FOLHA DE SP - 13/06
Produção brasileira de roupa íntima registra queda de quase 2% em 2012
O segmento de roupas íntimas --que inclui calcinhas, sutiãs, cuecas, meias, pijamas e peças de banho-- registrou queda de 1,9% na produção no ano passado, de acordo com levantamento do Iemi (Instituto de Estudos e Marketing Industrial).
A retração foi puxada, principalmente, pelas roupas de banho, cujo volume de fabricação diminuiu 6,7%.
"Os números caíram desde 2010, ano em que a economia foi muito bem [o PIB do país cresceu 7,5% nesse ano]. Na época, no setor de roupas íntimas, a oferta chegou a ser menor do que a demanda, que foi suprida por importações", diz o diretor da consultoria, Marcelo Prado.
Para 2013, porém, a empresa prevê elevação de cerca de 2% no segmento.
"O mercado consumidor diminuiu o ritmo, mas continua se expandindo. A expectativa é que haja uma retomada do crescimento. Não será no estilo chinês, mas no brasileiro, de 2% ou 3%," afirma.
"A alta será mais robusta nas grandes empresas. Elas estão se consolidando e devem levar vantagem, até porque estão mais preparadas e têm maior competitividade."
Além da queda na fabricação no ano passado, o valor da produção cresceu em um patamar bastante inferior ao da inflação --1,3% ante 5,8%. A expectativa é que, em 2013, a expansão nominal seja de quase 8%.
Os dados completos do segmento serão apresentados na próxima semana no Salão Moda Brasil, em São Paulo.
Banco chinês faz diagnóstico para investimentos em Mato Grosso
Um relatório recém-concluído pelo China Development Bank (CDB, o equivalente ao BNDES no Brasil) apontou oportunidades em Mato Grosso para empresários chineses que podem chegar a R$ 5 bilhões em curto prazo.
O documento, feito após a visita de uma comitiva ao Estado, apontou o potencial de projetos em três áreas: logística, mineração e agricultura.
Entre eles, estão a implantação de uma siderúrgica, de um centro de armazenagem (com capacidade de 100 mil toneladas) e de fazendas para a transferência de tecnologia. Os projetos devem ser feitos com parcerias brasileiras.
Outro interesse é a construção de um trecho ferroviário entre Cuiabá e Rondonópolis, que ligará o centro do Estado a portos do Sul e Sudeste.
"O banco veio verificar a segurança para investimentos e apresentará as impressões a empresários de seu país", diz Francisco Vuolo, secretário de Logística de Mato Grosso.
"O foco, a princípio, é o setor logístico, para que possam baratear os custos e depois investir na produção e na indústria de transformação."
O Estado já recebeu R$ 1 bilhão em investimento chinês para a construção de um linhão de energia.
ADVOGADOS START-UPS
A Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas e o Buscapé Company fizeram uma parceria para um laboratório que estudará os desafios jurídicos enfrentados por start-ups no Brasil.
O contrato é de um ano e meio, e a cada seis meses, a partir de agosto, 15 alunos de 4º e 5º anos da graduação concorrerão à participação no programa.
"O critério é nota. Os melhores alunos escolhem primeiro nesses laboratórios. Eles enfrentarão problemas reais em um trabalho de campo, com visitas a empresas", diz Oscar Vilhena, diretor da escola.
As maiores dificuldades encontradas por jovens empreendedores costuma ser de ordem societária e de propriedade intelectual.
"Eles dizem que os advogados mais antigos não entendem a natureza desses negócios, que buscam parcerias porque não têm capital. Daí, a necessidade de treinar os novos advogados."
Para Romero Rodrigues, CEO do Buscapé Company, há um grande vazio entre a academia e o empreendedorismo, principalmente o digital. "Faltam normas e o risco trabalhista para o investidor é grande", afirma um dos fundadores do Buscapé, que inclui o comparador de preços e outras empresas.
"Nos EUA, se alguém investir US$ 10 mil, o risco dele se resume a esse valor. Aqui pode perder quase todo o patrimônio. Isso inibe recursos para start-ups."
Viagem com escala
Os atendimentos médicos são responsáveis por mais da metade dos acionamentos do seguro-viagem pelos clientes de seguradoras.
Cerca de 57% das ocorrências registradas pelo Itaú Seguros no primeiro trimestre deste ano foram por problemas de saúde do viajante.
A concorrente SulAmérica também afirma que a maior demanda de seu seguro-viagem é por auxílio médico. Os sinistros chegam a 57,7%.
A Mapfre, que oferece produto semelhante, informa que o amparo mais requerido pelos seus consumidores é o de um médico clínico geral.
O extravio de bagagens é responsável por 27% das queixas no Itaú Seguros e por 18,97% na SulAmérica. Na Mapfre, esse tipo de sinistro é o décimo em requisição.
CAPITAL DE VOLTA À CASA
O número de fusões e aquisições realizadas no Brasil manteve-se estável nos cinco primeiros meses deste ano. Foram 330 transações --uma a menos que no mesmo período de 2012--, segundo dados da PwC Brasil.
"O patamar deve ser mantido até dezembro. O nível de cautela aumentou e isso deve afetar o país neste ano e no próximo", diz Alexandre Pierantoni, sócio da empresa.
A recuperação dos Estados Unidos também deve influenciar as negociações nos próximos meses.
"O investidor vai voltar ao seu país, onde poderá ter, novamente, segurança nas transações. Ainda mais com as incertezas brasileiras de câmbio, inflação e juros."
Entre janeiro e maio, os estrangeiros estiveram presentes em 43% dos negócios.
O setor de serviços auxiliares foi o que registrou maior aumento no número de fusões e aquisições --passou de 13, nos cinco primeiros meses de 2012, para 41, em 2013.
"Essa alta está associada à profissionalização das companhias", diz Pierantoni.
Pimenta O complexo petroquímico em construção no México pela Braskem com a mexicana Idesa começou a receber equipamentos para armazenagem de produtos químicos. Seis tanques já desembarcaram naquele país.
Lusitano A rede portuguesa de fast food Go Natural entra no mercado brasileiro, ainda neste mês, com a inauguração de uma unidade no shopping Eldorado, em São Paulo. A empresa pretende abrir mais 16 lojas no país até 2015.
quinta-feira, junho 13, 2013
Tipo Palocci - CARLOS ALBERTO SARDENBERG
O GLOBO - 13/06
A presidente Dilma tem uma saída tão simples quanto eficiente para escapar da confusão em que se meteu: basta chamar o Palocci, nomeá-lo chefão de toda a área econômica e dizer, na posse, que ele tem plena liberdade para aplicar um poderoso ajuste nas contas públicas. Sou capaz de apostar uma garrafa de vinho (selecionada pelo Renato Machado) que o risco Brasil e os juros cairiam no mesmo dia.
Não seria um gesto assim tão fora de propósito. Na verdade, Dilma estaria simplesmente repetindo o que fez seu mentor, Lula, no começo do primeiro mandato, em 2003. Lembram-se? Palocci, então ministro da Fazenda, produziu um superávit primário maior que o obtido no governo de FHC. O Banco Central, com Henrique Meirelles, elevou a taxa básica de juros, tudo isso criando as bases para um bom ambiente macroeconômico.
Verdade que deram uma enorme sorte. O mundo desandou a crescer e a China multiplicou por 40 suas importações do Brasil. Mas se a casa aqui não estivesse em ordem teria sido impossível aproveitar a bonança externa. Como, aliás, a presidente Dilma não aproveitou a enxurrada de capitais e o bom momento dos emergentes nos últimos anos - mamata que está acabando.
Mas sabemos das dificuldades. Começa que a presidente Dilma não admite haver problemas em sua política econômica. Ainda ontem voltou a dizer que está tudo em ordem, inflação controlada, país crescendo e tudo o mais.
Deve ser, entretanto, só da boca para fora. Não é possível que não estejam vendo os dados que mostram PIB para baixo e preços para cima, mais o dólar escalando e o aumento do déficit externo. Não é possível que acreditem mesmo nas lambanças contábeis que fazem as contas públicas parecerem equilibradas.
Notícias de debates dentro do governo têm vazado para os jornalistas. Enfim, é evidente mesmo para os economistas mais próximos do governo que algo precisa ser feito. E algo mais profundo do que, por exemplo, a simples retirada do IOF para aplicações estrangeiras em títulos do governo - estimulando aquilo que antes chamavam de especulação.
Esse algo só pode ser um forte ajuste nas contas públicas - ou seja, corte severo de gastos - anunciado com credibilidade. Daí a necessidade do Palocci. Ele já fez isso, já propôs uma política de longo prazo para zerar o déficit geral do governo e tem a confiança do mercado.
Ocorre que essas virtudes transformam-se, dentro do governo Dilma, em pecados neoliberais. A própria presidente já detonou essas ideias de ajuste. Ela precisaria, portanto, mudar de ponto de vista. Não seria necessário ajoelhar no confessionário, pedir perdão e mudar por convicção. Basta a necessidade, como foi, aliás, no caso de Lula no primeiro mandato. Até hoje ele não gosta de ter assinado a Carta ao Povo Brasileiro, nem de ter deixado Palocci fazer o que fez. Mas foi flexível diante das circunstâncias.
É certo, por outro lado, que Lula nunca foi de ter algo como uma doutrina, um pensamento econômico. Dançava no vai da valsa.
Já Dilma, economista formada, tem convicções - que se mostram equivocadas. Para ela, mudar é mais difícil.
Outro problema é que Palocci está com a reputação abalada. O mercado, os agentes econômicos continuam tendo saudades dele. Já no ambiente político, a rejeição é óbvia.
Mas esse obstáculo também poderia ser driblado. Não pode o Palocci? Pois arranjem um "tipo Palocci". E já estando com a mão na massa, poderiam buscar também um "tipo Meirelles" para o Banco Central.
Não vamos aqui citar nomes, até para não queimá-los, mas o perfil está dado: experiência, capacidade comprovada na gestão pública, credibilidade no ambiente econômico e a convicção sincera de que a variável-chave no Brasil de hoje é um superávit primário enorme, caminhando para até 5% do PIB, de modo a zerar o déficit público, medido sem truques, é claro.
Complementos: uma alta forte na taxa básica de juros para derrubar as expectativas inflacionárias; ampla privatização de infraestrutura; reformas micro para tornar o ambiente de negócios mais favorável ao empreendedor privado. Mas só precisaria anunciar mesmo o tal ajuste fiscal.
Neoliberal! - gritam. Pois é, mas a alternativa desenvolvimentista de Dilma - juros para baixo, dólar para cima e gasto público acelerado - deu em inflação alta e crescimento baixo. Se nada for mudado, daqui a pouco vem mais desemprego e mais inflação, como na Argentina.
A escolha, pois, se dá entre "tipo Cristina" e "tipo Palocci".
Não seria um gesto assim tão fora de propósito. Na verdade, Dilma estaria simplesmente repetindo o que fez seu mentor, Lula, no começo do primeiro mandato, em 2003. Lembram-se? Palocci, então ministro da Fazenda, produziu um superávit primário maior que o obtido no governo de FHC. O Banco Central, com Henrique Meirelles, elevou a taxa básica de juros, tudo isso criando as bases para um bom ambiente macroeconômico.
Verdade que deram uma enorme sorte. O mundo desandou a crescer e a China multiplicou por 40 suas importações do Brasil. Mas se a casa aqui não estivesse em ordem teria sido impossível aproveitar a bonança externa. Como, aliás, a presidente Dilma não aproveitou a enxurrada de capitais e o bom momento dos emergentes nos últimos anos - mamata que está acabando.
Mas sabemos das dificuldades. Começa que a presidente Dilma não admite haver problemas em sua política econômica. Ainda ontem voltou a dizer que está tudo em ordem, inflação controlada, país crescendo e tudo o mais.
Deve ser, entretanto, só da boca para fora. Não é possível que não estejam vendo os dados que mostram PIB para baixo e preços para cima, mais o dólar escalando e o aumento do déficit externo. Não é possível que acreditem mesmo nas lambanças contábeis que fazem as contas públicas parecerem equilibradas.
Notícias de debates dentro do governo têm vazado para os jornalistas. Enfim, é evidente mesmo para os economistas mais próximos do governo que algo precisa ser feito. E algo mais profundo do que, por exemplo, a simples retirada do IOF para aplicações estrangeiras em títulos do governo - estimulando aquilo que antes chamavam de especulação.
Esse algo só pode ser um forte ajuste nas contas públicas - ou seja, corte severo de gastos - anunciado com credibilidade. Daí a necessidade do Palocci. Ele já fez isso, já propôs uma política de longo prazo para zerar o déficit geral do governo e tem a confiança do mercado.
Ocorre que essas virtudes transformam-se, dentro do governo Dilma, em pecados neoliberais. A própria presidente já detonou essas ideias de ajuste. Ela precisaria, portanto, mudar de ponto de vista. Não seria necessário ajoelhar no confessionário, pedir perdão e mudar por convicção. Basta a necessidade, como foi, aliás, no caso de Lula no primeiro mandato. Até hoje ele não gosta de ter assinado a Carta ao Povo Brasileiro, nem de ter deixado Palocci fazer o que fez. Mas foi flexível diante das circunstâncias.
É certo, por outro lado, que Lula nunca foi de ter algo como uma doutrina, um pensamento econômico. Dançava no vai da valsa.
Já Dilma, economista formada, tem convicções - que se mostram equivocadas. Para ela, mudar é mais difícil.
Outro problema é que Palocci está com a reputação abalada. O mercado, os agentes econômicos continuam tendo saudades dele. Já no ambiente político, a rejeição é óbvia.
Mas esse obstáculo também poderia ser driblado. Não pode o Palocci? Pois arranjem um "tipo Palocci". E já estando com a mão na massa, poderiam buscar também um "tipo Meirelles" para o Banco Central.
Não vamos aqui citar nomes, até para não queimá-los, mas o perfil está dado: experiência, capacidade comprovada na gestão pública, credibilidade no ambiente econômico e a convicção sincera de que a variável-chave no Brasil de hoje é um superávit primário enorme, caminhando para até 5% do PIB, de modo a zerar o déficit público, medido sem truques, é claro.
Complementos: uma alta forte na taxa básica de juros para derrubar as expectativas inflacionárias; ampla privatização de infraestrutura; reformas micro para tornar o ambiente de negócios mais favorável ao empreendedor privado. Mas só precisaria anunciar mesmo o tal ajuste fiscal.
Neoliberal! - gritam. Pois é, mas a alternativa desenvolvimentista de Dilma - juros para baixo, dólar para cima e gasto público acelerado - deu em inflação alta e crescimento baixo. Se nada for mudado, daqui a pouco vem mais desemprego e mais inflação, como na Argentina.
A escolha, pois, se dá entre "tipo Cristina" e "tipo Palocci".
Sinais contraditórios - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 13/06
Ontem circularam informações de que o governo Dilma está disposto a corrigir sua rota em direção a mais responsabilidade fiscal para ajudar a derrubar a inflação. Se for na linha do que foi anunciado ontem, ou seja, de financiamentos de R$ 18,7 bilhões em recursos públicos a juros subsidiados para a compra de sofás e de máquinas de lavar, então essas boas intenções não devem ser levadas a sério. É mais despesa para mais consumo e menos investimento.
O estouro do teto da meta de inflação em meados de 2013 era fato anunciado há meses. Não pode ter sido inesperado para o governo, como as autoridades têm sugerido. Surpresa foi a reação da sociedade, de grande apreensão e cobradora de ação.
Entre as prioridades da atual administração, nunca esteve entregar a inflação na meta. A ideia era de que, derrubados os juros, estimulado o crédito, garantidos o emprego, o aumento de renda e o consumo, o brasileiro toleraria eventual lambança da inflação.
As coisas não funcionaram assim e, agora, a disparada dos preços se encarrega de corroer a renda do consumidor. Como as adversidades não chegam sozinhas, a inflação sobrevém num momento em que o PIB segue em marcha excessivamente lenta, as contas públicas estão em franca deterioração, o balanço de pagamentos acusa graves avarias preocupantes e o mercado externo de capitais está em maré vazante.
Se nos níveis de 6,5% em 12 meses a inflação já provoca estragos políticos, imagine-se o que pode acontecer nos próximos meses, quando o índice se aproximará perigosamente dos 7%.
É só fazer as contas. Se em junho se confirmar uma evolução do IPCA de 0,32%, como esperada pelo mercado, conforme a Pesquisa Focus do Banco Central, o avanço dos preços em 12 meses atingirá 6,76%. Dificilmente em julho ficará abaixo dos 6,60%. E, se a esticada das cotações do dólar no câmbio interno continuar puxando para cima os preços em reais dos produtos importados, é possível que em agosto a dose se repita.
Além de culparem a crise internacional pelas mazelas da economia, as autoridades da Fazenda até agora vinham repetindo que o refluxo da inflação era questão de tempo e que aconteceria espontaneamente, sem empenho da administração. Repetiam, também, que a alta dos alimentos seria revertida quando as boas safras agrícolas chegassem ao varejo e com a relativa estabilidade das cotações das commodities no mercado internacional. No mais, o governo trataria de acelerar novas concessões, sempre adiadas, de portos, aeroportos, ferrovias, rodovias e petróleo, providência que puxaria os investimentos e daria a sensação de que o governo não estaria parado.
Foram até aqui a aposta e a receita que acabaram desmoralizadas pelos fatos. A única maneira de virar esse jogo é providenciar um choque fiscal. Seria um pacote de decisões de credibilidade que se encarregassem de reequilibrar as contas públicas, hoje a caminho da desordem.
Os sinais emitidos ontem são em sentido contrário, como dito acima. O risco é de que as novas juras de austeridade não passem de recurso para comprar tempo até as eleições. Se a deterioração dos fundamentos da economia não for atacada com credibilidade, os mercados não esperarão, se anteciparão aos fatos. São reações que tendem a desencadear forças ainda mais desestabilizadoras.
Ontem circularam informações de que o governo Dilma está disposto a corrigir sua rota em direção a mais responsabilidade fiscal para ajudar a derrubar a inflação. Se for na linha do que foi anunciado ontem, ou seja, de financiamentos de R$ 18,7 bilhões em recursos públicos a juros subsidiados para a compra de sofás e de máquinas de lavar, então essas boas intenções não devem ser levadas a sério. É mais despesa para mais consumo e menos investimento.
O estouro do teto da meta de inflação em meados de 2013 era fato anunciado há meses. Não pode ter sido inesperado para o governo, como as autoridades têm sugerido. Surpresa foi a reação da sociedade, de grande apreensão e cobradora de ação.
Entre as prioridades da atual administração, nunca esteve entregar a inflação na meta. A ideia era de que, derrubados os juros, estimulado o crédito, garantidos o emprego, o aumento de renda e o consumo, o brasileiro toleraria eventual lambança da inflação.
As coisas não funcionaram assim e, agora, a disparada dos preços se encarrega de corroer a renda do consumidor. Como as adversidades não chegam sozinhas, a inflação sobrevém num momento em que o PIB segue em marcha excessivamente lenta, as contas públicas estão em franca deterioração, o balanço de pagamentos acusa graves avarias preocupantes e o mercado externo de capitais está em maré vazante.
Se nos níveis de 6,5% em 12 meses a inflação já provoca estragos políticos, imagine-se o que pode acontecer nos próximos meses, quando o índice se aproximará perigosamente dos 7%.
É só fazer as contas. Se em junho se confirmar uma evolução do IPCA de 0,32%, como esperada pelo mercado, conforme a Pesquisa Focus do Banco Central, o avanço dos preços em 12 meses atingirá 6,76%. Dificilmente em julho ficará abaixo dos 6,60%. E, se a esticada das cotações do dólar no câmbio interno continuar puxando para cima os preços em reais dos produtos importados, é possível que em agosto a dose se repita.
