quarta-feira, outubro 19, 2011

LULI RADFAHRER - Do amor e da baixa autoestima



Do amor e da baixa autoestima
LULI RADFAHRER
FOLHA DE SP - 19/10/11

HÁ um quê de Ayrton Senna, de Lady Di, na dor que sucedeu a morte de Steve Jobs.
A morte, em si, não surpreendeu. A doença era grave, e o biótipo minguante não deixava dúvidas de que o fim estaria próximo. É certo que as circunstâncias que a antecederam tiveram um jeitão de Tancredo. Pois, se morrer no dia seguinte à estreia do sucessor, no lançamento de um produto crucial, já levantaria suspeitas de um acordo divino, deixar os palcos por e-mail, sem apoteose, justo ele que era o rei dos keynotes, é no mínimo um anticlímax.
Mas foi o tamanho da repercussão que me impressionou. Chegou a lembrar a comoção nacional por Ayrton Senna. A multidão que acompanhou seu corpo na 23 de Maio não dizia respeito à morte de um esportista arrojado, que pilotava com o brilho de um Gilles Villeneuve e a coragem de um Niki Lauda. Chorava-se a morte daquele que simbolizava o amor à pátria. Nunca mais a Fórmula 1 teve o mesmo gosto.
Três anos mais tarde morria Lady Diana, princesa de Gales. Desde seu casamento em 1981, a moça mostrava às mulheres que era possível ser bela e influente sem ser Maria Antonieta. Sua história, eviscerada pela mídia pré-Facebook, era um exemplo de elegância e rebeldia contra um sistema poderosíssimo.
Seria tão fácil e esperado baixar a cabeça, suportar a amante e posar sorrindo para as fotos oficiais. Mas ela resistiu e canalizou atitudes e desejos de uma independência que, se longe de ser universal, pelo menos está muito melhor do que a época das Jeannies e das secretárias de "Mad Men".
O mundo é certamente mais duro sem eles. Mas... e Jobs? Por mais que seu estilo de vestimenta e rebeldia lembrassem um James Dean ou Kurt Cobain, ele não tinha nada de Amy Winehouse. Seu histórico não era diferente do de tantos ex-hippies, sem curso superior completo, financiados pelos ciclos de prosperidade da Costa Oeste americana.
Suas batalhas eram ousadas, mas não demandavam risco de morte a ponto de pilotar um bólido em alta velocidade de olhos fechados só para não perder a visão do túnel de Mônaco. Em seu histórico, a única vez que peitou sozinho um sistema maior do que ele, acabou demitido.
Os depoimentos comoventes que se seguiram ao anúncio de sua morte não eram histórias de sucesso ou consumo, mas de amor. Um amor diferente daquele embalado pelas músicas de um John Lennon ou pelos poemas de um Vinicius de Moraes. Um amor mediado por coisas e correspondido por elas.
A maioria dos que lamentaram sua perda não chorava pela morte do Papai Noel que materializava os sonhos mais lindos, mas sofria pelo triste fim daquele que foi o pai de objetos diferentes. Dele nasceram os primeiros produtos de consumo de massa a serem colocados no mercado incompletos, frágeis, dependentes e cheios de manias, como tamagotchis de estimação.
Computadores com a personalidade ideal para acolher indivíduos modernos e antenados, ao mesmo tempo conectados e sós, poderosos e carentes, independentes e isolados, que terceirizavam parte da autoestima, perdida pelo excesso de trabalho, para máquinas que, mesmo incapazes de compreendê-los, pareciam ouvi-los. Máquinas que, após a invenção desses dispositivos de relacionamento, nunca mais foram as mesmas. Os vínculos que criam, ao contrário da vida de Jobs, jamais serão interrompidos

BRAZIU: O PUTEIRO


MARCELO COELHO - Chanel nº 7124


Chanel nº 7124
MARCELO COELHO
FOLHA DE SP - 19/10/11

Hal Vaughan tem 83 anos, é um americano gordinho e rosado, e usa um bigode aparado e bem branco. Estaria no papel perfeito de um vovô contando histórias para os netinhos, num filme da Disney.
Mas o que ele narra, no livro "Dormindo com o Inimigo" (editora Companhia das Letras), não é nada edificante. Era uma vez uma menina pobre, muito bonitinha e magrinha, chamada Gabrielle. Sua mãe morre cedo. O pai entrega-a aos cuidados das freiras num orfanato e nunca mais irá visitá-la.
Ao completar 18 anos, Gabrielle terá de se virar pelo mundo. Em pouco tempo, começa a cantar num cabaré, numa pequena cidade do interior da França. Estamos nos primeiros anos do século 20.
Surge um príncipe encantado, com castelo e tudo. Étienne Balsan acha graça quando Gabrielle canta "cocoricó" no seu número de café-concerto e não se importa muito em partilhar a jovenzinha com seus amigos ricaços.
Surge o segundo príncipe encantado, um milionário inglês chamado "Boy" Capel, que será sua grande paixão. "Coco", como Gabrielle passou a ser chamada, passa a conhecer a elegância britânica, a sobriedade das roupas esportivas, o conforto dos tecidos de malha e, sobretudo, um novo padrão para a estética feminina.
Em vez daquela opulência hormonal, emplumada e frufrulejante da "belle époque" parisiense, Coco passou a adotar um estilo mais seco, sem curvas, próximo daquela androginia adolescente que tantos ingleses, sem dúvida, começam a apreciar nos dormitórios do colégio interno.
A austeridade do orfanato católico francês transmutava-se em "classe" ao estilo inglês -e a pequena Gabrielle agora tratava de mudar a história da moda do século 20, atendendo pelo nome de Coco Chanel. Esse, contudo, é apenas o começo da história contada por Hal Vaughan em "Dormindo com o Inimigo".
Outros príncipes encantados apareceriam na vida de Chanel. Um arquiduque russo; o duque de Westminster, que, na época (já estamos por volta de 1925), era o homem mais rico da Inglaterra; por fim, um barão nazista.
Bem antes de Hitler, Hans Günther von Dincklage já trabalhava para o serviço secreto alemão. Veio a guerra, a França foi ocupada pelos alemães, houve quem resistisse ao nazismo e houve quem colaborasse com o inimigo.
Chanel se alinhou firmemente ao segundo grupo. Era de um antissemitismo atroz. Quis aproveitar-se do poder nazista para recuperar seus direitos sobre o perfume Chanel nº 5, fabricado por empresários judeus. Manteve seus apartamentos no Ritz, quando poucos franceses eram admitidos no hotel -prioridade de hospedagem para Goering e companhia.
Hal Vaughan descobriu mais coisas. Na qualidade de agente F-7124, do serviço secreto nazista, Chanel participou de duas missões diplomáticas em prol dos interesses alemães.
Não é nada bonito, mas não é tão escandaloso quanto Hal Vaughan quer que pareça. Não há indício de que Chanel tenha revelado segredos ou denunciado alguém. Suas duas missões com Dincklage tinham o propósito de sondar, à revelia de Hitler, as condições de uma paz em separado com a Inglaterra. Não foram além de conversas inconclusivas com diplomatas sem importância. Chanel parecia estar mais interessada em resolver o problema de um sobrinho, preso pelos alemães, e de uma amiga inglesa, suspeita de espionagem.
E, como sempre, estava interessada nela mesma: em manter-se ao lado dos poderosos do momento. Foi assim que passou a vida toda. O caso de Chanel interessa menos pelas revelações de Vaughan do que pelo que tem de instrutivo quanto ao antissemitismo da personagem. Dotada de determinação implacável, de agudo senso comercial, de grande talento, Chanel foi admitida nas rodas mais exclusivas da Europa -mas nenhum nobre ou milionário haveria de casar-se com ela. Sem nenhum "pedigree", ensinou, mais do que a elegância, a qualidade da "distinção" para mulheres mais bem-nascidas do que ela.
Tinha tudo para ser uma duquesa; mas sua origem familiar a impedia disso. Tinha todas as qualidades e os defeitos que os antissemitas atribuem aos judeus; mas não era judia.
"Só uma coisa faz com que eu não seja igual a uma judia: sou antissemita": essa a oração secreta que Chanel, depois de uma noitada com barões, marqueses e nazistas, devia pronunciar entre os biombos de seus aposentos no Ritz.

ROBERTO DaMATTA - Metáforas, Brasil e futebol



Metáforas, Brasil e futebol
ROBERTO DaMATTA
O Globo - 19/10/2011

O título parece complicado, mas não é. Metáforas são figuras de linguagem que substituem uma coisa por outra. São indispensáveis na expressão da vida. Por exemplo: o coração, que é um órgão do corpo humano passível de cirurgia, palpitação e substituição, é uma metáfora do amor - essa "coisa" também cheia de truques que escapa dos procedimentos objetivos e tem regras que, como dizia o grande Pascal (e o cada vez mais atual Freud), ele não suspeita. Há, li outro dia no "The New York Times", um debate se as carruagens devem ser mantidas ou não em Manhattan. Como toda metáfora, elas são um contrassenso. Pois quem colocaria a "mão no fogo pelo governo" que recebeu, mas não se livra, dessa onda de pobreza intelectual, de ausência de percepção institucional e sociológica que abunda hoje no Brasil? E quem seria capaz de defender carruagens neste mundo contemporâneo onde existe um índice (e logo um marco regulatório) para a felicidade e para a atividade sexual?

