sexta-feira, outubro 21, 2011

RENATA LO PRETE - PAINEL


Assim é, se lhe parece
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 21/10/11

Reunido ontem em Brasília, o núcleo político do PC do B resolveu adotar um discurso aguerrido em defesa de Orlando Silva, versão transmitida logo depois pelo presidente do partido, Renato Rabelo, a Gilberto Carvalho no Planalto. Os mais próximos do ministro do Esporte interpretaram as palavras de Dilma Rousseff na África como sinal de que o "padrão" nas demissões do primeiro escalão "pode mudar". Na contramão dessa análise otimista, outra ala teme que a crise contamine os planos eleitorais da legenda para 2012. E, à diferença da cúpula, entendeu a retórica da presidente como uma "despedida".

Se ficar... O Planalto enxerga dificuldades em série na eventual substituição de Orlando: se deixar o cargo com o PC do B, o governo corre o risco de manter a pasta na berlinda, já que as suspeições recaem sobre programas controlados pelo partido.

Se correr... Caso entregue o Esporte a outra sigla, o governo teme os efeitos da "criminalização" do aliado histórico, fiel apoiador de Lula na crise do mensalão.

Melô No toque do celular de João Dias, algoz de Orlando Silva, ouve-se hit da sensação sertaneja Luan Santana: "Eu tô apaixonado, eu tô contando tudo e não tô nem ligando pro que vão dizer...".

Deixa comigo Indicado pelo PC do B para a gestão de Gilberto Kassab, o secretário paulistano de Articulação para a Copa, Gilmar Tadeu, disse, após a escolha do Itaquerão para abrir o Mundial, que seu foco estará nas obras do entorno do estádio, todas de responsabilidade do governo de Geraldo Alckmin.

Agenda negativa Desprestigiados na tabela da Copa, dirigentes do Rio lamentam ainda que, como sede do centro de imprensa internacional, a cidade atrairá holofotes estrangeiros, notadamente nos quesitos violência e infraestrutura, nos meses anteriores à competição.

Curtíssima A jornada parlamentar, que em geral vai de terça a quinta, nesta semana acabou na quarta. Com medo de ficarem retidos em Brasília em razão da greve dos funcionários da Infraero, deputados e senadores resolveram o problema correndo mais cedo para o aeroporto.

Está vendo? Na pressão para que Dilma vete a redistribuição dos royalties do petróleo, caso esta venha a ser aprovada definitivamente, a bancada do Rio de Janeiro lembra que o tucano Aécio Neves, potencial adversário da petista em 2014, fez o PSDB apoiar o Estado -terceiro colégio eleitoral do país- na votação de anteontem.

Nos mínimos... Em meio ao escândalo das emendas, a Assembleia quer obrigar Geraldo Alckmin a especificar no sistema de acompanhamento orçamentário, a partir de 2012, cada indicação de deputado -identificando valores previstos, liberados, empenhados, liquidados e efetivamente pagos.

...detalhes Isso facilitaria a cobrança dos "restos a pagar", hoje sem normatização, para desespero dos deputados governistas.

Visitas à Folha José Mariano Beltrame, secretário de Segurança do Rio, visitou ontem a Folha, a convite do jornal, onde foi recebido em almoço. Estava acompanhado de Fernando Thompson, chefe de Comunicação.

Bruno Covas, secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, visitou ontem a Folha, a convite do jornal. Estava com Fabiana Macedo de Holanda, gerente de Comunicação Social da Cetesb.
com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio

Se fossem ONGs sérias (e elas existem), tudo bem, mas o que proliferou ali foi um laranjal, a ponto de se brincar que no Brasil existem pessoas físicas, jurídicas e cítricas.
DO DEPUTADO ROBERTO FREIRE (PPS-SP), sobre as entidades conveniadas com o programa Segundo Tempo, mantido pelo Ministério do Esporte e sob investigação do Ministério Público e da PF por suspeitas de fraudes.

contraponto

Esforço olímpico


Durante audiência na qual Orlando Silva dava explicações à Câmara, Chico Alencar (PSOL-RJ) ficou incomodado com as falas do ministro responsabilizando seu antecessor, Agnelo Queiroz (PT), pelas irregularidades detectadas em contratos da pasta com ONGs:
-Eu estou aqui para cumprir o papel fiscalizador do Parlamento. E quero acreditar que o Ministério do Esporte não pretende oficializar um novo tipo de competição, o "jogo de empurra"!- protestou o deputado.
Orlando sorriu, mas evitou o assunto na resposta.

EDITORIAL O ESTADÃO - As provas pedidas


As provas pedidas
EDITORIAL
O Estado de S.Paulo - 21/10/11

Nos seus depoimentos ao Congresso e em declarações à imprensa, o ministro do Esporte, Orlando Silva, do PC do B, recorreu a um repertório de impropérios impublicáveis para desqualificar o PM João Dias Ferreira, que o acusou de participar de um esquema de fraudes com recursos do programa Segundo Tempo, criado para proporcionar atividades esportivas a jovens carentes. O ministro também insiste a mais não poder no argumento de que o denunciante, que esteve preso no ano passado, não apresenta provas de suas "calúnias" - e nem poderá apresentá-las, por não existirem.

Vá dizê-lo ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que anunciou anteontem a iniciativa sem precedentes de pedir nos próximos dias ao Supremo Tribunal Federal (STF) abertura de inquérito contra o ministro ainda no exercício da função, "considerando a extrema gravidade dos fatos noticiados". Naturalmente, Gurgel diz que não se pode fiar "apenas nas declarações de uma única pessoa", mas elas merecem ser examinadas com toda a atenção, incluindo eventualmente a quebra dos sigilos de Orlando Silva. Uma investigação na mais alta Corte - o foro próprio para detentores de cargos federais e membros do Parlamento - será a gota d'água para tornar intolerável a permanência do acusado no governo.

Fechando o círculo, o procurador avalia a hipótese de pedir ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) que remeta ao Supremo o inquérito em curso naquela Corte contra o antecessor e ex-correligionário do ministro, o atual governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, agora filiado ao PT. "Há um relacionamento muito intenso entre os fatos", sustenta Gurgel para justificar a unificação das apurações. Os indícios parecem incontestáveis. Agnelo assumiu no início do primeiro governo Lula e nomeou Orlando secretário executivo da pasta. Em 2006, quando Agnelo se afastou na busca frustrada de uma cadeira no Senado, o sub foi para o seu lugar e nele foi confirmado, depois, pela presidente Dilma Rousseff a pedido do seu mentor Lula.

