segunda-feira, setembro 12, 2011

JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO - Necessário, mas insuficiente


Necessário, mas insuficiente
JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO
O Estado de S.Paulo - 12/09/11


É possível extrair algo do comportamento do eleitor em 2010 que valha para o pleito municipal de 2012? Uma constatação é que o voto nas capitais foi sensivelmente diferente do voto no interior. No primeiro turno da eleição presidencial, Dilma Rousseff (PT) teve 40% dos votos válidos nas capitais, contra 49% no resto do País. A disputa do governo contra a oposição foi muito mais dura nessas 27 cidades. Entender o porquê ajuda a medir as chances de governistas e oposicionistas em 2012.

Não foi a oposição tucana que dificultou as coisas para a candidata de Lula nas capitais. No primeiro turno, José Serra (PSDB) recebeu proporcionalmente menos votos nessas cidades (30%) do que no resto do País (33%). Quem fez a diferença nesses centros foi Marina Silva (então no PV). Enquanto ela teve apenas 16% dos votos válidos no interior, sua votação chegou a 28% nas capitais. Foi a mais votada em Brasília, Belo Horizonte e Vitória.

Pesquisas do Ibope feitas ao longo da campanha de 2010 indicam que o eleitorado de Marina era dividido entre dois segmentos muito diferentes entre si: de um lado, um eleitor de classe média alta que estudou acima da média e estava desencantado com PT e PSDB; e de outro, evangélicos que desconfiavam das opiniões de Dilma e Serra sobre questões como aborto. Será possível comprovar isso na esfera municipal?

O cruzamento dos resultados eleitorais com as informações de renda do Censo 2010, divulgadas recentemente, e o novo mapa da religião publicado pela Fundação Getúlio Vargas apontam que sim.

Há enormes diferenças de comportamento do eleitor de capital para capital: no primeiro turno, a votação de Dilma variou de 16% em Rio Branco (AC) a 57% em São Luís (MA). E a de Serra, de 7% em Manaus (AM) a 51% em Boa Vista (RR). Para além das peculiaridades regionais, é possível identificar tendências.

Em 3 de cada 4 municípios que não são capitais, quanto maior era a abrangência do Bolsa Família em 2010, maior foi a votação de Dilma. Já nas capitais, a força da correlação entre os programas assistencialistas do governo federal e o comportamento do eleitor foi reduzida à menos da metade. Dois outros fatores diluíram essa influência: renda e religião.

Segundo estudo de Marcelo Neri, da FGV, há maior proporção de evangélicos nas capitais. E, entre elas, há grandes disparidades: de 10% em Teresina (PI) a 43% em Rio Branco (AC). Embora haja exceções, em regra Dilma teve menos votos nas capitais onde há maior porcentual de evangélicos. Sua votação também foi proporcionalmente menor nas capitais com renda per capita mais alta. Essas duas correlações foram mais fortes do que entre voto e Bolsa Família.

Para Marina Silva, as relações foram inversas às de Dilma. Em grande parte das capitais, quanto mais evangélicos, maior sua votação. Mas a conexão mais forte não foi religiosa, e sim de poder aquisitivo. Quanto maior o crescimento absoluto da renda acima da inflação, melhor o desempenho da então candidata do PV. Ou seja: ao menos nas capitais, Marina faturou politicamente mais do que Dilma e Serra os reais extras que os eleitores embolsaram ao longo da década passada.

Como interpretar essas correlações? Do ponto de vista estrito, comprovam-se as inferências do Ibope. Marina teve dois eleitores distintos, um mais rico e outro mais pobre, que votaram nela por motivos diferentes: o primeiro, para criar uma alternativa política ao PSDB e ao PT (e, eventualmente, defender o meio ambiente), o segundo, na candidata da sua fé, que por ser evangélica se mostrou mais confiável contra mudanças como a legalização do aborto no Brasil.

Mas é possível extrapolar os resultados para 2012. A principal constatação é que quando há outros fatores intervenientes, como religião, a influência econômica sobre o voto é amenizada. A segunda é que nos lugares onde a riqueza já era mais alta, os incrementos de renda, por maiores que tenham sido, não foram traduzidos automaticamente em predisposição do eleitor de votar na candidata do governo identificado como o responsável por esses ganhos.

Não bastará ao governo manter a economia crescendo, a inflação sob controle e o Bolsa Família funcionando. Essas são condições necessárias, mas não suficientes para Dilma e sua base aliada vencerem as eleições municipais de 2012. São necessárias obras e políticas com impacto local. E isso só é viável com uma máquina administrativa bem azeitada.

LUIZ FELIPE PONDÉ - Marketing francês

Marketing francês
LUIZ FELIPE PONDÉ
FOLHA DE SP - 12/09/11

A Revolução Francesa (1789-1799) é um fenômeno de marketing. Foi importante para medirmos a febre de um país sob um rei incompetente e não para nos ensinar a vida cotidiana em democracia.

Nada há na Revolução Francesa que tenha a ver com liberdade, igualdade e fraternidade. Essas palavras são apenas um slogan que faz inveja a qualquer redator publicitário.

Esse slogan, aliado ao que os revolucionários fizeram (mataram, roubaram, violentaram, enfim, ideologizaram a violência em grande escala), é uma piada.

É uma aula de marketing político: todo mundo cita a Revolução Francesa como ícone da liberdade.

O marketing da revolução ficou a cargo da filosofia. Primeiro caso na história de um fato claramente ideologizado para vermos nele outra coisa. Os "philosophes" do Iluminismo contribuíram muito para essa matriz do marketing político de todos os tempos, a Revolução Francesa.

Começa com a criação da ideia de que existe uma coisa chamada "povo que ama a liberdade" para além da violência que ele representa quando desagradado.

"Povo" é uma das palavras mais usadas na retórica democrática e mais sem sentido preciso.

A única precisão é quando há violência popular ou quando muitos morrem de fome por conta da velha miséria moral humana.

As "cheerleaders" da primavera árabe têm orgasmos nas ruas de Damasco, Trípoli, Cairo e Tunis. Já imaginam os árabes lendo Rousseau, Marx e Foucault (que, de início, "adotou" a revolução iraniana).

Dançam para esses movimentos como se ali não estivessem em jogo divisões religiosas atávicas do próprio islamismo, quase total ausência de instituições políticas, tribalismo atroz, grupos religiosos fanáticos muito próximos do crime organizado, para não falar do óbvio terrorismo.

De vez em quando, o "povo" mata, lincha, violenta e destrói cidades, a casa dos outros e o diabo a quatro.
Mas como (e isso é um dado essencial do efeito do marketing da Revolução Francesa) pensamos que o mundo começou em 1789, achamos que o "povo" nunca destruiu tudo o que viu pela frente antes da queda da Bastilha.

A historiadora americana Gertrude Himmelfarb, em seu livro essencial "Caminhos para a Modernidade", publicado no Brasil pela É Realizações, chama o iluminismo francês de "ideologia da razão", com toda razão.

Os "philosophes" criaram um fantasma chamado "la raison", que seria a deusa dos revolucionários.

Se no plano bruto "la raison" justificaria assassinatos nos tribunais populares (que deixam as "cheerleaders" dos movimentos populares até hoje em orgasmo), no plano sofisticado do pensamento, seria a única capaz de entender e organizar o mundo desde então.

Esse fantasma da "la raison" nada tem a ver com a necessária faculdade humana de pensar para além dos desejos e medos humanos, que é muito dolorosa e rara.

Ela é uma deusa mítica que ficaria no lugar do Deus morto, dando a última palavra para tudo.

Foram muito mais os britânicos e americanos que nos ensinaram a vida cotidiana em democracia. Mas o iluminismo anglo-saxão não foi marqueteiro.

Nas palavras de Himmelfarb, os britânicos, com sua "sociologia das virtudes", buscavam compreender como as pessoas e as sociedades geram virtudes e vícios. Entre elas, a benevolência e o hábito de respeito à lei comum.

Os filósofos americanos criaram uma "política da liberdade", nas palavras de Himmelfarb.

Eles associavam a qualidade de pensadores a de homens políticos práticos que investigavam a liberdade, não como uma ideia abstrata, mas como algo a ser preservado pela lei da tentativa contínua do homem em destruí-la em nome de qualquer delírio.

Daí as instituições americanas serem as mais sólidas, até hoje, em termos de defesa dos indivíduos contra os delírios do governo e do Estado.

Os britânicos e os americanos nos ensinaram a liberdade que conhecemos e que dá a você o direito de dizer e pensar o que quiser nos limites da lei.

É hora de deixar nossos alunos lerem mais Locke, Hume, Burke, Tocqueville, Stuart Mill, Oakeshott, Berlin, os federalistas e antifederalistas, Rawls, Strauss e não apenas Rousseau, Marx e suas crias.

NOVA CLASSE A
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 12/09/11

O Club Athletico Paulistano, um dos mais caros do Brasil, subiu o preço para o ingresso de novos sócios. Agora, quem quiser fazer parte dos quadros tem que pagar taxa de transferência de R$ 360 mil para a agremiação. E mais R$ 6.000 para o antigo sócio de quem compra o título.

INFLAÇÃO
É a terceira vez em dois anos que o Paulistano reajusta o preço da taxa de transferência. Há pouco mais de um ano, o valor saltou de R$ 180 mil para R$ 220 mil. Mesmo assim, 27 famílias ingressaram no clube. A solução para conter a demanda dos novos endinheirados foi reajustar o preço em julho passado, para os atuais R$ 360 mil.

NÃO TEM PREÇO
Ainda assim, entre julho e agosto, duas famílias apresentaram pedidos para se associar ao clube.

