terça-feira, janeiro 29, 2013

Crise e mudança de hábitos - JOSÉ PASTORE

O ESTADÃO - 29/01

Peço ao leitor a devida vênia para apresentar informações geradas não por pesquisas, como sempre faço, mas por relatos de pessoas atentas e que acompanham a evolução da crise nos países ricos. Há desdobramentos inusitados.

Os jornalistas Guilherme Serôdio e Marta Nogueira informam, por exemplo, que a crise pode reduzir o afluxo de estrangeiros para o próximo carnaval do Rio de Janeiro. A diminuição da presença de empresários europeus e americanos já fora percebida no carnaval de 2012 e deve se agravar em 2013 (Crise na Europa muda o perfil de turista no Rio, Valor, 17/1/2013).

Os dados que chegam da Europa mostram, de fato, que os europeus estão bem mais cautelosos no gastar. Para a maioria das famílias, a troca do carro vem sendo anualmente adiada. A indústria sente isso e seus lucros encolhem. No geral, o consumo de bens e serviços caiu 1% no ano passado e a confiança dos consumidores chegou ao seu nível mais baixo desde 2009. Estes passaram a se servir de lojas e marcas mais baratas em substituição às que sempre compraram (Sam Schechner, Consumidores europeus não querem saber de gastar, Wall Street Journal, 6/8/2012).

Relatos da imprensa europeia indicam que o lazer doméstico também foi afetado. As salas de cinema estão mais vazias, os restaurantes já não têm fila de espera e muitas famílias adiaram as férias - sine die. Em alguns países há registros de cortes de gastos até mesmo de telefone celular. Só em 2012, mais de 1 milhão de linhas foram abandonadas (Álvaro Fagundes, Com crise, europeu corta celular, cinema e academia, Folha, 12/8/2012).

A escalada do desemprego afeta não apenas os desempregados, mas também os que continuam trabalhando e temem ficar sem o emprego a qualquer momento. A própria capacidade de as pessoas socorrerem familiares em dificuldade está diminuindo. Até italianos estão sendo forçados a viver sem a "nonna", pois os idosos foram forçados a trabalhar fora de casa e não podem cuidar das crianças. Os que já trabalhavam tiveram de "convidar" filhos, genros e noras a saírem do abrigo familiar por causa da insolvência dos idosos (Nadia S. Cohen. Italianos aprendem a viver sem a nonna, Wall Street Journal, 22/6/2012).

Os mais velhos estão sendo forçados a trabalhar mais tempo também em razão das mudanças nas regras da aposentadoria. Muitos países já fixaram a idade mínima em 62 anos, outros já chegaram a 65 e um bom número chegará a 67 anos em pouco tempo. Na Dinamarca, a idade será de 69 anos em 2020.

Também nos Estados Unidos a crise levou as famílias a gastarem menos e poupar mais. O consumo sofreu uma redução porque, em menos de cinco anos, a taxa de poupança passou de zero para 5%. Vários hábitos gastadores vêm se modificando. Os shows da Broadway sofreram um baque em 2009-2011, tendo se recuperado parcialmente em 2012. As férias perdulárias foram cortadas na maioria das famílias. As que perderam suas casas eliminaram não só férias, como também a troca de carro, a renovação do guarda-roupa e a alimentação fora de casa. Nas grandes cidades, o café levado de casa substituiu o comprado nos bares (Marcos de Moura e Souza, Crise forçou uma ampla mudança comportamental, Valor, 3/10/2011).

Será que as mudanças vieram para ficar? Estaria aí o fim da vie en rose, da dolce vità, do nice way of life? As observações resenhadas indicam que, com o aprofundamento da crise, há o avanço das mudanças. Mas ninguém garante que os hábitos perdulários dos europeus e, principalmente, dos americanos foram apagados para sempre naquelas sociedades. No Brasil, tivemos uma mudança radical de comportamento dos consumidores no grande apagão de 2001. O povo entendeu que era preciso economizar energia. Ao que tudo indica, porém, a gastança voltou, a ponto de preocupar os responsáveis pelo abastecimento. E o barateamento das tarifas, vai ajudar ou dificultar o uso da sensatez?

A conquista de Timbuctu - GILLES LAPOUGE


O Estado de S.Paulo - 29/01


Em cinco colunas, na primeira página do jornal mais sério e de maior prestígio da França, Le Monde, lemos a manchete: "O Exército francês toma Timbuctu". Esfregamos os olhos. Verificamos a data, 28 de janeiro de 2013: não se trata do século 19, quando os soldados da França arrancavam pedaços de países, dos desertos e das florestas na Ásia e, principalmente, na África. É uma estranha impressão, uma espécie de "distração" da História.

Evidentemente, é uma ilusão. A França não está recomeçando as antigas invasões do império francês. Um império já foi suficiente! O socialista François Hollande disse corretamente, antes de se lançar à reconquista do Mali, que a "França-África", a campanha colonialista francesa no continente africano, acabou, irrevogavelmente.

Os paraquedistas franceses conquistaram Timbuctu com a finalidade exclusiva de ajudar o Mali a escorraçar os ferozes islamistas da Al-Qaeda do Magreb Islâmico (AQMI), do Ansar Dine e do Mujao, que se apoderaram da metade norte do imenso país, onde instituíram, particularmente em Timbuctu, a abominável justiça islâmica, a sharia.

Portanto, a França tomou Timbuctu. Em duas semanas, os soldados subiram cerca de 1.500 quilômetros rumo ao norte do Mali. E agora? Agora, mistério.

Até aqui, os integrantes da Al-Qaeda não ofereceram resistência. O que foi feito deles? Ninguém sabe. Eles abandonaram as cidades nas quais fizeram reinar sua fúnebre lei. Alguns morreram, mas a maioria desapareceu. Foram riscados. Apagados. Para onde foram? Sumiram no vazio, no silêncio, na ausência! E quem sabe foram fazer a guerra no vazio, no silêncio, na ausência! Portanto, não devemos acreditar que a tomada de Gao e de Timbuctu assinale a vitória e a paz. Lembremos que, no Iraque, as legiões de George W. Bush esmagaram as tropas de Saddam Hussein em poucas semanas. Mas, assim que Bush começou a se gabar, teve início uma nova guerra, mais selvagem, que enlouqueceu o poderoso Exército americano: atentados suicidas, emboscadas, etc.

Devemos temer que uma reviravolta do gênero possa ocorrer. A imensidão do norte do Mali permite que pequenos grupos desapareçam, como as miragens, e ataquem repentinamente. Há o medo de atentados suicidas. Evidentemente, existe uma diferença: no Iraque, o Exército americano era detestado pelos iraquianos. No Mali, ocorre o contrário: os malineses, aterrorizados pelos islamistas, acolheram os soldados franceses como salvadores.

Mas este não é o único desafio. No extremo norte do Mali, há montanhas recortadas, de picos íngremes. Somente as pessoas do lugar conseguem se orientar nelas. Provavelmente será ali que os jihadistas vão se esconder. Há alguns meses, ele vêm acumulando ali, no fundo de gargantas e de abismos impenetráveis, enormes quantidade de armamento trazido da Líbia. Estas montanhas poderão se tornar um "santuário" islâmico do qual partirão os comandos da morte.

Outro perigo é que o Mali é formado por duas populações. No sul, africanos sedentários. No norte, os tuaregues, que são berberes, e os árabes, de pele branca, nômades. Entre elas impera um ódio milenar. O temor é que, na caótica situação atual, os tuaregues e os árabes sejam perseguidos pelos africanos do sul, e sejam perpetradas antigas vinganças. Uma das tarefas dos soldados franceses consistirá em vigiar para que esta infâmia não ocorra. Um deputado do norte disse ontem: "Quando a morte se dá em nome da cor da pele, o melhor a fazer é partir!".

É melhor responder, presidente Dilma - LOURDES SOLA

O ESTADÃO - 29/01

Poucos tópicos em economia são mais suscetíveis de distorções e de autoengano do que a questão do crescimento. Só é superado pelo da inflação, como sabemos bem. Também é certo que poucos desafios econômicos têm tanta rentabilidade eleitoral quando enfrentados com competência. Para o analista político têm a virtude de escancarar a quintessência da economia política. Pois "o que faz da economia política economia política é a política", destaca Andrew Hurrell, um dos teóricos de relações internacionais de maior destaque. O problema torna-se grave em conjunturas nas quais as duas questões andam juntas, como neste início de 2013. Pode tomar contornos agudos quando a solução é postergada, pois a hora da verdade contém o risco de uma reversão abrupta das expectativas de bem-estar e mobilidade social ascendente das classes C e D, um dos ativos eleitorais do governo. Também porque aumentam o teor de desconfiança do setor privado em relação aos fundamentos da economia. Além de diminuir sua disposição para investir, ampliando a oferta e reduzindo as pressões inflacionárias, promove uma seleção negativa, em benefício daqueles cujo animal spirit desperta apenas quando protegidos pelo Estado dos ventos da competição.

