domingo, abril 14, 2013

Thatcher e seu fiel consorte - DORRIT HARAZIM

O GLOBO - 14/04

Por tamanha enrascada ninguém esperava, até porque Margaret Thatcher já estava fora do poder há 23 anos e, debilitada e com demência há mais de cinco, sequer aparições públicas mais fazia. Parecia destinada a ocupar levas de historiadores do século XX, como a mulher que maior poder político exerceu na arena mundial. E continuaria a gerar montanhas de análises sobre as transformações que impôs à sociedade britânica como chefe de governo. O que ninguém previu foi que a Dama de Ferro ainda ressuscitaria velhas paixões depois de falecida.

O anúncio de sua morte, na segunda-feira passada, gerou previsíveis manifestações de pesar, respeito e reverência para quem foi a figura mais dominante da Grã-Bretanha desde Winston Churchill em 1940. Só que o monopólio da narrativa apologética durou pouco. Paralelo ao luto oficial de quem vê em Thatcher a líder que salvou e modernizou o país, brotou a céu aberto o rancor armazenado por milhões de excluídos por sua política. Sindicalistas, mineiros, servidores públicos, todo o tecido social da Inglaterra de espinha dorsal quebrada que teve de se adequar à era Thatcher pelo visto não esqueceu. Nem perdoou.

Ninguém estranha quando mortes de ditadores e tiranos são festejadas por opositores que a eles sobreviveram. Já o falecimento de líderes ou ex-líderes de países democráticos suscita, no máximo, indiferença em quem não quer se juntar ao luto nacional. Ofensas e regozijo são considerados de mau gosto. No caso de Margaret Thatcher, contudo, está valendo tudo.

Ruidosas chopadas em Brixton e Glasgow se sucederam alegremente desde o anúncio fúnebre que enlutou a nação. Enquanto se programa o solene e grandioso enterro de quarta-feira próxima, ao qual comparecerá a rainha, até mesmo um membro da força policial britânica já postou um tweet saudando "o mundo agora melhor, com esta morte que chegou 87 anos atrasada". Foi expulso da corporação, é claro. Passeatas, protestos, acrimônia na internet não arrefecem. Polêmica em vida, Margaret Thatcher reemergiu além-túmulo com todo seu potencial divisionário.

Em um único quesito, pode-se afirmar sem medo de erro, a primeira-ministra sempre obteve aprovação unânime: na figura do fiel consorte que ocupou 10, Downing Street a seu lado durante os anos no poder.

Denis Thatcher era um executivo de sucesso na indústria petrolífera, recém-aposentado, quando Margaret Hilda Roberts, com quem casara mais de duas décadas antes, se tornara líder do Partido Conservador. Além do sobrenome, deu à esposa a segurança financeira necessária para que ascendesse na política fazendo carreira solo.

Quando Margaret chegou ao topo, como primeira mulher a comandar uma potência ocidental, não existia protocolo nem roteiro nem título nem job description para um consorte masculino. E ainda menos para um consorte tão claramente desinteressado em alterar o estilo de vida privado que levara até então. De início, foi um prato cheio para caricaturistas e humoristas. Pouco a pouco, porém, Denis foi ganhando a simpatia nacional ao definir os limites mínimos de sua obrigação e temperar suas poucas aparições públicas com o humor leve e solto que faltava à mulher.

Preencheu o papel com inteligência intuitiva, sem provocar arranhão na agenda pública da mulher - o que é notável, sobretudo se comparado ao desempenho de tantas primeiras-damas mundo afora. De ideias ainda mais conservadoras do que as da própria esposa, ele teve o bom senso de manter as suas em círculo fechado. E teve a sorte de um célebre descuido seu só ter se tornado público quando Thatcher já estava fora do poder: "Mantenha a Suíça branca", aconselhara ele ao presidente daquele país, durante um jantar em 1984.

O low profile mantido pelo inquilino adjunto da residência oficial de Downing Street se apoiava no pouco apreço que ele reservava aos jornalistas. Chamava-os de "répteis". Um provérbio aprendido com o pai lhe ensinara a arte de não dizer nada: "O homem só mata a baleia quando ela esguicha."

Denis Thatcher também caiu no gosto popular por nunca ter parado de tomar o seu gim de todas as horas, boas ou más (em eventos oficiais em que bebidas alcoólicas não eram servidas, encarregava o agente de segurança da esposa de abastecê-lo de "água especial"). Atravessou com cavalheirismo uma estrutura familiar oposta à moldura conservadora do seu entorno social. "Casei com uma das mulheres mais grandiosas que o mundo já produziu. Já o que eu produzi, soa pequeno: lealdade", concluiu, ao final..

Denis Thatcher morreu dez anos atrás, aos 88 anos, e recebeu louvas em uníssono de todos os partidos. Alguns, como é de praxe, se excederam. "Ele foi um verdadeiro grande homem. Sem ele, seria impossível imaginar a sra. Thatcher alcançando o sucesso que alcançou", proclamou o líder conservador Duncan Smith. Bobagem.

Fato é que em onze anos numa posição propícia a jogos de poder e intrigas palacianas, o sr. Thatcher passou ao largo desses exercícios. E ainda deu uma contribuição espontânea à cartilha do enxugamento do Estado, tão cara à primeira-ministra: ele não dispunha de funcionários a seu serviço, não gerou despesa, não inventou nenhuma obra de caridade para se ocupar.

"Centavos não caem do céu, é preciso trabalhar aqui na terra para ganhá-los", ensinou Margaret Thatcher durante a cruzada privatizante que transformou tão profundamente a Grã-Bretanha. Sugestão insolente enviada esta semana à comissão organizadora do cortejo fúnebre e exéquias: em respeito às ideias defendidas pela falecida, o enterro, que custará perto de 15 milhões de libras esterlinas (algo próximo a R$ 45 milhões), deveria ser privatizado, numa operação calculada para dar lucro ao governo.


Deus vence pleito, mas não governa - CLÓVIS ROSSI

FOLHA DE SP - 14/04

A identificação com Chávez, alçado aos altares, pode dar para vencer hoje, mas não serve para administração


Marie Metz, enviada especial da revista "The Atlantic", faz uma comparação perfeita entre a campanha eleitoral de outubro de 2012, em que Hugo Chávez venceu Henrique Capriles, com a que termina hoje com o mesmo Capriles enfrentando Nicolás Maduro: "Em outubro de 2012, Hugo Chávez era um líder sem medo, um homem extremamente poderoso cujo carisma (e benefícios monetários) causavam a adulação de muitos. Hoje, Chávez não é mais esse homem. Ele é Deus".

Deus não pode perder eleição, o que significa teoricamente que Maduro, o representante de Chávez na Terra, pode considerar-se eleito.

Mas, se a deificação de Chávez é uma bênção para o ex-motorista de ônibus, será também um problema por uma coleção de motivos. O principal deles: Deus ganha eleição, mas não pode governar, a menos que se transforme em um "pajarito" que apareça diuturnamente no Palácio de Miraflores, a sede do governo, para soprar o que fazer.

É improvável que apareça, ao menos a julgar pelo que diz uma autoridade no tema, o arcebispo de Caracas, cardeal Jorge Urosa: "Chávez é um ser humano, como todos nós. Não pode ser comparado a Cristo".

Que um cardeal tenha que perder tempo com um, digamos, esclarecimento do tipo diz bem do clima de misticismo com que Maduro cercou a sua campanha. Espero que não acredite no que ele próprio diz, sob pena de termos um fanático enlouquecido governando um dos principais países da América Latina, ainda por cima membro do Mercosul, o bloco comercial que o Brasil gostaria de liderar.

A coleção de problemas para Maduro por seu abraço a "deus" Chávez começa na própria noite eleitoral: se o apadrinhado obtiver menos que os 8 milhões de votos conseguidos pelo padrinho em 2012, já será sinal de que nem todos os cidadãos cumpriram o juramento espalhado por toda Caracas: "Chávez, te lo juro, mi voto es para Maduro".

Pior ainda: no comício final, Maduro pediu 10 milhões de votos. Se não os conseguir, provará que seu apelo está longe de se equiparar ao de Chávez, por mais que se tenha enrolado no manto do líder morto e açulado a emoção provocada pela perda do "comandante".

Terminada a apuração, instalado Maduro em Miraflores, virão problemas que mesmo um Deus de verdade teria dificuldade para resolver, a saber:

1 - A inflação, só em março, foi de 2,8%, sugerindo uma taxa anual de 30%. O Brasil, como se sabe, está assustado porque a sua taxa anual acaba de bater em 6,6%.

2 - A escassez de alimentos básicos só faz aumentar: passou de 11% da cesta básica em novembro para 17,7% em março.

3 - O deficit das contas públicas chegou a 15% do Produto Interno Bruto, taxa que até Deus consideraria insustentável.

4 - A produção automotriz, setor de peso na indústria, caiu 51,07% no primeiro trimestre, em relação a idêntico período de 2012.

Sem falar na violência, a maior preocupação dos venezuelanos.

A devoção popular a Chávez permitiu passar por cima desse tipo de dificuldades. Mas Maduro ainda não tem lugar no altar.

Um projeto drogado - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 14/04

Proposta quer os viciados em drogas registrados num cadastro; eles não teriam benefício algum com isso


A Câmara esteve na iminência de votar quarta-feira um projeto com graves implicações sociais, que precisariam de ampla discussão pública, mas a população nem ao menos sabia da votação prevista. (O jornalismo brasileiro tornou-se muito original). A votação está apenas adiada, em princípio, para terça agora.

De autoria do peemedebista gaúcho Osmar Terra, o projeto quer os viciados em drogas registrados em um cadastro nacional. Os viciados não teriam benefício algum com a medida. Mas, além disso, os futuros recuperados, os recuperáveis e as famílias dos viciados ficariam sujeitos a danos incalculáveis. Expostos, desde o registro e pela vida afora, aos efeitos das visões preconceituosas no mundo do trabalho e nas relações humanas.

A proposta para a formação do cadastro é ainda mais perturbadora. Os profissionais incumbidos do atendimento e de internações estariam obrigados à pronta informação, para o cadastro, sobre o dependente atendido ou, se internado, beneficiado por alta. E aos professores e diretores de escolas caberia a obrigação de mandar para o cadastro os nomes dos alunos consumidores de droga ou com indício de sê-lo. A respeito, não é preciso dizer nada além disso: Alemanha, anos 1930.

Está difícil, e não há esforço algum para facilitar, a compreensão ampla de que ninguém é viciado por querer, seja qual for o vício. No máximo, pode haver indiferença ou conformismo com o vício e suas consequências. Mas todo vício é um sofrimento, porque é dependência e toda dependência é opressiva. O traficante, sim, trafica porque quer, ainda que sob o impulso do próprio vício. Não tem cabimento, portanto, a emenda que o PSDB quer apresentar ao projeto, eliminando o proposto aumento da pena mínima para traficante, em associação com a retirada do cadastro de consumidores de drogas.

A iniciativa de adiamento da votação foi do PSDB, para que a bancada revisse o projeto a pedido de Fernando Henrique, e do PC do B, sem que isso signifique apoio dos demais partidos às barbaridades propostas. Não há indicações de como estão as bancadas partidárias quanto aos itens do projeto. Até por isso, o adiamento por apenas uma semana é a continuada falta da discussão pública do projeto. E agora também das emendas, sejam quais forem, mencionadas pelo líder do PSDB, Carlos Sampaio, para atender a Fernando Henrique.

