domingo, setembro 11, 2011

ETHEVALDO SIQUEIRA - Um exemplo para o mundo

Um exemplo para o mundo
ETHEVALDO SIQUEIRA
O Estado de S.Paulo - 11/09/11

O Brasil e o mundo têm muito a aprender com a maior e mais prestigiosa das instituições europeias de pesquisa aplicada presentes na feira IFA 2011, realizada em Berlim: o conglomerado Fraunhofer, que reúne mais de 50 institutos, mantido pela indústria e pelo governo alemães. Suas pesquisas visam atender às necessidades da população, tanto em saúde, segurança e comunicação quanto em energia e meio ambiente.

Verdadeira fábrica de tecnologia, essa organização é um dos melhores exemplos de colaboração entre governo e indústria, ou seja, do modelo de parceria público-privada (PPP). Na definição de seus diretores, o Fraunhofer tem de ser criativo, dar forma à tecnologia, conceber produtos, aprimorar métodos e técnicas e abrir novos horizontes. Em resumo: forjar o futuro.

Espalhado por diversos pavilhões, o Fraunhofer apresentou nesta IFA 2011, seguramente, o maior número de inovações da exposição, nas áreas de meio ambiente, sustentabilidade, áudio, vídeo, TV digital e 3D, comunicações via satélite e internet de alta velocidade, entre outras áreas. O conglomerado é conhecido mundialmente por suas conquistas, entre as quais a criação do MP3, sistema de compressão de áudio digital tão popular atualmente entre os jovens.

Presente em diversos pavilhões do centro de exposições de Berlim (Messe Berlim), o Fraunhofer ganhou mais destaque na seção denominada IFA TecWatch, ou "Tecnologia para os mercados de amanhã", de grande impacto, em especial para estudantes e pesquisadores de todo o mundo.

Ali estavam expostos centenas de avanços e inovações nas áreas de rádio e TV digitais, televisão sobre protocolo IP (IPTV) e sistemas de informação interativa e comunicação via satélite. Um de seus destaques foi o sistema Dicit, interface por comando vocal à distância para controle da televisão interativa. Com ele, o usuário pergunta à sua TV e obtém como resposta a lista dos principais programas e melhores filmes do dia.

Um dos avanços que mais chama a atenção dos usuários hoje é o controle remoto por gestos, para controlar as funções básicas do televisor. Desde a IFA 2010, o Fraunhofer apresentou esse novo tipo de interface - ou seja, o modo como nos relacionamos com as máquinas -, desenvolvido por um de seus institutos, o Heinrich Hertz Institute.

Mágica dos comandos. No desenvolvimento de novas interfaces, um de seus mais recentes avanços parece até coisa mágica. É o sistema de comando de um televisor apenas por gestos das mãos do usuário, à distância de até 4 metros, desenvolvido também pelo Fraunhofer.

Na área de educação, desenvolve diversos recursos auxiliares do ensino, como a lousa eletrônica e uma incrível enciclopédia audiovisual, com acesso à internet, que é consultada por alunos e professores. "Esta é a lousa inteligente do futuro", explicou um dos cientistas.

Na visão de um de seus palestrantes, o desenvolvimento de toda a eletrônica de consumo e de entretenimento dos próximos anos terá dois focos, ou centros motores, em nossas residências: a TV e a internet. Os progressos da TV se dão em diversos níveis, seja em suas telas ou displays, seja no conteúdo e modelos de negócios, entre as quais a TV aberta, a TV por assinatura, Web TV e uma espécie de ServiceTV, que será utilizada para os serviços públicos do governo eletrônico.

A convergência mais significativa dos últimos anos é representada pelo casamento do televisor com a internet, na TV conectada ou, num sentido mais amplo, na Smart TV.

O valor dos sonhos. Por suas inovações cada dia mais criativas, o Fraunhofer pode ser também comparado a uma fábrica de sonhos. Nos últimos dois anos, produziu diversos novos conteúdos na área de TV 3D, incluindo as primeiras gravações musicais de alto padrão de concertos da famosa Filarmônica de Berlim em Blu-ray 3D.

O espetáculo é ainda mais impressionante em home theater com projeção tridimensional. A combinação da melhor imagem com o melhor som que poderá ser levado para milhões de lares é o mais bem acabado exemplo do valor dos sonhos, na visão da instituição. É claro que os espectadores e ouvintes mais conservadores acham que a imagem 3D modifica o clima da audição de música clássica.

Interface humanizada. Uma das áreas onde o Fraunfofer tem mais investido é na humanização das interfaces, que busca repensar o uso de teclados, botões, telas sensíveis ao toque, microfones de comando vocal e sistemas de identificação biométricos (impressões digitais, reconhecimento da fisionomia, da voz e da íris). E, de fato, as modernas telas de toque (touchscreens) criam uma relação muito mais intuitiva e amigável entre usuários de celulares como o iPhone, o iPad e dispositivos similares. Ou entre usuários de tablets ou mesmo desktops, como os recém-lançados pela HP.

No futuro, é provável que as pessoas venham a aderir ao comando de voz, outra interface já suficientemente evoluída e capaz de substituir os teclados tradicionais de centenas de dispositivos e aparelhos elétricos e eletrônicos.

O nosso CPqD (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento) de Campinas bem poderia adotar um modelo de administração e de financiamento público-privado semelhante ao do Fraunhofer, num conglomerado que poderia integrar até a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre outros.

FERREIRA GULLAR - 11 que parece 13

11 que parece 13
FERREIRA GULLAR 
FOLHA DE SP - 11/09/11

Eu, modéstia à parte, não nasci no dia 11 de setembro, mas no dia 10. Logo, meu aniversário foi ontem.

Felizmente, porque, hoje, dia 11, há dez anos, ocorria o atentado que destruiu o World Trade Center, em Nova York.

Esse dia 11 de setembro me deixa grilado. No dia anterior, em 2001, pela enésima vez, minha amiga Ceres Feijó tinha reunido nossos amigos em sua casa para comemorarmos meus 71 anos.

Embora eu não seja de tomar porres, bebi cerveja e vinho naquela noite e acordei com uma leve ressaca. Foi quando tocou o telefone: era Ceres me avisando de que alguma coisa muito errada estava se passando e pedindo que eu ligasse a TV.

Liguei, vi um avião arremessar-se contra as Torres Gêmeas e explodir. Mal acreditei no que via e, ainda assim, outro avião se aproximou e também se chocou contra o edifício. Naquela manhã de 11 de setembro, o mundo assistira perplexo a um fato que mudaria a sua história.

Passado o espanto inicial, me dei conta de que, naquela mesma data, 28 anos atrás - ou seja, em 11 de setembro de 1973 -, um golpe militar pusera abaixo o governo de Salvador Allende, presidente do Chile.

A diferença é que não assisti a esse fato de longe, pela televisão: eu estava em Santiago e aquele golpe punha em risco a minha própria segurança. Na véspera, eu completara 43 anos de idade, sem festa. Sem festa e sozinho naquele apartamento do conjunto residencial de Providência. Chegado de Moscou havia apenas cinco meses, mal tomara pé na situação, senti no ar um cheiro ruim: cheiro de golpe militar.

Nem todo mundo concordava comigo, uns porque acreditavam no caráter profissional do Exército chileno, outros porque não queriam admitir o desfecho previsível.

Já eu, recém-chegado de fora, tinha mais isenção para ver o que acontecia.

Era insustentável um governo de esquerda com uma inflação que me permitia pagar cinco dólares pelo aluguel de um apartamento de três quartos, com uma greve de caminhoneiros que já durava meses e um desabastecimento que tornava quase impossível comprar arroz, café, açúcar; carne, então, nem falar. É que a burguesia chilena, anti-Allende, comprava tudo o que era posto à venda, esvaziando as prateleiras dos supermercados.

A senhora chilena que cozinhava para mim e arrumava a casa um dia confessou: "Se soubesse que ia dar nisso, não tinha votado no doutor Allende". Sem falar nos atentados de Patria y Libertad, organização de extrema-direita.

Por outro lado - fora o partido comunista chileno, que mantinha os pés no chão -, os demais aliados do presidente socialista tudo faziam para provocar os militares.

Chegaram a publicar um livro insultando o general O´Higgins, pai da pátria chilena.

Como se não bastasse, clamavam pelo fechamento do Congresso e tornaram obrigatório o ensino do marxismo nas escolas. Era mesmo cutucar a fera com vara curta. Assistia a tudo aquilo apreensivo, sem saber o que seria de mim quando Allende caísse.

