir sobressaltos, disse que a retirada será gradual e que a taxa de juros deve permanecer perto de zero até 2015.

O mercado financeiro não tem paciência com detalhes. Quando identifica mudanças como essa, antecipa as consequências: menos recursos no mercado global, juros em alta nos EUA e valorização do dólar perante outras moedas, especialmente de países emergentes.

No caso do Brasil, há o fator agravante da política econômica errática, em particular na questão da austeridade fiscal, que prejudica a imagem do país. Acentua-se, com isso, o temor pela perda de valor dos investimentos aqui realizados, o que provoca a saída de dólares e a consequente desvalorização da moeda nacional.

A cotação do real frente ao dólar fechou em quase R$ 2,26, ontem, mesmo após o Banco Central comprometer US$ 3 bilhões para conter a desvalorização. Foi o pior nível desde abril de 2009, quando a crise internacional estava no auge.

Um sintoma da deterioração do cenário foi o adiamento da oferta de ações da Votorantim Cimentos na Bolsa, que deveria levantar até R$ 10 bilhões. É notável o contraste com a situação de abril passado, quando a BB Seguridade conseguiu captar R$ 11,4 bilhões.

Salvo uma improvável grande decepção com a economia americana, nos próximos anos haverá um enxugamento do capital farto em circulação pelo mundo.

O Brasil está mais preparado que no passado para enfrentar a turbulência: tem US$ 375 bilhões em reservas, e a dívida em dólar do governo foi eliminada, entre outros fatores. Mas aproveitou mal a liquidez externa: não aumentou a taxa de investimento, não ajustou as contas públicas como deveria e não reforçou a competitividade da economia para enfrentar a saída de capitais.

A alta do dólar encarece importações e incentiva aumentos de preços domésticos, realimentando a inflação. O Banco Central se vê forçado a elevar ainda mais os juros. Nesse mar revolto, vai a pique o otimismo postiço do governo federal nos últimos anos.

Desdobramentos da mobilização - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 21/06

Será ingênuo o administrador municipal ou político estadual e federal que considerar o recuo no reajuste das tarifas, decisão inevitável, capaz de esvaziar o movimento que acaba de descobrir o caminho das ruas. Não se consegue ocupá-las indefinidamente. Há uma natural fadiga. Mas, tudo indica, muita coisa na política brasileira não será mais como antes depois da erupção de insatisfações que tomou conta do asfalto, à margem de partidos, sindicatos, organizações ditas sociais, e apesar de todo o poder de cooptação demonstrado pelo governo federal nos últimos 12 anos.

O movimento — horizontalizado, sem muitas lideranças visíveis, alimentado pelas redes sociais — tem grandes desafios depois da primeira vitória. O que fazer agora? Já surgiu a ideia de se dar prioridade ao passe livre. Ora, se o recuo em R$ 0,20 representará um aumento de milhões no subsídio que os cofres estaduais e municipal do estado e cidade de São Paulo, por exemplo, concedem ao transporte, a gratuidade, então, se mostra uma impossibilidade fiscal e aritmética.

Mas o movimento não se esgota no custo do transporte de massa. Vai muito além, e trata de algo mais amplo, decorrente de um estado de coisas criado por um modelo de gestão que sacrifica o contribuinte e não dá à população retorno proporcional aos impostos que cobra. A carga tributária é escorchante e nada que é devolvido ao povo tem o tal "padrão Fifa" reclamado em faixas e cartazes.

Há, ainda, a denúncia, presente nas concentrações e passeatas, do deplorável padrão ético no exercício da política, em que reina o fisiologismo do toma lá dá cá e campeia a impunidade, percepção ainda mais agravada com a ideia, interpretada nas ruas, de que a condenação dos mensaleiros não é "pra valer".

Ligada ao tema, há uma profusão de cartazes contra a “PEC-37”, código cifrado de uma emenda constitucional apresentada para cassar o poder de investigação do Ministério Público, e identificada nas manifestações como sinônimo de impunidade — e com razão. Fica provado que não há tema, por mais hermético que pareça ser, que escape da atenção desse novo mundo digital.

A magnitude das manifestações de ontem, em várias capitais, transcende a comemoração pela vitória na luta das tarifas e reforça o desafio: como transformar em ações concretas a enxurrada de críticas, reivindicações e desabafos mostrados por milhares de pessoas, em todo o país, durante estes dias. Anuncia-se o encaminhamento de um projeto de origem popular para a instituição do passe livre. A iniciativa permite, ao menos, discutir-se de forma objetiva as fontes de custeio para financiar a gratuidade.

Haja outras ações deste tipo ou não, é necessário não se deixar dissipar a energia mobilizada em todas essas manifestações, para o encaminhamento de reformas com vistas à melhoria do quadro político e da administração pública, tudo sempre dentro dos marcos legais.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Pensaram que iam nos dividir, mas nós nos unimos”
Aécio Neves (PSDB-MG) e o pacto com Eduardo Campos e Marina Silva contra o PT

PMDB FAZ CHANTAGEM E EXIGE R$ 23 BILHÕES EM EMENDAS

Preocupada com a dissidência crescente em sua bancada na Câmara, a cúpula do PMDB vai reunir sua Executiva Nacional, na próxima terça-feira (25), para discutir eleições estaduais e a reedição da aliança com o PT em 2014. Será uma conversa difícil. O PMDB cobra o compromisso da presidente Dilma de liberar R$ 23 bilhões até dezembro: R$ 15 bilhões previstos em emendas para este ano e R$ 8 bilhões de “restos a pagar”.

