segunda-feira, outubro 10, 2011

MARCIA PELTIER - Palavra de chinês


Palavra de chinês 
MARCIA PELTIER
JORNAL DO COMMÉRCIO - 10/10/11

Para confirmar que a Foxconn não desistiu de construir iPads da Apple no país, seu fundador e CEO Terry Gou tem audiência com a presidente Dilma nesta quinta-feira. Mas a principal pauta do encontro não será essa. O executivo vem averiguar as condições para a construção de uma fábrica de telas de led para tablets, iPhones e tevês, cuja planta ocupará uma área de 1,5km². Se a ideia for adiante, o Brasil se tornará o quinto país do mundo a produzir telas do gênero. Atualmente, apenas China, Índia, Coreia e Taiwan o fazem.

Aversão 

Pesquisa do site vagas.com mostra que a geração do currículo de papel ainda não aderiu às redes sociais como estratégia de busca por um novo emprego. O levantamento foi feito com base em um universo de 54.180 currículos cadastrados no portal. Apenas 8% dos profissionais da amostra, com idade entre 30 e 34 anos, contam com perfil no Facebook para consulta em um eventual processo de seleção. O site é controlado pela Vagas Tecnologia, que abastece os RHs de 1.500 empresas em todo o país e conta com 55 milhões de currículos cadastrados.

Até a ponta

Joss Stone, sucesso no Rock in Rio, só deixou o Brasil na tarde de quinta-feira. Voltou para a Inglaterra com novas tatuagens feitas pela carioca Andreya Tattooguin, que comanda um estúdio em Ipanema. Nos dedos indicador e médio da mão esquerda da cantora foram desenhados, respectivamente, o símbolo hippie da paz e um coração. O curioso é que as tatuagens foram feitas nas pontas dos dedos, sobre as digitais.

Tendência em roubos 

Andrea Ernest Dias está triste com a perda de seu flautim Philip Hamming, avaliado em 2,5 mil euros, em Recife, onde se apresentou em setembro. Andrea suspeita de roubo, pois soube de vários casos recentes, inclusive no Rio, de músicos que tiveram seus instrumentos afanados em casa e em quartos de hotéis. O pior é que as seguradoras nacionais se recusam a contratar apólices de instrumentos musicais.

Bonança 

A flautista acabou sendo compensada de seu infortúnio na China: é que sua apresentação recente no Concert Hall de Beijin, com a banda Pife Muderno, de Carlos Malta, foi uma consagração. Os chineses que lotaram o teatro, de crianças a idosos, se entusiasmaram com as versões de peças de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro e outras do repertório regional-urbano do grupo.

Aposta no telespectador 

A Estrela acaba de assinar contrato com o SBT para lançar o jogo do Um Milhão na Mesa. A empresa irá pegar carona no sucesso do programa comandado por Sílvio Santos, que estreou há duas semanas e já apresenta ótima audiência. O game show chegará às lojas perto do Natal, com previsão de vendas de 50 mil peças.

Arte feita à mão 

A Alpargatas está vendendo Havaianas entre R$ 270 e R$ 380. É que o grupo acaba de lançar sua versão luxo das sandálias com as rendeiras de bilro do Maranhão. O resultado é um trançado especial nas tiras, que também pode vir com aplique de pérolas ou cristais Swarovsky.

Telona e ‘junk food’

André Ramos e Bruno Chateaubriand, que há dez anos viajam anualmente para a Disney, levaram desta vez a mãe de André, Maria Isabel. Os três jantaram todos os dias no Dine-In Theatre dos Estúdios Disney, recentemente inaugurado. Lá é possível assistir a um bom filme e ser atendido por garçons super ágeis, que atendem ao chamado por campainha.

A considerar 

André até se empolgou com a atual onda imobiliária em Miami, onde é possível, segundo contou, comprar um bom apartamento de dois quartos por US$ 300 mil. Mais barato que muito apartamento na Zona Norte do Rio.

Livre Acesso

Ele chegou a iniciar três faculdades, economia, administração e direito. Mas foi com panelas, temperos, alimentos e muita criatividade que ele encontrou seu maior prazer. O chef Felipe Bronze, um dos novos talentos da gastronomia nacional, revela no programa Marcia Peltier Entrevista que seu primeiro contato com o universo da cozinha foi na empresa dos pais, quando tinha 15 anos de idade. A entrevista vai ao ar amanhã, às 23h, na rede CNT.

O médico Celso Barros, presidente da Unimed Rio, recebe hoje o prêmio de Médico do Ano da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio.

O Lide Rio faz almoço-debate, hoje, no Copacabana Palace, com o prefeito Eduardo Paes.

Recém-chegado de Mykonos, na Grécia, o DJ carioca Johnny Glövez levará o seu som para os EUA. Na mini turnê apresentações na Opera, a maior boate de Atlanta, e em outras casas de Boston.

O Far Up abre suas portas, hoje, para um bazar a partir do meio-dia em benefício da Casa dos Pobres de Nova Friburgo, que abriga pessoas idosas, doentes e carentes. Além de roupas, o bazar traz também livros acadêmicos, bijuterias, sapatos, bolsas e carteiras.

O agitador cultural Jorge Salomão faz, logo mais, noite dupla de autógrafos, de seus livros A estrada do pensamento e Conversa de mosquitos, no Cine Joia, em Copacabana, às 18h.

Monique Benoliel viaja esta segunda-feira para uma ronda gastronômica que inclui Israel, Itália e Barcelona. A banqueteira aproveita para tirar sua segunda lua-de-mel com o maridão, Fabio Lopes. Mas fará uma breve visita ao filho Pedro, que seguiu a profissão da mãe e faz um curso só de sobremesas na Espanha.

Com Marcia Bahia, Cristiane Rodrigues, Marcia Arbache e Gabriela Brito

RICARDO VÉLEZ RODRÍGUES - Doutor Lula


Doutor Lula
RICARDO VÉLEZ RODRÍGUES
O Estado de S.Paulo - 10/10/11

Lula, como Brizola, é um grande comunicador. Mas, como Brizola também, é um grande populista.

A característica fundamental desse tipo de líder é, como escreve o professor Pierre-André Taguieff (A Ilusão Populista - Ensaio sobre as Demagogias da era Democrática, Paris, Flammarion, 2002), que se trata de um demagogo cínico. Demagogo - no sentido aristotélico do termo - porque chefia uma versão de democracia deformada, aquela em que as massas seguem o líder em razão de seu carisma, em que pese o fato de essa liderança conduzir o povo à sua destruição. O cinismo do líder populista já fica por conta da duplicidade que ele vive, entre uma promessa de esperança (e como Lula sabe fazer isso: "Os jovens devem ter esperança porque são o futuro da Nação", "o pré-sal é a salvação do brasileiro", e por aí vai), de um lado, e, de outro, a nua e crua realidade que ele ajudou a construir, ou melhor, a desconstruir, com a falência das instituições que garantiriam a esse povo chegar lá, à utopia prometida...

Lula acelerou o processo de desconstrução das instituições que balizam o Estado brasileiro. Desconstruiu acintosamente a representação, mediante a deslavada compra sistemática de votos, alegando ulteriormente que se tratava de mais uma prática de "caixa 2" exercida por todos os partidos (seguindo, nessa alegação, "parecer" do jurista Márcio Thomas Bastos) e proclamando, em alto e bom som, que o "mensalão nunca existiu". Sob a sua influência, acelerou-se o processo de subserviência do Judiciário aos ditames do Executivo (fator que nos ciclos autoritários da História republicana se acirrou, mas que sob o PT voltou a ter uma periclitante revivescência, haja vista a dificuldade que a Suprema Corte brasileira tem para julgar os responsáveis pelo mensalão ou a censura odiosa que pesa sobre importante jornal há mais de dois anos, para salvar um membro de conhecido clã favorável ao ex-mandatário petista).

Lula desconstruiu, de forma sistemática, a tradição de seriedade da diplomacia brasileira, aliando-se a tudo quanto é ditador e patife pelo mundo afora, com a finalidade de mostrar novidades nessa empreitada, brandindo a consigna de um "Brasil grande" que é independente dos odiados norte-americanos, mas, certamente, está nos causando mais prejuízos do que benefícios no complicado xadrez global: o País não conseguiu emplacar, com essa maluca diplomacia de palanque, nem a direção da Unesco, nem a presidência da Organização Mundial do Comércio (OMC), nem a entrada permanente do Brasil no Conselho de Segurança da ONU.

Lula, com a desfaçatez em que é mestre, conseguiu derrubar a Lei de Responsabilidade Fiscal, abrindo as torneiras do Orçamento da União para municípios governados por aliados que não fizeram o dever de casa, fenômeno que se repete no governo Dilma. De outro lado, isentou da vigilância dos órgãos competentes (Tribunal de Contas da União, notadamente) as organizações sindicais, que passaram a chafurdar nas águas do Orçamento sem fiscalização de ninguém. Esse mesmo "liberou geral" valeu também para os ditos "movimentos sociais" (MST e quejandos), que receberam luz verde para continuar pleiteando de forma truculenta mais recursos da Nação para suas finalidades políticas de clã. Os desmandos do seu governo foram, para o ex-líder sindical, invenções da imprensa marrom a serviço dos poderosos.

