sábado, março 17, 2012

Fim de papo - JORGE BASTOS MORENO

O GLOBO - 17/03/12


Dilma decidiu. Ana de Hollanda não vai mais deixar a Cultura.

Ufa!
Dilma, finalmente, recebeu Moreira Franco, em audiência. Ela foi apresentada ao seu ministro pelo vice Michel Temer na última quarta-feira, às 10 horas da manhã. Na verdade, a presidente já conhecia Moreira. Só não estava associando o nome à pessoa. Agora, o Moreira deve, em contrapartida, passar um bom tempo sem falar mal da presidente. Coisa aí de uns dois ou três dias.

Cronômetro da crise
Não comento crise política provocada por fisiologismo. Adoro a Ideli, mas ela não precisava ter deixado o Blairo esperando durante 67 minutos, 49 segundos e três décimos. E se o cara repara?

Poder das mulheres I
Tentei ouvir Jobim sobre a crise dos militares, mas sua fiel escudeira, Adrianne Sena, que manda nele mais do que o Eduardo Cunha manda no Henrique Alves, não deixou:
— Mas nem morta! Se tem uma banana do outro lado da rua, o Nelson atravessa a rua Na política, tudo acaba em samba só para se escorregar nela!

Poder das mulheres II
Paulo Ferreira, ex -tesoureiro do PT ligado ao José Dirceu, foi empossado deputado esta semana, por causa da ida de Pepe Vargas para o Ministério do Desenvolvimento Agrário.

Como a Dilma guardou segredo da indicação de Pepe, o Ferreira não sabia que ia virar deputado.

Quando a notícia saiu, às oito da noite, o incrédulo ligou para a mulher, a ministra Tereza Campello, do Desenvolvimento Social.

— Amor, estou na aula de inglês, não posso ser interrompida agora. Depois a gente vê isso, tá?

Na política, tudo acaba em samba
Depois que descobriu que o Fundo de Participação dos Estados (FPE) arrecada o dobro dos royalties, Cabral enlouqueceu. E, ao ser informado de que o FPE acaba este ano se não tiver lei nova regulamentando-o, aí sim, endoidou de vez. Tanto que passou a cruzar os céus do Brasil, batendo às portas dos palácios estaduais em busca de apoio, como fez na madrugada de ontem, em Belo Horizonte, onde se reuniu com os governadores de Minas, São Paulo e Espírito Santo. Antes, na posse de Graça Foster na presidência da Petrobras, às vésperas do carnaval, o governador do Rio, aproveitando a presença de alguns colegas, começou a articular mudanças no FPE ali mesmo, na solenidade. Mas, quando ouviu um “não” do governador do Ceará, Cid Gomes, aquele — lembram? — que saiu batendo portas na cara da Dilma recentemente, Cabral pirou de vez. Distanciou-se de todos, como se fosse fazer uma apresentação, e acabou fazendo mesmo, só que requebrando como passista da sua escola de samba preferida, e, chamando Cid Gomes para a pista, gritou:

— Venha, minha linda, venha! Venha que vou botá-la no carro alegórico da Mangueira para exibi-la toda pela avenida!

E continuou requebrando como se fosse o próprio Sorriso, famoso gari que samba nos intervalos do desfile da Sapucaí.

Guris
Dilma, então, interveio: — Meninos, parem! Foi a deixa também para a presidente fazer as pazes com Cid Gomes, por conta daquele outro episódio.

Fidelidade vermelha
Os governadores, realmente, andam à flor da pele. Vejam esta do Jaques Wagner à Dilma, depois da viagem à Alemanha:

— Nunca mais viajo com a senhora, presidenta!
E Dilma, estupefata:

— Por quê?

— A senhora desconta depois as minhas milhas demitindo os ministros da Bahia.

Por ciúmes
Mal sabe Jaques que, exatamente por causa desse seu prestígio com Dilma, é que ela perdeu o amigo que considerava o mais lindo de todos.

Déda não liga, não escreve e não manda recados. Simplesmente sumiu.

Novela
Dilma se prepara para a viagem à Índia da Glória Perez. A curiosidade é saber quem serão os dalits da comitiva presidencial.

Ao contrário de lá, aqui “brâmane” não é importante. Devem ir os “intocáveis” Pimentel, Mercadante e Guido. O brâmane é o Patriota.

‘Are baba!’
Eu, sim, senti-me um brâmane de verdade, jantando à beira-mar com Clarissa, da casta dos Garotinhos. A bela Maya, que está na chapa do outro Maia, confessou a este Raj:

— A minha mãe está sendo muito melhor prefeita do que foi governadora.

Amiga invejosa que me viu com ela cobrou-me:

— Jantando com a filha do Garotinho?

E eu:

— Por mim, jantaria com a filha do dom Orani Tempesta, do padre Jorjão ou do padre Omar. Mas eles não são sequer casados... 

"UMA CANGANHÃO PERDIDA NO PLANALTO"


Dentro da perda da memória - SILVIANO SANTIAGO


O Estado de S.Paulo - 17/03/12


A romancista Nathalie Sarraute chamou a atenção para uma figura de retórica que era usada de maneira anônima na prosa de ficção moderna. Alertou-nos para certo tipo de diálogo sem palavras que em conto ou romance se passa entre personagens e objetos e entre personagens. À noite, um casal passeia em silêncio pela calçada e interrompe a caminhada. Viram-se os dois para a luz intensa da vitrina. Com o desejo e os olhos, um e o outro conversa com os objetos expostos. Durante o ensaio, o músico se inclina para o maestro. Em sala de aula, o estudante, para o professor. A presença do outro provoca no músico e no aluno um enxame de complexos movimentos subjetivos que, se bem descritos, desenham o perfil psicológico de cada um. O romancista moderno reproduz esse diálogo afetivo, que nada tem a ver com o monólogo interior. Nathalie Sarraute deu-lhe o nome de subconversa (sous-conversation).

Para explicitar o funcionamento da subconversa na psique humana, ela recorreu a um termo da linguagem científica - tropismo. O ser humano age como a planta frente à presença imperiosa do sol. A mudança de orientação no comportamento é determinada por estímulo inesperado e externo.

Lembrei-me de Nathalie e dos contos de Tropismos (Komedi, 2009) ao ler os doloridos relatos curtos reunidos pela argentina Sylvia Molloy em Desarticulaciones (Eterna Cadencia, 2010), alguns já traduzidos ao português e publicados na revista Serrote (n.º 9). Tomada pela doença de Alzheimer, a antiga parceira de Sylvia, M. L., perde a memória. Os relatos curtos dão conta das sucessivas visitas de Sylvia ao apartamento da ex-companheira. A pouca conversa entre as duas e a excessiva subconversa se desenrola de maneira desarticulada, vale dizer, desprovida de significado factual. No entanto, a desarticulação se arma por um ímã solar, a atração amorosa, que a acondiciona. A atração aproximou as duas e, pelo acaso da doença, as reaproxima para distanciá-las definitivamente. "Sinto que a estou abandonando", diz a narradora na página final, e acrescenta: "De algum modo, é ela que se está abandonando".

A atração amorosa motiva a inclinação da visita, não correspondida pela enferma - um objeto cintilante na vitrina do apartamento. E persiste como pano de fundo, de onde os relatos sucessivos retiram sentido. O desencontro não é a tônica dramática do livro; propõe a "subconversa" que empurra penosamente a escrita de Sylvia para o conhecimento da doença. Sem fuga sentimental para o passado e sem esperança de futuro a dois, a comunicação entre a pessoa que recorda e a pessoa desprovida de memória se dá "no puro presente da linguagem". Já a narradora goza de grande liberdade narrativa. Não existe mais testemunho confiável da antiga vida em comum. À semelhança do personagem Mr. Arkadin no filme homônimo de Orson Welles, só ela controla os fatos do passado. No discurso amoroso, a doença de Alzheimer padecida por uma é a vitória ditatorial da outra sobre a intimidade das duas. "Se decidir inventar, não há mais ninguém para me corrigir" - escreve Sylvia.

Como dar significado a uma pessoa que requer atenção, pois "ainda está" (diz a dedicatória), mas já não "é"? Para apreender com objetividade o comportamento da enferma, a visita a observa e recorda. M.L. tinha horror ao tempero de alho e de cebola. Também não se servia de carne. Estranha Sylvia: M. L. leva à boca uma colher de sopa de cebola e, mais tarde, um pedaço de carne. As desmemórias da enferma são relatadas pela falta de subconversa entre ela e os alimentos: "Ela já não sabe o que come, come de tudo". Quando tem de mastigar a comida, esquece: engole pedaços inteiros de bife. Mastiga por horas o iogurte. Apenada, Sylvia constata que M. L. tinha perdido a aversão por certos alimentos e os prazeres (gustos) do corpo. Só a narradora poderia restaurar como arqueóloga a subconversa entre M. L. e a comida. A perda do paladar - e dos prazeres do corpo - é homóloga da perda da memória.