E foi assim que chegamos ao dia 10 de setembro de 1973. Tereza, minha mulher, que ficara no Brasil com nossos filhos, me telefonou.

Não foi uma conversa muito alegre, mas era confortante ouvir a voz dela e de meus filhos, suas palavras carinhosas. No final, ela me disse que estava disposta a vir com eles para me encontrar em Santiago. "Vamos marcar a data", sugeriu ela.

Respondi que era melhor esperar mais um pouco. "Mas esperar por quê?". "Porque a coisa aqui está preta", respondi eu. "Tudo pode acontecer. Vamos dar um tempo".

Que alguma coisa iria acontecer, não tinha dúvida. Mas não me passou pela cabeça que seria no dia seguinte àquele telefonema, como foi.

Acordei cedo naquele 11 de setembro e saí para comprar leite na esquina. Ao cruzar a rua, vi um sujeito dizer alguma coisa a outro, que saiu andando apressado.

Aproximei-me e perguntei se tinha havido alguma coisa. "Derrubaram Allende", disse ele. Corri para casa e liguei o rádio. Allende conclamava o povo a resistir. A rádio saiu do ar. Pensei um instante, pus meus poucos dólares sob a palmilha do sapato e saí ao encontro dos companheiros para resistirmos ao golpe, conforme o combinado... O resto já se sabe.

Acho bom cruzar os dedos porque hoje é 11 de setembro de 2011.

VINICIUS TORRES FREIRE - 2008, 2011: setembros


 2008, 2011: setembros 
VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 11/09/11

Donos do dinheiro grosso fogem em massa para colocá-lo no colchão da dívida de países ricos



No final da semana passada, grandes investidores do mundo, de governos a grossos financistas, na prática aceitavam receber dos governos americano, alemão e britânico as mais baixas taxas de juros em quase 70 anos.
Um título de dívida alemão de dez anos rendia 1,78% ao ano na sexta-feira. O equivalente americano rendia 1,93%. O britânico, 2,28%. Em termos reais, descontada a inflação esperada, o retorno de tais papéis era zero ou menos que zero.
Isso quer dizer: 1) Os donos do dinheiro grosso do mundo preferem colocar cada vez mais capital no colchão; 2) Cada vez mais, evitam emprestar a empresas ou investir em ações; 3) Não estão ligando muito para o endividamento dos governos em questão.
Os donos do dinheiro grosso esperam, pois, que virá coisa muito feia na economia mundial: preferem cada vez mais imobilizar seu capital a correr risco. O fato mesmo de esperarem feiuras enfeia ainda mais a situação.
Ao debandarem das Bolsas, por exemplo, os donos do dinheiro grosso estão a dizer que o futuro de empresas e negócios será pior.
A debandada reduz o preço dos ativos (ações). A redução dos preços dos ativos induz as empresas a investir menos.
Certos ou não, os donos do dinheiro estão "precificando" (prevendo e antecipando) uma recessão. Ao fazê-lo, aumentam as chances de que uma nova recessão ocorra.
Os donos do dinheiro ("os mercados") estão prevendo coisa ainda pior.
Os números que indicam qual a inclinação de bancos europeus emprestarem dinheiro entre si pioraram a ponto de ficarem parecidos com os do primeiro trimestre de 2009. Era então ainda fresquíssima a memória do grande apagão de crédito de setembro de 2008 e da quebradeira de bancos que se seguiu.
Bancos também não se emprestam dinheiro quando temem a quebra do confrade de negócio.
Os europeus estão assustados porque há uma lenta corrida bancária nos países do sul da Europa, afora a França (os bancos perdem depósitos). Porque temem que alguns de seus pares já estejam submersos, que seus ativos já não valham o que está escrito.
Isto é, que o valor das dívidas da Grécia, de Portugal e até da Espanha e da Itália, detidas por esses bancos, é agora tão baixo que eles precisam levantar capital, e logo.
A gente não prestou muita atenção ao assunto aqui no Brasil, mas foi isso o que disse Christine Lagarde, no final de agosto. A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional quase apanhou dos alemães por ter afirmado que os bancos europeus precisam de uma transfusão de capital urgente.
Na prática, quis dizer que alguns já estariam quebrados, caso o valor de seus ativos fossem cotados a preço de mercado.
Note-se que não foi uma menina "indignada", uma jovem vagamente esquerdista, sem banho e acampada numa praça de Madri ou de Atenas que disse tal coisa.
Foi uma senhora bem-vestida, que talvez tome um pouco de sol demais, que faz pouco saiu do comando da economia de um governo francês de direita para o FMI, que não exatamente a ponta de lança da revolução mundial.


GOSTOSA


SONIA RACY - DIRETO DA FONTE


Tamanho é documento
SONIA RACY
O ESTADÃO - 11/09/11

Ao ser abordado, semana passada, em Jerusalém, por um fazendeiro israelense ávido por fazer negócios com o Brasil, José Batista Júnior, da JBS/Friboi, foi assaltado com a pergunta: "Quantos bois você tem?". O dono do maior frigorífico de carne do mundo respondeu: "Alguns". O israelense insistiu: "Tenho 700 cabeças, você tem mais?". Júnior disfarçou: "É, um pouquinho".

O grupo brasileiro cria, em sistema de confinamento em suas unidades nos EUA e na Austrália, nada menos que 1,2 milhão de cabeças de gado. No Brasil? Só 100 mil.

For kids?

Era para ser um livro de colorir para crianças. Mas We Shall Never Forget 9/11, que reconta o 11 de Setembro, anda causando polêmica nos EUA. A crítica principal é quanto à definição dos muçulmanos. Uma das passagens do texto? "Essa gente louca odeia o estilo de vida americano, porque somos livres".

For kids 2

Foram impressas 10 mil cópias do livro. A editora Really Big Coloring Books responde às críticas afirmando que a publicação foi "criada com honestidade, integridade e respeito, sem faltar à verdade".

Voz da experiência

Lior Lotan estará em pleno voo neste 11 de setembro. O diretor-executivo do Instituto Internacional de Contra-Terrorismo e ex-comandante das Forças de Defesa de Israel vem de Tel-Aviv para participar do Congresso Segurança Brasil, na Fiesp.

Falará para plateia de autoridades e agentes de segurança pública das 12 cidades-sede da Copa de 2014.

Depois do 11 de Setembro, Rubens Barbosa, então embaixador do Brasil nos EUA, declara que o mundo enfrenta "uma guerra sem face". E destaca a imprevisibilidade dos ataques cibernéticos, "que podem afetar sistemas de defesa, transporte e comunicações via meios eletrônicos". Sua análise do cenário dez anos após o atentado? "O mundo mudou". Mas, ao contrário do que se pensou em 2001, a radicalização e o choque de civilizações entre Islã e Ocidente não ocorreu. "Embora a percepção seja de que a ameaça se origina no Oriente Médio e em alguns países da Ásia muçulmana", afirma. "Essa ameaça não desaparecerá enquanto persistir o conflito entre Israel e Palestina e enquanto houver ocupação de países por tropas americanas, como é o caso no Iraque."


Responsabilidade social

Depois de mais de 60 anos vendendo os próprios produtos, o Unicef resolveu licenciar sua marca. O Brasil lidera o movimento, e o primeiro contrato já foi assinado com a Tilibra. Por ano, a organização vende 1,3 milhão de cartões.

A AACD caminha rumo a parcerias internacionais. O CEO da ONG, João Octaviano Machado Neto, foi a NY encontrar as lideranças do Hospital for Special Surgery e do Hospital da NYU.

A ONG Futebol de Rua, que conta hoje 450 crianças (200 só em Heliópolis), trabalha para formar um time de 650 pequenos atendidos em 2012. Para aprender lições de cidadania via esporte.

A Faap lançou curso de Tradutor-Intérprete de inglês-português para pessoas com deficiência visual. No âmbito do Núcleo de Superação. As inscrições vão até outubro.

Em comemoração ao Rosh Hashaná, Ana e Renata Feffer promovem coquetel em prol da ONG Amigos da Criança com Reumatismo. Quinta, na CAU Chocolates.

O hospital estadual Emílio Ribas começou programa de capacitação para o mercado de trabalho voltado a jovens com HIV. Com direito a aulas de empreendedorismo e processos organizacionais.

