sexta-feira, outubro 07, 2011

JOÃO MELLÃO NETO - Uma questão de coerência


Uma questão de coerência
JOÃO MELLÃO NETO 
O Estado de S.Paulo - 07/10/11

Margaret Thatcher, estadista inglesa, ensinava que na política, antes de tudo, é preciso assumir um lado. E persistir nele.

Durante toda a sua vida pública ela agiu de acordo com tal postulado. Defendia a livre-iniciativa, a concorrência entre as empresas e a consequente redução do papel do Estado na economia e na sociedade. Manteve esse discurso mesmo quando os seus adversários trabalhistas pareciam invencíveis. Mas um dia chegou a sua vez: seu Partido Conservador venceu as eleições e ela chegou ao posto de primeiro-ministro. Governou por quase uma década e em momento algum abandonou as suas convicções.

Muito tempo antes, Winston Churchill, outro membro do Partido Conservador, foi ridicularizado por mais de uma década pelo fato de entender que o nazismo alemão representava uma séria ameaça às nações democráticas. Em 1941, com Londres em chamas, enfim o convocaram para dirigir a Inglaterra.

O mesmo ocorreu nos EUA, com Ronald Reagan. Durante mais de 20 anos ele martelou o público americano com as mesmas teses: menor ingerência estatal na economia e maior poder de escolha para os indivíduos. A sua intransigente defesa desses princípios o fez ser menosprezado pela imprensa dita "esclarecida" e lhe custou até a indicação de seu Partido Republicano para concorrer à presidência do país - e isso lhe aconteceu em duas ocasiões.

Mas um dia ele chegou lá. Conseguiu ser escolhido candidato dos republicanos e empolgou a nação com as suas ideias. Foi eleito e reeleito presidente dos EUA.

Quando Margaret Thatcher afirmou a importância de se assumir um lado, referia-se tanto à esfera pública quanto à pessoal.

Eu me lembro de ter lido em algum lugar o argumento de que a ética existe até mesmo na guerra. O capitão do submarino alemão e o comandante do navio inglês eram, obviamente, inimigos. Mas algo eles tinham em comum: ambos se dispunham a morrer por sua pátria e cada um esperava do outro que morresse pela pátria dele, também. Mas o que aconteceria se algum deles tentasse propor um acordo? Talvez até o conseguisse, mas estaria, assim, traindo não só o seu povo como também a sua própria honra.

Alguns podem afirmar que em política é "diferente". Não, não é. Os cidadãos que se dispõem a dar o seu voto a alguém precisam saber que ideias são defendidas por seu candidato. E também ter a segurança de saber que, uma vez eleito, ele se conduzirá de acordo com elas. E é do próprio senso comum que os homens públicos se comportem assim.

Há no Brasil, ao menos, duas vertentes de pensamento que não entendem o jogo político dessa maneira. Na falta de nomes melhores, vou intitular uma delas como "revolucionária" e a outra como "pragmática".

A primeira reúne todas as correntes que, no palco público, se identificam com os ensinamentos de Karl Marx. A segunda é aquela que tem em Maquiavel o seu principal mentor.

Uma entende que moral e ética são conceitos criados pelas "classes dominantes" e não se pauta por eles. Matar, roubar, trair, qualquer conduta é válida desde que seja necessária para se chegar à "revolução" - na qual os "explorados" prevalecerão sobre os "exploradores".

A outra também renega a moral e a ética porque entende que, na esfera pública, só logram ter êxito aqueles que praticam a política "exatamente como ela é".

Estes últimos são os imorais. Já os primeiros preferem dizer-se "amorais".

Qual é a diferença?

Uns reconhecem as regras morais, mas não se incomodam em transgredi-las. Os outros alegam não existir moral alguma. Ambas as tendências, às vezes, se confundem. E isso decorre do fato de que, para as duas, vale o preceito de que os fins justificam os meios.

Não existem escrúpulos em nenhuma delas. Ambas menosprezam a capacidade de discernimento dos indivíduos. Ambas entendem que cabe a uma minoria esclarecida o papel de dirigir as massas. Para as duas, apenas alguns poucos sabem distinguir o bem do mal.

Uns acreditam que é possível mudar tudo. Outros acham que não é possível mudar nada.

Felizmente, além desses "revolucionários" e "pragmáticos", existem uns tantos outros para quem a moral e a ética são valores que contam. E é com eles que procuram pautar a sua conduta. O conceito de honra, para esses poucos, é um princípio de vida. Como o são, também, a honestidade, o decoro e a dignidade.

Todos esses atributos são pessoais. Dependem da índole de cada um e não podem flutuar ao sabor das circunstâncias. Somente assim se pode andar na rua com a cabeça erguida.

Uma velha raposa da política brasileira resumia esse conceito de uma forma magistral. Dizia ele que "quem se mexe muito não sai na foto".

Tudo bem, o liberalismo saiu de moda. Ainda mais depois da crise econômica norte-americana de 2008. Nós, liberais, tivemos de revisar muitas de nossas crenças. A principal, entre elas, é a de que os mercados, deixados por si próprios, acabam sempre se ajustando. Mas foi necessária a intervenção do Estado para garantir a liquidez da economia. Para muitos liberais, esse baque foi equivalente ao sofrido pelos comunistas com a queda do Muro de Berlim.

Muito do que pregávamos, de repente, caiu por terra. Mas na nossa vida - como nas nossas convicções - não ocorre a ninguém trocar de valores tão somente porque outros aparentam ser mais convenientes.

Eu, por mim, pretendo continuar a dizer as mesmas coisas. Não vou trocar de ideia nem pretendo mudar de assunto: defendo uma sociedade aberta, com respeito aos direitos de cada um e a confiança no juízo de todos.

Chegará, um dia, a nossa vez. Até mesmo um relógio parado está certo duas vezes ao dia...

EDITORIAL O ESTADÃO - Botox na inflação



Botox na inflação
EDITORIAL
O Estado de S. Paulo - 07/10/2011

A inflação continua acelerada e não há sinal, até agora, do arrefecimento previsto pelo governo para os próximos meses. Com a alta do dólar, os preços ganharam impulso adicional nas últimas semanas e isso já é visível tanto no mercado de matérias-primas como no varejo. Mas o câmbio é só uma parte do problema, como advertiu o economista Salomão Quadros, da FGV, ao comentar a elevação de 0,75% do Índice Geral de Preços (IGP-DI) em setembro. Segundo ele, são mais preocupantes outros fatores, como a demanda interna ainda aquecida e o próprio corte dos juros básicos pelo Banco Central (BC).

Esse corte, observou Quadros, gerou dúvidas quanto ao compromisso do governo com a meta de inflação e alimentou a expectativa inflacionária. Em agosto, o IGP-DI havia subido 0,61%. Mas também os dados sobre a atividade econômica justificam dúvidas sobre as previsões do BC. Números da indústria fornecidos por diferentes fontes ainda não permitem um diagnóstico seguro das condições de produção e demanda.

Quanto aos preços, tudo indica, por enquanto, a tendência de forte elevação nos próximos meses. Ainda na quinta-feira, a Associação Brasileira da Indústria do Plástico informou em comunicado os aumentos de preços decididos por grandes fornecedores de matérias-primas. De acordo com a associação, a Braskem anunciou majoração da ordem de R$ 700 por tonelada. A Dow notificou seus clientes de uma elevação de R$ 600 por tonelada a partir de 3 de outubro.

Em setembro, os preços por atacado subiram 0,94%, segundo a FGV. Esse item é o principal componente do IGP-DI, com peso de 60%. No mercado internacional de matérias-primas houve algum recuo, atribuído aos temores de uma nova recessão. Analistas, no entanto, evitam apostar numa tendência de baixa, ou de baixa significativa. A FAO já alertou para o risco de novos aumentos das matérias-primas agrícolas, por causa das condições inseguras de suprimento. De toda forma, produtos básicos continuam pressionando a inflação brasileira.