A política social do programa Bolsa-Família converteu-se numa faca de dois gumes, que, se bem distribuiu renda entre os mais pobres, levou à dependência do favor estatal milhões de brasileiros, que largaram os seus empregos para ganhar os benefícios concedidos sem contrapartida nem fiscalização. Enquanto ocorria isso, o Fisco, sob o consulado lulista, tornou-se mais rigoroso com os produtores de riqueza, os empresários. "Nunca antes na História deste país" se tributou tanto como sob os mandatos petistas, impedindo, assim, que a livre-iniciativa fizesse crescer o mercado de trabalho em bases firmes, não inflacionárias.

Isso sem falar nas trapalhadas educacionais, com universidades abertas do norte ao sul do País, sem provisão de mestres e sem contar com os recursos suficientes para funcionarem. Nem lembrar as inépcias do Inep, que frustraram milhões de jovens em concursos vestibulares que não funcionaram a contento. Nem trazer à tona as desgraças da saúde, com uma administração estupidamente centralizada em Brasília, que ignora o que se passa nos municípios onde os cidadãos morrem na fila do SUS.

Diante de tudo isso, e levando em consideração que o Brasil cresceu na última década menos que seus vizinhos latino-americanos, o título de doutor honoris causa concedido a Lula, recentemente, pela prestigiosa casa de estudos Sciences Po, em Paris, é ou uma boa piada ou fruto de tremenda ignorância do que se passa no nosso país. Os doutores franceses deveriam olhar para a nossa inflação crescente, para a corrupção desenfreada, fruto da era lulista, para o desmonte das instituições republicanas promovido pelo líder carismático e para as nuvens que, ameaçadoras, se desenham no horizonte de um agravamento da crise financeira mundial, que certamente nos encontrará com menos recursos do que outrora. Ao que tudo indica, os docentes da Sciences Po ficaram encantados com essa flor de "la pensée sauvage", o filho de dona Lindu que conseguiu fazer tamanho estrago sem perder a pose. Sempre o mito do "bon sauvage" a encantar os franceses!

O líder prestigiado pelo centro de estudos falou, no final do seu discurso, uma verdade: a homenagem ele entendia ter sido feita ao povo brasileiro - que paga agora, com acréscimos, a conta da festança demagógica de Lula e enfrenta com minguada esperança a luta de cada dia.

LUIZ FELIPE PONDÉ - A ética de Eva



A ética de Eva
LUIZ FELIPE PONDÉ
FOLHA DE SP - 10/10/11

Temo que uma hora dessas inventem uma cota de feinhas para as faculdades, as empresas e a publicidade

Você acha que seria ético uma mulher usar da beleza pra conseguir o que quer na vida? E uma mulher usar seu belo corpo pra dar uma má notícia pro marido, como no comercial da lingerie Hope?

Esse comercial fala do poder feminino sobre o desejo do homem por ela e não sobre ela ser objeto indefeso do homem.

Aliás, desde o jardim do Éden. Apesar de Deus ter dito a Adão "não pode comer a maçã!", Adão não resistiu a Eva: "Come meu amor, come!". E Adão caiu de boca. O velho poder feminino.

Você pode ser uma daquelas pessoas que não entendem nada de mulher e dizer "isso é um absurdo!", mas o fato é que usar a beleza como instrumento de vida é um dado natural da experiência humana, e não necessariamente um ato canalha ou de submissão.

A beleza é como a cerveja: um "gesto" do corpo entre a devassidão e a moderação.

Antes de tudo, a palavra "ética" é hoje tão banal quanto "energia". Todo mundo tem um entendimento "pessoal" do que seria ética. Quando você escutar alguém começar com "a questão da ética", fuja. Só vem blá-blá-blá.

Na filosofia, não há consenso sobre o que é ético. Para alguns britânicos, como Hume, Oakeshott ou os darwinistas, a ética é uma disciplina que estuda hábitos de pensamento, de afeto e de comportamento, estabilizados numa comunidade (num sentido mais restrito) ou na humanidade (no sentido mais amplo), que se revelam hegemônicos e bem-sucedidos em garantir uma certa ordem e um certo sucesso no convívio comum ao longo do tempo.

Estamos aqui a anos-luz de distância da mania de "perfeição ética" de gente como Kant ou Singer (o cara que acha que bicho é gente).

Analisemos a ideia de mulheres (caso mais comum) usarem da beleza física pra conseguir coisas na vida, à luz dessa ética do hábito.

Devemos separar o uso abusivo da beleza do uso ético da mesma.

Uma mulher bonita X se veste com uma saia curta para uma entrevista, entra numa sala com outras pessoas e se senta de pernas abertas. Isso é abusivo. Uma mulher bonita Y se veste com uma saia menos curta do que a mulher X, mas que ainda assim revela, escondendo, sua beleza, entra numa sala com outras pessoas e se senta de modo discreto. Isso é ético.

Neste nosso "experimento", a mulher Y age de modo ético. Espera-se que mulheres bonitas revelem sua beleza (o mundo respira melhor onde há mulheres bonitas e a beleza é um gradiente, não um "ponto isolado no espaço"), mas essa revelação é pautada pela expectativa de que ela não esfregue sua beleza na cara de pessoas estranhas; na cara do marido, ela pode esfregá-la.

A ética aqui é antes de tudo o bom senso de que quem tem beleza pra revelar pode ser discreta; por extensão, quem tem beleza pra revelar e não é discreta é porque é "feia" por dentro.

A sutil relação entre ser bela e ser discreta compõe o campo dos hábitos morais desejáveis nas mulheres bonitas. Pode usar a beleza, mas com moderação, assim como o álcool.

O caso dos homens é um pouco diferente, não porque neles a beleza não conte, mas porque as mulheres erotizam facilmente o intelecto masculino, enquanto os homens dificilmente erotizam a inteligência feminina. Pouco adianta as meninas ficarem bravas com isso.

Se o entrevistador for um homem, provavelmente ele levará primeiro em conta a beleza das duas em detrimento das mais feinhas. Mas a vulgar sempre poderá perder a vaga no caso de o entrevistador ser também ele alguém de bom senso.

Todo mundo prefere gente bonita à sua volta. O ambiente de trabalho fica muito melhor quando tem mulher bonita, cheirosa e bem vestida por perto.

Mas isso não deve ser o critério último da decisão. Entre duas capazes, uma bonita e outra mais feinha, entretanto, a bonita leva.

Claro que a raiva contra argumentos como esse nasce dos chatinhos.

É a falta do "recurso" contingente (a beleza até hoje é em grande parte obra do acaso, ainda que cada vez mais passe a ser, em parte, obra da grana) que causa o rancor. Temo que uma hora dessas inventem uma cota de feinhas para as faculdades, as empresas e a publicidade.

Ou que proíbam as mulheres de ficarem de calcinha em casa.

MÔNICA BERGAMO - LINHA PARALELA


LINHA PARALELA
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 10/10/11

Dezesseis famílias de vítimas do acidente do voo 447 da Air France que não aderiram ao Programa de Indenizações, mediado pelo Ministério Público e Procon, esperam finalizar negociações diretas com a seguradora Axa nos próximos dias. Pedem 800 salários mínimos para cada familiar.

PARALELA 2
Pelo acordo, uma família com pai, mãe e quatro irmãos, por exemplo, pode receber 4.800 salários. O programa oficial, que foi encerrado na semana passada, destinou 500 salários para toda a família, independentemente do número de integrantes de cada uma delas.

LEI SECA Será sancionada no próximo dia 19, pelo governador Geraldo Alckmin, a lei antiálcool em SP. A fiscalização começa na mesma data, mas só em 30 dias passam a ser aplicadas punições como multa e fechamento do estabelecimento.

LEI SECA 2
Até agora, donos de bares, restaurantes, lojas e baladas não seriam responsabilizados se vendessem bebida a um adulto que a repassasse a um menor. A partir de novembro, também responderão por isso. A nova legislação obriga o comerciante a pedir documento de identificação para realizar a venda ou permitir o consumo.

SUL MARAVILHA
A Azul pediu autorização à Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) para operar voos de Campinas (SP) a Londrina (PR). A empresa já tem linhas para Curitiba, Maringá e Foz do Iguaçu.

NO MEIO
Gilberto Kassab afirma que o perfil de Henrique Meirelles se encaixa perfeitamente no de seu partido. Como o PSD, o banqueiro "não é de esquerda nem de direita". É "central", segundo diz o prefeito, em tom de brincadeira, a interlocutores. Meirelles foi presidente do Banco Central.

ENCONTRO EXECUTIVO
Gilberto Gil fez pocket show no coquetel do Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), cujo conselho Denise Aguiar preside. Beatriz Johannpeter, do grupo Gerdau, e Regina Helena Scripilliti Velloso, do Instituto Votorantim, foram ao evento, na Pinacoteca.

TEVÊ NA PISTA
A atriz Natália Klein foi à festa Mixtape #3, do Multishow. A apresentadora do canal Erika Mader circulou pelo evento, no Beco 203, na rua Augusta. A banda Warpaint fez show e o DJ Sany Pitbull animou a balada.