Conforme as evidências, o que começou com Agnelo continuou sem interrupção com Orlando - a assinatura de convênios com organizações não governamentais (ONGs) fictícias ou sem a mais remota condição de cumprir os contratos firmados nem o menor interesse em usar em benefício público os valores recebidos. Evidentemente, deviam pagar pedágio aos contratantes, os quais o repassavam, não necessariamente por inteiro, ao caixa 2 do PC do B, ao qual, aliás, os conveniados estavam filiados. Do inquérito que chegou ao STJ consta uma detalhada (e sórdida) descrição da entrega, em agosto de 2007, de uma mochila com R$ 256 mil ao então ministro Agnelo no estacionamento de uma concessionária de veículos na cidade-satélite de Tabatinga.

O autor do relato à Polícia Civil do DF é um certo Geraldo Nascimento de Andrade, motorista de uma das empresas fornecedoras de notas frias para encobrir desvios de recursos do Segundo Tempo. Qualquer que seja a sua folha corrida, o depoimento soa verdadeiro, pela profusão dos fatos narrados. O mesmo se pode dizer da entrevista do PM João Dias à revista Veja, confirmando as revelações publicadas neste jornal em fevereiro último. Filiado ao PC do B, o policial registrou duas ONGs que se conveniaram, a partir de 2005, com o Ministério do Esporte. Ele adquiriu um punhado de carros de luxo - e não foi propriamente com o seu soldo. Mas isso não torna menos verossímeis as suas acusações a Orlando nem inibiu o procurador-geral de procurar o STF.

Tampouco a esbórnia é coisa do passado. Em agosto último, por exemplo, o Ministério do Esporte prorrogou por um ano um convênio de 2009 no valor de R$ 911 mil com uma ONG de fachada, como se viria a saber, para criar núcleos esportivos para 2,2 mil crianças em Novo Gama, Goiás, no entorno do DF, embora nem um grão de poeira tivesse sido tirado do lugar ali nesse período. Enquanto isso, R$ 393 mil do Tesouro Nacional já mudaram de mãos. O convênio foi usado na campanha eleitoral do PC do B no ano passado. Quando o Estado divulgou o caso, há oito meses, o ministro prometeu uma sindicância para "apurar e punir" Não fez nem uma coisa nem outra.

WASHINGTON NOVAES - O impasse no clima e seus altos preços


O impasse no clima e seus altos preços
WASHINGTON NOVAES
O ESTADÃO - 21/10/11

A pouco mais de um mês do início da próxima reunião da Convenção do Clima (na última semana de novembro), na África do Sul, o impasse continua total e os dirigentes da ONU já não escondem a certeza de que nenhum acordo importante será conseguido lá - embora os chamados "desastres naturais" (entre eles os provocados por mudanças climáticas) tenham atingido, segundo o Banco Mundial, 2,6 bilhões de pessoas no mundo na última década, ou 1 bilhão mais que na década anterior (Estado, 28/3). A média de desastres passou de 15 por ano na década de 1980-1990 para 370 na década seguinte e os prejuízos foram 15 vezes maiores que nos anos 50. Segundo a Oxfam (O Globo, 18/1), desde 1975 os "desastres naturais" (que incluem terremotos, tsunamis, etc.) já mataram 2,2 milhões de pessoas. Atualmente são 250 milhões atingidas a cada ano, que chegarão a 375 milhões em 2015.

Nos últimos 25 anos a temperatura média da Terra foi mais alta que a média do século 20. O ano passado, juntamente com 2005, foi o mais quente de todos tempos. Segundo a revista Scientific American (AP, 28/6), a relação entre mudanças climáticas e "eventos extremos" já não é apenas uma teoria, é um fato comprovado.

De pouco têm valido os apelos do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, ao lembrar que até 2060 a população da Terra será 50% maior que a de 1999 e levará a mais aumentos de emissões de gases poluentes - por isso será preciso reduzi-los já em pelo menos 50%. Mas eles estão aumentando: em 2010, conforme a Agência Internacional de Energia, chegaram ao recorde de 30,6 bilhões de toneladas de dióxido de carbono, 5% mais que em 2008. Segundo os cientistas, se as emissões passarem de 32 bilhões de toneladas anuais, será impossível impedir que a temperatura terrestre suba mais que 2 graus Celsius, mesmo com as reduções planejadas nas emissões até 2050. Entre 1990 e 2010, as emissões dos EUA aumentaram 5%; as da China, 10%; e as da Índia, 9%. As da União Europeia (UE) e da Rússia diminuíram 27% (Science Daily, 22/9. E o mundo ainda tem 1,3 bilhão de pessoas sem energia elétrica.

Os impasses na convenção não mudaram. Os países emergentes dizem que a obrigação de reduzir as emissões é dos países industrializados, que emitem desde o início da Revolução Industrial. Os países ricos dizem que sem os emergentes não adiantará nenhum acordo, porque eles já emitem mais que os industrializados. E o próprio Protocolo de Kyoto, que obriga os industrializados a reduzirem em 5,2% suas emissões, expira em 2012, sem que haja vislumbre de novo acordo. Com isso deixaria de vigorar o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, que permite a uma empresa ou país industrializado financiar projetos que levem à redução de emissões em outro país e contabilizar esse ganho em seu próprio balanço. Já foram feitos cerca de 3 mil projetos nessa área.

A presidente Dilma disse na ONU que o Brasil espera avanços importantes em Durban, embora os cientistas digam que os impasses refletem os grandes conflitos econômicos entre as principais nações do mundo, agravados pela crise financeira. Quem vai investir em redução de emissões? Como destinar US$ 30 bilhões para os países mais pobres enfrentarem o drama do clima, e mais US$ 100 bilhões por ano até 2020, como foi acenado na reunião de Copenhague (2009)? Os EUA continuam emitindo 16 toneladas anuais de CO2 por habitante, ante 8,1 toneladas na UE e 6,6 na China. O Brasil, segundo o Banco Mundial e o consultor Nicholas Stern, entre 10 e 11 toneladas por habitante/ano.