O índice de preços ao consumidor da FGV, outro componente do IGP-DI, subiu 0,5% em setembro, 4,69% no ano e 7,13% em 13 meses. Em agosto havia aumentado 0,4%.

Outros indicadores de preços apontam na mesma direção. O índice de preços ao consumidor pesquisado em São Paulo pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos subiu 0,69% em setembro, 0,30 ponto mais que no mês anterior. O Índice de Custo de Vida da Classe Média apurado pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo aumentou 0,37% em agosto e 6,47% em 12 meses.

O IBGE estimou uma redução mensal de 0,2% da produção industrial em agosto. A Confederação Nacional da Indústria, no entanto, apontou uma alta real de 8,4% no faturamento, expansão de 3,5% nas horas de trabalho e de 0,4% no emprego. O nível de uso da capacidade instalada subiu de 82% para 82,2%, descontados os fatores sazonais. A associação das montadoras informou uma queda de 19,7% na produção de veículos em setembro, mas esse dado, segundo um dirigente da entidade, é em grande parte explicável pela sazonalidade e por greves. A média diária de vendas (14.840 unidades) foi 4,2% maior que a de agosto.

O quadro da produção, portanto, está longe de ser claro, apesar de algum efeito da contenção do crédito. Mas, de modo geral, a demanda continua forte, alimenta a inflação e é em parte suprida por importações.

Em Brasília já se admite, extraoficialmente, a adoção de medidas extraordinárias para impedir o estouro do limite superior da meta (6,5%) no fim do ano. Poderá, adiantou uma fonte, haver uma redução temporária de impostos. Mas isso seria um remendo, uma forma de disfarçar e não de eliminar as pressões inflacionárias. Essa informação parece confirmar o pior dos temores: o governo renunciou a enfrentar para valer a inflação e já admite aplicar botox nos preços, para fazer crescer o PIB em ano de eleição - a qualquer custo, literalmente.

GOSTOSA


MARCIA PELTIER - Grana a caminho


Grana a caminho
MARCIA PELTIER
JORNAL DE SP - 07/10/11
 
Vem mais investimento coreano no Brasil por aí. Hoje, na cerimônia de lançamento da pedra fundamental da nova fábrica da Hyundai Heavy Industries e da BMC, em Itatiaia, também estarão integrando a comitiva oriental fornecedores de equipamentos da multinacional, que vieram sondar, in loco, possibilidades de negócios. O governador Sérgio Cabral será o anfitrião da solenidade, que sacramentará o aporte de US$ 150 milhões no Rio, e que contará, também, com as presenças de Jai-Seong Lee, presidente e CEO da Hyundai, e Felipe Cavalieri, CEO da BMC.

Arapuca
Apenas algumas horas após o falecimento de Steve, o Facebook foi vítima de um golpe. Foi colocado no ar um anúncio afirmando que a Apple decidiu doar 1000 iPads em homenagem ao gênio. Para isso, os usuários deveriam compartilhar uma página no Facebook, onde tinham de escrever Rip Steve (Descanse em paz, Steve). Depois dessa capa de credibilidade, eram solicitados dados pessoais do internauta. A oferta da Apple não existe.

Voz da experiência 
A avó de uma das fãs de Justin Bieber, que se hospedou com a neta no prédio Anexo do Copacabana Palace, não perdeu tempo ao ver os avós do cantor tomando café da manhã no hotel. Se juntou e foi puxar conversa. Questionou o motivo do cantor se trancar no quarto e nem sequer acenar para as fãs. A postura do adolescente, que passa correndo pelos corredores sempre escondendo o rosto e cercado de seguranças, também foi comentada. Não satisfeita, a avó brasileira chegou a comparar o comportamento do mocinho com o de Madonna. Os avós americanos ficaram pensativos e prometeram falar com Justin, que horas depois apareceu na sacada do Copa sorridente, cantarolando, mandando beijos e sacudindo a bandeira do Brasil.

Feedback 
Além de o cantor usar playback em todas as canções, outro comentário entre os pais era unânime: não se escutava nada que Bieber falava ou cantava por causa da histeria das fãs. Muitos ficaram com dor de cabeça. No entorno do Estádio do Engenhão, ambulantes vendiam de tudo. Uma blusa baby look do cantor não saía por menos de R$ 85.

Cheios de marra 

A equipe do cantor Justin Bieber enviou reclamação oficial à Polícia Federal sobre o assédio que o menino sofreu ao entrar no país, na fila de imigração, no Tom Jobim. Os seguranças do astro teen afirmam que funcionários passavam informações para quem estava do lado de fora, enquanto outros fãs faziam hora nas filas restritas da imigração com objetivo de tirar fotos ao lado do astro. Seu staff teme que o rapazola sofra o mesmo sufoco nos aeroportos de São Paulo e Porto Alegre, estados onde fará shows neste fim de semana

Bom de briga 

Na última década, o Brasil se envolveu em 100 contenciosos comerciais na OMC. Atual presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína, Pedro de Camargo Neto esteve à frente de dois dos mais importantes: sobre o açúcar, contra a União Europeia, e sobre o algodão, contra os EUA, no governo FHC. Camargo Neto será o palestrante do painel Experiência do Setor Privado Brasileiro no Sistema de Solução de Controvérsias da OMC, durante o seminário que o Itamaraty promove segunda e terça, em Brasília.

Seresteiro 

O cantor Carlos José, hoje com 77 anos e ausente dos palcos desde 1999, voltou para casa esta semana, depois de três dias na emergência do hospital TotalCor, em Ipanema. Mas ele ainda precisa se submeter a um cateterismo. A coluna torce pelo seu restabelecimento.

Nas paradas 
A rapper americana Nicki Minaj, famosa por suas roupas multicoloridas e penteados exóticos, usou peças da marca carioca Sobral na foto de capa do novo single Fly. A cantora, também conhecida como a Lady Gaga do hip hop, escolheu os acessórios da coleção assinada por Carlos Alberto Sobral em parceria com Karl Lagerfeld. As bijoux, em formato de cones, são coloridas e tem um estilo rocker.

Líderes nacionais 
A 7ª edição do Women’s Forum Global Meeting, primeiro fórum europeu e internacional voltado para mulheres, vai homenagear as brasileiras. O tema do encontro — que acontece de 13 a 15, em Deauville, na França — será What if ? Challenge, imagination and commitment. No grupo verde e amarelo estão a ministra Ellen Gracie, as chefs Bel Coelho e Teresa Corção, a empresária Leila Velez, que comanda a rede de salão Beleza Natural, e Yvonne Bezerra de Mello, do projeto social Uerê, além de outras 100 brasileiras.

Livre Acesso

A campanha Fim aos Paraísos Fiscais lança hoje, mundialmente, o dia de Ação Global contra os Paraísos Fiscais. Responsável pela campanha no Brasil, o Instituto de Estudos Socioeconômicos pretende recolher assinaturas para enviá-las ao G20.

O Teatro Rival vai ganhar sua primeira festa GLS nesta sexta, a InBox. O charme da noite ficará por conta do pocket show da drag Suzy Brasil. Quem levar 1 kg de alimento, paga meia entrada. As doações serão enviadas para a Sociedade Viva Cazuza.

Washington Novaes dá palestra, neste sábado, no hotel Porto Real, no IX Enjac-Rio, cujo tema é Rio: Pólo de Negócios em Comunicação, Esportes, Turismo e Sustentabilidade.

A Petrobras Sinfônica promove nesta sexta, às 16h, ensaio especial para a Bienal de Música Contemporânea, maior evento brasileiro de música erudita, na Fundição Progresso, com entrada gratuita. A mesma OPS abre o evento na segunda, às 19h, no Teatro João Caetano, com ingressos a R$ 2.