O problema é que o "pibinho" e a taxa de mais de 6% de inflação são fatos e os fatos são subversivos. Obrigam a uma correção de rumos, não só em termos de agenda econômica, mas de discurso político, do governo e também de seus críticos. Pois é necessário iniciar dois movimentos: uma reflexão profunda sobre os limites do "modelo" de crescimento vigente até aqui e novos padrões de comunicação que tornem acessíveis à população os porquês de seu eventual esgotamento. Com isso estaremos em maior sintonia com os avanços observados no cenário internacional, no qual o tema dos limites estruturais do crescimento ganha força. É pelo debate desse tema que se estabelece a linha divisória entre conservadores e progressistas, entre pessimistas e otimistas quanto às tendências globais do capitalismo. A revista britânica The Economist de 12 a 18 de janeiro dá conta desses movimentos, de forma pluralista. Uma das lições que nos interessam é que os limites do crescimento econômico têm uma forte dimensão estrutural. Logo, é insuficiente circunscrever o debate aos erros e acertos da política econômica. Nesse registro, um outro recado, implícito: a austeridade fiscal e a disciplina monetária ajudam, mas não podem tanto diante de desajustes estruturais. No nosso caso, entre oferta (leia-se investimento, privado e público) e uma demanda superdimensionada. Impõe-se, portanto, uma revisão da agenda econômica, acompanhada por padrões de comunicação condizentes com a redistribuição de penalidades - e não só de privilégios - inerente a toda e qualquer mudança de rumos. Porque reformas necessariamente têm uma dimensão redistributiva.

O tom oficial é defensivo, embora pareça o contrário: "nada a explicar", mas "tudo a justificar". As últimas semanas ilustram bem o quanto essa polifonia é dissonante, beirando a cacofonia. Exemplo: "Meu querido, não respondo a essa pergunta" foi a resposta da presidente Dilma Rousseff à questão de um repórter sobre os preços das passagens de metrô e ônibus, referência à minimização das pressões inflacionárias via acordos com prefeitos e governadores para adiar os aumentos programados. E complementou: "Respondo, sim, a perguntas sobre a redução das tarifas de eletricidade". Esse tom de monólogo autocrático, similar ao adotado em cadeia nacional para justificar a opção do governo pelo controle artificial de preços e pelo uso intensivo das estatais sob sua tutela, dá o que pensar sobre o que há de velho e de novo na retórica e também na política oficial. Não era essa uma das maquiagens preferidas nos tempos da ditadura?

Outro exemplo: na semana em que o ministro Fernando Pimentel louvava nossos feitos no front da exportação em artigo na Folha de S.Paulo, as estatísticas oficiais revelavam o desempenho adverso da balança comercial - e expunham a olho nu a ausência de uma política comercial. A última ata do Banco Central, por sua vez, apresenta um diagnóstico bastante distinto da retórica da presidente e do ministro da Fazenda, como registra Celso Ming na edição do dia 27 deste jornal. A contabilidade criativa do Ministério da Fazenda também foi objeto de espinafração do ex-ministro Delfim Netto, o principal assessor econômico da presidente.

A questão é que essa retórica é irracional, por ociosa, mesmo levando em conta que está dominada por um cálculo político racional, de tipo eleitoral. Por quê? Porque ilustra bem os limites que a nossa democracia e a vigência de um espírito capitalista minimamente empreendedor impõem à sua eficácia. Um deles é a multiplicidade de instituições que produzem indicadores e prospecções com suficiente autonomia e competência técnica, divulgados por uma mídia razoavelmente competitiva. Há o Banco Central, o IBGE, as várias consultorias econômicas, as ONGs voltadas para o controle das atividades do governo e a literatura jornalística especializada. O segundo tipo de limite se situa na imbricação entre economia capitalista e política democrática. Em toda democracia há um hiato entre o acesso quase instantâneo da população aos indicadores relevantes e a capacidade de elaborá-la. Quando se trata de crescimento e de custo de vida, o hiato reduz-se: a população tem incentivos imediatos para buscar as razões dos indicadores adversos. Por isso a forma como esse hiato será preenchido, pelo discurso oficial e pelo das oposições, ganha relevância. Questão de demanda. Nessa área, a oferta de indicadores e de análises existe para todos os gostos. Por essas e outras, diferenças de perfil à parte, Dilma não pode ser Cristina.

A incerta Primavera Árabe - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 29/01

A operação militar da França no Mali contra os terroristas, alguns ligados à Al Qaeda, que dominavam parte do seu território chega a mais uma vitória com a retomada do controle da cidade histórica de Timbuktu, mas a ação de curto prazo não representa uma solução para aquele país do norte da África, cujo maior desafio é a superação de problemas econômicos crônicos. Uma situação que demanda ação humanitária urgente por parte da comunidade internacional. Se a França não tivesse intervindo, a situação teria chegado próximo a uma catástrofe.

Essa foi a opinião predominante num painel em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial. A situação de insegurança é a mesma no norte da África e em outras regiões do mundo árabe, onde exclusão política, pobreza, divisões sectárias e opressão às minorias provocaram a explosão de conflitos e revoltas populares como na Líbia, onde uma revolução popular levou à queda do ditador Muamar Kadafi.

Ao mesmo tempo, em Paris, reuniu-se a Academia da Latinidade, cujo secretário-geral é o brasileiro Candido Mendes, para mais um encontro de intelectuais, na maior parte de países de língua latina, com líderes e intelectuais do mundo oriental, especialmente dos países árabes. O professor belga Diederik Vandewalle, do Dartmounth College, fez uma análise sobre a chamada Primavera Árabe, fixando-se especialmente no caso da Líbia, pois tanto a crise dos terroristas no Mali quanto a dos reféns na Argélia têm ligações com os grupos terroristas que atuaram na guerra para derrubar Kadafi e se espalharam pela região fortemente armados.

Vandewalle, embora diga logo no início de seu texto que ainda é cedo para ter-se uma certeza sobre os resultados de tal movimento na Líbia, afirma que também não há evidência de que já está em andamento uma revolução que leve à democracia. Ele chama a atenção para o caráter impreciso da Primavera Árabe, afirmando que a queda do ditador na Líbia não encerra o sistema clientelista montado no país. A consolidação do novo regime dependerá da rapidez de criação de novos mecanismos de inclusão social, num país desprovido de uma consciência política coletiva.

Segundo Diederik Vandewalle, a resistência das antigas estruturas sociais na região continua sendo uma realidade com que os novos reformadores terão que lidar. Desde a eclosão dos movimentos de libertação dois anos atrás, diz Vandewalle, muito da velha ordem não foi ainda destruído, e muito do novo ainda é difuso e transitório.

Mas, apesar de haver tido as estruturas de suas instituições nacionais completamente destruídas pela ditadura de Kadafi, a Líbia não deve desistir de remontá-las, pois, segundo o professor Vandewalle, pode ser mais fácil partir da estaca zero do que tentar reorganizar as existentes, como na Tunísia e no Egito.

A ideia de que países como a Líbia ou outros do Oriente Médio e do Norte da África podem simplesmente mudar contratos sociais existentes em curto prazo subestima as complexidades desse processo, que varia de país para país, diz o professor belga. Os recentes acontecimentos expuseram a fragilidade dos governos na região da África Ocidental, um centro de contrabando de drogas para a Europa controlado por terroristas, que se financiam com o comércio ilegal.

No painel de Davos, foi lembrado que em poucas semanas a estação das chuvas começará, e, se os fazendeiros ficarem impedidos de plantar, estará abalada a capacidade do país de alimentar seu povo, tornando o desastre humanitário ainda maior. Sendo vitoriosa, como até agora, a intervenção francesa, será preciso encontrar uma solução política que leve o país à estabilidade.

Segundo o entendimento generalizado dos participantes do painel de Davos, está na hora de as lideranças africanas reconhecerem que o continente precisa de democracia e bons governantes, para melhorar a vida das populações majoritariamente marginalizadas.


FLÁVIA OLIVEIRA - NEGÓCIOS & CIA

O GLOBO - 29/01


QUESTAO DE RESPONSABILIDADE EMPRESARIAL
Entidades e empreendedores devem iniciar movimento para informar sobre segurança nas casas de entretenimento

Ainda perplexos como tamanho da tragédia na gaúcha Santa Maria, brasileiros de todos os cantos passaram a cobrar das autoridades providências contra o funcionamento irregular de casas de shows país afora. Governos têm, sim, o papel intransferível de fazer valer a lei e fiscalizar seu cumprimento. Mas manter estabelecimentos em linha com normas de segurança é também questão de responsabilidade empresarial, como o são o respeito ao meio ambiente e à legislação trabalhista. Seria admirável se entidades empresariais, sindicatos e donos de casas de shows, boates, quadras de samba, teatros dos mais de cinco mil municípios brasileiros iniciassem um movimento para explicitar, na entrada de cada espaço, informações sobre materiais usados nas instalações, validade dos equipamentos de incêndio, saídas de emergência, equipe qualificada. Cada empresário do mundo do entretenimento poderia ser pai, tio, irmão, avô de um dos jovens massacrados na madrugada de domingo, no Sul. Poderia igualmente ser sócio da Boate Kiss, e estar, agora, sentindo o gosto amargo da culpa pela tragédia que dizimou 231 jovens dos quais o Brasil não poderia abrir mão.

28,9% DE JOVENS ESTUDANTES
Na Pnad 2011, o IBGE estimou em 28,9% a proporção de brasileiros - de 18 a 24 anos que estudavam. A , tragédia de Santa Maria levou s duas centenas deles. Um pedaço do futuro do país foi junto.

INVERNO
Bárbara Di Creddo estrela a campanha de inverno que a Ateen. A top foi fotografada por Daniel Mattar. A ação estreia amanhã na internet; em março nas revistas de moda. A marca de moda feminina cresceu 30% em 2012, sem abrir novas lojas. Quer repetir o resultado este ano. A grife carioca tem
nove endereços em Rio, São Paulo, BH e Curitiba.

PAIMO POR BICICLETAS
O empresário Erik Barbosa, da Velorbis Arrow, posou para campanha de incentivo ao uso de bicicletas, que a Foxton lança hoje na web. Ele, o técnico Bernardinho e o humorista Helio de La Peña estão entre as personalidades que emprestarão bikes para a grife exibir nas vitrines.

O investimento total da marca deve chegar a R$ 2 milhões este ano.

