segunda-feira, outubro 24, 2011

PEDRO DE CAMARGO NETO - Andando para trás


Andando para trás
PEDRO DE CAMARGO NETO
O Estado de S. Paulo - 24/10/2011

Claramente, o Brasil anda para trás na política de comércio exterior. Não se trata de criticar a preocupação com defesa comercial, inibindo a concorrência desleal de produtos importados. Eventuais distorções provocadas por práticas comprovadas de dumping ou apoio a subsídios ilegais precisam realmente ser combatidas.

Nem mesmo o atabalhoado aumento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para o setor automotivo seria motivo de grande preocupação, pois é de vida breve em razão de suas irregularidades. Exemplificou, porém, a mudança da política oficial. O Brasil deixou de ser o combativo país na busca por maiores mercados externos - inclusive com contenciosos importantes no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) - para ser neste mesmo fórum criticado por práticas protecionistas.

Com a paralisação da Rodada Doha de negociação multilateral no âmbito da OMC, o Brasil entrou num vazio na área ofensiva de comércio exterior. Tentativas de dar vida à velha e isolada negociação do acordo de livre comércio com a União Europeia somente chamam a atenção para a falta de estratégia na busca por maiores mercados externos.

Não se trata de somente criticar o governo da presidente Dilma Rousseff. Também a sociedade organizada - setores empresariais e de trabalhadores e a academia - parece ter desistido de ampliar mercados por meio de negociações comerciais. O debate pela ampliação da integração comercial da economia brasileira parece ter desaparecido.

Infelizmente, não se pode dizer que resolvemos dar uma parada aguardando dias melhores no campo internacional. A crise financeira global realmente é séria, e negociação comercial fica mesmo sempre em segundo plano. Ocorre que, em questões econômicas, quem pensa que para, na verdade, está andando para trás, pois ninguém fica esperando.

Inúmeros países continuam ativos, dando seguimento a negociações comerciais. Na semana retrasada, o Congresso norte-americano, no meio do intensíssimo debate sobre a crise orçamentária e financeira, encontrou tempo e prioridade para aprovar acordos de livre comércio com a Coreia, a Colômbia e o Panamá. Sabem eles que a saída da crise passará por maior atividade econômica, maior renda e emprego. Também a União Europeia negocia com a Coreia e com outros países acordos de livre comércio.

As negociações sobre um amplo acordo na região do Pacífico, conhecido como TPP (Trans Pacific Partnership), continuam, mesmo no atual ambiente de crise financeira. A região do globo de economia mais dinâmica é procurada por todos - ou melhor, por todos os países desenvolvidos.

A prioridade de política externa do Brasil persiste em ter principalmente cunho político. Não parecem querer ver que foram a força e o dinamismo da economia que garantiram o espaço político que hoje desfrutamos. Que a melhor maneira para conquistar a sempre sonhada, e de discutível valor, cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU é com o fortalecimento e a integração comercial da economia do Brasil.

Utilizo o pequeno setor que institucionalmente represento, o da produção e exportação de carne suína, para exemplificar o que perdemos na semana retrasada. A carne suína está atrasada em relação às carnes de aves e bovina, pois não ocupamos o primeiro ou o segundo lugar. A carne de aves praticamente domina o mercado internacional e a carne bovina tem também os países de religião muçulmana como importantes compradores. O Brasil é somente o quarto maior produtor e exportador de carne suína.

São os hábitos alimentares dos países asiáticos que os tornam os principais consumidores de carne suína. São países rigorosos em seus controles sanitários, pois continuam se assustando com o fantasma do vírus da febre aftosa, enfermidade com a qual aceitamos continuar a conviver. Embora tenha sua epidemiologia intrinsecamente relacionada ao rebanho bovino, a febre aftosa impede também a abertura de mercados para a carne suína.

Após longos anos e intensas negociações técnicas de cunho veterinário, o Brasil está prestes a conquistar a habilitação sanitária na Ásia para a carne suína. A China aprovou os primeiros frigoríficos durante a visita da presidente Dilma, em maio deste ano, e o Japão e a Coreia têm processos de habilitação bastante adiantados.

Infelizmente, após atravessarmos esta primeira barreira sanitária, enfrentaremos a seguinte barreira, a tarifária.

Com o acordo da semana retrasada, os produtores de carne suína dos Estados Unidos passaram a gozar de preferência tarifária, isto é, pagarão menos impostos para atingir o consumidor coreano. O produto do Brasil, hoje severamente penalizado pela questão cambial, terá de ser vendido mais barato para compensar o imposto de importação da Coreia, maior para o Brasil. Não está claro se teremos competitividade para tanto.

É preciso reagir. O Brasil precisa de uma estratégia de comércio exterior. As negociações são longas e precisam ser imediatamente iniciadas. Todos os países desenvolvidos desejam negociar com o Brasil. Negociações simultâneas fortalecem o poder negociador. A Rodada Doha pode ser substituída por diversas negociações de livre comércio simultâneas. Além da competência que já mostramos que temos, é preciso vontade política e liderança.

ALON FEURWERKER - Deu errado


Deu errado
ALON FEURWERKER
CORREIO BRAZILIENSE 24/10/11

A ideia de terceirizar serviços públicos para organizações não governamentais pode ter sido movida a boas intenções, mas deu errado. Transformou-se em ralo para drenar dinheiro público e reforçar maus hábitos na política

As ONGs (organizações não governamentais) estão em xeque. A cada novo episódio de rolo com dinheiro público revela-se a deformação de um mecanismo nascido benigno: transferir recursos oficiais para as ONGs executarem ações complementares às do Estado.

Os fatos reforçam a atualidade do velho ditado de que as boas intenções lotam o inferno. A intenção na origem era boa. Comparadas à máquina estatal, as ONGs ganham em agilidade e foco, permitem a mobilização rápida e flexível de conhecimentos específicos indispensáveis.

Essa é a teoria. Na prática, o universo das ONGs é fonte recorrente de notícias sobre irregularidades e desvios.

Pululam as maneiras espertas de contornar normas e regulamentos, os expedientes para prevalecer o interesse privado e espúrio sobre o público. É sempre complicado generalizar, mas o número de casos nebulosos e escândalos permite o diagnóstico de um problema sistêmico.

Pode-se argumentar que o modelo é bom, que os problemas devem ser tratados como tal, que generalizar é perigoso e injusto, que os erros não devem servir de pretexto para condenar o sistema como um todo.

É uma argumentação razoável, desde que venha acompanhada da proposta de solução. Qual é então o remédio para extirpar os focos de problema?

Uma estrutura de vigilância capaz de controlar a destinação do dinheiro público que vai para as ONGs? Aí seria o absurdo ao quadrado.

Pode-se imaginar qual deveria ser o tamanho dessa estrutura para funcionar a contento. Para monitorar milhares de ONGs sem deixar espaço ao malfeito. Ou pelo menos para minimizar o risco.

Provavelmente seria uma máquina gigantesca, uma megaburocracia para corrigir uma estrutura cujo objetivo inicial era fugir da burocracia. Aí não dá.

E por que não submeter então as ONGs às mesmas regras rígidas aplicáveis à despesa pública propriamente dita? Nas compras e contratações, para evitar que a maior flexibilidade abra portas e janelas ao erro.

Bem, nesse caso a pergunta é imediata. Para que então as ONGs? Por que não fazer a coisa por meio do Estado e ponto final?

É um beco sem saída. Na verdade, o impasse é produto de uma deformação estrutural. De um antagonismo conceitual.

As organizações não governamentais surgiram como novidade para dar expressão à sociedade civil, às novas formas de protagonismo, às correntes sociais à margem dos partidos políticos, do Estado e das instituições tradicionais.

Eram novos atores, organizados para inocular vida à fossilizada política institucional, um oxigênio muito bem vindo.

Finalmente, a política deixaria de ser monopólio dos profissionais e as demandas coletivas teriam novos canais de expressão.

Mas, para que fosse efetivamente assim, um detalhe seria imprescindível. As ONGs deveriam buscar os meios de sobrevivência na sociedade, e não no Estado. Mas simplesmente não aconteceu.

Na prática, os governos, partidos e políticos acabaram tecendo cada um sua rede-satélite de ONGs, financiada com os recursos da atividade político-estatal e orientada a facilitar a reprodução do poder de quem a sustenta.

Bem ao contrário do que deveria ser. E quando uma boa ideia resulta no contrário da intenção original, está na hora de avaliá-la com rigor e tomar providências.

