segunda-feira, novembro 28, 2011

De volta a 1937 - RUBENS RICUPERO


FOLHA DE SP - 28/11/11

A crise deve servir para retomar a preocupação com avanços reais de produtividade e eficiência


O desafortunado 2011 ficará na história como a repetição de 1937. Esse ano foi importante para muita gente, a começar por mim, que nele vim ao mundo. Para o mundo, marcou a recaída da recessão americana no momento em que se parecia estar saindo da Grande Depressão.
A partir de meados de 1937, a produção manufatureira despencou 37%. O desemprego saltou de 14% a 19%, embora sem chegar aos 25% de 1933. Só ao entrar na guerra, em 1941/42, os EUA recuperariam o nível de emprego.
Tal qual naquela época, a crise atual se assemelha a uma montanha-russa pontuada de altos e baixos que alternam confiança e desespero. É o que estamos vendo desde o agravamento do problema da Europa e da paralisia política junto à estagnação econômica nos EUA.
Para os americanos, o quadro político é hoje pior: radical polarização da sociedade e dos partidos, presidente que não passa de pálida figura comparado à personalidade de irradiante autoconfiança de Franklin D. Roosevelt.
No caso dos europeus, a semelhança se resume à modéstia dos talentos de Merkel, Sarkozy e Cameron, mais ou menos do mesmo nível de Chamberlain e Daladier.
A irredutível diferença é que 1937/38 foram os anos do Grande Terror em que Stálin assassinou 682 mil pessoas, da Noite de Cristal de Hitler antecipando o holocausto de 5,7 milhões de judeus, da inexorável marcha rumo à Segunda Guerra Mundial, durante a qual pereceram mais de 60 milhões de pessoas.
Felizmente, estamos longe desses extremos da ignomínia e da infâmia. Nada na reação dos indignados e de movimentos como o "Ocupe Wall Street", na perda de legitimidade e queda de governo após governo na Europa autoriza comparações com a sinistra ascensão do nazifascismo na década de 1930.
No entanto, um medo indefinido, um calado desespero, uma angústia do futuro começam a se infiltrar nas almas humildes das vítimas inocentes da cobiça dos fundamentalistas do mercado.
No Brasil, o período que evocamos foi de luzes e sombras. No passivo houve o levante dos comunistas, o ataque dos integralistas ao Catete, a implantação do Estado Novo, a moratória da dívida, a crueldade dos crimes da repressão descritos por Graciliano Ramos em "Memórias do Cárcere", esquecidos pelos admiradores do risonho Vargas da propaganda oficial.
Na economia, não existia para compensar a crise mundial algo parecido com a China de agora, aliás brutalmente agredida em 1937 pelo Japão. Apesar disso, a penúria de divisas por causa da moratória e a industrialização forçada da guerra neutralizaram os efeitos de fora.
O crescimento alimentava o debate da questão nacional, a esperança de que a indústria, defendida por Simonsen, permitisse superar a estrutura colonial, a vocação agrícola advogada por Gudin.
A lição desse tempo distante é clara. Os ganhos com commodities, mesmo o sonho-pesadelo do petróleo, não podem nos distrair do desafio essencial. A crise deve servir para retomar a preocupação com avanços reais de produtividade, competitividade e eficiência, com reformas que façam do Brasil uma nação verdadeiramente moderna e equitativa.

Sonho brasileiro - AÉCIO NEVES


FOLHA DE SP - 28/11/11

Dados do Ministério da Justiça indicam uma corrida de estrangeiros em busca de regularização de seu status de imigrantes no Brasil. Os números impressionam: 961 mil pessoas em 2010 e 1,466 milhão só nos primeiros seis meses de 2011 buscaram os guichês da Polícia Federal para obter legalmente o direito de construir sua vida, ou reconstruí-la, entre nossas fronteiras.
O número de brasileiros morando no exterior caiu à metade. Estão minguando as levas de compatriotas nossos sinceramente iludidos com as miragens do "American dream", e também de algum "European dream". Eram os filhos para quem a nossa pátria não estava sendo mãe gentil.
Hoje, os excluídos do passado buscam a possibilidade de um novo acolhimento.
Nas duas últimas décadas, a estabilidade econômica, o robustecimento do PIB, ainda que abaixo de nosso potencial, e a consequente abertura de novos horizontes de trabalho tiveram o condão de arrefecer a urgência do exílio forçado.
Ao se constatar, na frieza das estatísticas oficiais, que o Brasil vai readquirindo, 500 anos após o ciclo das descobertas, o endereço de um novo Eldorado, pergunto-me se o sonho dos estrangeiros inspira, como deveria, a alma e a consciência dos brasileiros.
É da natureza do sonho extrapolar as pequenas conquistas do cotidiano, ir além das benesses do consumo e do crediário, tão alardeadas pelos mercadores de ilusão do Planalto, deixar-se levar pela fantasia (desde que alicerçada na realidade) capaz de nos fazer dizer, com orgulho: "Eis aqui o meu lugar, o lugar da minha escolha, o lugar no qual o futuro será capaz de receber afetuosamente as gerações que irão me suceder".
Se o português, o norte-americano, o boliviano, o coreano aqui desembarcam a bordo da confiança de uma terra de promessas, o que falta ao Brasil para bafejar nossa juventude com a mesma primavera de esperança?
A janela para o sonho, a gente sabe, é a educação. Mas, para muitos de nossos jovens, a janela permanece fechada. Vejam o baixo nível de aprendizado, o alto grau de repetência e o abandono precoce dos estudos, os currículos esclerosados e as escolas pouco atraentes à verdadeira aventura que é o conhecimento.
E não é só isso. O programa Primeiro Emprego, uma das bandeiras da campanha do PT em 2002, ficou muito longe de apresentar os resultados prometidos. O ProJovem, anunciado com pompa e circunstância, seguiu o mesmo caminho e também fracassou.
A inquietude da juventude, no Brasil e no mundo, está clamando: queremos sonhar. A nós nos cabe a responsabilidade de abrir portas e responder: aqui vocês têm as condições para construir esse sonho. Esse é o seu lugar.

Em defesa dos ricos e famosos - LÚCIA GUIMARÃES


O Estado de S.Paulo - 28/11/11


Outro dia, eu caminhava à noite com um escritor e jornalista pela Nona Avenida. Apressamos o passo por causa da garoa, o que conferiu uma certa urgência à nossa conversa. Perguntei se ele havia assistido à longa entrevista de um certo empresário bilionário na semana anterior. Eu tinha gravado o programa. Queria assistir de novo para tentar desfazer - ou confirmar - a impressão causada pelo close-up de uma hora, uma situação que não pode ser roteirizada por relações públicas. Por mais insincera que uma figura famosa queira ser, uma hora de entrevista, mesmo nas mãos do puxa-saco de plantão naquela noite, há de revelar alguma verdade sobre sua visão de mundo. Ou, como foi o caso, o vácuo intelectual e moral exibido pelo personagem cuja empresa é onipresente no planeta.

Quando expressei minha opinião sobre a referida entrevista, em termos, digamos, bem mais enfáticos do que faço aqui, meu companheiro de caminhada, especulou: O que aconteceria conosco se a nossa conversa fosse transformada numa coluna? Boa pergunta. Não sei como anda a atividade no meu córtex cingulado anterior, a tal área do cérebro que os neurologistas afirmam regular nossos impulsos corajosos. Vou ali na esquina fazer uma tomografia e respondo na volta.

Mas a conversa sob a garoa não paulistana me ocorreu quando observei parte da reação ao desfile de celebridades depondo na comissão de inquérito britânica sobre a imprensa. A que foi instalada com pouca sinceridade pelo primeiro- ministro David Cameron, para investigar abusos dos tabloides sensacionalistas, depois do escândalo dos grampos telefônicos do agora defunto News of The World, de Rupert Murdoch.

Sienna Miller, gatésima. J.K. Rowling, pleeeease, ressuscita o Harry. Hugh Grant, então você fazia o papel de si mesmo em todos os filmes?

As celebridades são acusadas de hipocrisia porque sua vida profissional seria enriquecida pela cobertura incessante dos tabloides. Ao pedir que paparazzi sejam arrancados do parapeito de suas janelas, ao ter a audácia de tentar impedir que detetives contratados por redações grampeiem seus telefones, ao esperar que a lancheira de uma filha de 5 anos não volte para casa recheada com o bilhete de um repórter, esses milionários narcisistas e mimados estariam combatendo a liberdade de imprensa. Os intrépidos repórteres de tabloides seriam corajosos defensores da profissão.

Afinal, a invasão de sua privacidade faria parte de um pacto implícito. Do momento em que Sienna Miller se detém no tapete vermelho e sorri para os flashes, ela se torna uma exibicionista que abriu mão do direito de não ser seguida por câmeras ao exame ginecológico.