O projeto tramita há mais de dois anos e, apesar disso, chegou à pauta de votação como uma monstruosidade incólume. Inclusive sem emendas saneadoras do PSDB e do PC do B. O necessário, portanto, é adiá-lo sem data de votação e tentar submetê-lo a algum debate nos meios de comunicação (comunicação?).

Exclusiva com o comandante Borges - JOÃO UBALDO RIBEIRO

O GLOBO - 14/04

-Comandante, ainda bem que você veio. Ontem me disseram que você não queria mais dar a entrevista.

- É, mas pensei melhor. Se eu prometi, está prometido. Alguém tem que manter a palavra neste país. Mas isso não impede, sem querer ofender ninguém, que eu ache esta entrevista uma palhaçada.

- Não entendi.

- Não vai sair nada do que eu disser, a imprensa está toda no bolso do governo, devendo à Previdência e à Receita e mamando as verbas de publicidade. A imprensa está aí para ajudar no fingimento de que há liberdade, vontade popular, opinião pública e essas besteiras feitas para declamação. Isto mesmo que eu acabo de dizer quero ver sair, não sai. Está gravando?

- Estou.

- Você está perdendo seu tempo, não vai sair nada. Grave aí que eu acho que essa democracia é para as negas deles, o que eles fazem é entrolhar todo mundo e fazer tudo da veneta deles. Você viu a do ensino? Agora é obrigatório botar o filho na escola aos 4 anos! A quem que eles perguntaram? Eles não conseguem dar conta nem de metade dos que já têm direito e inventam mais? Estamos cheios de grandes escolas públicas para todos, todo mundo na escola de barriga cheia desde os 4 anos, que beleza! Eu não sou otário, eu não sou otário! Eu queria que eles compreendessem que eu não sou otário!

- Eu pretendia chegar a assuntos como esse, sei que você tem opiniões muito firmes. Mas minha primeira pergunta ia ser outra, mais pessoal.

- Ah, desculpe, eu às vezes me exalto um pouco. Pode perguntar o que você quiser. Se eu contar coisas pessoais, também não sai, eu não sou pervertido, a imprensa só se interessa quando é a vida pessoal dos pervertidos. Não vai sair nada, mas eu respondo a qualquer pergunta.

- Bem, a pergunta é uma curiosidade minha. Frequentamos este mesmo boteco há não sei quantos anos e nunca vi você chegar dando risada sozinho, como vi hoje, na hora em que você estava descendo da sua famosa bicicleta elétrica. Dá para dizer qual foi a razão?

- Dá, eu não escondo nada. Não era riso de satisfação, nem de felicidade. Era uma risada mórbida que deu para me atacar de uns tempos para cá, uma espécie de humor negro. Eu estava me lembrando de um comercial. Não sei do que era, só me lembro da cena. Era um casal fazendo um piquenique romântico na Lagoa à noite, sentadinho com um pano de mesa estendido, luz de velas, cestinha de comida, parecia uma aquarela campestre. Aí eu fiquei pensando e me deu uma crise desse riso mórbido. E, na hora de minha chegada, não sei por que, me lembrei de novo. Sempre que eu lembro, rio novamente, é incoercível. Piquenique na Lagoa é demais, não é, não?

- Demais como?

- Você não entendeu? Piquenique na Lagoa, piquenique na Lagoa! Só pode ser Walt Disney, e dos anos 50! Quando o casal tivesse acabado de estender a toalha, já não ia ter mais cestinha, nem garrafinha, nem vela, nem piquenique nenhum! Seja sincero e realista e me responda quantos segundos você daria para um casal começar um piquenique à noite na Lagoa e o piquenique ser todo comido e possivelmente o casal também. Dou 90 segundos, mas ganha quem der um minuto. Aí eu fico pensando no que poderia acontecer a esse casal e o piquenique deles e tenho essas crises de riso, é tudo humor negro mesmo. Uns dois dimenores liquidavam tudo numa boa.

- Você tem uma birra com os menores, não tem?

- Eu não, eu só sou contra o que eu vou lhe figurar. Eu sou João Narigolé, traficante que de vez em quando precisa de outros serviços, notadamente os que envolvem dar cabo de alguém. Aí, quem é que eu chamo para fazer o serviço? Vou ao banco de dados de menores pistoleiros... Deve haver vários bancos de dados desse tipo, é capaz até de já ter no Facebook. Vou lá, escolho um, ofereço uma graninha e ele faz a execução. Se for preso, não pega nada e recebe a grana pelo serviço. Se me dedurar, sabe que eu posso mandar outro dimenor para rechear de azeitonas a cabeça dele e assim por diante, é um esquema perfeito. O dimenor é um grande patrimônio da criminalidade nacional.

- Então você é a favor da diminuição da maioridade penal.

- Eu não! Não distorça minhas palavras! A favor da diminuição geral, não, cada caso é um caso! Eu só tenho propostas sérias e eficazes, esse negócio de fixar idades com base em invencionices psicológicas não resolve nada. Eu sou a favor de uma coisa muito simples: teve idade para apontar a arma e dar o tiro, tem idade para ir em cana. Não é simples? É a coisa mais óbvia para qualquer um e somente os intelectuais é que não concordam, porque as soluções simples dão desemprego para eles, tudo aqui é em função do emprego.

- Você não acha que a responsabilidade penal do menor...

- Ninguém mais é responsável por nada! Isso era antigamente, agora todo mundo é vítima e qualquer sacanagem que apronte recebe um nome artístico, dado pelos psiquiatras! Um nome artístico e uma bolinha e está tudo resolvido, a culpa não é de ninguém, é da síndrome! A culpa não é dele, é das condições socioeconômicas! A culpa não é dela, é dos traumas de infância! Ninguém tem mais culpa de nada, ninguém fica preso, ninguém paga do próprio bolso as multas às empresas, ninguém é responsável por nenhum desastre, todo mundo rouba e mata, há muito tempo que isto é uma esculhambação! O que nós precisamos é de Robespierre! Nada de faxina! Para quem propina, rapina e assassina, o correto é guilhotina! Quero ver isso sair no jornal!

Oásis - LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

O ESTADÃO - 14/04

Numa recente London Review of Books o escritor irlandês Colm Toíbín desenvolve uma tese instigante sobre três autores, Fernando Pessoa, Jorge Luis Borges e Flann O'Brien, este último um contemporâneo de James Joyce que passou a vida inteira ao mesmo tempo venerando e cutucando o autor de Ulysses. Os três são de cidades - Lisboa, Buenos Aires e Dublin - situadas à margem da literatura mundial, cidades que Toíbín descreve como desertos culturais, em contraste com os centros de criação da sua época como Paris e Londres. É estranho Toíbín dizer isto sobre a Irlanda, que, além de Joyce, produziu Beckett, Shaw, Swift, Yeats, etc. e mais prêmios Nobel de Literatura por metro quadrado do que qualquer outro país do mundo. Mas a criação na Irlanda, de um jeito ou de outro, sempre foi um reflexo do domínio inglês, tanto da sua política quanto da sua cultura, e os premiados irlandeses foram todos fazer sua reputação e ganhar sua vida em Londres enquanto Dublin ficava como a capital da memória, como disse Lawrence Durrell de Alexandria, um lugar para ser evocado no exílio mais do que habitado.

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Os oásis e as miragens só podem existir nos desertos e os três autores citados por Toíbín viveram e escreveram nos seus respectivos refúgios do deserto. Dos três só um (O'Brien) produziu um texto longo, os outros só fizeram poesia e contos - uma literatura de oásis, nutrida pela imaginação de cada um em vez de pela aridez em volta, que podiam retratar apenas a distância, como paródia ou curiosidade. O fato de não contarem com uma cultura local estabelecida para alimentar sua criação, de certa maneira os autorizou a comer da tradição literária de todo o mundo, com licença para serem mais criativos do que todo o mundo. Pessoa e Borges, principalmente, eram multinacionais antes de inventarem o termo.

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A linguagem do oásis é diferente da linguagem do deserto. A prática de viver em oásis permitiu aos três brincar com a linguagem e uma forma que seria impossível sem esta distância. A biografia dos três ajudou nesse sentido. Pessoa viveu na África do Sul entre os 7 e os 17 anos e quando voltou a Lisboa falava inglês melhor do que português. Muitos dos seus poemas foram escritos em inglês. Borges tinha uma avó inglesa que morava com a família, e cresceu falando espanhol e inglês. Dos 15 aos 22 anos Borges morou em Genebra, onde falava francês e inglês, além do espanhol. O'Obrien só falou irlandês até os 10 anos, e escrevia em irlandês e inglês. Uma língua vista de fora ou de longe revela todas as idiossincrasias e possibilidades que os que a falaram sempre nem sempre veem. O russo Nabokov escrevendo em inglês é um exemplo dos prodígios possíveis com uma língua recém-apreendida, e tem um predecessor igualmente admirável no polonês Joseph Conrad. Borges dizia que sua grande vontade literária era ter escrito toda a 11.ª edição da Enciclopédia Britânica. Em inglês, claro.

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Outra afinidade citada por Toíbín é a afeição dos três por heterônimos. Pessoa usou, entre outros, os nomes Ricardo Reis, Alberto Caieiro, Álvaro de Campos, Bernardo Soares. Borges foi B.Suarez Lynch e H.Bustos Domecq. O nome verdadeiro de O'Brien era Brian O Nuallain e ele também escreveu com o pseudônimo (atenção revisor, é assim mesmo) Myles na gCopaleen. Heterônimos podem ser considerados miragens, figuras fluidas e imaginárias que só servem para fazer companhia nos oásis e serem cúmplices nos jogos com a linguagem de que os três gostavam tanto. Escreve Toíbín: "Não foi coincidência que os três não tiveram filhos, que não escreveram sobre mulheres ou, no caso de dois deles, eram levemente misóginos. Quando dois deles se casaram foi uma grande surpresa para seus amigos: pareciam mais confortáveis (ou mais confortavelmente desesperados) como solteiros do que como pais ou maridos. Na verdade, os três, apesar disto não ser da nossa conta, podem ter morrido virgens. Um deles disse que não tinha ambições ou desejos. "Ser um poeta não é uma ambição, é a minha maneira de estar sozinho."

Grito do Ipiranga na China - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 14/04

Meta do Brasil é crescer como a China até o bicentenário da Independência, sugere Dilma em campanha


QUAL É o nosso objetivo? Nosso, dos brasileiros, deste país? Se perguntarem a Dilma Rousseff, ela dirá que é dobrar a nossa renda per capita. Foi o que a presidente contou na sexta-feira, quando entregava um kit (sic) de motoniveladoras, retroescavadeiras e caminhões-caçamba para prefeitos gaúchos.

Quando a renda média terá dobrado? Como a presidente usa o método confuso de discursar, ficou meio difícil de saber (leia a transcrição oficial do discurso no final desta coluna). Parece que a nossa meta é dobrar a renda per capita até 2022, quando o Grito do Ipiranga de Pedro 1º faz 200 anos.

É fácil ver que isso não faz o menor sentido. Seria necessário que a economia brasileira crescesse ao ritmo de quase 9% ao ano para que a nossa renda média dobrasse até 2012, dadas as estimativas de aumento da população até lá e o fato de que o PIB deste terceiro ano de Dilma vai crescer uns 3%.