Além de culparem a crise internacional pelas mazelas da economia, as autoridades da Fazenda até agora vinham repetindo que o refluxo da inflação era questão de tempo e que aconteceria espontaneamente, sem empenho da administração. Repetiam, também, que a alta dos alimentos seria revertida quando as boas safras agrícolas chegassem ao varejo e com a relativa estabilidade das cotações das commodities no mercado internacional. No mais, o governo trataria de acelerar novas concessões, sempre adiadas, de portos, aeroportos, ferrovias, rodovias e petróleo, providência que puxaria os investimentos e daria a sensação de que o governo não estaria parado.
Foram até aqui a aposta e a receita que acabaram desmoralizadas pelos fatos. A única maneira de virar esse jogo é providenciar um choque fiscal. Seria um pacote de decisões de credibilidade que se encarregassem de reequilibrar as contas públicas, hoje a caminho da desordem.
Os sinais emitidos ontem são em sentido contrário, como dito acima. O risco é de que as novas juras de austeridade não passem de recurso para comprar tempo até as eleições. Se a deterioração dos fundamentos da economia não for atacada com credibilidade, os mercados não esperarão, se anteciparão aos fatos. São reações que tendem a desencadear forças ainda mais desestabilizadoras.
EUA arrumam a casa - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 13/06
Os EUA conseguiram reduzir dois desequilíbrios nos últimos anos: nas contas públicas e no orçamento das famílias. O déficit do governo deve cair de 7% do PIB, em 2012, para 4% este ano. O endividamento dos consumidores recuou porque muita dívida já foi paga, mas também porque o preço dos imóveis e a bolsa subiram. Com essa melhora, os empresários ganham ânimo para contratar e investir. A roda gira.
Em resumo, essa é a explicação dada pelo economista José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários Ibre/FGV, para justificar a melhora da percepção do mercado em relação à economia americana. É isso que tem fortalecido o dólar nas últimas semanas, não só ante o real, mas também sobre várias outras moedas:
— A recuperação está claramente em curso. São indícios de que os EUA podem crescer mais forte em 2014. Isso fortalece o dólar porque os investidores começam a se antecipar a uma possível redução de estímulos por parte do Fed, o BC americano. Em algum momento, ele vai diminuir a injeção de dólares na economia que, hoje, está em US$ 85 bilhões por mês. Depois, mais para frente, vai elevar a taxa básica de juros.
A dívida das famílias americanas está caindo. No primeiro trimestre de 2009, auge da crise, ela chegou a 27% do patrimônio líquido. No primeiro trimestre deste ano, já havia sido reduzida a 19%, mais próximo da tendência histórica.
— Isso mostra que grande parte do ajuste no orçamento dos americanos já aconteceu. No mercado imobiliário, ainda falta completá-lo, mas a valorização dos imóveis e a redução do saldo das hipotecas vão ajudar nesse sentido — disse Senna.
A indústria americana tem tido uma recuperação lenta, mas, como se pode ver no gráfico, ela já está voltando ao mesmo nível do período pré-crise. O desemprego, depois de encostar em 10% no início do governo Obama, está em 7,6%. O PIB cresceu 2,4% no primeiro trimestre, anualizado, no mesmo ritmo da economia brasileira. Há sinais positivos que justificam o otimismo. O pior momento parece ter ficado para trás.
Déficit zero: querer não é poder
O economista Fabio Giambiagi, especialista em contas públicas, é um dos defensores do déficit nominal zero no governo brasileiro. O problema, segundo ele, é que a implementação da ideia, hoje, é muito difícil em função da piora das contas públicas. O melhor momento, diz, teria sido 2005, época em que a então ministra Dilma Rousseff classificou a medida de rudimentar. “Hoje, estamos com Selic em viés de alta e o superávit primário em viés de baixa. Aquela foi uma oportunidade perdida. Déficit zero, a curto prazo, é uma impossibilidade matemática.”
Gasto corrente sobe 7% este ano
Giambiagi afirma que o gasto corrente do governo subiu 7% de janeiro a abril, em termos reais, sobre o mesmo período de 2012. A piora das contas públicas torna mais difícil chegar ao déficit zero. “Em 2005, a despesa total primária do governo federal era de 20% do PIB. Em 2013, vai ser de 23%, sendo que a despesa com seguro- desemprego era de 0,6% do PIB e hoje é de 0,9%. Outras despesas de custeio e capital eram de 3,7% do PIB. Hoje, são de mais de 5%.”
ÁLVARO GRIBEL E VALÉRIA MANIEIRO - INTERINOS
Os EUA conseguiram reduzir dois desequilíbrios nos últimos anos: nas contas públicas e no orçamento das famílias. O déficit do governo deve cair de 7% do PIB, em 2012, para 4% este ano. O endividamento dos consumidores recuou porque muita dívida já foi paga, mas também porque o preço dos imóveis e a bolsa subiram. Com essa melhora, os empresários ganham ânimo para contratar e investir. A roda gira.
Em resumo, essa é a explicação dada pelo economista José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários Ibre/FGV, para justificar a melhora da percepção do mercado em relação à economia americana. É isso que tem fortalecido o dólar nas últimas semanas, não só ante o real, mas também sobre várias outras moedas:
— A recuperação está claramente em curso. São indícios de que os EUA podem crescer mais forte em 2014. Isso fortalece o dólar porque os investidores começam a se antecipar a uma possível redução de estímulos por parte do Fed, o BC americano. Em algum momento, ele vai diminuir a injeção de dólares na economia que, hoje, está em US$ 85 bilhões por mês. Depois, mais para frente, vai elevar a taxa básica de juros.
A dívida das famílias americanas está caindo. No primeiro trimestre de 2009, auge da crise, ela chegou a 27% do patrimônio líquido. No primeiro trimestre deste ano, já havia sido reduzida a 19%, mais próximo da tendência histórica.
— Isso mostra que grande parte do ajuste no orçamento dos americanos já aconteceu. No mercado imobiliário, ainda falta completá-lo, mas a valorização dos imóveis e a redução do saldo das hipotecas vão ajudar nesse sentido — disse Senna.
A indústria americana tem tido uma recuperação lenta, mas, como se pode ver no gráfico, ela já está voltando ao mesmo nível do período pré-crise. O desemprego, depois de encostar em 10% no início do governo Obama, está em 7,6%. O PIB cresceu 2,4% no primeiro trimestre, anualizado, no mesmo ritmo da economia brasileira. Há sinais positivos que justificam o otimismo. O pior momento parece ter ficado para trás.
Déficit zero: querer não é poder
O economista Fabio Giambiagi, especialista em contas públicas, é um dos defensores do déficit nominal zero no governo brasileiro. O problema, segundo ele, é que a implementação da ideia, hoje, é muito difícil em função da piora das contas públicas. O melhor momento, diz, teria sido 2005, época em que a então ministra Dilma Rousseff classificou a medida de rudimentar. “Hoje, estamos com Selic em viés de alta e o superávit primário em viés de baixa. Aquela foi uma oportunidade perdida. Déficit zero, a curto prazo, é uma impossibilidade matemática.”
Gasto corrente sobe 7% este ano
Giambiagi afirma que o gasto corrente do governo subiu 7% de janeiro a abril, em termos reais, sobre o mesmo período de 2012. A piora das contas públicas torna mais difícil chegar ao déficit zero. “Em 2005, a despesa total primária do governo federal era de 20% do PIB. Em 2013, vai ser de 23%, sendo que a despesa com seguro- desemprego era de 0,6% do PIB e hoje é de 0,9%. Outras despesas de custeio e capital eram de 3,7% do PIB. Hoje, são de mais de 5%.”
Prostituição legal - MARCELO MITERHOF
FOLHA DE SP - 13/06
Sobre turismo sexual, uma prostituta me disse: 'Hotel ganha dinheiro com turismo, bar, garçom. E eu não posso?'
Há alguns anos fui assistir no festival de cinema do Rio o documentário "Mulheres Sem Piedade", do diretor alemão Lukas Roegler, que conta a história de nigerianas forçadas a se prostituir na Europa.
De distintivo, há a constatação de que a rede mafiosa é chefiada por mulheres e a forma de coerção: um pacto de sangue feito ainda na Nigéria entre as mulheres traficadas e um mestre de vodu.
O filme foi bom ao mostrar como uma crença pode moldar as atitudes humanas e que é possível romper com isso. Mas o melhor veio no debate após a sessão.
Após a exposição do diretor, foi a vez de Gabriela Leite, puta e ativista política, que destacou a dificuldade de compreensão acerca da prostituição, expressa, por exemplo, no combate ao turismo sexual, dizendo algo como: "Se hotel ganha dinheiro com turismo, botequim, garçom e tanta mais gente ganham dinheiro com o turismo, por que puta não pode fazer o mesmo?".
Da plateia, houve a fala de um antropólogo --holandês, creio--, destacando que entre as pessoas que conhece e com quem faz sua pesquisa sobre prostituição em Copacabana, seria possível encontrar cinco que foram vítimas de tráfico humano para fazer um filme parecido ao que tinha sido apresentado pouco antes.
Entretanto, por mais terrível que isso seja, não discute o mais importante: a prostituição é predominantemente uma atividade livre e feita por pessoas adultas.
Não tenho restrição moral contra a prostituição, pois adultos devem poder decidir livremente em que condições querem fazer sexo. Mas a situação de pobreza que força mulheres a se prostituírem me fazia vê-las apenas como vítimas. Esse debate mudou minha opinião: é preciso regulamentar o exercício da profissão.
Afinal, ela é um jeito legítimo de buscar uma atividade mais rentável e autônoma. Mas mantê-la no gueto, submetida à violência da polícia --no Brasil, prostituição não é crime, mas é possível enquadrá-la como ato obsceno ou atentado ao pudor-- ou de seus "protetores", prejudica demais a vida desses profissionais.
O regramento, como usual quando o Estado intervém nas vidas privadas, deve ser parcimonioso: é razoável, por exemplo, exigir exames médicos regulares e definir espaços nas ruas para a prática do "trottoir".
Claro, a prostituição infantil e o tráfico humano devem continuar sendo um crime grave. Porém, é preciso legalizar o agenciamento e os bordéis. Não há razão para proibir práticas comuns de mercado, como a intermediação comercial e a provisão de infraestrutura para um serviço, se elas são feitas livremente.
Não é fácil garantir uma liberdade individual se a maioria é contra, em especial quando há grupos politicamente ativos, como os religiosos. Esse é um conflito intrínseco à democracia, mas é preciso achar um jeito de priorizar os direitos civis.
Nesse sentido, foi alvissareiro ver o médico infectologista Dirceu Greco, ex-diretor do departamento de DST do Ministério da Saúde, no programa "Entre Aspas", da Globonews.
Greco foi sereno ao dizer que é uma vitória ter trazido a discussão à tona, mesmo isso tendo levado à sua demissão. Além disso, se contrapôs ao conservadorismo, que não se limita aos grupos religiosos, mas em alguma medida também existe em parte do movimento feminista.
Presente no mesmo programa, a socióloga e especialista em gênero Rosana Schwartz mostrou certo desconforto com a frase da campanha que detonou a polêmica --"eu sou feliz sendo prostituta"--, alegando que suas pesquisas apontam que apenas 5% ou 6% delas seriam felizes com sua profissão.
Rosana prefere que tivesse sido usada outra frase, que enfatizasse a necessidade de se proteger.
Greco lembrou que as frases da campanha são de prostitutas e que havia mais de uma sobre a proteção, como: "Eu não posso ficar sem a camisinha, meu amor".
Ele também destacou que a felicidade não está (necessariamente, acrescento eu) na profissão em si, mas em poder ser feliz, mesmo ganhando a vida de um jeito difícil, como em muitas outras profissões.
Ninguém precisa gostar da prostituição, mas o mundo fica melhor se tentamos entender as razões alheias. Nesse sentido, sugiro a leitura do livro de Gabriela Leite "Filha, Mãe, Avó e Puta".
Sobre turismo sexual, uma prostituta me disse: 'Hotel ganha dinheiro com turismo, bar, garçom. E eu não posso?'
Há alguns anos fui assistir no festival de cinema do Rio o documentário "Mulheres Sem Piedade", do diretor alemão Lukas Roegler, que conta a história de nigerianas forçadas a se prostituir na Europa.
De distintivo, há a constatação de que a rede mafiosa é chefiada por mulheres e a forma de coerção: um pacto de sangue feito ainda na Nigéria entre as mulheres traficadas e um mestre de vodu.
O filme foi bom ao mostrar como uma crença pode moldar as atitudes humanas e que é possível romper com isso. Mas o melhor veio no debate após a sessão.
Após a exposição do diretor, foi a vez de Gabriela Leite, puta e ativista política, que destacou a dificuldade de compreensão acerca da prostituição, expressa, por exemplo, no combate ao turismo sexual, dizendo algo como: "Se hotel ganha dinheiro com turismo, botequim, garçom e tanta mais gente ganham dinheiro com o turismo, por que puta não pode fazer o mesmo?".
Da plateia, houve a fala de um antropólogo --holandês, creio--, destacando que entre as pessoas que conhece e com quem faz sua pesquisa sobre prostituição em Copacabana, seria possível encontrar cinco que foram vítimas de tráfico humano para fazer um filme parecido ao que tinha sido apresentado pouco antes.
Entretanto, por mais terrível que isso seja, não discute o mais importante: a prostituição é predominantemente uma atividade livre e feita por pessoas adultas.
Não tenho restrição moral contra a prostituição, pois adultos devem poder decidir livremente em que condições querem fazer sexo. Mas a situação de pobreza que força mulheres a se prostituírem me fazia vê-las apenas como vítimas. Esse debate mudou minha opinião: é preciso regulamentar o exercício da profissão.
Afinal, ela é um jeito legítimo de buscar uma atividade mais rentável e autônoma. Mas mantê-la no gueto, submetida à violência da polícia --no Brasil, prostituição não é crime, mas é possível enquadrá-la como ato obsceno ou atentado ao pudor-- ou de seus "protetores", prejudica demais a vida desses profissionais.
O regramento, como usual quando o Estado intervém nas vidas privadas, deve ser parcimonioso: é razoável, por exemplo, exigir exames médicos regulares e definir espaços nas ruas para a prática do "trottoir".
Claro, a prostituição infantil e o tráfico humano devem continuar sendo um crime grave. Porém, é preciso legalizar o agenciamento e os bordéis. Não há razão para proibir práticas comuns de mercado, como a intermediação comercial e a provisão de infraestrutura para um serviço, se elas são feitas livremente.
Não é fácil garantir uma liberdade individual se a maioria é contra, em especial quando há grupos politicamente ativos, como os religiosos. Esse é um conflito intrínseco à democracia, mas é preciso achar um jeito de priorizar os direitos civis.
Nesse sentido, foi alvissareiro ver o médico infectologista Dirceu Greco, ex-diretor do departamento de DST do Ministério da Saúde, no programa "Entre Aspas", da Globonews.
Greco foi sereno ao dizer que é uma vitória ter trazido a discussão à tona, mesmo isso tendo levado à sua demissão. Além disso, se contrapôs ao conservadorismo, que não se limita aos grupos religiosos, mas em alguma medida também existe em parte do movimento feminista.
Presente no mesmo programa, a socióloga e especialista em gênero Rosana Schwartz mostrou certo desconforto com a frase da campanha que detonou a polêmica --"eu sou feliz sendo prostituta"--, alegando que suas pesquisas apontam que apenas 5% ou 6% delas seriam felizes com sua profissão.
Rosana prefere que tivesse sido usada outra frase, que enfatizasse a necessidade de se proteger.
Greco lembrou que as frases da campanha são de prostitutas e que havia mais de uma sobre a proteção, como: "Eu não posso ficar sem a camisinha, meu amor".
Ele também destacou que a felicidade não está (necessariamente, acrescento eu) na profissão em si, mas em poder ser feliz, mesmo ganhando a vida de um jeito difícil, como em muitas outras profissões.
Ninguém precisa gostar da prostituição, mas o mundo fica melhor se tentamos entender as razões alheias. Nesse sentido, sugiro a leitura do livro de Gabriela Leite "Filha, Mãe, Avó e Puta".
Pavio curto - VERA MAGALHÃES - PAINEL
FOLHA DE SP - 13/06
Os novos protestos contra o reajuste das tarifas de transporte público em São Paulo previstos para hoje preocupam a cúpula da segurança pelo risco maior de confronto entre Polícia Militar e manifestantes. No quebra-quebra de terça-feira, a ordem na PM era não reagir. O Batalhão de Choque não foi acionado. Diante da depredação e da tentativa de linchar um policial, os ânimos estão mais acirrados na tropa. O comando insistirá para que os policiais não caiam em provocações.
Delegada 1 Está na mesa do governador Geraldo Alckmin um projeto em que o Estado pagaria gratificações a policiais nos horários de folga, como forma de reforçar o contingente de policiamento.
Delegada 2 A proposta, que cria uma espécie de operação delegada estadual, é semelhante à apresentada há uma semana pelo ex-prefeito Gilberto Kassab, mas foi enviada ao Bandeirantes antes pelo comandante-geral da PM, coronel Benedito Meira.
Revezes Há obstáculos jurídicos para que se adote as horas extras estaduais para PMs. Os policiais poderiam pleitear a incorporação dessas gratificações aos salários e, depois, à aposentadoria.
Amor em SP Antes de embarcar de volta de Paris para São Paulo e em meio à onda de protestos, Alckmin postou no Instagram foto em que ele e a mulher, Lu, aparecem jovens e abraçados, com a mensagem: Minha namorada há mais de 34 anos''.
Eu sozinho A defesa que o procurador-geral do Estado, Elival da Silva Ramos, fez da concentração do poder de investigar autoridades nas mãos do chefe do Ministério Público não tem aval do governador, dizem auxiliares.
Talismã Diante da notícia de que Eduardo Campos (PSB-PE) e a mulher, Renata, esperam o quinto filho, aliados do governador lembram que dois herdeiros nasceram durante campanhas do pai.
Petit comité Dilma Rousseff se reuniu anteontem no Palácio da Alvorada com o marqueteiro João Santana e ministros para, além de avaliar as recentes pesquisas de popularidade, discutir se deve mesmo gravar pronunciamento de TV sobre o Minha Casa Melhor.
Receita Aconselhada a tomar uma "injeção de Lula'', a presidente cancelou a viagem que faria ao Rio hoje para se encontrar com o ex-presidente em evento do PT no Paraná. Dilma remarcou para amanhã a ida ao Rio para anunciar obras na Rocinha.
Bolão Devido aos recentes recados de Dias Toffoli, integrantes da corte e do governo apostam que o ministro pode seguir voto de Gilmar Mendes no mandado de segurança contra o projeto que inibe novos partidos. A proposta interessa a Dilma.
Bombeiro Advogado de Lindbergh Farias (PT-RJ) no STF, Márcio Thomaz Bastos vai pedir uma reconsideração do despacho em que Toffoli determinou quebra de sigilos do senador para apurar suposto desvio no fundo de pensão de Nova Iguaçu.
Prestígio Dois dos três novos ministros do STJ nomeados ontem foram apoiados por Ricardo Lewandowski: os desembargadores Regina Helena e Paulo Dias. O ministro do STF foi avisado previamente sobre as escolhas.
Vem comigo Foi Dilma quem convidou Alexandre Padilha (Saúde), na última hora, a integrar sua comitiva a Portugal. Pego de surpresa, o ministro não conseguiu ir no mesmo voo da presidente.
Visita à Folha Samuel Pessôa, economista, visitou ontem a Folha, a convite do jornal, onde foi recebido em almoço.
com ANDRÉIA SADI e BRUNO BOGHOSSIAN
TIROTEIO
"O ministro parece desconhecer a competência da PF, que deveria se concentrar em conter a entrada de armas e drogas no Brasil."
DO VEREADOR FLORIANO PESARO (PSDB-SP), sobre pedido de informação feito à PF por José Eduardo Cardozo (Justiça) sobre protestos em São Paulo e no Rio.