Essa cultura do vale-tudo na cobertura da celebridade já foi importada, sem nenhum protecionismo, pelo Brasil. A toda hora se ouve uma história como a do "jornalista" que tentou alugar o apartamento com vista para o quarto do bebê do casal de atores. Engana-se quem pensa que esta falta de civilidade não afeta todos. Não compreendo como tantos podem misturar seu desprezo pelos filmes de Hugh Grant com a suspensão dos direitos individuais de ator porque ele desfruta os privilégios trazidos pelo dinheiro e a fama. O próximo passo é pedir a Lady Gaga para abrir mão de votar porque ela faz sucesso demais? Quem quer viver numa sociedade que sanciona a perseguição ao bebê recém-nascido da previamente desconhecida Hong Tinglan, só porque o pai ausente da criança é Hugh Grant?

Se eu defender um sistema legal que tolera o grampo telefônico de gente famosa para satisfazer o trotskismo voyeurista promovido pelos tabloides, vou perder meu direito de protestar contra o grampo telefônico de um inocente que teve a má sorte de rezar numa mesquita frequentada por um suspeito de terrorismo.

É claro que ricos e famosos têm mais chances de escapar da lei ou de conseguir um cirurgião melhor do que eu. Sim, torço para não ser atropelada e entrar na sala de emergência no exato momento em que Hugh Grant chegar, com o dedo mindinho fraturado.

O desprezo pela cultura da celebridade, multiplicada de forma exponencial pela internet, não justifica promover um autoritarismo seletivo. Neste caso, defender os ricos e famosos é defender também despossuídos e anônimos.

Ninguém sabe, ninguém viu - EDITORIAL O ESTADÃO



O Estado de S. Paulo - 28/11/2011


No exato dia, em julho de 2010, em que seus técnicos apuravam fraudes de mais de R$ 4 bilhões na contabilização de carteiras de crédito cedidas pelo Banco Panamericano para outras instituições financeiras, o Banco Central (BC) aprovou oficialmente a venda, para a Caixa Econômica Federal, de 49% do capital social da instituição. O negócio, no valor total de R$ 739 milhões, fora decidido pela Caixa em novembro de 2009, mesmo tendo o Banco do Brasil se recusado, um ano antes, a adquirir as carteiras de crédito que o Panamericano lhe oferecera. Além disso, investigações da Polícia Federal (PF) revelavam graves indícios de fraudes, cometidas pelos então diretores do Panamericano, num montante, depois apurado, de quase R$ 80 milhões. Nada disso, no entanto, impediu que a Caixa concretizasse a compra. Só muito depois essa bilionária lambança seria considerada pelos compradores "uma grande surpresa".

Essa é a explicação - registrada em depoimento prestado à PF, em 21 de setembro, pelo vice-presidente de Finanças, Marcio Percival - que a diretoria da Caixa deve ter dado também ao ministro da Fazenda, Guido Mantega. Este, questionado sobre o assunto por jornalistas, no último dia 10, tentou eximir-se de qualquer responsabilidade: "Pergunta para a Caixa. Isso é decisão da Caixa, não minha". Resumo da ópera: um dos bancos que compõem o aparato financeiro do Estado brasileiro decide comprar metade de uma instituição financeira notoriamente podre; o banco a quem cabe regular e fiscalizar o sistema financeiro nacional aprova a compra, apesar de seus próprios técnicos terem apurado a existência de um enorme rombo nas contas da instituição beneficiada pela transação. Mas nenhuma autoridade federal se dispõe a dar satisfações sobre a desastrada e desastrosa aplicação de um dinheiro que, afinal, é público. É uma situação tão insólita e surreal que só falta alguém alegar que tudo se resume a uma questão de boa-fé, já que a Caixa se anuncia como "o banco que acredita nas pessoas". Haja fé.

Todo esse imbróglio começou no final de 2008, quando a crise financeira internacional, provocada a partir da quebra do banco de investimentos norte-americano Lehman Brothers, espalhou o pânico no mundo das finanças. Na tentativa de se capitalizar, a direção do Banco Panamericano passou a oferecer sociedade a instituições mais sólidas ou a venda de algumas de suas carteiras de crédito. O primeiro alvo foi o Banco do Brasil, que ainda no fim de 2008 rechaçou o negócio. Paralelamente, o Panamericano negociava a venda de 49% de seu capital social para a Caixa, transação anunciada pelo banco oficial em fins de 2009. A chancela do Banco Central só foi dada em 19 de julho de 2010, quando a Caixa já tinha depositado na conta do Panamericano a primeira parcela do pagamento. A segunda e última foi quitada cinco dias depois da decisão do BC.

Ocorre que, além de o Banco do Brasil, mais de um ano antes, ter considerado as carteiras de crédito do Panamericano um mau negócio, já a partir de maio de 2010 o próprio Banco Central tinha levantado suspeitas sobre a existência de um rombo gigantesco nas contas do Panamericano. Conforme apurou a Polícia Federal, essas fraudes foram armadas pela diretoria do banco, uma verdadeira quadrilha que acabou demitida pelo controlador Silvio Santos. Durante as investigações a PF levantou e-mails trocados entre o então presidente do banco, Rafael Palladino, e Guilherme Stoliar, sobrinho e braço direito de Silvio Santos, nos quais o segundo relata conversa que tivera com o tio e patrão: "Disse que vocês estão trabalhando firme para vender parte do banco e que, provavelmente, teremos a ajuda dos "amigos" nessa venda". E acrescentou: "Disse a Silvio quem eram os "amigos" e ele ficou de boca aberta, como qualquer um ficaria".

Como resultado do escândalo, os 51% do capital social da empresa que ainda permaneciam em mãos do controlador foram transferidos, por decisão do governo, para o banco BTG Pactual.

Os golpistas que faturaram com as fraudes continuam por aí, lépidos e fagueiros, enquanto a Caixa, muito surpresa, ficou com o mico. Mais perplexos estão os contribuintes, que não entendem até hoje por que a Caixa fez esse negócio.

GOSTOSA


A saúde dos jornais - CARLOS ALBERTO DI FRANCO



O Estado de S. Paulo - 28/11/2011


Os pessimistas me aborrecem. Fazem, como dizia Oduvaldo Vianna Filho, "do medo de viver um espetáculo de coragem". Vivem de mal com a vida. Não olham para a frente. São homens e mulheres de retrovisor. À semelhança de Dom Quixote, vivem lutando contra moinhos de vento. Faltam-lhes equilíbrio, serenidade e bom senso.

O que é côncavo de um lado aparece convexo do outro. Depende só do nosso ângulo de visão. Como lembrou alguém, muitas vezes um defeito é apenas a sombra projetada por uma virtude. Os pessimistas padecem da síndrome das sombras. São incapazes de ver o outro lado: o da virtude.

Algumas críticas ao jornalismo, amargas e corrosivas, têm a garra do pessimismo ou a mordida do cinismo. Irritam-se, alguns, com a força da mídia e vislumbram interesses espúrios no sucesso empresarial.

O jornal, como qualquer negócio, não existe para perder dinheiro. A crítica procede de quem perdeu o trem da História ou, pior que isso, não sabe o que é enfrentar o batente. Ganhar dinheiro com informação não é um delito. Estou cansado de repetir. É um dever ético. O lucro legítimo decorre da credibilidade, da qualidade do produto. E a qualidade é o outro nome da ética.

A ética informativa não é um dique, mas um canal de irrigação. A paixão pela verdade, o respeito à dignidade humana, a luta contra o sensacionalismo, a defesa dos valores, enfim, representam uma atitude eminentemente afirmativa.

A ética, ao contrário do que gostariam os defensores de um moralismo piegas, não é um freio às justas aspirações de crescimento das empresas. Suas balizas, corretamente entendidas, são a mola propulsora das verdadeiras mudanças.

O jornalismo de escândalo, ancorado num provincianismo aético, é cada vez menos frequente. Recaídas ocasionais são objeto de críticas e discussões internas.

O jornalismo brasileiro, não obstante as suas deficiências, tem desempenhado um papel relevante. Ao lancetar os tumores da corrupção, cumpre um dever ético intransferível. A mídia, num país dominado por esquemas cartoriais, assume significativa parcela de responsabilidade. O Brasil, graças à varredura da imprensa, está mudando. Para melhor. Ministros caem como cartas de baralho. Reagem às denúncias com declarações do tipo "tudo não passa de armação da imprensa", "sou vítima de linchamento moral", "não sei", "não vi". A perseverança da mídia faz a força dos fatos acabar prevalecendo. E o governante vai para casa. Já é um grande avanço. Esperemos que chegue o dia em que o ônus político seja acompanhado da devolução do dinheiro público e da necessária punição criminal.

Os pessimistas, no entanto, não enxergam as mudanças positivas. Querem que as coisas mudem pela ação dos outros. Esquecem que a democracia não é compatível com a omissão rançosa. As críticas à imprensa, necessárias e pertinentes, são sempre bem-vindas. Espera-se, no entanto, que sejam construtivas e equilibradas.

Ouvi recentemente uma dessas críticas num seminário de mídia. Os jornais, dizia meu interlocutor, estão cada vez mais parecidos e sem graça. Concordo, embora parcialmente.