O Brasil precisaria, pois, crescer tanto quanto a China a partir do ano que vem e continuar nessa toada até 2022. Mas este país jamais cresceu tão rápido assim numa década. Passou raspando nos dez anos contados até 1976, quando a renda per capita crescera 87,5%, depois de anos de "milagre econômico". Milagre, ressalte-se.

Para insistir uma última vez na aritmética do devaneio, a renda média do Brasil deveria crescer entre 7,5% e 8% ao ano. No governo Lula, cresceu em média 2,8% ao ano. Sob Dilma, menos ainda.

Países de renda média, tal como o Brasil, não crescem a 8% ao ano por uma década. É mais fácil acelerar quando se é mais pobre. Mesmo na Coreia do Sul, um caso de sucesso extraordinário, o crescimento da renda per capita desceu a ainda excepcionais 5% ao ano quando os coreanos andavam com a mesma renda média do Brasil de hoje.

Porém, saímos da picuinha aritmética para um absurdo socioeconômico quando nos comparamos à Coréia do Sul. Os motivos do crescimento econômico ainda são meio misteriosos, mas sabe-se mais ou menos o que não dá certo.

O governo do Brasil paga os juros mais altos do mundo sobre uma dívida que não vale tal pena: que não dá retorno. Numa lista de 137 países, em 2010 o Brasil aparecia em 84º no que diz respeito aos anos de estudo de maiores de 25 anos. Estamos entre os dez países mais desiguais. Somos um dos mais violentos do mundo (em homicídios).

O disparate maior da meta "o dobro em uma década" é enfim político. Qual o programa para, numa década, darmos cabo das nossas maiores aberrações? Não há.

Não é possível que Dilma acredite nessa história da dobradinha numa década. Isso é conversa de campanha eleitoral. Mas vai ser ruim assim a sua propaganda?

Enfim, o discurso de Dilma: "Daqui a alguns anos nós comemoraremos os 200 anos da nossa independência. E nesse dia nós vamos ter que olhar para trás e ver o que fizemos para construir a nossa soberania, o nosso desenvolvimento e o bem-estar do nosso povo. E aí, se vocês perguntarem para mim: qual é o nosso objetivo? O nosso objetivo é dobrar a nossa renda per capita. É esse o objetivo deste país. Ele se mede, fundamentalmente, pela renda per capita da nossa população. É essa a medida e o metro que nós devemos usar".

Privatização petista - NEY CARVALHO

O GLOBO - 14/04
Não existem diferenças conceituais entre as privatizações dos anos 1990 e a venda de ativos que está promovendo a Petrobras, documentada em longa reportagem da "Época". Ambos os episódios derivam da necessidade de fazer caixa. O anterior, de demanda do próprio Estado, sufocado por longa série de iniciativas desastrosas, e o atual, da maior das estatais brasileiras, que precisa levar avante seu ambicioso plano de investimentos.

Quando conduziram as primeiras concessões em seus governos, os próceres petistas cuidaram de fazer crer que eram tratativas distintas. As privatizações teriam alienado patrimônio público, e as concessões não eram admitidas como tal, pois, após o prazo contratual, os ativos retornariam ao controle estatal. Simples sofisma, incapaz de ocultar a dura realidade da maior eficiência da gestão privada.

Entretanto, pelo que se verifica da matéria na revista, a Petrobras está vendendo parcela substancial de seu patrimônio. A operação é conhecida como "Feirão", e inclui refinarias, poços de petróleo, equipamentos, participações em empresas, redes de distribuição etc. Curiosamente sua condução está a cargo de uma gerência que se intitula de "Novos Negócios", quando mais apropriado seria alcunhá-la de "Velhos Negócios" - ou seja, aqueles que não são mais necessários aos fins da companhia.

Trata-se, de fato, de privatização, porque estamos falando da maior empresa pública brasileira e de bens valiosos que estão contabilizados em seus ativos. O que impressiona neste caso, e o distingue fundamentalmente das privatizações, é a falta de transparência com que o assunto é conduzido.

As dezenas de operações dos anos 1990 foram executadas no âmbito do PND (Programa Nacional de Desestatizações). Cabe recordar que havia audiência prévia do TCU (Tribunal de Contas da União), gestão do processo pelo BNDES, avaliações por consultores independentes e ampla divulgação de condições através da publicação de extensos editais elucidativos. Mas, sobretudo, a venda em hasta pública, aberta a quem estivesse em condições de competir, mediante leilões cristalinos na Bolsa de Valores. E, mesmo assim, as privatizações foram alvo dos mais veementes e incivilizados protestos oriundos do petismo e seus aliados.

A reportagem documenta a venda de metade da participação na Pesa - Petrobras Argentina - a um determinado empresário portenho, que seria velho parceiro dos governos Kirchner. Algumas perguntas estão sem resposta. Quais foram as condições do negócio? Houve algum tipo de competição? Como foi estabelecido o preço? Existiriam outros interessados? E as demais alienações? Como serão conduzidas?

A Petrobras vem apresentando uma sólida e consistente perda de valor em Bolsa, resultado da descrença em sua gestão. A caixa-preta do "Feirão" só contribui para o agravamento desta tendência. Era melhor que a companhia adotasse os mesmos critérios de transparência com que foram implementadas as privatizações da década de 90.

O capitalismo de compadrio entrou em cena - ELIO GASPARI

O GLOBO - 14/04

Quem comprou um lote de ações da OGX de Eike Batista quando ela foi lançada, em 2008, pagou R$ 1.200. Hoje ele vale R$ 150. Milhares de pessoas tomaram esse tombo, sem que houvesse uma crise na economia ou cataclismo. Pequenos e grandes investidores acreditaram num negócio e deram-se mal. Assim é o mercado.

Diante das dificuldades do bilionário brasileiro, surgiram duas linhas de argumentação defendendo um socorro da Viúva. Quase todas vindas da privataria, outras, do comissariado.

Numa, Eike Batista deve ser amparado para evitar que suas dificuldades comprometam a imagem do Brasil junto ao mercado de investidores internacionais.

Ou então ele deve receber alguma proteção para evitar um risco sistêmico.

O primeiro argumento é uma falsidade. Imagine-se um investidor americano, em seu escritório de Chicago, recebendo a informação de que o governo brasileiro amparou o empresário que em 2011 foi listado como o homem mais rico do país, com US$ 30 bilhões, e anunciou que pretendia ser o primeiro do mundo. Ele tem grandes empreendimentos, mantém uma Mercedes SLR McLaren atrás de uma vidraça de sua sala de estar e disputou num programa de televisão a lingerie que pertencera a sua mulher. Já veio a público defender o seu direito de emprestar um jatinho para autoridades federais, estaduais e municipais. Na última campanha do governador Sérgio Cabral pingou R$ 2 milhões. Noutra, do prefeito Eduardo Paes, botou R$ 500 mil. Ademais, ele tem patrimônio para oferecer ao mercado. O governo ampararia um empresário que em 2007 criticava a falta de "cultura de risco" de seus pares.

O sinal que o investidor estrangeiro recebe é o do triunfo, no Brasil, do capitalismo de compadrio. Ele já viu o fim desse filme na Coreia em 1997, na Espanha em 2008 e na Grécia em 2010.

O segundo argumento, mencionando um "risco sistêmico", merece ser traduzido: trata-se de usar dinheiro da Viúva para blindar bancos oficiais e privados que emprestaram dinheiro ao grupo EBX, assumindo riscos maiores que os dos acionistas. Típico resgate do andar de cima. Coisa de pelo menos R$ 13 bilhões. Uns oito bilhões saíram do BNDES e da Caixa, que lidam com recursos públicos. Outros R$ 5 bilhões foram emprestados por banqueiros e fundos que tinham "cultura de risco".

Imagine-se a seguinte situação: Em 2008 Guido Coutinho comprou R$ 1,2 milhão de ações da OGX. Nesse mesmo ano, um grande banco emprestou R$ 120 milhões a uma empresa de Eike Batista. Mais tarde, sem relação com o investimento que fizera, Guido fez um empréstimo de R$ 1,2 milhão no mesmo banco que comprou o "risco Eike". Hoje, o bom Guido está com R$ 150 mil na sua carteira de ações e, com seu trabalho, tudo paga o que deve ao banco. Ele sabe que nos próximos anos não recuperará o investimento que fez nas ações, mas o banco que emprestou a Eike quer o seu. Como metade do crédito saiu do BNDES, o capitalismo de compadrio poderá colocar Guido Coutinho no pior dos mundos: Perdeu nas ações, pagou o que devia e o dinheiro dos seus impostos, convertido em aportes do Tesouro, seria usado para refrescar os bancos que emprestaram a Eike. O mesmo acontecerá se, por meio de alguma gambiarra, a Viúva capitalizar as empresas X para fechar a conta com a banca privada.

Fracassada a tentativa de transferir um estaleiro capixaba para a carteira do grupo X, surgiu uma manobra no mercado: a Petrobras pode entrar no empreendimento do porto de Açu. Metade dessa grande obra está pronta, recebeu R$ 4 bilhões de investimentos, emprega oito mil pessoas e tem muito para dar certo. A doutora Graça Foster informou que a empresa ainda não pensou nesse assunto. Se a Petrobras quiser entrar no Açu pode-se perguntar porque esse interesse só apareceu agora, já que o projeto existe desde 2007.

Se a estatal se decidir por essa transação, fará bem se exibir uma transparência a que não está habituada, mostrando todos os números aos seus acionistas. O petrocomissariado pode provar que está diante de uma boa ocasião para fechar um grande negócio: basta contratar uma auditoria internacional para referendar sua opinião, mostrando custos e preços.

REGISTRO

Muita gente acredita que foi o advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, quem levou o ministro Luiz Fux ao comissário José Dirceu na sua cabala para ser nomeado para o STF.

Não foi. Dirceu prefere não revelar o nome do anjo da guarda, mas a pelo menos uma pessoa ele contou que foi o advogado Arnoldo Wald.

A BOA BANCADA

Se os ministros do Supremo Tribunal Federal quiserem sair da rota que pode levá-los a se transformar numa Câmara de Vereadores, podem recorrer a um expediente simples:

Basta que só falem fora das sessões o triplo do que falam os ministros Teori Zavascki, Celso de Mello, Rosa Weber e Cármen Lúcia. Como os quatro só dizem "boa tarde" e "até logo", o tribunal voltará a ser o que já foi.

CORINTHIANS

O comissariado petista está trabalhando duro para conseguir justificar um empréstimo de R$ 400 milhões ao Corinthians. O Banco do Brasil caiu fora. O BNDES tem obstáculos legais. Restaria a Caixa Econômica.

DESALENTO

Os mensaleiros condenados pelo Supremo receberam sinais de que são praticamente nulas as chances de alterar as sentenças.

BAIXARIA

A família da baronesa Thatcher pediu que não houvesse representantes da Argentina no seu funeral.

Ecoaram, de forma medíocre, um pedido de Lord Mountbatten, assassinado pelo Exército Revolucionário Irlandês em 1979. Ele adorava pompa, projetou o próprio funeral e vetou a presença do governo japonês.

Mountbatten, contudo, combateu na Guerra do Pacífico.

MARTA TERMINOU A FAXINA DA BIBLIOTECA

A ministra da Cultura, Marta Suplicy, concluiu a faxina da Biblioteca Nacional. Aquilo que pareceu uma simples troca de direção, com a escolha do professor Renato Lessa para o lugar e a transferência das políticas editoriais do governo para um setor adequado, foi uma limpeza de bom tamanho.