Acaba de sair do forno a terceira edição da Memória de Sustentabilidade das Empresas Associadas à Cámara Española. Publicação que mostra o envolvimento de empresas em projetos ecologicamente corretos.

Interinos: Débora Bergamasco, Marilia Neustein e Paula Bonelli.

CELSO MING - Desconfiança eleitoral


Desconfiança eleitoral
CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 11/09/11

A Bolsa de Nova York respondeu com uma baixa de 2,7% ao lançamento do pacote Obama, destinado a aumentar o emprego nos Estados Unidos.

Não foi a única razão que derrubou os mercados na última sexta-feira, mas, tivesse o plano obtido boa acolhida, a reação teria sido outra.

Isso mostra muitas coisas. Por exemplo, mostra o tamanho do ceticismo quanto à aprovação do plano pelo Congresso americano, especialmente o viés eleitoral com que a questão do desemprego está sendo tratada nos Estados Unidos.

Em princípio, não há muito o que se possa objetar tecnicamente a esse programa de US$ 447 bilhões. São incentivos para que pequenos e médios negócios contratem mais gente; e projetos de reforma e construção de escolas, rodovias e pontes - atividades, normalmente, de mão de obra intensiva.

Não ficou claro quantos novos postos de trabalho poderiam sair daí, numa economia que há meses amarga um desemprego ao redor dos 9,0%. Hoje, são 14 milhões os sem-trabalho, ou seja, 9,1% da força de trabalho dos Estados Unidos.

O presidente Barak Obama argumentou que esse projeto colocará mais dinheiro nas mãos de trabalhadores sobrecarregados de dívidas. Trata-se de um bom apelo retórico, mas que, aparentemente, esconde o maior ponto frágil da proposta.

A economia americana é fortemente dependente da demanda interna. Mais de 70% do seu PIB de US$ 15 trilhões depende do consumo das famílias e, no entanto, grande parte da atual estagnação deve-se ao baixo avanço do consumo. E isso ocorre porque o consumidor está excessivamente endividado.

O volume de dívidas imobiliárias (empréstimos cobertos com garantia hipotecária) nos Estados Unidos alcança hoje US$ 12 trilhões, problema seriamente agravado pela queda dos preços dos imóveis. O que aparentemente falta por lá é um programa destinado a reduzir drasticamente as dívidas hipotecárias, semelhante ao que o presidente Sarney proporcionou no final dos anos 80 ao mutuário brasileiro, para que, uma vez aliviado em sua carga hoje insuportável, o consumidor possa voltar ao crédito, às compras e a recolocar a máquina para girar.

Sexta-feira, funcionários da Casa Branca chegaram a anunciar que a Secretaria do Tesouro está em conversações com as duas grandes instituições que cuidam desse segmento, a Fannie Mae e Freddie Mac, mais a Agência Federal de Financiamento Imobiliário, regulador desse segmento do mercado. O objetivo seria ampliar os mecanismos de renegociação dos passivos hipotecários. Mas esse projeto parece estrangulado pela insuficiência de recursos orçamentários.

Pode-se criticar o projeto de Lei dos Empregos Americanos pelo seu baixo alcance. Mas seu principal problema não é técnico, mas, político-eleitoral. O presidente Barak Obama, com apenas 40% de aprovação popular, precisa de forte recuperação do emprego para se reeleger. E é a montagem dessa tubulação de oxigênio para sua candidatura que o Partido Republicano tenta agora boicotar.

Mas a questão eleitoral não tem somente uma direção. No seu discurso de quinta-feira perante as duas casas do Congresso americano, Obama deixou subentendido que o eleitorado também cobrará daqueles que eventualmente se opuserem à criação de empregos numa situação de grave crise. A conferir.


CONFIRA

A Grécia, por um fio

Sexta-feira aumentaram os rumores de que a Grécia não conseguirá cumprir as exigências que lhe permitiram receber o socorro da área do euro. Se isso fosse confirmado, a Grécia teria de arranjar refinanciamento fora das fontes oficiais, o que reforçaria a perspectiva de um calote.


Capital para os bancos

E por considerar inevitável o calote, o governo da Alemanha preparou um plano de socorro de seus bancos, que carregam volumes expressivos de títulos da dívida grega - foi o que repassaram as agências de notícias.


E o contágio?

Caso se resumisse a um eventual calote grego, a solução estaria dentro da capacidade de absorção das economias do bloco do euro. O problema seguinte seria inevitável. Quem seria o próximo: Portugal, Irlanda, Espanha ou Itália? Enfim, o contágio seria inevitável. E se economias como Itália e Espanha ficassem impossibilitadas de honrar seus compromissos, não haveria recursos na zona do euro capazes de dar conta do socorro.

CORRUPÇÃO


RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA


Baixa imunidade
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 11/09/11

Com fissuras internas abertas ou agravadas pela "faxina" de Dilma Rousseff, PP e PR serão os alvos preferenciais do assédio do nascituro PSD tão logo o Tribunal Superior Eleitoral libere o registro definitivo da sigla de Gilberto Kassab, abrindo uma janela de 30 dias de trocas partidárias livres da regra da fidelidade. A depender do saldo da temporada de transferências, a legenda do prefeito paulistano poderá dar a largada no Congresso com até mais do que os já anunciados 50 deputados e próxima de alcançar, com o beneplácito do Planalto, o posto de terceira maior bancada, atrás apenas do PT e do PMDB.

Pega geral Quando oficializado, o PSD terá a maior bancada na Assembleia do Rio, com 13 deputados. O PMDB tende a ficar com 11.

Aquecimento Num evento em Brasília nesta quinta, o PMDB de Michel Temer abrirá sua campanha para 2012. Eduardo Paes, candidato ao segundo mandato no Rio, falará de segurança pública. Gabriel Chalita, aposta da sigla em São Paulo, discursará sobre educação.

Paradão 1 Passado pouco mais de um mês desde que a "faxina" da PF atingiu o Turismo, a secretaria-executiva, antes ocupada por Frederico Costa, segue nas mãos de um interino. O mesmo ocorre com a Secretaria de Desenvolvimento, de onde saiu Colbert Martins. Ambos foram presos e denunciados na Operação Voucher.

Paradão 2 Dada a incerteza quanto à permanência do ministro Pedro Novais, políticos e funcionários de carreira relutam em assumir postos em definitivo na pasta.

Wally Orlando Silva (Esporte) e Flávio Dino (Embratur) já confirmaram presença nos Jogos Panamericanos de Guadalajara, no México, onde no próximo dia 18 darão uma entrevista para "vender" a Copa e a Olimpíada no Brasil. Ainda não foi informado se Novais também irá.

Aqui... Proposta de mudança no regimento interno divide a cúpula da Anac. O diretor-presidente, Marcelo Guaranys, quer desvincular superintendências técnicas de suas respectivas diretorias. No papel, elas se reportarão ao colegiado. Na prática, os poderes ficarão com Guaranys. É ele quem nomeia os superintendentes.

...mando eu Guaranys conta com o apoio dos diretores mais técnicos, Cláudio Passos e Carlos Pellegrino. Ricardo Bezerra (Regulação Econômica) e Rubens Vieira (Infraestrutura Aeroportuária), responsáveis por áreas em evidência devido à privatização de aeroportos, são contra. Presidente, Guaranys tem o voto de minerva.

Sem parar A agência reguladora de transportes de São Paulo aprovou um termo modificando os contratos com 12 concessionárias de rodovias que hoje reajustam os valores de seus pedágios com base no IGP-M. O novo indicador para cálculo de tarifas será o IPCA.

Rio limpo O governo paulista lançará uma campanha em defesa do Tietê, que corta por 34 das 39 cidades da Grande SP. A ofensiva adotará o slogan "Tietê vivo, nosso compromisso".