O comandante da Marinha Júlio Moura Neto comandou, nesta quinta, do Rio, a partida da fragata União, que irá integrar a força-tarefa da ONU no Líbano e só voltará em agosto de 2012.

Começa nesta sexta-feira o V Festival Sul da França com vinhos do Languedoc. O almoço de boas-vindas será na Confeitaria Colombo.

A ala mirim da Portela Filhos da Águia se apresenta na abertura, este sábado, do IV Torneio Estudantil de Ginástica do Rio de Janeiro, no Maracanãzinho.

Depois de 20 anos afastado da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, onde foi diretor e professor, o pintor Luiz Aquila volta à escola neste sábado para conversar com 100 alunos. O encontro será gravado para posterior exibição na EAV.

Com Marcia Bahia, Cristiane Rodrigues, Marcia Arbache e Gabriela Brito

WASHINGTON NOVAES - Do analfabetismo à 'educação sensual'



Do analfabetismo à 'educação sensual'
WASHINGTON NOVAES
O Estado de S.Paulo - 07/10/11

Voltam os jornais a povoar-se de notícias inquietantes sobre os dramas da educação no Brasil, sua repercussão sobre a economia e as taxas de pobreza e desigualdade. Segundo órgãos internacionais, o Brasil está em 88.º lugar nos índices de educação, entre 128 países pesquisados - em situação mais precária até que Paraguai, Peru, Colômbia, Equador, Bolívia e Honduras. Segundo a OCDE (Estado, 17/9), quem conclui curso superior tem renda média 156% maior que a dos que não passam pela universidade. Mas no Brasil só 12% das pessoas entre 25 e 34 anos têm curso superior. Uma das razões certamente está em que gastamos em educação (5,3% do PIB) menos que a média aferida pela OCDE (5,9% em 2008).

Não podem surpreender as consequências no mercado de trabalho, principalmente na oferta de mão de obra qualificada. Metade dos alunos do terceiro ano da escola fundamental pública e privada não aprendeu os conteúdos previstos; 44% não têm conhecimentos necessários para a leitura; 46%, para a escrita; 57%, para Matemática. Isso na média, no Nordeste os índices são ainda mais preocupantes (Estado, 26/8).

Com tantas dificuldades, 9,6% da população (18,43 milhões de pessoas) é ainda analfabeta, segundo o IBGE (42,6% entre maiores de 60 anos, 16,4% entre os pobres, 52,2% entre nordestinos). Mas a erradicação do analfabetismo não está no plano plurianual Brasil Maior, enviado pelo Executivo ao Congresso. O que pretende o Ministério da Educação é reduzir a porcentagem de analfabetos a 6,7% da população (12,86 milhões), segundo o respectivo ministro. Principalmente entre mulheres, habitantes da zona rural e afrodescendentes.

As deficiências educacionais repercutem com intensidade na área do conhecimento científico, em que o número anual de patentes solicitadas no País (previsão de 36 mil em 2011) é 17 vezes menor que o dos Estados Unidos (Estado, 4/7), embora pudesse ser um pouco maior, já que o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), com restrita capacidade operacional, tem 154 mil pedidos "em tramitação" e a média de conclusão é de oito anos. De qualquer forma, a iniciativa de inovação científica em nossas empresas não passa de 38% do total, ante mais de 70% na Alemanha. E, para agravar, o Brasil só investe 1,09% de seu PIB em pesquisa e desenvolvimento, segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia (Estado, 4/7).

Falta de recursos? Depende de como se olhe. O País - como foi dito aqui na semana passada - gasta em subsídios na economia, juros bancários da dívida e ajuda a mutuários mais de R$ 100 bilhões por ano, algumas vezes mais que no Bolsa-Família. Não sobra muito para investir em cada aluno no sistema educacional, quatro vezes menos que nos Estados Unidos, por exemplo. Aqui, o investimento médio é de R$ 1.221 por aluno no ensino fundamental, R$ 1,5 mil no ensino médio e R$ 11,8 mil no superior. E já não falta quem proponha até a supressão do ensino da escrita na escola. Quando há décadas se sabe, a partir da proposta do professor Darcy Ribeiro para os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), onde levada à prática com competência: só a escola de tempo integral - dois turnos, três refeições diárias, período de estudo acompanhado fora de classe, assistência psicológica, esporte dirigido - pode suprir as carências das crianças de famílias mais pobres, compensar o que elas não podem ter em casa.

A importância do acompanhamento, da assistência, foi comprovada em pesquisa da prefeitura de Nova York, que concluiu ser o melhor rendimento escolar nas escolas públicas o de crianças de famílias imigrantes (vietnamitas, sul-coreanas, chinesas), em que pais e mães dedicavam em média três horas e meia diárias ao acompanhamento das tarefas escolares - quando nas famílias das demais crianças era de uma hora por dia. Outra pesquisa da mesma prefeitura mostrou que parte do tempo que deveria ser dedicado ao ensino das matérias tradicionais nas escolas públicas era tomado pela educação para o trânsito, pelo acompanhamento e orientação da sexualidade dos pré-adolescentes, pelo ensino da relação com pessoas mais velhas, etc. - tarefas que deveriam caber às famílias. Mas como exigir delas, se os pais aqui mal têm tempo para cumprir sua jornada de trabalho fora, mais o tempo na condução?

Parece utópico trazer à discussão estudo feito pela Universidade de Michigan, há umas duas décadas, a pedido do governo de Israel, que queria orientação sobre como trabalhar nas escolas com crianças superdotadas. O estudo mostrou que essas crianças eram especialmente indicadas para uma formação especial, que partisse do princípio de que todo conhecimento, para chegar ao cérebro humano, tem de passar obrigatoriamente por um dos sentidos - visão, audição, tato, olfato, paladar. Por isso, seria preciso investir no que o estudo chamou de "educação sensual", que passe por um deles, já que "a ciência só florescerá na mente de pessoas sensíveis e emocionais".

Um dos exemplos citados era o de um grande pianista, que contava haver passado, quando pequeno, horas de cada dia debaixo da cauda de um piano tocado pela mãe pianista - acostumou-se, nessa prática, a sentir na pele cada nota do piano, como se fosse uma gota de água que caísse. Outro cientista - um químico especializado em ligas metálicas - narrou que passava horas de olhos fechados imaginando-se atropelado por um trem em alta velocidade, ou um asteroide, para poder avaliar e imaginar a resistência da liga que buscava. Albert Einstein, quando pesquisava as relações entre gravidade, velocidade e tempo, imaginava-se dentro de um elevador que subia e descia, com um raio de luz pulando para a frente e para trás.

Há claras opções preferenciais a fazer: investimento maior e prioritário em educação, preferência para as faixas de menor renda, escolas de tempo integral como as sugeridas por Darcy Ribeiro, dotações maiores para a área científica. Se for possível, chegar também ao requinte da "educação sensual"...

DAVID ZYLBERSZTAJN - Vamos pagar caro!



