domingo, novembro 13, 2011

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Setor de telecomunicações deve investir mais de R$ 65 bi até 2016
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 13/11/11

O setor de telecomunicações receberá nova rodada de investimento nos próximos anos, segundo especialistas.

Até 2016, pelo menos R$ 65 bilhões serão destinados a redes de infraestrutura, com foco em fibra ótica e tecnologia de terceira geração, segundo levantamento da Tendências.

O crescimento do mercado de celulares e banda larga móvel é um dos motivos do avanço, de acordo com Eduardo Tude, da consultoria Teleco.

A lei que abre o mercado de TV a cabo a empresas de telecomunicação também estimula a concorrência, diz Camila Saito, da Tendências.

"Como o serviço de alta definição exige muita capacidade, começou uma corrida de investimento", afirma.

Em 2010, o setor viveu uma ressaca após os esforços anteriores na evolução da rede 3G. "Despesas de capital ou investimento em bens de capital caíram 8,2% em 2010 ante 2009. Mas o consolidado do primeiro semestre de 2011 das operadoras já mostra expansão de quase 50% no volume de investimento", diz.

O mercado de TV por assinatura deve crescer 31% em número de assinantes no quarto trimestre de 2011, projeta a Tendências.

O volume de recursos, porém, deveria ser melhor distribuído, segundo Erasmo Rojas, da 4G Americas, associação de provedores de serviços e fabricantes do setor. "Além da modernização da rede, é preciso investir na infraestrutura e em aparelhos que suportem maior velocidade", afirma Rojas.

LONGE DA CONCORRÊNCIA
A subsidiária brasileira da gestora de fundos de investimento Salamanca Capital investirá R$ 330 milhões até 2013 em negócios relacionados a imóveis e minério.

Com sede em Natal (RN) e formada por 80% de capital britânico e 20% brasileiro, a companhia atua no Nordeste com essa formação há quatro anos.

Os novos investimentos da empresa no setor imobiliário (cerca de R$ 100 milhões) continuarão concentrados nessa região do país.

Os recursos para mineração (em torno de R$ 230 milhões) deverão ser alocados em Mato Grosso, Goiás ou Piauí, onde a companhia analisa operações.

"Procuramos fugir do óbvio e encontrar oportunidades de investimento longe dos mercados mais concorridos, como Rio e São Paulo. Há outras regiões do país em crescimento", diz Renato Garcia, sócio da empresa.

Além do Brasil e da Inglaterra, a Salamanca está presente na Polônia, na Romênia e na Bulgária, além de investir também na China.

O QUE ESTOU LENDO
Rômulo Dias, presidente da Cielo

"O Coração de um Executivo", de Richard D. Phillips, é a atual leitura do presidente da Cielo, Rômulo Dias.

O livro narra a vida do bíblico Davi, humilde pastor que se tornou rei de Israel. O autor faz um paralelo entre a trajetória de Davi e a carreira executiva.

"Phillips enxerga reflexos das provações e dos triunfos que marcam nossa vida no mundo empresarial", segundo Dias.

"Tive vontade de aprender com quem foi um grande entregador de resultados, sem perder características como transparência, humildade e proximidade com todos a seu redor."

CRÉDITO NO LONGO PRAZO
A publicação, na última semana, do decreto 7.603, que regulamenta condições para aprovação de projetos de investimentos em infraestrutura, ajudará a viabilizar os R$ 922 bilhões previstos pelo setor até 2015, segundo a Abdib (associação de infraestrutura e indústria de base).

"Essa medida abre caminho para a criação de um mercado de crédito de longo prazo para financiar os investimentos na área e reduz a carga sobre o BNDES", afirma Paulo Godoy, presidente da entidade.

A lei isentou de imposto de renda debêntures e títulos mobiliários para financiar projetos em logística, mobilidade urbana, energia, telecomunicações, saneamento básico, irrigação e outros.

A Abdib estima que, no primeiro semestre de 2012, o mercado privado iniciará as operações de emissão de títulos para projetos de infraestrutura para aproveitar os benefícios do novo regime.

YAKISOBA NO SHOPPING
A rede de restaurantes China In Box, do grupo TrendFoods, começará a atuar em shopping centers.

A companhia vai inaugurar uma unidade neste ano, em São Paulo, e pretende abrir outras oito em 2012.

"Resolvemos repetir a estratégia que adotamos com outras marcas", diz Robinson Shiba, presidente do grupo que também controla as redes de restaurantes Gendai, Brevità e Owan.

Além da expansão em shopping centers, o China In Box continuará as reformas para oferecer espaço para alimentação em suas 152 unidades. "Começamos o processo há quatro anos, e 70% das lojas já têm esse serviço", diz Shiba.

INGLÊS FRANQUEADO
A rede de escolas UNS Idiomas abrirá 150 franquias nos próximos três anos.

O investimento da companhia será de R$ 27 milhões.

"O valor será usado para estruturação das novas unidades, publicidade, capacitação dos profissionais e pesquisas de mapeamento das cidades com maiores oportunidades", diz o presidente da rede, Marcel Magalhães.

São Paulo e Rio receberão mais de 50% dos investimentos, que também serão feitos nas regiões Sul, Nordeste e Centro-Oeste.

Outra rede de idiomas, a YES!, planeja abrir 40 franquias em 2012. Metade delas deve ficar em São Paulo.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

MIRIAM LEITÃO - Mundo de mudança



Mundo de mudança 
MIRIAM LEITÃO 
O GLOBO - 13/11/11

Entrei junto com três casais no elevador do hotel em que estava em Nova York. Curiosamente, eles eram russos, chineses e indianos e estavam carregando sacolas de grifes. Tinham ido gastar sua prosperidade na capital do capitalismo, enquanto o mundo debate a crise do capitalismo. Wall Street tem manifestantes, e a cicatriz do 11 de Setembro virou um grande negócio.
É preciso comprar pela internet com dias de antecedência o ingresso para entrar no memorial ainda incompleto da tragédia. Os estrangeiros ficam em filas para comprar lembranças ou ver o local onde se erguem novas torres. A dor americana é sincera, mas, como sempre, tudo foi organizado para o local ser mais uma caixa registradora.
Ali por perto são feitas as manifestações que têm contaminado os EUA e outros países: o movimento Ocupe Wall Street. De costa a costa há eventos. Em São Francisco, alguns manifestantes lembram os da década de 60. Pela maneira de vestir e pela idade parecem ser os mesmos que protestam há cinco décadas. A primeira página do "New York Times" trouxe fotos dos vários manifestantes com cartazes de propostas estranhas como "Acabe com o Fed".
Uma economia sem Banco Central não existe em país algum do mundo por mais que se possa fazer uma longa lista dos erros que o octogenário Fed cometeu. O maior deles foi socorrer os bancos em 2008 sem qualquer punição para os que criaram a crise. Foi insultuoso o anúncio de que os mesmos que tomaram decisões insensatas, e que foram apanhados em tantas irregularidades, voltaram a receber polpudos bônus. É ainda um movimento à procura de uma bandeira, mas como a insatisfação é profunda pode encontrá-la; até porque tem razão em vários pontos.
Um dos cartazes estampados no "NYT" dizia: "Jovem supereducado e desempregado". Isso torna o movimento americano irmão das eclosões africanas, nas quais uma das razões da fúria foi o fato de que há uma geração de jovens que estudou mais do que seus pais mas não consegue emprego. A economia americana continua com taxas altas de desemprego.
Nova York é uma ilha em todos os sentidos, mas mesmo lá é possível ver os sinais de empobrecimento de americanos. Por outro lado, lojas cheias, filas na porta das mais conhecidas, longas esperas nos restaurantes provam que continua como sempre ocupada e desfrutada por estrangeiros. Só que desta vez a hegemonia é dos turistas de países emergentes.
Nunca vi tanto brasileiro em Nova York, nem na época do câmbio fixo dos anos 1990. Lojas já têm funcionários que aprenderam português para atender os brasileiros. Eu os encontrei nas ruas, nas lojas, nas esperas dos restaurantes, nos teatros. São vorazes nas compras, mas não mais do que os chineses. O combalido capitalismo americano está, como sempre, capitalizando-se com a poupança alheia.
A manicure que me atendeu, num salão perto do Central Park, me conta sua história: é chinesa, foi para os Estados Unidos há dez anos, lá decidiu ter o segundo filho que não podia ter na China, levou os pais. Visita a terra natal, não quer voltar, e quando digo que seu país está ficando rico, responde: "Não é a China toda. Alguns chineses estão ficando ricos."
O mundo vive um momento desconcertante. Tudo parece estar mudando de lugar ou ficando prisioneiro de alguma incerteza estrutural. O que realmente a Europa pode fazer com o euro? Os líderes europeus se enganam diante dos olhos do mundo. Todos sabiam que o que eles chamavam de crise da periferia da Zona do Euro chegaria ao centro. Era uma questão de tempo. Os dados de déficit e dívida dos 17 países da Zona do Euro ou dos 27 da União Europeia - incluindo o Reino Unido - mostram que tudo é insustentável.
Era óbvio que o problema não era apenas grego, que aceitar um calote só dos títulos gregos e emprestar um dinheiro exorbitante ao país não resolveria coisa alguma. A crise levanta vários dilemas, como o que fazer com o projeto de moeda comum a países com diferenças tão explícitas.
A solução que começa a ser sussurrada entre Berlim e Paris de reformar o projeto indica que eles começam a pensar no impensável: tirar alguns da Zona do Euro. O problema é que a França tem também um déficit e uma dívida enormes. Não é modelo para ninguém. A Standard & Poor"s divulgou a notícia errada de que teria tirado deles a nota máxima. Parece ato falho. A França não merece o triplo A.
Nos próximos anos a Europa ficará no crescimento em torno de zero; os Estados Unidos crescerão pouco, mas têm mais capacidade de se refazer; a estrutura de governança do mundo permanecerá errada. Os países cadentes têm poder demais; o G-20 está ficando irrelevante antes de virar uma alternativa. O presidente do Banco Central Europeu é um italiano no momento em que a Itália entra no olho do furacão.
O capitalismo continuará procurando seu caminho, como sempre, mas o mundo mudará muito. O primeiro programa na Globonews, ao voltar das férias, foi sobre o fato de que o PIB do Brasil talvez passe o do Reino Unido. Pareceria delírio tempos atrás. Mesmo assim não sabemos o que fazer com a nossa prosperidade.