Milésimo Antonio Anastasia (PSDB) convidou Dilma para o evento que marcará a abertura de contagem regressiva de mil dias para a Copa, na sexta, em BH. A participação da presidente, estimulada pelo ministro Orlando Silva, conferiria caráter oficial às festividades na capital mineira, no mesmo dia em que as outras sedes realizarão programações especiais.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio

"A derrubada do veto ao projeto que tirava verbas de Estados produtores em benefício dos não produtores seria uma vitória de Pirro: acabaria numa pendenga judicial".
DO SENADOR WALTER PINHEIRO (PT-BA), pregando a necessidade de acordo entre unidades da federação com interesses conflitantes na questão das regras da divisão dos royalties do petróleo a ser explorado no pré-sal.

contraponto

No mundo da Lua


Geraldo Alckmin recebia deputados para discutir a participação do PMDB no governo. Depois de ouvir a exposição dos peemedebistas, que pleiteavam secretarias e diretorias, o tucano contou história atribuída a José Maria Alkmin, na qual o político mineiro respondia assim a um aliado que lhe pedira uma "passagem para a Lua": -Pois não. Mas como há quatro, recomendo que você volte para casa e reflita bem. Depois volte e me diga se quer ir para a crescente, a minguante, a nova ou a cheia. Sem mais delongas, a bancada deixou o Bandeirantes.

Crime quase sem castigo


Crime quase sem castigo
O GLOBO - 11/09/11

De 1.053 motoristas presos em dois anos e meio em blitzes da Lei Seca por consumo de bebida alcoólica, apenas seis foram condenados.
Elenilce Bottari 

Desde o início das fiscalizações diárias de combate à embriaguez no trânsito, há dois anos e meio, a Operação Lei Seca já parou mais de meio milhão de motoristas no estado. Até o dia 15 de agosto, foram 415.678 só na capital. Desse total, 1.211 foram presos em flagrante por beber acima do limite permitido por lei e processados na Justiça. Mas interpretações antagônicas da lei e da legalidade das operações estão criando um perigoso desvio para a impunidade.

O GLOBO teve acesso ao andamento de 1.053 processos criminais abertos entre março de 2009 e junho deste ano, na maioria, contra pessoas flagradas em blitzes. Apesar da grande quantidade de ações, apenas seis delas acabaram em condenações por embriaguez ao volante. Criada para tentar frear a epidemia de acidentes que, só em 2008, vitimou 43.193 pessoas no estado, a lei federal 11.705/2008 (que transformou em crime o ato de dirigir embriagado) e, consequentemente, a Operação Lei Seca conquistaram apoio popular ao reduzir os índices de morte no trânsito. Mas a unanimidade que se vê nas ruas se desfaz nos tribunais, no momento da responsabilização criminal.

A legislação brasileira garante ao réu primário o benefício da suspensão condicional do processo nos crimes em que a pena mínima for igual ou inferior a um ano, — caso da Lei Seca. Em respeito a esse princípio, dos 1.053 processos pesquisados pelo GLOBO, 384 tratavam de suspensões condicionais de denúncias recebidas pela Justiça, contra outras 120 denúncias rejeitadas. Havia ainda 50 absolvições e 50 trancamentos de processos, em recursos às câmaras criminais. O restante dos processos ainda estava em fase de denúncia ou já tinha sido arquivado em definitivo, por cumprimento de suspensão condicional, por não localização do réu ou por inépcia da denúncia.

Além de dividir magistrados, a Lei Seca trouxe um efeito colateral para as ações que apuram embriaguez em acidentes de trânsito. Agora, é crime dirigir com um volume de álcool igual ou superior a seis decigramas por litro de sangue ou superior a três décimos de miligrama por litro expelido dos pulmões (cerca de dois copos de cerveja). Diante disso, a tendência no Tribunal de Justiça tem sido a de cobrar o teste do bafômetro ou o exame de sangue, como prova fundamental.

Como todos têm o direito de não produzir provas contra si mesmos — como prevê o artigo V da Constituição Federal — , aqueles que estão realmente bêbados não se submetem ao teste do bafômetro e acabam sendo absolvidos. É o que mostra uma sentença da 17a- Vara Criminal da capital. Segundo denúncia, no dia 21 de dezembro de 2008, por volta de 10h, na Rua Honório, em Todos os Santos, um motorista conduzia seu Fiat Doblò na contramão quando bateu num Astra. O motorista apresentava “hálito etílico, equilíbrio e coordenação motora prejudicados e desorientação”, conforme constatado por peritos. Mesmo assim, foi absolvido do crime previsto no artigo 306 do Código de Trânsito Brasileiro.

“O tipo penal previsto no art. 306 da referida lei exige expressamente que o agente esteja com concentração de álcool por litro de sangue igual ou superior a seis decigramas, o que somente pode ser aferido através de exames específicos, seja o de sangue, seja o etilômetro, e não através de presunção em razão do hálito, falta de equilíbrio ou coordenação motora”, diz a decisão.

“Assim, ausente o exame que pudesse constatar a concentração de álcool, não se preenchem todos os elementos do tipo, não havendo, portanto, a materialidade do delito. Isto posto, rejeito a denúncia.” Esse entendimento do TJ virou regra entre os motoristas parados nas operações.

Na madrugada de 6 de maio passado, durante uma blitz no Aterro do Flamengo, um médico visivelmente embriagado deu um cavalo de pau e fugiu pela contramão para tentar escapar de uma blitz da Lei Seca. Detido mais adiante, ele se recusou a fazer o teste do bafômetro e adormeceu antes mesmo de receber as multas. No carro, os policiais encontraram uma garrafa de vodca.

— Pelo menos, ele não vai mais oferecer riscos a ninguém hoje — comentou um policial. Enquanto um servidor anotava os dados do médico, outro fazia o teste do bafômetro no estudante Adriano Gonçalves. O jovem foi preso em flagrante, com índice de 0,53 ml/l expelido dos pulmões (cerca de uma garrafa de cerveja) e levado para a 12a- DP (Copacabana), onde ficou por toda a noite até de manhã, quando finalmente o banco abriu e ele pôde retirar R$ 308 para pagar a fiança:

— Eu nem ia beber, mas acabei aceitando tomar três copos de cerveja com o pessoal da faculdade. Achei que estava bem e que poderia soprar no bafômetro. Agora, não vou dormir e ainda corro o risco de chegar atrasado e perder o emprego. Na madrugada do feriado de 7 de setembro, um motociclista parou numa blitz na esquina da Avenida General San Martin com a Bartolomeu Mitre, no Leblon. Com a voz embargada, ele contou a um policial que havia bebido, mas não precisava fazer o teste porque afinal estava na garupa da moto. — Mas o senhor está sozinho. Então onde está o condutor? — reagiu o policial. — Sei lá, só sei que estou na garupa. Como o condutor fantasma não apareceu, além de ter a carteira apreendida e de ser multado, o motociclista teve o veículo rebocado.

— Hoje, só são presas as pessoas de boa fé. Os motoristas embriagados se recusam a fazer o teste, porque sabem que vão ser presos, e acabam respondendo apenas administrativamente — contou o delegado Antenor Lopes, da 12a- DP. Dos 24 presos levados à delegacia este ano, o motorista mais bêbado havia consumido 0,76 ml/l (cerca de uma garrafa e meia de cerveja). 

ELIO GASPARI - Peluso recomendou o apagão da memória


Peluso recomendou o apagão da memória
ELIO GASPARI
FOLHA DE SP - 11/09/11

O presidente do STF ainda pode colocar a questão dos documentos do Judiciário num novo patamar


