domingo, dezembro 30, 2012

A amplitude da corrupção - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADÃO - 30/12


Os números cons­tantes de levan­tamento feito pela Polícia Fe­deral (PF) so­bre as suas in­vestigações de desvios de recur­sos e corrupção em prefeituras de todo o País são impressio­nantes. Embora se refiram a in­quéritos ainda em curso, eles dão uma ideia da amplitude das suspeitas - baseadas em indí­cios fortes o suficiente para mo­bilizar a Diretoria de Investiga­ção e Combate ao Crime Organi­zado (Dicor), da PF - que pai­ram sobre um setor da maior im­portância da administração pú­blica, o dos governos munici­pais. São 3.167 inquéritos que envolvem 484 prefeitos e ex- prefeitos, suspeitos de viola­rem dispositivos do Decreto Lei 201/67. Estão também sen­do investigados 182 servidores, 87 secretários municipais e 63 funcionários que ocupam car­gos em comissão.

Aquele decreto lei caracteri­za os ilícitos cometidos por pre­feitos e vereadores e prevê 23 casos capazes de provocar sé­rios danos ao erário. Por exem­plo, apropriação de bens ou ren­das públicas, desvios de recur­sos em benefício próprio ou alheio, deixar de prestar contas anualmente, efetuar despesas não autorizadas por lei e frau­des em licitações. As penas pa­ra esses delitos vão de 2 a 12 anos de prisão.

O Maranhão concentra o maior número de inquéritos (644), seguido pela Bahia (490), Ceará (296), Piauí (285), Pará (196) e Pernambuco (194). Isto se explica, segundo o dele­gado Oslain Campos de Santa­na, chefe do Dicor, pelo fato de esses Estados, serem mais ca­rentes e por isso receberem mais recursos da União, o que aumenta as oportunidades de fraudes. "São elevadíssimos os recursos que a União repassa pa­ra os municípios, principalmen­te através de convênios na áreas de educação e saúde", lembra ele. Em São Paulo e Rio foram abertos, respectivamente, 96 e 83 inquéritos.

Tanto para ter uma ideia mais precisa da situação quanto para que as investigações possam produzir resultados concretos - isto é, fornecer ao Ministério Público e à Justiça os elementos necessários para eventuais de­núncias e punições é preciso aguardar a conclusão dos inqué­ritos. O que, se for seguido à ris­ca a legislação que regula a maté­ria - o que infelizmente nem sempre é o caso deve aconte­cer em breve. Os inquéritos poli­ciais devem ser concluídos no prazo de 30 dias. Podem ser re­novados por mais 30 dias pela Justiça, desde que por motivo relevante, devidamente expos­to pela autoridade policial

Em entrevista ao Estado, o de­legado Oslain Santana mostra como agem as organizações cri­minosas em relação ao poder público e o perigo representado por cada uma delas. Elas se dis­tribuem por três grupos. Um, de matriz mafiosa, se infiltra no aparelho do Estado e investe mais em corrupção de agentes públicos do que em atos de vio­lência para realizar seus "negó­cios" e ampliar cada vez mais seu poder. "Veja o exemplo do Cadinhos Cachoeira. Come­çou com jogo do bicho e foi se infiltrando no Estado."

Numa outra categoria estão o que a PF chama de "grupos agressivos" que apelam para ações armadas, como ocorre no Rio e em São Paulo. Eles são vio­lentos, mas têm poder eçonômico reduzido, se comparado com o dos outros grupos, e sua infil­tração no aparelho estatal não é profunda.

O grupo que mais preocupa a PF, pelo seu poder e seu raio de atuação, é formado, segundo Oslain Santana, pelas "organi­zações de colarinho-branco ou das elites, pessoas acima de qualquer suspeita, mas que mo­vimentam grandes esquemas". Por isso, são as mais pernicio­sas dô ponto de vista da PF. "Desviam bilhões dos cofres públicos para benefício pes­soal. Tiram dinheiro da educa­ção e da saúde por meio de violações constantes do Decreto Lei 201/67 e da Lei de Licita­ções." Deixando de lado a con­fusão de criminosos de colarinho-branco com as "elites" - citadas de forma vaga, impreci­sa um conceito que ele clara­mente não domina, o delegado Santana tem razão para cha­mar a atenção para a.capacida­de que esse último grupo tem de causar graves prejuízos aos cofres públicos, em vista de seu poder de aliciamento e cor­rupção. É de esperar, portanto, que continue a merecer cuida­do especial da PF.

Me engana que eu gosto - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 30/12


O próprio Lula admitiu que houve o mensalão ao pedir desculpas publicamente em discurso à nação


Muitos de vocês, como eu também, hão de se perguntar por que, depois de tantos escândalos envolvendo os dois governos petistas, a popularidade de Dilma e Lula se mantém alta e o PT cresceu nas últimas eleições municipais. Seria muita pretensão dizer que sei a resposta a essa pergunta. Não sei, mas, porque me pergunto, tento respondê-la ou, pelo menos, examinar os diversos fatores que influem nela.

Assim, a primeira coisa a fazer é levar em conta as particularidades do eleitorado do país e o momento histórico em que vivemos. Sem pretender aprofundar-me na matéria, diria que um dos traços marcantes do nosso eleitorado é ser constituído, em grande parte, por pessoas de poucas posses e trabalhadores de baixos salários, sem falar nos que passam fome.

Isso o distingue, por exemplo, do eleitorado europeu, e se reflete consequentemente no conteúdo das campanhas eleitorais e no resultado das urnas. Lá, o neopopulismo latino-americano não tem vez. Hugo Chávez e Lula nem pensar.

Historicamente, o neopopulismo é resultante da deterioração do esquerdismo revolucionário que teve seu auge na primeira metade do século 20 e, na América Latina, culminaria com a Revolução Cubana. A queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética deixaram, como herança residual, a exploração da desigualdade social, já não como conflito entre o operariado e a burguesia, mas, sim, entre pobres e ricos. O PT é exemplo disso: nasceu prometendo fazer no Brasil uma revolução equivalente à de Fidel em Cuba e terminou como partido da Bolsa Família e da aliança com Maluf e com os evangélicos.

Esses são fatos indiscutíveis, que tampouco Lula tentou ocultar: sua aliança com os evangélicos é pública e notória, pois chegou a nomear um integrante da seita do bispo Macedo para um de seus ministérios. A aliança com Paulo Maluf foi difundida pela televisão para todo o país. Mas nada disso alterou o prestígio eleitoral de Lula, tanto que Haddad foi eleito prefeito da cidade de São Paulo folgadamente.

E o julgamento do mensalão? Nenhum escândalo político foi tão difundido e comprovado quanto esse, que resultou na condenação de figuras do primeiro escalão do PT e do governo Lula. Não obstante, o número de vereadores petistas aumentou em quase todo o país.

E tem mais. Mal o STF decidiu pela condenação de José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares, estourava um novo escândalo, envolvendo, entre outros, altos funcionários do governo, Rose Noronha, chefe do gabinete da Presidência da República em São Paulo e pessoa da confiança e da intimidade de Lula.

Em seguida, as revelações feitas por Marcos Valério vieram demonstrar a participação direta de Lula no mensalão. Apesar de tudo isso, a última pesquisa de opinião da Datafolha mostrou que Dilma e Lula continuam na preferência de mais de 50 % da opinião pública.

Como explicá-lo? É que essa gente que os apoia aprova a corrupção? Não creio. Afora os que apoiam Lula por gratidão, já que ele lhes concedeu tantas benesses, há aqueles que o apoiam, digamos, ideologicamente, ainda que essa ideologia quase nada signifique.

Esse é um ponto que mereceria a análise dos psicólogos sociais. O cara acha que Lula encarna a luta contra a desigualdade, identifica-se com ele e, por isso, não pode acreditar que ele seja corrupto. Consequentemente, a única opção é admitir que o Supremo Tribunal Federal não julgou os mensaleiros com isenção e que a imprensa mente quando divulga os escândalos.

O que ele não pode é aceitar que errou todos esses anos, confiando no líder. Quando no governo Fernando Henrique surgiu o medicamento genérico, os lulistas propalaram que aquilo era falso remédio, que os compridos continham farinha. E não os compravam, ainda que fossem muito mais baratos. Esse tipo de eleitor mente até para si mesmo.

Não obstante, uma coisa é inegável: os dirigentes petistas sabem que tudo é verdade. O próprio Lula admitiu que houve o mensalão ao pedir desculpas publicamente em discurso à nação.

Por isso, só lhes resta, agora, fingirem-se de indignados, apresentarem-se como vítimas inocentes, prometendo ir às ruas para denunciar os caluniadores. Mas quem são os caluniadores, o Supremo Tribunal e a Polícia Federal? Essa é uma comédia que nem graça tem.

Com apagão e privatização - JOÃO BOSCO RABELLO


O Estado de S.Paulo - 30/12


O desfecho do julgamento do mensalão, junto com o ano útil, foi mais forte que a capacidade do governo da presidente Dilma Rousseff de resistir à pressão para que o tema não invadisse o Palácio do Planalto. Está sentado acima do gabinete presidencial incorporado na figura do secretário-geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho.

Voz do ex-presidente Lula no governo, Carvalho entregou-se à militância no cargo, explicitando o que a presidente disse estar proibido no governo: a manifestação sobre a decisão do STF. O que torna a recusa de Dilma em abordar o assunto, no café com jornalistas na última quinta-feira, um recorrente jogo de cena.

Ao investir contra o ministro Luiz Fux, acusando-o de trair a promessa de absolvição para obter a nomeação, Carvalho confessa aos olhos da Nação o critério fisiológico e partidário que orienta as escolhas do governo para a Suprema Corte.

Ao mensalão juntam-se duas outras expressões com as quais o PT demonizou o governo de Fernando Henrique Cardoso e que, agora, incorporam-se à agenda de Dilma de forma politicamente constrangedora: o apagão e a privatização. O ano termina com o governo rendido a ambos, atribuindo o primeiro à má gestão do setor elétrico e, a segunda, à necessidade de atrair investimentos.