FERREIRA GULLAR - A política como farsa



 A política como farsa

FERREIRA GULLAR 
FOLHA DE SP - 13/11/11

Como esse é o espírito do governo petista, todos os seus integrantes dançam ao som da mesma música


Todos sabemos que a sinceridade não é uma qualidade muito comum nos políticos, mesmo porque, se o candidato disser francamente o que pensa, provocará mais desagrado que agrado. Pelo sim, pelo não, prefere dourar a pílula. Mas isso não significa que a política seja, como há quem afirme, a arte de enganar os ingênuos. Se até Deus, segundo dizem, se vê obrigado a escrever certo por linhas tortas, imaginem um pobre mortal.

Mas, sem dúvida, há os que exageram, e eu incluo entre estes -sem lhes dar exclusividade- o pessoal do Lula. Antes de chegar ao governo, era contra tudo o que qualquer outro partido propunha, chegando ao ponto de se negar a assinar a Constituição de 1989 -chamada por Ulysses Guimarães de "Constituição cidadã"-, que veio restaurar a democracia no Brasil.
E só para ser do contra, aliás, não só: também para fazer de conta que era o verdadeiro defensor dos direitos do povo.

Essa mesma postura, de quem joga para a arquibancada, levou os petistas a denunciar os programas Bolsa Escola e Bolsa Alimentação, do governo Fernando Henrique, como uma espécie de esmola que humilhava os trabalhadores e os pobres em geral. Quando chegaram ao poder, fundiram os dois programas num só -o Bolsa Família- e deles se apropriaram.

Podiam admitir que haviam errado, mas, pelo contrário, fingem que era uma criação original sua. Do mesmo modo agiram com relação ao Plano Real, à Lei de Responsabilidade Fiscal e a tudo o mais que combateram e passaram a usar, como se os tivessem criado. Claro que quem assim age tem que estar mal na roupa, sempre tendo que fazer de conta, já que tem o rabo preso.
Confesso que, até bem pouco tempo atrás, não tinha visto as coisas por esse ângulo, embora me chamasse a atenção o modo como se comportavam os membros do governo Lula.

Guido Mantega, por exemplo, jamais fala como deveria falar um ministro de Estado. Pelo contrário, todo pronunciamento seu é sempre um autoelogio, exaltação à política econômica do governo, às vezes até afirmando, cabotinamente, ser ela superior à de todo e qualquer país do mundo.

Nessa mesma linha foi o lamentável pronunciamento da presidente Dilma, em viagem recente pelo exterior. Sem o devido respeito que um chefe de governo deve ter com os de outros países, criticou-lhes a política econômica e os aconselhou a aprender conosco a governar... Na verdade, mais uma vez jogava para a plateia, visando levar a opinião pública brasileira a orgulhar-se do governo petista, incomparável e único no mundo.

É atitude própria aos "salvadores da pátria" que, em nossa época, após a queda do Muro de Berlim, empurrou parte da esquerda latino-americana -a menos democrática- a uma espécie de neopopulismo que, não por acaso, alcança os limites da enganação. E não poderia ser de outro modo, uma vez que está obrigada a representar uma farsa: fazer-se de anticapitalista quando, na verdade, o favorece; fazer-se de democrática, quando, de fato, não aceita a alternância no poder e abomina a liberdade de imprensa.

Como esse é o espírito do governo petista, todos os seus integrantes dançam ao som da mesma música, obedecendo à batuta do maestro. Exemplo disso foi a posse do novo ministro do Esporte, que substituiu Orlando Silva, demitido por suspeita de corrupção, como atesta o processo aberto contra ele pelo STF.

Para surpresa de todos, esse ato se transformou numa exaltação ao ministro demitido, que foi elogiado por Dilma e aplaudido de pé pelos presentes. Uma comédia.

Um fato muito grave atinge o cerne vital desse sistema de poder: a descoberta de um câncer na laringe de Lula. O país inteiro se assustou, é claro. É verdade que hoje muitos tipos de câncer são curáveis; apesar disso, constatar que alguém está com um tumor maligno não é propriamente uma boa notícia.

É o que todo mundo pensa. Não obstante, parece que, no caso de Lula, é diferente. Da equipe médica à presidente Dilma e ao ministro Mantega, todos afirmam sorridentes que Lula está ótimo, alegre, mais bem-disposto do que nunca.

Até hoje, não tinha visto um diagnóstico de câncer ser tão bem recebido. Parece até que Lula acaba de ganhar o grande prêmio da loteria.

GOSTOSA


JOSÉ SIMÃO - Ueba! Bieber ganhou o Bambi!


Ueba! Bieber ganhou o Bambi!
JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 13/11/11 

Prenderam o traficante Nem porque ele se chamava Nem. Se fosse Enem, tinha vazado 

Buemba! Buemba! Macaco Simão urgente! O esculhambador-geral da República!

O mundo é uma piada pronta lotada de predestinados. Primeiro ministro da Líbia: Abdel Al KIB! Primeiro ministro da Grécia: Lucas PapaDEMOS. Assessor do ministro do Trabalho: PANELLA! E o Al Kib é Al Kib frito ou Al Kib cru? Se fosse ministro da Dilma, Al Kib FRITO! E o recado ao povo líbio: "Ou vocês se comportam ou vão sentar no al kib".

E piada pronta direto de Cajazeiras, Paraíba: "Sexo oral na praça do Pirolito". Dois marmanjos estavam praticando sexo oral numa árvore na praça do Pirolito em frente ao bar do Pirolito. Pirolitos em Ação!
E outra piada pronta: "Justin Bieber ganha Prêmio Bambi 2011". E o traficante Nem? Prenderam o traficante porque ele se chamava Nem. Se fosse Enem, tinha vazado.

E o Berlusconi? Com aquela cara de vibrador usado? Vai renunciar. Agora não adianta mais, a zona já tá feita! E o FontedeHumor diz que o Berlusconi vem pro Brasil. Pra reabrir o Bahamas! Imagine o Berlusconi e o Maroni de roupão! Rarará! E antes da renúncia receberá uma comenda: a medalha de honra ao meretrício. Por ter transformado a Itália numa zona.

Mas ele foi o único que adotou de fato a zona do euro. Comeu todas as gostosas do euro. Berluscome. Berluscome Todas. O Maluf pornô! E sabe como se chama o pingolim do Berlusconi? Fofoca: corre de boca em boca. Rarará!

Outra figura da semana: o ministro do Trabalho, "só saio abatido à bala". Ai, ai, ai, a Dilma vai ter que usar garrucha? Ela já anda como o John Wayne! Rarará! Ou então ele anda no Caveirão do Bope, ministro à prova de bala.

E o PDT quer dizer Pode Dar Tiro? Rarará! E o Brasil agora tá assim: denúncia, defesa, denúncia, defesa. Eu também quero denunciar. Vou denunciar a minha sogra que usa sandália com o calcanhar rachado. Troco qualquer denúncia por uma viagem pra Bahia! E corre na internet um panorama internacional: "USA, Steve Jobs. Grécia, No Jobs. Itália, Blow Jobs". Rarará!

E o Vasco nem precisou chamar a PM pra bater o Universitário. Vasco cinco, Universitário dois! E a Portuguesa voltou pra série A! Depois de cem anos. Adorei ver os torcedores com as camisas cheirando a naftalina! Tirando o pó das bandeiras.

