O GLOBO - 26/03
FRIGORÍFICOS TERÃO NOVAS OBRIGAÇÕES TRABALHISTAS
CNI prevê que setor terá de investir R$ 7 bilhões para se adaptar à Norma Regulamentadora 36, sobre saúde e segurança
Beira R$ 7 bilhões o investimento que frigoríficos brasileiros terão de fazer no próximo ano e meio, para se adequarem à Norma Regulamentadora 36, estima a Confederação Nacional da Indústria (CNI). O texto estabelece novos procedimentos nas áreas de saúde e segurança do trabalho no setor. Deve ser publicado nos próximos dias no Diário Oficial da União, após dois anos de negociação entre governo, empresariado e centrais sindicais. "Foi a primeira norma trabalhista elaborada no modelo tripartite", sublinha Alexandre Furlan, presidente do Conselho de Relações do Trabalho da CNI. A entidade já organizou cinco seminários sobre NR 36, em Curitiba, Cuiabá, Porto Alegre, São Paulo e BH. Ao todo, 450 empresários e gestores foram treinados. A partir da publicação da norma, as empresas terão de seis meses a dois anos para implementarem as mudanças. Haverá pausa obrigatória de 20 minutos, a cada cem de trabalho, para funcionários das salas climatizadas, com temperaturas de 12 a 14 graus. As também chamadas áreas de cortes ou desossa terão de ser adaptadas com bancos e assentos ergonômicos. Os frigoríficos de carnes, aves e suínos empregam um milhão no país.
US$ 15 BILHÕES
Foi quanto os frigoríficos brasileiros de carne, frango e suínos exportaram em 2012, segundo a CNI. As novas regras de segurança do trabalho vão ajudar o país a evitar barreiras não fitossanitárias.
Seis meses
Fernando César Viana, juiz da 7ª Vara Empresarial do TJ-Rio, ampliou em 180 dias o prazo de suspensão de ações judiciais de credores contra a Natan. A joalheria, agora, tem até setembro para cumprir com as obrigações da recuperação judicial, decretada em setembro.
Em família
A Alice Disse, de acessórios, chegará a outros estados via franquias. Prevê cinco este ano. Em maio, inaugura loja própria no Barra Garden. A previsão é faturar 30% mais em 2013, diz Mirna Ferraz, a dona. As mudanças têm a ver com a nova sócia, Mirella Ferraz, da Josefina Rosacor. As empresárias são irmãs.
Interior
A Love Brands, que reúne as as marcas Balonè, Puket e Imaginarium, já negociou oito franquias este ano. Lançada em 2012 para cidades do interior, a marca abriu dez lojas de junho a dezembro. Foi investimento médio de R$ 200 mil, cada.
Acelera
As vendas de vestuário no Estado do Rio devem bater R$ 14 bilhões, em 2013.
A previsão é do Ibope. Cada consumidor gastará, em média, R$ 891. Do total, 38% virão da classe C.
Freia
Caiu 2,5% a intenção de consumo das famílias em março, diz a CNC. O índice passou a 132,2 pontos. Inflação e dívidas pesaram.
Educação 1
A start-up Qranio fechou convênio com a Secretaria municipal de Ciência e Tecnologia do Rio. Vai fornecer jogo multiplataforma para o projeto Praça e Naves do Conhecimento. Tem 61 mil usuários. Prevê chegar a 1,5 milhão até dezembro. O faturamento de 2013, previsto em R$ 2 milhões, deve crescer 10% por conta da parceria.
Educação 2
A Unisuam fará pesquisa com escolas públicas do Complexo do Alemão. Quer investigar o impacto das condições ambientais e econômicas no aprendizado dos estudantes. O projeto de R$ 800 mil será financiado pela Capes.
CORRIDA DO ROCK
A Artplan estreia, no domingo, a campanha sobre o início da venda de ingressos para o Rock in Rio 2013, em setembro. No filme “Matemático”, um professor calcula a rapidez com que os tíquetes se esgotarão. De terça em diante, mais de dois milhões de Post-its serão espalhados por pontos do Rio. É para ninguém esquecer a data de venda, 4 de abril.
Em dobro
A Otaviano Bodega e Viñedos, vinícola argentina controlada por brasileiros, planeja mais que dobrar a produção até 2017. A meta é chegar a um milhão de garrafas. Em 2012, foram 450 mil. Investe R$ 7,5 milhões.
Local
A importadora Premium Drinks Brasil fechou com o Hotel Fasano. Vai fornecer o vinho francês Pétale de Rose. Prevê triplicar as vendas este ano. Em 2012, foram dez mil garrafas. A Vinícola Estrada Real, de Minas, pôs à venda as primeiras dez mil garrafas do Primeira Estrada Syrah.
Chileno
As exportações do Casillero del Diablo, vinho da Concha y Toro, subiram 8% em 2012. Foram 306 milhões de litros. A parceria com o time do Manchester United fez do Reino Unido o principal destino do rótulo. A Ásia também se destacou (+21%). Foram para a China 56% dos embarques para a região.
Livre Mercado
Os quiosques da Orla Rio registraram alta de 20% nas vendas no último verão. Shows e atividades esportivas nas praias ajudaram o comércio.
O Beleza Natural, salão dedicado a cabelos crespos, abre amanhã a 10ª loja no Rio. Investimento de R$ 2 milhões, fica no Cachambi, na Zona Norte. É a 13ª do país.
A Imaginarium abre loja em Campos (RJ), semana que vem. É investimento de R$ 210 mil. Este mês, chegou a Madureira. O grupo planeja inaugurar cem unidades, em dois anos. Para 2013, há 25 previstas.
A JTavares (imobiliária) abre unidade de Agronegócios em Paraíba do Sul, amanhã. Prevê alta de 30% na área até 2015.
A Avianca renovou o patrocínio à Petrobras Sinfônica. É o 2º ano que a aérea apoia a orquestra.
A Mondelëz lança, ainda este mês, Tangsabor Guaraná. Em outubro de 2012, segundo a Nielsen, a empresa bateu 42% de participação em valor no Brasil.
FRANÇA
Inspirada nos palacetes franceses do inicio do século XX, a Chifon lança hoje a campanha do inverno 2013. As fotos de Tavinho Costa trazem a top Lovanni Pinow. O cenário foi o Palácio dos Cedros, na Mansão Versalles, em São Paulo. As imagens estarão em lojas, site, blog e redes sociais da marca. A meta é vender 20% mais sobre a temporada passada.
PRAIA
A Brigie, multimarcas de moda praia, montou seu 1º catálogo. Vai apresentara coleção de inverno de 15 diferentes grifes, entre elas, Adriana Degreas, Vix, Triya, Eva e Cecilia Prado. Fernando Schubach fotografou a modelo Leticia Lamb. As imagens vão circular em mídias sociais, a partir de hoje. A meta é elevar em 20% as vendas da temporada.
terça-feira, março 26, 2013
MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO
FOLHA DE SP - 26/03
Demanda por imóvel na Turquia cresce, mas Brasil segue como principal emergente
Apesar de a Turquia ser a nova queridinha dos investidores internacionais do setor imobiliário, o Brasil continua como o país mais interessante entre os emergentes para a aquisição de imóveis.
Pesquisa da Afire (associação de investidores estrangeiros de imóveis) mostra que a demanda pela Turquia passou de menos de 5% em 2012 para mais de 10% neste ano.
No Brasil, houve uma queda de cerca de dois pontos percentuais que não foi suficiente para tirar o país do primeiro lugar do ranking.
"Alguns investidores tentaram vir para o país, mas encontraram dificuldades com a legislação muito complexa", diz Carolina Haro, sócia da consultoria Mapie.
Marcelo da Costa Santos, vice-presidente para América do Sul da Cushman & Wakefield, diz que o país deveria facilitar a entrada de estrangeiros, mas frisa que o interesse pelo mercado brasileiro vem crescendo exponencialmente.
O fluxo de capital estrangeiro investido apenas no setor corporativo brasileiro cresceu 44% no ano passado e chegou a US$ 7,7 bilhões, segundo levantamento da Jones Lang LaSalle.
"O Brasil ainda tem uma taxa de juros alta, se comparada com a do resto do mundo, o que atrai investidores. O crescimento do mercado aqui está limitado pela falta de imóveis. O que tiver disponível vende", diz o CEO da Jones Lang no Brasil, Fábio Maceira.
Pão de ló
O setor de pães e de bolos industrializados cresceu 9% e 12% em 2012 ante 2011, respectivamente, conforme um balanço da Abima (que representa os fabricantes de bolos, pães e massas).
O faturamento da indústria chegou a R$ 3,5 bilhões com os pães no ano passado e a R$ 663 milhões com os bolos.
"A tendência para este ano é de nova alta para os dois setores. Em cinco anos, o mercado de pães cresceu 55% e o de bolos 58%", diz Cláudio Zanão, presidente da Abima.
A expectativa agora é a inclusão do pão industrial na lista de produtos desonerados por impostos federais (PIS/Cofins). Cerca de 71% da população consome a mercadoria, segundo a associação.
"Temos conversado com o governo e estamos confiantes na desoneração. A decisão deve sair em dois meses. A redução no preço poderá chegar a 5%", diz Zanão.
Exportação global de serviços cresce 1% em 2012
A exportação de serviços no mundo cresceu apenas 1% no ano passado, segundo dados preliminares da Unctad (braço da Organização das Nações Unidas para o comércio e o desenvolvimento).
Após registrar queda de 2% no terceiro trimestre de 2012, a venda global de serviços para outros países se recuperou e fechou o quarto trimestre do ano com alta de 3% -na comparação com o mesmo período de 2011.
No Brasil, houve crescimento de 5% em 2012, ante o ano anterior.
Rússia e Índia tiveram um desempenho melhor, com 10% e 8%, respectivamente. Na China, a expansão foi relativamente modesta e alcançou 4%.
Nos países europeus, a retração foi de 3%. Na Suíça, a queda chegou a 7%.
O Brasil registrou números maiores de importação: aumento de 7% em 2012 e de 9% no último trimestre do ano.
Na China, foi registrado um crescimento anual de 19%. Na Rússia, de 16%.
Emergentes privados
O Conselho Empresarial dos Brics, que será criado amanhã em Durban, na África do Sul, terá como principal meta aumentar o comércio entre os países de US$ 286 bilhões para US$ 500 bilhões até 2015.
Cinco representantes de cada um dos países do grupo irão integrar a entidade. Do lado brasileiro, serão os presidentes da Weg, da Gerdau, da Marcopolo, da Vale e do Banco do Brasil, segundo informações da CNI.
O conselho deverá se reunir duas vezes por ano para buscar parcerias tecnológicas e mecanismos para reduzir as barreiras comerciais. Um relatório anual com a avaliação do setor privado sobre a evolução da integração econômica entre os países deverá ser elaborado.
A criação da entidade foi proposta pelo governo da África do Sul.
Sem descanso
O maior problema para o pequeno varejista brasileiro é o aumento da concorrência.
Entre os comerciantes que tiveram queda no faturamento em 2012, 45% culparam os concorrentes pelo desempenho pior, de acordo com pesquisa do SPC e da CNDL (confederação de dirigentes lojistas) com 615 pessoas em todo o país.
Enquanto o faturamento cresceu em 2012 para 41% dos entrevistados, para 28% houve retração da receita. Pouco mais de 30% declararam ter conseguido os mesmos valores do ano anterior.
"O setor mais aquecido fez surgirem outras pessoas competindo no mercado. Para se diferenciar, a estratégia foi o investimento em publicidade", diz Ana Paula Bastos, economista do SPC.
No campo A Reserva Votorantim (35 mil hectares no Vale do Ribeira), uma das maiores áreas de mata atlântica, receberá pela primeira vez alunos de pós-graduação da USP e da Unicamp. O objetivo é identificar novas espécies de flora.
Oriente A Fundação Dom Cabral recebe nesta semana, em São Paulo, 31 CEOs e executivos chineses que conhecerão as oportunidades de investimento no Brasil. A iniciativa é da escola de negócios Cheung Kong.
Demanda por imóvel na Turquia cresce, mas Brasil segue como principal emergente
Apesar de a Turquia ser a nova queridinha dos investidores internacionais do setor imobiliário, o Brasil continua como o país mais interessante entre os emergentes para a aquisição de imóveis.
Pesquisa da Afire (associação de investidores estrangeiros de imóveis) mostra que a demanda pela Turquia passou de menos de 5% em 2012 para mais de 10% neste ano.
No Brasil, houve uma queda de cerca de dois pontos percentuais que não foi suficiente para tirar o país do primeiro lugar do ranking.
"Alguns investidores tentaram vir para o país, mas encontraram dificuldades com a legislação muito complexa", diz Carolina Haro, sócia da consultoria Mapie.
Marcelo da Costa Santos, vice-presidente para América do Sul da Cushman & Wakefield, diz que o país deveria facilitar a entrada de estrangeiros, mas frisa que o interesse pelo mercado brasileiro vem crescendo exponencialmente.
O fluxo de capital estrangeiro investido apenas no setor corporativo brasileiro cresceu 44% no ano passado e chegou a US$ 7,7 bilhões, segundo levantamento da Jones Lang LaSalle.
"O Brasil ainda tem uma taxa de juros alta, se comparada com a do resto do mundo, o que atrai investidores. O crescimento do mercado aqui está limitado pela falta de imóveis. O que tiver disponível vende", diz o CEO da Jones Lang no Brasil, Fábio Maceira.
Pão de ló
O setor de pães e de bolos industrializados cresceu 9% e 12% em 2012 ante 2011, respectivamente, conforme um balanço da Abima (que representa os fabricantes de bolos, pães e massas).
O faturamento da indústria chegou a R$ 3,5 bilhões com os pães no ano passado e a R$ 663 milhões com os bolos.
"A tendência para este ano é de nova alta para os dois setores. Em cinco anos, o mercado de pães cresceu 55% e o de bolos 58%", diz Cláudio Zanão, presidente da Abima.
A expectativa agora é a inclusão do pão industrial na lista de produtos desonerados por impostos federais (PIS/Cofins). Cerca de 71% da população consome a mercadoria, segundo a associação.
"Temos conversado com o governo e estamos confiantes na desoneração. A decisão deve sair em dois meses. A redução no preço poderá chegar a 5%", diz Zanão.
Exportação global de serviços cresce 1% em 2012
A exportação de serviços no mundo cresceu apenas 1% no ano passado, segundo dados preliminares da Unctad (braço da Organização das Nações Unidas para o comércio e o desenvolvimento).
Após registrar queda de 2% no terceiro trimestre de 2012, a venda global de serviços para outros países se recuperou e fechou o quarto trimestre do ano com alta de 3% -na comparação com o mesmo período de 2011.
No Brasil, houve crescimento de 5% em 2012, ante o ano anterior.
Rússia e Índia tiveram um desempenho melhor, com 10% e 8%, respectivamente. Na China, a expansão foi relativamente modesta e alcançou 4%.
Nos países europeus, a retração foi de 3%. Na Suíça, a queda chegou a 7%.
O Brasil registrou números maiores de importação: aumento de 7% em 2012 e de 9% no último trimestre do ano.
Na China, foi registrado um crescimento anual de 19%. Na Rússia, de 16%.
Emergentes privados
O Conselho Empresarial dos Brics, que será criado amanhã em Durban, na África do Sul, terá como principal meta aumentar o comércio entre os países de US$ 286 bilhões para US$ 500 bilhões até 2015.
Cinco representantes de cada um dos países do grupo irão integrar a entidade. Do lado brasileiro, serão os presidentes da Weg, da Gerdau, da Marcopolo, da Vale e do Banco do Brasil, segundo informações da CNI.
O conselho deverá se reunir duas vezes por ano para buscar parcerias tecnológicas e mecanismos para reduzir as barreiras comerciais. Um relatório anual com a avaliação do setor privado sobre a evolução da integração econômica entre os países deverá ser elaborado.
A criação da entidade foi proposta pelo governo da África do Sul.
Sem descanso
O maior problema para o pequeno varejista brasileiro é o aumento da concorrência.
Entre os comerciantes que tiveram queda no faturamento em 2012, 45% culparam os concorrentes pelo desempenho pior, de acordo com pesquisa do SPC e da CNDL (confederação de dirigentes lojistas) com 615 pessoas em todo o país.
