domingo, setembro 18, 2011

DANIEL PIZA - Ensaios d'amor


Ensaios d'amor
DANIEL PIZA
O Estado de S.Paulo - 18/09/11

O amor e o ensaio têm em comum o caráter de ser uma tentativa, a articulação de um entendimento que deve sempre rever a si mesmo, a aproximação ciente de que o movimento é vital e não final, a recusa ao dogma da perfeição e ao mesmo tempo a crença de que sempre há o que melhorar. Escrever um bom ensaio sobre o amor, portanto, parece fácil, mas não é, já que tatear sobre o intangível leva aos abismos entre as palavras. "O amor é avesso a qualquer enquadramento, refratário às ideologias", escreve o francês Pascal Bruckner em O Paradoxo Amoroso (editora Difel), e seu livro é bom justamente por não transformar o amor numa ideologia, numa utopia, e assim defendê-lo como poucos. Barthes que me desculpe, mas os fragmentos do discurso amoroso de Bruckner são de uma grandeza que raramente se vê nos ensaios sobre o tema.

O que ele chama de "paradoxo"? O fato de que o amor nasce sempre sob o signo do entusiasmo, da entrega febril, e depois vai se convertendo numa rotina tediosa, sem aventura, repleta de picuinhas e injustiças. O romance da libertação a dois gradualmente passa a ser o drama da prisão partilhada. E dão greve ao prazer, cometendo uma deslealdade antes mesmo de passar a uma traição concreta. Bruckner cita a passagem de Proust numa carta a um amigo, para o qual o grande ficcionista vaticina o futuro "desses homens fracassados a ponto de viver vinte anos ao lado de um ser que os engana sem que eles percebam, que os odeia sem que eles saibam, que os rouba sem se confessar, tão cegos sobre os defeitos dos filhos quanto sobre os vícios de suas mulheres". O amor nasce como luz, mas logo os amantes se veem cegos.

Bruckner está particularmente preocupado com o amor na atualidade, em que não é a repressão que sufoca, mas a liberdade, ou melhor, o que o individualismo cínico de hoje entende por liberdade. "Tanto mais que a emancipação, sobretudo para as mulheres (...), multiplicou o peso de novas obrigações. As relações íntimas são calcadas nas do trabalho: o retorno sobre o investimento deve ser maximizado. (...) Sonho com uma relação humana que jamais extravase: você me agrada, ficamos juntos; você me cansa, eu o dispenso. Experimentamos o outro como um produto." Essa não é uma abordagem muito diferente da de outro livro recém-publicado no Brasil, O Amor nos Tempos do Capitalismo, de Eva Illouz, cujo título sugere um tratado marxistoide que não é seu conteúdo. "A internet estrutura a busca do parceiro como um mercado", nota a autora, que mostra como os discursos da psicoterapia e do feminismo se somaram a isso.

Illouz também vê um paradoxo, este no fulcro da cultura consumista: "Ao mesmo tempo que o discurso do individualismo triunfal e autoconfiante nunca foi tão disseminado e hegemônico, a demanda de expressar e praticar o próprio sofrimento, seja em grupos de apoio, seja em programas de entrevistas, na terapia, nos tribunais ou nos relacionamentos íntimos, nunca foi tão estrídula". A indústria da autoajuda e dos antidepressivos induz à expectativa de que os problemas sejam resolvidos como "fast food", como um objeto de consumo que sacia meus desejos, na verdade insaciáveis em sua rede de dependência; o desejo novo, afinal, tem como trunfo parecer mais promissor, e no entanto as decepções se multiplicam à mesma escala. Como diz Gley P. Costa na revista IDE 52 da Sociedade Brasileira de Psicanálise, sob o tema "Amores", não se pode pensar no amor verdadeiro "sem disposição para o autossacrifício em prol do parceiro". E autossacrifício é tudo que nossa era desencoraja.

Voltando a Bruckner, que diz tudo isso e mais um pouco, ao criticar o egoísmo defendido por seriados como Sex and the City: "O amor é uma aventura de que não queremos nos privar, mas com a condição de que ela não nos prive de nenhuma outra". Seduzir se torna uma caça a troféus, ao exercício da vaidade - como quando alguém numa relação estável diz que "só não quero saber" de eventuais casos de sua parceira, na verdade querendo dizer que quer ter o direito de fazer o que quiser desde que consiga não magoar o outro. "Há uma maldade nova em nossos amores: a adesão a mim mesmo me autoriza a apunhalar o outro pelas costas". Trata-se o outro com valores utilitaristas: se não serve mais, será descartado; a fidelidade se torna um esforço que termina deixando um com raiva do outro. O pior, diz Bruckner, é que o casal se mostra indigno da paixão que o fez começar e, assim, deixa a monotonia vencer.

Bruckner não acredita então no que Ovídio, em sua Arte de Amar (livro que também acaba de ser reeditado: Amores & Arte de Amar, editora Penguin Companhia), chama de "amores sólidos", livres da indulgência mútua? Muito ao contrário. Ele cita outro clássico, John Milton, "Um bom casamento é uma conversa variada e feliz", e também lembra a frase de Borges, de que o amor é amizade e sexualidade - às quais se poderia acrescentar a ternura, o sentimento de que o ser amado mexe muito mais conosco do que um simples amigo atraente. É um equilíbrio sempre móvel entre segurança e aventura, a não ser vencido pela desconfiança ou egoísmo; não faz sentido ferir tanto quem amamos, cobrando perfeição como se o menor desapontamento fosse justificativa para magoá-lo, para trocar uma bela história por um laço superficial. O amor duradouro é uma conversa contínua, uma troca de duas vozes sempre redescobrindo a si mesmas. É um ensaio, não um contrato.

A arte de ver. É pequena a exposição de Saul Steinberg na Pinacoteca do Estado, e falta a ela mais do trabalho que o consagrou, o de ilustrador da revista The New Yorker. Mas há ali material suficiente para entreter os olhos com inteligência (a inteligência entretém, sim senhor), em especial os grandes desenhos que fez na Itália e no sul da França. Como bom nova-iorquino, esse romeno que se educou na Europa e se radicou nos EUA tinha um olhar para o mundo inteiro, tendo até visitado o Brasil de São Paulo a Belém, mas quando chegou à cidade que o adotou atingiu a síntese de suas influências e faculdades. Riu das madames em desfile, riu de certo provincianismo de Nova York, riu das ambições estressantes; mas sobretudo se encontrou ali, naquela mistura produtiva, naquela geometria vital.

O engraçado é ver as tentativas de passar um verniz de seriedade ou complexidade em sua obra, dizendo que um dia faria "um grande quadro" ou citando filósofos para tratar do que se orgulha de ser um simples trabalho gráfico. Steinberg, principal influência de Millôr Fernandes (da subestimada arte gráfica de Millôr), vê o mundo com linhas em movimento, que criam o efeito tridimensional com apenas algumas diagonais ou cruzamentos, e sempre reserva pontos da imagem que serão carregados com ornamentações (quando mais irônico) ou áreas preenchidas de nanquim ou cores (quando mais lírico). É claro que se pode falar em seu trabalho da influência do modernismo que absorveu em sua formação, mas não há nada obscuro ou abstrato em seus desenhos. O que eles mais fazem é dar saudades de um tempo em que os artistas sabiam que desenhar não é organizar o mundo, mas captar sua desordem.

Rodapé. Gosto mais de Jeffrey Steingarten, "o homem que comeu de tudo", entre os cronistas de gastronomia atuais, mas Anthony Bourdain é muito divertido, como se vê agora em Ao Ponto, novo livro do autor de Cozinha Confidencial. Por ter sido chefe e conhecido bem o fracasso antes da fama, ele não leva tão a sério um tema que parece estar sendo cada vez mais levado a sério. Bourdain tira sarros dos ricaços que pagam caro em restaurantes que não o valem; critica essa noção de que viciados são apenas doentes; afirma que a espécie humana foi projetada "para procurar e ingerir carne"; ataca jornalistas que se vendem por um prato de lentilhas; e, com particular interesse para o cenário brasileiro, desmonta essa mania atual de vender comidas caseiras ou rústicas a preços exorbitantes (alguns lugares andam vendendo arroz-feijão e purê como se fosse trufa com foie gras)... Ah, sim, ele também descreve seus prazeres culinários, como o lendário pássaro "ortolan" que come ao lado de chefs estrelados. E diz coisas como: "Maltratar a comida significa desperdiçar ingredientes de boa qualidade", dando ênfase ao fato de que viajar para provar esses ingredientes nos locais em que são feitos com o devido frescor é a maior lição que se pode ter.

Por que não me ufano (1). Nada mais tragicômico do que ver os esforços do governo brasileiro para justificar algumas medidas econômicas, como se conseguissem disfarçar que vestem o cobertor curto entre conter a inflação e não deixar o crescimento cair a um ritmo vergonhoso. O resultado para o contribuinte, claro, é o mesmo de sempre: um custo de vida cada vez mais alto, com cada vez mais impostos para pagar.

Ou melhor, há algo mais tragicômico, sim: é ler nos jornais que o ministro do Turismo caiu por usar verbas públicas para pagar despesas particulares e que foi substituído por outro apadrinhado do oligarca Sarney, outro peemedebista do Maranhão. E logo depois ver Dilma Rousseff dar tapinhas de apoio ao partido aliado, embora a mídia chapa branca jure que ela esteja promovendo uma "faxina" na corrupção federal. Trocar uma sujeira por outra é limpar?

Por que não me ufano (2). Passo alguns dias em Belém, onde a Feira Pan-Amazônica do Livro fez grande sucesso de público. Aliás, de Passo Fundo, RS, a Belém, PA, as feiras dessa coisa obsoleta chamada literatura em papel continuam lotando... Fiz ótimos passeios, como relato no blog, mas também conversei com muitos paraenses sobre a questão da divisão do Estado em três unidades: Pará, Carajás e Tapajós. Não parece haver consenso. Brasileiros que somos, vemos com enorme desconfiança qualquer coisa que crie novos aparelhos estatais e seus feudos políticos, ainda mais nas terras mais remotas e pobres, onde algumas famílias mandam e desmandam e pode ser que fiquem ainda mais poderosas agora. Ao mesmo tempo, levar alguma ordem institucional para regiões aonde a lei raramente chega faz sentido, já que o Estado é tão grande e complexo, com riquezas minerais ao lado de calamidades sociais. Falta debate mais nacional, não?

MAC MARGOLIS - Depois do Bolsa Família



Depois do Bolsa Família
MAC MARGOLIS
 Estado de S.Paulo- 18/09/11 

Das boas notícias que surgiram da América Latina, a melhor é a queda da pobreza. Quase todos os países das Américas caminham para cumprir, bem antes do prazo, as Metas do Milênio - aquele programa da ONU que desafia o mundo a cortar pela metade os índices de pobreza.