CAMPEONATO
O sindicalista Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho, diz que está "pensando seriamente" em disputar a prefeitura de SP. Até agora ele estava conversando com Netinho de Paula (PC do B-SP), a quem pretendia apoiar. "Mas a última pesquisa do Datafolha mostrou que temos o mesmo número de votos (entre 6% e 15%). E eu tenho menos rejeição (23% a 33%)."

SARDINHA
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) se reúne hoje com armadores e agentes de viagens para discutir normas de segurança e higiene nos cruzeiros no verão. Na temporada 2010/2011, foram registradas 718 notificações de problemas de saúde a bordo: 58% eram casos de diarreia e 39%, de gripe.

SARDINHA 2
A Anvisa diz que o número é razoável: de 41 navios que navegam pela costa brasileira no verão, só três tiveram problemas.

MEMÓRIA
O ex-presidente Lula reservou espaço na agenda para ir hoje ao lançamento do livro "Os Últimos Passos de um Vencedor: Entre a Vida e a Morte, o José Alencar que Conheci". Nele, o jornalista José Roberto Burnier, da Globo, narra a luta do ex-vice-presidente contra o câncer.

ACESSO TOTAL
A Defensoria Pública de SP enviou recomendação aos realizadores de concursos públicos do país, como Fundação Carlos Chagas, Vunesp, FGV e Cesgranrio, para que eles disponibilizem intérpretes de Libras, a linguagem dos sinais, para candidatos surdos. Defende a medida para garantir o direito à isonomia, já que é permitido aos cegos receber o teste em braile ou ter uma pessoa lendo o conteúdo para eles.

PRIMEIRA PORTA
O instituto Cetro, que organizou provas para o Ministério dos Transportes, já se comprometeu a seguir a recomendação.

DENTE DE LEITE
Lorenzo, filho de seis meses de Luciana Gimenez e do empresário Marcelo Carvalho, da Rede TV!, vai estrear na telinha.


A apresentadora será a "madrinha" da campanha de doação de leite do Ministério da Saúde que começa no dia 29.

CAI O PANO
O espetáculo "Desconhecidos", dirigido por Gustavo Machado, estreou no Teatro Ruth Escobar, na semana passada. No elenco, Carlos Baldim e Fábio Herford, que também assina o texto da peça.

MULTIMÍDIA
O estilista Fause Haten fez show de lançamento de seu álbum "CDFH", na semana passada, no Studio SP. Cantou músicas próprias e de ídolos como Cazuza, Tribalistas e Reginaldo Rossi. Hoje, ele lança o livro "Algumas Palavras", nos Jardins.

CURTO-CIRCUITO

O ministro Luiz Fux faz palestra no Hospital Israelita Albert Einstein, no Morumbi. Hoje, às 19h.
Reinaldo Lourenço lança hoje, às 18h, sua coleção de verão e nova linha de relógios. Nos Jardins.
O filme "Trabalhar Cansa" terá pré-estreia hoje, às 21h30, no shopping Frei Caneca. 12 anos. A mostra "Todo Muro É uma Porta" abre na quinta, na galeria Tag and Juice.
Eloisa Arruda e Andrea Matarazzo promovem hoje, na Sala São Paulo, o lançamento da Coordenação de Políticas sobre Drogas.
Claudia Proushan lança "Luzes da Galileia" hoje, às 19h, na Livraria da Vila dos Jardins.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

GOSTOSA


RENATO JANINE RIBEIRO - Os partidos como parasitas

Os partidos como parasitas
RENATO JANINE RIBEIRO
VALOR ECONÔMICO - 12/09/11

Uma convicção difundida, entre comentadores da política e cientistas políticos, é que partidos fortes são essenciais para a democracia. Já filósofos e estudiosos da comunicação não se entusiasmam tanto pelos partidos, mas reconhecem sua utilidade. Ora, um mantra da discussão política no Brasil é que os partidos são fracos, representam pouco e tendem a expressar mais os interesses dos políticos que os do eleitorado. Não espanta que nossa legislação seja uma mãe para os partidos. Deixou de regulamentar seu funcionamento interno, o que seria bom, não fosse o fato, revelado pelo Valor, de que vários deles, mesmo importantes, funcionam na base de comissões provisórias nomeadas pela direção nacional, sem democracia interna. Houve momentos, na ditadura, em que a lei fixou um máximo de partidos (dois), determinou que tivessem o "P" de partido em seu nome e até mandou suas convenções se realizarem em Brasília. Bobagem, que passou. Mas continua havendo vantagens para os partidos que, paradoxalmente, talvez expliquem por que são fracos. Não precisam ir à luta, conquistar o apoio do povo. Isso os fragiliza, isso nos fragiliza.
Por que, no Brasil, só partidos podem lançar candidatos? Não é assim na França, Estados Unidos ou Grã Bretanha, três democracias exemplares, fruto de grandes revoluções democráticas. Lá, quase todos os eleitos em nível nacional pertencem aos principais partidos, mas isso não é obrigatório. Os partidos se fortalecem sem serem donos da atividade eleitoral. São fortes porque lutam por isso, não porque a lei lhes dê o oligopólio da política. Já no Brasil só pode concorrer quem se filiou a um partido doze meses antes da eleição - o que exclui do direito de se eleger 95% ou mais da população.
Nossos partidos não militam pela causa da política
Essa oligopolização da política traz um adicional. Você se filia sem a certeza de que será candidato. Entre você e o voto popular, está a cúpula partidária. Itamar Franco se inscreveu no PMDB, em 1998, esperando concorrer à sucessão de FHC. Uma vez filiado, o PMDB aproveitou o ilustre refém para negociar com o governo tucano e liquidou sua candidatura. Mas é legítimo uma pessoa, que pode expressar a vontade popular, ser impedida de ir às urnas porque o partido lhe negou legenda?
Imaginemos que o PSDB se divida entre Serra e Aécio, em 2014. Se um deles notar que não tem chances no partido, sua única saída será mudar de legenda antes de outubro de 2013. Ora, dificilmente um deles saberia disso a tempo. Portanto, digamos que disputem a convenção. Quem perdê-la não poderá apelar ao povo. Na França, Estados Unidos ou Argentina, poderia - e poderia ganhar a eleição. Agora, à pergunta: isso enfraquece o partido? a resposta adequada é: menos que o sistema atual. Hoje, o perdedor na convenção dificilmente dará apoio entusiástico ao vitorioso. Muitos serristas acusaram Aécio de corpo mole na eleição de 2010. Mas, se ambos puderem ir ao povo, o que teremos? Certamente, outras lideranças partidárias - a começar por FHC - tratarão de curar as feridas e negociar um acordo. Para isso, não precisa haver uma lei barrando candidaturas. É melhor a lei ser aberta, e os conflitos se resolverem na prática. Mais maduro.
Em termos municipais, nem se fala. Com raras exceções, prefeitos se elegem em torno de temas locais - no mundo todo. A maior exceção costuma estar à esquerda, mais afeita a propostas sociais, que interferem na vida cotidiana. Mas, até porque em vários municípios as coligações se mostram monstruosas, aliando partidos opostos no plano federal, por que não admitir listas fora dos partidos? É um absurdo o prefeito de S. Paulo precisar criar um partido para continuar na política, com todas as consequências que vimos nas filiações ao PSD.
Em 2010, os tribunais eleitorais difundiram spots publicitários sobre a importância do voto. A intenção era ótima. A ilusão, total. Diziam que o Poder Executivo reduz as desigualdades. Ora, esse é um belo ideal, mas só isso. Mostraram um eleitor sabatinando os candidatos, como se disputassem um emprego. Na teoria, é assim. Na prática, os candidatos dos grandes partidos têm muito mais poder que os cidadãos. No fundo, os spots indicaram um problema de nossa política: que os tribunais eleitorais acabam assumindo um papel que deveria ser dos partidos.
Tomemos os Estados Unidos, onde o voto não é obrigatório - o que leva a um grave problema, que é a abstenção maior entre negros e pobres, que por isso recebem menor atenção dos políticos, o que aumenta o alheamento político de negros e pobres, levando os políticos a lhes darem menos... Mas, lá, se um partido quiser conquistar o voto de negros e pobres, terá de convencê-los de que é importante votar. Ou seja, em vez de um spot abstrato, no qual a Justiça cega e imparcial fala do voto em geral, teríamos spots concretos, em que um partido diz: se quiser combater a corrupção, vote em nós; se quiser eliminar a miséria, vote no partido tal; e assim por diante.
Isso acabaria com um aspecto que a eleição tem hoje: a reserva de mercado. Por lei, os partidos têm o monopólio das candidaturas. Por lei, os cidadãos têm de votar. Daí sucede que, no dia da eleição, muitos votantes não saibam ainda em quem votar e peçam indicações a amigos. Eu o fiz, em 2010, para deputado estadual. Ora, se você não está convencido de um candidato, por que votar nele? Por que votar? Os partidos, oligopolistas da política, têm apenas de disputar em quem você votará. Não precisam militar pela causa da política. Não precisam convencer ninguém da importância do voto. Funcionam como parasitas, não como atores da política. Isso tem de mudar.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS - Quem cedo madruga


Quem cedo madruga
JOSÉ DE SOUZA MARTINS
O Estado de S.Paulo - 12/09/11

Nossa memória está repleta de monumentos que não foram esculpidos na pedra nem fundidos no bronze. Cada um tem os seus, aquela coleção das coisas e dos fatos memoráveis, do que foi suprimido dos cenários e da vida, mas permanece gravado na mente e nas lembranças. É nesse sentido que minha memória me pede para trazer aos olhos uma bela e significativa fotografia desse grande criador de uma estética da imagem fotográfica da nossa vida cotidiana, particularmente da cidade de São Paulo, que é German Lorca. É a foto de dois homens lendo o Diário Popular. A sombra da luz oblíqua do sol matutino introduz na imagem a dimensão do tempo miúdo das horas e minutos, o tempo do cotidiano, que é por isso o tempo da modernidade, das coisas fugazes, do temporário e breve, do que é pequeno e insignificante. Lorca, que nasceu no Brás operário, em 1922, filho de imigrantes, conhecia perfeitamente o significado da fotografia que ia fazer na manhã em que a fez.