Automação
A Edra Equipamentos fechou contrato de R$ 21 milhões com a Caixa. Vai fornecer, ao longo do ano, 200 caixas eletrônicos e 800 carenagens de salas de autoatendimento.

Derrotado
O STJ condenou o Santander em R$ 30 milhões, por fraude na carteira de ações da Telebrás de um cliente, durante a privatização, nos anos 90. ABN Amro e Real, hoje Santander Brasil, foram responsabilizados por falsas procurações e assinaturas que levaram à negociação dos ativos. Causa ganha pelo Basílio Advogados.

Saquarema
A Fabritex, indústria de tecidos gaúcha, terá fábrica em Saquarema (RJ). Começa a operar no 2º semestre.
O projeto deve consumir US$ 5 milhões em investimentos e gerar 300 empregos diretos. A Rosa, Naibert presta consultoria.

De saída
Renato Chaves, ex-Previ, vai deixar a diretoria da Telemar Participações, dona da Oi, em abril. Especialista em governança corporativa, vai se dedicar às atividades acadêmicas e de consultoria.

Capitalização
O setor de capitalização bateu R$15,9 bilhões em receitas até novembro de 2012. É alta de 17,6% sobre um ano antes. Devolveu R$ 9,7 bi de valores aplicados em títulos, alta de 16,9%.

Ano bom
O comércio carioca fechou 2012 com alta de 8,3% no faturamento sobre o ano anterior, informa o CDL-Rio. Foi melhor que os 7,8% de expansão de 2011 sobre 2010. No mês do Natal, as vendas subiram 10,6% um ano antes. No varejo de bens duráveis, caso dos eletrodomésticos, o aumento foi de 12,6% em 2012. Foi o dobro do ramo mole, de roupas e calçados.

É sonho
O brasileiro sonha com casa própria e carro novo, concluiu levantamento do Planejando Sonhos, site de organização de finanças pessoais.

A proporção de usuários que estão poupando para comprar imóvel chega a 31%. Outros 27% querem automóvel. Em seguida, estão viagens, com 12%; e investimentos, com 8%.

Profissional
Quase um terço (29%) dos 2.400 participantes de enquete da LeadPix dizem que cursos profissionalizantes são meio de desenvolvimento profissional. É a mesma proporção dos interessados em fazer faculdade. Wiliam Kerniski, sócio-diretor da agência, diz que o resultado reflete a exigência do mercado por capacitação.

Sem aviso
Um em cada três (31%) executivos no Brasil inicia projetos em nuvens sem informar à área de TI.O dado está em pesquisa que a Symantec lança hoje. O ato, segundo a empresa, gera gastos extras às companhias. Os custos com TI sobem 22%.

REDESENHO NO CENTRO
O Jockey Club Brasileiro enviou 20 cartas a empresas potencialmente interessadas no retrofit da sede do Centro do Rio. O projeto de R$100 milhões inclui os dois andares do topo (foto), exclusivos dos sócios. O investidor pode cobrar aluguel por 25 anos. A obra começa até junho.

Em dobro 1
A MDL Realty vai lançar cinco empreendimentos neste primeiro semestre, no Rio e em São Paulo. Somam 1.004 unidades e R$ 300 milhões em valor de vendas. É mais que o dobro dos R$ 122 milhões registrados um ano antes.

Em dobro 2
A SH, de construção civil, faturou R$ 18 milhões no Rio no ano passado, aumento de 94% sobre 2011. A empresa trabalha em grandes obras como Transcarioca e Arco Metropolitano. No Brasil, as receitas cresceram 27%, atingindo R$ 200 milhões.

Uma década
Foi de 82% a média de ocupação do Sheraton Barra em 2012. No, ano, faturou R$ 63 milhões. Em 2013, o hotel investirá R$ 4 milhões em mobiliário e infraestrutura. Amanhã, lança selo de dez anos.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


FOLHA DE SP - 29/01


Apesar do PIB, interesse estrangeiro para investir no Brasil continua, diz Coutinho
Apesar de comentários sobre o fraco resultado da economia brasileira em 2012 no Fórum Econômico Mundial em Davos, Luciano Coutinho, presidente do BNDES, afirmou que o interesse por informações sobre investimentos no país foi o mesmo observado em 2012, ou até um pouco maior do que na reunião do ano passado.

"Há muita procura [das companhias] para participarem das novas concessões na área de infraestrutura."

Coutinho disse que sentiu forte interesse de empresas que, além de construírem, participam via PPP na exploração dos serviços. Elas, inclusive, o questionaram sobre os financiamentos.

Sobre aportes de empresas estrangeiras no país, o economista disse que sua "percepção corroborou com a pesquisa da Unctad [braço da ONU para o comércio e o desenvolvimento] que coloca o Brasil como o terceiro maior destino de investimento direto. Mas é claro que na China é maior."

Com relação à energia, o BNDES não vai financiar a diferença na redução de preços entre o que a presidente Dilma Rousseff anunciou e o resultado, que não teve a adesão de 100%.

"Nem poderia, o BNDES financia investimento, não é agente de gasto. Podemos financiar o investimento novo", disse.

"O custo não é financiável. O Tesouro Nacional é que tem de cobrir."

Para o economista, não existe a percepção de que o Brasil estagnou e não vai crescer mais. Há apenas a percepção de que foi um ano conjuntural ruim.

"A pergunta não é se a economia vai crescer ou por que não cresceu. A pergunta é quanto vai crescer."

Coutinho disse ainda que ouviu críticas sobre logística.

"Respondi que o governo já está fazendo um grande esforço de privatização via concessões."

Outra reclamação foi em relação à exigência de conteúdo local, que estaria atrasando alguns programas da Petrobras.

Coutinho rebateu afirmando que a primeira geração de equipamentos foi importada e que são justamente essas máquinas que estão postergando os programas.

Para Coutinho, a marca do Fórum deste ano foi de certo otimismo em relação aos Estado Unidos e de alívio, de que o pior já passou.

"O grande empresariado, a grande banca, está muito mais favorável do que no ano passado, quando havia um clima de pessimismo."

Os problemas, porém, ainda não passaram totalmente.

"A Europa não tem salvação, vai passar o ano estagnada", acrescentou.

"O grande empresariado está muito mais favorável do que no ano passado, quando havia um clima de pessimismo"

"A pergunta não é se a economia vai crescer ou por que não cresceu. A pergunta é quanto vai crescer"

"A Europa não tem salvação, vai passar o ano estagnada"

Estado de São Paulo terá novo parque aquático com resort
Um novo parque aquático será construído no município de Olímpia, no Norte do Estado de São Paulo.

Com capacidade para receber até 70 mil pessoas por mês, o projeto do Hot Beach Diversões Aquáticas será acompanhado de um resort, segundo Newton Carlos Calvo Ferrato, sócio do Grupo Ferrasa Incorporação, responsável pelo projeto.

O investimento, de cerca de R$ 130 milhões, tem previsão para ser entregue em até 36 meses.

"Em maio, nós vamos lançar também um loteamento residencial fechado, além de um para áreas comerciais", afirma o empresário.

O plano abrange 181 lotes residenciais fechados e 74 comerciais destinados a empreendimentos ligados ao turismo na região.

O investimento adicional nos loteamentos é de aproximadamente R$ 40 milhões, segundo a empresa.

A área total será de 500 mil metros quadrados.

"A ideia é aproveitar a vocação turística da cidade, que fica em uma região de águas termais, próxima a São José do Rio Preto e Barretos", afirma o sócio do grupo que abrange empresas de engenharia e turismo.

"Temos operadora de turismo para vender o destino Olímpia e trabalhar com agências coligadas", afirma Ferrato.

NO CLORO
Com 1,2 milhão de toneladas, a produção de cloro cresceu 1,8% no ano passado na comparação com 2011, segundo a Abiclor (Associação Brasileira da Indústria de Álcalis, Cloro e Derivados).

De janeiro a dezembro, as vendas totais do produto tiveram uma alta de 3,6% em relação a 2011.

O crescimento, considerado modesto, foi impactado pelos efeitos da crise internacional, segundo a entidade.

O levantamento aponta ainda que a produção de soda cáustica subiu 1,6% e registrou cerca de 1,37 milhão de toneladas.

As vendas do produto no mercado interno ficaram 3,7% superiores ao resultado de 2011, enquanto as importações da soda registraram uma queda de 4,1%.

1,2 milhão de toneladas foi a produção de cloro registrada no ano passado pela associação do setor

1,8% foi o crescimento no ano passado na comparação com 2011

3,6% foi a alta nas vendas totais do produto

1,6% foi o aumento registrado na produção de soda cáustica

4,1% foi a queda na importação da soda

Sala... 
O Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa), escola especializada em administração, economia, direito e negócios, inaugura hoje a sala "Paulo Renato", no campus localizado na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo.

...de aula 
A sala é uma homenagem a Paulo Renato Souza, que foi ministro de Educação durante governo de Fernando Henrique Cardoso e secretário de Educação do Estado de São Paulo na gestão de José Serra.

Água no chá 
O Rei do Mate prepara, para 2013, a inauguração de cerca de 30 novas lojas. Cidades do interior de SP, como Bauru, Barueri, Sorocaba e Taboão da Serra, têm contratos fechados. Rio, Piauí, Alagoas, Maranhão e Ceará já têm lojas novas confirmadas.

MORRO ACIMA
O Bondinho Pão de Açúcar, uma das mais conhecidas atrações turísticas do Rio de Janeiro, teve recorde de visitantes em 2012. Quase 1,5 milhão de pessoas usaram o teleférico no ano passado, aumento de 10% em comparação ao ano de 2011.