CONTRAPONTO
Couvert artístico
A comissão da Câmara dos Deputados criada para acompanhar as investigações sobre o incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), discutia anteontem a criação de uma nova lei sobre prevenção e combate a incêndios no país, quando o coordenador do colegiado, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), passou a palavra à deputada Elcione Barbalho (PMDB-PA), ex-mulher de Jader Barbalho e relatora do projeto.
Mas o petista equivocou-se e chamou-a "Alcione". Bem-humorada, a deputada corrigiu o colega:
--A Alcione é a que canta. Eu sou a que encanta!
Os novos protestos contra o reajuste das tarifas de transporte público em São Paulo previstos para hoje preocupam a cúpula da segurança pelo risco maior de confronto entre Polícia Militar e manifestantes. No quebra-quebra de terça-feira, a ordem na PM era não reagir. O Batalhão de Choque não foi acionado. Diante da depredação e da tentativa de linchar um policial, os ânimos estão mais acirrados na tropa. O comando insistirá para que os policiais não caiam em provocações.
Delegada 1 Está na mesa do governador Geraldo Alckmin um projeto em que o Estado pagaria gratificações a policiais nos horários de folga, como forma de reforçar o contingente de policiamento.
Delegada 2 A proposta, que cria uma espécie de operação delegada estadual, é semelhante à apresentada há uma semana pelo ex-prefeito Gilberto Kassab, mas foi enviada ao Bandeirantes antes pelo comandante-geral da PM, coronel Benedito Meira.
Revezes Há obstáculos jurídicos para que se adote as horas extras estaduais para PMs. Os policiais poderiam pleitear a incorporação dessas gratificações aos salários e, depois, à aposentadoria.
Amor em SP Antes de embarcar de volta de Paris para São Paulo e em meio à onda de protestos, Alckmin postou no Instagram foto em que ele e a mulher, Lu, aparecem jovens e abraçados, com a mensagem: Minha namorada há mais de 34 anos''.
Eu sozinho A defesa que o procurador-geral do Estado, Elival da Silva Ramos, fez da concentração do poder de investigar autoridades nas mãos do chefe do Ministério Público não tem aval do governador, dizem auxiliares.
Talismã Diante da notícia de que Eduardo Campos (PSB-PE) e a mulher, Renata, esperam o quinto filho, aliados do governador lembram que dois herdeiros nasceram durante campanhas do pai.
Petit comité Dilma Rousseff se reuniu anteontem no Palácio da Alvorada com o marqueteiro João Santana e ministros para, além de avaliar as recentes pesquisas de popularidade, discutir se deve mesmo gravar pronunciamento de TV sobre o Minha Casa Melhor.
Receita Aconselhada a tomar uma "injeção de Lula'', a presidente cancelou a viagem que faria ao Rio hoje para se encontrar com o ex-presidente em evento do PT no Paraná. Dilma remarcou para amanhã a ida ao Rio para anunciar obras na Rocinha.
Bolão Devido aos recentes recados de Dias Toffoli, integrantes da corte e do governo apostam que o ministro pode seguir voto de Gilmar Mendes no mandado de segurança contra o projeto que inibe novos partidos. A proposta interessa a Dilma.
Bombeiro Advogado de Lindbergh Farias (PT-RJ) no STF, Márcio Thomaz Bastos vai pedir uma reconsideração do despacho em que Toffoli determinou quebra de sigilos do senador para apurar suposto desvio no fundo de pensão de Nova Iguaçu.
Prestígio Dois dos três novos ministros do STJ nomeados ontem foram apoiados por Ricardo Lewandowski: os desembargadores Regina Helena e Paulo Dias. O ministro do STF foi avisado previamente sobre as escolhas.
Vem comigo Foi Dilma quem convidou Alexandre Padilha (Saúde), na última hora, a integrar sua comitiva a Portugal. Pego de surpresa, o ministro não conseguiu ir no mesmo voo da presidente.
Visita à Folha Samuel Pessôa, economista, visitou ontem a Folha, a convite do jornal, onde foi recebido em almoço.
com ANDRÉIA SADI e BRUNO BOGHOSSIAN
TIROTEIO
"O ministro parece desconhecer a competência da PF, que deveria se concentrar em conter a entrada de armas e drogas no Brasil."
DO VEREADOR FLORIANO PESARO (PSDB-SP), sobre pedido de informação feito à PF por José Eduardo Cardozo (Justiça) sobre protestos em São Paulo e no Rio.
CONTRAPONTO
Couvert artístico
A comissão da Câmara dos Deputados criada para acompanhar as investigações sobre o incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), discutia anteontem a criação de uma nova lei sobre prevenção e combate a incêndios no país, quando o coordenador do colegiado, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), passou a palavra à deputada Elcione Barbalho (PMDB-PA), ex-mulher de Jader Barbalho e relatora do projeto.
Mas o petista equivocou-se e chamou-a "Alcione". Bem-humorada, a deputada corrigiu o colega:
--A Alcione é a que canta. Eu sou a que encanta!
Descaso com a paixão nacional - ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 13/06
A Receita decidiu jogar duro com os clubes de futebol brasileiros. Ela tem se negado a parcelar as dívidas dos clubes, que somam cerca de R$ 4 bilhões. As propostas de renegociação que a Receita apresenta não são sustentáveis pela realidade econômica do nosso futebol. Estão à beira de penhora e sequestro de bens o Fluminense, o Botafogo, o Vasco da Gama e o Palmeiras, entre outros.
Verdadeiro ou falso?
Sobre a dubiedade da governadora Rosalba Ciarlini (RN) na sucessão presidencial, o presidente do DEM, José Agripino (RN), diz: "Os gestores fazem política de boa vizinhança com o governo federal". Sobre o apoio à presidente Dilma pelos governadores do PSB, o líder do PSB na Câmara, Beto Albuquerque (RS), afirma: "A virulência do governo Dilma é grande. É defender o Eduardo Campos e o governador perde as verbas". Sobre prefeitos do PT defenderem uma aliança com o PMDB na sucessão do Rio, o senador Lindbergh Farias (PT) explica: "Eles precisam do apoio do governo Cabral". Quem tem razão? Só o tempo dirá. Façam suas apostas!
"A situação financeira dos clubes é caótica. Podemos chegar em 2014 com estádios de primeiro mundo, mas com os clubes fechando as portas"
Francisco Dornelles Senador (PP-RJ), ex-ministro da Fazenda e ex-secretário da Receita
Os xiitas
Dirigentes esportivos relatam que negociadores do governo ameaçam reter a receita dos clubes na Timemania, loteria da CEF. O Brasil representa 2% do PIB do futebol mundial e, com clubes falidos, não chegará aos 30% da Inglaterra.
O contra-ataque
O Diretório Regional do PT vai se reunir domingo, e os que defendem a candidatura própria ao governo querem aprovar censura ao prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, por este defender aliança com o PMDB para apoiar Luiz Fernando Pezão.
Frase
“A situação financeira dos clubes é caótica. Podemos chegar em 2014 com estádios de primeiro mundo, mas com os clubes fechando as portas” Francisco Dornelles Senador (PP-RJ), ex-ministro da Fazenda e ex-secretário da Receita
O legado da Copa
A presidente Dilma anunciará hoje a entrega de seis caminhões que funcionam como Centro de Comando Móvel, e outros equipamentos de segurança de alta tecnologia, para as seis capitais-sede da Copa das Confederações. No ano que vem, as outras seis capitais, que vão receber jogos da Copa do Mundo, também receberão os seus.
Correndo atrás da verba desviada
Até maio, o Ministério do Turismo abriu 1.490 processos de Tomada de Contas, relativos a R$ 305,7 milhões em repasses para convênios. Desse total, 114 processos foram para o TCU, com prejuízo comprovado de R$ 23,4 milhões.
Dupla jornada
O candidato do PSB à Presidência, o governador Eduardo Campos (PSB-PE), compatibilizará a campanha eleitoral de 2014 com a atenção a um recém-nascido. Renata, sua mulher, está grávida do quinto filho, que nascerá no fim do ano.
Carta branca
Para aplacar a ira do PMDB, o ministro Aloizio Mercadante (Educação) comunicou ontem, a líderes do PMDB e do PT, que ministros novos, como Antônio Andrade (Agricultura) e Moreira Franco (Aviação Civil), ao promoverem mudanças na montagem de suas equipes, devem fundamentar bem, para o Planalto, mudanças e indicações.
O pedetista Sérgio Vidigal volta à Secretaria de Políticas Públicas do Ministério do Trabalho. Ele ocupou o cargo na gestão de Carlos Lupi.
Verdadeiro ou falso?
Sobre a dubiedade da governadora Rosalba Ciarlini (RN) na sucessão presidencial, o presidente do DEM, José Agripino (RN), diz: "Os gestores fazem política de boa vizinhança com o governo federal". Sobre o apoio à presidente Dilma pelos governadores do PSB, o líder do PSB na Câmara, Beto Albuquerque (RS), afirma: "A virulência do governo Dilma é grande. É defender o Eduardo Campos e o governador perde as verbas". Sobre prefeitos do PT defenderem uma aliança com o PMDB na sucessão do Rio, o senador Lindbergh Farias (PT) explica: "Eles precisam do apoio do governo Cabral". Quem tem razão? Só o tempo dirá. Façam suas apostas!
"A situação financeira dos clubes é caótica. Podemos chegar em 2014 com estádios de primeiro mundo, mas com os clubes fechando as portas"
Francisco Dornelles Senador (PP-RJ), ex-ministro da Fazenda e ex-secretário da Receita
Os xiitas
Dirigentes esportivos relatam que negociadores do governo ameaçam reter a receita dos clubes na Timemania, loteria da CEF. O Brasil representa 2% do PIB do futebol mundial e, com clubes falidos, não chegará aos 30% da Inglaterra.
O contra-ataque
O Diretório Regional do PT vai se reunir domingo, e os que defendem a candidatura própria ao governo querem aprovar censura ao prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, por este defender aliança com o PMDB para apoiar Luiz Fernando Pezão.
Frase
“A situação financeira dos clubes é caótica. Podemos chegar em 2014 com estádios de primeiro mundo, mas com os clubes fechando as portas” Francisco Dornelles Senador (PP-RJ), ex-ministro da Fazenda e ex-secretário da Receita
O legado da Copa
A presidente Dilma anunciará hoje a entrega de seis caminhões que funcionam como Centro de Comando Móvel, e outros equipamentos de segurança de alta tecnologia, para as seis capitais-sede da Copa das Confederações. No ano que vem, as outras seis capitais, que vão receber jogos da Copa do Mundo, também receberão os seus.
Correndo atrás da verba desviada
Até maio, o Ministério do Turismo abriu 1.490 processos de Tomada de Contas, relativos a R$ 305,7 milhões em repasses para convênios. Desse total, 114 processos foram para o TCU, com prejuízo comprovado de R$ 23,4 milhões.
Dupla jornada
O candidato do PSB à Presidência, o governador Eduardo Campos (PSB-PE), compatibilizará a campanha eleitoral de 2014 com a atenção a um recém-nascido. Renata, sua mulher, está grávida do quinto filho, que nascerá no fim do ano.
Carta branca
Para aplacar a ira do PMDB, o ministro Aloizio Mercadante (Educação) comunicou ontem, a líderes do PMDB e do PT, que ministros novos, como Antônio Andrade (Agricultura) e Moreira Franco (Aviação Civil), ao promoverem mudanças na montagem de suas equipes, devem fundamentar bem, para o Planalto, mudanças e indicações.
O pedetista Sérgio Vidigal volta à Secretaria de Políticas Públicas do Ministério do Trabalho. Ele ocupou o cargo na gestão de Carlos Lupi.
O combate de Jacob Gorender - EUGÊNIO BUCCI
ESTADÃO - 13/06
Morreu nesta terça-feira, aos 90 anos, o militante comunista, historiador e intelectual Jacob Gorender. A voz aguda, contida, quase delicada, não denunciava a fortaleza moral e o texto destemido que marcaram seu caráter. Gorender não se dobrou a nada - não se dobrou ao dinheiro, não se dobrou à pobreza, não se dobrou às chantagens psicológicas dos camaradas patrulheiros, não se dobrou à força bruta. É desses que deixam por biografia uma linha reta e austera. Seguiu seu próprio pensamento, seu próprio juízo, e nos legou uma obra essencial.
No final da década de 80, quando fui editor da revista Teoria & Debate (uma publicação trimestral ligada ao diretório paulista do Partido dos Trabalhadores), tive a honra de me aproximar desse grande homem. A primeira lembrança que guardo dele é o espírito crítico. Naquele tempo, quando a ortodoxia fanática ainda ditava - por inacreditável que possa parecer - a postura da militância de esquerda, com uma descabida reverência em relação a nomes de criminosos como Joseph Stalin, Gorender ensinava a autonomia intelectual e a razão livre, atributos que carregava pelo menos desde os anos 50 e que lhe cobraram um preço demasiadamente alto.
Em 1990, ele concedeu a Alípio Freire e a Paulo de Tarso Venceslau uma entrevista que publicamos com destaque na Teoria & Debate. Num trecho particularmente saboroso de seu depoimento, Gorender contou um caso que ilustra muito bem a idolatria da mentalidade que vicejava em certos ambientes comunistas. Na década de 50, fora enviado pelo Partido Comunista à União Soviética (PCUS) para integrar um programa de estudos marxistas. Estava em Moscou quando a cúpula bolchevique começou a revelar os chamados "crimes de Stalin", que dariam o tom dos debates no 20.º Congresso do PCUS, em 1956. Em reação àquelas denúncias, facções de stalinistas começaram a negar sistematicamente as barbaridades pelos próprios dirigentes soviéticos.
Passemos a palavra a Jacob Gorender: "Durante o curso (que fazia em Moscou), realizou-se o 20.º Congresso do PC da União Soviética. O (Diógenes de)Arruda foi ao congresso como representante brasileiro, e a ele se juntaram (Maurício)Grabois e Jover Telles, participantes do curso em Moscou. Para nossa surpresa, o jornal Pravda começou a publicar artigos e discursos de vários dirigentes com críticas a Stalin. Depois, veio o famoso informe confidencial de Kruchev. Não o lemos porque não nos foi distribuído. Só circulava dentro do âmbito do próprio PCUS. Mas nós ouvimos conferências de professores que nos transmitiram seu conteúdo. O informe fez a primeira revelação oficial de parte dos crimes de Stalin. Esse congresso vai abalar o PCB. Em maio de 1956, o informe foi publicado na íntegra pelo The New York Times e pelos grandes jornais do mundo inteiro. Aqui no Brasil ele foi, a princípio, declarado falso pelos comunistas. Porém, Arruda, ao regressar da viagem, confirmou a autenticidade do documento".
Na ocasião, os militantes do PCB liam aqui, neste jornal, as notícias que desmascaravam as engrenagens genocidas da burocracia stalinista e achavam que tudo não passava de uma campanha difamatória engendrada pelo imperialismo. Não era possível, diziam. Aquilo só poderia ser uma falsificação, só poderia ser propaganda anticomunista. Ficaram chocados quando os delegados brasileiros ao 20.º Congresso começaram a voltar e confirmaram: o material que a imprensa burguesa publicava era apenas a verdade. Foram tempos traumáticos para os marxistas, um mundo de utopias desmoronava. Gorender teve, ainda, uma decepção extra. Em sua volta de Moscou, fez escala na Hungria, onde viu a invasão dos tanques soviéticos oprimindo a nação, que tentava se sublevar. Tornou-se ainda mais avesso aos burocratas, mas não arredou pé do sonho de igualitarismo, pelo qual também pagou muito caro.
Em 1967 foi expulso do PCB. Criou o PCBR. Em 1970 foi preso e condenado a cumprir pena de dois anos. Como tantos outros, foi torturado. Durante o encarceramento, conseguiu manter uma atividade profissional regular, que permaneceu em segredo até muito recentemente. De dentro de sua cela na prisão, atuou como consultor e tradutor das coleções Os Pensadores e Os Economistas, então publicadas pela Abril Cultural, cujo diretor era Pedro Paulo Poppovic. Dona Idealina, esposa de Gorender, servia de intermediária. Ela saía do presídio, após visitar o marido, carregando uma dessas sacolas que as donas de casa usavam para ir à feira, cheia de laudas. Eram textos traduzidos do alemão ou do francês que, depois, em páginas de livro, abasteceriam a cabeça e a imaginação dos leitores. Naturalmente, aquele trabalho, embora remunerado, não teve crédito, posto que era feito na clandestinidade, mas uma das edições de O Capital da Abril Cultural, esta com o selo da coleção Os Economistas, teve a (longa) introdução assinada por Jacob Gorender.
Quando frequentava a redação de Teoria & Debate, ainda se dizia comunista, sem a menor hesitação, mas não pactuava com qualquer forma de opressão do pensamento. Seguiu seu destino, em sua linha reta. Seu livro Combate nas Trevas, de 1987, que reconstitui a saga das organizações de esquerda se esfacelando e se reagrupando em siglas intermináveis durante os anos de repressão mais sangrenta, inscreve-se como um marco inaugural na tentativa, ainda inconclusa, de desvelar uma história sombria: a história das torturas e dos assassinatos praticados por agentes públicos contra cidadãos desarmados, imobilizados e indefesos.
Gorender encarou trevas espessas: as do stalinismo, as da ditadura militar e as do fanatismo, do mais comezinho ao mais totalizante. Deixa uma herança de luz. Foi generoso e acolhedor com aqueles que eram menores, muito menores do que ele. Foi uma prova de que a humanidade pode ser melhor do que é. Venceu seu combate, embora ainda haja trevas a combater.
Morreu nesta terça-feira, aos 90 anos, o militante comunista, historiador e intelectual Jacob Gorender. A voz aguda, contida, quase delicada, não denunciava a fortaleza moral e o texto destemido que marcaram seu caráter. Gorender não se dobrou a nada - não se dobrou ao dinheiro, não se dobrou à pobreza, não se dobrou às chantagens psicológicas dos camaradas patrulheiros, não se dobrou à força bruta. É desses que deixam por biografia uma linha reta e austera. Seguiu seu próprio pensamento, seu próprio juízo, e nos legou uma obra essencial.
No final da década de 80, quando fui editor da revista Teoria & Debate (uma publicação trimestral ligada ao diretório paulista do Partido dos Trabalhadores), tive a honra de me aproximar desse grande homem. A primeira lembrança que guardo dele é o espírito crítico. Naquele tempo, quando a ortodoxia fanática ainda ditava - por inacreditável que possa parecer - a postura da militância de esquerda, com uma descabida reverência em relação a nomes de criminosos como Joseph Stalin, Gorender ensinava a autonomia intelectual e a razão livre, atributos que carregava pelo menos desde os anos 50 e que lhe cobraram um preço demasiadamente alto.
Em 1990, ele concedeu a Alípio Freire e a Paulo de Tarso Venceslau uma entrevista que publicamos com destaque na Teoria & Debate. Num trecho particularmente saboroso de seu depoimento, Gorender contou um caso que ilustra muito bem a idolatria da mentalidade que vicejava em certos ambientes comunistas. Na década de 50, fora enviado pelo Partido Comunista à União Soviética (PCUS) para integrar um programa de estudos marxistas. Estava em Moscou quando a cúpula bolchevique começou a revelar os chamados "crimes de Stalin", que dariam o tom dos debates no 20.º Congresso do PCUS, em 1956. Em reação àquelas denúncias, facções de stalinistas começaram a negar sistematicamente as barbaridades pelos próprios dirigentes soviéticos.