'O MEU VINHO VOU TOMAR'
Chico Buarque é capa da edição de cinco anos da "Rolling Stone" brasileira, que chega às bancas amanhã.
Na entrevista, o cantor afirma que "não me interessa repetir o que está nos jornais nem dar entrevista falando mal do governo. Eu gostava de falar mal do governo quando os jornais não o faziam". E completa: "Não vou a Brasília, não vou ao palácio, não tenho atração alguma pelo poder".
O compositor também diz que acha chata "essa fiscalização moralista da vida dos outros. Vou deixar de ir à praia, mas outras coisas não vou deixar de fazer. O meu vinho vou tomar, o meu cigarro vou fumar".
Sobre o assédio, fala: "É difícil ser o Chico quando as pessoas pensam que você é o Chico. Você não anda pela rua e pensa: 'Ah, eu sou o Chico Buarque'. Isso não passa pela cabeça do artista".

PONTE
Ligado a Kassab, o vice-governador Guilherme Afif almoçou há alguns dias com Juvenal Juvêncio, presidente do São Paulo. A diretoria do clube se afastou do prefeito, que é são-paulino, depois que ele apoiou a construção do estádio do Itaquerão.

BAIXA
A jornalista Mônica Waldvogel está pedindo desligamento do conselho da Apaa (Associação Paulista dos Amigos da Arte), que tem convênio com o governo estadual para gerir os teatros Sérgio Cardoso e São Pedro e a Orquestra Jazz Sinfônica, entre outras instituições. Integrantes do colegiado têm reclamado de falta de transparência e autoritarismo do comando do conselho. Waldvogel não se pronuncia.

PRODUTO NACIONAL
Supla e João Suplicy (Brothers of Brazil) gravam hoje no Maida Vale da BBC.

BAGAGEM
Caio Luiz de Carvalho, presidente da SP Turis, participa nesta semana de dois eventos internacionais sobre economia criativa. Amanhã, debaterá "crescimento e ambiente cultural" em fórum da Unesco em Paris.
Depois, integrará uma das mesas do Simpósio de Economia Criativa, em Lisboa.

SÓ À DISTÂNCIA
O iate Azimut 64, de R$ 7 milhões, deve desfalcar o São Paulo Boat Show, feira náutica que começa na quinta e para a qual já havia sido anunciado. A Yachtbrasil, distribuidora do modelo, não conseguiu viabilizar, no prazo exigido pelos organizadores, o transporte terrestre do barco até a capital. Diz que exibirá imagens do iate na mostra. E pretende levar clientes que se interessarem para fazer visita interna à embarcação no Guarujá.

CURTO-CIRCUITO

Jon Anderson , ex-vocalista do Yes, se apresenta em SP no dia 13 de dezembro, no Credicard Hall. 14 anos.

A revista "Olhares", editada pela atriz Lígia Cortez e pela Escola Superior de Artes Célia Helena, será lançada hoje, às 19h, na Livraria da Vila dos Jardins.

Um casal de terapeutas indianos foi importado pelo spa Cidade Jardim para massagens ayurvédicas.

Arnaldo Antunes e Zaba Moreau autografam na quarta, das 11h às 14h, o livro "Animais", na loja Amoreira, em Pinheiros.

A companhia Inbal Pinto e Avshalom Pollak Dance apresenta "Oyster" nos dias 22 e 23, no Sesc Vila Mariana. 12 anos.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

GOSTOSA


MARCO ANTONIO ROCHA - Pouquíssima esperança de solução indolor



Pouquíssima esperança de solução indolor
MARCO ANTONIO ROCHA
O Estado de S.Paulo - 10/10/11

Pode ser esta a hora de relembrar aos luminares dos governos europeus a máxima de Dante Alighieri: "Deixai toda esperança vós que entrais" - nesta confusão infernal que é a crise das dívidas impagáveis de vários governos com muitos bancos, empresas, fundos de investimentos, sindicatos e pessoas físicas. A esperança de encontrar uma solução satisfatória para todas as partes, sem turbulência social, se distancia a cada vez que se olham as notícias.

Na crise financeira de 2008, nos Estados Unidos, o problema era diferente e, em grande parte, era de âmbito privado. Milhões de pessoas haviam tomado empréstimos bancários além das suas posses e da sua capacidade de pagamento, com base nas estimativas de uma economia em crescimento. Os bancos, por sua vez, com seus cofres abarrotados pelo excesso de liquidez, decorrente em grande parte dos enormes gastos do governo americano - cujos déficits fiscais insanáveis assombram todos os financistas do mundo há muitos anos -, virtualmente empurravam o que podiam de crédito para os seus clientes, olhando com muita displicência a qualificação financeira do tomador e suas garantias. Esse foi o estado da arte durante anos, principalmente no crédito imobiliário.

Para facilitar esse processo, que La Fontaine (ou Esopo) diria regido pelo espírito da cigarra, da famosa fábula, um poderoso mercado de securitização de recebíveis se encarregava de comprar dos bancos e repassar ad infinitum os títulos de crédito. Todo mundo que nunca pôde comprar casa própria nos Estados Unidos porque nunca pudera apresentar condições satisfatórias para obter financiamentos aproveitou a bonança para "realizar o sonho", como reza a propaganda de imobiliárias e construtoras no mundo inteiro.

Quando as perspectivas da economia, do emprego e da melhoria de renda começaram a se inverter, passando do verde para o vermelho, a montanha de promissórias vincendas - já então apelidadas de subprime - começaram a valer menos do que notas de US$ 3 e os empréstimos não resgatáveis, a pesar negativamente nos balanços dos bancos. O governo de Obama teve de injetar vultosos recursos nos bancos para restaurar um mínimo de equilíbrio financeiro entre ativos perdidos e passivos incorporados.

Qual a diferença na Europa?

É que, nos bancos europeus, a maioria dos ativos perdidos ou em linha de perda é de títulos soberanos, isto é, emitidos por governos para captar recursos a fim de cobrir suas insuficiências fiscais e dívidas excessivas com fornecedores ou funcionários ou empreiteiras. Esses títulos soberanos têm seu valor de mercado ditado pela confiança que o governo emitente inspira, decorrente, por sua vez, da sua capacidade de pagamento dentro do prazo médio dos títulos. Qualquer desconfiança em relação a essa capacidade de pagamento derruba o valor dos títulos, o balanço dos bancos detentores desses títulos se deteriora e cai a possibilidade do banco de fazer novos empréstimos, o que afeta a atividade econômica de empresas e pessoas físicas.

Então, é lógico que os governos emitentes dos títulos - Grécia, Espanha, Portugal, Itália, Irlanda, seja qual for - têm de honrá-los, o que significa na prática recomprá-los dos bancos e, assim, renovar a confiabilidade dos papéis e a confiança do público nos bancos que os detêm. Só que esses governos não têm o dinheiro para isso e não estão em situação de fazer novas dívidas. A saída é os outros governos, que têm dinheiro, virem em socorro, emprestando aos governos encalacrados. Mas esses empréstimos, por sua vez, terão de ser honrados também, no futuro. Por isso, os governos emprestadores ou o Fundo Monetário Internacional (FMI) ou o Banco Central Europeu, qualquer entidade, enfim, só emprestam se tiverem a garantia de que o governo devedor tomará todas as medidas para garantir superávit nas suas contas fiscais que sirva para ir pagando o empréstimo. Em suma, os governos encalacrados precisam cortar seus gastos e aumentar impostos para ter "lucro" suficiente para ir pagando a nova dívida, contraída para honrar as dívidas anteriores.

Assim, por exemplo, o governo da Alemanha empresta dinheiro para o da Grécia, que resgata seus títulos soberanos em poder dos bancos, que, livres do "rombo", podem retomar negócios normais com sua clientela. O governo da Grécia fica, então, devendo para o da Alemanha, e, para pagar essa dívida, tem de apresentar um plano de superávits fiscais por vários anos.

Só que, do mesmo modo que uma empresa em dificuldades, ao apertar o cinto, reduz investimentos, diminui salários, despede funcionários e cria um impacto social, o impacto que os governos criam é muito maior e alcança toda a economia do país.