Carruagens num mundo de trens, aviões e automóveis são algo tão anacrônico, tanto quanto as "liturgias", como diz Sarney, que, no Brasil, gastamos para manter certos cargos e estruturas governamentais configuradas pela nossa vocação aristocrática. Mas - como toda metáfora - as carruagens não são meios para fins, são - como os salários e as sinecuras dos nossos governantes - fins para meios. Elas ritualizam, tal como fazem os exageros e as anedotas, o modo de viajar não dando a mínima para o elo direto ou racional entre meios e fins. Por isso você pega um carro quando está com pressa e entra numa carruagem em Manhattan quando quer criar um clima romântico e viver um gozo que lhe confirma o sofrimento no qual você estava engolfado.

Vamos de bonde?

Não, vamos a pé...

Eu, esse vosso cronista confuso, misto de acadêmico marginal e escritor bastardo, produzi exatamente essa resposta em algum dia de 1951, em Juiz de Fora, quando fui buscar a Zelinha no ensaio do teatro do colégio em que ela estudava. Era um dia chuvoso e nós andamos da Rua Halfeld até o Alto dos Passos debaixo de um mesmo guarda-chuva, o que me permitia ficar fisicamente próximo do ser idolatrado.

Preferi o caminhar (que é velho e lento) ao bonde (que, naqueles tempos antigos, era veloz e confortável). Mas, em compensação o "passeio" sinônimo do andar sem rumo - metáfora do andar lado a lado -, essa raridade, esse caminhar junto (metafórico do peregrinar, do pertencer e do estar com o outro), subvertia os meios e os fins como a melhor prova de que estava apaixonado, tal como eu hoje enxergo que são essas substituições que nos tornam humanos. Só nós podemos realizá-las. Nem os anjos (que são perfeitos, mas não se reproduzem) nem animais (que são imperfeitos e se reproduzem além da conta) sabem o que é esse pertencer sofrido que vem de dentro para fora - como exprime o coração humano que está dentro e, ao mesmo tempo fora de nós.

Entendem-se, então, as carruagens e as liturgias de Sarney. Elas não estão ali para transportar ou ajudar a servir melhor o povo e a sociedade, mas para criar um clima romântico e para garantir uma opulência que beira ao desperdício - esse mal do Brasil. Num caso, a lentidão que faz da disciplina amorosa e romântica; no outro, a transformação do republicano num reino de Jambon onde poucos comem muito sem fazer nada e muitos comem pouco fazendo tudo.

Eu estou convencido que o futebol, inventado à revelia pelos brilhantes e reprimidos ingleses do período vitoriano, é uma das mais recorrentes metáforas da vida (e dos seus dilemas) tal como ela é idealizada entre nós. Nele, queremos o futebol "arte", o estilo dionisíaco de Gilberto Freyre e malandro - cheio de jogo de cintura, como mostrei faz tempo, mas exigimos "resultados" e "objetividade": no caso, muitos gols. Eis o dilema: como conciliar o belo com o técnico. Como ajudar o povo sem impedir que uma centralização neostalinista voltada para permanecer no poder produza fraudes, corrupção e impunidade? Como misturar um estilo de jogo personalístico, baseado na superexcelência de alguns craques que reinventam uma aristocracia no campo, com o jogo com e pelo time, que, como enfatizam os nossos teóricos do futebol, levam a uma identidade social especifica - essa marca das grandes seleções?

Em outras palavras, como submeter todos a regra da lei e da coletividade (o time) se não dispensamos os salvadores da pátria, os messias do futebol - os que salvam os jogos dando a vitória ao nosso Brasil, gente como Ademir, Zizinho, Rivelino, Zico e tantos outros, para não mencionar a realeza do Príncipe Didi e do Rei Pelé ou o "fenômeno" que era o nosso Ronaldo?

Eu me pergunto se essa busca da arte com (e não contra) a técnica; da justiça que vale para todos e leva à punição dos faltosos com a compaixão que distingue e perdoa; da lei universal que iguala com as amizades singulares que distinguem, não seriam as conjugações que implícita ou inconscientemente temos tentado declinar no Brasil. E se não é tempo de não tomar partido e saber de que lado nos situamos. Mas o que é que não cabe dentro de um sonho? E o futebol, como a poesia, é ótimo para sonhar e para revelar essa busca pelas causas perdidas. Ou para voltar ao começo, esse querer andar de carruagem em Manhattan.

RENATA LO PRETE - PAINEL


Caixa-preta
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 19/10/11

O inquérito da PF sobre o socorro ao PanAmericano revela que Luiz Gushiken manteve contato direto e frequente com o então presidente do banco tanto em 2009, quando este teve 49% de seu controle adquirido pela CEF, como em 2010, quando veio à tona o rombo de R$ 4,3 bi na instituição criada por Silvio Santos.
Entre os e-mails reproduzidos na peça policial, há um intitulado "igrejas evangélicas", no qual o ex-ministro de Lula pede a Rafael Palladino que as "reuniões de fechamento" com a 1ª Igreja do Evangelho Quadrangular de Paulínia e "outras congêneres" ocorram somente com sua "anuência" e "participação".

Amigo... Gushiken pretendia, segundo suas palavras, "evitar o by passe (sic)". O e-mail é de junho de 2010, cinco meses antes da quebra do banco. Embora tenha recebido respostas reasseguradoras, o petista voltou a escrever a Palladino em julho para se queixar: "Pergunto-lhe por que razão estou excluído das tratativas". O contexto da conversa sugere que se trate de contratos de crédito consignado.

...estou aqui O ex-titular da Secom, que mesmo depois de deixar o governo no rastro do mensalão manteve influência sobre fundos de pensão, prestou ao PanAmericano uma consultoria em bases jamais esclarecidas. Em e-mail de março de 2009, Palladino pede a subordinados a compra de um "brinde para o sr. Luiz Gushiken".

Outro lado O Painel não conseguiu falar ontem com Gushiken, que está em tratamento quimioterápico.

O chamado Repetindo gesto de outras crises do governo Dilma, Lula telefonou para Orlando Silva na manhã de ontem. Orientou seu ex-ministro a resistir, seguindo a linha do "um bandido como esse não pode te derrubar".

Jogo combinado O ministro do Esporte foi à Câmara ontem instruído por aliados a fazer agrados sutis à bancada da bola, afinadíssima com Ricardo Teixeira.

Audiofobia Pela primeira vez desde o início da crise, um sinal de alerta se acendeu no Planalto diante dos relatos feitos pelo PM João Dias Ferreira à oposição sobre o conteúdo de suposta gravação que comprometeria Orlando.

Na trave Indicativo do grau de suspeição no Planalto de que a CBF esteja por trás da pressão contra Orlando: ontem, informalmente, alguém sugeriu que Dilma escalasse Romário (PSB-RJ) para o ministério. Razão da espuma: o ex-jogador é um dos poucos integrantes da bancada da bola em rota de colisão com Ricardo Teixeira.

Entre nós Integrantes do PC do B procuraram a oposição ontem, pouco antes do depoimento de Orlando Silva no Congresso: "Isso é apenas guerra interna do DF. Vocês não vão entrar nessa, vão?"

Reduto Em Campinas, onde Orlando Silva comprou terreno por R$ 370 mil, a Câmara estuda convidar Gustavo Petta (PC do B), secretário municipal de Esportes e cunhado do ministro, para explicar os investimentos do Segundo Tempo na cidade.

Palanque Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab decidiram ir ao Itaquerão amanhã, onde assistirão pela TV, ao lado de operários, ao anúncio da sede da abertura da Copa.

Cardápio O almoço para os chefes de Estado e de governo do Ibas, do qual Dilma participou ontem em Pretória, incluiu rabada. O prato foi servido pela primeira vez numa cúpula de alto nível. Havia também frango assado e peixe ao molho curry, além de arroz e saladas.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio

"Kassab e outros aliados são bem-vindos, mas o PSDB sempre teve candidato próprio a prefeito em São Paulo e, com toda a certeza, terá um nome disputando a eleição em 2012."
DO PRESIDENTE ESTADUAL TUCANO, PEDRO TOBIAS, refutando, na contramão de parte de seus correligionários, a possibilidade de o partido ceder a cabeça da chapa em aliança com o PSD, sigla criada pelo prefeito.

contraponto

Questão de sobrenome


Cercado por aliados ao final de evento no Palácio dos Bandeirantes, Geraldo Alckmin discorria sobre o empenho do prefeito de Jundiaí, o também tucano Miguel Haddad, em busca de verbas do governo para sua cidade.
-Na França, há nos ônibus um cartaz: "Roga-se a fidalguia de não falar com o motorista". Na Alemanha, o aviso é: "Proibido conversar com o condutor". Na Rússia: "Conversa com o motorista é punida com detenção". Os árabes, como o 'brimo' Haddad, preferem perguntar: "O que você ganha falando com o motorista?".