Enquanto o faturamento cresceu em 2012 para 41% dos entrevistados, para 28% houve retração da receita. Pouco mais de 30% declararam ter conseguido os mesmos valores do ano anterior.
"O setor mais aquecido fez surgirem outras pessoas competindo no mercado. Para se diferenciar, a estratégia foi o investimento em publicidade", diz Ana Paula Bastos, economista do SPC.
No campo A Reserva Votorantim (35 mil hectares no Vale do Ribeira), uma das maiores áreas de mata atlântica, receberá pela primeira vez alunos de pós-graduação da USP e da Unicamp. O objetivo é identificar novas espécies de flora.
Oriente A Fundação Dom Cabral recebe nesta semana, em São Paulo, 31 CEOs e executivos chineses que conhecerão as oportunidades de investimento no Brasil. A iniciativa é da escola de negócios Cheung Kong.
Perplexidade com a quebra de contratos - JOÃO CARLOS MELLO
O GLOBO - 26/03
A perplexidade tomou conta do setor elétrico. A tentativa de alguns agentes de paralisar o mercado em defesa da revisão de regras aplicadas nos últimos meses traz graves consequências, que podem ser vistas como quebra de contratos e ameaçam inclusive futuros investimentos. Ao mesmo tempo, o setor ainda está a digerir as mudanças promovidas pelo Conselho Nacional de Política Energética com relação à divisão dos custos da segurança setorial.
A suspensão da liquidação na Câmara de Comercialização de Energia Elétrica pela diretoria-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) causa grande preocupação. A decisão foi tomada a pedido de alguns agentes que querem alterar as regras de sazonalidade do mercado vigentes, retroativamente aos meses de janeiro e fevereiro. Basicamente essas regras determinam que os geradores têm o direito, por sua conta e risco, de ajustar a base de seu lastro contratual aos seus contratos de venda, perfil de produção e, até mesmo, perspectivas de preço. Mas, uma vez apresentadas ao mercado, compõem o conjunto de informações com base nas quais os demais agentes tomam suas decisões. Portanto, mudar a regra de maneira retroativa a esta altura pode ter impactos bilionários ao sistema elétrico brasileiro.
A Aneel abriu uma audiência pública para tratar do caso, como normalmente é feito para a tomada de decisões de tal importância e complexidade. O maior incômodo é que esse "passado" foi construído justamente com base nas regras e procedimentos vigentes até hoje.
Movimentos desse tipo paralisam o sistema elétrico brasileiro. A suspensão da contabilização na CCEE, em particular, cria um "caos" financeiro para todos. Por exemplo, as térmicas, que têm sido primordiais para a garantia da segurança do sistema elétrico, estão sem receber pela energia gerada durantes o mês de janeiro, o que pode vir a prejudicar a geração futura.
Regras servem para que se crie um ambiente de contratação segura entre as partes. Se são modificadas posteriormente, os contratos firmados no ambiente original são seriamente afetados. Em paralelo, o setor ainda está digerindo as mudanças no Preço de Liquidação de Diferenças (PLD) e no Encargo de Serviços do Sistema promovidas pelo CNPE. A principal mudança é que parte do custo do encargo, que é usado principalmente para cobrir custos de geração térmica, passa a compor o preço no mercado à vista. Outra surpresa é que o custo remanescente do encargo será agora coberto por todos os agentes. Essa novidade onera os vendedores, e no final alcançará o consumidor final.
Novos investimentos em infraestrutura são avessos a esses riscos. A leitura de quebra de contratos num setor tão importante pode levar investidores a repensar seus planos. Se debatidas com a sociedade, novas regras podem até ser bem-vindas. Mas desde que regulem o presente ou o futuro, não quebrem contratos.
A suspensão da liquidação na Câmara de Comercialização de Energia Elétrica pela diretoria-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) causa grande preocupação. A decisão foi tomada a pedido de alguns agentes que querem alterar as regras de sazonalidade do mercado vigentes, retroativamente aos meses de janeiro e fevereiro. Basicamente essas regras determinam que os geradores têm o direito, por sua conta e risco, de ajustar a base de seu lastro contratual aos seus contratos de venda, perfil de produção e, até mesmo, perspectivas de preço. Mas, uma vez apresentadas ao mercado, compõem o conjunto de informações com base nas quais os demais agentes tomam suas decisões. Portanto, mudar a regra de maneira retroativa a esta altura pode ter impactos bilionários ao sistema elétrico brasileiro.
A Aneel abriu uma audiência pública para tratar do caso, como normalmente é feito para a tomada de decisões de tal importância e complexidade. O maior incômodo é que esse "passado" foi construído justamente com base nas regras e procedimentos vigentes até hoje.
Movimentos desse tipo paralisam o sistema elétrico brasileiro. A suspensão da contabilização na CCEE, em particular, cria um "caos" financeiro para todos. Por exemplo, as térmicas, que têm sido primordiais para a garantia da segurança do sistema elétrico, estão sem receber pela energia gerada durantes o mês de janeiro, o que pode vir a prejudicar a geração futura.
Regras servem para que se crie um ambiente de contratação segura entre as partes. Se são modificadas posteriormente, os contratos firmados no ambiente original são seriamente afetados. Em paralelo, o setor ainda está digerindo as mudanças no Preço de Liquidação de Diferenças (PLD) e no Encargo de Serviços do Sistema promovidas pelo CNPE. A principal mudança é que parte do custo do encargo, que é usado principalmente para cobrir custos de geração térmica, passa a compor o preço no mercado à vista. Outra surpresa é que o custo remanescente do encargo será agora coberto por todos os agentes. Essa novidade onera os vendedores, e no final alcançará o consumidor final.
Novos investimentos em infraestrutura são avessos a esses riscos. A leitura de quebra de contratos num setor tão importante pode levar investidores a repensar seus planos. Se debatidas com a sociedade, novas regras podem até ser bem-vindas. Mas desde que regulem o presente ou o futuro, não quebrem contratos.
O tirano e o caixeiro-viajante - CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SP - 26/03
Levar a Odebrecht ao país do ditador Obiang, como fez Lula, é dar aval a um regime corrupto até as entranhas
Deu domingo na Folha: na sua única viagem internacional como representante oficial do governo Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou na delegação à Guiné Equatorial um diretor da Odebrechet.
"A Odebrecht entrou na Guiné Equatorial após a visita de Lula, sendo favorita para obras na parte continental, onde está sendo construída uma capital administrativa", dizia ainda o texto.
No mesmíssimo domingo, deu em "El País": "Fazer negócios com o clã familiar que lidera Teodoro Obiang [ditador da Guiné Equatorial desde 1979] é arriscado. O pagamento de comissões é obrigatório e as disputas comerciais, muitas vezes fictícias, derivam, às vezes, em extorsão, ameaças e em perda do investimento para salvar a vida".
Não é fantasia do jornal: a Chancelaria espanhola acaba de divulgar nota na qual adverte que estão ocorrendo casos de empresários espanhóis e estrangeiros que não podem abandonar a antiga colônia espanhola por desentendimentos com seus sócios locais.
O passaporte é confiscado e ficam impedidos de deixar o país até que desistam de suas propriedades.
Conclusão do jornal: "Este sistema corrupto impregna até o último rincão da administração guineana".
Não por acaso, o ditador Teodoro Obiang ficou em oitavo lugar na lista dos governantes mais ricos do mundo, apesar de chefiar um país obscenamente pobre.
Traçado o perfil da Guiné Equatorial e de seu tirano, cabe perguntar: as empresas brasileiras que atuam no país são imunes à máquina de corrupção lá instalada ou, ao contrário, engraxam os mecanismos que enriquecem o clã Obiang? Segundo a reportagem da Folha, além da Odebrecht fazem negócios na Guiné também a ARG, a Andrade Gutierrez, a Queiroz Galvão e a OAS.
Parece supina ingenuidade acreditar que tenham obtido a concessão de obras sem pagar qualquer pedágio aos Obiang, se, como diz "El País", a corrupção impregna tudo.
Que Lula trabalhe como caixeiro-viajante dessas empresas já é esquisito, mas, convenhamos, é o que fazem hoje em dia não apenas ex-presidentes mas até presidentes/primeiros-ministros em pleno exercício do cargo.
Mas que feche os olhos para uma tirania obscena como, entre tantas outras, a de Obiang, no cargo há 34 anos, vira também uma obscenidade, mais ainda como representante oficial de um governo que diz pôr direitos humanos no centro de sua política externa.
Prestaria um serviço mais decente se se dedicasse exclusivamente aos países africanos que vão penosamente estabelecendo regimes democráticos. Segundo levantamento recente da "Economist", se, ao término da Guerra Fria, 30 anos atrás, só três Estados africanos, dos 53 então existentes, eram democráticos, hoje já são 25, de "vários tons", e muitos mais fizeram eleições, "imperfeitas, mas valiosas" (22 só no ano passado).
Para que, então, sujar as mãos com um tirano?
PS - Errei no texto de domingo: os novos líderes do Parlamento italiano querem que seus pares trabalhem 96 horas mensais, não semanais.
Levar a Odebrecht ao país do ditador Obiang, como fez Lula, é dar aval a um regime corrupto até as entranhas
Deu domingo na Folha: na sua única viagem internacional como representante oficial do governo Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou na delegação à Guiné Equatorial um diretor da Odebrechet.
"A Odebrecht entrou na Guiné Equatorial após a visita de Lula, sendo favorita para obras na parte continental, onde está sendo construída uma capital administrativa", dizia ainda o texto.
No mesmíssimo domingo, deu em "El País": "Fazer negócios com o clã familiar que lidera Teodoro Obiang [ditador da Guiné Equatorial desde 1979] é arriscado. O pagamento de comissões é obrigatório e as disputas comerciais, muitas vezes fictícias, derivam, às vezes, em extorsão, ameaças e em perda do investimento para salvar a vida".
Não é fantasia do jornal: a Chancelaria espanhola acaba de divulgar nota na qual adverte que estão ocorrendo casos de empresários espanhóis e estrangeiros que não podem abandonar a antiga colônia espanhola por desentendimentos com seus sócios locais.
O passaporte é confiscado e ficam impedidos de deixar o país até que desistam de suas propriedades.
Conclusão do jornal: "Este sistema corrupto impregna até o último rincão da administração guineana".
Não por acaso, o ditador Teodoro Obiang ficou em oitavo lugar na lista dos governantes mais ricos do mundo, apesar de chefiar um país obscenamente pobre.
Traçado o perfil da Guiné Equatorial e de seu tirano, cabe perguntar: as empresas brasileiras que atuam no país são imunes à máquina de corrupção lá instalada ou, ao contrário, engraxam os mecanismos que enriquecem o clã Obiang? Segundo a reportagem da Folha, além da Odebrecht fazem negócios na Guiné também a ARG, a Andrade Gutierrez, a Queiroz Galvão e a OAS.
Parece supina ingenuidade acreditar que tenham obtido a concessão de obras sem pagar qualquer pedágio aos Obiang, se, como diz "El País", a corrupção impregna tudo.
Que Lula trabalhe como caixeiro-viajante dessas empresas já é esquisito, mas, convenhamos, é o que fazem hoje em dia não apenas ex-presidentes mas até presidentes/primeiros-ministros em pleno exercício do cargo.
Mas que feche os olhos para uma tirania obscena como, entre tantas outras, a de Obiang, no cargo há 34 anos, vira também uma obscenidade, mais ainda como representante oficial de um governo que diz pôr direitos humanos no centro de sua política externa.
Prestaria um serviço mais decente se se dedicasse exclusivamente aos países africanos que vão penosamente estabelecendo regimes democráticos. Segundo levantamento recente da "Economist", se, ao término da Guerra Fria, 30 anos atrás, só três Estados africanos, dos 53 então existentes, eram democráticos, hoje já são 25, de "vários tons", e muitos mais fizeram eleições, "imperfeitas, mas valiosas" (22 só no ano passado).
Para que, então, sujar as mãos com um tirano?
PS - Errei no texto de domingo: os novos líderes do Parlamento italiano querem que seus pares trabalhem 96 horas mensais, não semanais.
A vez dos moderados - RUBENS BARBOSA
O ESTADO DE S. PAULO - 26/03
O resultado das eleições nos EUA e em Israel, surpreendentemente, abriu uma janela de oportunidade para os moderados, tanto em Israel como no mundo árabe. Ofereceu também a perspectiva para os EUA e a comunidade internacional reabrirem o processo de negociação entre Israel e a Autoridade Palestina, com vista a encontrar um caminho para a paz no Oriente Médio.
Em ambos os países, os temas econômicos - recuperação da economia, redução do déficit, aumento do emprego - estiveram no centro das discussões eleitorais, deixando para segundo plano as questões de política externa. Em Israel, os radicais do Likud e do Beytenu davam como certa a maioria no Parlamento e não contavam com a expressiva votação do novo partido Yesh Atid, liderado por Yair Lapid, populista, conhecido apresentador de televisão, e dos partidos árabes-israelenses, que representam 21% da população. O Parlamento dividido deixou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu enfraquecido e com um equilíbrio político interno precário. No acordo de coalizão para formar o governo, conseguido com dificuldade, teria sido incluído, por pressão de Lapid, o compromisso do governo de voltar a negociar com os palestinos e o término da isenção de impostos e de serviço militar para os judeus ortodoxos. A saída do ministro da Defesa, Ehud Barak, um dos representantes da linha dura contra a Palestina, também poderia facilitar uma decisão favorável à negociação.
Nos EUA, a reeleição do presidente Barack Obama, embora com o Congresso também dividido, reforçou a posição em favor da paz e evitará atitudes desafiadoras da parte de Tel-Aviv. O forte lobby israelense do American Israel Public Affairs Committee (Aipac), sobretudo no Congresso, está calado, mas certamente tentará reagrupar suas forças dentro do novo quadro pós-eleitoral. Hillary Clinton havia proposto a Obama uma nova iniciativa para solucionar o conflito, mas as prioridades de política interna e a aproximação das eleições forçaram o adiamento da idéia.
A primeira visita de Obama a Israel e à Cisjordânia, na semana passada, recolocou os EUA no centro da difícil equação de paz na região. Depois das conversas com Netanyahu e com o presidente Mahmoud Abbas, Obama reafirmou, embora em termos genéricos, o compromisso dos EUA com uma solução negociada, que reconheça a segurança de Israel e a soberania da Palestina. "A única maneira de Israel terminar seu isolamento, sobreviver e progredir como um Estado judeu e democrático é através da concretização de uma Palestina independente e viável, com justiça e autodeterminação", enfatizou Obama. O renovado esforço de paz - possível, mas difícil - foi defendido com forte retórica, que agradou aos dois lados, mas decepcionou pela falta de ação concreta. Voltando atrás em compromisso inicial de seu governo, Obama decidiu não liderar os entendimentos, delegando ao secretário de Estado, John Kerry, a missão de reiniciar as negociações. Netanyahu reafirmou estar comprometido com a solução dos dois Estados, apoiada pelos EUA, mas evitou tratar dos detalhes, ao menos em público. Sintomaticamente, o Irã, e não a Palestina, foi o ponto central de seus pronunciamentos.
A aprovação da Autoridade Palestina como membro observador das Nações Unidas contou com esmagador respaldo, tendo somente os EUA e a República Checa (com seis outros Estados menores) ficado ao lado de Israel. Os países europeus - que sempre apoiaram Israel - votaram contra ou se abstiveram. O Reino Unido, que juntamente com os EUA tem sido um dos mais sólidos aliados de Israel, pela voz de seu ministro do Exterior "condenou as decisões de Israel de expandir os assentamentos, porque cada vez torna mais inviável a solução dos dois Estados".
Persistem grandes dificuldades em todos os pontos mais sensíveis da negociação. Os assentamentos, condição palestina para a retomada das negociações, teriam de ser suspensos, o Hamas e o Fatah teriam de se entender, os foguetes contra Israel teriam de terminar, assim como o bloqueio da Faixa de Gaza. Os radicais de ambos os lados teriam de ser contidos para dar lugar aos moderados, mas isso não é simples. O recente ataque de Israel à Síria mostra a precariedade do equilíbrio na região e a recorrente ameaça de um incêndio de graves proporções. Sempre que se abre uma perspectiva de paz, os radicais de ambos os lados fabricam uma grave crise que dificulta o avanço político.