Sem comércio

A eleição argentina de ontem teve um detalhe que merece ser olhado com carinho por aqui. O tempo igual de televisão para os candidatos.

Não se trata de simplesmente copiar, mas de pelo menos refletir sobre. O tempo de tevê nas eleições brasileiras acabou virando só um comércio.

Um foco de parasitismo, chantagem e rolos financeiros.

Soluções há. Uma é impedir que o partido transfira o tempo a outro. Não quis lançar candidato próprio? Seu tempo será repartido entre os demais.

O que não dá, assim como no caso das ONGs, é continuar como está.

PAULO GUEDES - Corrupção e conflitos no vácuo do Legislativo


Corrupção e conflitos no vácuo do Legislativo
PAULO GUEDES
O GLOBO - 24/10/11

A classe política brasileira está perdendo não apenas sua credibilidade, mas também uma oportunidade histórica. O mundo parou para conserto. Seríamos a nova fronteira de crescimento global com importantes reformas, mas quem devia estar pensando nisso parece ocupado com outras coisas.

"PC do Bolso: como operam os comunistas que se instalaram no centro do poder e se tornaram um foco de escândalos no governo Dilma", estampa a revista "Época" em sua matéria de capa desta semana. "Dez motivos para se indignar com a corrupção: alternativas possíveis para o uso de 85 bilhões de reais surrupiados pelos corruptos brasileiros apenas no último ano" e "gravações mostram assessores do ministro Orlando Silva ajudando a fraudar o ministério" são as manchetes anunciadas na capa da revista "Veja".

Para confirmar a tese de Marx de que "enormes somas passando pelas mãos do Estado davam oportunidade para fraudulentos contratos de fornecimento, corrupção, subornos, malversações e ladroeiras de todo gênero", a pirâmide da roubalheira ocorre 50% na base federal, 30% nos meios estaduais e 20% no topo municipal.

Os desafios da crise contemporânea são mais que disputas entre blocos econômicos; são também o confronto entre a qualidade das políticas públicas. Em meio à guerra mundial por empregos, faltam ao Brasil as reformas de modernização: a correção da hipertrofia da União (reforma do Estado), a descentralização de recursos e atribuições para Estados e municípios (reforma fiscal), a simplificação de impostos e redução de alíquotas (reforma tributária), a revisão de obsoleta legislação salarial (reforma trabalhista com eliminação de encargos sobre custo do trabalho) e a universalização da poupança (reforma previdenciária).

As novas prioridades de uma democracia emergente (saúde, educação, saneamento) exigem ação social descentralizada. Para tanto, a reforma fiscal deflagrada na Constituição de 1988 iniciava a transferência de recursos para Estados e municípios. Mas o poder central, reacionário e conservador, resiste à descentralização. Cria contribuições não compartilhadas para manter seu inchaço e financiar a cooptação de apoios políticos. A corrupção sistêmica é filha dessa escalada dos gastos públicos. E a guerra federativa deflagrada pelos royalties do petróleo é apenas outra face dessa omissão do Congresso: o vácuo legislativo quanto à reforma fiscal.

MÔNICA BERGAMO - TURISMO INDUSTRIAL


TURISMO INDUSTRIAL
MÔNICA BERGAMO 
FOLHA DE SP - 24/10/11

O Ministério do Turismo calculou o impacto indireto do setor na economia brasileira. Realizou pesquisa com a Fipe para apurar, por exemplo, o volume de compras de eletrodomésticos e itens de cama, mesa e banho por hotéis e pousadas. Descobriu que, a cada ano, 1,7 milhão de fronhas, 1,6 milhão de lençóis e 1,5 milhão de toalhas de banho devem ser repostos nesses estabelecimentos, ajudando a movimentar a indústria têxtil do país.

CARRO ALUGADO

Entre os itens elétricos e eletrônicos, são 116 mil telefones, 108 mil chuveiros e 100 mil televisores que precisam ser comprados por ano. O turismo também é responsável pela aquisição de 160 mil carros por locadoras de automóveis, cuja frota aumentou 14% em 2010.

TURISTA DE NEGÓCIOS

O ministro Gastão Vieira apresentará os dados amanhã, em reunião na França com seus colegas dos países do G20. O colegiado vai preparar um documento sobre a importância do turismo para a economia mundial.

DIÁRIO

O ex-governador José Serra consultou amigos sobre a ideia de publicar um livro com a história de sua vida.

Ainda não é certo que ele levará a obra adiante.

MEIO A MEIO

O prefeito Gilberto Kassab (PSD), de São Paulo, apoia a suspensão temporária da meia-entrada para estudantes na Copa de 2014. Ele acha que o evento é tão importante que justifica a medida. A exigência é da Fifa. O governo federal resiste à ideia.

NO VAREJO

O programa Via Rápida Emprego, de cursos de capacitação, vai ganhar uma versão específica para preencher vagas no setor varejista. "Depois do governo, quem mais emprega no Brasil é o varejo", afirma o secretário do Desenvolvimento, Paulo Alexandre Barbosa.

SOB ENCOMENDA

A secretaria já fechou parceria com o Pão de Açúcar e negocia com o IDV (Instituto para Desenvolvimento do Varejo), que reúne algumas das principais empresas do setor. As redes informarão em quais funções elas estão carentes de mão de obra, e o governo oferecerá cursos de estoquista, operador de caixa etc., de acordo com a demanda das lojas.

SOBRE RODAS

A Defensoria Pública de São Paulo começa hoje a exibir vídeos de orientação jurídica nos monitores de 440 ônibus paulistanos.

Os quatro primeiros são sobre cuidados ao comprar imóvel, direito a indenizações em casos de apagão, combate a violência doméstica e meios de se obter um divórcio amigável.

PARA OUVIR E DANÇAR

Artistas como Marina Lima, Otto e Seu Jorge foram à festa de entrega do Prêmio VMB (Video Music Brasil), que comemorou os 21 anos da MTV. As apresentadoras Caroline Ribeiro e Sarah Oliveira também circularam pelo evento, que aconteceu nos Estúdios Quanta, na Vila Leopoldina, em São Paulo.

Ó NÓS AQUI

Auditores da Receita e delegados e peritos da Polícia Federal marcaram para quarta-feira uma manifestação em frente ao Ministério do Planejamento. Querem que a ministra Miriam Belchior os receba para uma audiência sobre reestruturação de carreiras. Calculam que pelo menos 5.000 funcionários aderirão à passeata em Brasília.

QUANTO RISO

Os torcedores palmeirenses que levaram sorrisos amarelos de papelão para protestar contra os incentivos governamentais ao Itaquerão, há alguns dias, num jogo, planejam novas mobilizações. Agora, em frente à Prefeitura de SP e ao Palácio dos Bandeirantes. Antes disso, querem focar nas ações em jogos do Palmeiras -a próxima deve ser no clássico com o São Paulo.

FOREVER YOUNG

Neil Young, que será um dos palestrantes do festival SWU, chega ao Brasil em 10 de novembro. Participará da pré-estreia do documentário de Jonathan Demme sobre sua carreira, em Paulínia.

NO MEIO DO POVO

A banda Aerosmith, de Steven Tyler, pediu uma rampa de 20m para sair do palco e avançar no meio da plateia do show que fazem no domingo, 30, na Arena Anhembi, em SP. Os roqueiros querem no camarim vitamina B12, água vulcânica e iogurtes.

CÉREBROS

A Suzano Papel e Celulose recebe hoje, no interior de São Paulo, os cientistas que farão parte dos conselhos de sua nova subsidiária de biotecnologia, a Futuragene. Fazem parte do time o belga Marc Van Montagu e o americano Alan Gould, especialistas em genética, e o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, entre outros.

CURTO-CIRCUITO
Acontece hoje, às 21h30, a pré-estreia do documentário "Tancredo - A Travessia", de Silvio Tendler, no Espaço Unibanco Pompeia. Classificação etária não informada.

Alcione faz show na sexta, às 22h, no HSBC Brasil. Classificação: 16 anos.

Começa hoje a Semana Mesa SP, com almoço na Casa Electrolux.

O leilão beneficente Credipaz acontece hoje, às 20h, no Jardim Guedala.

A revista "Daslu" passa a ser editada pela Globo Condé Nast.