Nas relações humanas, a perda da memória se recobre por frases de cortesia a que a enferma recorre, como se as boas maneiras pudessem suprir a desrazão. A enferma diz à enfermeira em espanhol: "Estás muy linda, te veo muy bien de cara". É a primeira vez que vê a enfermeira, que, por seu turno, não fala espanhol. A visita traduz a frase para a enfermeira, que cai de amores pela enferma. Também homóloga da perda da memória é a perda do nome. Ao ser internada no hospital, perguntam a M. L. seu nome, responde "Petra". Boas maneiras não são privilégio da enferma. Uma das amigas que a acompanha vê na resposta surpreendente o indício de que ainda é capaz de ironia. Pensa a narradora: "Se houve ironia, e não apenas o desejo de julgá-la capaz de ironia, trata-se de uma dessas ironias a que se há de qualificar de tristes". Perguntar pela boa saúde de M. L. é curiosidade hipócrita sobre a consciência que a enferma tem da desmemória.

M. L. recorda fragmentos de Aristófanes em grego, poemas de Rubén Darío. Sylvia pergunta-lhe sobre o que a leva a se lembrar dos versos. Responde que há neles palavras que ela julgava estranhas quando criança. "É perfeitamente razoável o que me diz", constata Sylvia. E pergunta a si: "Como pode ser essa a mesma pessoa que, logo em seguida e pela enésima vez, me pergunta se o dia está frio e se quero tomar o chá que acabamos de tomar?". M. L.nventa palavras. Numa das visitas, repete "jucujucu" e com os dedos conta as sílabas. Tem uma sílaba a menos, a do mindinho. Diz: que azar! Sylvia lhe aconselha acrescentar uma sílaba: "Jucujucu-ju". M. L. tenta de novo e dessa vez cada sílaba tem seu dedo. "Que sorte, diz, e sorri satisfeita." Sylvia entrou na doença e na sua retórica. Já nada lhe surpreende. Para que continuar a escrever Desarticulações?

ÁGUA PARADA - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 17/03/12


A cidade de São Paulo teve dez casos de dengue em fevereiro, menor número para o mês desde 2006. Em relação ao ano passado, a queda foi de 97%: em fevereiro de 2011, houve o recorde de 336 confirmações da doença. A prefeitura atribui o resultado ao trabalho dos agentes de saúde e de zoonoses e ao apoio da população.

PELA ORDEM
A nova cédula de votação da prévia do PSDB em São Paulo trará, lado a lado, as fotos de Ricardo Tripoli, José Serra e José Aníbal, em retângulos para o filiado assinalar sua escolha. A opção para votar em branco foi colocada logo abaixo da imagem de Tripoli. E o botão para anular o voto, embaixo da foto de Aníbal.

OLHA O PASSARINHO
E Ricardo Tripoli deve transmitir em vídeo no Twitter um evento em que espera receber, hoje, o apoio de alguns integrantes da juventude do PSDB que não haviam se engajado na campanha de Serra quando Bruno Covas deixou as prévias.

TELA QUENTE
As emissoras de TV irão veicular gratuitamente a campanha "Não se engane", do Ministério da Justiça, em defesa da classificação indicativa. Será lançada na segunda. Nela, crianças mudam seu comportamento após ver televisão. Tomam milk-shake como se fosse bebida alcoólica e seguram canetas como cigarros.

DISCUSSÃO E ARTE
José do Nascimento Junior, presidente do Ibram (Instituto Brasileiro de Museus), propôs a Roberto Setubal, presidente do Itaú Unibanco, e Milú Villela, do Itaú Cultural, a criação de um fórum anual da cultura, que reúna empresários, governantes e dirigentes. A ideia é mapear a cadeia produtiva artística e debater o papel do setor no desenvolvimento do país.

OLHO NO LANCE
Neymar pagou R$ 1.500 por cinco fotografias de Londres, de autoria de Alexandre Vale, no leilão beneficente promovido pelo príncipe Harry, do Reino Unido, no fim de semana passado, no interior de SP. A renda foi em prol da Sentebale, fundação de amparo a crianças em Lesoto, na África.

GAÚCHO, TCHÊ
Vencedor do prêmio de melhor show de 2011 na categoria música popular, concedido pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), o espetáculo "Tangos e Tragédias", há mais de 20 anos em cartaz, tem apresentações hoje e amanhã no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. No palco, a dupla de músicos e comediantes gaúchos Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky mistura canções com teatro.

MAIS UMA DO BRITTO
Romero Britto vai pintar um capacete de estimação do piloto Hélio Castroneves. O acessório será leiloado no baile de gala da BrazilFoundation, em Miami, no dia 27.

QUENTE AQUI
O cineasta André Klotzel foi ao lançamento do livro "Outro Israel", do pacifista Uri Avnery, no Bar Balcão, nos Jardins. A obra é organizada pela jornalista Guila Flint.

DOSE DUPLA
Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos, do grupo Letuce, fizeram show de lançamento do CD "Manja Perene" no Studio SP, anteontem.

BALZAQUIANA
A modelo Mariana Weickert comemorou aniversário de 30 anos na Casa Panamericana, com convidados como a estilista Lethicia Bronstein.

CURTO-CIRCUITO

A mostra "Raul, o Início, o Fim e o Meio", sobre Raul Seixas, é exibida na estação de metrô Paraíso.

A rede social Guidu faz hoje o Pic Chic, no parque da Aclimação. R$ 60. 11h.

Lica Bueno (F/Nazca) e Ricardo John (JWT) se casam hoje em Florianópolis.

O promotor Roberto Tardelli participa hoje de painel sobre combate à corrupção, na Câmara Municipal de São Paulo.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY 

Test-drive - VERA MAGALHÃES - PAINEL

FOLHA DE SP - 17/03/12
Sem espaço na TV, Fernando Haddad compensará a subexposição até o início da campanha pela prefeitura paulistana com intervenções pontuais em temas que melindram o PSDB, sobretudo na mobilidade urbana. Depois de pregar o fim da taxa de inspeção veicular, o petista usará as sucessivas panes no sistema de trens e metrô da capital para propor participação maior da prefeitura nos investimentos em obras do setor, desde que os repasses ao Estado sejam condicionados a um cronograma de metas e prazos.
Para ouvir os usuários, Haddad programa ida de metrô à zona leste da capital, onde visitará o Itaquerão.

Câmera na mão Apresentador de TV, o também prefeiturável Celso Russomanno (PRB) gravou ontem entrevistas com usuários do metrô na estação Ana Rosa, que enfrentaram problemas nas escadas rolantes.

Viés de baixa Caiu a cotação de Ricardo Berzoini para a coordenação-geral da campanha haddadista. O deputado afirma que as atribuições da CCJ, que acaba de assumir, demandarão mais tempo e presença em Brasília no período eleitoral.

Oficial O presidente do PSDB paulistano, Júlio Semeghini, organizará evento público na quinta-feira com militantes tucanos. À ocasião, pretende anunciar apoio formal à candidatura de José Serra nas prévias do dia 25.

Sopa de letrinhas Depois do PSC, Gabriel Chalita (PMDB) espera anunciar na próxima semana o apoio do PTC, partido cuja maior proeza foi eleger Clodovil Hernandes à Câmara em 2006.

Pegou O bordão "eu queria dizer da alegria", com que Geraldo Alckmin invariavelmente começa seus discursos, virou meme no Twitter. A Juventude Tucana espalhou a hashtag #dizerdaalegria desde o fim de semana passado. Até o governador aderiu à brincadeira repetindo o lema em seu perfil no microblog.

Foto oficial Aldo Rebelo (Esporte) e Joseph Blatter acertaram os detalhes da Lei Geral da Copa e repassaram a situação dos estádios durante jantar na casa do ministro na quinta-feira. Com a presidente Dilma Rousseff a conversa foi meramente formal.

Proativo 1 Senadores aliados aconselharam os ministros palacianos que Dilma deveria enviar ao Congresso na forma de um pacote uma série de medidas para impulsionar a economia.

Proativo 2 Avaliam que seria uma forma de o governo sair das cordas e impor uma pauta positiva às duas Casas, já que nenhum parlamentar gostaria de votar contra medidas dessa natureza.

Quatro pontas O novo Estado-Maior da articulação política na Câmara, com a ministra Ideli Salvatti, o presidente da Casa, Marco Maia, e os líderes do governo, Arlindo Chinaglia, e do PT, Jilmar Tatto, escanteou o grupo de Cândido Vaccarezza.

Prato frio A concentração de poderes nas mãos de uma só ala petista e o alijamento da corrente majoritária, a CNB, ensejará reação, apostam observadores.

Visitas à Folha O vice-presidente da República, Michel Temer, visitou ontem a Folha, a convite do jornal, onde foi recebido em almoço. Estava acompanhado de Márcio de Freitas, chefe da assessoria de imprensa da Vice-Presidência.

Eduardo Braga (PMDB-AM), líder do governo no Senado, visitou ontem a Folha. Estava com Carlos Colonnese, assessor de imprensa.

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI

tiroteio

"É o governo federal patrocinando os interesses de uma empresa na contramão das normas nacionais. Esse aditivo deveria se chamar 'Emenda Budweiser'."
DO DEPUTADO EDUARDO CUNHA (PMDB-RJ), usando a marca da cervejaria oficial da Fifa para comentar o item da Lei Geral da Copa que permite a venda de bebidas alcóolicas durante os jogos do Mundial de 2014.

