quinta-feira, junho 21, 2012

O passado assombra - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 21/06


A coincidência não deve agradar a Lula, mas dificilmente será possível dizer que se trata de mais um golpe dos reacionários contra o governo popular do PT. Aliás, o noticiário criminal envolvendo o PT indica que o partido há muito vem se metendo em enrascadas.

Às vésperas do julgamento do mensalão, desta vez a Justiça reavivou o escândalo dos aloprados, que na eleição de 2006 tentaram comprar um dossiê que supostamente continha denúncias contra o candidato do PSDB ao governo paulista, José Serra, o mesmo que hoje Lula tenta derrotar com o auxílio de Paulo Maluf, na disputa para a prefeitura de São Paulo.

Naquela ocasião, Serra venceu o candidato petista Aloizio Mercadante no primeiro turno. Um dia depois do escândalo provocado pela exibição despudorada de intimidade entre o ex-presidente e Maluf, um dos brasileiros relacionados na lista de alerta vermelho da Interpol dos criminosos mais procurados do mundo, aJustiça de Mato Grosso aceitou denúncia do Ministério Público Federal contra nove dos envolvidos.

Dois deles, Jorge Lorenzetti, petista de Santa Catarina que era também churrasqueiro ex-traoficial da Granja do Torto no primeiro governo Lula, e o advogado Gedimar Pereira Passos, que supervisionava a segurança do comitê da campanha de reeleição, eram ligados diretamente ao ex-presidente, que, no entanto, como sói acontecer, declarou desconhecer o assunto e ainda fez-se de indignado, classificando os membros do grupo de “aloprados”.

Preso na Polícia Federal, Ge-dimar incluiu no grupo um segurança particular da primeira-dama Letícia Maria de nome Freud (que não se perca pelo nome) Godoy, que o teria chamado para avaliar se o tal dossiê continha mesmo fatos que comprometiam Serra. Freud acabou desaparecendo do noticiário, assim como uma coincidência reveladora: o ex-ministro José Dirceu (sempre ele), antes mesmo que fosse divulgado o conteúdo do dossiê, escreveu que as acusações seriam “a pá de cal na campanha do picolé de chuchu”, como se referia ao candidato tucano à presidência Geraldo Alckmin.

Gedimar Passos, assessor da campanha de Lula, negociava a aquisição do dossiê com Valde-bran Padilha, empresário filiado ao PT. A PF prendeu a dupla em flagrante com 1,7 milhão de reais que seria usado na compra do material forjado.

Expedito Veloso, outro dos envolvidos, denunciou meses mais tarde que o atual ministro da Educação, Aloizio Merca-dante, e o ex-governador de São Paulo já falecido Orestes Quér-cia foram os mandantes. Mesmo que entre os acusados estivesse Hamilton Lacerda, então assessor de Mercadante, e que ele fosse o maior beneficiado, o candidato petista não foi arrolado como partícipe do golpe.

O centro da conspiração estava no “Núcleo de Informação e Inteligência” da campanha de reeleição de Lula, e quem chefiava a equipe de “analistas de informação” era o petista histórico Jorge Lorenzetti, ex-dirigente da CUT, enfermeiro de profissão, diretor financeiro do Banco do Estado de Santa Catarina e churrasqueiro do presidente nas horas vagas.

Lorenzetti chefiava Gedimar Pereira Passos na tarefa de con-trainformação eleitoral, e foi nessa qualidade que teria sido
enviado para analisar o dossiê contra os tucanos.

A descoberta do plano revelou a existência de uma equipe dentro da campanha de reeleição que se envolve em falcatruas variadas, uma maneira de atuar politicamente que vem das batalhas sindicais do ABC, as quais Lula conhece bem com que armas se disputam.

Esse mesmo esquema provocou uma crise no comitê da candidata Dilma Rousseff, quando foi descoberto que havia um grupo recrutado para fazer espionagem, inclusive o jornalista Amaury Ribeiro Filho que levou para o grupo o hoje nacionalmente conhecido Dadá, o grampeador oficial do esquema do bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Os protagonistas do chamado escândalo dos aloprados responderão pelos crimes de lavagem de dinheiro e operação fraudulenta de câmbio.

Segundo a denúncia do Ministério Público, eles “se associaram subjetiva e objetivamente, de forma estável e permanente, para a prática de crimes contra o sistema financeiro nacional e de lavagem de dinheiro, que tinha por fim a desestabilização da campanha eleitoral de 2006 do governo de São Paulo”.

O Ministério Público, embora as investigações tenham rastre-ado todo o caminho do dinheiro, não conseguiu definir sua origem, um dos grandes mistérios desse caso.

A fotografia da montanha de dinheiro apreendido acabou sendo divulgada às vésperas do primeiro turno da eleição presidencial, e os petistas atribuem ao impacto da imagem a ida da eleição para o segundo turno.

Passou despercebida, mas uma declaração do ex-ministro da Justiça de Lula, Márcio Tho-maz Bastos, em entrevista recente na televisão a Monica Ber-gamo e ao cientista político An-tonio Lavareda, admite claramente a existência do mensa-lão, ele que é advogado de um dos réus. Disse Thomaz Bastos a certa altura, falando sobre a corrupção do Brasil: “Vamos chegar a um ponto em que a democracia, por sua própria prática, vai resolver isso. Lembremos que, no início do século passado, na Câmara dos Comuns, no Reino Unido, havia um guichê onde os parlamentares recebiam o dinheiro, uma espécie de mensalão da época. O que não impediu que a Inglaterra se tornasse um país altamente democratizado. Isso dá a esperança de que, pela reiteração dos usos, possamos encontrar isso, um outro patamar de regime democrático”.

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Ayres Britto, parece enxergar longe. Em voto favorável à punição de Lula por propaganda antecipada, na campanha para eleger Dilma Rousseff, classificou de “antirre-publicano” projeto de poder que inclui eleger o sucessor: “Quem se empenha em fazer o seu sucessor, de ordinário, pensa em se tornar ele mesmo o sucessor de seu sucessor”. Outro dia Lula admitiu que “se Dilma não quiser”, ele se dispõe a ser candidato novamente...

Mais um refresco - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 21/06


O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) decidiu ontem ampliar em alguma coisa a chamada Operação Twist, que se destina a achatar os juros de longo prazo e, assim, continuar a estimular a retomada da economia dos Estados Unidos.

Essa operação não envolve despejo de mais moeda. O Fed vai vender títulos do Tesouro de curto prazo e recomprar títulos de longo prazo. O efeito prático pretendido é a redução dos juros de longo prazo: se entra como comprador, o Fed acaba por aumentar a demanda por esses títulos, seu preço sobe e seu rendimento (yield) cai na mesma proporção.

Juros de longo prazo mais baixos, por sua vez, devem concorrer para baixar também os juros dos empréstimos para investimentos e os juros cobrados nos financiamentos imobiliários garantidos por hipotecas.

Um dos maiores obstáculos à retomada da economia dos Estados Unidos ainda é consequência do estouro da bolha imobiliária ocorrida em 2007. Por falta de compradores, os preços dos imóveis desabaram abaixo das próprias garantias hipotecárias. Esse problema provocou dois efeitos: derrubou em mais de 60% o patrimônio familiar do americano médio, amarrado ao valor de mercado da casa própria; e provocou forte deterioração das garantias dos créditos em poder dos bancos que, em seguida, passaram a ser chamados ativos tóxicos ou ativos podres. O empobrecimento do consumidor americano e a perda da capacidade de concessão de crédito dos bancos paralisaram a economia.

Para reativar a locomotiva, o Fed vem atuando na fronteira do que separa a responsabilidade da irresponsabilidade. Ainda no auge da crise, emitiu US$ 1,7 trilhão para recomprar ativos privados e, desta forma, livrar alguns bancos do naufrágio. Em dezembro de 2008, colocou em marcha a operação Afrouxamento Quantitativo (Quantitative Easing - QE1), pela qual despejou US$ 300 bilhões na recompra de títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Em novembro de 2010, com o mesmo objetivo, lançou o QE2, dessa vez com o calibre de US$ 600 bilhões.

Apesar desse esforço, em meados do segundo semestre do ano passado, a economia americana continuava travada. O consumidor permanecia relutante em sacar seu cartão de crédito; os bancos, retraídos no crédito; o setor produtivo, semiparalisado; e o desemprego batendo recorde após recorde.

Foi por isso que, em setembro, o Fed tentou mais uma respiração boca a boca. Anunciou a primeira Operação Twist, de US$ 400 bilhões, não mais para irrigar a economia com moeda emitida, mas para trocar títulos de curto prazo por títulos de longo prazo. Agora, às vésperas do vencimento dessa primeira operação, lançou a segunda, desta vez, de US$ 267 bilhões, que será concluída no final do ano.

Vai funcionar? Não dá para afirmar que o esforço anterior tenha sido inútil. Imagine-se o que seria da economia dos Estados Unidos se o jogo pesado não tivesse sido posto em marcha. O fato é que a retomada continua insatisfatória e o desemprego segue aumentando. Muitos observadores vinham pedindo mais do que saiu ontem. Pediam mais uma alentada rodada de afrouxamento quantitativo, o tal QE3. O Fed não ousou partir para mais essa. Mas seu presidente, Ben Bernanke, avisou que mantém o trunfo prontinho para usar se for preciso. Provavelmente será preciso.

A piada do atual crescimento baixo pode azedar o humor - SÉRGIO VALE


FOLHA DE SP - 21/06


Como esperado, os primeiros dados de maio e junho sinalizam uma franca deterioração da economia brasileira, obviamente atrelada ao cenário internacional.

Esses resultados são um prenúncio de um segundo trimestre que deverá terminar com crescimento ainda menor do que o do já fatídico primeiro trimestre.

Em outras palavras, para crescer parcos 2% neste ano, teríamos que crescer quase 2% na margem no terceiro e no quarto trimestres. Ou seja, já podemos entregar os pontos de que o crescimento não decola neste ano.

A razão é que o pior da crise europeia ainda não aconteceu e isso trava qualquer expectativa de investimento. E o setor bancário está arredio depois dos excessos ocorridos na farra dos automóveis dos últimos dois anos.

Logo estaremos falando de 1,5% como nova possibilidade de crescimento neste ano, e não descarto pensarmos em 1%. Portanto, nada do que o governo fizer agora ajudará muito. Deveria, isso sim, aproveitar o momento de intempérie mundial e aguardar o trabalho do BC de baixar a Selic nos próximos meses.

Não descarto vermos a Selic chegar a 7% ou 6,5% neste ano. É uma janela de oportunidade a favor do crescimento em 2013. Mas não sem tropeços no caminho.

Em janeiro, os EUA terão que decidir o que fazer do pacote fiscal aprovado em julho do ano passado. Se o mantiverem, ficará a dúvida sobre a capacidade americana de diminuir sua dívida; se reduzirem o pacote, podem trazer riscos para o crescimento.

