domingo, junho 24, 2012

O mensalão no banco dos réus - JANIO DE FREITAS


FOLHA DE SP - 24/06

O que acontecer, não nos equivoquemos, será de importância extrema para o futuro da democracia

O ministro Ricardo Lewandowski confirma para esta semana a entrega do seu relatório-revisor do processo do mensalão. Este prazo que ele se deu custa-lhe trabalho dia e noite, e em todas as situações possíveis. Por seu desempenho no Supremo, Lewandowski é um nome que significa serenidade, equilíbrio e segurança. Três fatores essenciais nesse julgamento tão especial. O que nele aconteça, não nos equivoquemos, será de importância extrema para o futuro da democracia no Brasil.

Enquanto o caso do mensalão fervilhou, suas muitas verdades conviveram com muitas deformações, decorrentes do ambiente emocional que explodiu nos meios de comunicação. E que logo se estendeu à CPI, tanto pelo estímulo à oposição esperançosa de ferir Lula de morte, como pela desfaçatez com que muitos atingidos, e mais ainda seus aliados, repeliam as evidências e os indícios. Tudo isso, além da gravidade descomunal do caso em si.

Muitas CPIs têm sido perturbadas pela influência do fator emocional. É assim desde ao menos a esquecida "república do Galeão", em que oficiais da FAB puseram-se nos papéis de CPI, polícia e Judiciário a propósito, no clímax das emoções, do atentado ao seu ídolo Carlos Lacerda por guarda-costas de Getúlio, à revelia deste. A democracia não se reabilitou, apenas resistiu até 1964.

Mais para cá, como exemplo fácil da emocionalidade perniciosa, os jardins da "casa da Dinda" foram tratados pela imprensa como se fossem os próprios Jardins Suspensos da Babilônia, o que os elevou a mais uma prova exaltada do deslimite de Collor. Só muito depois se soube, com desinteresse, que era apenas um jardim como milhares de outros com o gosto duvidoso dos novos-ricos. Mas as emoções já estavam então pacificadas e desmemoriadas.

A fase incandescente do mensalão cumpriu em alto estilo a regra das emoções influentes. Não pelos deputados em lágrimas, nos discursos de desespero e apelo como o de Sandro Mabel. Ou na pressão sobre interrogados, como o constrangimento da senhora de ar respeitável, apenas secretária na agência de Marcos Valério, a quem perguntaram de sua relação "com uma cafetina de Brasília".

Essas eram as emoções pessoais. As outras, influentes, junto às verdades, imputaram culpas improváveis, transferiram responsabilidades, estenderam participações sem mais base e motivo do que a própria emocionalidade. Embora os fatos reais e frios não precisassem desse complemento perigoso, porque deformador.

São 39 réus. Considerados em cerca de 50 mil páginas desse bem chamado processo histórico. O anterior e o atual presidentes do Supremo, ministros Cezar Peluso e Ayres Britto, já disseram inúmeras vezes que o tribunal fará um julgamento técnico. É preciso que seja assim, mesmo. Já a partir da acusação a ser feita pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel.

Esse, contrariamente ao considerado, é um processo essencialmente político. Opõe o conservadorismo que se valeu e pode voltar a valer-se do grave erro de parte das forças reformistas e, no outro lado, o reformismo, mesmo o reformismo de baixo teor que se revelou.

As pressões estão ativadas. Cada ministro, no Supremo, tem que julgar o mensalão com a mais absoluta isenção política. Do contrário, não estaria julgando, mas fazendo política. E sabemos o que os tribunais estão fazendo de fato, quando fazem política.

Clima não justifica "crescimento zero" - EDITORIAL O GLOBO


O GLOBO - 24/06
Odesfecho da Rio+20 estava predefinido. O fato de a conferência das Nações Unidas ocorrer em meio a temores realistas de um ciclo de agravamento da crise mundial, a partir da deterioração do sistema financeiro europeu, cortou qualquer possibilidade de os países ricos, e até remediados, se comprometerem com desembolsos para financiar a conversão de economias mais frágeis a modelos "sustentáveis". Em decorrência deste obstáculo, surgiu outro: impossibilidade de se estabelecer metas. Se não há dinheiro para projetos de sustentabilidade, por suposto é impossível definir alvos a atingir. Daí, esta sensação de tempo perdido, de frustração e fracasso.
A conclusão é muito ácida - sem trocadilho. É preciso relembrar que a Rio+20 não era um encontro sobre clima, mas acerca de algo muito maior, incluindo as variações atmosféricas. A ONU, com o Brasil à frente, por ser anfitrião, lançou-se a uma tarefa impossível de cumprir no período de debates em Nova York e nos poucos dias de conversações e discursos - estes, sem importância - no Riocentro: encontrar consensos para patrocinar uma gigantesca guinada planetária em busca de modelos de produção mais limpos - ou menos sujos -, que preservem recursos naturais finitos.

A definição de "economia sustentável" pode preencher o espaço de um pequeno verbete de enciclopédia ou cartapácios e gigabites em memórias de computador. Se é possível resumir, a Rio+20 teria de lançar as bases de uma reciclagem no sistema produtivo do tamanho da revolução industrial ocorrida na Inglaterra no século XVIII. Impossível, por óbvio. O que não significa deixar de ser necessário repensar o nosso sistema produtivo e de geração de energia.

Mas alguns passos foram dados. Admitir que há o problema - esgotamento de matérias-primas, poluição, matriz energética problemática, por se basear muito em combustíveis fósseis etc - é um início. Outro aspecto: não se pode retardar ou renunciar ao combate à pobreza e à miséria em nome da "sustentabilidade" e do combate ao "aquecimento global".

É tranquilizador que o documento final da Rio+20 inclua a eliminação da miséria e da pobreza no processo de busca de um novo padrão de desenvolvimento. Não se trata de uma questão trivial, diante de apreensões em vários meios com a incorporação de centenas de milhões de eurasianos aos mercados de trabalho e consumo. A pergunta é instigante: o que acontecerá com o planeta se chineses, indianos e vizinhos buscarem um padrão de vida americano?

Evidente que não haverá recursos naturais suficientes para sustentar algumas centenas de milhões a mais na população mundial com aquele mesmo perfil de consumo. A constatação tem ressuscitado preocupações "malthusianas" , inspiradas no economista inglês Thomas Robert Malthus, dos séculos XVIII e XIX. Mas as previsões de graves crises de abastecimento devido à expansão demográfica não se confirmaram, pois o avanço da ciência e tecnologia superou gargalos na produção, seja na agricultura, na indústria ou em serviços.

Imaginar que, em algum momento, será preciso conter o crescimento econômico - com a perpetuação da pobreza e da miséria -, em nome da preservação do planeta, é incorrer no mesmo erro de Malthus.

É o fim da simbiose? - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 24/06


Nos últimos três meses aumentaram as indicações de forte desaceleração da atividade econômica da China, hoje a segunda maior economia do mundo. Há boas razões para entender que esse movimento não reflete apenas o ajuste da economia chinesa à crise global. Pode ser mais do que isso; pode ser o início do rompimento da relação simbiótica mantida entre China e Estados Unidos nos últimos 20 anos.

A simbiose consistiu numa troca recíproca de papéis que configurou uma dependência recíproca. Os Estados Unidos passaram a ser grande mercado consumidor de produtos industrializados chineses e a China, por sua vez, amontoou grandes sobras em receitas (superávits comerciais) que foram imediatamente transformadas em reservas externas e, em seguida, trocadas por títulos do Tesouro dos Estados Unidos (veja o Confira). Ou seja, nessa simbiose, a China atuou como financiadora dos rombos orçamentários (e do consumo) dos Estados Unidos.

Esta não foi apenas uma valsa dançada por um único casal. Outros protagonistas atuaram direta ou indiretamente neste salão. Outros emergentes, como Brasil, Rússia e Índia, também formaram grande volume de reservas depois aplicadas em títulos dos Estados Unidos.

Uma das consequências desse mega- arranjo foi o forte achatamento dos juros internacionais de longo prazo, pela simples razão pela qual se formou vasto mercado tomador de títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Juros rastejantes, por sua vez, concorreram decisivamente para a grande expansão do crédito, para a formação das bolhas imobiliárias e para o afundamento na crise.

Agora, a China não pode mais tirar proveito, como antes, do enorme dinamismo do mercado dos Estados Unidos e dos demais países ricos, que perderam capacidade de importar e de se endividar. Em contrapartida, estes países também não podem mais contar com a mesma capacidade que tinham os chineses (e demais emergentes) de seguir amontoando reservas.

Como não podem exportar como antes, os chineses já não conseguem crescer aos ritmos alucinantes de há alguns anos (veja o gráfico). Sua estratégia de política econômica não pode mais concentrar-se no crescimento econômico baseado na expansão do mercado externo (export led growth), mas terá de induzir o crescimento do consumo no mercado interno (domestic led growth).

O problema dessa mudança de modelo é que a China consome pouco. Não mais do que 49% da renda. (Apenas para comparar, o Brasil consome cerca de 73% e os Estados Unidos, quase 100%.) Achatar a poupança na China (de 51%) e transformá-la em consumo interno seria tarefa hercúlea que levaria anos, talvez dezenas.

Até agora, os analistas imaginavam que, uma vez superada a crise, tudo voltaria a ser como antes. Mas as evidências são de que esse retorno à valsa antiga já não seria mais possível. Se não por outras razões, pelo menos por duas: porque a economia dos Estados Unidos já esbarrou no teto de sua capacidade de endividamento (emissão de títulos do Tesouro); e porque parece muito próximo o limite de formação de reservas pela China.

Atenção para mais crise - ALBERTO TAMER


O Estado de S.Paulo - 24/06


A reunião dos quatro principais países da zona do euro - Alemanha, França, Itália e Espanha -, que buscavam uma saída para a crise financeira, deu praticamente em nada. Angela Merkel vetou novamente a criação dos eurobônus, uma solução indicada por todos os países do bloco e agora pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Vetou também empréstimos diretos aos bancos espanhóis ou italianos, apesar do agravamento da crise. Sou chanceler da Alemanha e não sou responsável pela aplicação desses recursos, estimados em 130 bilhões, por enquanto. Empréstimo só aos governos para que os repasse aos bancos.

Até pode fazer sentido, mas isso aumenta a enorme dívida soberana desses governos e, simplesmente, afasta ainda mais os investidores. Eles não só cobram taxas insustentáveis para rolar a dívida, mas ainda estão saindo dos bancos espanhóis, gregos e italianos.

