segunda-feira, novembro 19, 2012

Na contramão do bom senso - HUGO LEAL

O GLOBO - 19/11


O Brasil precisa rever o sistema de concessão das rodovias federais à iniciativa privada. O modelo atual não contempla uma série de questões fundamentais para o usuário. Na contramão do bom senso, grandes projetos de reforma e melhoria das estradas ficam apenas no papel. As empresas assumem compromisso de extensão e duplicação de rodovias, mas fazem o mínimo possível, sem sofrer qualquer punição. O desequilíbrio econômico é evidente.

Os usuários reclamam — e com razão. As rodovias federais que cortam o Estado do Rio, por exemplo, têm hoje as tarifas de pedágio mais caras do país. O caso mais grave é o da BR-116, que liga Fortaleza a Jaguarão (RS). Desde 1996, quando foi assinado o contrato de concessão, a tarifa de pedágio aumentou 308%. Já o IPCA variou 139% no período. Outras quatro rodovias tiveram pedágios reajustados em níveis muito superiores ao da inflação: a Via Dutra, a Ponte Rio-Niterói, a BR-290 e a BR-040, entre o Rio e Minas Gerais.

Esta última, por sinal, é o retrato do descompasso no modelo de concessão em vigor. A Concer, empresa que administra a BR-040, cobra tarifa de R$ 8 em ambos os sentidos da rodovia, tanto no pedágio de Xerém quanto em Pedro do Rio. No entanto, as obras previstas no contrato, como a duplicação da Serra de Petrópolis, são apenas uma promessa. A Concer alega falta de recursos para as obras e exige uma contrapartida do governo ou dos usuários. Em bom português, o que está em jogo é o aumento da tarifa de pedágio, bem como a renovação do prazo de concessão.

O governo não pode aceitar esse argumento. Caso contrário, o bônus ficaria com a empresa e o ônus, mais uma vez, com o cidadão. Na Câmara dos Deputados, a situação da BR-040 foi discutida na Comissão de Viação e Transportes. Já existe um acórdão do TCU, mostrando que o pedágio da BR-040 está bem acima do valor justo.

Nessa luta desigual, uma boa notícia vem do Congresso. A Câmara pode aprovar este ano o projeto de lei 1023/2011, que trata da isenção de pedágios nas rodovias. O PL garante isenção de tarifas para quem comprova residência fixa ou trabalha no município em que se localiza a praça de cobrança. Trata-se do direito básico de ir e vir.

Ao lançar o programa de concessão de rodovias e ferrovias, em agosto, o governo determinou que o tráfego urbano não estará sujeito à cobrança de pedágio. E quando fora do perímetro urbano, as concessionárias só poderão cobrar tarifa depois que 10% das obras estiverem concluídas. É um alento para tantos usuários de rodovias que já não suportam tarifas abusivas nos pedágios em todo o país.

Golpismo contra o STF - IGOR GIELOW

FOLHA DE SP - 19/11


BRASÍLIA - Quem acompanhou os excruciantes debates do julgamento do mensalão, especialmente aqueles entre Joaquim Barbosa, Ricardo Lewandowski e Marco Aurélio Mello, sabe que a temperatura no Supremo Tribunal Federal irá elevar-se após a saída do zen Ayres Britto da presidência da corte.

Mas a gestão de Barbosa, que começa nesta semana, não terá sua estabilidade ameaçada apenas pelo temperamento mercurial do presidente, ou pelas brigas algo pueris entre senhores que se detestam. O perigo também vem de fora.

Defensores de réus têm obrigação de ir até o fim. O advogado de José Dirceu tem toda a legitimidade para tentar reduzir a pena do seu cliente.

Ele pode também ventilar que a teoria do domínio do fato foi deturpada e contratar o alemão que a formulou para tentar anular a condenação por formação de quadrilha -o que deixaria Dirceu "só" culpado por corrupção, mas fora do regime fechado.

Tudo bem que a chance de sucesso pareça remota. O próprio jurista teutônico só deu frases genéricas, que já viraram a seguinte "verdade" nas redes sociais e entre os "progressistas": Dirceu teria sido condenado sem provas. Isso é um disparate.

O problema é o corolário petista: o STF quis atingir o PT. E a tese não vem só dos hidrófobos de sempre, como os que elaboraram a perniciosa nota do partido sobre o caso.

Porta-voz de Lula à época do mensalão, o habitualmente cordato André Singer argumentou sábado em sua coluna nesta Folha, após constatar que a prisão de Dirceu manchará o PT, que "a suspeita que paira é se o exagero punitivo não mirou tal alvo [prejudicar o partido], distorcendo, assim, a finalidade do processo".

O Judiciário é falho, claro, e tem de ser objeto de escrutínio. Sua cúpula é formada por humanos, demasiadamente, como está explícito. Mas tentar imputar ao Supremo a pecha de tribunal de exceção é desrespeito institucional e, no limite, golpismo.

Posições de poder - DENIS LERRER ROSENFIELD

O GLOBO - 19/11


Resta saber se o PSDB conseguirá criar uma alternativa própria viável. Terá ainda de enfrentar o problema do mensalão mineiro, e suas ligações com Marcos Valério



Nem bem terminaram as eleições municipais, logo começaram as articulações visando à eleição de 2014, tendo como centro a disputa pela Presidência da República, aí incluindo quem e qual partido ocuparão a posição da Vice-Presidência. Tal processo se efetua no contexto mais amplo de conclusão do julgamento do mensalão, com a condenação e prisão da cúpula petista do primeiro mandato do presidente Lula. Isto significa dizer que o PT, a despeito de declarações de seus dirigentes atuais, se verá obrigado a uma revisão doutrinária e a uma renovação do ponto de vista de seus líderes.

O PMDB, principal partido do ponto de vista das eleições municipais, tem como objetivo guardar as posições conquistadas e, mesmo, ampliá-las com novos ministérios. A aliança com o PT, sobretudo sob o guarda-chuva do governo Dilma, tende a se consolidar, no comum interesse de ambos em suas pretensões eleitorais. Mais especificamente, o PMDB, para guardar as suas posições de poder, procura manter a Vice-Presidência da República com o atual ocupante do cargo, Michel Temer.

No entanto, mesmo isso foi objeto de um início de contestação interna ao partido, com o grupo carioca, capitaneado pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, propondo o nome do atual governador, Sérgio Cabral, como substituto. O princípio de uma contestação foi, porém, logo abortado, em um claro sinal de que a atual composição partidária tende a se manter.

Note-se que o vice-presidente Michel Temer conseguiu moderar os apetites internos do partido, frequentemente fisiológicos, com alguns integrantes seus descambando para o tráfico de influência e o desvio de recursos públicos. Ou seja, sua liderança tem tido o efeito benéfico de apresentar, junto à opinião pública, um partido mais coeso, que já não mais aparece nas páginas policiais. A aparência pública mudou.

Isso possibilitou que o partido comparecesse mais unido em suas negociações com o governo Dilma e com o PT em suas várias instâncias estaduais e municipais, vindo a exercer um maior protagonismo político. Sendo conhecido que o PMDB é principalmente uma federação de partidos regionais, sob forte influência de políticos locais, a liderança do vice-presidente fez com que ele aparecesse como um partido unificado nacionalmente.

Por outro lado, essa ação moderadora se traduziu igualmente por uma composição governamental mais afeita à conciliação, à negociação e ao respeito ao estado democrático de direito, sem os rompantes populistas do governo anterior. Isto é, a composição PMDB-PT terminou se fazendo com os setores petistas não radicais, que ficaram marginalizados nesse processo.

As reações intempestivas do atual presidente Rui Falcão, atacando a liberdade de imprensa e os meios de comunicação, no contexto do mensalão, também se inserem nesse contexto de disputa interna ao próprio partido. Trata-se de um discurso partidário, “para dentro”, cerrando fileiras em torno de bandeiras mais radicais, próprias do PT de antanho.

Nessa perspectiva, o julgamento do mensalão e a condenação — e prisão — de lideranças partidárias representativas do partido obriga necessariamente o PT a se repensar e se renovar. O PT da ética na política acabou na corrupção e no desvio de recursos públicos, segundo a mais Alta Corte do país. Do ponto de vista das ideias, é como se estivéssemos falando de dois partidos diferentes.

De um lado, temos as declarações do presidente do partido, afrontando o Supremo e ameaçando com a censura sob a forma do “controle social da mídia”. O ridículo não tem aqui limites, como se se tratasse, no seu próprio dizer, de um “golpe de setores conservadores” contra o governo petista.

De outro lado, ocorre que o governo petista não se reconhece nesse tipo de declaração. A ministra Gleisi Hoffmann foi contundente ao afirmar que o resultado do Supremo e as instituições devem ser respeitados. Trata-se evidentemente disto: o respeito às instituições como condição essencial de um Estado democrático e republicano. O Brasil, graças a essa nova posição do Supremo, reafirmando o valor das instituições, está dando um basta à impunidade reinante.

A presidente Dilma, por sua vez, foi cristalina ao declarar que prefere o barulho da imprensa, mesmo em seus excessos, ao silêncio das ditaduras. Posicionou-se, nesse sentido, contra um setor do seu próprio partido que advoga por posições contrárias. Não há sociedade livre sem irrestrita liberdade de imprensa e dos meios de comunicação em geral.

Note-se que nos últimos dias o presidente Lula, depois de anos negando a “existência do mensalão”, calou-se diante das penas inflingidas aos seus companheiros. Na verdade, abandonou-os à própria sorte, pois são hoje um entrave às suas pretensões eleitorais e ao sucesso futuro de seu partido. Notícias vazadas de apoios por telefonemas privados ocultam falta de apoio público.

Ainda no interior da atual coligação governamental, o PSB de Eduardo Campos procura avançar, seja disputando o lugar da Vice-Presidência para as eleições de 2014, desalojando Michel Temer e o PMDB, seja com o governador de Pernambuco almejando diretamente a disputa presidencial, criando um recall para eleições futuras. Os socialistas passam a ser protagonistas políticos, com o objetivo de deixarem a posição subalterna e periférica que tinham em relação ao PT.

Cada jogador está avançando suas próprias peças nesse novo xadrez político e eleitoral. Talvez se possa dizer que o país se encontra no meio de uma transformação importante, com as instituições se consolidando, e os partidos obrigados a terem um diferente aprendizado dessa nova situação. Os apetites políticos estão à flor da pele.

Resta ainda saber se o PSDB conseguirá criar uma alternativa própria viável, com expectativa de poder, ou se tornará um espectador dos jogos internos da coligação governamental. Terá ainda de enfrentar o problema do mensalão mineiro, suas ligações com Marcos Valério, em outro julgamento futuro do Supremo.

'Apagões' e política - JOSÉ GOLDEMBERG


O Estado de S.Paulo - 19/11


A crise de energia elétrica de 2001 teve papel importante nas eleições que levaram o presidente Luís Inácio Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores ao poder. A falta de eletricidade e o consequente racionamento foram explorados na campanha eleitoral como o mais óbvio sintoma de fracasso do governo Fernando Henrique Cardoso, com sua política de privatizações e liberalismo econômico.