Nos anos 1950, o Diário Popular era um jornal maçudo, de ralo conteúdo, lido não pelo que noticiava, mas pelos empregos que anunciava em anúncios minúsculos. Expressava a grande mudança que estava ocorrendo no mercado de trabalho. Desde o início da industrialização, no final do século 19, os empregos do proletariado que nascia eram conseguidos por ouvir dizer, frequentemente através da intermediação de parentes e conhecidos. As empresas preferiam dar emprego a alguém já ligado a algum de seus empregados, não raro de uma mesma família. O mercado de trabalho era, assim, atravessado pelas regras da moral de família. Disfarçado meio, aliás, de controle social sobre as chamadas classes perigosas.

Com o tempo, surgiu a placa do "Precisa-se" nas portas das fábricas, com espaços para encaixe das tabuinhas com os nomes das profissões. Sempre uma pequena multidão na porta das empresas, com a carteira de trabalho na mão para ser recolhida e examinada pelo encarregado da secção de pessoal. Que, aliás, tinha curiosos critérios para decidir a quem recrutar. Prestava atenção em gestos e posturas dos candidatos ali na rua. Não recolhia a carteira de quem estivesse encostado na parede, sinal de gente "cansada", comodista, dizia a improvisada psicologia dos recrutadores.

Lorca, nessa fotografia, fez um instantâneo expressivo da vida dos paulistanos que dependiam do suor do rosto para ganhar o pão nosso de cada dia. A dos que corriam logo cedo para as portas do jornal para conseguir um dos primeiros exemplares, pois Deus ajuda quem cedo madruga. Depois, de bonde ou de trem, disparavam para a porta das empresas que haviam anunciado vagas nos minúsculos anúncios do jornal. Quem chegasse primeiro tinha mais chance de conseguir o emprego do que quem chegasse por último. Os últimos serão os primeiros? Banana, macaco!

CARLOS ALBERTO SARDENBERG - Mais inflação, menos crescimento


Mais inflação, menos crescimento
CARLOS ALBERTO SARDENBERG
 O Estado de S.Paulo - 12/09/11

O Banco Central (BC) terá agido corretamente, ao reduzir a taxa básica de juros, se houver a seguinte combinação de fatores: o mundo desabar de novo; o governo Dilma implementar uma forte e duradoura contenção do gasto público; e se o nível de juros no Brasil tiver permanecido elevado esses anos todos por burrada ou leniência do BC.

É o que se conclui das manifestações do próprio Banco Central, de membros do governo e de seus aliados. O BC se baseia mais na tese segundo a qual o mundo desenvolvido apresenta uma recaída forte na crise, desta vez menos aguda, porém mais longa. Essa desaceleração vinda de fora cai em cima de uma redução do crescimento já em curso no Brasil, de modo que, nota o BC, não há como a inflação prosperar nesse ambiente. Por isso se pode reduzir a taxa de juros para garantir algum crescimento.

Ocorre que esse argumento não parece convencer nem os mais qualificados aliados do governo. Se não houver um novo colapso como o de 2008 - coisa na qual nem o próprio BC acredita -, o efeito sobre a economia brasileira será mitigado. Como a própria presidente Dilma tem ressaltado, há um mercado interno bastante dinâmico por aqui e que continua em expansão (como, aliás, reconhece o BC). E a China, nosso principal freguês, pode desacelerar, mas naquele ritmo deles: em vez de crescer 10%, o esperado para este ano, vai crescer entre 8,5% e 9%.

Por isso, economistas alinhados com o governo põem mais força no argumento do ajuste de contas públicas. Afirmam que o governo já está segurando as despesas e que tem projetos para o equilíbrio de contas de longo prazo. De fato, há no Congresso Nacional projetos importantes que estabelecem regras que limitam o avanço dos gastos de custeio, impõem um teto baixo para o aumento dos gastos com salários do funcionalismo e criam o fundo de pensão dos funcionários públicos, equiparando seu regime ao do INSS.

Este último andou mais, passando em comissões. Mas está longe de ter apoio da base aliada, muito menos do PT, da CUT e de seus sindicatos. Já o projeto que limita o reajuste dos servidores foi rejeitado na Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados e líderes petistas dizem que a chance de avançar é zero. O mesmo vale para o projeto que limita gastos de custeio.

Mas o governo não está cortando gastos? Não. O gasto está crescendo menos do que cresceu no ano passado, quando subiu fortemente. Além disso, o projeto de Orçamento recém-apresentado pelo governo prevê aceleração das receitas e dos gastos para o ano que vem. E o Congresso debate vários projetos que aumentam os gastos.

Outro ponto importante do debate se refere ao mercado de trabalho. O desemprego está nos níveis mais baixos da história recente e os salários sobem em termos reais. Não há sinais de desaceleração aí. Ao contrário, o salário mínimo vai subir 14% em janeiro, e nas negociações coletivas (e greves) em curso os trabalhadores estão reclamando reajustes na base de 10%.

O BC alerta para esse problema, mostrando que reajustes salariais acima dos ganhos de produtividade são inflacionários. Pois é, são mesmo, e é o que está acontecendo.

Mas, dizem economistas aliados, o governo está tratando de medidas que corrijam o desequilíbrio do mercado de trabalho (demanda superior à oferta, falta de mão de obra e custos trabalhistas elevados). No entanto, a única medida concreta tomada até aqui foi a eliminação da contribuição previdenciária patronal sobre a folha de salário, beneficiando quatro setores da economia.

Só que essa desoneração foi compensada por um novo imposto, este sobre o faturamento. Ou seja, a carga tributária, o custo de produzir não cai e pode até aumentar em alguns casos.

Resumindo, toda essa argumentação do BC, do governo e de seus aliados se baseia numa hipótese extremamente pessimista, e a menos provável, sobre a crise mundial e num ajuste de contas públicas que se está por ver.

Por isso aparece outra explicação. Muitos economistas do lado desenvolvimentista têm salientado que os juros ficaram muito altos no Brasil por burrada do BC ou, pior, pela sua subserviência ao mercado financeiro. Logo, podem ser derrubados imediatamente, que não vai acontecer nada com a inflação.

O BC, claro, não pode dizer isso. Mas notou na ata divulgada na semana passada que a taxa de juros neutra - aquela que mantém a inflação na meta sem bloquear o crescimento - parece ter sofrido "redução significativa".

Reparem: o BC também repetiu várias vezes que inflação elevada distorce a economia e impede crescimento duradouro; e que a política de juros é o melhor instrumento de combate à inflação. Se as premissas são essas e se o BC está reduzindo a taxa básica de juros, afirmando que mesmo assim a inflação vai para a meta, só pode ser porque entende que o "juro neutro" é significativamente menor que o atual nível de 12%.

Por outro lado, os desenvolvimentistas também entendem que a inflação de 6,5%, no teto da margem de tolerância, não é problema em países emergentes.

Tudo isso indica que o governo Dilma mudou a política econômica. Mas não colocou outra no lugar, não pelo menos uma política com seus fundamentos definidos e assumidos. Continua dizendo que o regime de metas de inflação está de pé, quando praticamente ninguém acredita nisso. (E dentro do governo muita gente diz que é bom que tenha acabado.)

A presidente Dilma, em seu último discurso, prometeu tudo: reduzir os juros, sustentar o crescimento, conter a inflação, aumentar as exportações, bloquear importações, conter gastos públicos, acelerar investimentos e programas sociais.

Claro que o governante quer o melhor possível, mas política econômica exige escolhas e metas mais definidas. Pelo menos até aqui, o governo está colhendo o contrário do que anuncia: temos mais inflação e menos crescimento.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA


Pedra no sapato
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 12/09/11

Encontra-se no gabinete do ministro Cezar Peluso, pronta para ser levada a julgamento pelo Supremo Tribunal Federal, ação oferecida por Marcos Valério em 2009, numa tentativa de afastar o ministro Joaquim Barbosa da relatoria do processo do mensalão. Trata-se de recurso apoiado por Roberto Jefferson questionando a isenção do relator, a quem se atribui haver afirmado que Valério seria "expert" em lavagem de dinheiro.
A iniciativa tende a não surtir efeito. Em agosto, o Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, recomendou a rejeição da ação. E o STF tem rechaçado outros expedientes para dificultar o trabalho de Barbosa.
Agora ou nunca No Planalto e entre governadores, acredita-se que a oportunidade para aprovar um novo imposto financiador da saúde se fecha em dezembro. Em 2012 haverá eleições e depois o mandato de Dilma Rousseff entra na metade final, quando é mais difícil arrancar algo significativo do Congresso.

Nunca antes Em namoro institucional com Dilma Rousseff, Geraldo Alckmin convidou Lula para a assinatura do contrato do Rodoanel-Norte, amanhã, em São Paulo. O ex-presidente autorizou o repasse de recursos às fases anteriores da obra.

Rotativas 1 As duas maiores centrais disputam o Sindicato dos Gráficos de São Paulo, com base de 12 mil trabalhadores. O presidente, que era da Força Sindical, filiou-se à CUT e tem o mandato questionado naJustiça.