Destaque para o Brasil, que atingiu a meta há cinco anos e vem reduzindo à metade o número de pobres a cada meia década. Os vizinhos não ficam atrás. No Chile, a taxa de pobreza caiu de 45% para 15%, desde 1990. No Peru, de 48% para 31% na última década.

Os latinos fazem parte de uma onda global de mobilidade social em que 70 milhões sobem de padrão de vida todo ano. Enquanto o mundo precisou de 25 anos (de 1980 a 2005) para tirar meio bilhão de pessoas da indigência, outros 500 milhões de pobres seguiram ladeira acima nos últimos seis anos. "Nunca antes tantas pessoas foram alçadas da pobreza num período tão curto", dizem Lawrence Chandry e Geoffrey Gertz, em estudo do Brookings Institution.

Os especialistas ainda debatem o motivo desse sismo social. Na América Latina, os fatores são a estabilização econômica e o fim do populismo fiscal, que derrubaram a inflação, e o boom das commodities, que dilatou o PIB e turbinou o emprego. No Brasil, a melhora súbita se deve ao aumento do salário mínimo e ao dinheiro vivo na mão, por meio do Bolsa Família.

Agora, o Brasil e seus vizinhos enfrentam o dilema do sucesso. Por aqui, 22 milhões passaram de pobres a classe média desde 2003. Mas uma pequena parcela, entre 1 milhão e 2 milhões de pessoas, escapou. De fato, nem mesmo aparece nas estatísticas oficiais, seja porque mora em zonas remotas, seja porque não possui documentos legais. São os pobres invisíveis. O desafio é catá-los e cadastrá-los.

O problema maior são aqueles que já estão nos cadastros, mas ficaram para trás. Para atendê-los, o governo tem de se adaptar. "Não adianta fazer a mesma coisa e esperar que eles também saiam da pobreza", diz Ricardo Paes de Barros, assessor do ministério de Assuntos Estratégicos.

Injetar mais dinheiro no Bolsa Família não é a solução. Graças à queda de pobreza recorde, como também ao trabalho de cadastrar os clientes do Bolsa Família, o governo tem o GPS social na mão. Pelo menos os pobres que ficaram para trás têm nome e endereço.

Nos anos 90, sociólogos elaboraram belas teorias para decifrar a pobreza. Ruins eram as políticas sociais. Caras, perdulárias e ineficientes, não enxergavam a miséria. Hoje, o jogo inverteu-se. Enxutas e precisas, as políticas públicas modernas identificaram e atenderam os pobres em números recordes. Mas, para entender os milhões que sobraram, os teóricos precisam se renovar.

O bom é que o problema encolheu. São menos pobres, mais visíveis, que ficam ao alcance das redes de proteção sociais que já existem. Agora, é só entender como fugiram e aprender a pescá-los. "Toda a vez que você está com uma política social boa e a sociedade muda, a política tem de mudar também", diz Paes de Barros. E torcer para que a economia global colabore.

É COLUNISTA DO ''ESTADO'', CORRESPONDENTE DA REVISTA ''NEWSWEEK'' NO BRASIL E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COMD

MARCELO GLEISER - Quando começa a vida?




 Quando começa a vida?
MARCELO GLEISER
FOLHA DE SP - 18/09/11

A primeira batida cardíaca marca o início de uma integração sistêmica, a comunicação entre órgãos


Minha esposa está para ter um bebê a qualquer momento. Aliás, quando você ler essa coluna, é muito possível que o bebê já tenha nascido. Inspirado por isso, nas últimas 39 semanas venho ponderando a questão do início da vida.
Quando, exatamente, a vida começa? Não me refiro ao início da vida na Terra, algo que pesquiso em meu trabalho, mas ao começo da vida de um indivíduo humano, esse tópico controverso que alimenta a grande polêmica entre quem é contra ou a favor do aborto.
Como sou físico e não médico ou especialista em bioética, apresento apenas algumas possibilidades que, espero, incitem mais debates.
Começando do começo: na concepção, temos a junção do espermatozoide e do óvulo. O zigoto é resultado do abraço bioquímico de 46 cromossomos, 23 do pai e 23 da mãe.
É possível argumentar que a vida começa antes da fertilização. Se o esperma "nada" em direção ao óvulo, há um propósito. Mas podemos equacionar vida com um propósito?
Após a fertilização, o zigoto implanta-se na parede uterina e começa a se desenvolver. Este é o blastocisto, de onde as células-tronco podem ser extraídas. Uma incrível dança hormonal ocorre. Após cinco semanas, há um tubo neural e primórdios de coração e outros órgãos. Começa aqui o período embrionário.
Em seis semanas, a coisa acelera: o embrião pode mover suas costas e pescoço. O batimento cardíaco passa a ser detectado via ultrassom em torno de seis semanas. Há fontes que colocam o início do pulso cardíaco ainda antes, em torno de três semanas após a concepção.
Essa transição é, para mim, fantástica. Um amontoado minúsculo de células já tem um sistema nervoso primitivo, que ordena um coração primitivo a pulsar! Como, exatamente, isso ocorre? A primeira batida cardíaca marca a transição entre algo em que células estão se dividindo para algo em que existe uma integração sistêmica, órgãos se comunicando. É aqui que começa?
Em oito semanas, o embrião tem "tudo" de um adulto. É o início da fase fetal, um ser proto-humano, ou já humano, com um coração e cérebro. Por outro lado, sua sobrevivência depende da placenta.
Outra transição acontece quando o feto pode sobreviver independentemente da mãe. Mas quando isso ocorre?
Devido aos avanços na medicina neonatal, 80% dos bebês prematuros de 26 semanas conseguem hoje sobreviver. Com o avanço da tecnologia, essa sobrevivência será ainda maior.
Portanto, essa transição depende da tecnologia.
Finalmente: quando surge o consciente? No útero, no nascimento ou durante a infância? Deixando de lado a questão de como definir o consciente, eletroencefalogramas de fetos no 3º trimestre já revelam uma integração entre os dois hemisférios cerebrais, uma condição importante para a formação do consciente.
Talvez seja o choque do nascimento, quando o bebê é forçado a respirar por si só e a interagir com um ambiente completamente diverso, que desperta o consciente. Ou talvez não exista uma resposta para essa questão, apenas interpretações do que significa vida em estágios diversos de desenvolvimento.
De qualquer forma, tenho de terminar isso, pois preciso arrumar o quarto do bebê que está por vir.

VINICIUS TORRES FREIRE - Quanto custa comprar proteção



Quanto custa comprar proteção
VINICIUS TORRES FREIRE 
FOLHA DE SP - 18/09/11

Crise nos ricos faz Brasil e emergentes perderem muito dinheiro com suas reservas em moedas 'fortes'


O BRASIL PAGA caro para acumular reservas, como se sabe. Em termos apenas financeiros, perde muito dinheiro a fim de manter US$ 352 bilhões na conta do Banco Central. Mas agora todos os grandes "emergentes" entraram também no vermelho. O Brasil perde US$ 39 bilhões por ano. A China, US$ 110 bilhões.
Os emergentes deveriam parar de acumular reservas, acredita Stephen Jen, sócio de um hedge fund, ex-diretor do Morgan Stanley e doutor em economia pelo MIT. Jen explica seus motivos numa análise que escreve para clientes do ItaúBBA.
"Reservas" são um caixa em moedas estrangeiras de livre curso no mercado mundial, um tipo de seguro. Em caso de seca de receitas externas, devido a baixas no comércio ou falta de crédito, permitem que um país ainda possa importar bens e pagar seus débitos no exterior.
Essa é a explicação "manual de etiqueta" econômica para a utilidade das reservas. Mas, nos últimos 20 anos, tais fundos têm servido para proteger moedas e sistemas financeiros nacionais de entradas e saídas alucinadas de capital externo, as quais quebram países desde a crise da Ásia de 1997, ao menos.
Enfim, as reservas são ainda o resultado das compras de moeda estrangeira com o fim de evitar a valorização da moeda nacional e, assim, manter um bom nível de exportações de bens. Como faz a China.
Qual o problema, na opinião de Jen? De 2007 até agora, o total mundial de reservas cresceu de US$ 6,9 trilhões para US$ 10,1 trilhões. Ou de US$ 2,84 trilhões para US$ 5,58 trilhões nos emergentes com grandes reservas (China, Rússia, Taiwan, Brasil, Coreia, Índia, Hong Kong e Cingapura). Nesse tempo, cresceu muito a diferença entre os juros do mundo rico (onde as reservas são aplicadas) e as dos emergentes, por causa da crise iniciada em 2007/8.
Os emergentes se endividam para comprar moeda forte: dívida em juros locais. Nesses países, os juros médios eram de 4,1% em 2007, e seguem por aí. Mas a taxa de juros nos ricos (EUA, Europa, Reino Unido e Japão) caiu de 4,8% para 0,4%.
Os emergentes, na média, ganhavam com o diferencial de juros. Agora perdem. O Brasil sempre perdeu, pois os juros daqui já eram lunáticos. Perde ainda mais agora. Para os oito emergentes em questão, a aplicação das reservas rendia US$ 17 bi em 2007. Agora, resulta em perda de US$ 210 bi ao ano.
Como as diferenças de crescimento, inflação e, pois, juros entre emergentes e ricos será grande por muito tempo, o prejuízo crescerá -ainda mais se considerada a perda de valor de moedas como o dólar.
O que Jen sugere? Que os emergentes deixem de acumular reservas e permitam a valorização de suas moedas, o que ajudaria de resto a conter a inflação. Que invistam seus haveres em moedas "fortes" por meio de fundos soberanos, que podem aplicar em ativos de maior rentabilidade (e risco, claro).
Trata-se, enfim, de outro "alerta" sobre desequilíbrios financeiros globais. Outra vez, se recomenda que emergentes, Ásia em especial, deixem suas moedas subirem de valor, que consumam mais, que poupem e exportem menos. Que parem de se proteger da instabilidade demencial criada pela liberalização financeira. E que ajudem o mundo rico a sair do buraco em que se meteu.
Falta combinar com os chineses. E até com a gente, aqui no Brasil.

JOÃO BOSCO REBELLO - A reforma e o mensalão



A reforma e o mensalão
JOÃO BOSCO RABELLO
 O Estado de S.Paulo - 18/09/11

Não é só o controle da mídia que separa o PT do PMDB na pauta de debates na base de sustentação do governo. Também na reforma política há um abismo entre os dois partidos que representam o alicerce da aliança em torno da presidente Dilma Rousseff. A razão é simples: os dois temas são mantidos pelo PT apenas como peças de defesa para atos de corrupção protagonizados pelo partido na quase uma década de experiência de poder.