Passados mais de dez anos, estamos de novo na iminência de uma crise bastante parecida com a de 2001: os reservatórios das usinas hidrelétricas estão baixos, como naquele ano, e a única razão de não estar havendo um racionamento é que as usinas termoelétricas movidas a gás, carvão e derivados de petróleo estão complementando a geração de energia. O sistema elétrico opera no limite e não é de surpreender que haja interrupções frequentes de fornecimento de eletricidade, que o governo tenta minimizar.

O que era um "apagão" no governo Fernando Henrique hoje são apenas incidentes pontuais ou "apaguinhos". E a situação só tende a se agravar com as medidas precipitadas tomadas recentemente pelo governo federal para baixar o custo da eletricidade, condicionado à renovação das concessões. A manutenção do sistema, que já não é boa, só vai piorar à medida que a rentabilidade das empresas cair. A expectativa, portanto, é de que venham a ocorrer novos "apagões".

Qual é o problema real que enfrentamos nessa área?

Para responder essa pergunta é preciso lembrar como evoluiu o sistema brasileiro de energia. Eletricidade é essencial para a vida moderna e o nosso país é bem dotado de recursos hídricos capazes de produzi-la, mediante a construção de usinas hidrelétricas, das quais Itaipu é um excelente exemplo.

A geração de eletricidade nos cursos d'água foi introduzida no Brasil antes da Proclamação da República, em 1889, e fomos um dos primeiros países do mundo a utilizar o movimento das águas para produzi-la.

Para tal é necessário construir barragens, o que resulta na formação de lagos onde a água é armazenada - a queda d'água pela barragem faz girar as máquinas que produzem a eletricidade. O reservatório acumula água para garantir que a usina continue a gerar energia mesmo quando não chove durante meses ou até anos.

O sistema elétrico brasileiro depende essencialmente de usinas hidrelétricas e, se faltar água, falta eletricidade. Mas essa não é a única razão por que barragens são construídas - e existem mais de 50 mil delas no mundo. Elas regularizam o fluxo dos rios, eliminando inundações, criam condições para a navegabilidade e a água pode ser usada também para irrigação e outros fins. Essencial, portanto, é construir usinas que tenham reservatórios adequados.

Isso ocorreu até meados da década de 80 do século passado, mas desde então essa prática deixou de ser seguida, uma vez que reservatórios, às vezes, implicam realocação de populações e podem afetar o meio ambiente, consequências estas que frequentemente são exageradas. Decisões nessa área exigem uma comparação objetiva dos custos e benefícios para a sociedade como um todo.

Por esse motivo o sistema elétrico tornou-se fortemente dependente de chuvas. Quando ocorre um período longo de chuvas fracas, como antes de 2001, o nível dos reservatórios baixa e, consequentemente, falta eletricidade. A maneira de evitar essa situação é usar as termoelétricas para complementar a geração das hidrelétricas.

O que aconteceu no governo FHC é que não existiam termoelétricas em quantidade suficiente para suprir a falta de energia hidrelétrica. Concorreu para isso a privatização parcial do setor elétrico.

Enquanto se concretizou rapidamente a privatização geral das telecomunicações - e com grande sucesso -, a do setor elétrico foi apenas parcial: as empresas distribuidoras, como a Light, foram vendidas, mas as geradoras e as empresas de transmissão permaneceram nas mãos do governo federal e dos Estados. No processo a Eletrobrás perdeu a sua capacidade de planejamento e o setor privado não conseguiu tomar o seu lugar.

O resultado foi o desabastecimento de água e, em decorrência, o "apagão" de 2001.

No governo Lula - que se beneficiou dessa crise para fins eleitorais - havia fortes grupos que almejavam reestatizar completamente o setor elétrico, mas essas tendências não vingaram. A então ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, seguiu um caminho intermediário, com a sistemática de leilões para novos empreendimentos para geração de eletricidade, que funcionaram razoavelmente bem até recentemente. É graças a isso que parte do sistema atual, que é térmico, está salvando o sistema dos "apagões".

Sucede que, apesar disso, o problema continua a existir. Os reservatórios não aumentaram de volume no governo Lula (como não aumentaram no governo Fernando Henrique) e continuamos vulneráveis a apagões.

O problema realmente não é de políticas adotadas por um "governo de direita", de tendências neoliberais, como de Fernando Henrique, nem de um "governo de esquerda", de tendências estatizantes, como o de Lula. Tampouco a presença de empresas privadas no setor é a causa dos apagões. As privatizações do governo FHC podem ter sido uma das causas do apagão de 2001, mas os apagões de hoje ocorrem num governo em que o sistema é ainda fortemente estatal. O problema real é a falta de planejamento.

O setor pode funcionar bem com empresas privadas e estatais, desde que elas consigam competir em igualdade de condições. Mas isso nem Fernando Henrique nem Lula conseguiram fazer. E é por essa razão que o sistema elétrico brasileiro, que poderia ser um dos melhores do mundo, com uma matriz energética limpa e renovável, está correndo sérios riscos.

O furacão Joaquim - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 19/11


“Não achei [nada], porque não vi, meu filho.”
Lula, sobre a condenação dos mensaleiros do PT


Por ora não convidem para a mesma mesa o ministro Joaquim Barbosa, que esta semana assume a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF), e Ricardo Lewandowski, que será seu vice. Os dois brigam desde que teve início em agosto o julgamento do mensalão. Recomenda-se também que não convidem para a mesma mesa Joaquim e Dias Toffoli, Joaquim e Rosa Weber, Joaquim e qualquer um dos advogados dos réus.

TOFFOLI FOI advogado das campanhas presidenciais de Lula, empregado de José Dirceu na Casa Civil e Advogado Geral da União. Joaquim votou em Lula para presidente mesmo depois de Roberto Jefferson ter denunciado o escândalo do mensalão. A restrição que Joaquim faz a Toffoli é a mesma que faz a quase todos os seus pares no STF: falta-lhes independência. Genuína independência.

ROSA WEBER é ministra da cota pessoal de Dilma, amiga do ex-marido dela. Dá sinais de que tem votado como quer. Mas Joaquim faria gosto se ela votasse como ele quer. Faria gosto se todos votassem como ele quer. A lei autoriza que ministros do STF recebam representantes de partes interessadas num julgamento. Joaquim é o único que se recusa a receber. Os advogados o detestam.

FOI DO PAI que Joaquim herdou o temperamento belicoso. A trajetória profissional de Joaquim também contribuiu para que ele fosse do jeito que é. No STF não há um único ministro para o qual seja estranha a arte de fazer política. E todos fizeram para chegar onde estão. Joaquim, não. Submeteu-se a concursos para conquistar cargos. E não pediu a ajuda de ninguém para ser promovido a ministro do STF.

ESTAVA NO canto dele quando uma pessoa ligada a Lula o procurou ainda em 2003. Num espaço curto de tempo, Lula seria obrigado a indicar quatro ministros do STF. Queria que um deles fosse negro. O outro, mulher. O outro nordestino. E o outro paulista. O STF virou uma espécie de parque temático. Nenhum jurista negro tinha currículo superior ao de Joaquim. Nada deve a Lula, portanto. Nem se sente devedor.

QUANDO OLHA em torno, mesmo levando em conta o conhecimento jurídico de cada um dos seus colegas, Joaquim se vê cercado por ministros em dívida com muita gente que os empurrou ladeira acima. Não só presidentes, mas amigos de presidentes e amigos de amigos deles. Na hora de votar certos assuntos, como podem fazê-lo sem se sentir no mínimo constrangidos? Lula peitou alguns para adiar o julgamento do mensalão.

O ANTÍDOTO contra a ação de Lula misturou Joaquim, a pressão da opinião pública e a extensa cobertura do julgamento feita pela mídia que o PT chama de golpista. Deu certo. Só que o julgamento ainda não terminou. Chegará ao fim com Joaquim acumulando sua relatoria e as presidências do STF e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Em breve, haverá questões delicadas a definir.

A PRIMEIRA: a data da prisão dos réus condenados. O Procurador Geral da República defende que eles sejam presos sem que se espere o julgamento de futuros recursos impetrados em seu favor. O STF jamais admitiu a prisão antecipada. A segunda questão: são três os deputados federais condenados. Caberá à Câmara decretar a perda do mandato deles? Ou ao STF? Joaquim ainda não adiantou o que pensa a respeito.

TEM UMA bomba de elevado poder de destruição que Joaquim deverá detonar no CNJ. Hoje, advogados não podem atuar em processos cujo destino dependa de juízes que sejam seus parentes. Joaquim quer apertar mais o torniquete. Advogados ficariam proibidos de atuar nas cortes onde tivessem parentes juízes. Se Joaquim for bem-sucedido, a quantidade de advogados condenados à orfandade será absurda!

A ERA Joaquim Barbosa no Judiciário promete fortes emoções.

Impostos exorbitantes - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 19/11


Muitos consumidores ficarão espantados com o valor do imposto que são obrigados a pagar quando fazem compras. Em alguns casos, como o da gasolina, os tributos representam mais da metade do preço final. Quanto mais informado o cidadão estiver sobre o peso dos impostos e das contribuições no preço daquilo que adquire, mais argumentos terá para cobrar do poder público que recolhe os tributos a prestação de serviços condizentes e mais resistente estará à criação de impostos, à elevação de alíquotas ou à ampliação da base de cálculo.

Este é o objetivo do projeto de lei de iniciativa popular - apresentado em 2006 com mais de 1,5 milhão de assinaturas - que acaba de ser aprovado pelo Congresso e obriga as empresas a divulgar, na nota fiscal de venda, o valor dos impostos e contribuições e o custo da mercadoria ou do serviço que está sendo comercializado. "A informação vai despertar nas pessoas o sentimento de pagador de impostos", acredita o relator do projeto na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara, deputado Guilherme Campos (PSD-SP).

Trata-se de um objetivo salutar. Dada a diversidade de tributos incidentes nas operações de venda de bens e serviços, porém, não será simples para as empresas calcular seu valor. Pelo projeto, que já havia sido aprovado pelo Senado e não sofreu alterações na Câmara, os documentos fiscais relativos à venda de mercadorias e serviços deverão conter o valor de todos os tributos, federais, estaduais ou municipais, que influem na formação do preço de venda.

Os tributos são o ICMS (estadual), o ISS (municipal), o IOF, o Imposto de Renda, a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), PIS/Pasep, a Cofins e a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), que incide sobre os combustíveis, os últimos cobrados pelo governo federal. Nos bens que tenham componentes importados, deverá ser informado também o valor relativo aos tributos incidentes sobre a importação, como o Imposto de Importação.

Na tentativa de tornar menos complicada a tarefa das empresas, o texto fala em "valor aproximado correspondente à totalidade dos tributos". No caso de componentes importados, no entanto, o Imposto de Importação e o IPI são cobrados em diferentes etapas da cadeia de produção. Nesse caso, os fornecedores de cada etapa deverão informar a empresa responsável pela etapa seguinte os valores dos dois tributos "individualizados por item comercializado". A critério da empresa vendedora, os valores poderão ser calculados e fornecidos semestralmente "por instituição de âmbito nacional reconhecidamente idônea".

Ainda que, para as empresas, a medida possa resultar em alguma dificuldade operacional adicional para a concretização da venda, para a economia brasileira ela será positiva. A carga tributária no País vem crescendo praticamente sem interrupção desde a década de 1990, supera a de praticamente todos os países da América Latina e alcançou o nível dos países ricos. É preciso resistir a novos aumentos.