A perda de capital político do PT, somada ao esgotamento do modelo de crescimento pelo consumo, impõe a Dilma seu maior desafio até aqui: o enfrentamento das dificuldades impostas pelo partido ao desempenho do governo, instado a apresentar resultados porque, acacianamente, antes de 2014 vem 2013.

Desobediência judicial

Há ministros do Supremo Tribunal Federal interpretando a iniciativa do Tribunal de Contas da União e do Tesouro Nacional em repassar os valores do Fundo de Participação dos Estados (FPE) pelas regras antigas, como desobediência judicial. O STF considerou inconstitucionais os critérios de distribuição do fundo e dera prazo até 31 de dezembro para que o Congresso definisse novas regras, o que não ocorreu. Os ministros avaliam que era suficiente o prazo de dois anos concedido ao Congresso para votar novas regras para o FPE, que hoje privilegia Maranhão, Ceará e Bahia. O assunto se somará à cassação dos mandatos dos parlamentares condenados no mensalão e à suspensão da votação do veto à lei dos royalties, que abalam as relações entre Judiciário e Legislativo.

Fala sério...

O presidente do Senado, José Sarney, (PMDB-AP), afugentou um senador que foi lhe apresentar um novo modelo de redistribuição do FPE. Advogado do Maranhão, disse ao colega que não levasse o tema a sério.

Nova safra

Junto com José Genoino (PT-SP), condenado no julgamento do mensalão, assumirão 28 novos deputados provavelmente no próximo dia 4. Substituem os que trocam a Casa por prefeituras e secretarias municipais. Também voltam à Câmara o ex-ministro dos Direitos Humanos Nilmário Miranda (PT-MG), o ex-secretário do Turismo Colbert Martins (PMDB-BA), preso na Operação Voucher da Polícia Federal, e a ex-deputada Iara Bernardi (PT-SP).

Guerra Fiscal

O senador Delcídio Amaral (PT-MS) deverá ser o relator na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do projeto de unificação das alíquotas do ICMS, que o governo enviou ao Congresso na última sexta-feira, regulamentando a matéria. A proposta é unificar gradualmente em 4% as alíquotas estaduais, que hoje variam de 7% a 12%, estimulando a guerra fiscal.

2012, o ano que não terminou - GAUDÊNCIO TORQUATO


O Estado de S.Paulo - 30/12


Nenhum homem, por maior esforço que faça, pode acrescentar um palmo à sua altura e alterar o pequeno modelo que é o corpo humano. Não fosse tal preceito sagrado da Escritura, o Brasil seria forte candidato a demonstrar que o extraordinário feito de mudar a anatomia humana é algo corriqueiro nos laboratórios da nossa engenharia genética. Basta anotar a conjunção de coisas espetaculares que se anunciam como inequívoco sinal de que o País lidera a vanguarda do desenvolvimento mundial e goza as delícias do Éden. Essa é a visão que se extrai das autoridades que comandam nossa economia ao fazerem um balanço das conquistas, na esteira de uma versão comum aos governantes que, em fins de ano, costumam transmitir esperança e crença no futuro da Nação. Como pano de fundo, um inevitável painel de realizações. O desenho é uma composição estrelada sob abóbada de anil, sem nesga de nuvem a turvar os céus. Como o Brasil é um país aproximativo, lembrando o embaixador Gilberto Amado, podemos encaixar o Hosana na ópera natalina das fantasias, onde não faltam Papais Noéis com magníficos presentes para nos convencer de que o momento é propício às versões mais exageradas.

Para começar, a impressão que faz cócegas em nossa mente é a de que o ano não terminou. Apreciável parcela de metas previamente acertadas deixou de ser cumprida, entrando no torvelinho de postergações, tergiversações e elucubrações. Muitos compromissos vão bater à porta das calendas. Não se trata de constatar que o cumprimento de penas de condenados do mensalão foi protelado. Nesse compartimento o bom senso até predominou, eis que ordenar prisão sem obediência rigorosa à liturgia processual seria um viés indesejável e causaria danos à imagem da instituição judiciária. Aliás, os passos mais avançados do País se deram na trilha do Judiciário, mais precisamente na esfera da Suprema Corte, que cumpriu de modo altaneiro seu papel, obedecendo ao ritual regrado por princípios de transparência, respeito aos contrários, independência e sintonia com a letra constitucional. Não é, pois, nessa vertente que se aduz sobre o capítulo de coisas inacabadas. As defasagens contabilizadas no ano são particularmente gritantes na frente da gestão, ao escancararem um conjunto de obras paralisadas, falta de estímulos aos investimentos, desorganização das estruturas administrativas e excessiva concentração de poder nas mãos da presidente, entre outros entraves. Ademais, pareceu imperar a concepção errática de que um Estado grande, forte e ativo é a ferramenta adequada para substituir a engrenagem privada na estratégia de alocar recursos para a vida produtiva. (O termo privatização ainda integra o rol de pecados originais assinalados no índex de condenações do velho petismo.)

Os troféus triunfalistas são exibidos: as políticas de transferência de renda e de aumento do emprego, a queda da taxa de juros, a manutenção da estabilidade dos preços, a depreciação do real, os subsídios a programas como o Minha Casa, Minha Vida, entre outros, como se fossem suficientes para tirar o País do marasmo. Não se nega o efeito que esse pacote produz nos índices de popularidade do governo e na ótima avaliação da mandatária. Viu-se o esforço continuado para estreitar as bases da pirâmide social. Outras frentes, porém, clamam por urgência: os buracos na infraestrutura e a ausência de estímulos para a indústria melhorar seus níveis de inovação e produtividade. O sistema produtivo faz queixas. Pesquisa da CNI acaba de mostrar as notas que os empresários atribuem à áreas básicas: educação (7,08), vindo à frente de tributação (6,6), infraestrutura (6), inovação (5,29), relações de trabalho (5,28), ambiente macroeconômico (4,82), eficiência do Estado (4,53), segurança jurídica e burocracia (4,33). As fendas no cercado do desenvolvimento social se somam aos desajustes no território legislativo. A sensação de que o ano deixa muito a desejar se reforça pela reversão de expectativas na área da reforma política. A frustração emerge quando se compara a dinâmica social, caracterizada por correntes vibrantes, com a estática da política.

O estágio civilizatório de setores e grupos atinge graus elevados. O Brasil desfralda bandeiras de cidadania conduzidas com firmeza pelos mais plurais núcleos de gêneros, categorias profissionais e entidades não governamentais. Pulsa vibração pelos corredores institucionais, onde a sociedade bate bumbo em defesa de demandas. Expande-se um sentimento de Pátria, na corrente que arrasta uns e outros em torno do esforço coletivo pela dignificação nacional. O patriotismo, sagrado valor maltratado por borrascas dos interesses venais, volta a animar o espírito nacional. Nos termos usados por José Ingenieros em O Homem Medíocre, começa-se a distinguir "um conceito de Pátria, implícita na solidariedade sentimental do povo, e não na confabulação de politiqueiros que medram à sua sombra". E em que ancoradouro desaguarão as correntes de águas límpidas? Na fonte dos anseios por uma nova política. Que começa a se fazer presente no acompanhamento de práticas e costumes de governantes e representantes, na renovação de quadros municipais, enfim, no expressivo ingresso de perfis mais jovens na arena institucional.

Espraia-se o sentimento de que o copo da política poluída transborda. Há visível descompasso entre dois Brasis, o que abre os olhos e o que dorme em berço esplêndido. De um lado se posta um cidadão exigente, um eleitor crítico, um consumidor de serviços consciente, ao lado de um grupamento ainda amarrado ao tronco da secular árvore do patrimonialismo. A esperança é que a força da racionalidade consiga inundar os pulmões da sociedade com o oxigênio de novos padrões. E que todos, margens, centro e topo, possam proclamar, a uma só voz, o brado do profeta Zaratustra: "Novos caminhos sigo, nova fala me empolga; como todos os criadores, cansei-me das velhas linguagens. Não quer mais o meu espírito caminhar com solas gastas".

Cofre aberto - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 30/12


Dilma Rousseff prepara pacote de bondades para os novos prefeitos, que iniciam mandato de olho nos recursos federais para atenuar a crise financeira. A presidente orientou a Secretaria de Relações Institucionais a municiar os gestores que tomam posse na terça com cartilhas que ensinam atalhos para acessar convênios com ministérios. A agenda municipalista terá desfecho no dia 28, quando a petista abrirá megaevento em Brasília, com direito a "tour" pela Esplanada.

E-gov
Na primeira quinzena deste mês, o Ministério do Planejamento já promoveu um "brainstorm" com futuros secretários e prefeitos para tratar de captação de verba e adesão a programas da União por meio eletrônico.

Como assim?
Dilma cobrou do ministro Aguinaldo Ribeiro (Cidades) e do presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Hereda, explicações sobre parceria firmada com o governo do Paraná para um programa baseado no Minha Casa Minha Vida, com nomenclatura distinta.

Mão única
Interlocutores do governo alegam que as ações do "Morar Bem Paraná" na área de habitação são custeadas totalmente pela União, sem contrapartida direta da administração de Beto Richa (PSDB), pré-candidato à reeleição em 2014.

Dobradinha 1
Geraldo Júlio (PSB), prefeito eleito de Recife, anunciará na quinta-feira sua primeira medida: a construção do Hospital da Mulher. Promessa de campanha, ele será erguido em terreno próximo ao hospital Pelópidas Silveira, inaugurado pelo governador e padrinho político, Eduardo Campos.

Dobradinha 2
O socialista pretende usar emendas parlamentares do Orçamento da União, negociadas com a bancada pernambucana, para custear o projeto. A obra é orçada em R$ 45 milhões.

No papel
ACM Neto (DEM-BA) obrigou seus secretários a assinarem termo de compromisso antes da posse, em Salvador. Quer garantir que sua equipe cumpra as metas estabelecidas por ele.

Operacional
Do senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), sobre o governo atribuir recente série de episódios de corte de energia no país a falhas humanas: "A máxima do errar é humano não se aplica para situações que deixam milhões no escuro".

Memória...
Retrospectiva do ano divulgada no site do governo de São Paulo omite a crise na segurança pública, que resultou na troca da cúpula da secretaria após troca de farpas com o Planalto e tirou o sono de Geraldo Alckmin no segundo semestre.