A "mcdonaldização" dos jornais é um risco que convém evitar. A crescente exploração do entretenimento em prejuízo da informação de qualidade tem frustrado inúmeros consumidores de jornais. O público da mídia impressa não se satisfaz com o hambúrguer jornalístico. Trata-se de uma fatia qualificada do mercado. Quer informação aprofundada, analítica, precisa e confiável.

É preciso investir na leveza formal. Sem dúvida. O recurso à infografia, o investimento em didatismo e a valorização da fotografia - o "arrevistamento" das primeiras páginas tem provocado reações de surpresa e aprovação - são, entre outras, algumas das alavancas do crescimento. Mas nada disso, nada mesmo, supera a qualidade do conteúdo. É aí que se trava a verdadeira batalha. Só um produto consistente tem a marca da permanência. Qualidade editorial e credibilidade são, em todo o mundo, a única fórmula para atrair novos leitores e anunciantes.

O jornal The New York Times sabe disso como nenhum outro. Ao visitar a fabulosa casa nova da "velha dama cinzenta", em Times Square, ouvi, mais uma vez, a receita do sucesso: "Produzir jornalismo de qualidade e matérias sérias de maneira mais atraente". Qualidade e bom humor. É isso.

Outro detalhe: os jornalistas precisam escrever para os leitores. É preciso superar a mentalidade de gueto, que transforma o jornalismo num exercício de arrogância. Cadernos culturais dialogam com eles mesmos. O leitor é considerado um estorvo ou um chato.

O jornal precisa moldar o seu conceito de informação, ajustando-o às necessidades do público a que se dirige. Outro detalhe importante, sobretudo em épocas de envelhecimento demográfico: a tipologia empregada pelos jornais tem de levar em conta os problemas visuais dos seus consumidores. Falando claramente: os jornais precisam trabalhar com letras grandes.

Apostar em boas pautas - não muitas, mas relevantes - é outra saída. É melhor cobrir magnificamente alguns temas do que atirar em todas as direções. O leitor pede, em todas as pesquisas, reportagem. Quando jornalistas, entrincheirados e hipnotizados pelas telas dos computadores, não saem à luta, as redações convertem-se em centros de informação pasteurizada.

O lugar do repórter é na rua, garimpando a informação, prestando serviço ao leitor e contando boas histórias. Elas existem. Estão em cada esquina das nossas cidades. É só procurar.

O jornalismo moderno, mais do que qualquer outra atividade humana, reclama rigor, curiosidade, ética e paixão. É isso que faz a diferença.

Sadômasô sustentável - LUIZ FELIPE PONDÉ


FOLHA DE SP - 28/11/11


  Prostituta não é uma profissão, mas uma vocação, um arquétipo, como a "grande mãe"  

O tédio é um dos maiores infernos humanos. Como diz a personagem mais legal do filme "Late Bloomers", com William Hurt e Isabella Rossellini, a bisavó pirada da família: "Se você é criança e não aprende a lidar com o tédio, quando cresce fica idiota".
Uma das piores formas de tédio é a estrutura sexual perversa. Ou, como alguns dizem por aí, "sadômasô" (o que antigamente era chamado de "sadomasoquista", no tempo em que era feio ser sadomasoquista). Não vou entrar em debates intermináveis sobre o que a "perversão" é, vou dizer claramente o que quero dizer com esta palavra e por que a perversão sempre me parece entediante.
Recentemente, na sua versão "sustentável", ela deixa ainda mais claro como é um cachorro desdentado. Você não sabe o que é um "sadômasô" sustentável?
Perversos, "descendentes" do chato Marquês de Sade, supervalorizado na filosofia, se acham o máximo porque pensam que realizam as fantasias que os neuróticos sonham e não têm coragem de realizar.
Enganam-se eles. A vida sexual do perverso é que é chata: queimar e ser queimado, bater e apanhar, ser amarrado e amarrar, máscaras de coro, caras que se vestem de colegiais e mulheres de bombeiro, gente que acha o pé da mulher seu melhor órgão sexual... "boring". Elas têm coisa muito melhor...
O Eros do sexo é o pecado, a vergonha, a culpa, a impossibilidade. A proibição, o medo. A vergonha é tão importante quanto imaginar a mulher por baixo da saia justa ao invés de vê-la de forma obviamente nua.
Quem não sabe disso não entende nada de orgasmo. Quem diz coisas como "É proibido proibir" é bobo e devia continuar fazendo suas festas em bufês infantis.
A palavra "sustentável" hoje em dia é como "ética", "Cabala", não quer dizer nada. É como escrever na porta de uma padaria "sob nova direção" só para atrair clientes. Propaganda provinciana.
No sentido que uso aqui, "sustentável" quer dizer "do bem", "inócuo", "corretinho". Por exemplo, temos até serial killersustentável, o Dexter, da série homônima, serial "killer" que só mata serial killers. Limpinho como um "crente" da classe C.
Prefiro Jack, o estripador, que estripava prostitutas porque estas encarnam a mais antiga das vocações femininas e, por isso mesmo, uma das suas maiores delícias. Prostituta não é uma profissão, mas uma vocação, um arquétipo, como a "grande mãe".
O coitado do Sade ficaria horrorizado com o que fizeram de sua "Filosofia da Alcova", um livro para formar libertinos contra o sistema opressor no século 18. Você já reparou como todo mundo que quer nos libertar da opressão moral acaba ficando monótono e datado?
O que para Sade deveria ser uma transgressão terrível virou um jantar inteligente para gente que recicla lixo e, depois de tomar um "vinho em conta", goza chupando pés femininos. Em alguns anos, teremos pedófilos que também reciclam lixo e são budistas de butique.
Os "sadômasôs sustentáveis" dizem que você pode ser um deles e ser uma pessoa que não joga lixo na rua, que vota conscientemente, que é contra a indústria farmacêutica e ajuda velhinhas cegas a atravessar a rua.
De repente, até vão para encontros em salas escuras com sua "dominatrix" brincar de "escravos" depois da reunião de pais e mestres na escolinha do filho, que, é claro, não é um problemático como o filho do casal de neuróticos.
Logo serão capazes de dizer que gostar de ser espancado, queimado, mijado na boca e humilhado é harmônico com Jesus.
Os culpados por terem feito da filosofia do Sade um cachorro desdentado foram a moçadinha do "vamos desreprimir o sexo" ou do "gostar que mijem na sua cara também é cultura". Um modo "digno" de protestar.
Em matéria de protesto, ainda prefiro Lutero, Calvino e os pirados da Nova Inglaterra.
A personagem feminina do livro "A Letra Escarlate", de Nathaniel Hawthorne, autor americano do século 19 (o filme baseado no livro, com Demi Moore, é ruim porque faz dela uma feminista injustiçada, ainda mais "boring" do que Sade...), é um hino ao erotismo na mulher. Toda culpada, toda condenada, toda humilhada, toda possuída.

Caminho de volta - MÔNICA BERGAMO



FOLHA DE SP - 28/11/11
A presidente Dilma Rousseff assina nesta semana decreto para incentivar as exportações de manufaturados. Os empresários brasileiros terão direito a devolução, em espécie, de até 3% do valor total comercializado com outros países.

VOLTA 2
A iniciativa, batizada de Reintegra, faz parte da política industrial lançada por Dilma e pelo ministro Fernando Pimentel, do Desenvolvimento. Mas ainda não havia sido regulamentada. Pretende incentivar a exportação de manufaturados, hoje menor que a de produtos básicos. O déficit da balança comercial de industrializados deve fechar em cerca de US$ 80 bilhões neste ano.

PERCENTUAL
A Justiça autorizou o administrador da massa falida do Banco Santos, Vânio Aguiar, a receber R$ 5 milhões de remuneração. O valor corresponde a 0,5% do recuperado após a falência da instituição. Do total serão descontados R$ 2,5 milhões que ele já recebeu no cargo (salário de R$ 30 mil). E R$ 1 milhão só será liberado quando o processo de falência acabar.

PIVÔ
Gisele Bündchen desfilará em pleno corredor do shopping Iguatemi, na quinta de manhã. Ela lançará sua terceira coleção para a rede C&A e apresentará as peças com outras 15 modelos no espaço em frente à loja.

ELIS VIVE
Uma gravação inédita de Elis Regina da música "Comigo É Assim", sobra do disco "Elis Como e Porque" (1969), foi encontrada nos arquivos da gravadora Universal. A canção estará no álbum de raridades da caixa "Elis nos Anos 60", que será lançada em janeiro de 2012, com 12 CDs da cantora.

NEGRO GATO
A ONG Adote um Gatinho lança a campanha "Gato preto dá sorte", para combater o preconceito que os felinos da cor sofrem. A instituição fará bazar no dia 4, no clube Piratininga, onde lançará produtos com o tema.

MÉDICOS VIAJANTES
Os Médicos sem Fronteiras ganharão um livro no Brasil, em 2012, durante as comemorações de seus 40 anos. Oito escritores, incluindo Mario Vargas Llosa e a brasileira Eliane Brum, viajaram a regiões atendidas pela entidade e fizeram relatos ficcionais e de não ficção para a obra da editora Leya.