Passemos a palavra a Jacob Gorender: "Durante o curso (que fazia em Moscou), realizou-se o 20.º Congresso do PC da União Soviética. O (Diógenes de)Arruda foi ao congresso como representante brasileiro, e a ele se juntaram (Maurício)Grabois e Jover Telles, participantes do curso em Moscou. Para nossa surpresa, o jornal Pravda começou a publicar artigos e discursos de vários dirigentes com críticas a Stalin. Depois, veio o famoso informe confidencial de Kruchev. Não o lemos porque não nos foi distribuído. Só circulava dentro do âmbito do próprio PCUS. Mas nós ouvimos conferências de professores que nos transmitiram seu conteúdo. O informe fez a primeira revelação oficial de parte dos crimes de Stalin. Esse congresso vai abalar o PCB. Em maio de 1956, o informe foi publicado na íntegra pelo The New York Times e pelos grandes jornais do mundo inteiro. Aqui no Brasil ele foi, a princípio, declarado falso pelos comunistas. Porém, Arruda, ao regressar da viagem, confirmou a autenticidade do documento".
Na ocasião, os militantes do PCB liam aqui, neste jornal, as notícias que desmascaravam as engrenagens genocidas da burocracia stalinista e achavam que tudo não passava de uma campanha difamatória engendrada pelo imperialismo. Não era possível, diziam. Aquilo só poderia ser uma falsificação, só poderia ser propaganda anticomunista. Ficaram chocados quando os delegados brasileiros ao 20.º Congresso começaram a voltar e confirmaram: o material que a imprensa burguesa publicava era apenas a verdade. Foram tempos traumáticos para os marxistas, um mundo de utopias desmoronava. Gorender teve, ainda, uma decepção extra. Em sua volta de Moscou, fez escala na Hungria, onde viu a invasão dos tanques soviéticos oprimindo a nação, que tentava se sublevar. Tornou-se ainda mais avesso aos burocratas, mas não arredou pé do sonho de igualitarismo, pelo qual também pagou muito caro.
Em 1967 foi expulso do PCB. Criou o PCBR. Em 1970 foi preso e condenado a cumprir pena de dois anos. Como tantos outros, foi torturado. Durante o encarceramento, conseguiu manter uma atividade profissional regular, que permaneceu em segredo até muito recentemente. De dentro de sua cela na prisão, atuou como consultor e tradutor das coleções Os Pensadores e Os Economistas, então publicadas pela Abril Cultural, cujo diretor era Pedro Paulo Poppovic. Dona Idealina, esposa de Gorender, servia de intermediária. Ela saía do presídio, após visitar o marido, carregando uma dessas sacolas que as donas de casa usavam para ir à feira, cheia de laudas. Eram textos traduzidos do alemão ou do francês que, depois, em páginas de livro, abasteceriam a cabeça e a imaginação dos leitores. Naturalmente, aquele trabalho, embora remunerado, não teve crédito, posto que era feito na clandestinidade, mas uma das edições de O Capital da Abril Cultural, esta com o selo da coleção Os Economistas, teve a (longa) introdução assinada por Jacob Gorender.
Quando frequentava a redação de Teoria & Debate, ainda se dizia comunista, sem a menor hesitação, mas não pactuava com qualquer forma de opressão do pensamento. Seguiu seu destino, em sua linha reta. Seu livro Combate nas Trevas, de 1987, que reconstitui a saga das organizações de esquerda se esfacelando e se reagrupando em siglas intermináveis durante os anos de repressão mais sangrenta, inscreve-se como um marco inaugural na tentativa, ainda inconclusa, de desvelar uma história sombria: a história das torturas e dos assassinatos praticados por agentes públicos contra cidadãos desarmados, imobilizados e indefesos.
Gorender encarou trevas espessas: as do stalinismo, as da ditadura militar e as do fanatismo, do mais comezinho ao mais totalizante. Deixa uma herança de luz. Foi generoso e acolhedor com aqueles que eram menores, muito menores do que ele. Foi uma prova de que a humanidade pode ser melhor do que é. Venceu seu combate, embora ainda haja trevas a combater.
Faltas e dribles - PAULA CESARINO COSTA
FOLHA DE SP - 13/06
RIO DE JANEIRO - A cidade parou. Twitter, Facebook e torpedos estavam a mil no começo da noite de terça-feira. Trajetos feitos normalmente em 30 minutos demoravam mais de uma hora, distâncias de 8 km foram percorridas em quase duas horas. Ninguém entendia. Ninguém explicava. Havia ocorrido um acidente na avenida Brasil, a principal via que corta a cidade da zona norte à zona oeste, no início da tarde. Deu um nó. Para quem ia em qualquer direção.
O trânsito congestionado virou assunto cotidiano na boca dos cariocas. Com uma ponta de irritação: "Estamos virando São Paulo".
É no quesito mobilidade (urbana e aérea) que mora o perigo para os grandes eventos no Brasil.
A Copa das Confederações começa no fim de semana, em seis cidades. São poucos dias de competição, raros turistas de fora e, no caso do Rio, apenas três jogos realizados na cidade (dois deles no domingo).
Será menos do que um ensaio.
Até agora, o teste do Maracanã deu certo. Dentro e fora. Mas era tudo festa. O governo teme o único jogo que acontece às 16h de um dia de semana, apesar de um dos times ser o Taiti... A saída foi decretar feriado escolar no bairro e ponto facultativo.
Em meio a obras, o presidente da Anac diz que o Galeão está totalmente preparado para receber quem vier. Vamos negociar com são Pedro para o Santos Dumont não fechar.
Corremos também o risco sério de ficar "mudos". A quantidade de vezes que uma ligação de celular é interrompida impressiona. Cada operadora tem seus "pontos mudos" pela cidade. No Maracanã, a situação é pior. As empresas já se defendem antecipadamente: "Faltou tempo".
Talvez haja um paralelo entre a seleção em campo e o país em torno dela: desentrosados, alimentando dúvidas sobre sua eficiência e com a esperança de que, na última hora, a criatividade vença a desorganização.
RIO DE JANEIRO - A cidade parou. Twitter, Facebook e torpedos estavam a mil no começo da noite de terça-feira. Trajetos feitos normalmente em 30 minutos demoravam mais de uma hora, distâncias de 8 km foram percorridas em quase duas horas. Ninguém entendia. Ninguém explicava. Havia ocorrido um acidente na avenida Brasil, a principal via que corta a cidade da zona norte à zona oeste, no início da tarde. Deu um nó. Para quem ia em qualquer direção.
O trânsito congestionado virou assunto cotidiano na boca dos cariocas. Com uma ponta de irritação: "Estamos virando São Paulo".
É no quesito mobilidade (urbana e aérea) que mora o perigo para os grandes eventos no Brasil.
A Copa das Confederações começa no fim de semana, em seis cidades. São poucos dias de competição, raros turistas de fora e, no caso do Rio, apenas três jogos realizados na cidade (dois deles no domingo).
Será menos do que um ensaio.
Até agora, o teste do Maracanã deu certo. Dentro e fora. Mas era tudo festa. O governo teme o único jogo que acontece às 16h de um dia de semana, apesar de um dos times ser o Taiti... A saída foi decretar feriado escolar no bairro e ponto facultativo.
Em meio a obras, o presidente da Anac diz que o Galeão está totalmente preparado para receber quem vier. Vamos negociar com são Pedro para o Santos Dumont não fechar.
Corremos também o risco sério de ficar "mudos". A quantidade de vezes que uma ligação de celular é interrompida impressiona. Cada operadora tem seus "pontos mudos" pela cidade. No Maracanã, a situação é pior. As empresas já se defendem antecipadamente: "Faltou tempo".
Talvez haja um paralelo entre a seleção em campo e o país em torno dela: desentrosados, alimentando dúvidas sobre sua eficiência e com a esperança de que, na última hora, a criatividade vença a desorganização.
'Espantoso, grandioso, bacana' - JOSÉ SERRA
ESTADÃO - 13/06
Há poucas semanas, foram concluídas as licitações para novas explorações de petróleo, paralisadas há cinco anos. Eram licitações, digamos, à procura de um autor. Como este não apareceu, voltou-se ao script do governo FHC. O total arrecadado pelo leilão, em bônus de concessões, foi de R$ 2,8 bilhões. Uma diretora da ANP, perplexa e extasiada, declarou que aquilo tinha sido "espantoso, grandioso e bacana".
Esse atraso de cinco anos é um emblema da bisonhice do atual gerenciamento da economia e do País. Temos um governo que transforma facilidades em dificuldades, quando a obrigação mais elementar de um gestor é transformar dificuldades em soluções. Como diria minha mãe, sabiamente: procuram sarna para se coçar. O prejuízo é evidente: cerca de R$ 1,5 bilhão só no caso dos bônus, supondo juros módicos, de 10% ao ano. Pior: o investimento previsto de US$ 7 bilhões poderia estar em curso há cinco anos, gerando empregos e renda.
Hoje em dia, solução virar problema é regra, não exceção. O governo passado levou cinco anos para privatizar umas poucas estradas, processo capitaneado pela então ministra Dilma Rousseff. Foram as piores concessões de estradas jamais feitas no Brasil. Trouxeram novos pedágios, manutenção ruim e nada de investimentos nas rodovias.
Após outros cinco anos de estradas federais congestionadas e deterioradas, fez-se o anúncio de uma nova rodada de licitações, que, mesmo assim, ainda não ocorreu, pois, entre outras coisas, o governo estimou de modo errado a demanda futura de transportes e decidiu fixar um teto para a taxa de lucro das concessionárias, proeza inédita no mundo. Quando concedemos seis estradas estaduais em São Paulo, na licitação mais bem-sucedida da década no Brasil, estimamos, sim, qual seria a Taxa Interna de Retorno (TIR) das concessionárias, mas ninguém cogitou a insensatez de proibir que elas, em razão de ganhos de produtividade, pudessem ultrapassá-la - sempre que cumprissem o cronograma de investimentos e mantivessem a qualidade do serviço. Um esquema bem planejado resultou em tarifas relativamente baixas, outorgas elevadas e grandes investimentos das concessionárias.
Na área elétrica, o governo Lula levou três anos para fazer o primeiro leilão. Esticou a questão das concessões vigentes, que só foi tratada de forma atropelada e extremamente custosa no final de 2012 - 10.º ano da era petista - e com uma medida provisória, que acabou sendo derrubada e substituída por decreto! Paralelamente, só a novela de Belo Monte, que tem tudo de ruim em matéria de preços e privatização arrevesada, renderia um canal de más notícias na internet. Na prática, hoje, o abastecimento de energia elétrica no Brasil continua pendurado nas térmicas e dependendo de São Pedro.
Ainda no caso do petróleo, o colapso de gestão mais agudo se deu na implementação do modelo de partilha no pré-sal, em prejuízo do sistema de concessões, que ia bem. O novo método exigiu um aporte disfarçado do Tesouro à Petrobrás de mais de R$ 100 bilhões. E, acima de tudo, envolveu grande atraso dos investimentos no pré-sal, pois ficou difícil operar o modelo. O governo erra e, como está atolado até o pescoço nos negócios, assume as consequências e repassa os custos para os consumidores ou contribuintes.
O exemplo recente dos portos, cujos serviços então entre os mais custosos do mundo, é significativo. Foram mais de 12 anos de omissão na implantação de novos marcos regulatórios, ao fim dos quais Dilma editou uma medida provisória. Isso evitou a análise e o debate no Congresso e facilitou a tarefa dos que pretendiam sabotar o projeto todo ou em parte, além de permitir que alguns obtivessem vantagens heterodoxas em troca da aprovação. Por que o governo tinha de se expor à chicana e à chantagem? Em parte porque escolheu enviar uma MP, que, se não for votada e aprovada, perde a validade. Muito melhor teria sido o Planalto enviar um projeto de lei com urgência constitucional, que, depois de 90 dias, bloqueia a pauta do Congresso até que seja votado.
Tem-se um problema pela frente? Ora, em vez de resolvê-lo, vamos agravá-lo com criatividade. Um novo tropeço vem sendo burilado agora na mineração, corresponsável pela sustentação do balanço de pagamentos do Brasil, ao lado da agropecuária. No período recente o setor exportou em média uns US$ 40 bilhões por ano. Cerca de 20% da produção fica no mercado interno. No total, são gerados cerca de 180 mil empregos diretos.
Em 2009, Lula anunciou que faria um novo Código de Mineração. Não fez, é claro, mas gerou incertezas no setor, incitando os empresários a atuar na pesquisa e na obtenção de licença de lavras antes de mudarem as regras. Por isso mesmo, no fim de 2011 Dilma suspendeu as autorizações; muito depois tentou consertar, reabrindo umas poucas concessões. Estima-se que foram represados, em consequência, uns R$ 20 bilhões em investimentos. Mas... cadê a solução?
O senador Aloysio Nunes advertiu oportunamente que o governo recorreria de novo a uma MP, agora da mineração! Note-se que o tal código atiçará a questão dos royalties. Hoje o setor recolhe relativamente pouco aos Estados e municípios produtores. Alguém crê que isso vá permanecer, apesar das dezenas de bilhões de faturamento? E as regiões não produtoras vão ter um acesso de razoabilidade e não capturar mais nada, ao contrário do que pretendem com o petróleo?
Dispensando explicações psicológicas - do sadomasoquismo à megalomania -, pesam muito no modo petista de governar o despreparo e a ideia de que passar pelo governo é como fazer um curso de graduação. Vai-se para aprender, não para fazer as coisas direito, a tempo, antecipando-se aos acontecimentos, aos obstáculos, às reações no meio político e na sociedade.
Pesa ainda, acima de tudo, a convicção equivocada de que as vastas mudanças são promovidas automaticamente por grandes códigos, modelos inéditos, declarações enfáticas e cadeias nacionais de TV. O que parece valer não são as mudanças em si, mas suas simulações, sobretudo se forem bem aproveitadas como peças publicitárias.
Há poucas semanas, foram concluídas as licitações para novas explorações de petróleo, paralisadas há cinco anos. Eram licitações, digamos, à procura de um autor. Como este não apareceu, voltou-se ao script do governo FHC. O total arrecadado pelo leilão, em bônus de concessões, foi de R$ 2,8 bilhões. Uma diretora da ANP, perplexa e extasiada, declarou que aquilo tinha sido "espantoso, grandioso e bacana".
Esse atraso de cinco anos é um emblema da bisonhice do atual gerenciamento da economia e do País. Temos um governo que transforma facilidades em dificuldades, quando a obrigação mais elementar de um gestor é transformar dificuldades em soluções. Como diria minha mãe, sabiamente: procuram sarna para se coçar. O prejuízo é evidente: cerca de R$ 1,5 bilhão só no caso dos bônus, supondo juros módicos, de 10% ao ano. Pior: o investimento previsto de US$ 7 bilhões poderia estar em curso há cinco anos, gerando empregos e renda.
Hoje em dia, solução virar problema é regra, não exceção. O governo passado levou cinco anos para privatizar umas poucas estradas, processo capitaneado pela então ministra Dilma Rousseff. Foram as piores concessões de estradas jamais feitas no Brasil. Trouxeram novos pedágios, manutenção ruim e nada de investimentos nas rodovias.
Após outros cinco anos de estradas federais congestionadas e deterioradas, fez-se o anúncio de uma nova rodada de licitações, que, mesmo assim, ainda não ocorreu, pois, entre outras coisas, o governo estimou de modo errado a demanda futura de transportes e decidiu fixar um teto para a taxa de lucro das concessionárias, proeza inédita no mundo. Quando concedemos seis estradas estaduais em São Paulo, na licitação mais bem-sucedida da década no Brasil, estimamos, sim, qual seria a Taxa Interna de Retorno (TIR) das concessionárias, mas ninguém cogitou a insensatez de proibir que elas, em razão de ganhos de produtividade, pudessem ultrapassá-la - sempre que cumprissem o cronograma de investimentos e mantivessem a qualidade do serviço. Um esquema bem planejado resultou em tarifas relativamente baixas, outorgas elevadas e grandes investimentos das concessionárias.
Na área elétrica, o governo Lula levou três anos para fazer o primeiro leilão. Esticou a questão das concessões vigentes, que só foi tratada de forma atropelada e extremamente custosa no final de 2012 - 10.º ano da era petista - e com uma medida provisória, que acabou sendo derrubada e substituída por decreto! Paralelamente, só a novela de Belo Monte, que tem tudo de ruim em matéria de preços e privatização arrevesada, renderia um canal de más notícias na internet. Na prática, hoje, o abastecimento de energia elétrica no Brasil continua pendurado nas térmicas e dependendo de São Pedro.
Ainda no caso do petróleo, o colapso de gestão mais agudo se deu na implementação do modelo de partilha no pré-sal, em prejuízo do sistema de concessões, que ia bem. O novo método exigiu um aporte disfarçado do Tesouro à Petrobrás de mais de R$ 100 bilhões. E, acima de tudo, envolveu grande atraso dos investimentos no pré-sal, pois ficou difícil operar o modelo. O governo erra e, como está atolado até o pescoço nos negócios, assume as consequências e repassa os custos para os consumidores ou contribuintes.
O exemplo recente dos portos, cujos serviços então entre os mais custosos do mundo, é significativo. Foram mais de 12 anos de omissão na implantação de novos marcos regulatórios, ao fim dos quais Dilma editou uma medida provisória. Isso evitou a análise e o debate no Congresso e facilitou a tarefa dos que pretendiam sabotar o projeto todo ou em parte, além de permitir que alguns obtivessem vantagens heterodoxas em troca da aprovação. Por que o governo tinha de se expor à chicana e à chantagem? Em parte porque escolheu enviar uma MP, que, se não for votada e aprovada, perde a validade. Muito melhor teria sido o Planalto enviar um projeto de lei com urgência constitucional, que, depois de 90 dias, bloqueia a pauta do Congresso até que seja votado.
Tem-se um problema pela frente? Ora, em vez de resolvê-lo, vamos agravá-lo com criatividade. Um novo tropeço vem sendo burilado agora na mineração, corresponsável pela sustentação do balanço de pagamentos do Brasil, ao lado da agropecuária. No período recente o setor exportou em média uns US$ 40 bilhões por ano. Cerca de 20% da produção fica no mercado interno. No total, são gerados cerca de 180 mil empregos diretos.
Em 2009, Lula anunciou que faria um novo Código de Mineração. Não fez, é claro, mas gerou incertezas no setor, incitando os empresários a atuar na pesquisa e na obtenção de licença de lavras antes de mudarem as regras. Por isso mesmo, no fim de 2011 Dilma suspendeu as autorizações; muito depois tentou consertar, reabrindo umas poucas concessões. Estima-se que foram represados, em consequência, uns R$ 20 bilhões em investimentos. Mas... cadê a solução?
O senador Aloysio Nunes advertiu oportunamente que o governo recorreria de novo a uma MP, agora da mineração! Note-se que o tal código atiçará a questão dos royalties. Hoje o setor recolhe relativamente pouco aos Estados e municípios produtores. Alguém crê que isso vá permanecer, apesar das dezenas de bilhões de faturamento? E as regiões não produtoras vão ter um acesso de razoabilidade e não capturar mais nada, ao contrário do que pretendem com o petróleo?
Dispensando explicações psicológicas - do sadomasoquismo à megalomania -, pesam muito no modo petista de governar o despreparo e a ideia de que passar pelo governo é como fazer um curso de graduação. Vai-se para aprender, não para fazer as coisas direito, a tempo, antecipando-se aos acontecimentos, aos obstáculos, às reações no meio político e na sociedade.
Pesa ainda, acima de tudo, a convicção equivocada de que as vastas mudanças são promovidas automaticamente por grandes códigos, modelos inéditos, declarações enfáticas e cadeias nacionais de TV. O que parece valer não são as mudanças em si, mas suas simulações, sobretudo se forem bem aproveitadas como peças publicitárias.
Ao fiador as batatas - DORA KRAMER
ESTADÃO - 13/06
É bem mais fácil falar sobre uma possível substituição da presidente Dilma Rousseff pelo ex-presidente Luiz Inácio da Silva na eleição de 2014 do que fazer essa ideia acontecer.
Entre outros motivos porque a troca seria consequência do fracasso do atual governo e ainda há muita água para rolar até que se desenhe uma percepção negativa do eleitorado ou que se delineie no horizonte a recuperação do terreno rumo ao êxito na reeleição.