ALDO REBELO - O impasse boliviano


O impasse boliviano
ALDO REBELO
O Estado de S.Paulo - 19/10/11

Os dissabores que o presidente Evo Morales está enfrentando na Bolívia decorrem diretamente de seu erro de privilegiar as etnias em prejuízo da nação. De origem indígena, ou, para usar os termos da moda, oriundo do povo originário aimará, Morales caiu no canto da sereia do multiculturalismo e apoiou a institucionalização, como inscrito na Constituição da República, de um "Estado Plurinacional", "intercultural", repartido em "comunidades" descentralizadas e autônomas. O vice-presidente García Linera traduziu essa formação complexa como "uma nação de nações".

Nações diversas incrustadas num Estado tolhido de exercer a soberania nacional plena sobre o seu território forjam incidentes como o que a Bolívia atravessa. O governo da República sente a fraqueza do poder central ao ser confrontado por nações comunitárias que impedem a passagem de uma rodovia pelo Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis). Trata-se de um projeto de desenvolvimento nacional, mas três etnias em particular - moxeños, yurakarés e chimanes, que reúnem cerca de 13 mil indivíduos - reagem como se as terras que ocupam fossem autônomas, e não parte do território nacional boliviano e, portanto, sujeitas ao controle da nação e às diretrizes do Estado.

A institucionalização de um Estado multinacional é uma experiência contraditória com a noção histórica de que uma nação pode conter minorias e diversidade de toda ordem - étnica, cultural, política, etc. -, mas não pode permitir que elas concorram entre si de modo a impedir a formação de uma identidade comum. Ao contrário, o Estado só merecerá esse nome se se sustentar na unidade nacional mais ampla, ou seja, como expressão de um país soberano cuja organização política contemple o sentimento de comunidade em que a nação é uma só. O conjunto das instituições (governo, forças armadas, administração) há de ter o largo alcance da isonomia plena e indistinta, mesmo quando Estados confederados reúnem várias nações.

O risco das autonomias nacionais baseadas em minorias instalou-se na Bolívia a despeito de o partido de Evo Morales, o Movimento para o Socialismo (MAS), ter superado em sua plataforma eleitoral o equívoco do indianismo excludente. Grosso modo, a maioria de origem indígena - que constitui dois terços da população boliviana, de aproximadamente 10 milhões de pessoas - não tem a suposta unidade que lhe é atribuída. Descende dos aimarás do altiplano e dos quíchuas dos vales, permeados ou apartados de 36 grupos étnicos andinos e amazônicos, os quais - em graus e com força diferentes - se identificam como povos distintos e são estimulados a reivindicar o status de nação. Só a centralidade da questão nacional, e jamais a fragmentação étnica, tem condições de unificá-los em torno da identidade agregadora que forja a nação.

O presidente Evo Morales, já eleito duas vezes, venceu batalhas importantes, como a nacionalização do petróleo e do gás, e resistiu às tentativas de separatismo dos Departamentos mais importantes, como Santa Cruz, Pando, Beni e Tarija. Mas é em seu campo ideológico que trava o combate mais difícil. Sua popularidade sangra nas ruas e o governo implode e se desestabiliza na proporção em que a arquitetura das etnias autônomas é apropriada e reformatada pela oposição, por dissidências e por interesses externos.

Na doutrina política, tais forças parecem nostálgicas do comunismo primitivo, cuja "economia doméstica", como observou o filósofo alemão Friedrich Engels no estudo clássico A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, teve importância até "a fase média da barbárie". Estradas, energia, máquinas, ciências, todo o processo civilizatório da humanidade é rejeitado como contaminação do modo de vida indígena, raptando-lhe a pureza original.

Querem conservar o saber e a cosmogonia dos povos originários não a par, respeitados como devem ser, mas em protagonismo hostil ao desenvolvimento das forças produtivas. O progresso não é aceito como caminho para outras formas avançadas de organização política da sociedade. Negam a integração nacional, a superação da pobreza pelo desenvolvimento, a modernização do campo semifeudal e a industrialização das cidades. Tudo o que não é autóctone se transfigura em miragem do Ocidente decadente, em confronto com o brilho remoto do Império Inca.

O grande vetor contemporâneo dessa doutrina regressista é o ambientalismo deformado, por ironia, originário de países desenvolvidos onde o Estado nacional jamais é posto em xeque, as populações aborígines foram dizimadas e o modo de vida perdulário esgota a natureza. Daí que o episódio em curso na Bolívia não é inocente nem espontâneo, mas uma onda que nasce nas águas turvas do equívoco étnico interno para virar um tsunami geopolítico ao gosto de quem tem interesses contrariados e se alia ao mais fraco por saber que poderá submetê-lo mais tarde, como já o fizeram em enumeráveis processos de colonização. O braço executivo dessas articulações são organizações não governamentais (ONGs) que constituem o já chamado imperialismo verde - da mesma natureza das que atuam no Brasil, conferindo a tribos da Amazônia um suposto caráter de minorias oprimidas pelo "colonialismo interno" da Nação.

Tal como lá, aqui o Estado também perde a soberania para dispor do território. Já tropeçamos nos conceitos de povos e nações indígenas, garantindo-lhes extensas áreas para usufruto exclusivo em zonas de fronteira, como as reservas dos ianomâmis e a de Raposa-Serra do Sol, na Amazônia. Já não é fácil asfaltar uma estrada ou construir hidrelétricas - obras de valor nacional satanizadas como violadoras da mãe natureza e da pureza dos povos originários.

ROLF KUNTZ - Dilma, a gerente omissa



Dilma, a gerente omissa
ROLF KUNTZ
O Estado de S.Paulo - 19/10/11

Tão assustadora quanto a bandalheira no Ministério do Esporte é a demora da presidente Dilma Rousseff em pegar a vassoura, mais uma vez, para avançar na limpeza da administração. Se quisesse, teria tido excelentes motivos para demitir o ministro Orlando Silva há muito tempo. Errou ao mantê-lo, e erra de novo, agora, ao tratar o escândalo da semana como conflito entre um acusador, o policial João Dias Ferreira, e o ministro. Esse confronto é só um episódio a mais de uma longa história de irregularidades, iniciada na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As denúncias divulgadas no fim de semana pela revista Veja acrescentaram detalhes importantes àquela história, mas não surpreenderam.

A presidente deveria ser mais cuidadosa ao adotar o discurso da presunção da inocência, recitado numa entrevista na África do Sul. Em primeiro lugar, critérios desse tipo nunca foram valorizados pelos petistas, quando estavam na oposição. Acusar sem prova era parte de sua rotina. No poder, acrescentaram a essa especialidade a elaboração de dossiês falsos. Em segundo lugar, e este é o ponto mais importante, sobram evidências, há muito tempo, de graves desmandos na área do Ministério. Não está claro se a presidente ignorava esses fatos ou se os considera irrelevantes.

Qualquer dessas possibilidades é inquietante. A primeira seria um indício de inaceitável desatenção. Como chefe da Casa Civil, no governo anterior, e como presidente, a partir de janeiro de 2011, ela deveria ser sempre atenta aos sinais de problemas na administração. Antes de ser nomeada madrinha do PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento, a ministra Rousseff já era apresentada como a grande gerente dos investimentos federais. A partir de 2007, quando o Brasil assumiu a tarefa de preparar a Copa do Mundo, ela deveria ter acompanhado de perto o Ministério do Esporte. Na Presidência, teria acertado se levasse em conta novos indícios, muito fortes, de falcatruas com dinheiro manejado pelo ministro Orlando Silva.

O Estado publicou neste ano várias denúncias de irregularidades com verbas fornecidas a entidades vinculadas ao PC do B. O material saiu nas edições de 20, 21 e 23 de fevereiro, 15 de abril e 31 de agosto. Um resumo das histórias apareceu no jornal nesta terça-feira. As matérias mostram fornecimento de verbas a entidades fantasmas e financiamentos destinados a ações nunca realizadas. Ou a presidente não lê jornais, ou o clipping destinado a seu gabinete é censurado, ou talvez ela tenha preferido olhar para outro lado.

Órgãos federais de controle, no entanto, ocuparam-se das irregularidades. Em 15 de abril, o Estado noticiou a promessa do Tribunal de Contas da União (TCU) de investigar os convênios firmados com a ONG Bola pra Frente. A Controladoria-Geral da União (CGU) também se envolveu. De 2006 ao primeiro semestre deste ano, a CGU determinou a devolução de R$ 26,5 milhões aplicados em 67 convênios com problemas, segundo noticiou nessa terça-feira a Folha de S.Paulo. De acordo com nota do Ministério, os pedidos de devolução refletem o trabalho constante de vigilância e a atenção à lei. Só essa piada bastaria para justificar a demissão do ministro e de sua equipe. Que vigilância, quando os órgãos de controle apontam irregularidades em 67 convênios?