Vamos pagar caro!
DAVID ZYLBERSZTAJN
O GLOBO - 07/10/11

O Congresso Nacional discute freneticamente a questão da redistribuição das atuais participações governamentais do setor de petróleo, ou seja, royalties e participação especial. Para esclarecimento do leitor, os royalties incidem sobre o valor da produção bruta de petróleo (normalmente 10%) e, conforme os termos da Lei 9.678, "a participação especial sobre a receita líquida dos campos produtores, nos casos de grande volume de produção, ou de grande rentabilidade" (ou seja, as empresas dividem os lucros extraordinários com o governo, numa taxação cujas alíquotas podem atingir até 40%, conforme o volume de produção).
Para entender um pouco a origem do imbróglio: o governo passado enviou ao Congresso proposta de mudança do modelo regulatório da exploração de óleo e gás no Brasil.
Em vez do modelo de concessão, as futuras licitações do pré-sal e de áreas consideradas estratégicas serão submetidas ao regime de partilha da produção, onde o governo torna-se proprietário de parte do óleo extraído.
Mas não os aborrecerei com questões técnicas relativas aos modelos.
Pelo novo modelo haverá uma nova forma de distribuição das participações governamentais, onde a maior concentração da riqueza petrolífera é apropriada pelo Governo federal. Em outros termos, sem entrar no mérito da proposta, trata-se de discutir o futuro do setor de óleo e gás, o que é legítimo e de acordo com os melhores princípios federativos e democráticos.
No entanto, nossos deputados ignoraram completamente o debate sobre a essência do novo modelo.
Mas engalfinham-se, como famintos, para dividir o butim resultante das receitas do petróleo. Foi sob este nobre espírito "republicano" que, espertamente, um deputado do Rio Grande do Sul, Ibsen Pinheiro, apresentou emenda ao projeto, alterando a distribuição das participações governamentais também dos contratos das concessões vigentes, ou seja, áreas que já foram licitadas, estão produzindo e pagando conforme as regras do edital de licitação e do estamento legal vigente no momento de sua realização.
O que o deputado Ibsen propõe representa a quebra de regras contratuais previamente estabelecidas, numa clara afronta aos princípios da anterioridade, da segurança jurídica das concessões e uma grave ameaça ao pacto federativo.
Podemos imaginar que, se for prevalecer a regra de muitos contra poucos, amanhã serão questionados, por exemplo, os pagamento de royalties ao Paraná por conta da exploração de Itaipu ou partir contra o Pará e rapinar o que o estado recebe da extração do minério de Carajás.
Uma outra alternativa "criativa" (aparentemente abandonada) foi propor uma compensação aos estados não produtores com a cobrança de alíquotas maiores da Petrobras e das outras empresas já atuando em áreas concedidas. Mais uma vez, a quebra das regras da licitação e dos contratos de concessão.
Quando promovemos as primeiras rodadas de licitações para a exploração de blocos de petróleo, um de nossos maiores desafios foi convencer os investidores nacionais e estrangeiros de que o Brasil estava consolidando uma cultura de respeito a regras e contratos. Ao longo destes mais de dez anos esta estabilidade no setor petrolífero nacional serviu como um dos atestados de maturidade de nossa sociedade e a entrada do Brasil no "clube" dos países sérios e confiáveis.
Resumindo, o que se discute no Congresso é alterar o passado, rasgando compromissos estabelecidos em leis e contratos. Para estes deputados, isto terá o efeito da euforia da droga, que após um primeiro momento de êxtase leva seu usuário ao fundo do poço.
Esta gente está colocando em risco a reputação de nosso país e o equilíbrio federativo. Não serão apenas os estados produtores que serão esbulhados em seus direitos.
Com o tempo, nós, brasileiros, pagaremos muito caro por esta irresponsabilidade e oportunismo. Não é possível aceitar que se ressuscite a máxima de que "no Brasil, mais difícil do que prever o futuro é prever o passado".
DAVID ZYLBERSZTAJN foi presidente da Agência Nacional de Petróleo (ANP).

NELSON MOTTA - A mãe de todas as faxinas


 A mãe de todas as faxinas
NELSON MOTTA
O GLOBO - 07/10/11

A OAB ajuizou ação no Supremo Tribunal Federal para proibir as doações de pessoas jurídicas para as campanhas eleitorais. O ministro Dias Toffoli escreveu recentemente um artigo contra a participação de empresas nas eleições. Como empresas não fazem filantropia eleitoral, mas investimentos que esperam dividendos, esta seria a mãe de todas as faxinas no processo eleitoral e a sua real democratização.

Enquanto isso, no escurinho das comissões, sob o pretexto de moralizar as eleições e diminuir a influencia do poder econômico, um grupo de deputados de vários partidos paria uma proposta indecorosa. Além do que já recebem em valioso tempo de rádio e televisão, que negociam entre eles como mercadoria eleitoral, e dos fundos partidários milionários que usam sem qualquer controle, eles ainda querem o "financiamento público" das campanhas, dizem, para evitar o inevitável caixa dois. E pior: assim como o tempo de TV, a bolada sairá do nosso bolso para ser distribuída proporcionalmente ao tamanho das bancadas que vão votar o projeto no Congresso, institucionalizando a permanência no poder dos que lá estão. Mas o relator, deputado Henrique Fontana (espero que seus eleitores saibam disso) ainda manteve as doações de pessoas físicas e jurídicas.

Só faltou pedir um beijinho.

A proposta obscena consegue piorar o já péssimo sistema atual e ofende a inteligência de um jumento.

Quem seria tão burro para engolir isto? Mas não duvido que venha a ser aprovada, porque a maioria dos congressistas perdeu qualquer pudor em explorar o contribuinte e o Estado.

Alguém acredita que não haveria o mensalão se na época houvesse financiamento publico das campanhas? Nem o Zé Dirceu.

Na democracia representativa é cada cidadão um voto. Os melhores e os piores, os bons e os maus, os poderosos e os oprimidos, todos são iguais diante da urna. Como os eleitores são cidadãos que escolhem os seus representantes, são as suas doações individuais, com limites controlados, que devem financiar as campanhas. Assim, o voto do dono da empresa e do seu mais humilde trabalhador vale o mesmo. Democracia é isso aí, bebê.

DORA KRAMER - Na estaca zero



Na estaca zero
DORA KRAMER 
 O Estado de S.Paulo

"Nunca estivemos tão perto de aprovar uma reforma política", disse no início desta semana o deputado Henrique Fontana, relator do projeto que 24 horas depois teria sua votação adiada por tempo indeterminado na comissão especial da Câmara que trata do assunto.

Portanto, o Congresso continua longe como sempre de aprovar uma reforma política, a despeito da disposição de deputados e senadores em criar comissões específicas no início da legislatura e do empenho do ex-presidente Lula, que prometeu pegar o touro a unha e, na hora H, não apareceu para prestigiar o ato em defesa da reforma, realizado na ocasião em que o relator manifestou aquela previsão não digamos nem otimista, mas irrealista.

Lula alegou cansaço e fez também circular a versão de que não queria estar em Brasília enquanto líderes partidários estivessem negociando a derrubada ou não de seu veto ao novo sistema de distribuição dos royalties do petróleo, para não constrangê-los.

O fato é que o ex-presidente quis evitar o constrangimento de capitanear um ato esvaziado e de defender uma proposta que reúne contra si a totalidade dos partidos, de governo e de oposição.

A proposta inspira desconfiança por um defeito de origem: foi concebida à imagem e semelhança dos interesses do PT e, assim, era esperado que as outras legendas a descartassem.

Um mérito, porém, tem o relatório de Henrique Fontana: explicita claramente o que pretende o partido.

Interessa-se pelo financiamento público das campanhas eleitorais, a fim também de reforçar a tese da defesa no processo do mensalão de que não houve corrupção e sim crime eleitoral resultante da impossibilidade de arrecadar fundos a não ser por meio de caixa 2, e quer o voto em lista fechada, ainda que admita um sistema misto com metade dos eleitos por votação nominal.

Por mais que o PT seja forte e detenha os instrumentos de poder, esse presente os outros partidos não lhe dão porque isso contraria o senso de sobrevivência. Mas tampouco conseguem construir um consenso em torno do que quer que seja.

Da comissão criada no Senado em clima de "agora vai" não sobrou coisa alguma além de miudezas - como a mudança de datas das posses de presidente, governadores, prefeitos e parlamentares - e do fim das coligações em eleições proporcionais.

A da Câmara caminha para o fracasso ou, pior, para desembocar talvez na aprovação de uma "janela" de infidelidade partidária.