...seletiva
No capítulo reservado a novembro, mês em que Fernando Grella substituiu Antonio Ferreira Pinto na pasta, os atos do governador tucano destacados na página oficial são o reforço no policiamento e a ampliação de programas culturais, além da trivial assinatura de convênios com prefeituras.

Paternidade
Ligados à CUT, os deputados petistas Ricardo Berzoini e Vicentinho tratam a recém-anunciada isenção de Imposto de Renda sobre a PLR de até R$ 6.000 como vitória pessoal. Ambos apresentaram projetos de lei com essa finalidade.

Assédio
Membros da comissão de sindicância que apura a conduta de procuradores suspeitos de envolvimento com a quadrilha investigada na Operação Porto Seguro relataram ao corregedor da AGU, Ademar Veiga, pressão de sindicatos de carreiras do órgão para dar informações sobre o processo.

Céu de brigadeiro
Apesar do apagão da última semana no Galeão (RJ), a Infraero comemora a queda no número de voos atrasados no início das férias de verão em aeroportos sob seu controle. Foram 12% do total de 72 mil partidas autorizadas em dezembro deste ano contra 15% das 76 mil decolagens no mesmo período de 2011.

tiroteio

O governo atingiu o máximo de agressão ao Congresso para fazer o que a lei já autoriza. É a completa banalização das MPs.
DO PRESIDENTE DO DEM, JOSÉ AGRIPINO, sobre instrumento usado pelo Planalto para financiar investimentos sem que o Orçamento tenha sido votado.

Contraponto


Estava escrito

Marco Maia (PT-RS) orientava deputados sobre as atividades da Câmara no final deste mês, alertando sobre a possibilidade de os trabalhos avançarem até dia 21. Esperidião Amin (PP-SC) interrompeu o petista:

-Se o mundo não acabar dia 21, podemos continuar!

O presidente, então, lembrou:

-E comunico também que vou assumir a Presidência da República interinamente logo mais.

-Pode ser que a profecia dos maias não se concretize, mas a do Sudokan está cumprida!-bincou Amin.

-A de que iria assumir duas vezes a Presidência na vida?-perguntou Maia, em tom irônico.

Dada a largada - ILIMAR FRANCO


O GLOBO - 30/12


A ex-ministra Marina Silva convocou reunião para 25 de janeiro. Vai dar a largada para a criação de seu partido. As primeiras diretrizes em discussão: não serão aceitas doações de empresas, e parte das vagas será reservada a pessoas que possam se desfiliar e levar o cargo. O nome ainda está indefinido, mas discute-se algo que passe a ideia de sustentabilidade.

Dança das cadeiras
O Planalto começa a desenhar a reforma ministerial que seria mini e, aos poucos, vem crescendo. Há uma definição: reduzir a cota do senador José Sarney (PMDB-AP), que tem dois apadrinhados: Edison Lobão (Minas e Energia) e Gastão Vieira (Turismo), que deverá perder o cargo. Com isso, o Turismo pode passar para a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais), cansada da relação estressante com a Câmara. O PMDB quer dois ministérios para compensar o Turismo e o apoio ao PT na eleição em Minas Gerais. Nomes cotados: senador Eduardo Braga (AM), deputados Gabriel Chalita (SP), Leonardo Quintão (MG) e Marinha Raupp (RO).

“Os prefeitos eleitos estão curtindo suas últimas horas de plena felicidade. A partir do dia 2, o bicho vai pegar!”
Beto Albuquerque
Deputado federal (PSB-RS)

Niemeyer em selo
Os Correios e o Ministério das Comunicações estão definindo obras do arquiteto Oscar Niemeyer para virar selos. A ideia é lançar uma edição limitada em janeiro para homenagear o arquiteto, morto este mês.

Ou ele ou eu
O senador Blairo Maggi (PR-MT) está aproveitando a licença para pensar em formas de sair do PR e não perder o mandato. A brecha que estuda é a permanência do deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP), condenado pelo STF por lavagem de dinheiro e corrupção passiva, na secretaria-geral do partido. Acha que pode convencer o TSE.

De "bike"
O prefeito eleito de Curitiba, Gustavo Fruet (PDT), chegará à sua posse andando de bicicleta. Diz que é gesto simbólico, para mostrar que é possível encontrar soluções para o congestionamento nas grandes cidades.

Pé na estrada
O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), tem dito a interlocutores tucanos que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) precisa começar a percorrer o país imediatamente. Como fica preso três dias em Brasília, acha que Aécio deve dedicar os outros quatro, integralmente, a um roteiro por todas as regiões, de Norte a Sul, organizado pela direção do partido.

Tentando evitar
A possível eleição do deputado Anthony Garotinho (PR-RJ) para a liderança do partido na Câmara está deixando o Planalto de cabelos em pé. Ele disputa, por enquanto, só contra Fernando Giacobo (PR-PR), que não empolga a bancada.

Para coibir desvios
Projeto do senador Lobão Filho (PMDB-MA) torna crime hediondo desvio de recursos nas áreas da saúde e da educação públicas. Justifica que prefeitos e gestores são presos, mas logo liberados, e nada de mais sério acontece.

Prefeito eleito de Salvador, ACM Neto (DEM) promete não fazer nomeações para mil cargos comissionados. A economia, em quatro anos, chega a R$ 600 milhões. 

Contando os minutos - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 30/12


BRASÍLIA - O ex-presidente Lula e sua pupila e sucessora Dilma não veem a hora de 2012 terminar. Foi, ou está sendo, um ano difícil.

O mito Lula foi reforçado com a vitória de Haddad em São Paulo, mas sacudido por meses de julgamento do mensalão e pelas condenações de Dirceu e de figuras chaves da sua campanha em 2002 e do seu governo.

No fim, enfrentou três ameaças ambulantes a ele e ao PT: o pivô do mensalão, Marcos Valério, a ex-chefe do escritório da Presidência em São Paulo, Rosemary Noronha, e até o nefasto Carlinhos Cachoeira.

Valério e Cachoeira, sobretudo, não são flores que se cheirem e o que dizem não tem lá credibilidade. Mas também é fato que estavam perigosamente próximos do poder e, contem mentiras ou não, sabem de muitas verdades. Se não derrubam o mito, deixam interrogações. Bem não fazem e podem fazer muito mal à aura, à imagem.

Quanto a Dilma: ela peitou bancos e telefônicas, reduziu IPI, recheou prateleiras de remédios gratuitos, privilegiou professores nas negociações salariais, estimulou decisivamente a ida de estudantes brasileiros para o exterior e garantiu um nível de emprego invejável no mapa internacional. Não é pouco, mas não é tudo.

Em duas áreas fundamentais, a presidente chegou ao final do ano sob fortes críticas e crescentes pressões: gestão (logo ela, com toda a marca e pinta de gestora?) e política econômica (pibinho de 1%? Faça-me o favor). Derrapando em portos, aeroportos e apagões, ela bateu na incapacidade de fazer o país crescer. São muitas medidas no varejo e poucos resultados no atacado.

A marca social do governo Lula e os acertos populares de Dilma mantêm a altíssima aprovação de ambos e a expectativa de vitória em 2014. Mas não é à toa que Aécio se mexe, o aliado Eduardo Campos se assanha, Marina Silva sai da toca e eleitores sonham com Joaquim. No mínimo, veem espaço para alternativas.

Depois dos Zetas, nada - JUAN PABLO VILLALOBOS


O ESTADÃO - 30/12
Nós ficcionistas costumamos dizer que a realidade nos faz uma concorrência desleal no México de hoje

As tribos de assassinos incluem em seus esquadrões da morte cameramen e fotógrafos - uns menos improvisados do que outros - encarregados de gravar as imagens de seus crimes e em seguida enviá-las ao Blog del Narco.O fotógrafo ou o cameraman são tão importantes no comando quanto um sicário.Do contrário,quem registrará para a imortalidade os crimes de autor que dentro em breve serão exibidos no Blog del Narco (ou pelo menos alguns minutos no YouTube)? Close up no instante da decapitação, dolly-in na rajada de balas das metralhadoras. Espera, vou mudar para a grande angular para que os mortos todos apareçam na foto. Acenda a luz para o pessoal ver bem como cortamos a cabeça, senão vou precisar de flash. Conheci o jornalista Diego Enrique Osorno no início deste ano no Brasil. Nascido em 1980 em Monterrey, no México, Diego estava em São Paulo para uma série de reuniões a portas fechadas da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, chefiada pelos ex-presidentes Ernesto Zedillo, César Gaviria e Fernando Henrique Cardoso.Conseguira entrar como penetra, convidado pelo ator mexicano Gael García Bernal.Na realidade, a missão de Diego era muito mais frívola do que poderia parecer a princípio: entrevistar Gael no Brasil e escrever um perfil para a revista Gatopardo.

Um par de meses antes, durante minhas férias de Natal no México, eu havia lido a reportagem Ninguém Lembra de Julián,com a qual Diego ganhou o Prêmio Internacional de Jornalismo da revista Proceso. Julián era irmão de Carlos Slim, o homem mais rico do mundo. Ocorre que Julián, segundo as investigações de Diego, havia sido agente da polícia do Departamento Federal de Segurança, o órgão que, nos anos 1970, foi responsável pela guerra suja contra a dissidência.Diego, que apesar da pouca idade já tinha percorrido uma longa trajetória como repórter do narcotráfico, decidira provocar o homem mais poderoso do México.

Os jornais falam de maneira limitada do narcotráfico no México. Contam seus mortos, as metralhadoras confiscadas, os quilos de maconha incinerados, os policiais presos ... Quase não analisam os outros aspectos do problema, apenas a mera estatística. Mas outra forma de olhar o narcotráfico poderia ser pelo prisma econômico. O narcotráfico, como seu nome indica, é um problema de comércio ilegal.

Que tipo de esquema financeiro é necessário para o México importar cocaína de um país da América do Sul? Quanto dinheiro é necessário para enviar a Ibiza os comprimidos de Ecstasy fabricados em Tierra Caliente, no Estado de Michoacán? Que tipo de logística exige a transferência da maconha semeada na serra de Oaxaca para a Cidade do México? Com que gastam seus salários os Zetas? Quanto custa ter uma sucursal de venda de cristal (metanfetamina) em Monterrey?