Os EUA são o único país na comunidade internacional com influência para propor a retomada das negociações e definir a agenda, como foi feito no Acordo de Oslo, em 1993, e como ocorreu, sem sucesso, no final do governo Bill Clinton. Os resultados iniciais da visita de Obama não são encorajadores. A continuação das sanções americanas contra a Palestina pela aprovação do status de observador na ONU, a concordância implícita com os assentamentos israelenses em territórios palestinos e a aparente falta de avanços concretos nas conversações de Obama com o governo israelense fizeram aumentar o ceticismo e o pessimismo da comunidade internacional.
Poderá a ofensiva de Obama criar condições para a volta da diplomacia? Aparentemente, ainda não chegou a vez dos moderados, apenas se entreabriu uma porta para eles passarem.
O Brasil, que tem aspiração de atuação significativa nesse processo, poderia propor, via Brics -já que a Rússia é membro do chamado Quarteto (Rússia, EUA, Europa e ONU) -, que a proposta feita pelo príncipe Abdullah, da Arábia Saudita, em 2002 seja retomada. Pela proposta, o Estado de Israel seria reconhecido por todos os países árabes (hoje somente o Egito e a Jordânia o fazem), seria garantida a fronteira de Israel com segurança, com base nos acordos de 1967, em troca da criação do Estado Palestino.
Seria um ato corajoso que, sem dúvida, reforçaria a projeção externa brasileira.
O fator Chipre - CELSO MING
O ESTADO DE S. PAULO - 26/03
O plano de resgate de Chipre, revelado na madrugada de segunda-feira, tem importantes consequências para a economia mundial.
Uma delas é que, pelo menos na Europa, acaba de ser rejeitado o princípio de que banco não pode quebrar por ser grande demais (too big to fail).
Esse princípio de qualidade duvidosa havia sido restabelecido em setembro de 2008, quando as autoridades dos Estados Unidos decretaram a falência do Lehman Brothers, que nem grande era. Tratava-se do quinto banco de investimentos (nem era banco comercial) do país. Seu fechamento gerou ondas de pânico pelo mundo. A partir de então, as autoridades se apressaram a socorrer quaisquer outras instituições financeiras ameaçadas.
A solução para Chipre garante só os depósitos até 100 mil euros - cujo seguro não havia sido respeitado na primeira versão do plano, rejeitada pelo Parlamento. O Banco Popular, segundo maior do país, foi fechado. Seus maiores correntistas apenas receberão o dinheiro quando os ativos (empréstimos e aplicações) voltarem, no vencimento dos contratos. O mais irônico é que boa volume desses ativos é título da Grécia que as próprias autoridades europeias submeteram a cortes unilaterais (haircuts).
A outra instituição na corda bamba, o Banco de Chipre, vai ser resgatada. Mas os correntistas com mais de 100 mil euros em depósitos e aplicações serão obrigados a converter boa parte dos seus direitos em ações do banco e não têm prazo para resgatar a outra parte.
O sistema bancário cipriota remanescente está agora submetido a grande leva de saques. O mais grave talvez não seja essa corrida, mas o estrago produzido pela perda de confiança. Mesmo que o sistema bancário de Chipre permaneça de pé, durante anos não receberá depósitos.
Mas a consequência mais importante deverá ser o que ocorrerá no sistema bancário da Europa. O cristal trincou em toda a área do euro. Banco europeu suspeito de fragilidade provavelmente sofrerá de temporada de retiradas ou de queda de novos depósitos. É o que explica as ações dos bancos caírem nesta segunda-feira nas bolsas, sobretudo na Espanha, na Itália, na França e em Portugal. A contrapartida é a revoada de recursos para economias e sistemas bancários considerados sadios.
As autoridades do euro estão impondo reforço de capital aos bancos mais frágeis. Como não está claro que bancos são esses e qual o tamanho dessa fragilidade, mais um ponto de incerteza se acrescenta ao quadro geral já incerto.
Em outras palavras, os dirigentes agiram de maneira a restabelecer um nível mínimo de risco moral (moral hazard), que castiga não somente bancos mal administrados, mas também aplicadores pouco cautelosos nas suas aplicações.
A situação só chegou a esse estágio porque as próprias autoridades deixaram que as dívidas nacionais alcançassem esse patamar e que segmentos importantes do sistema bancário atuassem ou como paraísos fiscais ou como administradores irresponsáveis de recursos de terceiros.
CONFIRA
Modelo. As perdas de valor dos bancos nas bolsas se acentuaram nesta segunda-feira depois que o presidente do grupo do euro, Jeroen Dijsselbloem, declarou para o diário Financial Times que o plano de salvação de Chipre servirá de modelo para outros casos. Depois, o holandês contemporizou. Queixou-se de que foi mal interpretado e que só quis dizer que os problemas bancários deverão ser resolvidos no seu começo, não depois.
Precedente. As explicações de Dijsselbloem produziram algum alívio. No entanto, mesmo que ele não assuma tudo o que falou, a solução será inevitavelmente entendida como precedente para eventuais soluções para novos casos semelhantes.
Será por aí. Outras autoridades, inclusive a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, advertiram que, daqui para a frente, as lambanças dos bancos terão de ser resolvidas pelos próprios bancos ou por seus correntistas, não com mais dinheiro do contribuinte.
O plano de resgate de Chipre, revelado na madrugada de segunda-feira, tem importantes consequências para a economia mundial.
Uma delas é que, pelo menos na Europa, acaba de ser rejeitado o princípio de que banco não pode quebrar por ser grande demais (too big to fail).
Esse princípio de qualidade duvidosa havia sido restabelecido em setembro de 2008, quando as autoridades dos Estados Unidos decretaram a falência do Lehman Brothers, que nem grande era. Tratava-se do quinto banco de investimentos (nem era banco comercial) do país. Seu fechamento gerou ondas de pânico pelo mundo. A partir de então, as autoridades se apressaram a socorrer quaisquer outras instituições financeiras ameaçadas.
A solução para Chipre garante só os depósitos até 100 mil euros - cujo seguro não havia sido respeitado na primeira versão do plano, rejeitada pelo Parlamento. O Banco Popular, segundo maior do país, foi fechado. Seus maiores correntistas apenas receberão o dinheiro quando os ativos (empréstimos e aplicações) voltarem, no vencimento dos contratos. O mais irônico é que boa volume desses ativos é título da Grécia que as próprias autoridades europeias submeteram a cortes unilaterais (haircuts).
A outra instituição na corda bamba, o Banco de Chipre, vai ser resgatada. Mas os correntistas com mais de 100 mil euros em depósitos e aplicações serão obrigados a converter boa parte dos seus direitos em ações do banco e não têm prazo para resgatar a outra parte.
O sistema bancário cipriota remanescente está agora submetido a grande leva de saques. O mais grave talvez não seja essa corrida, mas o estrago produzido pela perda de confiança. Mesmo que o sistema bancário de Chipre permaneça de pé, durante anos não receberá depósitos.
Mas a consequência mais importante deverá ser o que ocorrerá no sistema bancário da Europa. O cristal trincou em toda a área do euro. Banco europeu suspeito de fragilidade provavelmente sofrerá de temporada de retiradas ou de queda de novos depósitos. É o que explica as ações dos bancos caírem nesta segunda-feira nas bolsas, sobretudo na Espanha, na Itália, na França e em Portugal. A contrapartida é a revoada de recursos para economias e sistemas bancários considerados sadios.
As autoridades do euro estão impondo reforço de capital aos bancos mais frágeis. Como não está claro que bancos são esses e qual o tamanho dessa fragilidade, mais um ponto de incerteza se acrescenta ao quadro geral já incerto.
Em outras palavras, os dirigentes agiram de maneira a restabelecer um nível mínimo de risco moral (moral hazard), que castiga não somente bancos mal administrados, mas também aplicadores pouco cautelosos nas suas aplicações.
A situação só chegou a esse estágio porque as próprias autoridades deixaram que as dívidas nacionais alcançassem esse patamar e que segmentos importantes do sistema bancário atuassem ou como paraísos fiscais ou como administradores irresponsáveis de recursos de terceiros.
CONFIRA
Modelo. As perdas de valor dos bancos nas bolsas se acentuaram nesta segunda-feira depois que o presidente do grupo do euro, Jeroen Dijsselbloem, declarou para o diário Financial Times que o plano de salvação de Chipre servirá de modelo para outros casos. Depois, o holandês contemporizou. Queixou-se de que foi mal interpretado e que só quis dizer que os problemas bancários deverão ser resolvidos no seu começo, não depois.
Precedente. As explicações de Dijsselbloem produziram algum alívio. No entanto, mesmo que ele não assuma tudo o que falou, a solução será inevitavelmente entendida como precedente para eventuais soluções para novos casos semelhantes.
Será por aí. Outras autoridades, inclusive a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, advertiram que, daqui para a frente, as lambanças dos bancos terão de ser resolvidas pelos próprios bancos ou por seus correntistas, não com mais dinheiro do contribuinte.
Carne sem culpa - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 26/03
Imagine uma carne que chegue à sua mesa com a garantia de que não vem de uma fazenda que praticou trabalho escravo ou grilou terra em unidade de conservação e área indígena. Ou seja, quando seu garfo e sua faca se cruzarem cortando o filé ou o assado você não terá o amargo sabor de estar participando da velha cadeia de crimes que sempre existiu na pecuária brasileira.
A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) assinou ontem em Brasília o acordo com a Procuradoria Geral da República se comprometendo a mobilizar seus associados de todo o país a exigir a informação sobre a origem da carne. O frigorífico terá que provar que não pratica - nem seu fornecedor - crime ambiental, fundiário e trabalhista. Estiveram juntos nos quatro meses de negociações o Pão de Açúcar, Walmart, Carrefour e o chileno Cencosud.
Em 2009, já foi assinado um acordo assim e não foi adiante. Por que desta vez daria certo?
- Participam de reuniões conosco desde o ano passado as grandes redes de supermercado, isso dá mais força ao acordo. E agora ficará claro que os supermercados que comprarem carne de produtores que praticam ilegalidades podem ser responsabilizados - diz o procurador Daniel Azeredo, do MPF do Pará
A Abras não tem poder sobre os associados. Fernando Yamada, presidente da associação, disse que o Ministério Público vai fornecer uma lista de todos os fornecedores que estão cumprindo a lei, e a Abras vai sensibilizar as 27 associações estaduais a seguir o que foi assinado:
- Nosso mercado é competitivo e dinâmico e quem souber a origem da carne informará isso ao consumidor. E o consumidor poderá escolher.
Alguns dos maiores frigoríficos brasileiros já foram flagrados comercializando carne de boi criado em fazendas instaladas em unidades de conservação ou terra indígena e até, em alguns casos, onde houve trabalho escravo. Eles serão chamados novamente para assinar um acordo com o MP, mas com eles será diferente porque é Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e há como multar e até processar por não cumprimento.
Houve muitos avanços desde que, quatro anos atrás, começou o trabalho do MP de ajuizar ações e propor negociações com as empresas que fazem parte dessa cadeia de suprimento. Na época, descobriu-se um número impressionante de frigoríficos e produtores com flagrantes de crimes ambientais e trabalhistas, os supermercados chegaram a suspender por 40 dias as compras dos frigoríficos que estavam com processos. Tudo isso levou à assinatura de TACs em que os fornecedores se comprometeram a mudar a prática. Uma forte campanha publicitária e institucional, a carne legal, popularizou o tema. A campanha ganhou o prêmio GreenBest.
Azeredo admite que depois houve uma desmobilização, em parte porque quando os frigoríficos assinaram os TACs os supermercados entenderam que o problema estava resolvido.
- Os supermercados têm comprado pelo menor preço, sem olhar a origem da carne, por isso voltamos a chamar a Abras - disse Azeredo.
O BNDES é sócio importante dos maiores frigoríficos do país e, portanto, o governo tem a obrigação de usar o seu poder para a mudança de atitude conivente com o crime ambiental e trabalhista na cadeia da carne.
Yamada disse que alguns supermercados se prepararam para dar ao consumidor cada vez mais visibilidade da origem da carne, exigindo rastreabilidade.
O frigorífico terá que provar como agem seus fornecedores da pecuária. Se a cadeia produtiva for vigilante; o Ministério Público, rigoroso; o consumidor, exigente; a carne chegará à sua mesa sem a culpa dos crimes que tem carregado.
A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) assinou ontem em Brasília o acordo com a Procuradoria Geral da República se comprometendo a mobilizar seus associados de todo o país a exigir a informação sobre a origem da carne. O frigorífico terá que provar que não pratica - nem seu fornecedor - crime ambiental, fundiário e trabalhista. Estiveram juntos nos quatro meses de negociações o Pão de Açúcar, Walmart, Carrefour e o chileno Cencosud.
Em 2009, já foi assinado um acordo assim e não foi adiante. Por que desta vez daria certo?
- Participam de reuniões conosco desde o ano passado as grandes redes de supermercado, isso dá mais força ao acordo. E agora ficará claro que os supermercados que comprarem carne de produtores que praticam ilegalidades podem ser responsabilizados - diz o procurador Daniel Azeredo, do MPF do Pará
A Abras não tem poder sobre os associados. Fernando Yamada, presidente da associação, disse que o Ministério Público vai fornecer uma lista de todos os fornecedores que estão cumprindo a lei, e a Abras vai sensibilizar as 27 associações estaduais a seguir o que foi assinado:
- Nosso mercado é competitivo e dinâmico e quem souber a origem da carne informará isso ao consumidor. E o consumidor poderá escolher.
Alguns dos maiores frigoríficos brasileiros já foram flagrados comercializando carne de boi criado em fazendas instaladas em unidades de conservação ou terra indígena e até, em alguns casos, onde houve trabalho escravo. Eles serão chamados novamente para assinar um acordo com o MP, mas com eles será diferente porque é Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e há como multar e até processar por não cumprimento.
Houve muitos avanços desde que, quatro anos atrás, começou o trabalho do MP de ajuizar ações e propor negociações com as empresas que fazem parte dessa cadeia de suprimento. Na época, descobriu-se um número impressionante de frigoríficos e produtores com flagrantes de crimes ambientais e trabalhistas, os supermercados chegaram a suspender por 40 dias as compras dos frigoríficos que estavam com processos. Tudo isso levou à assinatura de TACs em que os fornecedores se comprometeram a mudar a prática. Uma forte campanha publicitária e institucional, a carne legal, popularizou o tema. A campanha ganhou o prêmio GreenBest.
Azeredo admite que depois houve uma desmobilização, em parte porque quando os frigoríficos assinaram os TACs os supermercados entenderam que o problema estava resolvido.
- Os supermercados têm comprado pelo menor preço, sem olhar a origem da carne, por isso voltamos a chamar a Abras - disse Azeredo.
O BNDES é sócio importante dos maiores frigoríficos do país e, portanto, o governo tem a obrigação de usar o seu poder para a mudança de atitude conivente com o crime ambiental e trabalhista na cadeia da carne.
Yamada disse que alguns supermercados se prepararam para dar ao consumidor cada vez mais visibilidade da origem da carne, exigindo rastreabilidade.
O frigorífico terá que provar como agem seus fornecedores da pecuária. Se a cadeia produtiva for vigilante; o Ministério Público, rigoroso; o consumidor, exigente; a carne chegará à sua mesa sem a culpa dos crimes que tem carregado.
Política do conta-gotas - JOSÉ PAULO KUPFER
O ESTADÃO - 26/03
As últimas pesquisas de popularidade do governo Dilma Rousseff, combinadas com as de intenção de voto às eleições presidenciais de 2014, apontaram um aparente paradoxo. Gomo explicar índices tão elevados de aprovação da presidente e seu aberto favoritismo eleitoral de momento, diante da economia com inflação alta e disseminada, em ambiente de virtual estagnação econômica?
Recortada por classes de renda e distribuição geográfica, que apontam maior aprovação proporcional nas faixas de menor remuneração e nas regiões mais pobres, as pesquisas recentes reforçaram as explicações mais difundidas para o aparente enigma. Elas seriam de duas ordens, aliando a sensação de bem-estar conjunturalmente oferecida pelo mercado de trabalho a uma exposição intensa da presidente na mídia, com anúncios de medidas de redução de preços e tarifas, via desoneração de tributos, em setores econômicos, com claro apelo popular.
Além da maior exposição pública e da transformação precoce das ações de governo em temas de palanque eleitoral, a popularidade de Dilma, mesmo com uma economia no mínimo claudicante, se deve, segundo ampla convergência de análises, ao mesmo fator que, em razão do aumento de renda, alimenta o consumo: taxa de desemprego muito baixa, concentrando absorção de mão de obra menos qualificada no setor de serviços.