NÓS NAS FITAS
Henrique Miziara e Elisio Yamada abriram na semana passada a galeria Pilar, no bairro de Santa Cecília. A dupla pretende focar na produção de artistas brasileiros e latino-americanos. Até o dia 17 de dezembro, o espaço terá mostras de Célio Braga e Mauricio Adinolfi. O primeiro tem bulas de medicamentos e fitinhas do Senhor do Bonfim pintadas como matérias-primas de suas obras.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

DENIS LERRER ROSENFIELD - Economia e moral


Economia e moral
DENIS LERRER ROSENFIELD
O Estado de S.Paulo - 24/10/11

As manifestações contra Wall Street, como símbolo do capitalismo contemporâneo em seu aspecto financeiro, expõem ações que permitem lançar uma luz particular sobre a natureza, digamos, "moral" (ou imoral) de determinadas práticas capitalistas atuais. Práticas capitalistas que, convém ressaltar, se voltam contra o próprio espírito do capitalismo.

Na crise de 2008-2009, o que chamou moralmente a atenção foi o fato de os executivos das grandes corporações financeiras e bancárias usufruírem grandes dividendos sob a forma de salários, bônus e vantagens dos mais diferentes tipos. Note-se que não se trata de um argumento contra dividendos e bônus, sempre e quando estejam assentados na responsabilidade. Se um executivo tem mérito, tanto melhor para ele, pois está colhendo os frutos do seu trabalho. O lucro é a recompensa pelo trabalho, não cabendo nenhum argumento ressentido dos que simplesmente invejam os bem-sucedidos. O problema é de outra ordem. Os executivos que levaram seus bancos à falência por operações extremamente arriscadas, utilizando os modernos meios digitais, não têm mérito. Cobraram por aquilo que não entregaram. Ou melhor, entregaram a poucos que lhes pagaram os polpudos rendimentos graças a ações de caráter imediato, porém a longo prazo criando para suas empresas situações pré-falimentares.

A crise econômica atual, de perfil financeiro, tem um forte componente moral. O mecanismo financeiro que levou à insolvência dos créditos, particularmente na bolha imobiliária, estava baseado em concessões várias vezes repetidas de créditos, assentados em avaliações que se tornaram fictícias dos imóveis postos em hipoteca. Enquanto o mecanismo funcionava, empurrando o problema com a barriga, numa ciranda que mais se assemelhava a uma jogatina, certos analistas de mercado e economistas cantavam loas a esse novo mercado.

Acontece, contudo, que esse mercado estava alicerçado num pressuposto, o de que o pagamento dos créditos se faria por novos créditos, criando a ilusão de que os créditos não seriam, na verdade, pagos. Dívidas se pagariam com novas dívidas, num acordo, na verdade, fictício, entre financiadores e os que contraíram empréstimos, numa relação contratual aparentemente correta. O problema está na aparente correção desse tipo de contrato, porque o componente moral é dele evacuado, como se não existisse ou não contasse.

Vejamos. Se um empréstimo é contraído para não ser pago, é porque tanto o credor como o tomador assumem a irresponsabilidade de suas ações. O agente bancário torna-se irresponsável por seu crédito e o tomador, por seu empréstimo, embora o contrato seja perfeitamente legal. Empréstimos são ações que pressupõem, como qualquer forma de ação, responsabilidade. Mas esse tipo de operação financeira está baseado na irresponsabilidade, do credor e do tomador.

No momento, porém, em que sua falha moral irrompe, ambos os contratantes procuram transferir suas respectivas irresponsabilidades ao governo, como se este devesse ser o responsável pelas irresponsabilidades alheias. Do ponto de vista dos bancos, surgem os supostos argumentos de que estes não podem quebrar, ou seja, traduzindo essa formulação em termos morais, os bancos têm todo o direito de ser irresponsáveis. Segundo o princípio da irresponsabilidade, o conjunto dos contribuintes deve se responsabilizar pelos bancos cujos dirigentes e acionistas usufruem os maiores dividendos e bônus.

Os tomadores de empréstimos também pedem socorro ao governo, exigindo, em troca do seu voto, refinanciamento de suas dívidas, ajuda para situações de insolvência, seguro-desemprego, e assim por diante. Políticas sociais são demandadas. Politicamente, ameaçam por uma solução, culpando os bancos por seus infortúnios, enquanto estes culpam aqueles pelas dívidas não pagas. Temos, então, uma situação assaz estranha, pois a irresponsabilidade moral se traduz em exigências políticas dos desfavorecidos, devendo o governo atendê-las.

Ato contínuo, os governos salvam seus bancos e procuram atenuar os efeitos da insolvência, via estímulo da economia, para que o mecanismo financeiro volte a funcionar. O instrumento utilizado é o aumento da dívida pública. Ou seja, para assumir a irresponsabilidade alheia, os governos tornam-se ainda mais irresponsáveis, transferindo uma dívida impagável para as próximas gerações, como se estas, aliás inexistentes nesse momento, devessem ser responsáveis pelo que não fizeram. Nesse contexto, a máxima de Keynes de que "a longo prazo estaremos todos mortos" é um elogio à irresponsabilidade, uma ode à imoralidade. E essa ode à imoralidade é citada por vários economistas como uma forma de sapiência - a sapiência dos irresponsáveis que auferem lucros por sua própria irresponsabilidade.

Ressalte-se que banqueiros e altos executivos, após a crise, continuaram usufruindo os mesmos privilégios e apresentaram como argumento que se trata de uma prática privada de mercado. O argumento é hilário. Quando confrontados com uma situação de quebra virtual, o argumento de mercado, no caso, a falência por maus negócios, não valeu. É o Estado, isto é, os contribuintes, que deveria arcar com seus maus negócios. Impostos deveriam ser destinados a eles para se salvarem. O privado, aí, tornou-se público. Nem o que ganharam individualmente foi devolvido. Passada a tormenta, voltam aos mesmos supostos argumentos - surrados, aos olhos da opinião pública - de que o mercado estipula esses valores de bônus e dividendos. O argumento é especialmente vicioso, mostrando, na verdade, o "vício" dos que assim agem. Pervertem o espírito do capitalismo em proveito próprio. Não deveriam, pois, causar estranheza as manifestações contra Wall Street.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Europa e EUA consomem 3 vezes mais aço que Brasil
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 24/10/11

O consumo de aço no Brasil é um terço do registrado na Europa e nos Estados Unidos, de acordo com levantamento do ICZ (Instituto de Metais Não Ferrosos).

A média de utilização do metal no Brasil é de cem quilos por ano, por habitante. Entre os países desenvolvidos, por sua vez, esse índice chega a cerca de 300 quilos.

A diferença na quantidade de consumo do produto é uma questão cultural, segundo Gilberto Campos, do Crea-SP (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de São Paulo).

"A construção civil brasileira tem se baseado muito no concreto nas últimas décadas. Um dos maiores legados da Copa do Mundo e da Olimpíada deve ser o uso de novos equipamentos e materiais, como o aço", afirma Campos.

A estimativa de utilização do metal para as obras dos grandes eventos esportivos é de 5,8 milhões de toneladas, sendo 4,5 milhões apenas para os Jogos Olímpicos.

"A construção em aço permite uma velocidade maior, o que é fundamental neste momento", diz Eduardo Gomes, vice-presidente do ICZ.

Para a ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland), porém, a maior utilização de aço não deve prejudicar as vendas de cimento nos próximos anos.

"A produção do metal ainda não é realizada em escala tão grande no Brasil. A construção civil competiria com a indústria automobilística e os custos ficariam mais elevados", afirma Mario Esper, gerente da entidade.

PRODUÇÃO EM CONDOMÍNIO
Com investimento de R$ 250 milhões, a Retha Imóveis, especializada em administração, locação e venda de galpões, desenvolverá o projeto de quatro condomínios industriais no interior de SP e MG, com 227,3 mil m2 de área construída.

Um dos projetos será feito em parceria com o fundo de investimentos americano Prudential. Outros três condomínios deverão ser planejados entre as duas companhias nos próximos cinco anos. Nesses projetos, o aporte será de R$ 200 milhões.

"O mercado no setor está como nunca senti. Os próximos anos serão de pleno crescimento", diz o presidente da empresa, Marino Mário.

A maioria dos galpões dos condomínios é alugada.

"Há dez anos, indústrias não investem em paredes. A tecnologia é mais importante." A Retha Imóveis tem outros dois condomínios logísticos em obras.

"O capital é de investidores considerados mais conservadores, que costumam receber 15% de retorno", de acordo com Mário.