Rotativas 2 A categoria é estratégica para a campanha do PT pela "regulação da mídia". Para a CUT, a mudança no comando é um desejo dos filiados do sindicato, que mantinha vínculos com o Partido da Causa Operária.

Estado... Jovair Arantes (PTB-GO), Milton Monti (PR-SP) e Vilson Covatti (PP-RS) devem fazer prévia da qual sairá um nome para disputar a vaga no Tribunal de Contas da União. Jovair ainda tenta atrair Damião Feliciano (PDT-PB) e Átila Lins (PMDB-AM), outros dois postulantes.

...das coisas O governador Eduardo Campos (PSB-PE) coleciona apoios estrelados à candidatura da mãe, Ana Arraes (PSB-PE), ao TCU. E Aldo Rebelo (PC do B-SP) diz que continua no páreo.

Ciranda 1 Depois de Aécio Neves, que fechou pacto com Eduardo Campos para a reeleição de Márcio Lacerda em Belo Horizonte, Geraldo Alckmin agenda aproximação com o PSB para a disputa em algumas das principais prefeituras paulistas.

Ciranda 2 Instalado na Secretaria de Turismo, o PSB ajudaria Alckmin a engordar o tempo de TV de seus candidatos em 2012 e a fragilizar dois potenciais rivais do tucano em 2014: o PT e Gilberto Kassab (PSD) . Ambos interessados em alianças com a sigla comandada pelo governador de Pernambuco.

Dote Para viabilizar um acordo com o PSB, dirigentes tucanos admitem ceder a cabeça da chapa em Campinas e São José do Rio Preto. Na capital, a legenda poderia ficar com a vaga de vice do tucano escolhido para disputar a sucessão de Kassab.

Já vou Em resposta ao PSDB-SP, que questionou o fato de Walter Feldman ainda não ter deixado o partido, apesar do anúncio feito em maio, o ex-secretário municipal de Esportes diz que formalizará a saída em meados de outubro, quando encerrar seu período como "correspondente" da prefeitura em Londres. Acrescenta que, por ora, não pretende ingressar em outra sigla.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio

"É como aquela peça 'Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá'. A trajetória do ex-presidente do PT é de um guerrilheiro que virou mensaleiro. Ele é uma grande fraude."
Do ex-deputado ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ), sobre o fato de as alegações finais da defesa de José Genoino oferecidas ao Supremo Tribunal Federal atribuírem as acusações do mensalão a "chiliques" de "um verdadeiro bufão".

Contraponto

Trabalho de elefante


Em seminário realizado no TCU, o delegado da PF Ricardo Botelho, que será o xerife da Copa, recorreu a uma parábola para enfatizar a necessidade de coordenação entre as polícias nesse evento:
-Seis sábios cegos queriam conhecer o elefante. Como o circo ia passar, foram para a beira da estrada. Um pegou a tromba e disse que era um saxofone. Outro pegou o rabo e disse que era uma flauta. Outro pegou a orelha e disse que era um abanador. Moral da história: sem coordenação, ninguém saberá o que é um elefante...

GOSTOSA


MARCIA PELTIER - Agenda em construção


Agenda em construção
 MARCIA PELTIER
JORNAL DO COMMÉRCIO - 12/09/11

Dilma Rousseff, que se tornará, dia 21, a primeira mulher a abrir os debates da Assembleia Geral da ONU, deverá viajar a Nova York três dias antes dessa data, de modo a adaptar sua agenda a compromissos e solicitações de encontros bilaterais. Em um desses eventos, pelo menos, sua presença é certa: a presidente receberá o prêmio Woodrow Wilson de Serviço Público, que também foi atribuído a Lula, dia 20, em jantar no The Pierre Hotel.

Poder feminino 

Ainda está em aberto a participação de Dilma, dia 19, em reunião na ONU Mulheres, entidade criada ano passado e presidida pela ex-presidente do Chile Michelle Bachelet. Nesse encontro confirmaram presença Hillary Clinton, a baronesa Catherine Ashton, Alta Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros, e Helen Clark, chefe do PNUD, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Se ficar em NY até dia 22, Dilma integrará uma cúpula de chefes de Estado sobre segurança nuclear.

Tributo 

A juíza Patrícia Acioli, assassinada dia 11 de agosto, vai dar nome ao espaço de estudos – uma biblioteca e auditório - do Fórum Regional de Jacarepaguá que será inaugurado hoje. Arthur Narciso de Oliveira Neto, juiz diretor do Fórum, convidou familiares da magistrada para a cerimônia.

Influência baiana 

A Lavage de La Madeleine, que acontece no próximo fim de semana em Paris com a participação de Carlinhos Brown, ganhou um presente pelo seu décimo aniversário. Trata-se de um selo do correio francês em homenagem ao ritual inspirado na lavagem das escadarias da igreja baiana de Nosso Senhor do Bonfim.

Atração turística

Os últimos conflitos no Complexo do Alemão não modificaram a determinação da SuperVia em iniciar, hoje, um horário mais estendido do teleférico, que passará a atender a população das 7h às 19h. Nesta segunda também começará a ser cobrado o valor de R$ 1 por passagem além da ida e volta gratuita garantida, por dia, aos três mil moradores cadastrados. Os turistas, aliás, têm pago de R$ 40 a R$ 50 às agências para fazer o trajeto. E universitários vêm saciando a curiosidade dos estrangeiros nas estações, que perguntam principalmente pelos programas sociais da comunidade. Para exercer essa atividade, ganham de R$ 1,4 mil a R$ 1,8 mil por mês.

Lucro arrepiante 

As redes de depilação que participam da 5ª Rio Franchising Business, que começa nesta quinta-feira no Riocentro, têm em comum planos de expansão nacional. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, a Abihpec, o Brasil ocupa o 8º lugar no ranking mundial de depilação. As técnicas oferecidas por essas marcas são as mais variadas, dos institutos expressos que utilizam ceras especiais, como as redes Pello Menos e Pelo Zero, à fotodepilação, como a empresa Não Mais Pelo.

A domicílio

Também no ramo da depilação a laser, o Grupo Zaiom lança a minifranquia Home Depil, com investimento inicial de R$ 20 mil. O serviço é prestado na casa dos clientes com equipamentos portáteis de Luz Pulsada Intensa (IPL) e o valor único da sessão/área é de R$ 55. O público alvo da empresa são homens e mulheres, entre os 18 e 50 anos, das classes A, B e C.

Dois canais 
O Larica Total, programa culinário comandado por Paulo Tiefenthaler, volta ao Canal Brasil em fevereiro com novidades. Durante a programação da emissora serão exibidas pílulas de um minuto com drinques exclusivos elaborados por Paulo e sua equipe. As gravações da terceira temporada começaram neste fim de semana na cozinha do apartamento do apresentador, em Santa Teresa. Paulo vem se dividindo entre o Rio e São Paulo, onde participa do Rock Gol, na MTV.

Arte no frio 

Esculturas de gelo com até 1,5 m de altura serão elaboradas ao vivo para o público durante a Equipotel 2011, de hoje a quinta-feira, em São Paulo. Caberá ao chef Junior, do Carving Studio Brazil, dar forma a cisnes, golfinhos e cavalos-marinhos. As peças duram até cinco horas sem deformações. A técnica é do chef tcheco Charles Carving, precursor no Brasil de entalhes em alimentos.

Iguarias

Está no Rio, pela segunda vez, um dos maiores especialistas em queijos do mundo, o maître fromager Gérard Poulard. Na sua bagagem de cerca de 280 quilos vieram o Chaource, da região de Champagne, com massa cremosa e sabor de avelã, e o Fourme d’Ambert, com massa mofada e sabores de flores e ervas, fabricado em uma região vulcânica no centro da França. Eles estão na degustação que o restaurante Skylab, do Rio Othon Palace, promove.

Livre Acesso

Amanhã, no Marcia Peltier Entrevista, o arquiteto e urbanista Paulo Casé fala sobre os projetos urbanísticos que enalteceram o Rio de Janeiro. Ele, que vai completar 80 anos de idade e 50 de carreira, virou tema de livro. O programa começa às 23h, na rede CNT.

A Câmara Municipal do Rio homenageia, hoje, o empresário Rogério Jonas Zylbersztajn, vice-presidente da RJZ Cyrela, com a Medalha Albert Sabin.

Iara Nagle toma posse, hoje, no conselho diretor do Clube de Engenharia do Rio.

Aloysio Maria Teixeira e amigos do Tribunal de Justiça do Rio oferecem, hoje, jantar de despedida no Country Club para o desembargador Murta Ribeiro, que se aposentou.

A convite do Rotary Club de Copacabana, Miguel Padilha fala, hoje, no Sofitel, sobre Avanços em oftalmologia.

Amanhã, durante o Fashion’s Night Out no shopping Leblon, a Zibba vai recrutar um time de vendedoras muito especial, a convite de Gisella Amaral. Parte das vendas será revertida para a Instituição Anjo Gabriel, que atende 50 crianças e está prestes a fechar as portas por falta de recursos. Na mesma noite, a estilista Alice Tapajós lança uma bolsa de lona criada exclusivamente para o evento e uma bolsa de cobra com tag da mascote do evento, que é uma corujinha.