A Portuguesa usa a tática padaria: ataca em massa e retranca em bolo! E o Palmeiras contratou mais um craque. Pra segurar a lanterna. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

MARIO VARGAS LLOSA - Uma rosa para Rosa



Uma rosa para Rosa
MARIO VARGAS LLOSA 
O Estado de S.Paulo - 13/11/11

Ter quase 5 milhões de desempregados, como tem a Espanha, é uma tragédia para qualquer país, principalmente para uma sociedade que, oito anos atrás, era a história de sucesso da Europa: uma nação de economia pujante e muito invejada, exemplo flagrante - para a América Latina, em particular, e para o Terceiro Mundo, em geral - de que, com estabilidade, democracia e políticas acertadas, um país pode pular etapas e, em um período breve, alcançar altos níveis de trabalho e bem-estar.

Ninguém duvida que os assustadores números do desemprego espanhol sejam consequência da crise financeira que há mais de três anos afeta o mundo ocidental. Mas ninguém pode ser ingênuo a ponto de crer que essa é a única causa, nem a principal, de semelhantes níveis de desemprego. Afinal, se assim fosse, por que não observamos no restante da Europa um fenômeno parecido? Nem a Grécia, na sua interminável descida ao fundo do poço, apresenta um desemprego comparável.

Por outro lado, uma investigação recente comprova que a Espanha é o país da União Europeia onde as diferenças econômicas entre ricos e pobres são as maiores no bloco - e atesta que o altíssimo desemprego entre os jovens, cerca de 48%, dificilmente recuará nos próximos três anos.

A principal razão desse desastre é uma política econômica errática e imprudente e a obstinação do governo socialista em negar a existência da crise por mais de um ano, coisa que o impediu de adotar as medidas corretivas que teriam moderado o declínio e encurtado o período de recuperação. Os prognósticos quanto ao tempo que será necessário para tal recuperação variam, mas todos concordam que o próximo ano será mais difícil.

Nas eleições do dia 20, o governo espanhol será sancionado por esse fracasso. E é natural que assim seja. Vale a pena recordar que só nas democracias essas sanções são possíveis e, por sorte, apesar dos problemas econômicos, a democracia espanhola goza de ótima saúde. Pesquisas de opinião dizem que o principal partido de oposição, o Partido Popular (PP), liderado por Mariano Rajoy, voltará ao poder.

Alegro-me que seja assim, pois creio que o PP conta com a melhor equipe de economistas e as ideias mais claras para enfrentar os sacrifícios e dificuldades para levar adiante as reformas radicais necessárias. Esperemos que o partido conte também com a coragem para tirar a Espanha do marasmo econômico, devolvendo-lhe o dinamismo visto durante os oito anos de governo de José María Aznar. Apesar de tudo isso, nessas eleições não votarei no PP, mas na União Progresso e Democracia (UPD), partido liderado por Rosa Díez, por motivos que gostaria de explicar neste artigo.

Tenho uma desconfiança instintiva em relação às maiorias absolutas, que podem alentar iniciativas arbitrárias e até autoritárias nos governos que formam. No caso espanhol, preocupa-me que, caso o PP obtenha a maioria, sua ala mais conservadora, impelida por motivações religiosas, faça o governo de Rajoy voltar atrás nas reformas sociais mais avançadas aprovadas sob o governo de Zapatero, as quais, na minha opinião, fizeram progredir a cultura da liberdade na Espanha.

A UPD é um partido comprometido com reformas genuinamente liberais e tenho certeza que ele as defenderá com convicção no Parlamento. Por isso, se o PP não obtiver a maioria necessária para governar sozinho e tiver de recorrer a alianças, a UPD seria seu aliado ideal.

Desde que nasceu como organização política, a UPD combateu os nacionalismos de maneira resoluta. E sustentou que, mantido o funcionamento do regime das 17 regiões autônomas, o risco de desintegração se acentua progressivamente. Defendeu que, por esse motivo, tal sistema deveria ser reformado, sem colocar em risco a descentralização, mas permitindo que o Estado recupere competências relativas à educação, à saúde e à Justiça, sem as quais é difícil que haja uma política coerente e homogênea em nível nacional.

Por outro lado, a UPD é o único partido que nessas eleições incorporou a seu plano de governo uma cláusula comprometendo-se a apoiar a oposição democrática que luta para libertar Cuba de 52 anos de ditadura. Também nesse campo é imprescindível retificar a política do governo socialista que, no que concerne a tirania cubana, foi de uma tolerância que beirou a atuação como procurador da ilha caribenha.

Não estou dizendo que a UPD é um partido liberal, mas é aquilo que mais se parece com isso no âmbito espanhol. Tanto no que tange a economia como em suas convicções democráticas, em suas posições tolerantes e na diversidade que admite e fomenta entre seus afiliados. Um espectro ideológico que vai da social-democracia ao liberalismo, passando pelo centro cristão ou laico e até com pequenos lampejos anarquistas, algo que confere ao partido um ar fresco, renovador e idealista, desprovido dos apetites que o tempo costuma incutir nos partidos políticos.

A melhor credencial da UPD é Rosa Díez, sua porta-voz e fundadora, a quem os cidadãos espanhóis costumam descrever com os melhores adjetivos. Essa mulher baixinha e de olhos efervescentes é dona de convicções firmes e demonstrou ao longo da vida pública uma coragem à prova de terroristas e fanáticos.

Ela viu o risco que o nacionalismo identitário representa para a sobrevivência da Espanha e da democracia e sempre criticou as concessões feitas pelo governo nesse sentido, afastando-se da política que entregasse a liberdade de comunidades inteiras ao sequestro coletivista.

Rosa Díez é aquilo que Max Weber chamava de "político de convicções". Ela e seu partido merecem uma presença mais expressiva. Seu objetivo é devolver à política a solvência moral e a confiança que depositam nela os cidadãos de uma democracia que enxergam na ação política o instrumento mais eficaz e menos violento para obter melhorias na qualidade de vida da população, corrigir aquilo que vai mal, promover a igualdade e a justiça.

Essa confiança foi esfriando na Espanha com a feroz crise econômica. Nas novas gerações, começa a surgir um pessimismo que se traduz, às vezes, numa recusa às regras do jogo democrático. Isso explica o estado de deriva que tem se disseminado no movimento dos "indignados". Num primeiro momento, a simpatia da opinião pública foi grande em relação à mobilização de jovens que, após terem recebido educação e se preparado para entrar no mercado de trabalho, agora o encontram fechado.

Muitos viram no período inicial do movimento dos "indignados" uma injeção de energia na democracia espanhola. No entanto, logo o movimento ultrapassou suas causas originais e adotou palavras de ordem tão anacrônicas quanto a estatização e o dirigismo econômico - e a substituição da legalidade parlamentar pela legalidade das ruas.

As eleições de novembro são uma oportunidade para comprovar que a democracia funciona e consiste no único sistema que permite a renovação. Para tanto, é preciso não se enganar na hora de votar. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