Assim, ficou tudo como estava em Roma até a próxima reunião, agora de todos os governos da zona do euro, no próximo dia 28. Também não se espera nada desse encontro porque a chanceler alemã foi categórica: não vai mudar e muito menos em uma semana. Ela exige que ou se pode intervir na administração financeira dos países socorridos, ou não tem dinheiro.

FMI endurece. A diretora-gerente do Fundo, Christine Lagarde, endureceu sua posição, criticou a intransigência alemã e exigiu mais ação dos países da zona do euro. O FMI defende que o Banco Central Europeu (BCE) compre títulos da dívida soberana, reduza os juros e acima de tudo, injete liquidez no mercado. Ou seja, emita euros. Nada de se concentrar apenas em austeridade fiscal que sozinha não só não resolve, mas agrava a situação. Como nada foi decidido, resta apenas o BCE seguir a política do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) que já injetou US$ 2,6 trilhões no mercado americano, de acordo com dados divulgados na sexta-feira.

O BCE ainda hesita, afirma que isso tiraria o "sentido retardado de urgência(?!)" para uma ação dos governos.

Alguma ajuda. Mesmo assim, como tudo se agrava, o BCE anunciou sexta-feira mais facilidades para que os bancos espanhóis e italianos recebam novos empréstimos do banco, além do 1 trilhão da linha que ofereceu aos países endividados.

Ajuda inconsistente. Talvez para salvar a face, os quatro países aprovaram proposta do presidente francês, François Hollande, para abrir um linha de credito de 130 bilhões ( US$ 156 bilhões) para obras de infraestrutura. Mas é pouco, apenas 1% do Produto Interno Bruto (PIB) da zona do euro, e não é novidade porque proposta idêntica já havia sido aprovada solenemente na última reunião, há alguns meses. Além disso, metade dos recursos viria do Banco Europeu de Investimento que simplesmente não tem recursos.

Brasil, mais urgência. Após a reunião improdutiva do G-20, a presidente Dilma Rousseff disse que, diante da posição da zona do euro, como um bloco, não havia mais nada a fazer para mudar esse cenário externo. Deu a entender que ela vai ter de aprender. Cabe ao Brasil agir com mais intensidade para impedir que a forte desaceleração e as tensões financeiras, que só aumentam, o afete ainda mais.

E pode? Sim. Tem condições para isso e o recuo do PIB no primeiro semestre deve ter ativado o sentido de urgência do governo. Os dados do Banco Central divulgados na sexta-feira mostram um quadro favorável.

As contas externas vão bem, com o balanço de pagamentos registrando superávit de US$ 1,1 bilhão, em maio; conta financeira com superávit de US$ 3,99 bilhões; investimentos líquidos estrangeiros, US$ 3,7 bilhões; déficit em transações correntes nos cinco primeiros meses do ano está em apenas 2,1%do PIB. É de US$ 21 bilhões, menor que os US$ 22,6 bilhões em igual período do ano passado. Mais importante, o ingresso líquido de investimentos diretos ficou em US$ 63 bilhões nos últimos 12 meses.

As reservas tiveram ligeiro recuo em maio, US$ 1,9 bilhão, mas aumentaram em relação ao ano anterior. Estão em US$ 372,4 bilhões.

Há ainda os recursos do compulsório e do Tesouro Nacional, que elevam as disponibilidades líquidas do governo para cerca de R$ 800 bilhões. Esse valor passa de R$ 1 trilhão se contar parte das reservas cambiais que podem ser convertidas em reais, como se fez na crise de 2008.

Inflação encolhe. O indicador mais significativo é o recuo da inflação que aponta para 4,5% este ano. Isso abre espaço para mais redução dos juros, mais investimentos de curto e médio prazos, crédito e consumo.

Há espaço também para novas emissões do Tesouro para financiar o crescimento, porque a dívida interna, sob controle, está em torno de 43%. Nos Estados Unidos e na zona do euro, passam de 100%.

Eles estão sufocados, sem muita saída. O Brasil, não. O governo tem os recursos, instrumentos fiscais e monetários para agir e evitar que o PIB fique em apenas 2% este ano.

Faltam ainda seis meses para se afastar da recessão que ameaça de novo a economia mundial.

O intangível - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 24/06
Há valores que não podem ser medidos. Nesta categoria está o maior ganho da Rio+20. Famílias passaram horas nas filas diárias para a exposição Humanidades, no Forte de Copacabana. Quinhentos cientistas de vários países passaram dias trocando informações na PUC. Eventos ocuparam a cidade. Pessoas decidiram mudar de atitude. Empresários compararam práticas, e prefeitos se comprometeram a mudar a realidade local.
Isso não mudará o mundo, nem deterá a mudança climática, mas tornará cada vez mais penoso para os governos adiar a inadiável adoção de políticas públicas e decisões políticas que reduzam o risco que corremos.

A Rio+20 não tinha a ambição de uma COP. Não tinha como objetivo um acordo global de redução das emissões de gases de efeito estufa. Era mais modesta e focada. Tentaria definir economia verde, estabelecer objetivos de desenvolvimento sustentável e decidir como transformar um dos órgãos da ONU na autoridade ambiental.

Desentendeu-se sobre o que é economia verde, registrou que os países terão objetivos, mas não definiu metas nem prazos, e apenas fortaleceu o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Entre os que disseram que o documento final brasileiro era pouco ambicioso estavam o presidente da França, da União Europeia e até o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, antes de ter sofrido aquela brusca mudança de opinião.

A Rio+20 para mim começou bem antes, quando viajei para preparar matérias especiais. Na Amazônia, fui a Alta Floresta, que está tentando encontrar o equilíbrio entre produção e proteção. Não é a única cidade amazônica que está fazendo isso. Contei a história no domingo passado.

Reencontrei Lélia e Sebastião Salgado com a paixão de sempre pelo trabalho interminável de refazer a Mata Atlântica na parte que lhes coube. A fazenda Bulcão, em Aymorés, estava totalmente degradada, com erosões e sem água, quando eles começaram o trabalho de replantar tudo. Lélia sugeriu plantar uma floresta.

Foi o princípio. Hoje, eles já contam 1,7 milhão de mudas nativas da Mata Atlântica plantadas, produziram mais de cinco milhões de mudas e acalantam o sonho de reflorestar com espécies nativas o enorme vale do Rio Doce.

- É uma área maior do que Portugal, e onde os rios ficarão intermitentes até 2020. Ou seja, os rios que alimentam o Rio Doce serão secos numa parte do ano - disse Sebastião Salgado.

O caso de Sebastião e Lélia, que entrevistei para a Globonews, não é o único. Outros brasileiros devolvem à terra o que foi desmatado no mais ameaçado dos biomas brasileiros. Desmatada de forma inclemente desde o descobrimento, a mata atlântica perdeu nos últimos 26 anos 1.735.479 hectares de cobertura florestal. Os 700 hectares da Fazenda Bulcão foram recobertos nos últimos 13 anos, numa trabalheira sem fim, e hoje Sebastião diz que tem lá uma floresta criança.

A SOS Mata Atlântica calcula que 80% dos remanescentes da Mata Atlântica estão em propriedades particulares. Só de RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) existem 734, que juntas protegem mais de 136 mil hectares do bioma.

As histórias particulares e os dados agregados não deixam dúvida: a convicção de cada pessoa pode levá-la à ação, que, na soma, aumenta a chance da exuberante natureza do Brasil.

Entrevistei Russell Mittermeyer, presidente mundial da Conservação Internacional. O programa reprisará na Globonews hoje às 10h30m. Depois, estará no meu blog. Ouvi-lo é um alívio para quem anda aflito com a enorme perda da Biodiversidade brasileira.

Ele é uma lenda na luta pela preservação da Biodiversidade do planeta. Descobriu, ou viu pela primeira vez na natureza, 12 novas espécies, entre elas seis macacos amazônicos. Russell Mittermeyer vem ao Brasil há 41 anos, todos os anos. Até agora, já fez 120 viagens ao país. É com base nessa intimidade que ele se diz, apesar de tudo, um otimista com o Brasil:

- A Mata Atlântica faz parte dos 35 hotspots do planeta, os lugares prioritários para a conservação, por ter muita diversidade. Tem apenas 7% a 8% da mata original, mas há todo um grupo enorme de conservacionistas protegendo, há RPPNs e tem as políticas do governo.

Para se ter uma ideia do valor dos hotspots : esses pontos originalmente cobriam 16% de toda a área do planeta, mas nos últimos 100 anos perderam 90% da sua cobertura vegetal:

- Nestes 2,3% de área mundial, há 50% das espécies vegetais, 42% dos vertebrados, e de 80% a 92% das Espécies Ameaçadas. Criei o conceito de país megadiverso. Existem 18 países que concentram dois terços da Biodiversidade do planeta. Nesse grupo, Brasil e Indonésia são os que têm mais Biodiversidade. O Brasil é o país que nos últimos 35 anos mais criou áreas protegidas, desde o trabalho pioneiro de Paulo Nogueira Neto.

Mittermeyer é primatólogo e o que o atraiu ao Brasil foram os macacos. O Brasil é o país que tem mais primatas: 135. Entre os que estudou está o Muriqui, o maior macaco das Américas que vive nos raros fragmentos de Mata Atlântica, protegida por particulares.

Fatos assim confirmam minha impressão de que a ação individual tem impacto. O intangível legado da Rio+20 é este. Seus milhares de eventos paralelos podem ter tocado pessoas. Quem sabe quantas crianças verão o mundo com outros olhos? E isso pode ser decisivo.

Cidades saudáveis - JOSUÉ GOMES DA SILVA


FOLHA DE SP - 24/06

Em meio a algum desapontamento que marcou a Rio+20 e à incerteza quanto à capacidade das nações de aportarem recursos na sustentabilidade enquanto durar a crise econômica, destacou-se algo muito positivo: o compromisso do C40 (Climate Leadership Group), constituído pelos prefeitos das maiores cidades do mundo, de reduzir as emissões de carbono em 1 bilhão de toneladas até 2030.

Isso é importante, pois parcela decisiva do jogo da sustentabilidade acontecerá nas áreas urbanas, que abrigarão no Brasil, segundo estudo da ONU, 93,6% da população. Serão quase 240 milhões de brasileiros morando nas cidades.

A expansão demográfica segue, a despeito da redução do crescimento vegetativo em vários países. Quando se realizou a Rio 92, há 20 anos, a Terra tinha 5,3 bilhões de habitantes; em outubro de 2011, 7 bilhões; em 2050, estima-se que seremos 9 bilhões.