Com Marcia Bahia, Cristiane Rodrigues, Marcia Arbache e Gabriela Brito

Edir Macedo teria recebido verba de roubo


Edir Macedo teria recebido verba de roubo
Sérgio Roxo
O GLOBO - 12/09/11 


SÃO PAULO. Uma das testemunhas da investigação do Ministério Público Federal (MPF), que resultou na denúncia à Justiça contra Edir Macedo e outros três integrantes da direção da Igreja Universal do Reino de Deus por lavagem de dinheiro, acusa a cúpula da instituição de receber doação de um ladrão de banco com conhecimento de que o dinheiro era fruto de um crime. Ao MPF o lavador de carros Edilson Cesário Vieira reforçou o que havia denunciado ao Ministério Públicoestadual. Ele relatou que em uma noite de segunda- feira de dezembro de 2006 presenciou um homem, que se apresentava como Alexandre, entregar R$ 200 mil a Edir Macedo, líder da Universal, e a Romualdo Panceiro, apontado como número dois da instituição.

O encontro teria sido no 4o andar do templo da Av. João Dias, em São Paulo. No dia 11 de maio de 2010 em depoimento aos promotores Everton Luiz Zanella e José Mario Buck Marzagão Barbuto, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do MP Estadual, Edilson disse que a quantia doada, em 2006, pelo homem que se apresentava como Alexandre para a Universal é “proveniente de um crime de roubo ao Banco do Brasil, mas não sei agência ou endereço”. No dia 26 de agosto, Edilson prestou novo depoimento, para o procurador Sílvio Oliveira, do MPF, e declarou que o homem que havia sido mostrado na televisão ao ser preso no dia 24 era a pessoa que havia doado o dinheiro, em 2006.

A quantia teria sido entregue ainda com lacre do banco. A Secretaria de Segurança havia divulgado que o preso, Antônio Reginaldo de Araújo, participara do assalto ao Banco Central de Fortaleza em 2005, mas a informação foi negada pela Justiça Federal do Ceará. O advogado da Universal, Antonio Sérgio de Moraes Pitombo, disse ontem que a igreja só vai se manifestar depois que souber o teor da denúncia do Ministério Público Federal. Em denúncia apresentada no último dia 1o pelo procurador Sílvio Luís Martins de Oliveira, o MPF diz que Edir Macedo e três dirigentes da Universal usaram uma casa de câmbio de São Paulo para enviar recursos recebidos como dízimos de fiéis de forma ilegal para os Estados Unidos.

O quarteto é acusado de estelionato, formação de quadrilha, falsidade ideológica e evasão de divisas. No documento do MPF, Edilson é citado como uma das vítimas das “práticas ardilosas” da igreja para iludir fiéis. Edilson frequentou a igreja entre 1997 e 2008: — Fui enganado. Percebi que estava todo endividado.

MATTHEW SHIRTS - O povão vai entrar em órbita


O povão vai entrar em órbita
MATTHEW SHIRTS
O Estado de S.Paulo - 12/09/11

O meu saudoso pai tinha razão. O leitor eletrônico da Amazon, o Kindle, abre um novo capítulo na história do livro. Garry, como ele se chamava, andou para cima e para baixo da pequena cidade costeira na Califórnia, onde morava, sempre a ler o Kindle. Isso nos preocupava. Se o velho já era distraído, imagine com o Kindle diante dos olhos. Sem falar do celular que era obrigado a levar - pela minha mãe -, para o caso de uma emergência. Temíamos um atropelamento. No fim, ele se foi "de repente", como se dizia no século 19, traído pelo coração.

Do ramo brasileiro da família Shirts, minha mulher Luli foi a primeira a aderir ao pequeno aparelho, como tive ocasião de contar aqui mesmo, há dois meses, comparando o Kindle à canga. Talvez não seja por acaso que sua conversão tenha ocorrido em visita à Califórnia, após a morte do meu pai. Quando cheguei lá, semanas mais tarde, Luli já estava de Kindle na mão, orgulhosa. Não se vende o aparelho em lojas. É preciso pedi-lo via internet no site da Amazon. Chega em questão de horas, dias no máximo. Haja eficiência. Artista, Luli comprou ainda uma capa de couro cor de vinho para dar um toque retrô, de pós-modernidade à geringonça. A capa custou quase o preço do leitor eletrônico, que é barato, menos de R$ 200 nos Estados Unidos. Ou seja: os computadores estão próximos a virar commodities, como milho ou soja. Isso vai aproximar os povos cada vez mais. Será um passo positivo para a humanidade, não tenho dúvidas, desde que as máquinas não se voltem contra a gente.

A Amazon é uma empresa de vigor com uma visão otimista do futuro. O dono, Jeff Bezos, de uns tempos para cá deu para lançar foguetes. Seu objetivo, segundo diz, é baratear o custo das viagens especiais para que o povão possa entrar em órbita também. Soa maluco. Mas quem teria dito, mesmo dez anos atrás, que compraríamos livros digitais em tablets portáveis, do outro lado do mundo, sem nem sair de casa?

Não faz muito tempo, o segundo foguete do Bezos perdeu o rumo após atingir uma velocidade de Mach 1.2, supersônica, a 45 mil pés, uns 14 mil metros. O empresário foi obrigado a desligar o bicho, antes que atingisse alguém. Ficou decepcionado, mas a luta continua, garante.

Maria, minha filha de 20 anos de idade, também aderiu ao Kindle. Ganhou o seu da Luli, que não conteve seu entusiasmo e lhe deu de presente ainda na Califórnia. Preocupado em não ficar para trás, fiz também o download do "aplicativo" da Amazon no meu iPad, o que me permite ler livros digitais também. Já li cinco. É gostoso, mesmo na tela iluminada do tablet da Apple.

Com medo de passar por ignorante, nenhum de nós contou ao outro a própria estranheza diante de uma curiosa faceta dos livros eletrônicos. Afinal, não fazia grande diferença. Mas todos chegavam aos nossos aparelhos com trechos importantes já sublinhados. "Usado!", pensamos todos, soubemos depois. Mas não fazia muito sentido. Afinal, se vai vender um livro digital usado como novo, nada mais fácil do que eliminar, eletronicamente, a formatação e pronto. Qualquer intervenção do leitor anterior seria apagado também. O próprio conceito de "usado" não faz muito sentido no mundo dos textos digitais, diga-se.

Mas, aí, fui destacar em amarelo uma frase já sublinhada e veio a frase, assustadora, pelo menos de início: "Outros 59 leitores destacaram esse mesmo trecho".

Como assim? Quem fala? Como é que você sabe? A Amazon é informada cada vez que algum leitor em qualquer canto do mundo sublinha um trecho dos seus livros?

- Que medo - disse a Maria. Minha mulher Luli concordou.

Tentei enxergar o lado positivo.

- Isso vai aproximar a humanidade - pronunciei em uma frase panglossiana. É como se o mundo todo participasse do mesmo clube do livro, continuei, diante dos olhos descrentes e, talvez, preocupados da minha filha e minha mulher.

Afinal, se você quiser, pode desligar esse acessório. Não pode?

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Consumo de asfalto será 15% menor em 2011
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 12/09/11

A produção de asfalto deve quebrar um longo ciclo de alta neste ano no Brasil.
O setor, que no ano passado superou 3 milhões de toneladas consumidas em obras, estima uma queda de 15% para 2011, segundo levantamento do grupo de vias da Fiesp e do Sinicesp (Sindicato da Indústria da Construção Pesada de São Paulo).
O último dado, de julho, aponta um consumo de cerca de 248 mil toneladas, redução de 15,7% na comparação com o volume registrado 12 meses atrás.
No ano passado, impulsionada, principalmente, pelas regiões Norte e Nordeste, o consumo de asfalto disparou no país. Sem ter como suprir a demanda, o país recorria a importação.
"Nós passamos, em um curto período, de 2 milhões de toneladas para 3 milhões de toneladas. Agora voltaremos a patamares abaixo de 2,7 milhões", afirma Manuel Rossitto, coordenador do grupo de vias da Fiesp.
O setor vivenciou, nos últimos meses, uma redução das contratações de obras, mas há perspectivas de recuperação no próximo ano, de acordo com Rossito.
"O governo de São Paulo liberou a duplicação da Rodovia dos Tamoios. Nesta semana os governos federal e estadual assinam convênio para as obras do Rodoanel Norte, além da retomada das contratações pelo Ministério dos Transportes", afirma.

MODELAGEM FEMININA
O Grupo Via Veneto, dono das marcas masculinas Brooksfield, Harry's e Via Veneto, além de representante da Salvatore Ferragamo no Brasil, vai acelerar a expansão da grife nacional feminina, a Brooksfield Donna.
De 2009 para cá, surgiram nove lojas, contando a recém-aberta unidade no Shopping Cidade Jardim.
Até o início do próximo ano, serão mais sete lojas, todas próprias e em shopping centers, um investimento de R$ 13 milhões.
No roteiro das inaugurações estão Curitiba, Rio, Vitória, São Caetano, São Paulo, e, para 2012, Belo Horizonte e Ribeirão Preto.
"Estávamos há muito focados no masculino e esse plano de crescer no feminino já é antigo", conta a sócia-diretora Mariana Nassralla, responsável pela Donna e pela operação da Salvatore Ferragamo.
"A mulher consome muito e nossos clientes homens também pediam para termos artigos femininos para suas esposas em nossas lojas", acrescenta Nassralla.

Copa beneficia 300 mil micro e pequenas empresas em SP

Cerca de 300 mil micro e pequenas empresas do Estado de São Paulo poderão crescer economicamente com a Copa de 2014, segundo pesquisa do Sebrae-SP que será divulgada hoje.
O setor de comércio concentra 51% dessas empresas, seguido pelo de serviços e pelo de indústria, com 30% e 19%, respectivamente.
"As micro e pequenas empresas do Brasil devem lucrar cerca de R$ 140 bilhões com o mundial. Entre 30% e 35% desse valor [de R$ 42 bilhões a R$ 49 bilhões] devem ficar em São Paulo", afirma o superintendente do Sebrae-SP, Bruno Caetano.
A pesquisa também aponta 456 possibilidades de negócios. "São atividades que serão impactadas pela Copa, como uma agência de turismo ou uma empresa de TI (tecnologia da informação)."
O setor de turismo e de atividades ligadas a ele (gastronomia, programação cultural e artesanato, por exemplo) lideram o número de possibilidades (139). São cerca de 89 mil empresas do segmento que se beneficiarão.
Em seguida, aparecem os setores de TI e agronegócios.