MERVAL PEREIRA - O Brasil nos Brics



O Brasil nos Brics 

MERVAL PEREIRA 
O GLOBO - 13/11/11

Os Brics, sigla que reúne os cinco países emergentes mais influentes neste novo mundo multipolar em que vivemos, ganharam relevância ainda maior dentro do contexto da crise econômica mundial que consome a União Europeia e os Estados Unidos.
Segundo o professor de História Contemporânea da UFRJ Francisco Carlos Teixeira, transformaram-se em "um grupo de consultas mútuas" de países com um bom comércio - Brasil/China, China/África, China/Rússia/Rússia/Índia - e que, de certa forma, possuem interesses parecidos: desconcentração do poder mundial, novas normas de comércio, estabilização financeira e cambial.
Teixeira diz que os Estados Unidos de Obama acabou por aceitar o inevitável: o sonho de hegemonia mundial se desmilinguiu no ar.
Na sua avaliação, "na Líbia, nas retiradas no Afeganistão e no Iraque, patenteou-se a nova política: intervenções só com as parcerias políticas, morais e financeiras".
Que será uma atitude permanente, Francisco Carlos Teixeira não aposta: curada a crise econômica, ele acredita que os americanos voltarão ao velho estilo. "Mas aí o mundo já será outro", diz ele, "os custos ainda maiores e as condições talvez irreversíveis."
Não se trata, adverte, de decadência americana, "isso ainda precisa do fim do século XXI para ser História". Trata-se de desconcentração de poder e a virada para um mundo mais multicêntrico, "o que para o Brasil é muito bom", avalia.
Para o embaixador Marcos Azambuja, especialista no assunto, os Brics são um efeito colateral da impossibilidade de se redesenhar a ordem internacional, já que as resistências à redistribuição de poder pela via institucional continuam muito grandes.
"Antes, só as grandes guerras provocavam os traumatismos e ofereciam a oportunidade para o redesenho da ordem internacional. Como o fator nuclear impede (ainda bem) uma Terceira Guerra Mundial, não se apresentam aquelas condições para que se reveja, em profundidade, a ordem internacional", avalia.
Assim, como o sistema central não pode ser reformado, a saída tem sido a criação de grupos com um grau maior ou menor de informalidade que refletem novas realidades e as novas hierarquias do poder mundial, analisa Azambuja.
Assim vão aparecendo entidades como a Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático), a Apec (Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico), o G -20 e os Brics.
O embaixador Azambuja ressalta que as estruturas criadas em São Francisco ainda sobrevivem, com os importantes acréscimos do que se negociou em Bretton Woods, pela contribuição das chamadas Agências Especializadas e pela criação, mais tarde, dos instrumentos para a defesa dos direitos humanos e proteção ambiental.
"Nunca foram reformadas, e não vejo sinal de que possam ser redesenhadas no futuro previsível", afirma.
Para ele, os Brics continuam a enfrentar seus pecados de origem: a) é uma tribo sem índios e composta só de caciques; b) não tem uma agenda comum nem sequer um mínimo de institucionalidade; c) o passado das relações entre alguns deles é antes de conflito e rivalidade do que de cooperação; d) perseguem políticas divergentes e não é fácil imaginar uma conciliação de seus interesses nacionais.
Azambuja diz que o que une os Brics - além do convencimento de seu peso (geográfico, demográfico, econômico etc.) - "é o sentimento de seus membros de exclusão, em maior ou menor grau, do processo central de definição da nova ordem mundial, a convicção de que essa revisão deve dar a cada um uma maior fatia de poder e que, pelo menos no nível das ideias e dos objetivos gerais, pode ser encontrado um denominador comum que permita um discurso em boa medida afinado entre os cinco".
Mas, lembra Azambuja, há a consciência dos limites da concertação entre os cinco: "o Brasil, a Índia, a África do Sul não abdicam de sua adesão ao Ibas, que, em virtude mesmo de sua composição, permite que se aprofundem as afinidades entre as três democracias que integram os Brics".
Para o professor Clovis Brigagão, do Centro de Estudos das Américas da Ucam e professor-visitante do Programa de Mestrado em Relações Internacionais da Uerj, "nesse novo espaço internacional que está em crise, por um lado, e pelo ritmo e aceleração da globalização, por outro, vem, impressionantemente, crescendo o papel dos Estados emergentes, que têm o G-20 (substituto do plano regulatório do sistema financeiro do pouco democrático G-7), os Brics, bem como as plataformas do comércio inter e intrablocos regionais, além das redes sociais, da imagética criativa dos serviços digitais.
Ele destaca que temos, em comparação com os outros Brics, consolidada a democracia, como forma e regime político, uma cultura diversa, plural e com formas ativas, artística, musical.
"Isso é o que o Brasil leva ou tem que ter como estratégia política e diplomática, na sua inserção internacional, que garanta benefícios agora e para o futuro."
Brigagão lembra que o Brasil tem, com a Amazônia, o seu rico e complexo ecossistema - muito pouco explorado no seu essencial, que é o DNA dos recursos naturais para a produção de fármacos indispensáveis à saúde.
Ele destaca também o que chama de "a plataforma mais homogênea":
"Língua e pertencimento a essa ilha continental, ocidental no que se pode ser, comportamentos mais modernos e contemporâneos, muito atinados com o mundo, resultado de três fatores: a redemocratização, os projetos e realizações da integração regional (hoje ainda mais integrada fisicamente - transporte, energia e comunicação), e a globalização."

Na coluna de sexta-feira, cometi um equívoco que merece ser reparado: não foram os policiais federais que recusaram a proposta de suborno para liberar o traficante Nem, mas policiais militares do Batalhão de Choque da PM do Rio de Janeiro.

SÓ FALTA UMA!

SÓ FALTA UMA!


MÔNICA BERGAMO - Ocupe o Copan


Ocupe o Copan
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 13/11/11

Artistas de 20 e poucos anos e sem galeria se juntam para fazer exposição em espaço vazio de 3.500 m² em prédio de Niemeyer

Há dois meses, Alessandra Terpins, 26, tomou coragem. Pediu demissão da galeria Fortes Vilaça, onde era assistente de curadoria, e ligou para uma amiga. Disse a Fernanda Brenner: "Vamos fazer". Combinaram de juntar 30 artistas de 20 e poucos anos e sem representação em galeria. Selecionaram uma ou duas obras de cada um para expor num espaço desocupado de três andares, com 3.500 m² de área, dentro do edifício Copan, projetado por Oscar Niemeyer no centro de SP.

Alessandra acumulou experiência de oito anos trabalhando em galerias e um incômodo: "Saí do mercado desolada, querendo fazer algo mais transgressor. Nas galerias, todo mundo diz que quer ser agressivo, mas acaba seguindo as regras do mercado". Já Fernanda tinha o contato do dono do imóvel, um engenheiro que não quer se identificar. Ele cedeu o local, que possui há 20 anos e nunca conseguiu vender, relata a repórter Thais Bilenky.

Na segunda-feira passada, as duas convocaram os 30 artistas para uma reunião no futuro palco de exposição. "Vamos realizar um trabalho mais experimental que o das galerias, sem o estresse de ter que fazer a carreira do artista crescer", afirma Lelê, como Alessandra é chamada. "O que estamos fazendo aqui acontece muito no exterior. Cada vez mais, artistas em Berlim e em Nova York se apropriam de lugares caindo aos pedaços em regiões 'uprising' [em ascensão], para montar exposições."

"Daqui a pouco, vocês [artistas] entram para uma galeria e vão fazer dinheiro nesse mercado, que tá bombando. Os preços vão subindo e a gente não sabe onde isso vai parar. Enquanto isso, esse imóvel está sendo depreciado, mesmo sendo uma obra magistral." O proprietário pede R$ 10 milhões pelo conjunto.

No dia 24, haverá uma abertura para 250 "convidados VIPs" (leia-se: colecionadores). No dia seguinte, fazem uma festa de inauguração "para a galera". A partir daí, a mostra fica em cartaz por mais dez dias.

A idealizadora do projeto tirou do bolso R$ 20 mil para viabilizá-lo. Pretende reaver o dinheiro cobrando 30% de comissão das obras que forem vendidas (a taxa praticada pelo mercado é de 50%). "Não sei se vou sair no zero a zero ou com um lucro pequeno. O importante é fazer acontecer." Explica aos artistas que fará o orçamento para montagem e exibição dos trabalhos de cada um conforme as necessidades, mas pede que "sejam barateiros".

"A gente brinca que os preços das obras vão de R$ 10 a R$ 10 milhões, porque inclui a obra-prima do Niemeyer", diz a estudante de arquitetura Fernanda Resstom, da comissão organizadora da exposição, intitulada "Imóvel". Completam o grupo Isabel Villares e Thiago Gonçalves, também alunos de arquitetura, e André Guazzelli, formado em desenho industrial.

A reunião avança e as perguntas vão surgindo. "Vai ter bombeiro?", quer saber Silvio De Camillis Borges, 26. Sua ideia é fazer uma instalação com uma chapa de metal colocada em um fogão industrial -superaquecida, portanto. Sobre a placa, uma torneira jorra um filete contínuo de água, gerando, devido ao choque térmico, pequenas "explosões". Batizou-a de "Contrata-se Ferreiro". "É uma iniciação para esse espaço, que está há 20 anos 'desligado'. Sem calor, não existe vida", explica Borges.

As dúvidas prosseguem: "Vai ter segurança? 24 horas? Podemos vir [trabalhar] de madrugada?". É a deixa para Seu Oliveira aparecer. Zelador do espaço desde 1999, Oliveira Marques da Silva, 72, diz que "pode, desde que não façam barulho". É que ele mora no imóvel -improvisou uma cozinha e um quartinho em pleno saguão.

"Tem fantasma aqui?", perguntam. Seu Oliveira responde que sim. "Mas não tenho medo, não. Pior foi quando entraram uns trombadinhas querendo fumar alguma coisa", lembra.

Além de atuar na organização, Fernanda Brenner vai expor "Cenografia da Espera", duas telas sobre "o momento imediatamente anterior a um acontecimento". "Esse lugar aqui [o conjunto no Copan] tá esperando acontecer alguma coisa. É um espaço em branco." Em um dos quadros aparecem uma pessoa, uma janela, um banquinho, um gaveteiro e uma fonte de luz.

Antes de ser comprado pelo engenheiro, o local da exposição serviu como hospital dos funcionários do Bradesco. Sobraram resquícios da época, como placas apontando para o "gabinete dentário" e para o "ambulatório médico". Ficaram também restos de cenários montados para filmes e comerciais rodados ali, que garantem ao proprietário uma renda para pagar o condomínio.