A censura à mídia, vestida pelo pomposo figurino de controle social, tem a óbvia motivação de enquadrar o noticiário sobre corrupção tanto na gestão anterior quanto na atual, na qual já provocou as demissões de quatro ministros (o quinto, Nelson Jobim, saiu por divergências políticas). Parceiro do Ministério Público num esquema denuncista nos tempos de oposição, o PT pós-poder lida mal como alvo de denúncias.

Posto que a proposta de reforma política do deputado Henrique Fontana (PT-RS) não tem a menor chance de ser aprovada, sua preservação na pauta atende ao interesse de manter o debate sobre o ponto específico do financiamento público de campanha, que relativiza o delito de caixa dois ao qual o PT pretende restringir o mensalão.

A perspectiva do julgamento do escândalo de compra de apoio parlamentar no governo Lula, previsto para 2012, se não foi suficiente para abortar seu mandato, ameaça seriamente a carreira política de expressivas figuras do partido e dá à oposição forte bandeira eleitoral no ano em que o PT se empenha em reduzir a hegemonia municipal do PMDB. Sem falar em 2014.

A reforma hoje cumpre esse papel.


Consenso só para o debate

Saudada como apoio ao projeto de Fontana, a concordância de PDT, PSB e PC do B em votar a reforma na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara ainda este mês está longe de significar um consenso. Ao vender essa "vitória", o ex-presidente Lula apenas mantém o debate na pauta. Ainda prepara uma mobilização popular a favor da proposta do PT, no dia 4 de outubro em Brasília. O presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), ajuda, acenando com a votação em plenário no mês de novembro. Mas o PMDB não quer votar nenhuma reforma que não banque o distritão e, além disso, defende um financiamento misto, público e privado, e não apóia o modelo do "fundo público", gerido pelo TSE, como propõe Fontana.


Em causa própria

Já o apoio do PDT à reforma é para inglês ver. O deputado Miro Teixeira (RJ), liderança influente no partido, considera que uma reforma pelo Congresso deixará a suspeita de ter sido feita em causa própria. Por isso, defende ampla consulta popular.


Afago estratégico

Os afagos da presidente Dilma ao PMDB visam aos descontentes do partido, que mantêm o governo sob ameaça. No Senado, Eunício de Oliveira (CE) cozinha em fogo brando, há duas semanas, a indicação do relator da prorrogação da DRU até 2015, que libera R$ 14 bilhões do Orçamento para livre gestão do Planalto. Na Câmara, cinco deputados assinaram o requerimento da CPI da Corrupção, As adesões, que desgastam mais ainda o líder Henrique Eduardo Alves (RN), foram dos deputados Nelson Bornier (RJ), Raul Henry (PE), Valdir Colatto (SC), André Zacharow (PR) e Almeida Lima (SE).


Constrangimento

Começa a ficar difícil para alguns congressistas disfarçar o constrangimento com o lobby do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, pela nomeação da mãe, a deputada Ana Arraes (PSB-PE), para o Tribunal de Contas da União (TCU).

DANUZA LEÃO - O luxo


O luxo
DANUZA LEÃO
FOLHA DE SP - 18/09/11 

Luxo mesmo deve ser morar em um país onde se possa andar na rua sem olhar em volta com medo de assalto


Mesmo para quem já possui casa, carro, casa de praia etc., sempre existirão objetos de desejo.
Supondo que você seja uma pessoa normal, sem grandes ambições de quadros valiosos e joias inacreditáveis, quais são as coisas que despertam em você aquela vontade louca de ter e aquele prazer imenso quando consegue? Nesses tempos tão modernos, é difícil saber.
Houve uma época em que as coisas mais banais eram uma festa; uma barra de Toblerone comprada no free-shop enchia de alegria os corações infantis -e os adultos também. Ganhar de presente uma camiseta da Banana Republic ou um cinto da Gap era o suprassumo do prazer, e fazer uma viagem, uma emoção indescritível.
Tudo era raro, e por isso tão especial. Mas agora os Toblerones são vendidos nos sinais de trânsito, e as camisetas importadas, nos camelôs. Teoricamente é ótimo: não é mais preciso viajar para ter um pote de mostarda Dijon na geladeira -lembra a festa que foi quando o salmão defumado virou o frango da classe média alta? Ótimo é, mas a graça mesmo, essa acabou.
Em qualquer lugar do mundo você come exatamente as mesmas coisas e pode comprar a mesma bolsa no Rio, em São Paulo, em Nova York, em Tóquio ou Cingapura, todas rigorosamente iguais; as grifes se banalizaram, o que foi lançado na semana passada em Londres já chegou aqui, e para ter acesso às coisas é apenas uma questão de conta bancária.
Mas apesar de quase tudo ser franqueado, ainda existem coisas especiais, únicas, às quais podemos ter acesso; é só procurar, sem ir atrás das modas.
De um pequeno restaurante que não faz parte de nenhum guia gastronômico a uma artesã de uma pequena cidade no interior de Pernambuco que faz lenços bordados de puro algodão, sem um só fio sintético, com suas iniciais bordadas; esse restaurante nunca vai ter filiais, e essa bordadeira nunca vai vender suas peças para nenhuma cadeia de lojas.
Existem coisas bem além da vã filosofia dos consumidores compulsivos, ávidos para comprar o que foi decretado que é moda.
A banalização deveria ser crime previsto no Código Penal, mas quando surge um restaurante incrível em qualquer lugar do mundo, na semana seguinte caravanas estão se organizando para ir conhecê-lo, só porque ouviram falar.
Nem todos conhecem os endereços onde se encontram coisas que nunca serão popularizadas, mas todos podemos exercer nossa capacidade de sair da mesmice, do comum e da vulgaridade que impera no mundo atual.
No lugar de fazer como todo mundo, pesquise, procure e ache um cinto único, uma camiseta única, um restaurante modesto, no fim de um beco, onde vai comer a melhor comida do mundo e que não está em nenhum guia da moda.
Esses achados -que não são necessariamente caros- são preciosos, porque foi você quem procurou, encontrou, são únicos e só você tem; isso é que eu acho que é o verdadeiro luxo. Achava, aliás.
Hoje eu penso que luxo, luxo mesmo, deve ser morar em um país onde se possa andar na rua sem olhar em volta com medo de ser assaltado, em que se abram os jornais durante uma semana, só uma, sem ler sobre malfeitos, palavra que virou sinônimo de corrupção, escândalo, roubalheira.
Deve ser mesmo muito bom.
PS - É hora de pensar, mais uma vez, na inesquecível pergunta de Eliane Cantanhêde em artigo aqui na Folha: "Afinal, o que é que a baiana e o Sarney têm?"

HUMBERTO WERNECK - Como é que fica?


Como é que fica?
HUMBERTO WERNECK
 O Estado de S.Paulo - 18/09/11

Já não bastassem as antigas, Dona Alzira tem uma nova dúvida: se um padre deixa a batina, ou "esse terninho que em má hora eles deram de usar", como é que fica a situação de quem se casou com ele? Quer dizer, trata ela de explicar melhor: como é que fica a situação do pessoal cujos casamentos esse padre celebrou? O matrimônio continua valendo? Será que não prescreve, feito os crimes, sai da validade, como os iogurtes, ou cai em exercício findo, que nem as dívidas?

Muito religiosa, como sabemos, esta não é para dona Alzira uma dúvida ociosa, uma questão gratuita como as que são propostas aos participantes de certos jogos idiotas na televisão, aquela bobajada que a gente vê até o fim para comprovar uma vez mais que tem muito lixo neste mundo. De jeito nenhum!, é coisa muito séria o que ela anda pensando a respeito das consequências dos desatinos dos padres que se desbatinam.

Mas não vá você pensar que dona Alzira caraminhola em causa própria, na esperança de que em alguma parte deste mundo tenha se escafedido da Igreja o sacerdote que fez seu casamento com o Valter. Casamento com o Valter... Ela não gosta nem de pensar naquele triste momento de sua tristíssima vida. "Se ao menos eu pudesse me matar um pouco", costuma repetir, suspirosa, "e depois voltar..." Logo se refaz, indignada: se alguém nessa história tiver que morrer, por que haveria de ser ela? Ah, não! - e imediatamente rebate, dá a volta por cima no desacoroçoamento existencial:

- Bobo é quem morre!

Dona Alzira, isto talvez você não saiba, é uma criatura das frases. O fato é que ganhou fama de frasista, por enquanto apenas no seio da família. (A filha tem horror, se arrepia toda quando a mãe vem com essa expressão, e, em nome da elegância da linguagem, esconjura a pereba verbal: mastectomia já!). Outras frases da dona Alzira que se tornaram célebres no úbere familiar, todas convenientemente providas de ponto de exclamação, pois em matéria de máximas é preciso carregar na ênfase:

- Tudo demais é muito!

- O exagero nunca é demais!

- Tudo o que é pouco sobra!

Sabedoria, já se vê, é o que não lhe falta. Repare, por exemplo, nesta última pérola, e se lembre do que acontece quando vem à mesa uma porção diminuta de algum alimento. Boa parte voltará para a cozinha, intocada, pois os comensais, diante da pequenez, na certa vão fazer cerimônia. A menos que se trate de batatas cozidas e que esteja à mesa o professor Modesto, mas isso é uma história que não vem ao caso, fica para outra vez. Não custa botar em outras palavras a pílula de sabedoria de dona Alzira para uso de cozinheiras e donas de casa: fez pouco, sobrou.

Um dia, meditando sobre esse seu achado, nossa amiga se perguntou se ele não aplicaria, também, a realidades extraculinárias. Ainda não se respondeu, mas anda desconfiada de que a frase talvez se aplique, sim, a coisas de sua própria vida, como ter estudado piano, francês e bordado - para acabar casada com um bronco como o Valter, criatura cuja sensibilidade, se chega a existir, é tão rombuda que não lhe permite apreciar as prendas da esposa. Tudo, nele, está canalizado para a carne, para a concupiscência!

Aliás, hoje nem tanto; falar a verdade, hoje em dia quase nada, ou nada mesmo. Mas no passado... O simples olhar do Valter, olhar molhado, vacum, ateava nela um fogaréu a um tempo imperioso e repulsivo, precipitando-a numa peleja em que se via puxada com igual força para lados opostos. Sob os faróis despudorados que a devassavam, batia em dona Alzira, então apenas Alzira, a mortificante consciência de estar, dentro da roupa, inteiramente nua. Sensualidade tão escancarada que ela, para não sucumbir ao turbilhão pecaminoso, se agarrava a uma frase, das primeiras que bolou:

- Certas pessoas deveriam ter um pouco de complexo!

Mas era dizer e se sentir arrastada, querendo, não querendo, para o outro lado, e aí... E aí é melhor parar, diz dona Alzira, agarrando-se à boia de um novo tema: como é que fica o casamento de quem se casou com padre que depois deixou a batina?