Era normal que Diego e eu acabássemos nos conhecendo. Eu havia publicado em 2010 Festa no Covil (Companhia das Letras), um romance narrado por um menino que é filho de um poderoso narcotraficante. Diego passara os últimos anos fazendo reportagens sobre a chamada guerra contra as drogas do presidente Calderón. Foi assim que, como é normal entre duas pessoas que têm muitos amigos em comum e sabem usar o Facebook, um domingo acabamos comendo picanha e tomando cachaça em Barão Geraldo, perto da Unicamp. Havia algo sinistro no fato de dois mexicanos que acabavam de se conhecer, acompanhados por uma brasileira e duas crianças mexicano-brasileiras, contarem durante horas um para o outro histórias macabras do narcotráfico em um boteco da cidade universitária. Alguns anos antes, essa conversa não teria ocorrido. De fato, sem a guerra contra as drogas é muito provável que Diego e eu nem sequer tivéssemos a curiosidade de nos conhecer.

Embora circulem dezenas de milhares de artigos sobre Los Zetas (segundo o Google, são 4 milhões e meio), ainda não está claro para muitos o que significa essa letra que sempre foi esquecida (zeta é "z") e, agora, há dias em que parece que o alfabeto do México começa por ela. Serão os Zetas a sofisticada organização de misólogos na qual, segundo o governo, se transformou aquele grupo de militares de elite treinados nos Estados Unidos, dos quais aqui, às margens do Rio Bravo, se ouve falar desde 2000? Zeta será o nome com o qual é camuflado o objetivo de limpeza social promovido por entidades que, com diferentes interesses, aproveitam-se dessa crise política subjacente desde 2007 para travar uma guerra necropolítica contra a presidência? Acaso trata-se de uma utopia social pós-moderna ou de uma saudade coletiva derivada da Guerra Fria? Serão os Zetas um grupo como qualquer outro do narcotráfico nacional que apenas por acaso tem a jovem idade da democracia mexicana?

Nem sequer é possível estabelecer um consenso em torno do nome do bando: por que usar a última letra do alfabeto? Porque depois do "z" não há mais nada,como me disse um dia o escritor Marco Lagunas, na Cidade do México - ou, como acreditam no nordeste,por causa dos códigos que identificavam os militares em Tamaulipas, tempos atrás? Diego começou como repórter praticamente ao sair da adolescência. Até 2007 fez o que chama de "um curso intensivo de realidades nacionais", escrevendo sobre greves, repressão, insurreições, desastres e narcotráfico. Uma pasta no seu computador indica que escreveu 7 mil artigos em dez anos. Entretanto, em 2007 teve a sensação de que alguma coisa não funcionava: não queria conformar-se em registrar os fatos de acordo com um formato preestabelecido.

Diego queria narrar, queria envolver-se, queria abandonar um enfoque jornalístico que abordava a violência do narcotráfico como um tópico de estatística. Instigado pela leitura de 2666, o romance de Roberto Bolaño, intuiu que havia outra maneira de contar o que estava acontecendo no México e decidiu abandonar a reportagem diária porque descobriu que detestava ser um rambo jornalista. Em resumo, o que Diego entendeu foi que a nova realidade mexicana exigia uma nova narrativa. Era impossível captar o horror da violência do narcotráfico redigindo necrológios.

Aos poucos, Diego foi abandonando as páginas dos jornais -embora não totalmente - e começou a habitar as das revistas de jornalismo narrativo, principalmente Gatopardo e Etiqueta Negra. Suas crônicas acabaram tomando a forma de livro: Oaxaca Sitiada: La Primera Insurrección del Siglo XXI (2007), El Cartel de Sinaloa. Una Historia del Uso Político del Narco (2009), Nosotros Somos los Culpables. La tragedia de la Guardería ABC (2010)- sobre um dos casos mais terríveis da história recente mexicana: o incêndio de uma creche em Hermosillo, Sonora, no qual morreram 49 crianças -, Un Vaquero Cruza la Frontera en Silencio (2011) e La Guerrade LosZetas. Viaje por la Frontera de la Necropolítica (2012). Além disso, há anos pesquisa num monte de caixas de documentos, revistas, livros e fotos para escrever a biografia de Carlos Slim, um projeto titânico do qual até agora não conseguiu livrar-se.

De alguns anos para cá, falar dos Zetas no México tornou-se ao mesmo tempo tabu e mania.No novo cenário de violência generalizada, os Zetas irromperam comum código próprio: não respeitar absolutamente nada. Eles extrapolaram todas as fronteiras do horror que eram respeitadas pelos antigos grupos de criminosos.

As histórias escabrosas foram se acumulando até que chegou um momento de paranoia coletiva no qual os Zetas passaram a ser culpados por tudo: assassinatos ligados ao narcotráfico, sequestros, atentados, roubos, chantagens, extorsões, cobrança de "impostos". Mas ninguém sabia ao certo quem eram os Zetas.

Os Zetas eram a soma de todas as hipóteses sobre o crime organizado.Saindo do campo restrito do mundo do crime, e tentando entender o fenômeno de uma perspectiva social, Diego o sintetizou da seguinte maneira: Os Zetas destacam para todos: "Para conseguir dinheiro, fazemos qualquer coisa". Eles são a chaga, o sintoma de uma doença que se espalhou por todo o corpo social.

Os Zetas, coincidências do destino, surgiram na região onde Diego nasceu.

Escrevi meu primeiro artigo sobre os Zetas em abril de 2010, aos 20 anos de idade. Falava de uma organização que serviu de divisor de águas no comando do narcotráfico da Frontera Chica, como nós chamamos a pequena zona de Tamaulipas que faz fronteira como Texas. Soldados das forças especiais desceram de madrugada do céu, em paraquedas camuflados, em Guardados de Abajo, um vilarejo da Ciudad Miguel Alemán, onde operava Gilberto García Mena. Veterano traficante não muito conhecido, até o dia de sua captura sua função foi coordenar os interesses econômicos dos narco empresários do nordeste e dos comerciantes de Sinaloa, os pioneiros que exportavam a mercadoria solicitada pelos consumidores americanos.

Aquele foi meu primeiro trabalho como correspondente de um noticiário da televisão de Monterrey,numa casa de dois andares, por fora de aparência normal, mas por dentro com os quartos, a sala de jantar, a cozinha e os banheiros atulhados de maconha acondicionada em caixas de papelão plastificadas. Naquele vilarejo sitiado pelo Exército entrevistei, entre o cheiro da grama verde, o promotor encarregado da operação,então um desconhecido:José Luis Santiago Vasconcelos, que, anos mais tarde, seria o czar do combate à droga e morreria em novembro de 2008 quando o avião em que viajava caiu - por incrível que possa parecer,num acidente - na principal avenida da Cidade do México na hora de pico do trânsito.

Sei que o fragmento anterior parece extraído de um romance, mas infelizmente não é.No México,nós ficcionistas costumamos dizer que a realidade faz conosco uma concorrência desleal. Aparentemente, por mais que exageremos, jamais conseguiremos imaginar as notícias com que nos deparamos no dia seguinte.

O que aconteceu com o México? É o que muitos de nós se perguntam, angustiados, mergulhados na tristeza. Não quero conhecer pessoas admiráveis que são admiráveis porque se negam a dar as costas ao horror. Não quero ter amigos que nasçam da admiração pela maneira como conseguem retratar a violência. Não quero amigos que me contem que houve ocasiões em que se sentiram em perigo, que me confessem que tiveram de abandonar o país, em certa época, depois de investigar as roupas sujas do milésimo corrupto.

Não quero, não gostaria: mas essa é a realidade do México. Até quando? Até quando? / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

Jornalista não precisa morder - DORRIT HARAZIM

O GLOBO - 30/12


Independentemente da causa, truculência e jornalismo não combinam



Ao completar cem anos de existência em 1921, o admirável jornal liberal britânico “The Guardian” publicou um ensaio comemorativo. Assinado por C. P. Scott, que o dirigiu por quase 60 anos, o texto cunhou uma frase que se tornaria célebre: “O comentário é livre, mas os fatos são sagrados.”

O inglês Piers Morgan apresenta, há dois anos, o único programa de entrevistas do horário nobre da CNN, o canal a cabo americano que inventou o noticiário televisivo global. Morgan fora importado da Inglaterra para suceder ao totêmico talk show man Larry King, que reinou no posto por mais de um quarto de século, todos os dias.

Na Inglaterra, onde teve a carreira moldada como editor de três tabloides (“The Sun”, “News of the World” e “Daily Mirror”), Morgan deixou poucas saudades entre seus pares, a julgar pelo perfil publicado na edição de novembro de “Vanity Fair”. Tem no currículo dois puxões de orelha graves: um do órgão regulador da imprensa britânica, num caso de manipulação de informação financeira privilegiada; outro do relator da Comissão Leveson, que investigou o escândalo das escutas telefônicas ilegais e as práticas da imprensa no Reino Unido, e onde teve de prestar depoimento por mais de duas horas. Suas respostas foram consideradas “totalmente desprovidas de credibilidade”, segundo o relator.

Nos Estados Unidos, mesmo antes de ocupar o atual posto na CNN, Piers Morgan era um “famoso”. Não como jornalista mas pela sua projeção em reality shows. Fora o vencedor do primeiro programa da série “Celebrity Apprentice” inventada por Donald Trump e celebrizou-se como jurado do concurso America’s Got Talent, da NBC.

Conquistou seu espaço na América graças a duas ferramentas sempre eficazes junto ao telespectador americano — um legítimo sotaque britânico, somado a uma cultivada falsa fleuma à la Hugh Grant.

Mas não apenas por isso. Também por ser inteligente, versátil e saber conduzir entrevistas de forma ágil. Bajulador com celebridades e mordaz quando lhe convém, Morgan é exímio no estilo morde e assopra.

Foi no dia da matança de 27 pessoas (26 numa mesma escola) na cidade de Newtown, estado de Connecticut, por obra de um jovem perturbado cuja mãe guardava cinco armas em casa, que Piers Morgan atropelou o ensinamento de C. P. Scott de que a opinião é livre.