A preferência a entidades vinculadas a um partido - no caso, o PC do B - já deveria escandalizar qualquer pessoa com algum senso de decência - ou, no mínimo, habituada às boas maneiras. Esses convênios foram expostos em matérias do Estado e na reportagem da Veja. Além disso, exemplos foram levantados pela organização Contas Abertas, especializada em finanças públicas. De 2006 a 2011, o Instituto de Cultura Ambiental recebeu R$ 5,5 milhões do programa Segundo Tempo. Seu primeiro tesoureiro é filiado ao partido, assim como o presidente do Instituto Contato, contemplado com "mais de R$ 20 milhões" entre 2007 e 2011.

Já seria notável a existência de tantas ONGs especializadas em educação e, de modo especial, em assistência, por meio do esporte, a crianças carentes. Mas notável, mesmo, é o número de entidades especializadas em assistência por meio do esporte e vinculadas ao PC do B. Nenhum desses fatos extraordinários terá jamais feito brilhar uma luz diante dos olhos da presidente Dilma Rousseff?

A briga entre o policial João Dias Ferreira e o ministro Orlando Silva, é bom repetir, é só um dado a mais numa epopeia bandalha. Se a presidente não agiu há mais tempo, foi porque não quis, porque não se escandalizou ou por uma desinformação digna do Guinness. Se não se cuidar, será tragada por esse pântano longamente preparado por seu antecessor. Todas as preocupações de hoje em relação ao custo da Copa do Mundo parecerão ridiculamente pequenas.

AMIR ATTARAN - Uma gestão pública melhor na Saúde



Uma gestão pública melhor na Saúde
AMIR ATTARAN
O Globo - 19/10/2011

Se você tem mais de 40 anos de idade, deve se considerar sortudo, porque historicamente você deveria estar morto. Há apenas dois séculos, e por milênios antes disso, a expectativa de vida era a metade de hoje em dia. Devemos agradecer as ciências da medicina e da saúde pública, além da gestão legal e econômica das sociedades liberais modernas, por esta duplicação de nossas vidas.

Porém a medicina e a saúde pública já atingiram um patamar avançado, em que a expectativa de vida aumenta mais devagar, com custos mais altos. Já que as pessoas vivem mais, opções de estilos de vida (dieta, exercício físico) ajudam a evitar obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes e câncer. Em uma população que está envelhecendo, cada vez mais uma vida longa não é uma vida saudável.

Estas transformações requerem uma reavaliação dos métodos atuais - devemos nos perguntar agora como a gestão pública das sociedades pode prevenir a doença. Bem antes de 2050, quando o brasileiro típico será uma mulher acima dos 80, a sociedade precisará se reorganizar para assegurar que estas pessoas tenham uma vida saudável. Isto quer dizer que a gestão das sociedades modernas, que antes melhorava as nossas vidas, agora precisa se adaptar para não destruir nossa saúde.

Esta semana acontece no Rio a Conferência Mundial sobre Determinantes Sociais da Saúde, da Organização Mundial de Saúde (OMS). Este é um evento muito importante: é o primeiro do seu tipo. Apropriadamente a agenda do evento prioriza a gestão pública, em vez da ciência ou da medicina. Governos precisam ser persuadidos que a saúde é um bom motivo para o uso dos controles de leis e impostos - controles que todos os governos possuem para direcionar a sociedade de forma justa e não tiranicamente - tanto para melhorar a saúde de todos como para diminuir as diferenças entre a saúde dos poderosos e dos fracos.

Nem todos os governos acatam esta versão do liberalismo, e, pior, muitos usam estes controles para destruir a saúde pública. Governos aprovam leis de subsídios agrícolas para fast food (portanto, um hambúrguer gorduroso e um biscoito doce são baratos), mas não subsídios agrícolas para slow food (portanto, comida caseira e frutas são caras). Ou governos investem em rodovias para bairros distantes onde as pessoas relativamente ricas têm que dirigir, em vez de aprimorar os centros urbanos onde todos nós possamos caminhar com segurança. Não é fácil definir os bens e serviços que merecem regulamentação e impostos, mas, com uma gestão pública assim, é de surpreender que mais e mais pessoas sofrem com a obesidade e a hipertensão?

Como professor e pesquisador nas áreas de ciência e direito, o que me preocupa é que a influência insuperável dos governos na saúde da população está sendo ignorada - por ser apreciada por poucos, ou temida por muitos. Em muitos países, até os mais ricos com sistema de saúde universal como a Grã-Bretanha, muitas vezes menos de 10 quilômetros separam bairros em que por questões sociais e econômicas a expectativa de vida diverge em 10-20 anos (no Rio, 12-8 anos). Mesmo assim, governos ainda evitam o uso dos controles de leis e impostos. Até a OMS, que deveria promover o tema, evitou a menção de "leis" ou "impostos" na agenda oficial. Em vez disso, a agenda divulga objetivos indefinidos como "Promovendo a participação e liderança da comunidade" - uma ironia porque, na sede da OMS em Genebra, nem as ONGs reconhecidas oficialmente pela organização têm acesso à participação nos grupos de trabalho. Nem a OMS oferece um bom exemplo didático.

O Brasil tem muitos problemas sociais, mas está se empenhando e muitas vezes oferece exemplos melhores do que os países mais "avançados". Recentemente na revista britânica "The Lancet", nossa equipe de pesquisa identificou leis brasileiras que possibilitam a licitação de equipamentos médicos menos dispendiosos - uma iniciativa inexistente no meu país, Canadá. Uma gestão pública melhor significa que no Brasil serviços sociais estão aumentando e a desigualdade social está diminuindo, enquanto no Canadá ocorre o oposto. Não é apenas simbólico que o vice-presidente e dois ministros de Estado brasileiros comparecerão à conferência da OMS, enquanto o Canadá não enviou nenhum ministro para o Rio, mas apenas burocratas sem autoridade.

GOSTOSA


ELIO GASPARI - Os doidos sábios e os sábios doidos



Os doidos sábios e os sábios doidos
ELIO GASPARI
FOLHA DE SP - 19/10/11

Como sempre, o ronco da rua parece desconexo, coisa de quem persegue causas perdidas

O ZUCCOTTI Park, a dois quarteirões de Wall Street, é pouco menor que um campo de futebol. Há três semanas, quem passava por lá, via a fauna das causas perdidas.
Colchões no chão, batuque e até uma vuvuzela. Um cabeludo flanava no seu skate e uma jovem vestia camiseta e calcinha de flores (um biquíni de vovó, se comparado aos fios dentais). Havia uma estranha ordem naquele caos. Os canteiros de flores, intocados, e jovens (uma de luvas) recolhiam o lixo.
Os doidos do "Ocupe Wall Street" espalharam-se por 82 países, de Roma a Taiwan. Em todos os lugares, a pergunta é uma só: qual é a agenda dessa gente?
Nesta semana o ilustrador Barry Blitt (aquele que durante a campanha eleitoral de 2008 desenhou um Obama muçulmano e Michelle com uma metralhadora a tiracolo) matou a charada na capa da revista "The New Yorker". Cinco banqueiros de cartola empunham cartazes, e um deles pede: "Deixe as coisas precisamente como estão".
E elas estão assim: com o país tecnicamente fora da recessão, a taxa de desemprego americana está em 9%, a maior desde os anos 40, excetuado um breve repique nos anos 80. Os lucros das corporações estão no maior nível dos últimos 70 anos, mas os salários bateram no mais baixo patamar desde 1960.
Todos os indicadores de renda do andar de cima vão bem, mas querem mandar a conta da ruína para o andar de baixo, cortando políticas sociais, tanto nos Estados Unidos como na Europa.
A patuleia do parque é o novo personagem da crise. Não tem agenda? Em 1967, numa marcha contra a Guerra do Vietnã, o poeta Allen Guinsberg propôs que as energias dos manifestantes fossem concentradas para fazer levitar o prédio do Pentágono. O Pentágono não levitou, mas o presidente Lyndon Johnson desistiu de concorrer à reeleição. Em 1989, os tchecos manifestavam-se chacoalhando chaveiros.
Nem os doidos do parque acham que o companheiro Obama desistirá da reeleição, mas ele parece não ter entendido o ronco da rua.
No domingo, inaugurando o monumento a Martin Luther King (outro doido), disse que não se deve satanizar "todos aqueles que trabalham" em Wall Street. Blá-blá-blá, pois ninguém está protestando contra todos os operadores do papelório, mas contra o que a turma do papelório fez à economia mundial, emprestando dinheiro a quem não podia pagar, na certeza de que a parolagem do "risco sistêmico" impediria que fossem à garra. Nos anos 80, salvou-se a ciranda dos sábios da banca quebrando-se a América Latina, inclusive o Brasil.
Agora os Estados Unidos e a Europa estão provando o velho veneno e não gostam dos seus efeitos. À época, a mágica foi praticada por Paul Volcker, o presidente do Banco Central americano.
Em 2008, aos 81 anos, ele assessorava Obama. Não havia por que passar a conta adiante, e ele propunha que se baixasse o chanfalho na banca. A certa altura, tratava-se de deixar que o Citibank quebrasse. Obama vacilou, Volcker foi-se embora, e o resultado está aí. A sabedoria dos sábios tornou-se maluquice e entraram em cena os doidos, como sábios.