SENTINELA
O interesse dos conselhos de administração dos bancos no combate à lavagem de dinheiro reduziu nos últimos anos. Em 2007, 71% dos conselhos consideravam a questão de alta prioridade. Hoje são 62%, segundo a KPMG.

A queda, de acordo com o estudo, é resultado do momento financeiro, já que estratégias para sair da crise passaram a ser o foco dos bancos.

Nas Américas Central e do Sul, porém, 96% dos bancos dizem que a luta contra a lavagem é prioridade. O alto número pode ser consequência da preocupação com lavagem de dinheiro ligada ao tráfico e à corrupção política.

Apesar da redução do interesse dos conselhos dos bancos pelo assunto, os gastos no combate ao crime aumentaram 45% desde 2007.

MOTOR VERDE
A Scania vai lançar no Brasil o caminhão a etanol. A empresa, que já vende ônibus movidos pelo combustível, passa a fabricar no país veículos para o segmento de distribuição.

O modelo reduz 90% das emissões de carbono, segundo Christopher Podgorski, vice-presidente da empresa na América Latina.

"Nosso cliente, o transportador, começa a receber demanda de seus clientes, do setor farmacêutico, supermercadista e outros, por soluções ambientalmente responsáveis. É uma demanda crescente", diz.

A empresa vai fazer também um lançamento mundial de outros motores que atendem às novas regulamentações de emissão de poluentes no país.

"O Brasil ganhou importância nas operações da empresa. Cerca de 25% dos resultados estão atrelados à America Latina hoje."

A COMPRA DO ESTRANGEIRO
Walter Gonçalves Jr. e William Eid Jr., da FGV, lançam amanhã o livro "A Atividade do Capital Estrangeiro na BM&FBovespa".

Na obra, tese de doutoramento de Gonçalves Jr. sob a orientação de Eid Jr., os autores concluem que o investidor estrangeiro entra e sai do mercado local apenas para desfazer posições, e não para ampliá-las.

"Isso mostra que o nível de sofisticação de suas informações pode ser comparado ao do investidor local", afirma Eid Jr. "Indica que não é uma estratégia lucrativa adquirir ações quando os estrangeiros estão comprando."

Quanto à volatilidade, contrariando o senso comum, apesar de as compras dos estrangeiros tenderem a reduzir a volatilidade e suas vendas a aumentá-la, nos períodos de crise esse efeito não foi determinante para a instabilidade dos mercados.

Os autores observaram também que um cenário positivo no mercado externo induz investimentos no Brasil.

"Uma confiança em uma demanda externa firme de longo prazo se traduz em aumento da presença estrangeira na Bolsa brasileira, assim como a desvalorização do real gera compra de ações e a sua valorização provoca venda."

Para o professor, "a elevação do Brasil ao grau de investimento pelas agências de rating não aumentou o volume de capital estrangeiro na Bolsa como era esperado."

Risco... O risco político é a principal preocupação para 43% das multinacionais brasileiras que buscam expansão para o exterior por meio de aquisições nos próximos dois anos, segundo pesquisa da corretora de seguros Marsh e da consultoria Mercer.

...político O estudo aponta que 83% das multinacionais brasileiras reconhecem a importância da avaliação de lideranças antes de fechar uma transação. Mais de 50% dos executivos entrevistados afirmam envolver o RH na equação antes de fechar negócio.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

RICARDO NOBLAT - Mais uma cerveja

Mais uma cerveja
RICARDO NOBLAT
O GLOBO - 24/10/11

Vocês têm que resistir. O ministro tem que resistir . (Lula, aconselhando o PCdoB e o ministro do Esporte)

Estava tudo encaminhado por Dilma - foi o que ela imaginou. Orlando Silva, ministro do Esporte, pediria para deixar o cargo. O PCdoB, que manda no ministério há quase nove anos, indicaria o sucessor dele. E a "faxina ética" avançaria mais um degrau com a demissão do quinto ministro em dez meses. Um recorde! Mas aí... aí o cozido desandou.

Por culpa de quem? De Dilma, que mandava com mão de ferro no seu governo até que esbarrou em outra mão, antigamente dócil, e que também se fez de ferro. Aconselhado por Lula, o PCdoB decidiu mostrar a Dilma que não queria ser tratado como o foram o PR, o PMDB e o PT no caso das demissões dos ministros da Casa Civil, dos Transportes, da Agricultura e do Turismo. Comigo não, violão!

O PCdoB é o único partido que apoia o PT desde que Lula foi candidato pela primeira vez a presidente da República, em 1989. Se em algum momento se vê em rota de colisão com o PT, sai da frente. Contenta-se em seguir à sombra do PT. Em troca, espera ser aquinhoado com tenras fatias do poder. Nada capaz de criar problemas, de fazer falta ou de aborrecer o seu aliado.

Que bala de prata guardava o PCdoB? Anote o nome dela: Agnelo Queiroz, governador do Distrito Federal eleito pelo PT. Durante o primeiro governo de Lula, ainda na condição de membro do PCdoB, Agnelo foi ministro do Esporte. O secretário-executivo do ministério era Orlando Silva. Pois bem: se Orlando fosse tragado pela lama que escorre do ministério, Agnelo também o seria. Palavra do PCdoB.

Então pensando melhor, Dilma preferiu deixar Orlando onde ele está. Se até o fim do seu governo, se até a reforma ministerial que ela pretende promover no próximo ano ou se até esta semana, não se sabe. E a levar- se em conta o estilo centralizador de Dilma e o pavor que ela tem de vazamento de informações, é possível que não saibam nem os seus auxiliares de maior confiança.

Lula! Sim, Lula talvez saiba. Afinal, se dependesse dele, Orlando só deixaria o ministério quando Dilma descesse a rampa do Palácio do Planalto. Foi ideia de Lula manter Orlando no ministério Dilma era contra. E tinha razões de sobra para ser. Como chefe da Casa Civil da Presidência da República, conhecia o que se passava no Ministério do Esporte desde a época de Agnelo. E não gostava nem um pouco.

O ministério virou um aparelho do PCdoB, onde ele emprega militantes que não podem ficar ao desamparo. O ministério virou uma incubadora de organizações não governamentais (ONGs) ligadas ao PCdoB e favorecidas com dinheiro público. O ministério virou um dos órgãos do governo mais crivados por suspeitas de envolvimento com irregularidades e roubalheira. Quer alguns exemplos?

Problema de gestão: o Tribunal de Contas da União (TCU) descobriu que o Ministério do Esporte deixou de analisar 1.493 prestações de contas de uso de recursos federais em convênios do ano passado, avaliados em R$ 801 milhões. Em 2009, de 160 convênios firmados com ONGs, 105, no valor de R$ 88,3 milhões, não foram vistoriados. Foram encontradas fragilidades nos 55 convênios vistoriados (R$ 68,8 milhões).

Suspeita de roubo: a Controladoria Geral da União pediu a devolução de R$ 12,5 milhões repassados pelo ministério às ONGs Universidade do Professor, do Paraná, e Rumo Certo, do Rio. A primeira está fechada há quatro meses. A segunda, desde 2009. Sumiram R$ 2,5 milhões injetados em 2006 pelo ministério na Associação dos Servidores do TCU na época presidida por um militante do PCdoB.

A oposição no Congresso cobra a demissão de Orlando, mas torce para que ele fique no ministério o maior tempo possível. Aposta, é claro, no desgaste do governo. Com a saída de cena dos ministros vítimas da faxina ética , o governo foi dispensado de dar explicações para os malfeitos produzidos por eles. Com a permanência de Orlando... Baixa outra cerveja. Toca mais uma música. Segue a festa.

CLAUDIO HUMBERTO



TCU apura superfaturamento de R$ 33 milhões
Os pregões eletrônicos no Ministério do Esporte viraram um mistério para o Tribunal de Contas da União. A pasta pagou pelo menos R$ 33 milhões a mais em duas licitações recentes, com sobrepreço de R$ 13 milhões para uma empresa americana e R$ 20 milhões para outra, brasileira. O TCU já abriu cinco processos de investigação contra o ministério somente este ano. Um deles corre em segredo de Justiça.


Tá sobrando
A pasta pagará R$ 80,8 milhões para a Capricórnio Têxtil fabricar camisas e bermudas, R$ 20 milhões a mais que os concorrentes.


BBB caro
Vencedora de outro pregão, a Johnson-Controls/Dex instalará câmeras de vigilância nos estádios de 2014 por R$ 58 milhões.