Uma das consequências do panorama, segundo Ban Ki-moon (Independent, 22/9), é o avanço da desertificação no mundo: cerca de 40% das terras, onde vivem 2 bilhões de pessoas, já são áridas ou semiáridas. A cada ano são atingidos mais 12 milhões de hectares, onde poderiam ser produzidos 20 milhões de toneladas anuais de alimentos, para um mundo que caminha para ter 10 bilhões de pessoas. Já as chuvas intensas têm hoje 20% mais probabilidade de acontecer (Nature, em O Globo, 17/2). No Paquistão, nas últimas semanas, foram 270% mais intensas que as tradicionais, inundaram 73% das terras de cultura e atingiram 8 milhões de pessoas, 1,3 milhão de casas, deixaram 1,5 milhão de desabrigados e 220 mortos. No leste da Índia foram 4 milhões os atingidos, 150 mil desabrigados e 60 mortes. No Camboja, 141 mortos. Na Tailândia, 26 de 77 províncias sob a água e 28 mortes. E 42 milhões de pessoas tiveram de deixar suas casas em 20 anos por causa dos desastres. As seguradoras perderam US$ 36 bilhões no ano passado.

E tudo se pode agravar. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, com o panorama atual a tendência é de que a temperatura da Terra suba 2,4 graus (já subiu quase 0,8) até 2020.

Pior de todas é a situação das ilhas do Pacífico, já enfrentando a elevação do nível do oceano e tendo de promover migrações e comprar áreas em outros países. Já decidiram ir à Corte Internacional de Haia pedir que os países industrializados sejam responsabilizados por isso e arquem com os custos (UN News Service, 23/9). A secretária da Convenção do Clima, Cristiana Figueres, tem dito (The Guardian, 10/10) que as empresas precisam contabilizar em seus custos os que decorrem de suas emissões de poluentes.

Não é preciso insistir na gravidade da situação brasileira, que já povoa as páginas dos jornais. Mas um estudo da Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental (setembro de 2011) diz que as temperaturas em várias regiões brasileiras vão subir de 2 a 3 graus, o índice de umidade vai cair e o índice hídrico terá uma "diminuição notável" até 2050. Em 2010, segundo a Agência Nacional de Águas, quase 20% dos municípios brasileiros decretaram estado de emergência ou de calamidade por causa de desastres climáticos.

Essa é a dimensão do impasse no mundo.

ELIANE CANTANHÊDE - Culpas e responsabilidades


Culpas e responsabilidades
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 21/10/11

- Nestes tempos em que os feudos do PC do B no Esporte e do PR nos Transportes nivelam por baixo a esquerda, a direita e a política, Muammar Gaddafi comporta boas reflexões. De jovem revolucionário que livrou a Líbia de uma monarquia obsoleta em nome da independência e da liberdade, Gaddafi se transformou num ditador sanguinário, corrupto e, enfim, patético.

Sua morte, mostrada ao mundo por imagens chocantes, encerra uma etapa de horrores e abre uma outra de incertezas e medos. Passada a justa festa dos revoltosos, vem aí a reconstrução de um país que é rico -diferentemente do pobre Egito e da remediada Tunísia, por exemplo-, mas tem tribos de mais e quadros técnicos e burocracia estatal de menos. O Estado era Gaddafi.

É preciso criar um Parlamento, definir uma Constituição consensual e eleger um presidente, enquanto é construída e reconstruída a infraestrutura, retomada a produção de petróleo, recuperada a normalidade das cidades, repactuadas as parcerias com o mundo.

Com petróleo e gás, a Líbia tem muito dinheiro, algo como US$ 70 bilhões antes da guerra, mas não tem onde e como investir. Por isso se tornou uma excelente oportunidade de negócios, o parceiro cobiçado por países ricos e emergentes, que fecharam os olhos para as barbaridades do déspota e o sofrimento do povo.

Bush, Obama, Sarkozy, Tony Blair, Berlusconi, Schroeder, assim como Lula, fizeram fila para confraternizar com Gaddafi e disputar os dólares líbios. A Turquia, a Rússia, a China e a Índia foram atrás. Todos alimentaram o regime de Gaddafi e têm agora responsabilidade com o futuro de uma Líbia destroçada.

E onde está o dinheiro líbio? Pulverizado entre paraísos fiscais, países-sócios, empresas amigas e, claro, os colchões da família Gaddafi.

Derrotar Gaddafi foi histórico, glorioso, mas a guerra do povo líbio continua. Aliás, está apenas começando.

MARINA SILVA - Sem drible às leis



Sem drible às leis
MARINA SILVA
FOLHA DE SP - 21/10/11

O velho dito popular que diz que não se discute política, religião e futebol talvez seja só uma senha para o início dos debates, já que são assuntos muito discutidos em todas as rodas. Agora, por exemplo, até eu começo a pensar mais em futebol -tema, aliás, que entrou de vez na pauta política.
O problema é que nem sempre o que é bom no campo funciona fora dele. O improviso, a ginga e a jogada genial que decide a partida no último minuto não se aplicam à gestão pública. Nesse campo, o estilo de jogo tem que ser diferente: aberto e visível, com planejamento e visão de longo prazo. O lampejo individual precisa dar lugar ao interesse coletivo, expresso no bom uso do orçamento público.
A Copa de 2014 começou em outubro de 2007, quando o Brasil foi escolhido como sede. E imensos desafios adiados agora nos afligem. O Brasil se comprometeu com gastos enormes, e, de uma hora para outra, precisam ser feitos às pressas. O resultado é a lei 12.462/11, que criou o Regime Diferenciado de Contratações Públicas (RDC). Na prática, a norma acelera -ou dribla- os instrumentos de controle da Lei de Licitações Públicas.
Preocupante também é ver como se decidiu construir e reformar estádios a custos ainda imprevisíveis, com dinheiro público, para atender a exigências que parecem inquestionáveis. Não é porque amamos o futebol e ansiamos por sediar mais uma Copa que deixaremos de ter um olhar crítico para essas decisões.
Cidades-sede correm para cumprir prazos e concluir obras de estádios (ambientalmente corretos?) e de infraestrutura. A sociedade precisa mobilizar-se por visibilidade, ou os resultados não serão os esperados. A Grécia, até hoje, chora os prejuízos da Olimpíada de Atenas (2004). A África do Sul lamenta o que não ganhou com a Copa de 2010.
A Fifa, ao fazer a Copa no Brasil, terá grandes lucros ao usar, de alguma forma, nossa "marca", nossa bandeira, que se confunde com o futebol.
A Lei Geral da Copa, em discussão no Congresso, precisa expressar nossa soberania. Isenção fiscal para a Fifa e seus parceiros até 2015? Interferência em contratos públicos? Uso exclusivo de termos como "Copa do Brasil"? Supressão da meia-entrada? Perda de direitos do consumidor? Venda de bebidas alcoólicas nos estádios? E, antes que alguém responda, uma outra: foi assim na Alemanha?
É preciso que o governo tenha conduta mais firme, de controle de gastos, e de defesa de leis conquistadas após longas lutas sociais. Tarefa que depende do empenho dos órgãos públicos diretamente responsáveis, sobretudo do Ministério do Esporte, que não tem se notabilizado nisso.
Tocar as obras. Organizar a Copa. Lidar com a Fifa. E fazer o povo brasileiro ganhar.