A presidente Dilma disse na Europa que os governos precisam fazer ajustes fiscais, mas não com caráter recessivo. Receita correta, perfeita, óbvia, mas, dependendo do tamanho do ajuste fiscal, inútil. Revela ao mesmo tempo o nó central do problema europeu e a pouquíssima esperança de que seja resolvido sem grandes turbulências do ponto de vista social e político, como, aliás, já se percebe.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Começa a decolar a integração de TAM e Lan
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 10/10/11

Maurício Rolim Amaro, da família controladora da TAM, será o presidente do conselho de administração da Latam, formada pela companhia de aviação brasileira e a chilena Lan.
A irmã, Maria Claudia Amaro, fica presidente do Conselho da TAM, Enrique Cueto, CEO da Lan, será o CEO da nova companhia, enquanto Ignacio Cueto, mantém-se presidente e responsável pela área operacional da Lan.
Os quatro irmãos estiveram reunidos em SP, na quinta-feira passada, quando reafirmaram compromissos para a união e retomaram passos para a integração de TAM e Lan.
"Estamos satisfeitos com a aprovação do Tribunal de Defesa da Livre Concorrência (TDLC) do Chile, mas conjuntamente contestamos na Suprema Corte uma restrição", diz Maurício Rolim Amaro.
"A maioria das medidas afeta a operação no Chile e em nada a TAM. A Lan contesta todas."
Entre as 11 condições impostas está a renúncia de quatro frequências da LAN para Lima (Peru) e de alguns direitos de pouso e decolagem.
"Nossa queixa conjunta é específica quanto à necessidade de a Latam submeter ao tribunal o compartilhamento de voos com empresas que não sejam da mesma aliança", diz.
As empresas sabiam que teriam de optar por uma associação: a Star Alliance, chefiada pela Lufthansa e pela United, à qual a TAM está ligada, ou a One World, liderada por British Airways, Iberia e American Airlines, e que tem a Lan entre seus associados. Mas, diz Amaro, ainda não se decidiram.
"Não consideramos o tribunal um órgão operacional com condição de agir com rapidez. A Fiscalía chilena [autoridade antitruste], sim, tem experiência e capacidade de decisão."
O TDLC aprovou a fusão em 21 de setembro deste ano. A criação da Latam, anunciada em 13 de agosto de 2010, começou um mês depois. Foi, porém, interrompida em janeiro, quando o órgão de defesa do consumidor pediu ao TDLC uma análise do impacto da Latam.
"Esperamos que a Suprema Corte se pronuncie até janeiro e fazer a oferta pública em março." Nessa ocasião, a TAM, que é listada nas Bolsas de Valores de São Paulo e de Nova York, fechará seu capital.

SINERGIAS
TAM e LAN calculam em US$ 400 milhões as sinergias com a união, sem contar ganhos com o Programa Multiplus, de milhagens, diz Amaro. As medidas mitigatórias impostas representarão perda de US$ 10 milhões, segundo a companhia.
A sede da Latam será no Chile, de acordo com Amaro.
Serão criados comitês para compartilhar a gestão. Os principais serão o operacional e o de carga, com gestão compartilhada com representantes das duas empresas.
No Brasil, a fusão teve parecer favorável da Secretaria de Acompanhamento Econômico e aguarda avaliação do Cade. "Estamos confiantes na aprovação do Cade ainda neste ano."
As sinergias são muito grandes, com pouca sobreposição, acrescenta ele.
A Lan voa mais para costa oeste dos EUA e Ásia, e a TAM, mais para Europa e costa leste dos EUA.
"Detectamos oportunidades em 19 novas rotas."
As duas companhias continuarão com operações independentes.
Pintar o novo nome nos aviões custa caro, afirma o empresário.
"União total, só no longo prazo."

RAIO-X

Sedentarismo e aumento da circunferência abdominal são os principais fatores de risco identificados em executivos, com 64% e 55%, respectivamente, de acordo com estudo da Bradesco Saúde.
A pesquisa apontou que sobrepeso e obesidade vêm em seguida. O tabagismo é um vício da minoria, atinge 8%.
Além disso, 15% dos executivos descobriram que tinham diabetes quando realizavam os exames de rotina.
O estudo apontou ainda que 7,2% deles correm risco de desenvolver uma doença cardiovascular nos próximos dez anos. Para realizar a pesquisa, foram analisados exames de 6.000 executivos.

Agências já venderam 700 pacotes para Jogos de Londres
Cerca de 40% dos pacotes de viagem para a Olimpíada de Londres, em 2012, já foram vendidos, segundo as agências brasileiras autorizadas. Até agora foram fechados 700 pacotes, de acordo com a Tamoyo, revendedora de ingressos que escolheu quatro agências para a realização das vendas. Foram autorizadas Agaxtur, Ambiental, TAM Viagens e Top Service.
Em 2008, para os Jogos Olímpicos de Pequim, cerca de 1.000 brasileiros compraram pacotes de viagem.
Ao fechar contrato, o consumidor pode decidir a modalidade que assistirá.
"Ginástica olímpica e vôlei de quadra e de praia são os mais procurados", afirma o presidente da Agaxtur, Aldo Leone Filho.
A expectativa da Tamoyo é que também sejam vendidos 50 mil ingressos para brasileiros pela internet. Até o momento, foram comercializadas cerca de 15 mil entradas, de acordo com a companhia.
Em 2008, os brasileiros compraram 18 mil ingressos.
"Os brasileiros têm mais locais para hospedagem, como casas de amigos, em Londres do que em Pequim ", afirma Antonio Carlos Valente, sócio da Tamoyo.

Aviação Uma exposição sobre o fundador da Embraer, Ozires Silva, será aberta hoje na Fiesp e segue até sexta-feira, dia 14. São 22 painéis que mostram a vida e a trajetória profissional do engenheiro e oficial da Aeronáutica, que também passou pelo governo federal e pela presidência da Petrobras. A mostra segue para outras capitais do país após o dia 15.

Negócios... No próximo fim de semana, 21 empresas brasileiras participarão de uma rodada de negócios com 44 executivos americanos durante a corrida de Fórmula Indy, em Las Vegas.

...no autódromo A estimativa da Apex-Brasil, organizadora do encontro, é que US$ 65,3 milhões sejam gerados em negócios.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

JOSÉ DE SOUZA MARTINS - Porões da Pauliceia


Porões da Pauliceia
JOSÉ DE SOUZA MARTINS 
O Estado de S.Paulo - 10/10/11

Eles se difundiram quando a São Paulo colonial que sobrevivia no fim do Império começou a despregar-se de seu chão antigo e a cidade começou a perder o cheiro de terra dos dias de chuva. A arquitetura de cópia vinha ocupar o lugar das casas de taipa, de paredes barreadas com a alvura da tabatinga recolhida nos brejos do Tamanduateí.

Surgiram as casas de tijolo e de porão, de eira, beira e tribeira para que o passante soubesse quem era quem, gente de meia pataca ou gente de contos de réis. Tempos novos dominados pela mentalidade velha do tradicionalismo, dos que queriam mudar para permanecer, prudência de mamelucos que sabiam muito bem qual era a diferença entre ser e parecer. Quem vê cara não vê coração, diziam os mais velhos. Isso é para inglês ver, diziam os mais novos e céticos.

Os porões das novas casas do fim do Império e início da República não eram todos iguais. Havia porões para moradia dos ínfimos e na Rua Florêncio de Abreu ainda restam casas de porões que foram senzalas ou que abrigaram os serviçais que eram brancos por fora e negros pelo ofício. Gente que servia os que moravam nos cômodos de cima.

Os novos ricaços, que colhiam o ouro verde em pés de café, no tempo em que o dinheiro dava em árvore, apenas começavam a edificar os palacetes portentosos dos Campos Elísios e da Avenida Paulista. Já os que não tinham tanto dinheiro, mas tinham nome, os que ficaram na periferia da nova riqueza, zelavam pela pose e mantinham a aparência, apesar do declínio sabido e comentado.

Nas casas geminadas da Rua Helvetia ou da Rua Maria Antonia, os porões tinham sua função: abrigavam inquilinos que agregavam preciosos mil-réis ao haver das contas domésticas, quase sempre beirando o vermelho da coluna do deve. Não faz muito mais do que meio século e os passantes ainda podiam sentir o bafio que saía das janelinhas rentes à calçada, vindo dos porões habitados. Cheiro de humanidade, diziam. Na parte de cima morava quem podia e, na parte de baixo, quem precisava.

No refúgio dos porões, vidas foram salvas nos dias sangrentos da Revolução de 1924.

Num desses porões da Rua Maria Antonia, de casas geminadas, do lado de quem ia da Rua da Consolação para a Faculdade de Filosofia, instalou-se o Archimede, italiano, com a mulher como cozinheira, gorda e atarefada. Moravam nos cômodos de cima. Ele cuidava das mesas. Montou um restaurante nas saletas apertadas. Não havia mesas individuais. Quem chegava ia sentando onde houvesse lugar. E lá vinha ele perguntar:

- Zupa? Pasta?

A Zupa era sempre a mesma. A pasta era o melhor espaguete à bolonhesa de São Paulo e a melhor autoridade nisso era a fome dos estudantes da Filosofia. Depois do primo prato vinha o bife à milanesa. E o copo de vinho ruim, que para o italiano Archimede era alimentação, como na tradição de sua terra. Quem não pode, finge.

RAUL VELLOSO - Casa sem poupança...


Casa sem poupança...
RAUL VELLOSO
O GLOBO - 10/10/11

Demanda de consumo não é problema no Brasil. Sem subprimes (empréstimos "bichados"), os gastos públicos correntes e o crédito crescem aceleradamente, enquanto a procura por commodities, afora crises agudas, vai bem, obrigado. Lá fora, os subprimes ainda abundam, falta demanda, e os países mais desenvolvidos cobiçam a nossa.

Nosso problema é outro: oferta inadequada. Quando o crescimento da demanda bate no setor de maior peso no PIB, o de bens e serviços não comercializáveis com o exterior, a resposta desse setor, que tem grande participação do setor público, é ruim, produzindo elevações de preços, e, daí, inflação acima da meta. Trata-se dos serviços em geral, especialmente de infraestrutura, construção civil etc., e alguns ramos da indústria cuja importação é inviável pelo alto custo do frete ou por proibição imposta pelo governo. Neste último caso, o exemplo mais notório era a lei de informática, quando existia. Finalmente, a taxa Selic sobe, abortando o crescimento da demanda e do PIB. Assim, como o governo prioriza o lado da demanda, a oferta fica às moscas...