Para viabilizar a meta do C40, o prioritário, entre vários aspectos, é melhorar a infraestrutura de transportes públicos. À medida que mais pessoas deixarem o carro em casa, utilizando trens, metrô, ônibus e outros transportes de massa, serão menos motores poluindo o ambiente. Também é essencial que esses veículos coletivos utilizem combustíveis mais limpos e de fonte renovável, como energia elétrica, biodiesel e etanol.

Nesses aspectos, o Brasil tem situação privilegiada, pois a hidroeletricidade predomina em sua matriz energética e nosso país dispõe da maior área agricultável para a produção de bioenergia. Ou seja, podemos processar muito biocombustível sem afetar a segurança alimentar. Somos uma das poucas nações com capacidade de utilizar a terra para produzir, simultaneamente, comida e energia renovável em abundância.

Além disso, temos a oportunidade e o compromisso de realizar investimentos em transportes públicos para a realização da Copa do Mundo, em 2014, e da Olimpíada, em 2016.

É fundamental que o dinheiro a ser aplicado nas obras preparatórias para os maiores eventos esportivos mundiais nos deixe um legado substantivo em termos de infraestrutura: redes amplas e pouco poluentes de ônibus movidos preferencialmente a biodiesel ou a eletricidade, veículos rápidos sobre trilhos, corredores para o transporte público eficientes, ciclovias seguras e, onde for possível, mais linhas de metrô.

Porém é preocupante, também sob o ponto de vista da sustentabilidade, observar o atraso das obras de infraestrutura de transporte urbano relativas à Copa. Vamos recuperar o tempo perdido. Com certeza, se fizermos direito a lição de casa, daremos imensa contribuição à qualidade da vida urbana e à aceleração do crescimento do Brasil!

Está o planeta aquecendo? - FERREIRA GULLAR


FOLHA DE SP - 24/06

O crescimento sustentável tornou-se fundamental; porém, muitas das teses são destituídas de fundamentos

Escrevo esta crônica bem antes que a conferência Rio+20 tenha chegado a suas conclusões. Por isso mesmo, me limitarei a algumas considerações acerca de problemas que foram levantados e discutidos neste dias.

Confesso que há 40 anos ou mais, quando tomei conhecimentos da questão ecológica, achei que havia muito exagero em tudo aquilo, ainda que me faltassem maiores informações sobre o assunto.

Mas eu não estava de todo errado. Tanto que, com o passar dos anos, as teses ecológicas tornaram-se menos radicais, e eu, de minha parte, admiti que a defesa do meio ambiente é uma necessidade vital, para a qual todos devemos contribuir, de uma maneira ou de outra.

Quanto a isso, minha adesão é total. Como gosto de bichos, de gato a passarinho, onça, anta, macaco, jacaré, não poderia assistir indiferente à destruição das florestas, nem ao corte de árvores centenárias como as que têm sido postas abaixo por traficantes de madeira.

Tampouco podemos ser tolerantes com a queima de combustíveis altamente poluidores, que envenenam a atmosfera das cidades, especialmente de metrópoles como São Paulo e Rio. Não resta dúvida de que essa quantidade excessiva de carbono, lançada por milhares de veículos, altera as condições atmosféricas locais.

O caminho certo é, evidentemente, reduzir ao máximo a emissão desses gases poluentes, substituindo os motores movidos a petróleo por outros, movidos a eletricidade. Não acredito que alguém, em sã consciência, se oponha a isso. A dificuldade, portanto, não está aí e, sim, na concretização de tais objetivos.

São problemas complexos, que envolvem dificuldades efetivas e interesses de tudo quanto é ordem, a começar pelos econômicos, que, por sua vez, têm implicações sociais nacionais e internacionais.

Para mover os trens e os metrôs, é necessário dispor de energia elétrica, que por sua vez implica na queima de combustíveis poluentes ou na construção de usinas hidrelétricas, que levam à inundação de vastas áreas de florestas.

Outras energias não poluentes, como a eólica e a solar, não terão tão cedo condições de suprir essas necessidades. A solução não é desistir delas, mas tampouco será a pregação alarmista, que ignora as dificuldades reais.

O crescimento sustentável tornou-se um tema fundamental da atualidade, como o demonstra, por exemplo, a realização da Rio+20, com a participação de representantes de mais de cem países. Não obstante, muitas das teses defendidas pelos ambientalistas são classificadas por especialistas no assunto como destituídas de fundamentos científicos.

Agora mesmo, 18 cientistas brasileiros, entre os quais estão físicos, geólogos e climatologistas, dirigiram à presidente Dilma uma carta afirmando que "as mudanças climáticas têm sido pautadas por motivações ideológicas, políticas, acadêmicas e econômicas restritas".

Tal atitude contraria "os princípios basilares da prática científica como também os interesses maiores das sociedades de todo o mundo, inclusive a brasileira".

Diz ainda o documento que não há evidências físicas da influência humana no clima do planeta, sendo portanto destituída de fundamento a afirmação de que a atividade industrial tem provocado o seu aquecimento.

Segundo a carta, "o relatório de 2007 do Painel Intergovernamental de mudanças climáticas registra que, no período de 1850-2000, as temperaturas aumentaram 0,74º C, e que, entre 1870 e 2000, os níveis do mar subiram 0,2 m".

Acrescenta que, nos últimos 12 mil anos, houve diversos períodos com temperaturas mais altas do que as de hoje e que o nível do mar chegou a subir três metros acima do atual.

Não se verifica, afirma o documento, qualquer aceleração anormal desses indicadores nos últimos 20 mil anos, uma vez que as variações observadas no período da industrialização se enquadram na faixa de oscilações naturais do clima, não podendo ser atribuídas ao uso de combustíveis fósseis ou a qualquer outro tipo de atividade vinculada ao desenvolvimento humano.

Acrescenta que, embora milhares de estudos científicos sobre o assunto tenham sido feitos e publicados, nenhuma repercussão tiveram na mídia.

Essa carta, por sua vez, tampouco teve a repercussão esperada.

Hoje, parece coisa pouca - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 24/06


Desde que se convenceu de que paira acima do bem e do mal e por isso tudo pode, Luiz Inácio Lula da Silva impôs o vale-tudo como "desregra" única para o PT fazer política. No afã de prestar bons serviços ao chefão, frequentemente a companheirada acaba exagerando e atraindo a incômoda atenção da polícia. Nesses casos, o Lula presidente optou sempre por olhar para o outro lado, passar carinhosamente a mão na cabeça dos suspeitos ou simplesmente fazer blague. Foi assim que inventou a expressão "um bando de aloprados", para explicar, sobranceiro, a desastrada tentativa de uma quadrilha de petistas que tentou, na campanha eleitoral de 2006, comprar um dossiê falso que pretendia ligar o ex-ministro da Saúde José Serra, então candidato tucano ao governo do Estado de São Paulo, ao "escândalo dos sanguessugas", que estourara poucos meses antes, envolvendo parlamentares num esquema de desvio de dinheiro público destinado à compra de ambulâncias.

Na madrugada de 15 de setembro de 2006, a Polícia Federal (PF) prendeu num hotel próximo ao Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, dois filiados do PT que tinham em seu poder cerca de R$ 1,7 milhão com o qual pretendiam comprar o tal dossiê, que lhes fora oferecido pelos donos da empresa Planam, Darci e Luiz Antonio Vedoin, pai e filho, apontados como responsáveis pelo superfaturamento das ambulâncias do caso dos sanguessugas. Os dois petistas eram Valdebran Silva, ex-tesoureiro do PT em Mato Grosso, e Gedimar Passos, que trabalhava no comitê da campanha da reeleição de Lula. Ambos admitiram que o dinheiro se destinava à compra do falso dossiê contra Serra.

As investigações feitas pela PF acabaram envolvendo no caso dirigentes do PT, como o então presidente nacional Ricardo Berzoini, e duas pessoas muito próximas a Lula: Jorge Lorenzetti, o churrasqueiro do presidente e também membro de seu comitê de reeleição, apontado como mentor da operação, e Freud Godoy, assessor especial de Lula, indicado por Gedimar Passos como a pessoa que o teria contratado para negociar a compra do dossiê.

Imagens gravadas pelo esquema de segurança do hotel mostravam que Hamilton Lacerda, membro do comitê de campanha de Aloizio Mercadante - o adversário petista de Serra na disputa pelo governo paulista -, ali chegara portando duas malas que continham o dinheiro destinado à transação, entregue a Gedimar.

Menos de dois meses depois da prisão de Valdebran e Gedimar, todos os envolvidos estavam afastados de seus cargos e classificados pelo presidente Lula como "aloprados".

Demorou mais, como de hábito, mas quase seis anos depois, na semana passada, a denúncia contra nove dos indiciados foi preliminarmente aceita pelo juiz Paulo Cézar Alves Sodré, da 7.ª Vara Criminal de Mato Grosso, que fixou prazo de 10 dias para a apresentação das alegações da defesa, com base nas quais decidirá se abre processo criminal. A denúncia, assinada por três procuradores de Justiça, afirma: "O exame dos depoimentos dos envolvidos no episódio e demais provas evidenciam que os denunciados se associaram de forma estável e permanente e elaboraram uma série de atos preparatórios para a compra do dossiê, os quais configuram crimes. Isso permitiria a membros do Partido dos Trabalhadores a exploração político-eleitoral do dossiê nas eleições de 2006, o qual, supostamente, exporia o envolvimento de políticos do PSDB no esquema das ambulâncias".

Se a denúncia for acatada, seis dos denunciados, entre eles Valdebran, Gedimar, o churrasqueiro Lorenzetti e Hamilton, assessor de Mercadante, responderão por crimes de formação de quadrilha, contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro. Os outros denunciados responderão por atribuição de falsa identidade para realização de operação de câmbio.

Em comparação com o processo do mensalão, cujo julgamento finalmente a Nação se prepara para acompanhar, esse lamentável episódio empalidece, parece coisa pouca. É o que basta para dar a medida do mar de lama em que hoje, como nunca antes, a política brasileira se atola.