Estudo que acaba de ser divulgado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que a carga tributária no Brasil, de 32,4% do PIB em 2010, é 67% maior do que a média da região, de 19,4%. Na América Latina, apenas a Argentina cobrou proporcionalmente mais impostos do que o Brasil em 2010, quando o total de tributos pagos pela sociedade alcançou 33,5% do PIB.

A carga tributária brasileira é maior do que as de 17 países da OCDE, formada pelas economias mais ricas do planeta. Proporcionalmente, os contribuintes brasileiros pagam mais impostos do que os da Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Espanha, Suíça e Estados Unidos.

Quando se compara a infraestrutura disponível nesses países com a existente no Brasil se tem uma noção mais precisa de como aqui o dinheiro público é mal usado. Cada unidade de moeda recolhida pelos governos daqueles países produz muito mais resultados do que aqui. Isso é particularmente notável quando se compara a qualidade do ensino público no Brasil e nesses países. Não é, portanto, de mais impostos que o governo necessita. É de mais competência.

Depressão petrolífera - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 19/11


Brasil se acomoda com euforia e promessas do pré-sal, em contraste com os EUA, que estão prestes a se tornar autossuficientes


Já se passou meia década desde o anúncio de que o Brasil dispõe de grandes reservas de petróleo e gás, na camada do pré-sal. A euforia da descoberta era, então, equivalente à do mercado mundial.

O barril de petróleo passaria de US$ 140 pouco antes do colapso financeiro de 2008. O preço alto mais que justificaria a cara exploração das reservas submarinas.

O mesmo sinal do mercado incentivou empresas e governo dos Estados Unidos a promover expressiva mudança no setor de energia.

Em particular depois de 2008, os EUA tomaram providências para reduzir o excessivo consumo de petróleo e incentivar a produção de biocombustíveis. Em 2011, a demanda americana de petróleo era 8,6% menor que em 2006.

Os EUA também passaram a explorar reservas não convencionais, como a de petróleo e gás de xisto, uma rocha que demanda exploração especial e cara.

Inovações tecnológicas, livre-iniciativa e regulação decente do mercado devem levar os EUA de volta à liderança mundial na produção de petróleo.

Na semana passada, a Agência Internacional de Energia (AIE) afirmou que a produção americana deve superar a saudita em 2020, quando a importação do combustível terá sido reduzida em mais da metade. O país deve tornar-se autossuficiente em cerca de 20 anos.

A AIE não exagera, pois, ao dizer que os EUA redesenham o mapa mundial do petróleo. No Brasil, a euforia dissolveu-se em inércia.

Desde 2008 não há leilões de novas áreas de exploração de petróleo. A área sob produção diminui. A lei de divisão dos royalties recém-aprovada deve levar a mais conflito e paralisia. Ou a presidente veta esse projeto, ou Rio de Janeiro e Espírito Santo irão à Justiça.

O programa de investimentos da Petrobras, vergado sob o peso da exigência de conteúdo nacional, atrasa e se encarece. A empresa tornou-se instrumento de políticas públicas que a tornam ineficiente. Constrói refinarias de economicidade duvidosa no Nordeste; arca com os custos do tabelamento, na prática, da gasolina.

A produção de petróleo estagnou; a empresa teve em 2012 seu primeiro prejuízo trimestral em 13 anos. O tabelamento da gasolina desestimula o consumo e a produção do etanol, com o que a estagnação se abateu também sobre o setor de biocombustíveis.

O contraste é evidente. Aqui, a euforia transforma-se no torpor derivado de estatismo, miopia política, nacionalismo e pura inépcia, uma velha e conhecida doença brasileira. Nos EUA, um ambiente mais livre e tecnologicamente desenvolvido permite a invenção de soluções para superar crises.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO


Herói antidrogas alertou para aliança PCC-Farc


Não é novidade para o inimigo nº 1 dos traficantes no Brasil, juiz federal Odilon de Oliveira, de Mato Grosso do Sul, a descoberta de que a facção criminosa PCC cobrava dívida de bandidos com o assassinato de PMs em São Paulo. Foi ele quem atribuiu ao PCC ataques à capital paulista perto da eleição de 2006. Em 2010, alertou nesta coluna que a facção atua com os narcoterroristas das Farc e do EPP, do Paraguai.

Inimigo ao lado


Protegido 24h pela PF num ‘bunker’ em Campo Grande, Odilon acusou o governo federal de “subestimar o “Exército do Povo Paraguaio”.

Expansão


Com as Farc fragilizadas, o PCC vai investir no terrorismo, para firmar e expandir seus domínios no continente com tráfico de drogas e armas.

‘Companheiros’


Odilon também critica as antigas relações das Farc com o governo Lula, que concedeu mais de 400 asilos políticos a “ex-guerrilheiros”.

Terroristas


Durante entrevista em 2010, o juiz Odilon classificou as ações do PCC de “terrorismo”, com o objetivo de afrontar “o Estado repressor”.

Dilma reclama da cobrança do IR de senadores


A Receita Federal está uma "arara" com intromissão do Palácio do Planalto em suas ações fiscais. A presidenta Dilma reclamou, por meio do Ministério da Fazenda, da insistência na cobrança para que os senadores paguem o Imposto de Renda sonegado sobre o 14º e 15º salários. O governo acha é que o tema “constrange” os parlamentares. O conceito de Dilma, no órgão, caiu muito por conta do episódio.

Rainha da Sucata


O navio de desembarque da Marinha “Matoso Maia” encalhou no estaleiro para diversos reparos que ultrapassam os R$ 14 milhões.

Viva Gonzagão


A Orquestra Sinfônica de Teresina homenageia dia 10, no Senado, o centenário de Luiz Gonzaga, sob regência do maestro Aurélio Melo.

Pergunta laica


Na onda de tirar o “Deus seja louvado” das notas de real, o Ministério Público Federal toparia propor o fim dos feriados religiosos?

Impositivo, já


Os partidos cobram dos candidatos ao comando da Câmara a votação de proposta que prevê um orçamento impositivo. Querem acabar com a negociação de emendas em troca de apoio ao governo.

Mágoas eleitorais


Presidente da Força Sindical, Paulo Pereira (SP) não esconde mágoas do ministro Brizola Neto (Trabalho), que ajudou a campanha do petista Fernando Haddad, em São Paulo: “Não precisava ter ido lá babar ovo”.

Leite de bode?


Deputados nordestinos, apreciadores de leite de cabra, estão à espera de explicações do deputado José Guimarães (PT-CE). Disse que ele e o irmão José Genoino foram criados “à base de leite de bode”, no Ceará. Afinal, como os ilustres irmãos conseguiam tirar leite de bode?

Triste sina


O ex-marido da presidenta Dilma Carlos Araújo depende do aval do ex-ministro Carlos Lupi para voltar ao PDT. Como ele foi parlamentar, sua ficha de filiação precisa ser aprovada pela executiva nacional.

Vantagem legal


A Associação dos Magistrados do Brasil fará festa no dia da posse de Joaquim Barbosa na presidência do STF. Mas essa “vantagem” festiva, auferida em razão do cargo, certamente nada tem de indevida.

Aparelhou


A CUT vai protestar no Congresso na terça (20), Dia da Consciência Negra, para pressionar a aprovação de direitos trabalhistas totais às domésticas, como FGTS. O próximo passo, claro, é exigir filiação.

Na luta


Presidente do PTB e réu no mensalão, Roberto Jefferson deve terminar em abril o tratamento contra câncer no pâncreas. “Ele enfrenta com espírito pra cima, e nem perdeu cabelo”, diz o advogado Luiz Barbosa.

Nem plantar batatas


Após o governo de triste memória no DF, Rogério Rosso, hoje no PSD, tentou cargo no governo atual, mas o vice-governador Tadeu Filippelli (PMDB) mandou-o plantar batatas. Mas isso também não sabe fazer.

Pergunta no diretório


O PT vai protestar junto à rainha Elisabeth II contra a Justiça de Jérsey, por condenar o “cumpanhêro Maluf” pelo desvio de R$22 milhões?

Ajuda dispensada


Figura muito popular em Teixeira, município paraibano, Zé da Onça certa vez abordou João Agripino, que visitava a cidade:
- Preciso da sua proteção, governador.
- Ande direito e pode contar comigo – garantiu Agripino.
Zé da Onça dispensou:
- Precisa mais, não. Andando direito, não preciso da ajuda e ninguém.

SEGUNDA NOS JORNAIS


Globo: Nó na diplomacia – Israel ataca alvos civis na Faixa de Gaza
Folha: No dia mais letal em Gaza, ataque de Israel mata 12 civis
Estadão: Obama alerta Israel contra invasão por terra em Gaza
Valor: Empresas deixam lá fora 70% dos dólares captados
Estado de Minas: Caso Bruno – Um goleiro nas mãos da Justiça
Zero Hora: A reinvenção do jogo do bicho – Corrupção policial “escolta” bicheiros
Correio Braziliense: Civis são massacrados na Palestina

domingo, novembro 18, 2012

Felizes, mas muito pobrinhos - CLOVIS ROSSI

FOLHA DE SP - 18/11


América Latina resiste à crise, mas está ainda a anos-luz dos atolados países europeus


CÁDIZ - Por mais que os países latino-americanos tenham se apresentado para a 22ª Cúpula Ibero-americana como os melhores alunos da classe, na comparação com os dois parceiros ibéricos, Espanha e Portugal, enfiados numa crise que parece não ter fim, o fato é que estão felizes, mas são ainda muito pobrinhos.

Mesmo em recessão, "o nível de bem estar [na Europa em geral] é muito maior".

Não só é maior como é mais justamente distribuído, até porque a América Latina "é a região mais desigual do mundo", como fez questão de ressaltar Alícia Bárcena, a secretária-executiva da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina, braço da ONU).

O que mais dói, para quem acompanha cúpulas internacionais há uns 30 anos, é ouvir uma frase como essa ano após ano.

Dói mais ainda quando se somam duas informações: 1) O Brasil, apesar de ser o país mais rico do subcontinente, é um dos mais desiguais; 2) A queda da desigualdade, no Brasil, diminuiu nos últimos 10 anos apenas entre salários, não entre o rendimento do capital e do trabalho, que é a mais obscena.

Desigualdade não é o único capítulo em que a América Latina, conjunturalmente feliz, precisa progredir -e muito.

A tributação, por exemplo, "é baixa para proporcionar serviços públicos de qualidade, que atendam à demanda social", como diz Ángel Gurria, secretário-geral da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), o clubão dos países desenvolvidos, do qual o Brasil só não é parte porque não quer.

Os impostos, na região, pularam de 14% para 19% do Produto Interno Bruto, entre 1990 e 2010, em grande medida pelo que ocorreu no Brasil. Ainda assim, é uma porcentagem baixa, se comparada aos 34% da média da OCDE.

Mas, atenção, aqui o Brasil não entra na foto geral: tanto ele como a Argentina arrecadam basicamente os 34% dos países ricos.

Pulemos para educação: 50% dos estudantes latino-americanos não alcançam os níveis mínimos de compreensão de leitura, nos testes internacionais, quando, no mundo rico, a porcentagem de fracassados é de 20%.