Top secret
Por critérios “técnicos”, o ministério escolheu a americana Johnson. Uma empresa concorrente brasileira cobrava R$ 13 milhões a menos.


Alô, Orlando
A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal lança na quarta (26) a campanha “Brasil: País rico é País sem corrupção”.


Vítima da guerrilha quer ‘Verdade’ na Comissão
Orlando Lovecchio Filho, que teve a perna arrancada num atentado da Vanguarda Popular Revolucionária em São Paulo, há 43 anos, vai à Justiça para participar da Comissão da Verdade – grupo governamental que relatará violações dos direitos humanos entre 1946 e 1988. Estudante, Lovecchio interrompeu o sonho de ser piloto e vive com salário mínimo do INSS, concedido pelo governo Lula após muita luta.


O outro lado
Ele já contratou advogado, mas admite que será uma “batalha difícil”. Quer “dar voz” a quem viveu a outra face do sofrimento na ditadura.


Dois pesos
A Comissão de Anistia rejeitou o pedido dele, enquanto o terrorista de esquerda, Diógenes de Oliveira, levou R$400 mil de bolsa-ditadura.


Sem perdão
O longa-metragem “Reparação”, exibido em 2010, mostra a tragédia de Lovecchio, relatada primeiro nesta coluna, há mais de oito anos.


Tiros no pé
Sergio Cabral deveria ser homenageado pelos chamados estados “não produtores”. Seus insultos quase diários ao Congresso ajudaram muito a aprovar o projeto que redistribui as receitas dos royalties de petróleo.


Telefone mudo
Antes de ser operado, o ministro Mendes Ribeiro (Agricultura) ligou para o presidente da Conab, Evangevaldo Santos, que não o atendeu confiando no padrinho, Jovair Arantes (GO), líder do PTB na Câmara. Tudo porque Mendes quer devassar a Cia Nacional de Abastecimento.


Brazil S/A
Com milhares de moradores de favelas sem título de propriedade, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, vai comprar um terreno de 47 mil m² e cedê-lo por cem anos, com isenção de IPTU... à General Eletric.


Gasto inútil
A Infraero gastou milhões na campanha “Fique por Dentro”, mostrando que nada tem a ver com a maioria dos problemas nos aeroportos. A greve, que pouco afetou os aeroportos de Guarulhos, Brasília, e Viracopos, demonstrou isso de forma mais eficiente. E sem custo.


Joia na gaveta
Maior empresária do ramo de diamantes em Minas, Viviane Santos aguarda há seis anos desfecho de processo na 4ª Vara da Justiça Federal, acusada de sonegação. Teve R$ 1 milhão apreendidos.


Mistério na linha
Aposentado tentou sem sucesso resolver um problema por meio do site no INSS, e depois recebeu ligação do BMG “felicitando-o” por crédito pré-aprovado. Seus dados haviam sido cedidos pelo INSS. A autarquia e o banco desconversam, e ainda alertam para “tentativa de golpe”.


Terra de ninguém
A Justiça Federal deu prazo até 4 de novembro para que 144 supostos quilombolas desocupem a Base Naval de Aratu (BA). A decisão é de novembro de 2010, mas o MPF só soube disso em setembro último.


Pizza & macarrão
Até o dia 30, dezenas de restaurantes do Rio promovem um festival gastronômico para comemorar o Dia Mundial do Macarrão, amanhã (25). Mas o título de capital nacional da pizza continua com Brasília.


Porcaria
O Brasil vai exportar porco à China em 2012: não faltará matéria-prima.


Poder sem pudor
Insetos e política
Governador de São Paulo, Franco Montoro era conhecido pelas gafes, por confundir nomes e pessoas. Certa vez, em uma cerimônia no Palácio dos Bandeirantes, ele reconheceu um político do interior conhecido por Mosquito. Simpático, abraçou o Como é que está sua cidade, Formiga?

RENATA LO PRETE - PAINEL


Banco de empregos
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 24/10/11

O apetite do PT assustou a direção do PanAmericano, semanas depois de ter comemorado a venda de parte do banco para a Caixa Econômica Federal. Em e-mails interceptados pela PF, executivos reclamam da demanda para abrigar pessoas ligadas "ao governo e aos políticos com quem fizemos negócio".

Numa dessas mensagens, de janeiro de 2010, o então presidente, Rafael Palladino, queixa-se com Luiz Sandoval, à época o principal executivo do grupo Sílvio Santos. Lamenta que "já tivemos de engolir" uma indicação ("coisa que brigamos muito para não ter") e manifesta o desejo de não repetir a dose.

Q.I. No e-mail, Palladino relata que havia pressões para contratar o ex-presidente do BNDES Demian Fiocca. "O currículo dele é excelente, mas para ser presidente de empresas enormes, e não diretor do banco", reclama.

Padrinhos... Segundo o executivo, entre os que fizeram lobby por Fiocca estava Luis Gushiken, um dos ministros mais influentes do governo Lula até o escândalo do mensalão, que depois viria a atuar como consultor informal do PanAmericano.

...mágicos Palladino defendeu acomodar o indicado como "conselheiro" do banco, mas sugeriu antes "tirar a temperatura" e zelar para "não gerar desconforto com o Guido" -Fiocca é ligado ao ministro da Fazenda.

Eis a questão A sociedade com a Caixa, no final de 2009, deu fôlego ao PanAmericano, que já estava em má situação e viria a quebrar menos de um ano depois. Inquérito da PF investiga o rombo, que ultrapassou R$ 4 bilhões, e a operação de resgate.

Ex-camarada Hoje alvo da ira dos comunistas do Brasil, que enxergam contribuição da Casa Civil no processo de fritura de Orlando Silva, Gleisi Hoffmann já integrou as fileiras do PC do B, sigla na qual iniciou sua carreira política, nos anos 80.

Meia mozzarella... Sem propor cassações ou mesmo advertências, o Conselho de Ética da Assembleia paulista deverá enviar nesta semana ao Ministério Público os relatos colhidos na investigação da conduta do deputado Roque Barbiere (PTB), que denunciou suposto esquema de venda de emendas envolvendo "até 30%" dos colegas.

... meia calabresa O colegiado, controlado pela base de Geraldo Alckmin, encerrará seus trabalhos sem ouvir os depoimentos de Barbiere e do tucano Bruno Covas, deputado licenciado que relatou, em entrevista, ter recebido oferta de propina. Ambos se defenderam por escrito.

Aperitivo O governo paulista convocou representantes de bares, restaurantes e supermercados para audiência hoje, com mediação do Procon. Quer esclarecer eventuais dúvidas sobre a aplicação, a partir de 19 de novembro, da lei que pune estabelecimentos pela venda de bebidas a menores.

De um modo... Na avaliação do entorno de Gilberto Kassab (PSD), Guilherme Afif e Henrique Meirelles personificam dois cenários distintos estudados pelo prefeito paulistano para sua sucessão. Preferido, o vice-governador é o nome posto à mesa para o caso de acordo com os tucanos, projeto que precisa se consolidar até março.

...ou de outro Já o ex-presidente do Banco Central capitanearia uma candidatura "avulsa" do PSD, em coligação com PV, PSC e outras legendas menores. Esse bloco gravitaria na órbita petista tanto no primeiro quanto no segundo turno.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio
"Nossos comunistas têm motivo para estarem enfezados. Eles já abriram mão da revolução. Agora, querer tirar as carteirinhas e os convênios deles é realmente uma maldade!"
DO TUCANO EDUARDO GRAEFF, secretário-geral da Presidência no governo FHC, sobre a revolta do PC do B diante das denúncias de fraude em convênios entre ONGs e o Ministério do Esporte, controlado pelo partido.

contraponto
Tiro ao álcool

Em solenidade na semana passada durante a qual sancionou lei para tornar mais rigorosa a punição a estabelecimentos que vendam bebidas alcoólicas a menores, Geraldo Alckmin dirigiu-se ao comandante-geral da Polícia Militar, Álvaro Camilo, responsável por um dos núcleos de acompanhamento das blitze:
-Agora é mandar bala!
Ao perceber que deixara o coronel um tanto perplexo, o governador tucano completou:
-Calma! Nada de atirar. Mande bala na fiscalização...

JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO - Fechar a torneira


Fechar a torneira
JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO 
O Estado de S.Paulo - 24/10/11

Cai, não cai. Nesse futuro intransitivo do ministro está se resumindo a novela do Ministério do Esporte. É minimizar o problema para não resolvê-lo. Reportagens do Estado têm mostrado que a ação à margem do interesse público vai muito além de atos individuais. Trata-se de um projeto partidário, executado há dez anos pelo PC do B nas beiradas do poder petista. Qual filiado opera o duto é quase irrelevante.