Em fuga - LEE SIEGEL


O Estado de S.Paulo - 24/06


"Um feroz bestiário que incluía lobos, macacos e 18 tigres de Bengala... tinha escapado das jaulas numa reserva particular de 30 hectares... No fim da quarta-feira, um dia após o início da caçada, as autoridades desta cidade de 25 mil habitantes na região central de Ohio disseram ter morto ou capturado todos os animais, com uma única exceção: um macaco. O símio não fora visto durante todo o dia, e representantes do governo acreditavam que ele poderia ter sido morto por um dos outros animais..." - The New York Times, 19 de outubro de 2011

"Durante uma coletiva de imprensa realizada à tarde, o xerife disse que o perigo tinha passado e que as pessoas poderiam voltar a se locomover livremente, mas que o macaco seria provavelmente abatido, pois acreditava-se que seria portador de herpes." - CBS News, mesma data

Eles nos tratam a vida toda como se não fôssemos nada, nos alimentam com carne velha e bananas podres, deixam turistas desmiolados fazerem "caras de macaco" para nós - se eu realmente tivesse um parente com uma cara daquelas, faria um favor a todos e me mataria - e, então, como insulto final, nos acusam de ter herpes. Tive um grande amor na vida, uma macaquinha dourada chamada Lily e podem acreditar quando digo que ela era uma primata limpíssima.

É isso que eles fazem quando não gostam da gente. Atacam nossa reputação. Na natureza, quando não gostamos de alguém, arrancamos logo as suas tripas. Simples. E, se formos analisar os fatos, é até civilizado. Nada de mentiras. Nada de falatório inócuo. Nada de confusão mental prolongada nem angústia. Zip. Tudo acaba num instante. Já os humanos precisam nos rebaixar antes de nos matar. Mesmo quando as pessoas fazem algo ruim, elas precisam se sentir bem a respeito de si mesmas.

Bom, saibam que não tenho herpes nem fui morto por um de meus colegas. Fizemos um acordo: depois de fugir é cada animal por si. Não é preciso ajudar ninguém, mas não é preciso devorar ninguém, certo? Há latas de lixo de sobra, todas transbordando de alimento. O bastante para a turma toda. Não posso dizer que não tenha ficado um pouco desconfiado quando um dos lobos se ofereceu para me dar uma carona em suas costas, mas respondi, "Não, obrigado", e fim de papo - embora eu tenha me mantido nas copas das árvores durante algum tempo depois desta conversa. O melhor de ser um animal é o fato de reconhecermos um lobo quando vemos um deles.

Escondi-me num beco em Cincinnati, rumei para o Sul, depois para Nova York, e então desci pela Costa Leste. Não dava para ficar muito tempo em Nova York. Os esquilos estavam cobrando 200 nozes por mês por um galho simples no Central Park. Não queriam aceitar nem mesmo os bons e velhos amendoins. Nozes ou nada. Paguei dez castanhas por noite para passar uma semana num simpático arbusto no Bronx, e depois me mandei de lá. Era tudo competitivo demais. Impossível arrumar um lugar no lixão do bairro sem fazer reservas.

No começo, fiquei aterrorizado por ser um fugitivo. Tremia tanto que mal conseguia me locomover. Certa tarde, estava correndo pela calçada de um subúrbio de St. Louis quando me deparei com um adolescente. Imagine a cena: um macaco-aranha de quase um metro de altura usando as roupas que pude encontrar (bermudas, uma imensa camiseta dos Detroit Lions, um boné com a frase "Amando Las Vegas" ocultando o rosto e sapatilhas de balé douradas). Dei de cara com o rapaz e pensei que estava tudo acabado para mim. Mas ele estava tão concentrado no retângulo luminoso que trazia nas mãos a ponto de olhar para mim, dizer "com licença" e continuar caminhando. A partir de então, sempre que via um adolescente americano, eu temia pelo futuro do país, mas não pelo meu destino.

Resolvi o problema do vestuário com relativa rapidez (por mais difícil que tenha sido me separar da camiseta dos Detroit Lions). Encontrei um mercado de pulgas em Jersey City e arrumei um terno bacana de três peças, modelito completo. Listras azuis. Depois disso, a vida de fugitivo se tornou muito diferente do que eu havia imaginado. Certa noite, enquanto me deliciava com uns canapés de abacaxi que repousavam sobre a mesa num quintal dos subúrbios de Nova York, algumas pessoas chegaram subitamente para começar uma festa. Não tive escolha a não ser me passar por um dos convidados. Não demorei para descobrir como deveria me comportar. Quando o tema da conversa era a política, eu rangia os dentes. Quando era a cultura, eu sorria, amistoso. Quando falávamos de outro convidado da festa, eu assentia com a cabeça. Ninguém pareceu reparar que um dos convidados da festa era um macaco até o momento em que alguém me perguntou onde eu morava e, desavisadamente, apontei na direção de uma parte menos rica da cidade. Alguém gritou "É um macaco!", e tive de correr para salvar minha pele.

Vou lhes dizer uma coisa: ser fugitivo nos Estados Unidos é uma verdadeira revelação. Fui convidado a me candidatar tanto pelos republicanos quanto pelos democratas; fui chamado a aparecer num anúncio da Nike ("Nike: a escolha do fugitivo"); e fui transformado brevemente no astro de um reality show produzido na região (Mãos e pés descalços). Atualmente, estou escrevendo um livro de memórias e preparando uma coluna semanal para o Washington Post. Tomo um remédio para a depressão, outro para a ansiedade, um para a histeria e dois para manter a raiva sob controle.

Sinto sua falta, Lily.

Outra carta de Dorinha - LUIS FERNANDO VERISSIMO

O GLOBO - 24/06


Recebo outra carta da ravissante Dora Avante. Segundo Dorinha, só Deus e o Pitanguy sabem a sua idade e ela confia  na discrição dos dois. Com o advento do botox, as reuniões do seu grupo de pressão política e carteado, as Socialaites Socialistas, que prega a implantação no Brasil do socialismo soviético no seu estágio mais avançado, a restauração do tzarismo, têm sido confusas. Ninguém aparece com a mesma cara duas vezes e fica difícil distinguir as companheiras legítimas – Tatiana (“Tati”) Bitati, Susana (“Su”) Adouro, Monica (“Mo”) Cassim, etc – de agentes da Polícia Federal infiltradas no grupo. Sim, as Socialaites Socialistas estão sendo investigadas! Elas... Mas deixemos que a própria Dorinha nos conte. Sua carta veio escrita com tinta púrpura em papel magenta e cheirando a “Ravage Moi”, um perfume proibido em vários países.


“Caríssimo! Chupões. Desconfiei que estavam gravando meus telefonemas porque cada vez que eu fazia ou recebia uma chamada ouvia uma voz dizendo ‘Silêncio no estúdio’. Pensei que estivessem investigando um dos meus ex-maridos, o barra 8. Nunca consegui guardar o nome dos meus maridos e os identificava pelo final das suas contas bancárias. O barra 8 era tão corrupto que recebia cartas de fã do Maluf. Mas não, as investigadas somos nós. Que ultraje! Conseguimos desmascarar três agentes da PF que participavam do nosso chá das terças com crachás falsos porque os bigodes que usavam como disfarce se desmancharam no bafo do chá. Chegamos a tal ponto de dissolução moral neste país que não se pode confiar mais nem em crachá. Você sabe que eu não tenho nada contra a dissolução moral desde que seja feita com bom gosto, mas francamente. Arrancamos confissões das agentes com a ameaça de anodizar os seus soutiens de ferro. Aparentemente, há a suspeita de que as Socialaites Socialistas são financiadas pelo Carlinhos Cachoeira, como todo o mundo. Calúnia! Está certo, uma vez usei o jatinho do Carlinhos para não perder a hora no dentista, mas sentei bem atrás e não aceitei os canapés! Estou disposta a depor na CPI para limpar o nome das Socialaites Socialistas, que vivem honradamente das pensões de ex-maridos e de aplicações em renda fixa. Da tua indignada Dorinha.”

PROGRAMAÇÃO ESPORTIVA NA TV


6h - Estados Unidos x Tailândia, Grand Prix de vôlei, Esporte Interativo e Sportv

8h30 - China x Brasil, Grand Prix de vôlei, Esporte Interativo

9h - GP da Europa, F-1, Globo

11h45 - Etapa de Interlagos, Gran Turismo, RedeTV! e Sportv 2

12h - Joinville x Assoeva, Liga Futsal, Sportv

13h - Cuba x Rússia, Liga Mundial de vôlei, Esporte Interativo

15h - All Boys x Boca Jrs., Campeonato Argentino, Esporte Interativo

15h45 - Inglaterra x Itália, Eurocopa, Sportv e Sportv HD

16h - Corinthians x Palmeiras, Campeonato Brasileiro, Band e Globo (para SP e RS)

16h - Grêmio x Flamengo, Campeonato Brasileiro, Band e Globo (menos SP e RS)

16h - Saltos ornamentais, Elim. Americanas para Londres-2012, ESPN Brasil

16h - PGA Tour, Golfe, ESPN e ESPN HD

18h30 - Atlético-GO x Fluminense, Campeonato Brasileiro, Sportv (menos GO)

CLAUDIO HUMBERTO

“A questão não é o torturador. O torturador é um agente”
Presidente Dilma, ao afirmar que não sente ódio de quem a torturou, mas não o perdoa

PDT TERÁ CANDIDATO PRÓPRIO A PRESIDENTE EM 2014

Em reunião da executiva do PDT na semana passada, o presidente Carlos Lupi decidiu que lançará candidato a presidente da República em 2014. O partido avalia que, ao disputar as eleições, ganhará poder de barganha para negociar apoio num segundo turno. São cotados os senadores Cristovam Buarque (DF), que disputou o cargo em 2006, e Pedro Taques (MT), que tem se destacado na CPI do Cachoeira.

MI CASA, SU CASA

O PDT também cogita convidar a ex-presidenciável Marina Silva (ex-PV-AC) ou Ciro Gomes (PSB-CE) para disputar pelo partido.

VOA, DILMA, VOA

Dilma deverá ir à Nigéria até o fim do ano: foi promessa ao presidente Goodluck Jonathan, que fez o convite na Conferência Rio+20.

PÕE NA CONTA

A imprensa da Zâmbia festeja: o chanceler Antonio Patriota garantiu que o Brasil perdoará a dívida de US$ 11 milhões de dólares do país.

PMDB COM CHALITA

Os ministros do PMDB vão à convenção que aclamará Gabriel Chalita hoje, às 9h, na Praça da Sé, como candidato a prefeito de São Paulo.

ESTATAL DE ENERGIA ANTECIPA RECEITA SEM IR A BANCO

A Eletrobrás parece haver encontrado uma maneira de evitar bancos: toma dinheiro da clientela. Sua subsidiária Ceal, de Alagoas, é acusada de emitir contas de R$ 800 a R$ 2.800 para clientes que pagavam no máximo R$ 150 ao mês. Para reexaminar contas abusivas, a estatal exige que elas sejam pagas antes. E avisa: ainda que reconheça o engano, o dinheiro não será devolvido. O assalto é transformado em “crédito”.