A partir dessa suposta decifração da charada da alta popularidade do governo, em cenário de pretenso desarranjo econômico, parece tomar corpo uma estratégia moldada para fazer Dilma navegar, até o ainda longínquo outubro de 2014, no mar turbulento da economia, sem perda de popularidade e das intenções de voto. Nessa estratégia, não haverá lugar, nos próximos 18 meses, para correções de rota com base em políticas contracionistas, que possam afetar negativamente o mercado de trabalho.
Se fosse o caso de apostar, valeria a pena pôr fichas na intensificação do uso de medidas pontuais e de efeitos mais imediatos, com o objetivo de conter, diretamente, os índices de inflação. O melhor exemplo de ações com esse figurino são as desonerações de tributos e outros subsídios, como os aplicados nas tarifas de energia e nos produtos da cesta básica. Os sinais são de que o governo gostou das experiências até aqui realizadas e vai continuar recorrendo a esse ferramental.
Conforme reportagem publicada no Estado de ontem, economistas da Fundação Getúlio Vargas calculam que as desonerações já garantiram um corte de 04 ponto na taxa de inflação de 2013 e avaliam que a redução pode avançar para pelo menos 0,6 ponto até o fim do ano. Promover desonerações seletivas e pontuais, buscando calibrar os índices de preços, é um tipo de ação arriscado, com efeitos colaterais e limites relativamente estreitos. Mas, com a antecipação da campanha eleitoral, o cálculo político ganhou prioridade e, com ele, aumentou a probabilidade do recursos a ações de superfície na economia.
Há até bases empíricas para sustentar tal estratégia. O economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central e colunista do Estado, em recente boletim enviado a clientes de sua consultoria, descreveu exercícios econométricos a partir dos quais concluiu que, nos tempos atuais, o peso da inflação é relativamente baixo em relação ao que se passa no mercado de trabalho. De acordo com o exercício, 1 ponto porcentual a mais na taxa de ocupação resulta em mais 5 pontos na popularidade do presidente, enquanto 1 ponto a mais na taxa de inflação reduz 1,2 ponto no índice de aprovação.
O elevado grau de difusão das altas de preços nos índices de inflação indica que há pressões de demanda, sobretudo no setor de serviços, não atendidas pela oferta doméstica. Parte dessas pressões tem origem no mercado de trabalho aquecido, mas estaria fora de cogitação, a acreditar na hipótese respaldada pelo estudo de Pastore, um enfrentamento radical da dicotomia inflação-emprego, em favor de um esforço, que afetaria negativamente o emprego, para trazer a inflação ao centro da meta.
Assim, em linha com as machadadas das desonerações nos galhos mais altos da árvore inflacionária, tanto os juros básicos quanto o superávit fiscal primário tenderiam a se mover a conta-gotas - a taxa básica mirando tão somente evitar que a inflação ultrapasse, no fim do ano, o teto da meta, e as contas públicas se equilibrando como possível, mas nunca recorrendo a cortes nos gastos sociais, incluindo programas de transferência de renda, que possam pôr em risco a taxa de ocupação no mercado de trabalho.
O fator Argentina - BENJAMIN STEINBRUCH
FOLHA DE SP - 26/03
A relação comercial brasileira com o grande parceiro do Mercosul precisa ser rediscutida
O Brasil vem colecionando derrotas para a Argentina. Em novembro, perdemos no futebol por 2 a 1 em Buenos Aires. O melhor jogador do mundo é, indiscutivelmente, Lionel Messi, argentino.
Agora, o papa, Francisco, também é argentino. Foi eleito no dia 13, num conclave em que um cardeal brasileiro estava entre os favoritos. Aliás, o novo papa encantou o mundo com sua simplicidade, naturalidade e sensibilidade social, pelo que merece todo o apoio e respeito.
Só ganhamos da Argentina nos últimos anos na economia. Lá, a situação é difícil, a inflação é elevada, o governo já apelou até para o velho congelamento de preços e os problemas cambiais, aqueles que costumam quebrar países, como dizia Mario Simonsen, pairam como ameaça. Aqui, apesar do baixo crescimento, há pleno emprego, e a inflação, embora resistente, não ultrapassa o limite superior da meta.
Na semana passada, soubemos de outra derrota brasileira na Argentina, agora também no campo da economia. Nosso grande parceiro comercial do Mercosul está reduzindo suas compras do Brasil em velocidade surpreendente, 18% no ano passado, enquanto o superavit bilateral brasileiro caía 65%.
Esse comportamento poderia ser considerado normal, dadas as dificuldades argentinas e o desaquecimento de sua economia. Mas a mesma conduta não se dá em relação a outros importantes parceiros comerciais do país vizinho. Enquanto enfraquecia sua relação comercial com o Brasil, a Argentina aumentava em 160% suas compras da Holanda, 9% dos Estados Unidos, 7% do Japão e 2% da Alemanha.
A Argentina tem sido grande compradora de manufaturados brasileiros. Mas não se pode atribuir unicamente a ela a atual tendência de redução das vendas externas de manufaturas.
Observe-se, por exemplo, a variação da participação dos manufaturados nas exportações brasileiras em geral, que atingiu 60% do total exportado no ano 2000 e caiu para 37% no ano passado.
Em 2012, as exportações gerais de manufaturados, com um câmbio mais favorável no segundo semestre (taxa média na faixa de R$ 2,05), tiveram apenas uma pequena queda, de 1,7% na comparação com 2011. Os básicos e os semimanufaturados, em razão da forte redução das cotações das commodities industriais e agrícolas, caíram fortemente -7,4% e 8,3%, respectivamente.
Preocupa muito, de qualquer forma, a continuidade do comportamento negativo das exportações gerais de manufaturas neste ano. No primeiro bimestre, a queda foi de quase 10% em relação ao mesmo período do ano passado.
A tendência negativa tem a ver com a debilidade dos mercados desenvolvidos e também com a valorização do real ante o dólar e a baixa competitividade do produto brasileiro. Um estudo da Fiesp mostra que o produto brasileiro é 34,2% mais caro quando comparado com similares dos 15 países que mais fornecem ao Brasil.
Para o futuro imediato, há ainda outro fator preocupante: a reindustrialização da economia americana, já em curso, impulsionada pelos baixos custos da energia do gás de xisto e pelo câmbio favorável, vai colocar no mercado uma nova leva de produtos manufaturados americanos competitivos.
Feitas essas ressalvas, voltemos ao fator Argentina. Não há como negar que a relação comercial brasileira com o grande parceiro do Mercosul está em deterioração e precisa ser rediscutida de maneira séria.
Há um protecionismo crescente no país vizinho, que impõe dificuldades alfandegárias para a entrada de manufaturados brasileiros, em desrespeito a normas do Mercosul. O assunto é de vital importância para a indústria de manufaturados brasileira e para a própria balança comercial do país.
E a rediscussão da parceria continental precisa incluir a criação de mecanismos que facilitem acordos de comércio também com Estados Unidos e Europa.
Argentina, especificamente, é um tema que exige atuação rápida da diplomacia brasileira. Está longe de se restringir à rivalidade futebolística ou à disputa na eleição papal. É algo que tem impacto na economia brasileira.
Estimativas indicam que, considerando efeitos diretos e indiretos, o fator Argentina tirou 0,5 ponto percentual da taxa de crescimento do PIB do Brasil em 2012.
A relação comercial brasileira com o grande parceiro do Mercosul precisa ser rediscutida
O Brasil vem colecionando derrotas para a Argentina. Em novembro, perdemos no futebol por 2 a 1 em Buenos Aires. O melhor jogador do mundo é, indiscutivelmente, Lionel Messi, argentino.
Agora, o papa, Francisco, também é argentino. Foi eleito no dia 13, num conclave em que um cardeal brasileiro estava entre os favoritos. Aliás, o novo papa encantou o mundo com sua simplicidade, naturalidade e sensibilidade social, pelo que merece todo o apoio e respeito.
Só ganhamos da Argentina nos últimos anos na economia. Lá, a situação é difícil, a inflação é elevada, o governo já apelou até para o velho congelamento de preços e os problemas cambiais, aqueles que costumam quebrar países, como dizia Mario Simonsen, pairam como ameaça. Aqui, apesar do baixo crescimento, há pleno emprego, e a inflação, embora resistente, não ultrapassa o limite superior da meta.
Na semana passada, soubemos de outra derrota brasileira na Argentina, agora também no campo da economia. Nosso grande parceiro comercial do Mercosul está reduzindo suas compras do Brasil em velocidade surpreendente, 18% no ano passado, enquanto o superavit bilateral brasileiro caía 65%.
Esse comportamento poderia ser considerado normal, dadas as dificuldades argentinas e o desaquecimento de sua economia. Mas a mesma conduta não se dá em relação a outros importantes parceiros comerciais do país vizinho. Enquanto enfraquecia sua relação comercial com o Brasil, a Argentina aumentava em 160% suas compras da Holanda, 9% dos Estados Unidos, 7% do Japão e 2% da Alemanha.
A Argentina tem sido grande compradora de manufaturados brasileiros. Mas não se pode atribuir unicamente a ela a atual tendência de redução das vendas externas de manufaturas.
Observe-se, por exemplo, a variação da participação dos manufaturados nas exportações brasileiras em geral, que atingiu 60% do total exportado no ano 2000 e caiu para 37% no ano passado.
Em 2012, as exportações gerais de manufaturados, com um câmbio mais favorável no segundo semestre (taxa média na faixa de R$ 2,05), tiveram apenas uma pequena queda, de 1,7% na comparação com 2011. Os básicos e os semimanufaturados, em razão da forte redução das cotações das commodities industriais e agrícolas, caíram fortemente -7,4% e 8,3%, respectivamente.
Preocupa muito, de qualquer forma, a continuidade do comportamento negativo das exportações gerais de manufaturas neste ano. No primeiro bimestre, a queda foi de quase 10% em relação ao mesmo período do ano passado.
A tendência negativa tem a ver com a debilidade dos mercados desenvolvidos e também com a valorização do real ante o dólar e a baixa competitividade do produto brasileiro. Um estudo da Fiesp mostra que o produto brasileiro é 34,2% mais caro quando comparado com similares dos 15 países que mais fornecem ao Brasil.
Para o futuro imediato, há ainda outro fator preocupante: a reindustrialização da economia americana, já em curso, impulsionada pelos baixos custos da energia do gás de xisto e pelo câmbio favorável, vai colocar no mercado uma nova leva de produtos manufaturados americanos competitivos.
Feitas essas ressalvas, voltemos ao fator Argentina. Não há como negar que a relação comercial brasileira com o grande parceiro do Mercosul está em deterioração e precisa ser rediscutida de maneira séria.
Há um protecionismo crescente no país vizinho, que impõe dificuldades alfandegárias para a entrada de manufaturados brasileiros, em desrespeito a normas do Mercosul. O assunto é de vital importância para a indústria de manufaturados brasileira e para a própria balança comercial do país.
E a rediscussão da parceria continental precisa incluir a criação de mecanismos que facilitem acordos de comércio também com Estados Unidos e Europa.
Argentina, especificamente, é um tema que exige atuação rápida da diplomacia brasileira. Está longe de se restringir à rivalidade futebolística ou à disputa na eleição papal. É algo que tem impacto na economia brasileira.
Estimativas indicam que, considerando efeitos diretos e indiretos, o fator Argentina tirou 0,5 ponto percentual da taxa de crescimento do PIB do Brasil em 2012.
Apagão logístico, crônica de uma morte anunciada - MARCOS SAWAYA JANK
O ESTADO DE S. PAULO - 26/03
Volto hoje à carga a respeito do caos na logística de produtos agrícolas que vamos viver este ano. A gravidade da situação está perfeitamente ilustrada na fila de 25 quilômetros de caminhões na Rodovia Cônego Domênico Rangoni, esperando 70 horas para descarregar no Porto de Santos e infernizando também a vida dos que vão para o Guarujá ou para o Litoral Norte.
Não dá para dizer que esse caos seja uma surpresa conjuntural imprevisível. Nos últimos 12 anos a safra brasileira de grãos dobrou de tamanho, enquanto a logística praticamente nada mudou. O que estamos assistindo é à "crônica de uma morte anunciada", após duas décadas de descaso, legislação anacrônica, instalações precárias, burocracia infernal, reserva de mercado e corporativismo endêmico. Enquanto no Brasil o principal modal é o caminhão rodando milhares de quilômetros em estradas esburacadas (55% da distribuição de grãos), nos EUA, nosso maior concorrente, hidrovias construídas há mais de 80 anos nos Rios Mississippi, Missouri e outros respondem por 60% do transporte de grãos.
Hoje nosso maior gargalo está nos portos. A logística portuária começou mal este ano, com 27 dias parados por causa de chuvas - o carregamento dos navios é feito a céu aberto e qualquer indício de chuva interrompe a operação. Além disso, em decorrência da quebra da safra americana, o Brasil tornou-se o maior exportador mundial de milho - com 25 milhões de toneladas exportadas, ante 8,5 milhões na safra passada. Esse imenso volume de milho está atrasando os embarques de soja, que, por sua vez, vão afetar os embarques de açúcar a partir de abril e de milho safrinha a partir de julho. Na semana passada a fila para carregar soja nos portos brasileiros superou 200 navios, 80 mais do que no mesmo período do ano passado.
De março a julho vamos ter de escoar 7,2 milhões de toneladas por mês de soja e milho pelos portos, valor 25% superior ao do mesmo período do ano passado. Não é difícil prever que esses quatro meses serão
um caos, principalmente se chover demais, já que estaremos operando muito próximos da capacidade máxima dos portos. Outra agravante é a nova lei dos caminhoneiros - que determina paradas obrigatórias dos caminhões a cada quatro horas, com jornada máxima diária de 11 horas -, além do problema da falta de caminhoneiros, estimado em 50 mil a 100 mil profissionais. Outro grave problema é a deficiência de armazéns, uma vez que só conseguimos estocar 65% dos grãos produzidos no País. Ao contrário do que ocorre nos nossos principais competidores, no Brasil o caminhão tornou-se um "armazém sobre rodas", porque não tem onde colocar o produto e na safra a única solução é a carreta na fila de espera para o porto.
Portanto, no curto prazo a única variável de ajuste possível serão novos aumentos de fretes, destruindo a rentabilidade de produtores e traders. Dez anos atrás, o custo de frete no Brasil era duas vezes superior ao da Argentina e dos EUA. Este ano, numa visão otimista, será, no mínimo, quatro vezes superior (mais de US$ 100/t, ante cerca de US$ 25/t nos nossos concorrentes) , chegando a ser cinco, sete vezes maior para as regiões mais distantes do Cerrado.
Não é de espantar, portanto, que um grande importador chinês tenha cancelado o carregamento de 33 navios de soja, trocando o suprimento brasileiro pelo da Argentina. Os chineses são extremamente oportunistas nessa hora e, obviamente, utilizam esse recurso para renegociar os seus contratos em melhores termos. Mas a culpa não é deles, é nossa!
A única solução para o caos logístico encontra-se no médio e longo prazos e se chama investimento maciço. Precisaríamos investir pelo menos R$ 40 bilhões no sistema portuário, montante quase três vezes maior que a soma prevista nos programas PAC-1 e PAC-2. Um dos caminhos mais importantes para isso seria a aprovação da Medida Provisória 595, a "Lei dos Portos", ora em tramitação no Congresso Nacional. No entanto, diversos itens do projeto ainda mostram fortes controvérsias entre os vários grupos de interesse envolvidos.
São eles: 1) A distinção entre os terminais dentro da área do "porto organizado" e os terminais de uso privado (TUPs) fora dela, incluindo a redefinição dos limites geográficos de cada porto, chamados de "poligonal", um tema extremamente polêmico; 2) a redefinição das licitações para concessões ou arrendamentos, agora com base no critério de modicidade tarifária (maior movimentação com a menor tarifa); 3) o tratamento a ser dado aos terminais de uso privativo hoje existentes dentro de portos organizados, principalmente o dilema do encerramento versus prorrogação dos contratos de arrendamento atuais; 4) o fim da distinção entre movimentação de "carga própria" e "carga de terceiros" como elemento essencial para a exploração das instalações portuárias autorizadas; 5) a nova organização institucional dos portos e a redefinição do poder concedente nas concessões; 6) o compartilhamento de infraestruturas; e 7) o tratamento diferenciado para trabalhadores portuários.