Seria hora de o governo aproveitar a popularidade da presidente e aprovar reformas efetivas para estimular o crescimento de longo prazo. Como provavelmente não veremos isso, a piada do crescimento baixo em 2011 e 2012 infelizmente poderá ser humor negro mais à frente.

A palavra-chave - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 21/06


Ambição foi, até agora, a palavra mais falada no Riocentro. Mais especificamente, a falta de ambição. O governo acha que perdeu a batalha da comunicação, e que os jornalistas não estão vendo os avanços que teriam ocorrido na Rio+20. Antes fosse apenas uma questão de avaliação da imprensa. É generalizada a reclamação: das ONGs, do presidente François Hollande, do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

O presidente francês veio, em começo de mandato, com a Europa em crise, e disse que sua presença aqui era para assumir uma responsabilidade pública. Viva a diferença. A líder alemã, Angela Merkel, estava no México e não veio porque não quis. O presidente Barack Obama, também.

Na segunda-feira, num dos vários momentos de falta de sinceridade que reuniões diplomáticas sempre propiciam, o negociador-chefe dos Estados Unidos, Todd Stern, disse à imprensa que "desenvolvimento sustentável é um dos pilares da segurança nacional americana" e que o governo Obama o considera um tema muito importante. A CNN perguntou em seguida: "Se é assim tão importante por que o presidente Obama não veio?" A resposta foi um contorcionismo vazio que nem vale a pena transcrever.

A verdade é que os Estados Unidos foram responsáveis por um parágrafo aguado sobre oceanos. A expectativa era de decisão de criação de áreas protegidas em águas internacionais. A marinha americana, dona da maior frota do mundo, não aceitou. Teme que isso atrapalhe suas movimentações para a defesa do que eles acham que é realmente segurança nacional. Foram também os Estados Unidos que se opuseram à criação de uma agência na ONU de meio ambiente porque acham que isso imporá a eles limitação externa nesta área, da mesma forma que já tiveram várias derrotas na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Na questão ambiental, o mundo se divide de forma bem diferente do que a tradicional ideia dos ricos versus pobres. Tanto que o presidente François Hollande disse na entrevista que um dos pontos em que houve falta de ambição foi exatamente na criação de um órgão com mais poderes e que agregue todos os assuntos ligados aos temas ambiental e climático. Segundo Hollande, sempre que se tenta incluir algum tema ambiental nas reuniões do clima, o tema é retirado por não fazer parte do escopo da convenção. Por isso, ele reafirmou a necessidade de uma agência da ONU com poderes reais. Tudo o que o texto estabelece é a ampliação do número de participantes do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Era restrito a um grupo de países e passará a ser universal. Isso é bom, mas muito pouco. "Não temos uma agência, mas eu não perdi a esperança. Vou continuar a lutar por isso", disse o presidente francês.

Hollande também reclamou de não se fechar uma proposta clara e objetiva de financiamento. Voltou a defender a velha posição da França de se criar um imposto sobre transações financeiras para ajudar a financiar os países mais pobres. Aqui também ele reclamou de faltar ambição.

A resposta veio na entrevista diária do Brasil à imprensa, quando o embaixador Figueiredo não podia ser mais claro do que foi: "Não se pode ter ambição de ação sem ambição de financiamento. Quem exige um sem o outro está sendo, no mínimo, incoerente." A tréplica esteve no discurso do presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, que delicadamente lembrou que a União Europeia e seus membros continuam sendo o maior doador de recursos aos mais pobres na busca das "prioridades do Rio".

As mais de mil ONGs pediram, em plenário, para se tirar do texto a afirmação de que foram ouvidas. A estrutura escolhida pelo Brasil, de primeiro fechar o documento e consagrá-lo como impossível de ser reaberto para o debate, desperdiçou o momento político do encontro dos chefes de Estado e revogou qualquer ambição que por acaso houvesse.

Os governantes ficaram na estranha situação de virem ao Rio apenas para tirar a foto e fazer a habitual sucessão de discursos. O que rebaixa os chefes de Estado a uma coleção de rainhas da Inglaterra. Eles vêm apenas para carimbar o que seus negociadores decidiram.

Esta é a maior reunião da ONU já feita. Pedida e preparada pelo Brasil. O tema é urgente. A necessidade de cruzar a questão ambiental com a econômica e social é imperiosa. A utilidade de ter uma agência como a Organização Mundial de Comércio na área ambiental e climática, que concentre os temas, é óbvia. Não é hora de perder tempo em definir o que é economia verde, porque todos sabem o que não é sustentável e quais são as inúmeras ações na transição para uma economia de mais baixa emissão de carbono.

Apesar de ser a reunião certa, na hora certa e no local certo, o Brasil - com o enorme poder de influência que tem o país sede - escolheu este caminho de fechar com três dias de antecedência, e passar a chave, num documento que é visto como fraco. Não pela imprensa, mas pelos próprios governantes.

A reunião desperdiça seus preciosos dias finais com formalidades. A Conferência está terminando, como definiu Hollande, "abaixo das nossas responsabilidades e de nossas expectativas".

Máfia do alvará - ROGÉRIO GENTILE


FOLHA DE SP - 21/06


SÃO PAULO - Kassab tem feito um esforço enorme para retirar do seu colo o escândalo da chamada "máfia do alvará". Mandou abrir investigação, demitiu funcionário público suspeito e até ameaçou fechar shopping center. Mas, até agora, ainda não conseguiu explicar por que deixou uma área tão sensível da gestão municipal nas mãos de personagens sobre os quais há anos pesam rumores nada lisonjeiros.

Hussain Aref Saab e seu grupo eram desconhecidos do grande público, mas nunca o foram entre os funcionários da Prefeitura de SP. Desde ao menos a gestão Pitta, da qual Kassab foi secretário do Planejamento e chefe do senhor Aref, o nome deste servidor e de colegas eram pronunciados entre ressalvas.

Embora não houvesse, até então, surgido provas contra Aref, um administrador mais cuidadoso teria pensado cem vezes antes de nomeá-lo para a chefia do Departamento de Aprovação de Edificações da prefeitura, setor no qual uma assinatura tem o poder de viabilizar ou de atravancar empreendimentos de muitos milhões de reais. Na sua passagem pelo cargo, Aref conseguiu adquirir incríveis 106 imóveis, estimados em R$ 50 milhões.

É de estranhar também o motivo de Kassab não ter, ao longo de sua gestão, criado algum sistema para verificar decisões que estavam sendo tomadas ali.

Há aprovações, por exemplo, que poderiam facilmente ter chamado a atenção pela velocidade com que foram expedidas. Levaram semanas, quando a praxe é demorar meses ou até mesmo anos. Questionado pela Folha se havia alguma fiscalização sobre o setor, o prefeito respondeu apenas: "Espero que sim...".

Kassab diz que sua atuação tem sido exemplar no episódio, muito duro diante das suspeitas de corrupção. Pode até ser. Mas, a bem da verdade, não seria injusto utilizar um outro adjetivo para definir a sua conduta nesses anos todos. O prefeito de São Paulo foi, no mínimo, negligente.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


FOLHA DE SP - 21/06


Região de Jaú é uma das mais propícias para energia eólica, diz estudo preliminar

A região de Jaú é uma das mais propícias no Estado de São Paulo para parques eólicos, segundo dados preliminares de levantamento encomendado pelo governo.

Outra região com potencial para gerar energia é a da cidade de São Roque. Uma terceira possibilidade seria a do planalto depois da Serra do Mar.

O secretário estadual de Energia, José Aníbal, reuniu-se na semana passada com os responsáveis pela elaboração do Atlas Eólico.

O estudo mostrará o potencial da energia gerada a partir de ventos no Estado. "Foram apresentadas apenas as informações preliminares", ressalva Aníbal.

Mas já há indícios de que essas três regiões, das sete que estão em análise, são as mais adequadas.

Há um ano e meio, iniciou-se a coleta de dados. O levantamento foi agora enviado para um laboratório dos EUA, que usa um programa computacional dinamarquês desenvolvido especialmente para projetos de energia eólica.

Com ele, será possível ter dados estatísticos sobre o vento, calcular suas características e a produção de energia de uma ou mais turbinas eólicas localizadas na região.

O estudo deve mostrar que o fator de capacidade bruto do Estado é de cerca de 35%, semelhante ao de alguns países europeus. Estados do Nordeste têm capacidade que pode superar 50%.

"Naturalmente, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo não terão a mesma capacidade de geração dos Estados das regiões Sul e Nordeste", diz a presidente da Abeeólica (associação do setor), Elbia Melo.

"O fator de capacidade será menor, mas os parques podem ser viáveis economicamente", acrescenta Melo.

O estudo final deve ficar pronto em 60 dias.

NÚMEROS

50% é o fator de capacidade bruto de alguns Estados do Nordeste, que já têm parques de energia eólica instalados

35% é o fator de capacidade estimado para o Estado de São Paulo

7 regiões são analisadas para gerar energia eólica

3 dessas regiões já aparecem como tendo maior potencial, entre elas a da cidade de Jaú

Diminui ritmo de alta da arrecadação em SP e MG

A arrecadação tributária do governo estadual de São Paulo continua positiva, mas a taxa de crescimento caiu, segundo o secretário da Fazenda, Andrea Calabi.

A arrecadação alcançou R$ 9,66 bilhões em maio, com queda de 2,8% em relação a abril e estabilidade ante o mesmo mês de 2011.

O valor acumulado até maio teve crescimento real de 2,2% ante o mesmo período do ano anterior. Nos últimos 12 meses, houve evolução positiva de 2,3%.

"Tínhamos projeção de crescimento real de 4%, com inflação de 5% para 2012, um crescimento nominal de 9%. Estamos abaixo do previsto, cerca de 1%", diz Calabi.

"A grande expectativa é em relação à economia no segundo semestre, que costuma ser melhor", afirma o secretário.

O que continua a se destacar é o crescimento da arrecadação de ICMS sobre importação, de certa forma a substituir a arrecadação que vinha da indústria.

Em Minas, o secretário estadual da Fazenda, Leonardo Colombini Lima, também observa recuo da arrecadação de ICMS, já divulgada.

Em maio, o resultado foi de R$ 2,48 bilhões e, em abril, havia sido de R$ 2,63 bilhões.

Entre os segmentos que tiveram recuo de arrecadação está o de veículos, com queda de 30,1% em maio ante abril, segundo o secretário.

FIVELA FRANCESA

Aberta no Brasil há apenas um ano, a grife de acessórios para cabelo Alexandre de Paris começa em julho as obras para a segunda unidade no país, no Shopping Iguatemi, em São Paulo, e já planeja outra loja na capital em 2013.

Mais duas filiais em outros Estados virão a seguir.