Serviço: saiu nos Estados Unidos um excelente livro expondo as brigas e a falta de rumo da Casa Branca durante o governo Obama. Chama-se "Confidence Men" ("Homens de Confiança - Wall Street, Washington e a Educação de um Presidente"). Seu autor é o premiado jornalista Ron Suskind. O e-book, em inglês, custa US$ 12,99.

FERNANDO RODRIGUES - Democracias disfuncionais



Democracias disfuncionais
FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 19/10/11

LIMA - O presidente do Peru, Ollanta Humala, disse nesta semana que "a democracia não é incompatível com a liberdade de expressão". O conceito é curioso.
Equivale a dizer que "a democracia não é incompatível com a justiça". É um truque. Pronuncia-se um truísmo de maneira enviesada para ressaltar a pouca convicção de quem o exprime. Justiça e liberdade de expressão são partes integrantes da democracia. Incompatibilidade não está em questão.
Humala falou aqui em Lima na abertura da 67ª Assembleia Geral da SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa). Estava à frente de dezenas de donos de jornais e revistas do continente, muitos ultraconservadores. A presença do presidente peruano foi logo interpretada como uma demonstração de boa vontade. Um sinal de que o Peru não seguirá o caminho de confrontação como o de alguns países vizinhos.
Mas havia um ar de ressentimento na cerimônia. Além de sua curiosa definição sobre liberdade de expressão, Humala estava na defensiva. Ao seu lado, o presidente da SIP, Gonzalo Marroquín, acusou os governos da Argentina, da Bolívia, do Equador e da Venezuela de "trair" os "princípios democráticos e a liberdade de expressão". Todos são aliados de Humala.
A América Latina passa por um momento paradoxal. Depois de vários ajustes econômicos nos anos 80 e 90, vários países (Peru incluso) estão, em tese, prontos para desempenhar um papel decisivo neste momento de incertezas financeiras no mundo desenvolvido.
Ainda assim, a aversão em promover um ambiente de mais liberdade confere uma imagem disfuncional a certas democracias latinas.
O Peru é um desses casos e não está sozinho. Ollanta Humala tem tentado emular um pouco a travessia empreendida por Lula, da esquerda para o centro. A conversão parece estar em curso. Só que o processo ainda não se consumou por completo.

ANTONIO DELFIM NETTO - Trabalho



Trabalho
ANTONIO DELFIM NETTO
FOLHA DE SP - 19/10/11

O principal divisor de águas entre os economistas reside nas suas "crenças" sobre o problema do desemprego involuntário. De um lado, estão os que acreditam que, deixado este a si mesmo, os mecanismos de mercado, com tempo suficiente, tendem a eliminá-lo. De outro, os que não acreditam nessa tendência natural: deixado a si mesmo, sem a intervenção do Estado, ele pode perpetuar-se por falta de demanda efetiva.
A experiência que estamos vivenciando sugere que os fatos recusam muito mais a primeira hipótese que a segunda.
Nossa atual organização social é produto de um processo histórico. O homem, ao construir o mundo, com seu trabalho, exerce uma pressão seletiva no sentido de aumentar a sua liberdade de expressão, o que exige cada vez mais eficácia produtiva.
Há uma evolução simultânea, civilizatória e quase biológica que amplia o altruísmo e a solidariedade social exatamente porque a cooperação é mais "produtiva" e libera mais tempo para a expressão criativa do homem.
Uma das construções mais impressionantes de Marx é a sua leitura do papel do trabalho nos "Manuscritos", de 1844, antes de ele ter sido seduzido por Ricardo. O trabalho é o processo pelo qual o homem se produz e projeta para fora de si as condições de sua existência e a sua capacidade de transformar o mundo.
No atual estágio evolutivo, a sociedade se divide entre os que têm capital (e "empregam" o trabalho em troca de salário) e os que detêm a força de trabalho (e só podem utilizá-la "alugando-a" ao capital em troca de salário).
Com as políticas sociais, o Estado do Bem-Estar transformou (transitoriamente!) o sistema salarial alienante de Marx no símbolo da segurança do trabalho. Ele dá, por sua vez, a garantia para o funcionamento das instituições da nossa organização social, particularmente os mercados e a propriedade privada.
Os economistas precisam incorporar, como disse Mauss ("Sociologie et Anthropologie", 1950), que o trabalho é o "fato global". O desemprego involuntário é o impedimento insuperável de o cidadão incorporar-se à sociedade. Por motivos que independem de sua vontade, ele não pode sustentar honestamente a si e à sua família. O desemprego involuntário é o "mal social global".
Não importam filosofia ou ideologia. No presente estágio evolutivo da organização social, que o homem ainda procura fazer florescer plenamente a sua humanidade, é a natureza e a qualidade do seu trabalho que o colocam na sua posição social e econômica, que afetam sua situação física e emocional e que determinam o nível do seu bem-estar.
É por isso que o desemprego involuntário é o problema contra o qual os economistas têm que lutar.

GOSTOSA


CRISTIANO ROMERO - Uma proposta para os royalties


Uma proposta para os royalties
 CRISTIANO ROMERO
VALOR ECONÔMICO - 19/10/11

A definição das regras de distribuição dos royalties do petróleo da camada pré-sal caminha para a judicialização, sem que se discuta o principal: em que setor da vida brasileira a riqueza bilionária, porém finita, deve ser aplicada? Numa espécie de anticandidatura de uma campanha que mais parece a corrida do ouro no velho Oeste americano, dois senadores, um da oposição e outro da base do governo, apresentaram projeto de lei que procura mudar a lógica da discussão.

Cristovam Buarque (PDT-DF) e Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) recorrem à história para lembrar que, no século XVII, o Brasil remeteu a Portugal cerca de mil toneladas de ouro, riqueza que hoje equivaleria a algo como R$ 97 bilhões. Todo aquele ouro, como se sabe, serviu para financiar a industrialização e os avanços tecnológicos da Inglaterra. Mais de 200 anos depois, a natureza, dizem os dois senadores, oferece, com o pré-sal, nova oportunidade ao Brasil.

A Agência Nacional do Petróleo (ANP) estima que as reservas do pré-sal acrescentarão algo como 50 bilhões de barris de óleo cru às reservas brasileiras. Muitos acham que essa é uma estimativa conservadora, mas, mesmo que não seja, fará do Brasil um dos mais promissores produtores e exportadores de petróleo do planeta. Hoje, o país detém, a depender do critério utilizado, reservas entre 12,748 e 15,986 bilhões de barris.

Buarque e Ferreira propõem a transformação de todo esse petróleo em "inteligência e capacidade de inovação". Em outras palavras, os dois defendem que a rentabilidade dos recursos do pré-sal seja inteiramente aplicada em educação e ciência e tecnologia (C&T), um caminho para enfrentar uma tragédia brasileiro - o baixíssimo nível educacional de seu povo. Eles querem também criar um instrumento de poupança de longo prazo.

O projeto de lei 594/2011 prevê a criação do Fundo do Petróleo para Formação de Poupança para Educação Básica e Inovação (Funpei) com parte dos recursos arrecadados com royalties e participações especiais. Os senadores estimam que, no 10º ano de funcionamento, o Funpei pode chegar a uma capitalização acumulada de R$ 115 bilhões. Evidentemente, os aportes, calculados com base em estimativas "conservadoras" de produção de petróleo no pré-sal, cresceriam ao longo do tempo, chegando a R$ 39,5 bilhões no 10º aniversário.

Em 2010, royalties e participações especiais renderam à União e aos Estados e municípios produtores R$ 21,5 bilhões. Pelos cálculos da assessoria dos senadores Cristovam Buarque e Aloysio Nunes Ferreira, em 2015 esse volume de recursos vai praticamente dobrar (para R$ 40,5 bilhões). Em 2020, irá a R$ 63,3 bilhões.

Os dois senadores asseguram que, no seu projeto de lei, não há quebra de contratos e regras vigentes, ou seja, a nova legislação afetaria apenas as áreas dentro e fora do pré-sal ainda não contratadas. Eles sustentam também que os municípios e Estados produtores não perderão recursos. Para tanto, a ideia é fixar critérios de repartição apenas para os recursos que excederem o montante que os entes da federação receberam em 2010.

Por exemplo: o Rio de Janeiro, maior produtor de petróleo e Estado que mais teme a mudança das regras dos royalties, recebeu R$ 9,8 bilhões em royalties e participações especiais em 2010. A estimativa é que, em 2015, essa conta suba para R$ 10,7 bilhões. As novas regras diriam respeito, portanto, à parcela que excedesse o valor arrecadado em 2010 - R$ 900 milhões.

Os critérios de repartição desse excedente, conforme o projeto Buarque-Ferreira, teriam as seguintes ponderações: 60% dos recursos seriam estimados com base no número de alunos matriculados na educação básica (da creche ao ensino médio); 20%, de acordo com o desempenho dos alunos em sistemas oficiais de avaliação; os 20% restantes seriam calculados na evolução dos indicadores de qualidade do ensino. Portanto, quanto maior o número de estudantes na escola e melhor o seu desempenho nas avaliações, maior o volume dos recursos a serem destinados à cota de cada ente federativo no novo fundo.