Contraponto

Na legalidade

O deputado Danilo Fortes (PMDB-CE), um dos articuladores de um manifesto do PMDB contra o PT que circulou na semana passada, colhia assinaturas para o texto quando foi abordado por um deputado petista.
-Então quer dizer que vocês não tiveram coragem de colocar uma crítica explícita à presidente Dilma no manifesto do partido?
Fortes não se constrangeu e respondeu, rindo:
-No Brasil vigora a Lei Maria da Penha. Não se pode bater em mulher. 

Pulso firme e passo forte - GILBERTO KASSAB


O Estado de S.Paulo - 17/03/12


São Paulo, como toda grande metrópole, não tem problemas pequenos: lixo, enchente, transporte, poluição, segurança, saúde, habitação... Pelo acúmulo de décadas e décadas de equívocos, meias soluções e, muitas vezes, falta de visão administrativa e ousadia, os problemas foram se acumulando e prejudicam hoje parte significativa de nossos 11 milhões de habitantes. Avançamos muito nessas e em outras frentes, mas ainda há muito a fazer.

Com uma frota de 15 mil ônibus, circulação diária de 4 milhões de carros particulares e cerca de mil veículos novos por dia rodando numa malha de 17 mil km de ruas e avenidas, o trânsito-transporte certamente é um desses problemas mais complexos. Até porque por vias urbanas, verdadeiras estradas, transitam cargas e passageiros de norte a sul, leste e oeste do País. E todos exigem fluidez, velocidade e segurança.

Toda grande metrópole do mundo enfrentou e enfrenta esses problemas. Muitas têm o transporte público encaminhado, com malha de metrô adequada e veículos leves sobre trilhos, malhas e tradição de ciclovias, além de longa educação e compreensão da sociedade sobre restrições necessárias. Muitas dessas cidades já nasceram planejadas e, ainda assim - Toronto, por exemplo -, hoje enfrentam congestionamentos em suas vias expressas, pelo excesso de veículos. E todas essas metrópoles - com áreas maiores e mais caóticas, como Cairo e Nova Délhi, ou com áreas menores, como Tóquio e Seul - acabam adotando medidas disciplinadoras, como pedágios, proibição de estacionamento e circulação controlada. E até mesmo monitorando descarte, ferro-velho de veículos. Enfim, dividem-se sacrifícios em nome do conforto coletivo.

É isso que temos feito, em várias frentes, já há algum tempo. Especialistas fazem análises históricas para chegarem à conclusão de que é preciso sair da mesmice, avançar com obras que imaginam mais ousadas, gigantescas... e fora da realidade, da burocracia, dos empecilhos ambientais e das dificuldades de desapropriação, etc. Nas várias intervenções que já fizemos, registraram-se desconfortos, críticas da mídia, protestos de corporações, sindicatos, mas com o tempo os benefícios planejados aparecem, melhorias tornam-se evidentes e os transtornos iniciais são entendidos.

O que não se pode aceitar são atitudes incompatíveis com esse processo de evolução, como ocorreu com o recente movimento de caminhoneiros autônomos da Grande São Paulo que abastecem postos de gasolina. Prefeitura, Justiça e Polícia Militar nos unimos e recorremos à força da lei. A restrição de circulação de nove horas por dia nas Marginais tinha sido negociada, explicada com antecedência; as rotas alternativas, explicitadas; e desde 2011 já havíamos restringido o trânsito de veículos com produtos perigosos (combustível, nesse caso) - essa medida de proteção dos usuários das vias públicas não foi implantada agora, como se pretendeu divulgar durante a crise.

A convivência urbana tem normas que devem ser respeitadas, cumpridas, para que a maioria possa ser beneficiada. Não nos intimidamos diante da exacerbação de comerciantes dos Jardins quando instituímos o projeto Cidade Limpa, muito menos quando criamos e fizemos cumprir limites para o descarte de lixo de grandes lojas. Lacramos supermercados e nos unimos ao governo estadual na repressão aos traficantes de crack. Alguns problemas têm soluções visíveis a curto prazo, outros têm maturação mais longa, exigem participação maior da sociedade, dos agentes e lideranças comunitários.

Para diminuir atropelamentos e mortes no trânsito limitamos a velocidade em várias ruas e avenidas. Constrangemos os faltosos com multas, sim. Infelizmente, só mexendo no bolso dos infratores é que se consegue sensibilizá-los. Egoísmos, desobediência às leis, comodismos que agridem, falta de civilidade continuarão sendo enfrentados, reprimidos.

Podemos citar outros embates que trouxeram benefícios à população, como a reorganização do tráfego na cidade, que começou com a ampliação de zonas restritas de circulação de caminhões no centro expandido, em 2008. Lembramos ainda a proibição de motos na pista expressa da Marginal do Tietê, que reduziu em mais de 40% o número de acidentes na via; e a criação do Programa de Proteção ao Pedestre, que reduziu em 7,3% o número de atropelamentos em toda a cidade, com 8,2% menos de mortes. Considerando o centro e a Paulista, regiões por onde o programa foi iniciado, a redução de mortes por atropelamento é ainda mais expressiva: 42,8%.

Quando começamos a participar - e fazê-la de forma sistemática - da repressão à adulteração de combustíveis vendidos em postos da cidade, cartéis criminosos levantaram todas as formas de resistência. Fomos firmes e vencemos a luta. O índice de adulteração em 2007, início da força-tarefa, era de 25%. Hoje caiu para 1%.

Desde dezembro de 2010, em ação conjunta com o Ministério Público e a Polícia Militar, já apreendemos cerca de 58 milhões de produtos falsificados e contrabandeados em vários espaços públicos. Separamos o joio do trigo: demos atendimento adequado às pessoas que precisavam de ajuda. E fomos firmes com os que se aproveitavam daquela situação para ter benefícios ilegais. Endurecemos na fiscalização do descarte irregular de lixo, ao mesmo tempo que ampliamos a ação de limpeza de galerias, manutenção de piscinões. etc.

Claro, mesmo dentro da lei, é de certa maneira constrangedor precisar usar a força. Não estamos aqui contando vantagem, mas apenas insistindo que, em situações como essas que citamos, continuaremos a agir rigorosamente para preservar direitos e, sempre que possível, aumentar o conforto, a segurança e o bem-estar dos cidadãos paulistanos. Com pulso firme e passo forte, na cadência que nossa metrópole exige.

Dilma quer Lobão? - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 17/03/12

Ao justificar a mudança na liderança do governo para o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), a presidente Dilma disse que o grupo do ex-presidente está ficando em minoria, e que ela queria garantir que “alguém seu” continuasse na presidência da Casa. Para o líder do PMDB, Renan Calheiros, ela argumentou que onoticiário negativo voltaria se ele insistisse em comandar de novo o Senado e o aconselhou: “Você deve ser candidato ao governo de Alagoas, e eu vou te apoiar”.

Mais detalhes da trapalhada

Quando Ivo Correa, da Casa Civil, na quarta-feira, disse aos líderes que o governo era contra a venda de bebida alcoólica nos estádios durante a Copa, o líder Henrique Alves (PMDB-RN) ligou para o ministro Aldo Rebelo (Esporte), que reagiu com surpresa: “Não é possível, falei ontem com a ministra Ideli”. Diante disso, o líder do governo, Arlindo Chinaglia (PT-SP), ligou para a ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e, à medida que ela falava, ele repetia, em voz alta: “Não há nenhum compromisso”; “Para o governo é indiferente”; e, “O Congresso decide como quiser”. Chinaglia desligou o telefone e arrematou: “Além disso, os ministérios da Justiça e da Saúde são contra liberar a bebida”.

Eu não inventei isso. Eu não tirei da minha cabeça. Coloquei porque o governo pediu”
 — Vicente Cândido, gritou, apoplético, o relator (PT-SP) da Lei da Copa, na confusa reunião sobre a venda de bebidas.

RASGA CORAÇÃO. O presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra (PE), reage com ironia às críticas do senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP). Aloysio disse que cabia aos paulistanos decidir a chapa para a prefeitura. Guerra rebate: “As negociações serão conduzidas pelo Diretório Municipal. Não há motivos para que o senador fique nervoso”. A ironia: Aloysio não integra o Diretório Municipal e zonais de São Paulo, capital. Seu domicílio eleitoral é São José do Rio Preto (SP).

Insubordinação
Como a presidente Dilma proibiu as comemorações oficiais de 31 de março, o Clube Militar antecipou a festa para dia 29. Os militares da reserva farão um painel sobre “A Revolução de Março de 1964”. O convite exige traje esporte fino.

O interlocutor
No almoço com o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), o presidente da Fifa, Joseph Blatter, disse que virá mais ao Brasil para tratar da Copa. E que pretende se encontrar com a presidente Dilma sempre que ela for à Europa.

Colocando os pingos nos is
Integrante da CPI do PC Farias, que levou ao impeachment do ex-presidente Fernando Collor, o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) reage às comparações daquela crise com a situação da presidente Dilma e sua base parlamentar. Possesso, Miro afirma: “O Collor não pode reescrever a História. A presidente Dilma não rouba nem deixa roubar. Ele foi afastado da Presidência porque tinha uma quadrilha agindo no seu governo”.