O que ocorre no Esporte transcende se alguém recebeu dinheiro sujo na garagem ou não. O problema é ser aceitável - para presidentes, governadores e prefeitos - que um partido instrumentalize programas de governo para sustentar seus filiados, inchar seus quadros e forrar seus cofres. Mesmo que de modo burocraticamente legal.

O "esporteduto" descrito pelos repórteres Daniel Bramatti e Júlia Duailibi fornece a infraestrutura para que o dinheiro público ajude a aumentar o poder da agremiação. O exemplo é do PC do B, mas vale para outros partidos médios e pequenos que se coligam a legendas maiores. Funciona esquematicamente assim:

1) O pequeno partido se alia a uma sigla com força eleitoral. Em troca de tempo de TV para o candidato majoritário aliado, o partido ganha o comando de uma pasta e/ou de órgãos com poder de ordenar despesas: pode ser no governo federal, estadual ou municipal;

2) Com a caneta na mão, o partido e seu burocrata de plantão priorizam programas com capilaridade. É importante que a sua execução seja descentralizada e a verba seja distribuída para centenas de localidades. Os valores unitários baixos e a transferência do dinheiro para prefeituras e ONGs afastam a fiscalização e maximizam o impacto político-eleitoral do projeto;

3) Os recursos beneficiam desproporcionalmente as cidades onde o partido atua. Pode ser via prefeitos, ou através do secretário municipal que comanda a área do projeto. Quando nenhuma dessas condições de apresenta, "terceiriza-se" o gasto através de uma ONG especialmente criada ou adaptada para atender às demandas do projeto;

4) Dirigentes ou militantes do partido comandam a aplicação do dinheiro destinado ao projeto, selecionando prestadores de serviços e contratando gente. Novos militantes são cooptados para o partido por causa dos benefícios gerados pelo projeto na localidade;

5) Os militantes devolvem parte do que recebem ao partido na forma de contribuições periódicas. Com mais militantes, dinheiro em caixa e poder político, o partido consegue aumentar sua bancada de deputados e, por tabela, seu tempo de TV e sua cota no fundo partidário. Reforça assim seu cacife para negociar apoio na próxima eleição e reiniciar o ciclo.

Esse é o caminho legal, garagens à parte.

No caso do PC do B, o canal é o Ministério do Esporte. Um dos patinhos feios da administração federal, desdenhado pelos maiores partidos depois que foi desmembrado do Turismo no início do governo Lula, seu orçamento vem crescendo em relação ao total do Orçamento-Geral da União e em proporção ao PIB desde que os comunistas assumiram seu comando, em 2003.

Em 2010, foram pagos mais de R$ 800 milhões só do orçamento do ministério. Mas as verbas federais para o esporte incluem ainda R$ 160 milhões de patrocínios de empresas estatais, R$ 190 milhões da Lei de Incentivo ao Esporte (via isenção fiscal de empresas) e R$ 370 milhões de dinheiro repassado das loterias federais. Somando tudo, dá cerca de R$ 1,7 bilhão, segundo levantamento da associação Contas Abertas.

No poder, o PC do B priorizou dois programas: Esporte e lazer na cidade e Segundo tempo. O valor anual pago pelo primeiro saltou de R$ 38 milhões para R$ 286 milhões em sete anos. O segundo, foi de R$ 13 milhões em 2003 para R$ 173 milhões em 2010 - ou seja, foi multiplicado por 13 em 8 anos.

Nesse período, conta o repórter João Domingos, o PC do B saltou de 34 mil para mais de 100 mil filiados. Fez dois senadores, 14 deputados federais, 18 deputados estaduais, 42 prefeitos, 200 secretarias de esportes e 608 vereadores. Ou seja, cresceu na última década o que não conseguiu nos 80 anos anteriores de sua existência.

A questão, portanto, é maior do que a permanência de Orlando Silva no Ministério do Esporte. Enquanto a reforma política não vem, mais importante que demitir ou não o ministro é fechar a torneira de "esporteduto".

LUIZ FELIPE PONDÉ - A questão judaica


A questão judaica
LUIZ FELIPE PONDÉ 
Folha de SP – 24.10.2011

A manchete do “The New York Times” de 15 de maio 1948 falava da decisão egípcia de invadir Israel

Estou em Jerusalém. Sou a favor do Estado palestino, mas acho que uma das coisas mais inúteis entre nós é discutir o problema israelo-palestino. Falta informação. Quando um ministro israelense disse que Lula deveria estudar a história do conflito antes de se meter, não era piada.

A mídia tem claro viés contra Israel. Fotos de palestinos em sangue após ataques de Israel abundam, mas fotos de israelenses em pedaços nos inúmeros ataques ou mísseis lançados contra o Estado judeu nos últimos anos raramente são vistas.

Muita gente nada sabe da história do conflito, mas tem uma certeza pétrea contra Israel. De onde vem essa fúria? Da velha “questão judaica” (o habito de ver os judeus como “causa” dos problemas)?

Nada sabe sobre o fato de que as fronteiras de Israel não são minimamente seguras e que a paz armada que aqui existe é devido ao gigantesco poder militar superior de Israel sobre os países árabes e muçulmanos da região e à paranoia da segurança vigiada contínua.

Separar a questão palestina da ameaça iraniana é coisa de quem não entende nada do assunto ou é ideológico.

Se países e terroristas muçulmanos não destroem Israel é porque não podem, e não porque não querem. Poucos grupos palestinos estão dispostos a negociar reconhecendo a existência de Israel. Muitos continuam com a antiga política de “judeus ao mar”.

O argumento da insegurança geopolítica de Israel é fato real, mesmo que muitos especialistas se recusem a levar em conta por razões ideológicas. Este argumento é usado por grupos israelenses radicais contra as negociações. E por isso esses radicais ganham força para criar colônias na Cisjordânia.

Muitos israelenses são a favor da fundação do Estado palestino, mesmo sabendo que nem por isso os ganhos geopolíticos serão imediatos.

O problema israelo-palestino é um problema israelo-árabe-mulçumano. A origem foi a recusa dos países árabes em aceitar a fundação do Estado de Israel em 1948 e a guerra a ele declarada em seguida. A manchete do “New York Times” de 15 de maio de 1948 falava da decisão egípcia de invadir Israel.

Esses países nunca estiveram interessados num Estado dos árabes (hoje denominados “palestinos”), que viviam na parte designada para eles na “partilha da Palestina”, feita pelos ingleses que eram donos da terra.

Mesmo o fato de que jamais existiu nos últimos 3.000 anos qualquer unidade política autônoma aqui, a não ser o reino judeu, é desconhecido por muita gente boa.

A região era chamada de Judeia (como assim o foi por milênios) e apenas os romanos, no século 2 d.C., passaram a usar o nome “Palestina” como parte da dissolução do reino judeu.

A vinda dos judeus europeus no século 20 para cá foi motivada (além do nazismo) justamente por esta continuidade histórica comprovada e interrompida desde a destruição pelos romanos do reino israelita no início da Era Cristã.

Continuidade nunca perdida, como comprova a “oração” judaica: “Este ano aqui, ano que vem em Jerusalém”. Dizer que os palestinos seriam os filisteus é semelhante a dizer que os europeus são neandertais porque estes viviam lá 50 mil anos atrás.

Não há nenhuma continuidade arqueológica ou cultural que comprove a relação filisteus-palestinos, ao contrário da continuidade israelita antiga e moderna, sobre a qual, aliás, se sustenta grande parte da cultura ocidental.

A hipótese do historiador israelense “pós-sionista” Shlomo Sand, que nega a continuidade judaica, está longe de ser hegemônica, mas vale a pena ler “A Invenção do Povo Judeu”, ed. Benvirá, apesar do viés anti-Israel do autor. Será que em algum país árabe ou no Irã alguém poderia escrever um livro “contra si mesmo”?

Quase sempre quem critica Israel são pessoas com motivações ideológicas que identificam na questão uma causa contra o imperialismo judaico ou americano.

Ou “pior”: a convergência entre o atávico antissemitismo e o sentimento anti-Israel é óbvia e se comprova em falas ainda atuais como “Israel só existe por conta da grana dos judeus americanos que mandam nos EUA”.