Passemos ao investimento em inovação e tecnologia: não supera nunca de 0,7% do PIB, quando na Coreia, por exemplo, é de 3%.

"Se não corrigirmos o rumo, seremos todos empregados dos coreanos", fulmina Gurria. Poderia ter acrescentado "ou dos chineses", que investem nessa área vital tanto quanto os coreanos.

Mais um dado: a América Latina está investindo 2% de seu PIB em infraestrutura, quando precisaria de 5%, ano a ano, até 2020, pelas contas de Gurria.

Nem preciso acrescentar que infraestrutura não é exatamente o forte do Brasil, por mais que se lancem PACs, Copas e Olimpíadas.

Para fechar: Alícia Bárcena lembra que a conexão de banda larga custa US$ 25 na América Latina, apenas US$ 5 na Europa e, na Coreia, US$ 0,05.

Moral da história: estamos rindo do quê?

Britto, um homem de bem com a vida - ELIO GASPARI

FOLHA DE SP - 18/11


O ministro do Supremo atravessou um julgamento histórico deixando uma lição de tolerância e suavidade


Foi-se embora do Supremo Tribunal Federal o ministro Carlos Ayres Britto. Ocupou a presidência da Casa por apenas sete meses e presidiu o maior julgamento de sua história, engrandecendo a corte e o país. Sua maestria esteve na habilidade com que costurou em silêncio vaidades, conflitos e manobras. Em 2003, quando Lula nomeou-o para a corte, para os leigos sua biografia resumia-se a um viés regionalista e pitoresco: era sergipano e poeta. Depois soube-se que era também vegetariano. Antes de assumir a presidência do tribunal ele fixou outra característica: seus votos indicavam um jurista convicto de que a Constituição tem um espírito.

Num país onde a Carta é emendada como se fosse uma lista de compras, acreditar que há nela um indicador da alma da sociedade foi a maior das suas contribuições. Com esse entendimento, matou a Lei de Imprensa da ditadura com tamanho vigor que até hoje o Judiciário não digeriu direito seu voto.

Presidindo o julgamento do mensalão, deu um exemplo aos costumes nacionais mostrando que na política brasileira há espaço para a suavidade. Nunca elevou a voz, jamais acrescentou arestas a debates crispados. Num tribunal que passara pela presidência alegórica de Gilmar Mendes e irritadiça de Cezar Peluso, ele descalçava as meias sem tirar os sapatos. Britto aposentou-se dias depois da morte do mestre-sala Delegado da Mangueira, outro campeão da suavidade. Na política, ecoou a serenidade de Tancredo Neves e de Fernando Henrique Cardoso, dois mágicos, capazes de fazer com que as crises entrassem grandes e barulhentas em seus gabinetes e saíssem menores, em surdina.

De bem com a própria vida, Carlos Ayres Britto melhorou a dos outros.

PAPAI NOEL

O doutor Vinicius Couto, presidente da Associação dos Servidores do Superior Tribunal de Justiça, avisa:

"Informamos aos associados e demais servidores que foi deferido no Conselho de Administração, nesta manhã e por unanimidade, requerimento da ASSTJ solicitando que o feriado natalino e de final de ano fosse instituído para o período de 20 de dezembro a 6 de janeiro, conforme preceitua o inciso I do art. 62 da lei 5.010 de 20 de maio de 1996."

O STJ intitula-se "Tribunal da Cidadania", mas só seus cidadãos-servidores usufruem desse presente.

ISSO DÁ CADEIA

Uma parte do empresariado brasileiro está assustada com as sentenças do STF que mandaram para a cadeia diretores de bancos e de agências de publicidade. Entendem que a jurisprudência aplicada no caso das teias do mensalão cria um clima de insegurança para seus executivos.

Os doutores poderiam passar os olhos num manual oferecido na semana passada pelo governo americano às empresas que operam no exterior. Chama-se "A Resource Guide to the U.S. Foreign Corrupt Practices Act". Ele ensina as empresas a tomar cuidado com contratos de consultoria, com pagamentos feitos em contas existentes em terceiros países e com mimos em geral. Mostra o risco que um empresário corre quando prefere não saber o que há por baixo do negócio.

O manual avisa que cada propina pode custar à empresa uma multa de até US$ 2 milhões. Diretores e funcionários arriscam canas de até 20 anos.

FERIADÃO

Para quem foi apanhado desprevenido no feriadão e gostaria de perder tempo com um grande livro. Está na rede "The Last Lion" ("O Último Leão - O Defensor do Reino"), por US$ 19,99). É a biografia de Winston Churchill, do historiador americano William Manchester. Vai de 1940, quando o Leão assumiu o governo da Inglaterra, até 1965, quando morreu.

Manchester foi-se em 2004 e escreveu só uma parte do livro. A obra foi terminada, a seu pedido, pelo jornalista Paul Reid, que se baseou no seu roteiro e nas notas que deixou. No papel, é um cartapácio de 1.232 páginas, mas ninguém precisa se assustar. O primeiro capítulo, "O Leão Caçado", com umas 120 páginas, é um magnífico retrato de Churchill, com sua obstinação, seus hábitos, charutos e bebidas. Entornava champanhe, conhaque e uísque, mas não chegava ao porre. Egocêntrico, não dava ordens verbais, tudo por escrito, para que ninguém pudesse falar em seu nome. Detalhista, mandou que se cuidasse dos bichos do zoológico porque as bombas alemãs podiam soltá-los. Era cruel ("eu não desejo mal a Stanley Baldwin -que ocupou o cargo de primeiro-ministro-, mas teria sido melhor se ele não tivesse existido") e antiquado, dizia "Pérsia", jamais Irã, e quando passaram a chamar a capital da Turquia de Ancara insistia em dizer Angora, pois não mudaria a designação dos gatos. Detestou "Cidadão Kane" e, depois que Frank Sinatra pegou em sua mão para festejá-lo, perguntou: "Quem é esse sujeito?"

Depois desse esplêndido retrato, sobra o gigante na Segunda Guerra, mas isso pode ficar para outro dia.

OS TABLETS DO COMISSÁRIO MERCADANTE

O governo da Índia anunciou que distribuirá milhões de tabuletas Aakash para estudantes ao preço de US$ 21 por unidade. Trata-se de uma venda subsidiada, pois no mercado as peças custam até US$ 80.

Grande notícia para quem achava que não se conseguiria produzir computadores por menos de US$ 100. É verdade que essas tabuletas não podem ser chamadas de computadores, mas dão para o gasto dos projetos pedagógicos que pretendem atender.

No Brasil está em curso a seguinte gracinha: em fevereiro passado o comissário Aloizio Mercadante anunciou que a Viúva compraria até 600 mil tablets para serem entregues a professores do ensino médio. O que eles fariam com os equipamentos, não se sabe, pois não havia projeto pedagógico para acompanhá-los. Nove meses depois, a Boa Senhora já comprometeu R$ 115 milhões para a compra de 380 mil tabuletas.

Eremildo idiota, fez a conta: cada uma sairá por R$ 302, ou US$ 150. Essa compra resulta de um pregão vencido por fornecedores que ofereceram quatro modelos, indo de R$ 277 a R$ 462. Tomando-se o preço do mercado indiano (US$ 80) e o mais baixo do pregão nacional (US$ 138), o cretino operou o Milagre de Simonsen. Brilhante economista e ministro da Fazenda de 1974 a 1979, Mário Henrique Simonsen enunciou uma lei segundo a qual em certos casos é preferível pagar a comissão para que se esqueça o projeto. Sem julgar o que houve na compra dos tablets, o cretino propõe o seguinte: reservam-se 10% dos R$ 115 milhões para despesas imprevistas. Sobram R$ 103,5 milhões e gasta-se esse dinheiro comprando 647 mil tabuletas de US$ 80, em vez de 380 mil a US$ 150.

Mesmo sem saber o que fará com elas, a Viúva ganha mais 267 mil tabuletas e, como sobraram os 10%, ficará todo mundo feliz.

Deuses e demônios - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 18/11


A condenação do ex-ministro José Dirceu a uma pena que implica regime de prisão fechada desencadeou uma onda de protestos por parte dos seus seguidores que está revelando os instintos mais perversos de um grupo político radicalizado, que se vê de repente atingido por uma mancha moral de que dificilmente se livrará na História.

Além do território da internet, onde tudo é permitido e muitos espaços pagos para uma propaganda política ignóbil, lê-se na imprensa tradicional, que os petistas tentam desqualificar, mas à qual recorrem para dar legitimidade às suas teses, ora que é preciso rever a pena dada a Dirceu por corrupção ativa e formação de quadrilha porque nesse último item houve uma suposta divisão do plenário do STF, ora que os juízes do Supremo não têm estatura moral para condenar um herói nacional, que colocou a vida em risco na luta pela democracia.

Ou que a condenação de Dirceu, Genoino e Delúbio não significa que os poderosos estão sendo alcançados pela Justiça, pois eles não seriam tão poderosos assim. Fora a patética tentativa de transformar os membros do núcleo político petista em meros mequetrefes, ou simples ladrões sem intenções políticas de controlar o Congresso, é espantoso que tentem ainda agora, depois de mais de três meses em que foram revelados os detalhes do golpe armado de dentro do Palácio do Planalto, fazer de Dirceu um herói nacional, intocável por seu passado político de resistência à ditadura.

Um conhecido intelectual orgânico petista teve o desplante de escrever que enquanto Dirceu lutava contra a ditadura, os ministros do STF viviam suas vidas burguesas à sombra do governo ditatorial, seguindo uma vidinha medíocre que acabou levando-os ao Supremo. Outro, citando um artigo do historiador Keneth Maxwell, comparando o julgamento do mensalão ao dos inconfidentes pela Alçada criada por d. Maria, assumiu a absurda comparação como fato.

Maxwell escreveu que "os membros da Alçada estavam sujeitos a influências externas - em um caso, inclusive, pelo pagamento de um grande suborno em ouro. Ao final, Tiradentes foi sacrificado. E, se por acaso os processos da Alçada começam a lhe parecer estranhamente semelhantes com o mensalão, isso não deveria causar surpresa: de fato, são. Algumas coisas nunca mudam".

No espírito de endeusamento que começa a se revelar entre os petistas, podem querer comparar Dirceu a Tiradentes quando, como bem destacou o historiador José Murilo de Carvalho em recente entrevista ao Estado de S. Paulo, "o que está em julgamento no mensalão não é Tiradentes, mas dona Maria I, não são os rebeldes, mas a tradição absolutista da impunidade dos poderosos". Historiadores e intelectuais enviaram mensagens a Maxwell rebatendo a esdrúxula tese.

Com relação à condenação de Dirceu por formação de quadrilha, de fato houve quatro votos contrários - dos indefectíveis ministros Dias Toffolli e Lewandowski e mais as ministras Cármem Lúcia e Rosa Weber -, o que permitirá embargo infringente. Mas não houve uma divisão do plenário, e sim uma maioria condenatória.

As tentativas de desmoralizar o Supremo Tribunal Federal, de maneira institucional através de nota oficial do PT, ou de pronunciamentos de elementos isolados ligados ao partido, são demonstrações de que um movimento político de tendência totalitária, vendo-se denunciado em suas ações antidemocráticas, busca reverter o quadro negativo demonizando seus condenadores e endeusando os condenados.