A fraca resposta da oferta interna de não comercializáveis se deve, primeiro, ao simples fato de que, por definição, não há como suplementá-la com importações, ou seja, só com investimentos se aumenta a oferta. Além disso, como o peso do governo é muito grande, especialmente na infraestrutura de transportes, e como é o mesmo setor público que vem expandindo fortemente outro tipo de gasto, o corrente, há um conflito em princípio sem solução. Poupa-se (e se investe mais) ou se faz mais gasto corrente (e lá se vai a infraestrutura...).

O problema é mais complicado, porque: (1) com o tempo, o setor público brasileiro passou de doador a sugador de recursos do setor privado, já que a queda de poupança tem sido maior que a queda do investimento, inclusive pela incidência de juros sobre a dívida que se foi acumulando; (2) como a dívida subiu muito, o governo, ao manter o pé no acelerador dos gastos correntes, passou a conter ainda mais os investimentos e aumentar a carga tributária, para controlá-la. Ao lado, o aumento dos impostos teve o efeito colateral nocivo de pressionar a poupança privada para baixo. (3) Por mais que se negue, há, ainda, um claro viés antissetor privado, especialmente em infraestrutura. É só lembrar que, até hoje, a União não aprovou sequer um caso de parceria público-privada e as enormes dificuldades para colocar em pé uma primeira concessão relevante de aeroporto.

Seja porque o setor público investe menos, seja porque virou sugador de recursos, seja porque não morre de amores por investimento privado em infraestrutura, e porque ele controla a dívida via corte de investimentos e aumento de tributos, a ação do governo está na raiz da falta de crescimento sustentável. A poupança externa não poderia substituir parte da poupança faltante? Sim, e, numa certa medida, isso ocorre, especialmente num mundo com abundância de financiamento externo, mas se dá a um custo elevado para o terceiro segmento que completa a configuração setorial da economia do país, a indústria de transformação.

Ao subirem os preços de não comercializáveis com o exterior relativamente aos da indústria de transformação (cujos preços em dólares são determinados fora do país, e, pela "invasão chinesa", têm estado em queda nos últimos anos), mão de obra e recursos são atraídos para os primeiros, reduz-se a produção da indústria e aumentam-se suas importações, gerando déficits externos adicionais. É como se a indústria assumisse o papel de importador "estratégico", a fim de liberar recursos aos que não têm como importar. Alguns chamam isso de desindustrialização. Na verdade, é mera reação do sistema de mercado aos estímulos existentes. Para evitá-la (e também evitar a subida dos juros), cabe contestar não o efeito, mas sim a origem do problema, ou seja, o modelo dos gastos correntes.

Adianta entrar mais poupança externa diretamente no setor problemático para expandir seus investimentos? O problema é que a poupança de fora só se materializa na expansão da produção interna de qualquer setor, se houver aumento de valor equivalente do déficit externo da indústria, agravando seu encolhimento. (O peso da indústria de transformação no PIB já é metade do que era nos anos 80.) Se não, o Banco Central compra os dólares e os aplica lá fora. Nesse caso, como a União não tem poupança (que se tornou inclusive negativa em 2009), o governo emite títulos e paga um diferencial de juros exorbitante, que uma hora vai bater perigosamente na dívida.

No momento, mesmo havendo queda aguda na demanda externa nesta segunda rodada da crise, as taxas de juros só podem cair de forma expressiva e sustentada se, da mesma forma, o modelo dos gastos correntes mudar. Caso contrário, o desequilíbrio entre demanda e oferta de não comercializáveis volta rapidamente a aparecer, e o BC, mantida a política de metas de inflação, voltará a subir a Selic, frustrando a todos.

RAUL VELLOSO é economista.

RENATA LO PRETE - PAINEL


Quem dá mais?
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 10/10/11

Donos de quase um terço do tempo de TV, quatro partidos integrados à base de Dilma Rousseff (PT), mas aliados a Geraldo Alckmin (PSDB) no Estado e a Gilberto Kassab (PSD) na prefeitura, abriram leilão de apoio para a eleição paulistana. PR, PP, PSB e PDT, que se queixam, por razões distintas, do desdém da presidente e da opressão peemedebista no plano federal, ouvem ofertas em São Paulo interessados em maior participação nas máquinas e na perspectiva de ampliar a bancada de vereadores. O martelo começa a ser batido nas reformas dos secretariados de Alckmin e Kassab, esperadas para a virada do ano.

Assopra Ciente da importância de engordar o tempo de televisão do PT, em especial se o candidato for Fernando Haddad, e da dificuldade de atrair o PMDB, avançado na promoção de Gabriel Chalita, Lula mira o PR. Enquanto Dilma maltrata a sigla, o ex-presidente corteja Valdemar Costa Neto.

Na tela Em inserções no ar a partir desta segunda-feira em São Paulo, o PC do B-SP dedicará 80% do tempo ao vereador Netinho de Paula, que tenta marcar posição como candidato a prefeito enquanto a sigla é assediada por Lula. Nos programas nacionais aparecerão também Manuela D'Ávila (RS) e Perpétua Almeida (AC).

Paradoxo O viés de alta de Gilberto Kassab no microcosmo dos políticos não se reflete, hoje, em sua avaliação como prefeito. Quem examinou uma pesquisa recente afirma: nesse aspecto, o criador do PSD está no sal.

Fase dois Aliados do prefeito, porém, recomendam cautela nos prognósticos eleitorais. Apostam que, com a mesma disciplina empregada para viabilizar o novo partido, ele implementará na cidade um cronograma de investimentos capaz de recuperar sua popularidade e colocar seu candidato no segundo turno.

Canga Depois da normatização das prévias para prefeito, o PSDB-SP discute uma resolução contra a infidelidade em 2012. Pela regra em estudo, todo filiado que tiver cargos na estrutura municipal, estadual ou nacional do partido e fizer campanha para adversários será submetido à Comissão de Ética.

Compulsório A abertura de uma CPI para investigar o escândalo das emendas preocupa o Palácio dos Bandeirantes, pois a comissão teria prerrogativa de convocar seis secretários e ex-secretários citados por Roque Barbiere (PTB). No Conselho de Ética da Assembleia, eles podem ser apenas convidados. Faltam à oposição quatro assinaturas para criar a CPI.

Te conheço O procurador da República Gustavo Pessanha Velloso, que vai analisar se abre investigação criminal sobre os negócios de Antonio Palocci, também atuou na primeira fase da apuração do episídio do caseiro Francenildo Costa, até o caso subir para o procurador-geral da República.

Com lupa O Banco Central monitora as cifras envolvidas na venda de Neymar ao Real Madrid. É que o Santos foi multado anteriormente por omitir transações em dólares. A instituição já autuou 22 clubes, somando US$ 49 milhões em punições, segundo estudo do sindicato dos funcionários do BC.

Queima de estoque O Ministério da Justiça assina amanhã com o CNJ acordo para destruir armas em fóruns. Estima-se que há 700 mil estocadas nos prédios do Judiciário em todo o país.

tiroteio

"O presidente do BC está parecendo animador de plateia. A economia brasileira depende de fatores internos e externos imprevisíveis. Não é prudente trabalhar com bola de cristal."
DE JOSÉ AGRIPINO, PRESIDENTE DO DEM, sobre Alexandre Tombini afirmar em entrevista à Folha que a inflação cairá, mesmo com piora no cenário externo.

contraponto

Pouco a festejar


O evento realizado para marcar um ano da aprovação da Lei da Ficha Limpa teve a presença da brasiliense Leiliane Rebouças -aquela que se fantasiou de "diaba" e mandou os deputados "para o inferno", no Salão Verde da Câmara, no dia seguinte à absolvição de Jaqueline Roriz. Ela compareceu ao lado do filho, Fernando.
Encerrada a longa sequência de discursos dos congressistas, o garoto, de quatro anos, perguntou: -Mas mãe, qual desses aí é o tal do "Ficha Limpa", que faz aniversário hoje?

com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

GOSTOSA


DENIS LERRER ROSENFIELD - Política e costumes


Política e costumes
DENIS LERRER ROSENFIELD
O ESTADÃO - 10/10/11 

O grau de liberdade de um país se mede pela liberdade de seus costumes, pelas escolhas que cada cidadão faz do que estima ser melhor para si, sabendo reconhecer no outro um portador dos mesmos direitos. A sociedade brasileira tem tornado um valor seu a liberdade dos costumes, alterando velhos hábitos e mesmo legislações restritivas à liberdade de escolha. Recentemente, contudo, surge uma onda, patrocinada por agentes governamentais, do politicamente correto que procura reverter essa tendência, fazendo-o em nome de uma posição aparentemente "progressista". O retrocesso está mudando de nome.