MARTHA MEDEIROS - A farra dos sentidos


A farra dos sentidos 
MARTHA MEDEIROS 
ZERO HORA - 18/09/11

Porto Alegre está sediando dois vibrantes eventos culturais, a Bienal do Mercosul e o Em Cena, e não demora começa a Feira do Livro. É um convite irrecusável para mergulhar num universo que tem sido tão pouco prestigiado: o dos sentidos.

Em tempos de deslumbre com a tecnologia, de consumismo descontrolado e da cultura do descartável, vale lembrar que o que nos dá conteúdo, de fato, é a valorização dos sentidos. Estar bem informado e bem sintonizado com as tendências do nosso tempo é importante, mas há diferença entre o que é importante e o que é vital. Vital é o sentir, mais do que o pensar.

É o que, em meio ao trânsito, às discussões, às filas, à pressa e às intermináveis reuniões de trabalho, nos faz transcender e nos instala num patamar mais sublime, inalcançável para quem se dedica apenas à vidinha besta diária.

Comer, dormir e transar são prazeres necessários, que se tornam ainda mais prazerosos quando estamos viajando e podemos nos dedicar a eles com mais calma e desfrute. Viajar oferece novidade aos olhos, sabores inéditos ao nosso paladar, uma percepção mais elástica do tempo.

Recondiciona nosso papel: passamos a ser estrangeiros para nós mesmos. É um instante rico em descobertas. Mas não se pode viajar toda hora, então o jeito é trazer a beleza do mundo para dentro da nossa rotina. É preciso despertar, diariamente, aqueles outros sentidos aparentemente desnecessários.

Há quem não reverencie as cores, as flores, estampas, misturas, audácias. O nude é elegante na moda, mas a vida nua e crua precisa de uns respingos de laranja, vermelho e verde para provocar estímulo, senão caímos em sono profundo, e sono profundo é a morte. Estou falando do tom com que colorimos a nossa história. Lamento por quem vive em sépia, deixando-se desbotar.

Beleza, aromas, sensações, ritmos, sabores, arte. Alimentos pra alma. Quem faz dieta de teatro, música, cinema, literatura, dança e artes plásticas morre magro, definha. E dinheiro pra isso? O Em Cena traz ingressos populares, na Bienal a entrada é franca, na Feira do Livro há os descontos e os sebos: ainda assim, nem todos podem. Então, quem pode, deve. Pelo privilégio que tem. É desfeita recusar-se à grandeza de abstrato, do onírico, da poesia e do encantamento. Desfeita e burrice.

Qual o sentido da vida? Que graça tem armazenar um milhão de “amigos” numa rede virtual, se envaidecer da própria conta bancária, buscar beleza em centros cirúrgicos, investir apenas no que é útil e rentável – ou então no supérfluo que dá status?

Qual o sentido de acordar de manhã sem paz de espírito, caminhar por uma casa que não sorri de volta, passar o dia em frente ao computador sem olhar uma única vez pro céu? Qual o sentido de correr tantos riscos (violência, desamor, frustração, doenças) se não se tem uma vida interior protegida da miséria existencial?

O sentido está nos sentidos. Nada mais óbvio, nem mais bonito.

PAULO SANT’ANA - A volta ao pago


A volta ao pago
 PAULO SANT’ANA
ZERO HORA - 18/09/11

Na quinta-feira passada, fui participar do Sala de Redação no piquete da RBS do Acampamento Farroupilha.

Mas que mundo agitado é este Acampamento Farroupilha! Gente por todos os lados, centenas de escolas primárias levam para lá os seus alunos, que correm de um piquete para outro, aquela algazarra infantil de fotos, comes e bebes, as professoras lutam para administrar a inquieta visitação das crianças.

E os adultos? Muita churrascada, muita cervejada, muita camaradagem, tudo sob o espírito da pilcha e do chimarrão. Esta tradição gauchesca do 20 de Setembro é mesmo um fenômeno social e antropológico notável.

O Acampamento Farroupilha é apenas um dos fatos sociais que diferenciam as datas de 7 e 20 de setembro.

O amor ao pago faz o gaúcho cantar o Hino Rio-Grandense com mais ardor cívico do que canta o Hino Nacional.

Não é que sejamos menos brasileiros que gaúchos, nada disso. Somos ambos igualmente.

Mas é que sentimos que somos antes gaúchos que brasileiros, não sei se me entendem...

Sempre que dou com os costados no Acampamento Farroupilha, chovem sobre mim convites de vários piquetes para churrasquear com eles.

Acabo mesmo comendo no Galpão RBS o meu aipim tenro, a minha couve cozida, a minha batata-doce, a minha abóbora, o meu milho verde e um carreteiro dos deuses.

Acho que ainda nossa cozinha campeira tinha de ser mais divulgada e promovida. Em Porto Alegre, talvez não haja dois restaurantes de comida gaudéria, um eu me lembro que havia ali na Rua João Alfredo. Não há coisa mais simples e mais saborosa na culinária em geral que a comida campeira.

Mas o meu mais sentido frêmito gaúcho se dá quando ouço, em meio ao Acampamento Farroupilha, um toque de gaita ao vivo.

Esteja onde eu estiver, saio correndo no rumo daquela sanfona e se ela estiver acompanhada de um violão é ali mesmo que me quedo sem pensar no resto da vida.

Nos olhares de muitos frequentadores do Acampamento Farroupilha, noto que um detalhe os arrastou para lá: por essas circunstâncias demográficas, eles foram obrigados a deixar seus torrões natais no Interior e vir viver na Capital.

E, quando chega a Semana Farroupilha, eles se tocam para o Acampamento para recordar do seu pago.

Não há prazer mais hedônico do que lembrar da terra da gente, da infância da gente, daquela ligação telúrica que nos amarra para sempre ao lugar que elegemos como nosso pago.

E é essa volta ao pago que nos carrega para o Acampamento Farroupilha.

Além disso, nada é mais democrático que esse Acampamento. Não se cobra entrada, a não ser pelo estacionamento. E pode entrar qualquer um. Há uma autosseleção espontânea.

E a gente se sente ali como em casa, como se estivesse de pijama.

FERNANDA TORRES - Minotauro


 Minotauro
FERNANDA TORRES
FOLHA DE SP - 18/09/11 

O apagão fulminante é o ato de misericórdia do guerreiro, a grande prova de sua civilidade


Sou uma das 15 mil pessoas que vociferam no evento de 27 de agosto do UFC no Rio de Janeiro. Shogun soca a fronte de Forrest Griffin de cima para baixo com todo o peso do corpo; quando cansa, vira a mão de lado em forma de marreta e continua encacetando o opositor inerte.

Sentada ao lado de Álvaro Barreto, mestre de jiu-jítsu formado por Carlos e Hélio Gracie, escuto o Yoda repetir baixo: "Tem que finalizar... tem que finalizar".

Por finalizar entenda-se apagar o parceiro de maneira rápida e sem martírio. Esse, revela Barreto, é o objetivo primeiro do embate.

Percebo que o professor não admira chutes e bofetadas. Embora domine todas as artimanhas do ataque, sua predileção são as chaves de pernas e braços.

"O sufocamento é o golpe perfeito. Aperta-se o pescoço do adversário até interromper a corrente sanguínea no cérebro. Ele vai à lona antes mesmo de sentir falta de ar." Shogun não atingiu tal requinte. Coube ao juiz dar por encerrada a revanche ao 1min53s do primeiro round. Segundo as regras, o árbitro deve intervir quando o que está apanhando para de se defender.

Chega a vez do Minotauro no octógono. Lutador experiente, operou a bacia e poucos acreditam no seu retorno. Brendan Schaub o acerta nas fuças mais de uma vez até que, com uma sequência veloz de bordoadas, o Homem Touro nocauteia o adversário, escala as grades e urra em delírio com a plebe ignara.
O vale-tudo é o mais próximo a que cheguei do Coliseu romano. A diferença é que, depois de Jesus Cristo, a morte caiu em desuso.

Ao espetáculo da execução pública eu só assisti na Espanha. Lá, a tauromaquia resiste intacta.
Não era um dia de gala na grande Plaza de Toros, mas não importa. Qualquer tourada de segunda é capaz de impressionar o leigo.

Assim como ensina Barreto, o bom toureador deve matar o monstro sem infligir sofrimento. Se perfurar com exatidão o ponto nevrálgico da coluna vertebral do animal, a tonelada arriará como gelatina, e a peleja estará concluída com a grandeza de uma obra de arte.

Naquela tarde, nenhuma besta havia tido a sorte de encarar um pelejador talentoso.

Na terceira apresentação, o incapaz manejou a capa sem maiores brios até se encaminhar para o gran finale, escondendo a espada debaixo do pano. Ruim de mira, chamou a fera pra cima uma, duas, três vezes, a cada vez uma estocada, e nada de o boi sucumbir. A arquibancada ecoou em vaias. Atrás de mim, quatro senhorzinhos espanhóis observavam a carnificina enojados. Um deles não aguentou e berrou para quem quisesse ouvir: "Dá um rifle pra ele!".

Quando o mastodonte por fim desabou, a turba arremessou as almofadas dos assentos no picadeiro. O mártir foi amarrado pelo chifre a uma carroça e arrastado em volta olímpica sob ovação da plateia.
Na hora, me lembrei da resposta da professora de religião a quem, culpada, perguntei se era pecado assassinar borboletas. "Não, minha filha, mas mata rapidinho."

O apagão fulminante é o ato de misericórdia do guerreiro, a grande prova de sua civilidade.
Que o diga o bailarino Anderson Silva.

FERNANDO DE BARROS E SILVA - CNJ e faxina da Justiça



CNJ e faxina da Justiça
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SP - 18/09/11

SÃO PAULO - Dos três Poderes, o Judiciário é o mais opaco, o mais refratário à ideia de que deve se submeter a mecanismos de controle e exigências de transparência. A natureza deste poder cercado de pompas e formalidades favorece e serve de pretexto à atitude corporativa.
O conhecido bordão "decisão judicial não se discute" é bem sintomático dessa mentalidade autoritária, segundo a qual o Judiciário não deve satisfações à opinião pública nem pode ser contestado.
As coisas já foram piores, sem dúvida. Mas podem voltar a piorar. OConselho Nacional de Justiça, o CNJ, está sob ataque especulativo dos magistrados. Querem transformá-lo numa reunião de sábios inúteis, uma espécie de ABL -um templo decorativo do Judiciário.
Há uma enorme pressão para que o STF reduza as competências doCNJ, proibindo-o de investigar e punir juízes corruptos antes que as corregedorias dos tribunais de Justiça dos Estados façam esse trabalho de apuração e julgamento.
Ocorre que as corregedorias dos TJs, via de regra, existem para não funcionar. Estão submetidas ao compadrio e ao espírito de corpo.
O CNJ foi criado em 2004, mas sobretudo a partir de 2008, com o corregedor-geral Gilson Dipp, passou a fazer inspeções em vários tribunais com indícios de problemas. Ainda que de forma limitada e com recursos precários, o submundo da Justiça começou a ser destampado.
A atual corregedora, Eliana Calmon, procurou expandir esse trabalho por meio de parcerias entre o CNJ e os órgãos de fiscalização, como a Receita, a CGU, o Coaf.
Tudo isso vai para o lixo se prevalecer a tese do atual presidente do SFT, ministro Cezar Peluso, que esvazia o órgão nacional de controle e devolve aos TJs a sua intransparência. Na prática, a Corregedora já é asfixiada por uma gestão que a alijou de todas as comissões do CNJ.
Ninguém está contra a autonomia da Justiça nos Estados. O que está em jogo é a impunidade togada e seus elos com o crime organizado.