O fato é que, no campo, fizemos muito bem a nossa lição de casa. A produtividade total dos fatores (terra, trabalho e capital) da agricultura brasileira é a que mais vem crescendo no mundo: 3,6% ao ano desde 2000. Mas a logística está destruindo tudo o que foi conquistado dentro das fazendas, não apenas no exemplo dos grãos, mas também do açúcar, das carnes e de outras commodities, hoje igualmente "engargaladas".
Infelizmente, temos de nos conformar com o fato de que o "apagão" da logística chegou. Neste momento, além de rezar muito para que ele não seja total, deveríamos concentrar-nos na aprovação urgente dos marcos regulatórios e dos investimentos necessários para escapar dessa calamidade. E isso ainda vai demorar alguns anos
Qual coalizão? - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 26/03
Mais uma vez a presidente Dilma utilizou-se da defesa do "presidencialismo de coalizão" para indiretamente criticar o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, mas, desta vez, tendo-o a seu lado no palanque. Anteriormente, ela falara da necessidade de lealdade política ao empossar novos ministros, cujas escolhas tinham o objetivo de fortalecer o PMDB e minar as candidaturas de Campos e de Aécio Neves, não de melhorar a gestão pública.
A questão é que no Brasil uma interpretação distorcida do que seja o papel dos partidos políticos no apoio a um governo levou a que a corrupção e o fisiologismo se tornassem elementos fundamentais da chamada "governabilidade"
Ontem a presidente reafirmou que "nenhuma força política sozinha é capaz de dirigir um país desta complexidade" para acrescentar que precisa de parceiros "comprometidos com esse caminho" que é o de reduzir as desigualdades no país e combater a miséria. Acontece que o governador pernambucano, com um pé fora da coalizão governista, está convencido de que a maneira como ela está organizada não ajuda a alcançar os objetivos desejados, pois o que a comanda seria o fisiologismo e o toma lá dá cá, de um lado, e o insaciável apetite petista por cargos do outro.
O PSB tem um diagnóstico sobre a situação do país que não coincide com a euforia propagandeada pelo governo. Campos está convencido de que o caminho escolhido é correto, mas acha que os instrumentos utilizados pelo PT são antiquados e colaboram para atravancar o desenvolvimento da economia. Seria preciso mudar o grupo dirigente, mas manter o mesmo rumo. Como explicar isso para o eleitor?
Por isso, ontem, ele reafirmou do palanque o reconhecimento das políticas anteriores à chegada do PT ao governo, para deixar claro que não participa dessa imagem vendida pelo governo e, por enquanto, aceita com grande ênfase pelo eleitorado de que o país só encontrou seu verdadeiro caminho quando o PT chegou ao poder. Sem a realização de reformas estruturais na economia brasileira, não teremos condições de sair desse marasmo em que o país estacionou, num desencontro entre a percepção do cidadão comum e a realidade dos números.
Eduardo Campos - assim como Aécio Neves -, está convencido de que, a continuar nesse ritmo, com a inflação acima da meta e o crescimento baixo, logo a conseqüência será sentida no bolso do brasileiro, minando a popularidade da presidente Dilma. O que não sabem é se esse casamento da percepção com a realidade chegará ainda a ponto de enfraquecer a candidatura da presidente ou se a decepção ficará para o segundo mandato.
E essa avaliação que o governador Eduardo Campos está fazendo no momento, tendente a concorrer mesmo que a presidente Dilma continue favorita nas pesquisas. A coalizão do governo Dilma é instável porque a maioria que a compõe é de partidos de corte tradicional, pragmático, clientelista, que, além de não ter qualquer afinidade com o projeto político do PT são caçados pelo PT nas suas bases.
O caso do PSB é mais paradoxal, pois é um desses partidos historicamente aliados ao PT que sofrem para ganhar um espaço maior no governo, sendo pragmaticamente trocados pelo PMDB ou outro partido qualquer, desde que os interesses de curto prazo do governo assim determinem.
Um governo de coalizão pressupõe, segundo os especialistas, mais que a partilha de cargos, a partilha do próprio poder, o que dificilmente acontece. Como ficou explícito recentemente na eleição municipal, o PT não respeita o território do parceiro, por mais comprometido com o governo que ele seja, e, se outros partidos se satisfazem com as migalhas oferecidas pelo governo, o PSB acha que merece mais e procura o caminho alternativo para realizar seu projeto. Mas esbarra na definição da estratégia.
Como ficou claro ontem, a presidente Dilma usará o nome de Lula para acusar Eduardo Campos de ingratidão, para não falar em traição. E Campos terá que encontrar um caminho para explicar ao eleitorado que continua do mesmo lado.
A questão é que no Brasil uma interpretação distorcida do que seja o papel dos partidos políticos no apoio a um governo levou a que a corrupção e o fisiologismo se tornassem elementos fundamentais da chamada "governabilidade"
Ontem a presidente reafirmou que "nenhuma força política sozinha é capaz de dirigir um país desta complexidade" para acrescentar que precisa de parceiros "comprometidos com esse caminho" que é o de reduzir as desigualdades no país e combater a miséria. Acontece que o governador pernambucano, com um pé fora da coalizão governista, está convencido de que a maneira como ela está organizada não ajuda a alcançar os objetivos desejados, pois o que a comanda seria o fisiologismo e o toma lá dá cá, de um lado, e o insaciável apetite petista por cargos do outro.
O PSB tem um diagnóstico sobre a situação do país que não coincide com a euforia propagandeada pelo governo. Campos está convencido de que o caminho escolhido é correto, mas acha que os instrumentos utilizados pelo PT são antiquados e colaboram para atravancar o desenvolvimento da economia. Seria preciso mudar o grupo dirigente, mas manter o mesmo rumo. Como explicar isso para o eleitor?
Por isso, ontem, ele reafirmou do palanque o reconhecimento das políticas anteriores à chegada do PT ao governo, para deixar claro que não participa dessa imagem vendida pelo governo e, por enquanto, aceita com grande ênfase pelo eleitorado de que o país só encontrou seu verdadeiro caminho quando o PT chegou ao poder. Sem a realização de reformas estruturais na economia brasileira, não teremos condições de sair desse marasmo em que o país estacionou, num desencontro entre a percepção do cidadão comum e a realidade dos números.
Eduardo Campos - assim como Aécio Neves -, está convencido de que, a continuar nesse ritmo, com a inflação acima da meta e o crescimento baixo, logo a conseqüência será sentida no bolso do brasileiro, minando a popularidade da presidente Dilma. O que não sabem é se esse casamento da percepção com a realidade chegará ainda a ponto de enfraquecer a candidatura da presidente ou se a decepção ficará para o segundo mandato.
E essa avaliação que o governador Eduardo Campos está fazendo no momento, tendente a concorrer mesmo que a presidente Dilma continue favorita nas pesquisas. A coalizão do governo Dilma é instável porque a maioria que a compõe é de partidos de corte tradicional, pragmático, clientelista, que, além de não ter qualquer afinidade com o projeto político do PT são caçados pelo PT nas suas bases.
O caso do PSB é mais paradoxal, pois é um desses partidos historicamente aliados ao PT que sofrem para ganhar um espaço maior no governo, sendo pragmaticamente trocados pelo PMDB ou outro partido qualquer, desde que os interesses de curto prazo do governo assim determinem.
Um governo de coalizão pressupõe, segundo os especialistas, mais que a partilha de cargos, a partilha do próprio poder, o que dificilmente acontece. Como ficou explícito recentemente na eleição municipal, o PT não respeita o território do parceiro, por mais comprometido com o governo que ele seja, e, se outros partidos se satisfazem com as migalhas oferecidas pelo governo, o PSB acha que merece mais e procura o caminho alternativo para realizar seu projeto. Mas esbarra na definição da estratégia.
Como ficou claro ontem, a presidente Dilma usará o nome de Lula para acusar Eduardo Campos de ingratidão, para não falar em traição. E Campos terá que encontrar um caminho para explicar ao eleitorado que continua do mesmo lado.
A canoa virou - DORA KRAMER
O ESTADO DE S. PAULO - 26/03
Se havia alguma chance remota de PT e PMDB se juntarem em palanque único no Rio de Janeiro em nome da unidade em torno da reeleição da presidente Dilma Rousseff, esta hipótese ficou definitivamente afastada no último fim de semana.
O pré-candidato do PT, senador Lindbergh Farias, se declara oficialmente em oposição ao governador do Estado, Sérgio Cabral Filho,por causa da publicação na revista Época de uma denúncia de que teria montado esquema de corrupção quando prefeito de Nova Iguaçu (Baixada Fluminense). A revista deixou claro que a denúncia foi entregue pelo PMDB.
O petista reagiu de imediato postando na internet um vídeo em que chama o grupo de Cabral de "corja de patrimonialistas", entre outras delicadezas. Ficou possesso, é verdade, mas de certa forma se diz agradecido ao governador (Cabral negou a autoria em nota, mas Lindberg não acreditou).
"Até agora eu tinha um grande problema na minha candidatura: não podia atacar o governador devido às relações dele com a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula. Havia uma espécie de acordo de não agressão. Como ele resolveu declarar guerra já no primeiro capítulo do livro, estou liberado para fazer oposição", diz o senador, que prevê clima de radicalização total.
Mas, vamos à questão central: oposição em que termos?
"Não vou entrar no jogo sujo de dossiês, vou demarcar terreno na política, mostrar ao eleitorado que, se o PMDB conseguiu avanços para o Rio devido à parceria com o governo federal, nós do PT somos muito mais parceiros e podemos fazer em relação aos mais pobres, como Lula fez no Brasil."
Lindbergh já tem os números preparados para mostrar que no governo atual houve concentração de investimentos nas regiões mais nobres (zona sul e Barra) e descaso em relação às regiões que não compõem o cartão postal do Rio como cidade maravilhosa.
Na visão do petista, o PMDB está sendo autoritário e desleal no Rio. Autoritário porque não admite concorrência, quer construir uma "super hegemonia", obrigando os adversários a viverem eternamente a reboque do partido (isso Lindbergh não diz, mas é o mesmo que o PT faz no plano nacional).
A deslealdade, segundo ele, estaria não só na utilização de dossiês, mas também em outros dois pontos: a ameaça de não apoiar a reeleição de Dilma se o PT nacional não intervier para a retirada da candidatura e a tentativa de reabrir julgamento de contas já aprovadas da gestão de Lindbergh em Nova Iguaçu.
"Que relação é essa? Se começam assim, é porque o plano é nos aniquilar."
Partindo desse princípio, o senador acha que o PMDB não recua da candidatura do vice-governador Luiz Fernando Pezão e que não há possibilidade de intervenção por parte do PT. "Não desisto nem se Lula e Dilma pedirem, até porque não pedirão, pois sabem que a resposta será negativa."
Atritos à parte, o PT não desiste principalmente porque tem chance de ganhar. No momento, as pesquisas indicam Lindbergh em primeiro lugar (28%) , o deputado Anthony Garotinho em segundo (21%) e Pezão em terceiro (10%).
Muito bem, e a parceria nacional entre os dois partidos como fica?
"Da minha parte, inabalada. Na reeleição de Lula no Rio ele chegou a fazer um comício de tarde para um candidato e de noite para outro."
O senador avisa que não vai pedir à presidente nem a Lula exclusividade no apoio e também que não acredita na ameaça do PMDB de romper com o Planalto por causa de uma eleição estadual.
"Se romper, melhor ainda, fico sozinho com Dilma aqui no Rio e aí é que eles perdem mesmo."
Toda eleição tem uma disputa regional que chama mais atenção. Em 2012 aconteceu em São Paulo e Recife. Em 2014, o Rio aparece como forte candidato a produzir grandes emoções.
O pré-candidato do PT, senador Lindbergh Farias, se declara oficialmente em oposição ao governador do Estado, Sérgio Cabral Filho,por causa da publicação na revista Época de uma denúncia de que teria montado esquema de corrupção quando prefeito de Nova Iguaçu (Baixada Fluminense). A revista deixou claro que a denúncia foi entregue pelo PMDB.
O petista reagiu de imediato postando na internet um vídeo em que chama o grupo de Cabral de "corja de patrimonialistas", entre outras delicadezas. Ficou possesso, é verdade, mas de certa forma se diz agradecido ao governador (Cabral negou a autoria em nota, mas Lindberg não acreditou).
"Até agora eu tinha um grande problema na minha candidatura: não podia atacar o governador devido às relações dele com a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula. Havia uma espécie de acordo de não agressão. Como ele resolveu declarar guerra já no primeiro capítulo do livro, estou liberado para fazer oposição", diz o senador, que prevê clima de radicalização total.
Mas, vamos à questão central: oposição em que termos?
"Não vou entrar no jogo sujo de dossiês, vou demarcar terreno na política, mostrar ao eleitorado que, se o PMDB conseguiu avanços para o Rio devido à parceria com o governo federal, nós do PT somos muito mais parceiros e podemos fazer em relação aos mais pobres, como Lula fez no Brasil."
Lindbergh já tem os números preparados para mostrar que no governo atual houve concentração de investimentos nas regiões mais nobres (zona sul e Barra) e descaso em relação às regiões que não compõem o cartão postal do Rio como cidade maravilhosa.
Na visão do petista, o PMDB está sendo autoritário e desleal no Rio. Autoritário porque não admite concorrência, quer construir uma "super hegemonia", obrigando os adversários a viverem eternamente a reboque do partido (isso Lindbergh não diz, mas é o mesmo que o PT faz no plano nacional).
A deslealdade, segundo ele, estaria não só na utilização de dossiês, mas também em outros dois pontos: a ameaça de não apoiar a reeleição de Dilma se o PT nacional não intervier para a retirada da candidatura e a tentativa de reabrir julgamento de contas já aprovadas da gestão de Lindbergh em Nova Iguaçu.
"Que relação é essa? Se começam assim, é porque o plano é nos aniquilar."
Partindo desse princípio, o senador acha que o PMDB não recua da candidatura do vice-governador Luiz Fernando Pezão e que não há possibilidade de intervenção por parte do PT. "Não desisto nem se Lula e Dilma pedirem, até porque não pedirão, pois sabem que a resposta será negativa."
Atritos à parte, o PT não desiste principalmente porque tem chance de ganhar. No momento, as pesquisas indicam Lindbergh em primeiro lugar (28%) , o deputado Anthony Garotinho em segundo (21%) e Pezão em terceiro (10%).
Muito bem, e a parceria nacional entre os dois partidos como fica?
"Da minha parte, inabalada. Na reeleição de Lula no Rio ele chegou a fazer um comício de tarde para um candidato e de noite para outro."
O senador avisa que não vai pedir à presidente nem a Lula exclusividade no apoio e também que não acredita na ameaça do PMDB de romper com o Planalto por causa de uma eleição estadual.
"Se romper, melhor ainda, fico sozinho com Dilma aqui no Rio e aí é que eles perdem mesmo."
Toda eleição tem uma disputa regional que chama mais atenção. Em 2012 aconteceu em São Paulo e Recife. Em 2014, o Rio aparece como forte candidato a produzir grandes emoções.
Justiça sem injustiça - LUIZ GARCIA
O GLOBO - 26/03
A classe média brasileira com certeza é menos próspera do que a de países mais ricos da Europa e da América do Norte. Mas a sua fatia mais rica leva vantagem sobre quase todos eles, na quantidade de empregados domésticos. O motivo é simples e nada tem de lisonjeiro: ele deriva da oferta farta de mão de obra.
As jovens brasileiras das camadas mais pobres da população não têm acesso a um sistema de educação que lhes permita buscar trabalho mais compensador do que aquilo que aprendem em casa: cozinhar e cuidar dos filhos da classe média e dos ricos.
Está tramitando no Senado um projeto já aprovado na Câmara dos Deputados que dá aos empregados domésticos direitos que já existem para outros trabalhadores: jornada diária de oito horas, pagamento de horas extras, adicional noturno, salário família, seguro desemprego etc. A novidade foi aprovada esta semana pela Comissão de Constituição e Justiça e falta apenas passar pelo plenário em dois turnos. A bancada do governo é a favor, e a oposição não parece disposta a votar contra um projeto obviamente popular.