ASSIM É FÁCIL

O deputado Miriquinha Batista (PT-PA) faz gentileza com o nosso chapéu: quer isentar os quilombolas de Imposto Territorial Rural.

VIÉS PETISTA

Dos nove convocados para depor na CPI do Cachoeira nesta semana, seis são ligados ao governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB).

NOVA CONVOCAÇÃO

Ex-tesoureiro de Marconi Perillo em Goiás, Jayme Rincón vai depor na CPI do Cachoeira. Alegou aneurisma cerebral para não ir antes.

CID NO BIRD

O governador do Ceará, Cid Gomes (PSB), não disputará o Senado, em 2014. Cumprirá todo o mandato contando com a promessa de Dilma de indicá-lo para a diretoria do Bird, em Washington.

ALIANÇA PMDB-PSB

O presidente do PMDB, Valdir Raupp (RO), acertou com o presidente do PSB, governador de Pernambuco, Eduardo Campos, apoio recíproco, nas capitais, tanto no Espírito Santo quanto em Mato Grosso.

TOMA LÁ, DÁ CÁ

Em troca da aliança com Mauro Mendes (PSB) na disputa à Prefeitura de Cuiabá, o PMDB quer o apoio do governador capixaba Renato Casagrande (PSB) ao deputado Lelo Coimbra, em Vitória.

TREM DA ALEGRIA

O Supremo Tribunal Federal examina recurso contra decisão do STJ reconhecendo o direito de assistentes jurídicos se aposentarem como advogados da Advocacia-Geral da União, mesmo sem concurso. O impacto orçamentário é grande.

META TUCANA

O líder do PSDB, deputado Bruno Araújo (PE), diz que o partido tentará aumentar para mil o número de prefeitos, nas eleições de outubro: “É factível, hoje temos quase 800”. O PMDB tem 1.203 e o PT, 557.

ENTRE TODOS

O senador Delcídio Amaral (PT-MT) articula para votar, na quarta-feira, a proposta que rateia o ICMS entre Estados de origem e de destino nas operações do comércio eletrônico, que pode faturar R$ 24 bilhões este ano.

SUJOU

Suplente do senador Blairo Maggi (PR), o ex-prefeito de Marilândia (MT) José Aparecido dos Santos está na lista de políticos de contas rejeitadas pelo Tribunal de Contas. “Cidinho” foi prefeito três vezes.

QUEM DECIDIU NO RIO

Circula na internet a constatação de que na Rio+20 só os traficantes tomaram alguma decisão sobre “sustentabilidade”: proibiram a venda de crack na cidade, para sustentar o rico comércio de cocaína.

PAI DO ANO

Circula piada paraguaia no Twitter: “Só os vários filhos do ex-bispo Fernando Lugo foram contra o impeachment dele”.

PODER SEM PUDOR

É DURO VOLTAR À PLANÍCIE

A dificuldade do ex-presidente Lula para desencarnar do exercício do poder é frequente entre algumas autoridades que não se conformam com o retorno à Planície.

O embaixador Jorge Taunay (pai) cunhou uma frase lapidar para definir aqueles que subitamente se veem de volta à vida comum:

– O duro, quando a gente se aposenta, é passar de “your excellency” para “seu Jorge”...

DOMINGO NOS JORNAIS


- O Globo: Torturador rompe silêncio de 41 anos sobre Casa da Morte

- Folha de SP: Brasil e vizinhos discutem sanções contra o Paraguai

- O Estado de S. Paulo: Novo presidente afirma que "não há golpe" no Paraguai


- Correio Braziliense: Paraguai provoca um nó na América do Sul


- Jornal do Commercio: Dívida escraviza recifense

- Zero Hora: 16 motoristas por dia não socorrem vitimas


sábado, junho 23, 2012

Mão de vaca - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 23/06

Hillary Clinton, francamente, viajou dos EUA até o Rio para ficar umas poucas horas e só anunciar US$ 20 milhões para ajudar projetos de energia renovável na África.
A intenção é boa, mas o dinheiro, ridículo.

Veja só.
Segunda, por exemplo, a África do Sul, país rico para padrões africanos, mas muito pobre se comparado aos EUA, anunciou um empréstimo de US$ 2 bi ao FMI para socorrer a Europa.

Fator Patriota
Dilma tem dito em público que a Rio+20 foi positiva. Mas há gente no governo desapontada com Antônio Patriota, que, como representante do país-anfitrião, deveria ter sido mais firme na defesa de avanços.
É. Pode ser.

Democracia é melhor
A área de segurança da Petro-bras recomendou ontem aos funcionários que cancelem as viagens ao Paraguai estes dias.
A estatal tem uma rede de postos, uma distribuidora de gás e é a única fornecedora de combustível para aviões naquele país.

No mais
O impeachment relâmpago de Fernando Lugo parece que foi feito dentro da lei paraguaia.
Mas nenhum democrata, mesmo com a pior das impressões de Lugo, pode achar normal este rito sumário num tema tão relevante. Não, não é democrático.

Crimes em Londres
A editora Arqueiro vai lançar no Brasil “Missão Jogos Olímpicos”, continuação de “Private”, de James Patterson, o autor americano de suspense que já vendeu 260 milhões de exemplares.
Sai em julho, na carona dos Jogos de Londres, tema da trama.

ESTE SAÍRA
-pintor (Tangara fastuosa), ou pintor-verdadeiro, parece até posar, em seu almoço, para a lente do nosso correspondente no Jardim Botânico, Laizer Fishenfeld. O penoso faz aqui uma aparição rara, pois é nativo do Nordeste. Que Deus o proteja, conserve o querido Laizer e a nós não desampare jamais

Eu bebo sim
Na tarde de quinta, no Parque dos Atletas, a ministra Izabella Teixeira sugeriu aos presentes, entre eles o ator americano Edward Norton, que tomassem muitas... caipirinhas. Para reforçar, disse se tratar de “produto da biodiversidade brasileira”, e, fora do microfone, entregou-se:
— Só ontem, tomei quatro.

Ila-ilarie, o, o, o!
A primeira-dama de El Salvador, a brasileira Vanda Pigna-to, teve dois encontros fora da agenda oficial da Rio+20.
Um com... Angélica, outro com... Xuxa.

Naouri é local
Jean-Charles Naouri, o chefão do francês Casino que ontem desbancou Abílio Diniz do controle do grupo Pão de Açúcar, volta ao Brasil dia 28 agora para uma reunião de rotina do conselho da rede supermercadista.

Cena carioca
Nestes dias de Rio+20, dois mineiros papeavam num vagão do metrô, quarta, sobre a programação noturna que fariam.
Até que um sugeriu: “Vamos para a Lapa?” E o outro: “Isso é o maior programa de índio.” Só que, no mesmo vagão, viajavam três índios. Houve troca de olhares e mal estar. Há testemunhas.

Índio querchope...
Aliás, o Jobi virou ponto de encontro de índios nesta Rio+20. Vários bebiam chope ali quinta.

Alta médica
João Carlos Martins, o maestro que outro dia operou o cérebro com o neurocirurgião Paulo Nie-meyer, já rege, hoje à noite, no Municipal do Rio, totalmente recuperado, a sua Filarmônica Ba-chiana Sesi-SP, num concerto pelos 30 anos da Dell’Arte no Brasil.

Sobrou para cá
De um parrudo na porta do Gero, o restaurante de bacanas em Ipanema, ontem, para um morador que reclamava do amontoado de carros de seguranças mal parados, dificultando a passagem, enquanto o rei e a rainha da Suécia almoçavam lá dentro:
— Liga pro GLOBO!

Rio+saliência

Ontem, para celebrar o fim da Rio+20, rolou uma festa no restaurante Espírito Santa, em Santa Teresa, chamada... “Cópula dos Povos”, com DJs estrangeiros que vieram para a conferência.
Uma espécie, digamos, de saliência sustentável.

JAPA GOSTOSA


O PT avança - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 23/06

Com a saída de Eduardo Braga (PMDB-AM) da liderança do governo no Senado, o PMDB vai perder o cargo. Braga será candidato à prefeitura de Manaus. Os líderes do partido já foram informados da intenção da presidente Dilma de nomear um senador petista para a função e decidiram que não vão comprar nenhuma briga por isso. “O cargo é de livre nomeação da presidente”, resumiu o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL).

Dilma e a presidência do Senado
O desejo da presidente Dil-ma de fazer o ministro Edison Lobão (Minas e Energia) o próximo presidente do Senado é conhecido desde março. Na semana de 12 a 16, Dilma tratou do tema com o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e o líder do partido, Renan Calheiros (AL). Para Sarney, Dilma disse que queria garantir que “alguém seu (do Sarney)” continuasse na presidência da Casa. Para o líder do PMDB, Renan Ca-lheiros, ela argumentou que o noticiário negativo voltaria se ele insistisse em comandar de novo o Senado e o aconselhou: “Você deve ser candidato ao governo de Alagoas, e eu vou te apoiar”

Nem ódio nem vingança, mas nem tampouco perdão. Trata-se de virar a página, por isso, criamos a Comissão da Verdade" — Presidente Dilma, na Rio+20

AS APOSTAS. 
O líder nas pesquisas em São Paulo, José Serra, não é a única esperança de vitória do PSDB. O presidente do partido, Sérgio Guerra (PE), à esquerda do ex-presidente Fernando Henrique, chama a atenção para as candidaturas de Zenaldo Coutinho (Belém), João Castelo (São Luiz, reeleição), Firmino Filho (Teresina), Rui Palmeira (Maceió), Luiz Paulo Vellozo Lucas (Vitória) e Reinaldo Azambuja (Campo Grande).

Garantir a Justiça
O ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) e o presidente do STF, Carlos Ayres Britto, reuniram-se no fim da tarde de ontem. Trataram da adoção de medidas para ampliar a segurança pessoal e das famílias dos juízes brasileiros.

A retaliação
O governo brasileiro não fará anúncio oficial, mas em decorrência do golpe ocorrido no Paraguai, que provocou a queda do presidente Fernando Lugo, vai segurar os repasses de pagamentos da Itaipu Binacio-nal ao país vizinho.