RENATO VILLELA - O Rio vai bem, obrigado



O Rio vai bem, obrigado
RENATO VILLELA
FOLHA DE SP - 21/10/11
O Rio de Janeiro não está doente, pelo contrário, mas isso não significa que vá abrir mão de receitas que são constitucionalmente suas
Artigo intitulado "A doença fluminense", de Hélio Schwartsman, publicado em 18/10 (página A2), desqualificou a posição do Estado do Rio em defesa de suas receitas constitucionais de royalties e participações especiais. Há nele equívocos que passamos a esclarecer.
Não faz sentido falar de "doença holandesa" no caso. Como lembrado pelo articulista, ela tem origem na "desindustrialização provocada pela exploração de recursos naturais e pelas distorções cambiais dela decorrentes".
Os investimentos diretos recebidos pelo Rio de Janeiro, que já ultrapassou São Paulo nesse quesito, eliminam o risco de desindustrialização. Quanto à questão cambial, de âmbito macroeconômico, se aplicável fosse, afetaria o país como um todo, e não só o Rio.
São citadas as áreas de educação e de ciência e tecnologia como aquelas em que devem se despender as receitas de recursos não renováveis. Sim, mas também outras ajudam a preparar para o futuro, como a área ambiental. Equacionar passivos de longo prazo, como o previdenciário, se ajusta a essa perspectiva.
É o que faz a Noruega ao financiar sua previdência com as receitas de petróleo.
O Rio dá aos recursos do petróleo destinação consistente com o que a teoria econômica e o artigo citado preconizam. Dos R$ 6,8 bilhões recebidos em 2011, R$ 1,5 bilhão são devolvidos à União por conta da antecipação feita em 1999; R$ 66,5 milhões vão para o Pasep; R$ 337,7 milhões vão para os municípios; R$ 323,7 milhões são investidos em meio ambiente e R$ 4,6 bilhões vão para a previdência estadual.
Ou seja, contratos e leis determinam o uso de 28% desses recursos. O Rio usa os 72% livres em meio ambiente e na questão previdenciária, liberando receita futura para outros investimentos. O artigo peca ao dizer que o Rio financia a guerra fiscal com recursos do petróleo.
Ecoa matéria do último domingo neste jornal ("Rio luta por royalties, mas abdica de ICMS", Poder), que afirmara o mesmo após fazer tremenda confusão com dados da receita do Estado.
Vamos aproveitar e esclarecer tudo de uma vez. Tal equívoco vem de duas constatações, uma verdadeira e outra falsa.
A verdadeira é que a receita de petróleo cresceu proporcionalmente mais que a do ICMS no período entre 1995 e 2010. Isso é óbvio.
A exploração de petróleo em 1995 era insignificante. Sua receita teria mesmo que crescer muito mais que as outras, tendo hoje uma fatia maior do orçamento.
O equívoco da matéria de domingo, que provavelmente induziu o articulista a erro, é que a receita de ICMS do Rio em 1995 seria superior à atual. Não temos ideia de como se chegou a esses números.
Usando dados da Cotepe (Comissão Técnica Permanente) do Ministério da Fazenda, fonte isenta, vê-se que a receita do ICMS do Rio em 1995 foi de R$ 4,5 bilhões. Corrigida pelo IPCA, isso equivale a R$ 14,2 bilhões, 61% dos R$ 23 bilhões arrecadados em 2010.
O Rio de Janeiro não está doente, pelo contrário. O que não significa que vá abrir mão de receitas que são constitucionalmente suas, empregadas como recomendam a teoria econômica e o ilustre articulista.
RENATO VILLELA é secretário de Fazenda do Estado do Rio de Janeiro.

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - Fim de semana para ser lembrado


 Fim de semana para ser lembrado
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS
FOLHA DE SP - 21/10/11

Os ajustes nos países que usam o euro indicam que a crise ficará entre nós por um tempo bastante longo



No próximo fim de semana teremos um encontro de chefes de Estado da zona do euro para definição das regras do Feef (Fundo Europeu de Estabilização Financeira), aprovado nos últimos meses pelos parlamentos nacionais.

O Feef terá o total de € 440 bilhões para atuar na estabilização do mercado de títulos de dívida soberana de vários países da região. Em sua primeira versão, o Feef já realizou, com o Fundo Monetário Internacional, três operações de financiamento aos tesouros da Grécia, da Irlanda e de Portugal. Vivia-se então a ilusão de que esses recursos seriam suficientes para isolar esses pequenos países em crise do chamado núcleo duro da Comunidade Europeia.

Mas a crise fiscal se mostrou mais grave do que a prevista pelos políticos. A desconfiança dos mercados chegou rapidamente aos títulos da Espanha e da Itália.

Além disso, ficou claro que os bancos alemães e franceses eram os grandes detentores de títulos da dívida dos chamados Pigs. Os mercados passaram a temer, então, por uma crise bancária sistêmica, com repercussões em outras regiões fora da Europa. Pelo canal financeiro, a crise europeia ganharia dimensões planetárias.

É nesse cenário assustador que se dará a reunião na Europa neste fim de semana. Nos últimos dias, vivem-se no velho continente momentos de Terceiro Mundo. Boatos circulavam pela mídia sobre decisões que poderiam ser tomadas e que faziam oscilar -para cima e para baixo- os mercados.

Manchetes de jornais substituíram análises e considerações técnicas sobre ações de empresas e taxas de câmbio de moedas de vários países. Políticos alemães e franceses, refletindo os conflitos que existem entre os dois países sobre como enfrentar a crise atual, se sucediam em declarações conflitantes.

Os investidores de maior seriedade retiraram-se dos mercados e recolheram-se às aplicações financeiras mais seguras, deixando os mercados nas mãos dos especuladores da pior qualidade.