"Eu vi muito entulho, vigas, escadas. Posso usar?", pergunta o artista Daniel de Paula, 24. É que ele pretende preencher com tijolos espaços vazados entre colunas em V, símbolo da arquitetura moderna, e degraus de escadas. "O que eu tinha imaginado é discutir a função que tem hoje o estilo de Niemeyer", diz.

Daniel de Paula acha "interessante" a proposta da exposição. "Não é todo dia que você tem a oportunidade de intervir diretamente numa obra do Niemeyer. É aqui ou na Bienal [cujo prédio, no Ibirapuera, também foi projetado pelo arquiteto]." O problema, diz, é o prazo: menos de 20 dias para a montagem.

"Realmente, se eu tivesse mais tempo, colocaria o projeto no Catarse [site de financiamento colaborativo]", diz Lelê. Mas não vai dar. Ela está "apaixonada" e, em dezembro, vai viajar para a Austrália por três meses com o namorado. Terá que esperar a próxima edição, que os organizadores pretendem fazer no primeiro semestre do ano que vem.

CELSO MING - Apertar ou desapertar?


Apertar ou desapertar?
 CELSO MING
O ESTADÃO - 13/11/11

Por todos os cantos da Europa repete-se uma pergunta intrigante: se os programas de austeridade e de sacrifícios afundam ainda mais as economias nacionais na recessão, no desemprego e na queda de arrecadação, por que, então, insistir nessa receita idiota que, além de piorar as coisas, tende a provocar graves distúrbios políticos?
Questão subsequente: por que, em vez desses insuportáveis programas de arrocho e de desestabilização, não aproveitar a velha e bem-sucedida recomendação do maior economista do século 20, John Maynard Keynes, e incentivar despesas públicas que criem renda e impulsionem o consumo, a produção e o emprego?
Essa última foi uma política anticíclica vitoriosa no New Deal acionado pelo então presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, que, a rigor, tirou a economia americana da Grande Depressão. E foi vitoriosa depois na Europa destruída pela 2.ª Guerra, quando os Estados Unidos providenciaram o Plano Marshall, que financiou a reconstrução e a retomada da atividade econômica no continente.
Ao contrário do que diz muita gente que assimilou mal os ensinamentos de Keynes, esses programas não consistiam em expandir permanentemente despesas correntes dos governos, mas, sim, em estimular grandes investimentos, geralmente em obras de infraestrutura, que se encarregassem de gerar encomendas e de mobilizar capacidades ociosas, ou seja, de empregar mão de obra parada para criar renda e ajudar a colocar em marcha uma economia estagnada pela crise. Quando terminavam, esses projetos não eram retomados. Eram investimentos tipo once for all, como dizem os ingleses.
O grande obstáculo para aplicar essa fórmula nos dias de hoje é que não há de onde tirar esses enormes volumes de recursos. Os países ricos – tanto os Estados Unidos como as principais potenciais da Europa – estão quebrados. Já detêm dívidas insuportáveis. Não poderiam nem financiar sistemas assim nem se endividar ainda mais se encontrassem financiadores.
Esse foi o principal motivo pelo qual os sócios do bloco do euro, de olho nas reservas trilionárias da China, tentaram passar o chapéu entre os países emergentes. Mas não levaram em conta que reservas externas são recursos dos bancos centrais. Se eles próprios não querem que o Banco Central Europeu (BCE) seja responsável por monetizar um pedaço de suas dívidas, por que, então, bancos centrais de economias emergentes teriam de despejar as quantias necessárias?
A conclusão é de que não há como aproveitar a proposta keynesiana tal como foi concebida no passado. As condições são outras. Como disseram os economistas Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, também nesse ponto, "desta vez é diferente". E diferente tem de ser também a política anticíclica que se incumbirá, em primeiro lugar, de desarmar corações e mentes. E, em seguida, de reconstruir a economia dos países avançados. Tudo indica que as coisas têm mesmo de começar com emissões de moeda pelo BCE para recomprar títulos públicos hoje rejeitados.

CONFIRA
A aprovação do plano de austeridade da Itália no Senado, somada à indicação do economista Mario Monti para ocupar o cargo de primeiro-ministro interino após a renúncia de Silvio Berlusconi, melhorou o astral dos mercados na sexta-feira. Sugeriu que a Itália começa a caminhar na direção correta. É o que mostra a queda do rendimento (yield) cobrado pelos detentores de títulos da dívida italiana.
Ainda tem muito chão. Mas ainda é cedo para identificar mudanças expressivas no quadro geral de crise no bloco do euro.

NOURIEL ROUBINI - Abaixo a zona do euro


 Abaixo a zona do euro
NOURIEL ROUBINI 
FOLHA DE SP - 13/11/11

A dissolução desordenada da eurozona representaria um choque talvez até maior do que o colapso de 2008

A crise na zona do euro parece estar atingindo seu clímax, com a Grécia à beira de um calote e de uma saída inglória da união monetária e a Itália a ponto de perder seu acesso aos mercados. Mas os problemas na zona do euro são ainda mais profundos. Trata-se de problemas estruturais, que afetam severamente pelo menos outras quatro economias: Irlanda, Portugal, Chipre e Espanha.

Ao longo dos últimos dez anos, os países do grupo Piigs (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) foram os consumidores dominantes da zona do euro, gastando mais do que sua população ganhava e acumulando deficit em conta-corrente cada vez maior.

Enquanto isso, o núcleo da zona do euro (Alemanha, Holanda, Áustria e França) formava a ponta produtora desse eixo, gastando abaixo dos ganhos e registrando superavit permanente.

Esses desequilíbrios externos também foram propelidos pela força demonstrada pelo euro de 2002 em diante, e pela divergência de taxas reais de juros e de competitividade entre os diferentes países da zona do euro.

O custo da mão de obra caiu na Alemanha e em outros países do núcleo (porque os salários cresceram menos que a produtividade), resultando em depreciação real e em alta nos superavit em conta-corrente, enquanto o inverso ocorria nos países Piigs e em Chipre, gerando valorização real e deficit em conta-corrente cada vez maior.

Na Irlanda e na Espanha houve um colapso na poupança privada e bolhas imobiliárias alimentaram o consumo excessivo, enquanto na Grécia, em Portugal, em Chipre e na Itália foram os deficit fiscais excessivos que alimentaram os desequilíbrios externos.

O acúmulo de dívidas públicas e privadas resultante nos países perdulários se tornou impossível de administrar quando as bolhas da habitação explodiram (Espanha e Irlanda) e deficit em conta-corrente, lacunas tributárias ou ambos se tornaram insustentáveis na periferia da zona do euro.

Além disso, os grandes deficit em conta-corrente dos países periféricos, alimentados pelo alto consumo, vieram acompanhados por estagnação econômica e por perda de competitividade.

E agora, o que acontece?

Uma reflação simétrica é a melhor resposta para restaurar o crescimento e a competitividade na periferia, enquanto as medidas de austeridade e reformas estruturais necessárias são empreendidas.

Isso implica relaxamento significativo da política monetária do Banco Central Europeu; em apoio institucional a economias que enfrentem falta de liquidez, embora ainda estejam solventes; em uma considerável desvalorização do euro, para transformar em superavit os deficit em conta-corrente; e em medidas de estímulo fiscal nos países centrais caso a periferia seja forçada a adotar austeridade.

O remédio amargo que a Alemanha e o BCE desejam impor à periferia -a segunda opção- é uma deflação recessiva: austeridade fiscal; reformas estruturais para estimular o crescimento da produtividade e reduzir o custo da mão de obra; e depreciação real via ajuste de preços, em oposição a um ajuste na taxa nominal de câmbio.

Para prevenir uma espiral de recessão, a periferia precisa de uma desvalorização real a fim de melhorar seu deficit externo. Mas mesmo que os preços e os salários caíssem 30% nos próximos anos (o que seria provavelmente insustentável em termos políticos e sociais), o valor real da dívida se elevaria muito, agravando a insolvência dos governos e dos devedores privados.

Se os periféricos continuarem aprisionados em uma armadilha deflacionária de dívida elevada, produção em queda, competitividade baixa e deficit externos estruturais, se deixarão tentar por uma terceira opção: uma moratória e saída da zona do euro.

Isso permitiria que reanimassem o crescimento econômico e a competitividade pela depreciação em suas novas moedas nacionais.

É claro que uma dissolução desordenada da zona do euro, o que aconteceria nesse caso, representaria um choque tão grande, se não maior, que o colapso do banco Lehman Brothers em 2008. Evitar esse choque forçaria as economias centrais da zona do euro a ficar com a quarta e última opção: subornar a periferia para que ela siga com baixo crescimento e competitividade.

Isso requereria aceitar imensos prejuízos em empréstimos privados e públicos e imensas transferências que manteriam a renda da periferia mesmo com produção estagnada.