Mais uma vez colocam os interesses partidários acima dos da democracia, e a reação causada pela condenação do "chefe da quadrilha" José Dirceu reforça apenas que ele era mesmo quem detinha "o domínio do fato", como parece dominar até este momento, sendo capaz de mobilizar seguidores para tentativa de desqualificar o Poder Judiciário do país.

O ministro Joaquim Barbosa não inovou, nem deu demonstração de não seguir a tradição, ao escolher o ministro Luiz Fux para saudá-lo em sua posse, em vez do decano ministro Celso de Mello. Não há regra, nem força de tradição, que faça relação direta entre o orador da posse do novo presidente ser o decano da corte. É uma escolha livre e pessoal do presidente.

O Brasil está emperrado - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 18/11


A coisa encrencou em infraestrutura, custo da energia, petróleo, educação e investimento público


POR QUANTO tempo o Brasil pode crescer "politicamente" antes de o caldo econômico entornar?

Crescimento "político", por assim dizer, é o que temos visto nos últimos dois anos. As pessoas consomem mais, há emprego, o governo é popular. Mas não há investimento, mais produtividade, inovação. O investimento, aliás, vai encolher neste 2012.

A pergunta é apenas mais ou menos retórica. Não dá para responder que o caldo vai entornar em tanto ou quanto tempo. Mas entorna. A conta do consumo crescente sem produção adequada vai aparecer em algum lugar: na inflação, no deficit do governo, no deficit externo.

Além do desperdício mais óbvio, o crescimento baixo, estamos perdendo anos de um período de boas condições demográficas para crescer. Isto é, há menos crianças e ainda poucos idosos: temos, por ora, relativamente mais gente em condição de trabalhar.

No biênio 2011-12, teremos crescido algo entre 2% e 2,2%. Não é lá muito difícil crescer entre 3,5% e 4%. O ideal seria crescer uns 7% a fim de dobrar a renda média em uma década, com o que nossos problemas materiais estariam mais ou menos resolvidos.

Sim, a situação da economia mundial não nos ajuda. Ajuda mais nossos vizinhos, mais dependentes de commodities -nós temos uma indústria, ainda que avariada. Eles, não. Mas alguns de nossos vizinhos puseram a cabeça para funcionar.

Nós paramos de pensar faz quase uma década. Afora a ampliação do mercado interno, sob Lula, quase não aconteceu mais nada. O consumo não pode crescer mais, de modo duradouro, se não tomarmos outras providências.

Onde está o programa de passar para empresas privadas a construção e a operação de estrada, porto, ferrovia, aeroporto, que já veio tarde e a contragosto?

O programa de redução do custo da energia elétrica está emperrando. O governo não consegue aumentar o seu já miúdo investimento desde o final de 2010.

A exploração de petróleo não anda desde 2008. A lei dos royalties, de distribuição de parte da renda do petróleo para União, Estados e municípios, foi aprovada no início do mês, mas vai dar em confusão e atraso. O programa de desenvolvimento do setor que o governo impôs à Petrobras revela-se caro e lerdo.

Em suma: infraestrutura, energia e regulação do mercado estão emperradas.

A maior invenção brasileira nas últimas quatro décadas, se não a única, o etanol, vai mal por excesso de intervenção do governo nos combustíveis (o governo tabela a gasolina, vende-se pouco etanol e a coisa encrenca nas usinas).

Depois do Bolsa Escola, lá ainda no primeiro governo FHC (1995-1998), nada mais se inventou em educação básica. Sim, há o Prouni, mas o analfabetismo funcional no Brasil está na casa dos 30%. Mas a presidente e os governadores mais importantes mal tocam no assunto.

Provavelmente vamos crescer pelo menos uns 3% em 2013. Mas como podemos crescer mais e por mais tempo se o mercado de trabalho está no osso, a inovação é marginal, a infraestrutura está emperrada, a regulação está cada vez mais confusa etc. etc.?

Parece que pouca gente nota, mas o país está emperrado.

Feirão federativo - VERA MAGALHÃES - PAINEL

FOLHA DE SP - 18/11

Preocupado em demonstrar empenho nas parcerias do Estado com o governo federal após o impasse na segurança, Geraldo Alckmin recomendou a secretários que percorram os ministérios em busca de acordos de cooperação nas áreas de habitação, saneamento, infraestrutura esportiva e transportes. O próprio governador incluiu em sua agenda reuniões com ministros -esteve recentemente com Aguinaldo Ribeiro (Cidades), Aldo Rebelo (Esporte) e Guido Mantega (Fazenda).

Onde pega 
Além da blindagem contra o PT, que critica o tucano pela lenta entrada de programas da União em São Paulo, o tour alckmista por Brasília tem finalidade pragmática: o governo paulista busca recursos e financiamentos, sobretudo do BNDES, para tocar obras prometidas na campanha até 2014.

Vai ou racha 
A mobilização de quadros de cidades próximas à capital para o secretariado de Fernando Haddad foi acompanhada de perto por Lula. O ex-presidente tem dito a petistas que a prefeitura paulistana é a prioridade do partido em detrimento de outras administrações.

Médio prazo 
Aliados de José de Filippi consideraram arriscada a ida do ex-prefeito para o primeiro escalão de Haddad. Com a recente derrota em Diadema, avaliam que o deputado será alvo de campanha por ter abandonado o mandato e a cidade.

DNA 
Além de Andrea Matarazzo, outro vereador eleito entrou na disputa pela presidência do PSDB paulistano: Mario Covas Neto, filho do ex-governador Mario Covas.

É a economia 
A aliança de Gilberto Kassab com Dilma Rousseff foi precipitada por prognóstico otimista de Henrique Meirelles sobre a economia brasileira. O ex-presidente do Banco Central, um dos ministeriáveis do PSD, relatou a Kassab que o pleno emprego deve blindar o país de crises até 2014.

Sujou 
Aliados de Paulo Maluf em São Paulo, petistas e tucanos consideram que a decisão da Justiça de Jersey dificulta, em médio prazo, a permanência do deputado à frente do PP paulista. Com o cerco judicial, o ex-prefeito dificilmente conseguirá registro para postular novo mandato na Câmara em 2014.

Rateio 
O diretório nacional do PMDB se recusou a assumir dívida de R$ 7 milhões da campanha de Gabriel Chalita em São Paulo. A tesouraria do partido autorizou as direções municipal e estadual a dividirem o prejuízo.

Apego 
Aloizio Mercadante (Educação) tem feito críticas, em privado, à provável nomeação de Chalita para o Ministério de Ciência e Tecnologia. O ministro não gostaria de perder influência sobre a pasta, onde deixou aliados em postos de destaque.

Meteorologia 
Chalita guarda vínculos afetivos com o ministério que deseja ocupar. O Inpe, principal órgão da pasta, mantém pioneiro centro de estudos climáticos em Cachoeira Paulista, cidade natal do peemedebista.

Novos ares 
Blairo Maggi (MT) prepara seu desembarque do PR. Protocolou consulta no TSE para saber as consequências jurídicas sobre seu mandato, e dos suplentes, caso deixe o partido. PMDB e PSB são os destinos mais prováveis do senador.

Apetite 
Ainda não acabou a série de jantares de Dilma Rousseff com a base aliada. O PC do B pediu para ser recebido no Alvorada.

Isonomia 
Chamou a atenção da PF bilhete de Carlinhos Cachoeira apreendido na casa de sua mulher, Andressa Mendonça. O empresário pergunta, como "preso político", o motivo de ele estar preso e José Dirceu, solto.

Tiroteio
"Em tempos de apagão, o governo continua jogando para a arquibancada. Aliás, não faz outra coisa ao longo dos últimos dez anos."

DO SENADOR FLEXA RIBEIRO (PSDB-PA), sobre a redação da MP 579, que trata da renovação de concessões do setor elétrico e que pretende reduzir as tarifas.

Contraponto


Preto ou caju?

Recém-eleito prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto (PSDB) visitava gabinetes no Senado na semana passada quando esbarrou em Alfredo Nascimento (PR-AM) no corredor. O tucano logo brincou:

-Alfredo! Está bonito, hein?

O presidente nacional do PR, que costuma tingir o cabelo, respondeu sem titubear:

-Bonito eu estou sempre...

Minutos depois, após tratarem de outros temas, Nascimento voltou à seara estética.

-Você acha que eu estava bonito mesmo?

Algodão entre cristais - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 18/11


Fácil não foi. Houve mesmo momentos em que o ministro Carlos Ayres Britto achou que não conseguiria cumprir o propósito de incluir o julgamento do processo do mensalão na agenda do Supremo Tribunal Federal durante sua breve presidência.

Seriam apenas sete meses, em função da aposentadoria compulsória aos 70 anos completados hoje, a respeito dos quais Ayres Britto começou a pensar desde o ano anterior.

Decidiu que se empenharia no exame da Ação Penal 470 ao juntar os fatos: o caso acontecera há sete anos, a denúncia havia sido recebida há quase cinco, a instrução terminara um ano antes, a prescrição de alguns crimes batia à porta do processo.

Não obstante as condições objetivas favoráveis, Ayres Britto sentia a atmosfera desfavorável e um obstáculo concreto a ser transposto: o revisor Ricardo Lewandowski dava indicações de que não liberaria seu parecer tão cedo.

Além disso, recebia ponderações de amigos de que talvez não fosse um bom negócio se envolver numa confusão desse tamanho em tão pouco tempo de presidência.

O tribunal paralisaria os trabalhos, viveria boa parte de sua gestão em função de um único processo e ainda receberia críticas por ter feito coincidir o julgamento com as eleições municipais.

Os argumentos não pareciam consistentes ao ministro Ayres Britto. A paralisia de outros processos seria um preço inevitável e as eleições fazem parte da rotina do País. O ministro quis antecipar o julgamento para maio, mas não conseguiu devido às resistências no colegiado.

Vencidas pouco a pouco em negociações prolongadas. Foram inúmeros encontros preparatórios até que no dia 6 de junho foi anunciada oficialmente a data do início do julgamento para dali a dois meses. Lewandowski e Antonio Dias Toffoli não foram à reunião, alegando outros compromissos.

Entre as poucas pessoas que apoiavam a empreitada estava a ex-ministra do STF Ellen Gracie. Presidente da Corte quando a denúncia foi aceita, em 2007, ela telefonou para Ayres Britto para dar apoio e dizer que ele era a pessoa certa, no lugar certo.

A combinação de suavidade, persistência e firmeza faziam dele o perfil ideal para levar adiante o processo.

Ainda assim houve um momento, mais ou menos um mês antes de conseguir bater o martelo, em que o ministro viu a coisa feia e achou que não seria possível fazer o julgamento a tempo de evitar a prescrição de alguns crimes, tamanha era a pressão. Implícita, jamais explícita.

Ele perdeu a conta das vezes em que ouviu a pergunta "por que julgar?". À qual rebatia com um "por que não julgar?" que deixava o interlocutor sem resposta.

Olhando os últimos três meses no retrovisor o ministro evita qualquer crítica aos colegas, mas aponta que os desentendimentos entre eles foram responsáveis pelas situações mais difíceis que teve de enfrentar durante o julgamento. Principalmente quando as divergências resvalavam para o campo pessoal, beirando o insulto.