Vou procurar dar ao leitor da Folha uma visão simplificada sobre as principais alternativas que serão discutidas pelos líderes europeus.

A mais importante decisão a ser tomada será a possibilidade de serem utilizados os recursos do Feef para cobertura parcial de risco de crédito nos bônus emitidos pelos países europeus.

Esse mecanismo permitirá transformar os € 440 bilhões do Feef em mais de € 1 trilhão em garantia para os investidores no futuro. Uma decisão inteligente, mas que precisa ainda de aceitação pelos conservadores políticos alemães.

Outro ponto relevante que terá de ser definido é uma rodada compulsória de aumento do capital dos bancos europeus -algo entre € 100 bilhões e € 200 bilhões- para permitir a absorção dos prejuízos com os títulos dos países mais endividados -como Grécia e Portugal- no caso de uma quase certa moratória.

Nesses dois casos, deverá haver uma redução de pelo menos 50% no valor original dos títulos em circulação para adequar o tamanho da dívida pública a sua capacidade de pagamento.

Mas, para que isso possa ocorrer, sem que uma crise sistêmica seja criada -afetando principalmente Espanha e Itália-, será necessário que a garantia do Feef esteja claramente definida e aceita pelos investidores. Minha expectativa é que esses dois pontos sejam aprovados e que um pouco de calma e racionalidade possa voltar ao mercado nas próximas semanas.

Entretanto, as incertezas e as dúvidas dos investidores devem manter a volatilidade dos principais ativos financeiros por mais algum tempo. Mas pelo menos os governos terão à sua disposição instrumentos mais efetivos para agir. A crise europeia, entretanto, ficará entre nós por um tempo bastante longo. Os ajustes que se farão necessários na maior parte dos países que usam o euro vão precisar de tempo para serem implementados com algum sucesso. Nos próximos anos a economia da velha Europa vai se parecer muito com a do Japão depois da bolha imobiliária dos anos 1980.

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 68, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Incorporadora construirá 12 hotéis no interior do RJ
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 21/10/11

A NEP Incorporadora investirá R$ 400 milhões na construção de 12 hotéis em nove cidades do interior do Rio de Janeiro. Todas as obras serão lançadas nos próximos dois anos. Depois de anunciado, cada hotel deverá ser concluído em três anos.
Em janeiro de 2011, a empresa já havia divulgado a construção de outros 11 hotéis -um ainda não foi lançado. Todos esses empreendimentos da incorporadora no segmento hoteleiro devem somar um aporte entre R$ 650 milhões e R$ 700 milhões. Os hotéis serão voltados para o turismo de negócios e devem atender à crescente demanda da região originada pelas atividades do petróleo e da mineração, diz o o sócio da empresa Cyro Fidalgo. Duque de Caxias, Itaguaí, Itaboraí, Campos dos Goytacazes e Nova Iguaçu são algumas das cidades que receberão os empreendimentos. "O mercado percebeu que o interior do Estado nunca recebeu a devida atenção das incorporadoras, diferentemente do que ocorreu em São Paulo", afirma Fidalgo.
Segundo ele, cidades como Itaguaí e Duque de Caxias não tinham hotéis de luxo até o ano passado. O primeiro dessa série de empreendimentos será inaugurado no final do ano que vem. Terá dois hotéis e uma torre comercial. Outras duas obras serão concluídas em 2013 e mais duas em 2014.

NÚMEROS

R$ 150 mi
é o faturamento estimado da empresa para este ano

1.300
funcionários diretos

R$ 400 mi
será o investimento em 12 novos hotéis

5
obras em andamento

Rodoviário A Auto Viação Catarinense investiu R$ 15 milhões para renovar parte de sua frota, que agora conta com um total de 350 veículos. A empresa adquiriu 31 ônibus.

Plástico chique A Chanel é a nova cliente do plástico verde da Braskem. O produto, fabricado a partir do etanol de cana, deve substituir o polietileno convencional para aumentar o uso de matérias-primas sustentáveis na grife.

Exercício... A Escola de Educação Física da USP, o Sebrae e a marca de equipamentos de ginástica Movement fecharam parceria para criar um instituto em Pompeia (SP) para capacitar distribuidores e profissionais da área.

...monitorado Em uma primeira etapa, os participantes escolhidos pela Movement farão o curso gratuitamente.

NA CONTRAMÃO
A Keko, de acessórios para veículos, vai exportar capotas marítimas para a Alemanha. A companhia fechou contrato com a Volkswagen alemã para a venda de 1.700 unidades para caçambas. "A partir de 2012, a previsão é que sejam exportadas 2.100 capotas por semestre durante três a cinco anos", diz o presidente da companhia, Leandro Mantovani.
A empresa pretende dobrar o seu faturamento até 2015. Neste ano, o valor previsto é de R$ 110 milhões. Para atingir esse objetivo, foi inaugurada no início deste mês uma fábrica em Flores da Cunha (RS), com 21 mil m2 de área construída. "Investimos R$ 37 milhões, sendo R$ 12 milhões em equipamentos e tecnologia", afirma Mantovani. A companhia também produz engates de reboque, bagageiros, estribos e protetores frontais.

NATAL DURÁVEL
Cerca de 15,1% dos brasileiros pretendem comprar algum produto durável nos três últimos meses deste ano. A informação é de levantamento da Fecomércio-RJ. Trata-se da maior porcentagem registrada em um mês de setembro, desde a crise financeira global de 2008. Entre os produtos mais requisitados estão televisão e computador. Mais de 70% das famílias do país pretendem pagar suas compras de forma parcelada.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

MARIA ALICE SETUBAL - Até quando vamos tolerar desigualdades?


Até quando vamos tolerar desigualdades?
MARIA ALICE SETUBAL
FOLHA DE SP - 21/10/11

Temos a chance de fazer a revolução educacional que a sociedade demanda, mas para isso precisamos superar a aceitação das desigualdades


Não podemos aceitar como inevitáveis as cenas de guerra entre policiais, exército e moradores de comunidades vulneráveis a que assistimos diariamente pela mídia, assim como não é natural que grande parte da população sofra com falta de saneamento básico, vivendo em moradias precárias, em locais com poucos equipamentos de saúde, esportes e cultura, onde a violência e o tráfico de drogas denunciam a falta do Estado e de políticas públicas.