Empurrão
Depois da intervenção da presidente Dilma, a Andrade Gutierrez, o Internacional e o governo gaúcho assinam terça- feira o contrato para a reforma do estádio do Beira-Rio para a Copa. O clube e a empresa vão assumir eventuais riscos.

Pé quente

Há fila para assessorar o novo líder do governo, Arlindo Chinaglia (PT-SP). Trabalharam com ele: Dias Toffoli, ministro do STF; Carlos Eduardo Esteves, chefe da Casa Civil na gestão Lula; Jean Uema, consultor da pasta da Saúde.

REVERÊNCIA. Para chegar ao gabinete da presidente Dilma, para a reunião com a Fifa sobra a Copa de 2014, Pelé teve de dar mais de uma centena de autógrafos para funcionários do Palácio do Planalto.

BOLATUR.
 O presidente da Fifa, Joseph Blatter, estimulou o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), a criar uma missão oficial de deputados para ir à Suíça, visitar a sede da entidade.

CPI DO CACHOEIRA
. O deputado Delegado Protógenes (PCdoB-SP) quer coletar 300 assinaturas antes de requerer a CPI dos bingos e dos caça-níqueis. 

Ueba! SBT lança Pícara Voadora! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 17/03/12

E uma amiga minha falou que na casa dela não tem pícara sonhadora, tem pícara dormidora!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Pensamento do dia: enquanto houver Corinthians, haverá Libertadores! Gol do Ganso! Ganso derrubou o Peru.
E o goleiro do Peru se chama Penny! Ganso, Peru e Penny. E o Penny ficou impotente, só olhando! Eu não vou ficar fazendo trocadilho com peru na minha idade!
O Peru não é um país, é um trocadilho. O Peru podia mudar de nome pra Perereca. Pra variar de trocadilho. E a Grobo? A nova novelha da Globo vai ser pra classe C. Vai ser? E as anteriores?! E a novela vai ser passada num lixão. Lixão? Quem gosta de lixão é intelectual. Lixão é documentário cabeça! Classe C gosta de carro zero!
E shopping e pacote de viagem! Eu faria uma novela com três núcleos: núcleo do carro zero, núcleo do shopping e da agência de turismo!
E eu adoro a classe Ç: Çilvio Çantos! E o Silvio Santos tá reprisando a novela "Pícara Sonhadora". Sonhadora? Eu só conheço a Pícara Voadora! Sonhadora deve ser a do Silvio Santos. Rarará!
E uma amiga minha falou que, na casa dela, não tem pícara sonhadora, tem pícara dormidora!
E o que a Globo vai fazer com aquele eterno cenário da classe A: sofá com uma escada atrás? Sendo que a Regina Casé falou que corrimão de novela balança! Corrimão classe C! Rarará!
Aliás, quer novela pra classe C, entrega pra Regina Casé! A Globo descobriu agora a classe C. Sendo que a classe C descobriu a Globo há uns 30 anos! Rarará!
E uma amiga disse que pertence a classe Gargalhada: AAAA! E sabe como uma perua amiga minha chama a classe econômica em avião? Lá embaixo! "Eu vou de executiva, mas o meu primo vai lá embaixo!". Rarará!
Globo 2012! Do luxo ao lixão! Essa classe C deu um nó na cabeça de sociólogos e publicitários!
E o chargista Frank revela o que a Dilma gritou na reunião com a Fifa: "Libera a birita pro Blatter".
E o Pelicano: "Presidenta, liberaram ou não a bebida na Copa?". "Quem quer saber?". "O Adriano". E o Éramos 6 garante que o Flamengo será o time mais bem iluminado do Brasil. Serão dois postes: Adriano e Ronaldinho. Rarará!
E adorei esse cartaz no banheiro duma empresa: "Proibido desligar as luzes com os pés". Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Uma escola do outro mundo - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 17/03/12
É tão fácil encontrar motivos para falar mal do ensino no Brasil - alunos desmotivados, professores insatisfeitos, pedagogia defasada - que quando se depara com o contrário, como aconteceu comigo essa semana, parece outro mundo. Vivi a experiência no Núcleo Avançado em Educação (Nave), da Escola Estadual José Leite Lopes, de nível médio profissionalizante, na Tijuca. Trata-se de um inovador centro de estudo e pesquisa que procura levar a escola a se conectar com a realidade contemporânea, aproximando os estudantes da linguagem digital e das novas tecnologias da comunicação. Contrariando a tendência que considera mídia e educação incompatíveis, atribuindo à primeira a culpa pelo enfraquecimento da segunda, o Nave acredita que elas são aliadas complementares. Em vez de inimizade, convergência. Em lugar de deixar do lado de fora a TV digital, o iPad, o iPod, os games, trazê-los para dentro das salas de aulas e colocá-los criativamente a serviço do aprendizado.

É difícil descrever a experiência, a começar pelo ambiente, cheio de estímulos visuais, sensoriais e mentais, onde não se sabe o que é lazer e o que é dever. Aqui, uma menina pula diante de uma tela de plasma onde o desenho reproduz seus movimentos. Ali, um retrato de Machado de Assis feito com palavras retiradas de sua obra, como se fosse um quadro de Vic Muniz. Ao lado, um estúdio de TV. As salas de aula não têm carteiras, mas mesas com computador. Os móveis desenhados especialmente, as instalações ultrafuncionais, os equipamentos eletrônicos moderníssimos - câmeras, mesas de montagem e edição - tudo isso me dá a sensação de que saí de um parque jurássico diretamente para o ano 3000.

Mas esse é apenas um dos aspectos, o instrumental, de uma nova concepção pedagógica. Segundo a pesquisadora dos meios de comunicação Silvana Gontijo, que participa do Nave desde sua origem em Recife (o projeto é apoiado pelo Oi futuro em convênio com a Secretaria estadual de Educação), o mais importante "é formar pessoas, que aprendem a ser, a conviver, a conhecer e a produzir conteúdos de maneira solidária". Os professores são um capítulo fundamental desse modelo. Nada de conhecimentos estanques, nada de arrogância do saber. Eles interagem entre si e estabelecem com os alunos uma relação de troca e de trabalho em equipe e em rede.

Pelo que pude ver nas quase três horas que lá estive, o resultado é uma garotada inquieta, curiosa, conectada, mas com os pés no chão, sabendo que é preciso também obter boas notas no Enem e passar no vestibular, porque a realidade os espera na esquina. Não por acaso, o Nave costuma atrair cinco mil candidatos para as cerca de 160 vagas disponíveis a cada ano letivo.

Diante da reação dos aliados da presidente - com chantagem, represália e pirraça - a melhor explicação é do advogado Marcelo Cerqueira: "A Dilma não tem base de apoio, tem placas tectônicas."

Semáforos, farmácias, máscaras ou três cenas paulistanas - SÉRGIO TELLES


O Estado de S.Paulo - 17/03/12


Ao parar no semáforo, o carro é imediatamente cercado por um bando de crianças, adolescentes, jovens adultos.

Alguns correm entre os veículos, colocando nos retrovisores pequenos sacos plásticos com balas, bombons ou flanelinhas, acrescidos de um pequeno escrito onde está afirmado que aquilo não é um assalto e sim um trabalho honesto, pelo qual é pedida uma remuneração. Outros, com água e rodos, ameaçadoramente se oferecem para limpar o para-brisa. Os menores não se dão ao trabalho de oferecer serviços supérfluos e não solicitados, vão diretamente ao que interessa e pedem dinheiro, querem moedas e trocados. Uns poucos ainda fazem malabarismos com fogo, a maioria exibindo um sofrível desempenho nesse desempenho.

Vagamente atemorizado, o motorista tenta manter a calma. Pra um diz que não precisa limpar o vidro. Pra outro diz que não tem moedas, está sem trocado. Não, também não quer comprar flanelinha nem balas de hortelã ou de qualquer outro sabor. Pros malabaristas mais esforçados, eventualmente faz um elogio. Procura sorrir para uma das criancinhas de cara suja e cabelo emaranhado.

O medo diminuiu e foi substituído por um estado de preocupação. Olha para as crianças, pros adolescentes, pros jovens adultos, pensando que todos eles deveriam estar em outro lugar, em casa com os pais, na escola, no trabalho.

Sabe o motorista que todos aqueles meninos, rapazes e moças vivem um presente negro, sem poder alimentar nenhuma esperança de um futuro melhor. Estão batalhando a sobrevivência em meio à fria indiferença dos homens, num áspero aprendizado que certamente terá efeitos desastrosos para todos. Sabe que apenas um fio os separa da franca marginalidade.

O motorista é invadido pelo desânimo e aumenta o volume do rádio do carro. A música o distrai até o próximo grande cruzamento, quando tudo recomeça.

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As farmácias invadiram São Paulo.

Para onde você vai, se depara com uma delas.

E tem mais. Elas são todas iguais, seguem o mesmo figurino padronizado.

Feericamente iluminadas, elas reluzem num tempo que lhes é próprio.

Dia ou noite, ali estão elas resplandecentes em sua branca limpidez.

Apesar de lembrarem um pouco os supermercados com suas gôndolas, nas quais estão expostos os remédios mais populares, os produtos de higiene, os cosméticos, as farmácias procuram afetar um ar mais compenetrado, querem ter mais classe.