O segundo resgate de Maluf
O deputado Paulo Maluf (PP-SP), candidato dos militares à Presidência (1985), sempre foi tratado como um pária desde a redemocrati-zação. Mas foi festejado pelos tucanos no primeiro mandato do ex-presidente Fernando Henrique. Maluf apoiava FH e o Real. A lua de mel demorou até descobrirem seu envolvimento com o falso Dossiê Cayman (1998). Agora, é o ex-presidente Lula quem resgata Maluf. É só uma questão de tempo para que Maluf apronte para quem lhe estendeu a mão.

PrevisívelNa cúpula do PMDB o que se afirma é que a presidente Dilma sempre soube que o senador Eduardo Braga (PMDB-AM) poderia disputar a prefeitura de Manaus ou o governo do Amazonas. Épor isso que a mulher Sandra é suplente.

História
O Partido Liberal Autêntico, do lendário Domingo Laino, adversário da ditadura do Partido Colorado no Paraguai, associou-se aos seus antigos adversários para derrubar o presidente Fernando Lugo, eleito pelo voto popular.

O SECRETÁRIO -Geral da ONU, Ban Ki-Moon, é tratado, do mais graduado ao mais humilde integrante da delegação brasileira, pelo apelido de Pokemón.

NO SHOW
 da Rio+20 para as autoridades estrangeiras, ao ver as ministras saltitando, o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, também caiu no samba.

O DELEGADO do governo brasileiro Sérgio Paixão Pardo foi eleito presidente da Comissão de Normas da Conferência Internacional do Trabalho, da OIT. O Brasil foi eleito para a presidência pela oitava vez nas últimas dez conferências.

Radiografia da ineficiência - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 23/06



Incapaz de planejar e de tocar projetos, o governo federal só conseguiu um bom nível de execução em pouco mais de metade - 54% - das 92 ações prioritárias incluídas no orçamento do ano passado, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU). O novo relatório sobre as contas governamentais, entregue ao presidente do Senado na terça-feira, vale como um atestado de incompetência gerencial. A execução de um quinto das ações foi considerada fraca ou muito fraca. A de outros 26%, apenas razoável. Apontada muitas vezes como administradora severa e eficiente - uma fama inexplicável, quando se considera seu desempenho no governo central -, a presidente Dilma Rousseff completou seu primeiro ano de mandato com resultados muito pobres.

O quadro continua ruim, quando se deixa de lado o número de ações e se examinam os valores aplicados nos vários programas e projetos. No orçamento de 2011 foram autorizados R$ 17,3 bilhões para o conjunto de prioridades. Foram empenhados R$ 14,5 bilhões, 84% do total. Mas só foram efetivamente liquidados R$ 10,3 bilhões, 59,5% do valor previsto para o ano. Sobraram dos empenhos R$ 4,3 bilhões de restos a pagar transferidos para os anos seguintes.

O relatório chama a atenção para o atraso na execução de grande parte das obras de infraestrutura e para o consequente aumento de custos. Os problemas decorrem não só de falhas na preparação e na condução dos projetos, mas também da lentidão nas decisões. O autor do parecer, ministro José Múcio Monteiro, alerta para os riscos da indefinição quanto às concessões do setor de eletricidade com vencimento previsto para 2015. Esses contratos representam 18% de toda a geração de energia elétrica e 84% da rede básica de transmissão e envolvem 37 das 63 distribuidoras de energia.

Há problemas de atrasos em todos os setores, mas o quadro é especialmente preocupante quando se trata de energia e de transportes. Neste setor, falta a conclusão dos planos aeroviário, portuário e hidroviário. Sem avanço nesse trabalho, não haverá como consolidar o planejamento das várias modalidades.

Várias das grandes obras foram incluídas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), lançado em 2007 e com execução muito atrasada, embora já tenha sido inaugurada oficialmente sua segunda fase. Previa-se inicialmente para 2014 a conclusão das obras da Usina Hidrelétrica de Belo Monte e da ferrovia de alta velocidade, mas o prazo dos dois projetos foi ampliado até 2019. "Esses atrasos não são isolados nem restritos aos grandes empreendimentos. No eixo Transportes, a diferença média entre os prazos repactuados no PAC 2 e os prazos estimados ao final do PAC 1 é de 437 dias por ação", comenta o autor do parecer. A falta de capacidade de administrar grandes obras e projetos complexos caracteriza, segundo ele, tanto o governo federal quanto as administrações estaduais e municipais e até as empresas privadas, "responsáveis pela execução de grande parte das obras do PAC". A baixa qualidade dos projetos básicos também prejudica o rendimento dos investimentos, forçando revisões durante as obras, e, portanto, o cronograma e os custos.

O relator acentua a necessidade de melhoras no acompanhamento dos projetos e na avaliação dos resultados. Isso vale não só para as obras financiadas pelo setor público, mas também para o uso dos benefícios fiscais concedidos ao setor privado. A renúncia fiscal aumentou 30% em 2011 e chegou a R$ 187,3 bilhões, mas faltam, segundo o relatório, prestações de contas satisfatórias e indicadores para avaliação do uso desses recursos. Diante disso, o relator sugeriu à Casa Civil dois cuidados na elaboração dos projetos de lei e de medidas provisórias para concessão ou ampliação de benefícios tributários: identificação do órgão gestor da política e especificação de objetivos, indicadores e critérios de avaliação de resultados.

A presidente Dilma Rousseff assumiu o governo prometendo elevar a qualidade do gasto público e a eficiência da administração federal. Pouco fez para cumprir essa promessa, até agora. Refletir sobre a análise e o parecer do TCU sobre o exercício de 2011 talvez a estimule a cuidar mais seriamente do assunto.

PT O CLUBE DE BANDIDOS


Ganhos, perdas e danos do pragmatismo político - MARCO AURÉLIO NOGUEIRA


O Estado de S.Paulo - 23/06


Houve uma época em que os gestos políticos orientavam a opinião pública e os cidadãos. Adversários eram adversários. Podiam conviver educadamente, mas se posicionavam como entidades distintas, donos de posições singulares, que não permitiam movimentos de convergência, a não ser quando estivessem em jogo o futuro da Pátria ou os interesses nacionais. Acordos e alianças se faziam, mas ideias e princípios não se negociavam.

Tudo isso parece hoje pertencer a uma época pretérita que não volta mais. O mundo mudou, a política virou de ponta-cabeça, deixou-se invadir de tal forma pelos negócios e pelo pragmatismo que terminou por perder sua força magnética, de organização de esperanças e utopias.

Houve avanços nesse processo. Algumas ilusões tiveram de ser abandonadas e os protagonistas da política foram convidados a ultrapassar a barreira da pureza, da "ética da convicção" extremada, em benefício da realpolitik, da conquista de eleitores e da conservação do poder - coisas que se diluíram numa sempre mais proclamada "ética da responsabilidade".

O Partido dos Trabalhadores (PT) foi, na época pretérita que não volta mais, o partido que mais longe levou a ética extremada da convicção. Revestiu-a de ideologia, de promessas reformadoras, de compromissos com a população pobre e abandonada. Fez disso uma plataforma que o projetou para o primeiríssimo plano da política nacional e o converteu no principal partido do País.

Vieram, porém, os governos Lula (2002-2010) e tudo se transformou. O pragmatismo cortou o partido de cima a baixo, ao mesmo tempo que o personalismo de Lula o cortou da esquerda à direita. O foco passou a ser muito mais o Estado do que a sociedade civil ou a opinião pública, e o partido se entregou ao controle de posições políticas fortes, convencido de que assim a mudança social aconteceria. Perdeu alguns anéis nessa operação, assistiu à debandada de parte de seus setores mais à esquerda e aceitou o protagonismo inconteste de sua liderança máxima, que se tornou o condutor único de todas as operações, da nomeação de ministros à escolha de candidatos às eleições.

Entretanto, houve uma pedra no caminho. Lula e o PT não conseguiram entrar em São Paulo, que se manteve - Estado e capital - sob controle do PSDB. O desafio paulista cresceu com a vitória de Dilma Rousseff. Afinal, como projetar a preponderância petista em Brasília sem a conquista do principal Estado do País, epicentro da vida econômica e social brasileira?

O pragmatismo foi, então, radicalizado. Para as eleições municipais de 2012, decidiu-se fixar uma candidatura que tivesse cheiro de tinta fresca, com a qual se pudesse contestar o predomínio tucano. E optou-se, mais uma vez, por dar uma guinada para o centro, de modo a neutralizar a força que o PSDB acumulou nesse segmento crucial.

Ainda que de modo meio torto, o PT que se subsumiu a Lula passou a mostrar maturidade, arquivou seus arroubos ideológicos, trocou a pureza pela "responsabilidade". Converteu-se em ator principal e fez com que todos passassem a considerá-lo com seriedade.

O problema é que o ingresso do PT na arena da grande política está se fazendo pela porta da pequena política, onde são feitos pactos com o diabo, ou com jurados inimigos de ontem, pragmaticamente.

Política sem acordos e coligações, sem barganhas e concessões, é como noite sem lua. Não avança nem produz resultados positivos. Mas há modos e modos de se fazer isso.

Ao aceitar os afagos de Paulo Maluf, na cerimônia em que o deputado aderiu à campanha de Fernando Haddad, o PT de Lula reiterou sua conversão ao jogo frio da política. Trocou a paixão pelo cálculo, pela contagem de apoios, minutos de propaganda e votos potenciais. Foi, porém, com sede total ao pote. Permitiu que o líder do PP explorasse ao máximo a aproximação. O gesto simbólico nos jardins de sua mansão foi a cereja no bolo.

Houve ganhos para ambos os lados. O PT incorporou 1'30'' à sua propaganda e passou a dispor, em tese, de acesso mais privilegiado aos redutos eleitorais malufistas, ainda que sem garantias. De quebra, desafinou o coro dos contentes, mostrando que agora são outros tempos, outras amizades, que não somente os tucanos podem comer na seara do centro e da direita.

Maluf, por sua vez, recebeu oxigênio adicional para seguir fazendo política, quem sabe agora com o benefício de não ser mais visto como o bicho-papão do autoritarismo e da corrupção. Também não teve garantia de nada, mas soube como extrair dividendos evidentes da operação. Ganhou uma exposição que, em outros tempos, seria inimaginável. Emplacou, ainda por cima, um aliado na Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades.

As perdas e os danos do acordo, porém, parecem a essa altura maiores do que os ganhos. O PT perdeu Luiza Erundina, ainda que ela, ao desistir da candidatura a vice, mas não da campanha, tenha oferecido ao partido uma aura de "dignidade política" que ajuda a contrabalançar as coisas. Perdeu também excelente oportunidade para traduzir em fatos o proclamado desejo de fazer uma campanha com o selo da renovação. Como convencer o eleitor de que algo "novo" desponta, quando o "velho" aparece com ele abraçado quase ao ponto de sufocar?