IMPOSITIVO

O Planalto prometeu liberar R$ 1 bilhão em emendas por mês, mas políticos aliados não aceitam. Querem no mínimo o dobro.

ENFRAQUECIDA

O PMDB acredita que, com a enxurrada de protestos no país e a queda na popularidade, Dilma precisará negociar com a base.

O INTERLOCUTOR

A bancada do PMDB, que capitaneou rebelião na MP dos Portos, quer que o partido também leve ao Planalto as demandas de aliados.

HOJE TEM

Ouvido na manifestação ainda pacífica na Avenida Paulista, ontem: “PT nas ruas não é passeata nem protesto. É arrastão, cuidado”.

SUÍÇA PROÍBE PROTESTO BRASILEIRO NA FIFA

Reconhecida pela sólida democracia, a Suíça não autorizou a realização de um protesto de brasileiros diante da sede da Fifa, em Zurique. Eles também pretendiam se manifestar diante do parlamento. A intenção dos brasileiros era protestar contra investimentos do governo Dilma para a Copa, incluindo a reforma e a construção de estádios. A decisão não surpreendeu: é conhecida a influência da entidade no país.

BLINDAGEM

A Fifa manda tanto na Suíça que se dá ao luxo de não pagar impostos, apesar do faturamento espetacular, e nem se deixa fiscalizar.

PELA CULATRA

Alvo de inevitáveis piadas em meio aos protestos nas ruas, Dilma ganhou mais uma: “Se a Praça é Nossa, agora temos a velha surda”.

BANDEIRA AMARELA

Perderam validade as pesquisas anteriores aos protestos. Entrou na pista o “safety car”: bandeira amarela na corrida dos candidatos.

BIG BROTHER

Diante da incompetência da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que sequer detectou manifestações combinadas nas redes sociais, as Forças Armadas se mobilizaram para monitorar a realização dos atos.

FORTUNAS

Quebra de sigilo por hackers mostrou que se Renan Calheiros, presidente do Senado, declarou R$ 2,1 milhões ao IR, a fortuna do senador Eduardo Braga (PMDB-AM) somava R$ 16,9 milhões em 2010 e a do senador Ivo Cassol (PP-RO) R$ 29,9 milhões.

MARÉ BAIXA

Depois de um “pito” de Lula, o presidente nacional do PT recuou da “onda vermelha” prometida nos protestos de ontem em São Paulo, com apoio da CUT, MST e da turma agenciada do “vale-protesto” de R$ 70.

MAL-ESTAR

Convidado a se retirar de reunião do MP com delegados sobre PEC 37, o deputado Bernardo Santana (PR-MG) lascou para o ministro Eduardo Cardozo (Justiça): “Não tenho nariz de palhaço, nem talento para circo”.

É UMA ÁFRICA

Está mantida até segunda ordem nova visita do ex-presidente Lula à Etiópia, no início do mês, para ações de “cooperação” do Instituto Lula. Três assessores pagos por nós seguem para organizar a viagem, semana que vem.

O NEYMAR DA BIOQUÍMICA

A UnB confere hoje o título de Professor Emérito a Carlos Roberto Félix, 60, sumidade em degradação enzimática da biomassa. Ele foi incluído pela Universidade de Cambridge no Top 100 dos cientistas mais citados do mundo. Nem só de Neymar depende a glória verde-amarela.

PRECAUÇÃO

Servidores do Congresso foram liberados ontem às 16h, quando estava marcada a concentração do ato Acorda Brasília, cujo número de participantes passava dos 60 mil no início da tarde.

PAZ E AMOR

As passeatas produziram uma primeira mudança. A presidente Dilma ficou subitamente simpática e até cumprimentou calorosamente o ministro Antônio Andrade (Agricultura) pelo seu aniversário.

PERGUNTA NA PASSEATA?

Quando vão convidar as quadrilhas para “dançar” no São João da Paulista?


PODER SEM PUDOR

A APELAÇÃO DE JÂNIO

Quando se viu sem dinheiro em 1988, na campanha para prefeito de São Paulo, Jânio Quadros resolveu advertir empresários conservadores para a "ameaça comunista" dos adversários Eduardo Suplicy (PT) e, imaginem, de Fernando Henrique Cardoso (PMDB). Reuniu potenciais financiadores que não se impressionavam com o apelo. Jânio explodiu:

- Os senhores são tão miseráveis que quando vêem um pobre lhe pedem as horas!

Acabou conseguindo todos os recursos de que necessitava.

SEXTA NOS JORNAIS

- O Globo: O Brasil nas ruas: Sem controle
- Folha: Protestos violentos se espalham e confrontos atingem 13 capitais
- Estadão: Mais de 1 milhão vai às ruas no País; violência marca protestos
- Valor: Petrobras pode ter prejuízo trimestral com alta do dólar
- Zero Hora: Dilma convoca reunião de emergência após protestos
- Brasil Econômico: População paga por redução das tarifas de ônibus
- Correio Braziliense: Um gigante fora de controle
- Estado de Minas: O gigante quer muito mais
- Jornal do Commercio: Guerra e paz