A inauguração da marca francesa no Brasil surpreendeu a matriz, segundo a representante da grife, Isabel Abucham. Os preços de fivelas e outros mimos vão de

R$ 50 a R$ 3.000, um conjunto de camélias com cristais Swarovski.

"A loja do Shopping Cidade Jardim já chegou a superar, em alguns meses, as vendas da grife na rua Saint Honoré, em Paris, e na Harrods, em Londres", afirma.

"Se continuarmos com esse desempenho, poderemos abrir na Argentina e no Chile", acrescenta.

A grife tem 150 unidades em 32 países.

SONO E BANHO

A qualidade da cama e a localização são as caraterísticas mais importantes para as pessoas de até 32 anos antes de escolher um hotel, segundo a consultoria Mapie.

Em cada dez entrevistados, sete responderam uma dessas características como a mais essencial.

Em seguida, aparecem a qualidade do chuveiro e o design do hotel, com 57% e 46%, respectivamente.

"O planejamento é muito tradicional. Para os jovens, uma fachada atrativa é cada vez mais importante", diz Carolina Haro, sócia da consultoria. A pesquisa, que será divulgada hoje, foi feita com cerca de mil pessoas.

TESTE ECONÔMICO

O Brasil foi o país onde a avaliação do panorama econômico mais piorou em maio, segundo pesquisa da Ipsos.

Em abril, 59% dos brasileiros ouvidos pela empresa avaliaram a situação do país como boa. No mês passado, esse número caiu para 49%.

A média global diminuiu em um ponto percentual e ficou em 37% -o nível mais baixo desde 2009.

A Arábia Saudita é o país mais otimista, com 88% da população considerando boa a economia do país. Índia e Alemanha aparecem em seguida, com 70% e 69%, respectivamente.

Foram ouvidas cerca de 35 mil pessoas em 24 países.

Nada é suficiente - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 20/01


Geralmente, quando uma peça está completando sua primeira hora de duração, as pessoas começam a se movimentar na cadeira, numa linguagem corporal que avisa: tempo esgotado. Já fizemos nossa parte, viemos ao teatro, então, por gentileza, não abusem da nossa paciência, que estamos com fome e queremos jantar. Pois quem assiste a A Primeira Vista, com Drica Moraes e Mariana Lima, além de não se inquietar na cadeira, tem vontade de perguntar assim que o espetáculo termina: “Já?”.

Eu, pelo menos, lamentei não ficar até meia-noite assistindo a essas duas incríveis atrizes num levíssimo exercício de atuação que envolve tudo o que mais prezo na vida: a simplicidade, o bom humor, o afeto e a poesia – não necessariamente o poema em verso, mas o olhar poético que deveríamos resgatar todos os dias para viver com menos embrutecimento e mais ternura.

Falou em leveza, falou em bom humor: ah, só pode ser abobrinha. Longe disso. A peça, a que assisti cerca de um mês atrás no Rio (e que estará em Porto Alegre no próximo fim de semana e em Pelotas na terça, 26), é sofisticada em sua economia, refina os sentidos e faz um convite à reflexão: “Nada é suficiente”. É a frase que norteia o texto do canadense Daniel MacIvor : “Nada é suficiente”. Que leitura você faz disso?

Que nada nos serve? Que queremos sempre mais? Para muitas pessoas, é assim. Elas mantêm a angústia da perseguição. Nem sabem o que estão perseguindo, só sabem que não conseguem se satisfazer com o que têm.

Pois a frase pode ser lida de outro modo: o nada basta. Não precisamos de tanta racionalização, de tantos planos, de intermináveis discursos e indiscrições para ocupar nosso vazio. O nada é o silêncio. O nada é o sentimento pelo sentimento. O nada é a contemplação da natureza. O nada é a paz. Essa paz que tanto desejamos, sem saber o que fazer com ela quando a alcançamos.

Cada um entende a frase conforme o momento que está vivendo. Mesmo reconhecendo que a segunda leitura é meio odara para estes tempos frenéticos, é com ela que ando comungando atualmente. Menos blá-blá-blá, mais ukelelê – o instrumento usado pelos havaianos cujo som é quase infantil e que tem na peça sua função enternecedora. Uma vida unplugged, não é um sonho?

Pra mim, foi. Foi um sonho ver duas atrizes afinadíssimas entre si, dirigidas pelo competente Enrique Diaz e extremamente bem iluminadas – em todos os sentidos. Drica e Mariana simplesmente interpretam a inutilidade de ficarmos interpretando tudo. Genial.

Aliás, melhor mesmo nem interpretar a atitude do Lula ao se aliar com o Maluf para garantir 1min35seg a mais de propaganda eleitoral na TV. Decência, dignidade, tudo escorrendo pelo ralo, e o Brasil mais uma vez tendo que assistir ao pior tipo de teatro, esse horror show da nossa política.

E a Europa sai dizendo não - ALBERTO TAMER


O Estado de S.Paulo - 21/06



A reunião do G- 20 terminou declarando prioridade para o crescimento, mas a União Europeia entrou e saiu dizendo não. Não apenas um não, mas vários "nãos." Não foi uma reunião dos países do G-20, foi dos 19 contra a Alemanha, que se mantem intransigente na tese de que primeiro é a austeridade fiscal, mesmo passando pela recessão em alguns países membros, e depois o crescimento.

O "não" de Barroso. E não há sinal de mudanças no curto prazo. Se havia alguma esperança na reunião dos governos da Eurozona, marcada para a próxima sexta-feira, ela morreu logo no início do encontro.

O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, afirmou categoricamente: não esperem nada. A reunião de sexta-feira não é para decidir nada, mas vai aprovar apenas uma "agenda" e abrir caminhos para a solução da crise financeira. Depois disso, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, desabafou: "Os mercados e a população perderam a confiança nas soluções para a crise do euro." Ninguém confia mais porque a crise já dura três anos, e levaram dois só para aprovar o fundo de estabilidade financeira que entra em vigor em julho, e mais nada.

Não é só a Alemanha. O problema não é mais a Alemanha em si. Não é o que ela não faz - evitar o caos do sistema financeiro que vai além da Europa - mas o que ela não deixa os outros países do bloco fazerem.

Veta gastos em investimentos, em incentivos para a demanda interna, realização de obras para criar empregos. Merkel está brigando com a nova França de Hollande, que defende uma revisão da política atual de dar prioridade ao severo ajuste fiscal deixando o crescimento para depois.

A reunião do G-20 acaba de aprovar exatamente o contrário, querem que os governos estimulem mais a demanda interna, mas, atentem, apenas sete países concordaram com isso - Brasil, Austrália, Estados Unidos, Canadá, China, Indonésia e Coreia do Sul. E mesmo assim, se a situação piorar, a Europa ficou fora. Só Hollande discordou, não aceita a imposição da Alemanha que atinge direta ou indiretamente todos os países da União Europeia. Seu presidente Durão Barroso, reagiu na reunião do G-20 e protestou que a Europa está cansada de ser o saco de pancada do mundo.

Não é Europa, é a Alemanha que, sozinha, vem e continua impedindo um plano urgente e ousado de investimentos e obras. Só isso vai impedir que o desemprego passe de 11% este ano, que a economia caia na recessão - já recuou 0,5% este ano e aponta para menos nos próximos meses, sem qualquer sinal de recuperação.

Hollande protesta, Cameron se isola, mas a palavra final e intransigente continua sendo da senhora Merkel. Pode-se até compreender sua atitude ao dizer no Congresso, não contem com a Alemanha, que não aceita a interferência externa de ninguém - reafirmada no G-20. Ela não quer perder eleições, não quer deixar o poder. Mas a União Europeia é grande demais e está levando a economia mundial a crescer talvez menos de 2% este ano. Mais uma vez, tudo depende de Berlim. De novo.

Fed ajuda. Bernanke disse ontem que o Fed está pronto para dar uma ajuda à Europa. Ontem, estendeu para até o fim do ano a compra de US$ 267 bilhões de títulos do Tesouro de curto prazo para revender a longo prazo. Já comprou até agora US$ 400 bilhões e emitiu, criou, imprimiu direta ou indiretamente, quase US$ 3 trilhões e está pronto a emitir mais porque a economia ainda não reagiu. Ajuda, mas pouco resolve se do outro lado do Atlântico, o maior bloco econômico do mundo, a União Europeia, não reagir. E não reagirá enquanto a senhora Merkel continuar pensando só na sua eleição e dizendo não.

O crime compensa? - ELIANE CANTANHÊDE


FOLHA DE SP - 21/06


BRASÍLIA - Há uma enorme perplexidade, sobretudo em Brasília, diante dos sucessivos erros de Lula depois de sair da Presidência e assistir, da planície, ao sucesso de Dilma no Planalto e nas pesquisas.

A aliança de Lula com Paulo Maluf, porém, tem uma lógica eleitoral (certa ou errada) e combina perfeitamente com todos os movimentos de Lula durante seus oito anos na Presidência, resumidos numa frase: vale tudo pelo poder.

Ao juntar-se a Maluf e anunciar a aliança no "bunker" malufista, diante de uma multidão de fotógrafos, Lula sobrepôs o que considera ganhos eleitorais (quantitativos) a inevitáveis perdas políticas (qualitativas).

Explico: ele vendeu o PT a Maluf por um minuto e meio e pelo ainda forte capital de votos de Maluf em setores conservadores e na periferia da capital paulista. E deu de ombros para a evidente reação de petistas, tucanos ou marcianos.

Fazendo o cálculo, Lula concluiu que valia a pena prestar-se ao que Luiza Erundina chamou ontem de "higienização" de Maluf. A imagem do PT? Já não anda lá essas coisas mesmo desde o mensalão...

Pragmatismo em puríssimo estado, tão ao gosto de quem se atirou com tanto prazer nos braços de Collor, de Sarney, de tantos outros inimigos históricos do PT. E, quando se fala de Maluf, a questão não é ideológica, programática, política. A questão é visceralmente ética.

Registre-se, de quebra, o protagonismo de Lula e a inexpressividade do próprio candidato Fernando Haddad. Em todos os episódios, com Marta, Kassab, Maluf, Erundina, ele parece um mero figurante, de cabelo novo, roupa nova, sorriso novo e completamente dispensável -seria deselegante falar em marionete.

Um efeito prático no grave erro político do abraço a Maluf, portanto, é que Haddad vai aumentar e Lula vai reduzir a presença em cena. Nos bastidores, porém, continuará ensinando ao pupilo que o crime compensa.