A democracia também perdeu, pois o pragmatismo político usurpou o lugar que nela devem ter o realismo, a coerência, os valores e os ideais, aumentando ainda mais o fosso que distancia as pessoas da política institucionalizada. Consolidou-se um modo de fazer campanha eleitoral. Nele, os políticos se abraçam, fazem festa, tramam e decidem. Num segundo momento, os eleitores votam. Ou nem isso.

O que resultará disso, no curto, no médio e no longo prazos, é questão inteiramente em aberto.

Quem veio - SONIA RACY


O ESTADÃO - 23/06

Jean-Charles Naouri, do Casino, fez pit stop, ontem, em São Paulo. Foi até o Pão de Açúcar falar com Enéas Pestana, mas não se encontrou com Abilio Diniz.

Na semana que entra, Naouri e Diniz vão negociar pessoalmente. Não gostaram do resultado produzido por Pércio de Souza e Ricardo Lacerda neste ano que passou.

Ontem, as reuniões meramente protocolares foram conduzidas por seus respectivos procuradores, Marcelo Ferro e Marcelo Trindade.

Recuperação
Algo novo no ar. Os bonds do banco BMG deram uma súbita recuperada.

Fezinha
Coordenador da campanha de Serra, Edson Aparecido chegou com um santinho de Santo Expedito à reunião do PSDB – quinta à noite – que discutiu a formação de uma chapa única de vereadores entre o partido e as siglas aliadas.

“Pelas causas impossíveis”, resumiu Aparecido, antes de entrar na sala.

Pé na tábua
O longa Na Estrada, de Walter Salles, está literalmente na estrada. Depois de Cannes, foi convidado para ser exibido em quatro outros festivais: Toronto, Sydney, Munique e Guanajuato.

Enquanto percorre o mundo, o filme estreia por aqui somente no dia 13 de julho.

Carga pesada
Em turnê pela América Latina, a Orquestra Sinfônica Nacional de Washington se apresenta, segunda e terça, em São Paulo. No Municipal.

Na bagagem, quase dez toneladas de equipamentos, divididas em cem baús, que ocupam cerca de 1 km².

Achou, ganhou
Decisão confirmada pelo STJ: a Unilever terá mesmo de pagar… R$ 10 mil a consumidora.

Em 2007, ela encontrou um preservativo dentro de lata de molho de tomate da Knorr.

De novo, não
A classificação para a final da Copa do Brasil foi redentora, mas Felipãojá está às voltas com outro problema. A reclamação de conselheiros palmeirenses sobre o mando de jogos na Arena Barueri.

Quinta, alguns perderam parte da partida contra o Grêmio. Estavam presos no trânsito.

Planos para o futuro
Daniela Cembranelli, reconduzida por Alckmin por mais dois anos na Defensoria Pública do Estado, reassume com boa informação dada pelo governador. Seu projeto na Assembleia, para praticamente dobrar o número de defensores públicos, tem grandes chances de passar.

Quais os principais desafios deste novo mandato?

Assim que forem criados os novos cargos, será possível expandir a atuação da Defensoria em todo o Estado. O foco é colocar mais defensores para reforçar o atendimento especialmente na área criminal – tanto na porta de entrada quanto na de saída para os presos.

Outras frentes?

Ampliar a área de conciliação, para ajudar a desafogar o Judiciário, e, claro, optar por uma cultura de paz. Especialmente nas áreas de família, que correspondem a cerca de 50% da demanda da Defensoria. E, por fim, fortalecer as Defensorias hoje existentes em 29 cidades – principalmente, abrir novas unidades nos municípios mais pobres de SP.

Com essas ampliações, como ficarão os convênios com a OAB-SP, por exemplo?

Continuarão existindo, tanto com a Ordem quanto com universidades e outras entidades que ajudam no atendimento jurídico a pessoas carentes. O déficit, hoje, de profissionais é enorme. Para se ter uma ideia, são cerca de 2 mil juízes estaduais, 1.800 promotores e, mesmo com os novos cargos que virão, seremos somente 900 defensores./DÉBORA BERGAMASCO

Na frente
O comentário é geral em Brasília. Como Gilberto Carvalho faz falta a Lula.

Lulu Librandi pilota festa de estreia da peça A Doença da Morte. Domingo, no Teatro Augusta.

A Mendes Wood inaugura, hoje, mostras dos artistas americanos Francesca Woodman e Steve Locke.

Erika dos Mares Guia inaugura loja, segunda, em novo endereço. Na Consolação.

Ruth Grieco lança livro sobre sua história no mundo das joias. Terça, no Museu da Casa Brasileira.

Celso Jatene autografa, segunda, o livro 10 Décadas – A História do Santos Futebol Clube. No Museu do Futebol.

Newton Mesquita abre mostra, quarta, no Palacete das Artes Rodin. Em Salvador.

Floriano Martins mostras suas fotografias, segunda, no Espaço Cultural Citi.

Além de querer que o Brasil invista, as delegações de Mianmar e Laos, na Rio+20, pediram ontem a Michel Temer… técnicos de futebol.

Oba-oba sustentável - GUILHERME FIUZA


O GLOBO - 23/06

A Rio+20 foi um sucesso. E não poderia ser diferente. Tudo foi muito bem montado para que não houvesse chances de falha. A estratégia é perfeita: anuncia-se uma megaconferência para salvar o mundo; convida-se mais de uma centena de chefes de Estado para assinar a salvação à beira-mar; produz-se um documento que naturalmente não salva nada nem ninguém; cada governante que chega tem a chance de dizer ao seu eleitorado que esperava mais; até Ahmadinejad, o tarado atômico, declara-se "frustrado"; todos ficam bem na foto "histórica", com seus crachás de gladiadores da sustentabilidade; e o mundo continua piorando com a consciência limpa.

Os ecologistas reunidos no Rio de Janeiro estão certos: para o mundo não acabar, é preciso economizar tudo. Menos o bufê das festas ecológicas, que ninguém é de ferro. A milionária produção da Rio+20 é o melhor exemplo de sustentabilidade: se essa era a última chance de salvar a Terra, como avisaram os organizadores, por que poupar para o próximo banquete? Não há no mundo contemporâneo negócio tão sustentável quanto a propaganda do Apocalipse. É o único em que o cliente paga para que a entrega não seja feita.

E, por falar no fim do mundo, o empresário Fernando Cavendish está entre os que aprovaram os resultados da Rio+20. Durante a conferência, a convocação do ex-comandante da Delta para depor na CPI do Cachoeira foi barrada. Maior caixa-preta do Brasil hoje, Cavendish contou com a proteção da já famosa "tropa do cheque" para não ter que interromper o sossego de sua aposentadoria nababesca e ir se explicar em Brasília. E contou, principalmente, com a colaboração da opinião pública nacional, que estava muito ocupada com a salvação do planeta no Rio.

Há muito tempo a República não vivia um momento tão decisivo quanto o da convocação de Cavendish pela CPI. As investigações indicam que o empreiteiro regia, ao lado do bicheiro, uma máfia sem precedentes no assalto ao Estado brasileiro. A construtora que centralizava o esquema era nada menos que a líder do PAC - e continuou recebendo contratos mesmo depois que o governo federal foi avisado, pela Controladoria Geral da União, dos superfaturamentos em série. Quem esquentava as costas de Cavendish?

A convocação do empreiteiro para depor no Congresso colocaria a bola na marca do pênalti. Pênalti para o Brasil contra a corrupção. E, quando a CPI foi votar essa convocação, o povo foi às ruas. Foi às ruas contra o gás carbônico, contra a Vale do Rio Doce, contra a ditadura de 64, contra o capitalismo individualista e o que mais o carnaval fora de época da Rio+20 inspirasse. Fernando Cavendish deve ter assistido emocionado à passeata das mulheres pelo direito constitucional de mostrar os peitos no jornal (em protesto contra a falta de sustentabilidade).

Não se sabe se toda essa bravura cívica mobilizada pela Rio+20 salvará o planeta. Mas salvou Cavendish, o que já é um começo.

A CPI do Cachoeira é um fracasso de público. O ano da Rio-92 foi também o do impeachment, mas não apareceu agora um único cara-pintada para a Collor+20. O presidente deposto é hoje um soldado do PT na CPI, escalado para bombardear a imprensa e atrapalhar a divulgação das investigações. E os estudantes não estão nem aí. A UNE, comprada por Lula e Dilma, conquistou seu sustento sustentável. O resto da turma deve estar ocupado com o gás carbônico.

E a OAB, que tanto brilhou na CPI do PC? Por onde anda essa entidade tão vigilante na defesa do estado de direito? Onde está a OAB no momento em que a quadrilha tenta manipular juízes para anular as provas gravadas pela Polícia Federal? Não se sabe. O que se sabe é que a democracia foi posta em risco por uma máfia que alicia agentes públicos, comprando parlamentares, alugando governadores e dando ordens em ministérios endinheirados. E que, na hora da verdade, essa máfia está sendo defendida por advogados de ponta, como o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos, muito bem pagos com o dinheiro sujo do esquema.

O que a OAB tem a dizer sobre isso? Aparentemente, nada. Em time que está ganhando não se mexe.

Na hora de cercar a máfia Delta-Cachoeira, o Brasil resolveu discutir sustentabilidade. Que desenvolvimento sustentável é possível num país onde o orçamento de infraestrutura foi dominado por uma quadrilha? Discute-se a criação de mesadas ecológicas (segure sua carteira) para o crescimento limpo, enquanto a gangue do bicheiro pilota a aceleração do crescimento sujo. Apertem os cintos e financiem o bem, para que os governos possam continuar gastando mal.

O sucesso da Rio+20 aparece nas imagens mais sutis, como a do ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra (que mandou para Pernambuco 90% das verbas contra enchentes), palestrando no Espaço Humanidade sobre desigualdades. O melhor lugar para discutir a salvação da Terra é mesmo o mundo da Lua.