Curiosamente, o projeto é criticado por um dos defensores da classe: é o presidente do Instituto Doméstica Legal, Mário Avelino. Ele sustenta que as mudanças significarão que os patrões dos empregados terão de enfrentar um aumento nas despesas domésticas de cerca de 40%. Avelino calcula que isso levará ao desemprego cerca de 800 mil pessoas - a maioria, obviamente, de mulheres. O senador Agripino Maia, presidente do DEM, um pouco mais otimista, calcula que muitos empregadores substituirão mensalistas por diaristas. É uma pequena vantagem.
Sejam quais forem as consequências do novo sistema, parece evidente que as melhorias para os empregados - todas elas aparentemente justas e merecidas - terão seu preço, tanto para as famílias como para quem trabalha para elas. É impossível não reconhecer que cozinheiras e babás têm direito a vantagens que certamente merecem. Mas seria mais inteligente que os defensores do projeto nele incluíssem alguma forma de compensação para os patrões domésticos, talvez associada à renda mensal dos patrões.
Até agora, só uma foi proposta: a redução da alíquota para a previdência social que lhes é exigida, de 12% para 8%. Sem isso, Mário Avelino calcula que a nova lei provocará o desemprego de 800 mil empregados domésticos no país inteiro.
Em resumo: toda benesse tem seu preço. A classe política sabe disso muito bem. No caso de patrões e empregados domésticos, cabe ao Congresso aprovar uma lei que seja justa - e, por isso, popular -, mas não tenha consequências injustas.
As jovens brasileiras das camadas mais pobres da população não têm acesso a um sistema de educação que lhes permita buscar trabalho mais compensador do que aquilo que aprendem em casa: cozinhar e cuidar dos filhos da classe média e dos ricos.
Está tramitando no Senado um projeto já aprovado na Câmara dos Deputados que dá aos empregados domésticos direitos que já existem para outros trabalhadores: jornada diária de oito horas, pagamento de horas extras, adicional noturno, salário família, seguro desemprego etc. A novidade foi aprovada esta semana pela Comissão de Constituição e Justiça e falta apenas passar pelo plenário em dois turnos. A bancada do governo é a favor, e a oposição não parece disposta a votar contra um projeto obviamente popular.
Curiosamente, o projeto é criticado por um dos defensores da classe: é o presidente do Instituto Doméstica Legal, Mário Avelino. Ele sustenta que as mudanças significarão que os patrões dos empregados terão de enfrentar um aumento nas despesas domésticas de cerca de 40%. Avelino calcula que isso levará ao desemprego cerca de 800 mil pessoas - a maioria, obviamente, de mulheres. O senador Agripino Maia, presidente do DEM, um pouco mais otimista, calcula que muitos empregadores substituirão mensalistas por diaristas. É uma pequena vantagem.
Sejam quais forem as consequências do novo sistema, parece evidente que as melhorias para os empregados - todas elas aparentemente justas e merecidas - terão seu preço, tanto para as famílias como para quem trabalha para elas. É impossível não reconhecer que cozinheiras e babás têm direito a vantagens que certamente merecem. Mas seria mais inteligente que os defensores do projeto nele incluíssem alguma forma de compensação para os patrões domésticos, talvez associada à renda mensal dos patrões.
Até agora, só uma foi proposta: a redução da alíquota para a previdência social que lhes é exigida, de 12% para 8%. Sem isso, Mário Avelino calcula que a nova lei provocará o desemprego de 800 mil empregados domésticos no país inteiro.
Em resumo: toda benesse tem seu preço. A classe política sabe disso muito bem. No caso de patrões e empregados domésticos, cabe ao Congresso aprovar uma lei que seja justa - e, por isso, popular -, mas não tenha consequências injustas.
Abolição da escravatura - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 26/03
BRASÍLIA - A escravatura já tinha sido oficialmente abolida, mas minha bisavó e depois a minha avó foram cercadas de escravas. Até "ama de leite" o meu pai teve, antes de a usina ruir sob o peso das multinacionais e a família falir.
Essas escravas pós-escravatura eram as "crias". Matavam-se dias e noites na casa-grande, em troca de cama, comida e água fresca na senzala -pela qual deveriam ser muito gratas às sinhazinhas. Marina Silva sofreu na pele essa história.
Do outro lado da família, o urbano, minha mãe trabalhou desde sempre e fui criada por empregadas que vinham "do norte", não tinham onde morar e viravam "pessoas da família". Eram gratas por serem acolhidas, mas também mereciam gratidão por cuidarem dos filhos pequenos e tinham salário, direito de ir e vir, folgas nos fins de semana. Era pouco.
Na minha geração, com as mulheres mergulhando no feroz mercado de trabalho, proliferaram os empregados domésticos e vieram a carteira assinada, o salário-mínimo, as férias anuais, o 13º salário. Ainda pouco.
Já na das minhas filhas, prevalecem as diaristas, horário estipulado, de segunda a sexta, todos os direitos. E, em vez de babás, os pais assumem os seus bebês e contratam creches.
Estamos, claro, falando de famílias de classe média/média alta de uma parte do país. Em outra, como no meu Maranhão paterno, ainda há fortes resquícios de escravatura em pleno 2013. E o pior é quem condena o que ocorre lá, mas discorda da PEC das domésticas cá.
O argumento de que "vai ficar caro e faltar emprego" dissimula o velho pretexto "econômico" para impedir direitos e avanços sociais. Se fosse só uma questão econômica, a escravatura jamais teria terminado. Nem nos EUA nem aqui.
Que o Senado diga "sim", hoje, à nova legislação dos trabalhadores domésticos. Eles não são mais escravos nem precisam de patrões "bonzinhos". São profissionais com direitos e deveres como qualquer outro.
BRASÍLIA - A escravatura já tinha sido oficialmente abolida, mas minha bisavó e depois a minha avó foram cercadas de escravas. Até "ama de leite" o meu pai teve, antes de a usina ruir sob o peso das multinacionais e a família falir.
Essas escravas pós-escravatura eram as "crias". Matavam-se dias e noites na casa-grande, em troca de cama, comida e água fresca na senzala -pela qual deveriam ser muito gratas às sinhazinhas. Marina Silva sofreu na pele essa história.
Do outro lado da família, o urbano, minha mãe trabalhou desde sempre e fui criada por empregadas que vinham "do norte", não tinham onde morar e viravam "pessoas da família". Eram gratas por serem acolhidas, mas também mereciam gratidão por cuidarem dos filhos pequenos e tinham salário, direito de ir e vir, folgas nos fins de semana. Era pouco.
Na minha geração, com as mulheres mergulhando no feroz mercado de trabalho, proliferaram os empregados domésticos e vieram a carteira assinada, o salário-mínimo, as férias anuais, o 13º salário. Ainda pouco.
Já na das minhas filhas, prevalecem as diaristas, horário estipulado, de segunda a sexta, todos os direitos. E, em vez de babás, os pais assumem os seus bebês e contratam creches.
Estamos, claro, falando de famílias de classe média/média alta de uma parte do país. Em outra, como no meu Maranhão paterno, ainda há fortes resquícios de escravatura em pleno 2013. E o pior é quem condena o que ocorre lá, mas discorda da PEC das domésticas cá.
O argumento de que "vai ficar caro e faltar emprego" dissimula o velho pretexto "econômico" para impedir direitos e avanços sociais. Se fosse só uma questão econômica, a escravatura jamais teria terminado. Nem nos EUA nem aqui.
Que o Senado diga "sim", hoje, à nova legislação dos trabalhadores domésticos. Eles não são mais escravos nem precisam de patrões "bonzinhos". São profissionais com direitos e deveres como qualquer outro.
Embaraços no setor elétrico - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 26/03
Não fosse bastante o clima de insegurança regulatória que passou a pairar sobre o setor elétrico com a desastrada intervenção do governo em nome da boa causa do corte de tarifas, a temporada de chuvas está no final e os reservatórios se encontram, na média, no nível mais baixo dos últimos dez anos, com apenas 52% de sua capacidade no Sudeste e Centro-Oeste, onde estão 70% da capacidade de armazenamento de água do sistema.
Infelizmente, do ponto de vista da geração de energia, tem chovido no lugar errado: mais no litoral e menos nas cabeceiras dos rios que abastecem os reservatórios das hidrelétricas.
Os dois ingredientes misturados — dúvidas regulatórias e falta de chuvas — exigirão do governo uma competência administrativa em alto grau. E não apenas no setor elétrico, mas na gestão financeira e fiscal. Pois, se confirmado o mau período hidrológico, as termelétricas terão de ficar ligadas sem interrupção até o próximo ciclo de chuvas, no verão de 2013/2014. E por terem as térmicas um custo operacional mais elevado que as hidrelétricas, por usarem gás, óleo diesel e óleo combustível, em vez de água,o Tesouro, calcula-se, terá de destinar R$ 11 bilhões para fechar as contas das empresas, ou seja, a despesa de R$ 2,6 bilhões feita em 2012 com o mesmo fim multiplicada por quase cinco.
Sem este dinheiro, as operadoras quebrariam ou a presidente Dilma teria de voltar atrás na promessa do corte de 20% na conta de luz. Ruim para a economia, mortal para o projeto da reeleição.
Do tamanho de quase metade de um orçamento anual do Bolsa Família, a despesa não prevista se soma aos efeitos das desonerações tributárias e de uma economia cujo crescimento deverá ficar na faixa dos 3%, com reflexos na arrecadação, e começa a estreitar a margem de manobra no campo fiscal.
Juros mais baixos são sempre uma ajuda. Mas contar com eles como variável da equação fiscal, e quando a inflação se mostra ameaçadora, é querer viver perigosamente.
Ao mesmo tempo em que gerencia esta conjuntura, o governo precisa consertar o estrago feito ao impor uma desvalorização patrimonial às empresas, na renovação imposta de concessões e revisão de tarifas. Foi tão draconiana a operação que apenas as estatais federais “aceitaram” as condições.
As desvalorizações em bolsas, no Brasil e lá fora, foram substanciais, sinal de que custará bem mais caro qualquer capitalização via mercado para financiar investimentos.
E, como em todos os outros setores da economia, faltam investimentos. Para os quais é essencial a iniciativa privada, porque o Estado não tem condições de tocá-los. Como em vários outros setores, o governo Dilma precisa reconquistar a confiança dos investidores. Até para ampliar o parque termelétrico, a salvação em 2013 e sempre que não chover.
Não fosse bastante o clima de insegurança regulatória que passou a pairar sobre o setor elétrico com a desastrada intervenção do governo em nome da boa causa do corte de tarifas, a temporada de chuvas está no final e os reservatórios se encontram, na média, no nível mais baixo dos últimos dez anos, com apenas 52% de sua capacidade no Sudeste e Centro-Oeste, onde estão 70% da capacidade de armazenamento de água do sistema.
Infelizmente, do ponto de vista da geração de energia, tem chovido no lugar errado: mais no litoral e menos nas cabeceiras dos rios que abastecem os reservatórios das hidrelétricas.
Os dois ingredientes misturados — dúvidas regulatórias e falta de chuvas — exigirão do governo uma competência administrativa em alto grau. E não apenas no setor elétrico, mas na gestão financeira e fiscal. Pois, se confirmado o mau período hidrológico, as termelétricas terão de ficar ligadas sem interrupção até o próximo ciclo de chuvas, no verão de 2013/2014. E por terem as térmicas um custo operacional mais elevado que as hidrelétricas, por usarem gás, óleo diesel e óleo combustível, em vez de água,o Tesouro, calcula-se, terá de destinar R$ 11 bilhões para fechar as contas das empresas, ou seja, a despesa de R$ 2,6 bilhões feita em 2012 com o mesmo fim multiplicada por quase cinco.
Sem este dinheiro, as operadoras quebrariam ou a presidente Dilma teria de voltar atrás na promessa do corte de 20% na conta de luz. Ruim para a economia, mortal para o projeto da reeleição.
Do tamanho de quase metade de um orçamento anual do Bolsa Família, a despesa não prevista se soma aos efeitos das desonerações tributárias e de uma economia cujo crescimento deverá ficar na faixa dos 3%, com reflexos na arrecadação, e começa a estreitar a margem de manobra no campo fiscal.
Juros mais baixos são sempre uma ajuda. Mas contar com eles como variável da equação fiscal, e quando a inflação se mostra ameaçadora, é querer viver perigosamente.
Ao mesmo tempo em que gerencia esta conjuntura, o governo precisa consertar o estrago feito ao impor uma desvalorização patrimonial às empresas, na renovação imposta de concessões e revisão de tarifas. Foi tão draconiana a operação que apenas as estatais federais “aceitaram” as condições.
As desvalorizações em bolsas, no Brasil e lá fora, foram substanciais, sinal de que custará bem mais caro qualquer capitalização via mercado para financiar investimentos.
E, como em todos os outros setores da economia, faltam investimentos. Para os quais é essencial a iniciativa privada, porque o Estado não tem condições de tocá-los. Como em vários outros setores, o governo Dilma precisa reconquistar a confiança dos investidores. Até para ampliar o parque termelétrico, a salvação em 2013 e sempre que não chover.
Outra vez a infraestrutura - GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 26/03
A infraestrutura nacional é basicamente estatal, razão por que o drama se agrava, sobretudo se o governo não investir e não deixar o setor privado investir
As enormes filas de caminhões de soja nas estradas de acesso aos portos e os insuportáveis congestionamentos trazem à tona, de novo, a trágica situação da infraestrutura brasileira. Entre os economistas e os analistas de cenários, é cada vez mais forte a crença de que o colapso da infraestrutura impedirá o Brasil de se desenvolver e deixar a condição de país atrasado nos próximos 20 anos. Quando se analisa o ano passado, na prática o gargalo na infraestrutura já começou a frear o crescimento, cuja taxa foi de apenas 0,9%.
A taxa de investimento em 2012 ficou em apenas 18,1% do Produto Interno Bruto (PIB), bem abaixo da taxa de 19,3% em 2011. Os economistas chamam isso de “formação bruta de capital fixo” e significa quanto o país investe em infraestrutura física (portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, usinas de energia, expansão da telefonia, armazenagem etc.), infraestrutura social (escolas, hospitais, habitação, saneamento, creches etc.) e infraestrutura empresarial (prédios, máquinas, equipamentos, móveis e aparelhos de produção).
Em condições normais, estima-se que a taxa de investimento desejada seja de 25% do PIB, para permitir um crescimento de 5% ao ano. O caso brasileiro apresenta um problema adicional: como a infraestrutura está envelhecida, o volume de investimentos necessários somente para recuperar o que já existe anda entre 2% e 4% do PIB. Essa situação, que já não é boa, tem uma agravante séria: dos 18,1% de investimentos de 2012, a parte feita pelo setor público representa pífios 2% do PIB. Os outros 16,1% referem-se a investimentos feitos pelo setor privado.
Esses dados são dramáticos e suficientes para justificar a necessidade de o país pensar urgentemente em alguma prática nova em matéria de gestão macroeconômica, caso se queira tirar a nação da pobreza nos próximos 20 anos. Mas os problemas não param aí. O investimento de apenas 2% do PIB feito pelo governo é ainda pior quando comparado com o tamanho da carga tributária efetivamente arrecadada, que está em 38% do PIB.
Há países em que o setor público não investe muito mais que o Brasil como proporção do PIB. Mas sua carga tributária não é tão alta. Tomando o exemplo do Chile: se seu governo investisse somente 2% do PIB, o estrago no crescimento não seria grande, pois a arrecadação tributária lá anda na faixa dos 20% do PIB. Em casos como esse, o setor privado, tributado com carga moderada, assume a dianteira dos investimentos necessários ao crescimento econômico.
No caso brasileiro, a infraestrutura, especialmente física, é basicamente estatal, razão por que o drama se agrava, sobretudo se o governo não investir e não deixar o setor privado investir. É isso o que ocorre com os portos brasileiros: o governo não investe o suficiente há muitos anos e não tem deixado o setor privado participar nos projetos do setor. A presidente Dilma vem tentando abrir espaço para investimentos privados nacionais e estrangeiros, provocando, com isso, a ira de alas do sindicalismo nacional cegas para os graves gargalos do país.