Como cidadão residente nos Estados Unidos, Morgan sempre se engajou abertamente a favor de leis mais severas contra o acesso a armas nos Estados Unidos. A tragédia da escola Sandy Hook, portanto, lhe era cara.

Mas foi como jornalista que ele convidou o diretor de um grupo lobista pró-armas a ser entrevistado em seu programa. E foi como jornalista que ele surtou. Subiu o tom de voz, lançou-se numa catilinária imperiosa, impediu o entrevistado de expor qualquer ideia até o fim e encerrou o programa de forma abrupta, chamando o convidado de “homem extraordinariamente burro, sem um mísero argumento coerente”, que “envergonha o seu país”. No dia seguinte, repetiu a extravagante autopromoção com outro convidado pró-armas, John Lott, autor de “More guns, less crime” ( ainda sem edição no Brasil).

Resultado: ao telespectador, foi o jornalista que pareceu saído das cavernas; aos ultradireitistas treinados para não se exaltar em debates, coube o papel de guardiães da civilização. E como num passe de mágica, o antes charmoso sotaque britânico com que o apresentador vociferou contra as leis americanas, que comparou às inglesas, soou arrogante, ofensivo, colonialista.

Não espanta, assim, que a esdrúxula petição encaminhada à Casa Branca por mais de 80 mil signatários, pedindo a deportação de Morgan, não tenha lhe gerado as esperadas simpatias liberais. Independentemente da causa, truculência e jornalismo não combinam.

Nos Estados Unidos, toda petição precisa alcançar pelo menos 25 mil assinaturas no prazo de 30 dias para merecer uma posição da Casa Branca. A que acusa o “cidadão britânico Piers Morgan de atacar a Segunda Emenda... e usar sua posição de destaque numa cadeia nacional de televisão para lançar ataques contra os direitos dos cidadãos americanos” precisou de apenas 48 horas para chegar a esse patamar. A jocosa “contrapetição” preventiva lançada alguns dias depois na Inglaterra, pedindo que o jornalista seja mantido nos Estados Unidos, apenas atesta sua escassa popularidade em casa.

Ao invés de calar os entrevistados no grito, Morgan teria sido mais eficaz noticiando a última novidade da Amendment II, fabricante de equipamentos leves para uso das forças de segurança americanas: uma nova linha de mochila para crianças. O modelo infantil feminino é rosa choque e azul celeste, com o desenho de três princesas do mundo Disney na frente. Custa 300 dólares. O equivalente para meninos traz a imagem dos super-heróis Vingadores na parte externa. Todas têm placas blindadas na parede interna, “destinadas a manter a criança segura em caso de tiroteio na escola”. Segundo o presidente da empresa, Derek Williams, as vendas triplicaram desde a matança em Newtown. O anúncio de uma criança loirinha de uniforme e mochila blindada nas costas, dando tchauzinho na porta da escola e a chamada “Sua paz de espírito é nosso negócio” diz tudo.

Outros seis fabricantes já se lançaram no mercado de mochilas à prova de balas, com modelos de nomes sonoros como “La Rue Tactical Backpack Schield BP 3A Level III Ballistic Plate”. Vale conferir a propaganda da mais insana ( http://aresarmor.com/store/Item/RADPACK). Diz mais do que dez entrevistas.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


FOLHA DE SP - 30/12


Município pernambucano recebe bairro planejado

O município pernambucano de Goiana vai receber investimentos de R$ 450 milhões no projeto de um bairro planejado para uma área de cerca de 50,5 hectares.

Com Valor Geral de Vendas de R$ 1 bilhão, as vendas das primeiras unidades habitacionais começam em janeiro.

Em 24 meses, serão entregues os primeiros lotes, segundo Pedro Lacerda, da São Bento Empreendimentos, uma das empresas sócias no projeto. Além dela, as pernambucanas AWM Engenharia, CA3 Construtora e Malus Incorporadora formam o grupo Paradigma, responsável pelo empreendimento.

"Os primeiros prédios virão em 36 meses. São 2.500 unidades de apartamentos."

Foi planejada também uma área comercial, com shopping, complexo hoteleiro, hospital e faculdades.

"O crescimento de Pernambuco estava pendendo para o lado de Suape. Agora a Mata Norte será reforçada."

O estímulo para o investimento veio da forte presença da Fiat na região, segundo o advogado Rodrigo de Castro, sócio do Veirano, que trabalhou nos contratos.

"A área é grande, abrange habitações tanto para o perfil de renda alto quanto o do Minha Casa, Minha Vida."

O QUE ESTOU LENDO

Cledorvino Belini, presidente do Grupo Fiat/Chrysler para a América Latina

O livro "O que Importa Agora - Como Construir Empresas à Prova de Fracassos", do professor Gary Hamel, está à cabeceira de Cledorvino Belini, presidente do Grupo Fiat/Chrysler para a América Latina.

"É uma leitura que nos faz refletir sobre as formas de administrar organizações e gerir pessoas, ajustadas ao futuro", diz.

"Anoto trechos que aponto como questões fundamentais para uma empresa sobreviver: inovação, adaptabilidade, paixão, ideologia e valor."

em que festa


TIM-TIM

O Ano Novo é uma vitrine para empresários do setor de entretenimento. "É quando mostramos a casa para que os turistas nos conheçam", diz Aroldo Cruz Lima, do grupo Novo Brasil, de Florianópolis.

A data é estratégica e a que gera mais receita no ano.

"As pessoas estão dispostas a gastar, mas DJs e estrutura também são mais caros", afirma Iuri Girardi, do grupo Privilège, que organiza festas em Angra dos Reis.

Angra dos Reis
Realizado em uma ilha particular, o Réveillon Isla Privilège recebe um aporte de R$ 800 mil e deve gerar R$ 1,5 milhão de receita. Os ingressos vão de R$ 590 (feminino individual) a R$ 32 mil (camarote para 20 pessoas)

Florianópolis
O Réveillon é a principal data para o grupo Novo Brasil, que tem cinco casas em Florianópolis e investe R$ 1 milhão na noite. As entradas para o P12, um dos clubes da empresa, custam R$ 800 (mulheres) e R$ 1.000 (homens)

Punta del Este
Cerca de R$ 1 milhão será injetado na festa Viva, organizada por Fábio Fonte, que trabalha no mercado financeiro e já organizou eventos em São Paulo. Os ingressos custam entre R$ 1.080 e R$ 1.190

Trancoso
Ao contrário das outras festas, o Réveillon do Taípe não inclui bebidas e comidas no preço do ingresso. As entradas custam R$ 600. Os organizadores não revelam o investimento na noite


Um pedido para 2013: parem com as promessas - ELIO GASPARI

FOLHA DE SP - 30/12


O governo só terá a ganhar se parar de enganar a patuleia dizendo que fará aquilo que sabe que não entregará


A doutora Dilma poderia começar o ano inovando: basta proibir que seus ministros prometam o que não entregaram. Por exemplo: se o PIB de 4% em 2012 não aconteceu, o doutor Mantega fica proibido de prometer qualquer coisa para 2013. Nesse caso, por mais que se suponha um "levantador de PIB", deve-se reconhecer que o cumprimento da promessa não depende apenas dele ou da doutora. Em outros casos, ou depende e o governo não conseguiu fazer, ou sabia desde o primeiro momento que estava apenas parlapatando.

Por exemplo: em 2011 o então ministro Fernando Haddad prometeu pela segunda vez a realização de duas provas do Enem em 2012. Com dois exames a garotada fica livre da tensão de jogar um ano de vida numa manhã. Em janeiro passado, ao renegar a promessa do ano anterior, a doutora Dilma disse que o governo tomaria jeito em 2013. Nada. Ela e seus ministros sabem que, enquanto o MEC não tiver um banco de questões, as duas provas serão impossíveis. Ele não o tinha nem o tem. Basta não prometer.

Em janeiro, ao conceder benefícios fiscais à empresa Foxconn, o governo anunciou que ela produziria iPads e iPhones no Brasil "a preços competitivos internacionalmente". Nada. A empresa já fabrica iPads em Pindorama, e a Apple os vende a R$ 1.349. Na loja americana custam US$ 399, ou R$ 800. Nesse caso, os impostecas sabem que, enquanto não mexerem na tributação nacional, os preços das máquinas continuarão altos. (Até hoje não apareceram os US$ 12 bilhões de investimentos da Foxconn no Brasil, anunciados em 2011 durante a visita da doutora a Pequim.)

Em dois projetos, contudo, a doutora deve ser louvada por prometer e não entregar, porque se tentar será pior. Um é o da compra de caças para a Força Aérea. O outro é o Trem-Bala.

ILUSÃO

O tucanato convenceu-se de que pode botar a escola de samba na rua em 2014 porque a economia irá mal.

Acha que lucrará numa ruína. Propostas no campo da educação ou da saúde, nada.

TUNGA DE ELITE

Boa notícia para as vítimas brasileiras de Bernard Madoff, gente diferenciada, do andar de cima do Rio.

O advogado Irving Picard, que desde 2008 caça pedaços da fortuna do golpista para ressarcir os investidores que perderam algo como US$ 18 bilhões de dólares, conseguiu um acordo com o fundo Fairfield Greenwich, operado por um grã-fino de linda família com conexões na América Latina.

Ele indenizará seus clientes, devolvendo até US$ 80 milhões. Quem quiser deverá se habilitar ao acordo até o dia 17 de abril.

Madoff está na cadeia cumprindo uma sentença de 150 anos. Picard, que foi designado para o serviço pela Justiça, já recuperou US$ 3,6 bilhões, levando a leilão até as cuecas do doutor. O ervanário brasileiro no Fairfield Greenwich pode ter ficado na centena de milhões de dólares, até porque era chique ter dinheiro lá.

Alguma coisa o pessoal poderá receber, desde que ponha o nome na vitrine. É aí que a porca torce o rabo.

A plutocracia brasileira tomou dois grandes chapéus de banqueiros.

Nos anos 80, Tony Gebauer, querubim da Casa de Morgan, ficou com dinheiro de grandes investidores. Alguns deles apareceram, pelo menos um exagerando seus depósitos. Muitos ficaram calados. Gebauer cumpriu três anos e meio de cadeia.