Caindo aos pedaços, a Biblioteca Nacional vinha sendo privatizada pelo interesse de editoras e medalhões. Num lance de marquetagem, chegou a criar um programa de compras de livros a R$10 o exemplar. Parecia coisa boa, mas era apenas a aquisição de encalhes que custavam às editoras a preservação do estoque.

Se a faxina demorasse, apareceria até um conselho de notáveis para ensinar ao governo como administrar a biblioteca. O ar refrigerado da BN está aos cacos, mas a Viúva gastará uns R$ 12 milhões na feira do livro de Frankfurt. No ano passado a BN não participou da feira de Belém do Pará.

Inimigos cordiais - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 14/04

A amabilidade que a presidente Dilma Rousseff confere no trato a Eduardo Campos em sua rota de dissidência para uma possível candidatura presidencial em 2014, dissimula o clima de tensão pré-eleitoral que o governo e o PT criam em torno dele.

É possível detectar a mesma dualidade no governador de Pernambuco: reafirma sua aliança com o Planalto e ao mesmo tempo tensiona a relação com um discurso crítico. Mas aqui vamos tratar de Eduardo Campos apenas da perspectiva do governo, como é vista a possibilidade de candidatura, se ameaça a reeleição de Dilma, se haverá retaliação ou se ainda há espaço para um "meia volta, volver".

Atuar com mãos de ferro calçadas em luvas de veludo é um conceito difundido por Napoleão Bonaparte sobre a eficácia da combinação de gestos cordiais com atos firmes na política, que define bem o espírito da estratégia governista enunciada no primeiro parágrafo.

O governo não vai brigar - a não ser quando, e se, a luta for necessária - com Eduardo Campos, mas também não vai deixar de fazer suas escaramuças para dificultar-lhe a trajetória em direção à candidatura.

A mais explícita, e exemplar dó que virá adiante, aconteceu em recente visita da presidente a Pernambuco, onde fez discurso cobrando lealdade de aliados e ressaltando que o crescimento do Estado deve-se aos inúmeros e vultosos (R$ 60 bilhões, segundo dados do Planalto) investimentos federais.

Com isso, atua no campo seguro - por ora o único - do possível desafiante com sua fórmula "dois em um": Dilma e Lula.
O governo tenta limitar seu discurso de eficácia administrativa a Pernambuco e também esvaziá-lo transferindo o êxito para a esfera federal, vale dizer, o PT.

O jogo talvez não sei a assim tão combinado, mas fato é que parte do PT alimenta a tensão cobrando que o governo o trate desde já como adversário e outro grupo faz o papel moderado para manter a porta aberta para o caso de recuo.

E por que Eduardo Campos recuaria depois de avançar tantas casas, mais não seja para acumular forças para disputa futura (2018) da Presidência?

Na visão do governo, por causa das enormes dificuldades práticas que terá de enfrentar. Uma delas, a ambiguidade do discurso, forçosamente de oposição e pragmaticamente de situação. "Haverá o momento em que terá de se definir e aí é que começarão as pressões dos governadores, dos deputados e dos ocupantes de cargos federais", argumenta um ministro do PT.

Ele vislumbra obstáculos intransponíveis na formação de alianças regionais, na fragilidade da máquina do PSB em comparação às estruturas do PT, PMDB, do PSDB; e na disputa por uma vaga no segundo turno com o tucano Aécio Neves.
Outro ministro do PT, como o citado acima com ótimo acesso à presidente, considera que na hora das definições ainda prevalecerá a tradicional disputa de petistas contra tucanos. E acrescenta: "Nos últimos anos quem tentou ser terceira via saiu das eleições menor do que entrou: Anthony Garotinho, Ciro Gomes, Heloisa Helena, Marina Silva e Cristovam Buarque".

“Na opinião dele, por mais que digam que a disputa entre PT e PSDB cansou o eleitorado, a alternativa não tem sido um espaço político consistente”.

Ambos apostam (torcem?) que Eduardo Campos pensará melhor e concluirá pelo benefício do passo atrás. Acreditam que, na hipótese de um segundo turno entre Aécio e Dilma - nesse momento, no governo, a palavra de ordem é dizer que o mineiro tem anos luz de vantagem sobre o pernambucano - o governador ficaria necessariamente com a presidente.

Apontam dois motivos. Um: porque a disputa da vaga do segundo lugar definirá o nome mais forte da oposição em 2018. Outro: se Aécio ganhar teria a vantagem da reeleição, em tese adiando os planos de Eduardo Campos para 2022.

Olhar imediato - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 14/04

O Brasil tem olhado muito para o imediato e pouco para as tendências. Olha o saldo comercial de cada mês esperando que ele volte para o azul, sem ver que o mundo inteiro está negociando alianças comerciais poderosas. Acredita que o investimento virá com os pacotes do governo, e há uma crise de confiança sobre as empresas brasileiras e do empresariado em relação ao crescimento.

O número da inflação estourou o teto, e o governo diz que é alta sazonal de alimentos. Existem preços que vão cair, mas o mundo está atravessando o nono ano consecutivo em que fatores climáticos extremos afetam safras de commodities. Os alimentos têm ficado mais caros na média. Além do mais, a inflação subiu estruturalmente do centro para o teto da meta. O país está sem espaço para acomodar choques. E eles sempre acontecem.

O governo comemora a revisão que fez nos contratos de energia elétrica, que foi o grupo que mais puxou a inflação para baixo. Como não comemorar uma conta de luz mais baixa? É ótima notícia. As más noticias que ninguém quer ouvir são as várias pressões elevando estruturalmente o preço da energia, a opacidade dos subsídios públicos na construção das hidrelétricas, e o uso das térmicas que anulará parte do efeito da queda dos preços. Pior, as empresas elétricas, sejam estatais ou privadas, ficaram sem capacidade de investir.

O grupo de Eike Batista foi tão celebrado como exemplo do capitalismo brasileiro e hoje está rondando o governo atrás de socorro. Tomara que ele supere os problemas que estão transformando em pó suas ações, mas ele se alavancou com IPOs em que prometeu o que não estava preparado para entregar e em empréstimos do BNDES para os quais deu como garantia ações cujo valor está se desfazendo.

Do laboratório do governo saem pacotes frequentes e, mesmo assim, o país está crescendo cada vez menos. Os dados mostram que o crescimento anual desenha uma escadinha que desce. O pibinho de 2012 não foi um ponto fora da curva, é o país que não tem conseguido crescer. Os dados de investimento desenham a mesma descendente: o país teve no ano passado queda da taxa de investimento.

No comércio exterior o mais sério não é o fato de que no primeiro trimestre de 2013 houve déficit, depois de termos nos acostumado com superávits. É que o volume de comércio não cresce e as escolhas que o Brasil tem feito são erradas ou estão atrasadas.

Há quem admita no governo que o comércio exterior anda mal. Os Estados Unidos negociam acordo com a Europa, a Ásia se une a países do pacífico do lado de cá do mundo, a China negocia acordos com os seus vizinhos da Ásia e com a África. O mundo gira, a lusitana roda, mas o Brasil não sai do lugar. Os Estados Unidos negociam acordos bilaterais com vários países da América do Sul. O Mercosul está hoje na mão da Argentina: um país em crise cambial, com ágio no dólar paralelo. O controle do câmbio na Argentina espanta até as empresas brasileiras; como podemos nos manter atados a eles nas negociações de comércio internacional?

As cinco estatais criadas em dois anos e quatro meses de governo Dilma fizeram algo pelo crescimento? Foram apenas mais cadeiras a serem oferecidas aos integrantes da aliança governamental, como se 39 ministérios não fossem o suficiente. O governo tem olhos apenas para as eleições de 2014 - tipo ideia fixa, obsessiva -, não o olhar para o horizonte à frente, necessário para agir preventivamente.

A oposição permanece dividida e mais interessada nas brigas intestinas e na administração das ambições do que em saber o que propor como alternativa diante do quadro de dificuldades do país. Uma nova candidatura apareceu dentro da órbita governamental. Parece, na sua ambiguidade, estar cunhando moeda de troca, e não oferecendo uma alternativa. Enquanto isso, o Congresso se esforça em bases diárias para perder a confiança do cidadão.

As projeções da maioria dos economistas do mercado financeiro só conseguem acertar se forem de curtíssimo prazo. A série histórica revela erros crassos. É o que preocupa, e não o fato de que na semana passada a inflação estourou o teto da meta. Este é apenas um dos sintomas do mal nacional: a falta de visão de para onde afinal de contas se quer ir.


Thatcher e Erhard - HENRIQUE MEIRELLES

FOLHA DE SP - 14/04

A morte de Margaret Thatcher reaviva uma era de transformação no Reino Unido. Famosa pela coragem política e pelas convicções, liderou seu país numa grande reversão de sociedade regulada para economia de mercado. Seu governo ficou marcado, contudo, por conflitos e protestos decorrentes da perda de benefícios e empregos em indústrias ineficientes.

Menos conhecido, mas talvez mais influente, foi o arquiteto da recuperação europeia do pós-Guerra, o economista alemão Ludwig Erhard. Antinazista convicto, famoso pela inteligência, foi nomeado em 1947 chefe do programa de recuperação econômica alemã.

A economia do país estava estagnada. Não havia produtos, empregos nem esperança de futuro melhor após uma guerra desastrosa. A administração econômica baseava-se num planejamento detalhado da economia pelo governo, com salários, preços e investimentos controlados e sucessivos planos econômicos fracassados. A intenção dos administradores era a melhor possível. A Alemanha tinha que ser ressuscitada para que houvesse paz na Europa, mas a resposta continuava a ser mais planos e intervenção governamental.

A primeira medida de Erhard causou tremendo choque: abandonar todas as intervenções e tornar a economia completamente livre. O general americano Lucius Clay, chefe das tropas aliadas de ocupação, entrou na sala de Erhard dizendo que todos os seus bons consultores econômicos pensavam que ele estava maluco. Sua resposta o surpreendeu: "General, os meus conselheiros dizem a mesma coisa".

Erhard era um defensor solitário do livre funcionamento do mercado e da ligação da liberdade econômica com a liberdade pessoal e política. Achava que os empresários alemães, grandes e pequenos, eram os que melhor sabiam o que produzir e vender, e que o preço deveria ser definido pela oferta e procura. O general deixou a reunião rezando, mas, em pouco tempo, os produtos voltaram às prateleiras e a enorme máquina econômica alemã começou a renascer. Em 1949, ocorreram as primeiras eleições no pós-Guerra, e Erhard foi nomeado ministro da Fazenda no governo do chanceler Konrad Adenauer.

Juntos, criaram a econo- mia social de mercado ("Soziale Marktwirtschaft"), o impressionante Estado de Bem-Estar Social, que os eleitores alemães apoiaram desde então. Mas só conseguiram criá-lo porque foram financiados por uma forte economia de mercado, que trouxe à tona o melhor do país.

Enquanto Thatcher será lembrada pelo choque de liberalismo com cortes de benefícios, Erhard passou à história pela criação de uma máquina econômica capitalista que sustenta um sistema forte e equilibrado de programas sociais.