O presidente do Conselho Nacional de Justiça, ministro Cezar Peluso, baixou uma recomendação (nº 37) orientando os tribunais do país para preservar seus documentos. Tem 1.800 palavras e quem a lê sente-se no paraíso. Menciona o "Programa Nacional de Gestão Documental e Memória do Poder Judiciário" e cria mecanismos para a digitalização de processos.
Tudo muito bonito até que se chega ao item 20 da recomendação:
"Será preservada uma amostra estatística representativa do universo dos documentos e processos administrativos e dos autos judiciais findos destinados à eliminação."
Numa palavra: destruição.
Reapareceu o apagão que há anos ameaça a memória do Judiciário. Do ponto de vista de quem quer se livrar de um papelório que pode chegar a 20 milhões de processos, esses documentos não têm valor. Juntam bichos, mofo e perigo de fogo. Para os historiadores, ali está a história do andar de baixo e, em muitos casos, só ali.
Pela recomendação de Peluso, serão destruídos processos encerrados há cinco ou dez anos. Só excepcionalmente, em casos que envolvem patrimônios, podem durar até cem anos. Deles, sobreviverá apenas uma "amostra estatística".
Esse critério já queimou milhões de processos, entre eles o que tratou da indenização de um jovem metalúrgico que, em 1959, deixou o dedo mínimo da mão esquerda debaixo de uma prensa. Que valor teria o caso banal de um pernambucano miserável? Era o processo do dedo de Lula.
Pode-se sustentar que não compete ao Judiciário gastar dinheiro preservando processos velhos. Também é o caso de se conjurar projetos megalomaníacos de digitalização. Daí a destruir os papéis vai uma distância enorme. No Paraná, a Justiça do Trabalho publicou um edital abrindo o caminho para para o descarte de cerca de 62 mil processos trabalhistas. Felizmente, a Unoeste de Marechal Cândido Rondon pediu a guarda do arquivo, e o caso poderá ser resolvido de forma exemplar.
O doutor Peluso sabe quão prósperos são os grandes escritórios de advocacia. O Rio Grande do Sul preserva 14 milhões de processos da sua Justiça, e isso custa à Viúva algo como R$ 4,2 milhões por ano (incluindo aluguel, água, luz e telefone). Instituições oficiais de financiamento, ou programas do BNDES e da Petrobras, associados a algumas bancas de advogados, poderiam desatar esse nó em outros Estados.
Se a destruição for evitada e os arquivos forem salvos, algum dia uma grande cidade poderá montar um projeto semelhante ao dos papéis da corte criminal de Londres. No "Old Bailey" digitalizaram 197 mil julgamentos preservados, com 240 mil manuscritos onde estão 3,35 milhões de nomes da ralé que passou pela Justiça entre 1674 e 1913. Essa papelada ensina que, em 1889, um sujeito era acusado de ganhar 20 libras para enviar uma jovem a um bordel brasileiro. Graças à preservação de um censo dos hóspedes da prisão de Holloway, sabe-se que, em 1881, lá esteve Edward Glassborow, tataravô de Kate Midletton, duquesa de Cambridge.

O SACI-PERERÊ DO PT ERA RICO E BÍPEDE

A defesa do deputado José Genoino, ex-presidente do PT e réu no processo do "mensalão", sustenta que esse triste episódio "como o Boitatá e o Saci-Pererê, jamais existiu".
Ao contrário do saci, a caixa do PT tinha duas pernas. Os companheiros gostariam de adiar o julgamento da "lenda" para 2013. Até lá, terão indicado três novos ministros para o Supremo. Um (ou uma) na vaga, já existente, de Ellen Gracie, e dois substituindo Cezar Peluso e Carlos Ayres Britto, que completam 70 anos em setembro e novembro de 2012.

BOLSA ROMANÉE
Uma alma penada lembrou que Lula tomou sua primeira taça de vinho Romanée Conti em 2002, graças à generosidade do publicitário Duda Mendonça, que recebia por seus serviços na caixa do "mensalão" e depositava o dinheiro em Cayman.
Diante das notícias de que ele ganha um bom dinheiro dando palestras, ofereceu-lhe a sugestão de transformar sua Bolsa Ditadura numa Bolsa Romanée. Pela sua conta, com o cheque da Viúva, de cerca de R$ 4.000 mensais, ele pode tomar uma garrafa por ano da safra de 1986. Ela é vendida no mercado brasileiro a R$ 48.750.

VIVE LA FRANCE
Não se pode dizer que a nova ordem líbia esteja discriminando os interesses brasileiros no país. Está apenas indicando que seria bom que buscassem alguns parceiros, sobretudo entre os franceses.
Espertos, os franceses. Estavam fortes com Gaddafi e fortes continuam com seus inimigos.

MOVIMENTO
Está chegando às livrarias "Jornal Movimento - Uma Reportagem", de Carlos Azevedo. Conta a história do semanário deste nome que circulou entre 1975 e 1981, sob a direção do jornalista Raimundo Rodrigues Pereira. "Movimento" vocalizava as posições da esquerda do MDB e foi uma das publicações mais massacradas pela censura. Nasceu com uma circulação de 20 mil exemplares.
O livro recupera a colaboração do engenheiro Sérgio Motta na organização do jornal. Mais tarde ele viria a ser um grão-tucano, ministro das Comunicações de FHC. Além disso, traz uma preciosidade: um DVD com as 334 edições do semanário, inclusive duas apreendidas.

ALEXANDER MCQUEEN
Está na rede uma grande campanha. Trata-se de manter viva a exposição "Alexander McQueen - The Savage Beauty", que encantou Nova York entre maio e agosto. Ela foi vista por 660 mil pessoas e entrou para a história do museu Metropolitan.
"A Beleza Selvagem" pretendia ser uma homenagem ao estilista inglês Alexander, que se matou em fevereiro do ano passado. Foi muito mais que isso. Juntou a beleza da obra do artista à criatividade dos organizadores. Delirante, inovador e teatral, McQueen sai da exposição como um fenômeno cultural. Sarah Burton, uma de suas discípulas, desenhou os vestidos de Kate e Pippa Midleton.
A petição para que a exposição circule pelo mundo tem pouco mais de mil assinaturas. Resta torcer. (No YouTube há uma excelente amostra de oito minutos de "A Beleza Selvagem".)

EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo é um idiota e, em agosto, quando estourou o escândalo do Dnit, ouviu o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, dizer o seguinte: "Num órgão que tem um orçamento de R$ 15 bilhões e que executa milhares de projetos em todo o Brasil, é normal que surjam irregularidades".
O idiota ouviu o anúncio da Controladoria-Geral da União informando que, numa fiscalização de um montante de R$ 5,1 bilhões, acharam-se 66 irregularidades que somam R$ 682 milhões. Eremildo fez a conta: morderam a Viúva em 13%.
O salário do dr. Paulo Bernardo está em R$ 26.273. Se alguém lhe der uma tunga de R$ 3.500, ele dificilmente dirá que o mandrião ficou na taxa de normalidade.

GOSTOSA


PEDRO S. MALAN - Ousadia e responsabilidade


Ousadia e responsabilidade
PEDRO S. MALAN
O Estado de S.Paulo - 11/09/11

"Nunca a conjuntura foi tão pouco conjuntural", diz André Lara Resende. De fato, os Estados Unidos, a Europa e o Japão, por exemplo, não retornaram ainda, passados quatro anos, ao nível de renda real por habitante que haviam alcançado em 2007. E terão, no futuro próximo, um crescimento ainda mais baixo do que o projetado até há pouco, dadas as consequências tanto da crise de 2007-2008 como das respostas a ela, que levaram à expansão vertiginosa de suas dívidas públicas.

A crise nos países desenvolvidos não era - como foi dito por aqui - uma "marolinha" para o resto do mundo. Sempre me pareceu equivocada a ideia de que os países emergentes houvessem adquirido uma dinâmica própria, que lhes asseguraria a capacidade de seguir crescendo de forma sustentada, o que quer que acontecesse no mundo desenvolvido.

Acredito que não só nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, mas também em vários outros países, dentre os quais o Brasil, como poucas vezes na História, a resolução dos problemas mais urgentes nunca esteve tão dependente da perspectiva de equacionamento de problemas e desafios estruturais, de médio e longo prazos. E quero ilustrar a observação acima com um comentário sobre a recente decisão do nosso Banco Central (BC) de reduzir os juros. Decisão que teria sido baseada em quatro hipóteses básicas.

Primeiro, a possibilidade de deterioração adicional das expectativas quanto à evolução da economia mundial e maiores riscos e incertezas quanto ao comércio internacional, e aos mercados de capitais, de dívida soberana e de intermediação financeira.

Segundo, em parte por conta disso, a possibilidade de uma desaceleração da economia brasileira mais acentuada do que aquela que já vinha ocorrendo - e que já era maior do que a antes prevista pelo governo para 2011-2012.

Terceiro, a hipótese de que, apesar de a inflação brasileira acumulada nos últimos 12 meses se encontrar acima de 7%, esta, a partir do último trimestre de 2011, entraria numa trajetória declinante (em grande parte devida aos efeitos combinados das duas hipóteses anteriores), o que permitiria uma gradual convergência para o centro da meta de inflação (4,5%) ao final de 2012.

Quarto e último, mas não menos importante, uma avaliação positiva do BC sobre a firmeza do compromisso da presidente e do Ministério da Fazenda com maior controle fiscal não só em 2011, como em 2012 e 2013. Compromissos que seriam expressos em metas críveis (que o BC teria incorporado), e não em declarações de intenções.