Essa regra promoveria, em vez de uma corrida ao ouro, uma verdadeira corrida à educação no Brasil. Uma competição saudável para ver quem educa mais e melhor. Por quê? Porque a cota de cada Estado e município no Funpei será tanto maior quanto mais intenso for o esforço dos governantes em educar a população.

Para que haja formação de poupança, o projeto prevê que os recursos poderão ser sacados por governadores e prefeitos em percentuais crescentes, a partir do segundo ano de vigência do Funpei, até chegar a 100% no 10º ano. Os saques seriam feitos sob certas condições para evitar a descapitalização do fundo. E o dinheiro, destinado exclusivamente à educação e C&T.

A proposta dos dois senadores tem um quê de utopia, à medida que vincula o rico dinheiro do pré-sal à emancipação dos brasileiros por meio da educação. Esta é tão desimportante na agenda da maioria dos governantes que, certamente, eles dão risada ao se depararem com um projeto como esse. Para Buarque, o país sofre com a "corrupção de prioridades". "Não quero ser acusado dessa corrupção, de ter gastado esse dinheiro dos royalties no imediato, em vez de no futuro", diz ele.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Shoppings esperam menor alta nas vendas
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 19/10/11

O habitual aquecimento nas vendas que os shoppings registram todos os finais de ano deve ser menos expressivo neste Natal. O crescimento estimado, inferior ao de 2010, já vinha sendo observado ao longo deste ano na média dos 418 shoppings em operação no país, segundo registros da Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers). A queda, que por enquanto é leve, pode ser atribuída a contenção de crédito e elevação de juros, segundo Gabriela Klüppel, da Abrasce.
"No ano passado, a expectativa era de 15%, mas o setor continua aquecido", diz. A elevação estimada já prevê o movimento de 11 novos empreendimentos que devem ser abertos até o fim do ano. "Neste ano, tivemos até agora dez shoppings abertos", afirma Klüppel. Uma leve desaceleração do crescimento começou a ser percebida no primeiro semestre pela entidade, mas o Natal, que é a data mais importante para o varejo, deve servir como termômetro.
Para o período, o setor estima a abertura de 224 mil vagas temporárias nos shoppings, ante 175 mil em 2010. Cerca de 10% do total das novas vagas devem resultar em contratação efetiva após a experiência. Após o Natal, o setor prevê fechar o ano com crescimento de 12% no faturamento, que no ano passado foi de R$ 87 bilhões.

NA TRÍPLICE FRONTEIRA
O grupo Monalisa construirá um complexo de entretenimento no distrito paraguaio de Hernandarias, na região da tríplice fronteira com Brasil e Argentina.
O projeto, estimado em US$ 200 milhões (cerca de R$ 353 milhões), inclui shopping, hotel, cassino, teatro e centro de convenções. "Já obtivemos as licenças ambientais e pretendemos começar as obras até o primeiro semestre de 2012", diz Faisal Hammoud, presidente do grupo, que investirá 50% do montante. A companhias prevê que a primeira parte do empreendimento seja inaugurada antes de 2014, para aproveitar o fluxo de turistas durante a Copa do Mundo.
O hotel terá a bandeira Pullmann, do grupo Accor, e o cassino deverá ser administrado por uma companhia argentina desse setor. O projeto será apresentado na próxima terça-feira a 150 empresas brasileiras. "Caso surjam mais interessados em investir, podemos aumentar o empreendimento", diz Hammoud.

Inglês no Nordeste A rede de escolas de idiomas CNA abrirá 500 franquias até 2015. O principal foco da rede de ensino de línguas será a região Nordeste, que receberá 158 novas unidades. Cada uma delas terá em média 550 alunos.

Mineração Pierre Gratton, presidente da Mining Association of Canada, veio discutir no Brasil projetos sociais com o setor. Associadas à MAC se comprometem com ações como construir escolas e hospitais.

AROMA EM EXPANSÃO
O Brasil será o principal mercado dos perfumes Azzaro e Thierry Mugler em cinco anos, segundo Joël Palix, presidente da divisão de fragrâncias do grupo Clarins, do qual as marcas fazem parte. Hoje, o país fica atrás apenas da França e dos EUA.
"O Brasil é um mercado muito importante, com uma das maiores taxas de expansão", diz Palix, que está no país para o lançamento do novo perfume da Azzaro, chamado Decibel. A principal ferramenta para atingir a meta será o investimento em publicidade. Com dificuldades de distribuição no Brasil, o grupo aumenta a venda de fragrâncias pela internet. Enquanto na França e nos EUA elas correspondem a menos de 3% do total, no Brasil chegam a 20%.

DESÂNIMO
A confiança do consumidor paulistano diminuiu 1,4% em outubro, ante setembro, segundo estudo da Fecomercio que será divulgado hoje. O indicador atingiu 151,9 pontos, em escala que vai até 200 e na qual valores maiores que cem indicam otimismo.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

EDITORIAL O GLOBO - O engessamento do Estado provedor



O engessamento do Estado provedor
EDITORIAL 
O GLOBO - 19/10/11

Já era visível no início do segundo mandato de Lula, em 2007, o esgotamento do ciclo histórico de expansão da economia mundial. O sucessor dele teria de governar numa conjuntura diferente daquela que levou o Brasil a resgatar a dívida externa, conviver com abundância de recursos externos e internos - estes gerados por uma arrecadação tributária sempre em alta -, e uma inflação relativamente baixa.

Infelizmente, as previsões mais pessimistas se confirmaram no derretimento do sistema financeiro americano de hipotecas, um buraco negro que ameaçou jogar no abismo toda Wall Street e, por tabela, a economia mundial. Foram tomadas as medidas anticíclicas conhecidas, em todos os continentes, e, hoje, no terceiro ano de crise, pairam persistentes pontos de interrogação diante do futuro, devido à delicada situação da União Europeia, onde a aplicação de uma terapia adequada à insolvência de países e bancos é dificultada por obstáculos políticos e institucionais.

Em quase dez meses de governo, a presidente Dilma Rousseff tem enfrentado dificuldades sérias em várias frentes, corrupção à parte. Uma delas, a da inflação, onde está em curso o teste de uma terapia formalmente correta para a estabilização econômica - menos juros e mais controle de despesas -, mas contra a qual conspiram a própria tendência à gastança do grupo no poder há mais de oito anos, e até mesmo dificuldades práticas para a execução de uma imprescindível política fiscal adequada à conjuntura.

Como registrou O GLOBO no domingo, Dilma e a sociedade têm hoje um Estado construído para sustentar pessoas, por meio de transferências de renda. Pode-se argumentar que foi esta a vontade expressa na Constituinte de 87 e inscrita na Carta promulgada no ano seguinte. Sem discussão, mas é preciso saber se esta realidade é sustentável. Não é. Apenas o governo federal destinou, no ano passado, 17% do orçamento não financeiro a famílias de baixa renda e a desempregados. Um contingente de 31,8 milhões de pessoas embolsou R$116 bilhões. Estão aqui as diversas bolsas: Família, Pesca, Atleta, entre outras; aposentadorias rurais (pagas sem a necessidade de contribuição prévia), etc.

Há despesas beneméritas entre estas. Em princípio, tudo destinado ao combate à miséria tem razão de ser. A questão é saber como as despesas são executadas e compará-las com os gastos em outras áreas estratégicas.

Neste sentido vamos mal, pois os gastos do Estado provedor são mais que o dobro dos investimentos de toda a União (R$44,6 bilhões). Quer dizer, o braço de assistência social do Estado brasileiro ficou muito maior e mais forte que o destinado a ampliar e manter a infraestrutura do país, para que emprego e renda continuem a ser gerados. Mesmo setores vitais também no aspecto social, como Saúde e Educação, estão em segundo plano: em comparação com os 17,7% do orçamento não financeiro canalizados para o assistencialismo, as duas áreas somam 11,2% (Saúde, 7,9%, e Educação, 3,3%).

Quando se está num momento em que gastar menos e melhor - bordão do governo Dilma na posse - não pode ser apenas discurso, um perfil de despesas muito concentradas em assistência social empurra o governo a, em algum momento, ter de contrariar clientelas cevadas há anos por este tipo de transferências. A presidente terá de envergar um figurino de estadista.

ROSÂNGELA BITTAR - Falta um enredo para a reforma


Falta um enredo para a reforma
ROSÂNGELA BITTAR
VALOR ECONÔMICO - 19/10/11

A presidente Dilma Rousseff não terá feito uma reforma ministerial de fato, como se anuncia para o fim deste ano e início do próximo, se não disser o que quer do seu governo, onde pretende chegar, e se não definir claramente plano, objetivo, meta. Só fará sentido trocar ministros se tiver uma missão clara a dar e a cobrar de cada um deles. Os integrantes do governo têm que se sentir ministros e não meros assessores, secretários executivos de micro-ordens.

Hoje, os que aí estão já se adaptaram ao estilo: a presidente Dilma continua centralizadora, segue inibindo seus interlocutores, é ríspida e desanima os que chegam com muito gás aos despachos. Ela pergunta por providências de responsabilidade do quarto escalão sobre as quais o Ministro de Estado, evidentemente, jamais ouviu falar. A presidente terá feito uma reforma se nomear ministros reais e lhes contar que governo tem em mente.