QUERO VER NA COPA
Passageiros do voo TAM JJ 3928 da ponte aérea SP-RJ da última sexta-feira esperaram cerca de 40 minutos pelas bagagens -ou o equivalente a quase a duração do voo inteiro.

QUERO VER NA COPA 2
Quando os clientes ensaiavam uma revolta, as malas foram vistas rodando sozinhas e se empilhando no chão, em esteira em outra ala do aeroporto. Não havia nenhum funcionário da empresa ou da Infraero à vista.

NO CLUBE DO BOLINHA
Maria Paula lançou o livro "Liberdade Crônica", no fim da semana, na Cavalera, loja de Alberto Hiar, nos Jardins. O ator Sérgio Marone e o dentista Fábio Bibancos passaram por lá. A atriz e apresentadora conta que dias antes havia estado na loja maçônica Grande Oriente do Brasil. "Fiquei feliz porque o grão-mestre [da entidade] me convidou pra sentar à mesa e falar do livro. A maçonaria é muito fechada [só entra homem]. Foi um momento histórico."

PATRÃO NOTA 10
O Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças entregou o Troféu Equilibrista de executivo do ano, no fim da semana. O CEO da AmBev, João Castro Neves, e a presidente do Magazine Luiza, Luiza Helena Trajano, foram homenageados. A executiva Olga Monroy e a publicitária Patricia Viotti conferiram a cerimônia na Casa Fasano, no Itaim Bibi.

AVENTURA PARA TODOS
A Embratur lança amanhã um programa de turismo de aventura acessível para pessoas com deficiência.

O objetivo é promover a cidade de Socorro (SP), que já possui diversos roteiros adaptados. Entre as atrações oferecidas estão passeios a cavalo para paraplégicos e tetraplégicos (com selas especiais) e arvorismo e escalada com ajuda de guias para deficientes visuais, auditivos e intelectuais.

SEM BOI NA LINHA
A Justiça não acatou a exceção de suspeição pedida pelo Ministério Público contra o síndico da massa falida do Grupo Boi Gordo, Jácomo Andreucci Filho.

Não considerou que o fato de ele já ter sido representado em um processo pelo advogado da Boi Gordo, Carlos Casseb, signifique que atuassem em conjunto ou fossem amigos, o que comprometeria sua atuação. A Promotoria pretende recorrer.

CURTO-CIRCUITO
A Câmara Portuguesa de Comércio realiza almoço hoje com Luciano Coutinho, presidente do BNDES.

O documentário "Porta a Porta", de Marcelo Brennand, entra em cartaz no Rio e em SP, no Arteplex, na sexta. Livre.

A Dan Galeria participa pela primeira vez da feira Art Basel Miami Beach.

Christina Montenegro lança o livro "Homem Ainda Não Existe", hoje, na Mercearia São Pedro. 19h.

O Prêmio Saúde será entregue amanhã no Memorial da América Latina.

Emerson Fittipaldi lança linha de óculos Evoke no Museu da Casa Brasileira.

Giba Gomes criou gravuras em metal com a cara de jogadores como Pelé e Garrincha. Os trabalhos serão presenteados pela Mowa Sports na feira SoccerEx.

Martinho Rolfsen inaugura clínica médica em SP.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

Governança consumerista - MARIA INÊS DOLCI



FOLHA DE SP - 28/11/11

O conceito de governança consumerista é para que as empresas alinhem seus interesses aos dos clientes


Governança corporativa tem mais a ver com as relações de consumo do que se possa imaginar. É uma gestão em que os interesses dos acionistas e dos executivos estão alinhados, com transparência em todos os processos.

Ser destacada pela governança corporativa, consequentemente, fortalece a reputação de qualquer empresa.

Proponho, então, um repto: o conceito de governança consumerista (do consumidor), a fim de que as empresas alinhem seus legítimos interesses -lucro, crescimento, aquisições, conquista de mercados- aos do cliente final, que compra seus produtos e serviços.

Não há nenhum obstáculo nessas visões. O que é bom para as relações de consumo, sem dúvida, faz muito bem aos negócios. É possível ter saúde financeira e atender aos desejos dos compradores. Mais ainda, só assim as relações de consumo terão um ponto de equilíbrio.

Um bom exemplo seria a segurança veicular. Os veículos fabricados no Brasil estão bem longe de ter os atributos de segurança de seus congêneres europeus. Por que, se os fabricantes são praticamente os mesmos? Porque, até agora, o brasileiro foi subestimado pela indústria automotiva. Nossas vidas valem menos do que as deles?

Já que é viável fabricar e vender um carro com freio ABS e air bag na Europa, também poderiam fazê-lo aqui. Aliás, serão obrigados a isso, por determinação do Conselho Nacional de Trânsito, até 2014, em diversas etapas, uma conquista da qual a instituição na qual atuo participou ativamente.

A indústria de bebidas não age de forma diferente. Firmou, recentemente, acordo com o Ministério Público Federal para reduzir o nível de benzeno -substância cancerígena encontrada em alguns refrigerantes. Por que tiveram de esperar a pressão do MPF?

A propósito, ainda aguardamos que a Justiça reconsidere a suspensão da resolução nº 24 da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que limitava a publicidade de alimentos e de bebidas não alcoólicas. E que também obrigava os fabricantes a veicular alertas sobre os efeitos do sal, do açúcar e da gordura em relação a doenças cardiovasculares, ao diabetes etc.

Duvido que não seja possível fabricar alimentos mais saudáveis. E isso é urgente, porque os idosos já representam 10,8% da população brasileira, de acordo com o mais recente censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Nessa faixa etária, não são incomuns problemas de saúde crônicos agravados pelo consumo desse "trio" de substâncias nada saudável.

Quando ouço argumentos econômico-financeiros para defender a venda de cigarros -agricultores, empregados na indústria, no comércio etc.-, lembro dos que vaticinavam grandes perdas para o Brasil com o fim da escravatura, no final do século 19.

Com o crescimento das redes sociais, as empresas já sofrem marcação cerrada em relação a suas práticas. E isso vai se tornar ainda mais relevante. Não há mais como esconder atos nocivos à saúde e ao bolso de milhões de pessoas. Quem tentar pagará caro.

A solução é mudar o pensamento e investir para modificar o que afeta negativamente o consumidor. Oferecer, por exemplo, uma banda larga que tenha velocidade compatível ao uso intenso da internet, e não as tartarugas que carregam dados a preços dilatados.

Uma atividade que deslanchou recentemente -as compras coletivas pela internet- já consegue irritar os clientes. O leitor Daniel Baracho é um exemplo. Ele cancelou a aquisição de celular (arrependimento dentro do prazo de uma semana para compras virtuais) e em 20 dias ainda não havia recebido o estorno do pagamento pelo Groupon.

Como disse o juiz Flávio Citro Vieira de Mello, do 2º Juizado Especial Cível, ao jornal "O Globo", "é preciso acabar com a estratégia das empresas de lesar no atacado e indenizar no varejo".

A governança consumerista, portanto, urge. E ela deveria estar na cabeça não somente dos empresários, mas dos legisladores, dos juízes e das autoridades do Executivo.

MARIA INÊS DOLCI, 57, advogada formada pela USP com especialização em business, é especialista em direito do consumidor e coordenadora institucional da ProTeste Associação de Consumidores. 

Teor poluente - RENATA LO PRETE



FOLHA DE SP - 28/11/11

O questionamento da inspeção veicular paulistana e a descoberta de fraude no Rio Grande do Norte devem congelar a expansão do modelo para todo o Estado de SP, que tramita na Assembleia desde a gestão de José Serra. Sob a alegação de cumprir cronograma federal, deputados e secretários do governo pressionavam pela rápida inclusão do texto na pauta de votações.

O projeto, a exemplo do que agora é objeto de contestação pelo Ministério Público potiguar, impõe ao poder público o regime de concessão para empresas ou consórcios por um período de 20 anos, cláusula pétrea do "lobby" dos operadores do serviço.

Mina de ouro A proposta recebeu 18 emendas e, segundo a Cetesb, levaria de forma imediata a verificação de poluentes emitidos por veículos para 124 municípios.

Fator 2012 Além da encrenca judicial que envolve a Controlar, concessionária da inspeção na capital, o governo paulista teme que a aprovação de tal medida em ano eleitoral traga prejuízo aos candidatos do PSDB especialmente no "cinturão vermelho" da Grande SP, zona de embate direto com o PT.

Cronologia Integrantes do Ministério Público de SP têm fresca na memória uma sequência de eventos ocorrida em 2010: primeiro, começou a circular a informação de que o procurador Dráusio Barreto seria indicado para a Secretaria de Serviços da capital; pouco depois, Barreto relatou, como integrante do conselho superior, pedido para trancar a investigação da Controlar; por fim, foi nomeado por Gilberto Kassab.

Hibernação Graças ao pedido de Barreto, a investigação dormiu por cerca de meio ano, até ser reaberta por determinação do procurador-geral, Fernando Grella.