Fazem questão de manter uma pose mais contida, da qual emana uma atmosfera de rigor e contensão.

Vindo do caos das ruas, com sua pressa, com seus achaques e doenças, o comprador, ao entrar numa dessas farmácias, parece ingressar num oásis de calma e organizada eficiência.

Às vezes ele até mesmo se sente intimidado, temeroso de poluir com suas preocupações e ansiedades aquele templo branco e austero, no qual reina uma calma serenidade.

De onde vieram todas essas farmácias? Que fazem elas por aqui? Haverá tanta gente doente, precisando de seus serviços?

Supondo que seja este o caso, com sua nova roupagem, estariam elas tentando driblar uma dolorosa realidade, a realidade da doença?

Estariam tentando dizer - "olha, não é verdade que você está sofrendo de algum mal, que você está doente e precisando tomar remédios; você está simplesmente fazendo compras, como sempre".

As novas farmácias estariam tentando transformar num conhecido ritual de consumo - mais um entre tantos - o cumprimento de um procedimento desagradável e angustiante, ou seja, a compra de medicações para o tratamento de enfermidades.

Muitos, aliviados, embarcam nesse engodo. O que não surpreende. Afinal, o consumo não é apresentado como a panaceia universal para combater a angústia que nos corrói?

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Dia desses, perto de meu consultório, presenciei uma batida policial. Os homens da lei estavam revistando um vendedor de zona azul, um rapazote que trabalha por ali com o pai. Como ninguém intercedia por ele e o pai não estava presente, dirigi-me a um dos policiais. Identifiquei-me como médico que trabalhava nas redondezas e que conhecia a rapaz e o pai dele. Disse aos policiais que o rapaz era gente boa. Enquanto eu falava, o rapaz dizia pra mim, "tudo bem, dotô, pode ir, é só uma batida, pode ir, dotô".

Quando terminei de falar, o policial se voltou pra mim e disse - e o senhor sabia que esse rapaz que o senhor diz ser gente boa é um grandessíssimo maconheiro e já foi preso várias vezes por furto?

Claro que eu não sabia, como também ignorava se o policial dizia aquilo para justificar sua indesculpável truculência. De qualquer forma, constrangido, fiquei sem saber o que fazer ou dizer. O moleque também estava passado. "Tá tudo certo, dotô, pode deixar", disse-me ele.

E eu o deixei. Enfiei minha viola no saco e fui embora, pensando nas inesperadas descobertas que ocorrem quando se rompe a distância habitual que mantemos com nossos semelhantes e aparece o que se esconde atrás da máscara usada nos contatos sociais. Temos então de lidar com esse Outro que ali surge, diferente daquilo que imaginávamos.

Essa experiência nos faz reconhecer as limitações de nosso conhecimento, a possibilidade de equívocos e erros de julgamento, ao mesmo tempo em que mostra a necessidade de abertura e tolerância frente ao desconhecido e o inesperado.

Quanto ao rapaz da batida policial, algum tempo depois voltei a encontrá-lo rua vendendo seus talões de zona azul e nos cumprimentamos como se nada tivesse acontecido. Estávamos de novo com nossas máscaras.

Nas circunstâncias, era o que havia a fazer.

Supremo: decifra-me ou te devoro - WALTER CENEVIVA


FOLHA DE SP - 17/03/12

O Brasil vive situação com ares de imposição mitológica. A figura, não mitológica, mas fundamental, tem 11 cabeças 


A MITOLOGIA grega narra a história do monstro que, postado na estrada, esperava os passantes para lhes propor enigma impossível de decifrar, culminando com a frase assustadora: "decifra-me ou te devoro".

O Brasil de hoje vive situação que tem ares de imposição mitológica. A figura, não mitológica, mas fundamental na vida do país, tem 11 cabeças. Trata-se do STF (Supremo Tribunal Federal). A influência resultante de tais cabeças será grave. Não envolverá um passante qualquer, mas todo o povo, colocado em situação inusitada, já que não temos como saber qual caminho percorrerão nas questões constitucionais que nos aguardam na formulação da justiça para todos.

Gostando ou não gostando, a cidadania brasileira, muito mais que buscar sua síntese jurídica, terá de decifrar o STF com a nova escalação de seus componentes, sem os conhecer de perto, o que pensam e pensarão a respeito do destino do Brasil em matérias fundamentais da nacionalidade.

Para o leitor leigo, duas informações são necessárias: o STF tem 11 magistrados, cabendo-lhes a interpretação da Carta Magna. A missão vem definida pelo art. 102 da Carta. Decorre de sua competência precípua de guarda da Constituição. A guarda pode mudar toda vez em que um dos 11 seja substituído, em matéria na qual há sempre o anseio fundamental de ter, pelo menos, uma certa previsibilidade.

A escalação dessas eminentes autoridades do direito sofrerá mudanças quase imediatas quando dois integrantes serão substituídos até 2013. A composição alterada não é estranha à Corte. Começou com 15 ministros na transposição do Império para a República. Em 1931, o número de 11 componentes preponderou, mas no retorno ditatorial de 1964 (Ato Institucional nº 2/1965), o número de vagas foi alterado para 16. O Ato Institucional nº 6 de 1969 reduziu outra vez para 11 o número de ministros, composição que se mantém até hoje.

O ano de 2013 completará as alterações ocorridas e por ocorrer. O ministro Ayres Britto substituirá Antonio Cezar Peluso na presidência do STF e, alguns meses depois, também se aposentará Britto, que veio da advocacia e honrou suas origens. Peluso saiu do hoje conturbado Tribunal de Justiça de São Paulo, com dezenas de anos de judicatura. O ano próximo acrescentará às novidades mais uma, boa em si mesma. O Brasil terá o primeiro presidente negro de sua mais alta corte da Justiça do Brasil, na pessoa do ministro Joaquim Barbosa. É pena que a saúde de Barbosa tenha sido causa de preocupação extra na composição do quorum de votações.

O jogo da história, em certos momentos, tem muita importância específica para toda a nação brasileira, mais relevante agora que estamos assumindo destaque no conjunto das nações.

Passamos, em pouco mais de 120 anos, por modificações forçadas, conforme se viu quando houve desagrado dos marechais, almirantes, brigadeiros e de seus aliados civis detentores do poder econômico em 1964. Outras, em clima de normalidade constitucional, registraram fenômeno inusitado: a substituição majoritária dos veteranos no STF em poucos anos.

Os novos chamados ou por chamar terão de dizer a que vieram. Sejam felizes. Será modo de impedir que outros entes mitológicos queiram devorar-nos.

Pedi, e não recebereis - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 17/03/12


Dá para entender a impaciência dos dirigentes da indústria com as soluções tipo "meia-boca" apresentadas pelo governo, destinadas a conter o esvaziamento do setor. Mas eles também são responsáveis por essa mediocridade de políticas. Aceitam e aplaudem esse jogo.

Esses dirigentes criticam todos os dias o tratamento à base de cosméticos proporcionados pelo governo, mas, quando vêm, as acabam aceitando sob o argumento de que, afinal, é melhor isso do que nada.

Os dirigentes da indústria têxtil, por exemplo, aplaudiram a desoneração das contribuições sociais. E, semanas depois, reclamaram de que foi pouco. Agora cobram contribuições extras dos seus associados, de R$ 600 milhões neste ano, declaradamente para financiar consultorias e iniciativas de defesa comercial. Sabem que nada disso melhorará sua competitividade perdedora nem acrescentará um dólar sequer nas exportações. No entanto, insistem nessas iniciativas, que dão impressão de que "estão fazendo alguma coisa". Não centralizam esforços no que poderia melhorar de fato suas condições de negócio: reforma tributária; investimento em infraestrutura; derrubada de custos financeiros.

Na semana passada, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, avisou que a renegociação das concessões das hidrelétricas, que estão para vencer, não contribuirá para baratear a tarifa - a quarta mais cara do mundo. Surpreendentemente, nenhum dirigente industrial mostra indignação contra essa passividade.

Toda a chamada política industrial está funcionando à base de improvisações, paliativos e "cala-bocas", em geral distribuídos para quem grita mais alto. Nada vem que, de fato, enfrente o problema principal: incapacidade da indústria brasileira de tirar proveito de um mercado consumidor interno que cresce quase o dobro do PIB, num ambiente inédito de pleno emprego e abundância nunca vista de crédito externo a juros rastejantes.

O governo alardeia que passou a exigir conteúdo nacional nos fornecimentos da Petrobrás, política que deveria priorizar interesses dos produtores. No entanto, o mesmo governo impõe política de preços dos combustíveis às custas do caixa da Petrobrás que, de cambulhada, também arrebenta o setor do etanol, até há pouco entendido como altamente competitivo.

A indústria acha que sabe fazer lobby e pressionar o governo, mas se limita quase sempre a pedir mais câmbio e mais isenções tributárias, mesmo sabendo que não há condições práticas de que o governo possa ir fundo nessas concessões.