Há setores do governo, que têm uma visão definitivamente autoritária das relações políticas, invadindo, sem nenhum pudor, a esfera do privado, daquilo que é próprio de cada um. O poder passa a ser exercido sob a forma de controle da vida individual, em que, por princípio, nada se coloca fora do seu alcance. A liberdade de escolha - e, por extensão, de iniciativa -, econômica, de imprensa, de publicidade, é fortemente atingida. Engana-se quem pensa que se trata de ações apenas pontuais. Em cada caso específico se revela toda uma concepção de mundo, das relações pessoais e, mais particularmente, dos costumes.

A última em série - mas, infelizmente, não a última de um processo que parece interminável - está na tentativa da Secretaria de Políticas para Mulheres da Presidência da República de enquadrar a novela Fina Estampa, da Globo. O motivo, aparentemente anódino, diz respeito a um personagem que na trama humilha e bate na mulher. Segundo o enredo, a personagem agredida é aconselhada por amigas a prestar queixa do marido, porém não o faz porque diz amá-lo. Trata-se, na verdade, de um retrato do que ocorre com muitos casais pelo País afora, sem que intervenha aqui nenhum juízo de valor. Cabe, isso sim, ao telespectador elaborar o seu.

Mas a secretária sugere em ofício enviado à TV Globo que esta mude seu enredo. Segundo ela, a mulher agredida deveria procurar a Rede de Atendimento à Mulher, ligando para o telefone 180. Sugere ainda que o agressor seja não só punido, mas encaminhado aos centros de reabilitação da Lei Maria da Penha. Aqui, a secretária já está se tornando especialista em dramaturgia. A "lei" do politicamente correto deveria, então, passar a reger a elaboração das novelas e - por que não? - do cinema também.

O assunto é especialmente grave porque implica interferência governamental direta na liberdade de expressão, ainda que feita sob a forma de "sugestão". Sugestão de ministra não é conselho de uma cidadã qualquer, mas de uma agente estatal. Trata-se de uma recomendação oficial. Num primeiro momento, estamos diante de um fato menor, mas o problema é que a moda pode pegar. Logo, num segundo momento, qualquer agente público estaria no direito de se tornar um dramaturgo oficial.

Retomando o genial Stanislaw Ponte Preta, estamos diante de outro episódio do festival de besteiras que assola o país. O problema é que esse festival se apresenta como politicamente correto, estabelecendo normas de como deveriam ser os costumes e de como a liberdade de escolha deveria ser cerceada.

No festival em curso temos várias peças dignas de menção. Uma delas é sobre advertências, que deveriam estar inscritas em roupas íntimas de homens e mulheres, quanto aos perigos do câncer de próstata e de mama. Trata-se de uma invasão do domínio daquilo que é mais próprio de cada um, de sua vida íntima. Imaginem uma situação amorosa em que o homem olha o sutiã da companheira e lhe pergunta se tem feito mamografia. Ela, surpresa, olhando a cueca, retruca se ele fez exame de próstata. No auge da relação amorosa, o câncer, a morte, introduz-se numa relação de Eros, de vida. Não há clima que resista!

O clima, evidentemente, se esvai, dando lugar a uma conversa sobre os perigos de uma doença que pode ser mortal. Tânatos, a pulsão de morte, toma o lugar de Eros, pulsão de vida. E isso é feito pelo Estado, que diz proteger a vida contra a morte! A vida privada deveria, acima de tudo, ser preservada de intervenções estatais, por mais politicamente corretas que sejam. Eis o perigo maior. O Estado torna-se agente de Tânatos.

O festival não tem fim. A reincidente Secretaria de Políticas para Mulheres também vem tentando tirar do ar um comercial de lingerie com a modelo Gisele Bündchen por esta se insinuar, no uso de seus atributos femininos, num pedido ao marido. Nada de muito particular no fato, não fosse a "polícia" do politicamente correto procurando ditar o que deve ou não ser veiculado numa propaganda televisiva.

Seja dito de passagem que o anunciante da tal lingerie agradece, compadecido, a iniciativa governamental, pois a publicidade alcançada foi muito maior do que a prevista, seja ou não tirada a propaganda do ar. Jamais esse comercial teria atingido tal grau de publicização não fosse a interferência estatal.

O assunto encontra-se atualmente no Conar, órgão autônomo de regulação da publicidade, para análise de sua adequação ou não ao seu Código de Ética. Espera-se que essa entidade tenha o bom senso de rechaçar a interferência naquilo mesmo que é o fundamento da ética: a liberdade de escolha, livre das amarras governamentais.

O assunto é da maior gravidade, apesar de seu aspecto francamente cômico. Um agente estatal tem a pretensão de passar a decidir o que deve ou não ser veiculado na publicidade, interferindo em sua própria mensagem e criatividade. O mais preocupante, contudo, é que ele se crê imbuído da "crença correta" do que devem ser os costumes humanos. O governo arroga-se em instrumento de uma espécie de dever-ser moral que teria como função passar a ditar as normas dos comportamentos politicamente corretos.

RICARDO NOBLAT - Diga lá, Kassab!


Diga lá, Kassab!
RICARDO NOBLAT
O GLOBO - 101011

 O que Dilma Rousseff tem de fato a enaltecer a menos de três meses de completar um ano de governo? A degola de quatro ministros, três deles por suspeita de envolvimento com malfeitos? E mais a troca imprevista de cadeira entre outros dois ministros para não ter que afastar mais um? Ou seria mais razoável nada cobrar de Dilma por enquanto?

Instalado há oito meses, a que veio o novo Congresso? Cada vez mais atrelado ao governo, mexe-se com maior ou menor rapidez a depender exclusivamente do governo. No caso, mexese devagar. De notável, aprovou uma lei que prorroga a juventude até a idade de 29 anos para os aficionados por futebol e ingresso barato.

No primeiro ano de governo de uma mulher, a mais formidável novidade, capaz de influir no destino político do país, foi produzida por um homem sem carisma, de escasso brilho pessoal, mas herdeiro da lábia dos antigos mascates, e da disposição que os levava a oferecer sua mercadoria de porta em porta, obstinadamente.

Cuidado com quem descende de santo. Descendo de um — São Leonard de Noblat, o protetor das mulheres grávidas. Mas dispenso cuidados. Sobrinho-bisneto de Nimatullah Yousseff Kassab Al-Hardini, santo da Igreja Maronita canonizado por João Paulo II em 2004, Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, inspira cuidados aos seus adversários.

Em prazo recorde, ele criou o Partido Social Democrático (PSD) — o 29o- reconhecido pelo Tribunal Superior Eleitoral. Estima-se que o PSD tenha nascido com cerca de 55 deputados federais, dois senadores, dois governadores, 600 prefeitos e seis mil vereadores. Na Câmara dos Deputados, talvez só fique atrás do PMDB e do PT.

Kassab apostou na ruína do DEM, seu antigo partido, em baixa desde que o PT chegou ao poder com Lula. Apostou no enfraquecimento do PSDB, sem discurso e circunscrito a alguns Estados. E apostou na insatisfação de muitos políticos dos partidos da base de apoio ao governo Dilma. Ganhou todas as apostas.

Causou irritação aqui fora e euforia dentro dos partidos quando proclamou: “Meu partido não será de direita, nem de esquerda nem de centro”. Haveria, pois, lugar nele para todo mundo. E, assim, todo mundo resolveu dar uma mão ao PSD. Ele foi montado com a ajuda da maioria dos governadores. E serve aos mais variados propósitos.

No Rio, por exemplo, o PSD é do governador Sérgio Cabral e fará dobradinha com o PMDB. No Maranhão, é da família Sarney. Na Bahia, o governador Jacques Wagner usou o PSD para enfraquecer o DEM do deputado ACM Neto. Eduardo Campos e Cid Gomes, governador do Ceará, ambos do PSB, desviaram correligionários para o PSD.

Muitos ganharam com a invenção do PSD. Mas ninguém ganhou mais do que Kassab. Em 2004, candidato a prefeito de São Paulo, Serra fez cara feia para o DEM, que bancou Kassab como seu vice. Agora, é Kassab quem oferece ao PSDB de Serra e de Geraldo Alckmin a vaga de vice-prefeito na chapa a ser encabeçada por um nome do PSD.

Esse nome pode vir a ser o de Afif Domingos, atual vice de Alckmin. Em troca do apoio do PSDB a Afif, Kassab promete apoiar a reeleição de Alckmin em 2014. Se o PSDB, contudo, preferir desprezar a aliança com o PSD, Kassab então lançará para prefeito Henrique Meirelles, que na última sexta-feira se filiou ao PSD.

Por acaso, tem alguém com mais bico e plumagem de tucano do que o ex-deputado federal pelo PSDB de Goiás Henrique Meirelles? Tem alguém com trânsito mais livre entre eleitores do PT do que Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central no governo Lula? Meirelles é presidente do Conselho Olímpico no governo Dilma.

Em São Paulo, berço político do PSDB e do PT, o PSD de Kassab é candidato a dar as cartas, ora enfrentando os dois ao mesmo tempo, ora se juntando com um deles. Doravante, em Brasília, quando algo relevante começar a ser discutido no governo ou no Congresso, alguma voz haverá de perguntar: “O que Kassab acha disso?”