DORRIT HARAZIM - Como ser um corrupto honesto


Como ser um corrupto honesto
DORRIT HARAZIM 
O GLOBO - 18/09/11

O defenestrado ministro do Turismo Pedro Novais perdeu a chance de sair do governo em grande estilo. Antes dele, Antônio Palocci (Casa Civil), Wagner Rossi (Agricultura) e Alfredo Nascimento (Transportes) já tinham deixado escapulir oportunidade semelhante.

A essência da carta que entregou à presidente Dilma Rousseff resumiu-se a uma rabisseca frase de 10 palavras: "Cumpro o dever de pedir-lhe minha exoneração do cargo." Pelo menos ele foi direto ao ponto. Palocci, Rossi e Nascimento, nem isso: embora mais fraldosos, foram também mais tediosos, previsíveis e oblíquos em seu adeus temporário a "malfeitos" revelados pela imprensa.

Com tantos praticantes de ilícitos na política nacional, falta ao país alguém que abrace publicamente a causa. Com ardor, convicção e arroubo, além de verve.

Falta ao país, e ao PMDB em particular, um George W. Plunkitt maranhense.

O americano Plunkitt (1842-1924) foi deputado e senador estadual de Nova York por mais de quatro décadas, entre o final do século XIX e início do XX. Foi, sobretudo, uma das locomotivas de Tammany Hall, entidade que concentrou a máquina de extorsão política do Partido Democrata na cidade e no estado nova-iorquinos.

De origem irlandesa, o exuberante Plunkitt começou a vida como ajudante de açougueiro e morreu como um dos homens mais ricos de Nova York. Seu legado para a humanidade é um livrinho fino de filosofia política intitulado "Tammany Hall: A Series of Very Plain Talks on Very Practical Politics" (em tradução livre, "Uma Série de Conversas Francas sobre o lado Muito Prático da Política"). Sua publicação acaba de completar 100 anos e tornou-se um clássico da literatura americana.

É fácil entender por que o título nunca saiu de catálogo: suas 64 páginas falam uma linguagem universal, degustável em qualquer canto do mundo. Dada a falta de criatividade da corrupção brasileira, ou melhor, de sua surrada retórica, listamos abaixo alguns tópicos essenciais dos fundamentos de Plunkitt:

A vida feita de oportunidades - "Todo mundo anda dizendo que estamos enriquecendo através de suborno e corrupção, mas ninguém parou para fazer uma distinção entre ilícito honesto e ilícito desonesto. Existe uma diferença enorme entre os dois. Não nego que muitos de nós enriqueceram na política. Inclusive eu. Fiz fortuna com ela e a cada dia fico mais rico. Mas nunca me envolvi com roubalheiras desonestas, como chantagem, jogatina, rede de prostituição, etc. Sou um exemplo de como o ilícito honesto funciona e posso resumir a prática numa única frase: "Aproveitei as oportunidades que apareceram."

Vou dar dois exemplos. Meu partido pretende realizar melhorias na infraestrutura da cidade. Alguém me passa a dica de que há planos para um novo parque em determinada região. Vejo nisso uma oportunidade e trato de comprar o maior número possível de terrenos vizinhos. Assim, quando o departamento disso ou daquilo tornar público o projeto, haverá uma corrida para a compra dos terrenos que até então interessavam pouco. Não é perfeitamente honesto eu cobrar alto e lucrar o máximo com o investimento e a aposta que fiz? Claro que é.

Ou então vamos supor que a prefeitura tenha planos de construir uma nova ponte e eu receba essa informação de cocheira. Trato de comprar as propriedades que serão vitais para fazer os acessos à ponte e as revendo por um preço maior. Mais dinheiro vai pingar na minha conta bancária. Quem não faria a mesma coisa? No fundo, não é diferente de investir em Wall Street ou no mercado do café ou algodão. São negócios honestos e fico à espreita deles todos os dias do ano.

Quero acrescentar que a maioria dos políticos acusados de roubar os cofres públicos enriqueceu da mesma forma. Eles não roubaram um único centavo de dinheiro público, apenas souberam aproveitar as oportunidades. É por isso que quando um novo governo reformista toma posse e gasta meio milhão de dólares tentando descobrir as falcatruas que denunciou durante a campanha eleitoral nada encontra."

Caridade - "Quando um incêndio destrói a casa de uma família, não pergunto se ela é democrata ou republicana, e não a encaminho a alguma entidade beneficente, pois essa vai primeiro investigar o caso durante um ou dois meses para só então decidir se a família deve ser ajudada. A essa hora todos já morreram de fome. Eu, não: vou logo distribuindo alguns trocados, compro roupas caso eles tenham tido tudo queimado e dou a mão até eles poderem ficar de pé sozinhos. Isso é filantropia, mas também é política - e política com "p" maiúsculo. Quem pode prever quantos votos esses incêndios me trarão? Os pobres têm mais amigos entre si do que os ricos."

Loteamento de cargos - "Não há em Nova York quem tenha faro mais aguçado para cargos públicos do que eu. Já ao acordar farejo se um cargo ficou disponível na noite anterior, e em qual secretaria. Sou sempre o primeiro a me apresentar. Ainda na semana passada apareci às 9h da manhã no Departamento de Águas e disse que queria a vaga para um dos meus eleitores. "Mas como o senhor soube que [o funcionário O"Brien] saiu?", quis saber o servidor. "Senti algo no ar, ao acordar", respondi. A verdade é que eu não tinha a menor ideia de que havia um funcionário chamado O"Brien no departamento, nem que ele tivesse ido embora, apenas farejei algo que me fez ir ao Depto. de Águas, e meu faro quase nunca me engana."

Em determinada época de sua carreira, Plunkitt chegou a ocupar quatro cargos públicos simultaneamente, recebendo salário em três deles. Neste quesito os brasileiros o ultrapassam, por meios mais tortuosos. Mas em matéria de suar a camisa, Plunkitt é um exemplo que poucos corruptos nacionais têm intenção de copiar. Consta que num único dia de sua agenda política ele atendeu pessoalmente a sete compromissos: ajudou as vítimas de um incêndio; 2) obteve o relaxamento da prisão de seis bêbados defendendo-os perante o juiz; 3) pagou o aluguel de uma família de imigrantes irlandeses para evitar que ficassem sem teto; 4) empregou quatro eleitores; 5) foi ao enterro de outros dois, um italiano e um judeu; 6) foi a um Bar Mitzvah; 7) foi a um casamento.

Ser corrupto honesto dava trabalho na Nova York da virada do século XIX. No Brasil do século XXI, nem isso.

DORRIT HARAZIM é jornalista.

ETHEVALDO SIQUEIRA - Como evitar o colapso?


Como evitar o colapso?
ETHEVALDO SIQUEIRA
O Estado de S.Paulo - 18/09/11

O mundo está diante de um novo risco de colapso. Agora, de suas comunicações de banda larga e, em especial, da internet. Esse apocalipse pode ser resultado da convergência de mídias e do crescimento explosivo e desordenado dos diversos tipos de conteúdos, em especial de vídeo.

Vejam estes fatos: a cada minuto são postadas 36 horas de vídeo apenas no YouTube. O que mais preocupa os especialistas é o crescimento exponencial dos dispositivos de comunicação móvel, cujo total poderá chegar a 55 bilhões em 2020, ou seja, quase 6 vezes a população do planeta, aí incluídos aqueles utilizados para conexão entre pessoas, bem como entre máquinas.

No final de 2011, o mundo quebrará a barreira dos 6 bilhões de usuários de celular. A expansão dos smartphones e tablets cresce a mais de 20% ao ano.

Não se trata de sensacionalismo. A advertência é de ninguém menos que o secretário-geral da União Internacional de Telecomunicações (UIT), Hamadoun Touré.

Na semana passada, durante o evento Futurecom, em São Paulo, ele declarou que "as redes mundiais de banda larga poderão entrar em congestionamento incontrolável e até em colapso, até 2015, se governos, agências reguladoras, operadoras de telecomunicações, provedores de serviço e produtores de conteúdo não estabelecerem novos padrões de regulamentação".

Apelo aos surdos. Touré diz que seu apelo até aqui não tem sensibilizado os responsáveis pelas soluções. Ele recorda, também, que, no passado, todas as formas de telecomunicações eram fortemente reguladas - do ponto de vista puramente técnico.

E exemplifica: "Imaginem o caos que o mundo enfrentaria hoje se o espectro de frequências radioelétricas fosse utilizado sem os cuidados impostos pelos regulamentos nacionais e internacionais".

Mesmo na atualidade, raros são os serviços de telecomunicações não licenciados ou livres de fiscalização, como Wi-Fi ou Bluetooth. Não se trata de nenhum controle político ou ideológico sobre a internet ou sobre os meios de comunicação de massa em geral.

"A questão", explica Hamadoun Touré, "se assemelha à do congestionamento de uma estrada que, a cada dia, recebe milhares de novos veículos sem ser ampliada para dar vazão ao tráfego. Não é difícil prever que, sem o devido alargamento, a velocidade dos veículos tenderá a zero."

O grande acordo. É claro que a solução não se resume à simples ampliação das redes de banda larga, mas, também, em formas de regulação do próprio processo de convergência de serviços. Para o secretário-geral da UIT, "é preciso que as empresas de telecomunicações, de um lado, e os produtores de conteúdo, de outro - incluindo aí os grandes provedores de internet, as grandes redes sociais e as empresas de comunicação de massa - cheguem a um acordo sobre o uso da infraestrutura comum".

Que fazer diante desse risco? Touré diz que sua esperança está numa reunião mundial que será realizada em Dubai, em novembro de 2012: "Desejo intensamente que nessa reunião mundial dos 193 países associados da UIT consigamos convencer a todos ou, pelo menos, à maioria, da gravidade dos riscos que nos ameaçam a todos e das providências que devem ser tomadas".

O último regulamento internacional do uso de redes é de 1988 e já se tornou totalmente obsoleto, com a chegada da internet, a digitalização da telefonia, a explosão da comunicação sem fio e da mobilidade e, em especial, da expansão da banda larga.

Como agência especializada das Nações Unidas, responsável pelas regras do uso das telecomunicações, regulação de frequências e de serviços para todos os países, a UIT não tem poder impositivo ou mandatório sobre os países-membros.