A reforma será inexistente, também, se não prosseguir com a faxina ética. Dilma deu a sorte da descoberta de trincheiras do malfeito bem no início do governo. Uma reforma que deixe no bem bom de seus gabinetes os ministros do Esporte, Orlando Silva, do Trabalho, Carlos Lupi, das Cidades, Mário Negromonte, todos ardendo em praça pública e arrastando caudas de denúncias e críticas, não será reforma.

Cada um com o peso adicional do selo de incompetência conquistado nas avaliações, internas inclusive. Negromonte, do PP, não tem sequer o apoio de seu partido, é considerado um representante do governador petista da Bahia, Jaques Wagner, e volta e meia seus colegas refutam participação na coalizão de governo. Sobre o que o PP vem fazendo no Ministério das Cidades não se tem a mais pálida ideia.

Lupi surge uma vez por mês em cena para exibir números de emprego e desemprego. No resto do tempo é tragado por forças ocultas que o protegem da avalanche de greves que recrudescem neste governo sem que a área competente consiga esboçar reação.

E Orlando Silva dispensa comentários: a Copa do Mundo bate à porta, a Olimpíada vem chegando, o ministro segue enredado em denúncias de corrupção presentes antes, durante e depois de assumir o cargo. Defende-se atacando, como já fez em outras vezes, e segue em frente muito assertivo.

Francamente, a presidente não terá feito reforma ministerial também se não se equipar para a política. Dilma mudou a equipe do Palácio do Planalto toda, inclusive quem comanda as relações com o Congresso, mas continua sem conhecer os meandros da atividade. Já que não é mesmo de seu feitio, pelo menos que o seja do ministro da Justiça.

José Eduardo Martins Cardozo não está livre para fazer política, como estiveram seus antecessores Márcio Thomaz Bastos e Tarso Genro, e também não leva a termo a missão de cuidar das relações com o judiciário e reforma da Justiça. O ministro está dominado pela burocracia e realizando tarefas de secretário executivo. Dilma, em determinado momento, deu a Cardozo, de quem gosta muito e jamais incluiu em listas de degola, a tarefa de ser o leão da política de segurança. O ministro não dá respostas nesse particular.

Reforma ministerial para nomear o deputado Gabriel Chalita (PMDB) ministro da Educação em substituição a Fernando Haddad (PT), um pedido de contribuição pessoal feito à presidente pelo esquema eleitoral que Lula implanta em São Paulo, e substituir a ministra da Secretaria da Mulher e possível candidata nas eleições municipais, Iriny Lopes, de controvertida e bem retrocedida passagem pelo governo, não é digna de consideração como tal.

Para conquistar um Ministério a chamar de seu a presidente terá, ainda, que livrar-se de todas as imposições de seu criador. É também esse o seu desejo. Dilma quer um ministério só seu. Nesse sentido, uma favorável coincidência, pois a maioria dos que saíram neste primeiro ano de governo, ou que estão à beira do precipício, pertencem ao governo postiço. Novamente, a troca não basta, é preciso saber onde a presidente quer chegar.

O PCdoB teve, ontem, seu dia de PR. Na fila do gargarejo do depoimento do desestabilizado ministro Orlando Silva estavam de Haroldo Lima, comunista histórico e presidente da poderosa Agência Nacional do Petróleo, ao espetaculoso Protógenes Queiroz e à jovem deputada gaúcha Manuela D"Ávila, com uma carreira toda pela frente, que a presidente Dilma já quis, inclusive, nomear para o Ministério dos Esportes mas o partido, com apoio do ex-presidente Lula, não deixou.

Pelas tantas, Silva fez o que todos fazem: acusou os seus denunciantes, não só de serem eles os bandidos, como de quererem minar a democracia e desqualificar o PCdoB e a política em geral. Autoridades no paredão gostam de identificar-se com as instituições e, assim, aumentar o espectro de sua rede de proteção.

O PCdoB sabe muito bem que é a má conduta que desqualifica o político, não a denúncia. Mas deve ser essa a tal casca grossa recomendada por Lula aos ministros para que resistam firmes no cargo quando tiverem seu nome jogado na lama.

A presidente Dilma Rousseff ainda não preencheu a vaga que a ex-ministra Ellen Gracie deixou no Supremo Tribunal Federal porque está, de fato, indecisa, ainda não se fixou em um nome, e os lobbies não estão acanhados para confundí-la ainda mais. O mais forte deles é liderado pelo núcleo do judiciário denominado Ri o+ UERJ, que se expande em Brasília tendo na liderança o recém-nomeado ministro do Supremo, Luiz Fux, com ponte no STJ. Fux, no seu próprio calvário de nomeação, conseguiu unir apoios de Antonio Palocci a João Pedro Stédile; de Antonio Delfim Neto ao PT do Rio, com um dedinho do governador Sergio Cabral.

O esquema Rio já nomeou, também, recentemente, ministros do STJ e TST. A candidata de Rio+UERJ é Heloisa Helena, professora da Universidade Estadual do Rio de janeiro, procuradora aposentada. Outro nome forte é o de Rosa Maria Weber, gaucha, ministra do TST, perfil técnico. Dilma conversa pouco, está recolhida, não faz consultas, a única certeza, até agora, é que Ellen será substituída por uma mulher.

MARIO MESQUITA - Os benefícios da queda dos juros


Os benefícios da queda dos juros
MARIO MESQUITA
FOLHA DE SP - 19/10/11

Nada garante que uma redução dos gastos com juros seja transformada em aumento dos investimentos


Muitos analistas e, aparentemente, até círculos próximos ao governo enxergam na queda da taxa básica de juros a solução dos problemas fiscais brasileiros.

A ideia é que a queda da Selic irá liberar os recursos que viabilizarão o necessário aumento dos investimentos públicos em infraestrutura, com sacrifício mínimo dos gastos correntes e dos aumentos de dispêndio com o funcionalismo.

Um olhar superficial sobre os grandes números fiscais sugere que essa seria uma solução muito atraente. Nos últimos 12 meses, o superavit primário chegou a 3,8% do PIB, e os gastos com juros, a 5,8%, gerando um deficit público equivalente a 2% do PIB.

Entretanto, como se sabe, para todo problema complicado em geral há uma solução simples -e errada. Nada garante, por exemplo, que uma redução dos gastos com juros de um ponto percentual do PIB seja, de fato, transformada em aumento dos investimentos, dadas as demandas frequentes por expansão dos gastos sociais (que já ameaçam ressuscitar a CPMF) bem como da remuneração do funcionalismo.

Sempre se pode argumentar que, mesmo assim, o exercício valeria a pena, pois teríamos uma transferência de renda de poupadores (ou rentistas, de acordo com o viés ideológico do leitor) para os beneficiários de programas sociais e os funcionários públicos -em proporção a ser decidida no processo político.

Mais importante, entretanto, é observar que a própria economia com juros pode se mostrar decepcionante. Isso porque boa parte da dívida pública atualmente se encontra vinculada, direta ou indiretamente, à inflação, e não mais à própria Selic.

A parcela da dívida indexada à Selic foi reduzida, como resultado de uma política executada com competência e persistência pelo Tesouro Nacional, de cerca da metade (47,8%) para um terço (32,5%) da dívida federal entre dezembro de 2004 e agosto passado. Por outro lado, a parcela indexada à inflação foi incrementada de 12% para 28,6%, como parte da estratégia de alongamento da dívida pública -esses títulos são normalmente a prazos bastante longos, em média quase sete anos ante três anos e meio para a dívida total. Já a fatia prefixada aumentou de 16% para quase 35%.

Caso a redução da taxa de juros seja acompanhada por elevação da inflação, a economia para o Tesouro poderia ser mitigada ou mesmo eliminada, visto que os encargos associados à dívida vinculada ao IPCA aumentariam.

O efeito sobre a dívida prefixada, por sua vez, depende das expectativas de inflação. Uma surpresa inflacionária transfere, em um primeiro momento, renda dos poupadores para o devedor, ou seja, o governo.

Mas os investidores aprendem. Em particular, se o processo de redução das taxas de juros for percebido como sinal de maior tolerância inflacionária, então os encargos sobre a dívida prefixada tendem a subir ao longo do tempo, à medida que os investidores demandem maior seguro para se proteger contra o risco inflacionário mais alto.

A conclusão é que, para contribuir de forma consistente para a redução dos encargos da dívida pública, a redução dos juros deve ocorrer em ambiente de inflação, efetiva e esperada, declinante.

É com isso, aparentemente, que contam certos economistas e, muito provavelmente, um número grande de políticos, que, provavelmente, já têm vários projetos para receber os recursos a serem liberados pela economia com os juros.

Ocorre que, sob o regime de metas para a inflação, gerar benefícios fiscais não é o objetivo da política monetária. Ela deve zelar pela estabilidade de preços, mesmo que na sua versão tropicalizada, qual seja, a (generosa) meta de 4,5%.