Não é normal que apenas 18,4% das crianças de zero a três anos tenham acesso à creche e que 25% das crianças de quatro a cinco anos estejam fora da educação infantil. É inadmissível que somente 51% dos jovens de 15 a 17 anos cursem o ensino médio. Ou ainda salas de aula fechadas por péssimas condições e Estados que não cumprem a lei do piso salarial dos professores, acordado em torno de R$ 1.200.

Enfim, não podemos permitir a perpetuação das desigualdades educacionais evidenciadas pelos resultados pífios de escolas de territórios de alta vulnerabilidade social das grandes metrópoles e de escolas dos pequenos municípios rurais nas avaliações nacionais.

E o que nós, cidadãos, empresas e organizações podemos fazer? Devemos nos unir para pressionar nossos governantes, para que façam valer o direito a uma educação de qualidade para todos.

Soluções isoladas não apresentam resultados efetivos e ainda aumentam as desigualdades, caso das empresas que investem na capacitação de seus funcionários como resposta ao "apagão da mão de obra" ou que abrem escolas de excelência para poucos afortunados.

Não é aceitável que tenhamos escolas boas para a classe média alta e escolas ruins para as crianças pobres. A educação de qualidade ainda é vista como privilégio de poucos. É natural querermos o melhor para os nossos filhos. Entretanto, se não reivindicarmos melhores escolas para todos, aumentaremos ainda mais o fosso da desigualdade na nossa sociedade.

Como parte dos países emergentes, o Brasil finalmente tem voz. No entanto, ainda não mostramos a que viemos e como podemos fazer a diferença e influenciar o mundo.

Muitos apontam que essa influência se dará pela riqueza da nossa biodiversidade e pela possibilidade de mostrarmos saídas para uma sociedade sustentável. Ou, ainda, pela nossa miscigenação, capacidade de articulação e diálogo para alcançar consensos e lidar com o diferente e, finalmente, nossa alegria e criatividade, dimensões cada vez mais valorizadas no mundo contemporâneo. Nesse cenário, a educação tem um papel primordial.

Priorizar a educação é nos indignarmos com o fato de não garantirmos ainda que nossas crianças e jovens tenham uma aprendizagem adequada. É incorporarmos de forma radical, como fizeram Xangai, Finlândia e Canadá, primeiros colocados nas avaliações educacionais internacionais, o direito de cada um e de todos a uma educação de qualidade e que responda aos desafios do século 21.

Para isso são necessários professores bem formados e comprometidos e, sobretudo, gestores que desenhem políticas e deem as condições necessárias para que as escolas possam cumprir suas metas.

Obviamente, isso exige recursos para a qualidade das instalações, dos profissionais e dos materiais didáticos. Temos a chance de fazer a revolução educacional que a sociedade brasileira demanda, e temos valores que podem viabilizar um modelo educacional consistente com o mundo contemporâneo.

O que precisamos é superar a aceitação das desigualdades, nos unirmos na indignação e fazermos valer o direito de todos a uma escola pública de qualidade.



MARIA ALICE SETUBAL, doutora em psicologia da educação pela PUC-SP, é presidente dos conselhos do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária, da Fundação Tide Setubal e do IDS - Instituto Democracia e Sustentabilidade.

ODILON GUEDES - Quanto mais pobre o cidadão, mais impostos


Quanto mais pobre o cidadão, mais impostos
ODILON GUEDES
VALOR ECONÔMICO - 21/10/11

A partir da declaração do megainvestidor americano Warren Buffett, a terceira maior fortuna do mundo, pedindo aumento dos impostos para os mais ricos nos Estados Unidos, vários milionários europeus também passaram a defender essa medida naquele continente. Nesse contexto, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, encaminhou ao Parlamento proposta para que os ricos que tenham renda anual acima de € 500 mil passem a pagar uma sobretaxa provisória de 3%.

Esse fato é um bom motivo para discutirmos a carga tributária brasileira, já que nosso país é um dos mais injustos do planeta na cobrança da tributação. Os mais pobres são quem paga, proporcionalmente, mais tributos no Brasil, e não os ricos.

Nesse contexto, é importante lembrar que há um projeto de reforma tributária na Câmara dos Deputados que permanece "adormecido", aliás, como ocorreu com todos os outros elaborados nos últimos anos no Brasil. O debate em torno desse assunto no país acaba centrado em grande parte no aspecto da diminuição dos impostos porque a carga tributária é alta em relação aos serviços que o Estado oferece. Os que mais defendem a diminuição dessa carga são os empresários, baseados no argumento de que pagando muitos impostos seus negócios são dificultados. Fica praticamente excluída do debate a maioria da população brasileira e, principalmente, sua camada mais pobre - proporcionalmente a que paga mais impostos -, que não tem a menor ideia de quanto eles pesam no seu bolso.

Estudos desenvolvidos pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) comprovam claramente tal situação. Segundo um levantamento de 2008, pessoas cuja renda mensal familiar alcançava até dois salários mínimos comprometiam 53,9% de seus ganhos com o pagamento de tributos, enquanto que outras, com renda superior a 30 salários mínimos, comprometiam apenas 29%.

Outro dado de destaque nesse estudo do Ipea: um trabalhador que recebia até dois salários mínimos precisava trabalhar 197 dias para pagar os tributos, enquanto outro que ganhava mais de 30 precisava de três meses a menos de trabalho, ou exatos 106 dias.

Essa situação ocorre porque cerca de 50% da nossa carga tributária é indireta, isto é, incide sobre o consumo, atingindo indiscriminadamente toda a população, independentemente da renda e da riqueza de cada um. A cobrança da maioria dos tributos vem embutida no preço final das mercadorias. Vejamos um exemplo significativo:

Um cidadão que ganha R$ 1 mil por mês e coloca R$ 100 de gasolina no tanque do seu carro está pagando R$ 53 de impostos. Enquanto outro que ganha R$ 30 mil e abastece o tanque pelo mesmo valor também paga os mesmos R$ 53, levando isso à injustiça apontada.

Nos países capitalistas desenvolvidos, ao contrário daqui, a maior parte da carga tributária é direta e recai sobre a renda, a riqueza, a propriedade e a herança. Esses critérios são mais justos do que os existentes no Brasil porque tributa diretamente quem ganha mais e tem melhores condições de pagamento.

Segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), nos Estados Unidos a renda é responsável por 49% da carga tributária. Se comparado com o Brasil, que é de 19%, naquele país é 150% maior que a nossa. A média desse tributo nos países pertencentes à OCDE é de 37%, quase 50% maior que a brasileira.