Sob ataque Ala do PMDB descontente com a gestão de Gastão Vieira fará de tudo para que ele perca o Ministério do Turismo na reforma planejada por Dilma Rousseff. Não há indicativo de que a presidente acolha o pleito.

Tabelinha O deputado federal Romário (PSB-RJ) e o estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ), ambos pré-candidatos à Prefeitura do Rio, se reúnem esta semana para discutir aliança em 2012.

O barato... O consórcio Construcap/Constran, que apresentou as propostas mais baixas para a construção da linha 5 do Metrô de SP, reivindica R$ 22 milhões a título de "reequilíbrio" contratual para o lote 1, vencido pelo grupo em julho de 2009.

...sai caro Em outubro de 2010, quando José Luiz Portella era secretário de Transportes Metropolitanos e presidente do conselho de administração do Metrô, o consórcio obteve aditivo de R$ 31 milhões para o trecho. Somados, os pedidos totalizam R$ 53 milhões, aumento de 28% em relação à proposta inicial.

Fábula Sem menção a aditivos e reequilíbrios, as propostas da Construcap/Constran são usadas pelo Ministério Público como argumento para barrar licitações dos outros lotes da linha 5.

Bate o sino Postado no Twitter do ministro Aldo Rebelo (Esporte), amigo dos sacis e perseguidor dos estrangeirismos: "Depois de Halloween e Thanksgiving, só resta... see you on Christmas".

Outro lado O presidente do PT-SP, Edinho Silva, esclarece que seu discurso em evento no qual o partido discutiu novo marco regulatório para as comunicações, não guardou relação, direta ou indireta, com o cancelamento de seu programa na rede de TV católica Canção Nova.

Tiroteio
"Pelo menos o presidente do PT tem a sinceridade de admitir que a preocupação central do partido está longe de ser o bem-estar da população paulistana."

DO LÍDER DO PSDB NA CÂMARA MUNICIPAL, FLORIANO PESARO, sobre entrevista à Folha em que Rui Falcão disse: "queremos reconquistar a prefeitura para tirar os tucanos do ninho do Morumbi".

Contraponto
Ver para crer

No dia em que Carlos Lupi (Trabalho) tentava se explicar em depoimento ao Senado, Wellington Salgado (PMDB-MG), que circulava pela Casa, acompanhou a sessão. Ao cumprimentar jornalistas, o ex-senador brincou, referindo-se à delicada situação do ministro:

-Fala sério! Vocês adoram isso, não?

Ao que uma repórter respondeu:

-Desculpe, mas quem parece estar adorando é o senhor. Por que nós estamos aqui a trabalho. Já o senhor está aqui porque quer!

com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

Quanto maior, pior - EDITORIAL O GLOBO



O Globo - 28/11/2011


A crise econômica e financeira que o chamado mundo desenvolvido atravessa certamente tem várias causas, mas é curioso que a falta de intervenção do Estado seja apontada como a principal. Ora, uma intervenção do Estado está entre as causas da confusão (subsídios imobiliários a famílias americanas de renda mais baixa).

Graças à nova dinâmica criada pelos processos de privatização ao redor do planeta, a partir dos anos 80, a economia mundial se tornou mais eficiente e permitiu que diversos países emergissem de uma situação de pobreza crônica e sem perspectivas. O socialismo, sistema baseado no planejamento central no qual o Estado se encarrega de definir o quê produzir e quem deve consumir, se degradou a ponto de o império soviético ruir por ele mesmo, na ausência quase total de sustentação econômica.

Mas, se o sopro de renovação propiciado pelas privatizações conseguiu abrir uma série de comportas que reprimiam forças produtivas latentes e criativas, por outro lado o Estado não chegou a encolher como deveria. Políticas de compensações sociais e subsídios diversos (com propósitos supostamente nobres) se multiplicaram, e o Estado continuou a crescer na maioria dos países. Em alguns, pelo avanço da carga tributária sobre a renda gerada, e em outros pelo excessivo endividamento.

No caso da Europa, do Japão e dos Estados Unidos, o financiamento de déficits públicos elevados e o endividamento excessivo serviram de lastro para a hipertrofia de sistemas finananceiros. E, por isso, quando a crise estourou, os governos saíram em socorro de instituições ameaçadas de quebrar, pois eram parte do problema.

Tanto os Estados Unidos como a Europa têm dificuldade para sair da crise porque não encontram espaço para reduzirem o déficit público. Não há mais quem queira financiá-lo a custos módicos. Para recuperar o crédito, os governos desses países terão de apresentar propostas viáveis, e críveis, de ajuste fiscal, o que até agora não ocorreu. Daí a crise se arrastar, sem que surja uma luz no fim do túnel.

O Brasil desta vez não foi arrastado pela crise porque felizmente promoveu um forte ajuste nas contas públicas desde 1998 e refez outros pilares da política econômica (adotando, por exemplo, os regimes de câmbio flutuante e de metas de inflação). A manutenção desses pilares - "neoliberais" ou não - é que tem permitido à economia brasileira conviver com a crise, da mesma maneira que outros países emergentes. Não somos mais devedores crônicos, dependentes de programas internacionais de assistência financeira.

Quando a política econômica se afastou desses balizamentos, no ano passado, devido às eleições, a inflação ameaçou sair de controle e outros desequilíbrios afloraram. O governo Dilma, diante do risco desse desvio, reassumiu o compromisso público de recolocar as finanças governamentais em ordem (promessa que efetivamente foi cumprida em 2011).

Mas a economia brasileira não terá fôlego para continuar a crescer se não houver um esforço para se aumentar a poupança doméstica e o investimento. Para isso, o déficit público tem de continuar a ser reduzido, de modo a liberar a poupança disponível para investimentos que deem mais competitividade ao país.

Se o Estado se mantiver como tal, o ajuste será muito difícil, assim como acontece hoje nas grandes economias. E perderemos uma ótima oportunidade.

GOSTOSA


MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO



FOLHA DE SP - 28/11/11


BB cria mais fundos de capital protegido
A BB DTVM, gestora de recursos do Banco do Brasil, lança dois fundos multimercados de capital protegido, um atrelado a índices de Bolsas globais e outro, a commodities agrícolas.

A captação foi estimada em no máximo R$ 300 milhões, em cada produto. Com R$ 20 milhões,no entanto, os fundos já são viáveis, segundo Carlos Massaru Takahashi, presidente da BB DTVM.

Passado o período estipulado para o vencimento, esse tipo de fundo promete ganho de 100% do retorno, até determinado percentual. Se o mercado cair, o cliente sai com o capital que depositou, sem nenhuma remuneração.

Os novos produtos são fundos fechados: têm data para entrar, no próximo dia 5 de dezembro, e não permitem resgate antes do vencimento, em 9 de dezembro de 2013.

A BB DTVM já tem seis fundos de capital protegido, com um total de R$ 575 milhões em recursos aplicados.

"Esses fundos foram bem testados na crise e a experiência foi muito boa. Temos 6 mil clientes de alta renda e private, que aplicam nesses produtos", diz Takahashi.

Nos dois fundos, a aplicação mínima é de R$ 10 mil e a taxa de administração é de 1,5% ao ano.

CAMPEÃO JAPONÊS
O BNDES ouviu a CSN sobre proposta de aquisição das fatias de Camargo Correa e Votorantim na Usiminas.Houve "alguma movimentação do banco", argumenta uma pessoa da instituição a par das conversas. Mas, a perspectiva no governo e no BNDES, é que, desta vez, não prevalecerá o discurso de privilegiar um "campeão nacional", ouvido em operações recentes. Campeã mesmo sai a Nippon Steel, do bloco de controle, que queria a ítalo-argentina Ternium de sócia. Em princípio, sem "tag along" (que garante ao minoritário 80% do valor pago ao controlador), pois não há mudança de controle à vista.

FROTA MAIOR
Com base no crescimento das exportações de commodities, o Brasil teve neste ano o maior número de encomendas de navios de sua história.

O estudo de 2011 sobre transporte marítimo da Unctad (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento) mostra que, no início do ano, o Brasil tinha 106 navios encomendados, sendo que a frota de então era de 152 embarcações.

Desses navios, 41% eram petroleiros e 38%, graneleiros.

Apesar do ritmo de expansão, a frota brasileira corresponde a menos de 1% da mundial.

DEMÔNIO DO DESENVOLVIMENTO
Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central, volta a cruzar literatura e economia. Desta vez, a partir de

Goethe. Franco redigiu prefácio e posfácio para a tradução brasileira de "Dinheiro e Magia", de Hans Christoph Binswanger (ed. Zahar), que faz uma crítica da economia moderna com base na obrado poeta alemão.

A história do pacto de Fausto com o demônio Mefisto para obter poderes e prazeres é bem conhecida. Menos divulgada é a segunda parte da obra em que Mefisto adentra as finanças de Estado e inventa o papel-moeda. "A tensão entre os meios e os fins vai para a arte, a ciência e a economia", diz Franco. O sócio-fundador da Rio Bravo Investimentos faz uma analogia com o Brasil.

"A desigualdade, o descuido com consequências ambientais, a hiperinflação, o 'rouba mais faz'... tudo se tende a perdoar porque o desenvolvimento foi alcançado."