O regime no qual a política monetária deve se submeter às restrições impostas pela dinâmica da dívida pública é chamado de "dominância fiscal". Esse geralmente é característico de países com dinâmica de dívida explosiva, ou quase, o que não é o caso do Brasil.

Preocupa, portanto, o discurso que parece começar a surgir em Brasília, de que, em vez de a política fiscal abrir espaço para cortes de juros, caberia à política monetária gerar as economias necessárias para viabilizar o necessário aumento dos investimentos do setor público.

MARIO MESQUITA, 46, doutor em economia pela Universidade de Oxford

CLAUDIO HUMBERTO

“O governo acaba se tornando uma central de corrupção”
JOSÉ SERRA (PSDB), EX-CANDIDATO A PRESIDENTE, SOBRE OS ESCÂNDALOS NO GOVERNO DILMA

ADVOGADOS AMEAÇAM DENUNCIAR JUÍZES AO MPF 
Uma nota da Associação dos Juízes Federais sobre sua paralisação prevista para 30 de novembro, abriu guerra com advogados públicos, que defendem a União. A Ajufe – que quer reajuste de 13% – anunciou o plano de “represar” por 45 dias citações e intimações em ações de interesse do governo, e liberá-las de uma só vez. O presidente do Fórum Nacional da Advocacia Pública, Allan Titonelli, agora ameaça denunciar a Ajufe ao Ministério Público Federal, por prevaricação.

CONCENTRAÇÃO 
A Ajufe informou que citações e intimações de ações do governo serão “concentradas” em 29 de novembro, “sem prejuízos à sociedade”.

TETO DO STJ 
Dados do Conselho da Justiça Federal: o teto é R$ 26,7 mil, de ministro do Supremo Tribunal Federal. No STJ, ministro recebe R$ 25,3 mil.

OS SALÁRIOS, HOJE 
Segundo o CJF, juízes de tribunais regionais federais recebem R$ 24,1 mil por mês, juízes federais R$ 22,9 mil e juízes substitutos R$ 21,7 mil.

BIP-BIP 
A afirmação de Dilma de que “vigiará” de perto Orlando Silva resultou em piada na internet: “vai colocar tornozeleira eletrônica nele”?. 

CONFISSÃO NO TWITTER VIRA PROVA CONTRA DEPUTADO 
Boquirroto, o deputado Almeida Lima (SE) ofereceu argumentos para o Ministério Público Eleitoral pedir sua cassação. Ele alegara ao TSE, como “justa causa” para trocar o PMDB pelo PPS, e fugir do risco de cassação, que era perseguido pelo “inimigo pessoal” Jackson Barreto, presidente do partido, mas no twitter confessou a fraude. Deixou claro que “precisava ir para a oposição” e disputar a prefeitura de Aracaju. 

ESCREVEU, NÃO LEU... 
Para azar de Almeida Lima, o atento procurador regional eleitoral Ruy Bastos Mello viu suas mensagens no Twitter, e representou contra ele. 

AFINOU 
Poucos notaram. A presidente Dilma apareceu bem mais magra nos últimos eventos públicos, e mais sorridente. Efeito gradativo da dieta. 

PÕE NA CONTA 
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) prevê economia de R$ 100 milhões com o horário de verão. Ministério mixuruca desvia mais. 

NO BALANÇO DAS CARTAS 
O Tribunal de Contas da União vai analisar o aumento de R$ 1,7 milhão para R$ 2,2 milhões no patrocínio dos Correios ao “Rock in Rio”, durante a greve. Suspeita-se que o consumidor, como sempre, dançou. 

NAUFRÁGIO 
Obra prioritária do PAC, faz água a transposição das águas do São Francisco de Cabrobó (PE) à Paraíba e Rio Grande do Norte. Com 42% das obras concluídas, o consórcio demitiu todos os operários. 

ANALFA DIGITAL 
O ministro Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia) precisa se mexer na “patrulha cibernética” que o PT criou para contra-atacar notícias desabonadoras: seu Twitter está parado desde sua posse, em janeiro. 

MARÉ BAIXA 
Empresa de dragagem do Rio arrematou em leilão a fragata Dodswhort, que a Marinha comprou da Inglaterra em 1996 e baixou ao estaleiro em 2004, por falta de verba para manutenção. Estava toda ok. 

O MELHOR REMÉDIO 
A Cia Docas do Pará não esquenta a cabeça: revogou licitação de 2009 para contratar plano de saúde e, na contramão da transparência, optou pela dispensa. Vai escolher pessoa jurídica para fazer o serviço. 

CORREDOR DO LIXO 
Turistas e os próprios alagoanos, quando a caminho do Litoral Sul, são submetidos a um vergonhoso corredor de lixo, dos dois lados da pista, quando passam pelo Sobral. Até parece que o prefeito Cícero Almeida desistiu de cuidar da cidade e os moradores se habituaram à imundície.

CARTILHA DO ABC 
Pivô do desbloqueio dos bens e quebra de sigilo do senador Blairo Maggi (PR-MT) por suposto superfaturamento, a Home Care Medical tem rolo também em São Bernardo e São Caetano (SP).

LEVANTAMENTO 
Agentes da empresa americana Leigh Fisher visitaram os aeroportos de Guarulhos, Brasília e Campinas e coletaram informações com funcionários da Infraero. É parceira da EBP, que tem amigos da Anac.

INEVITÁVEL 
O ministro do Esporte virou Orlando Lero e Enrolando Lero na internet, entre outros apelidos menos abonadores, digamos assim. 

PODER SEM PUDOR
DISQUE-HÉLIO 
Enfrentando o notório boêmio Hélio Garcia na disputa pelo governo de Minas, nos anos 90, o governo tucano lançou um “disque-pileque”. Era um telefone disponibilizado para quem, depois de entornar uns copos, não se sentisse em condições de dirigir. Um PM seria destacado para conduzir o carro até o destino. A vice tucana Dorothéa Werneck ironizou:
– Pronto. Já estão usando a máquina do Estado em favor do Hélio Garcia.

QUARTA NOS JORNAIS


Globo: Na marca do pênalti - Ministério do Esporte tinha QG da propina, diz acusador

- Folha de S. Paulo: Governador do DF é alvo de investigação no STJ


Estadão: Dilma tira poder de Orlando e assume decisões sobre Copa

Correio: Estudante da Asa Sul é a 4ª vítima de bactéria

Valor: Crise embala terceira onda de investimento espanhol

Jornal do Commercio: Barbárie em família

Zero Hora: Efeitos do vulcão: Saúde faz alerta sobre os perigos das cinzas

terça-feira, outubro 18, 2011

ANCELMO GOIS - Rádio Zurique

Rádio Zurique
ANCELMO GOIS
O GLOBO - 18/10/11


A seleção de Mano vai abrir a Copa de 2014 em São Paulo. Os dois outros jogos do Brasil na primeira fase serão em Fortaleza e Brasília. É o que se diz no QG da Fifa, na Suíça.

OLHO GRANDE 
No PMDB é dado como certo que o partido, por intermédio do ministro Edison Lobão, vai, finalmente, indicar o novo diretor da Petrobras.
Esta nova diretoria foi criada há uns dois anos para atender a uma recomendação da CVM. Mas nunca foi preenchida.

FALTA DE GÁS 
A Petrobras magoou, semana passada, 32 empresas do setor elétrico que queriam disputar com térmicas a gás o próximo leilão de energia do governo, em dezembro.
A estatal avisou que não pode hoje garantir o fornecimento de gás. Nem com as plantas que tem de GNL nem com o gás do pré-sal, cuja capacidade de fornecimento só será definida dentro de um ou dois anos.

FEUDO POLÍTICO 
Aécio Neves diz que o Segundo Tempo, programa social voltado para o esporte, funcionou bem no primeiro governo Lula, quando os recursos eram repassados aos Estados, independentemente de partidos: a distorção, diz o tucano, começou quando o projeto passou a ser administrado pelo mesmo grupo político em todo o País.

ALIÁS... 
Não se faz mais PCdoB como antigamente.
Com todo o respeito.

A PREFERIDA DE DILMA 
Mônica Salmaso, a grande cantora brasileira que ganhou elogios de Dilma, cancelou ontem, em cima da hora, dois shows que faria hoje e amanhã no Teatro Rival, no Rio. Caiu de cama, com laringite e rinossinusite agudas.

SOBRE A GUERRA 
Na Feira de Frankfurt, a editora Luciana Villas-Boas acertou para o selo da Civilização Brasileira a publicação no Brasil do livro Sobre a Guerra. Organizado por Bruno Calson, traz escritos de Napoleão Bonaparte sobre liderança, estratégias e táticas de guerra.

STEWART EM LIVRO 
A Globo Livros adquiriu ontem os direitos da autobiografia de Rod Stewart, que será lançada mundialmente em 2012.
O cantor, após 50 anos de carreira e dois Grammys, tem dito que não vai esconder nada de suas “experiências incríveis”.

LÁ E CÁ 
A principal manchete do Le Monde de sábado afirmou que as prisões francesas são “fábricas de reincidentes”, pois, cinco anos após cumprirem pena, quase 60% dos ex-presidiários voltam a ser condenados.