O consenso do quase nada - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 21/06



O negociador-chefe do Brasil na Rio+20, embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, considerou nada menos do que "estupendo" o resultado do trabalho da diplomacia brasileira para obter das 193 delegações presentes à conferência a aprovação ao texto oferecido aos seus chefes de Estado e governo que ontem inauguraram a cúpula propriamente dita, a terminar amanhã. De fato, o exaustivo esforço do Itamaraty na produção do documento foi bem-sucedido, ainda mais levando em conta os impasses que outros países não conseguiam superar, praticamente obrigando a nação anfitriã do evento a assumir a condução do processo. Mas o eufórico termo usado pelo embaixador trai uma deformação profissional.

Diplomatas consideram um triunfo da atividade negociadora que é a sua razão de existir a aceitação de um documento pelos participantes de congressos internacionais. Naqueles em que as propostas ou são aprovadas por unanimidade ou de nada valem, como é o caso desta Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, faz sentido que os diplomatas passem noites em claro tentando chegar a uma versão do texto final palatável para todos. A alternativa seria a Rio+20 terminar sem acordo nenhum, o que representaria, além de um fracasso político generalizado, mas principalmente para o Brasil, uma derrota ainda maior do próprio sistema multilateral criado para enfrentar a mudança climática que abala o planeta.

Ambas as ameaças foram evitadas, bem como o risco de um retrocesso em relação às decisões tomadas na conferência-mãe, a Rio 92. Nela, adotaram-se documentos sem precedentes, como as convenções do clima e da biodiversidade, fincou-se o conceito de sustentabilidade - as práticas desejáveis que satisfaçam as necessidades humanas no presente sem privar disso as gerações futuras - e se instituiu o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas. Esta é a pedra de toque da repartição dos custos da defesa ambiental: os países que prosperaram historicamente graças ao uso dos combustíveis fósseis causadores do aquecimento global devem ser os principais pagadores da contenção do desastre climático.

Nenhum dos avanços de dois decênios atrás foi revertido, embora a deterioração continuada dos ecossistemas exigisse da comunidade internacional iniciativas mais robustas em menos tempo. E foi isso que a Rio+20 deixou de fazer. O "estupendo" consenso diplomático só foi alcançado mediante a retirada do texto de quaisquer propostas efetivamente substantivas - que, por isso mesmo, foram rejeitadas por uns ou outros grupos de países. Os ricos varreram do documento da conferência, entre outras coisas, a ideia de um fundo de US$ 30 bilhões com o qual teriam de arcar para transferir aos pobres tecnologia de mitigação dos danos ambientais. Capitaneados pelos Estados Unidos, esvaziaram também o projeto brasileiro de novas regras para a exploração oceânica.

Os pobres, de seu lado, conseguiram descolorir a noção de economia verde, alegando que ela poderia ser invocada pelas nações desenvolvidas para impor barreiras comerciais - o "ecoprotecionismo". E por aí se foi, de generalidade em generalidade, até se chegar ao consenso do nada, ou quase nada. Estabeleceu-se apenas que um comitê de 30 países, a ser criado pela ONU, deverá propor até 2014 um modelo de arquitetura financeira para a defesa da Terra; nenhuma palavra, agora, sobre cifras, prazos e pagadores. Pior ainda, não se anteciparam nem temas nem metas para a definição, remetida à mesma data e também a cargo de um comitê, dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a grande esperança da Rio+20.

Quando salvar o multilateralismo, sustar o retrocesso na frente ambiental e transferir decisões críticas para o futuro é "uma vitória", como decretou a presidente Dilma Rousseff ao deixar a reunião do G-20 no México para abrir ontem o evento do Rio, o pessimismo dos ambientalistas é plenamente justificado. Os governos agem como se tivessem todo o tempo do mundo para conter o impacto das transformações com que o homem vem onerando o planeta. Mais grave do que o desacordo entre os líderes nacionais é a sua falta compartilhada de senso de urgência.

Desencontros - LUIS FERNANDO VERISSIMO


O GLOBO - 21/06


Me desencontrei algumas vezes com ele. Quando cheguei ao Rio em 1962 - sem emprego, sem dinheiro, sem perspectivas, mas com amigos -, a Clarice Lispector se ofereceu para marcar um encontro meu com ele. Talvez houvesse algo para mim na agência em que ele trabalhava - ou dirigia, não me lembro mais. Também não me lembro se cheguei a falar com ele por telefone. Acho que não, e que nunca sequer ouvi a voz do Ivan Lessa. De qualquer maneira, o encontro não aconteceu. Depois, na minha convivência esporádica com o Millôr, o Jaguar, o Ziraldo, o Tarso e outros na época do Pasquim, por alguma razão o Ivan nunca apareceu. Estava sempre para chegar ou tinha acabado de sair. Anos mais tarde um grupo foi convidado a ir a Portugal - Millôr, os Caruso, Aroeira, eu e outros - para uma exposição de cartuns, se não me falha de novo a memória. Estávamos hospedados num hotel de Estoril e foi anunciado que o Ivan Lessa, que vivia em Londres, estava na terra, onde vivia sua mãe, e iria se encontrar conosco no hotel. Finalmente, pensei. O mito vai virar gente e eu vou poder conhecê-lo e dizer como o admiro. Mas me convocaram para uma entrevista ou coisa parecida em Lisboa justamente na hora da visita dele. Foi nosso último desencontro. Agora não tem jeito. Fiquei só com o mito.

Chega. O Ivan Lessa pouco depois do Millôr... Este está sendo, definitivamente, um ano mal-humorado.

Realpolitikagem. "Realpolitik" é um termo conveniente para desculpar o baixo oportunismo, contradições ideológica e calhordice em geral. O termo nasceu na Alemanha e tem uma longa história, sendo invocado sempre que um acordo ou um arranjo político agride o bom senso ou a moral. Há uma graduação na "realpolitik" que vai do tolerável (uma acomodação com o vizinho do lado para assegurar a paz no prédio, mesmo tendo que aceitar o cachorro) ao indefensável (o pacto Stalin/Hitler no começo da Segunda Guerra Mundial, por exemplo). É difícil saber onde colocar o pacto Lula/Maluf nessa escala. O hipotético acordo com o vizinho é um sacrifício pelo entendimento e o Stalin estava tentando ganhar tempo até ter um exército. No acordo com o Maluf trocou-se uma história e uma coerência por um minuto e pouco a mais de espaço para o candidato do PT na TV. Ó Lula!

A sorte de Haddad - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 21/06

O petista não teria a esperar senão problemas de convivência com Erundina, e dela com a campanha



FERNANDO HADDAD ganhou, e não foi pouco, com a renúncia de Luiza Erundina a vice em sua candidatura a prefeito paulistano. Não tardaria a que o problema para Haddad, e não pequeno, fosse superar os previsíveis embaraços provocados pela maneira irascível, grosseira e individualista que Erundina se permite a pretexto de política.

Luiza Erundina é inconvivível politicamente. Já em seus últimos tempos no PT, a recusa rígida que manteve, diante de dirigentes do partido, ao exame das divergências, deixou mais do que frustração. Há ressentimentos pessoais inapagados até hoje. E motivadores de muitas das reações negativas, nos quadros mais altos do PT, à entrega da vice a Erundina.

Ao menos desde o governo Itamar Franco, que a homenageou com um cargo no governo por escolha sua, de presidente, ficou claro o que significa a proximidade política com Erundina. Do início ao fim de seu breve trânsito pelo governo, Erundina mais pareceu da oposição dura. Até o rompante final em que exibiu arrogância e presunção incapazes de poupar mesmo a quem a homenageara.

Fernando Haddad não teria a esperar senão problemas de convivência com a vice, da vice com a campanha e, bem provável, com segmentos do eleitorado. Mas no PT e no PSB isso não era -não poderia ser- ignorado por nenhum dos que produziram a "ideia" de dar a vice a Luiza Erundina.

A ansiedade de Lula de impor o seu plano para Recife, cassando ao prefeito João Costa o direito à possível reeleição, pode explicar parte da escolha. Mas nada explica que ao ato autoritário, com que atendeu o governador Eduardo Campos, Lula sobrepusesse falta de lucidez a ponto de aceitar Erundina, tão bem conhecida por ele, para representar o PSB junto a Haddad.

O desgaste maior recai sobre Lula, ainda mais por ser o caso Erundina caudatário do acordo com Paulo Maluf. Mas Fernando Haddad também recebe a sua quota. Por mais sorte sua, o episódio se dá quando nem campanha há ainda. É daqueles que tendem a evaporar sozinhos, se os planos estaduais de Lula permitirem.

Ao esquentar da campanha, também o acordo com Paulo Maluf não será o prato saboroso que o PSDB de José Serra espera.

Há muito noticiário impresso e gravado, muitas declarações e evidências de que o acerto com Maluf era buscado também pelos peessedebistas. E negociado pelo próprio governador Geraldo Alckmin, cuja administração conta com um afilhado de Maluf. Matéria-prima abundante para respostas (senão ataques) contundentes.

Fernando Haddad é o único que nada perdeu com a renúncia de Luiza Erundina. E ganhou, no mínimo, a oportunidade de uma companhia na chapa mais ao seu estilo.

CLAUDIO HUMBERTO

“A estas alturas, já deve ter percebido o fora que deu”
Deputada Luiza Erundina (PSB-SP) sobre Lula, após negociar acordo com Paulo Maluf

RIO+20 PODE MARCAR A DESPEDIDA DE PATRIOTA

A reconhecida eficiência dos diplomatas brasileiros, reiterada na organização da Rio+20, pode ter alterado a situação do ministro Antonio Patriota (Relações Exteriores), mas sua demissão é aguardada para depois do evento. Apesar das aparências, a presidente Dilma não gostou do fracasso brasileiro na negociação do documento-base, considerado – também por ela, na intimidade – sem ambição e vago.

OPÇÕES

O “megalonanico” Celso Amorim pode substituir Antonio Patriota, mas a mais forte opção de Dilma Rousseff é José Maria Bustani, embaixador em Paris.

FRACASSO RECENTE

Dilma havia se irritado durante sua visita a Washington. Mal negociada, foi a visita menos importante de um presidente brasileiro em décadas.

MAIS OUSADIA

Nos EUA, Dilma cobrou mais ousadia de Patriota, e depois, amuada, boicotou parte dos festejos do Dia do Diplomata, em 20 de abril.

PROGRAMA DE ÍNDIO

Representantes de várias etnias passaram aperto, longe dos holofotes da Rio+20. Dormiram no chão frio do Sambódromo, sem banho.

ERUNDINA MANTÉM O PSB PRÓXIMO DOS TUCANOS

A saída da deputada Luiza Erundina (PSB-SP) da chapa de Fernando Haddad não reflete apenas sua indignação com a aliança do PT-Maluf. Ela dá pretexto ao PSB, que em São Paulo sempre andou colado aos tucanos, para afastar-se do palanque petista. E ajuda o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, cacique socialista, a dar mais um troco no PT por conta das problemáticas alianças em Recife e Fortaleza.