Mas, como é o próprio PT que dissemina a versão sobre a candidatura de Lula dando a entender que o partido está insatisfeito com o governo e acha que o eleitorado pensa o mesmo, vamos ao exame da situação com o olhar fixado na realidade.
Esta nos fornece dados indicativos das dificuldades. Primeiro deles: Lula não tem na pesquisa do Instituto Datafolha índice de intenção de votos muito superior ao de Dilma (ele 55%, ela 51%) e em São Paulo perderia a eleição estadual para o governador Geraldo Alckmin por 26% a 42%.
Não está, portanto, com essa bola toda. Não se confirma o mito de que seria alvo de amor eterno e indissolúvel por parte do eleitorado; sofre os efeitos das circunstâncias como qualquer outro político.
Mas, até aí é o de menos. Se resolvesse entrar em campanha poderia revelar- se mesmo imbatível. A dificuldade maior é de outra natureza. Nada a ver com possível resistência da presidente em ceder o lugar, pois ela o faria se assim fosse pedido alegando razões de ordem pessoal para não concorrer.
O obstáculo aparentemente intransponível decorre do fato de que Lula é avalista de Dilma. E, como todo fiador, é o responsável pelo pagamento da conta. No caso de fracasso Lula seria o sócio majoritário.
Para construir uma candidatura como salvador da lavoura teria de partir do princípio de que a safra foi um fiasco e se apresentar ao público como o único capaz de fazer o país voltar à situação que tanta saudade provoca. Isso não se faz só com “estilo”. Requer propostas concretas e diversas.
Precisaria necessariamente se apresentar como antagonista de sua criatura, o que além de uma contradição em termos na prática trata-se de uma impossibilidade.
As imagens de Lula e Dilma fundidas no último comercial do PT concebido pelo marqueteiro João Santana falariam mais que as palavras se estas também não tivessem sido mescladas na forma de discurso único: um começava a frase, outra a completava e vice- versa.
A fórmula funciona na bonança; na adversidade volta-se na forma de prejuízo ao criador.
Mal maior
Com outras palavras o ministro Aloizio Mercadante disse dias atrás que um pibinho à toa não dói, se o poder de compra está preservado e o emprego garantido.
Não levou em conta que baixo crescimento econômico faz doer o bolso do cidadão que transfere a dor à parte mais sensível do organismo governamental: a avaliação de desempenho com reflexo nas intenções de votos.
Meia-volta
O apoio do PSDB ao pedido de perda do mandato do vice-governador Guilherme Afif, em tramitação na Assembleia Legislativa de São Paulo, é sinal de que passou a prevalecer no partido ideia de impor o máximo de desgaste possível ao ex-prefeito Gilberto Kassab.
Ao alimentar o questionamento ao acúmulo do cargo de vice com o posto de ministro da Micro e Pequena Empresa, o PSDB quer mostrar que a adesão do PSD ao governo federal rende mais custos que benefícios.
Até então, tucanos ligados a José Serra defendiam o direito de Afif à dupla função. Nos últimos dias, porém, o partido passou a se conduzir conforme concepção do presidente Aécio Neves que não vê Kassab como santo de sua devoção.
É bem mais fácil falar sobre uma possível substituição da presidente Dilma Rousseff pelo ex-presidente Luiz Inácio da Silva na eleição de 2014 do que fazer essa ideia acontecer.
Entre outros motivos porque a troca seria consequência do fracasso do atual governo e ainda há muita água para rolar até que se desenhe uma percepção negativa do eleitorado ou que se delineie no horizonte a recuperação do terreno rumo ao êxito na reeleição.
Mas, como é o próprio PT que dissemina a versão sobre a candidatura de Lula dando a entender que o partido está insatisfeito com o governo e acha que o eleitorado pensa o mesmo, vamos ao exame da situação com o olhar fixado na realidade.
Esta nos fornece dados indicativos das dificuldades. Primeiro deles: Lula não tem na pesquisa do Instituto Datafolha índice de intenção de votos muito superior ao de Dilma (ele 55%, ela 51%) e em São Paulo perderia a eleição estadual para o governador Geraldo Alckmin por 26% a 42%.
Não está, portanto, com essa bola toda. Não se confirma o mito de que seria alvo de amor eterno e indissolúvel por parte do eleitorado; sofre os efeitos das circunstâncias como qualquer outro político.
Mas, até aí é o de menos. Se resolvesse entrar em campanha poderia revelar- se mesmo imbatível. A dificuldade maior é de outra natureza. Nada a ver com possível resistência da presidente em ceder o lugar, pois ela o faria se assim fosse pedido alegando razões de ordem pessoal para não concorrer.
O obstáculo aparentemente intransponível decorre do fato de que Lula é avalista de Dilma. E, como todo fiador, é o responsável pelo pagamento da conta. No caso de fracasso Lula seria o sócio majoritário.
Para construir uma candidatura como salvador da lavoura teria de partir do princípio de que a safra foi um fiasco e se apresentar ao público como o único capaz de fazer o país voltar à situação que tanta saudade provoca. Isso não se faz só com “estilo”. Requer propostas concretas e diversas.
Precisaria necessariamente se apresentar como antagonista de sua criatura, o que além de uma contradição em termos na prática trata-se de uma impossibilidade.
As imagens de Lula e Dilma fundidas no último comercial do PT concebido pelo marqueteiro João Santana falariam mais que as palavras se estas também não tivessem sido mescladas na forma de discurso único: um começava a frase, outra a completava e vice- versa.
A fórmula funciona na bonança; na adversidade volta-se na forma de prejuízo ao criador.
Mal maior
Com outras palavras o ministro Aloizio Mercadante disse dias atrás que um pibinho à toa não dói, se o poder de compra está preservado e o emprego garantido.
Não levou em conta que baixo crescimento econômico faz doer o bolso do cidadão que transfere a dor à parte mais sensível do organismo governamental: a avaliação de desempenho com reflexo nas intenções de votos.
Meia-volta
O apoio do PSDB ao pedido de perda do mandato do vice-governador Guilherme Afif, em tramitação na Assembleia Legislativa de São Paulo, é sinal de que passou a prevalecer no partido ideia de impor o máximo de desgaste possível ao ex-prefeito Gilberto Kassab.
Ao alimentar o questionamento ao acúmulo do cargo de vice com o posto de ministro da Micro e Pequena Empresa, o PSDB quer mostrar que a adesão do PSD ao governo federal rende mais custos que benefícios.
Até então, tucanos ligados a José Serra defendiam o direito de Afif à dupla função. Nos últimos dias, porém, o partido passou a se conduzir conforme concepção do presidente Aécio Neves que não vê Kassab como santo de sua devoção.
"Aecinho boa gente" - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 13/06
BRASÍLIA - Aécio Neves, do PSDB, parece assistir de camarote aos erros do governo e à sucessão de indicadores ruins na economia, como baixo crescimento, inflação no teto da meta, aumento de juros, Bolsa despencando, dólar disparando e incertezas na área fiscal.
"A oposição não pode ser arauto da desgraça, das más notícias", disse ele, prometendo uma campanha "sem baixo-astral" e recusando a carapuça de velho do Restelo.
Não significa que não esteja comemorando a queda de Dilma nas pesquisas: 8 pontos na popularidade e 7 nas intenções de voto. Nem que ele não esteja trabalhando arduamente para articular sua candidatura. Ao contrário, está a mil por hora.
Suas prioridades são manter a praticamente inédita união do PSDB, a composição de chapas vigorosas nos Estados e a atração de forças hoje aliadas a Dilma, mas suscetíveis a pular de barco. Não são poucas.
Aécio tem agenda cheia para se fazer conhecido e, principalmente, cristalizar a sensação na área política, no meio empresarial e em setores acadêmicos e culturais de que seu nome é competitivo e tem reais chances de vencer. Quer um efeito, digamos, quase psicológico.
Também vai bater na tecla de que a inclusão social não é exclusividade dos governos do PT. Está criando o Portal Social do PSDB na internet e vai inaugurar uma exposição na terça-feira, na Câmara, sobre os 25 anos do PSDB, os 19 do real e o aniversário de FHC, seu patrono.
Mesmo evitando "baixo-astral", Aécio aproveitou a conversa, enquanto Dilma anunciava eletrodomésticos em conta para a baixa renda, e alfinetou: "Ela só não disse de onde vem o dinheiro. Não é do governo, é do trabalhador".
Mais ou menos como o "Lulinha paz e amor"de 2002, o tucano encena o personagem "Aecinho boa gente". Mas, também como Lula, o bom-mocismo é só para eleitor ver e o programa eleitoral registrar. No mais, guerra é guerra. Na hora certa.
BRASÍLIA - Aécio Neves, do PSDB, parece assistir de camarote aos erros do governo e à sucessão de indicadores ruins na economia, como baixo crescimento, inflação no teto da meta, aumento de juros, Bolsa despencando, dólar disparando e incertezas na área fiscal.
"A oposição não pode ser arauto da desgraça, das más notícias", disse ele, prometendo uma campanha "sem baixo-astral" e recusando a carapuça de velho do Restelo.
Não significa que não esteja comemorando a queda de Dilma nas pesquisas: 8 pontos na popularidade e 7 nas intenções de voto. Nem que ele não esteja trabalhando arduamente para articular sua candidatura. Ao contrário, está a mil por hora.
Suas prioridades são manter a praticamente inédita união do PSDB, a composição de chapas vigorosas nos Estados e a atração de forças hoje aliadas a Dilma, mas suscetíveis a pular de barco. Não são poucas.
Aécio tem agenda cheia para se fazer conhecido e, principalmente, cristalizar a sensação na área política, no meio empresarial e em setores acadêmicos e culturais de que seu nome é competitivo e tem reais chances de vencer. Quer um efeito, digamos, quase psicológico.
Também vai bater na tecla de que a inclusão social não é exclusividade dos governos do PT. Está criando o Portal Social do PSDB na internet e vai inaugurar uma exposição na terça-feira, na Câmara, sobre os 25 anos do PSDB, os 19 do real e o aniversário de FHC, seu patrono.
Mesmo evitando "baixo-astral", Aécio aproveitou a conversa, enquanto Dilma anunciava eletrodomésticos em conta para a baixa renda, e alfinetou: "Ela só não disse de onde vem o dinheiro. Não é do governo, é do trabalhador".
Mais ou menos como o "Lulinha paz e amor"de 2002, o tucano encena o personagem "Aecinho boa gente". Mas, também como Lula, o bom-mocismo é só para eleitor ver e o programa eleitoral registrar. No mais, guerra é guerra. Na hora certa.
Unidade de ação - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 13/06
A presidente Dilma Rousseff, disposta a "fazer o diabo" para se reeleger, montou uma estratégia de sufocamento dos possíveis adversários saídos da base governista, mais capazes de lhe roubar votos de eleitores petistas. Eduardo Campos, governador de Pernambuco, e a ex-senadora Marina Silva são os alvos preferenciais. Marina pela capacidade já demonstrada na eleição de 2010 de penetrar na esquerda ecológica, numa classe média moderna e nos evangélicos, e Campos pela potencialidade de atuação no Nordeste, onde o PT e seus aliados, inclusive o PSB, são fortes a ponto de terem dado a Dilma o dobro de votos que o candidato tucano José Serra recebeu.
O governador Eduardo Campos teria condições de reduzir essa vantagem da presidente em 2014, tirando-lhe a hegemonia do Nordeste, e por isso há um verdadeiro cerco aos governadores do PSB para que não apoiem a candidatura de Campos. Alguns deles, como Cid Gomes do Ceará, vocalizam tranquilamente o apoio à reeleição de Dilma.
Quem conversou com o governador nos últimos dias viu-o muito irritado com esse arrocho do Palácio do Planalto, mas revelando dificuldades maiores do que o previsto para colocar de pé sua candidatura, sem o apoio do próprio partido. Ainda permanece com disposição de candidatar-se, mas parece incapaz de convencer seus próprios aliados de que derrotar Dilma é uma tarefa possível.
No caso de Marina, a manobra foi aprovar no Congresso legislação que desestimula a construção de novos partidos, tirando deles a possibilidade de ter o tempo de televisão e o fundo partidário correspondentes a seus membros fundadores. Um critério completamente oposto ao que vigorava até então, e que deu viabilidade à criação do PSD.
O tratamento desigual é tão óbvio que o ministro Gilmar Mendes, do Supremo, deu uma liminar aos partidos de oposição que acusavam o governo de estar por trás dessa manobra para inviabilizar não apenas a Rede, o partido de Marina, mas também o do líder sindical Paulinho da Força, que pretende criar o Solidariedade.
O Supremo pode terminar o julgamento do caso hoje, depois de tê-lo retomado ontem com a leitura do relatório de Mendes, todo ele baseado na defesa do direito das minorias em uma democracia. Para o relator, seria absurdo admitir-se que em uma mesma legislatura dois pesos e duas medidas fossem adotados para casos idênticos como a criação de um partido, já havendo a decisão favorável do Supremo que deu direito ao PSD de ter tempo de televisão e participação no fundo partidário equivalente aos seus membros fundadores.
A ex-senadora Marina Silva estava na plateia, e ela tem contado com o apoio tanto de Aécio Neves quanto de Eduardo Campos na sua batalha política contra o Palácio do Planalto, e também no recolhimento de assinaturas para a criação da Rede.
Marina deixou o PT e o governo Lula depois de 30 anos de militância, por "falta de condições políticas" para avançar na sua luta "de fazer a questão ambiental alojar-se no coração do governo e do conjunto das políticas públicas". A disputa entre ela e a então superministra Dilma Rousseff ficou marcada como a luta entre os ambientalistas e uma "tocadora de obras" que, assim como o presidente Lula, se irrita com a preocupação com a preservação dos bagres, que atrasa a construção de hidrelétricas.
A última derrota de Marina foi consequência da decisão do presidente Lula de entregar ao então ministro de Planejamento Estratégico, Mangabeira Unger, o Plano da Amazônia Sustentável, o que a fez deixar o Ministério do Meio Ambiente. Na eleição de 2010, Marina não teve gana suficiente para atacar diretamente a candidata Dilma, e no segundo turno ficou neutra depois de receber 20% dos votos. Sua alma petista falou mais alto. Mas hoje, pelo menos enquanto se considera ameaçada por manobras do governo, Marina já não parece disposta a relevar atitudes de ex-companheiros.
A solidariedade que vem recebendo de outros personagens que estão na oposição ao governo Dilma faz prever que possivelmente, num eventual segundo turno, haja uma solidariedade política entre os candidatos oposicionistas. Pelo menos sabem que esta seria a única maneira de tentar derrotar a máquina governista.
A presidente Dilma Rousseff, disposta a "fazer o diabo" para se reeleger, montou uma estratégia de sufocamento dos possíveis adversários saídos da base governista, mais capazes de lhe roubar votos de eleitores petistas. Eduardo Campos, governador de Pernambuco, e a ex-senadora Marina Silva são os alvos preferenciais. Marina pela capacidade já demonstrada na eleição de 2010 de penetrar na esquerda ecológica, numa classe média moderna e nos evangélicos, e Campos pela potencialidade de atuação no Nordeste, onde o PT e seus aliados, inclusive o PSB, são fortes a ponto de terem dado a Dilma o dobro de votos que o candidato tucano José Serra recebeu.
O governador Eduardo Campos teria condições de reduzir essa vantagem da presidente em 2014, tirando-lhe a hegemonia do Nordeste, e por isso há um verdadeiro cerco aos governadores do PSB para que não apoiem a candidatura de Campos. Alguns deles, como Cid Gomes do Ceará, vocalizam tranquilamente o apoio à reeleição de Dilma.
Quem conversou com o governador nos últimos dias viu-o muito irritado com esse arrocho do Palácio do Planalto, mas revelando dificuldades maiores do que o previsto para colocar de pé sua candidatura, sem o apoio do próprio partido. Ainda permanece com disposição de candidatar-se, mas parece incapaz de convencer seus próprios aliados de que derrotar Dilma é uma tarefa possível.
No caso de Marina, a manobra foi aprovar no Congresso legislação que desestimula a construção de novos partidos, tirando deles a possibilidade de ter o tempo de televisão e o fundo partidário correspondentes a seus membros fundadores. Um critério completamente oposto ao que vigorava até então, e que deu viabilidade à criação do PSD.
O tratamento desigual é tão óbvio que o ministro Gilmar Mendes, do Supremo, deu uma liminar aos partidos de oposição que acusavam o governo de estar por trás dessa manobra para inviabilizar não apenas a Rede, o partido de Marina, mas também o do líder sindical Paulinho da Força, que pretende criar o Solidariedade.
O Supremo pode terminar o julgamento do caso hoje, depois de tê-lo retomado ontem com a leitura do relatório de Mendes, todo ele baseado na defesa do direito das minorias em uma democracia. Para o relator, seria absurdo admitir-se que em uma mesma legislatura dois pesos e duas medidas fossem adotados para casos idênticos como a criação de um partido, já havendo a decisão favorável do Supremo que deu direito ao PSD de ter tempo de televisão e participação no fundo partidário equivalente aos seus membros fundadores.
A ex-senadora Marina Silva estava na plateia, e ela tem contado com o apoio tanto de Aécio Neves quanto de Eduardo Campos na sua batalha política contra o Palácio do Planalto, e também no recolhimento de assinaturas para a criação da Rede.
Marina deixou o PT e o governo Lula depois de 30 anos de militância, por "falta de condições políticas" para avançar na sua luta "de fazer a questão ambiental alojar-se no coração do governo e do conjunto das políticas públicas". A disputa entre ela e a então superministra Dilma Rousseff ficou marcada como a luta entre os ambientalistas e uma "tocadora de obras" que, assim como o presidente Lula, se irrita com a preocupação com a preservação dos bagres, que atrasa a construção de hidrelétricas.
A última derrota de Marina foi consequência da decisão do presidente Lula de entregar ao então ministro de Planejamento Estratégico, Mangabeira Unger, o Plano da Amazônia Sustentável, o que a fez deixar o Ministério do Meio Ambiente. Na eleição de 2010, Marina não teve gana suficiente para atacar diretamente a candidata Dilma, e no segundo turno ficou neutra depois de receber 20% dos votos. Sua alma petista falou mais alto. Mas hoje, pelo menos enquanto se considera ameaçada por manobras do governo, Marina já não parece disposta a relevar atitudes de ex-companheiros.
A solidariedade que vem recebendo de outros personagens que estão na oposição ao governo Dilma faz prever que possivelmente, num eventual segundo turno, haja uma solidariedade política entre os candidatos oposicionistas. Pelo menos sabem que esta seria a única maneira de tentar derrotar a máquina governista.
O “Velho” dos presidentes - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 13/06
O Velho do Restelo, personagem de Camões que ao olhar as naus no porto de Belém se apresentava num pessimismo só, virou palavra batida nos discursos presidenciais. Devoradores da língua culta, como José Sarney, nos anos 1980, e Fernando Henrique Cardoso, nos 1990, sempre usaram o ancião como referência para ilustrar situações adversas. Dilma Rousseff agora se iguala aos demais. Ontem, pela segunda vez, recorreu ao Velho para debelar as dúvidas de muitos sobre as perspectivas econômicas do Brasil, especialmente, no que se refere à inflação.
Daqui para frente, garantem os palacianos, Dilma sempre que puder, usará a palavra — e ela passa uma grande segurança na voz — para tentar mostrar que “estamos todos bem”. Ocorre que, num país onde a maioria desconhece a obra de Camões, talvez o Velho do Restelo não seja a melhor linguagem para debelar o pessimismo. Sarney não conseguiu. Tampouco Fernando Henrique.
A diferença é que nenhum dos dois à época era candidato à reeleição. Dilma o é. E, vestida de vermelho, usa a imagem do Velho do Restelo numa linguagem mais simples, dizendo que os arautos da inflação em alta são os mesmos que, no início do ano, mencionavam o risco de apagão e racionamento de energia, o que não ocorreu. Ou seja, adota assim, a postura de quem tem crédito para ser ouvida.