E agora BC? - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 14/04

Até agora o Banco Central não saiu da moita. Em todas as suas manifestações, apenas deixou claro que estava especialmente preocupado com a mudança de patamar de inflação, com seu grau de espalhamento (índice de difusão) e com sua resistência. Mas o que fará para enfrentar o novo quadro ainda não ficou claro. O que ficou entendido é que manteria sua posição de vigilância e cautela até maio, para, só então, de posse de novos dados, elevar os juros básicos (Selic) - se fosse o caso.

Essa atitude pareceu coerente com a disposição da presidente Dilma Rousseff de não puxar pelos juros, a não ser em último caso, para não prejudicar a recuperação da atividade econômica (avanço do PIB) - objetivo que ela mais valoriza.

Como esta Coluna apontou em outra oportunidade, os novos números da inflação carregam certa dimensão política. Há hoje a percepção de que a alta dos preços passou dos limites - algo que transpareceu não só da perfuração do teto da meta anual (4,5% mais 2 pontos porcentuais de área escape), mas também da reação da opinião pública. O tombo nas vendas do mercado varejista, de 0,4% em fevereiro, também sugere que a corrosão do poder aquisitivo pela inflação vai gerando impacto relevante na atividade econômica. É provável, ainda, que a necessidade de usar uma participação maior do orçamento doméstico nas despesas com bens e serviços de primeira necessidade esteja não somente derrubando a capacidade de endividamento das famílias, mas também incentivando a inadimplência (calote das dívidas).

Ainda subsiste dentro do governo e fora dele a opinião de que a mídia está turbinando a inflação. Não há risco de descontrole, diz essa gente; é deixar que a trajetória natural das coisas esvazie a inflação. É um ponto de vista que não leva em conta nem as novas incertezas provocadas pela alta dos preços nem a atividade remarcatória dos agentes econômicos (fator inércia), que passarão a prevalecer se não vier o contra-ataque.

Um dos traços do governo Dilma é a complementação de políticas. A política monetária não é um instrumento independente de outros. Muito provavelmente, a atitude de esperar para ver a decisão tomada pelo Banco Central, conduzido pelo presidente Alexandre Tombini, está relacionada à espera de definições dentro do governo sobre o manejo de outras alavancas, como a política fiscal (receitas e despesas do governo) e a velocidade com que serão tocados os investimentos em infraestrutura.

Novas altas dos juros, por exemplo, poderiam ser dispensadas caso o governo se dispusesse a ser mais austero na condução de sua política fiscal e se deixasse valorizar mais o real (baixa do dólar) - hipótese improvável.

Isso leva a crer que a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), agendada para esta terça e quarta-feira, tem tudo para ser decisiva para redefinir o comportamento da economia nos próximos dois anos.

O Banco Central necessita de recuperar um mínimo de credibilidade que seja para reassumir a condição de gerenciar as expectativas do mercado. O melhor que se pode fazer é dar um tranco na economia por meio de uma alta significativa dos juros básicos. E o que tem de ser feito é melhor que venha o quanto antes.

Estrategistas - LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

O GLOBO - 14/04
Uma improvável guerra entre Coreia do Norte e Estados Unidos não será a primeira. Em 1950 a Coreia do Norte cruzou o Paralelo 38, que separava as duas Coreias desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e invadiu o Sul. As Nações Unidas autorizaram uma intervenção de forças aliadas para conter a invasão. As "forças" eram quase 100% americanas, comandadas pelo folclórico general Douglas MacArthur, que tinha se destacado, no Pacífico, como um dos generais-celebridades da Segunda Guerra, junto com Patton, na Europa, e Montgomery e Rommel, no Norte da África. No fim da guerra MacArthur fora instalado pelo presidente americano Truman como vice-rei do Japão, onde, entre outras coisas, instituiu uma reforma agrária de fazer o Stédile salivar, e comandou suas tropas na Coreia sem sair de Tóquio.

A Guerra da Coreia também revelou um estrategista militar de primeira ordem: eu. As coisas não iam bem para os coreanos do Sul e os americanos, encurralados na ponta extrema da península. Apesar da pouca idade eu me interessava pela guerra. Estudei meus mapas e conclui que uma maneira de romper o sítio seria fazer um desembarque anfíbio como os que os americanos tinham feito em ilhas japonesas e, com tropas aliadas, nas praias da Normandia durante a Segundona, atrás das linhas inimigas. Cheguei a escolher o lugar do desembarque: Inchon, na costa leste. E foi exatamente onde ocorreu o ataque, dias depois. Não concluí que meu plano havia sido recebido telepaticamente pelo MacArthur, que não tinha pensado nisso. Minha megalomania não chegava a tanto. Mas, coincidência ou não, a estratégia deu certo. O Sul rompeu o cerco e perseguiu o Norte para além do Paralelo 38, até a fronteira com a China.

Douglas MacArthur (por falar em megalomania) foi o mais perto que um moderno general americano chegou de ser golpista. Com a aproximação dos americanos da sua fronteira, os chineses tinham entrado na guerra, e a grande questão do momento era se os americanos deveriam ou não atacar o outro lado do Rio Yalu, que marcava a fronteira entre Coreia e China. MacArthur queria não apenas levar a guerra para o território chinês como usar armas nucleares. Sua insubordinação - negou-se a ir a Washington falar com o presidente sobre o que fazer com os chineses, tiveram que marcar a reunião num local escolhido por ele - levou Truman a destituí-lo do comando. MacArthur voltou para casa como ídolo da direita dura americana. É difícil imaginar que liderasse um movimento anticomunista sedicioso, mas se havia alguém com perfil e disposição para isto era ele. Preferiu despedir-se com um famoso discurso que terminava dizendo que os velhos soldados nunca morrem, apenas desaparecem lentamente. E começou a desaparecer.

Degringolou de vez - GAUDÊNCIO TORQUATO

O ESTADO DE S. PAULO - 14/04

A popular expressão é geralmente usada para traduzir bagunça, caos, confusão, falta de bom senso. Um palmeirense reclama com um co-rintiano para que baixe a bandeira da torcida organizada Gaviões da Fiel, que tampa sua visão do jogo. Xingamento vai, xingamento vem. Torcedores dos dois clubes abrem um bate-boca. O torvelinho descamba em pancadaria. Zorra total. Esse roteiro ajuda a declinar o verbo degringolar, que tem sua aplicação bastante intensificada em estádios de futebol, peladas e botecos da periferia quando emoções etílicas extravasam, deixando escapar os ares da razão. O que dizer, porém, quando o título deste artigo aponta para um dos três Poderes da República? E se este for o Judiciário, considerado o mais sagrado, o mais admirado, o mais aplaudido, por abrigar a função de distribuir a justiça?

Pois essa é, infelizmente, a impressão causada pela acusação que as três principais entidades de juizes fizeram ao (nada mais, nada menos) presidente da Corte Suprema do País, ministro Joaquim Barbosa, a quem acusam de agir de forma antidemocrática, "desrespeitosa, premeditadamente agressiva, grosseira e inadequada para o cargo". O destampatório adjetivado lapidou uma resposta a Barbosa, que ao receber os presidentes das entidades que representam a magistratura - AJUFE, AMB e ANAMATRA - insinuou que juizes saem com pires na mão em busca de promoção na carreira, chamou de "líder sindical" um deles, acusou-os de atuar de maneira sorrateira para aprovar novos Tribunais Regionais Federais ("uma irresponsabilidade"), arrematando: "Os senhores não representam a Nação, são representantes de classe. Não vim para debater com os senhores". O presidente do STF é uma figura sem papas na língua. Chicoteia a torto e a direito, intensificando o clima belicoso entre ele e operadores do Direito, principalmente juizes e advogados, nos quais enxerga "conluios" para troca de favores. A fogueira está alta. Ao correr da história do Judiciário nunca a locução que emana da cúpula e de suas bases chegou a patamar tão baixo.

A linguagem de feição grotesca, que nestes tempos de espetacularização da política passou a ser ouvida nos (ex)solenes ambientes do Judiciário, tem que ver com a intenção desse Poder de se aproximar da sociedade. Mesmo assim, causa surpresa o destempero verbal de atores a quem cabe interpretar as leis e contribuir para a harmonia social. Vale lembrar o preceito de Bacon: "Os juizes devem ser mais reverendos que aclamados, mais circunspectos do que audaciosos".

A liturgia do poder, que tem na palavra um dos seus eixos, esta em descenso. Expliquemos. Tradicionalmente, a liturgia abarca o conjunto de formas adotadas nos ofícios eclesiásticos. Nas últimas décadas o ordenamento litúrgico deixou de ser exclusividade de igrejas e credos, ingressan-. do nos altares profanos da política, na agenda dos Poderes do Estado e na própria vida social. A liturgia do poder confere a mandatários - seja nas democracias ou em outros sistemas, como as monarquias - o cetro da autoridade. Presidentes, reis, rainhas, príncipes, representantes no Parlamento, magistrados e celebridades que habitam o Olimpo da cultura de massas (artistas, cantores, escritores) exibem uma aura litúrgica sob os holofotes fosforescentes da mídia.

Apalavra carrega o dom de desvendar a condição do interlocutor. Retrata a índole da fonte, deixando ver o território em que atua. Flagrar a rainha da Inglaterra cometendo gafe (por palavras) é episódio fora do comum. Do papa Francisco espera-se apalavra do mensageiro de Deus. Piadas com argentinos ficam por nossa conta. O que não impede Sua Santidade de discorrer sobre futebol e torcer para o San Lorenzo. As circunstâncias propiciam a nobres e plebeus falar de coisas comuns. Sob essa perspectiva, altos dignitários, em instantes de descontração, chegam a empregar expressão menos pomposa.

Do alto de sua autoridade, o ministro Joaquim Barbosa não é obrigado a discorrer em jurídiquês o tempo todo, da mesma forma que a presidente Dilma deixa de lado o politiquês ou o governes para apresentar sua receita de omelete no programa de Ana Maria Braga. Os problemas ocorrem quando o verbo ultrapassa o limite de educada conjugação. Ou seja, quando mexe com os brios de outros, em forma de crítica, combate, denúncia, gerando prejuízo ético/moral. Ou quando adentra "o perigoso terreno da galhofa". Nem sempre os poderosos escolhem a melhor forma de dizer as coisas de acordo com padrões litúrgicos inerentes ao poder que detêm.

No mais, muitos oradores se esforçam para conferir eficácia à palavra, por saberem que ela tem o poder de cooptar, criar rejeição, exprimir autoridade e buscar a conformidade social. Há casos de muitos políticos que, sem ferir a liturgia, foram bastante criativos no uso da linguagem. Um exemplo: Jânio Quadros transmitia autoridade sem perder a compostura. Mestre no uso da palavra certa, no lugar certo, no momento adequado. Em 1985 chamou Delfim Netto a um comício. O professor, já famoso, iniciou a peroração: "A grande causa do processo inflacionário é o déficit orçamentário". Jânio torceu a cara. Logo depois, deu a lição. "Olhe para a cará daquele sujeito, Delfim. O que você acha que ele entendeu? Não sabe o que é processo, não sabe o que é inflacionário, muito menos o que é déficit. E não tem a menor ideia do que é orçamentário. Da próxima vez, diga: a causa da carestia é a roubalheira do governo."