E o resumo da ópera é que voltamos à estaca zero. Mais um ano de trabalho perdido com embromações e simulações que não resultaram em coisa alguma.

O voto distrital, proposta que resultaria em mudança significativa na relação candidato-eleitor, nem foi discutido.

O voto obrigatório ficou longe da pauta e um problema que os senadores poderiam resolver de uma tacada - o fim dos suplentes sem votos - ficou sem solução: reduziram de dois para um o número de suplentes para cada senador e vetaram a indicação de parentes.

Para fazer isso era melhor não ter feito nada. O que, de resto, foi exatamente o que fez o Congresso: nada.

Dizer que a reforma não anda porque os interesses internos se conflitam e se anulam fala sobre uma parte da questão, mas não contribui para nada a não ser para reforçar a constatação de que a reforma política não pode ser tarefa exclusiva de políticos.

Ou a sociedade é de alguma forma incluída no processo - como em boa hora propôs ontem o vice-presidente Michel Temer - ou, francamente, é melhor esquecer o assunto que já está ficando cansativo, e deixar que os inevitáveis curtos-circuitos da História se encarreguem de resolver o problema.

Sem distinção. Na essência, não há diferença entre o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Cesar Peluzo, quando um desqualifica o deputado denunciante por não ter apontado os nomes dos envolvidos no esquema de venda de emendas parlamentares na Assembleia, e outro ataca a corregedora do Conselho Nacional de Justiça por não nominar os "bandidos de toga".

GOSTOSAS



IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO - A reunião secreta dos infelizes



A reunião secreta dos infelizes
IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO
O Estado de S.Paulo - 07/10/11

Os infelizes reuniram-se pela terceira vez em um pequeno prédio, de onde podiam ouvir a música que vinha das lojas da Rua Teodoro Sampaio. Uns dizem que foi na Rua Cristiano Viana, outros na Alves Guimarães e ainda na Capote Valente. Não há certeza. Havia oito membros a mais do que na segunda reunião que não tinha sido nada fraca. As pessoas apareceram de orelhada, vieram no boca a boca. A não divulgação por meio de um pequeno anúncio classificado foi deliberação do primeiro encontro. Desnecessário gastar dinheiro. Tiveram razão aqueles cinco primeiros associados.

A conversa preliminar girou em torno da designação: seriam associados, membros, componentes, participantes, integrantes? Andam à procura de um termo simpático. Ali estavam homens profundamente infelizes, arrasados pelas intempéries da vida. A expressão é deles, ainda que possa soar arcaica. Intempéries da vida. Eu jamais usaria tal expressão, porém desejo que este relato seja autêntico, diga como as coisas estão se passando.

Quando se soube no bairro que os infelizes estariam se reunindo outra vez, houve intensa movimentação. Todos queriam saber onde, quando, a que horas, o que seria preciso fazer para se inscrever, participar. A maioria movida pela curiosidade. Saber quem eram os infelizes da região. Pura maldade. Muitos imaginaram que haveria testes, entrevistas para se determinar o grau de infelicidade, para se obter uma graduação, uma nota de corte que permitisse uma hierarquia na organização. Outra palavra ainda pendente. É uma organização, instituição, fundação, clube, associação, sociedade, partido, facção, bloco, confraria, congregação, centro comunitário, o quê? Centro comunitário foi uma definição rechaçada unanimemente, indica movimentos sociais, ideologias superadas.

A ideia de testes e entrevistas foi aventada - o termo é deles - e logo descartada. Como determinar os parâmetros para se avaliar a infelicidade? Trata-se de algo subjetivo, íntimo. Como dizer que a infelicidade de A é maior do que a de M? Como encontrar critérios? A menos que fosse possível definir os vários níveis de infelicidade:

Profunda ou incomensurável

Abissal ou abismal

Crônica ou aguda

Insolúvel ou dolorida

Amargurante ou fingida

Pretensa ou impertinente

Inebriante ou apaziguante

Genética ou adquirida por contágio

Bacteriológica ou alérgica

Persistente ou intermitente

Suportável ou arrasadora

Os critérios são aleatórios. Não incluem ordem classificatória. Um verticalmente prejudicado (quase escrevi anão, vejam só) sugeriu que deveria haver cotas para determinadas parcelas menos favorecidas. Argumentou-se que a infelicidade atinge a todos, seja índio, afro, amarelo, GLS, coxo, vesgo, maneta, careca, obeso, raquítico, albino. Como determinar o nível de dor e sofrimento causado pela infelicidade?

Na terceira reunião havia filas que se estendiam pela Cristiano Viana e seguiam atravessando a Rebouças, continuando pela Rua Estados Unidos e terminando na Rua Atlântica. Sem que se soubesse onde era o encontro. Soube, porque tenho uma amiga infelicíssima com que converso na esquina. Neste terceiro encontro aconteceu o impasse que promete persistir e será tema recorrente. E se a infelicidade em vez de dor causar prazer? Prazer para alguns, argumentou um professor de lógica que todos sabem ser visceralmente infeliz.

A mulher dele garante que ele não teve um único dia feliz a vida inteira. Prazer para uns, não prazer para outros, ele prosseguiu. "Estou mergulhado na infelicidade há exatos 37 anos, quatro meses e seis dias, porque sei perfeitamente em que momento esta sensação começou." Discutiu-se se a infelicidade seria sensação ou emoção, mas como havia prioridades, o assunto foi postergado (outra palavra feia, mas que foi usada, lamento). As causas, motivos, razões, princípios, não estão em pauta, rebateu o arquiteto que teve a ideia dos encontros. Chamemos encontros, por enquanto; houve quem sugeriu simpósio, todos acharam horrível.

Se houver alguma conclusão, volto ao assunto. Infelizmente, para participar você precisa ser recomendado por algum infeliz no grau 10. Não adianta eu dar as dicas. E se souberem que você é feliz, será rechaçado na porta, pode contaminar. O porteiro tem faro apurado, é um homem infelicíssimo, amargurado, triste, sem nenhuma autoestima.

CLAUDIA SAFATLE - A cacofonia que ensurdece


A cacofonia que ensurdece 
CLAUDIA SAFATLE
VALOR ECONÔMICO - 07/10/11

Despontam no mercado projeções que reproduzem o IBC-BR do Banco Central e que indicam crescimento muito próximo de zero no terceiro trimestre, comparado ao segundo. Conforme alguns desses cálculos, feitos com base em indicadores parciais e considerando indícios de desaceleração do setor de serviços, o nível de atividade em agosto pode ter registrado até ligeira contração, algo próximo a -0,3%.

O BC divulga o IBC-BR, que é uma "proxi" do PIB, na próxima semana. A reação do governo ao resultado, se ele for de fato ruim, deverá ser importante para moldar os rumos da política monetaria. Depois de um vaivém de expectativas sobre o corte dos juros na próxima reunião do Copom, dia 19, no momento as apostas do mercado se concentram mais em redução de 0,5 ponto percentual. Já foi de 1 ponto. Ontem, o presidente do BC, Alexandre Tombini, reiterou que os juros passarão por um processo de "ajustes moderados". Em solenidade no BC, disse: "Olhando para frente, nas atuais condições, ajustes moderados na taxa de juros são convergentes com o IPCA no centro da meta no final de 2012".

Banco Central reitera moderação na queda dos juros

Passados nove meses do governo Dilma Rousseff, os juros internos aumentaram, começaram a cair, cresceu o risco de recessão nos EUA e Europa, a China desaquece, a economia mundial está sob ameaça de uma hecatombe e a brasileira dá sinais de enfraquecimento. As expectativas de inflação no país, porém, só pioraram.