Sobre a propriedade a carga americana é 10%, cerca de três vezes maior que a brasileira, que é de 3%. Na OCDE a média desse tributo é 6%, o dobro da nossa. Em relação ao consumo, ocorre justamente o inverso. Enquanto na carga tributária brasileira esse tipo de tributos representa em torno de 47%, na americana representam 16% e na OCDE ela representa na média, 37% do total. Esses dados confirmam que nos países desenvolvidos há muito mais justiça tributária que no Brasil.

Dois exemplos ilustram as diferenças entre aqueles países e o Brasil. Na Inglaterra, por exemplo, o imposto sobre a herança é cobrado há mais de 300 anos. Quando da morte da princesa Diana, em 1997, os jornais noticiaram que o fisco inglês cobrou de sua herança o imposto de US$ 15 milhões, metade dos US$ 30 milhões deixados para seus filhos. Naquele país, a taxação é apoiada até mesmo pelos conservadores. Segundo matéria da revista "Veja", publicada em setembro de 2007, o primeiro-ministro inglês Winston Churchil, que conduziu a Inglaterra na luta contra os nazistas, costumava dizer que o imposto sobre a herança era infalível para evitar a proliferação de "ricos indolentes". Por outro lado, no Brasil, o Imposto Territorial Rural - ITR arrecadado em todo o ano de 2007 e em todo território nacional, foi menor do que dois meses de arrecadação do IPTU da cidade de São Paulo. Esses dados falam por si.

Não há dúvida que esse é um tema delicado e já causou ou foi pretexto para inúmeras revoluções. Dois exemplos são significativos. A data nacional da independência americana, 4 de julho, faz lembrar que uma das razões que foram amadurecendo para o início da guerra de libertação foi a cobrança de impostos como o Sugar Act (1764), do Stamp Act (1765) e o Tea Act (Lei do Chá, 1773). No Brasil, a Inconfidência Mineira, tentativa de libertar o Brasil de Portugal, que resultou no enforcamento do herói Tiradentes e no desterro das lideranças envolvidas no movimento, teve como motivo principal da revolta a "derrama", isto é, a cobrança de impostos atrasados feita pelos colonizadores portugueses aos moradores de Minas Gerais.

Diante dessa realidade, é necessário e urgente abrir um espaço na mídia e na sociedade brasileira para discutir a enorme injustiça que há entre nós e, consequentemente a necessidade de aprovação de uma reforma em que os tributos diretos pesem mais que os tributos indiretos na composição da carga tributária. Isso significaria uma das formas mais importantes de redistribuir a renda entre nós.

Finalmente cabe uma pergunta: por que no Brasil os banqueiros, grande empresários do agronegócio, das empresas nacionais e multinacionais, não tomam a iniciativa que foi tomada pelos ricos nos EUA e na Europa, isto é, propõem uma sobretaxa sobre seus ganhos?

Odilon Guedes é mestre em economia pela PUC/SP. Professor universitário e membro do Conselho Regional de Economia-SP. Foi presidente do Sindicato dos Economistas no Estado de São Paulo, vereador e subprefeito de São Paulo.

CLAUDIO HUMBERTO

“Não se pode demonizar partidos que lutaram pela democracia”
PRESIDENTE DILMA NEGANDO A INTENÇÃO DE AFASTAR O PCDOB DE SUA BASE DE APOIO 

CGU PEDIU, E MPF E PF NÃO INVESTIGARAM ORLANDO 
A Controladoria-Geral da União pediu há três anos ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal para investigar o comando do Ministério do Esporte sobre desvios do Programa Segundo Tempo. O primeiro relatório da CGU foi enviado em 6 de outubro de 2008 para o MPF. À PF, a investigação foi solicitada em 19 de março de 2009. A CGU se queixa de que ambos ignoraram os fortes indícios relatados.

SEM XADREZ 
Somente em 2010 a Polícia Federal começou a apurar os desvios da Federação Paulista de Xadrez e na ONG Bola pra Frente.

PARALISIA 
Apesar de o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) haver anunciado que abriria inquérito para investigar Orlando Silva, nada foi oficializado.

SEI DE NADA.. 
O Ministério do Esporte não informou quanto já pagou este ano, e para quem, as bolsas do Segundo Tempo, apesar da insistência da coluna. 

PRELIMINAR 
Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, defensor de Orlando Silva, pediu ao procurador-geral para ouvir o ministro antes de abrir inquérito.

PCDOB JÁ EXAMINA SUBSTITUTOS DE ORLANDO SILVA 
Apesar do aval da presidente Dilma, ontem, em Luanda, o PCdoB se prepara com discrição para a eventual necessidade de substituir Orlando Silva no Ministério do Esporte. O partido pode indicar para o cargo um torcedor do Palmeiras, o deputado Aldo Rebelo (SP). A opção a Rebelo é o ex-deputado baiano Haroldo Lima, cujo mandato na presidência da Agência Nacional do Petróleo acaba em novembro. 

CORINGA 
O ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles também quer o lugar de Orlando Silva, marcando a adesão do seu PSD ao governo.

REI SEM TRONO 
Henrique Meirelles considera-se subutilizado na Autoridade Pública Olímpica. Sonha, como ministro, comandar a Copa e as Olimpíadas.

NA CONTA 
Entidade bancada pelo PCdoB, é a União da Juventude Socialista que promove o “tuitaço” #SouOrlandoSouBrasil no microblog.

OLHO NA GRANA 
Vai mal a relação entre o PCdoB e o PT, por uma razão muito simples: os petistas trabalham para derrubar Orlando Silva. Estão loucos para tomar o Ministério do Esporte e sua verba de R$ 14 bilhões até 2016.

SALDO VERMELHO 
A maioria dos deputados do PCdoB torrou mais a verba de representação em março, mês do carnaval. O gasto varia entre R$ 30 mil e R$ 60 mil. Perpétua Almeida (AC) foi a campeã, com R$ 66 mil.

COFRE FORTE 
A máquina de arrecadação milionária do PCdoB emperrou na Justiça Eleitoral de Blumenau (SC), que rejeitou por um ano as contas de 2010 do partido com o maior dízimo do país: 30%. Estavam zeradas. 

CONVENÇÃO 151 
Gabriel O Pensador será protagonista da campanha da Confederação dos Servidores Públicos do Brasil para regulamentar a Convenção 151, que cria regras para o trabalho no setor público, inclusive o direito de greve. Sexta (28), Dia do Servidor, ele fará show gratuito em Goiânia.