Lula também é afeito à palavra que cala fundo. Às vezes exagera na dose. Uma das suas: "O vermelho da bandeira do partido é a cor do sangue de Cristo". Até o ético Franco Montoro caía na rede das gafes. Visitando cidades inundadas do Vale do Ribeira, não resistiu: "Que lindo. Parece Veneza! ". No Judiciário, a ex-corregedora Eliana Çalmon não escapa à linguagem ferina: juizes "decentes" não podem ser confundidos com "meia dúzia de vagabundos". Churchill dizia: "Somos mestres das palavras não ditas, mas escravos das que deixamos escapar".

Momento decisivo - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 14/04

Fez bem a presidente Dilma em antecipar o lançamento de sua candidatura à reeleição, pela boca do ex-presidente Lula. Se naquela altura havia necessidade de esvaziar uma crescente corrente dentro do PT que queria ver Lula como o candidato de 2014, imaginem o que não estaria acontecendo hoje com a situação econômica do jeito que está.

Cada vez fica mais claro que o que vai definir a eleição de 2014 é a economia, assim como o que define a alta popularidade de Dilma é a sensação de bem-estar que ainda domina a população, embora a inflação já esteja chegando ao bolso do cidadão comum, como mostram os dados mais recentes de queda de consumo.

Assim como as mais recentes pesquisas de opinião foram realizadas em momentos propícios ao governo, como logo depois da fala em rádio e televisão anunciando a redução das tarifas elétricas ou a desoneração dos alimentos da cesta básica, talvez uma pesquisa realizada nos dias de hoje, com a alta do custo de vida voltando a ser tema de conversas das donas de casa, pudesse avaliar a repercussão dessa nova situação nos índices de popularidade da presidente.

As medidas pontuais lançadas pelo governo para estimular o consumo não conseguiram alavancar a economia, que continua patinando, um mês bom e outro ruim. E a redução das tarifas, e também da cesta básica, acabou tendo efeito efêmero, corroídas por outros efeitos da inflação. Não há informações sobre pesquisas mandadas fazer pelas oposições, mas é sintomático que tanto Eduardo Campos quanto Aécio Neves estejam convencidos de que a situação econômica só piorará até a eleição.

O governador de Pernambuco, em seu périplo pelo país que só fortalece a sensação de que está mesmo disposto a concorrer à Presidência em 2014, garantiu outro dia que a crise econômica que assola a Europa e os Estados Unidos ainda chegará ao país, e o governo não está preparado para enfrentá-la devidamente.

Na sexta-feira foi a vez de o ex-governador José Serra fazer críticas ao governo Dilma, dizendo que a economia está no chão, e que a perspectiva é piorar, embora sua participação no seminário do PPS, depois de ter faltado ao encontro na véspera, quando Aécio Neves discursou, tenha trazido a confirmação de que o PSDB continua rachado em São Paulo, aumentando as especulações de que Serra pode até deixar o partido para apoiar Eduardo Campos.

O Palácio do Planalto conta com essa divisão na oposição para facilitar seu trabalho para a reeleição e tem uma receita bastante simples para ganhar a eleição. Bastaria conter a inflação dentro das metas - este mês a inflação anualizada estourou o topo da meta - e crescer pelo menos a 2% este ano para ter a garantia de que em 2014 poderá manter os programas sociais e a sensação de bem-estar da população.

Difícil entender como, com a economia crescendo tão lentamente, será possível manter o nível de emprego e também os gastos com a máquina estatal, aí incluídos os programas sociais, fundamentais para a manutenção dos altos índices de popularidade da presidente Dilma. Mas, assim como a oposição tem bastante tempo para se organizar internamente e montar uma estratégia de unidade de ação na campanha presidencial, é também verdade que a presidente Dilma terá ainda prazo suficiente para recolocar a economia em funcionamento até chegar a hora da definição do eleitorado.

Mas o cenário atual é de tomar medidas impopulares, como a alta de juros que está se tornando inevitável, para reassumir o controle da economia. E, para quem estava acostumada a só distribuir bondades através de cadeia nacional de rádio e televisão, admitir que não deu certo uma de suas principais estratégias não deve ser fácil.

Um Chávez que não é Chávez - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 14/04

BRASÍLIA - Dias depois de publicar na Folha a primeira entrevista do presidente Hugo Chávez a um jornal brasileiro, em agosto de 1999, escrevi uma reportagem com o seguinte título: "Economia ameaça revolução' de Chávez".

Com um salto de quase 14 anos e trocando o nome de Chávez por Nicolás Maduro, o texto continua atualíssimo. Ou seja, muita coisa mudou profundamente na Venezuela de Chávez, mas os desafios resistem.

Primeiro parágrafo: "Chávez assumiu há seis meses e governa com alta taxa de aprovação, mas depende de melhoras na economia para manter o apoio popular à sua revolução'".

Segundo: "Outros dois desafios: a desconfiança que ele desperta no exterior, tanto no meio político quanto empresarial, e o início de uma reação da oposição venezuelana".

Chávez tinha exata noção de que nada seria fácil: "A revolução que estamos fazendo não é para a geração que aí está. É para os nossos filhos, para os nossos netos".

Maduro começou a corrida presidencial embalado pelo impacto político da morte do grande líder, mas perdeu vigor e chega hoje, dia da eleição, com uma margem nas pesquisas bem menor do que a prevista.

Como chanceler de Chávez, era elogiado pelo equilíbrio e serenidade. Como candidato a reencarnar Chávez, parece meter os pés pelas mãos. Frases de mau gosto sobre bananas e mandiocas, a história do espírito de Chávez num passarinho, insinuações homofóbicas contra o adversário Henrique Capriles...

Se quiser se passar por Chávez, vai se dar mal. É melhor construir uma identidade política própria para, aí sim, enfrentar a economia, o desemprego, a violência, a dependência excessiva e danosa do petróleo.

Só assim, se realmente vencer as eleições de hoje, Maduro poderá continuar a "revolução" que ainda não é para "esta geração que está aí" e talvez não chegue nunca para os filhos e netos venezuelanos, como sonhava Chávez, o original e único.

Maus sinais para 2013 - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 14/04

O mau estado da economia foi confirmado por mais um indicador nessa sexta-feira. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma prévia do PIB divulgado a cada três meses pelo IBGE, caiu 0,52% de janeiro para fevereiro. Desde 2005 foi o pior resultado nesse período. Foi também a maior variação negativa desde a queda de 0,84% em setembro do ano passado. O nível de atividade foi 1,88% mais alto que o de um ano antes. Em 12 meses, no entanto, o crescimento do índice, ajustado pelas condições sazonais, ficou em 0,83%, inferior, portanto, ao do PIB de janeiro a dezembro de 2012 (0,9%). Tomando-se o IBC-Br como referência para previsão, fica muito difícil acreditar em expansão econômica superior a 3% neste ano, embora a base de comparação seja baixa.

Por enquanto, só os dados da agricultura apontam algum resultado positivo em 2013, A safra de grãos e olea ginosas, calculada em até 184,04 milhões de toneladas, poderá ser 10,8% maior que a anterior. Um crescimento parecido, 11%, é estimado para a produção de cana pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Para o café, o último levantamento indica uma redução entre 1,3% e 7,6% em relação à safra anterior, mas essa diminuição, esperada a cada dois anos, deve ser insuficiente para neutralizar o desempenho de outros segmentos da produção rural.

O crescimento industrial deve continuar pouco expressivo. O PIB do setor deve aumentar 2,6%, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), mas os números conhecidos até agora são pouco entusiasmantes. Segundo o IBGE, a produção industrial diminuiu 2,5% em fevereiro, depois de ter crescido 2,6% em janeiro.

A indústria de transformação continua com dificuldades para crescer, segundo o último relatório de indicadores distribuído pela CNI. O setor, de acordo com o boletim, ainda não encontrou sua trajetória de crescimento, como apontam as oscilações dos indicadores de desempenho. O faturamento real caiu 3,7% em fevereiro. Já havia caído em janeiro, O uso da capacidade instalada recuou 1,9 ponto por-centual e isso praticamente anulou o avanço registrado no mês anterior.

Os estoques estão ajustados e isso amplia o potencial de recuperação " disse o diretor de políticas e estrategia da CNI, José Augusto Fernandes. A tendência é de recuperação, segundo ele, mas os custos industriais já 
desceram 6,3% neste ano. O custo salarial, um dos mais importantes, continua em rápida elevação e no primeiro bimestre foi 2,2% superior ao de janeiro-fevereiro de 2012, descontada a inflação. Em fevereiro, a massa de salários foi 2,8% maior que a de um ano antes. No mês, o número de horas de trabalho foi 0,9% menor que em fevereiro de 2012.

Custos maiores com menos horas de trabalho e menor uso da capacidade instalada são incompatíveis com ganhos de eficiência e aumento da produção. O desempenho da indústria é fortemente vinculado ao comércio internacional, A produção industrial brasileira tem perdido espaço tanto no exterior quanto no mercado interno, por problemas bem conhecidos de competitividade. A escassez de mão de obra qualificada é um desses problemas e será "marca do mercado de trabalho em 2013", segundo o último informe conjuntural da CNI.

Essa escassez foi um dos motivos da retenção de pessoal em 2012, quando a produção do setor diminuiu 0,8% e a massa real de salários aumentou 5%. Com a perspectiva de reativação econômica em 2013, quem demitisse se arriscaria a disputar mão de obra num mercado mais apertado. O baixo desemprego em 2012, alardeado pela presidente Dilma Rousseff como sinal de sucesso de suas políticas, é explicável principalmente pelo fracasso da política educacional e pelo despreparo da maior parte dos trabalhadores. Não se forma capital humano com demagogia e populismo, as grandes marcas dos governos petistas no setor educacional.

Competitividade é a condição indispensável para conquistar espaços no mercado global e para manter contra os concorrentes o espaço conquistado. Não há, no comércio internacional, sistemas de cotas nem critérios sociais para atenuar a dureza da disputa. Se continuar incapaz de entender esses dados simples e evidentes, o governo brasileiro levará o País a um desastre comercial e cambial.

Segredos no STF - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 14/04

Todos se surpreenderam com a escolha do cardeal argentino Bergoglio para a sucessão do papa Bento 16. Ainda assim, e por restritos que sejam os métodos eletivos do Vaticano, discutiu-se ao menos quem eram os principais candidatos. Soube-se, no mínimo, quais os preteridos na decisão final.

Sob esse aspecto, as indicações para o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) parecem mais cercadas de segredo do que em qualquer conclave. Poucos rumores chegam a vazar, e quando o nomeado pela Presidência da República se vê submetido à obrigatória sabatina no Senado, prevalece ali uma atmosfera de formalidade nebulosa.

É provável que, após as emoções e os imprevistos no julgamento do mensalão, tanto senadores quanto a sociedade tenham despertado para a importância de avaliar de forma mais precisa a personalidade, as convicções e os valores dos próximos membros da mais alta corte do país.

Com a aposentadoria do ministro Carlos Ayres Britto, no final do ano passado, abriu-se nova vaga, que será mais uma vez preenchida por Dilma Rousseff --a quarta, e nem por isso menos opaca, indicação da presidente.

Critérios diversos, misteriosos, ou talvez frágeis, determinaram, durante o governo Lula, o preenchimento desses cargos. A simbologia de ter uma mulher ou um negro no STF foi levada em conta, com bons motivos. Um nome ligado a conservadores católicos foi indicado pelo mesmo presidente que escolheria, para substituí-lo, um ex-advogado do PT.