Mais efeito que a palavra, entretanto, é a ação e os recursos de que dispõe para se sobrepor aos adversários nessa longa temporada pré-eleitoral. A presidente tem o púlpito palaciano, as inaugurações, as motoniveladoras, os ônibus escolares e toda a gama de obras e utensílios que o governo federal distribui pelo país afora. Maior efeito terá ainda a medida anunciada ontem, de assegurar uma casa mobiliada e com eletrodomésticos para os beneficiados pelo programa Minha Casa, Minha Vida, dentro do novo “casa melhor”.
Os efeitos desses programas serão sentidos daqui a alguns meses, entre o fim da Copa das Confederações e o início da Copa do Mundo, quando o país começará a viver um pouco mais as eleições.
Enquanto isso, na oposição...
Para alegria e alívio do governo e da presidente-candidata, seus opositores não têm nem o mesmo espaço, nem as mesmas ferramentas para chegar ao eleitor. Até aqui, a única ferramenta que permitiu a presença de Aécio Neves e de Eduardo Campos de forma mais massiva foi o programa partidário de cada um no rádio e na tevê. Marina Silva nem isso. E, ainda assim, ambos apresentaram alguns pontinhos a mais quando foram expostos. Eduardo, 6%, e Aécio, 14%. Já é alguma coisa para quem não tinha tanto espaço quanto a presidente.
Na avaliação dos oposicionistas, o jogo só ficará um pouco mais equilibrado no período eleitoral. Até lá, é reforçar a guerrilha no Congresso, obstruindo votações, puxando a análise dos vetos.
E no PMDB...
Para sorte de Dilma, entretanto, o presidente do Senado, Renan Calheiros, por quatro vezes desmarcou as sessões convocadas para avaliar os vetos. Renan sabe que é preciso critérios para analisar os vetos, até porque a maioria deles compromete o tênue equilíbrio fiscal. Sabe ainda que, enquanto tiver esse instrumento nas mãos, pode sempre obrigar o PT a rever palanques estaduais, tornando mais equilibrada a relação entre os partidos. É por aí que os peemedebistas vão jogar. Farão, inclusive, uma comissão no partido para tratar exclusivamente desses palanques com a cúpula petista. Afinal, se isso não for resolvido logo, a aliança fica comprometida na convenção, como já foi dito em várias reportagens ao longo dos últimos dias.
Se a situação dos palanques não for equacionada até o fim do ano, talvez Dilma veja engrossar a voz oposicionista no Congresso, onde a situação não é nada confortável. Aí sim, talvez ela tenha mais gente para jogar na classificação de “Velho do Restelo”. Por enquanto, essa denominação é restrita aos oposicionistas. Se esse bloco vai aumentar, depende da economia e o tratamento dispensado aos aliados.
Por falar em aliados...
Há quem jure ter ouvido de Eduardo Campos que ele já admite ficar até o fim do governo ou concorrer ao Senado. No governo federal, entretanto, ele é tratado como a candidato a presidente que já passou do ponto de retorno. Entre os petistas, há quem diga que ele lançou a figura do “governador itinerante” de Pernambuco.
Daqui para frente, garantem os palacianos, Dilma sempre que puder, usará a palavra — e ela passa uma grande segurança na voz — para tentar mostrar que “estamos todos bem”. Ocorre que, num país onde a maioria desconhece a obra de Camões, talvez o Velho do Restelo não seja a melhor linguagem para debelar o pessimismo. Sarney não conseguiu. Tampouco Fernando Henrique.
A diferença é que nenhum dos dois à época era candidato à reeleição. Dilma o é. E, vestida de vermelho, usa a imagem do Velho do Restelo numa linguagem mais simples, dizendo que os arautos da inflação em alta são os mesmos que, no início do ano, mencionavam o risco de apagão e racionamento de energia, o que não ocorreu. Ou seja, adota assim, a postura de quem tem crédito para ser ouvida.
Mais efeito que a palavra, entretanto, é a ação e os recursos de que dispõe para se sobrepor aos adversários nessa longa temporada pré-eleitoral. A presidente tem o púlpito palaciano, as inaugurações, as motoniveladoras, os ônibus escolares e toda a gama de obras e utensílios que o governo federal distribui pelo país afora. Maior efeito terá ainda a medida anunciada ontem, de assegurar uma casa mobiliada e com eletrodomésticos para os beneficiados pelo programa Minha Casa, Minha Vida, dentro do novo “casa melhor”.
Os efeitos desses programas serão sentidos daqui a alguns meses, entre o fim da Copa das Confederações e o início da Copa do Mundo, quando o país começará a viver um pouco mais as eleições.
Enquanto isso, na oposição...
Para alegria e alívio do governo e da presidente-candidata, seus opositores não têm nem o mesmo espaço, nem as mesmas ferramentas para chegar ao eleitor. Até aqui, a única ferramenta que permitiu a presença de Aécio Neves e de Eduardo Campos de forma mais massiva foi o programa partidário de cada um no rádio e na tevê. Marina Silva nem isso. E, ainda assim, ambos apresentaram alguns pontinhos a mais quando foram expostos. Eduardo, 6%, e Aécio, 14%. Já é alguma coisa para quem não tinha tanto espaço quanto a presidente.
Na avaliação dos oposicionistas, o jogo só ficará um pouco mais equilibrado no período eleitoral. Até lá, é reforçar a guerrilha no Congresso, obstruindo votações, puxando a análise dos vetos.
E no PMDB...
Para sorte de Dilma, entretanto, o presidente do Senado, Renan Calheiros, por quatro vezes desmarcou as sessões convocadas para avaliar os vetos. Renan sabe que é preciso critérios para analisar os vetos, até porque a maioria deles compromete o tênue equilíbrio fiscal. Sabe ainda que, enquanto tiver esse instrumento nas mãos, pode sempre obrigar o PT a rever palanques estaduais, tornando mais equilibrada a relação entre os partidos. É por aí que os peemedebistas vão jogar. Farão, inclusive, uma comissão no partido para tratar exclusivamente desses palanques com a cúpula petista. Afinal, se isso não for resolvido logo, a aliança fica comprometida na convenção, como já foi dito em várias reportagens ao longo dos últimos dias.
Se a situação dos palanques não for equacionada até o fim do ano, talvez Dilma veja engrossar a voz oposicionista no Congresso, onde a situação não é nada confortável. Aí sim, talvez ela tenha mais gente para jogar na classificação de “Velho do Restelo”. Por enquanto, essa denominação é restrita aos oposicionistas. Se esse bloco vai aumentar, depende da economia e o tratamento dispensado aos aliados.
Por falar em aliados...
Há quem jure ter ouvido de Eduardo Campos que ele já admite ficar até o fim do governo ou concorrer ao Senado. No governo federal, entretanto, ele é tratado como a candidato a presidente que já passou do ponto de retorno. Entre os petistas, há quem diga que ele lançou a figura do “governador itinerante” de Pernambuco.
Previsão perversa - ROGÉRIO GENTILE
FOLHA DE SP - 13/06
SÃO PAULO - A previsão do ministro Toffoli de que o julgamento do mensalão ainda vá demorar até dois anos para ser concluído no Supremo Tribunal Federal é estarrecedora. Explicita o estado falimentar da Justiça brasileira, muito embora o ministro tenha anunciado tal prazo como se fosse o mais natural do mundo. Não é. Ou não deveria ser.
A denúncia do mensalão foi apresentada ao STF em 12 de abril de 2006. O julgamento só "acabou" em 17 de dezembro de 2012, mais de seis anos depois, quando os ministros decidiram que a condenação criminal de um parlamentar leva à perda automática de seu mandato.
Descobrimos, então, que o "fim" era apenas o início de uma nova e vagarosa fase. Primeiro, houve o recesso --afinal, ninguém é de ferro. Na volta, os ministros redigiram seus votos, o acórdão foi publicado e os advogados conseguiram dobrar o prazo para a apresentação dos recursos. Agora, o tribunal precisa analisar as tais contestações e, é claro, os advogados poderão fazer novas apelações, que terão de ser novamente estudadas, e quem sabe vá ser necessário mais um julgamento.
Se a previsão de Toffoli se concretizar, o STF terá levado, para julgar apenas os recursos do processo, praticamente o mesmo tempo que o necessário para erguer um estádio de futebol. As obras do Itaquerão, palco da abertura da Copa, começaram em 30 de maio de 2011. A expectativa é que tudo esteja pronto em dezembro, levando, portanto, quase os mesmos dois anos e meio dos recursos do mensalão.
A lentidão da Justiça é sempre perversa: culpados permanecem impunes e inocentes são obrigados a viver sob a sombra de uma punição. Como pode um processo levar mais de seis anos para ser julgado e o ministro ainda considerar natural o STF demorar outros dois anos e meio para analisar os recursos? Isso fere o bom-senso. Tanto quanto um ex-advogado do PT poder julgar José Dirceu, José Genoino e companhia.
SÃO PAULO - A previsão do ministro Toffoli de que o julgamento do mensalão ainda vá demorar até dois anos para ser concluído no Supremo Tribunal Federal é estarrecedora. Explicita o estado falimentar da Justiça brasileira, muito embora o ministro tenha anunciado tal prazo como se fosse o mais natural do mundo. Não é. Ou não deveria ser.
A denúncia do mensalão foi apresentada ao STF em 12 de abril de 2006. O julgamento só "acabou" em 17 de dezembro de 2012, mais de seis anos depois, quando os ministros decidiram que a condenação criminal de um parlamentar leva à perda automática de seu mandato.
Descobrimos, então, que o "fim" era apenas o início de uma nova e vagarosa fase. Primeiro, houve o recesso --afinal, ninguém é de ferro. Na volta, os ministros redigiram seus votos, o acórdão foi publicado e os advogados conseguiram dobrar o prazo para a apresentação dos recursos. Agora, o tribunal precisa analisar as tais contestações e, é claro, os advogados poderão fazer novas apelações, que terão de ser novamente estudadas, e quem sabe vá ser necessário mais um julgamento.
Se a previsão de Toffoli se concretizar, o STF terá levado, para julgar apenas os recursos do processo, praticamente o mesmo tempo que o necessário para erguer um estádio de futebol. As obras do Itaquerão, palco da abertura da Copa, começaram em 30 de maio de 2011. A expectativa é que tudo esteja pronto em dezembro, levando, portanto, quase os mesmos dois anos e meio dos recursos do mensalão.
A lentidão da Justiça é sempre perversa: culpados permanecem impunes e inocentes são obrigados a viver sob a sombra de uma punição. Como pode um processo levar mais de seis anos para ser julgado e o ministro ainda considerar natural o STF demorar outros dois anos e meio para analisar os recursos? Isso fere o bom-senso. Tanto quanto um ex-advogado do PT poder julgar José Dirceu, José Genoino e companhia.
Mais demagogia eleitoreira - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 13/06
O Tesouro terá de subsidiar o novo programa de estímulo ao consumo, o Minha Casa Melhor, lançado ontem pela presidente Dilma Rousseff. Financiamentos no valor total de R$ 18,7 bilhões serão oferecidos aos clientes do programa Minha Casa, Minha Vida para comprar móveis e eletrodomésticos. Poderão ser beneficiados 3,4 milhões de famílias, segundo estimativa oficial. Não há relação entre a nova iniciativa e a queda de popularidade da presidente, garantiu o ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro. "Estou muito entusiasmada", disse a empresária Luiza Trajano, presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Varejo. O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, qualificou o programa como "positivo". Ninguém esclareceu, no entanto, se novos incentivos ao consumo contribuirão para aumentar a produtividade, a capacidade de oferta e o poder de competição da indústria, apontados por analistas nacionais e estrangeiros como principais obstáculos ao crescimento do setor e à exportação de bens manufaturados.
Está prevista, por enquanto, a transferência de R$ 8 bilhões para capitalização da Caixa Econômica. O Banco do Brasil também participará do financiamento aos consumidores, mas apenas como correspondente. O repasse à Caixa será realizado por meio de um instrumento híbrido de capital e dívida, o mesmo usado há poucos dias para a concessão de R$ 15 bilhões, sem prazo de restituição, ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
O novo programa envolverá, portanto, mais compromissos para o Tesouro, apesar das dúvidas cada vez mais inquietantes sobre a capacidade do governo de alcançar um resultado fiscal razoável neste ano. Também há dúvidas sobre a origem real dos recursos, porque dinheiro do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) tem sido usado há alguns anos, sem muita cerimônia, para custear despesas de responsabilidade de outras fontes.
Desde março do ano passado o Tesouro deixou de transferir ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço cerca de R$ 4 bilhões relativos aos 10% adicionais recolhidos por demissões sem justa causa. Além disso, o governo tem deixado de cobrir sua parte nos subsídios a famílias de baixa renda participantes do Minha Casa, Minha Vida.
Mas a presidente Dilma Rousseff mostrou-se, no lançamento do programa, tranquila em relação aos fundamentos da economia. Segundo ela, é importante as pessoas terem uma visão do futuro condizente com a realidade atual. "E a situação real", acrescentou, "é de inflação sob controle e contas públicas sob controle." Não é esse o cenário apontado pelos principais indicadores divulgados no dia a dia. A inflação é alta e resistente, admitiram os dirigentes do Banco Central, há poucos dias, ao justificar a nova elevação de juros. Negam descontrole, mas ampliaram de 0,25% para 0,5% a elevação da taxa básica, num inequívoco sinal de preocupação. Além disso, qualificaram como expansionista a política fiscal e chamaram a atenção para a importância do cumprimento integral da política fixada para as contas públicas, com superávit primário de 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB).
Facilitar o acesso da clientela do Minha Casa, Minha Vida a novos móveis, aparelhos de TV, geladeiras, fogões, lavadoras e computadores seria muito mais meritório se essa política produzisse efeitos de longo alcance.
Tal como foi desenhada, beneficiará alguns setores da indústria e do comércio, mas ficará longe de oferecer uma perspectiva de médio prazo aos empresários, de aumentar sua segurança para o investimento produtivo e de criar condições duradouras para a geração de empregos. Consumirá recursos públicos, no entanto, e tornará mais difícil o retorno a uma política fiscal responsável, condição importante para a expansão econômica segura e para a estabilidade de preços. Valerá por um ano e, com a aproximação das eleições, talvez seja prorrogada.
É mais um ato populista. Atrairá alguns aplausos, mas de nenhum modo reforçará a abalada credibilidade do governo.
Está prevista, por enquanto, a transferência de R$ 8 bilhões para capitalização da Caixa Econômica. O Banco do Brasil também participará do financiamento aos consumidores, mas apenas como correspondente. O repasse à Caixa será realizado por meio de um instrumento híbrido de capital e dívida, o mesmo usado há poucos dias para a concessão de R$ 15 bilhões, sem prazo de restituição, ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
O novo programa envolverá, portanto, mais compromissos para o Tesouro, apesar das dúvidas cada vez mais inquietantes sobre a capacidade do governo de alcançar um resultado fiscal razoável neste ano. Também há dúvidas sobre a origem real dos recursos, porque dinheiro do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) tem sido usado há alguns anos, sem muita cerimônia, para custear despesas de responsabilidade de outras fontes.
Desde março do ano passado o Tesouro deixou de transferir ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço cerca de R$ 4 bilhões relativos aos 10% adicionais recolhidos por demissões sem justa causa. Além disso, o governo tem deixado de cobrir sua parte nos subsídios a famílias de baixa renda participantes do Minha Casa, Minha Vida.
Mas a presidente Dilma Rousseff mostrou-se, no lançamento do programa, tranquila em relação aos fundamentos da economia. Segundo ela, é importante as pessoas terem uma visão do futuro condizente com a realidade atual. "E a situação real", acrescentou, "é de inflação sob controle e contas públicas sob controle." Não é esse o cenário apontado pelos principais indicadores divulgados no dia a dia. A inflação é alta e resistente, admitiram os dirigentes do Banco Central, há poucos dias, ao justificar a nova elevação de juros. Negam descontrole, mas ampliaram de 0,25% para 0,5% a elevação da taxa básica, num inequívoco sinal de preocupação. Além disso, qualificaram como expansionista a política fiscal e chamaram a atenção para a importância do cumprimento integral da política fixada para as contas públicas, com superávit primário de 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB).
Facilitar o acesso da clientela do Minha Casa, Minha Vida a novos móveis, aparelhos de TV, geladeiras, fogões, lavadoras e computadores seria muito mais meritório se essa política produzisse efeitos de longo alcance.
Tal como foi desenhada, beneficiará alguns setores da indústria e do comércio, mas ficará longe de oferecer uma perspectiva de médio prazo aos empresários, de aumentar sua segurança para o investimento produtivo e de criar condições duradouras para a geração de empregos. Consumirá recursos públicos, no entanto, e tornará mais difícil o retorno a uma política fiscal responsável, condição importante para a expansão econômica segura e para a estabilidade de preços. Valerá por um ano e, com a aproximação das eleições, talvez seja prorrogada.
É mais um ato populista. Atrairá alguns aplausos, mas de nenhum modo reforçará a abalada credibilidade do governo.
O ônus da política dos 'campeões nacionais' - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 13/06
Encontra-se à vista de todos o esgotamento do ciclo da tentativa de se impulsionar a economia de forma sustentada, por meio do consumo, com salários crescendo acima da produtividade e gastos públicos em custeio sem rédeas. Também está claro que a política de criação de “campeões nacionais”, com dinheiro público subsidiado transferido para os cofres do BNDES por meio de endividamento do Tesouro, não tem futuro. Era sabido, do mesmo jeito.
Em abril, o presidente do banco, Luciano Coutinho, afirmou ao jornal “O Estado de S. Paulo” que a instituição abandonara a política porque era limitado o número de setores na economia brasileira com potencial para permitir o surgimento de grandes grupos nas incubadeiras do Estado. Nada além de petroquímica, celulose, frigoríficos, siderurgia, suco de laranja e cimento.
É uma forma de ver as coisas. A outra, com base em números, como os publicados no início da semana pelo GLOBO, é que os maus resultados de algumas apostas em “campeões” já afetam a operação do próprio banco.
Como muito dinheiro foi empatado em algumas poucas empresas cujas ações estão em baixa e a rentabilidade, idem, o banco fica desprovido de uma fonte importante de recursos. O BNDESPar, braço de participações acionárias da instituição, respondia por pelo menos 40% do lucro do banco. Mas, no ano passado, não contribuiu com mais do que 3,7%.
Quem acompanhou a última tentativa de o Estado cevar empresas nacionais com a concessão de pesados subsídios, no governo militar de Ernesto Geisel, sabia que mais esta demonstração de dirigismo estatista teria o mesmo destino.
Toda vez que a burocracia estatal, em qualquer país, resolve substituir o mercado e decide ela mesma “planificar” o desenvolvimento, o resultado são enormes prejuízos a serem socializados, cedo ou tarde.
Mais atenta que a nossa, a elite dirigente chinesa, em fase de renovação, com Xi Jinping recém-empossado presidente, já anuncia que o próximo passo da segunda maior economia do mundo são desregulações e a abertura de mais espaço para a iniciativa privada, muito mais eficaz que o planejador estatal na alocação dos recursos disponíveis. Os novos dirigentes chineses têm feito declarações inaceitáveis para algumas facções do PT.
Não se pode, óbvio, menosprezar a importância do BNDES, única fonte de financiamento de longo prazo no país — uma questão a ser equacionada quando a inflação voltar a níveis civilizados. Mas, em vez de ele continuar prisioneiro de uma visão autárquica da indústria brasileira, deveria ser o centro de um plano estratégico para atrelar segmentos do parque fabril nacional a linhas globais de suprimento em ramos de grande densidade tecnológica, sem protecionismo e outros artificialismos. Ir contra esta realidade é perder tempo e dinheiro do
contribuinte. E tornar realidade os temores cepalinos de que o Brasil venha a ser apenas um grande fornecedor de commodities.