Em 1995 a casa de crédito de Jorge Piano quebrou, muita gente ficou a zero, mas ninguém abriu a boca.

EREMILDO, O IDIOTA

Eremildo é um idiota e internou-se para tratar uma crise convulsiva de riso ao ouvir a doutora Dilma dizer que os apagões resultam de falha humana dos encarregados de manter o sistema elétrico em funcionamento: "O dia em que falarem para vocês que é raio, gargalhem. Cai raio todo dia nesse país".

Por cretino, ele acredita em tudo que o governo diz. Em 2009, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão aceitou a teoria do raio, também conhecido como "descargas atmosféricas": "Esse é um episódio que, Deus queira, não acontecerá novamente". Dois anos depois a Eletropaulo justificou-se contando que num só dia caíram 1.700 raios. Há pouco a mesma lorota foi propagada pelo secretário de Energia Elétrica do Ministério de Minas e Energia.

SUGESTÃO

Dizia uma marchinha de Carnaval que no Rio de Janeiro, "cidade que nos seduz", "de dia falta água, de noite falta luz".

A cidade melhorou, mas a Infraero resolveu adaptar a canção aos seus aeroportos. De dia falta ar, de noite falta luz.

Ninguém é maluco para esperar que o último dinossauro das estatais venha a trabalhar direito ou bobo para acreditar que o comissariado da Agência Nacional de Aviação Civil dê refrescos aos passageiros. Mesmo assim, cairia bem uma medida provisória exigindo que os companheiros devolvam as taxas de aeroporto que cobram às vítimas da treva e do forno.

Elas estão entre as mais caras do mundo. O Kennedy, em Nova York, cobra o equivalente a R$ 29 em voos internacionais. O Galeão, R$ 71,50.

O PORÃO DOS ÓRFÃOS NUMA FAZENDA CHIQUE

A revista "História", da Biblioteca Nacional, chegará às bancas nesta semana com um "Dossiê Nazismo" de 24 páginas, revisitando os flertes da direita brasileira com o nacional-socialismo de resultados de Adolf Hitler. Nele, uma reportagem de oito páginas da repórter Alice Melo reconta a história de 50 crianças, a maioria negras, do orfanato da Santa Casa do Rio de Janeiro, levadas entre 1933 e 1945 para as terras da família Rocha Miranda, no interior de São Paulo. Ela foi revelada em 2008 pela repórter Telma Silvério, do jornal "Cruzeiro do Sul", de Sorocaba.

Os tijolos de uma fazenda, bem como seus bois, eram marcados com uma suástica. Um dos senhores era membro da Câmara dos Quarenta, do simulacro fascista criado no Brasil por Plínio Salgado. Os garotos eram conhecidos por números e está vivo o "22". Trabalhavam nas propriedades, tinham uniformes verdes de gala e saudavam-se aos gritos de Anauê, de acordo com a simbologia do integralismo. Tinham escola, banda e clube de futebol.

Tremenda história, pois aqueles Rocha Miranda não formavam uma família qualquer. Vinham da melhor cepa do início do século 20, viraram nome de bairro e, mais tarde, um dos seus chefes, Celso, com sua mulher Malú foram um dos casais mais discretos, educados e elegantes que passaram pelo Rio. Quando a cidade tinha poucos carros, ele andava de Rolls.

No andar de baixo os doutores coletavam órfãos. No de cima, venderam parte da propriedade para Arndt Krupp, filho do magnata alemão do armamento, que coletava escravos judeus, russos e poloneses. Arndt ficaria famoso por suas maquiagens. Namorou Keith Richards e inspirou o diretor italiano Lucchino Visconti para criar o personagem Frederich, do filme "Os Deuses Malditos". Morreu endividado, aos 48 anos, e deixou uma grande frase a respeito do trabalho: "Era disso que eu precisava".

O ano que não esquentou - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 30/12

Seria um reflexo no espelho do ano anterior. Essa era a aposta geral. O ano de 2012 começaria frio mas esquentaria ao longo dos meses e trimestres e terminaria dezembro num ritmo de 4%; o oposto de 2011. Mas os indicadores foram decepcionando. O país estagnou, a indústria encolheu, o calote aumentou, a inflação permaneceu alta e o país investiu muito pouco.

No mundo, houve problemas que agravaram a nossa situação. A Europa sangrou o ano inteiro, mas terminou 2012 melhor do que começou, felizmente. A união monetária esteve a um passo de se fragmentar e agora se fortalece na preparação da união bancária. Os Estados Unidos namoraram o abismo, testando o limite da polarização política, mas o pior foi evitado com a reeleição de Obama. O programa do Partido Republicano revisitava ideais de intolerância e de abandono dos mais pobres, incompatíveis com os valores contemporâneos.

O que mais atrapalhou o Brasil foi o Brasil mesmo. O investimento público é menor do que pode e muito menos do que se precisa. Os obstáculos ao investimento privado crescem em vez de diminuir. Quando escolhe projetos e modelos para pôr o dinheiro público, o governo tem errado.

É a transposição do Rio São Francisco que fica pela metade, quando o que deveria ter sido escolhido desde o início era fortalecer o Velho Chico; hidrelétricas na Amazônia que repetem alguns velhos erros; o trem-bala que não sai do lugar, mas seu custo decola a cada revisão. Melhor faria se o mesmo dinheiro fosse investido em outros projetos. Em sumo: investir errado é pior do que não investir. Há cinco trimestres consecutivos cai o investimento no Brasil.

O governo gastou o ano com medidas para levantar o PIB, para usar a expressão do ministro Guido Mantega, autodeclarado "levantador de PIB", sem êxito. Redução de IPI, clamor para que a população se endivide, mais dinheiro subsidiado para os mesmos grupos empresariais não foram suficientes para produzir um crescimento que se sustente.

A inflação continuou alta. Se forem descontados os efeitos do congelamento da gasolina, redução do IPI e mudança da forma de cálculo do IPCA, pode-se dizer que ela está rondando a 6,5%, o que é altíssimo dadas as circunstâncias. A inflação de alimentos termina o ano em torno de 10%.

Mas a economia vive de contrastes e há boas notícias, felizmente. O mercado de trabalho está forte, e o desemprego, em níveis historicamente baixos. Os juros caíram de 11% para 7,25%, diminuindo o custo da dívida pública. O dólar subiu, melhorando a vida do exportador, mas encareceu a importação.

Foi de perder a conta a quantidade de pacotes, pacotinhos e pacotões para reativar a indústria automobilística: redução de IPI, liberação de compulsório dirigido a financiamentos, aumento da barreira comercial contra importações. Mas diminuiu a produção de veículos e a indústria como um todo está fechando o ano com uma previsão de queda de 2,3% e queda do emprego de 1,4%.

A Petrobras teve o primeiro prejuízo trimestral em 10 anos e o rating da empresa foi colocado em perspectiva negativa pela Moody"s, apesar de hoje haver muita confiança de que a presidente da companhia vai enfrentar os problemas da estatal e não escamoteá-los. A Vale teve um ano de desinvestimento e de queda do preço da sua principal matéria-prima. Os melhores anos ficaram para trás e a Vale precisa se adaptar.

Enfim, o ano passou, mas não esquentou. Tomara que o governo entenda o momento como uma nova chance. Tem de corrigir rotas e não persistir nos erros. Feliz Ano Novo.

O ano crítico da Olimpíada - HENRIQUE MEIRELLES

FOLHA DE SP - 30/12


O Brasil tem com a Olimpíada de 2016 a oportunidade de mudar a dinâmica do Rio de Janeiro e trazer impacto substancial à economia brasileira. Dentro do cronograma de trabalho, o ano de 2013 é fundamental.

Examinando as experiências olímpicas, as bem-sucedidas foram as que definiram claramente, no início do processo, o que a Olimpíada deverá deixar de mais importante à cidade e ao país, o legado olímpico. A partir daí, seguiram rigorosamente o plano e o cronograma.

Barcelona (1992) definiu como legado o turismo. Revitalizou estrutura urbana, arquitetura, obras de arte, atrações. Centro comercial e industrial, ela mostrou uma nova imagem: uma cidade bonita, vibrante, repleta de arte, aberta ao mar e à alegria.

Os Jogos de Sidney (2000) tiveram outra finalidade. Ela já era conhecida como cidade bonita e moderna, mas sua localização a limitava como atração global, o que conseguiu se tornar com os Jogos. A meta foi projetar uma Austrália que une organização e alegria, um país de primeiro mundo eficaz e também simpático e sorridente.

Em Seul (1988), a grande finalidade foi mostrar que os sul-coreanos, conhecidos até ali por produzir artigos baratos e de pouca qualidade, eram capazes de produzir eventos (e produtos) de grande sofisticação.

Em Pequim (2008), o objetivo era mostrar a emergência da China como potência mundial. Os jogos projetaram grandiosidade, não necessariamente funcionalidade ou simpatia. Para o poder chinês, eles atingiram sua meta, apesar de deixarem "elefantes brancos".

Os Jogos de Londres (2012) tiveram duas finalidades principais: recuperar uma área degradada no leste da cidade e promover projetos sustentáveis numa região historicamente contaminada pela poluição industrial. O tema dos Jogos foi sustentabilidade. Com esforço olímpico, foco nacional e bilhões de libras, promoveu-se não só regeneração urbana, mas também o legado da sustentabilidade.

As Olimpíadas que não tiveram essa clareza de foco não deixaram legados positivos.

O Rio já é visto como cidade bonita e simpática. Os problemas principais são violência, pobreza, funcionamento urbano e décadas de decadência econômica. O esforço olímpico permite um trabalho sério já em curso de redução da violência, com ação social mudando a imagem das favelas. É preciso melhorar os transportes e criar as condições para a revitalização econômica. A meta deve ser transformar o Rio numa cidade segura, confortável, funcional e com economia forte e dinâmica.

Pode ser um grande legado à cidade e ao país. Mas é uma corrida longa, cuja largada é fundamental.