‘BRIMO’

A aliança PT-Maluf lembra aquele primo rico distante, que come todas as esfihas do convidado e ainda sai chamando-o de “pão duro”.

POLUIDOR ESNOBE

O presidente da China, Hu Jintao, deu uma banana para a Rio+20. Achou mais relevante visitar as ilhas Canárias, onde chegou ontem.

MARAJÁ AFRICANO

O ditador Robert Mugabe, 88, que manda no Zimbábue há 32 anos, está na Rio+20 com a mulher e 92 assessores.

CIRCO DOS HORRORES

É hilariante assistir na Rio+20 ao lixo nuclear Mahmud Ahmadinejad (Irã) e tiranos africanos, todos fantasiados de ambientalistas, dando lições de “desenvolvimento sustentável”.

NE ME QUITTE PAS

É grande o empurra-empurra, o não-é-bem-assim do governo, mas a compra dos 36 caças Rafale continua bem próxima do horizonte da França e do Brasil e, para variar, quem terá a última palavra será Lula.

JUSTIÇA CEGA

Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, a ministra Cármen Lúcia, ironizou o apagão de energia na última reunião: “Não tem problema, podemos continuar o julgamento. Afinal, a Justiça é cega”.

TÔ FORA

O Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas, saiu da lista do Banco Mundial de corruptos internacionais, após apresentar a nulidade das provas da operação Satiagraha no STJ. Maluf, da Interpol, não teve jeito.

MÁQUINA INCHADA

Coordenador no Distrito Federal da Frente para Fortalecer a Gestão Pública, o deputado Antônio Reguffe (PDT) defende a “redução do número de ministérios e cargos comissionados”: “Só no governo, são 23 mil”.

OLHO DA RUA

O presidente do Banco do Nordeste, Jurandir Santiago, não resistiu à denúncia de que um cheque de R$ 100 mil para financiar kits sanitários em casas pobres do município de Ipu (CE) teria parado, em 2009, na conta de um posto de gasolina do qual era sócio com um engenheiro da prefeitura.

REFÉNS DA GREVE

A greve no Ministério das Relações Exteriores já atinge 83 postos, prejudicando os brasileiros que vivem lá fora ou estão em viagem ao exterior. Eles encontrarão os serviços consulares de portas fechadas.

FIASCO

Um documento final pífio, uma reunião de desimportantes do mundo com um bando de ecochatos, eis o resumo da Rio+20, a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável.

NA MIRA DO DESTINO

Não sai a reforma política, mas entra o 30º partido: PEN, o Ecológico Nacional, número 51. Seus filiados serão penistas? Penados?

PODER SEM PUDOR

O PULO DO GATO

Inimigos, Carlos Lacerda e Juscelino Kubitschek se encontram para articular a Frente Ampla, em oposição ao regime militar. Levaram horas conversando. A certa altura, Lacerda quis saber um velho segredo:

– Como o sr. lembra o nome de todo mundo? Já tentei vários sistemas e nenhum funcionou.

– Eu não lembro. – revelou JK – Mas o sujeito não quer que você se lembre, quer pensar que você lembrou. Então, eu abraço a pessoa e pergunto baixinho: “Como é mesmo seu nome inteiro?”. Aí, termino o abraço e digo bem alto: “Como vai, fulano?”. E todos ficam satisfeitos.

QUINTA NOS JORNAIS


Globo: ONGs rejeitam documento da Rio+20; ONU cobra ambição
Folha: Militares vigiaram Dilma durante o governo Sarney
Estadão: Comissão aprova farra dos salários
Correio: Deputados tramam fim do teto salarial
Valor: Investimento tem forte expansão nas capitais
Estado de Minas: No limite da irresponsabilidade
Jornal do Commercio: Greve do metrô é suspensa
Zero Hora: Em meio a críticas, só Brasil confia em sucesso da Rio+20

quarta-feira, junho 20, 2012

Lula malufou para Maluf lular - JOSÉ NÊUMANNE


O ESTADÃO - 20/06



Há nos afagos entre o ex-governador Paulo Maluf (PP-SP) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP), sob os olhares embevecidos de Fernando Haddad, mais filustria do que possa perceber nossa vã filosofia. Mas, por incrível que pareça, há também muita sintonia. Ou, como reza o título do romance famoso de Goethe, Afinidades eletivas. Como? - perguntará o leigo desabituado aos vaivéns da política, que o ex-governador de Minas e banqueiro Magalhães Pinto comparava com a mutação das imagens formadas pelas nuvens no céu. Ele mesmo comprovou sua metáfora fundando o PP com seu principal adversário mineiro, Tancredo Neves - um, ex-UDN, outro, ex-PSD -, aparentemente inconciliáveis. Os mais ingênuos dirão que não há traços ideológicos comuns entre o PT de Lula e o PP atual, que conta entre seus mais fortes dirigentes com um sobrinho do presidente que foi sem nunca ter sido, como a Viúva Porcina, Francisco Dornelles, também aparentado do caudilho gaúcho Getúlio Dornelles Vargas. Ora, ora, mas quem está interessado em ideias? Na política contemporânea contam cargos na máquina administrativa pública e segundos no horário da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV. O PP ficou com um cargo; o PT, com mais 95 segundos para vender seu peixe fora d'água ao eleitorado escaldado, como sempre o foi o paulistano.

Maluf nunca deixou de ser o que dele dizia Lula nos tempos em que encarnava o furibundo João Ferrador, personagem das greves do ABC lideradas por ele nos jornais dos metalúrgicos nos anos 70 e 80 do século 20: um "filhote da ditadura". Prefeito nomeado pelos militares para administrar a maior cidade do País, o ricaço descendente de libaneses ganhou de seus admiradores a imagem do realizador, tocador de obras. O símbolo desse gestor que faz mais é o horrendo Minhocão, sem o qual hoje o trânsito paulistano não fluiria. Seus detratores, entre os quais os petistas que estão no poder federal e os tucanos que governam o maior Estado da Federação, o rotularam como símbolo da malversação do ensebado dinheiro do Zé Mané, que paga impostos e quase nada recebe em troca do Estado. Essa moeda de duas faces, não necessariamente excludentes nem sequer opostas, poderia ter a inscrição "rouba, mas faz" do velho Adhemar.

Mas Lula está longe de ser o demônio execrado pelos malufistas de antanho como um perigoso inimigo do mercado e da democracia, um sindicalista subversivo que liderava grevistas furiosos no ABC e se deixou, depois, politizar por antigos guerrilheiros que queriam mudar o sinal de uma ditadura de direita por outra de esquerda. Mais longe ainda está o PT, que o sindicalista fundou, de sua imagem original de partido ideológico comprometido com a mudança de "tudo o que está aí". Atolado até o pescoço num pântano de corrupção e desmandos em administrações municipais, estaduais e federal, o partido se deixou levar pelo canto da sereia da conciliação de seu principal líder e ocupou o bote salva-vidas ao lado de Jader Barbalho, Severino Cavalcanti e... Maluf.

Para sobreviver no campo minado da política partidária brasileira, Lula trocou os piquetes do ABC pelo toma lá dá cá franciscano, superando os aliados que combateu antes de cingir a faixa presidencial. Para tanto adotou, sem pejo, a retórica dos cultores da velha realpolitik tupiniquim. Nisso o milionário da madeireira foi um mestre valioso para o aplicado estudante egresso do miserável semiárido nordestino. Se não o superou em cinismo, tarefa reconhecidamente hercúlea, cultiva a caradura com eficiência ainda maior. Pilhado em algum passo em falso, aplica fintas que nem Mané Garrincha foi capaz de incluir em seu amplo repertório. E com muito mais credibilidade do que as tentativas de drible que seu mais recente aliado tem repetido para tirar o pé das armadilhas dos repórteres maledicentes e dos promotores incansáveis que vasculham as contabilidades de suas gestões. O dono do PP já foi muitas vezes alcançado pelos braços longos da lei, mas nessas ocasiões, até agora, escapou desse abraço escorregando como bagre ensaboado para o amplo território da impunidade do país da Justiça lerda e vesga. O senhor do PT lança mão de súditos que assumiram bandalheiras que chegaram pertinho de seu gabinete palaciano e se tem saído com habilidade de invejar Arsène Lupin, protagonista de populares folhetins policiais. Posto diante das evidências de que, no mínimo, não ignorava o que faziam seus auxiliares na fraude dita "mensalão", saiu-se com a patacoada tornada dogma de fé de que tudo não passara de "intriga da oposição".

É notório - e não deixa de ser ridículo - o truque chinfrim de marketing de Maluf de se apropriar de quase tudo o que pareça plausível de ter sido obra dele desde a posse de Tomé de Souza como governador-geral. Lula foi adiante em esperteza e criatividade ao criar o próprio slogan, "nunca antes na história deste país". Maluf sabia que nunca precisaria comprovar afirmações duvidosas. Lula construiu o próprio mito de forma a nem sequer ser questionado a respeito.

Maluf foi beneficiário do arbítrio. E Lula tornou-se dirigente sindical atendendo ao anseio de parte dos militares que topavam tudo para impedir a influência de Leonel Brizola, herdeiro presuntivo do inimigo número um das casernas, Getúlio Vargas, no aparelho sindicalista que o caudilho de São Borja forjou. Com as greves, o esperto sobrevivente da pobreza do semiárido passou a simbolizar o ideal do povo brasileiro cultivado pela esquerda que ganharia nas urnas a guerra perdida na tentativa de tomar o poder com as armas. Maluf foi escorraçado dos palácios e virou uma aposta perdida de volta da direita ao topo.

Neste ambiente em que governabilidade justifica barganha e pouca vergonha se confunde com pragmatismo, Lula malufou para Maluf lular, enfurecendo os tucanos que perderam a chance de preceder o PT no afã.

Socuerro! Maluf rouba a cena! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 20/06


Mas o Maluf nunca mentiu: "Eu não tenho dinheiro no exterior". Não tem mesmo. O dinheiro é NOSSO! Rarará!


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Socuerro! Salve-se quem puder! Todos para o abrigo! TURCOCIRCUITO EM SAMPA! O Maluf roubou a cena! De novo?! Essa aliança do Lula com o Maluf não é uma aliança, é algema!

O Lula achou o Maluf antes da Interpol! E um cara no meu Twitter: "Maluf mais Haddad vira MALDDAD!" E adorei a charge do Frank: Sabe o que o Lula falou pra estrelinha do PT? "Deixa de bobagem e dá um abração no Titio Maluf".

Mas o Maluf ainda dá voto. Um amigo meu vota até hoje no Maluf por três motivos: 1) Rouba, mas faz. 2) Mente, mas não convence. 3) É culpado, mas ninguém prova. E o Lula vai na Ana Maria Braga dar receita de "frango à Maluf": Primeiro você rouba o frango, depois você faz como quiser mesmo. Rarará!