Encontra-se à vista de todos o esgotamento do ciclo da tentativa de se impulsionar a economia de forma sustentada, por meio do consumo, com salários crescendo acima da produtividade e gastos públicos em custeio sem rédeas. Também está claro que a política de criação de “campeões nacionais”, com dinheiro público subsidiado transferido para os cofres do BNDES por meio de endividamento do Tesouro, não tem futuro. Era sabido, do mesmo jeito.
Em abril, o presidente do banco, Luciano Coutinho, afirmou ao jornal “O Estado de S. Paulo” que a instituição abandonara a política porque era limitado o número de setores na economia brasileira com potencial para permitir o surgimento de grandes grupos nas incubadeiras do Estado. Nada além de petroquímica, celulose, frigoríficos, siderurgia, suco de laranja e cimento.
É uma forma de ver as coisas. A outra, com base em números, como os publicados no início da semana pelo GLOBO, é que os maus resultados de algumas apostas em “campeões” já afetam a operação do próprio banco.
Como muito dinheiro foi empatado em algumas poucas empresas cujas ações estão em baixa e a rentabilidade, idem, o banco fica desprovido de uma fonte importante de recursos. O BNDESPar, braço de participações acionárias da instituição, respondia por pelo menos 40% do lucro do banco. Mas, no ano passado, não contribuiu com mais do que 3,7%.
Quem acompanhou a última tentativa de o Estado cevar empresas nacionais com a concessão de pesados subsídios, no governo militar de Ernesto Geisel, sabia que mais esta demonstração de dirigismo estatista teria o mesmo destino.
Toda vez que a burocracia estatal, em qualquer país, resolve substituir o mercado e decide ela mesma “planificar” o desenvolvimento, o resultado são enormes prejuízos a serem socializados, cedo ou tarde.
Mais atenta que a nossa, a elite dirigente chinesa, em fase de renovação, com Xi Jinping recém-empossado presidente, já anuncia que o próximo passo da segunda maior economia do mundo são desregulações e a abertura de mais espaço para a iniciativa privada, muito mais eficaz que o planejador estatal na alocação dos recursos disponíveis. Os novos dirigentes chineses têm feito declarações inaceitáveis para algumas facções do PT.
Não se pode, óbvio, menosprezar a importância do BNDES, única fonte de financiamento de longo prazo no país — uma questão a ser equacionada quando a inflação voltar a níveis civilizados. Mas, em vez de ele continuar prisioneiro de uma visão autárquica da indústria brasileira, deveria ser o centro de um plano estratégico para atrelar segmentos do parque fabril nacional a linhas globais de suprimento em ramos de grande densidade tecnológica, sem protecionismo e outros artificialismos. Ir contra esta realidade é perder tempo e dinheiro do
contribuinte. E tornar realidade os temores cepalinos de que o Brasil venha a ser apenas um grande fornecedor de commodities.
Retomar a Paulista - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 13/06
Avenida vital de São Paulo se tornou território preferido de protestos abusivos, que prejudicam milhões para chamar a atenção do público
Oito policiais militares e um número desconhecido de manifestantes feridos, 87 ônibus danificados, R$ 100 mil de prejuízos em estações de metrô e milhões de paulistanos reféns do trânsito. Eis o saldo do terceiro protesto do Movimento Passe Livre (MPL), que se vangloria de parar São Paulo --e chega perto demais de consegui-lo.
Sua reivindicação de reverter o aumento da tarifa de ônibus e metrô de R$ 3 para R$ 3,20 --abaixo da inflação, é útil assinalar-- não passa de pretexto, e dos mais vis. São jovens predispostos à violência por uma ideologia pseudorrevolucionária, que buscam tirar proveito da compreensível irritação geral com o preço pago para viajar em ônibus e trens superlotados.
Pior que isso, só o declarado objetivo central do grupelho: transporte público de graça. O irrealismo da bandeira já trai a intenção oculta de vandalizar equipamentos públicos e o que se toma por símbolos do poder capitalista. O que vidraças de agências bancárias têm a ver com ônibus?
Os poucos manifestantes que parecem ter algo na cabeça além de capuzes justificam a violência como reação à suposta brutalidade da polícia, que acusam de reprimir o direito constitucional de manifestação. Demonstram, com isso, a ignorância de um preceito básico do convívio democrático: cabe ao poder público impor regras e limites ao exercício de direitos por grupos e pessoas quando há conflito entre prerrogativas.
O direito de manifestação é sagrado, mas não está acima da liberdade de ir e vir --menos ainda quando o primeiro é reclamado por poucos milhares de manifestantes e a segunda é negada a milhões.
Cientes de sua condição marginal e sectária, os militantes lançam mão de expediente consagrado pelo oportunismo corporativista: marcar protestos em horário de pico de trânsito na avenida Paulista, artéria vital da cidade. Sua estratégia para atrair a atenção pública é prejudicar o número máximo de pessoas.
É hora de pôr um ponto final nisso. Prefeitura e Polícia Militar precisam fazer valer as restrições já existentes para protestos na avenida Paulista, em cujas imediações estão sete grandes hospitais.
Não basta, porém, exigir que organizadores informem à Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), 30 dias antes, o local da manifestação. A depender de horário e número previsto de participantes, o poder público deveria vetar as potencialmente mais perturbadoras e indicar locais alternativos.
No que toca ao vandalismo, só há um meio de combatê-lo: a força da lei. Cumpre investigar, identificar e processar os responsáveis. Como em toda forma de criminalidade, aqui também a impunidade é o maior incentivo à reincidência.
Avenida vital de São Paulo se tornou território preferido de protestos abusivos, que prejudicam milhões para chamar a atenção do público
Oito policiais militares e um número desconhecido de manifestantes feridos, 87 ônibus danificados, R$ 100 mil de prejuízos em estações de metrô e milhões de paulistanos reféns do trânsito. Eis o saldo do terceiro protesto do Movimento Passe Livre (MPL), que se vangloria de parar São Paulo --e chega perto demais de consegui-lo.
Sua reivindicação de reverter o aumento da tarifa de ônibus e metrô de R$ 3 para R$ 3,20 --abaixo da inflação, é útil assinalar-- não passa de pretexto, e dos mais vis. São jovens predispostos à violência por uma ideologia pseudorrevolucionária, que buscam tirar proveito da compreensível irritação geral com o preço pago para viajar em ônibus e trens superlotados.
Pior que isso, só o declarado objetivo central do grupelho: transporte público de graça. O irrealismo da bandeira já trai a intenção oculta de vandalizar equipamentos públicos e o que se toma por símbolos do poder capitalista. O que vidraças de agências bancárias têm a ver com ônibus?
Os poucos manifestantes que parecem ter algo na cabeça além de capuzes justificam a violência como reação à suposta brutalidade da polícia, que acusam de reprimir o direito constitucional de manifestação. Demonstram, com isso, a ignorância de um preceito básico do convívio democrático: cabe ao poder público impor regras e limites ao exercício de direitos por grupos e pessoas quando há conflito entre prerrogativas.
O direito de manifestação é sagrado, mas não está acima da liberdade de ir e vir --menos ainda quando o primeiro é reclamado por poucos milhares de manifestantes e a segunda é negada a milhões.
Cientes de sua condição marginal e sectária, os militantes lançam mão de expediente consagrado pelo oportunismo corporativista: marcar protestos em horário de pico de trânsito na avenida Paulista, artéria vital da cidade. Sua estratégia para atrair a atenção pública é prejudicar o número máximo de pessoas.
É hora de pôr um ponto final nisso. Prefeitura e Polícia Militar precisam fazer valer as restrições já existentes para protestos na avenida Paulista, em cujas imediações estão sete grandes hospitais.
Não basta, porém, exigir que organizadores informem à Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), 30 dias antes, o local da manifestação. A depender de horário e número previsto de participantes, o poder público deveria vetar as potencialmente mais perturbadoras e indicar locais alternativos.
No que toca ao vandalismo, só há um meio de combatê-lo: a força da lei. Cumpre investigar, identificar e processar os responsáveis. Como em toda forma de criminalidade, aqui também a impunidade é o maior incentivo à reincidência.
Atitude constrangedora - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 13/06
Não há sequer a preocupação em dar a essa dança de cadeiras marcadas uma aparência de algo que não seja fisiologismo.
Se já era esdrúxula a situação do governador em exercício de São Paulo, Afif Domingos, coabitante de administrações do PT, em nível federal, e do PSDB, em nível estadual, sua exoneração temporária do Ministério da Micro e Pequena Empresa a fim de assumir o Palácio Bandeirantes adquire um caráter surrealista para qualquer um que não veja a política como o reino em que tudo é permitido. Integrante do DEM, partido que se coligou ao PSDB do governador Geraldo Alckmin na eleição paulista de 2010, Afif transferiu-se para o PSD em 2011, afastando-se dos tucanos. Na esfera federal, sua nova sigla encontrou nos últimos meses uma súbita afinidade com o PT. Indiferente a essas idas e vindas, Afif não vê inconveniente em manter um pé em cada canoa.
Em maio, Afif havia sido nomeado para o ministério pela presidente Dilma Rousseff e anunciou que não renunciaria ao mandato de vice-governador. Na sexta-feira, Afif pediu exoneração do cargo federal a fim de ocupar interinamente o governo de São Paulo durante uma viagem de Alckmin à França. Com o retorno do governador, Afif deve ser renomeado hoje para o ministério.
Não há sequer a preocupação em dar a essa dança de cadeiras marcadas uma aparência de algo que não seja fisiologismo. Considere-se que os dois partidos não se distanciaram há pouco tempo. De fato, tucanos e petistas constituem os dois polos opostos da vida política nacional há pelo menos 20 anos, período mais do que suficiente para que sejam explicitadas diferenças, se não claramente programáticas, pelo menos de natureza política, expressas em cinco eleições presidenciais nas quais os candidatos de ambas as siglas foram os principais contendores.
Ainda que, no âmbito da Assembleia Legislativa de São Paulo, o assunto tenha assumido contornos de duelo político, com os tucanos pregando a perda de mandato de Afif em razão da suposta inconstitucionalidade no acúmulo dos dois cargos e os petistas defendendo sua permanência, deve-se admitir que a responsabilidade por essa situação é do próprio governador em exercício. Mesmo que não se encontrem bases legais para sua condenação, é forçoso reconhecer que o comportamento de Afif é moralmente inaceitável.
Se a atitude de Afif é injustificável, a da presidente Dilma Rousseff, que o exonerou "a pedido" por meio de portaria publicada no Diário Oficial da União de sexta-feira, é, no mínimo, conivente com essa forma constrangedora de se fazer política. É público e notório que o exonerado tem lugar cativo no ministério. Dessa forma, soma-se a chefe do Executivo ao triste baile de máscaras em que se transformou a vida partidária brasileira, na qual o que cada vez menos se espera são atitudes pautadas pela coerência e pela ética. Torna-se difícil, assim, convencer o mais crédulo cidadão da necessidade de se levar a sério a coisa pública.
Não há sequer a preocupação em dar a essa dança de cadeiras marcadas uma aparência de algo que não seja fisiologismo.
Se já era esdrúxula a situação do governador em exercício de São Paulo, Afif Domingos, coabitante de administrações do PT, em nível federal, e do PSDB, em nível estadual, sua exoneração temporária do Ministério da Micro e Pequena Empresa a fim de assumir o Palácio Bandeirantes adquire um caráter surrealista para qualquer um que não veja a política como o reino em que tudo é permitido. Integrante do DEM, partido que se coligou ao PSDB do governador Geraldo Alckmin na eleição paulista de 2010, Afif transferiu-se para o PSD em 2011, afastando-se dos tucanos. Na esfera federal, sua nova sigla encontrou nos últimos meses uma súbita afinidade com o PT. Indiferente a essas idas e vindas, Afif não vê inconveniente em manter um pé em cada canoa.
Em maio, Afif havia sido nomeado para o ministério pela presidente Dilma Rousseff e anunciou que não renunciaria ao mandato de vice-governador. Na sexta-feira, Afif pediu exoneração do cargo federal a fim de ocupar interinamente o governo de São Paulo durante uma viagem de Alckmin à França. Com o retorno do governador, Afif deve ser renomeado hoje para o ministério.
Não há sequer a preocupação em dar a essa dança de cadeiras marcadas uma aparência de algo que não seja fisiologismo. Considere-se que os dois partidos não se distanciaram há pouco tempo. De fato, tucanos e petistas constituem os dois polos opostos da vida política nacional há pelo menos 20 anos, período mais do que suficiente para que sejam explicitadas diferenças, se não claramente programáticas, pelo menos de natureza política, expressas em cinco eleições presidenciais nas quais os candidatos de ambas as siglas foram os principais contendores.
Ainda que, no âmbito da Assembleia Legislativa de São Paulo, o assunto tenha assumido contornos de duelo político, com os tucanos pregando a perda de mandato de Afif em razão da suposta inconstitucionalidade no acúmulo dos dois cargos e os petistas defendendo sua permanência, deve-se admitir que a responsabilidade por essa situação é do próprio governador em exercício. Mesmo que não se encontrem bases legais para sua condenação, é forçoso reconhecer que o comportamento de Afif é moralmente inaceitável.
Se a atitude de Afif é injustificável, a da presidente Dilma Rousseff, que o exonerou "a pedido" por meio de portaria publicada no Diário Oficial da União de sexta-feira, é, no mínimo, conivente com essa forma constrangedora de se fazer política. É público e notório que o exonerado tem lugar cativo no ministério. Dessa forma, soma-se a chefe do Executivo ao triste baile de máscaras em que se transformou a vida partidária brasileira, na qual o que cada vez menos se espera são atitudes pautadas pela coerência e pela ética. Torna-se difícil, assim, convencer o mais crédulo cidadão da necessidade de se levar a sério a coisa pública.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“A renúncia à violência é pressuposto ao diálogo”
Fernando Haddad (PT), prefeito de São Paulo, sobre os atos de vandalismo na cidade
PMDB PÕE À PROVA REELEIÇÃO DE HENRIQUE
Em pé de guerra com o PT, a bancada do PMDB pressiona Henrique Alves (RN) a “tomar providências”, sob a ameaça de perder o comando da Câmara. Em reunião no Planalto, quando Henrique assumiu interinamente a Presidência da República, peemedebistas reclamaram que a bancada só diminui com avanço do PT nos Estados, o que pode inviabilizar sua reeleição a presidente da Casa em 2014.
VACAS MAGRAS
O PMDB teme perder 20 deputados em 2014, devido à dificuldade de liberar emendas e a interlocução direta do Planalto com prefeituras.
ORELHA ARDEU
Henrique Alves garantiu haver conversado com Dilma, que teria se comprometido em melhorar o relacionamento com a bancada.
BOMBEIRO
Preocupado com o clima de rebelião no PMDB, Henrique prometeu reuniões com lideranças estaduais assim que Michel Temer voltar de viagem.
PRAÇA DE GUERRA
A “gurizada baderneira” do “Passe Livre” vai protestar hoje às 17h no Teatro Municipal de São Paulo. Os metroviários da CUT apoiam.
AMEAÇA NA EMBAIXADA
Com o inédito sistema de videoconferência de R$ 30 mil instalado pelo Itamaraty no consulado-geral em Sidney (Austrália), três diplomatas começam nos próximos dias a acareação do embaixador Américo Fontenelle e seu adjunto César Cidade com os funcionários que os denunciaram em fevereiro por assédio moral e sexual. As vítimas temem “constrangimento” e intimidação que favoreçam os acusados.
TUDO DE NOVO?
Os funcionários lembram as intervenções jocosas de Fontenelle na apuração de assédio moral contra ele no Canadá, que deu em pizza.
DEFESA
Os milicos reclamam, mas Defesa Nacional foi a única área do governo Dilma que executou mais da metade das recursos previstos: 52%.
ASSÉDIO
O prefeito de Niterói, Rodrigo Neves (PT), sofre forte assédio do PMDB do governador Sérgio Cabral e do PT do senador Lindbergh Farias.
PEGOU MAL, Ó PÁ
Os portugueses conheceram Dilma e seu jeito estúpido de ser. Em Lisboa, ela recebeu primeiro o líder da oposição, deputado socialista Antonio Seguro, e só depois o governo, que a convidou a visitar o país.
TARTARUGA MANCA
Fernando Cavendish, ex-Delta, leva fé: o MPF no Rio abriu ação contra a DM Construtora de Obras Ltda por suposto superfaturamento de R$ 80 mi em obras portuárias em... 1998.
PRESSA
Com a pressa imposta pelo capricho do governador Tarso Genro (PT), a empresa EGR, criada para cobrar pedágio em rodovias gaúchas, não tinha bobinas para imprimir tíquetes. Socorreu-se das concessionárias privadas, usando seu tíquetes com logomarcas e 0800 já desativados.
BATE, CORAÇÃO
Foi curta a agenda de Dilma, no Dia dos Namorados: às 10h, recebeu a ministra Gleisi Hoffman (Casa Civil); às 11h, anunciou o novo programa “decorativo” do Minha Casa, Minha Vida, e foi para casa.
TEMPOS DE CHUMBO
Dilma ficou triste com a demissão de Vera Durão, 65, do jornal Valor. Lembra, reconhecida, que, jovens, militavam na Var-Palmares, quando Vera a ajudou no disfarce: pintou-lhe os
cabelos e a fez se maquiar pela primeira vez, para escapar da caçada da polícia política em Minas.
SOB PRESSÃO
Prefeitos pressionam deputados a aprovar a PEC 37, ratificando que investigação criminal é atribuição da polícia. Eles reclamam que o MP tenta até substituí-los na gestão, impondo ou vetando iniciativas das prefeituras, sob ameaça de promover investigações.
QUEDA LIVRE
Líder do PSB, o deputado Beto Albuquerque (RS) minimiza os números raquíticos do presidenciável Eduardo Campos nas pesquisas eleitorais: “O importante é que tem gente caindo”, diz, alfinetando Dilma.
VERGONHOSO
Líder do PSDB, Carlos Sampaio (SP) vai pedir liminar no Supremo para anular concursos do Ministério do Planejamento por falta de isonomia. Como revelou esta coluna, o concurso para gestores públicos favorece petistas nomeados para cargos comissionados no início da era Lula.
PENSANDO BEM...
...se OGX não deu certo, está na hora de Eike Batista criar a Vixe.
PODER SEM PUDOR
A LUA É DOS ASTRONAUTAS
Na ditadura, quando se especulava sobre o sucessor do general Emílio Médici, o jornalista Mauro Santayana encontrou o deputado Zezinho Bonifácio, ardente defensor do regime, e reproduziu uma frase célebre:
- No regime presidencialista, é indispensável que a escolha do primeiro mandatário respeite as forças políticas da nação.
- Quem disse essa asneira? - reagiu Zezinho.
- Seu pai, José Bonifácio, quando se rebelou contra Washington Luís.
Zezinho não perdeu o rebolado:
- Isso foi no tempo em que a Lua era de São Jorge. Hoje, é dos astronautas.
Fernando Haddad (PT), prefeito de São Paulo, sobre os atos de vandalismo na cidade
PMDB PÕE À PROVA REELEIÇÃO DE HENRIQUE
Em pé de guerra com o PT, a bancada do PMDB pressiona Henrique Alves (RN) a “tomar providências”, sob a ameaça de perder o comando da Câmara. Em reunião no Planalto, quando Henrique assumiu interinamente a Presidência da República, peemedebistas reclamaram que a bancada só diminui com avanço do PT nos Estados, o que pode inviabilizar sua reeleição a presidente da Casa em 2014.
VACAS MAGRAS
O PMDB teme perder 20 deputados em 2014, devido à dificuldade de liberar emendas e a interlocução direta do Planalto com prefeituras.
ORELHA ARDEU
Henrique Alves garantiu haver conversado com Dilma, que teria se comprometido em melhorar o relacionamento com a bancada.