O caos recente na Grécia e na Itália pode ser o primeiro passo nesse processo. A abordagem de persistir nas meias-medidas adotadas pela zona do euro claramente já não funciona. A menos que seus integrantes avancem para uma maior integração econômica, fiscal e política (e em percurso consistente com a restauração do crescimento, da competitividade e da sustentabilidade de dívidas em curto prazo, o que é necessário para resolver os problemas de dívidas insustentáveis e reduzir os deficit fiscais e externos crônicos), a deflação recessiva certamente conduzirá a uma dissolução desordenada.

Já que a Itália é grande demais para quebrar e também para ser salva, e que agora chegou a uma situação da qual não há volta, o jogo entrou em seu período final para a zona do euro. Primeiro, virão reestruturações de dívidas sequenciais e coercivas. Depois, saídas da união monetária, que terminarão na desintegração da união monetária.



NOURIEL ROUBINI é presidente da Roubini Global Economics, professor da Escola Stern de Administração de Empresas (Universidade de Nova York) e coautor do livro "Crisis Economics".

ELIO GASPARI - Os amigos do mico do PanAmericano


Os amigos do mico do PanAmericano
ELIO GASPARI
FOLHA DE SP - 13/11/11

O banco de Silvio Santos foi saqueado e agora se começa a saber como a CEF comprou metade de um rombo
Todos os malfeitos dos seis ministros varridos na faxina da doutora Dilma não somam os R$ 4,3 bilhões do buraco do Banco PanAmericano. Em dezembro de 2009 o comissariado da Caixa Econômica comprou por R$ 739 milhões metade desse negócio, então pertencente ao empresário Silvio Santos. À época, tudo parecia nos conformes. O Banco Central autorizou a operação, e as contas haviam sido auditadas pela KPMG e pela Deloitte.
Em agosto de 2010 o BC sentiu cheiro de queimado e, dois meses depois, chamou a Polícia Federal. Desde 2007 os diretores do PanAmericano simplesmente vendiam carteiras de crédito sem retirar esses valores de seus balanços. Para começar, um rombo de R$ 2,5 bilhões. A Caixa comprara metade de um mico.
Havia de tudo, dezenas de milhões em bônus dissimulados, casas em Miami e até caixas de dinheiro em porta-malas de carro. Graças à PF sabe-se que há mais. Em 2009, o ex-comissário Luiz Gushiken tinha tratativas com a casa. Nesse ano, o braço direito de Silvio Santos dizia que "ficou de boca aberta" ao saber quem eram os "amigos" que ajudariam a enfiar a Caixa no buraco. Amigos, o banco tinha. Em dezembro de 2006, com Lula já reeleito, seus diretores, valendo-se de empresas próprias, doaram legalmente R$ 500 mil à sua campanha.
Em janeiro de 2010, semanas depois da entrada da Caixa no banco, os diretores recebiam pedidos para nomear amigos do governo. Num e-mail, o presidente Rafael Palladino narrou sugestões para que se aninhasse no PanAmericano o companheiro Demian Fiocca, ex-presidente do BNDES. A essa altura, a explosão do banco era iminente, mas doaram, "na moita", por meio de outra empresa, R$ 300 mil para o Diretório Nacional do PT. Na mesma época, o PanAmericano passou ao tucanato R$ 954 mil. Numa operação escrachada, pagou contas de campanha do governador Teotônio Vilela.
Em agosto de 2010 o Banco Central achou o rombo, no dia 22 de setembro Silvio Santos esteve com Lula e em outubro chamou-se a polícia.
O PanAmericano mudou de dono, Silvio Santos saiu do negócio, os ex-diretores estão indiciados em inquérito, o contador está colaborando com as investigações e os computadores apreendidos pela PF têm mais a contar.

MICROONDAS
Criou-se o Padrão Rousseff de Fritura de Ministros. A doutora Dilma finge que não tira, e o ministro finge que não sai.

REALEZA
O tucanato organizou um seminário intitulado "A nova agenda". No seu primeiro painel, dedicado a temas econômicos, juntou três presidentes do Banco Central durante o governo de FHC -Armínio Fraga, Persio Arida e Gustavo Franco- mais Armando Castelar, ex-diretor do BNDES.
O único nome novo era o da coordenadora da mesa, a economista Monica Baumgarten de Bolle, que em 2001 concluía seu doutorado na London School of Economics.
Os tucanos procuram uma nova agenda só pelo retrovisor. A reunião permite imaginar dois paralelos improváveis:
1) Para evitar a reeleição do companheiro Obama, o Partido Republicano faz um seminário abrilhantado por George Bush, com palestras de Alan Greenspan (ex-presidente do banco central), Henry Paulson (ex-secretário do Tesouro) e a ilustre presença de John McCain, o candidato derrotado em 2008.
2) O governo de FHC terminou há nove anos. Em 1898, d. Pedro 2º já se fora, Campos Salles assumira o Palácio do Catete e já teriam passado pela Presidência Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto e Prudente de Moraes. Numa outra reunião de notáveis, organizada no castelo da princesa Isabel, falariam três ex-ministros da Fazenda de seu pai: o Visconde de Ouro Preto, Gaspar da Silveira Martins e o marquês de Paranaguá.

RECORDAR É VIVER
Na próxima semana realiza-se a eleição do Diretório Central dos Estudantes da USP. Três chapas disputam a entidade. Uma, da situação, é associada ao PSOL. Outra, à esquerda, junta movimentos como o da Liga da Quarta Internacional e o Partido da Causa Operária. Uma terceira, a "Reação," quer a PM na USP. Em 1963, a aliança dos universitários da esquerda católica com os comunistas garantia a vitória da situação na eleição da União Metropolitana dos Estudantes. A disputa parecia estar entre a chapa que simpatizava com a União Soviética, e a dos admiradores das linhas chinesa e cubana. Primeira surpresa: as duas perderam, e ganhou aquilo que se supunha ser a direita. Segunda surpresa: o presidente eleito era simplesmente um homem de bem e manteve a UME longe da ditadura. Chamava-se Osiris Lopes Filho, veio a ser secretário da Receita Federal e exemplo de honradez no serviço público.

EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo é um idiota e pretende lançar um derivativo capaz de recuperar as economias europeias, salvando as finanças do mundo. É o Título do Trem-Bala, ou TTB. Ele acompanha a valorização da obra planejada pelos sábios do Planalto e pela Agência Nacional de Transportes Terrestres. Em abril de 2008, segundo Lula, o trem iria até Campinas e custaria US$ 9 bilhões.
A ANTT acaba de informar que o trem deverá custar pelo menos US$ 21 bilhões. Em menos de quatro anos, o TTB valorizou-se 133%. O idiota não sabe quem resgatará seus títulos, mas conversará com o doutor Bernardo Figueiredo, diretor-geral da ANTT. Pedirá que ele leve o caso à Viúva.

LULA E A COMPANHEIRA CONDOLEEZZA RICE
Nosso Guia ficou bem na foto do segundo volume da memórias de Condoleezza Rice, a secretária de Estado de George Bush. Ela conta que Nosso Guia conseguiu estabelecer uma "relação próxima" com seu chefe, quando os dois se encontraram, em dezembro de 2002. A "química" veio do jeitão do brasileiro e de "um brilho cativante" que a professora viu nos seus olhos. Rice lembra que Lula era um "esquerdista", visto com desconfiança no mundo dos negócios "e na Casa Branca". A única coisa com que Bush encrencou foi o pequeno broche com a estrela do PT na lapela de Nosso Guia: "Ele devia usar a bandeira brasileira". Empossado, Lula dispensou o enfeite.
As memórias de Rice na Casa Branca mostram o que é uma assessora fiel e, talvez por isso, sejam pedestres. Ela contou suas impressões da viagem que fez a Pindorama em 2005, quando encantou-se pela Bahia. Vale ouvi-la:
"Durante a visita eu me surpreendi com a divisão racial no Brasil. Os brasileiros sempre sustentaram que não têm problema racial. Pareceu-me que nos serviços braçais ficam os africanos (com a pele escura); nos serviços, os mulatos (birraciais); e os funcionários do governo têm ascendência europeia/portuguesa. O Brasil foi o país mais parecido com os Estados Unidos na sua composição étnica, mas parece ter tirado pouco proveito da revolução pelos direitos civis que mudou a face da política e da sociedade americanas."

LUIS FERNANDO VERISSIMO - HERÓIS RETROATIVOS


HERÓIS RETROATIVOS
LUIS FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 13/11/11

Glass e Steagall não eram uma dupla de cantores folclóricos como Simon e Garfunkel ou o nome de uma empresa famosa como Black & Decker. Mas, embora ninguém saiba muito a respeito deles, foram nomes importantes na recente vida econômica dos Estados Unidos e, por consequência, do mundo. Os dois eram congressistas e autores de uma lei que proibia os bancos comerciais de também serem bancos de investimento e limitava a sua ação no mercado financeiro às tarefas bancárias tradicionais. Foi a revogação da Lei Glass e Steagall que permitiu aos bancos inventarem mil e uma maneiras de lucrar com o jogo sem controle do capital, uma farra que deu no estouro do Lehman Brothers e foi o começo da crise que nos abala até hoje. Glass e Steagall deram sua breve contribuição à história das boas intenções frustradas e desapareceram, vencidos pelo lóbi da ganância. Não sei se ainda vivem ou ainda são congressistas. Talvez tenham formado uma dupla folclórica.