A que câmbio, por exemplo, a indústria recobraria sua competitividade? O ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira, tem opinião formada sobre isso. Ele diz que, "no atual estado da arte", abaixo de R$ 2,50 por dólar não se garante futuro para a indústria. E, no entanto, um câmbio à altura dos R$ 1,90 já parece impraticável para a economia do Brasil. Não é por faltar câmbio que o moderno grupo Coteminas está fechando fábricas no Nordeste.

Se pressões por mais câmbio não têm futuro, então é preciso voltar ao ataque às questões de fundo, que constituem o chamado custo Brasil. Mas o empresário prefere aplicações de doses de morfina a enfrentar o doloroso processo da quimioterapia que salvaria seu negócio.

Por trás dos números - REGINA ALVAREZ

 O GLOBO - 17/03/12
O desempenho da indústria foi muito ruim em 2011 e continua assim. A queda de 2,1% na produção em janeiro acendeu um enorme sinal de alerta no governo e a crise passou para o topo da enorme lista de preocupações da presidente Dilma Rousseff. Medidas estão sendo tomadas para atenuar os efeitos do câmbio e proteger o setor industrial, mas são ações emergenciais, paliativas, que não atacam os problemas estruturais.

O governo tem concentrado suas ações nos setores mais afetados pela valorização do real frente ao dólar e pela concorrência com os produtos asiáticos. Esses setores tiveram os piores desempenhos entre os segmentos da indústria, que, na média, cresceu só 0,2%. Têxteis recuou 14,9% e calçados e artigos de couro, 10,4%.

O economista Júlio Gomes de Almeida, do Iedi, propõe um novo olhar sobre o desempenho da indústria, que não substitui a visão do governo, mas contribui para a busca de soluções permanentes. Na lista de segmentos industriais, destaca três que se saíram bem em 2011, mesmo enfrentando os percalços do câmbio e da crise global. O exercício serve para mostrar o que está dando certo e poderia ser disseminado por meio de políticas públicas ou ações do setor privado.

O segmento de equipamento de instrumentação médico- hospitalar e ópticos é o melhor colocado nesse ranking. Cresceu 11,4% em 2011, incentivado pelo aumento da demanda interna, combinado com o fato de ser dinâmico tecnologicamente.

- A lição desse segmento é que vale a pena investir em setores de alta tecnologia, especialmente onde a demanda é crescente - explica.

O setor de outros equipamentos de transportes cresceu 7,9%, puxado pelos aviões da Embraer. O diferencial é uma primorosa cadeia produtiva. A lição, destaca Almeida, é trabalhar para que as cadeias produtivas sejam mais eficientes, adotando políticas com esse foco.

O terceiro segmento que se destacou em 2011, com crescimento de 3,2%, é o de minerais não metálicos, puxado pelo aquecimento no setor imobiliário e o programa Minha Casa, Minha Vida. A lição é que vale a pena investir em habitação e incentivar a construção. Esse novo olhar, voltado para os setores que se saíram bem na crise, pretende apontar caminhos para a recuperação da indústria ainda pouco explorados.

Se o governo incluir outros vetores na política já em curso, com foco na produtividade da indústria e incentivos aos setores com potencial elevado de crescimento, ainda vai levar um tempo, mas a indústria acabará dando a volta por cima e de forma sustentada, sem a tensão da competitividade deficiente, destaca o economista do Iedi.

Robin Wood I

A economista Teresa Ter-Minassian, do BID, acaba de concluir estudo, encomendado pelo Ministério da Fazenda, sobre a redistribuição dos recursos do Fundo de Participação dos Estados (FPE) com base em novo critério. O Supremo Tribunal Federal julgou inconstitucional o modelo atual de distribuição das verbas e deu prazo até 31 de dezembro para o Congresso aprovar uma nova lei. A proposta tem o objetivo de promover um rateio mais justo e equilibrado dos recursos da União repassados aos estados, considerando as peculiaridades de cada um, de forma a beneficiar de fato as regiões mais pobres, que não estão concentradas apenas no Norte e Nordeste. A regra que vigora hoje, criada por lei complementar em 1989, era transitória, mas nunca foi alterada e a realidade do país mudou muito de lá para cá. Pela regra, 85% dos recursos vão para os estados do Norte e do Nordeste e só 15% vão para os demais.

Robin Wood II

Pela proposta de Ter-Minassian, o rateio seria feito com base na receita corrente per capita de cada estado, descontadas as transferências do próprio FPE e outras feitas pela União. Ela sugere usar uma média de três anos para calcular a receita, de forma a evitar que um governante ofereça, por exemplo, incentivos em determinado ano para reduzir artificialmente a receita do estado. O governo ainda não se manifestou sobre o assunto, mas vai ter que fazê-lo, pois sem a nova regra os estados deixam de receber os recursos do Fundo, a partir de janeiro de 2013. É mais um assunto com potencial para gerar polêmica no Congresso, assim como acontece com os royalties e a reforma tributária, já que é um jogo de soma zero. Se uns ganham, outros vão perder.

Barril de pólvora

No Ministério da Fazenda prevalece o consenso de que é preciso renegociar os contratos das dívidas dos estados e prefeituras com a União, fechados em 1999 e sacramentados pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Não foi por acaso que o ministro Guido Mantega manifestou-se favorável à mudança na audiência da CAE, no Senado. O que se discute é uma fórmula que atenda os governadores sem ferir a LRF.O tempo joga contra, porque cresce o endividamento de alguns entes e há casos em que a dívida está se tornando impagável.

Ambientalismo sem paixões - KÁTIA ABREU

FOLHA DE SP - 17/03/12


As margens dos rios devem ser preservadas, mas os parâmetros dessa proteção devem excluir as paixões

PARTICIPEI NESTA semana do Fórum Mundial da Água como senadora e representante dos produtores rurais do Brasil, para associar-me aos esforços que o mundo todo deve fazer para conciliar as exigências da produção agrícola, e da própria vida humana, com a conservação dos recursos hídricos.

Até 40 anos atrás, o Brasil era um grande importador de alimentos, mas a nossa produção rural transformou-se e nos tornamos um dos maiores produtores do planeta e um dos mais importantes exportadores de alimentos.

O Brasil dispõe de uma das maiores reservas de água doce do mundo (12%), com milhares de rios que cortam o país em todas as latitudes, e de grandes reservas de águas subterrâneas.

Diferentemente dos demais países de grande expressão demográfica, não sofremos, na maior parte do nosso território, de limitação de água. Nossa agricultura irrigada tem pequena participação na produção total, pois o regime de chuvas, salvo em algumas áreas, é adequado às condições de produção.

Ao longo da formação histórica do Brasil, do mesmo modo como aconteceu em todas as partes do mundo civilizado, nem sempre a produção rural e a conservação dos recursos naturais estiveram em harmonia. A própria ideia de que os recursos da terra são limitados e finitos é uma noção recente. É uma consciência que vem ganhando força progressivamente.

Hoje, no entanto, podemos dizer que produzimos muito, com práticas modernas e adequadas, sob uma legislação ambiental bastante rigorosa e detalhada.

Estamos, neste momento, finalizando a atualização e a modernização da legislação ambiental, cujo maior mérito é o de expressar um genuíno consenso social, o que tornará sua aplicação muito mais espontânea e efetiva, sem a necessidade de um exército de fiscais para forçar seu cumprimento.

O mundo precisa que a produção brasileira de alimentos continue crescendo por meio do aumento da produtividade. O crescimento demográfico e o aumento da renda que se observa em todas as partes do mundo em desenvolvimento, pelos avanços da globalização e do comércio internacional, vão exigir uma oferta maior de alimentos nos próximos anos.

A escassez de terras aráveis e as limitações da oferta de água restringem a expansão da produção, na maior parte do mundo.

O Brasil, felizmente, tem ainda abundância de terras agricultáveis, bem como uma disponibilidade bastante ampla de água, o que torna nosso país uma das poucas alternativas para o abastecimento da população da terra.

Desde o início da civilização humana, na Ásia, até hoje, na Europa, os produtores procuraram as margens dos rios para produzir e para habitar.

O Brasil tem uma legislação que fixa normas de proteção com vegetação natural às margens dos rios, em torno das nascentes e nas áreas de recarga.

O aumento da produtividade e as novas técnicas de produção permitem, hoje, que as margens dos rios sejam preservadas, para que o volume e a qualidade das águas sejam protegidos. Mas os parâmetros dessa proteção devem ser fixados com base nas razões da ciência -e não de paixões políticas.

Os benefícios de rios preservados se estendem a toda a sociedade, são benefícios públicos. Os custos de preservação, no entanto, recaem unicamente sobre o produtor.

O equilíbrio das relações sociais e a própria efetividade da norma ambiental estariam muito mais bem servidos se o Estado encontrasse mecanismos financeiros capazes de retribuir o produtor, distribuindo os encargos com o conjunto da sociedade.

Estamos propondo que o modelo brasileiro de preservação das margens dos rios e nascentes -nossas Áreas de Proteção Permanente, as APPs- seja também adotado por todos os países do mundo, para que o Reno, o Danúbio, o Mississippi e o rio Amarelo possam ser protegidos por lei, como o Amazonas, o São Francisco, o Paraná, o Araguaia, o Tocantins, em benefício da humanidade e das gerações futuras, pois é exatamente a água que faz com que a vida não se contenha.