Governar é fazer escolhas. O fato de o país ter escolhido direcionar parte dos gastos públicos para resgatar a dívida social, por meio de programas de transferência de renda aos mais pobres, não é um erro. O problema é que, além dos programas sociais, o governo, nos três níveis da federação, aumentou exageradamente a máquina burocrática, inchou o quadro do funcionalismo, cultivou o desperdício e fez explodir a corrupção. O resultado é que o dinheiro que sobra para investimentos em infraestrutura física e social é ínfimo, muito distante das necessidades da economia nacional.
Seguramente, uma expressiva parcela da população não tem a devida consciência da gravidade da situação e do preço que o país vem pagando em termos de atraso e pobreza. Possivelmente, também uma parcela expressiva dos políticos não conhece a real dimensão do problema; assim, entra ano, sai ano, os dramas continuam sem solução à vista. Bastou o país iniciar a colheita da safra agrícola para que a tragédia das filas, a demora nos portos, os navios parados à espera de carga e descarga e o congestionamento nas estradas iniciassem o espetáculo de horror no qual se transformou a infraestrutura física brasileira. A sociedade tem de dar uma basta na tolerância com esse caos eterno.
A infraestrutura nacional é basicamente estatal, razão por que o drama se agrava, sobretudo se o governo não investir e não deixar o setor privado investir
As enormes filas de caminhões de soja nas estradas de acesso aos portos e os insuportáveis congestionamentos trazem à tona, de novo, a trágica situação da infraestrutura brasileira. Entre os economistas e os analistas de cenários, é cada vez mais forte a crença de que o colapso da infraestrutura impedirá o Brasil de se desenvolver e deixar a condição de país atrasado nos próximos 20 anos. Quando se analisa o ano passado, na prática o gargalo na infraestrutura já começou a frear o crescimento, cuja taxa foi de apenas 0,9%.
A taxa de investimento em 2012 ficou em apenas 18,1% do Produto Interno Bruto (PIB), bem abaixo da taxa de 19,3% em 2011. Os economistas chamam isso de “formação bruta de capital fixo” e significa quanto o país investe em infraestrutura física (portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, usinas de energia, expansão da telefonia, armazenagem etc.), infraestrutura social (escolas, hospitais, habitação, saneamento, creches etc.) e infraestrutura empresarial (prédios, máquinas, equipamentos, móveis e aparelhos de produção).
Em condições normais, estima-se que a taxa de investimento desejada seja de 25% do PIB, para permitir um crescimento de 5% ao ano. O caso brasileiro apresenta um problema adicional: como a infraestrutura está envelhecida, o volume de investimentos necessários somente para recuperar o que já existe anda entre 2% e 4% do PIB. Essa situação, que já não é boa, tem uma agravante séria: dos 18,1% de investimentos de 2012, a parte feita pelo setor público representa pífios 2% do PIB. Os outros 16,1% referem-se a investimentos feitos pelo setor privado.
Esses dados são dramáticos e suficientes para justificar a necessidade de o país pensar urgentemente em alguma prática nova em matéria de gestão macroeconômica, caso se queira tirar a nação da pobreza nos próximos 20 anos. Mas os problemas não param aí. O investimento de apenas 2% do PIB feito pelo governo é ainda pior quando comparado com o tamanho da carga tributária efetivamente arrecadada, que está em 38% do PIB.
Há países em que o setor público não investe muito mais que o Brasil como proporção do PIB. Mas sua carga tributária não é tão alta. Tomando o exemplo do Chile: se seu governo investisse somente 2% do PIB, o estrago no crescimento não seria grande, pois a arrecadação tributária lá anda na faixa dos 20% do PIB. Em casos como esse, o setor privado, tributado com carga moderada, assume a dianteira dos investimentos necessários ao crescimento econômico.
No caso brasileiro, a infraestrutura, especialmente física, é basicamente estatal, razão por que o drama se agrava, sobretudo se o governo não investir e não deixar o setor privado investir. É isso o que ocorre com os portos brasileiros: o governo não investe o suficiente há muitos anos e não tem deixado o setor privado participar nos projetos do setor. A presidente Dilma vem tentando abrir espaço para investimentos privados nacionais e estrangeiros, provocando, com isso, a ira de alas do sindicalismo nacional cegas para os graves gargalos do país.
Governar é fazer escolhas. O fato de o país ter escolhido direcionar parte dos gastos públicos para resgatar a dívida social, por meio de programas de transferência de renda aos mais pobres, não é um erro. O problema é que, além dos programas sociais, o governo, nos três níveis da federação, aumentou exageradamente a máquina burocrática, inchou o quadro do funcionalismo, cultivou o desperdício e fez explodir a corrupção. O resultado é que o dinheiro que sobra para investimentos em infraestrutura física e social é ínfimo, muito distante das necessidades da economia nacional.
Seguramente, uma expressiva parcela da população não tem a devida consciência da gravidade da situação e do preço que o país vem pagando em termos de atraso e pobreza. Possivelmente, também uma parcela expressiva dos políticos não conhece a real dimensão do problema; assim, entra ano, sai ano, os dramas continuam sem solução à vista. Bastou o país iniciar a colheita da safra agrícola para que a tragédia das filas, a demora nos portos, os navios parados à espera de carga e descarga e o congestionamento nas estradas iniciassem o espetáculo de horror no qual se transformou a infraestrutura física brasileira. A sociedade tem de dar uma basta na tolerância com esse caos eterno.
''Jilozinho da Esplanada'' - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 26/03
Com a transferência do seu titular, o veterano político Wellington Moreira Franco, para a Secretaria da Aviação Civil, na semana passada, a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) ficou a cargo, interinamente, do economista Marcelo Neri. Até então ele conduzia o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o reputado Ipea. Isso porque a presidente Dilma Rousseff não conseguiu despertar o interesse dos caciques partidários pelo cargo, um dos 15 equiparados na administração federal aos atuais 24 ministros de Estado. Pelo menos duas legendas procuradas, o PSD do ex-prefeito Gilberto Kassab e o PMDB do vice Michel Temer, à qual Moreira Franco é filiado, declinaram da oferta.
No país onde os partidos "fazem o diabo", como diria Dilma, para alojar os seus no primeiro escalão do governo e onde ela trincha o Gabinete em generosas porções para comprometer as agremiações beneficiadas com o mais estratégico de seus projetos - a reeleição -, o desdém dos interlocutores do Planalto pela SAE é perfeitamente compreensível, dado o que dele esperam. Para começar, o orçamento do "Ministério do Futuro", como o órgão foi batizado quando Lula lhe deu a forma atual em 2008, nomeando para sua direção o trêfego Roberto Mangabeira Unger, dublê de acadêmico bem-sucedido e político frustrado, é uma quirera da ordem de R$ 15 milhões.
Para ter ideia, o do Ipea, vinculado à própria Secretaria, é quatro vezes maior, ou R$ 63 milhões - o que faz sentido. Além disso, como observam os parlamentares, "a pasta não tem recursos, não executa obras nem o secretário é recebido pela presidente", enumera o deputado Lúcio Vieira Lima, do PMDB baiano, decerto ecoando os argumentos dos seus pares, sem distinção de siglas. "O partido que assumir não terá nada para mostrar", resume. É disso que vivem os mandatários - poder e prestígio, os quais variam na razão direta dos recursos públicos sob o seu controle ou influência e do número de cargos comissionados ao alcance de suas canetas. Na SAE, limitam-se a 145.
Perto das mais de 22 mil vagas chamadas de livre provimento no Executivo, isso e nada é a mesma coisa. Daí o "Ministério do Futuro" ter outro apelido entre os chamados a compartilhar da mesa de refeições do governo: "Jilozinho da Esplanada". O deboche dos comensais, diga-se desde logo, não deve ser tomado como prova da desimportância da SAE. Não há Estado que valha o nome que não disponha de um think-tank, ou mais de um, voltado para formular os cenários de longo prazo com que o País terá de se haver, e até mesmo para oferecer sugestões fundamentadas em relação a diretrizes governamentais do agora e aqui. Militares fazem isso o tempo todo, nas áreas de sua competência - não só em matéria de defesa nacional, como ainda de inovação tecnológica, por exemplo. Diplomatas, evidentemente, também.
Assentada a necessidade de um organismo público que "pense grande", trata-se de saber se deve competir pelos holofotes que aquecem as elites do poder. O subsecretário de Ações Estratégicas da SAE, economista Ricardo Paes de Barros, acha que a imagem da Secretaria seria outra se a presidente lhe desse crédito pela sua contribuição para a criação de programas de apelo popular. "A Casa Civil também não executa nada", compara, "mas tem visibilidade porque influencia o pensamento da presidente." Essa, no entanto, é uma questão relativamente secundária. Os problemas da SAE decorrem, antes, da proliferação, nos últimos 10 anos, de entidades oficiais cujos dirigentes têm status ministerial.
Sabe-se lá quantas delas foram criadas apenas porque era preciso aumentar o número de assentos na primeira classe do governo para acomodar, como acham que merecem, figuras politicamente valiosas para o Planalto. Quanto maior a quantidade de Secretarias, mais oportunidades haverá para oferecer prêmios de consolação a políticos desempregados, em razão principalmente da lealdade política que demonstrem do que da familiaridade que tenham com os assuntos que lhes tocarão administrar. De resto, o status de ministro de qualquer dos quatro titulares da SAE desde o seu surgimento em nada contribuiu para o progresso do País. Ultimamente, ela só foi notícia quando o mais recente deles, Moreira Franco, disse que o órgão não elege nem vereador.
No país onde os partidos "fazem o diabo", como diria Dilma, para alojar os seus no primeiro escalão do governo e onde ela trincha o Gabinete em generosas porções para comprometer as agremiações beneficiadas com o mais estratégico de seus projetos - a reeleição -, o desdém dos interlocutores do Planalto pela SAE é perfeitamente compreensível, dado o que dele esperam. Para começar, o orçamento do "Ministério do Futuro", como o órgão foi batizado quando Lula lhe deu a forma atual em 2008, nomeando para sua direção o trêfego Roberto Mangabeira Unger, dublê de acadêmico bem-sucedido e político frustrado, é uma quirera da ordem de R$ 15 milhões.
Para ter ideia, o do Ipea, vinculado à própria Secretaria, é quatro vezes maior, ou R$ 63 milhões - o que faz sentido. Além disso, como observam os parlamentares, "a pasta não tem recursos, não executa obras nem o secretário é recebido pela presidente", enumera o deputado Lúcio Vieira Lima, do PMDB baiano, decerto ecoando os argumentos dos seus pares, sem distinção de siglas. "O partido que assumir não terá nada para mostrar", resume. É disso que vivem os mandatários - poder e prestígio, os quais variam na razão direta dos recursos públicos sob o seu controle ou influência e do número de cargos comissionados ao alcance de suas canetas. Na SAE, limitam-se a 145.
Perto das mais de 22 mil vagas chamadas de livre provimento no Executivo, isso e nada é a mesma coisa. Daí o "Ministério do Futuro" ter outro apelido entre os chamados a compartilhar da mesa de refeições do governo: "Jilozinho da Esplanada". O deboche dos comensais, diga-se desde logo, não deve ser tomado como prova da desimportância da SAE. Não há Estado que valha o nome que não disponha de um think-tank, ou mais de um, voltado para formular os cenários de longo prazo com que o País terá de se haver, e até mesmo para oferecer sugestões fundamentadas em relação a diretrizes governamentais do agora e aqui. Militares fazem isso o tempo todo, nas áreas de sua competência - não só em matéria de defesa nacional, como ainda de inovação tecnológica, por exemplo. Diplomatas, evidentemente, também.
Assentada a necessidade de um organismo público que "pense grande", trata-se de saber se deve competir pelos holofotes que aquecem as elites do poder. O subsecretário de Ações Estratégicas da SAE, economista Ricardo Paes de Barros, acha que a imagem da Secretaria seria outra se a presidente lhe desse crédito pela sua contribuição para a criação de programas de apelo popular. "A Casa Civil também não executa nada", compara, "mas tem visibilidade porque influencia o pensamento da presidente." Essa, no entanto, é uma questão relativamente secundária. Os problemas da SAE decorrem, antes, da proliferação, nos últimos 10 anos, de entidades oficiais cujos dirigentes têm status ministerial.
Sabe-se lá quantas delas foram criadas apenas porque era preciso aumentar o número de assentos na primeira classe do governo para acomodar, como acham que merecem, figuras politicamente valiosas para o Planalto. Quanto maior a quantidade de Secretarias, mais oportunidades haverá para oferecer prêmios de consolação a políticos desempregados, em razão principalmente da lealdade política que demonstrem do que da familiaridade que tenham com os assuntos que lhes tocarão administrar. De resto, o status de ministro de qualquer dos quatro titulares da SAE desde o seu surgimento em nada contribuiu para o progresso do País. Ultimamente, ela só foi notícia quando o mais recente deles, Moreira Franco, disse que o órgão não elege nem vereador.
Conquistar a China - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 26/03
Dilma Rousseff deveria enfatizar investimentos na infraestrutura durante primeiro encontro com o novo líder chinês, Xi Jinping
A presidente Dilma Rousseff terá seu primeiro encontro com o novo líder máximo chinês, Xi Jinping, na cúpula dos Brics que começa hoje na África do Sul. É uma oportunidade para o governo brasileiro estabelecer com clareza as prioridades na relação com seu maior parceiro comercial.
Dilma deveria deixar em segundo plano a infrutífera cobrança de que a China compre mais produtos manufaturados do Brasil. A pauta de exportações concentrada em matérias-primas tem origem mais em problemas internos, que tiram a competitividade da manufatura local, do que no renitente protecionismo do país asiático.
A conversa será mais proveitosa caso a representação brasileira enfoque o ainda incipiente -mas promissor- financiamento chinês para obras de infraestrutura no país. Trata-se de um tema que interessa a ambos os lados: a China, com os cofres cheios, precisa de fornecedores confiáveis de alimentos e minerais; o Brasil não tem recursos para melhorar sua malconservada e deficitária rede de rodovias, ferrovias, armazéns e portos.
Os asiáticos têm demonstrado interesse em financiar tais obras. No mês passado, o Banco de Desenvolvimento da China ampliou seu escritório no Rio de Janeiro, em meio a negociações de projetos de infraestrutura nas regiões Centro-Oeste e Norte do país, como o de uma ferrovia ligando Cuiabá (MT) a Santarém (PA).
O cancelamento da compra de 2 milhões de toneladas de soja brasileira pela China, na semana passada, devido aos atrasos do embarque no porto de Santos, é apenas o exemplo mais recente e gritante de que uma base logística à altura da demanda asiática beneficiaria os dois países.
O problema é que esse interesse chinês em financiar a infraestrutura ainda não produziu resultados concretos. O contraexemplo, aqui, é o fracasso do Planalto em atrair, até agora, o investimento chinês para o projeto do trem-bala entre Campinas e Rio de Janeiro.
Um grande obstáculo é que a China, mais acostumada a negociações diretas com regimes autocráticos africanos, tem dificuldades em penetrar no emaranhado jurídico-burocrático brasileiro.
Por outro lado, o país tem poucos quadros preparados para negociar com os chineses, principalmente no nível dos governos estaduais. Buscar formas de agilizar essas negociações deveria ser prioridade brasileira.
Sem avançar em competitividade, o que abarca uma ótima infraestrutura, o Brasil dificilmente venderá mais e melhores produtos para a China, manufaturados ou não.
Dilma Rousseff deveria enfatizar investimentos na infraestrutura durante primeiro encontro com o novo líder chinês, Xi Jinping
A presidente Dilma Rousseff terá seu primeiro encontro com o novo líder máximo chinês, Xi Jinping, na cúpula dos Brics que começa hoje na África do Sul. É uma oportunidade para o governo brasileiro estabelecer com clareza as prioridades na relação com seu maior parceiro comercial.
Dilma deveria deixar em segundo plano a infrutífera cobrança de que a China compre mais produtos manufaturados do Brasil. A pauta de exportações concentrada em matérias-primas tem origem mais em problemas internos, que tiram a competitividade da manufatura local, do que no renitente protecionismo do país asiático.
A conversa será mais proveitosa caso a representação brasileira enfoque o ainda incipiente -mas promissor- financiamento chinês para obras de infraestrutura no país. Trata-se de um tema que interessa a ambos os lados: a China, com os cofres cheios, precisa de fornecedores confiáveis de alimentos e minerais; o Brasil não tem recursos para melhorar sua malconservada e deficitária rede de rodovias, ferrovias, armazéns e portos.