Nessas ocasiões Ayres Britto via a coisa realmente feia - "um verdadeiro sarapatel de coruja", na expressão da Sergipe natal - e improvisava.

Quando era possível cuidava de elevar a "taxa de cordialidade" no plenário com alguma tirada poética, mas quando não havia jeito suspendia a sessão e promovia um entendimento informal que se traduzia na restauração da formalidade na volta dos ministros ao plenário.

Carlos Ayres Britto deixa o Supremo Tribunal Federal sem nostalgia - "tenho facilidade para virar a página", diz - e absolutamente tranquilo quanto ao dever cumprido pela Corte.

Não vê sentido nas críticas de que o STF deixou de lado a ortodoxia jurídica para se comportar como tribunal de exceção.

"Heterodoxo foi o caso. A novidade não está no julgador, mas no processo julgado, na quantidade de réus, na gravidade dos crimes e na ousadia dos criminosos. O Supremo fez o que deveria ser feito."

Sonhos de supersimetria - MARCELO GLEISER

FOLHA DE SP - 18/11


É difícil dizer quando uma hipótese propondo um novo fenômeno deve ser descartada pelos cientistas


Quando os cientistas aceitam que uma hipótese está errada? Em princípio, a coisa é simples: formula-se uma hipótese para explicar um fenômeno já conhecido ou propor a existência de algo novo. Experimentos são montados com o intuito de verificar a hipótese. Caso o fenômeno já seja conhecido, a hipótese é comparada com hipóteses rivais. A que for mais simples e explicar melhor o que foi observado é escolhida.

A partir daí, ela fica sendo a explicação aceita até que novos fenômenos venham contradizê-la. O segundo caso, hipóteses científicas que propõem novos fenômenos, é bem mais complicado.

A complicação vem de como as hipóteses são construídas. Em geral, especialmente na física e na astronomia, hipóteses são baseadas em modelos matemáticos, descrições aproximadas de como a Natureza opera. Todo modelo é uma aproximação, ou seja, nenhum é réplica perfeita do real. Consequentemente, nenhum modelo é completo.

Por exemplo, na física de partículas, que estuda os menores componentes da matéria, tudo o que conhecemos se resume ao Modelo Padrão, que explica as partículas descobertas até agora e as quatro forças com que interagem entre si.

Sua estrutura é relativamente simples: 12 partículas de matéria arranjadas em três "famílias". A mais conhecida descreve a matéria da qual somos compostos (elétrons, prótons e nêutrons). As duas outras descrevem partículas que surgem em experimentos de altíssimas energias, como os do LHC, famoso pela descoberta do bóson de Higgs.

Mas, como todo modelo é incompleto, existem lacunas no Modelo Padrão. Para preenchê-las, físicos propõem extensões do Modelo Padrão, novos modelos com mais partículas. O teste dessas hipóteses é sempre descobrir as novas partículas propostas pelos modelos.

Deles, o mais famoso é o que invoca uma nova simetria da natureza, a supersimetria. Essa simetria dobraria o número de partículas que existem na Natureza.

Se a supersimetria existe, deveríamos encontrar um monte de novas partículas. Isso parece ruim, mas a ideia é que a supersimetria explicaria vários problemas que existem no Modelo Padrão, os quais não temos espaço para abordar. (Trato disso em meu livro "Criação Imperfeita".)

A supersimetria também pode resolver um enigma cósmico, a existência da matéria escura, que afeta a rotação das galáxias.

Por causa disso, físicos no LHC e em outros experimentos vem buscando partículas previstas por teorias supersimétricas. Até o momento, nada. Recentemente, um raro decaimento ("decomposição") de uma partícula conhecida como méson B criou mais problemas para a supersimetria, que prevê que o decaimento seja muito mais comum do que é.

Por que a supersimetria não é abandonada? A complicação é que modelos matemáticos dependem de parâmetros que podem ser ajustados (massa das partículas, por exemplo), de modo que suas previsões escapem dos instrumentos de detecção: a teoria pode se esconder, em princípio indefinidamente.

E que critério, então, é usado para descartar uma hipótese que não está funcionando? Não existe uma resposta clara. Apenas a humildade de aceitar o erro e propor o novo, mesmo que menos elegante.

Eu amo o Nero - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 18/11


Carência é uma enfermidade universal. Nem os gatos, tão altivos e superiores, escapam

Ao lado da minha escrivaninha, onde fica o meu computador, há um sofá repleto de livros, revistas e jornais, e que também acomoda o gato aqui de casa. É onde ele se instala quando está carente ou quando está com fome. Quando está carente, é um santo. Fica quietinho, perto de mim, e dorme a tarde inteira. Mas quando está com fome é um inferno.

Fica miando com insistência e não sossega até que eu vá com ele à área de serviço onde fica seu prato. Só que no prato sempre tem comida. Por que tenho que ir junto? Ora, porque ele quer que eu coloque um pouco mais. Nem que sejam duas partículas extras de ração, é preciso que ele veja que está sendo colocado mais. O que está no prato não basta.

Eu estava aqui sem assunto, o que não é nenhuma novidade, quando meu gato se aproximou e começou a miar. Em vez de jogar um chinelo nele (estou brincando, estou brincando), olhei bem dentro de seus olhos e pensei: será que esse bichano, em vez de azucrinar, não me rende alguma crônica? Será que todos os gatos são assim voluntariosos? Por que diabos ele tem que ver o prato sendo abastecido a cada vez que deseja comer, se ali já tem comida suficiente?

Algum expert em felinos há de elucidar esse mistério, provavelmente estou errando em alguma coisa. Mas um profissional ligado às ciências humanas talvez me saísse com essa: ele apela para o dengo porque precisamos de constantes demonstrações de amor. Homens, mulheres e, pelo visto, gatos também.

Você sabe que é amado, o amor já lhe foi entregue, está ali, no seu prato. É todo seu. Em caso de dúvida, é só chegar e pegar seu quinhão, nunca vai faltar. Serve assim? Não serve.

Você quer a renovação diária de declarações, quer ouvir “eu te amo” todos os dias, quer ser mimado, cuidado, quer que os outros parem de trabalhar para lhe dar atenção, quer que reparem na sua fome, quer se sentir importante. Em suma, quer que seja colocado mais amor no seu prato, de quatro a cinco vezes por dia, todos os dias.

Eu amo o Nero – é como ele se chama. Eu o adotei, o trouxe pra casa, deixo que ele se enrosque no meu edredom, que afie as garras nos meus móveis, que mastigue minhas plantas e que brinque com minhas lixas de unha.

Como moro em edifício, fecho todas as janelas para ele não saltar (mesmo no auge do calor), o levo para tomar banho (principalmente no auge do calor), compro ração da melhor qualidade e de vez em quando até dou a ele uns pedacinhos de filé mignon extraídos do meu próprio almoço, o que ninguém recomenda fazer, mas faço. Encho o bicho de carinho, de cafuné, de olhares afetuosos – não é qualquer um que consegue isso de mim. O Nero consegue, e ainda assim é inseguro.

Pelo visto, carência é uma enfermidade universal. Nem os gatos, tão altivos e superiores, escapam.

Vergonha - DANUZA LEÃO

FOLHA DE SP - 18/11


Ambição é um perigo. Quando as pessoas querem mais, fazem qualquer negócio para conseguir


A semana foi pesada, com muitas chuvas e trovoadas.

Por mais que se achasse que os envolvidos no mensalão mereciam ser condenados, pensar que pessoas que foram tão importantes na vida brasileira, vão para a prisão -aquela prisão à qual se referiu o ministro da Justiça e que conhecemos bem através de fotos- não deixa de mexer com quem tem um mínimo de compaixão.

Algumas coisas me fazem pensar. Será que os muito poderosos, quando ocupam os cargos mais importantes na vida do país, acham que podem tudo, que o poder é eterno, que podem fazer o que quiserem e que jamais serão punidos?

E já que o poder é tão bom, que vale tudo para que ele seja eterno? Não só eles mas também seus amigos, seus ajudantes nos crimes, do mais humilde dos contínuos ao mais íntimo dos chefões, todos se acham imunes às leis.

Se não fosse assim, não fariam o que fazem quase todos os que têm o poder. E no caso em questão, não me parece que quisessem tanto dinheiro para ficarem ricos -não todo-, mas para poderem continuar poderosos.

Mas talvez eu esteja enganada; os que mandam num país devem se sentir tão onipotentes que nem acham que estão fazendo alguma coisa de errado. Podem tudo e, claro, querem continuar podendo.

Fico pensando em Katia Rabello, presidente do Banco Rural, que se meteu nessa enrascada nem sei bem por quê. Ela já era rica o suficiente, importante o suficiente, inteligente -imagino- o suficiente, como é que foi entrar nessa? Dezesseis anos de prisão é muito tempo, e se fosse só um ano também seria; como é que se encara o futuro, depois de receber uma pena dessas?

A ambição é um perigo, seja ela de que tipo for. Quando as pessoas querem mais, sempre mais, fazem qualquer negócio para conseguir. Mesmo que no fundo de algum desses réus que foram condenados houvesse (talvez) um ideal, o ideal de transformar o país, não há quem me convença de que o poder não lhes subiu à cabeça.

Entrar num restaurante e ser saudado com mesuras pelos garçons, ter a melhor mesa, ser paparicado por todos, isso deve deslumbrar muita gente, sobretudo os que nunca tiveram essas regalias. Mas essas regalias não eram para eles, e sim para o cargo que tinham, e assim que outra pessoa assume esse lugar, elas automaticamente são dirigidas aos novos ocupantes dos cargos. E o que são essas regalias, no fundo? Rigorosamente nada.

E será que é tão importante assim ter gente em volta, literalmente -e desculpem a expressão- lhes puxando o saco? É preciso ser muito ingênuo ou despreparado para se deslumbrar com essas coisas.

O curioso é que a maioria dos que foram condenados sofreram na carne os horrores da ditadura, e quando, depois de muita luta, chegaram ao poder, ficaram muito parecidos com os que comandavam o antigo regime. Não prenderam nem torturaram ninguém, mas em matéria de autoritarismo se comportaram da mesma maneira.

O que me leva a pensar que todo radicalismo, seja ele de esquerda ou de direita, é muito parecido, e que a única diferença entre eles é que estão em campos opostos.

E dizer "não vi", como disse Lula quando foi perguntado sobre as penas que sofreram seus companheiros, foi constrangedor. Uma vergonha, vindo de um ex-presidente da República.

Aflições noturnas - JOÃO UBALDO RIBEIRO


O Estado de S.Paulo - 18/11


Vocês também devem ter lido a respeito da utilização de celulares como forma de pagamento ou transferência de dinheiro. Já está chegando, ou vai chegar em breve. Quando eu era menino e lia tudo o que podia, achei lá em casa um livro velho, com ilustrações sombrias, sobre os males da fraqueza nervosa, que eu não sabia o que era, mas de boa coisa não se tratava, a julgar pela cara franzida e meio tresvariada estampada na capa. Impressionava também a visão de um velhote, sentado de pijama na beira da cama com o cabelo desgrenhado, aparentemente desperto de um pesadelo. A legenda explicava que, depois de uma certa idade, muitos indivíduos (e indivíduas, segundo a gramática da República) padecem de aflições noturnas, ansiedades, dispneias, disúrias, discinesias, dispepsias e inúmeras outras condições molestosas, que não raro induzem a fundos estados melancólicos e, por vezes, até mesmo ao passamento prematuro - os textos de antigamente eram caprichados.