O número histórico de visitações em um mesmo dia também foi superado no ano passado. Foram dez mil pessoas no bondinho no dia 30 de dezembro, 16% superior ao mesmo dia de 2011.

A previsão é que o número de visitantes chegue a 2,2 milhões de turistas em 2017, segundo Maria Ercilia Leite de Castro, diretora-geral da Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar, empresa que controla o empreendimento.

Chocolate 
A Lacta irá produzir 28 milhões de ovos de chocolate para a Páscoa deste ano. O número supera os 27 milhões fabricados no ano passado, de acordo com a companhia.

Produto... 
A Hydronorth, indústria de resinas impermeabilizantes para a construção civil, está desenvolvendo três novos produtos para o setor que serão lançados durante este ano.

...novo 
A expectativa da companhia é que, com a produção da nova gama de resinas, o faturamento de 2013 atinja os R$ 130 milhões, superando assim, os R$ 120 milhões do ano passado.

EXPANSÃO NA VITRINE
A marca de lojas de decoração Cecilia Dale, que acaba de inaugurar uma nova unidade em São Paulo, em Moema, se prepara para abrir uma outra loja. Essa no shopping Villa Lobos.

Nos planos de expansão da marca para este ano está a instalação da primeira loja no Rio de Janeiro, no Fashion Mall.

Também há previsão para mais duas no segundo semestre, em Ribeirão Preto e em Curitiba.

Aparelhamento desmontou a Petrobras - EDITORIAL O GLOBO

O Globo - 29/01
  • Graça Foster tenta resgatar a empresa, mas não se sabe ao certo se ela terá condições de ser operadora monopolista no pré-sal e sócia cativa nos consórcios

Algum tempo depois de assumir a presidência da Petrobras, no início de 2012, Graça Foster, técnica de carreira da estatal, deu um sincero balanço do estado deplorável em que se encontrava a maior empresa brasileira - e, em alguma medida, ainda se encontra. Foi tão sincero que a engenheira química enfrentou resmungos de alas do PT.

Lembre-se que não foi difícil relacionar o conteúdo da prestação de contas feita por Graça - imprescindível, pela crucial necessidade de transparência nas empresas públicas, ainda mais em uma de capital aberto - com a gestão ruinosa do antecessor, José Sérgio Gabrielli, economista, sindicalista filiado ao PT. Se entre os símbolos do aparelhamento executado em boa parte da máquina pública federal, na Era Lula, o Incra e o Ministério do Desenvolvimento Agrário representam a participação de "organizações sociais" no governo, a Petrobras foi ícone da ação de sindicatos companheiros no universo das estatais.

A empresa foi capturada por fortes grupos de interesses, e o resultado disso vem sendo expresso por números dramáticos sobre a situação financeira da estatal. No balanço que deu da situação da estatal, em meados de 2012, Graça Foster, entre outras questões, se referiu a metas irrealistas e atrasos em projetos. Entre o irrealismo, incluam-se estimativas de custo. Todas estouradas, é claro.

Alguns números são emblemáticos. Reportagem do GLOBO de domingo, por exemplo, informa que, de 2009 a 2012, os gastos da empresa superaram em US$ 54 bilhões a geração de caixa, numa média de US$ 13,5 bilhões por ano.

O caminho tomado até chegar a este ponto foi pavimentado por projetos com custos subestimados, investimentos de necessidade discutível, falta de manutenção em equipamentos estratégicos - dos quais depende a produção, em queda - e uma longa e desastrosa defasagem entre o preço interno de combustíveis e o custo de importação, mantida por Brasília. A estatal se tornou também um instrumento a serviço de interesses políticos e, assim, deixou de ser conduzida com base em boas práticas gerenciais. Daí o projeto de uma refinaria no Maranhão e uma outra em Pernambuco, esta em sociedade com a Venezuela de Hugo Chávez, sem que sequer um centavo de dólar o regime bolivariano tenha destinado ao empreendimento até agora.

No segundo trimestre do ano passado, a empresa teve o primeiro prejuízo desde 1999 (R$ 1,3 bilhão). Consequência inevitável tem sido a redução de seu valor de mercado: ontem, a petroleira de capital misto Ecopetrol, da Colômbia, ultrapassou a Petrobras neste quesito. Não se perdem 45% do valor, em três anos, impunemente. Graça parece fazer o possível para resgatar a estatal. Mas há dúvidas se ela terá dinheiro para ser a operadora monopolista no pré-sal e dona cativa de 30% dos consórcios, impostos pelo modelo de exploração por partilha. Nenhuma companhia resiste à mistura de gestão com política. Nem a PDVSA.


Taxa de câmbio e desenvolvimento - ANTONIO DELFIM NETO


Valor Econômico - 29/01


Surjit S. Bhalla é um experimentado e muito bem apetrechado economista. Foi pesquisador nos mais importantes "thinking tanks" da teoria econômica - Rand Corporation, Brookings Institution e Banco Mundial. Amassou o barro prático na Goldman Sachs e no Deutsche Bank. Hoje é o "chairman" da Oxus Investments, um hedge fund baseado em Nova Déli. Há pelo menos 20 anos, vem tentando convencer os economistas do "mainstream" que a proposição que eles aceitam como axioma - "a sobrevalorização do câmbio real pode ser prejudicial ao crescimento econômico" - é também verdadeira na sua forma simétrica - "a subvalorização do câmbio real pode ser benéfica ao crescimento" -, com a qual eles têm muita dificuldade de conviver.

Ele acaba de publicar um magnífico volume, "Devaluing to Prosperity" (2012), pelo respeitado Peterson Institute for International Economics. Prefaciado pelo insuspeitíssimo e competente C.F. Bergsten o livro de Bhalla vai dar trabalho aos economistas do "mainstream". Analisa o problema da taxa de câmbio real com muito cuidado, a começar pelo reconhecimento que a taxa de câmbio real é um animal fugidio e sua estimação estatística é frequentemente complicada por questões de endogeneidade.

A tese que uma taxa de câmbio relativamente desvalorizada ajuda o desenvolvimento é construída em etapas, através do seu efeito sobre o nível de investimento da economia (quando o custo do capital é competitivo): 1) ela leva a um menor custo da produção (porque, em geral, reduz o preço do trabalho em dólares em magnitude, mais do que aumenta em moeda nacional o custo dos insumos importados); 2) isso aumenta o lucro; 3) esse estimula o aumento do investimento e, finalmente, produz: 4) o aumento do crescimento.

Moeda relativamente desvalorizada ajuda a estimular crescimento

Um argumento interessante de Bhalla foi muito usado nos anos 70 do século passado no Brasil: uma taxa de câmbio desvalorizada é, no fundo, uma política industrial horizontal. Beneficia a todos os setores igualmente. Eles se diferenciam, depois, pela capacidade de competir das empresas. Isso leva ao desenvolvimento "export-led", fator fundamental frequentemente "escondido" nas análises do "mainstream" do processo asiático (em particular da Coreia).

A ideia que a taxa de câmbio real é uma variável endógena, e que as desvalorizações nominais são sempre anuladas (mesmo no curto prazo) pelo aumento da taxa de inflação, é claramente desmentida não apenas por nossa própria experiência com a grande desvalorização de 1999, que produziu uma inversão no balanço em conta corrente nos anos seguintes, sem produzir aumento sensível dos preços.

Esse fato desmontou a posição de alguns "brasilianistas" que juraram, às vésperas da desvalorização, que, se ela se realizasse, teríamos a volta da hiperinflação. Bhalla cita alguns exemplos: a desvalorização da libra inglesa (no famoso "Black Wednesday") e da China, que, entre 1980 e 1995, desvalorizou nominalmente o renminbi (que é o nome da moeda chinesa, yuan é o seu valor) em 201% e a taxa de inflação chinesa (descontada, obviamente, da inflação dos EUA) não cresceu mais do que 21% nos 16 anos que separam 1996 de 2011.

Simetricamente, o mesmo ocorreu com o Japão que, desde o início dos anos 90 do século passado, têm uma taxa de inflação negligível, enquanto o iene se valorizou de 160 para 80 por dólar. Não há, portanto, nenhuma razão para recusar a tese de Bhalla, de "que uma desvalorização nominal pode ser real" (pág. 227).

O autor chama a atenção para o fato que mesmo uma taxa de câmbio nominal aparentemente constante pode embutir uma valorização, devido ao famoso efeito Balassa-Samuelson (a tendência à valorização do câmbio com o crescimento do PIB), "ajudado por políticas claramente desvalorizadoras desde a crise de 2007".

Essa depreciação real despercebida tem sido parte importante da história da China e dos países asiáticos desde a crise cambial de 1997-98. Bhalla faz uma interessante comparação histórica, mostrando que no século XIX a Inglaterra e a Holanda tinham as taxas de câmbio reais mais desvalorizadas do mundo, o que talvez explique seu crescimento.

Na minha opinião, essa é a parte mais vulnerável da análise. Quando afirma que "em vários países desenvolvidos a taxa de juros real de 1950 era a mesma de 1870, pesadamente subvalorizada", as coisas perdem um pouco da sua claridade e coerência. Bhalla chama ainda a atenção para um fenômeno que chama de "mercantilismo"; a coexistência, em inúmeros países asiáticos onde convivem alegremente taxas de câmbio desvalorizadas, com grandes superávits em conta corrente e imensa acumulação de reservas internacionais.

O caso brasileiro é diferente, com um câmbio supervalorizado vemos crescer nossas reservas à custa de superávits em conta corrente, que alimentam a expansão do nosso passivo externo.

O "mainstream" vai ter muito trabalho para deixar de encarar a possibilidade teórica e a experiência histórica que sugerem que uma taxa de câmbio relativamente desvalorizada e estável foi um complemento importante no processo de desenvolvimento da maioria dos países, e que não há razão para supor que o caso brasileiro seja uma exceção.