Túmulo do samba - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 23/06


RIO DE JANEIRO
- A capa nº 6 da revista "Realidade", de novembro de 1966, era estrelada pelos jovens Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Magro (do conjunto vocal MPB4), Toquinho, Rubinho (baterista do Zimbo Trio), Jair Rodrigues, Nara Leão e Paulinho da Viola. Título: "Os novos donos do samba".
Tudo era samba, até o que não era. Era um nome genérico. E vinha de longe. Um livro de Orestes Barbosa, de 1932, intitulado "Samba", falava também de choros, marchinhas de Carnaval, valsas e sambas-canções. E, nos anos 50, quando Vinicius de Moraes chamou São Paulo de "túmulo do samba", não estava acusando a cidade de não produzir o dito ritmo, mas de ter uma noite acanhada, com poucas boates -tanto que o artista que motivou sua frase, Johnny Alf, nem era um sambista tradicional.
Em 1966, ainda se podia chamar tudo de samba porque, mesmo maquiado pela bossa nova, ele continuava o ritmo dominante -vide o número de bossas novas que lhe prestaram tributo até no título: "Samba de Uma Nota Só", "Samba de Orfeu", "Samba do Avião", "Samba Triste", "Samba do Carioca", "Samba Toff", "Samba da Pergunta", "Samba da Bênção", "Samba de Verão" e muitos mais. Chico Buarque e Paulinho da Viola compunham samba "full time" e, dali a três anos, o próprio Gilberto Gil teria seu maior sucesso com um samba: "Aquele Abraço".
Mas, em pouco tempo, a cena mudou. As gravadoras, aliás, multinacionais, decidiram que samba era aquilo que o pessoal do morro fazia no Carnaval. Tudo mais, que não fosse rock, cabia na sigla "MPB". Por coincidência -exceto Paulinho da Viola, que silenciou-, muitos sambistas de 1966 aderiram a um ritmo cursivo, invertebrado, sem swing, de mais trânsito internacional.
No fim, São Paulo deu a volta por cima. E quem se tornou o túmulo do samba, no sentido literal, foi o Brasil.

Prisões, privatização e padrinhos - PAUL KRUGMAN


FOLHA DE SP - 23/06


Pense nos benefícios que a privatização traz aos fundos de campanha e às finanças pessoais dos políticos



Nos últimos dias, o "New York Times" publicou reportagens aterrorizantes sobre o sistema de casas de semi-internato de Nova Jersey -ala auxiliar, operada pelo setor privado, do sistema penitenciário estadual.
A série é um modelo de jornalismo investigativo que todos deveriam ler. Os horrores descritos são parte de um padrão mais amplo sob o qual funções do governo estão sendo privatizadas e degradadas.
Em 2010, Chris Christie, o governador de Nova Jersey, descreveu as operações da Community Education Centers, a maior operadora dessas instalações, para a qual fez lobby, como "uma representação do que há de melhor no espírito humano".
Mas as reportagens revelam algo mais próximo ao inferno -um sistema mal gerido, com escassez de funcionários e equipes desmoralizadas. A história é terrível. Mas é preciso vê-la no contexto mais amplo de uma campanha nacional da direita americana pela privatização de funções de governo, o que inclui a administração de prisões.
O que move essa campanha? Seria tentador dizer que ela reflete a crença dos conservadores na magia do mercado. É assim que os políticos da direita gostariam de ver a questão. Mas basta pensar por um minuto para perceber que as empresas que formam o complexo penitenciário privado não concorrem num mercado livre. Vivem de contratos governamentais.
Os operadores privados de penitenciárias só conseguem economizar dinheiro por meio de reduções em quadros de funcionários e nos benefícios aos trabalhadores. As penitenciárias privadas economizam dinheiro porque empregam menos guardas e pagam menos a eles. E em seguida lemos histórias de horror sobre o que acontece nas prisões.
O que levanta a questão dos motivos reais para a campanha pela privatização das penitenciárias. Uma resposta é que a privatização pode servir como forma encoberta de elevar o endividamento do governo, já que esse deixa de registrar despesas antecipadas e eleva os custos de longo prazo de maneira invisível pelos contribuintes.
Outra resposta para a privatização é que ela representa uma forma de eliminar funcionários públicos, que têm o hábito de formar sindicatos e tendem a votar nos democratas. Mas a principal resposta está no dinheiro. Pouco importa o efeito da privatização sobre os orçamentos estaduais. Pense nos benefícios que ela traz aos fundos de campanha e às finanças dos políticos.
Com a privatização de funções governamentais, os Estados se tornam paraísos de pagamento nos quais contribuições políticas e pagamentos a amigos e parentes se tornam parte da barganha na obtenção de contratos do governo.
As empresas estão tomando o controle dos políticos ou os políticos estão tomando o controle das empresas? Pouco importa.
Não se deve imaginar aquilo que o "New York Times" descobriu sobre a privatização de prisões em Nova Jersey como exemplo isolado de mau comportamento. Trata-se quase certamente de apenas um vislumbre de uma realidade cada vez mais presente, de uma conexão corrupta entre privatização e apadrinhamento que está solapando as funções do governo em muitas regiões dos EUA.
Tradução de PAULO MIGLIACCI

Dentro da lei - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 23/06


Embora dentro das normas constitucionais, a deposição do presidente do Paraguai, Fernando Lugo, pelo Congresso tem claros indícios de que foi o desfecho de uma disputa política que se desenrola praticamente desde que ele chegou ao poder, cerca de 4 anos atrás.

Já houvera antes uma tentativa de impeachment quando surgiram as denúncias sobre os vários filhos do ex-padre católico, dois dos quais ele já reconheceu. Há outros na fila.

O escândalo sexual não foi suficiente, no entanto, para que os opositores de Lugo conseguissem levar adiante a tentativa de impeachment, mas a tragédia recente, em que morreram 11 camponeses de um movimento sem-terra e seis policiais, fez com que forças políticas majoritárias se unissem para acusá-lo de “mau desempenho de suas funções”, o que possibilitou o processo de impeachment.

Os agricultores sem-terra da Liga Nacional de Acampados, que invadem propriedades e instalam-se em tendas, receberam o aval público de Lugo, que os recebeu diversas vezes no palácio do governo e na residência presidencial, até que, em 15 de junho, seis policiais desarmados foram mortos durante a desocupação de uma fazenda em Curuguaty, a 250km de Assunção.

A reação da polícia provocou a morte de 11 camponeses e a acusação de perda de controle pelo governo.

Mesmo que a motivação seja política, não é possível classificar de golpe o que aconteceu no Paraguai, sob pena de darmos razão ao hoje senador Fernando Collor de Mello que se diz vítima de um “golpe parlamentar”, e que, em entrevista, já chegou a reivindicar de volta seu mandato presidencial.

O interessante é que Col-lor foi impedido pelo Congresso brasileiro num processo que teve a liderança do PT, tanto na atividade parlamentar quanto na mobilização dos chamados movimentos sociais para apoiar a decisão dos políticos.

Cassado, Collor foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal por falta de provas, o que o leva a alegar que foi vítima de um golpe.

É uma incoerência completa, portanto, que o governo brasileiro acuse um processo congressual de ilegítimo, quando já tivemos essa experiência em nossa democracia recente.

A ameaça de expulsar o Paraguai do Mercosul, além de revelar uma leitura equivocada da cláusula democrática da instituição, pode servir aos interesses da Venezuela, que até agora não foi aceita como membro pleno justamente porque o Congresso do Paraguai não deu permissão, por considerar que a Venezuela não é um país democrático.

Essa aliás, é uma outra boa discussão, pois o governo brasileiro aceita todas as manobras feitas pelo governo de Hugo Chávez na Venezuela, alegando justamente que elas, ao serem aprovadas pelo Congresso, são, portanto, legítimas. Lula chegou ao cúmulo de dizer que havia na Venezuela “democracia demais”.

Todos os governos “boli-varianos” da região — Bolívia, Equador, Argentina, Nicarágua — já promoveram diversas alterações em suas Constituições para aumentar o poder dos respectivos presidentes, em golpes seguidos à democracia, mas utilizando-se de seus próprios instrumentos legais.

Aumentaram a composição da Suprema Corte, criaram obstáculos à liberdade de expressão, mudaram as regras eleitorais para favorecer o partido que está no governo, e alegam sempre que as alterações foram feitas com a aprovação do Congresso.

Mas quando o Congresso decide contra o governante “bolivariano”, desencadeia-se imediatamente um movimento regional de constrangimento a esses parlamentos, tentando usar a cláusula democrática como instrumento de pressão.

Agora mesmo, os chanceleres da Unasul foram a Assunção tentar parar o processo de impeachment de Fernando Lugo, que logo chamaram de golpe. O chanceler Antonio Patriota foi com a instrução da presidente Dilma para “falar grosso”.

No caso de Honduras, em 2009, chegou a ser escandalosa a intromissão do governo brasileiro nos assuntos internos daquele país, a ponto de ter tentado, com a cumplicidade de Hugo Chávez, criar um fato consumado com o retorno do presidente deposto Manuel Zelaya ao país, abrigando-o na embaixada brasileira. De acordo com a Constituição de Honduras, o mandato presidencial tem o prazo máximo de quatro anos, vedada expressamente a reeleição.

Aquele que violar essa cláusula, ou propuser-lhe a reforma, perderá o cargo imediatamente, tornando-se inabilitado por dez anos para o exercício de qualquer função pública.

Foi exatamente o que Ze-laya fez, tentando mudar a Constituição através da convocação de plebiscito. A cláusula pétrea da Constituição de 1982 de Honduras tinha, justamente, o objetivo de cortar pela raiz a possibilidade de permanência de um presidente no poder, pondo fim à tradição caudilhesca no país.

A preocupação tinha sentido: Honduras é o país inspirador do termo “República de bananas” ou “República bananeira” cunhado pelo escritor americano O. Henry, pseudônimo de William Syd-ney Porter, que, no livro de contos curtos Cabbages and Kings, (Repolhos e Reis) de 1904, usou pela primeira vez a expressão, que passou a designar um país atrasado e dominado por governos corruptos e ditatoriais, geralmente na América Central.

O principal produto desses países, a banana, era explorado pela famosa United Fruit Company, que teve um histórico de intromissões naquela região, especialmente em Honduras e Guatemala, para financiar governos que beneficiassem seus interesses econômicos, sempre apoiada pelo governo dos Estados Unidos.

Mesmo com toda a pressão do governo brasileiro e dos demais países “bolivarianos”, que conseguiram até mesmo expulsar o país da Organização dos Estados Americanos (OEA) — como ameaçam fazer agora com o Paraguai, no Mercosul — Honduras promoveu nova eleição e o presidente Porfirio Lobo está no governo, já tendo sido reconhecido por todos os demais países e retornado à OEA.

O ex-presidente paraguaio Fernando Lugo parece estar agindo com mais bom senso do que os governos da Unasul, aceitando a decisão do Congresso.