Ele se diz atualmente desconfortável com o mix de políticas monetária e fiscal "frouxas. "A gente faz com o fiscal coisas nada católicas. Lembra os argentinos."

"Nossa situação fiscal é pior do que o discurso oficial faz crer"

GUSTAVO FRANCO, ex-presidente do BC

SEM APERFEIÇOAMENTO
Menos de um quarto (21%) das pessoas diz ter melhorado suas habilidades profissionais nos últimos cinco anos, de acordo com estudo da Accenture.

A maioria dos entrevistados (55%), porém, afirma se sentir pressionado para aperfeiçoar suas técnicas rotineiras de trabalho.

Para 68% das pessoas, a obrigação de buscar aperfeiçoamento profissional é delas mesmas, e não das empresas onde trabalham.

Entre os que estão desempregados, 53% responderam que sabem quais habilidades precisarão ter para se inserir no mercado de trabalho nos próximos cinco anos.

Para as pessoas que estão trabalhando, por sua vez, esse índice ficou em 80%.

A companhia de consultoria ouviu 1.088 pessoas.

ÍNTIMO E ESPORTIVO
Com a abertura da loja própria no Mooca Plaza Shopping, em São Paulo, nesta semana, a Lupo dá inicio a uma estratégia de segmentação.

A marca pretende expandir uma rede específica para lingeries e outra para produtos esportivos, além das unidades chamadas de "3 em 1", caso da nova loja.

"As de lingerie serão menores, em shoppings, enquanto as Lupo Sport serão de rua, anexas a academias", afirma Valquirio Cabral Júnior, diretor.

Para o projeto, a empresa pretende terceirizar academias, nas quais imprimirá a bandeira Lupo, e fechar parcerias com grandes redes.

O objetivo é abrir 50 lojas esportivas e 30 de roupa íntima até 2013, de acordo com a empresa.

MAIS NÚMEROS

62% trocaram de profissão ao menos por uma vez ao longo da carreira

36% pretendem trocar de emprego, para um local onde suas habilidades sejam mais requisitadas

53% dizem que os patrões reconhecem suas qualidades

Fonte: Accenture

SEM MARCA
A grande maioria (97%) dos hotéis de classe econômica no Brasil não faz parte de nenhuma rede, segundo a CB Richard Ellis. O número é o mais alto entre os países e regiões analisados pela consultoria. "Muitas unidades são pousadas ou pensões familiares. A tendência é esse cenário mudar com o aumento de investidores institucionais", diz Nuno Constantino, diretor da companhia.

COLADO
A marca brasileira de adesivos decorativos I-Stick, que vende em quiosques de shoppings como Iguatemi e Morumbi, vai entrar no modelo de franquias. "Serão 75 nos próximos anos", diz Joana Rosa, sócia da empresa.

Em 2012, a marca também inaugura uma unidade em formato de loja, diferente do quiosque. "Esse modelo será franqueado posteriormente."

A empresa, que começou a vender para Europa e Oriente Médio, planeja exportar a expansão a partir de 2013. "Abrimos fábrica e centralizamos a produção para isso."

Um país de mentira - RICARDO NOBLAT



O Globo - 28/11/2011


Quanto mais mentem à vontade e sem constrangimento os cínicos que nos governam ou representam, pior é a qualidade de suas mentiras. De fato, a perda de qualidade tem tudo a ver com o grau de nossa indignação diante do que Dilma chama de malfeitos. Se nos indignamos pouco ou quase nada, para que sofisticar as mentiras e torná-las verossímeis?

A mais recente e reles mentira oferecida ao nosso exame foi publicada na última edição da "Veja". O mecânico Irmar Silva Batista, filiado ao PT há 20 anos, tentou criar o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Reparação de Veículos e Acessórios no estado de São Paulo.

Em 2008, ele bateu à porta do Ministério do Trabalho para tratar do assunto com o então secretário de Relações do Trabalho, o ex-deputado Luiz Antonio de Medeiros. O ministro já era Carlos Lupi, presidente do PDT. Medeiros encaminhou Irmar a Eudes Carneiro, assessor de Lupi.

Eudes trancou-se com Irmar em uma sala. Primeiro, pediu-lhe que desligasse o telefone celular. Em seguida, cobrou R$ 1 milhão para liberar o registro do sindicato. Irmar denunciou o caso a parlamentares do PT — entre eles, o senador Eduardo Suplicy.

Sem sucesso. Então escreveu uma carta a Lula. Sem resposta. Um mês depois da posse de Dilma, Irmar enviou-lhe uma carta por e-mail contando em detalhes tudo o que se passara. Mandou cópia para Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência.

No dia 9 de março último, o Palácio do Planalto confirmou o recebimento da carta. Na semana passada, a assessoria de imprensa da Presidência informou que nenhuma providência a respeito pode ser tomada porque o trecho da carta que narrava a patifaria acabara cortado da mensagem.

Não é espantoso? Sumiu da carta justamente o trecho onde Irmar denunciava o grupo que agia no Ministério do Trabalho pedindo dinheiro para liberar registro sindical. Mas sumiu como? Não se sabe. Assim como ainda não se sabe se a carta para Gilberto apresentou a mesma falha.

Vai ver que o trecho mais explosivo dela chegou truncado aos seus destinatários. Vai ver que quem digitou o e-mail pulou o trecho. Custava a quem o recebeu alertar seu autor que ficara faltando um trecho? Assim a carta poderia ter sido reenviada.

Bons tempos aqueles em que um dossiê da Casa Civil sobre despesas sigilosas do governo Fernando Henrique foi batizado por Dilma de banco de dados. Fazia até algum sentido — embora fosse mentira. E o mensalão que Lula se empenhou para que fosse confundido com caixa dois?

Mensalão é crime. Caixa dois também é. Caixa dois soa como um crime leve, quase inocente. O que alimentou o mensalão foi dinheiro desviado de órgãos públicos. Se preferir, "recursos não contabilizados", como observou com deslavada hipocrisia o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares.

Montagem de falso papelório político para uso contra adversários é coisa de bandido nos lugares onde as palavras correspondem ao seu verdadeiro significado. Aqui foi coisa de "aloprado" — um sujeito que age por conta própria para ajudar a se reeleger quem repele ajuda desse tipo.

Sobreviveu ao governo anterior e atravessará o atual uma das mais perigosas mentiras jamais produzida. Atende pelo nome de "controle social da mídia". Seria mais adequado referir-se a ela como "censura". Diz-se que o controle se fará sem interferir no conteúdo. Quem acredita?

A mãe de todas as mentiras é também a mais perversa. Ela atribui a bandalheira à governabilidade. Como para governar é preciso contar com maioria de votos no Congresso ou nas assembleias, os partidos abiscoitam cargos e fazem com eles o que bem entendem. De preferência, roubam.

A bandalheira não decorre da necessidade de contar com o apoio de partidos. Decorre da falta de princípios e de coragem do governante para valer-se da força do mandato obtido mediante o voto popular. Afinal, para que servem os milhões de votos que elegem um presidente ou governador?

Capitais do Censo - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO


O Estado de S.Paulo - 28/11/11


Ao radiografar o Brasil, o Censo 2010 expõe o que distingue uma localidade da outra. No amontoado de tabelas e mapas escondem-se milhares de histórias humanas inusitadas. Muitas se passam em cidades longe ou pequenas demais para serem notadas; outras, bem debaixo de nossos narizes metropolitanos. A seguir, o primeiro parágrafo de uma dúzia delas.

Herval, no Rio Grande do Sul, é a capital brasileira da solidão: 26,6% de suas unidades domésticas são unipessoais. Traduzindo do ibegeês: 1 em cada 4 casas só tem um morador.

Careiro da Várzea, no Amazonas, é a capital rural do Brasil. Está a apenas 25 quilômetros de Manaus, mas tem a maior proporção de moradores vivendo fora da área urbana (95,8%), em comunidades com nomes de santos, de nossa senhora ou do espírito santo. Distância é algo relativo. O município é vizinho da capital, mas tem o maior rio do mundo a ligá-los e a separá-los.

Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo, é a capital brasileira da desigualdade na riqueza. Seus ricos são mais ricos. Os parnaibanos que ocupam os 25% do topo da pirâmide de renda do município ganham mais do que todos os seus pares no resto dos municípios do País: R$ 3.993 por mês. E a renda deles é 14 vezes maior do que a dos 25% de parnaibanos mais pobres. As extremidades da pirâmide estão separadas por um muro ostensivo, de um condomínio fechado, e por outros menos visíveis, como o educacional.

Uiramutã, em Roraima, é a capital brasileira da desigualdade na pobreza. Os uiramutenses mais ricos têm renda 26 vezes maior do que os uiramutenses mais pobres. É a maior diferença proporcional do País. Chamá-los de ricos, porém, é exagero: vivem com R$ 518 por mês. Mas os 25% mais pobres sobrevivem com apenas R$ 20, menos de R$ 1 por dia. Financeiramente, são os mais miseráveis do Brasil. Quase todos moram em tribos indígenas. Muitos nem usam moeda.