CARAVANA AÉREA 
Além do Airbus presidencial, a visita da presidente Dilma à África exigiu dois jatos da FAB fabricados pela Embraer, que a acompanharam de volta ao Brasil. Um deles, como reserva. Outro, para convidados.

OMISSÃO DA ANAC DÁ NISSO 
Empresas se aproveitaram da greve da Infraero, que pouco atrapalha, e fazem suas presepadas. Quarta, a Avianca cancelou o voo 6188, SP-Brasília, alegando “manutenção não programada”. As vítimas trocaram de avião, empresa e aeroporto, e chegaram ao destino 5 horas depois. 

MAGOOU 
A comitiva do governador Antonio Anastasia (PSDB) saiu magoada de Zurique. Esperava encerrar a Copa das Confederações em 2013. Ficou com Rio. BH ganhou uma semifinal e cinco jogos da Copa de 2014.

HAY QUE ENDURECER 
Enrolada no escândalo do Esporte, Karina Rodrigues, da ONG Pra Frente Brasil, era vereadora e quase deu voz de prisão a um advogado em Jaguariúna (SP) que questionava escolha de time do PCdoB para torneio na cidade, em 2010: “Liberdade de expressão tem limite”, disse.

PERGUNTA NO VELÓRIO 
Lula mandará ao menos uma coroa de flores Muammar Gaddafi, o tirano a quem chamou de “meu amigo, meu irmão e líder”? 

PODER SEM PUDOR
PORQUEIRA DE ADVOGADO 
A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, é conhecida pela simpatia e a espontaneidade. Ela fazia uma conferência em Brasília, certa vez, quando, bem-humorada, lembrou do ex-aluno que queria ser advogado para ganhar dinheiro e conhecer Miami. “O porqueira não conhece Mariana e queria ir para Miami!”, exclamou com graça, arrancando risadas da plateia.

SEXTA NOS JORNAIS



- Globo: O violento fim de um ditador


- Folha: Gaddafi é capturado e morto


- Estadão: Ditador Muamar Kadafi é morto


- Correio: Brasília será a capital da Copa


- Valor: Pessoa física tira R$ 5,4 bi da bolsa


- Jornal do Commercio: Cinco jogos e uma aposta


- Zero Hora: Decisão da Fifa emite alerta a Porto Alegre

quinta-feira, outubro 20, 2011

EDITORIAL O ESTADÃO - Alerta contra a censura


Alerta contra a censura
EDITORIAL 
O ESTADÃO - 20/10/11

Os relatórios apresentados e os debates a respeito da liberdade de imprensa no continente americano realizados durante a 67.ª Assembleia Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), encerrada terça-feira em Lima, Peru, colocaram em evidência que as ameaças ao direito da livre informação ainda existem no Brasil, mas a situação é muito mais grave, pela existência de uma censura praticamente sistêmica, em outros países como Venezuela, Bolívia, Equador e Argentina. Nesses países, os veículos de informação que não apoiam os respectivos governos são vítimas permanentes das mais variadas formas de perseguição política: censura judicial, pressão econômica, cassação de concessões, leis casuísticas que estabelecem restrições à livre divulgação de notícias e informações, etc. Esse quadro sombrio, se por um lado revela que o Brasil vive, comparativamente, um período de relativa tranquilidade em relação à liberdade de imprensa, por outro lado é um sinal de alerta sobre a necessidade de se preservar esse status diante da permanente ameaça representada por medidas de "democratização dos meios de comunicação", ou do "controle social da mídia", que os dirigentes do PT insistem em preconizar.
O relatório sobre o Brasil foi apresentado por Paulo de Tarso Nogueira, vice-presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa da entidade e consultor do Estado, que deu ênfase ao fato de mais quatro jornalistas brasileiros terem sido assassinados nos últimos seis meses, todos eles envolvidos na investigação de denúncias de corrupção contra autoridades locais. Além disso, Nogueira relatou outros 21 episódios: 2 prisões, 8 agressões físicas, 2 atentados, 3 casos de abuso de poder e 6 outros de censura judicial. Dentre os últimos, destacou a censura judicial que durante meses impediu que o Estado divulgasse informações sobre a Operação Boi Barrica, da Polícia Federal, que envolveu a família e os interesses do senador José Sarney. De acordo com o relatório do representante brasileiro, "é crescente a ampliação do poder discricionário de magistrados, especialmente os de 1.º grau, no julgamento de ações de antecipação de tutela e direito de resposta", o que acaba resultando em flagrante violação da liberdade da imprensa.
Os casos mais graves de censura à imprensa relatados à SIP ocorreram em países dominados por regimes populistas, todos eles praticantes sistemáticos de violações aos direitos humanos levadas a cabo em nome de ideias "libertárias". Sem mencionar Cuba, onde nem sequer existem veículos de comunicação independentes do partido único e do governo, os exemplos mais flagrante de violação do direito à informação - um dos direitos humanos fundamentais - vêm de países dominados por caudilhos adeptos do "socialismo bolivariano" - Venezuela, Bolívia, Equador - ou de populistas, como é o caso da presidente argentina, Cristina Kirchner, cuja ação política é movida por um remoto ideal peronista recondicionado por seu finado antecessor e marido, Néstor Kirchner. 
O novo presidente da SIP, o norte-americano Milton Coleman, cidadão de um país onde a liberdade de imprensa é amplamente praticada e respeitada, sob a garantia da Primeira Emenda constitucional, tem muito claras as dificuldades que enfrentará com o tema, por conta da fragilidade das instituições democráticas em muitos países latino-americanos: "Em muitos lugares da América Latina estamos sendo desafiados por governos que querem reduzir os direitos da sociedade de se informar". Para enfrentar esse desafio, aponta alguns caminhos: "Temos de operar mais com as mídias sociais. Achar meios para enfrentar os governos autoritários, que tentam esconder do povo o fato de que, sem imprensa livre, a democracia não pode existir". E concluiu, em entrevista ao repórter Gabriel Manzano, do Estado: "Temos de estabelecer os direitos humanos como parte dos direitos civis. Depois de estabelecê-los, defendê-los. Lembro uma frase de Thomas Jefferson. Ele disse que, se tivesse de escolher entre um governo sem jornais ou jornais sem governo, ficava com a segunda opção".