Faz pouco tempo, eu não tinha queixa, mas acho que estão começando a pintar umas aflições noturnas, há indícios de que a fraqueza nervosa já se encontra em processo de instalação. Foi essa notícia do celular que me chamou a atenção para o problema. Não o celular em si. Não tenho celular e já me costumei a ser a atração turística da mesa e objeto de comentários sociofilosóficos. Não só não tenho, como não quero ter. Não por nada, somente porque é mais uma geringonça de que na verdade nunca precisei e da qual passarei a depender perdidamente, depois de alguns dias. Uma repórter encarregada de fazer entrevistas sobre comunicações resolveu me ouvir e, quando eu lhe disse que não tinha celular, recusou-se a acreditar. Durante alguns segundos, acho que ela ficou pensando que, na Bahia, celular tinha outro nome, o único que eu conhecia, só podia ser. E desligou meio desconfiada, sem se conformar.

O que me afetou foi o que li a respeito dos celulares e pagamentos, ou melhor, do que o futuro nos reserva, a nós, terceiridadistas (resignemo-nos a "terceira idade", pois que não há mais jeito, e recebamos com um sorriso dúbio "atroz idade" e "indigna idade", mas reajamos a bengaladas contra "melhor idade" e "feliz idade"). Na matéria que vi, várias especialistas se manifestavam sobre a novidade. Operação facílima para pagar qualquer conta, transferir qualquer quantia. Teclam-se alguns botões no celular e a transação está feita. A inovação é bem recebida por todos, de consumidores a comerciantes. Mas, como sempre, há aspectos não tão alvissareiros. As autoridades do setor manifestaram alguma reserva quanto à adoção talvez precipitada do mecanismo, pois sua segurança requeria certas cautelas e habilidades. Em mãos vulneráveis, podia facilmente ser explorado por hackers criminosos e outros espertalhões. "Nossa preocupação principal", disse lá o entendido, "são os idosos e as pessoas de baixa instrução. Esses provavelmente precisarão de cuidados especiais ou atendimento diferenciado".

Pronto, meu caro coevo, minha distinta coetânea. Estamos ingressando em nova categoria estatística e administrativa, talvez ainda não batizada, embora logo deva aparecer o eufemismo oficial adequado. Deficientes cognitivos diversos? Geroanalfabetos? Excluídos por critérios etarioeducacionais? Não sei, mas, com a falta do que fazer que parece grassar em alguns dos incontáveis órgãos que cada vez mais nos dizem como devemos nos comportar, não somente em público como em casa, em que devemos acreditar, do que devemos gostar, como devemos falar e até como devemos entender o que lemos, acho que precisamos estar preparados para receber mais proteção por parte do Estado. Talvez, se o idoso e o analfabeto quiserem usar o celular para transações financeiras, precisem, para seu próprio bem, tomar um curso especial para a categoria e, depois disso, mediante requerimento ao Ministério da Fazenda, obter a Carteira Nacional de Movimentação Financeira para Idosos e Analfabetos, que os habilitará à realização de pagamentos simples.

Tudo razão para aflições noturnas. Agora compreendo aquele livro profético e até gostaria de tê-lo aqui, para uma consulta. Ainda não me levantei sobressaltado no meio da noite, mas não é preciso, é fácil fazer previsões assombradas sobre o que está por vir. Os idosos, como adverte todo dia algum comentarista de entonações sinistras, cada vez aumentam em número e já começam a causar uma série de problemas. Deixá-los trabalhar mais tempo antes da aposentadoria não resolve, porque atravanca o mercado de trabalho para os jovens. Sustentá-los é uma carga cada vez maior para a previdência social. O sistema de saúde também sofre, sobrecarregado por uma demanda que não para de crescer. Não é impossível que se conclua que representam um custo impossível de pagar e o correto é morrerem pela pátria, como está nos hinos.

Além disso, surgem boatos alarmistas inquietantes. Zecamunista, ele mesmo também da confraria idosa, andou denunciando uma conspiração multinacional para matar a velharia, através de estratagemas diabólicos, como epidemias artificiais. E, o que é pior, tudo para abastecer de matéria-prima o mercado de comida de cachorro dos Estados Unidos, da Europa e do próprio Brasil. Não botei fé, embora tenha ficado meio cabreiro, pois nunca se sabe de nada, neste mundo de hoje. Mas ele acabou me tranquilizando.

- Esqueça aquilo que eu falei - disse ele. - Não vão mais armar o esquema da comida de cachorro.

- Ah, eu sabia que era invenção, não iam fazer isso com os velhos.

- Não é por causa dos velhos - disse ele. - É por causa dos cachorros. As sociedades protetoras de animais declararam que essa comida ia fazer mal aos cachorros e ameaçaram boicote. Mas aguardemos os acontecimentos.

Felicidade do namoro é pura apreensão - FABRÍCIO CARPINEJAR

ZERO HORA - 18/11


“Tenho 26 anos, comecei a namorar recentemente, tudo está acontecendo rápido. Não me sentia insegura no início, pois não admitia nem a mim o que sentia. Mas a partir do momento que eu assumi, que a “sociedade” ficou sabendo do relacionamento, bateu aquele medo de abandono.

Acredito que isso é coisa da minha cabeça. Ele é súper atencioso em todos os momentos, mesmo quando não estamos juntos. Mas não compreendo essa insegurança. Um aperto no peito e minhocas na cabeça. Abraços Julieta”

Querida Julieta,

Apaixonar-se é isso: planejar o dia inteiro o que dizer e não falar nenhuma palavra ensaiada durante o encontro; é decorar uma vida sozinha para no fim improvisar a dois.

Previsível o que está passando. Procura investigar se seu par pensa exatamente igual, se sente exatamente igual, se deseja exatamente igual para não parecer tola. Confessa o passado por dias sucessivos (mais do que ofereceu a qualquer pessoa antes), e nunca a conversa é suficiente para se acalmar. Desliga o telefone e já bate a vontade de ligar de novo. Trata-se de um desespero prazeroso, pois tem como partilhar os sintomas com ele.

E acontece tão rápido que não dá para preparar resumo. A felicidade é pura apreensão. Mergulha o corpo em completo desequilíbrio, como se estivesse andando num colchão. Predomina a suspeita de que ele deixará de gostar a qualquer instante, ou que descobrirá quem você realmente é e perderá o encantamento.

O torpedo demora, os reencontros demoram: cada ato insignificante do cotidiano ganha o suspense de uma tragédia.

Quando você assumiu o relacionamento é que se conscientizou dessa fragilidade. Entendeu que ele pode machucá-la e desapontá-la. Antes restava a chance de desaparecer e não dar satisfação. Hoje todo mundo foi informado do envolvimento.

Formalizar o namoro é trocar um medo pelo outro. Antes tinha o medo de que ele não estivesse apaixonado, agora tem o medo de ser abandonada.

Não existe remédio. A insegurança é eterna. Quem tem certeza não ama mais.

Saber ver sem pensar - TOSTÃO

FOLHA DE SP - 18/11


A contratação de bons e diferentes técnicos estrangeiros seria ótima para o futebol brasileiro


Apesar das inexplicáveis escalações de Thiago Neves e Leandro Castán, o Brasil mostrou, contra a Colômbia, que está no caminho certo. Os que disseram que Neymar jogou isolado e de costas para o gol viram outro jogo. A equipe também teve problemas. Os dois laterais não tiveram apoio dos meias (Oscar, Kaká e Thiago Neves) na marcação pelos lados. Assim saíram o gol e outros lances de perigo.

Mudo de assunto. Dizem que contratar treinadores estrangeiros tem sido ótimo para as equipes olímpicas brasileiras. Isso estimula a discussão sobre trazer ou não técnicos de futebol de fora. Nos outros países, como aqui, há bons e maus treinadores. Para trazer, têm de ser os melhores e que sejam diferentes.

A diversidade de conceitos e de métodos enriqueceria o futebol brasileiro. Há muito tempo, quase todos os treinadores daqui fazem e falam as mesmas coisas. A repetição excessiva leva à mediocridade. No fim de ano, os "professores" se reúnem, trocam elogios e ficam ainda mais prepotentes.

Durante um longo tempo, quase todos os times brasileiros faziam marcação individual, tinham dois volantes brucutus, laterais que avançavam e só cruzavam para a área, um único meia para dar passes decisivos, um centroavante só para fazer gols, zagueiros encostados à grande área, enormes espaços entre os setores, além de excesso de jogadas aéreas, chutões, faltas e outros detalhes. Tudo com aplausos de parte da imprensa.

Volantes clássicos, com ótimo passe, como Martínez, que continua bem no Náutico, eram preteridos por volantes brucutus, que faziam faltas e davam carrinhos. Aos poucos, muitos desses conceitos têm sido abandonados. Demoraram a enxergar o óbvio.

Outros conceitos ultrapassados persistem, como os enormes espaços entre a defesa e o meio-campo. Em um gol do Grêmio, contra o São Paulo, Zé Roberto driblou um marcador ainda em seu campo, conduziu a bola até a entrada da grande área, sem ser combatido, até dar o passe decisivo. Os zagueiros permaneceram colados à grande área.

Quase todos os técnicos estrangeiros gostariam de trabalhar no Brasil, ainda mais com os absurdos salários pagos pelos clubes. Ao mesmo tempo, os clubes continuam endividados, além de não pagarem devidamente os impostos.

Os governos são muito bonzinhos. Após o fracasso da Timemania, feita para os clubes quitarem as dívidas com o governo, estuda-se, no Congresso, a possibilidade de se permitir apostas, em sites do Brasil, com a mesma finalidade.

Além de outras qualidades, é essencial, para ser um ótimo treinador, ser bom observador de detalhes subjetivos e objetivos. Isso não se aprende na faculdade. Pensamos muito e enxergamos pouco. "O essencial é saber ver, sem estar a pensar..." (Fernando Pessoa).

Sem proposta - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 18/11



As manifestações e os protestos que se espalham pela Europa "contra os sacrifícios excessivos" expõem a enorme fragilidade das esquerdas.

Esta é a maior crise do sistema capitalista desde os anos 30 e, no entanto, socialistas e social-democratas seguem paralisados, incapazes de formular uma crítica mais abrangente e de fornecer propostas consistentes para uma saída.

A maioria dos governos da área do euro ou é liderada por socialistas (caso do presidente da França, François Hollande) ou por social-democratas (como a chanceler da Alemanha, Angela Merkel).

Às vezes, as lideranças insistem em discursos em defesa do crescimento (capitalista), como o do presidente Hollande, mas não conseguem mais do que alguma variação de austeridade e elevação de impostos.

Pior, o aumento do desemprego, especialmente na França e na Espanha, vai empurrando antigos internacionalistas, os mesmos socialistas e social-democratas, para um discurso nacionalista, de defesa da indústria local e a favor do controle mais feroz da imigração.