O ex-campeão - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 29/01


O Brasil, que nos anos da primeira década deste século chegou a ser reconhecido como campeão mundial dos biocombustíveis, está sendo passado para trás, em consequência do descaso da atual política do governo Dilma para o setor.

O correspondente do Estadão em Genebra, Jamil Chade, em matéria publicada ontem, conta que, apesar da forte oposição dos ambientalistas, que condenam a utilização de grãos para produção de combustíveis renováveis, a União Europeia já iguala e começa a ultrapassar o Brasil em consumo de biocombustíveis.

Depois de ter se tornado um entusiasta do biodiesel, a partir de 2008, o então presidente Lula já se desinteressara pelos biocombustíveis. Essa talvez tenha sido a consequência da descoberta das reservas de petróleo no pré-sal na Bacia de Santos.

Mais do que puro desinteresse, o governo Dilma impõe uma política de desestímulo aos investimentos em etanol, na medida em que mantém em prática política de combate à inflação à custa do caixa da Petrobrás.

Ao manter achatados os preços dos combustíveis, especialmente da gasolina e do óleo diesel, o governo vai desestimulando, por tabela, os produtores de biocombustíveis que enfrentam custos crescentes de produção e, assim, estão cada vez mais incapacitados de arrostar a concorrência dos derivados de petróleo subsidiados.

É difícil entender essa política que, de resto, sabota a capacidade de investimento da Petrobrás. Por falta de investimentos em plantio de cana de açúcar e na expansão de destilarias, a produção de etanol está estancada em torno dos 20 bilhões de litros anuais, insuficiente para o consumo - suprido em parte com importações de etanol dos Estados Unidos, produzido a partir de milho (veja o gráfico).

A Petrobrás tem todo o interesse em que o etanol volte a ser incentivado. Importa entre 80 mil e 100 mil litros diários de gasolina pelos quais continua pagando um preço mais alto do que o obtido no mercado interno.

Embora o consumo tenha aumentado 20% em dois anos, não há nenhuma possibilidade de que, nos próximos dez anos, suas refinarias consigam aumentar a oferta de gasolina. Isso significa que, sem novo empurrão do governo para a produção de etanol, a Petrobrás terá de aumentar em mais de 300% suas importações diárias de gasolina nos próximos oito anos.

Na área do biodiesel, talvez o principal problema seja falta de foco - veja o Confira. Até agora, não se obteve matéria-prima mais adequada do que o óleo de soja, que ao menos conta com sistema integrado de produção e distribuição. Insistir com outros produtos, como óleo de palma (dendê), pinhão-manso ou gordura animal, parece dispersão de esforços e ter de enfrentar a impossibilidade de obtenção de escala e de compressão de custos.

As pressões, cada vez maiores na Europa e nos Estados Unidos, pela redução da utilização de alimentos na produção de biocombustíveis poderiam abrir grandes mercados de exportação para o etanol e para o biodiesel do Brasil, que conta com enormes áreas agricultáveis disponíveis. Mas é preciso revisar a atual política - ou a falta de política - para o setor no Brasil.

Cartas na manga - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 29/01


O governo tem várias cartas na manga para lidar com a inflação este ano. A redução dos preços de energia terá um primeiro impacto em janeiro e a maior parte do efeito em fevereiro. Mesmo assim, o acumulado deve passar de 6% no IPCA deste mês. Mas, em seis das 11 capitais pesquisadas pelo IPCA, haverá outra revisão tarifária de energia, o que vai atenuar o impacto das termelétricas.

Quando foi feita a privatização, estabeleceu-se um prazo para as empresas passarem por uma revisão tarifária, pelo que era chamado de Fator X. Esse fator redistribui para o consumidor parte do ganho de produtividade das distribuidoras. Este ano, Cemig, Light, Goiás, Pernambuco, Bahia e as duas do Rio Grande do Sul farão a revisão tarifária ao longo do segundo semestre, o que neutralizará parte do impacto do aumento do uso das termelétricas. Essa é a análise do economista Luiz Roberto Cunha, da PUC-Rio.

A queda do preço da energia vai começar o seu efeito este mês. A antecipação do anúncio evitará que em janeiro o índice fique perto de 1%.

- Iria fechar em 0,95%, mas na última semana do mês entra a queda da energia. Em fevereiro, será a maior parte do ganho. Aí, mesmo com o impacto da educação - que no IPCA é em fevereiro -, o mês não será tão alto. O primeiro trimestre pode terminar acima do 1,22% do ano passado, mas se não houvesse a queda da gasolina e a postergação do aumento do ônibus no Rio e em São Paulo chegaria a 2% - disse Luiz Roberto.

Não que ele concorde com essa administração de preços iniciada pelo governo. Acha que em grande parte o que se consegue é apenas postergar, mas o governo pode estar querendo que esses aumentos de ônibus e metrô de São Paulo ocorram em junho, mês de menores pressões inflacionárias. No entanto, mesmo sendo num mês fraco, o acumulado em 12 meses pode, em junho, superar os 6,5%.

Resta saber quando vai aumentar a gasolina. Se o governo anunciar em fevereiro, será junto com educação, que sobe bastante. Luiz Roberto acha que o governo deve jogar para abril e anunciar ao mesmo tempo em que eleva a mistura do álcool à gasolina, para reduzir o impacto no preço ao consumidor.

No segundo semestre, há um impacto forte da entressafra de alguns alimentos, mas no ano passado foi mais forte, lembra Luiz Roberto, porque houve uma enorme seca nos Estados Unidos, que quebrou a safra do trigo, soja e milho.

- A esperança é que não se repita a mesma seca, e que volte ao padrão normal. Mas os extremos do clima estão ficando mais constantes; a Austrália está passando por uma onda de calor; e a China, por um enorme frio. Se houver problemas de safra a situação volta a piorar - disse.

Um grupo de produtos que pode subir este ano é o de bens de consumo duráveis, que tiveram deflação em 2011 e 2012, pela queda do IPI. Este ano, a tendência é ele ficar mais alto.

Há uma outra carta na manga que o governo pode usar em algum momento, quando for conveniente. No ano passado, o governo vetou a isenção tributária da cesta básica quando foi aprovada no Congresso. Mas, na época, criou um grupo de trabalho para negociar com os estados a redução do ICMS nesses produtos.

- Existem alguns impostos federais, como PIS/Cofins, mas o ganho seria maior com a adesão dos estados. Isso pode ajudar a atenuar o impacto inflacionário, quando for anunciado - disse o economista.

Mesmo com tudo isso, o IPCA de janeiro pode levar a inflação de 12 meses a 6%. Depois, volta a cair, mas sobe novamente e pode passar o teto da meta. Há uma chance de reduzir no segundo semestre, terminando em 5,7% e 5,8%. Na opinião de Cunha, esse é o melhor cenário.


Onde está Wally? - JOSÉ PAULO KUPFER


O Estado de S.Paulo - 29/01


Em meio a uma infindável discórdia, formou-se um consenso sólido no debate da política econômica no Brasil. Do mais exacerbado heterodoxo ao mais extremado ultraliberal estabeleceu-se uma unanimidade em torno da ideia de que sem retomada dos investimentos a economia brasileira não vai para a frente. A dissensão, contudo, volta com força quando se trata de avaliar se os investimentos vão afinal reagir, depois das muitas ações promovidas pelo governo com esse objetivo.

Determinar quando acordará o "espírito animal" do empresário, deflagrador de um aumento consistente no volume de investimentos, é o principal esforço de previsão macroeconômica do momento. Lembra o exercício de encontrar Wally, personagem de sucesso em livros, tiras de jornal e desenhos animados, perdido no meio de multidões, da série "Onde está Wally?". Não era fácil encontrar o tipo magro, alto e com jeito de nerd, camuflado nas cenas desenhadas, mesmo sabendo que ele estava lá.

Na busca dos investimentos, como Wally, ainda não visíveis à primeira vista, os analistas, quase sem exceção, listam um conjunto de fatores positivos. Quedas expressivas dos juros, dos spreads bancários e dos custos de financiamento no BNDES, em combinação com uma taxa de câmbio mais depreciada, estão entre os principais. Além disso, eles enumeram os cortes nas tarifas de energia, a redução de encargos em folha de pagamento, as novas regras de depreciação acelerada, favoráveis à produção de bens de capital, e as concessões públicas em setores de infraestrutura.

Acreditar que, mais cedo ou mais tarde, esse ambiente favorável levará a uma expansão dos investimentos é a regra entre os analistas, embora existam exceções. Depois de um recuo de 3,5% em 2012, o volume de investimentos, segundo os cálculos desses analistas, deverá crescer nas vizinhanças de 6% ao ano em 2013 e 2014, avançando acima da evolução prevista para o PIB. Mesmo assim, a taxa de investimento da economia deverá progredir lentamente e não deverá passar de 19% do PIB até pelo menos 2015.

O ritmo mais recente de consultas ao BNDES, para projetos de investimento, ajuda a respaldar tal crença. Em relação ao ano anterior, o volume de recursos envolvido cresceu 60% em 2012, mas o movimento ganhou velocidade no último trimestre, quando a expansão, sobre igual período de 2011, avançou 150%.

Pesquisas do banco apontam aumento nas perspectivas de investimento, no período 2013-2016, em comparação com o período 2008-2011. Além o volume forte de consultas, João Carlos Ferraz, vice-presidente e diretor de Planejamento do BNDES, observa uma diversificação de setores em busca de recursos para investir.