As duas primeiras hipóteses das quatro acima não devem ser descartadas e podem exigir, dentre outras respostas, redução de juros que, diga-se de passagem, muitos no mercado já antecipavam, embora a maioria para outubro. A terceira envolve percepções sobre o grau de compromisso do BC e do governo com o regime de metas de inflação e com a convergência para o centro da meta estabelecida pelo governo. Se ensaios de antecipação pública, pelo governo, do que deveriam ser as decisões futuras do BC se tornarem rotina, não há dúvida de que a credibilidade do Banco Central - que existe - será erodida. E com isso também se esvairá a credibilidade do regime de metas como mecanismo de formação de expectativas quanto ao curso futuro da inflação.

Mas é a quarta das hipóteses acima que é a mais fundamental das apostas do BC. E a mais problemática, a mais difícil de ser alcançada e a mais controvertida, como sabem os que se deram ao trabalho de procurar entender a questão. A propósito, há um trabalho imperdível do ilustre ex-ministro Delfim Netto intitulado A Agenda Fiscal, no belo livro organizado por Fabio Giambiagi e Octavio de Barros O Brasil Pós-Crise: Agenda para a Próxima Década. Esse artigo deveria ser de leitura quase obrigatória para aqueles que, no governo ou fora dele, acham que a resolução do problema dos juros no Brasil depende da "estatização do Banco Central".

Aliás, desculpe-me o ilustre ex-ministro, mas, com todo o respeito, considerei uma enorme injustiça, para dizer o mínimo, a afirmação de que, "pela primeira vez em duas décadas, o BC é efetivamente um órgão de Estado...". Uma enorme injustiça para com servidores públicos exemplares da instituição e para com pessoas decentes e de espírito público que lá trabalharam e não viam a instituição como outra coisa que não um órgão de Estado.

E, como disse muito corretamente o ex-ministro no mesmo artigo, referindo-se à política monetária, "ela é uma arte que comporta visões alternativas diante dos problemas do futuro. Como os efeitos monetários se fazem sentir ao longo do tempo, só este é capaz de dizer a posteriori se a perspectiva escolhida foi certa ou errada".

Mas uma coisa é apoiar a decisão recente do BC. Outra, diferente, é saudar sua pretensa "estatização" (sem a qual a decisão não teria sido tomada?). E outra, ainda mais controvertida, é afirmar desde agora que há uma definida política fiscal de longo prazo do governo Dilma Rousseff. Pode ser que haja. Esperemos que sim. O tempo dirá. Em breve. Mas sem responsável ousadia nessa área não será possível assegurar o desejado declínio, sustentado ao longo do tempo, das taxas de juros na economia brasileira, por mais "estatizado" que seja o Banco Central.

Vale concluir com o ex-ministro Delfim Netto no artigo do livro citado: "A única forma possível para que a agenda fiscal dê uma contribuição decisiva para a política econômica (...) será o compromisso do poder incumbente eleito em 2010 de realizar um longo, paciente, responsável e cuidadoso programa de controle do aumento das despesas de seu custeio...". As sugestões do ex-ministro para uma nova política previdenciária e orçamentária, bem como uma nova política de pessoal, estão reunidas em apenas duas páginas ao final de seu artigo.

Vale lê-las. Ou relê-las.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Supremacia americana influenciou administração no Brasil
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 11/09/11

Após a Segunda Guerra, a influência americana teve papel fundamental na formação do pensamento da administração no Brasil, de acordo com especialistas.
As primeiras escolas de negócios, como a da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo e as das universidades federais de Rio Grande do Sul e Bahia, tiveram alta participação de acadêmicos dos EUA.
A pioneira Escola Superior de Negócios foi inspirada em Harvard. A FGV Eaesp foi criada com o convênio entre os governos de Brasil e EUA.
"Nos anos 1950, criou-se aqui uma turma de estudantes, com doutores da Michigan State University", diz Fabio Gallo, professor da Eaesp.
Companhias já haviam ingressado no país, com mais força após a Primeira Guerra, de acordo com a Amcham (câmara de comércio).
"Com o fortalecimento da economia, as empresas norte-americanas passaram a ter recurso para investir, o que demonstrou a importância central do país", diz Gabriel Rico, da Amcham.
A expansão ganhou novas características depois da Segunda Guerra, segundo Thiago Rodrigues, da Universidade Federal Fluminense. "Países periféricos, como o Brasil, recebiam fábricas 'sujas', de atividades menos nobres, enquanto os centrais investiam em pesquisa", diz.
Não se pode falar em colonialismo, mas em "colonialidade do saber", diz Maria Misoczky, da federal do RS. "Não há relação formal de dominação, que seria colonialismo. Apesar de várias escolas terem influência americana, a nossa administração não é mera reprodutora."
"Após 1945, os EUA exportaram seu modo de fazer administração e estabeleceram a gestão americana como maneira hegemônica de administrar, mas falar em imperialismo seria inadequado", afirma Rafael Alcadipani, professor da Eaesp.

MONTANHA-RUSSA

Luiza Sigulem/Folhapress

Armando Pereira, presidente do parque

O Hopi Hari investe R$ 150 milhões em novas atrações, R$ 50 milhões apenas em uma nova montanha-russa, com 1.200 toneladas de aço, que será "mais forte que a 'Aerosmith' [da Disney]", segundo Armando Pereira, presidente do parque. Das cinco áreas, três estão sendo reformuladas. Duas delas, para ganhar temas da Warner Bros. Criado em 2000, o parque de Vinhedo (SP) passou por dificuldades financeiras. Saíram os antigos donos, inclusive os fundos de pensão, e hoje é controlado por um grupo de investidores, que equacionou as dívidas em 2009, diz Pereira.
Em 2010, o faturamento (R$ 103 milhões) cresceu 25% ante 2009. "Somos a maior atração turística paga no país, com 2 milhões de visitantes, e queremos estar preparados para atender um público que virá com o aumento da renda e do turismo, impulsionado pelos eventos esportivos nos próximos anos."

O QUE ESTOU LENDO

O publicitário Luiz Lara, sócio da Lew'Lara\TBWA, lê "O Museu da Inocência", de Orhan Pamuk, e "On China", de Henry Kissinger. "O primeiro é mais um livro delicioso do Pamuk. Conta a história de um grande amor que ficou para toda a vida. E o segundo é interessantíssimo. Nos permite entender um pouco mais sobre o império chinês".

VERNISSAGE FINANCEIRA

A coincidência de eventos ligados à arte contemporânea brasileira trazem à tona o tema do investimento na área.
Mesmo gente do "métier" não considera um bom negócio especular. "Um investidor tem 90% de chances de errar quando compra uma obra de arte só por investimento", diz a galerista Luisa Strina.
Toda coleção, se bem feita, vai se valorizar, mas não é fácil, diz Thiago Gomide, da Bolsa de Arte em SP.
Tadeu Chiarelli, diretor do MAC-USP, cita a importância de se pesquisar sobre a trajetória do artista.
"Os grandes ganhos ocorrem em obras maiores. Se uma peça de R$ 2.000 vai para R$ 4.000, você ganha só R$ 2.000. Quem pode desembolsar mais dinheiro pode ganhar mais", diz Gomide.
Para o galerista André Millan, a arte deve ser vista como patrimônio, e não investimento. "É melhor ir à Bolsa [se quiser investir]."
Na ArtRio, que se encerra hoje no Rio, a estimativa era vender R$ 100 milhões.
A SP-Arte/Foto começa sua quinta edição na próxima quarta. A faixa de preço vai de R$ 2 mil a R$ 150 mil. No final deste mês, a Bolsa de Arte em SP faz um leilão.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