Quando Dilma assumiu, as expectativas de inflação eram de 5,34% para 2011 e de 4,5% para 2012. A pesquisa Focus de janeiro indicava para este ano taxa Selic de 12,25%, expansão de 5,03% da indústria e crescimento do PIB de 4,5%. Hoje, a inflação esperada aumentou. É de 6,52% para 2011 e de 5,53% para 2012. A última pesquisa Focus, do BC, revela taxa Selic menor, de 11%, o crescimento da indústria murchou para 2,45% e o do PIB caiu para 3,51%.

As expectativas de inflação, no entanto, continuam desancoradas, distantes do centro da meta de 4,5%. E isso não começou agora. O descolamento entre a meta e as projeções colhidas no mercado vem de abril do ano passado e, de lá para cá, com interrupções aqui ou ali, só foram se distanciando.

O regime de metas para a inflação é fundamentado na coordenação das expectativas dos agentes econômicos. Para que o BC consiga exercer bem essa função, o que facilitaria sua missão de levar a inflação para o centro da meta, duas premissas são cruciais: credibilidade e transparência.

Por essa razão, os bancos centrais desenvolveram nas últimas décadas um ritual de comunicação e prestação de contas que envolve as atas do Copom, os relatórios trimestrais de inflação, o comparecimento periódico do presidente do BC ao Congresso. Alguns foram mais adiante, como os bancos centrais da Escandinávia, que, quando decidem a taxa de juros de curto prazo, apontam também os cenários mais prováveis para vários meses à frente.

A autoridade monetária transmite suas mensagens ao mercado por esses instrumentos de comunicação. Para isso há estratégias e escolhas criteriosas até no uso das palavras. Vez por outra, o Copom toma uma decisão mais dura e, em contrapartida, suaviza na linguagem sobre o horizonte na ata, que é divulgada uma semana após a reunião, ou vice-versa.

Se bem compreendidas, essas mensagens levam os agentes a ajustarem a curva de juros mais rapidamente aos padrões indicados pelo BC, acelerando os canais de transmissão da contração ou expansão monetária para a economia.

No regime de metas, portanto, a comunicação também é um importante instrumento da política monetária. Para cumprir a função de ajudar a coordenar as expectativas inflacionárias, ela tem que ser crível, consistente com os objetivos do BC. Ao contrário, se os agentes do mercado suspeitarem que por trás das decisões do Copom há voluntarismo ou pressão política, a dispersão das expectativas será maior e mais oneroso será o custo para o controle da inflação

Embora pareça difuso, esse preço será cobrado de toda a sociedade, sob a forma de menor crescimento do país, menos emprego e perda de renda.

Nos dois últimos documentos do BC, a ata da reunião de agosto do Copom e o relatório de inflação, consta a expressão "ajustes moderados" da taxa de juros. Uma mensagem que transmitiria a ideia de que os cortes da Selic devem prosseguir na base de 0,5 ponto percentual.

Informações em desalinho foram surgindo nos últimos dias. Elas sugerem que o Planalto introduziu novas metas a serem perseguidas pelo BC: juros básicos de 9% em 2012; juros reais de 2% a 3% no médio prazo; um piso para o crescimento, a partir do qual a autoridade monetária estaria incapacitada de agir, independentemente do curso inflacionário.

São ainda muitas as dúvidas sobre o real compromisso da presidente Dilma com a convergência da inflação para o centro da meta de 4,5%. Em todos os pronunciamentos, ela realça a manutenção do crescimento, mas pouco menciona o controle da inflação. Colhe-se das conversas com economistas oficiais a impressão de que foi feita a escolha de um pouco mais de inflação para um pouco mais de crescimento, como se essa fosse uma troca possível. Analistas e operadores do mercado ainda estão em desconforto com o corte de juros de agosto e já projetam inflação acima da meta para 2013.

Certas ou erradas, o fato é que as mensagens do BC têm se perdido em meio à cacofonia.

RENATA LO PRETE - PAINEL


Não é bem assim
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 07/10/11

No voto que prepara com o declarado intuito de pacificar os ânimos em relação ao Conselho Nacional de Justiça, o ministro Luiz Fux, do STF, tende a considerar que, quando corregedorias locais arquivarem investigações, o CNJ poderá reabri-las apenas "motivadamente", ou seja, comprovando falhas no processo.
Quem ouviu bem as declarações de Fux concluiu que, apesar das belas palavras sobre a importância do CNJ, vem aí uma inequívoca tesourada no poder de correição do conselho. Pessoas próximas a Eliana Calmon dizem que, diferentemente do afirmado pelo ministro, a corregedora nacional de Justiça nada sabe a respeito do que está no forno do Supremo.


Olheiro João Carlos Bona Garcia, escolhido pelo ministro Mendes Ribeiro (Agricultura) para a delicada diretoria de Finanças da Conab, é um velho conhecido de Dilma Rousseff. Ex-chefe da Casa Civil do governo Antônio Britto no Rio Grande do Sul, foi também militante da luta contra a ditadura. Chegou a morar em Porto Alegre com o hoje ministro Fernando Pimentel.


Cotas Menos de um mês depois da posse do correligionário Gastão Vieira no Turismo, o PMDB voltou a reivindicar cargos na pasta. Pelo acerto alinhavado, peemedebistas da Bahia vão indicar o sucessor de Colbert Martins na Secretaria Nacional de Turismo, enquanto a ala catarinense da sigla ficará com uma diretoria da Embratur.

Em campanha O líder Henrique Alves (PMDB-RN), que vinha sob ataque especulativo de parte da bancada, está em franca movimentação para contemplar os pedidos dos insatisfeitos.

Rota da bola 1 O Ministério do Turismo frustrou as sedes da Copa ao anunciar que só oferecerá ajuda financeira para sinalização, acessibilidade e centros de atendimento aos visitantes. A pasta agora corre contra o tempo para assinar até dezembro a sua "matriz de responsabilidade", documento que define obrigações do governo federal com as cidades que abrigarão jogos da competição.

Rota da bola 2 A Embratur incluirá Estados que não acolherão partidas da Copa nos roteiros oficiais. As sedes, que investem cifras generosas no evento, cobram prioridade na divulgação em relação aos demais destinos.

Afinidades Uma semana depois de Aloysio Nunes manifestar publicamente insatisfação por ter sido excluído de inserções do PSDB, um de seus auxiliares mais próximos deixou a sigla. Ex-subprefeito de São Mateus e assessor do senador por 30 anos, Clóvis Chaves filiou-se ao PSD de Gilberto Kassab.

Calendário Depois da polêmica sobre o tamanho do colégio eleitoral de sua prévia paulistana, o PSDB vive novo embate, agora em torno da data da consulta. Ricardo Tripoli protocolou ontem pedido de antecipação para dezembro, o que também interessa a José Aníbal e Andrea Matarazzo. Bruno Covas prefere fevereiro de 2012.

Babalu A cantora Ângela Maria, 83, filiou-se ao PTB, pelo qual deve disputar vaga de vereadora em São Paulo.

Cerco Sindicalistas e estudantes lançam hoje a campanha nacional pela aplicação de 10% do PIB em Educação. Com a presença de Amanda Gurgel, professora que virou hit na internet com seu protesto contra os salários da categoria, o ato inaugural será realizado na Faculdade de Direito da USP, cujo centro acadêmico já foi presidido pelo ministro Fernando Haddad, alvo da ofensiva.

Largada Carlos Zarattini entregará hoje as assinaturas necessárias à inscrição nas prévias que definirão o candidato do PT à prefeitura.

Visita à Folha João Crestana, presidente do Secovi (sindicato paulista de empresas imobiliárias e de construção), visitou ontem a Folha. Estava com Ricardo Viveiros, assessor de imprensa.

Tiroteio

"Democracia é isso: enquanto Alckmin estimula as prévias com todos os filiados locais do PSDB, Lula faz o PT engolir seu candidato pasteurizado."
De FÁBIO LEPIQUE, assessor especial do governador, sobre os processos de escolha dos candidatos tucano e petista à prefeitura paulistana.
Em ambos os casos está previsto algum tipo de consulta interna.