O caso deles é o da inconformidade de uma minoria, a dos banqueiros, mal explicada e transformada numa reivindicação geral . Coisa parecida aconteceu no Brasil com a CPMF. A boa ideia do então ministro, Dr. Jatene, de taxar transações financeiras para financiar a saúde pública, falhou porque o dinheiro arrecadado na sua curta vigência estava sendo usado pelo governo para tudo menos a saúde pública, mas principalmente porque os mais incomodados com a contribuição forçada, a minoria que movimentava grandes quantias, conseguiu demonizá-la a tal ponto que até quem não tinha movimentação bancária alguma a esconjurava. A maioria aderiu sem pensar ao lóbi do dinheiro inconformado contra a CPMF, que se bem administrada continua sendo uma boa e justa ideia.

Nos Estados Unidos parte da revolta dos manifestantes contra Wall Street e tudo que ela representa se deve à falta de decisão do Barack Obama em enfrentar as financeiras. A desregulação continua. Ainda não se viu nas manifestações nenhuma faixa dizendo “Onde estão Glass e Steagall agora que precisamos deles?” mas os dois têm tudo para se transformar em heróis retroativos. Se a lei deles tivesse vingado nada disto teria acontecido.

CLAUDIO HUMBERTO

“Eu só não diria ‘eu te amo’ para não causar ciúme”

Ministro Aldo Rebelo (Esporte), sobre a “declaração” risível do colega Carlos Lupi

GOVERNO ‘ESQUECE’ DECRETO CONTRA FARRA DE ONGS

Parece “embromation” a promessa do secretário-geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho, de criar um novo “marco regulatório” para discutir nova lei contra a sangria desatada das ONGs e Oscips de araque com dinheiro público. Está na gaveta o decreto 2.271, de 1997, sobre contratação de serviços indiretos em áreas de competência legal da administração federal direta, fundações e autarquias. 

BOCA TORTA

O decreto também inibe terceirizações e exige prova da necessidade contratual e outros requisitos que os maus costumes aboliram. 

VOZ SOLITÁRIA

A “guerra” contra ONGs foi aberta pelo ministro Aldo Rebelo (Esporte), que as conhece bem e sabe que são raras aquelas “do bem”.

PT E ONGS, TUDO A VER

O ministro Gilberto Carvalho integra a área “orgânica” do PT, que sempre se serviu de ONGs nas atividades político-partidárias.

POR INANIÇÃO

O crescimento exponencial das ONGs coincide com a chegada do PT ao poder. Os petistas liquidaram uma CPI das ONGs no Senado.

O ARRISCADO DIA D DO ‘DESEMBARQUE’ NA ROCINHA

Não será o desembarque na Normandia, que exigiu até código poético na Segunda Guerra, mas a ocupação com dia anunciado da gigantesca “comunidade” da Rocinha, neste domingo (13), por policiais e fuzileiros navais, não avaliou o risco do “feriadão” de 15 de novembro, quando se intensificará o movimento de quase 400 mil moradores nas 34 entradas da favela, facilitando a fuga de traficantes com possíveis tiroteios na região chique da Zona Sul. Quem pôde, deixou a Rocinha. 

UM PROFISSIONAL

Rafael Alves, o líder dos maconheiros, está na universidade há sete anos, sem concluir o curso de Letras, e mora de graça no campus. 

SUB-BERLUSCONI

Ao “eu te amo” do ministro Lupi, Dilma deveria ter evitado o “passado, passou”. O Berlusconi do PDT deve imaginar que é correspondido. 

A VIDA SEGUE

Réu no processo do Mensalão, o delator, Roberto Jefferson, dono do PTB, recebeu medalha do mérito da Assembleia Legislativa de Minas.

ZONA DE RISCO

Imposta fora do prazo regimental, à candidatura “oficial” de Fernando Haddad à prefeitura de SP pelo PT impõem-se agora boas regras da lei eleitoral: o ministro da Educação deveria se licenciar do cargo.

PSDB COM DILMA

O PSDB vai votar a favor da prorrogação da DRU no Senado, como pediu o governo. “Temos o dever de aprovar a DRU pela coerência, já que foi criada pelo FHC”, diz à coluna o senador Cássio Cunha (PB).

QUEM QUER SER ÍNDIO?

Sob as barbas da Funai, a tribo Funiô de Águas Belas (PE) arregimenta brancos para se passarem por índios em manifestações. Em 2003, um leitor da coluna foi convidado. O que explica o “índio” de relógio de grife e dois celulares num “protesto” em Brasília, semana passada. 

LOGO ALI

O Uruguai é o melhor lugar para se viver na América Latina, aponta o índice de prosperidade do Legatum Institute, de Londres. Em 29º lugar, passou Chile e Argentina. O Brasil ficou em 52º, em 110 países.

ABALADO

Repercute na Bulgária, terra do pai de Dilma, a denúncia do campeão olímpico Galabin Boevski, preso em outubro por tráfico de drogas: teria sofrido “abuso” dos presos na cadeia em São Paulo, e tem depressão.

VALENTÃO

O deputado estadual Alencar da Silveira Jr. (PDT-MG), que não dá “chilique” e sim “esporro”, faz questão de dizer, mandou para fora do plenário da Assembleia de Minas duas cadeiras quebradas, aos berros. Determinou que todas fossem consertadas, para conforto dos pares. 

GIBI DO ANO

A comunicação da Infraero distribui as 400 mil revistinhas que há um ano servem de comida para traças. Feitos sem autorização da Secom, os gibis culpam Estados e municípios pelos transtornos nos aeroportos.

DESCONVIDADO

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, poderá estar fora da “cúpula dos líderes que venceram o câncer”, que propôs a Lula e Dilma. O ex-embaixador dos EUA na OEA Roger Noriega disse ao jornal The Miami Herald que os médicos deram seis meses de vida ao fanfarrão.

PENSANDO BEM...

Para Dilma é fácil. Duro é dizer “eu te amo” para a ministra Iriny Lopes, aquela que se sente ofendida pela beleza de Gisele Bündchen. 



PODER SEM PUDOR

BATE-BOCA

Durante a primeira campanha do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), neto do velho amigo Miguel Arraes, o escritor Ariano Suassuna, 78, tropeçou e quase caiu quando, à sua passagem, uma mulher colocou a perna de propósito. Ariano voltou, olhou-a fixamente e disparou: “Feia!”

Ela rebateu, desafiadora: “Bêbado!”. Ele reagiu em cima da bucha:

– É, mas amanhã eu estarei bom...

VINICIUS TORRES FREIRE - Feijão com arroz e inflação


Feijão com arroz e inflação
VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 13/11/11

BC deu relaxada no crédito, na sexta; governo avisa que deve mover juros e fundos para reacelerar economia

O GOVERNO DILMA vai entrar em seu segundo ano com um problema para o qual as soluções são esdrúxulas ou incompatíveis entre si. Dilma e seus economistas pretendem:

1) Acelerar o ritmo de crescimento dos 3% e pouco deste 2011 para pelo menos 4% em 2012;

2) Acelerar num ano em que o crescimento da economia mundial tende a ser menor que o de 2011.

Os instrumentos de que dispõem (Banco Central inclusive) são:

1) Baixar a taxa de juros. Provavelmente teriam de fazê-lo a velocidade maior que a atual. Ou pelo menos o BC na sexta-feira deu um indício de que parece necessário relaxar mais o crédito. Tomou medidas para aumentar a quantidade de dinheiro disponível para empréstimos dirigidos a pessoas físicas, além de não reduzir o prazo de rolagem de dívida de cartão de crédito;

2) Retomar o investimento (em "obras"), o grande item do Orçamento que mais sofreu com a contenção do gasto público este ano.

Não há empecilho para tomar tais medidas desde que:

1) O governo encare com paz de espírito, digamos, a possibilidade de que a inflação (IPCA) ainda esteja lá pela casa de 5,5% em meados do ano. Mesmo no presente ritmo da economia, essas são as projeções mais razoáveis para alta de preços em 12 meses. Projeção é apenas isso, um chute informado. Mas é o que temos. De resto, se a economia voltar a acelerar, como quer o governo, não realimenta a inflação?;

2) O governo tenha cartas na manga que tornem compatível tal expansão do gasto com um superavit fiscal adequado tanto para reduzir a dívida como para não esquentar ainda mais a inflação.