Sua atuação tem de buscar adesão puramente consensual e atuar com recomendações essencialmente técnicas.

O risco de colapso das redes e as dificuldades de convencer o mundo da gravidade desse perigo se parecem de alguma forma com as previsões de líderes como Al Gore, que há anos vêm pregando sobre os problemas do aquecimento global, de MUDANÇAS CLIMÁTICAS, da poluição e da escassez de recursos naturais, como a água doce.

A UIT tem tido a mesma dificuldade em sensibilizar os muitos atores envolvidos nesse processo de convergência tecnológica e de serviços.

Bug do milênio? Lembram-se do "bug do milênio" - anunciado aos quatro ventos como o risco de colapso de todos os computadores do planeta exatamente na passagem do último dia de 1999 para o primeiro do ano 2000?

É provável que o risco fosse verdadeiro, mas a maioria das empresas investiu na atualização de seus programas de segurança e nada aconteceu, praticamente.

Isso levou muita gente a supor que as previsões catastróficas fossem um grande trote ou golpe para vender soluções, sistemas e equipamentos de segurança. O que surpreende agora é a reação de muitas pessoas, que se irritam com a simples advertência dos líderes. E, para contestá-los, criam teorias conspiratórias, como se as advertências sobre o risco do colapso escondessem apenas interesses em provocar intencionalmente o pânico entre empresas e pessoas, para vender soluções ou mudar as relações de poder.

A questão não é prever o colapso, mas conscientizar o mundo de que, se as medidas certas não forem adotadas, o colapso pode ocorrer.

FERREIRA GULLAR - Pode ser que me engane...

Pode ser que me engane...
FERREIRA GULLAR
FOLHA DE SP - 18/09/11

Dando curso a minha tentativa de entender quem é esse cara chamado Lula, acrescento à crônica que publiquei aqui, faz algumas semanas, novas observações.

Por exemplo, fica evidente que Lula e seu pessoal, ao chegar ao poder, elaboraram um plano para nele permanecer. Aliás, José Dirceu chegou a afirmar isso, poucos meses depois da posse de Lula na Presidência: "Vamos ficar no poder pelo menos 20 anos".

O mensalão era parte do plano. Descartar o PMDB e aliar-se a partidos pequenos para, em vez de lhes dar cargos ministeriais, lhes dar dinheiro. Sim, porque, para permanecer 20 anos no poder, era necessário ocupar a máquina do Estado, tê-la nas mãos, de modo a usá-la com finalidade eleitoral.

Por isso, um dos primeiros atos de Lula foi revogar o decreto de Fernando Henrique que obrigava a nomeação de técnicos para cargos técnicos. Eliminada essa exigência, pôde nomear para qualquer função os companheiros de partido, tivesse ou não qualificação para exercer o cargo.

Ocorreu que Roberto Jefferson, presidente do PTB, sublevou-se contra o mensalão e pôs a boca no mundo. Quase acaba com o governo Lula. Passado o susto, ele teve que render-se ao PMDB e distribuir ministérios e cargos oficiais a todos os partidos da base aliada. Não por acaso, os 26 ministérios que recebera de FHC cresceram para 37, mais 11.

No primeiro momento, ele próprio deve ter visto isso como uma derrota, mas, esperto como é, logo percebeu que aquele poderia ser um novo caminho para alcançar seu principal objetivo, isto é, manter-se no poder.

Se já não podia comprar os partidos aliados com a grana do mensalão, passou a comprá-los com outra moeda, entregando-lhes os ministérios para que os usassem como bem lhes aprouvesse: dinheiro ali é o que não falta. E assim, como se vê agora, nos ministérios dos Transportes, da Agricultura, do Turismo, cada partido aliado montou seu feudo e passou a explorá-los sem nenhum escrúpulo.

Lula, pragmático como sempre foi, fazia que não via, interessado apenas em contar com o apoio político que lhe permitiria garantir a sucessão, isto é, eleger Dilma. Essa candidatura inusitada - que surpreendeu e desagradou ao próprio PT - era a que convinha a ele, pelo fato mesmo de que se tratava de alguém que jamais sonhara com tal coisa e que, por isso mesmo, jamais se voltaria contra ele ou contrariaria seus propósitos. Não é por acaso que, regularmente, eles se encontram em jantares a dois, para acertarem os ponteiros e ele lhe dizer o que fazer.

Não estou inventando nada. Não só ambos já admitiram esses encontros como ela, recentemente, respondendo a uma jornalista que lhe perguntou se discordava de Lula, respondeu: "Não posso discordar de mim mesma". Isso não exclui, porém, um fator contraditório: a necessidade que ela tem, como a primeira mulher presidente do Brasil, de afirmar sua autonomia.

Cabem aqui algumas considerações. Todos sabem que o PT, nascido partido da esquerda revolucionária, não admitia deixar o poder, uma vez tendo-o conquistado. Os demais partidos aceitam a alternância no poder porque estão de acordo com o regime. Já o partido revolucionário vem para implantar outro regime, que exclui os demais partidos. É claro que esse era o PT de 1980, que não existe mais, mesmo porque, afora o pirado do Chávez, ninguém em sã consciência acha que vai recomeçar o socialismo em Macondo, quando ele já acabou no mundo inteiro.

Disso resulta que os principais fundadores do PT abandonaram o sonho da sociedade igualitária e cuidam de seu próprio enriquecimento. Por esperteza e conveniência, porém, tentam fingir que se mantêm fieis aos ideais socialistas. Desse modo, dizendo uma coisa e fazendo outra, enganam os mal informados, enquanto usam o poder político e institucional para intermediar interesses de grupos econômicos nos contratos com o Estado brasileiro.

Ideologicamente, é preciso distinguir Lula do PT, ou de parte dele, que não consegue aceitá-lo como um partido igual aos outros nem perceber Lula como ele efetivamente se tornou. Nada mais esclarecedor do que vê-lo chegar a Cuba em companhia do dono da Odebrecht, no avião particular deste, para acertar as coisas com Fidel Castro.

MIRIAM LEITÃO - Atalho bancário


Atalho bancário
MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 18/09/11

PanAmericano, Morada, Matone, Schahin, Oboé. Para quem está com o mercado sólido, sem problemas de crédito, o Brasil está tendo eventos demais de instituições financeiras com problemas. Na terça-feira, o BC divulgará o teste de estresse feito em todas as instituições brasileiras. No mercado, não há medo desse teste, porque dizem que os caos problemáticos já foram resolvidos.

Após o traumático caso do PanAmericano, o Banco Central aumentou a fiscalização e as exigências sobre as instituições, e isso é que levou aos quatro outros casos. No PanAmericano havia fraude, e quem ficou no prejuízo foi o Fundo Garantidor de Crédito (FGC). O Schahin foi assumido pelo BMG; o Matone foi comprado pelo JBS; os dois casos com empréstimos do FGC. O Banco Morada foi liquidado, e a financeira Oboé, de Fortaleza, também.

As autoridades brasileiras garantem que esses casos foram descobertos após o aperto de fiscalização do BC sobre todos os bancos. Se há problemas, eles têm sido de certa forma mascarados pela atuação do Fundo Garantidor de Crédito, que tem agido como uma espécie de banco central do B, e de uma forma bem diferente da que foi idealizada.

O FGC foi criado na época do Proer para que houvesse uma forma de garantir os depositantes em casos de quebra de um banco. O Fundo tem que garantir até R$ 70 mil a cada depositante. Durante a crise de 2008, o Banco Central criou o DPGE (Depósitos a Prazo com Garantia Especial), que reembolsa até R$ 20 milhões por depositante: um investidor institucional ou um investidor pessoa física de alta renda. Esse instrumento foi feito para fortalecer os bancos pequenos, dos quais os grandes aplicadores fugiram no momento da crise.

Isso garantiu superar o problema, mas aumentou a exposição do FGC. Ele tem atuado num vácuo institucional. A Lei de Responsabilidade Fiscal impede que o Banco Central financie bancos privados; a única possibilidade é o redesconto, um empréstimo com taxas de juros muito altas e que deixa os bancos que usam esse instrumento queimados no mercado. A diretoria do BC tem medo de tomar decisões que a coloque na mesma armadilha que entraram outros dirigentes do Banco Central, que até hoje respondem a processos. O Proer manteve o sistema funcionando e puniu os banqueiros com a perda dos seus bancos e os bens indisponíveis.

No caso PanAmericano o tratamento foi bem diferente e muito mais suave para o banqueiro. O grupo Silvio Santos não perdeu os seus bens, nem ficou com ativo indisponível. O sócio do grupo era a Caixa Econômica (CEF). Como a Caixa tinha participação grande e participação no conselho de administração, uma liquidação colocaria os bens da CEF indisponíveis. O caso era de liquidação, mas sendo como foi o FGC perdeu R$ 3 bilhões.

Antonio Carlos Bueno, diretor-executivo do FGC, disse que o Fundo sempre avalia o que causa menos prejuízo. Calcula o custo da cobertura de todos os depósitos até R$ 70 mil e mais todos os detentores de DPGE até R$ 20 milhões por depositante, em caso de liquidação. Depois, compara com o custo de conceder um empréstimo ao banco que assumir o que está em dificuldades. Lembra que o Fundo receberá esse empréstimo de volta.

"Temos que ver o que é menos custoso para o Fundo. A conta que a gente faz é da comparação de custos. Cada caso é um. No Banco Morada houve intervenção do BC, nos casos do banco Schahin e Matone fomos procurados para financiar a operação. Para nós é preferível quando é uma operação de financiamento do que o de pagamento das garantias", disse.

Bueno nega que o FGC esteja operando em nome do BC. Garante que é procurado pelos bancos e consulta o BC sobre a solidez da operação. Eles (os bancos) emprestam pela taxa Selic, o que convenhamos é até barato se for comparado com taxas de mercado para qualquer tipo de empréstimos a pessoa jurídica.

No caso do Banco Matone, o Banco Central numa avaliação determinou que os controladores colocassem mais dinheiro no banco para aumentar as garantias. Os donos do banco procuraram então um sócio no mercado, e o JBS decidiu comprar o banco. O FGC emprestou, segundo o Valor Econômico , R$ 1,9 bilhão ao JBS nessa operação. Bueno diz que o Fundo não dá detalhes das operações que realiza.

Deveria. Antes de a operação ser feita deve haver cuidado para que não haja rumores sobre a saúde das instituições financeiras; mas depois de fechada a operação o FGC deveria dar o máximo de transparência. O FGC não é formado por dinheiro do governo, mas é um fundo criado pelo governo, capitalizado por um percentual dos depósitos, recolhido pelos bancos, que, obviamente, transferem esse custo aos depositantes.