E essa: "Lula acusa Maluf de roubar um de seus dedos". Rarará! Mas o Maluf nunca mentiu: "Eu não tenho dinheiro no exterior". E não tem mesmo. O dinheiro não é dele. É NOSSO! Rarará!

E o Rio+20? Rio+20 peitos de fora! Adorei a Marcha das Mulheres. Todas batendo bumbo e de peito de fora. E uma levantou a placa: "Gastei um dinheirão nesse peitão". O que prova que feminista também tem humor.

E matam tanto líder ambiental no Pará, que não é mais desmatamento, é "matamento"! Então a Amazônia está com dois problemas: desmatamento e "matamento"! E um amigo disse que a Amazônia devia virar um resort: Faz 18 buracos e vira campo de golfe! E no Rio+20 só pode usar ipad orgânico e camisinha de polpa de buriti!

E um ecologista radical: "A raça humana é a maior peste do planeta". O que ele sugere? Suicídio em massa? Só falta eles levantarem o cartaz: "Extingam os humanos! Salve o planeta!". Toda vez que tem cópula climática eu acordo com medo e com culpa! A minha simples existência já prejudica o planeta! E sabe o que o planeta disse pros ecologistas radicais? "Não me encham o saco. Deixem-me morrer em paz!".

E é hoje que o Brasil para! Libertadores: Santos X Corinthians. Peixe X Gambá! Os corintianos gastaram todo o dinheiro da mistura em fogos. E os santistas gastaram todo o dinheiro da aposentadoria em fogos! Tudo bem, contanto que nenhum corintiano estoure rojão no portão do meu prédio!

Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Na retranca - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 20/06

O momento mais difícil dos últimos dias para o Itamaraty foi quando a União Europeia ameaçou, na segunda-feira, não levar o documento aos níveis superiores, o que significava sair das negociações. O momento de maior alívio para a diplomacia brasileira aconteceu ontem, ao meio-dia, quando o documento foi aprovado. A estratégia foi tirar o que incomodasse qualquer grupo. A soma dos vetos desidratou o texto O Futuro que Queremos.

A partir de hoje começa a reunião dos chefes de Estado, e o texto está fechado. A comissária europeia para a Ação Climática, Connie Hedegaard, desabafou no Twitter: "Riomais20, muito ’tomam nota’ e ’reafirmam’ e pouco ’decidem’ e ’se comprometem’." De fato, dos 20 primeiros parágrafos, cinco começam com "reconhecemos", e seis, com "reafirmamos".

Na entrevista coletiva, as autoridades brasileiras repetiram com palavras diferentes o mesmo recado. "Foi possível assegurar o não retrocesso", disse a ministra Izabella Teixeira, do Meio Ambiente. "Depois de uma longa batalha confirmamos os princípios do Rio", disse o ministro Antonio Patriota, referindo-se à conferência de 20 anos atrás. O embaixador Figueiredo também comemorou ter sido possível "preservar e não retroceder". O negociador André Corrêa do Lago disse que foi "possível reiterar e não ir para trás".

Some essas declarações e você entenderá o que houve. O Brasil jogou na retranca. O importante passou a ser reafirmar o que foi estabelecido há 20 anos. Assim, o futuro que queremos ficou com a cara do passado que tivemos.

E não fomos felizes no passado. O Brasil, como já disse aqui, desmatou em 20 anos uma área equivalente a São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo somados. A China mais que duplicou as emissões dos gases de efeito estufa. Estados Unidos, Brasil, China, Índia não assinaram o Protocolo de Kioto e isso aumentou as muitas falhas do único acordo de redução de emissões já assinado. Depois de 15 Conferências das Partes, o mundo não tem um novo acordo global de emissões dos gases de efeito estufa. O acordo de proteção da biodiversidade não impediu o desaparecimento de inúmeras espécies.

O Itamaraty teve medo de que a reunião fracassasse por não fechar o documento. O Brasil é que propôs a reunião. Na época, a proposta foi mal recebida por muitos. Vários países disseram que o ciclo das grandes conferências da ONU já havia se esgotado. A insistência e a articulação do Brasil, da qual participaram ONGs internacionais, levaram à aprovação do encontro.

O Brasil trabalhou para evitar que esta fosse uma espécie de COP-17 e meia, ou seja, não quis que fosse sobre a questão climática. Se as duas últimas reuniões, de Cancún e Durban, fossem mais bem sucedidas, aqui poderia ser o local da assinatura do tão sonhado acordo global das emissões dos gases de efeito estufa. Por isso, o Brasil manobrou para evitar essa estrada interditada e propôs que o tema fosse "desenvolvimento sustentável". Negociou para que a reunião estabelecesse objetivos de desenvolvimento sustentável e decidisse qual órgão passaria a comandar a questão ambiental na ONU. Parecia uma trilha, mas reuniões preparatórias foram uma sucessão de impasses. Na quarta-feira da semana passada, os delegados se debruçaram sobre um documento apenas 30% fechado. Ontem, o Itamaraty se congratulava por estar com ele 100% aprovado.

Para isso teve que abandonar a ideia de transformar o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) na agência ambiental da ONU. Os Estados Unidos vetaram a agência porque têm medo de interferência em sua política interna. A União Europeia queria muito que o Pnuma ganhasse poderes de agência. A solução foi pôr no documento que o órgão será fortalecido. Em vez de ter apenas 52 membros, será universal. Terá mais dinheiro e pode ser promovida. A que e quando, o documento não diz.

O fundo de US$ 30 bilhões que seria criado desapareceu. Agora há apenas a decisão de criar uma comissão de especialistas intergovernamentais, que vai até 2014 estabelecer mecanismos financeiros para garantir recursos. O que atrapalhou aqui foi a insistência da China, com Brasil e Índia, de manter intocado o princípio das "responsabilidades comuns porém diferenciadas". Esses países não querem pagar o preço de terem crescido. Fica mais absurdo no caso da China, a maior chaminé do mundo.

Seriam lançados aqui no Rio os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Ficou assim: os chefes de Estado reconhecem a importância de ter objetivos. Vai se constituir um grupo de trabalho na próxima assembleia da ONU, que fará um relatório para a reunião do ano que vem.

Houve um momento nos últimos dias de tensas e longas negociações que o Brasil dava como certo que haveria um acordo sobre oceanos que permitiria a negociação de legislação sobre águas territoriais. Estados Unidos e Venezuela ficaram contra. Foi a mais exótica aliança da reunião.

O Brasil recolheu os vetos, avançou para o passado e confirmou a Rio 92. A diplomacia brasileira diz que foram lançadas pontes para decisões futuras. Resta torcer pelas pontes. Hoje começa a reunião dos chefes de Estado. O Brasil comemora o fato de que há um texto aprovado sobre a mesa.

Melvinia e Sally, negras americanas - ELIO GASPARI

FOLHA DE SP - 20/06


Michelle Obama tem um pé na casa-grande, pois a senzala era um harém para os fazendeiros americanos


CONFIRMADO: O trisavô da companheira Michelle Obama era branco. Exames de DNA provaram que ela descende do filho de um pequeno fazendeiro da Geórgia. O rapaz deveria ter seus 20 anos e, por volta de 1860, acasalou-se com Melvinia, uma escrava de seus 15.

Em 2009, a repórter Rachel Swarns, do "New York Times", revelou a existência de Melvinia, de quem Michelle nunca ouvira falar. Desde então ela colheu amostras de DNA de três parentes de Michelle, de uma bisneta do filho de Melvinia e de uma descendente branca do filho do fazendeiro. Agora publicou "American Tapestry" ("Tapeçaria Americana - A história dos ancestrais negros, brancos e multirraciais de Michelle Obama"). O e-book sai por US$ 14,99. De Melvinia sabe-se quase nada. Com as guerreiras negras de quem descende Michelle, aprende-se muito.

Numa ironia dos tempos, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos é produto da tenacidade de um casal branco do Kansas, que praticamente perfilhou o menino Barack, nascido de um casamento desajustado de sua filha com um queniano. Negro mesmo é o ramo de Michelle, com um pai zelador e a mãe, Marion, dura como rocha.

É ela quem descende de Melvinia. Mora na Casa Branca, onde cuida das netas e faz compras nos supermercados próximos.

O rastro de Melvinia é um pedaço vivo da história dos Estados Unidos. Quase todos os descendentes do sinhozinho do século 19 evitam falar do assunto, pois não lhes fica bem entrar na Casa Branca pela porta da senzala. Antes de Melvinia, os descendentes de Thomas Jefferson contestavam que ele tivesse vivido maritalmente com a escrava Sally Hemmings, com a qual teve um número incerto de filhos, talvez seis.

Antes de ser eleito presidente (1801-1809), Jefferson, viúvo, levou Sally para Paris, como criada de sua filha. A moça tinha 14 anos e era mulata muito clara. Seu pai e um avô eram brancos. Retratando a época, Sally e sinhá Martha, a mulher de Jefferson, tiveram o mesmo pai. Em 1997, exames de DNA mostraram que um homem do ramo de Jefferson era ascendente de pelo menos um filho da escrava. Sally, seus irmãos e seus filhos viveram como criados na fazenda do patriarca, em melhores condições que Melvinia.

Dolly, a fenomenal mulher de James Madison, sucessor de Jefferson, teria dito que as mulheres dos fazendeiros americanos eram as "escravas-chefe" do "harém dos senhores". Pouco se sabe de Charles, o filho do fazendeiro. Melvinia morreu em 1938 e não falava do assunto. Dos Hemmings sabe-se mais, porque um filho de Sally contou seu caso em 1873. Pena que os Jeffersons tenham queimado parte da correspondência do ex-presidente.

A história de Jefferson com Sally e sua família está em "The Hemmingses of Monticello - An American Family", um grande livro, ganhador do premio Pulitzer. O e-book sai por US$ 9,99.

O jovem professor brasileiro Bruno Carvalho escreveu na Universidade Harvard em 2005 um brilhante estudo, intitulado "Cláudio Manuel da Costa e Thomas Jefferson, dois 'Pais da Pátria' e o tema das relações inter-raciais no Brasil e nos Estados Unidos". Ele mostrou como o poeta da Inconfidência tratou a escrava Francisca Arcangela Cardoso com quem viveu por 30 anos e cinco filhos, a "bela Eulina, que é todo meu amor, o meu desvê-lo". Já os Jeffersons deletaram Sally.

Reconhecimento tardio - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 20/06


Depois de sucessivas declarações em contrário, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, admitiu ontem que o governo Dilma está preocupado com o raquitismo do caixa da Petrobrás e que, por isso, estuda um reajuste dos preços dos combustíveis que não produza impacto excessivo sobre a inflação.

Assim, o governo reconhece tardiamente dois graves equívocos da política de combustíveis adotada até agora: (1) o de administrar preços à custa do caixa da Petrobrás: e (2) o de solapar com essa prática a capacidade de investimentos em petróleo.