Código Florestal, utopia ou loucura? - RODRIGO LARA MESQUITA


O ESTADÃO - 17/03/12
Só um indivíduo socialmente irresponsável seria contra a possibilidade de o Brasil reverter, num período de tempo plausível, os erros graves cometidos no seu processo de ocupação territorial. Querer resolver esses problemas numa patada, com um golpe de força, é ignorar o processo histórico, suas circunstâncias e criar um ambiente propício para toda ordem de conflitos.

A versão do Senado para o Código Florestal prevê a recuperação de áreas de preservação permanente (APPs) em todas as propriedades rurais. Quem defende esse dispositivo está praticamente condenando à morte 4,5 milhões de pequenos agricultores, responsáveis por mais da metade da produção de alimentos no País, e colocando uma bomba no colo da presidente Dilma Rousseff. E está fazendo isso premido por argumentos e campanhas que muitas vezes se sustentam mais por argumentos emocionais do que racionais; não é possível reverter 500 anos de um processo econômico com um decreto.

No final do século passado, foram consideradas APPs as faixas marginais dos rios, as encostas de morros e outras situações. Mas a ocupação desses locais já ocorrera, ao longo dos nossos 500 anos de História. Os principais exemplos são as pastagens nas montanhas de Minas Gerais, como ocorre nos Alpes e nos Andes; os vinhedos e macieiras em encostas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, como em grande parte da Europa; o café em altitude em São Paulo e Minas Gerais, como na Colômbia; os bananais no Vale do Ribeira, como no Equador; e a ocupação de várzeas e terras férteis à margem de rios com plantios de arroz, irrigação, criação de búfalos e outras atividades, como no Nilo, no Mekong, etc.

Na versão aprovada na Câmara dos Deputados, as atividades agropecuárias tradicionais, desenvolvidas até 2008 em APPs, seriam consolidadas, com a proibição de abertura de novas áreas. Mas o Senado impôs mais uma condição: os agricultores devem arrancar cultivos e pomares, retirar o gado e recuperar a vegetação nativa em faixas de 15 até 500 metros de cada lado dos rios e riachos. Ao longo do Rio São Francisco ou de rios de Mato Grosso, por exemplo, isso pode representar a perda de mais da metade das áreas produtivas. Para quem tem diversos riachos na propriedade pode inviabilizar toda a produção. É também o caso dos projetos de irrigação, instalados ao lado dos rios.

A proposta, portanto, é de que o Estado imponha essa perda agrícola e ainda transfira o ônus para os agricultores: uma utopia ou loucura, dependendo da sua perspectiva. Segundo fontes do Ministério do Meio Ambiente, a agricultura perderia 33 milhões de hectares. Para outras fontes, isso representaria arrancar cultivos, pomares e pastagens de 60 milhões de hectares.

Quanto menor a propriedade rural, pior a sua situação. Os pequenos utilizam a totalidade das terras para produzir e sobreviver. De acordo com a Lei n.º 8.629/93, pequenas propriedades são imóveis entre um e quatro módulos fiscais (MFs), cuja dimensão é definida pelo Incra para cada município.

Em parte do Brasil, o Senado propõe que essa perda de terras produtivas se limite ao máximo de 20% da propriedade com menos de quatro MFs. Ora, ao longo dos rios estão os terrenos mais férteis. Na maioria dos casos, esses 20% de terras férteis garantem 50% a 80% da renda do produtor.

Um estudo da Embrapa Gestão Territorial verificou, com base no Incra e no Censo Agropecuário do IBGE de 2006, que os imóveis com até quatro MFs correspondem a 89% dos estabelecimentos agropecuários do País, ocupam 11% do território e contribuem com 50% da produção agropecuária. Eles serão duramente atingidos por essa medida, cujo alcance social e econômico o Ministério do Meio Ambiente e o governo não dimensionaram, muito menos o Senado.

Como impor indiscriminadamente a recomposição com vegetação nativa de áreas produtivas, se elas foram ocupadas em conformidade com a lei de seu tempo? O ministro Marco Aurélio Mello, do STF, já prevê uma enxurrada de ações judiciais. Se não é uma enorme irresponsabilidade defender tal medida, é uma tentativa de passar a borracha na nossa História e em alguns casos levar a fatura para quem não tem nenhuma responsabilidade sobre esse passado.

Áreas de preservação permanente devem ser recuperadas quando e onde for pertinente, e todos os esforços nesse sentido são bem-vindos. Mas exigir a mesma faixa de vegetação para um riacho que corre dois meses na caatinga, ou desce encachoeirado as serras do Espírito Santo, ou escoa quase imperceptível pela pampa gaúcha, ou forma um pequeno igarapé na Amazônia é ignorar a diversidade do meio ambiente. Cada bioma pede critérios específicos. Os Estados devem participar da avaliação e do esforço para recompor as APPs de forma adequada, considerando a ocupação das terras, as tecnologias empregadas, a situação de conservação dos solos e das águas e, mais do que tudo, a história de como isso ocorreu, num processo secular.

A regularização das atividades econômicas produtivas até 2008 em APPs dará segurança jurídica ao homem do campo. O princípio da precaução sugere que o governo avalie a situação das APPs e só depois proponha sua recuperação, por meio de critérios técnicos, lá onde for necessário, de forma adequada e no tempo possível. Forçar a recomposição como regra absoluta pode quebrar a agricultura e os agricultores, além de abalar profundamente um dos setores mais desenvolvido e dinâmico da economia do Brasil.

Vale lembrar de novo que o objetivo das leis é apoiar a sociedade, e não controlar a sociedade. São dinâmicas, evoluem com ela, contribuindo para a formação do arcabouço institucional. Quando as estruturas legais se chocam com as estruturas sociais, elas criam as condições para conflitos sem fim.

Os arreganhos da tigrada - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADÃO - 17/03/12

A parte que cabe à presidente Dilma Rousseff nas desavenças do governo com a assim chamada base aliada já foi exaustivamente exposta.

Vai desde o seu temperamento impositivo à aparente relutância a dominar os códigos da política, passando pela incompreensão do fato elementar de que, nas sociedades democráticas, a propensão para o entendimento com os partidos e o Parlamento, mais do que um atributo subjetivo dos governantes a ser usado em proveito próprio, é condição de legitimidade de seus atos e matéria-prima para a construção da sua liderança. No entanto, as carências da presidente não esgotam a narrativa de seus percalços políticos.

Eles resultam também do fardo que Dilma herdou do mentor Luiz Inácio Lula da Silva e da natureza do jogo político no Brasil. Para ajudar a elegê-la e ajudá-la, no poder, a aplastar a oposição, o então presidente montou e se tornou fiador da mais derramada coligação partidária da história nacional. Entre agremiações grandes, médias, pequenas e nanicas, nada menos de 18 subiram (ou acharam que subiram) a rampa do Planalto com a criatura política do líder que investiu o seu imenso carisma, popularidade e desenvoltura no uso da função para perpetuar nas instituições de governo a supremacia do esquema de sua lavra. À frente situacionista se juntaria, tão logo nasceu, o PSD, que não é de esquerda, nem de direita, nem de centro, mas de Gilberto Kassab, o prefeito paulistano.

Haja bocas a sustentar - ainda mais quando a expectativa por verbas e cargos é tudo o que aproximou da nova presidente a esmagadora maioria dos membros da coalizão de governo. Excluem- se dos aspirantes a comensais as microssiglas, fadadas a se satisfazerem, se tanto, com as migalhas do banquete, e, naturalmente, o PT, o dono dos comes e bebes. Mal acostumados com a mão aberta de Lula no segundo mandato - no primeiro, a sua gente preferiu comprar apoios com metal sonante mesmo, com os resultados conhecidos do mensalão -, os aliados deram de cara com a sovinice da sucessora. Acrescentando insulto à injúria, ela ainda demitiu uma penca de ministros, embora a contragosto, e estabeleceu uma antinomia humilhante para a politicalha em geral: ela, a faxineira; eles, o entulho.

Não fosse a maioria parlamentar tão desprovida de decoro, e fossem os motivos do estranhamento com Dilma divergências substantivas de orientação governamental, as tensões que transbordam do noticiário de Brasília mereceriam ser levadas a sério. Em vez disso, prevalece a imagem de uma chefe de governo cujas limitações avultam diante dos arreganhos de uma tigrada ávida por se lançar sobre os meios que lhes garantem a sobrevivência: a alocação de verbas para os seus feudos e a partilha do Planalto. A crise aberta com a demissão dos líderes do governo na Câmara e no Senado teve novo lance quarta- feira com o "rompimento" da bancada do PR no Senado (7 cadeiras em 81) com a presidente. O episódio é de livro de texto.

Em junho do ano passado, uma barragem de denúncias atingiu o Ministério dos Transportes em posse do partido desde os anos Lula. O escândalo derrubou, além de 15 suspeitos, o titular da pasta, o senador licenciado Alfredo Nascimento, homem forte da legenda. No seu lugar Dilma nomeou o economista Paulo Passos, também do PR. Mas os caciques da sigla nunca o aceitaram como ministro, por não ter sido indicado por eles. O governo, por sua vez, vinha evitando dizer não, com todas as letras, à pretensão perrepista de emplacar outro correligionário.