Seja como for, nada se compara ao que ocorreu posteriormente, com a nomeação de Luiz Fux por Dilma Rousseff. São especialmente constrangedoras para o ministro as declarações de José Dirceu, segundo as quais o então aspirante ao STF lhe garantira a absolvição no julgamento do mensalão.

A moral da história, se é que existe, reside no fato de que entendimentos secretos e esquemas de bastidor terminam, cedo ou tarde, revelados. A confidencialidade das candidaturas e indicações termina contrastando com o alto grau de transparência que se obtém graças à transmissão dos julgamentos do Supremo pela TV.

Terá sido esse contraste, sem dúvida, o fator preponderante na reviravolta que tanta surpresa trouxe a Dirceu. Maior publicidade para os candidatos, suas ideias e seus compromissos seria o melhor meio de evitar tal insegurança decisória --e de aproximar mais os ministros dos mecanismos de controle e debate pela opinião pública.

Teste de credibilidade para governo e Banco Central - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 14/04

A inflação tende a recuar um pouco nos próximos meses e voltar para abaixo do limite superior da meta (6,5%), mas, na melhor das hipóteses, permanecerá este ano e no próximo longe do centro do objetivo (4,5%), segundo as previsões das instituições financeiras e do próprio modelo que o Banco Central utiliza para simular a trajetória futura dos preços. Como já se observou na prática, uma inflação dessa magnitude compromete a renda disponível dos consumidores e causa retração nas vendas no curto prazo. Haja vista a queda de vendas em supermercados. No médio prazo, assalariados e produtores de bens de serviços buscam a reposição dessas perdas, detonando uma corrida entre preços e salários, cujo desfecho conhece-se bem no Brasil.

Ainda há tempo de estancar esse processo. A ação do Banco Central tem sido cercada de desconfiança nos mercados. Muitos agentes econômicos acreditam que a diretoria técnica do BC não teria conseguido neutralizar a ingerência política por parte do alto escalão do governo, com pressões partindo diretamente do Palácio do Planalto e do Ministério da Fazenda. Existem, de fato, argumentos em prol da postura cautelosa do BC em relação às taxas de juros, mas, infelizmente, a desconfiança quanto à autonomia operacional das autoridades monetárias acabou prevalecendo, devido a repetidas declarações por parte da presidente Dilma e do Ministro Guido Mantega condenando qualquer iniciativa mais dura no combate à inflação. E o resultado é que as expectativas quanto ao comportamento dos preços no futuro são hoje desfavoráveis, sem dúvida um obstáculo relevante ao esforço para quebrar a chamada inércia inflacionária, herança do período em que o país esteve dominado por uma espiral de alta de preços incontrolável.

A reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) esta semana é especialmente importante porque será uma ótima oportunidade para o Banco Central confirmar o compromisso de manter a inflação dentro da meta que foi estabelecida pelo governo, mirando o centro (4,5%). Se não existem condições objetivas para um recuo mais expressivo da inflação agora, que isso fique bem claro, e justificado, nos comunicados formais que se seguirão à reunião do Copom. Não bastam mais notas e atas que reafirmem o compromisso de maneira mais genérica. Qualquer que venha a ser a decisão do Copom, terá de ser bem convincente.

Nos últimos dias, as autoridades econômicas passaram a ser mais afirmativas no que se refere à disposição do governo de combater a inflação. O ministro Mantega chegou a afirmar na última sexta-feira que, se preciso for, serão tomadas medidas “não populares”. E o presidente do BC, Alexandre Tombini, frisou no mesmo dia que não haverá tolerância com a inflação. Que tais declarações sejam realmente sinceras, pois o que está em jogo é a credibilidade do Banco Central e do próprio governo nesta questão estratégica.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Não haverá tolerância com a inflação”
Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, sobre os rumos da economia


FILHO DE ALENCAR PODE IMPLODIR PMDB DE MINAS

Desastrada articulação do ex-presidente Lula pode rachar o PMDB de Minas Gerais. Ele atraiu o vice-presidente Michel Temer para uma ideia de jerico: impor o empresário Josué Gomes da Silva, filho do falecido ex-vice José Alencar, como candidato a governador pelo PMDB – que já tem pré-candidato, o senador Clésio Andrade. A insatisfação com a manobra pode ser fatal para as pretensões do partido em 2014.

VAI UM MANDATO AÍ?

Sem experiência, sem história, mas com muito dinheiro, o filho de José Alencar está fascinado com a ideia de adquirir seu espaço na política.

AQUI, NÃO, VIOLÃO

Lula, primeiro, tentou impor Josué Silva ao PT, mas aliados do ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) bateram pé e não aceitaram.

NA ATIVA

Debilitado pelo tratamento contra o câncer e condenado no mensalão, Roberto Jefferson participa das negociações partidárias de 2014.

CORRIDA MALUCA

O ministro Mantega estreia a corrida aos prêmios 2013 com o troféu Conselheiro Acácio: acha que juros mais altos combatem a inflação.

PETROBRAS BANCA PROJETOS DO MST NO EXTERIOR

Imersa numa grave crise de escândalos financeiros e queda de investimentos, a Petrobras banca projetos “humanitários” do MST e da Via Campesina no Haiti, pagando viagens de camponeses haitianos ao Brasil para cursos de “agroecologia”. A revelação é de João Pedro Stédile, líder dos porra-loucas, a um blog “progressista” francês. Stédile também pediu a retirada da tropa brasileira na Minustah, da ONU.

SECA DOS OUTROS

Com haitianos emigrando em massa ao Brasil, a doação de cisternas do governo da Bahia aos miseráveis locais parece que não funcionou.

PASSAPORTE

Aliado do governador Sérgio Cabral (PMDB), o PDT deverá lançar candidato próprio ao governo: o prefeito Sandro Matos, da Baixada.

OLHA O PERIGO

A Força de Segurança Nacional terá reforço de sistema israelense capaz de captar imagens bidimensionais através das paredes.

DE PAI PRA FILHO

Quem deve estar rindo à toa com o sigilo garantido até 2027 dos empréstimos do BNDES a Cuba e Angola, com “mãozinha amiga” de Lula, é a filha do presidente eterno de Angola, Isabel dos Santos, a mulher mais rica da África. Fortuna estimada em US$ 2 bilhões.

NÃO VI, NÃO SEI

Antes “independente” nos cálculos inflacionários, o Dieese capitulou: garantiu que a desoneração segurou os preços da cesta básica. Como subiu em quase todas as capitais, a cesta devia estar quase vazia.

INFERNO ASTRAL

O deputado Marcelo Castro (PMDB-PI) reclama de verdadeiro “inferno astral” esta semana: “Depois de anos costurando acordo, não votamos a reforma política e o Piauí ainda perdeu duas vagas na Câmara”.

HOLOFOTE

Para o deputado Lelo Coimbra (PMDB-ES), a Câmara foi quem mais perdeu com a polêmica envolvendo a Comissão de Direitos Humanos: “Por incrível que pareça, quem ganhou foi o próprio pastor Marcos Feliciano e o Jean Wyllys”.

O CORINTIANO

Leitores de Taubaté reagem à nota comparando Lula ao comediante Zé Trindade, e defendem a semelhança do ex-presidente com um filho da terra, o cômico Mazzaropi, sobretudo no filme O Corintiano.

JAPÃO RECONHECE

A parceria do Japão com a tecnologia agrícola da Campo, com sede em Brasília, foi saudada pelo embaixador Akira Miwa como um dos fatos mais significativos da política externa de seu país.

BONITO PERDEDOR

Saudosistas comparam Eduardo Campos (PSB) com outro candidato, brigadeiro Eduardo Gomes, que enfrentou Eurico Dutra em 1945 e Getúlio Vargas em 1950, perdendo ambas. O slogan era: “Brigadeiro é bonito e é solteiro”. Eduardo Campos deve estar batendo na madeira.

SÓ TEATRO

O ator Odilon Wagner procurou líderes no Senado para pedir a reserva de 40% das vagas para meia-entrada, no Estatuto da Juventude: “Há 5 anos trabalhamos este acordo com a UNE; a meia-entrada hoje é falsa”.

PENSANDO BEM...

Estimulados pela leniência do PT, só falta os criminosos “di menor” fundarem um partido: o Petizada.


PODER SEM PUDOR

OLHOS BEM FECHADOS

Conhecido cabeça dura udenista, Oscar Dias Correia era adversário ferrenho de Juscelino Kubitschek (PSD) e estava certa vez em Poço de Caldas quando telefonou a um amigo de Andradas, avisando que viajaria ao seu encontro. O homem observou, satisfeito:

- Bem, agora, com a nova estrada, o senhor pode vir mais rápido!

Correia se ofendeu com a referência à importante obra rodoviária de JK:

- Vou pela estrada antiga. Ou você acha que vou dar prestígio para essa estrada do Juscelino?

DOMINGO NOS JORNAIS


- Globo: Moradias Populares: ex-servidores fraudaram Minha Casa Minha Vida
- Folha: Engenharia supera
direito em total de
calouros pela 1ª vez
- Estadão: ‘Inflação não precisa de tiro de canhão’, diz Mantega
- Jornal do Commercio: Seca devora a economia
- Zero Hora: “Meu negócio é vender combustível”
- Correio Braziliense: Morte de bebês fecha maternidade do HRC

sábado, abril 13, 2013

Até quando o ECA vai proteger os infratores? - ARI FRIEDENBACH

FOLHA DE SP - 13/04

A capital paulista hoje é reflexo do que acontece na maioria das cidades do país: o medo tomou conta da população. Em pesquisa divulgada pela Rede Nossa São Paulo em janeiro deste ano, a insegurança foi citada por 91% da população como a principal preocupação.

Conheço o problema da violência de perto. Em 2003, perdi uma filha de 16 anos, cruelmente assassinada por um menor com a mesma idade que a dela. O número de crimes cometidos por adolescentes vem crescendo ano a ano. Muito se fala sobre o assunto, mas nada de concreto foi feito.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, do PSDB, mostrou indignação com novos casos como a série de assaltos realizada pela gangue de Heliópolis formada por crianças de 9 a 14 anos e o assassinato do jovem Victor Hugo Deppman, no Belenzinho, cometido por um menor reincidente de então 17 anos, 11 meses e 27 dias.

Alckmin anunciou que encaminhará ao Congresso Nacional um projeto de lei que torna o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) mais duro em relação a adolescentes envolvidos em casos de violência grave e reincidência.

Não defendo a redução da maioridade penal. Defendê-la aos 16 anos é caminhar na contramão da maioria das nações. Analisando a legislação penal de 57 países, a pesquisa "Crime Trends", realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU), constatou que apenas 17% adotam idade menor a 18 anos como definição legal de adulto.

A Alemanha, que tinha baixado a idade penal, fez retornar a maioridade para 18 anos e criou uma sistemática diferenciada para o tratamento de infratores entre 18 e 21 anos. O Japão, ao se surpreender com um súbito aumento de criminalidade entre seus jovens, ampliou a maioridade penal para 20 anos, por entender que é com educação que se previne a violência.

Há dez anos, desde o assassinato da Liana, venho defendendo que os jovens devem ser responsabilizados e punidos por seus atos. Hoje, segundo estudos psicológicos e discussões comportamentais das quais fiz parte, a conclusão é que crianças de 12 anos são perfeitamente conscientes de suas atitudes e consequências. A lei existe para ser cumprida, e os infratores a partir dessa idade --considerada a mínima passível de internação, segundo o ECA-- devem ser encaminhados à Fundação Casa.