TRABALHO EM CASA


GAUDÊNCIO TORQUATO - O Brasil do PT


  O Brasil do PT 
GAUDÊNCIO TORQUATO
O Estado de S.Paulo - 11/09/11
A leitura não deixa dúvidas: o diagnóstico é mais pertinente que as soluções. Fotografar a paisagem que se vê, convenhamos, é tarefa menos passível de distorções que desenhar um cenário do futuro. É o que se enxerga no documento Resolução Política, aprovado no 4.º Congresso do Partido dos Trabalhadores, na semana passada. Ali está expressa a visão do PT sobre o estado do mundo e do Brasil, um desfile de múltiplas abordagens, dentro das quais se pinça a tese de que o País, ator central na "crescente hegemonia da esquerda na América Latina", tem condições de se transformar na "alternativa ao próprio modelo neoliberal", em crise nos países centrais. A indicação dos nossos trópicos tupiniquins como marco de um novo processo civilizatório é recorrente em diversas passagens, não sem o crédito concedido às administrações sob comando do PT, o que, evidentemente, pressupõe a continuidade de conquistas do ciclo Lula e que caminham para "a construção histórica de um novo Estado democrático, republicano e popular". A modelagem desse ente "popular" (o adjetivo democrático não abriga o povo?) só seria possível por meio de "amplo e profundo ascenso dos partidos de esquerda". Essa é a engenharia para a implantação do socialismo por estas bandas, que propiciaria ao País participar da "disputa global contra o modelo neoliberal".
Utopias e refrãos à parte, o documento merece atenção por explicitar o ideário de um ente que convoca militantes ao engajamento político, impõe normas de conduta, pratica uma liturgia comparável à dos credos evangélicos, incluindo o dízimo, define metas de médio e longo prazos, estabelecendo, assim, um diferencial no espectro partidário. Ancorado em disciplina, o PT consegue taxas de adesão mais altas que outros, como indicam seus 32% de preferência pelo eleitorado. Trata-se de um partido centrado na conquista e manutenção do poder. Se não age conforme o figurino que desenha, pouco importa. O mensalão, por exemplo, bate de frente com a moral proclamada pelo "modo petista de governar". Para dele se livrar alega que o pacote mal-ajambrado não existiu. Ao argumentar que é "o único partido brasileiro a ter estatutariamente estabelecido prévias para consulta de seus filiados", pode dar o dito pelo não dito ante a decisão do técnico de escalar seu jogador predileto para bater o pênalti. A não ser que Lula se curve à decisão de submeter Fernando Haddad às prévias para a Prefeitura de São Paulo. No campo da expressão, espalham-se na Resolução Política algumas dissonâncias, a denotar que pensadores e obreiros não comungam o mesmo ideário.
Veja-se o capítulo sobre a democratização da comunicação. Ali está a defesa do marco regulatório. É plausível regular o aparato eletrônico que depende de concessões estatais, como os sistemas de radiodifusão e de telecomunicações. É até razoável debater o domínio de meios eletrônicos e impressos por grupos políticos ou sob a égide de conglomerados numa mesma região, questões da propriedade cruzada. Tais abordagens não podem, contudo, ser inseridas no compartimento da liberdade de imprensa e do controle de conteúdos. O PT diz repudiar tentativa de censura ou restrição à liberdade de imprensa. Aplausos. Ao criticar, porém, o que cognomina de "jornalismo marrom e suas práticas ilegais", sob a fundamentação da inexistência de uma lei de imprensa e "desrespeito aos direitos humanos" pela mídia, levanta o véu da censura. Conceitos como verdade, pluralidade de fontes e versão única de fatos integram os escopos editoriais. Alguém se sente prejudicado por teor informativo "falseado ou distorcido"? Escude-se na Constituição, artigo 5.º, inciso V (que assegura direito de resposta proporcional ao agravo), ou no Código Penal (crimes de injúria, calúnia e difamação). São comuns os casos de pessoas e entidades que recorrem à Justiça para veicular suas versões. A proposta do controle social entra, portanto, no território dos conteúdos, por maior que seja o esforço para escamotear tal tentativa.
Na seara da reforma política, as abordagens defendidas apontam para a moralização de práticas, a partir da adoção parcial da lista preordenada nos pleitos parlamentares (metade dos eleitos) e fim das coligações proporcionais, que evitaria a eleição de nomes não escolhidos diretamente pelo eleitor. É evidente que o voto em lista beneficia partidos de mando vertical, como o PT, na medida em que parcela expressiva dos eleitos rezaria pela cartilha do comando partidário. Quanto ao financiamento público de campanha, em substituição a recursos privados, é ingenuidade pensar que o poder econômico se retrairá, retirando o aval a candidatos. Ao contrário, a distância entre economia e política estreita-se cada vez mais na onda da interpenetração de interesses do Estado e dos negócios privados. Já na frente dos movimentos sociais, é inegável a abertura de diálogo, sob o ciclo do PT, com as organizações do terceiro setor. Se entidades passaram a ser protagonistas de políticas públicas, como as centrais sindicais, não se pode deixar de registrar certa estática, de efeitos danosos, como o fato de, até o momento, o setor da terceirização, que abriga cerca de 10 milhões de trabalhadores, ainda não receber a chancela normativa do Estado.
Cacoetes são retomados, como as "privatarias que legaram ao País o fardo de uma herança maldita", possivelmente referência a áreas, como a das telecomunicações, vendidas na "bacia das almas". No subtexto, leia-se o conceito de "privatização decente" (as aspas são minhas), do tipo que se começa a fazer na frente dos aeroportos. Há, convém destacar, trechos bastante apropriados, particularmente sobre meio ambiente, emprego com carteira assinada, distribuição de renda (a maior já feita no País), inclusão social, igualdade de gêneros e minorias. No mais, filtrada a camada de grandiloquência inerente a documentos de congressos, a inexorável constatação: fora do PT não há salvação.

EDITORIAL - O ESTADÃO - A ação mais antiga do Supremo


A ação mais antiga do Supremo
EDITORIAL
O Estado de S.Paulo - 11/09/11

O processo mais antigo à espera de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) já completou 52 anos de tramitação, há cerca de dois meses. Quando foi protocolado, em junho de 1959, o endereço da Corte não era a Praça dos Três Poderes, em Brasília, mas a Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. O atual presidente do Supremo e relator da ação, ministro Cezar Peluso, tinha 16 anos de idade. O ministro mais moço, José Antonio Dias Toffoli, nem sequer havia nascido. Até o nome do País era outro: República dos Estados Unidos do Brasil.

Com 12 volumes e 3 apensos, o processo tem 2.449 páginas - todas amareladas e muitas em processo de desintegração. Várias estão improvisadamente protegidas por sacos plásticos, para não virarem pó. Pelas estimativas dos servidores da Casa, essa é, seguramente, a ação em tramitação no Supremo Tribunal Federal com maior número de ácaros por página.

A ação foi proposta pelo então procurador-geral da República, Carlos Medeiros da Silva, contra o governo do Estado de Mato Grosso, que, naquele tempo, ainda não havia sido dividido. Para colonizar a região, o governo estadual havia doado a seis empresas lotes de terras públicas - hoje localizados em Mato Grosso do Sul -, com áreas superiores a dez mil hectares. O problema é que, pela Constituição de 1946, então em vigor, a doação não poderia ser feita sem prévia autorização do Senado. Como isso não ocorreu, o procurador-geral pediu a nulidade dos contratos. Em sua defesa, o governo mato-grossense alegou que não houve cessão das terras e que as seis empresas, em troca do benefício recebido, se comprometeram a promover assentamentos de famílias de agricultores e pecuaristas e construir estradas, escolas, hospitais, olarias, serrarias e campos de aviação.

Como mostra a excelente reportagem do jornal O Globo que inspirou este editorial, desde sua proposição, o processo já teve nove relatores. O primeiro foi o ministro Cândido Motta Filho, que se aposentou em 1967. O atual relator, ministro Cezar Peluso, assumiu o caso em junho de 2003 e, finalmente, concluiu seu voto e pretende incluí-lo numa das pautas de julgamento deste mês.

A arrastada tramitação do processo se deve aos pedidos de diligências feitos pelos relatores que antecederam Peluso, para que fossem colhidos depoimentos de todas as pessoas que tinham comprado terras na região depois da doação. "Como achar esse povo?", indaga Peluso.

Qualquer que seja a decisão que o Supremo vier a dar a este processo, ela não deverá ter maiores efeitos práticos - e esse é o aspecto mais surrealista do caso. Desde que as seis empresas beneficiadas pelo governo mato-grossense promoveram os primeiros assentamentos de pecuaristas e agricultores na região, há mais de cinco décadas, já foram registradas várias revendas de terrenos por ocupantes de boa-fé - e, mais importante ainda, foram erguidas cidades nas glebas doadas.

Por isso, o resultado do julgamento será inócuo, uma vez que não se pode erradicar do mapa municípios de pequeno e médio portes nascidos de assentamentos irregulares. Como não podem tomar decisões contrárias ao que a Constituição de 46 determinava, os 11 ministros do Supremo serão formalmente obrigados a considerar inconstitucional a doação dos terrenos, feita em meados do século passado. Mas eles sabem que, objetivamente, não há como obrigar a União a despejar os ocupantes daqueles terrenos ocupados indevidamente e indenizar os atuais moradores das áreas que se encontram sub judice.