Há nove anos não há reajustes dos preços ao consumidor. A última alteração ocorreu em novembro (aumento de 2% no diesel e de 10% na gasolina) sem alteração nos preços no varejo, porque o governo reduziu a Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico), tributo embutido nos preços cobrados das distribuidoras na refinaria. De lá para cá, as cotações do petróleo tipo Brent, referência para a definição dos preços internos, avançaram de US$ 95,64 por barril de 159 litros, em janeiro de 2011, para US$ 126, em março deste ano, para em seguida recuar a US$ 96,54 seu nível atual.

A justificativa oficial para a manutenção dessa política populista foi a de que tanto o governo federal como a Petrobrás precisam trabalhar no longo prazo, sem concessões à volatilidade dos preços internacionais.

Agora que a aflição causada pela perspectiva de um novo pibinho em 2012 (crescimento da atividade econômica provavelmente inferior aos 2,7% obtidos em 2011) tomou conta do governo Dilma, não há mais como esconder o atraso dos preços internos e seu impacto negativo sobre a capacidade de investimentos da Petrobrás.

Essa política de achatamento dos preços produziu outros efeitos colaterais nocivos. O primeiro deles foi ter provocado alta artificial do consumo físico de gasolina, que, somente em 2011 saltou 18,9%. O segundo foi ter prejudicado o desempenho da balança comercial porque a empresa teve de importar gasolina e diesel para suplementar o consumo interno aquecido. O terceiro efeito perverso foi ter tirado competitividade do etanol carburante. Como os preços da gasolina permaneceram artificialmente achatados, os preços do etanol, atacados pelo aumento dos custos de produção, também ficaram para trás. O resultado foi o desestímulo à produção de cana-de-açúcar, de etanol e de açúcar. E aí já temos o quarto efeito ruim: o encolhimento da produção agrícola.

Não há, ainda, indicação do tamanho do reajuste que o governo está disposto a dar aos combustíveis nem em que escalonamento será feito. Sabe-se que o Plano de Negócios da Petrobrás divulgado parcialmente na semana passada recomenda correção de 15%. No entanto, como já ocorreu por ocasião do último reajuste, é provável que parte dessa conta seja absorvida pelo governo, por meio da redução da Cide. Com esse corte do tributo, estaria produzindo um reajuste maior para a Petrobrás e menor para o consumidor, de maneira que a alta de preços tivesse impacto mais baixo sobre o custo de vida.

De todo modo, esta correção não resolve tudo. Para eliminar as distorções, será preciso adotar uma política mais realista de preços.

Aqui até governo paga imposto - PEDRO FERREIRA e RENATO FRAGELLI


Valor Econômico - 20/06


Uma peculiaridade brasileira é gerar fatos impensáveis em outros países. Nossa independência foi obra de Pedro I, um português, filho do rei de Portugal. A República foi proclamada por Deodoro da Fonseca, um marechal monarquista que fez questão de ser enterrado com as medalhas que recebera do imperador por ele deposto. A abertura política foi conduzida por Sarney, presidente do antigo PDS, o partido dos militares que sucedeu à antiga Arena.

Por ocasião da Assembleia Nacional Constituinte, devedores que haviam tomado empréstimos durante o ano do Plano Cruzado, inebriados pela ilusão de que não seriam pegos no contrapé com a volta da inflação, organizaram um movimento cujo objetivo era forçar os bancos a perdoar parte de suas dívidas. No momento da votação, coube a um deputado do partido comunista, Roberto Freire, sair em defesa dos bancos com uma emenda que restringia o benefício a um determinado valor não muito alto. Um incauto estrangeiro de passagem por Brasília perguntaria estupefato "como pode um parlamentar comunista sair em defesa de bancos que cobram juros excessivos?" Freire fora informado que os bancos privados, por serem mais ágeis que os públicos, já haviam renegociado seus créditos, de modo que a bonança recairia somente sobre os bancos públicos, isto é, sobre o contribuinte. Pensando no bem comum, Freire agiu prontamente.

Nesta semana, o ministro dos Esportes, deputado Aldo Rebelo, do mesmo partido comunista, foi homenageado em clima de festa durante a comemoração que marcou a posse do novo presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária. Em seu discurso, Aldo inflamou os ruralistas com um duro discurso contra ONGs estrangeiras que lutam pela preservação do meio ambiente. O mesmo incauto estrangeiro indagaria "como pode um parlamentar comunista sair em defesa de latifundiários que desmatam abertamente?" Deixaremos ao leitor a resposta.

Mas os benefícios continuam onde sempre estiveram: baixos e muito concentrados em grandes grupos

Mais casos surpreendentes? No Brasil, o gasto com o seguro-desemprego aumenta justamente quando a taxa de desemprego cai! Em 2012 deve atingir R$ 40 bilhões. Como explicar? Fraudes? Elas existem, mas não justificam a magnitude do fenômeno. Parte da explicação está na maior formalização no mercado do trabalho que amplia o universo de trabalhadores com acesso ao seguro. Mas a causa principal são os incentivos econômicos embutidos nas regras que regem o seguro: para receber o benefício durante três meses, basta que o trabalhador comprove vínculo empregatício por no mínimo seis meses e no máximo onze meses, nos últimos 36 meses. Assim, em momentos de baixo desemprego, muitos trabalhadores forçam sua demissão para receber o seguro - e também o FGTS que lhes rende juros reais negativos -, pois não temem ficar desempregados após o término do prazo de pagamento do seguro.

Na semana passada, o Valor publicou um interessante artigo onde Ribamar Oliveira descreve as condições impostas pelos parlamentares das regiões Norte e Nordeste para aprovar a Medida Provisória 564 que criou o programa Brasil Maior e autorizou uma capitalização de R$ 100 bilhões para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Segundo seu relator, deputado Danilo Fortes (PMDB-CE), "a medida foi concebida com uma visão muito voltada para o Sudeste". O resultado da barganha parlamentar junto ao governo foi uma transferência de R$ 4 bilhões para o Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e outra de R$ 1 bilhão para o Banco da Amazônia (Basa). Também está sendo negociada uma alteração da Lei 7.827 de modo a "conceder aos bancos administradores dos fundos constitucionais maior flexibilidade para negociar as operações que descumpram os contratos".

Conclui-se que, não apenas os empresários daquelas regiões vão ter mais recursos subsidiados para tomar no futuro, como terão facilidades na renegociação da inadimplência de recursos tomados no passado. E, diga-se de passagem, o histórico de inadimplência em relação as fundos constitucionais é mais um exemplo de "coisas que só acontecem no Brasil".

Até 2000, devido a práticas contábeis pouco ortodoxas, a taxa de inadimplência dos empréstimos do Fundo Constitucional do Nordeste (FNE) oscilava em torno de 2%. No entanto, em 2001, o Banco Central forçou o Banco do Nordeste, o administrador desse fundo, a registrar todos os empréstimos vencidos como inadimplentes, uma vez que estes estavam sendo classificados como "sob renegociação" ou sendo renovados sem qualquer pagamento. Com isto a taxa de inadimplência do FNE saltou, de um dia para o outro, para 31,5%. Isto é, um terço dos valores dos empréstimos - já altamente subsidiados - não eram realmente pagos! Aos poucos essa taxa foi sendo reduzida, mas com a "maior flexibilidade para negociar as operações que descumpram os contratos" provavelmente crescerá novamente.

O episódio acima mostra que, sobre os R$ 100 bilhões que o governo decidiu transferir ao BNDES para financiar campeões nacionais escolhidos por seus burocratas, incidirá uma alíquota de 5% de imposto cujos beneficiários serão alguns privilegiados das regiões Norte e Nordeste. Com sua incompreensível política industrial, o Brasil tornou-se o único país do mundo onde o governo tributa a si mesmo. Oxalá o aumento do custo dessa política convença o governo a suspendê-la, dado que os benefícios continuam onde sempre estiveram: baixos e muito concentrados em grandes grupos empresariais. O que, convenhamos, é mais um exemplo de política tipicamente brasileira.


*Pedro Cavalcanti Ferreira e Renato Fragelli Cardoso são professores do pós graduação da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas (EPGE-FGV)

O PT e Hosny Mubarak - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 20/06


Ser petista em SP era, pelo menos, opor-se às ideias assemelhadas ao malufismo; não mais


HOSNY MUBARAK, um dia ditador do Egito, era ontem motivo de controvérsia nas manchetes eletrônicas da mídia internacional. Estaria "clinicamente morto"? "Totalmente" morto (isto é, morto e desligado da tomada)? Estaria mesmo vivo?

Que estivesse vivo era difícil de acreditar. A gente sabia que Mubarak era uma, digamos, múmia-viva faz tempo, um morto-vivo, sem alma, um fantasma que assombrava os egípcios.

Nestes dias de passamento final do ditador egípcio, as pessoas que ainda se ocupam de política no Brasil também discutiam ainda e talvez de uma vez por todas se o PT está clinicamente morto, totalmente morto, putrefato ou se está vivo demais. Vivaldino.

Sim, o debate surgiu devido à aliança de Fernando Haddad, candidato petista a prefeito de São Paulo, com Paulo Maluf e seu partido.

Apesar de procurado pela polícia no resto do mundo civilizado, francamente Maluf não difere lá muito da maioria dos tipos que lideram os partidos aliados do PT.

Em certos aspectos, Maluf, a cúpula do PMDB, os "capi" dos partidos da "base aliada", mensaleiros de escol, não são muito diferentes de gente que tomou a cúpula do PT a partir de meados dos anos 1990. A diferença, até agora, ao menos, está na ambição monetária, por assim dizer. Os casos documentados do pessoal do PT são mais modestos.

Mas mesmo as pessoas que pertencem ao minúsculo bloco restante da esquerda que merece levar esse nome já dão de barato que a coalizão liderada pelo PT e o PT estão cheios de adeptos da mensalagem e de variantes mais ou menos ambiciosas de amigos da liberalidade com o dinheiro público.

A discussão que sobrou, se tanto, é sobre os aspectos "simbólicos", "políticos", "culturais", ou, sabe-se lá, de o PT, em especial em São Paulo, em especial se tratando do PT de Haddad, chancelar o malufismo.

Parece ocioso, mas não custa lembrar o que foram um dia o malufismo e o PT.

Ser petista em São Paulo era, pelo menos, no mínimo, se opor ao pacote básico da assinatura malufista.

Isto é, era se opor à ditadura militar e seus restos. Maluf governou São Paulo por indicação da ditadura e foi o último candidato da Arena, o partido dos ditadores, a presidente pelo Colégio Eleitoral, contra Tancredo Neves.