Para Nilson Teixeira, economista-chefe no Brasil do banco de investimento global Credit Suisse, uma variável-chave para o deslanche dos investimentos é a situação da economia global. "Incertezas globais desestimulam o investimento, mas o quadro agora é bem mais benigno", diz ele.

No cenário mais provável traçado por Teixeira, a economia global crescerá 3,5%, em 2013, em sintonia com as mais recentes estimativas do FMI, levando o investimento, no Brasil, a uma expansão de 6,5%, neste ano, e 7,5%, em 2014. São números suficientes para fazer o economista - o mesmo que, ainda no primeiro semestre de 2012, projetou, na contramão das estimativas de então, evolução de apenas 1,5% para a economia brasileira em 2012 - manter a previsão de um crescimento da economia brasileira em 4%, em 2013, novamente na contramão do mercado. Num cenário alternativo, no qual o crescimento global não passa de 2,7%, o investimento no Brasil avançaria apenas 3,1% e o PIB, somente 2,8%.

Economista-chefe do Banco Itaú, Ilan Goldfajn é um pouco menos otimista. Considera que as medidas favoráveis ao investimento são importantes, mas prefere esperar para ver. "Com exceção da infraestrutura, que depende mais do governo, os demais setores vão esperar alguma retomada da economia para aparecer", imagina ele. "O governo terá de ser mais pragmático e evitar sinais erráticos, como o tira e põe de IPI e as dúvidas sobre o caráter permanente dos cortes nas tarifas de energia."

Goldfajn espera uma definição dos rumos dos investimentos para abril. É lá que o calendário prevê os primeiros dos muitos leilões de concessões em andamento. Se não forem adiados, Wally acabará dando as caras.

As chacinas de mercado - ARNALDO JABOR


O Estado de S.Paulo - 29/01


"Viu só? Tá pensando o quê? Batemos o recorde de mortes em São Paulo; não tem Rio, não tem Pernambuco, não tem pra ninguém, meu amigo. Foi o maior índice de homicídios em cinco anos. Cinco mil e trezentas pessoas entre janeiro e dezembro. Os jornais ficam dizendo que há uma crueldade banalizada por nós. Que é isso, 'mermão'?

'Nonada' - não há mais a 'crueldade'. As novas chacinas de São Paulo estão além do bem e do mal. Há crueldade num abatedouro de frangos? Não. Os frangos são decapitados por diligentes carrascos de branco, limpinhos, como num Auschwitz higiênico. Nem nos matadouros há crueldade, apenas operários mal pagos entre mugidos tristes. O mesmo nas chacinas. Ninguém sente nada. E nós nem nos preocupamos em tapar as pistas. Sabe por quê? Porque estávamos cumprindo tarefas, cuidando de nossos interesses. Fazemos parte de uma empresa escura, invisível, mas que progride muito nas periferias. O que vocês chamam de 'crime organizado' é organizado mesmo. Não é aquela criminalidade babaca do Rio e outros Estados primitivos. O dinheiro que o tráfico arrecada aqui, nesta cidade tão rica, é aplicado com seriedade em bens de capital e em rentáveis investimentos. Nossos chefes são sérios, previdentes. Eles investem muito em postos de gasolina adulterada que rende mais, claro, eles têm motéis meio escrotos, não são 'Bahamas' ou algo assim, mas a tigrada tem onde trepar numa boa, têm não digo supermercados, mas muitos mercadinhos legais. Claro que eles têm muito mais grana do que nós, mas nós fazemos parte do negócio, somos os peões de uma nova visão de mundo da periferia: o crime neoliberal, o crime copiado dos métodos de tantos 'cachoeiras' e de mensaleiros didáticos. Nós somos a base desse sistema e podemos subir na carreira se cumprirmos as ordens dos chefes - uma rede organizada, com amigos federais, estaduais e municipais. O PCC rege hoje todas as cadeias de São Paulo; temos até reunião plenária na prisão, com votação e tudo, temos a contribuição obrigatória (hoje está por volta de 800 paus por mês) para proteção e regalias da malandragem. Quem não paga vai pro lixo, em todos os sentidos. Nós pagamos com nossas ações de intimidação que a 'mídia conservadora' chama de 'chacinas'.

Estamos aprendendo muito com os craques do Oriente. Nossos ataques, como os deles, não são previsíveis - a gente sai armado e o acaso nos leva às vítimas e é até melhor que sejam inocentes, para que ninguém mais se sinta 'protegido'. Mas há uma diferença entre nossos 'presuntos' e os 'presuntos' do Oriente. Lá, eles matam e são mortos por religião ou se explodem felizes por uma causa política. Nós, não. A gente não pensa em ir para o céu feito os homens-bomba. Nós obedecemos às ordens dos celulares da chefia de dentro das prisões... Aliás, como podemos respeitar uma polícia que não consegue nem bloquear celulares? Mas, como você quer saber, sim, há um prazer nisso tudo, devo confessar. O grande prazer é matar neles a nossa vida escrota, ordinária, matar neles nosso destino miserável. Entendeu? A gente gosta até mesmo de exibir, jogar na cara dos playboys nossa ferocidade. Tem que dar medo neles. Outro dia, a gente decapitou dois X-9's. Dá trabalho. Esguicha muito sangue, tanto que a gente cobre o quengo do elemento com uma toalha na hora da degola. Eu já tinha visto a decapitação de um refém no Iraque, na internet. Êta, gente competente! O árabe foi serrando com a faca, assim, devagar, o pescocinho duro e o americano só deu uma estrebuchada na hora do corte, só deu um mugidinho.

Matar ainda é a maior diversão... Você já matou alguém? Não? Não sabe o que está perdendo... O prazer de sair com uma metralhadora, ali, no tiro ao alvo, os otários levando susto, é de matar de rir; a cara do babaca voltando do trabalho e a gente acertando ele na porta de casa, a esposinha berrando, criancinhas chorando, dá uma adrenalina legal, parece que fica tudo bonito em volta. Outro dia, num botequim que tinha uns babacas dentro quando a gente tacou fogo, o néon ficou mais forte, tudo ficou luminoso! Aliás, a morte matada parece mesmo um milagre. Os caras que estavam ali, folgando, bebendo, rindo, levam chumbo e de repente ficam todos quietinhos, obedientes, não se mexem mais. É superlegal. Os caras viram coisas. Eu confesso que me sinto leve nessas 'paradas'... E tem mais: a gente não gosta de matar na moita... Os 'presuntos' têm de ser vistos, ali, caídos; afinal, fomos nós que criamos tudo aquilo... Legal é o prazer de abrir uma cerveja, acender um baseado e ficar vendo na TV a nossa 'obra'. É uma curtição irada; parece uma exposição de pintura, uma 'instalação' - aqueles corpos na estrada, em posições diferentes, as autoridades falando em 'providências', é o maior barato... Dá orgulho. Dá vontade de sair na rua e gritar: 'Fui eu!!!'

Hoje em dia, somos obrigados a criar notícias, fazer 'mídia', temos de chamar atenção e cada vez está ficando mais difícil - é tanto crime, que a gente tem de caprichar... Você veja, a turminha lá do Elias Maluco inventou o 'micro-ondas'. Bacana, obra de arte: o cara queimando dentro dos pneus é dos espetáculos mais emocionantes que já vi, chega a dar medo mesmo na gente que está acostumado - aqueles gritos e, aos poucos, o silêncio, com o cara virando cinza, dá um alívio, como uma purificação... É demais...

Mas, o que me dá tranquilidade, 'mermão', é que nós sabemos que no Brasil é impossível resolver o 'problema da violência', como os playboys chamam...

O que tinha de ser feito ninguém consegue fazer mais: atacar a rede do tráfico de pó e armas que começa nos oficiais graúdos, passa por políticos e autoridades até chegar a nós, os pés de chinelo. A gente é peão. Não há mais crueldade; apenas defesa de mercado, para que nossos chefes e nós possamos sustentar nossas famílias dignamente."

Prefeitos, transparência já! - GIL CASTELLO BRANCO

O GLOBO - 29/01


O Estado não gera um centavo. Nada mais natural do que a população saber com detalhes como está sendo gasto o seu dinheiro



Um amigo, Arildo Dória, passando há alguns anos por uma cidade do interior de Goiás encontrou uma placa curiosa. A tábua de madeira, pregada no meio de duas estacas, anunciava a reforma da praça, o custo da obra e a origem dos recursos, diretamente atribuída ao “Povo de Padre Bernardo”. Diante da frase inusitada, Arildo, velho comunista, sentou-se em um banco que ainda restava no local para refletir sobre a forma da divulgação.

De fato, convenhamos, é mais correto relacionar a origem dos recursos ao povo do que aos governos federal, estaduais ou municipais, como insinuam os políticos nos outdoors sobre as obras públicas. O Estado, por si só, não gera um centavo. Apenas administra os impostos, taxas e contribuições que as pessoas físicas e jurídicas pagam.

Assim sendo, nada mais natural do que a população saber com detalhes como está sendo gasto o seu dinheiro. Como consequência da Lei Complementar 131 — de autoria do senador João Capiberibe —, a partir de 27 de maio próximo todos os 5.568 municípios brasileiros deverão ter as suas contas disponibilizadas na internet. Até então, somente as prefeituras com mais de 50 mil habitantes estavam obrigadas a fazê-lo. No Rio de Janeiro, por exemplo, prefeitos de 55 cidades deverão inaugurar ou aprimorar os portais existentes, se é que ainda não o fizeram. Dentre essas localidades estão Arraial do Cabo, Búzios, Miguel Pereira, Parati, Vassouras, entre outras frequentadas pelos cariocas nos fins de semana.