Marajá do Sena, no Maranhão, tem a maior proporção de domicílios com saneamento inadequado do País: 85,2%. É a capital brasileira da falta de água encanada, de esgoto e de coleta de lixo - tudo ao mesmo tempo agora. A maior parte joga o lixo em terreno baldio ou queima. Duas em cada três casas não têm sanitário exclusivo dos moradores. A água é de poço ou bica.

Westfalia, no Rio Grande do Sul, tem os pobres mais ricos do Brasil. A renda média dos 25% da parte de baixo da pirâmide chega a R$ 573 por mês. Seus conterrâneos do andar de cima vivem com uma renda apenas 2,5 vezes maior. É um terço da desigualdade média brasileira.

Na planilha, a paulista Balbinos tem dois títulos nacionais: a maior taxa de crescimento populacional da década passada, e a maior proporção de homens no total da população: 81%. Mas ambos são consequência da recente instalação de duas penitenciárias, para onde foram levados mais detentos do que há balbinenses no resto do município.

História semelhante à de Balbinos aconteceu em Pracinha, Lavínia, Iaras, Reginópolis, Álvaro de Carvalho, Marabá Paulista, Guareí, Serra Azul, Itirapina e Pacaembu. As dez foram alvo da política de distribuição penitenciária do governo paulista. Se os presos todos pudessem votar nessas cidades teriam grande chance de eleger o prefeito local - um novo paradigma ético da política brasileira.

Niterói, no Rio de Janeiro, tem potencial para ser a capital brasileira do golpe do baú. Lá vivem as mulheres mais afluentes do Brasil, na média. A renda mensal delas chega a R$ 2.176 por mês. Mas o golpe do baú pode ser também no sentido oposto: os niteroienses ganham, em média, 50% mais do que suas caras-metades.

Lajeado Grande, em Santa Catarina, é a capital da desigualdade financeira entre os sexos. Os lajeado-grandenses ganham, em média, 3 vezes mais do que as conterrâneas do gênero feminino: R$ 2.411 a R$ 800.

O município brasileiro onde sobram proporcionalmente mais homens livres (e fora do presídio) é Tapurah, no Mato Grosso. A população masculina é 40% maior do que a feminina. O desequilíbrio se concentra na área rural, ao norte da cidade. Lá, há 8 vezes mais jovens de 15 a 30 anos - que moram em domicílios coletivos cedidos por seus patrões, em sítios e fazendas - do que garotas da mesma idade.

A cidade onde há excedente proporcionalmente maior de mulheres é Santos (SP): 19% a mais do que homens. O problema começa aos 20 anos e se agrava - muito - com o passar do tempo. Na idade fértil, dos 15 aos 49 anos, a defasagem é de 12%. Mas, a partir de 60 anos, há 62% mais mulheres do que homens.

Pensando bem, Santos e Tapurah disputam com Herval o título de capital da solidão.

Fundo perdido - MELCHIADES FILHO


FOLHA DE SP - 28/11/11

BRASÍLIA - A permanência do desmoralizado Carlos Lupi à frente do Ministério do Trabalho serve para desviar a atenção de mais uma tentativa de drenar dinheiro público para obras controversas da Copa-2014 e da Olimpíada-2016.

Trata-se do projeto que permite o uso do Fundo de Garantia para financiar "operações urbanas" e "empreendimentos hoteleiros e comerciais" ligados a esses eventos esportivos. Ou seja, qualquer coisa.

Anexada de contrabando em medida provisória baixada por Dilma Rousseff, a iniciativa foi aprovada num estalar de dedos pelo Congresso. Espertalhões, os interessados perceberam que o Planalto tinha urgência em limpar a pauta legislativa a fim de votar outro assunto (a DRU). Surfaram o vagalhão.

Num quadro de aperto fiscal, como o atual, os recursos do FGTS tornaram-se ainda mais atraentes.

Por lei, parte do dinheiro recolhido das contas dos trabalhadores deve ser aplicada em infraestrutura (energia, ferrovias, portos). O governo, porém, não consegue investir tudo. Até o PAC desacelerou. Há R$ 5,5 bilhões "parados" no fundo.

É esse saldo que está sob ataque especulativo de congressistas -e de empresários da Copa/Olimpíada.

A ofensiva coincide (só coincide?) com a conclusão de estudo feito por técnicos do Ministério do Trabalho e validado pela Caixa Econômica Federal. Ele propõe distribuir aos correntistas uma fatia maior dos lucros do FGTS. Historicamente, a remuneração dos trabalhadores perde para a inflação.

Lupi não tem a menor condição política de participar desse debate, que dirá arbitrá-lo. Como poderia operar no Congresso, agora que se sabe que ele foi, por seis anos, funcionário-fantasma da Câmara?

Cabe a Dilma resolver o melê. Vetar o contrabando da medida provisória, comprometer-se a revisar a remuneração do FGTS e demitir Lupi seria o roteiro do bom-senso.

O drama de cada um - VINICIUS MOTA


FOLHA DE SP - 28/11/11

SÃO PAULO - A Itália está em crise. O Brasil não. A renda média de um italiano, de US$ 37 mil por ano, é quase três vezes a nossa.

Se a renda per capita brasileira crescer 3% a cada 12 meses, vai levar 35 anos para atingir o ganho de hoje dos italianos. Que tal mirar a renda dos franceses em crise? Com 3% de alta no PIB per capita, o Brasil empata o jogo perto de 2055, com meio século de atraso.

Tais dados relativizam, de um lado, o choro dos europeus por conta da crise e, de outro, os exageros sobre a ascensão do Brasil.

O mundo rico vive uma crise da maturidade. Além das travas conjunturais, como a dívida elevada, a escala a que chegou a economia e a acomodação diante dos benefícios conquistados dificultam a continuidade da evolução.

Quando o PIB da Itália aumenta 1%, coloca em média US$ 370 para cada cidadão na economia. Quando o Brasil cresce 1%, sobram US$ 130 para cada brasileiro.

A cada um o seu drama. Os europeus se digladiam porque lhes restou a opção de diminuir seus benefícios sociais invejáveis, a fim de tornarem-se mais produtivos e competitivos. Os brasileiros deveríamos estar preocupados com o fracasso do país em sustentar taxas de crescimento acima de 5%.

Rumamos para a armadilha da renda média -o risco de experimentar sintomas e limitações das economias maduras muito antes de ter chegado ao nível de renda e sofisticação industrial das nações desenvolvidas.

Para escapar da maldição, o Brasil precisa, desesperadamente, dar saltos de produtividade, eficiência, inovação e competitividade. A sociedade e, sobretudo, o governo consomem demais.

Expõem-se ao endividamento inconsequente e perigoso, enquanto o triunfo solo das atividades agrárias e extrativistas, incapazes de sustentar sozinhas um país de 190 milhões de habitantes, dá o tom do futuro.

A crise na USP - RENATO JANINE RIBEIRO


VALOR ECONÔMICO - 28/11/11


O conflito na Universidade de São Paulo é um assunto político relevante. É uma crise "na" USP, não é a crise "da" USP, porque ela continua sendo a melhor universidade brasileira. Não é a PM que está em jogo. Ela é, se tanto, pretexto, sintoma ou álibi. Podemos resumir a questão em duas frases: é nossa melhor universidade e a única universidade pública brasileira que não tem eleição direta para seu reitor. Há relação entre esses dois fatos? É a melhor porque não elege seu reitor, ou apesar disso? Cada lado responde de um jeito. A universidade mais próxima da USP, a respeitada Unicamp, elege seu reitor. O mesmo fazem a UFMG, a Unesp e a UFRJ. Então? Temos na USP um conflito áspero entre quem quer uma universidade "democrática" - entendendo por isso a eleição de seus dirigentes pelos professores, alunos e funcionários, mas não pelo povo (demos em grego, lembremos) - e os que têm como principal questão a qualidade da pesquisa. Quem quer qualidade se incomoda com a retórica da eleição direta, demasiado politizada. Mas o esquema uspiano de escolha do reitor é um fracasso histórico. Graças a ele o titular do cargo faz o sucessor, o que acontece desde 1989, com duas exceções, a mais recente datando de 2009, quando o governador José Serra nomeou o segundo da lista tríplice. Esse esquema faz que a comunidade não sinta o reitor como um líder que ela apoia.

O sistema de escolha na USP é único no Brasil. No primeiro turno, votam membros das Congregações e Conselhos Centrais, quase 2 mil pessoas, na maioria professores. Isso não é ruim. Ruim é que seu voto vale pouco. Cada um pode sufragar até três professores titulares (qualquer deles, pois não há candidaturas formais). Os oito mais votados vão a um segundo turno, perante um colégio de 360 membros, composto pelos Conselhos Centrais, sobre os quais a reitoria tem forte influência. Esse colégio envia uma lista tríplice ao governador, que costuma nomear o mais votado. Mas, quando Serra escolheu o segundo, a universidade nem chiou - sinal de que nem ela leva muito a sério sua própria votação. A ideia original do sistema era que nomes surgissem espontaneamente, de modo que, sem fazer campanha, algum valor notável despontasse dentre os oito, depois entre os três, e acabasse escolhido pelo governador. Mas nunca foi assim. Sempre a disputa se polarizou, desde o início, entre dois ou três nomes.