Maluf banalizou a ideia de que polícia boa é polícia que mata. Implantou um projeto urbanístico que destroçou a cidade de São Paulo para sempre. É autoritário, no mínimo, sexista ("estupra mas não mata"), um populista de extrema direita, para resumir a sua opereta-bufa (pois tem trejeitos mussolinianos).

Sim, política é colocar as mãos na lama. Sim, além de levar uma secretaria no governo federal, Maluf não deve apitar no governo paulistano, caso Haddad vença. Sim, não importa muito que Haddad seja ou tenha sido um intelectual da extrema-esquerda (teórica) uspiana. Sim, Haddad não se equipara a Nicolas Sarkozy fazendo média com os fascistas do Front National.

Na prática, parece que nada disso tende a fazer muita diferença. Parece. Mas fica a impressão de que certas coisas, embora "clinicamente mortas", ainda não haviam sido desligadas da tomada. Haddad e Lula puxaram o fio.

A vingança maligna de Maluf - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 20/06


Perto das imagens que estavam ontem na primeira página dos principais jornais do País, o fato de o PT de Lula ter ido buscar o apoio do PP de Paulo Maluf à candidatura do ex-ministro da Educação Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo chega a ser uma trivialidade. O chocante, pela abjeção, foi o líder petista se dobrar à exigência de quem ele já chamou de "ave de rapina" e "símbolo da pouca-vergonha nacional", indo à sua casa em companhia de Haddad, e posar em obscena confraternização, para que se consumasse o apalavrado negócio eleitoral.

Contrafeito de início, Lula logo silenciou os vagidos íntimos de desconforto que poderiam estragar os registros de sua rendição e cumpriu o seu papel com a naturalidade necessária, diante dos fotógrafos chamados a documentar o momento humilhante: ria e gesticulava como se estivesse com um velho amigo, enquanto o anfitrião, paternal, afagava o candidato com cara de tacho. Da mesma vez em que, já lá se vão quase 20 anos, colocou Maluf nas "nuvens de ladrões" que ameaçavam o Brasil, Lula disse que ele não passava de "um bobo alegre, um bobo da corte, um bufão". Nunca antes - e talvez nunca depois - o petista terá errado tanto numa avaliação.

Criatura do regime militar, desde então com uma falta de escrúpulos que o capacitaria a fazer o diabo para satisfazer as suas ambições de poder, prestígio e riqueza, Maluf aprendeu a esconder sob um histrionismo não raro grotesco a sua verdadeira identidade de homem que calculava. As voltas que o País deu o empurraram para fora do proscênio - menos, evidentemente, no palco policial -, mas ele soube esperar a ocasião de mostrar ao petista quem era o bobo alegre. A sua vingança, como diria o inesquecível Chico Anísio, foi maligna. Colocou de joelhos não o Lula que desceu do Planalto para se jogar nos braços do povo embevecido, deixando lá em cima a sucessora que tirara do nada eleitoral, mas o Lula recém-saído de um câncer e cuja proverbial intuição política parece ter-se esvanecido.

Nos jardins malufistas da seleta Rua Costa Rica, anteontem, o campeão brasileiro de popularidade capitulava diante não só de sua bête noire de tempos idos, mas principalmente da patologia da sua maior obsessão: desmantelar o reduto tucano em São Paulo, primeiro na capital, na disputa deste ano, depois no Estado, em 2014, para impor a hegemonia petista ao País com a reeleição da presidente Dilma ou - por que não? - a volta dele próprio ao Planalto, "se a Dilma não quiser". Lula não é o único a acreditar que, em política, pecado é perder. Mas foi o único a dizer, em defesa das alianças profanas que fechou na Presidência, que, se viesse a fazer política no Brasil, Jesus teria de se aliar a Judas.

Não se trata, portanto, de ficar espantado com a disposição de Lula de levar a limites extravagantes o credo de que os fins justificam os meios. O que chama a atenção é a sua confiança nos superpoderes de que se acha detentor, graças aos quais, imagina, conseguirá dar a volta por cima na hora da verdade, elegendo Haddad e sufocando a memória da indecência a que se submeteu. Não parece passar por sua cabeça que um número talvez decisivo de eleitores possa preferir outros candidatos, não pelo confronto de méritos com o petista, mas por repulsa à genuflexão de seu patrono perante a figura que representa o que a política brasileira tem de pior.

Lula talvez não se dê conta de que a maioria das pessoas não é como ele: respeita quem se respeita e despreza os que se aviltam, ainda mais para ganhar uma eleição. Ele tampouco se lembrou de que, em São Paulo - berço do PT -, curvar-se a Maluf tem uma carga simbólica incomparavelmente mais pesada do que adular até mesmo um Sarney, por exemplo. Não se iluda o ex-presidente com o recuo da companheira de chapa do candidato, a ex-prefeita Luiza Erundina, do PSB. Ontem ela desistiu da candidatura a vice, como dera a entender na véspera ao dizer que "não aceitava" a aliança com Maluf. Razões outras que não o zelo pela própria biografia podem tê-la compelido, no entanto, a continuar apoiando Haddad. Já os eleitores de esquerda são livres para recusar-lhe o voto pela intolerável companhia.

CLAUDIO HUMBERTO

“Não podemos ter juízes covardes. Não podemos ter juízes ameaçados”
Ministra Eliana Calmon, do CNJ, sobre as ameaças ao juiz da Operação Monte Carlo

SENADOR CARIOCA RECEBE DIÁRIAS PARA IR À RIO+20

Apesar de ter domicílio no Rio de Janeiro, o senador Eduardo Lopes (PRB) recebeu R$ 5,2 mil do Senado para se hospedar na capital carioca entre os dias 13 e 22 deste mês, para participar da Rio+20. O valor de cada diária gira em torno de R$ 581. O senador alegou ter recebido “automaticamente” o dinheiro, assim como outros que participam do evento, mas prometeu abrir mão da verba extra.

PAÍS DE LULA

O líder do governo, Arlindo Chinaglia (PT-SP), ficou perplexo com Lula e Maluf de mãos dadas: “Mas que País é este?”, perguntou a colegas.

MAIS DO MESMO

Os presidentes do PT, Rui Falcão, e do PMDB, Valdir Raupp (RO), acertaram ontem a aliança para o segundo turno em São Paulo.

GESTÃO PÚBLICA

Pré-candidato a presidente, o tucano Aécio Neves fez o discurso final, ontem, no lançamento da Frente Parlamentar da Gestão Pública.

BABILÔNIA É AQUI

Os jardins da nova sede do Tribunal Superior do Trabalho, em Brasília, vão custar R$ 308.703,09 ao contribuinte. Imaginem o valor da obra.

GOIÂNIA: 69,9% QUEREM DEMÓSTENES CASSADO

Pesquisa realizada pelo Instituto Mark em Goiânia, entre 15 e 17 deste mês, mostra que para 69,9% dos entrevistados Demóstenes Torres deve ser cassado. O senador é defendido por 15,70% dos ouvidos, que defendem a preservação do mandato. Outros 14,5% não souberam ou não quiseram opinar. A pesquisa ouviu 607 eleitores e foi registrada no TRE sob o nº GO-00047/2012.

MAL EM SUA BASE

Sobre Cachoeira, o Instituto Mark apurou que para 61,9% dos goianos ele não passa de um contraventor; para 23,1%, é empresário.

EMPATE TÉCNICO

O instituto Mark indica que Paulo Garcia (PT), prefeito de Goiânia, tem 22,1% das intenções de voto e Isaura Lemos (PCdoB), 20,04%.

MAIS TRÊS

Para prefeito de Goiânia, Sandes Júnior (PP) tem 10,20%, seguido de Elias Vaz (PSOL), com 7,70%, e Jovair Arantes (PTB), 4,80%.

LIXO MONITORADO

O lixo atômico do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, escolheu a dedo comitiva para a Rio+20: pelo menos um atual e cinco ex-assessores diretos dele têm mandados de prisão da Interpol, por conexão com o atentado a bomba que há 18 anos matou 85 pessoas em Buenos Aires.

BOA COMPANHIA

O ministro iraniano da Defesa, Ahmar Vahdi, o ex-presidente do país dos aiatolás Akbar Hashemi Rafsanjani, e mais seis ex-ministros, fazem companhia a Paulo Maluf no site da Interpol. Tutti buona gente!

ABOMINÁVEL

Deputado campeão de votos no DF, Chico Leite (PT) desabafou no Twitter contra a “abominável” aliança Haddad-Maluf em São Paulo. “Posso até perder todas as eleições, mas jamais perderei a dignidade”.

ELE, O CARA

Romeu Tuma Jr. está impressionado com a coerência de Lula, em cujo governo foi secretário de Justiça: “Ele barrou Marta prometendo renovação e lançou Erundina e Maluf juntos! É o cara mesmo. De pau!”

GASTOS SECRETOS

A Petrobras foi a única das estatais a negar à ONG Contas Abertas seu programa de gastos em 2011 e 2012, apesar da vigência da Lei de Acesso à Informação. Alegou que, “por decreto”, não pode divulgar.

FIM DA DEMOCRACIA

O presidente da OAB-RJ, Wadih Damous, reagiu à decisão do juiz Paulo Moreira Lima, da Operação Monte Carlo, de sair do País por uns tempos, após sofrer ameaças: “Se juízes se exilarem por medo de represálias, estará se decretando o fim da democracia brasileira”.

DESAGRAVO CEARENSE

A confraria dos cearenses em Brasília reúne-se no dia de São Pedro, 29 (sexta-feira), para homenagear em almoço o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, alvo de críticas do PT e aliados.

ARRASTA-PÉ

O ministro José Jorge (TCU) e sua mulher Socorro fazem nesta quarta sua 28ª festa junina, com a presença de figuras ilustres de Brasília vestidas a caráter. A festa celebrará o centenário de Luiz Gonzaga.

PENSANDO BEM...

...além da Interpol, Maluf também tem o pé-frio do Lula no encalço dele.

PODER SEM PUDOR

LIÇÃO DE POLÍTICA

Candidato em oposição a Jânio Quadros, Henrique Teixeira Lott, ministro da Guerra de Juscelino Kubitschek, visitou o ex-presidente Eurico Dutra, marechal como ele. Conversa vai, conversa vem, Dutra advertiu:

– Você não vai ganhar.

– Por que não?

– Ora, você não sabe falar...

– O senhor também não sabia falar e foi presidente... – lembrou Lott.

– É, mas eu não falava...

QUARTA NOS JORNAIS


Globo: Até Vaticano consegue esvaziar o documento final da Rio+20
Folha: PT perde Erundina e gera crise após se aliar a Maluf
Estadão: Foto de Lula com Maluf faz Erundina desistir de ser vice
Valor: Acordo final posterga as decisões para 2015
Estado de Minas: A vitória da impunidade
Jornal do Commercio: Celular no trânsito é como dirigir às cegas
Zero Hora: Motoristas deixarão de pagar pedágio em 15 praças no RS