É provável que alguns prefeitos coloquem empecilhos para o cumprimento da “novidade”, que já estava programada há quatro anos, quando da publicação da lei. Neste caso, os estados e as prefeituras de maior porte poderão colaborar com os pequenos municípios para que os portais tenham qualidade e o menor custo possível.

Na verdade, os políticos gostam de muita transparência, mas nos governos dos adversários. No entanto, se os recém-eleitos ou reeleitos quiserem mesmo ser transparentes, deverão colocar nos sites de suas cidades as agendas diárias, os plantões dos médicos nos hospitais, o que a prefeitura comprou, por quanto, de quem, em que quantidade, o nome dos funcionários públicos com os respectivos cargos e salários, entre muitas outras informações relevantes para o controle social.

Para a lei ser cumprida, não bastará o site municipal conter o currículo e a foto do prefeito, o telefone do Corpo de Bombeiros e outras informações do gênero. O detalhamento será fundamental para que sejam multiplicados os “auditores”, o que irá aprimorar as administrações públicas. No dia a dia, vários problemas serão minimizados com a fiscalização dos próprios cidadãos.

A título de exemplo, na 36ª edição do Programa de Fiscalização a partir de Sorteios Públicos, realizado pela CGU, foram encontradas irregularidades no Programa Bolsa Família em todos os 24 municípios examinados, do cadastro desatualizado à frequência escolar. Entre os beneficiários havia proprietários de oficina, salão de beleza, sítio, moto e camionete F4000, além de centenas de funcionários públicos que não se enquadravam nos requisitos do programa.

Em Arraial do Cabo, por exemplo, existiam 397 beneficiários pertencentes a famílias em que pelo menos um membro tinha vínculo empregatício, até mesmo com empresas públicas e sociedades de economia mista. Dentre os espertalhões, 75 servidores vinculados à própria Prefeitura Municipal de Arraial do Cabo.

O fato não é inédito. Em outras 14 cidades foram identificados funcionários públicos com evidências de renda per capita superior à estabelecida na legislação do programa. Na cidade de Santana (PE), por exemplo, foram encontrados 99 bolsistas empregados na esfera municipal, 62 dos quais na própria prefeitura.

Com os novos portais, bastará haver a divulgação simultânea do nome dos servidores públicos e dos favorecidos pelo Bolsa Família para que qualquer cidadão possa cruzar as informações e denunciar essa “mamata” dos funcionários municipais. Sem dúvida, a transparência é a principal inimiga da corrupção.

As prestações de contas vêm de longo tempo. Na Grécia antiga a comunidade reunia-se na Ágora, a praça pública, para avaliar a contabilidade dos arcontes, embaixadores, generais, sacerdotes e de todos aqueles que geriam o dinheiro público. Nos dias de hoje, a cidadania vem pela via digital.

O essencial é que os homens públicos informem como estão gastando o dinheiro do povo, seja na internet ou na praça de Padre Bernardo.


Brincando com fogo - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 29/01


BRASÍLIA - Por que aviões que comportam 300, 400 passageiros têm seis portas, mas a boate Kiss, com capacidade para mil pessoas, tem uma única saída? Por que não há, ou não havia, saídas de emergência nem válvulas de escape para fumaça?

E como o poder público, que autoriza e fiscaliza, não viu?

Por que a Kiss, com tantos meandros (vão central, mezanino, área VIP, palco, bares, hall de entrada), não tinha iluminadores indicando a rota de fuga em caso de urgência?

E como o poder público, que autoriza e fiscaliza, não viu?

Por que o sinalizador Sputnik, que atinge até quatro metros de altura e só é permitido para áreas externas, vinha sendo usado pela banda "Gurizada Fandangueira" em ambientes fechados, inclusive na Kiss?

E como o poder público, que autoriza e fiscaliza, não viu?

Por que os seguranças não tinham nem sequer walkie-talkies para trocar informações sobre a gravidade e liberar imediatamente a única saída?

E como o poder público, que autoriza e fiscaliza, não viu?

Por que o músico e um segurança tentaram acionar o vital extintor de incêndio e ele não funcionou? Estava quebrado? Vencido? Só havia um?!

E como o poder público, que autoriza e fiscaliza, não viu?

Por que não havia uma equipe de brigadistas que pudessem reagir rapidamente para apagar o fogo, controlar o pânico e evacuar o prédio?

E como o poder público, que autoriza e fiscaliza, não viu?

Se as respostas não trarão de volta os Maicon, Micheles, Fábios, os irmãos Oliveira e as irmãs Brissow -que tinham toda uma vida para viver, um futuro cheio de promessas para desvendar-, elas descartam a simples "fatalidade" e podem salvar outros jovens pelo Brasil a fora.

Já as perguntas dos pais e mães de Santa Maria jamais terão resposta. Por que meu filho morreu? Por que minha filha morreu? São perguntas que ficam para sempre. Como a dor.

O horror de Santa Maria - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 29/01


A maior catástrofe já ocorrida numa casa de espetáculos no Brasil foi o incêndio criminoso que matou 503 pessoas em um circo de Niterói, em dezembro de 1961. A segunda maior - o fogo que irrompeu na madrugada de domingo na boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul - deixou pelo menos 233 mortos e uma centena de feridos. Queimaduras e sequelas em sobreviventes, como a chamada "pneumonia química", resultado da inalação de fumaça, poderão elevar o número de vítimas. Ninguém premeditou a nova tragédia. Mas a intenção de matar foi só o que faltou na receita que a tornou inevitável. Cerca de mil jovens se divertiam ao som da banda gaúcha Gurizada Fandangueira, superlotando um ambiente em que só havia uma porta de entrada e saída com não mais de 4 metros de largura (decerto para impedir o ingresso de penetras) e nenhuma indicação de como alcançá-la em caso de emergência. Tampouco havia janelas. A noitada se destinava a arrecadar dinheiro para festas de formatura da Universidade Federal da cidade (UFSM), o mais importante polo acadêmico do Sul do País, com 27 mil estudantes.

Quando o vocalista do grupo acendeu um sinalizador de efeito pirotécnico, como se costuma fazer nesses shows, faíscas aparentemente inflamaram o papelão do revestimento acústico do teto. Pode ter havido um curto-circuito. O guitarrista da banda e um segurança contaram que, vendo as chamas se formar, tentaram acionar um extintor de incêndio - que não funcionou. No escuro, os primeiros a perceber o perigo trataram de escapar - apenas para serem barrados por seguranças porque não tinham pago as suas comandas. Quando eles se deram conta do que realmente se passava - notando, como o público, que a música havia parado -, e deixaram de bloquear a saída, era tarde. A multidão arremetia em desespero de um lado para outro. Muitos confundiram o acesso aos banheiros com a porta da rua. Os bombeiros encontraram ali muitos corpos amontoados. A causa de 90% das mortes foi a asfixia, não queimaduras ou pisoteamento.

O escândalo maior era a situação irregular da boate - com o alvará de funcionamento e o aval do Corpo de Bombeiros vencidos desde o ano passado. Um dos donos disse à Polícia que havia pedido a renovação. O delegado que o ouviu ficou de apurar se é verdade e, nesse caso, por que a autorização ainda não tinha sido dada. Qualquer que tenha sido o motivo, e ainda que não se possa atribuir a tragédia à falta do alvará, é óbvio que, nessas condições, a Kiss não podia estar funcionando. Ontem, cumprindo decisão judicial, foram presos dois sócios da boate e dois integrantes do conjunto. O uso de sinalizadores em locais fechados é outra controvérsia. Em 2003, um show pirotécnico durante a apresentação de uma banda matou 95 pessoas e feriu 160 em West Warwick, no Estado americano de Rhode Island. A história se repetiu na virada de 2004 no clube Cromañón, de Buenos Aires. Dessa vez, a pirotecnia provocou 194 mortes e feriu mais de 1.400. Na Argentina, o horror serviu pelo menos para a adoção de novas regras de segurança nas casas noturnas do país.

Em Santa Maria, o contraponto imediato à tragédia foi a rápida e competente mobilização do setor público federal e estadual, civil e militar - começando pela conduta exemplar da presidente Dilma Rousseff. No Chile, onde participava de uma reunião internacional, tão logo foi informada do acontecido, disparou uma sequência de telefonemas, transmitindo instruções precisas a ministros de Estado e outras autoridades. Falou também com o governador Tarso Genro. Em seguida, anunciou, sem segurar as lágrimas, que seguiria para a enlutada cidade gaúcha - "é lá que eu tenho de estar". Chegando ao Ginásio Municipal, para onde os corpos tinham sido levados, emocionou-se novamente com a dor de seus familiares e pessoas próximas. Antes de se retirar, revelando uma sensibilidade incomum ainda mandou que os presentes, sob um sol de 35°C, fossem encaminhados a uma área coberta, na companhia de assistentes sociais.

O mais dependerá da revolta, a "única emoção útil", no dizer do gaúcho Luis Fernando Veríssimo. "A revolta pede providências para que tragédias assim não se repitam."

Boate Kiss e o ‘lado b’ do Brasil - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 29/01


A tragédia de Santa Maria impõe à sociedade uma séria reflexão sobre a cultura nacional da leniência,do descaso, da corrupção



As consequências imediatas da tragédia de Santa Maria devem se dar no terreno mesmo das providências para apurar causas e responsabilidades da catástrofe. Neste sentido, o poder público, em todas as instâncias cujos órgãos se relacionam com o incêndio na Boate Kiss, deve dar curso à imperiosa obrigação, moral e legal, de levar às últimas consequências o inquérito sobre o episódio. Nele, irresponsabilidades, leniência e falta de senso se misturaram para provocar uma madrugada de horror em que mais de 230 jovens morreram, e deixou outra centena entre o risco de falecer e carregar pelo resto da vida sequelas físicas e/ou psicológicas.