Os asiáticos têm demonstrado interesse em financiar tais obras. No mês passado, o Banco de Desenvolvimento da China ampliou seu escritório no Rio de Janeiro, em meio a negociações de projetos de infraestrutura nas regiões Centro-Oeste e Norte do país, como o de uma ferrovia ligando Cuiabá (MT) a Santarém (PA).
O cancelamento da compra de 2 milhões de toneladas de soja brasileira pela China, na semana passada, devido aos atrasos do embarque no porto de Santos, é apenas o exemplo mais recente e gritante de que uma base logística à altura da demanda asiática beneficiaria os dois países.
O problema é que esse interesse chinês em financiar a infraestrutura ainda não produziu resultados concretos. O contraexemplo, aqui, é o fracasso do Planalto em atrair, até agora, o investimento chinês para o projeto do trem-bala entre Campinas e Rio de Janeiro.
Um grande obstáculo é que a China, mais acostumada a negociações diretas com regimes autocráticos africanos, tem dificuldades em penetrar no emaranhado jurídico-burocrático brasileiro.
Por outro lado, o país tem poucos quadros preparados para negociar com os chineses, principalmente no nível dos governos estaduais. Buscar formas de agilizar essas negociações deveria ser prioridade brasileira.
Sem avançar em competitividade, o que abarca uma ótima infraestrutura, o Brasil dificilmente venderá mais e melhores produtos para a China, manufaturados ou não.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Quero ficar até o fim do governo Dilma como ministro da Saúde”
Ministro Alexandre Padilha descartando sua candidatura ao governo de São Paulo
MERCADANTE ABANDONA O MEC PARA VOAR COM DILMA
Papagaio de pirata “favorito” de Dilma nas viagens internacionais, o ministro Aloizio Mercadante (Educação) está descuidando do MEC: ele estava no exterior e se manteve calado diante das denúncias de irregularidades nas provas de redação do Enem. E faltou ao Seminário de Avaliação Educativa do Mercosul, em Buenos Aires, onde já havia confirmado presença, para não perder o passeio a Roma com Dilma.
FALTA DE EDUCAÇÃO
A reunião avalia anualmente a qualidade da Educação do Mercosul e o importante indicador internacional Pisa, no qual o Brasil patina.
TANGO ARGENTINO
O Diário Oficial da União publicou ontem, sem exposição de motivos, o cancelamento da viagem de Mercadante, autorizada em 14 de março.
MAIS UMA
Mercadante já deve estar conferindo o valor das diárias que poderá embolsar, acompanhando Dilma à reunião dos Brics na África do Sul.
COTA AÉREA
Em 2012, Mercadante foi com Dilma a Nova York (ONU), Londres, Moscou, Paris, Nova Délhi e Granada, Espanha, numa “escala técnica”.
DF: POLÍCIA INVESTIGA ESQUEMA PARA MELAR LICITAÇÃO
Virou caso de polícia a licitação do sistema de transporte coletivo do DF. O vice-governador Tadeu Filippelli (PMDB) repassou à Polícia Civil denúncias de uma suposta conspiração para “implodir” comissão de licitação, a fim de “melar” a disputa, cujos últimos vencedores devem ser anunciados antes do feriado de sexta-feira. Até o fim de junho, 42% do sistema estarão funcionando com novos ônibus e regras.
CORRIDA DE OBSTÁCULOS
Até agora, o governo do DF superou 130 tentativas de empresários que atuam no sistema de paralisar a licitação, por meio de ações judiciais.
JURADO DE MORTE
Em meio à licitação, Dalmo Amaral, dono de três empresas sob intervenção, ameaçou matar até o governador Agnelo Queiroz (PT).
OURO PARAGUAIO
O Banco Nacional, que abriu o célebre “guarda-chuva” até quebrá-lo, leva a leilão doze imóveis no Paraguai, avaliados em US$ 1 milhão.
DISTANCIAMENTO
Na visita a Pernambuco, Dilma driblou o assado de bode, o bolo de rolo, a compota de caju e o suco de pitanga no almoço que a aguardava na casa do governador Eduardo Campos, vizinha àquela onde Miguel Arraes recebia Lula. Ela preferiu o sol de rachar de Serra Talhada.
NA GELADEIRA
A presidente Dilma delegou ao ministro Aloizio Mercadante a tarefa de iniciar as conversas com o PR sobre vaga em ministério. O partido se recusou. Prefere esperar o retorno dela, após o feriadão da Páscoa.
JARBAS 2014
O senador e gourmet Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) pilotou o fogão para 60 pessoas, neste fim de semana, em homenagem ao ex-inimigo Eduardo Campos. E ainda serviu, como sobremesa, um discurso se colocando na sucessão ao governo pernambucano, em 2014.
TEORIA DA CONSPIRAÇÃO
Deputados suspeitam que a busca e a apreensão feitas pela PF na casa de Elias Fernandes, ex-diretor do Dnocs, é retaliação a seu padrinho, Henrique Alves (PMDB-RN), que ameaça votar o orçamento impositivo.
TRÁFICO NA MIRA
No DF, hoje, há mais de mil grampos telefônicos autorizados pela Justiça, e 60% deles são relativos a tráfico de drogas. Com a maior renda per capita do país, Brasília foi invadida por traficantes.
PEQUENÍSSIMOS
Não bastasse ser reduzida, a oposição no DF ainda está rachada. As mulheres, então, mal se falam. As distritais Eliana Pedrosa e Celina Leão (PSD) trabalham contra Liliane Roriz, do mesmo partido.
EXPECTATIVAS
O advogado de João Paulo Cunha no processo do mensalão, Alberto Toron, acha que o acórdão será publicado já em abril. Mas pede prazo maior para entrar com os recursos, “dado o tamanho do processo”.
MEU BOLSO, NÃO
Servidores da Câmara reclamam da decisão de Henrique Alves (RN) de endurecer
as regras para registro de frequência. Alegam que, se era para cortar gastos, não fez sentido o aumento da verba de gabinete.
PENSANDO BEM...
...com Lula fazendo lobby e Dilma esbanjando no exterior às nossas custas, parece que finalmente a classe operária chegou ao paraíso.
PODER SEM PUDOR
COMIGO NÃO, VIOLÃO
O maridão da prefeita Marta Suplicy, argentino Felipe Belisário Wermus, que se apresenta como "Luís Favre" e tinha fama de conquistador, estava ao lado de Lula no dia de sua primeira vitória para a Presidência. Os dois são amigos. Wermus o abraçou, eufórico:
- Agora não sei se vou ficar em São Paulo ou vou para Brasília!
Lula reagiu com uma brincadeira:
- Eu já sou casado, meu caro...
Ministro Alexandre Padilha descartando sua candidatura ao governo de São Paulo
MERCADANTE ABANDONA O MEC PARA VOAR COM DILMA
Papagaio de pirata “favorito” de Dilma nas viagens internacionais, o ministro Aloizio Mercadante (Educação) está descuidando do MEC: ele estava no exterior e se manteve calado diante das denúncias de irregularidades nas provas de redação do Enem. E faltou ao Seminário de Avaliação Educativa do Mercosul, em Buenos Aires, onde já havia confirmado presença, para não perder o passeio a Roma com Dilma.
FALTA DE EDUCAÇÃO
A reunião avalia anualmente a qualidade da Educação do Mercosul e o importante indicador internacional Pisa, no qual o Brasil patina.
TANGO ARGENTINO
O Diário Oficial da União publicou ontem, sem exposição de motivos, o cancelamento da viagem de Mercadante, autorizada em 14 de março.
MAIS UMA
Mercadante já deve estar conferindo o valor das diárias que poderá embolsar, acompanhando Dilma à reunião dos Brics na África do Sul.
COTA AÉREA
Em 2012, Mercadante foi com Dilma a Nova York (ONU), Londres, Moscou, Paris, Nova Délhi e Granada, Espanha, numa “escala técnica”.
DF: POLÍCIA INVESTIGA ESQUEMA PARA MELAR LICITAÇÃO
Virou caso de polícia a licitação do sistema de transporte coletivo do DF. O vice-governador Tadeu Filippelli (PMDB) repassou à Polícia Civil denúncias de uma suposta conspiração para “implodir” comissão de licitação, a fim de “melar” a disputa, cujos últimos vencedores devem ser anunciados antes do feriado de sexta-feira. Até o fim de junho, 42% do sistema estarão funcionando com novos ônibus e regras.
CORRIDA DE OBSTÁCULOS
Até agora, o governo do DF superou 130 tentativas de empresários que atuam no sistema de paralisar a licitação, por meio de ações judiciais.
JURADO DE MORTE
Em meio à licitação, Dalmo Amaral, dono de três empresas sob intervenção, ameaçou matar até o governador Agnelo Queiroz (PT).
OURO PARAGUAIO
O Banco Nacional, que abriu o célebre “guarda-chuva” até quebrá-lo, leva a leilão doze imóveis no Paraguai, avaliados em US$ 1 milhão.
DISTANCIAMENTO
Na visita a Pernambuco, Dilma driblou o assado de bode, o bolo de rolo, a compota de caju e o suco de pitanga no almoço que a aguardava na casa do governador Eduardo Campos, vizinha àquela onde Miguel Arraes recebia Lula. Ela preferiu o sol de rachar de Serra Talhada.
NA GELADEIRA
A presidente Dilma delegou ao ministro Aloizio Mercadante a tarefa de iniciar as conversas com o PR sobre vaga em ministério. O partido se recusou. Prefere esperar o retorno dela, após o feriadão da Páscoa.
JARBAS 2014
O senador e gourmet Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) pilotou o fogão para 60 pessoas, neste fim de semana, em homenagem ao ex-inimigo Eduardo Campos. E ainda serviu, como sobremesa, um discurso se colocando na sucessão ao governo pernambucano, em 2014.
TEORIA DA CONSPIRAÇÃO
Deputados suspeitam que a busca e a apreensão feitas pela PF na casa de Elias Fernandes, ex-diretor do Dnocs, é retaliação a seu padrinho, Henrique Alves (PMDB-RN), que ameaça votar o orçamento impositivo.
TRÁFICO NA MIRA
No DF, hoje, há mais de mil grampos telefônicos autorizados pela Justiça, e 60% deles são relativos a tráfico de drogas. Com a maior renda per capita do país, Brasília foi invadida por traficantes.
PEQUENÍSSIMOS
Não bastasse ser reduzida, a oposição no DF ainda está rachada. As mulheres, então, mal se falam. As distritais Eliana Pedrosa e Celina Leão (PSD) trabalham contra Liliane Roriz, do mesmo partido.
EXPECTATIVAS
O advogado de João Paulo Cunha no processo do mensalão, Alberto Toron, acha que o acórdão será publicado já em abril. Mas pede prazo maior para entrar com os recursos, “dado o tamanho do processo”.
MEU BOLSO, NÃO
Servidores da Câmara reclamam da decisão de Henrique Alves (RN) de endurecer
as regras para registro de frequência. Alegam que, se era para cortar gastos, não fez sentido o aumento da verba de gabinete.
PENSANDO BEM...
...com Lula fazendo lobby e Dilma esbanjando no exterior às nossas custas, parece que finalmente a classe operária chegou ao paraíso.
PODER SEM PUDOR
COMIGO NÃO, VIOLÃO
O maridão da prefeita Marta Suplicy, argentino Felipe Belisário Wermus, que se apresenta como "Luís Favre" e tinha fama de conquistador, estava ao lado de Lula no dia de sua primeira vitória para a Presidência. Os dois são amigos. Wermus o abraçou, eufórico:
- Agora não sei se vou ficar em São Paulo ou vou para Brasília!
Lula reagiu com uma brincadeira:
- Eu já sou casado, meu caro...
TERÇA NOS JORNAIS
- Globo: Fantasma europeu – Emergentes criam fundo de US$ 100 bi contra crise
- Folha: Não se dirige o país só, diz Dilma em ato com Campos
- Estadão: Ao lado de Campos, Dilma cobra ‘aliado comprometido’
- Correio: Lei das domésticas vai abrir embate judicial
- Valor: Liminares impõem perdas a bancos no consignado
- Estado de Minas: Epidemia – Diante do avanço da dengue, autoridades de Saúde do estado e de BH já admitem quadro crítico
- Jornal do Commercio: Menos água nas barragens
- Zero Hora: Senado deve aprovar hoje direitos para domésticas
- Brasil Econômico: Carga tributária vai aumentar com o novo fundo da reforma do ICMS
segunda-feira, março 25, 2013
Ao deus-dará - ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
REVISTA VEJA
Pergunta - O sr. diria que a política atrapalha a gestão?
Resposta, depois de longa pausa - Dentro da estrutura brasileira, o conceito de política atrapalha bastante a gestão...
O que chama atenção nesse primeiro ponto é a sugestão da existência de um "conceito de política" peculiar ao Brasil. Gerdau não explica que conceito é esse. Fica nas reticências, o que nos deixa diante de uma não declaração. Eis no entanto uma não declaração cheia de sentido. O conceito de política que passou a imperar no Brasil, em primeiro lugar, nega a política. Quer dizer: nega o embate de idéias e de programas. Em segundo lugar, nega as políticas. Não o regem os modelos desta ou daquela política educacional, desta ou daquela política de transporte. Sobra, como sabemos, que o "conceito de política" em vigor no país gira (em falso) em torno de eixos como a liberação de emendas parlamentares, a distribuição de cargos na administração, a constituição de um ministério amplo o bastante para abrigar uma enxurrada de partidos e a acumulação de minutos de TV nas campanhas eleitorais. O "conceito de política" assim estruturado (ou desestruturado) é a mãe de todos os problemas que se interpõem à racionalidade e à eficácia da administração.
Houve época em que "reforma ministerial" era coisa séria. Não mais. Esta última, como as anteriores, serve para desgastar a idéia de "reforma" e contribui para desmoralizar o próprio conceito de "ministério"
Pergunta - O número de partidos vai aumentar. Vamos acabar tendo cada vez mais ministérios?
Resposta - Tudo tem o seu limite. Quando a burrice, ou a loucura, ou a irresponsabilidade vai muito longe, sai um saneamento. Nós provavelmente estamos no limite desse período.
Gerdau, aqui, mostra-se paradoxalmente desesperado e esperançoso. O desespero leva-o a chamar de "burrice", "loucura" e "irresponsabilidade" o ato reflexo de ir criando ministérios à medida que os partidos aderem ao governo, ou mesmo são criados para tal. A esperança o faz vislumbrar que estamos chegando ao limite dessa prática. Bondade dele, ou talvez concessão de quem, afinal, faz parte do governo. Vem aí o Ministério da Micro e Pequena Empresa, para o mais novo adesista, o PSD do ex- prefeito Kassab. Dias atrás houve mudança em quatro ministérios - os da Agricultura, da Aviação Civil, do Trabalho e dos Assuntos Estratégicos. Novos titulares foram anunciados para os três primeiros, ficando para ser ainda nomeado o titular do quarto. Sobre os ministérios da Aviação Civil e dos Assuntos Estratégicos, de origem recente, um estrangeiro que desconhecesse as manhas locais perguntaria, antes de qualquer especulação quanto aos novos titulares, por que diabos foram criados. Se existe um Ministério dos Transportes, por que um da Aviação Civil? E, se estratégia é algo que deve alimentar cada ministério, por que reuni-la num só? Não valem a pena tantas perguntas, porém. Houve época em que "reforma ministerial" era coisa séria. Implicava inflexões nos rumos dos governos. Não mais. Esta última, como as anteriores, desgasta a idéia de "reforma" e contribui para desmoralizar o próprio conceito de ""ministério".
Pergunta - A presidente teria poder para reduzir o número de ministérios?
Resposta - Com o número de partidos crescendo cada vez mais, é quase impossível. O que a presidenta faz? Trabalha com meia dúzia de ministérios realmente chave. O resto é um processo que anda com delegações de menor peso.
Gerdau, nos três trechos destacados, foi do mais geral ao mais particular. Neste ponto, chegou ao modo de operar da presidente, e a conclusão é dramática. Uma ampla porção do governo - 33, dos 39 ministérios - funcionaria de modo mais ou menos autônomo, sem sofrer a ação direta - e talvez sem atrair o interesse - da presidente. Fecha-se o círculo. Da mãe de todos os problemas, que é o peculiar "conceito de política" brasileiro, chega-se à necessária consequência de um substancial espaço da administração ser abando nado ao deus-dará.
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