Os limites do crescimento - CELSO MING


O ESTADÃO - 30/12
Crescer, crescer, crescer. Em praticamente todos os países, a política econômica está voltada prioritariamente para a criação de empregos que, por sua vez, está condicionada à geração de riquezas. Masate quando se pode contar com o crescimento econômico?

Nas últimas semanas, a pergunta vem sendo objeto de debates na imprensa mundial com base em trabalho publicado em agosto pelo economista Robert J. Gordon (foto),professor de Macroeconomia da Northwestern University, Cambridge, Estados Unidos (veja também o Confira).

A avaliaçãode Gordon é de que a contagem regressiva para um período de crescimento zero já começou. Ele parte do princípio de que o avanço econômico global desde o século 17 está associado a revoluções industriais. A primeira delas cobriu o período que vai de 1750 a 1830 e se seguiu à invenção da máquina a vapor. A segunda, entre 1870 e 1970, foi consequência da utilização intensiva da energia elétrica e do petróleo e marcada pela produção em série. A terceira, que teve início nos anos 60, baseia-se no avanço da informática e da Tecnologia da Informação.

Gordon entende que os ganhos de produtividade baseados na Tecnologia da Informação vão se esgotar rapidamente e que, logo depois, virá o anoitecer.

Embora entre os pressupostos da política econômica estejam os de que o crescimento econômico durará para sempre, as teorias sobre seu colapso vêm lá de trás. Começaram no século 18, com o economista inglês Thomas Malthus, que chegou à conclusão de que a população mundial crescia muito mais depressa do que a produção de alimentos. Se não houvesse drástico controle da natalidade, estariam próximos os dias da grande fome e da estagnação econômica.

Nos anos 70, o Clube de Roma publicou um livro intitulado Os limites do crescimento, que provocou um vendaval. Partiu do princípio de que os recursos naturais estavam em fase de esgotamento e que, mais dia menos dia, o crescimento estancaria.

Mais ou menos no mesmo sentido, ficou famosa uma frase do biólogo americano Edward Osborne Wilson: "Precisaríamos de mais quatro planetas Terra se for para sustentar toda a população do mundo aos padrões de consumo dos Estados Unidos".

Uma a uma, essas predições vêm sendo desmentidas - ou adiadas. A revolução verde que multiplicou a produção dos alimentos, grandes descobertas de petróleo e de matérias-primas, a reciclagem dos materiais e certo controle do desperdício foram fatores que afastaram a idéia do fim do crescimento.

E provável que a era iniciada com a Tecnologia da Informação tenha mais fôlego e mais o que dar do que imagina Gordon. Também não se pode descartar de antemão que novas descobertas (como a produção de energia elétrica a partir da fusão nuclear, há anos perseguida por importantes centros de pesquisa) inaugurem nova era de intenso crescimento.

No entanto, como aponta o Prêmio Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman, pouco ou quase nada sabem os especialistas e os centros de proj cção sobre o crescimento a longo prazo. Provavelmente, em conseqüência dos seguidos desmentidos das teorias malthusianas e de variações sobre elas, a idéia dos limites do crescimento desperta pouco interesse. Mas a crise global e o alastramento do desemprego podem levar mais gente a procurar mais luz e mais respostas para a questão.

Olhando para trás e para a frente - SAMUEL PESSOA

FOLHA DE SP - 30/12


Todo o nó de 2013 para a economia é a retomada do investimento; o que ocorrerá se ele não voltar?


Esta é a última coluna do ano. Bom momento para olhar para o que passou e tentar divisar 2013.

A marca de 2012 será o baixíssimo crescimento de 1%, número muito abaixo do que todos os analistas, inclusive eu, prevíamos. Os prognósticos mais pessimistas previam crescimento de 2,5%. O Ibre previu 3%.

Não era difícil encontrar números próximos ou superiores a 4%. Assim, a frustração de crescimento foi generalizada e não se restringiu somente aos órgãos oficiais. A economia surpreendeu a todos.

O baixo crescimento resultou da retração do investimento ao longo dos quatro trimestres de 2012. Essa redução não esperada da demanda agregada explica a maior parte da surpresa negativa. No entanto a inflação terminará acima de 5,5%.

Como conciliar economia em baixa, fruto de choque negativo de demanda, com inflação alta? Apesar de elevada, houve queda da inflação, já que ela fechou 2011 em 6,5%.

A queda da inflação somente não foi maior por estarmos em um regime de câmbio fixo. Até o primeiro semestre de 2010, quando o câmbio ainda flutuava, sempre que havia elevação dos preços das commodities, o câmbio valorizava-se de forma a manter o preço em reais dessas mesmas matérias-primas relativamente constante.

Com a alteração do padrão cambial, a economia brasileira ficou mais exposta a choques de preço. A forte elevação das cotações dos bens agrícolas neste ano, consequência de safras ruins nos Estados Unidos e na Argentina, foi repassada aos preços internos. Se não fosse pela alta das commodities agrícolas produzida pelo regime de câmbio fixo, a inflação em 2012 teria sido quase um ponto percentual mais baixa.

No entanto, em que pese a frustração de demanda com queda de inflação, o crescimento liderado pelo setor de serviços tem contribuído para manter o mercado de trabalho aquecido e, com ele, a inflação de serviços na casa de 8,5% ao ano.

E aí, talvez, tenhamos por ocasião da divulgação pelo IBGE da revisão das contas nacionais referente a 2012 (que ocorrerá em alguns anos) alguma surpresa. Provavelmente o crescimento de 2012 será mais próximo de 2% ou 2,5% do que de 1%. O crescimento será mais coerente com os números do mercado de trabalho. No entanto teremos que esperar alguns anos por essa revisão. Por enquanto ficaremos com o crescimento de 1%.

Para 2013, espero crescimento de 3%, com inflação entre 5,5% e 6%. O cenário de crescimento na casa de 3% prevê recuperação do investimento, que deverá crescer 6% em termos reais. A expansão de 6% em 2013 do investimento em relação ao valor médio de 2012 representa uma variação de janeiro a dezembro de 2013 de quase 10%. Dado que o investimento andou para trás ao longo de 2012, ele terminou em nível mais baixo do que iniciou.

O ponto a reter é que o crescimento projetado de 3% requer forte avanço do investimento.

Por ora, os sinais que temos é que essa retomada ficou para o primeiro trimestre de 2013. Se o investimento não for retomado, o cenário terá que ser revisto.

Finalmente, se o regime de câmbio fixo continuar a funcionar em 2013, haverá uma força desinflacionária externa se as safras de grãos forem boas e compensarem o choque negativo de 2012. No entanto é possível que a Fazenda considere esse possível choque positivo como ocasião para mais um passo em direção a um câmbio mais competitivo para a indústria.

O cenário Ibre para 2013 sustenta-se em uma perspectiva internacional ruim -crescimento de 1,5% dos EUA e próximo de zero na Europa-, mas sem um evento de crédito na Europa.

Se houver algum evento com crise aguda de crédito na Europa, reviveremos algo próximo do que houve em 2008. No entanto, dado que a situação da economia mundial e da brasileira é muito menos brilhante agora do que no terceiro trimestre de 2008, o tombo será bem menor.

Do ponto de vista da popularidade da presidente, o cenário de crescimento de 3% com retomada do investimento manterá o desemprego em baixa, com algum espaço para crescimento da renda. A popularidade deve terminar 2013 em nível próximo ao atual.

Todo o nó de 2013 é a retomada do investimento. O que ocorrerá se ele não voltar?

Tempo conspira contra na Previdência - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 30/12


Mesmo que os efeitos da reforma venham a longo prazo, criou-se uma perspectiva concreta de solvência fiscal



Durante os oito anos da gestão FH, o Plano Real ganhou uma sustentação institucional bastante sólida por meio de uma série de reformas. O programa de privatizações ajudou muito no aspecto fiscal, com importante reforço posterior dado pela Lei de Responsabilidade, e assim por diante. No início da Era Lula, em 2003, não só foram mantidos parâmetros da política econômica lançada em 1999 — câmbio flutuante, metas fiscais e de inflação —, como o governo avançou num terreno que havia sido minado pelo próprio PT, o da Previdência. Nele, FH teve pouco êxito, pela resistência do próprio PT, embora houvesse, ao criar o “fator previdenciário”, pelo menos retardado a explosão do sistema do INSS, desestabilizado com rapidez pela tendência à aposentadoria precoce. Como o fator induz o segurado a retardar a aposentadoria, a tendência foi refreada, mas não eliminada.

Lula conseguiu avançar na questão da aposentadoria do servidor público, uma bomba fiscal até de maior poder de destruição que a do INSS. Pois, no setor público, cerca de um milhão de aposentados geram um déficit na faixa de R$ 50 bilhões anuais, contra pouco mais de R$ 30 bilhões no âmbito dos assalariados privados, em que há quase 30 milhões de beneficiários. No seu primeiro governo, foram aprovados os Fundos de Previdência Complementar (Funpresp) para os servidores que entram agora na máquina pública, porque só com Dilma estes fundos foram regulamentados. Para receber mais que o teto, hoje de R$ 3,9 mil, o funcionalismo necessitará do Funpresp, para o qual ele e a União contribuem. Mesmo que os efeitos da reforma venham a longo prazo, criou-se uma perspectiva concreta de solvência fiscal.

Passada a fase inicial de poder, a gestão Lula parou com as reformas, como se o país estivesse pronto para um longo período de crescimento sustentado. Não estava, assim como, hoje, a “herança bendita” das mudanças estruturais do período FH dá sinais de esgotamento.

O mesmo descompromisso com reformas foi assumido por Dilma, mas a realidade a pressiona. Esta pressão é clara na questão do INSS, em que políticos trabalham com afinco contra o fator previdenciário, e o governo, com razão, não permite sua revogação sem a instituição de regras que impeçam a volta das aposentadorias precoces. Na crise, o mundo se apressou a ampliar o tempo de contribuição aos sistemas previdenciários, menos o Brasil. O ideal é que só seja extinto o fator previdenciário se for criada a idade mínima para aposentadoria — e que terá de ser móvel, em função da expectativa de vida da população. O país está bem atrasado nesta reforma.