BOMBEIRO
Preocupado com o clima de rebelião no PMDB, Henrique prometeu reuniões com lideranças estaduais assim que Michel Temer voltar de viagem.
PRAÇA DE GUERRA
A “gurizada baderneira” do “Passe Livre” vai protestar hoje às 17h no Teatro Municipal de São Paulo. Os metroviários da CUT apoiam.
AMEAÇA NA EMBAIXADA
Com o inédito sistema de videoconferência de R$ 30 mil instalado pelo Itamaraty no consulado-geral em Sidney (Austrália), três diplomatas começam nos próximos dias a acareação do embaixador Américo Fontenelle e seu adjunto César Cidade com os funcionários que os denunciaram em fevereiro por assédio moral e sexual. As vítimas temem “constrangimento” e intimidação que favoreçam os acusados.
TUDO DE NOVO?
Os funcionários lembram as intervenções jocosas de Fontenelle na apuração de assédio moral contra ele no Canadá, que deu em pizza.
DEFESA
Os milicos reclamam, mas Defesa Nacional foi a única área do governo Dilma que executou mais da metade das recursos previstos: 52%.
ASSÉDIO
O prefeito de Niterói, Rodrigo Neves (PT), sofre forte assédio do PMDB do governador Sérgio Cabral e do PT do senador Lindbergh Farias.
PEGOU MAL, Ó PÁ
Os portugueses conheceram Dilma e seu jeito estúpido de ser. Em Lisboa, ela recebeu primeiro o líder da oposição, deputado socialista Antonio Seguro, e só depois o governo, que a convidou a visitar o país.
TARTARUGA MANCA
Fernando Cavendish, ex-Delta, leva fé: o MPF no Rio abriu ação contra a DM Construtora de Obras Ltda por suposto superfaturamento de R$ 80 mi em obras portuárias em... 1998.
PRESSA
Com a pressa imposta pelo capricho do governador Tarso Genro (PT), a empresa EGR, criada para cobrar pedágio em rodovias gaúchas, não tinha bobinas para imprimir tíquetes. Socorreu-se das concessionárias privadas, usando seu tíquetes com logomarcas e 0800 já desativados.
BATE, CORAÇÃO
Foi curta a agenda de Dilma, no Dia dos Namorados: às 10h, recebeu a ministra Gleisi Hoffman (Casa Civil); às 11h, anunciou o novo programa “decorativo” do Minha Casa, Minha Vida, e foi para casa.
TEMPOS DE CHUMBO
Dilma ficou triste com a demissão de Vera Durão, 65, do jornal Valor. Lembra, reconhecida, que, jovens, militavam na Var-Palmares, quando Vera a ajudou no disfarce: pintou-lhe os
cabelos e a fez se maquiar pela primeira vez, para escapar da caçada da polícia política em Minas.
SOB PRESSÃO
Prefeitos pressionam deputados a aprovar a PEC 37, ratificando que investigação criminal é atribuição da polícia. Eles reclamam que o MP tenta até substituí-los na gestão, impondo ou vetando iniciativas das prefeituras, sob ameaça de promover investigações.
QUEDA LIVRE
Líder do PSB, o deputado Beto Albuquerque (RS) minimiza os números raquíticos do presidenciável Eduardo Campos nas pesquisas eleitorais: “O importante é que tem gente caindo”, diz, alfinetando Dilma.
VERGONHOSO
Líder do PSDB, Carlos Sampaio (SP) vai pedir liminar no Supremo para anular concursos do Ministério do Planejamento por falta de isonomia. Como revelou esta coluna, o concurso para gestores públicos favorece petistas nomeados para cargos comissionados no início da era Lula.
PENSANDO BEM...
...se OGX não deu certo, está na hora de Eike Batista criar a Vixe.
PODER SEM PUDOR
A LUA É DOS ASTRONAUTAS
Na ditadura, quando se especulava sobre o sucessor do general Emílio Médici, o jornalista Mauro Santayana encontrou o deputado Zezinho Bonifácio, ardente defensor do regime, e reproduziu uma frase célebre:
- No regime presidencialista, é indispensável que a escolha do primeiro mandatário respeite as forças políticas da nação.
- Quem disse essa asneira? - reagiu Zezinho.
- Seu pai, José Bonifácio, quando se rebelou contra Washington Luís.
Zezinho não perdeu o rebolado:
- Isso foi no tempo em que a Lua era de São Jorge. Hoje, é dos astronautas.
QUINTA NOS JORNAIS
- Globo: Credibilidade em xeque: Governo zera imposto para tentar segurar dólar
- Folha: Governo de SP diz que será mais duro contra vandalismo
- Estadão: Dilma diz que contas estão sob controle e ataca críticos
- Correio: Meu caro futebol…
- Valor: Meta exige um esforço fiscal de mais R$ 24 bi
- Estado de Minas: Economia de guerra
- Jornal do Commercio: Morte expõe descaso
- Zero Hora: Colheita Farta – Soja turbina o PIB gaúcho
- Brasil Econômico: Governo retira IOF para conter o câmbio
quarta-feira, junho 12, 2013
O amor mais que romântico - MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 12/06
Quando era criança, assistia a filmes e novelas românticas e pensava: será que um dia escutarei “eu te amo” de alguém? É bem verdade que ouvia todo dia da minha mãe, mas não era do mesmo jeito que o Francisco Cuoco dizia para a Regina Duarte. Eu sonhava com o “te amo” apaixonado, dito por um homem lindo, e com a voz um pouco trêmula, para deixar sua emoção bem evidente. Será que era invenção do cinema e da tevê, ou essas coisas poderiam acontecer mesmo?
Passou o tempo. Cresci, ouvi e retribuí. Clichê? Que seja, mas não há quem não se emocione ao escutar e ao dizer, ao menos nas primeiras vezes, em pleno encantamento da relação, quando a declaração ainda é fresca, pungente, verdadeira, a confirmação de algo estupendo que se está experimentando, um sentimento por fim alcançado e que se almeja eterno. Depois ele entra no circuito automático, vira aquele “te amo” dito nos finais dos telefonemas, como se fosse um “câmbio, desligo”.
O tempo seguiu passando, e me encontro aqui, agora, descobrindo que há outro tipo de “te amo” a ser escutado e falado, diferente dos que acontecem entre pais e filhos e entre amantes. É quando o “te amo” não é dito a fim de firmar um compromisso, para manter alguém a par das nossas intenções ou experimentar uma cena de novela. Ele vem desvinculado de qualquer mensagem nas entrelinhas, não possui nenhum caráter de amarração e tampouco expectativa de ouvir de volta um “eu também”. É singular. Estou falando do amor declarado não só quando amamos com romantismo, mas também de outra forma.
Explico: tenho dito “te amo” para amigas e amigos e escutado deles também. Uma declaração bissexual e polígama, que resgata esse sentimento das garras da adequação. Volta a ser o amor primitivo, verdadeiro, sem nenhuma simbologia, puro afeto real. Amor por pessoas que não conheci ontem num bar, e sim por quem já tenho uma história de vida compartilhada.
Amor manifestado espontaneamente àqueles que não me exigem explicações, que apoiam minhas maluquices, que fazem piada dos meus defeitos, que já tiveram acesso ao meu raio X emocional e sabem exatamente o que levo dentro – e eu, da mesma forma, tudo igual em relação a eles. Mais do que nos amamos – nos sabemos.
É um “te amo” que cabe ser dito inclusive aos ex-amores, ao menos aos que nos marcaram profundamente, aos que nos auxiliaram na composição do que nos tornamos, e que mesmo nos tendo feito sofrer, foram fundamentais na caminhada rumo ao que somos hoje. E indo perigosamente mais longe: esse ex-amor pode ainda ser seu marido ou sua mulher, mesmo já não fazendo seu coração saltar da boca. Pelo trajeto percorrido, e por ter alcançado o posto de um amigo mais que especial, merece uma declaração igualmente comovida.
É quando o “eu te amo” deixa de ser sedução para virar celebração.
Quando era criança, assistia a filmes e novelas românticas e pensava: será que um dia escutarei “eu te amo” de alguém? É bem verdade que ouvia todo dia da minha mãe, mas não era do mesmo jeito que o Francisco Cuoco dizia para a Regina Duarte. Eu sonhava com o “te amo” apaixonado, dito por um homem lindo, e com a voz um pouco trêmula, para deixar sua emoção bem evidente. Será que era invenção do cinema e da tevê, ou essas coisas poderiam acontecer mesmo?
Passou o tempo. Cresci, ouvi e retribuí. Clichê? Que seja, mas não há quem não se emocione ao escutar e ao dizer, ao menos nas primeiras vezes, em pleno encantamento da relação, quando a declaração ainda é fresca, pungente, verdadeira, a confirmação de algo estupendo que se está experimentando, um sentimento por fim alcançado e que se almeja eterno. Depois ele entra no circuito automático, vira aquele “te amo” dito nos finais dos telefonemas, como se fosse um “câmbio, desligo”.
O tempo seguiu passando, e me encontro aqui, agora, descobrindo que há outro tipo de “te amo” a ser escutado e falado, diferente dos que acontecem entre pais e filhos e entre amantes. É quando o “te amo” não é dito a fim de firmar um compromisso, para manter alguém a par das nossas intenções ou experimentar uma cena de novela. Ele vem desvinculado de qualquer mensagem nas entrelinhas, não possui nenhum caráter de amarração e tampouco expectativa de ouvir de volta um “eu também”. É singular. Estou falando do amor declarado não só quando amamos com romantismo, mas também de outra forma.
Explico: tenho dito “te amo” para amigas e amigos e escutado deles também. Uma declaração bissexual e polígama, que resgata esse sentimento das garras da adequação. Volta a ser o amor primitivo, verdadeiro, sem nenhuma simbologia, puro afeto real. Amor por pessoas que não conheci ontem num bar, e sim por quem já tenho uma história de vida compartilhada.
Amor manifestado espontaneamente àqueles que não me exigem explicações, que apoiam minhas maluquices, que fazem piada dos meus defeitos, que já tiveram acesso ao meu raio X emocional e sabem exatamente o que levo dentro – e eu, da mesma forma, tudo igual em relação a eles. Mais do que nos amamos – nos sabemos.
É um “te amo” que cabe ser dito inclusive aos ex-amores, ao menos aos que nos marcaram profundamente, aos que nos auxiliaram na composição do que nos tornamos, e que mesmo nos tendo feito sofrer, foram fundamentais na caminhada rumo ao que somos hoje. E indo perigosamente mais longe: esse ex-amor pode ainda ser seu marido ou sua mulher, mesmo já não fazendo seu coração saltar da boca. Pelo trajeto percorrido, e por ter alcançado o posto de um amigo mais que especial, merece uma declaração igualmente comovida.
É quando o “eu te amo” deixa de ser sedução para virar celebração.
A criação do mundo - MARCELO COELHO
FOLHA DE SP - 12/06
Nas fotos de "Genesis", Sebastião Salgado parece construir o planeta com as próprias mãos
As florestas estão desaparecendo, as geleiras derretem, o aquecimento global preocupa, mas certamente uma coisa não falta no planeta. Refiro-me às fotografias da vida selvagem.
Nada contra esse tipo de fotos. São invariavelmente lindas: revoadas de colhereiros, visões aéreas da Amazônia, índias com filhos na rede e na escuridão.
Quem pensa já ter visto tudo a esse respeito vai mudar de ideia, provavelmente, se abrir o novo livro de Sebastião Salgado.
"Genesis" (editora Taschen) é um volume bem grande e pesado, com fotografias em preto e branco do artista mineiro, tiradas nos lugares mais remotos do mundo. Lá estão os índios, os baobás, as geleiras, os platôs e os pinguins.
Mas o que vejo nesse livro não tem comparação com nada do que eu conhecia. É como se, até agora, eu tivesse ouvido apenas uma caixa de música e descobrisse, ao vivo e na frente da orquestra, uma sinfonia de Beethoven.
Em vez de mostrar uma espécie de pureza idílica e bonitinha, as fotos de Sebastião Salgado surgem numa erupção de dramaticidade, de agonia, de poder.
Talvez nosso hábito seja o de pensar as reservas ecológicas como algo de "intocado", de perfeito em si mesmo, que se espraia na total ausência do homem.
Justamente, o livro de Sebastião Salgado não se chama "Éden" nem "Paraíso". O título "Genesis" dá a impressão de que algo está ainda a ser criado, de que forças gigantescas e, de certo modo, feitas à imagem e semelhança do próprio homem, estão sem descanso a fabricar o mundo.
A formação de cacto que nasce no meio de um derramamento de lava, nas ilhas Galápagos, não parece "estar ali", de forma "natural". É como se tivesse sido plantada por um jardineiro raivoso e enlouquecido, ainda exausto do esforço de derreter a pedra e movê-la, aos golpes, pela encosta do vulcão.
Viramos as páginas, e encontramos na África um grupo de elefantes. O que era bicho, entretanto, achata-se na foto, ganhando a simetria mineral de uma barreira de basalto.
O melhor modo de resumir o impacto dessas fotos seria dizer, acho, que Sebastião Salgado não parece trabalhar simplesmente com os olhos e a lente da câmera. É como se, em vez dos olhos, ele usasse as mãos.
Ele conta, no prefácio do livro, que depois de presenciar cenas de brutalidade extrema em países como Ruanda, tinha perdido a esperança na humanidade. Na mesma época (fim da década de 1990), foi cuidar de uma propriedade em Minas Gerais que, no passado, tinha sido a fazenda de gado de sua família.
Sebastião Salgado e sua mulher, Lélia Wanick Salgado, dedicaram-se (com sucesso) ao reflorestamento do lugar. Talvez venha daí a sensação de voluntarismo, de poder, de empreitada, que as fotos transmitem. O mundo natural surge como resultado de um trabalho titânico.
E, nas fotos de alguns bichos, não há como não reconhecer algum tipo de marca demasiado humana. Um tartarugão nos olha como se fosse James Cagney, num dos seus papéis de gângster, mandando-nos embora da região sob seu domínio.
A pata de um lagarto, cinco dedos sobre a pedra, ao mesmo tempo delicada e agressiva, vive uma inteligência própria --talvez porque sejam especialmente humanas as proporções do pulso e do antebraço.
Quando aos índios, vivam eles na América, na África ou perto do polo Norte, a visão de Salgado supera, sem negá-los, os pressupostos da antropologia. De um lado, em muitas fotos ele capta o que há de mais "diferente", de mais exótico possível.
Uma cultura africana, por exemplo, usa adornos no lábio inferior que fazem os batoques dos índios brasileiros um enfeitizinho de criança tímida.
Ao mesmo tempo, Sebastião Salgado não abandona um olhar "estético" e "ocidental" sobre muitas das pessoas retratadas. A beleza de alguns rostos e corpos é valorizada ao extremo em suas fotos. Em outra imagem, um grupo de velhos xamãs kamayurá posa solenemente, contra um fundo do mais absoluto negro --e não há dúvida de que o fotógrafo se inspirou, aqui, nos retratos coletivos de Rembrandt.
Ocidente, Oriente, norte, sul: não se trata, em "Genesis", da atitude paternalista de celebrar nossas "diferenças" ou nossa "fraternidade planetária". Sebastião Salgado humanizou tudo, na verdade, graças ao procedimento inverso. Vê o mundo como se estivesse de fora, como se fosse ele próprio uma força impessoal, cujo amor só se expressa em energia, em criação.
Nas fotos de "Genesis", Sebastião Salgado parece construir o planeta com as próprias mãos
As florestas estão desaparecendo, as geleiras derretem, o aquecimento global preocupa, mas certamente uma coisa não falta no planeta. Refiro-me às fotografias da vida selvagem.
Nada contra esse tipo de fotos. São invariavelmente lindas: revoadas de colhereiros, visões aéreas da Amazônia, índias com filhos na rede e na escuridão.
Quem pensa já ter visto tudo a esse respeito vai mudar de ideia, provavelmente, se abrir o novo livro de Sebastião Salgado.
"Genesis" (editora Taschen) é um volume bem grande e pesado, com fotografias em preto e branco do artista mineiro, tiradas nos lugares mais remotos do mundo. Lá estão os índios, os baobás, as geleiras, os platôs e os pinguins.
Mas o que vejo nesse livro não tem comparação com nada do que eu conhecia. É como se, até agora, eu tivesse ouvido apenas uma caixa de música e descobrisse, ao vivo e na frente da orquestra, uma sinfonia de Beethoven.
Em vez de mostrar uma espécie de pureza idílica e bonitinha, as fotos de Sebastião Salgado surgem numa erupção de dramaticidade, de agonia, de poder.
Talvez nosso hábito seja o de pensar as reservas ecológicas como algo de "intocado", de perfeito em si mesmo, que se espraia na total ausência do homem.
Justamente, o livro de Sebastião Salgado não se chama "Éden" nem "Paraíso". O título "Genesis" dá a impressão de que algo está ainda a ser criado, de que forças gigantescas e, de certo modo, feitas à imagem e semelhança do próprio homem, estão sem descanso a fabricar o mundo.
A formação de cacto que nasce no meio de um derramamento de lava, nas ilhas Galápagos, não parece "estar ali", de forma "natural". É como se tivesse sido plantada por um jardineiro raivoso e enlouquecido, ainda exausto do esforço de derreter a pedra e movê-la, aos golpes, pela encosta do vulcão.
Viramos as páginas, e encontramos na África um grupo de elefantes. O que era bicho, entretanto, achata-se na foto, ganhando a simetria mineral de uma barreira de basalto.
O melhor modo de resumir o impacto dessas fotos seria dizer, acho, que Sebastião Salgado não parece trabalhar simplesmente com os olhos e a lente da câmera. É como se, em vez dos olhos, ele usasse as mãos.
Ele conta, no prefácio do livro, que depois de presenciar cenas de brutalidade extrema em países como Ruanda, tinha perdido a esperança na humanidade. Na mesma época (fim da década de 1990), foi cuidar de uma propriedade em Minas Gerais que, no passado, tinha sido a fazenda de gado de sua família.
Sebastião Salgado e sua mulher, Lélia Wanick Salgado, dedicaram-se (com sucesso) ao reflorestamento do lugar. Talvez venha daí a sensação de voluntarismo, de poder, de empreitada, que as fotos transmitem. O mundo natural surge como resultado de um trabalho titânico.
E, nas fotos de alguns bichos, não há como não reconhecer algum tipo de marca demasiado humana. Um tartarugão nos olha como se fosse James Cagney, num dos seus papéis de gângster, mandando-nos embora da região sob seu domínio.
A pata de um lagarto, cinco dedos sobre a pedra, ao mesmo tempo delicada e agressiva, vive uma inteligência própria --talvez porque sejam especialmente humanas as proporções do pulso e do antebraço.
Quando aos índios, vivam eles na América, na África ou perto do polo Norte, a visão de Salgado supera, sem negá-los, os pressupostos da antropologia. De um lado, em muitas fotos ele capta o que há de mais "diferente", de mais exótico possível.
Uma cultura africana, por exemplo, usa adornos no lábio inferior que fazem os batoques dos índios brasileiros um enfeitizinho de criança tímida.
Ao mesmo tempo, Sebastião Salgado não abandona um olhar "estético" e "ocidental" sobre muitas das pessoas retratadas. A beleza de alguns rostos e corpos é valorizada ao extremo em suas fotos. Em outra imagem, um grupo de velhos xamãs kamayurá posa solenemente, contra um fundo do mais absoluto negro --e não há dúvida de que o fotógrafo se inspirou, aqui, nos retratos coletivos de Rembrandt.
Ocidente, Oriente, norte, sul: não se trata, em "Genesis", da atitude paternalista de celebrar nossas "diferenças" ou nossa "fraternidade planetária". Sebastião Salgado humanizou tudo, na verdade, graças ao procedimento inverso. Vê o mundo como se estivesse de fora, como se fosse ele próprio uma força impessoal, cujo amor só se expressa em energia, em criação.
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