RUY CASTRO - Esperando Garcia


Esperando Garcia
RUY CASTRO
FOLHA DE SP - 10/10/11

RIO DE JANEIRO - Tom Jobim e Dolores Duran acabaram de compor a canção que se tornaria "Por Causa de Você" ("Ah, você está vendo só/ Do jeito que eu fiquei/ E que tudo ficou..."). Tom gostou do resultado. Tanto que se virou para a parceira e perguntou: "Você já imaginou, Dolores, o Sinatra cantando essa nossa música?". A cética Dolores achou graça: "Tom, o Sinatra só vai cantar essa nossa música quando o homem pisar na Lua".
Naquele ano, 1957, o homem pisar na Lua ainda era visto pelo vulgo como a coisa mais remota do mundo -mais até do que o dia em que as galinhas criassem dentes. Na verdade, galinhas com dentes eram comuns em mafuás da roça ou dos subúrbios, ao lado de atrações como vacas de cinco pernas e Konga, a Mulher-Gorila. Já o homem pisar na Lua, só em filme de Hollywood.
Pois aconteceu que Frank Sinatra cantou -e gravou- "Por Causa de Você", com letra em inglês de Ray Gilbert e o título de "Don't Ever Go Away", no dia 11 de fevereiro de 1969, por volta de 10 da noite. Exatamente cinco meses, nove dias e algumas horas antes de Neil Armstrong descer da Apolo 11 e dar aquele primeiro passeio pela Lua. Afinal, não era tão impossível assim.
Há pouco, a corregedora do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), ministra Eliana Calmon, disse que só conseguirá inspecionar a Justiça de São Paulo "no dia em que o sargento Garcia prender o Zorro". Referia-se a uma famosa série da TV americana, rodada pela Disney em 1957, e em que, de fato, o Zorro sempre escapava no último rolo.
Mas isto foi naquele tempo. Hoje, nada impede que a Disney, cada vez mais chegada a ousadias que nunca teriam ocorrido ao velho Walt, produza um remake da série. Em que o sargento Garcia não apenas prenderá o Zorro, como fará uma faxina em regra na Justiça de São Paulo, digo, da Califórnia.

UM BOM LUGAR!


JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO - Indignados e desacreditados


Indignados e desacreditados
JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO 
O Estado de S.Paulo - 10/10/11

Por que o movimento dos "indignados", que ganhou notoriedade na Espanha, se espalhou para o Chile e agora ocupa Wall Street (EUA), não comoveu multidões no Brasil? Desde julho, quando o jornal espanhol El País fez essa pergunta, parece haver mais indignação com a falta de resposta do que, propriamente, com a corrupção da política nacional.

Tentativas de mobilização das massas não foram muito além de um trending topic ou outro nas redes sociais. Quando chegaram às ruas, não saíram dos bairros mais afluentes, tampouco tiveram sustentação ao longo do tempo. Nos termos de seus idealizadores, cansaram logo.

As explicações aventadas variam da mitológica cordialidade nacional ao efeito lavador de cérebros da propaganda governamental. A despeito de exemplos como os dos "caras-pintadas" e das "diretas já", os argumentos rapidamente se voltam contra o objeto da mobilização: o brasileiro - que seria, antes de tudo, um apático. Vale a pena, então, comparar o que ele pensa com o que pensam outros povos mais indignados.

A começar pelas semelhanças e diferenças na opinião pública de Brasil e Chile, onde o Ibope fez pesquisas com metodologias idênticas. O Índice de Confiança nas Instituições varia de 0 a 100. Quanto maior, mais confiante a população naquela instituição. Na média, o índice chileno pende bem mais para o lado da desconfiança do que o brasileiro: 46 a 55.

Semelhanças positivas - bombeiros: (Chile) 92 a 86 (Brasil); polícia: (Chile) 60 a 55 (Brasil); Forças Armadas: (Chile) 56 a 72 (Brasil); organizações da sociedade civil: (Chile) 60 a 59 (Brasil).

Semelhanças negativas - partidos políticos: (Chile) 17 a 28 (Brasil); Congresso Nacional: (Chile) 23 a 35 (Brasil); sistema público de saúde: (Chile) 40 a 41 (Brasil); sindicatos: (Chile) 47 a 44 (Brasil).

Semelhanças neutras - governo municipal: (Chile) 50 a 47 (Brasil); eleições: (Chile) 49 a 52 (Brasil).

Diferenças: presidente da República: (Chile) 27 a 60 (Brasil); Governo federal: (Chile) 36 a 52 (Brasil); Justiça: (Chile) 30 a 49 (Brasil); igrejas: (Chile) 44 a 72 (Brasil); meios de comunicação: (Chile) 51 a 65 (Brasil); empresas: (Chile) 49 a 59 (Brasil).

Nos EUA, o Instituto Gallup com metodologia diferente chegou a conclusões semelhantes. Como no Chile e no Brasil, nenhuma instituição é mais desacreditada entre os norte-americanos do que o Congresso. E apenas como no Chile, a Presidência da República está em processo de descrédito - desde a posse de George W. Bush, com leve, mas fugaz recuperação da confiança no começo do governo de Barack Obama.

Uma hipótese surge das pesquisas: quando a população se desencanta com seu governante e não enxerga representatividade no Congresso nem nos partidos nem nos sindicatos nem na mídia para expressar sua indignação, deságua sua insatisfação em protestos de rua. Não por coincidência, o chileno Sebastián Piñera é o governante mais mal avaliado das Américas, e o espanhol José Luis Zapatero está na lanterna na Europa.

E o que Obama, Piñera e Zapatero têm em comum, que presidentes com melhores índices de avaliação, como Dilma Rousseff (Brasil), Dmitry Medvedev (Rússia) e Cristina Kirchner (Argentina), não têm? Sérios problemas na economia de seus países.

LUIZA NAGIB ELUF - Estupros no metrô


Estupros no metrô
LUIZA NAGIB ELUF
FOLHA DE SP - 10/10/11

Reunir sob uma só definição toques libidinosos e atos sexuais com penetração torna mais difícil a aplicação de penas aos agressores


Por mais surpreendente que possa parecer, temos tido notícias de moças que foram estupradas dentro de vagões do metrô em São Paulo. É intrigante como alguém consegue cometer tamanha violência em horário de pico, em um local superlotado. Será que ninguém ao redor tem coragem de agir diante de um ato brutal.
A explicação, porém, é outra. Com a alteração do Código Penal no que se refere aos crimes de natureza sexual, qualquer ato libidinoso cometido com violência ou grave ameaça passou a se chamar estupro, como um beijo lascivo ou uma carícia nas partes íntimas. Anteriormente à lei n. 12.015/2009, para se configurar um estupro, era preciso que o agressor de fato praticasse uma conjunção carnal.
As mencionadas ocorrências no metrô não são atos sexuais. Em um dos últimos casos noticiados, o sujeito rasgou a calcinha da moça e bolinou sua área genital. Isso agora é denominado estupro -evidentemente, um exagero que só vem confundir as coisas.
É perfeitamente possível passar as mãos nas partes íntimas de uma pessoa em pleno vagão lotado do metrô, do trem ou no ônibus sem que os outros percebam. E isso acontece com frequência. Não deveríamos ter que chamar essa conduta de estupro, mas a reforma penal trouxe essa alteração que podemos considerar indevida.
O ato sexual é uma coisa, e o toque libidinoso, outra. No entanto, o novo artigo 213 do Código Penal simplesmente juntou essas agressões sexuais no mesmo texto, gerando consequências ruins.
Primeiro, a definição ampliada aumenta muitíssimo o número de estupradores, o que, por si só, constitui um fato aterrorizante.
Segundo, dificulta a aplicação da pena, que vai de seis a dez anos de reclusão em regime inicial fechado e é excessivamente rigorosa no caso de apalpadelas.
Os juízes talvez tenham resistência em reconhecer um estupro nas ocorrências em que não houve sexo oral, anal ou vaginal. O risco é a absolvição de agressores, o que não é justo, ou a desclassificação do ato libidinoso para contravenção, com uma pena irrisória. Prevalecerá a impunidade, o que é péssimo, pois abusos sexuais, mesmo aqueles em que não há penetração, são muito ofensivos.
Embora a reforma penal que instituiu novos tipos dentre os crimes contra a dignidade sexual tenha vários pontos positivos, fica a sugestão para que alguns artigos sejam reescritos, principalmente o de número 213.
É preciso separar as modalidades de violação sexual em dois artigos distintos. Um que preveja o ataque com penetração, incluindo-se nessa categoria a felação, o sexo anal e vaginal, que deverá ser denominado estupro e terá pena alta, como supramencionado; e outro que englobe atos libidinosos sem penetração e que estabeleça pena menor, proporcional ao malefício causado -esse seria o artigo 214 do CódigoPenal.
Com essa alteração, de certo conseguiremos mais punições para os molestadores.

LUIZA NAGIB ELUF é procuradora de Justiça do Ministério Público de São Paulo. Foi secretária nacional de Cidadania e subprefeita da Lapa.
É autora de livros como "A Paixão no Banco dos Réus" e "Matar ou Morrer - O Caso Euclides da Cunha".