Deveriam ser oferecidas medidas socioeducativas e acompanhamento psicológico, de forma a recuperar o menor. Isso não acontece hoje, e frequentemente os jovens se tornam reincidentes.

A responsabilização após a prática de um crime deve começar pelo exame do jovem por uma junta psiquiátrica. Ela avaliará se ele tem consciência do ato praticado. Se tiver, o juiz, por meio de uma alteração legal e não constitucional, deve ter a possibilidade de emancipar esse menor para que ele seja julgado, iniciando o cumprimento da pena numa unidade prisional da Fundação Casa. Assim que completar a maioridade, deverá passar para o sistema prisional comum.

Não vejo o ECA de forma negativa. Ele veio colocar a criança e o adolescente como preocupação central da sociedade. Orientou a criação de políticas públicas em todas as esferas de governo. E estabeleceu o fim da aplicação de punições para adolescentes, tratados com medidas de proteção em caso de desvio de conduta.

Mas isso foi há 23 anos. Está na hora de uma revisão para atualizar alguns pontos, especialmente no que diz respeito aos crimes graves.

Quanto antes esses adolescentes e crianças entenderem que seus atos são intoleráveis, mais rápido eles poderão deixar o caminho do crime e se reintegrar à sociedade.


Massa versus cidadania - SÉRGIO TELLES

O ESTADÃO - 13/04

Multidões arregimentadas dispostas em grandes espaços. Imensos e coreografados desfiles militares, nos quais os soldados se esmeram em exibir passos sincronizados e gestos enfáticos. Estamos vendo imagens da Alemanha nazista, da União Soviética stalinista ou da Guerra Fria, da China de Mao? Não. São imagens atuais da Coreia do Norte.

O equívoco é justificável, pois apesar de expressarem convicções ideológicas e realidades socioeconômicas diferentes, esses rituais têm em comum o fato de serem manifestações típicas da forma totalitária de exercício do poder, que tem na manipulação das massas um de seus maiores trunfos.

A massa é um tipo especial de agrupamento humano que se constitui quando uma multidão se agrega, fortuita ou deliberadamente, em torno de uma atividade ou empreendimento comum.

Ao se diluir no meio dela, o indivíduo tem seu comportamento habitual modificado, pois ocorre uma regressão em sua organização psíquica, decorrente da perda transitória de sua identidade. Com isso, ele fica privado dos parâmetros internos que estabelecem a forma como vê a si mesmo, aos outros e a realidade externa. Dizendo de outra maneira, o indivíduo abdica de seu ideal do ego e de seu superego, projetando-os na própria massa ou no líder que a conduz e se identificando com os demais participantes da mesma. Dessa forma, ele se isenta da responsabilidade pessoal, delegando as decisões ao grupo ou ao seu líder, um representante da figura paterna a quem segue sem restrições. Nesse estado regressivo, podem ser liberados impulsos agressivos e sexuais que jamais seriam veiculados se o sujeito estivesse sozinho. De tudo isso, como mostraram Freud e Canetti, advém a inebriante sensação de poder e liberdade que sente o indivíduo no meio da multidão.

Esses fenômenos psicológicos próprios da massa mostram a plasticidade e fluidez do aparelho psíquico, que é capaz de transitar do funcionamento mais estruturado e organizado que possibilita o exercício do pensamento racional e objetivo para posições comandadas por uma afetividade mais arcaica.

Por darem vazão a incontornáveis desejos humanos, as massas tendem a se formar espontaneamente e estão presentes tanto nos regimes totalitários como nos democráticos, que as encaram de forma diferente. Nos regimes autoritários, o poder as incentiva, pois facilitam a doutrinação ideológica e o controle social. Nas democracias elas são formalmente desestimuladas e substituídas por grupos de indivíduos atuantes e conscientes.

Entretanto, os meios de comunicação tornam mais complexa essa equação, pois para que se instalem os pressupostos da psicologia das massas, com seus movimentos de submissão acrítica a um líder, não é necessária a presença física de participantes numa grande multidão, como em manifestações políticas totalitárias.

Os meios de comunicação, especialmente a televisão, organizam multidões virtuais muito maiores que as reais, possibilitando sub-repticiamente a instalação dos fenômenos regressivos típicos dessa condição.

Vendo televisão na privacidade de seu lar, o espectador não tem plena consciência de fazer parte naquele exato momento de uma grande massa e, como parte dela, reagir sem crítica aos ditames que lhe são impostos. Nos países autoritários, ele recebe passiva e diretamente sua cota de doutrinação. Nos países democráticos, lhe é fornecido o "entretenimento", essa proteica produção que, sem cessar, veicula conteúdos ideológicos, visando igualmente a tornar desnecessário o esforço de pensar e discriminar.

Os modelos de comportamento oferecidos pelos meios de comunicação (voltados prioritariamente para o consumo) são seguidos da mesma forma, como o é o líder totalitário da multidão real, presencial.

Fazer essa constatação não significa ignorar as diferenças e confundir o autoritarismo totalitário com a democracia. O que está em jogo é o reconhecimento da importância dos elementos psicológicos no comportamento das massas, a compreensão de que elas inconscientemente desejam o controle autoritário, a obediência a pais poderosos que as isentem do peso inerente à independência, à liberdade e responsabilidade.

Isso significa que, para se fortalecer, a democracia teria de batalhar em duas frentes. A mais óbvia, lutando contra os que querem se apossar do poder para exercê-lo ditatorialmente. Outra, mais insidiosa e difícil, criando defesas contra o anseio regressivo das massas por um líder autoritário.

Poder-se-ia perguntar: se há um líder autoritário que quer o poder e massas infantis que desejam ser por ele comandadas, por que não deixar que isso aconteça? A experiência do nazismo talvez seja a resposta mais cabal a essa questão. Atender a esses anseios regressivos de ambas as partes é dar livre curso à irracionalidade psicótica mais destrutiva.

Para superar esses perigos, a democracia deveria evitar as circunstâncias que proporcionem a formação de massas, quer seja na prática política, quer seja como efeito dos meios de comunicação. As massas dependentes deveriam ser substituídas por coletividades compostas por cidadãos autônomos e críticos, que não abram mão de seus direitos e responsabilidades e que exijam o mesmo de seus representantes. No que diz respeito aos meios de comunicação, o exercício da crítica permitiria a necessária discriminação entre os apelos da ideologia do consumo e o inestimável valor da liberdade de circulação de ideias e notícias.

Talvez não haja novidade nesse programa. Seria apenas uma versão atualizada do clássico embate entre demagogia e democracia.

Há muito tempo se sabe da infantilização das populações mais carentes, sempre a mercê dos espertalhões e populistas. O que vemos agora é que a situação é mais grave. A regressão das massas, que as deixam vulneráveis às manipulações de líderes inescrupulosos, não depende de fatores econômicos, sociais, educacionais. É algo mais profundo, que atende a fantasias inconscientes que se manifestam na psicologia dos grupos.

Essa é uma questão que não pode ser ignorada no aprimoramento dos dispositivos da democracia.

Caros Leitores. Em função das amplas mudanças editoriais ora em curso neste jornal, escrevo-lhes pela última vez neste espaço. Agradeço a atenção de todos e espero revê-los em outras páginas.

CINE SAMPA - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 13/04

A Prefeitura de São Paulo deve criar a SP Filme, empresa de fomento ao cinema nos moldes da Rio Filme, que investe em produção e distribuição. O secretário municipal de Cultura, Juca Ferreira, já discute a ideia com profissionais renomados do setor.

BÊNÇÃO
O escritor Paulo Coelho enviou livro com dedicatória a Nicolás Maduro, presidente interino da Venezuela e que é candidato às eleições de amanhã: "Maduro: que Deus te abençoe e te guie". O portador do presente foi Fernando Morais, autor da biografia do mago.

OLHO ABERTO
E uma revoada de brasileiros pousou em Caracas, capital da Venezuela, para ver as eleições. Além de Morais, também o diplomata Samuel Pinheiro Guimarães e o presidente do PSB, Roberto Amaral, estão lá como observadores internacionais da coligação de Maduro. Cada candidato à Presidência pode indicar alguns observadores para o pleito.

OLHO ABERTO 2
Já o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Dias Toffoli está lá como observador indicado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) brasileiro. Integra colegiado formado por representantes de todos os países da Unasul.

MARATONA
E, além de celebrar seus 60 anos com 200 convidados na casa do advogado Sergio Bermudes, no Rio, no dia 26, o ministro Luiz Fux, do STF, já prepara nova empreitada.
Ele organiza festa algumas vezes maior do casamento da filha, Marianna, com Hercílio José Binato. Será no Copacabana Palace, em outubro.

ARTE NO RIO
Um quadro de Di Cavalcanti ("Noturno na Favela com Três Mulatas", de 1970) e um de Carybé ("Canoeiros", de 1963), da coleção do marchand Valdemar Szaniecki, vão a leilão, no dia 23, no Atlântica Business Center, em Copacabana, no Rio. Os lances iniciais são de R$ 350 mil e R$ 290 mil, respectivamente. As obras ficarão expostas de 15 a 22 de abril.

LIVRO DOS SONHOS
"Sonho Grande", livro sobre a trajetória do trio fundador da Ambev lançado nesta semana, já seguiu para segunda impressão, de 25 mil exemplares. Os primeiros 30 mil volumes da obra, escrita pela jornalista Cristiane Correa, ficaram menos de dez dias no estoque da editora Primeira Pessoa.

TECLADO
Os pianistas Nelson Freire, Wagner Tiso, Cristóvão Bastos, Leandro Braga, Gilson Peranzzetta e João Carlos Coutinho estarão reunidos para celebrar Tom Jobim no 24º Prêmio da Música Brasileira, que ocorre no dia 12 de junho, no Theatro Municipal do Rio. Eles tocarão algumas obras do maestro.

ANO BOM
A Ernst & Young realizou a 15ª edição do Prêmio Empreendedor do Ano. O CEO da empresa, Jorge Luiz Canabarro Menegassi, recebeu anteontem as empresárias Luiza Helena Trajano, do Magazine Luiza, e Chieko Aoki, dos hotéis Blue Tree, o presidente da CPFL, Wilson Ferreira Junior, e a jornalista Ana Paula Padrão.

URBANO
A exposição "Cidade Invertida", com obras do fotógrafo Antonio Brasiliano e da artista Laura Guimarães, foi inaugurada na Tag Gallery, na quarta. O cineasta Lucas Fazzio, a artista plástica Mirella DonnaMaria, a modelo Cristina Herrmann e o fotógrafo Vitor Pickersgill estiveram no evento.

CURTO-CIRCUITO

A produtora Conspiração é a nova patrocinadora do MAM (Museu deww Arte Moderna de São Paulo).

A Liga Solidária promove hoje, às 12h, feijoada beneficente no Complexo Educacional Dom Duarte, no Jardim Educandário.

A Banda Uó se apresenta no Cine Joia, hoje, a partir das 22h. 18 anos.

O vereador Floriano Pesaro (PSDB-SP) comemora seus 45 anos amanhã, às 16h, no Clube Glória.

O cirurgião plástico Ivo Pitanguy foi premiado pela Aesthetic Surgery Education & Research Foundation, em Nova York.

O evento NFW Beauty Trends será em agosto, no Instituto Tomie Ohtake. Organização de Lu Medeiros.