Esse é um detalhe pouco entendido e sempre negado pelos bancos. Dizem que o fundo é dinheiro deles, dos bancos. Mas como todos os custos dos bancos estão nas taxas e nos spreads, quem paga é o distinto público depositante. Então é um fundo de uma natureza ambígua: nem é governamental, nem dinheiro dos bancos; é um fundo público com destinação definida. Seu objetivo é proteger depositantes.

O que distorceu o sistema foi o DPGE. Mas ele será reduzido em 20% por ano até ser eliminado em cinco anos. Mas é arriscado deixar tudo para ser resolvido pelo FGC com pouca transparência. O JBS é um grupo que tem se expandido demais, tem um valor de mercado que é metade do seu valor patrimonial, está muito alavancado, e para comprar o Matone, com dinheiro do FGC, deu como garantia seus ativos. O problema: o BNDESPar tem 32% do seu capital. Se algo acontecer haverá outro PanAmericano?

ELIO GASPARI - A grande entrevista de Jacqueline Kennedy


A grande entrevista de Jacqueline Kennedy
ELIO GASPARI
FOLHA DE SP - 18/09/11

Saiu nos Estados Unidos o pacote de sete longas entrevistas que Jacqueline Kennedy deu ao historiador Arthur Schlesinger Jr. em 1964, poucos meses depois do assassinato de seu marido. É um retrato de uma grande mulher, dona de um vontade de ferro e imbuída de um raro sentido da História, escondida atrás de uma delicada aparência de refinada futilidade. Lia melhor que o marido, guardava até rabiscos e tinha um fino senso de humor: "'Primeira-Dama' parece nome de cavalo de corrida".

Até a sua morte, em 1994, aos 65 anos, Jackie deu apenas três entrevistas. Na primeira, dias depois do assassinato de Kennedy, criou o mito de "Camelot", a lenda de cavalaria medieval semelhante, em sonho, ao governo de seu marido. A segunda saiu do cofre agora. A terceira só será conhecida em 2067.

Jackie sofrera como poucos. O pai (que ela adorava), tomou um porre e não apareceu na cerimônia do seu casamento. Morrera-lhe um filho com poucos dias de vida e, em Dallas, teve os miolos do marido espalhados no vestido.

Nas sete conversas de 1964, Jacqueline falou para o século seguinte. John Kennedy não tinha defeitos e seu papel fora servi-lo. Uma Amélia chique. Ao contrário do que se esperava, a cama da Casa Branca ficou fora da pauta. Há apenas uma breve referência a um adversário político que se orgulhava de jogar squash e fazer sexo uma vez por semana, numa insinuação sobre a saúde débil de Kennedy. Ela contou o caso e gargalhou, junto com Schlesinger. ("Jacqueline Kennedy -- Historic conversations on life with John F. Kennedy" vem junto com seis CDs. O pacote está na Amazon e nos Estados Unidos o e-book pode ser baixado por US$ 9,99. Ouvir Jackie com sua adorável e afetada língua presa é um bálsamo para quem convive com a sonoplastia de Lula.)

Kennedy chorou nos dias seguintes à fracassada invasão de Cuba, em 1961, quando 2.500 exilados da força expedicionária foram capturados pelas tropas castristas. Sua descrição dos prisioneiros quando retornaram, trocados por tratores, mostra a alma da senhora: "Eles tinham uns rostos maravilhosos, como os de El Greco. Muito magros."

Jacqueline conta a crise dos mísseis soviéticos colocados em Cuba com alguma emoção. Nunca o mundo esteve tão perto da Terceira Guerra, mas Kennedy só lhe contou o rolo quatro dias depois de seu início. Ele não sugeriu que deixasse Washington, mas ela pediu para ficar. (Em Moscou, alguns familiares da nomenclatura viajaram.)

A moça criada na Nova Inglaterra, lapidada na França e casada numa família de milionários primitivos, lustrou a biografia liberal de Kennedy, mas tropeçou em dois personagens. E que personagens: Franklin Roosevelt e Martin Luther King.

A respeito de Roosevelt, relembrou:

"Ele (Kennedy) às vezes o considerava um charlatão - charlatão é uma palavra injusta, e você entende o que estou dizendo, um pouco poseur, esperto."

Com Martin Luther King a coisa piora: "Ele me contou de uma gravação do FBI de quando King esteve aqui para a Marcha da Liberdade (a do discurso do "eu tive um sonho"). (...) Ligava para umas garotas, armando uma festa de homens e mulheres, uma orgia no hotel. (...) Eu não posso ver retratos dele sem pensar, sabe, aquele homem era horrível." (Kennedy, cuja cama já fora grampeada, tentou intimidar King com a "vigilância" do FBI, mas ele se fez de bobo.)

No dia 16 de outubro o companheiro Obama inaugurará o memorial de King em Washington, onde há monumentos a Thomas Jefferson, Abraham Lincoln e Roosevelt.

A conta do golpe foi para Lyndon Johnson

Amaestria de Jacqueline Kennedy na construção e na propagação do mito de seu marido pode ser comprovada numa referência que faz ao Brasil em sua entrevista.

A certa altura ela diz que Kennedy achava que João Goulart era "falso" e "ladrão". Nessa conversa, ocorrida em junho de 1964, ela recorda que "os Estados Unidos reconheceram a junta do Brasil muito rapidamente. (...) Uma desilusão. (...) Jack nunca teria feito isso."

A família e a equipe de Kennedy desprezavam o vice-presidente Lyndon Johnson e, depois de Dallas, trataram-no como se fosse o primeiro-ministro da União Soviética, mas essa conta não é dele. É de "Jack".

A carta do golpe militar no Brasil foi colocada no baralho no dia 30 de julho de 1962, durante uma reunião do presidente Kennedy com o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon. (Nesse dia ele começou a gravar suas conversas no Salão Oval, inclusive essa.)

Em setembro, o Departamento de Estado aprontou um documento, intitulado "Proposta de política de curto prazo: Brasil". Ele propõe o "rápido reconhecimento e apoio a qualquer regime que os brasileiros instalem, substituindo Goulart". (Os Estados Unidos reconheceram o novo governo no dia 2 de abril, enquanto João Goulart ainda estava no Brasil.)

Nos últimos meses do governo Goulart, Arthur Schlesinger, que trabalhara com Kennedy, escreveu o seguinte: "Chegará o momento em que teremos de perguntar se é do nosso interesse que Goulart continue a cambalear até o fim do seu mandato, em 1965, (ou se) fosse 'aposentado' antes da data marcada".

Doutor Lula

No dia 27 Lula receberá em Paris o título de doutor honoris causa do Instituto de Ciências Políticas de Paris, a prestigiosa "Sciences Po".

Será o seu sexto doutorado honorífico. Outro dia ele contou:

"Estou com mais de dez convites para receber esses títulos, mas agendei-os aos pouquinhos, para fazer o Fernando Henrique sofrer lentamente".

Retrato

Pedro Novais, defenestrado do Ministério do Turismo porque privatizara funcionários da Câmara para servir como motorista e doméstica na sua casa, encarna a mentalidade do "eu posso".

Novais fez carreira como auditor fiscal concursado da Receita, estatizando os impostos da patuleia. Fez estágios de Direito Tributário em Londres e de Planejamento e Administração Tributária em Washington. Chegou a secretário da Fazenda. Onde? No Maranhão.

Escola do Cabral

Estava errada e era injusta a proposta para que a Escola Municipal Sérgio Buarque de Holanda passe a se chamar Escola Municipal Eduardo Paes.

O colégio, na Barra da Tijuca, tem dupla administração. No ensino médio, ela fica por conta do governo do estado e foi nessa condição que lhe coube o título de lanterninha do Enem, com 467 pontos, contra 761 do campeão (o São Bento) e 553 da média nacional. Eduardo Paes não tem nada a ver com a ruína. Ela pertence ao governador do estado. Portanto, a "Sérgio Buarque de Holanda" deveria se chamar "Escola Sérgio Cabral".

Silêncio

Nos próximos quatro domingos o signatário estará fora do ar.

LUIZ FERNANDO VERISSIMO - Para onde foram as coxas grossas?



Para onde foram as coxas grossas?
LUIZ FERNANDO VERÍSSIMO
O GLOBO - 18/09/11

Eu sei que não é a questão mais premente do momento, mas para onde foram as mulheres ancudas e de coxas grossas? O que há alguns anos era um corpo bonito de mulher, hoje não é mais. Durante anos, o padrão de mulher “boa” no Brasil foi a vedete tipo violão, com mais ancas do que peito. Que fim 
as levou?
O ocaso do tipo começou, segundo alguns estudiosos, com a derrota da Martha Rocha por excesso de quadris num concurso de Miss Universo, no tempo em que todo o País acompanhava nossas concorrentes em concursos mundiais de beleza como se elas fossem a seleção. E Martha Rocha era um pouco como a seleção de 50: não podia perder e perdeu, por milímetros. A partir daí, teve-se o cuidado de enquadrar nossas misses nas convenções internacionais de beleza, embora persistisse a certeza de que o padrão violão era melhor e os estrangeiros não sabiam o que estavam perdendo.
Aos poucos, o tipo longilíneo se impôs e hoje nem entre as coristas – ou os travestis, esses nostálgicos de virtudes femininas em desuso – se encontra o formato antigo. Mais uma vitória do colonialismo cultural.
Talvez a evolução do maiô tenha alguma coisa a ver com o fenômeno. O advento do biquíni e da tanga condenou a coxa larga a adaptar-se ou sair da praia, numa amostra particularmente rude de darwinismo social. A transformação da roupa de banho trouxe outros benefícios para a humanidade e seus fundilhos. Você eu não sei, mas ainda peguei o tempo dos calções infantis de pano que ficavam pesados e ásperos quando molhados e cheios de areia, e nos assavam as pernas e as partes. Pomada, muita pomada, e bichos-do-pé eram as consequências de um dia na praia. E por falar nisso, que fim levaram os bichos-do-pé?
Até uma determinada época, os “maillots” das moças eram feitos para disfarçar o fato de que elas tinham sexo. Nós sabíamos que elas tinham, se bem que não tivéssemos muita certeza de como funcionava. E ainda tem gente que suspira e diz “Bons tempos...”.
REDES E VÉUS
Outra coisa que desapareceu: rede de cabelo para homens. Jogador de futebol usava muito. Para proteger o penteado durante o jogo, talvez para melhorar o cabeceio. Quando eu me imaginava como jogador de futebol era com rede no cabelo. E outra: véus rendados tapando o rosto das mulheres. Um resquício de pudor oriental que seguiu o caminho das coxas grossas, dos bichos-do-pé e das redes de cabelo masculinas para o esquecimento.

ELIANE CANTANHÊDE - Uma mulher na ONU


Uma mulher na ONU
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 18/09/11 

O presidente brasileiro abre as assembleias gerais da ONU todos os anos, e Dilma Rousseff é a primeira presidente mulher do Brasil. Logo, ela será a primeira mulher a abrir a Assembleia Geral da ONU. Essa equação, basicamente burocrática, tem um resultado bastante político: a chance de Dilma estrear triunfalmente no palco internacional, nesta semana, em Nova York.