A velha “questão judaica” não acabou.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS - A linguagem dos sinos


A linguagem dos sinos
JOSÉ DE SOUZA MARTINS 
O Estado de S.Paulo - 24/10/11

Quem calou os sinos de São Paulo? De quem é a autoria desse silêncio? Se tocam, já não são ouvidos porque seus dobres foram abafados pelas torres de concreto da cidade vertical, erguidas para tolher a brisa que os levava bem longe. Os sinos falavam. Falaram na torre da Igreja da Boa Morte para anunciar o nascimento da nação. Bateram compassadamente ao longo do tempo para anunciar as mortes dos moradores: se muitas vezes, morte de rico; se poucas vezes, morte de pobre. Ficou a expressão muito significativa: "pessoa muito badalada", para citar os sobrecarregados do apreço dos sinos. Criança, presenciei mais de uma vez manifestações de ressentimento porque o defunto de uns tivera menos badaladas do que o defunto de outros. Ah, os sinos! Tinham preferências. Mandavam recomendações daqui para a eternidade, para aliviar sofrimentos no purgatório, badalando méritos ao ouvido do Criador.

Os sinos de certo modo estiveram mais associados à tristeza do que à alegria. O sensível Erotides de Campos, paulista de Cabreúva, celebrou-os num clássico da nossa música, sua bela Ave Maria. Lembro de Francisco Alves cantando-a no rádio: "Nesta hora de lenta agonia, quando o sino, saudoso, murmura badaladas da Ave Maria." No cair da tarde, os sinos chamavam para as rezas do fim do dia. Vez ou outra, ia com minha avó à igreja para as preces do crepúsculo.

O planger dos sinos anunciava fins e finitudes. Mas anunciava também começos. Os sinos das igrejas atravessaram a noite badalando pelo armistício de maio de 1945: terminavam os terrores e apreensões da Segunda Guerra Mundial, era o começo do fim do racionamento, da escuridão do blecaute. Os sinos falavam, na alegria e na tristeza...

A linguagem dos sinos era codificada. Os sineiros eram verdadeiros músicos e telegrafistas do sagrado, traduziam na sonoridade do bronze os sentimentos do que de antigo ainda havia naquela sociedade de 60 anos atrás. Muitas vezes, os sinos da torre de uma igreja pelejavam rancores de sineiros com os da torre de outra igreja.

Gerações atravessaram as eras ouvindo os anúncios dos mesmos sinos, como os da Igreja de São Bento, especializados em hora certa, mais cúmplices do repetitivo e do moderno do que escravos da tradição e dos rituais.

Os sinos também morrem. No Museu de São Caetano repousa o seu silêncio um sino que tinha um par, ambos fundidos em 1883 na Oficina Mecânica de A. Sydow, no bairro da Luz. Como parte do pagamento, os colonos deram um sino velho, que fora colocado pelos monges de São Bento na torre da antiga capela de São Caetano, na segunda metade do século 18. O velho sino, que ritmara a vida de escravos, já não servia. Mas um dia o novo sino também envelheceria e seria calado. Lembro de suas lentas badaladas de aldeia em minhas manhãs e meus começos de noite.

ROBERTO LUIS TROSTER - A lei inédita de Lavoisier


 A lei inédita de Lavoisier 
ROBERTO LUIS TROSTER
VALOR ECONÔMICO - 24/10/11

No século XVIII, o proeminente francês enunciou a máxima: "Na natureza nada se cria, nada perde, tudo se transforma" - é conhecida como a lei de Lavoisier de conservação das massas. Conhecido como o pai da química moderna, fez também contribuições importantes na biologia e ajudou a criar o sistema métrico. Tem outra, inédita, a lei de desperdício de riqueza que diz: "Na economia, quando não se cria e não se transforma, se perde muito". Experimentos empíricos dela abundam, o Brasil está repetindo alguns que vão comprovar sua validade.

Um é a reintrodução do populismo inflacionário, uma experiência em três etapas. Na primeira, com os preços subindo mais rapidamente, há uma queda artificial dos juros, a redução dos salários reais, do aumento de margens das empresas e de mais empregos e mais lucros, é a fase atual, a da satisfação. A segunda etapa começa com a disputa pela recuperação da remuneração dos trabalhadores e do aumento da pressão dos preços, com a economia mais vulnerável a choques de oferta. Termina na terceira, que é a de juros mais altos e menos crescimento, a da amargura. Resumidamente, troca-se crescer um pouco a mais no presente, por bem menos no futuro. Também é conhecido como miopia inflacionária ou ilusão de crescimento.

Há dezenas de casos em que momentos de complacência são seguidos de apertos posteriores. No Brasil, nas décadas de 1960 a 1990, alguns episódios ilustram o ponto. A atual curva de juros mostra que o mercado antecipa novas reduções na taxa básica de juros, mas que a mesma deve subir a partir do ano que vem e, este ano, as projeções de crescimento do PIB caíram e as da inflação subiram. São números que mostram o efeito oposto ao objetivado pelos condutores da economia.

Outro teste que tem o resultado conhecido, é fazer manifestações, artigos e abaixo assinados para baixar a Selic. São bem intencionados, mas comprovadamente, não alcançam seus objetivos. Se tivessem algum efeito, considerando a quantidade de protestos contra os juros altos no Brasil, observar-se-iam aqui as taxas mais baixas do mundo. Não é o que acontece. É primordial baixar os juros, mas o foco tem que ser mais ambicioso, de reduzi-los definitivamente.

Diminuir as taxas deveria ser um dos objetivos mais importantes da política econômica brasileira. Seus efeitos são perniciosos, concentram a riqueza, encarecem o crédito, postergam investimentos e desestimulam o crescimento. São centenas de bilhões de reais jogados fora com juros altos. Todavia, é um fato comprovado na economia que uma taxa de juros muito abaixo do nível de equilíbrio tem o mesmo efeito de uma acima do patamar neutro, restringe o potencial de crescimento da economia. Reduzir demais é economizar um pouco no presente, para desperdiçar muito mais à frente.

Com uma dinâmica fiscal parecida com a de outros países, o valor dos juros no Brasil é várias vezes mais alto aqui. O custo do crédito, apesar da sofisticação do sistema, é o segundo maior do planeta. Sua redução traria mais crescimento, estabilidade e lucros mais sólidos e duradouros para os bancos.

O foco das ações para baixar os juros deveria se um conjunto de medidas para reduzir a taxa neutra. Uma poderia ser a remoção do entulho inflacionário do sistema financeiro. Um exemplo, aumentar o prazo para creditar rendimentos da poupança, o mesmo foi diminuído para a cada trinta dias, na época de inflação alta, para preservar o patrimônio do pequeno poupador; atualmente, seu efeito é perverso, estimulando gastos com juros altos. Tornando-o trimestral, ou semestral, motivaria a postergação das decisões de consumo, aumentando a potência da política monetária. Falta ao país uma política de juros consistente com a nova dinâmica econômica e os novos tempos.

Falta ao país uma política de baixar os juros de maneira definitiva que inclua uma política de crédito mais sensível ao custo de captação dos bancos e menos condicionada à liquidez do mercado, a redução da cunha de intermediação, à melhoria do quadro institucional, a eliminação dos créditos tabelados e a mais transparência na gestão da política monetária. Anunciar que a meta é 4,5% e praticar 6,5%, sem um choque de oferta, gera incertezas desnecessárias que pressionam os juros de prazos mais longos.

Outra política com o resultado sabido é a de incentivar o consumo interno numa economia aberta. Não dá certo. O que acontece é um aumento nas importações de bens de consumo e uma pressão no custos dos serviços, com um resultado pífio na atividade econômica e efeitos indesejáveis na balança comercial e na inflação. O Brasil não é mais uma economia fechada, são outros tempos. Em vez de estimular a demanda, a prescrição, numa economia aberta, é fomentar a oferta, a produção.

Um exemplo emblemático é o café. Um dos melhores para tomar no Brasil é fabricado na Suíça, por uma multinacional que têm várias plantas industriais aqui. Apesar do clima melhor, da mão de obra mais barata, dos custos de transporte e da proximidade do plantio, a empresa, conhecida pela excelência de sua gestão, decide fabricar as capsulas a dez mil quilômetros de distância para vender aqui. Acontece algo parecido com a pimenta, uma das mais vendidas aqui é americana, com grãos brasileiros, ou com o chocolate, feito com cacau baiano na Bélgica.