Contraponto

Lei da selva


Em reunião do Conselho de Ética da Assembleia paulista na qual se discutia a denúncia de venda de emendas, Campos Machado (PTB) alertou:
-Parece a história das gazelas na África, que saem cedo sabendo que precisam correr para não serem devoradas pelos leões...
Um petista lembrou da convocação de Bruno Covas:
-Os leões aqui estão à caça é de tucanos...

NA CRISE...


LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - Brasil em momento importante


Brasil em momento importante
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS
FOLHA DE SP - 07/10/11

O Brasil tem hoje limites muito nítidos para continuar crescendo a taxas superiores a 4% ao ano


O mundo vive hoje um desses momentos especiais em que mudanças estruturais -principalmente na economia- estão forjando o futuro de muitas sociedades. Para alguns países, os próximos anos serão marcados por dificuldades, principalmente devido a ajustes que precisarão ser realizados em um ambiente de baixo crescimento econômico. Para outros -e o Brasil está nesse grupo-, o futuro poderá ser muito favorável, pois serão reconhecidos como espaços de crescimento e mudanças sociais favoráveis, atraindo investimentos internacionais por um longo período de tempo.

Para mim, esse cenário positivo para os países emergentes é hoje o mais provável, embora ainda existam riscos de uma crise internacional de grandes proporções. Se os governos europeus e dos Estados Unidos não tomarem as medidas necessárias para enfrentar a combinação de uma crise fiscal profunda em um ambiente de pressões financeiras sobre o sistema bancário, vamos cair -todos- em um abismo profundo. Nos dois últimos dias apareceram sinais de que, pelo menos na Europa, os políticos entenderam esse risco e resolveram tomar medidas para fortalecer a estrutura de capital de seus bancos.

Mas, nos Estados Unidos, a verdadeira guerra civil do Partido Republicano para tirar o presidente Obama da Casa Branca ainda pode levar a maior economia do mundo a uma recaída recessiva. E, para não cair no abismo que citei acima, será preciso que Europa e Estados Unidos ajam em conjunto na direção correta.

Mas o principal objetivo desta minha coluna é explorar um pouco o futuro de nosso país no cenário de uma estabilização da crise financeira no mundo desenvolvido ao longo dos próximos meses.

Com os mercados libertos dos riscos de um buraco negro sugando toda a humanidade -imagem magnífica da capa da última edição da revista "The Economist"-, os investidores voltarão a se envolver com coisas mais sérias do que especular ou se defender do caos. E o mundo que eles devem encontrar nessa volta a tempos mais normais estará profundamente dividido entre nações emergentes e nações desenvolvidas. Nas primeiras, o processo de absorção de milhões de novos consumidores e o crescimento da renda de uma nova classe média, criada ao longo da primeira década do século, serão retomados certamente.

No mundo rico, os ajustes fiscais que terão de ser feitos e, principalmente, um sistema bancário zumbi e sem funcionalidade vão cristalizar um crescimento econômico medíocre e, em alguns países, uma recessão do tipo japonês.

Como a vida continua e as empresas precisam aumentar seus investimentos, a atração de economias como a brasileira será irresistível. Não podemos esquecer que a terapia para manter a economia do mundo desenvolvido em funcionamento exigirá juros muito baixos por um longo período de tempo. Com isso, o chamado custo de oportunidade para investir em regiões vistas de fora como de maior risco ficará baixo, aumentando a atratividade desses investimentos.

Mas a política econômica que o Brasil deve adotar para maximizar esse extraordinário potencial de crescimento precisa estar calibrada para esse novo ciclo. Para que ele ocorra, seus líderes terão de entender o que está se passando e tomar as medidas necessárias para maximizar os ganhos possíveis.

O Brasil tem hoje limites muito nítidos para continuar crescendo a taxas superiores a 4%. As pressões inflacionárias que estão latentes nos índices de preços dos últimos meses são indicadores claros de que estamos num momento delicado. Se adicionarmos ainda, ao longo de 2012, um novo fluxo de investimentos por conta dos desequilíbrios que citei, vamos certamente cruzar uma fronteira perigosa no campo da inflação.

E o que me preocupa são dois comportamentos do governo nas últimas semanas: o primeiro, a tomada de medidas administrativas para enfrentar uma depressão econômica no mundo que pode não vir; e, o segundo, seu despreparo intelectual para administrar um sucesso que pode acontecer.

EDITORIAL O GLOBO - A recaída da política externa brasileira


A recaída da política externa brasileira
EDITORIAL 
O GLOBO 07/10/11

No caso da Síria, a política externa brasileira voltou a demonstrar pruridos e cautelas excessivas diante da gravidade da situação. O que está por trás disso é a volta à diplomacia companheira que predominou nos dois mandatos do presidente Lula. O objetivo teórico dessa política é dar ao Brasil um papel mais efetivo nas questões internacionais, mas ela tem sérios problemas: isola e fragiliza a posição brasileira, como no caso da tentativa de negociar diretamente com o regime do Irã, ao arrepio de quase todo o resto dos países mais relevantes; mal disfarça que a dissonância de Brasília visa a respaldar companheiros que marcham com o pé trocado na cena mundial, como Venezuela e a própria Síria, entre outros; e revela um viés antiamericano tão ultrapassado quanto improdutivo.

A presidente Dilma Rousseff deu a impressão de que a política externa estava entre os aspectos que pretendia mudar, para melhor, em relação a Lula. Antes da posse, ela disse ao "Washington Post" que trabalharia pela defesa dos direitos humanos. Coerentemente, o Brasil votou, no Conselho de Segurança, pela aplicação de sanções à Líbia e sua exclusão do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Mas essa rota foi abortada e houve o retorno à posição anterior de aparente extrema cautela, mas que na verdade põe Brasília na contramão do bom senso. Já na votação seguinte sobre a situação da Líbia, em que um conjunto heterogêneo de forças luta para dar aos líbios o que desejam - o fim do reinado de arbítrio e poder absoluto de Kadafi -, o Brasil destoou: absteve-se de votar a resolução da ONU que autorizou ataques aéreos da Otan contra as forças do ditador.

Situação similar se repetiu agora no caso da Síria, onde a repressão metódica e brutal comandada pelo ditador Bashar Assad foi responsável até agora, segundo a ONU, pela morte de 2.900 pessoas que lutaram contra o regime.

O dissenso entre os cinco com direito a voto no Conselho de Segurança foi amplo - Rússia e China vetaram resolução apoiada por EUA e países europeus que objetivava dar 30 dias para o regime sírio pôr fim à violência. O Brasil se absteve, juntando-se aos demais Brics, além de China e Rússia, atualmente no Conselho de Segurança: Índia e África do Sul (o Líbano, compreensivelmente, também se absteve).

É verdade que o Brasil vem acompanhando os Brics na evidente tentativa de formar um novo bloco político global que tenta contrabalançar o peso da única superpotência restante - os EUA. No caso da Síria, os Brics se dividiram: China e Rússia vetaram, Brasil, Índia e África do Sul se abstiveram. Para não ficar a reboque do bloco EUA/Europa, Brasília se atrelou aos Brics, mas os interesses de China e Rússia, por exemplo, podem muitas vezes nada ter a ver com os do Brasil, ou da Índia, ou da África do Sul. Isso já aconteceu.

Nada contra o país ter posições próprias em relação a este ou àquele bloco. Para isso, melhor seria a política externa brasileira retomar o caminho que começara a trilhar no início do governo Dilma, afinado com as tradições de profissionalismo, bom senso e moderação de nossa diplomacia.