Ela vai capitalizar ao máximo a condição de mulher que lutou e sofreu pela democracia, enfrentou e venceu um câncer e foi eleita por um dos maiores eleitorados do mundo para presidir um país que ganha cada vez mais peso no cenário internacional. Vai ter encontros bilaterais com os alguns dos principais líderes do planeta: Obama, dos EUA, Sarkozy, da França, e Cameron, do Reino Unido. E vai a reuniões paralelas sobre transparência governamental, segurança nuclear e combate ao câncer e à diabete. Além de receber dois prêmios, um de líder política, outro na área de saúde.

Se dependesse apenas do Itamaraty, Dilma faria um discurso frio, contido, correto, mas não combina com seu estilo. Assim, ela consultou as notas e sugestões enviadas pelo chanceler Patriota e encomendou acréscimos à Fazenda e à Saúde, para apimentar o conteúdo.

Em resumo, vai ratificar o apoio ao Estado Palestino num momento crucial, cobrar maior equilíbrio no mundo e maior responsabilidade dos países ricos, fazendo propaganda do modelo brasileiro, ou "lulista", baseado em paz, desenvolvimento e inclusão social. Enquanto o Brasil inclui aos milhões, os EUA, a Grécia, a Espanha... excluem também aos milhões. Os miseráveis batem recorde nos EUA.

Quase sempre, o discurso vira manchete na imprensa brasileira e passa em branco na internacional. Mas Dilma não vai falar para jornalistas nem para o público em geral e sim para centenas de líderes mundiais que a estarão ouvindo ao vivo, em cores. Boa sorte!

CELSO MING - Imposto zumbi


Imposto zumbi
CELSO MING
 O Estado de S.Paulo - 18/09/11

No Brasil existe um defunto que teima em sair de sua sepultura e em atazanar os vivos. Trata-se da CPMF, o imposto do cheque.

Embora tenha sido enterrado pelo Congresso em dezembro de 2007, um punhado de viúvas lideradas pelo governador do Rio, Sérgio Cabral, insiste em trazê-lo de volta, sempre para financiar a Saúde.

Essa é uma história velha de guerra. Desde que surgiu, em 1997, em consequência da insistência do então ministro da Saúde, Adib Jatene, esse imposto está sendo justificado como imprescindível para dar cobertura às despesas do setor. E, no entanto, enquanto existiu, sua arrecadação desembocou sempre no caixa geral do governo, de onde se espera cobertura para todas as despesas de custeio da União.

As verbas para a Saúde não são menos essenciais do que as destinadas à Educação, à Segurança, à Previdência Social ou ao pagamento dos salários dos funcionários públicos. É no Orçamento da União que devem estar previstas as verbas para ela, sem insistir demais na observação de que, antes de inventar um novo imposto, o governo deveria cuidar de que sejam mais racionalmente empregadas as verbas para a Saúde.

Essas pressões dos políticos são tanto mais absurdas quando se leva em conta que, tão logo foi obrigado a revogar a CPMF, o governo federal compensou a perda de arrecadação com aumentos correspondentes do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), como mostra o[ ] gráfico do [/ ]Confira. Ou seja, não houve perdas de verbas. Ao contrário, de lá para cá, a arrecadação só fez aumentar.

Os políticos adoram a CPMF por ser o imposto mais fácil de arrecadar. Não precisa de coletoria nem de fiscais da Receita. O tributo pinga automaticamente na conta do Tesouro a cada movimentação da conta bancária. Se é assim, por que então não substituir impostos tão ineficientes e tão complicados de arrecadar, como o ICMS, o IPI e o Imposto de Renda, por essa moleza tributária que poderia vir a ser chamada Imposto sobre Movimentação Financeira (IMF)?

Seu principal vício é ser um imposto cumulativo. Ou seja, incide em cascata ao longo de toda a cadeia produtiva, elevando os custos de produção. A fabricação de um par de meias, por exemplo, gera imposto desde o momento em que o agricultor compra óleo diesel para arar a terra, semear o algodão, tratá-lo com fertilizantes e defensivos. E segue gerando na hora da colheita, do descaroçamento, na fiação, na confecção e no comércio. No final da linha, esse par de meias é um aglomerado de IMF. Como esse imposto não existe em país nenhum, na hora de exportar não há nada que dê competitividade ao produto nacional.

A alegação recorrente de que a Receita Federal precisa desse imposto para correr atrás de sonegação é conversa furadíssima. Em nenhum país o organismo arrecadador carece de um imposto assim para flagrar sonegação.

Também desta vez, a presidente Dilma Rousseff vetou a volta da CPMF, com que nome viesse. Mas este continua sendo um imposto zumbi, sempre à espera de uma cochilada da opinião nacional para voltar e fazer os estragos já conhecidos entre os vivos.


CONFIRA

Não há o que chegue

O gráfico mostra que a extinção da CPMF, em 2007, não reduziu a arrecadação, porque o governo tratou de reforçá-la com o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e com a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) das empresas.

CLAUDIO HUMBERTO

“Eu nunca dei nada a ninguém que eu não quisesse”
PRESIDENTE DILMA DESFAZENDO A LOROTA DE QUE SERIA “REFÉM” DE ALIADOS COMO O PMDB

HADDAD QUER SER PREFEITO, E CHALITA O LUGAR DELE 
Oficialmente, o projeto político do ambicioso deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP) é ser eleito prefeito de São Paulo, mas seu sonho mais acalentado é substituir o rival Fernando Haddad no Ministério da Educação, como tem dito a amigos. Em particular, jamais em público, Chalita tem o hábito de criticar duramente a atuação desastrada de Haddad e ainda aguarda o cumprimento da promessa de ser ministro.

MEU GAROTO 
Dilma queria Gabriel Chalita como seu ministro da Educação. Ela é leitora e fã do deputado. Mas Lula impôs Fernando Haddad no cargo.

MARIONETES 
Lula estimulou a filiação de Chalita ao PSB e apoiou seu ingresso no PMDB. Prometeu-lhe o céu. Mas queria mesmo era tirá-lo do PSDB.

PROJETO DUPLO 
O secretário-geral Gilberto Carvalho foi o artífice da adesão de Chalita à base governista. E transmitiu a ele a promessa de que seria ministro.

MAROLINHA 
Marina Silva, ex-PV, perdeu a onda. Passou por Brasília para palestra, mas não convenceu. Nem a turma jovem recuperou o pique.

PROCURADOR PEDE INVESTIGAÇÃO DA PF NA EMBRAPA 
O procurador da República no DF, Luiz Fernando Viana, encaminhou à Polícia Federal ofício (3433/11) requerendo a abertura de inquérito para apurar prevaricação no departamento jurídico da Embrapa em Brasília. Sob a conivência do chefe jurídico Antônio Nilson Rocha, o advogado Antônio Marques da Silva, segundo denúncia, opera em escritório fora da Embrapa em mais de 70 ações contra a União na Justiça Federal.

NA MESA 
A abertura do inquérito, pedida desde abril, está nas mãos do delegado da PF Antônio Flávio Coca, da Delegacia Fazendária no DF.

‘É INTRIGA’ 
Antonio Nilson atribui a denúncia à intriga e diz que sindicância não encontrou irregularidades. Ainda assim, a procuradoria pediu inquérito.

COICE 
Agora é oficial. Dilma sancionou na sexta (17) o título de “Capital Nacional do Rodeio” a Barretos (SP). Coitados dos bois. 

PESQUISA MARK/CH 
Pesquisa do Instituto Mark no DF, divulgada neste domingo no site claudiohumberto.com.br, revela números surpreendentes sobre a sempre criticada Câmara Legislativa: 52,10% dos entrevistados a consideram “muito importante”. Mas 67% não confiam nela.

RANKING DE CONFIANÇA NO DF 
A Polícia Civil é a instituição que mais inspira confiança no cidadão do DF, com 54,4%, diz a pesquisa Mark/CH, seguida pela PM (50,4%), Tribunal de Justiça (43,2%), governo (23,8%) e Câmara Legislativa (22,1%). Foram ouvidas 1026 pessoas e a margem de erro é de 3%. 

CASO DE FAMÍLIA 
Tititi no high society do Rio. Quem conhece a socialite que teve joias roubadas em casa no Flamengo suspeita de caso de família. Um dos herdeiros estaria falido depois de ter torrado R$ 1,5 milhão. 

O BEL GASTÃO 
A contrário do que diz em sua biografia no Portal da Câmara, o ministro do Turismo, Gastão Vieira, não é advogado, mas “bel”, a conhecida abreviatura de bacharel. Sem registro na OAB, não pode advogar. 

WELCOME TO MARANHÃO 
No apagar das luzes de Pedro Foi, o Turismo autorizou aditivos em cinco convênios com o governo do Maranhão, terra do novo ministro e do anterior. O Estado terminará mais famoso que Paris ou Nova York.

COPA NA TRAVE 
O Estádio Mané Garrincha, em Brasília, é o mais adiantado para a Copa, com 35% das obras prontas. A média construída de estádios-sede não passa de 30%. A Arena da Baixada, em Curitiba, nem iniciou.

OS INDIGNADOS AVANÇAM 
Os protestos de 7 de Setembro contra a corrupção vão se repetir amanhã (19), na Praia de Copacabana, e dia 20, na Cinelândia, no Rio. Em Brasília, novo 
protesto está marcado para 12 de 
outubro.

A QUEDA DE GRAYSKULL 
O governo do DF recupera área que virou reduto de marginais e viciados, o “Castelo de Grayskull”, junto ao Instituto Caminho das Artes. Saem os viciados e entra a turma do hip hop. 

PENSANDO COM RIMA 
Quem não tem licitação na Copa caça com Gastão. 

PODER SEM PUDOR
SANTO MILAGROSO 
O saudoso Maurício Fruet era prefeito de Curitiba e, certa vez, em uma recepção, esbaldou-se na comilança ao lado do amigo e ex-vereador Ademar Bertoli. A orgia gastronômica impressionou o arcebispo metropolitano, dom Pedro Fedalto, segundo relatam Hugo Sant’Ana e Sandra Pacheco no livro Maurício Fruet, Um brasileiro Cordial:
– Maurício, para que santo vocês rezam para fazer a digestão?
Fruet respondeu na bucha:
– São Risal, eminência.

DOMINGO NOS JORNAIS


Globo: Investimentos em estradas atrasam e acidentes triplicam

Folha: Construtoras do país multiplicam obras no exterior

Estadão: Com isenção de impostos, petroleira importa até biquíni

Correio: O novo Eldorado fica às margens da BR-060

Zero Hora: 4,6 mil homicidas no RS rumam para a impunidade