A causa é que a política econômica não tem como objetivo prioritário melhorar as condições empresariais do país. Ilustrando o ponto, nas 182 Metas do Centenário Brasil 2022, apenas uma trata de reformar. É irônico, mas seu objetivo é mudar algo fora do Brasil o Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Há uma obsolescência nas normas para produzir gerando dezenas de milhares de empregos para burocratas, advogados, contadores e despachantes. São custos que tiram a competitividade do país. No ranking empresarial do Banco Mundial, divulgado esta semana, o Brasil caiu seis posições e está em 126º lugar. A melhor ginga do mundo tem que conviver com uma das piores burocracias.

O desenvolvimentismo tem um nome lindo, teve sua importância na metade do século passado, mas não serve mais para o Brasil do século XXI. Propõe obras públicas, que há cinquenta anos geravam empregos e atualmente aumentam a importação de máquinas pesadas. Culpa o resto do mundo pelos problemas internos, com isso consegue Ibope, mas não crescimento.

Atualmente, vive-se um momento bom, há um potencial a ser usufruído. Não se deve desperdiçar riquezas. É hora de adequar a política econômica, o país não pode ficar refém de uma visão ultrapassada.

Roberto Luis Troster, doutor em economia pela USP, foi economista chefe da Febraban, da ABBC e professor da PUC-SP, USP e Mackenzie.

GUSTAVO CERBASI - O "custo Brasil" indireto


O "custo Brasil" indireto
GUSTAVO CERBASI
FOLHA DE SP - 24/10/11



Precisamos aprender a planejar. Não falta dinheiro ao Brasil; falta apenas saber empregá-lo melhor

FRANKFURT, ALEMANHA, quarta-feira, 17h06. Chego caminhando à estação de trem, onde pegaria a composição para Koenigstein para reencontrar minha família após compromissos na Feira Internacional do Livro. Ao pesquisar os horários de partidas, lá estava: Koenigstein, 17h19, e outro meia hora depois.

Durante os 13 minutos que me restavam, comprei sem enfrentar filas a versão germânica do nosso café e pão de queijo, um suco gaseificado de maçã e um pretzel quentinho. Saboreei enquanto assistia ao movimento da estação. Ao ver meu trem chegando, liguei para dizer que chegaria em casa às 17h43.

Pontualmente às 17h19, vi a paisagem começar a correr pela janela, inspirando-me a refletir sobre como a típica precisão alemã criara um momento agradável em meio a um intenso dia de trabalho.

Se não soubesse o horário do trem, ficaria aguardando ansiosamente na plataforma. Certamente, aquele vendedor de pretzels vende mais do que os quiosques de pão de queijo brasileiros, pois a previsibilidade na partida dos trens diminui a ansiedade das pessoas e evita a aglomeração nas plataformas. Mais vendas significa mais dinheiro circulando, mais prosperidade na economia.

A previsibilidade pesa no bolso do trabalhador alemão, que tem mais tempo para consumir? Não, pois ele também usa o tempo livre para produzir mais, seja trabalhando ou estudando. Contando com transporte público eficiente perto de casa, os alemães podem dispor de mais tempo com a família, ter hábitos mais saudáveis e viver uma vida mais previsível. Resultado: menos estresse, menos ansiedade e menos problemas de saúde. Provavelmente, seus gastos com eventuais quitutes ou revistas enquanto aguardam o trem não pesam no bolso, pois em países como o Brasil esse dinheiro também é gasto, só que com tratamentos de saúde.

Se para ir aos meus compromissos aqui no Brasil pudesse contar com horários precisos de saída do transporte, certamente diminuiria os intervalos que faço para compensar problemas de tráfego e tempo de espera. Produziria mais, ganharia mais e também consumiria mais. Meus clientes sabem por que praticamente aboli reuniões em minha agenda. Em São Paulo, para fazer uma reunião de uma hora a dez quilômetros de meu escritório, gasto cerca de três horas do meu dia, contando o deslocamento de ida e volta. Não funciona.

Está aí um aspecto do "custo Brasil" que vai além da óbvia carga tributária, do custo da burocracia, da cara infraestrutura e do custo dos serviços de fura-fila como despachantes e entregas expressas.

Com uma infraestrutura subdimensionada, o trabalhador sai de casa mais cedo, volta mais tarde, descansa menos, produz menos, é mais ansioso, adoece mais e consome menos. Nossa infraestrutura é cara por falta de planejamento, que, por sua vez, decorre de falhas na educação. A educação ineficiente, além de não conseguir capacitar gestores para um planejamento competente, cria um contingente de profissionais subcapacitados que exercem funções que pouco agregam em produtividade e muito pesam no custo.

Ascensoristas, despachantes e motoboys são exemplos de funções perfeitamente dispensáveis em países que contam com elevadores seguros, burocracias adequadamente dimensionadas e trânsito fluido.

O sindicalismo exacerbado, que briga para preservar profissões ultrapassadas, é outro componente de custo. O salário do frentista pesa no preço do combustível, mas existe mesmo que até uma criança seja capaz de abastecer com uma bomba automática. Contamos com cancelas automáticas que reduziriam o custo de estacionamentos, não fosse a imposição de ter funcionários para colocar o tíquete na máquina por nós. Ao mesmo tempo, faltam técnicos competentes para fazer máquinas que não falham.

Educação limitada sai caro, prejudica nossa capacidade de planejar e torna o Brasil menos competitivo.

Precisamos de menos chefes e mais engenheiros e administradores competentes. Precisamos aprender a planejar, o que nunca soubemos fazer. À nossa nação não falta dinheiro. Falta apenas saber empregá-lo melhor.

GUSTAVO CERBASI é autor de "Casais Inteligentes Enriquecem Juntos" (ed. Gente) e "Como Organizar sua Vida Financeira" (Thomas Nelson).

EDITORIAL FOLHA DE SP - Privilégios de toga



Privilégios de toga
EDITORIAL 
FOLHA DE SP - 24/10/11

Não colabora para melhorar a imagem do Judiciário a defesa que o presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, José Roberto Bedran, faz da nomeação de "delegados especiais" para cuidar de incidentes que envolvam magistrados.
Em sessão no TJ, o desembargador revelou ter pedido à Secretaria da Segurança a instituição de uma espécie de "entendimento, protocolo ou convênio" entre a corte e o governo a fim de garantir o tratamento distintivo a seus colegas.
Na mesma audiência, discutia-se a promoção a desembargador do juiz Francisco Orlando de Souza, detido sob suspeita de dirigir embriagado e sem habilitação -o magistrado nega que estivesse bêbado.
Integrantes do TJ criticaram a conduta do delegado do caso. O presidente do tribunal argumenta que o novo protocolo poderia evitar a divulgação sensacionalista, pela imprensa, de episódios envolvendo magistrados.
É inegável que qualquer cidadão está submetido ao risco de se ver retratado de forma negativa nos meios de comunicação. Tentar suprimir essa possibilidade por meio da proposta de Bedran, no entanto, acarretaria um mal maior.
No Estado de Direito não há cidadãos de primeira ou segunda classe. A lei é igual para todos, tanto quanto devem ser os procedimentos judiciais e policiais responsáveis por garantir sua observância.
Sobre os magistrados pesa a responsabilidade de assegurar que tal princípio seja respeitado. E, no entanto, viceja no país a impressão de crescente mobilização por parte de juízes para defender privilégios.
Para isso, contribuem, por exemplo, tentativas recentes de diminuir o poder de investigação do Conselho Nacional de Justiça. Tanto quanto a pressão por aumento salarial de juízes federais, que deflagraram uma "operação-padrão" a qual paralisa, na prática, a apreciação de ações envolvendo a União.
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Cezar Peluso, já alertou sobre o risco de dano "à imagem da magistratura como prestadora de serviço público essencial".
Há, de fato, motivo para preocupação. A maioria dos juízes do país, selecionados por meio de rigoroso concurso público, cumpre com competência suas funções. Ao pleitear privilégios, uma minoria ameaça macular o respeito que lhes é solenemente devido.

SEGUNDA NOS JORNAIS


- Globo: Cristina obtém vitória histórica na Argentina


- Folha: Apuração confirma vitória fácil de Cristina


- Estadão: Cheques revelam R$ 1,3 mi para empresas fantasmas no Esporte


- Correio: Dilma manda Orlando tirar apadrinhados


- Valor: Dilma apressa lei mais dura contra lavagem de dinheiro


- Jornal do Commercio: A um empate da final


- Zero Hora: Polícia credita série de ataques a bancos a facilidades da lei