Novo Oriente Médio - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 30/12


Primavera Árabe alterou todo o panorama da região, mas ainda não está claro se redesenho poderá desarmar tensão entre Irã e Israel


O ano de 2012 consolidou a reconfiguração geopolítica do Oriente Médio iniciada com as revoltas árabes e a escalada da tensão em torno do projeto nuclear iraniano. Esses dois fatores, interligados, delineiam perspectivas preocupantes para a região mais volátil do mundo em 2013.

A Primavera Árabe derrubou ditaduras na Tunísia, no Egito e na Líbia. Deixou um vácuo de poder rapidamente preenchido por movimentos islamitas organizados e populares. Embora imbuídos de legitimidade obtida nas urnas, os governos pós-revolucionários preocupam o Ocidente.

Suas agendas domésticas são norteadas pela sharia, a lei inspirada no Corão. Há margem para uma leitura modernizante das escrituras islâmicas, mas o jogo político compele os dirigentes recém-eleitos a fazer concessões a facções extremistas.

Direitos da mulher, das minorias e dos artistas ficam, assim, sob ameaça. Segmentos seculares se mobilizam contra o que lhes parece deturpação reacionária das revoluções. A agitação política e social será agravada pela crise econômica. Os governos pós-revolucionários precisarão superar sua inexperiência administrativa e evitar reações populistas para fazer frente a um cenário de recessão, desemprego e corrupção.

A política externa dos novos regimes árabes até agora se mostrou pragmática. A Tunísia sinaliza que os tradicionais canais diplomáticos com europeus e americanos serão mantidos.

No recente ataque israelense à faixa de Gaza, o presidente islamita egípcio, Mohamed Mursi, absteve-se de agir em favor do Hamas e contrariou parte da opinião pública nacional ao costurar um cessar-fogo com Israel. Mas essa atitude parece decorrer mais de um cálculo oportunista, com o intuito de manter a ajuda militar americana. Mursi tem problemas demais para acirrar atritos com Israel.

A nova realidade regional deixa claro, contudo, que se rompeu o pacto de confiança entre o antigo regime do Cairo e o Estado judaico. Mursi e seus aliados antissemitas desagradam aos israelenses, acuados e nervosos numa vizinhança cada vez mais conturbada.

A Síria protagoniza o capítulo mais sangrento das revoltas árabes. O levante contra Bashar Assad esbarrou na sanguinária repressão do regime e na popularidade do ditador na classe média e entre minorias religiosas.

O crescente apoio diplomático e militar da Turquia, de petromonarquias árabes e de potências ocidentais permitiu, porém, uma guinada estratégica em favor dos oposicionistas ao final de 2012. Rebeldes estão a poucos quilômetros do centro de Damasco. É provável que o cerco resulte na queda de Assad em 2013.

No entanto, as perspectivas são sombrias para a Síria. Boa parte do movimento contra Assad -membro de uma seita xiita, mas laico- é composto de extremistas sunitas, alguns deles ligados à Al Qaeda.

Responsáveis por atrocidades semelhantes às cometidas pelo regime, esses jihadistas têm uma agenda ideológica favorecida pela Arábia Saudita e pelo Qatar, que buscam expandir uma visão sunita do islã para contrastar a hegemonia do Irã, grande rival xiita.

A queda de Assad interessa também aos EUA e à Europa, pela perspectiva de privar o regime iraniano de seu principal aliado regional, o que aumentaria a pressão sobre Teerã, maior inimigo do Ocidente. Essa contenda geopolítica continuará a ser travada em várias frentes, mas o programa nuclear iraniano será um tema mais urgente do que nunca em 2013.

A provável reeleição do premiê israelense linha-dura, Binyamin Netanyahu, no pleito antecipado para janeiro, reforçará a facção partidária de um ataque às centrais nucleares iranianas. Netanyahu diz que a única solução aceitável para o Estado judaico é o fim de toda a atividade nuclear no Irã.

Vozes mais pragmáticas no Ocidente ponderam que um acordo só seria viável caso contemplasse o direito de Teerã enriquecer urânio, ainda que em níveis reduzidos, para fins energéticos e medicinais.

A reeleição de Barack Obama nos EUA foi sucedida por sinais apaziguadores da parte do Irã, o que reforça a expectativa de eventual diálogo direto entre os dois arqui-inimigos, após uma década de inócuas conversas multilaterais.

A saída de cena do incendiário Mahmoud Ahmadinejad, impedido pela lei iraniana de se candidatar a um terceiro mandato consecutivo no pleito presidencial de junho, criará um ambiente mais sereno para o diálogo entre potências ocidentais sem disposição nem recursos para uma nova guerra e um Irã sufocado por sanções.

A normalização das relações com Teerã aliviaria consideravelmente o maior foco de tensão no mundo. Novo fracasso, no entanto, tornaria muito mais plausível um conflito de consequências devastadoras para a economia global.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Dá para você pegar um bom cineminha e até teatro”
Ministra Marta Suplicy sobre o vale-cultura de R$ 50 mensais para trabalhadores


MENSALEIROS TENTAM NEGOCIAR REGALIAS NA PRISÃO

Emissários do PT tentam negociar com o governo tucano de São Paulo condições especiais para mensaleiros no presídio do Tremembé. Segundo fonte da Secretaria de Justiça, ele pretendem não ser obrigados a raspar a cabeça, usar uniformes de presidiários, nem andar cabisbaixos quando circulam em ambientes comuns. “Só faltam pedir frigobar, internet e TV a cabo nas celas”, ironiza a fonte.

NADA DE MORDOMIA

As autoridades do governo paulista já avisaram que nos presídios não são tolerados privilégios para quaisquer “reeducandos”.

TABLET PODE?

O ex-ministro José Dirceu tem a esperança de poder usar seu tablet iPad, no cárcere. E quer trabalhar no presídio para diminuir sua pena.

NÃO PODE

Se o ex-ministro de Lula pudesse usar seu tablet no presídio, nada impediria a utilização também de telefones celulares.

PREENCHENDO O TEMPO

Assim como o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), José Dirceu quer aproveitar o tempo de prisão para estudar, concluir cursos superiores.

MILITARES VÃO VIGIAR O CIBERESPAÇO DURANTE A COPA

Com porta-aviões capenga, base militar incendiada e rancho precário por falta de grana, os militares terão novo desafio em 2013: combater os ataques à internet na Copa de 2014 e nas Olimpíadas de 2016. A “Política Cibernética de Defesa”, coordenada pelo ministro Celso Amorim, pretende envolver também a comunidade acadêmica e a “base industrial de defesa” – supondo-se que o País tem capacidade militar de reagir a um ataque por terra, mar, ar e infovia cibernética.

‘GOOGLANDO’

A “Defesa Cibernética” inclui também a Abin (Agência Brasileira de Informação), dependente do poderoso agente Google para investigar.

BÊABÁ

Na sexta (28), um ataque de “hackers” tirou do ar por meia hora o site de consultas ao exame do Enem, do Ministério da Educação.

ZEN OCUPAÇÃO

A ex-governadora do DF Maria Abadia (PSDB), em fase zen, preenche o tempo aprendendo pintura sacra com irmãs Marcelinas, em Brasília.

SUJO DE OVO

O deputado Márcio Macêdo (PT-SE) exagerou na “babação”: “a história do Brasil não é a mesma depois de Lula”, garantiu ao portal do PT, destacando que (Lula) é vítima de “um ódio de classe das elites (...)”.

NA RIBALTA

Sem pai nem mãe, com a perda da liderança do PSDB, Alvaro Dias (PR) luta para assumir o posto desocupado de “líder da minoria”, no Senado. Para não perder o permanente flerte com os holofotes.

BOMBANDO

A popularidade do ministro Joaquim Barbosa só cresce. Várias páginas em redes sociais pedem que se candidate à Presidência da República. Só no Facebook são 50, e algumas superam 40 mil “curtidas”.

MÃE DINAH

Dilma sofre do “mal de Mantega”, que por sua vez herdou de Lula a “garganta profunda” das previsões furadas. Após 64 apagões só dela, arriscou dizendo ser “ridículo” pensar em racionamento de luz.

PELADEIRO

O embaixador Roberto Azevedo, candidato ao cargo de diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, tricolor doente, é um ótimo meia-direita. Sempre que vem ao Brasil, bate uma pelada no famoso clube “Gerovital”, em Brasília, onde também é reconhecido como craque.

GUERRA PARAIBANA

É feio o confronto do governador da Paraíba, Ricardo Coutinho (PSB), com a Assembleia Legislativa. Ele disse que não vai ficar de joelhos e os deputados estaduais já falam até em impeachment.

AIR PIAUÍ

De Teresina a São Paulo, são enfadonhas horas de voo. Mas Wilson Martins (PSB), governador do Piauí, resolveu a parada, segundo a oposição: convocou o jatinho de empresário com negócios no Estado.

POPÓ NOEL

O deputado Acelino Popó (PRB-BA) distribuiu presentes para crianças da Baixa de Quintas, na periferia de Salvador, onde ele nasceu, se criou e dormiu no chão até os 23 anos. “Foi lindo”, disse emocionado.

DESEMPREGO ZERO

Dilma, que quer dobrar a renda per capita dos brasileiros, deve ficar atenta: a renda da companheirada já triplicou no governo do PT.


PODER SEM PUDOR

MEDO MINEIRO

O senador Milton Campos, da antiga UDN mineira, não era conhecido apenas pela honestidade. Também era conhecido o seu cuidado excessivo, para não dizer medo, nas viagens aéreas. Uma vez, voando de Belo Horizonte para Brasília, ao passar por uma turbulência preocupante, ele levou a mão à garganta e ficou pálido. A aeromoça, gentil, perguntou:

- O senhor está com falta de ar?

Milton Campos respondeu amavelmente:

- Não, minha filha. É falta de terra mesmo.

DOMINGO NOS JORNAIS


Globo: Paes agora promete fazer 277 escolas em 4 anos
Folha: Brasil prepara plano para atrair mão de obra de fora
Estadão: Haddad quer aumentar caixa com convênios e apoio privado
Correio: Como cuidar bem do seu dinheiro em 2013
Jornal do Commercio: Passos decisivos do sucesso profissional
Zero Hora: Furto a órgãos públicos põe armas nas mãos de bandidos
Estado de Minas: O desafio político de Lacerda