LEI DE FALÊNCIA
A unificação internacional das leis sobre compensação de crédito em situação de insolvência será discutida nesta semana em Roma.
A reunião, organizada pela segunda vez pelo Unidroit (Instituto Internacional para a Unificação do Direito Privado), terá duração de três dias e começa amanhã. O Brasil é considerado um país avançado no assunto, segundo o advogado Fernando de Almeida Prado, sócio do Pinheiro Neto Advogados, que participará do evento.
"O tema é discutido no Brasil desde o ano 2000 e solucionamos a questão com a nova lei de falência", diz Prado.

No interior A Damha Urbanizadora, que tem 39 empreendimentos em nove cidades do país, investirá R$ 20 milhões em novo condomínio residencial em Araraquara (SP). O VGV da empresa em 2011 deve ser de R$ 350 milhões.

CDB... O Banco Volkswagen lança CDB para frotistas e fornecedores da Volkswagen, Man e Audi no Brasil. Hoje, o produto já é oferecido a concessionários. A instituição pretende atingir R$ 200 milhões em aplicações em um ano.

...automotivo O banco investiu no desenvolvimento de ferramentas de segurança para o lançamento do CDB. O produto será vendido para frotistas em Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Campinas e São Paulo.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

UM GOVERNO ESCROTO


DENIS LERRER ROSENFIELD - Estado de Direito e questão indígena


Estado de Direito e questão indígena
DENIS LERRER ROSENFIELD
O Estado de S.Paulo - 12/09/11

A questão indígena, em vez de ser equacionada na perspectiva de um problema social que atenderia os que são vítimas de um processo histórico, está sendo encaminhada em termos propriamente ideológicos, tornando inviável qualquer solução. Os conflitos só podem, assim, se multiplicar, com indígenas na pobreza, produtores rurais na mais completa insegurança jurídica, reservas ambientais e assentamentos da reforma agrária sendo também ameaçados.

Caso particularmente emblemático é o de Barra Velha, no sul da Bahia, onde um trabalho de identificação e demarcação de terras indígenas, realizado pela Funai com forte apoio do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e ONGs nacionais e internacionais, está conflagrando a região. Aqui não se trata do caso apresentado ideologicamente como usual entre "indígenas destituídos de terras e o agronegócio", estigmatizado, então, por isso. Não, não é isso!

A Funai, contrariando o acórdão do Supremo Tribunal Federal (STF) relativo ao caso da Raposa-Serra do Sol, está empreendendo um trabalho de ampliação de terras indígenas, o que foi explicitamente vedado. Ademais, essa ampliação está atingindo o Parque Nacional de Monte Pascoal, o que, ainda na mesma decisão, foi proibido. Além disso, produtores rurais, com títulos de propriedade e cadeia dominial anteriores à Constituição de 1988, estão sendo severamente atingidos.

Não esqueçamos que, ainda segundo o STF, o ano de 1988 foi considerado como linha divisória no que diz respeito à ocupação efetiva de terras para poderem ser consideradas indígenas. Há também assentamentos da reforma agrária estabelecidos na região, alguns com mais de dez anos, cujos membros se recusam a abandonar as suas terras. Colocam-se aqui questões importantes no que concerne ao respeito ao Estado de Direito, que deve ser, antes de tudo, preservado.

A Advocacia-Geral da União, na Câmara de Conciliação e Arbitragem da Administração Federal, da Consultoria-Geral da União, em parecer da advogada da União Sávia Maria Leite Rodrigues Gonçalves, foi instada a se manifestar pelos conflitos daí decorrentes entre órgãos públicos - Funai, Incra, Ibama, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Sua conclusão foi bastante enfática ao estabelecer que "não há condições jurídicas de prosseguimento dos estudos para a revisão, com ampliação, da TI (terra indígena) Barra Velha, devendo ser mantido o seu contorno decorrente de prévia e pretérita composição entre o então IBDF (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal) e a Funai".

Muito claramente o parecer conclui que a "Funai, com o suporte de sua Procuradoria Federal Especializada e da Consultoria Jurídica do Ministério da Justiça, deverá inovar na adoção das medidas gerenciais já aprovadas pela Presidência da República e encaminhadas pelo Exmo. Sr. Advogado-Geral da União, com destaque para as atividades fins, bem assim como na adequação à nova realidade jurídica delineada pelo Supremo Tribunal Federal". Note-se a referência ao julgamento pelo STF e às suas condicionantes quando da decisão do caso Raposa-Serra do Sol. Eis a nova realidade jurídica, que não está sendo levada em conta pela Funai. Ao não fazê-lo, esse órgão apenas torna mais agudos os problemas que deveria resolver.

Aliás, o mais sensato, pacificando a questão, seria a compra de terras, aí incluindo terra nua e benfeitorias, para equacionar problemas fundiários indígenas onde se fizer necessário. Direitos dos proprietários, direitos indígenas, direitos dos assentados da reforma agrária e o direito ambiental seriam, todos, preservados. Ao não enveredar por essa via, criam-se conflitos e tensões infindáveis, com processos judiciais, por muitos anos, que deixam todos na insegurança jurídica e no não equacionamento de questões sociais, familiares e econômicas. O status quo do conflito não beneficia ninguém, salvo os ideólogos da discórdia, com menção especial ao Cimi e a ONGs nacionais e internacionais. Nada, de fato, que interesse à sociedade brasileira.

A questão de Barra Velha chegou a tal grau de acirramento que alianças impensáveis em outros contextos se tornaram realidade. Em evento no final de agosto no município de Itamaraju, num auditório lotado com mais de 300 pessoas, sendo em torno de 270 provenientes dos assentamentos da reforma agrária e usando bonés e camisetas do MST, foi feita uma defesa do direito de propriedade e do Estado de Direito.

Eis a bandeira comum a todos nessa ocasião, com membros da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf), ligada à CUT, do MST, da Federação da Agricultura do Estado da Bahia (Faeb) e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) unidos contra o trabalho da Funai e as ações do Cimi e das ONGs indigenistas nacionais e internacionais.

Os líderes dos assentados da reforma agrária presentes ao evento disseram em alto e bom som que lutariam até a morte e não entregariam as suas terras aos índios. Nem querem ouvir falar de remoção para outras áreas, pois a terra onde estão é sua. Reclamam, isso sim, melhores condições de trabalho, como crédito, maquinário e sementes. As oposições correntes nacionais entre "trabalhadores rurais e empreendedores rurais" não se fizeram presentes. Ao contrário, aqueles se manifestaram solidários aos produtores rurais por compartilharem, agora, os mesmos problemas e ameaças.

Declararam-se firmemente partidários do direito de propriedade. Assentados, agricultores familiares, pequenos, médios e grandes, todos se consideram igualmente produtores rurais.

Já passa do tempo de uma solução técnica, não ideológica, da questão indígena, assegurando a todos os brasileiros os direitos de que são portadores. O reconhecimento do Estado de Direito é a condição mesma de qualquer solução.

FÁBIO ULHOA COELHO - Técnica, política e democracia


Técnica, política e democracia
FÁBIO ULHOA COELHO
O Estado de S.Paulo - 12/09/11


Quando o assunto é a elaboração de leis, a relação entre técnica e política é bastante complexa - às vezes, tumultuada. A chave para acomodá-las é a democracia. Técnica e política são servas da democracia, mas servem a ela de modos diferentes.

As decisões políticas no processo de elaboração de leis refletem a vontade popular. Os deputados e senadores são detentores de mandato parlamentar e, assim, representam a Nação. Por valiosa que seja a contribuição do mais competente dos juristas, ela simplesmente não se pode sobrepor nunca à decisão política. Falta ao técnico a legitimidade que as eleições democráticas conferem aos parlamentares. Normas básicas da democracia seriam desrespeitadas se a técnica tolhesse a política.

A relação entre esses dois aspectos da elaboração de leis, porém, esconde mais uma sutil complexidade. Se a decisão política não se revestir da adequada formulação técnica, corre-se o sério risco de uma inversão antidemocrática. Explico. Quem aplica as leis são os técnicos - advogados, juízes, promotores de Justiça, etc. Depois de concluído o processo legislativo e editada a lei, se a decisão política for desprovida de amparo técnico, ela poderá ser neutralizada por argumentos técnicos, capazes de obstar a solução intentada e aprovada no âmbito do Poder Legislativo.

O tema do entrosamento entre técnica e política veio à tona recentemente, em razão de diversos projetos de elevada tecnicalidade em discussão na Câmara dos Deputados. Na definição do presidente e do relator da Comissão Especial do Código de Processo Civil, por exemplo, houve quem entendesse que essas funções deveriam ser reservadas necessariamente a deputados com formação jurídica. Discordo desse entendimento. Ainda que possa, evidentemente, ser mais proveitosa ao célere andamento do processo legislativo a atribuição da relatoria a deputado familiarizado com o tema em discussão, não haveria nenhum desrespeito às regras da democracia se o presidente e o relator do Código de Processo Civil não fossem processualistas. Ao contrário.