As propostas defendidas pelos governos social-democratas da área do euro, por exemplo, são mais ortodoxas e mais diluidoras de salários, de aposentadorias e de renda dos trabalhadores do que o ajuste colocado em marcha pelo governo dos Estados Unidos. Quando defendem o avanço econômico e o aumento do emprego, essas propostas vêm acompanhadas de recomendações que desembocam na austeridade: "não há crescimento sustentável sem equilíbrio das contas públicas" - martelam os governantes.

O aprofundamento do colapso econômico consolida a percepção de que as políticas de bem-estar social (welfare state) - consubstanciadas no seguro-desemprego e no financiamento estatal de programas básicos de saúde e ensino, todas elas conquistas da social-democracia - agravam a fragilidade das contas públicas. São políticas que sangram os tesouros nacionais, numa conjuntura de quebra de arrecadação.

Por vezes, as esquerdas ensaiam críticas às práticas predatórias dos bancos. Mas logo são desencorajadas pelo entendimento de que enfraquecer os bancos implicaria contribuir para o enfraquecimento do próprio trabalhador e das classes médias. Eles são grandes fornecedores de capitais para as instituições financeiras, por meio dos depósitos em conta corrente e por aplicações em fundos de pensão e em fundos de investimento.

Paradoxalmente, as causas mais profundas da crise econômica têm a ver com a incorporação da mão de obra asiática e latino-americana ao mercado global de trabalho em detrimento do emprego nos países ricos. A esse movimento, a primeira reação quase compulsiva das lideranças socialistas e social-democratas (supostamente internacionalistas) é evitar a todo o custo a "exportação de empregos".

Enfim, as esquerdas não têm respostas consistentes nem contra os abusos neoliberais nem contra a progressiva globalização do trabalho. Tampouco não sabem o que propor para enfrentar o rápido e inexorável envelhecimento da população, os novos movimentos de migração dos povos e as mudanças culturais que sobrevêm com a disseminação do islamismo.

"M" de mãe - LUIZ FERNANDO VERÍSSIMO

O GLOBO - 18/11


Depois do penteado que os irmãos Coen lhe arrumaram para o filme Onde os Fracos não Têm Vez era difícil imaginar coisa pior na cabeça do Javier Bardem. Mas em Skyfall, o último 007, ele usa uma cabeleira loira que escorre pela nuca e supera a anterior. Bardem ganhou um Oscar com a cabeleira dos irmãos Coen, é bem provável que ganhe outro com esta. Porque desde que entra em cena ele toma conta do filme. É certamente o melhor da longa lista de vilões excêntricos e megalomaníacos da série, o primeiro de sexualidade indefinida e o primeiro, desde que a Judi Dench começou a ser “M”, chefe do serviço secreto inglês, a tornar explícita a relação edipiana dos agentes com ela. Bardem é um ex-agente desgarrado que quer se vingar por ter sido abandonado por “M” e ao mesmo tempo destruir o serviço secreto. Bond é o filho favorito que perdoa “M” por quase tê-lo matado e a defende da vingança do outro. No fundo uma reedição da parábola do filho preferido e do filho réprobo, antiga como o mundo.

Espero não estar estragando o filme para quem ainda não viu, mas Judi Dench deve ter dado um ultimato aos produtores: só faria mais este no papel de “M”, mas sairia de cena em grande estilo. Em nenhum outro filme da série, mesmo quando “M” ainda era homem, o personagem teve tanto destaque e foi tão decisivo na trama. A sequência final de Skyfall, mais inverossímil do que qualquer outra num filme cheio de desafios às leis da probabilidade e da gravidade, é, no entanto, um desenlace perfeito para o drama edipiano. Bardem e Dench abraçados, têmpora contra têmpora, ele propondo que os dois se matem com a mesma bala, é uma cena sem precedentes na história da série – mesmo levando-se em conta que desde que Daniel Craig assumiu o papel principal as histórias têm ficado mais densas. Sam Mendes não deve ter hesitado em dirigir Skyfall depois de ler o roteiro, o filme não fará nenhum mal ao seu currículo.

No fim de Skyfall um homem volta a dirigir o serviço secreto inglês, inclusive com uma secretária chamada Moneypenny, como no começo da série. É uma espécie de restauração. A era da Judi Dench como “M” foi divertida, mas quem sabe para que atoleiros psicológicos nos levariam as implicações da relação de Bond com sua chefe, agora que se sabe que “M” era de “mãe”?

O nome de Deus - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 18/11


SÃO PAULO - Num ponto eu e a CNBB estamos de acordo: há coisas mais essenciais com as quais se preocupar do que o dito "Deus seja louvado" nas cédulas de real. Ainda assim, vejo com simpatia o pedido do Ministério Público para que a expressão seja retirada das notas.

Sou ateu, mas convivo bem com diferenças. Se a religião torna um sujeito feliz, minha recomendação para ele é que se entregue de corpo e alma. O mesmo vale para quem curte esportes, meditação e literatura. Cada qual deve procurar aquilo que o satisfaz, seja no plano físico ou espiritual. Desde que a busca não cause mal a terceiros, tudo é permitido.

Isso dito, esclareço que não acompanho inteiramente a tese do procurador Jefferson Aparecido Dias de que o "Deus seja louvado" constrange os que cultuam outras divindades ou não creem. Em teoria, isso pode ocorrer, mas, convenhamos, não é um aborrecimento tão grave que coloque em risco a liberdade religiosa ou estorve a vida em sociedade.

Vou além. Embora o laicismo preconize uma separação radical entre Estado e Igreja, na prática, é impossível desligar inteiramente o poder público de elementos religiosos. Não me incomoda, por exemplo, que o governo paulista mantenha o Museu de Arte Sacra ou que financie uma orquestra que executa peças religiosas.

Penso que o "Deus seja louvado" deveria ser retirado por uma razão mais prosaica: cédulas, bem como as paredes de tribunais, não são um lugar adequado para manifestar a adesão a crenças religiosas. Ainda que a maioria da população professe alguma forma de cristianismo, não marcamos o nome de Deus em todos os bens públicos, como se vê pelas placas de trânsito, viaturas policiais etc. E as notas estão mais próximas dessa categoria do que dos museus.

O que me surpreende nessa história é o fato de religiosos não serem os primeiros a protestar pela inclusão do nome de Deus em algo tão profano e mal-afamado como o dinheiro.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“O ministro Joaquim agiu como legista, ao reconstituir os fatos”
Ministro aposentado Carlos Ayres Britto sobre o relator do processo do mensalão

REBELDES DO PMDB QUEREM PREPOSTO CONTRA RENAN

Os chamados dissidentes do PMDB ameaçaram lançar candidato à presidência do Senado, mas nenhum deles topa enfrentar a parada dura chamada Renan Calheiros (AL), o favorito. Receosos de criar indisposição com o provável sucessor de José Sarney, os “rebeldes” estimulam candidatos de outros partidos, como Randolfe Rodrigues (PSOL), que desafiou Sarney na última eleição ao comando da Casa.

SEM INTERESSE

O senador Pedro Taques (PDT-MT) também foi sondado para disputar contra Renan Calheiros, mas garante que não tem o menor interesse.

PULARAM FORA

O grupo chegou a cogitar os senadores do PMDB Jarbas Vasconcelos (PE) e Luiz Henrique (SC) para a disputa. Os dois desconversaram.

VOO SOLO

Para os dissidentes, só quem atua individualmente, como Pedro Simon (RS), aceitaria a empreitada. Mas com chances mínimas no PMDB.

BARGANHA POLÍTICA

O partido de maior bancada no Senado – no caso, o PMDB – elege o candidato a presidente que, pela tradição, é referendado no plenário.

BRITTO PODE USAR ESTRUTURA DO STF POR 90 DIAS

Desde sua aposentadoria, ontem, o ministro Carlos Ayres Britto pode usar seu gabinete no STF pelo prazo improrrogável de 90 dias, assim como funcionários e carro oficial (carro reserva) para deslocamentos. Ao final, funcionários serão redistribuídos, o carro retirado, assim como móveis e computadores. Britto terá direito também a cafezinho, mas, segundo lenda no funcionalismo público, será certamente servido frio.

ACORDO PAULISTA

O ministro Brizola Neto declarou apoio a Zé Silva (MG) para líder do PDT mas, na verdade, estaria bancando o deputado João Dado (SP).

PRIMEIRO O PRESIDENTE

O candidato a líder tucano, Domingos Sávio (MG), quer saber quem assumirá a presidência do PSDB: “Tudo depende dessa decisão”.

PRIMEIRO O LÍDER

Candidatos a líder do PMDB querem que o atual líder Henrique Alves (RN) promova sua sucessão antes de se eleger presidente da Câmara.

SÓ NO SAPATINHO

Condenados no mensalão temem passar o Natal na cadeia, se o Supremo acatar pedido da Procuradoria-Geral da República. Pior: o Papai Noel gordinho de vermelho avisou que, agora sem barba, não vai aparecer.

DEZ, NOVE, OITO...

Se o mundo pode acabar em 21 de dezembro, segundo os maias, a contagem regressiva começou com mísseis dos terroristas do Hamas atingindo pela primeira vez na História a cidade santa de Jerusalém.

FILME VELHO

O Granma, jornal oficial, apontou “manipulação midiática” de parte da imprensa internacional para “desacreditar o papel de Cuba na negociação de paz com as Farc”. Só faltou a “imprensa conservadora”.

MEU BEM, MEU MAL

O presidente do PT, Rui Falcão, bate e apanha, “incorporando” Lula, para chutar em canelas ilustres, inclusive no Judiciário, para depois ser “desautorizado” pelo ex-presidente. Tudo combinado.

GESTÃO PÚBLICA

Presidente da Frente pela Gestão Pública, Luiz Pitiman (PMDB-DF) organiza para os dias 12 e 13 de dezembro o Congresso Brasileiro de Gestão Pública Municipal. Ele espera reunir mais de dois mil prefeitos.

MINAS X SP

Apesar de ser considerado “aecista”, o deputado Carlos Sampaio (SP) conseguiu apoio da bancada paulista para ser o próximo líder do PSDB na Câmara. Estão no páreo Domingos Sávio (MG) e Otávio Leite (RJ).

HOMENAGEM

Advogado de Roberto Jefferson, Luiz Barbosa acredita que os ministros correram para definir a dosimetria dos figurões do mensalão para que o presidente Carlos Ayres Britto, em vias de se aposentar, participasse.

NEM PENSAR

O ex-governador Joaquim Roriz rejeita qualquer possibilidade de levar o seu grupo político a integrar a base de apoio ao governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, cuja gestão considera “falida”, por ele ser do Partido dos Trabalhadores.

PENSANDO BEM...

...com quase duas mil pessoas “lavando” R$ 37 milhões, segundo o Ministério da Fazenda, o PCC já pode virar partido político.

PODER SEM PUDOR

CAUSAS DIFÍCEIS

O general Artur Costa e Silva, o ditador do AI-5, recebeu o vice-líder da Arena no Senado, Eurico Resende (ES), e não economizou elogios:
- Gosto muito da forma como o senhor defende o meu governo...
- Presidente, sou advogado criminalista há trinta anos! - disse Resende.
Ao perceber o constrangimento do ditador com sua resposta, completou:
- É que estou acostumado a defender causas difíceis...