CLAUDIO HUMBERTO

 "É um grande reforço político e técnico"
   Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, sobre a entrada de Henrique Meirelles ao PSD


No PSD, Serra pode acabar na basede Dilma
Aliados de José Serra dão como certo seu ingresso no PSD até 2013. A ironia é que sua filiação ao partido de Gilberto Kassab pode colocá-lo na base de apoio do governo Dilma, mas o objetivo é garantir legenda para a disputa da presidência da República em 2014. Serra estimulou a criação do PSD, e a filiação do amigo Henrique Meirelles o anima a seguir o mesmo caminho. Por enquanto, ele jura que continua tucano.

Vazamento
O vazamento de pesquisa do PSDB mostrando que ele encolheu desde a eleição de 2010 afastou Serra em definitivo do senador Aécio Neves.

Teimosia
José Serra acha que Aécio Neves conspira 24 horas por dia contra ele, por isso, só de birra, quer viabilizar mais uma candidatura presidencial.

Definhando
Irritados com a hipótese de perderem o aliado, os presidentes Roberto Freire (PPS) e Agripino Maia (DEM) cobram do PSDB segurá-lo.

'Produzir provas'?
A Secretaria de Transparência do governo do DF está mais focada em governos anteriores. Em sua página na internet, revela seu empenho na "produção de provas" contra os acusados da Operação Caixa de Pandora, "por determinação do governador Agnelo Queiroz".

FPE: nova tabela
Os parlamentares do Sul reclamam dos "generosos" índices de FPE para o Nordeste e vão apresentar projeto de outra tabela tão logo passe o debate dos royalties de petróleo.

Na gaveta
A tabela do FPE foi fixada em 1989, e deveria ser substituída por outra lei em 1992. Mas ninguém mais tocou no assunto. Bahia (9,39%), Ceará (7,33%) e Maranhão (7,21%) lideram o ranking de repasses.

Melhor que propaganda
O lutador de UFC, Lyoto Machida, radicado no Pará, tentará recuperar o cinturão dos "meio-pesados" na véspera do plebiscito sobre a divisão do Estado, em 11 de dezembro. Se vencer, vai celebrar como sempre, empunhando a bandeira do Pará. Melhor que qualquer publicidade.

Aliás...
Será um perigo é se colocarem num octogonal Zenaldo Coutinho x Giovane Queiroz, contra e a favor da divisão do Pará, respectivamente.

Senadores em campo
Após a questão do pré-sal, os senadores abrem nova guerra: pela equanimidade na distribuição do Fundo de Participação dos Estados (FPE), fomentado por 21,5% do Imposto de Renda e do IPI.

Poder sem pudor
Toupeira
O cordato senador Jarbas Passarinho (PA) certa vez se meteu em um bate-boca entre Petrônio Portella (PI) e Paulo Brossard (RS) para socorrer o amigo do Piauí. Polemista competente, Brossard escorregou no autoelogio:
- Minha conduta de homem público é uma linha reta!
Passarinho exclamou ao microfone, arrancando gargalhadas:
- Se andar em linha reta fosse mérito, a toupeira seria o rei dos animais...

SEGUNDA NOS JORNAIS


Globo: Fraudes já provocaram cassação de 274 prefeitos

Folha: Europa decide nacionalizar o maior banco da Bélgica

Estadão: Europa salva banco e articula pacote amplo

Correio: A fome que escandaliza o mundo

Valor: Zona do euro busca saída para os bancos

Estado de Minas: Churrascão com sabor de campanha

Jornal do Commercio: Falta pouco, Santa

Zero Hora: Detentos criaram um “Tribunal da Morte” em penitenciária de Caxias

domingo, outubro 09, 2011

JOÃO UBALDO RIBEIRO - Vida volátil

Vida volátil
JOÃO UBALDO RIBEIRO
O ESTADÃO - 09/10/11

Fico escrevendo aqui umas coisas meio paranoicas sobre a evolução tecnológica e aí concluo que me explico mal, porque tem gente que pensa que sou um tecnófobo reacionário, que gostaria de escrever com pena de ganso. Grave injustiça. Fui dos primeiros escritores brasileiros a usar computador para escrever, tripulando um clone nacional (e ordinário) de um Apple II, sem disco rígido e com 148 KB de memória, dos quais o editor de texto comia 120. Com sua tremenda impressora matricial, fazia sucesso e eu recebia visitas turísticas a meu escritório. Sempre gostei de novidades tecnológicas e claro que não sou, nem adianta ser, contra essas novidades.

Meu problema não é com tecnologia, é com certos usos que podem fazer dela. Considerando a geral natureza do ser humano, que, agora mesmo, está se matando ferozmente em várias partes do mundo, esses usos, como alguns que já mencionei aqui, às vezes me metem medo. E, se a tecnologia nos beneficia de incontáveis formas, não devemos esquecer como ela é também usada para o mal e para objetivos odiosos e como pode afetar nossa vida para pior, em termos humanos e sociais.

Além disso, nesta longa estrada cibernética que percorri e continuo a percorrer, tenho tido de me adaptar a mudanças cada vez mais rápidas, que cansam até mesmo alguns viciados em comprar todas as versões do iPad. Nos Estados Unidos, quando computador aqui ainda se chamava 'cérebro eletrônico', cheguei a estudar a linguagem Fortran e trabalhar com um computador que, num ambiente refrigeradíssimo, ocupava todo um andar de um prédio da universidade e era infinitamente menos poderoso que meu notebook de um quilo e pouco.

De lá pra cá, até dá para começar a enumerar as novidades que foram aparecendo, mas hoje ninguém mais pode fazer isso sem recorrer ao Google. A mudança é o tempo todo. E está certo que tudo neste mundo é passageiro, inclusive ele próprio, mas acho que o homem gosta de ter algum senso de permanência, de duração. Antigamente era possível reservar tempo para nos acostumarmos às mudanças, mas hoje esse tempo não existe mais e já é piada conhecida dizer-se que o tempo que economizamos com os novos gadgets é necessário para que possamos aprender a usar os novíssimos.

Lembro-me de um velho porta-retratos na casa de meus pais, com uma foto em preto e branco de meu avô paterno, que ficou lá por mais de cinquenta anos. Havia algo de permanência naquela antiga moldura de madeira e no sorriso do velho, havia um certo sossego, coisas que duravam e eram guardadas 'para sempre'. No futuro, acho que não se conhecerá mais essa sensação. Os porta-retratos agora são eletrônicos e programáveis para fazer exibição de slides, mudar a foto periodicamente, tocar música e mais outras coisas. As fotos, que hoje se produzem com uma abundância inadministrável, também não são mais para ficar, nada mais é para ficar.

A maior parte das novidades dura apenas dias e ninguém se lembra delas depois. Aliás, ninguém se lembra de mais nada e a fama às vezes já nem alcança os 15 minutos de Andy Warhol, vai embora literalmente em menos tempo, como acontece com muita gente enfocada em reportagens de televisão. Nossa efemeridade, sempre um pouquinho desagradável de lembrar, não tem mais sua sensação aliviada de quando em vez, ela agora se mostra em toda parte e todo o tempo, nada dura nada e os registros são voláteis. Toda a civilização digitalizada é volátil - e, aliás, governos como o americano conservam seus dados preciosos em papel, método de armazenamento mais confiável que circuitos integrados ou memórias eletrônicas de qualquer natureza.

Todo mundo saberá ler e escrever, num mundo de mensagens instantâneas? Talvez não. Não me refiro a escrever à mão, com lápis ou caneta. Hoje já tem quem escreva uma página digitando com os polegares e não rabisque três linhas com uma caneta. Mas estou pensando em leitura e escrita sem o uso do alfabeto. De vez em quando, sou tentado a crer que as futuras mensagens instantâneas, torpedos e similares, serão grafados mais ou menos com ideogramas simples - imagens como aquelas carinhas Smiley que aparecem em milhares de aplicativos, acrescidas talvez de uma ou outra palavra abreviada em letras. De escrever e ler usando alfabeto e sintaxe, como hoje ainda fazemos, não haverá necessidade para grande parte dos usuários de aplicativos de mensagens. Passaremos mais ou menos para hieróglifos simples, que deverão ser perfeitamente adequados ao vocabulário e ao universo de interesses desses usuários. E talvez os que saibam ler e escrever usando o alfabeto venham a constituir uma categoria especial na sociedade, como eram os escribas da Antiguidade.

Fazer conta, então, nem pensar. Não acredito que na escola ainda se aprenda a tirar raiz cúbica na munheca, como no meu tempo (eu nunca aprendi). Aliás, não acredito na sobrevivência da tabuada - e não me refiro àquelas tipo 7 vezes 8, de que a gente não lembrava na época e até hoje não lembra. Quem, num futuro não muito distante, responder quantas são 6 vezes 9 sem consultar a calculadora será levado para estudos num instituto de neurologia e proporão que se conserve seu cérebro depois da morte. É nesse tipo de coisa que penso, quando falo em tecnologia, não é contra a tecnologia. Será bom para nós não sabermos mais escrever nem fazer contas e deixar fantásticas aptidões naturais, como a memória, irem se perdendo por falta de uso e exercício? Será realmente bom que tudo seja descartável e não dure mais que poucas semanas, nesta vida cada vez mais volátil?