Ou seja, o governo depende de mágicas e milagres e "sortes" tais como uma queda de preços pelo mundo. Mas preços em baixa seriam, em tese, resultado de um desaquecimento mais forte da economia mundial, com o que voltamos ao primeiro parágrafo desta enumeração: como crescer num mundo em baixa forte?

Recorde-se: o governo pretende retomar investimentos, vai conceder isenções de impostos, vai gastar mais com Previdência (dado o aumento do salário mínimo), deve encarar uma redução do superavit de Estados e municípios (ano eleitoral) e talvez não tenha uma arrecadação de impostos tão boa etc.

Em suma, à base de uma política econômica "feijão com arroz" (juro menor, gasto maior) em tese é possível aumentar o ritmo da atividade econômica, excetuada a hipótese de explosão de uma bomba nuclear financeira na Europa. Mas o feijão vai estar aguado de inflação.

Convém lembrar também que a economia brasileira ainda é favorecida pelas boas condições de financiamento externo e pela relativa calmaria cambial, apesar do susto recente. O investimento estrangeiro direto é enorme, o superavit comercial é excelente para um mundo em crise e a bagunça europeia não redundou em seca de crédito internacional. Até agora.

Enfim, o governo vai estar por mais um ano envolvido com a administração quase cotidiana do tumulto econômico. Não está à vista medida maior e de longo prazo, "reformas" (nem precisam ser as "liberais"), que abra a perspectiva de um crescimento estável, o que também acaba tendo efeito positivo no presente: é só arroz com feijão.

RENATA LO PRETE - PAINEL


Vizinho incômodo
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 13/11/11

Ao mapear os conflitos com aliados na formação dos palanques de 2012, o PT concluiu que, hoje, sua maior dor de cabeça é o PSB. Em praças importantes, como Recife e Belo Horizonte, o entendimento com a sigla de Eduardo Campos parece cada dia mais distante.

Na capital pernambucana, onde o governador ameaça lançar o ministro Fernando Bezerra (Integração), o PT sustenta ser quase impossível não ter candidato a uma prefeitura que o partido ocupa há três mandatos. Em BH, o vice petista Roberto Carvalho está em rota de colisão com Márcio Lacerda (PSB). A direção nacional recomendou um "mergulho" às lideranças mineiras.

Aqui entre nós Durante recente conversa palaciana na qual os temas administrativos deram lugar à discussão política, alguém mencionou o nome de Eduardo Campos e Dilma disse não saber "qual é a ambição dele, o que ele vai querer em 2014".

Espelho meu Desde que voltou da reunião do G20, Dilma Rousseff tem disparado críticas pontuais na direção de Angela Merkel. Segundo a presidente, a chanceler alemã "não ouve ninguém".

Plantão A equipe de nove médicos a serviço da Presidência da República ganhou o reforço da geriatra Virgínia Satuf. Pesou na escolha da especialidade da nova integrante do time a presença, no Palácio da Alvorada, da mãe e da tia de Dilma. Recentemente, dona Dilma Jane, 88, foi hospitalizada com uma leve embolia pulmonar.

Em progresso Limado do último balanço do PAC em razão do escândalo que derrubou Alfredo Nascimento, o Ministério dos Transportes promete apresentar dados favoráveis no próximo balanço do programa, a ser divulgado no dia 18 de novembro.

Fica... Em virtude do tratamento quimioterápico a que Lula se submete, a Executiva Nacional do PT achou por bem não pedir ao ex-presidente que grave participação no programa de TV do partido, com exibição marcada para o dia 8 de dezembro.

...para a próxima A peça, a cargo do marqueteiro João Santana, usará uma série de imagens de Lula, mas não deverá contar com um depoimento inédito, como inicialmente planejado.

Morde e assopra Enquanto Lula se mantém empenhado em atrair o PMDB para a chapa de Fernando Haddad, o PT cuidará de elogiar publicamente Gabriel Chalita. No melhor cenário, pavimenta-se a aliança no primeiro turno. Se ela não acontecer, o pacto de não-agressão facilitará o alinhamento na etapa final.

Lá adiante O QG peemedebista manterá o discurso da "irreversibilidade" da candidatura própria, vocalizado pelo vice Michel Temer. Uma eventual janela para novas tratativas será aberta somente depois do Carnaval.

Sala de visitas A campanha de Chalita quer repaginar os palanques em 2012. O pré-candidato a prefeito prefere o formato de talk-show, usado em seu programa na TV Canção Nova. O primeiro teste ocorreu na sexta, quando o deputado recebeu a direção do PMDB em hotel do centro paulistano.

Por que não? Além dos quatro pré-candidatos inscritos nas prévias, o PSDB voltará a testar o desempenho de José Serra nas pesquisas de intenção de voto que pretende contratar até dezembro.

Vem comigo Gilberto Kassab tenta atrair o PR para seu bloco em 2012 oferecendo vaga à sigla no Tribunal de Contas do Município.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio
"Eu avisei aos líderes governistas: vocês podem adotar o caminho do Código Florestal ou o da Comissão da Verdade. Ele optaram pelo primeiro. Agora, o estrago está feito."

DO LÍDER DA BANCADA DO DEM, ACM NETO (BA), acusando o Planalto e expoentes da base aliada de repetir, na votação da DRU na Câmara, os mesmos erros cometidos, poucos meses atrás, na apreciação do novo Código Florestal.

contraponto
Nunca antes
Especialista em Previdência, o economista Marcelo Caetano criticava, em seminário promovido pelo PSDB, a disparidade entre o teto das aposentadorias do INSS, de R$ 3,7 mil, e a falta de limite para os servidores públicos.

-Não se deveria usar dinheiro do Orçamento para custear a aposentadoria de alguém- afirmou, arrancando entusiasmados aplausos da plateia tucana.

Espantado, ele fez uma pausa e comentou:

-Estou sendo aplaudido aqui, mas normalmente levo tomate quando falo isso. É a primeira vez!

JOSUÉ GOMES DA SILVA - Em time que está ganhando...


Em time que está ganhando...
JOSUÉ GOMES DA SILVA
FOLHA DE SP - 13/11/11

Volta e meia, ressurge o velho debate acerca do funcionamento do BNDES. Alguns defendem o remanejo radical dos juros que o banco cobra, tomando a Selic como parâmetro. O objetivo seria fazer com que a política monetária atuasse sobre a totalidade do crédito no país, o que permitiria alcançar a meta da inflação praticando menor taxa de juros. As mesmas teses de mudança atingem o crédito rural.

Tal polêmica atropela importantes fatores, a começar pelo fato de o BNDES ser uma instituição de inegável êxito, que teve participação destacada no financiamento de infraestrutura, indústria pesada e bens de capital, modernização do campo e exportação de manufaturados e serviços.

Mais recentemente, o banco empenha-se em outras vertentes fundamentais, como o financiamento de micro, pequenas e médias empresas, que já representam 40% de

suas operações, e apoio à inovação e à internacionalização. Sem o BNDES não teria havido o grande processo de privatizações e os investimentos do pré-sal atrasariam.

Também é importante enfatizar que o banco só financia investimento. Ademais, ele atua em segmentos nos quais há carência de fontes alternativas, sem abdicar da devida análise de crédito, o que lhe garante o título de campeão da adimplência.

Cabe ainda observar que não procede a afirmação de que é crescente o seu gigantismo. A participação do BNDES no total da oferta de crédito no Brasil tem sido uma constante ao longo dos anos, elevando-se em momentos de retração, quando exerce relevante papel anticíclico, como na recente crise de 2008/2009.

O risco de mudanças profundas nesse modelo de financiamento, no qual o banco tem expressivo papel, é o de que isso deteriore ainda mais o investimento de qualidade, como na infraestrutura e na produção, reduzindo a competitividade e aprofundando a restrição da oferta de bens e serviços. Tal quadro pode agravar a inflação, com aumento dos juros. Ou seja, o remédio prescrito teria efeito contrário, piorando a doença.

Fica evidente que a relevância do BNDES é consequência, e não causa, de nossa elevada taxa de juros, cuja longevidade tem desestimulado o crédito voluntário de longo prazo, tornando imprescindível uma agência de envergadura e excelência para suprir tal lacuna. Neste caso, cabe a velha máxima de sucesso no futebol: em time que está ganhando não se mexe.

Para remover as reais causas do juro alto, é preciso elevar os índices da poupança pública e privada, aumentar os investimentos governamentais, promover as reformas -em especial a tributária- e buscar a desindexação financeira de contratos, preços e tarifas. Portanto, mãos à obra!

DOMINGO NOS JORNAIS


Globo: Polícia ocupa Rocinha hoje sob risco de armadilhas do tráfico

Folha: 58% dos alunos da USP apoiam a PM no campus

Estadão: Economia esfria e empresas ‘liquidam’ de carros a imóveis

Correio: Sequestros impõem rotina de medo no DF

Jornal do Commercio: A hora do emprego técnico

Zero Hora: O país do remédio caro