Falta à USP um acordo sobre a eleição do reitor

O que fazer? O mais simples é eliminar o segundo turno e passar a decisão para o colégio amplo. Ou, mais radicalmente, seguindo o que a lei federal faculta, instituir uma eleição direta na qual os votos dos professores pesem 70%, ficando funcionários e alunos (e talvez ex-alunos) com 30%. Mas a representação sindical e a dos alunos querem bem mais que isso, o que apavora os bons pesquisadores, receosos de que a universidade seja tomada por micropartidos políticos. Daria para chegar a um acordo que, pelo menos, reduzisse o poder da reitoria na escolha do sucessor. Mas não há conversa. Relatei o assunto no Conselho Universitário, este ano, e metade dos que falaram defendeu uma "estatuinte": o curioso é que vários oradores nem mencionaram o assunto em pauta, que era a eleição do reitor...

Posso atestar, por minha experiência na Capes, convivendo com reitores do Brasil todo, que a eleição direta, apesar de trazer o risco da escolha de um reitor demagogo e sem compromisso com a qualidade, tem levado a bons reitores ou, pelo menos, razoáveis. Isso não quer dizer que o sistema seja perfeito. Desde Tarso Genro, é política do MEC nomear o mais votado - mas sei que, quando ele levou ao presidente da República sua proposta de reforma universitária, depois sepultada, Lula foi taxativo: não tiraria da lei a lista tríplice. Na prática, o ministro nomeia o preferido da comunidade; mas as universidades federais não têm a autonomia das paulistas. A USP, Unesp e Unicamp não precisam ir a cada mês pedir dinheiro ao governo. As universidades federais, sim. Daí, também, que no período democrático nunca um reitor paulista tenha declarado apoio a um candidato a governador ou presidente. Já a grande maioria dos reitores federais é induzida a apoiar o candidato do PT, como se viu em 2006 e 2010. Em suma, nada disso é simples. Os reitores federais, eleitos, têm apoio da comunidade, mas pouca autonomia em face do governo federal.

Não estamos na situação em que um lado é inteiramente certo e o outro, totalmente errado. Mas talvez o maior problema esteja em confundir poder e autoridade. A reitoria tem poder. Os defensores da eleição direta querem democratizar esse poder. Mas, numa boa universidade, o poder é menos que a autoridade: o respeito que alguém conquista por sua qualidade ética ou, no caso, científica. Não há nomeação ou eleição que confira autoridade. Disputar o poder é perder o que é próprio de uma boa universidade.

Mesmo assim, é preciso negociar. Um lado tem o poder, sabe que é impossível - salvo uma improvável revolução que tivesse por meta principal mudar a escolha do reitor da USP - alterar o Estatuto sem o Conselho Universitário, e conclui que basta aguentar duas invasões da reitoria por ano. O atual reitor tinha prometido mudar as regras de escolha no seu primeiro ano de mandato; está para vencer o segundo e não o conseguiu. Já o outro lado é mobilizado, procura tornar o reitor antipático, provavelmente não é majoritário na USP e não parece querer negociar uma solução intermediária. Daí, um impasse desnecessário e que mancha a imagem externa da USP - na qual, enquanto isso, ótimos pesquisadores, da Medicina à FFLCH, continuam seu trabalho.

CLAUDIO HUMBERTO

“Não queremos ser a quinta potência, queremos País de classe média”
Presidenta Dilma Rousseff, sobre a previsão de que o Brasil vai crescer.

PARECE QUE BEBEU
O governo russo registrou a vodca “Comendador Muamar Kadafi”, fabricada por um comerciante local, diz a imprensa da Rússia, onde é famosa a cerveja “Comendador Che Chevara”. Se a moda pega...

MANDATO NO DIVÃ
A Câmara dos Deputados deve ser oi único parlamento do mundo em que ausência crônica dos deputados do trabalho gera estresse: há uma onda incomum de busca dos dois psiquiatras em seu serviço médico. As consultas levam até um mês para serem atendidas.

INFRAERO-BALA
Cheira mal o adiamento dos editais de privatização dos aeroportos. Parecem seguir a rotina dos editais do trem -bala: a cada novo erro localizado no processo, mais um empurrão com a barriga.

CURTO-CIRCUITO
O TCU orientou o governo a debater o vencimento dos contratos de concessão de distribuição de energia, previstos para 2015. Este ano expiram 18%. Num jogo político, a União prorroga licença sem licitação.

SENADOR QUER BARRAR PLANO DE SAÚDE MILIONÁRIO
Contrariado com a notícia publicada pela coluna sobre os R$ 66 milhões que o Senado vai gastar em planos de saúde para seus pares, o senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES) apresentará à Mesa Diretora requerimento de informações sobre o caso. Quer verificar item por item dos quatro contratos sem licitação. Só a Clínica de Olhos Dr. João Eugênio receberá R$ 2,4 milhões. O Hospital Santa Luzia pode faturar R$ 45 milhões.

EM VÃO
Por meses, Ferraço se debruçou no dossiê da FGV, que custou R$ 500 mil ao Senado, para redigir relatório de reforma administrativa da Casa.

OUTRO RELATÓRIO
Em manobra de senadores contrariados com corte de custos de R$ 150 milhões por ano, Ferraço foi substituído por Benedito de Lira (PP-AL).

ESSES SUÍÇOS...
A Justiça suíça condenou a francesa Alston a pagar corrupção em 15 países. O processo se arrasta no Brasil e Inglaterra.

VALE DO SILÍCIO
A PW Construções ganhou a licitação de R$ 10,8 milhões para terminar o Centro de Tecnologia da Câmara dos Deputados, em Brasília.

TSE PODE DAR MANDATO A FICHA-SUJA EM RR
Agendado para esta semana no Tribunal Superior Eleitoral, o processo que pede a cassação do governador de Roraima, José de Anchieta Junior, pode resultar em tragédia maior para o estado. Quem pediu a cassação, de olho no cargo, é o ex-governador Neudo Campos, um dos mais célebres fichas-sujas do País. Entre processos no STJ e acusações, ele desfilou nas celas da PF, preso na Operação Gafanhoto.

ACUSAÇÃO
A vice-procuradora-geral eleitoral, Sandra Cureau, opinou pela cassação de Anchieta Jr., suspeito de usar rádio oficial em campanha. Ele nega.

VERGONHOSO
Neudo Campos foi preso acusado de se apossar do salário de 6 mil funcionários fantasmas na folha do pagamento do DER do estado.

FICHA CORRIDA
O ex-governador Campos é alvo de denúncia por desvio de recursos públicos (R$ 70 milhões) e formação de quadrilha, no STJ.

MÁFIA DOS ÔNIBUS
Há quem diga em Brasília que vêm dos donos de empresas de ônibus as denúncias contra o ministro Mario Negromonte (Cidades). As máfias que controlam o setor não aceitariam o avanço dos VLTs em capitais do País, como transportes mais econômicos e menos poluentes.

GELADAS
O Conar, que regula a publicidade, acusou a cerveja Devassa de abusar do erotismo, que a ministra Iriny Lopes (Política para as Mulheres) ignorou. Ela só implicou mesmo com outra loura, a Gisele Bündchen

PALCO ILUMINADO
Ao passo que o governo assedia o PR, processo que tramita no Tribunal Superior Eleitoral pode levar à cassação o mandato de senador e ex-ministro Alfredo Nascimento (foto), presidente da legenda, por crime eleitoral. 

FUMACÊ
O ex-presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, que destronou os narcoguerrilheiros das Farcs, contraria o colega FHC: diz no Twitter que a legalização da maconha enfraquece o combate à cocaína e à heroína.

PENSANDO BEM...
...o Veículo Leve sobre Trilhos atropelou o ministro Negromonte (Cidades).

PODER SEM PUDOR

ENTREVISTA FORÇADA

Lula sabe lidar com pingunços. Em agosto de 1989, quando ainda usava vôos comerciais, aguardava o embarque no bar do aeroporto de Brasília quando um homem alcoolizado o reconheceu e puxou papo. Para se livrar dele, Lula fez a festa de um repórter cuja presença até então ele tentava ignorar. Ligou o gravador, que estava sobre o balcão, e se desculpou:
– Agora não dá, preciso dar uma entrevista exclusiva ao amigo aqui...

SEGUNDA NOS JORNAIS


Globo: ANP aplica em fiscalização o que Petrobras gasta com café

Folha: E-mail aumenta trabalho e estresse dos brasileiros

Estadão: Liga Árabe aprova pacote de sanções contra a Síria

Correio: Quanto custa o inchaço da máquina pública

Valor: Forte recuo do investimento faz demanda cair para 4%

Estado de Minas: serviço público em BH tem filas de até 2 horas

Zero Hora: Dnit admite novo atraso na duplicação da BR-101