Na verdade, é hora de se entrosarem técnica e política na elaboração das leis, de modo compatível com a complexidade que a relação, hoje, encerra. Tradicionalmente, nas leis de maior tecnicalidade (nas quais se inserem os códigos), tem-se nomeado uma comissão de juristas encarregada da redação do anteprojeto. Em seguida o trabalho da comissão é convertido em projeto pela Presidência da República ou por parlamentar. Tem início, então, o processo legislativo. Foi esse o modelo, por exemplo, adotado nos casos do Código de Defesa do Consumidor (1990) e do Código Civil (2002).

Mas essa fórmula tradicional talvez não seja a mais apropriada hoje em dia, por pressupor a rígida separação entre o "momento técnico" e o "momento político" da elaboração da lei. São momentos, a rigor, que não devem ser separados. A técnica deve acompanhar a discussão política, subsidiando-a e dando-lhe a devida forma, até a conclusão do processo legislativo.

A fórmula tradicional de entrosamento entre técnica e política pode e deve ser aperfeiçoada, para atender à dinâmica própria das decisões parlamentares dos nossos tempos. E isso está sendo objeto da devida atenção no âmbito da Câmara dos Deputados, em que se discute a formação de comissões de juristas para assessorarem os trabalhos das comissões de deputados quando estiverem em pauta projetos caracterizados pela elevada tecnicalidade.

Não haverá, nesta nova fórmula de entrosamento técnica/política, aquela separação entre o momento de uma e o de outra. Caminhando juntas, em paralelo, manterão diálogo essencial à democracia, assegurando que as decisões políticas se expressem pela adequada formulação técnica e, afinal, se tornem viáveis.

As comissões de juristas não substituem o trabalho da Consultoria da Câmara dos Deputados. Nesse órgão trabalham profissionais do Direito especializados no processo legislativo e nos diversos ramos do universo jurídico, competentes funcionários públicos concursados que assessoram os deputados na elaboração de projetos e emendas. As funções da comissão e da Consultoria são diferentes.

A comissão de juristas tem funcionamento temporário, deixando de existir tão logo concluído o processo legislativo. Já a Consultoria é órgão da estrutura permanente da Câmara. Enquanto o principal instrumento da comissão de juristas para cumprir a sua finalidade, neste novo modelo, é a apresentação de sugestões de emendas ao relator, a Consultoria atende todos os deputados federais, redigindo a própria emenda que os parlamentares subscreverão. Exercem, como se vê, tarefas complementares.

Há, ademais, uma função que apenas a comissão de juristas pode desempenhar. Falo da construção de consensos entre destacados e respeitados especialistas da correspondente área jurídica acerca da formulação técnica mais apropriada aos objetivos da norma em discussão. Esse consenso é fundamental para garantir que, depois de aprovada a lei, ela seja aplicada de modo a reproduzir com fidelidade a decisão política. É ingrediente, assim, de suma importância, na complexa sociedade dos nossos tempos, para a efetividade da democracia.

Em especial nos processos de elaboração legislativa cujas particularidades não proporcionam, antes da apresentação do projeto de lei, plenas condições para a efetiva construção de consenso entre os especialistas, a comissão de juristas, acompanhando a de deputados, é indispensável. Cabe a ela fazer a revisão crítica da propositura, contribuindo para o seu aperfeiçoamento. Nos projetos nascidos de contribuição individual e naqueles em que, por qualquer razão, se disseminaram dúvidas, procedentes ou não, entre os profissionais do Direito, acerca da real oportunidade de efetiva contribuição de todos os especialistas da área, a nova fórmula de entrosar técnica e política revela-se a solução adequada.

JURISTA, É PROFESSOR DA PUC-SP

HÉLIO SCHWARTSMAN - Diferença de pontos entre melhores colégios é diminuta

Diferença de pontos entre melhores colégios é diminuta
HÉLIO SCHWARTSMAN
 FOLHA DE SP - 12/09/11

No que provavelmente é um efeito colateral de nossas mentes essencialistas, seres humanos adoram rankings. Basta aparecer uma notícia que traga a lista dos dez melhores ou piores não importa o quê e ela logo entrará no rol das matérias mais lidas.

Escolas não são uma exceção. Ao contrário até. Na educação, os sistemas de avaliação proliferam. Não que seja errado ou inútil elencar melhores e piores, mas é preciso tomar cuidado.

O modo como o público e a mídia recebem esse emaranhado de exames nem sempre é o mais sábio. É tolice, por exem­plo, imaginar que haverá mudanças importantes nas notas ou nos rankings todos os anos.

Se elas vierem, o mais provável é que tenha havido um proble­ma com a prova ou com o universo de alunos que as fazem. Como tudo no campo da educação, os ganhos ou perdas, quando ocorrem, tendem a ser incrementais.

A própria ideia de ranking deve ser vista com cautela. Um caso emblemático é o das escolas particulares de elite, que travam disputas milimétri­cas pelas primeiras posições no Enem. Em São Paulo, por exemplo, a 30ª colocada teve uma nota apenas 10% menor do que a da mais bem posicionada.

E é relativamente fácil ganhar alguns pontinhos selecionando apenas os melhores alunos para fazer a prova. Assim, um colégio que mante­nha programa generoso de bolsas para pobres ou que não expulse repetentes acaba perdendo pontos.

Analogamente, uma escola que não convença seus melhores alunos a fazer a prova pode sair prejudicada. E, se o estudante não está interessado no ProUni ou em entrar numa universidade federal, não tem nenhuma razão objetiva para inscrever-se no Enem. USP, Unicamp e a maioria das instituições privadas não exige esse exame.

Não é coincidência que, em São Paulo, a adesão dos alunos dos colégios mais caros seja relativamente baixa. Rankings e listas são uma boa ferramenta de orientação a alunos e pais, desde que interpretados criticamente.

NAERCIO MENEZES FILHO - Desempenho no exame tem relevância, mas exige cautela

 Desempenho no exame tem relevância, mas exige cautela
NAERCIO MENEZES FILHO
FOLHA DE SP - 12/09/11

A herança mais importante que podemos deixar para nossos filhos é uma educação de qualidade que lhes permitirá ter sucesso na profissão escolhida e, com uma pitada de sorte, serem felizes.

A boa formação tem início nos primeiros anos de vida, com muita conversa, leitura e palavras de estímulo. As boas escolas complementam essa formação inicial, adicionando conhecimentos e colocando desafios para seus alunos, permitindo que eles desenvolvam seu potencial ao máximo. Mas como encontrar a escola ideal?

O Enem pode ajudar os pais, se utilizado com cautela. Ele mede a capacidade do aluno de resolver problemas, com graus variáveis de dificuldade, durante um longo período de tempo. Assim, mede inteligência, conhecimento e perseverança. A escola com a maior nota é a que concentra maior proporção de alunos com esses atributos.

Mas ela não é necessariamente a melhor para todas as crianças, pois reflete a formação média dos que já estão nela. Algumas são altamente competitivas, exigindo muito das crianças desde cedo, o que pode desestimulá-las.

Além disso, a nota do Enem reflete apenas o desempenho médio da parcela dos alunos que fez a prova. Em muitos casos essa parcela é reduzida, dependendo da importância que o Enem tem para ingresso nas faculdades locais. Nesses casos, a família tem que usar a informação com mais cuidado ainda.

Mas, como os recursos familiares são escassos e a decisão sobre a escola é importante, a informação transmitida pelo Enem é relevante.

Quando escolas cobram mensalidades parecidas, têm a mesma proporção de alunos fazendo a prova e apresentam resultados díspares, vale a pena saber o que está acontecendo e, se for o caso, mudar a criança de escola.

NAERCIO MENEZES FILHO é doutor em economia pela Universidade de Londres, professor titular do Insper e professor associado da FEA-USP.

MELCHIADES FILHO - Corte marcial

Corte marcial
MELCHIADES FILHO
FOLHA DE SP - 12/09/11

BRASÍLIA - Estão nas mãos do ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, duas decisões cruciais para a política -com impactos que superam temas mais usuais no noticiário, como as eleições municipais e a criação do PSD.

A primeira delas diz respeito ao mensalão. Barbosa recebeu as alegações dos advogados de defesa e hoje começa a definir o texto que pautará o julgamento dos 38 réus.

Os acusados do esquema de desvio de verba pública para a compra de apoio parlamentar não estão sós na agonia. Uma condenação em série acarretará prejuízos de imagem também ao PT e ao próprio Lula.

Não à toa, pipocam tentativas de desqualificar o ministro, considerado o mais imprevisível -e, portanto, independente- do tribunal.

Questionam seu comparecimento irregular ao plenário. Sugerem sua aposentadoria para tratar a saúde. Põem em dúvida sua isenção, porque deu declarações indignadas sobre a rede de corrupção.

Isso sem falar nas manobras para empastelar de vez o julgamento.

Após tentar a desconstrução técnica da denúncia -sem sucesso, pois a PF foi precisa e inclemente-, o ex-ministro lulista Márcio Thomaz Bastos atua para desmembrar o inquérito: a ideia é atrasar/pulverizar sentenças e evitar manchete bombástica sobre o mensalão.

(MTB, aliás, tem se reunido frequentemente com Dilma Rousseff, que está prestes a fazer sua primeira indicação para o STF.)

A segunda decisão crítica de Barbosa trata da Castelo de Areia. Por sorteio, caberá a ele avaliar a legalidade da maior operação policial sobre fraudes em obras públicas e o uso eleitoral do dinheiro desviado.

A investigação está parada, graças a um subterfúgio jurídico. Concebido por quem? MTB, contratado de uma das empreiteiras suspeitas.

Um parecer favorável de Barbosa poderá coibir novas chicanas e dar fôlego à PF. A Castelo de Areia é garantia de uma faxina de verdade e atalho para a reforma política.