LUIZ GARCIA - Rédea e freio


Rédea e freio
LUIZ GARCIA
O GLOBO - 07/10/11

Na organização das democracias modernas, a atribuição de deveres entre os poderes é simples e lógica. Governantes governam, legisladores legislam, juízes julgam. Mas há um probleminha com esse terceiro item: quem julga os julgadores? Em princípio, aqui no Brasil isso seria tarefa do Conselho Nacional de Justiça, que até emitiu uma resolução regulamentando os processos contra erros e má conduta de juízes. Mas a Associação dos Magistrados Brasileiros (uma espécie de sindicato) não concorda.

E já bateu no Supremo Tribunal Federal, proposta pela AMB, uma ação direta de inconstitucionalidade. (É esse mesmo o nome, o que pode levar leigos e ingênuos a supor a existência de ações indiretas de inconstitucionalidade. Perguntei a uns advogados amigos se era isso mesmo e todos, numa surpreendente unanimidade, alegaram que estavam muito ocupados para responder a perguntas idiotas.) Voltando à tal ação: ela já tem um ano de vida e de luta contra a decisão do Conselho Nacional de Justiça que estabelece normas para processos disciplinares contra juízes.

Na primeira tentativa de debate do assunto pelo STF, na semana passada, a discussão esquentou: a certa altura, a corregedora- geral do CNJ, Eliana Calmon, denunciou a existência de “bandidos escondidos atrás das togas”. Parecia briga de botequim. É preciso admitir que juízes têm o dever da serenidade e da isenção quando julgam processos — mas têm o mesmo direito do resto de população de perder a cabeça quando estão em discussão possíveis casos de má conduta deles mesmos.

Com uma ressalva: perdê-la apenas momentaneamente. Em seguida, partir para a busca de soluções serenas, em que deveres, tanto quanto direitos, sejam estabelecidos. Ou seja, se a AMB ganhar a ação contra o Conselho, cabe-lhe propor alternativa. Perdoando-se a imagem hípica: nem rédea curta demais, nem freio nos dentes.

CLAUDIO HUMBERTO

“São apenas rótulos”
EX-PRESIDENTE FHC, PARA QUEM NÃO EXISTEM PARTIDOS DE DIREITA OU ESQUERDA

FARRA NO MP É PIOR: 86 GANHAM MAIS QUE O TETO 
Levantamento do Conselho Nacional do Ministério Público, cujo teor chegou às mãos do Tribunal de Contas da União, revela que são 86 (e não apenas 80, como divulgamos antes) os membros do Ministério Público da União que percebem salários superiores ao teto de R$ 26.723 fixado em lei. O levantamento foi provocado pelo Pedido de Providências nº 00982011/95, do CNMP, encaminhado a todas as procuradorias gerais e unidades do Ministério Público da União.

ENQUADRAMENTO 
A Procuradoria-Geral da União nega que o teto tenha sido ignorado, mas o próprio CNMP já pediu que o TCU enquadre os 86 abonados.

PROVIDÊNCIAS 
No ofício nº 34/2011, o CNMP pediu ao TCU providência contra os que descumprem a resolução nº 10/2006, que impõe o respeito ao teto.

CASA DE FERREIRO 
Atento aos casos de desrespeito ao teto salarial no Poder Legislativo, o MP não ajuizou qualquer ação contra seus próprios supersalários. 

NA PRAIA 
Qualquer conta sai barata: a Associação Nacional de Procuradores Federais realiza reunião de hoje a domingo num resort em Natal (RN). 

PORTOS PRIVATIZADOS: TCU NÃO JULGA ANTAQ OMISSA 
O Tribunal de Contas da União ainda não julgou o caso da Agência Nacional de Transportes Aquaviários, acusada pela Federação dos Portuários de omitir-se para favorecer a privatização branca dos portos, que pela Constituição são públicos. Empresas privadas só podem atuar no setor mediante concessão do governo, por meio de licitação pública. Mas a regra constitucional não vale para a Odebrecht, por exemplo.

DESLEALDADE 
Enquanto o TCU não julga, empresas poderosas avançam no projeto de atuar no setor, fazendo concorrência desleal aos portos públicos. 

LIVROS PARA NADA 
Pequenos livros, grandes negócios parece ser o slogan do setor da Infraero que patrocina edições de obras de amigos para ninguém ler. 

NA JAULA, COMO MERECE 
O senador Paulo Bauer (PSDB-SC) apresentou projeto retirando todos os benefícios de estupradores presos, inclusive a “saidinha premiada”. 

DESCONTÃO 
Na surdina, os Estados devedores da União avançaram na estratégia de abater o saldo. A CCJ da Câmara aprovou o projeto que muda o índice de correção do refinanciamento das dívidas. Sai o IGP, entra o IPCA. Os juros caem pela metade. Falta aprovar no plenário.

SÓ PENSA NAQUILO 
Flagrado aos cochichos com o deputado Henrique Eduardo Alves (RN), o candidato a prefeito de São Paulo pelo PMDB, Gabriel Chalita, mostrou que está confiante: “Terei o melhor tempo de TV”.

BALELA 
O governo sempre comemorava a alta produção de petróleo. Pois vem caindo a cada dia. Segundo a ANP, dados de segunda (3): caiu 1,2% em relação a julho e 1,3% em comparação a agosto de 2010.

BASTOS ATUA 
Por dois votos a um no TJ do Pará, o ex-deputado Luiz Sefer foi absolvido da acusação de pedofilia. Ele foi acusado por uma menor em 2009, quando era deputado estadual, renunciou e foi condenado em 1ª instância. Seu advogado foi o ex-ministro Marcio Thomaz Bastos.

FARRA DIMINUI 
Diminui a farra de funcionários que recebem dobrado no Inca, o Instituto Nacional do Câncer. O chefe de RH, Ivan Perrone, desistiu do alto bônus que ganhava há anos. Esperam-se outras 36 desistências.

VOZES DO ATRASO 
A CUT realiza nesta sexta um protesto no terminal 2 do Aeroporto de Cumbica, em São Paulo, às 14h30, contra a privatização da gestão de aeroportos. Contra a corrupção nas licitações da área, nadica de nada.

TRANSPARÊNCIA 
Uma iniciativa do governo do Amapá virou referência na prestação de contas dos recursos públicos pela internet: o Portal da Transparência, lançado em abril, já registra uma média de 40 mil visitas por mês.

BOM DE VOTO 
Alçado ao Senado sem um só voto, como suplente de Itamar Franco (PPS-MG), o ex-presidente do Cruzeiro Zezé Perrela mostrou ser bom de urna, em campo. Fez o sucessor no clube com 89% dos votos.

SÓ FALTA ESSA 
Depois que um casal brasileiro batizou o filho de Facebookison, não será surpresa surgirem milhares de Steve Jobs e Mary Apple por aí. 

PODER SEM PUDOR
AMNÉSIA SUSPEITA 
Francisco Marques Carioca, o segurança que sacou R$ 1 milhão da Skymaster, empresa enrolada no escândalo de corrupção dos Correios, alegou súbita amnésia para indicar do paradeiro da dinheirama:
– Eu não capito...
O deputado José Eduardo Cardoso (PT-SP), atual ministro da Justiça, era sub-relator da CPI dos Correios e reagiu em cima da bucha, cogitando prender o desmemoriado:
– É melhor o senhor captar...

SEXTA NOS JORNAIS


Globo: Desmatamento é maior em 'áreas de proteção’

Folha: Meia-entrada vai custar R$ 180 mi; Fifa rejeita fatura

Estadão: Disputa por verba é estopim do escândalo das emendas

Correio: Bactéria mata três e deixa o DF em alerta

Valor: Estados contêm investimentos

Estado de Minas: Madrugada do barulho

Jornal do Commercio: Em país nenhum se mata como no Brasil

Zero Hora: Gestão privada da água opõe prefeitos a aliados de Tarso