O caldo entornou de vez depois que a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, riscou, um a um, os nomes de uma lista que lhe apresentara o líder da legenda no Senado, Blairo Maggi.

"Cansei", reagiu o rei da soja. "PT saudações." Não por acaso, um dia antes o governo havia escolhido Eduardo Braga, do PMDB, para seu líder na Casa. Nascimento e Braga são adversários na política amazonense. O cansaço de Blairo, porém, tem conserto. Ele tomou o cuidado de bater a porta na cara do Planalto e mantê-la entreaberta. Disse, com a naturalidade com que seus pares embaralham esfera pública e ambições privadas, que o PR "não abre mão" de voltar aos Transportes. Mas disse também que, se a presidente, afinal, ceder, o partido voltará a ser governo.

Crise e acomodação - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 17/03/12



Planalto e Congresso estão de novo às turras, mas clima ameno na economia e popularidade de Dilma criam espaço para entendimento

Generalizou-se o nome de "crise" para uma confluência de conflitos políticos que, apesar da algazarra parlamentar, parecem circunscritos ao comércio de postos de poder -mercado de onde não devem transbordar, dada a tranquilidade social e econômica no país.

São contendas que derivam do gradual rearranjo do governo de Dilma Rousseff, assim como das disputas de poder entre partidos, em especial PMDB e PT, e também intrapartidárias.

Dilma faz, no momento, o rescaldo da derrubada de ministros de seu primeiro ano de mandato. A presidente aproveitou o empuxo, ao refazer o esquema de poder outorgado pelo antecessor e padrinho, Luiz Inácio Lula da Silva, para alterar também as lideranças parlamentares do governo.

A presidente, assim, confisca e redistribui mais a seu gosto postos em ministérios e estatais. Fere interesses e, ao mesmo tempo, abre terreno para disputas adicionais entre os partidos de sua coalizão e entre correntes desses partidos, em particular no seu, o PT.

A tensão acabou por contagiar um conflito ainda adormecido, o do comando das casas do Congresso em 2013-14. Deveria ser entregue, a princípio, ao PMDB, acordo porém contestado por alas do PT.

Tais confrontos parecem em evidente contraste com uma desaceleração econômica que ainda não se refletiu no cotidiano. Apontem-se ou ocultem-se vários problemas graves, o fato é que o país permanece acomodado.

A presidente é popular. Saiu ilesa da queda em série de seus ministros abatidos por escândalos. Atribuiu-se mesmo a Dilma o mérito de uma "faxina" num governo que, no fim das contas, era o seu, ao menos nominalmente, embora inspirado por Lula.

O tropeço econômico de 2011 mal foi sentido pela população, que pôde aumentar ainda outro ano seu consumo. Líderes empresariais são aliados do governo e veem seus pleitos em parte atendidos, apesar das queixas. A oposição, minoritária em números e diminuída em iniciativa, mal se nota.

O clima conflituoso paralisa o Congresso, sem dúvida, e obsta a resolução de disputas de interesse mais geral. Entre outras, o código florestal, o fundo de pensão dos servidores e a lei do petróleo.

O cordão sanitário da estabilidade na maior parte do país por si só tenderia a barrar transbordamentos desses embates além da praça dos Três Poderes. O fato de que tal conflito se limite a cargos e favores é outro diminutivo da crise.

Governos e parlamentos brasileiros têm de se arranjar e acabam por fazê-lo, pois não têm mais onde buscar o que cobiçam: docilidade no Congresso e feudos de poder.

CLAUDIO HUMBERTO

“O mar está tranquilo; revoltos estão os marinheiros”
Senador Walter Pinheiro - (PT-BA), sobre o clima de guerra na base aliada

LULISTAS DO PT QUEREM DEMISSÃO DE IDELI SALVATTI

Inconformados com a dispensa do deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) da liderança do governo na Câmara, membros da facção Construindo um Novo Brasil (CNB), que é majoritária e liderada por Lula, trabalham pela demissão da ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais), a quem atribuem a armação que resultou na substituição do parlamentar por Arlindo Chinaglia (SP), que integra facção rival dentro do PT.

CHÁ DE SUMIÇO

Os aliados que restam a Ideli Salvatti no PT recomendaram que ela tome um chá de sumiço por uns dias, para ver se a CNB a esquece.

BRIGA PROVINCIANA

Além da guerra de facções no governo, Jilmar Tatto, Arlindo Chinaglia e Cândido Vaccarezza disputam os mesmos territórios em São Paulo.

PIOR DO QUE ESTÁ FICA

Para piorar a situação, o presidente da Câmara, Marco Maia, celebrou a queda de Vaccarezza em casa, com muito uísque. Lula soube.

MAU SINAL

Sinal de que Lula detestou a escolha de Chinaglia: recebeu o novo líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM), mas não o petista.

LIÇÃO DE FUTEBOL E POLÍTICA

O ministro Aldo Rebelo (Esporte) surpreendeu o suíço Joseph Blatter, presidente da Fifa, com algo incomum entre europeus: levou-o à sua casa, quinta à noite. Blatter ficou encantado com o gesto e riu muito dos “causos” de futebol contados pelo alagoano, que é torcedor doente do Palmeiras. Entre um pedaço e outro de picanha, Rebelo deu algumas lições de política e advertiu, com seu jeito manso: “Se houver disputa, briga, a chance de o governo brasileiro perder é zero”.

PÁTRIA DE CHUTEIRAS

Rebelo observou e Blatter anuiu: o futebol ganhou dimensão mundial porque virou o esporte nacional no Brasil, grande país fora da Europa.

DESCULPAS FORMAIS

Blatter pediu desculpas, em nome da Fifa e dele próprio, pela atitude grosseira do secretário-geral Jérôme Valcke, que não foi citado.

NÓ EM PINGO D’ÁGUA

Joseph Blatter é sabido. Fala oito idiomas, inclusive o português, e só usa intérprete para ganhar tempo e pensar melhor as respostas.

BEM COM O POVO

O governador tucano de Goiás, Marconi Perillo, notou que o povo, ao contrário dos políticos, reage bem à presidente Dilma. Ela foi saudada com entusiasmo nas ruas, na primeira visita ao Estado em 14 meses.

OS PERGUNTADORES

Também com índices elevados de aprovação, o governador de Goiás, Marconi Perillo, descobriu uma característica em comum com Dilma Rousseff: ambos são fissurados em detalhes técnicos das obras. Querem saber de tudo.

GRAVATA MALUFISTA

Em almoço na casa do deputado Fábio Ramalho (PV), o petista Nelson Pellegrino (BA) elogiou a gravata de Paulo Maluf (PP-SP). O ex-governador retirou-a e presenteou o deputado: “Use-a em dia de festa”.

NOVAS CARAS

A vice-presidente da Câmara, Rose de Freitas (PMDB-ES), avalia que “as cartas embaralharam” na disputa pelo comando da Casa em 2013. “O troca-troca de líderes do governo muda as caras do jogo”.

FISIOLOGISMO FOR EXPORT

A bancada brasileira no Parlamento do Mercosul nada faz de assinalável, mas aprovou resoluções para a criação de um “Banco do Sul” e de um “Instituto Social do Mercosul”. Cargos. Só pensam nisso.

APOSTA NO TAPETÃO

Ruim de voto e da cabeça, o que o mantém no limbo do próprio PT, o suplente Luiz Eduardo Dutra torce para que o TSE ignore a soberania das urnas para tomar o lugar da senadora Maria do Carmo (DEM-SE).

MISSÃO DE RESGATE

A parceira coreana Samsung, que abdicou da parceria, tinha 400 coreanos trabalhando no Estaleiro Atlântico Sul, em Suape (PE), que ameaça naufragar. A região não tem infraestrutura para os imigrantes.

LIVRO EM SEGUNDO PLANO

A Câmara Brasileira do Livro agora informa que “não se opõe” ao uso da logo apoiando a 1ª Bienal do Livro, em Brasília, mas condiciona isso à citação da Câmara local, cuja existência é ignorada pela cidade.

PENSANDO BEM...

...Isso não se faz: os defensores da proibição de bebida na Copa queriam Lula longe dos estádios. 

PODER SEM PUDOR

DOIS EM UM

Além de Petrônio Portela, articulador da abertura política, o Piauí tinha o senador biônico Lucídio Portela. Ao contrário do irmão, Lucídio tinha fama de autoritário e pouco letrado. Reza a lenda que, certa vez, ele elogiava a ditadura quando citou Dostoiévski. Um senador de oposição aparteou:

– Interessante sua citação de Dostoiévski. A propósito, o nobre colega já leu Crime e Castigo?

– Li os dois! – fulminou o velho Lucídio, multiplicando por dois o clássico romance da literatura russa.  

SÁBADO NOS JORNAIS


Globo: Procurador decide denunciar Chevron por crime ambiental
Folha: Universidade frauda MEC e paga comissão a igrejas
Estadão: Cresce suspeita de novo grande vazamento na área da Chevron
Correio: Péssima lição
Zero Hora: Inter e Andrade Gutierrez – Acordo Fechado
Estado de Minas: Do sonho... À realidade
Jornal do Commercio: Um novo sistema de ônibus