Inquéritos são uma obrigação policial, mas provê-los não é iniciativa suficiente para dar respostas a uma tragédia que ficará marcada na história do país. Primeiro, e o mais óbvio, porque nenhuma providência, em termos de medidas legais ou administrativas, que se tome agora será capaz de reparar a dor das famílias dos jovens que tiveram a vida interrompida de forma tão estúpida e dolorosa. Segundo, porque a gravidade da tragédia, e de todas as circunstâncias que a ela parecem ter levado, impõe que se avance muito além da formal apuração de culpas e, mesmo, da condenação dos responsáveis.

É preciso haver consciência, para além do que aconteceu na madrugada de domingo, que há no país uma rede em que se entrelaçam inépcia administrativa, corrupção, omissão do poder público e conformismo do cidadão comum responsável por enlutar o país. Muitas vezes, no varejo, como nos acidentes de estrada nos feriadões. A tragédia de Santa Maria impõe à sociedade uma séria reflexão sobre a cultura nacional da leniência, do descaso, da corrupção (em suas duas faces, a do corruptor e a do corrompido, bem como em todas as suas dimensões, desde a propina com que se compra o perdão do guarda da esquina até os grandes golpes contra o Erário).

É preciso partir do princípio de que, nessa questão, o mea culpa cabe a todos: agentes públicos, proprietários de estabelecimentos que rebarbam normas de segurança, cidadãos comuns que igualmente as desprezem (inclusive em atentado contra seus direitos).

Um ponto a ser liminarmente refutado é que teria havido uma “fatalidade” em Santa Maria. Não houve. O noticiário está cheio de evidências de que diversas causas, no terreno das responsabilidades humanas, contribuíram para o desastre. Crer em “destino” não ajuda o país a rever procedimentos danosos, enraizados na cultura nacional, que contribuíram para fazer da Kiss o emblema de um acontecimento que se alinha entre os mais funestos do mundo, comparável a incêndios como o que em 2004 matou quase 200 pessoas na Argentina, e o que provocou a morte de outras 300 na China, em 2000 — ambos também em boates.

Em tudo, das causas às consequências, Santa Maria é a trágica expressão do “lado b” do Brasil,

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Agora, é com a CGU (Controladoria Geral da União)”
Ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) sobre os enrolados na Operação Porto Seguro


SUBORDINADO DEFINE O FUTURO DE ADAMS NA AGU

Em Brasília, as atenções convergem para Ademar Passos, corregedor-geral da Advocacia-Geral da União: ele decide se inclui no processo administrativo-disciplinar dos enrolados na Operação Porto Seguro, da PF, o ministro Luiz Adams (AGU), que o nomeou. A Casa Civil mandou para a Controladoria-Geral da União o relatório que originalmente pede o indiciamento e a demissão de Adams, da chefe de gabinete, Hebe Pereira Silva, e do consultor-geral da União, Arnaldo Sampaio Godoy.

SUSPEITA

Adams, Godoy e Hebe são suspeitos de favorecerem a Tercondi, do ex-senador Gilberto Miranda, empresa que atua no porto de Santos.

OPERAÇÃO ABAFA

Entidades como Anauni (advogados da União) temem que o corregedor Ademar Passos promova “operação abafa” para livrar o chefe Adams.

PIZZA NO FORNO?

As conclusões da comissão de sindicância já vazaram, mas a AGU ainda não o divulgou oficialmente, e as entidades temem alterações.

OLHO DA RUA

Outro homem de confiança de Luiz Adams, José Weber Holanda Alves, nº 2 da AGU, já foi demitido em novembro, pela presidente Dilma.

JUCÁ ABRE MÃO DE CARGO NA MESA POR LIDERANÇA

O senador Romero Jucá (PMDB-RR) disse a correligionários que abre mão da segunda vice-presidência do Senado – cargo ao qual o partido tem direito por ser o maior da Casa – em troca da liderança do bloco da maioria. Preocupado com a repercussão de sua briga pela liderança do PMDB contra o favorito Eunício Oliveira (CE), Jucá recuou e disparou telefonemas em busca de apoio da bancada para representar o bloco.

PERFIL POLÍTICO

Líder por sete anos, Romero Jucá diz preferir participar das decisões do jogo político a assumir cargo na mesa ou em comissão.

COMPOSIÇÃO

Romero Jucá pretende, com o gesto, ajudar na composição para fazer de Vital do Rêgo (PMDB-PB) segundo vice-presidente do Senado.

NEM AÍ

A União Nacional dos Estudantes ignorou a tragédia de Santa Maria (RS). Talvez porque as vítimas não eram estudantes profissionais.

PERDIDO NO ESPAÇO

O ministro nanico Celso Amorim (Defesa) pagou mico oferecendo apoio das Forças Armadas: a base aérea de Santa Maria (RS) é a mais equipada do País, e a de Porto Alegre funcionou à perfeição sem ele.

PALAVRA PROIBIDA

O estigma do fogo arde no coração dos brasileiros: quase dez anos depois, ninguém foi punido pelo incêndio na base de lançamentos de Alcântara (MA), quando morreram 21 pesquisadores, todos jovens.

PGR NO PALANQUE

A Procuradoria-Geral da União apresentou denúncia contra Renan Calheiros, sexta (25), sobre alegações datadas de 2007. A ação, curiosamente protocolada a oito dias da eleição, favorece o procurador Pedro Taques (PDT-MT), rival dele na disputa para presidir o Senado.

TROPA UNIDA

O deputado Miro Teixeira (RJ) defende que o PDT faça caravanas pelo País afora e aumente o número de candidaturas em 2014: “A única maneira de acabar com briga interna é arrumar um motivo comum”.

GEDDEL NA CGU?

O baiano Geddel Vieira Lima está na campanha de Eduardo Cunha (RJ) na disputa pela liderança do PMDB na Câmara dos Deputados. Sua expectativa é voltar a ser ministro. Como referência ética do grupo, poderá substituir outro baiano, Jorge Hage, na Controladoria-Geral da União (CGU).

INOCENTE

O senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) diz não ser responsável pela própria propaganda política: sua foto na capa do CD da Liga das Escolas de Samba do Amapá, financiado pelo governo estadual.

SUMIÇO

A tragédia em Santa Maria encobriu o fiasco no fim de semana em Porto Alegre do Fórum Social Temático, braço dos maluquinhos do Fórum Social Mundial. Apareceram menos de mil dos 30 mil previstos.

MEMÓRIA CURTA

Sobreviventes do incêndio que em 2003 matou 100 pessoas numa boate nos EUA lamentaram no jornal The Christian Science Monitor que o Brasil “não aprendeu a lição”: lá, a pirotecnia causou a tragédia.

PENSANDO BEM...

...a pátria mãe gentil chora Fábios, Josés, Marianas, Julianas...


PODER SEM PUDOR

UM BAIANO NOS PAMPAS

Reza o folclore político que o gaúcho Getúlio Vargas arrumou encrenca com o general Flores da Cunha, em 1937, ao nomear o general Daltro Filho, soteropolitano, como interventor no Rio Grande do Sul.

- Que fizeste, Getúlio? Tu és um renegado!

Getúlio reagiu com naturalidade:

- Ora, Flores, se um gaúcho pode governar o Brasil, por que um baiano não pode governar o Rio Grande?

TERÇA NOS JORNAIS


Globo: Depois da tragédia…: Prefeitos agora fazem varredura em boates
Folha: Boate estava superlotada na noite da tragédia no RS
Estadão: Donos de boate são presos; Dilma pede a prefeitos mais fiscalização
Correio: Uma boate perigosa em cada esquina do Brasil
Valor: Plano prevê nacionalização da CSA
Estado de Minas: Polícia prende 4 por incêndio em boate
Zero Hora: Falhas e erros banais causaram tragédia

segunda-feira, janeiro 28, 2013

Nós que temos filhos - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 28/01


Por uma infelicidade tremenda, fui ler os comentários de um site sobre o acontecido em Santa Maria e dei com uma criatura funesta que falou coisas impublicáveis. Um só. Um único demente entre tantos solidários, e pensei: precisa mais que um para lamentarmos a falta de compaixão? Porque essa foi a palavra que me invadiu desde as primeiras horas de um domingo ensolarado lá fora e nublado aqui dentro: compaixão.

Qualquer pessoa que tenha um filho ou uma filha não tem como não se colocar no lugar dos pais, dos avós, dos tios daquela garotada que saiu no sábado à noite para se divertir e que foi vítima do destino – poderíamos também chamar de descaso, insensatez, irresponsabilidade –, mas é cedo para diagnósticos precisos. Destino é uma palavra mais abrangente.

Tenho duas filhas que comumente saem à noite, dançam, se divertem em lugares fechados, e eu não faço vistorias prévias, não peço laudos, não investigo, simplesmente confio que elas estarão em segurança. Quem pode garantir? Alguém deveria, mas o destino não se responsabiliza. Nunca se responsabilizou.

Sei de dois irmãos e de um casal de namorados que tinham relações com amigos meus e que estão entre as vítimas. De íntimo, eu não conhecia ninguém. Isso me afasta da tragédia? Nada nos afasta dessa tragédia, a não ser que não tenhamos compaixão. Essa palavra não me sai da cabeça. Um mundo individualista como o nosso precisa abraçar esse conceito, esse sentimento: compaixão. Se colocar no lugar do outro. Dói, mas é necessário.

Quem não tem filhos sofre. Quem tem se arrebenta. Não é algo que se explique. Nenhum racionalismo conforta. É um soco que nos tira o ar e nos faz lembrar o que tanto buscamos esquecer: que somos todos vulneráveis diante da fragilidade da vida.