CLAUDIO HUMBERTO

Lupi deve cair sob suspeição ou por inutilidade


No governo, a queda do ministro Carlos Lupi (Trabalho) é considerada iminente. Se resistir às denúncias sobre negócios com a Fundação Pró-Cerrado, até porque a “faxina ética” está suspensa, Lupi cairá por inutilidade: “cada dia menor”, como definiu um dirigente do PDT a esta coluna, Lupi na prática já foi substituído pelo ministro Gilberto Carvalho nos assuntos do setor, envolvendo centrais sindicais ou o Congresso.

Faz-de-conta
A única atividade de Carlos Lupi como ministro é divulgar os índices mensais de emprego. Ele acha que a geração de empregos é obra sua.

Paralisação
O Ministério do Trabalho está paralisado desde que o próprio governo começou a averiguar graves suspeitas de irregularidades.

Nem te conheço
Indagada pelo Planalto, a Força Sindical do deputado Paulinho (PDT-SP) lavou as mãos: nem sequer tem cargos no Ministério do Trabalho.

Fundação do PSD tem mesmo assinaturas falsas
Ao menos duas assinaturas de fundadores do PSD são falsas, segundo atestou o perito Ricardo Molina, confirmando suspeitas sobre a lisura do registro. Ele encontrou claras diferenças entre as assinaturas de Marcos Cintra e Cláudio Lembo nas atas de adesão e fundação do partido, atesta relatório em poder da coluna. “É certo que não foi o mesmo punho que produziu as duas assinaturas”, diz o documento.

Indícios no papel
Na ata de adesão, patrocinada por Gilberto Kassab, “o traçado é irregular” e há “indícios consistentes de não autenticidade”, diz Molina.

Defesa
Não há perícia conclusiva, diz o advogado do PSD, Admar Gonzaga: “Se o caso for à Justiça, um perito judicial dará a palavra final”.

Investigação já
De posse do laudo do perito Ricardo Molina, o DEM vai pedir que o PSD seja investigado pelo Ministério Público e a corregedoria-geral do TSE, onde estranhamente pedidos de apuração têm sido arquivados.

Bicadas fracas
Enquanto José Serra hesita, Bruno Covas, neto do ex-governador, quer ser o nome do PSDB à prefeitura de São Paulo. José Aníbal e Andrea Mattarazzo também querem o posto. Todos fraquinhos, fraquinhos.

Sobram mãos
Renomado perito, Ricardo Molina diz terem sido encontradas nas duas assinaturas “divergências significativas no confronto”.

Poder sem pudor
Papel que mudou a História
Os boatos já tomavam Brasília, naquele 25 de agosto de 1961, quando o então ministro da Justiça de Jânio Quadros, Pedroso Horta, reunia-se a portas fechadas com o presidente do Congresso, senador Moura Andrade. Repórter atento e muito competente, Murilo Melo Filho estava no outro lado da porta, quando Pedroso Horta saiu do gabinete de Moura Andrade.
- Murilo, veja se isto lhe interessa – disse Horta, estendendo-lhe um papel.
Era nada mais nada menos que a carta-renúncia de Jânio Quadros.

SEGUNDA NOS JORNAIS


- Globo: PM afasta comando de UPP em Santa Teresa

- Folha: Rede pública perde espaço entre melhores do Enem

- Estadão: Nota do Enem cai em 68% das escolas de elite de São Paulo

- Correio: Brasília ferve

- Valor: Crise será prolongada, diz Tombini

- Estado de Minas: Má qualidade da escola faz aluno evitar o Enem

- Jornal do Commercio: Começa recuperação da rodovia PE-60

- Zero Hora: RS cai de primeiro para quarto no Enem

domingo, setembro 11, 2011

CAETANO VELOSO - Lurdinha

Lurdinha
CAETANO VELOSO
O GLOBO - 11/09/11 

Eu tendia a gostar dos artistas insubmissos a programas que deveriam servir a alguma “ditadura do proletariado”

Paulinha Lavigne, que foi minha mulher e é minha empresária (portanto tem de me conhecer um bocado), riu muito ao me ler aqui contando que quase colaborei com a luta armada. Mesmo Dedé, que era minha mulher no tempo em que essas coisas se deram (e que é minha amiga queridíssima), poderá ter se surpreendido: não me lembro de ter dito a ela sobre o esboço de combinação que fiz com Lurdinha de dar apoio logístico à guerrilha. Ambas devem estranhar que um banana de pijama como eu, que, como disse o brilhante Lobão numa pocket-palestra, toca violão como quem está tomando um cafezinho (embora eu não tome cafezinho), pudesse estar ligado, ainda que remotamente, a atos de violenta bravura.

Lurdinha era minha colega de sala na faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia. A turma era muito pequena. Os professores não despertavam entusiasmo. O interesse em ir à faculdade se centrava nos encontros com Wladimir Carvalho e Fernando Kraichete e nas conversas com Rose Foly no Diretório Acadêmico. Lurdinha, no entanto, com sua genuína vocação para a disciplina, assistia às aulas e executava as tarefas curriculares com pontualidade. Várias vezes ela foi me buscar em casa, fazendo arrancarem-me da cama às pressas, para que eu não perdesse uma prova. Ela era comunista e olhava com benevolência meu jeito boêmio.

Wladimir também era comunista. Todos os meus amigos na faculdade — e fora dela — eram de esquerda. Nenhum iria ao Cine Roma assistir a um show de rock de Raulzito e os Panteras. Íamos ao clube de cinema, ao MAM, ao Teatro dos Novos, aos concertos da Reitoria, ouvíamos João Gilberto e Thelonious Monk. Rock era lixo e anátema. Carlos Nelson Coutinho era nosso contemporâneo na faculdade e já escrevia artigos sérios: era o lado teórico do movimento que crescia no período pós-Jânio e pré-ditadura . Quando surgia uma discussão sobre se Luís Carlos Maciel escrever um livro sobre Kafka e Beckett representava alienação, eu sempre me posicionava do lado dos malucos: embora só tivesse lido “A metamorfose” e os contos “Na colônia penal” e “O faquir” (estes, na revista “Senhor”) — e nada de Beckett — eu tendia a gostar dos artistas insubmissos a programas que deveriam servir a alguma “ditadura do proletariado”. Apesar da minha teimosia em não entrar em grupo nenhum, eu era tratado com simpatia. O Centro Popular de Cultura da UNE local me pediu que escrevesse um samba para um bloco de carnaval engajado. Fiz “Samba em paz” — que veio a ser gravado, anos depois, por Elis.

O que mais impressionava em Lurdinha era sua sobriedade. Ela não exibia retoricamente a força de suas convicções: seu despojamento pessoal, sua lealdade inabalável, sua decisão de não perder tempo com discussões decorativas é que mostravam a firmeza de sua orientação política.

Quando nos jogamos no tropicalismo, Lurdinha tinha se casado com o pintor Humberto Vellame e se mudado para São Paulo. Entre móveis de plástico transparente e manequins de fibra de vidro, tínhamos, Dedé e eu, em nossa sala, um quadro de Vellame. O casal nos visitava de vez em quando. O tropicalismo tinha uma fome estética de violência que se traduzia em imagens fortes nas letras, sons elétricos e distorcidos nas bases, aproximação com a vanguarda radical da música clássica, contraste gritante com a bossa nova. Isso correspondia a uma impaciência com a inatividade dos comunistas sob ordens de Moscou e a uma identificação com a nascente dissidência liderada por Marighella. Faz pouco Juca Ferreira me alertou para o fato de que não toda a esquerda era hostil ao tropicalismo: dentre a turma da Lubelu (Liberdade e Luta) havia quem gostasse do nosso estilo. Lurdinha — que nunca fez coro às reações antipáticas ao nosso trabalho por parte da esquerda — sentia a mesma impaciência que eu. Só que ela nunca fora nem boêmia nem retórica: seu sentimento tinha de se expressar em ação. Quando ela me pediu um eventual apoio logístico, acedi de imediato.

Em "Verdade Tropical" digo que se a nossa revolução de esquerda tivesse vencido talvez daí saísse apenas mais um gigante com câimbras. Mas Marighella foi morto numa rua de São Paulo antes que isso se tornasse ao menos provável. E pela mão de Sérgio Fleury, o truculento policial que, em entrevista à revista“Realidade”
nos anos 70, disse da “Baixinha” que estivera sob tortura: “Maria de Lourdes do Rego Mello: Está aí uma das moças mais corajosas que vi na minha vida. De uma lealdade e segurança impressionantes. Nunca se deixou trair nos interrogatórios, nunca arrancamos dela uma palavra que levasse ao ‘Velho’ (Joaquim Câmara Ferreira, o ‘Toledo’). Foi seguida durante 60 dias, filmada, fotografada, até que foi presa. Essa moça recusou ir para o Chile, na troca com um embaixador. Quando soube disso, eu a chamei até minha sala. Disse: ‘Olha aqui, Baixinha, você mentiu para mim o tempo todo. De tudo quanto disse, 99% era mentira. Mas gostei de sua atitude. Aceito as suas mentiras. Agora deixo você em paz.’”

Desde que fui preso e exilado, eu não tinha notícias de Lurdinha. Temia que ela não estivesse viva. Foi o blog “Obra em progresso”, da feitura do Zii e Zie, quem a trouxe de volta. Um dos comentaristas, Julio, tinha o sobrenome Vellame. Perguntei se ele era parente de Humberto. Ele respondeu: “Sou filho de Lurdinha, Caetano.” Assim, a internet de Hermano Vianna me reaproximou da Maria Quitéria da guerrilha urbana.