Além dessa ação, o Supremo terá de julgar várias outras que também tramitam há décadas. Na lista dos processos mais antigos, que foram protocolados entre 1969 e 1981, quatro estavam sob responsabilidade da ministra Ellen Gracie. Como ela se aposentou sem apresentar seu parecer, essas ações serão enviadas a um novo relator. Dependendo do ritmo e da carga de trabalho do STF, esses processos podem bater o recorde de longevidade hoje detido pela ação proposta pelo procurador-geral da República há 52 anos. Esse é um retrato - que não se pode chamar de instantâneo - da Justiça brasileira.

LUIZ FERNANDO VERISSIMO - Contraste


Contraste
LUIZ FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 11/09/11

Em vez de lembrar o que escrevi sobre as torres do World Trade Center no décimo aniversário da sua destruição, vou repetir o que escrevi na época sobre o pintor Morandi.
O que o italiano Giorgio Morandi, morto em 1964, tem a ver com os dois edifícios do World Trade Center derrubados em 11/9 de 2001? Absolutamente nada. Foi justamente por isso que a primeira coisa que fiz ao chegar a Paris depois de fugir de Nova York e das ruínas ainda fumegantes das torres foi ir ver uma exposição do Morandi.
Eu sabia exatamente o que ia encontrar. Morandi pintou essencialmente a mesma coisa a vida inteira. Conjuntos de garrafas, caixas, vasos e vasilhames que ao mesmo tempo se integravam ao fundo e entre si como formas abstratas e mantinham sua distinção concreta de sólidos. Não foi só porque ainda tinha na retina as imagens das torres em chamas que pensei imediatamente nelas diante daquelas caixas e garrafas longilíneas firmemente postas numa superfície real, com volume e peso, e magicamente postas em outra dimensão, a salvo do tempo, da história, até de interpretação.
Os objetos que Morandi reproduzia nos seus conjuntos eram sempre os mesmos, o que ele estava pintando, na verdade, era a sua permanência, enquanto a vida e o pintor passavam por eles. Não eram os objetos,era a sua existência silenciosa que estava nos quadros de Morandi. Cada pintura era um novo registro daquele mistério, uma coisa existindo, persistindo em existir. O contraste era inescapável com as caixas de ferro evanescentes que eu vira se desmanchando em Nova York, aquelas formas que 
se declaravam triunfalmente eternas desaparecendo em minutos.
Não aparecem figuras humanas na obra de Morandi. A vida que existe em seus quadros é toda inferida: a mudança na perspectiva de um conjunto, uma ou outra marca de uso na superfície de um dos seus objetos domésticos, um sombreado denunciando a existência de uma fonte de luz em algum lugar fora do quadro. Nenhum movimento, e tudo se repetindo. O humano só existe na sua obra como contraponto ao que se vê, às coisas reduzidas a elas mesmas e a sua persistência. O humano é tudo na obra de Morandi que não se vê. O próprio pintor interfere o menos possível no seu trabalho e deixa que a obsessão o guie. Ou a única coisa humana na arte do Morandi é a obsessão.
Minha impressão ao olhar seu trabalho era que estava diante do ultimo homem tranquilo do mundo. Na vida parada dos seus quadros havia desprezo pelo drama humano, e eu estava ali atrás daquela tranquilidade. Queria me convencer da transitoriedade da angústia, o sentimento mais humano do momento, e esquecer as mortes e a destruição. Se pudesse passaria o dia e a noite ali, armazenando tranquilidade para enfrentar o que estava por vir – mas o museu fechava às cinco e meia. De qualquer maneira foi bom saber que os objetos do Morandi continuariam lá, independentemente do nosso olhar, da nossa passagem e da nossa angústia, sólidos, indestrutíveis, significando apenas sua propria permanência. E silêncio. 

CLAUDIO HUMBERTO

“Pensei que fosse o começo da terceira guerra mundial”
EX-PRESIDENTE FHC REVELANDO O QUE IMAGINOU NO INSTANTE DO ATAQUE DE 11 DE SETEMBRO

SUSPEITAS PODEM DERRUBAR MINISTRO DO TRABALHO 
O ministro Carlos Lupi (Trabalho) pode ser o próximo a cair no governo Dilma. O Palácio do Planalto pediu explicações sobre denúncias graves envolvendo o ministro e seu parceiro e chefe de gabinete Marcelo Panella, em negócios supostamente irregulares com uma Fundação Pró-Cerrado, especialmente contemplada com recursos milionários do Fundo de Amparo ao Trabalhador para cursos de qualificação.

SEMPRE O JATINHO 
Carlos Lupi e seu chefe de gabinete Marcelo Panella são acusados de usar com frequência o jatinho do dono da Fundação Pró-Cerrado.

PRIMEIRA BAIXA 
As averiguações do Palácio do Planalto já levaram ao afastamento de Marcelo Panellas, que constrói uma mansão na Barra da Tijuca, no Rio.

SCRIPT PRONTO 
O objetivo do afastamento de Marcelo Panellas é dar ao ministro Carlos Lupi o argumento de que ele demitiu o auxiliar, ao saber das suspeitas.

PAROU TUDO 
Temendo as algemas da Polícia Federal, dirigentes do Ministério do Trabalho suspenderam pagamentos a fornecedores e a conveniados.

CUNHA LIMA TERÁ DIA DA CAÇA EM CAMPINA GRANDE 
O prefeito de Campina Grande, Veneziano Vital do Rego (PMDB), está com o mandato por um fio no Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba. Na próxima terça-feira, o TRE-PB discute o voto do juiz relator pedindo sua cassação pelo uso de dinheiro público na reeleição, em 2008. O senador tucano Cássio Cunha Lima, que enfrentou calvário idêntico em 2009, não tripudia. Mas sabe que vingança é prato que se come frio.

TRIANGULAÇÃO 
O prefeito Veneziano do Rego é acusado de emitir cheque do Fundo Municipal de Saúde para uma empresa que “doou” a grana para ele.

COM JOAQUIM 
O processo de Cássio Cunha Lima voltou para Joaquim Barbosa, o ministro relator, que retornou de licença ao TSE e vai julgá-lo em breve.

O RETORNO 
Eleito senador, Cássio Cunha Lima foi barrado pela Lei da Ficha Limpa, recorreu e retomará a cadeira ocupada por Wilson Santiago (PMDB).

AMNÉSIA 
Réu no mensalão, o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB) lamentou de novo no Twitter a ausência de Lula no processo, que Marcos Valério também reclama. Mas esqueceu ter defendido a inocência de Lula.

GRACINHA 
Para ficar bem na foto, a Controladoria-Geral da União apresentou como seu o relatório do rombo de R$ 682 milhões na Valec e no Dnit, incluindo R$ 227 milhões apontados pelo Tribunal de Contas da União. Fazendo as contas, a CGU apurou mesmo R$ 455 milhões.

SEM CANDIDATO 
Auxiliares de Dilma têm procurado deputados federais para garantir: ela não tem candidato a ministro do Tribunal de Contas da União. A presidente não deseja em sua conta a eventual derrota de um aliado.

DILMA DE OLHO 
Ao contrário de Lula, Dilma lê todos os jornais, revistas e colunas, mesmo as mais críticas ao governo. Assim, seguindo o exemplo do Imperador Pedro II, ela fica sabendo como agem os seus ministros.

LA VIE EN ROSE 
Uma vida à altura do cargo: circula no serpentário que, em três anos, o embaixador em Paris, José Maurício Bustani, trocou o elevador caseiro por €60 mil e até 
queria um carrão BMW 740i de 
€ 65mil, com GPS. O Itamaraty autorizou uma BMW mais modesta, sob protestos.

AVISO AOS CAMARADAS 
Editorial do Granma, jornal oficial de Cuba, lembrou que “corrupção é contrarrevolução”, condenando a amizade para “obter privilégios estatais por meio de subornos, em benefício próprio”.

CASA ARROMBADA 
Assolada por nova enchente, Santa Catarina vai receber recursos para minimizar a tragédia, não preveni-la. Em 2008, Lula falou das providências, mas culpou “o cara lá de cima”. Em 2010, culpou “os de baixo” pelo destino de R$ 1,3 bilhão que o Estado recebeu.

SÓ PRA CONTRARIAR 
De olho de novo na prefeitura, o ex-prefeito Cesar Maia (DEM-RJ) lembra a embromation do governo Cabral, anunciando instalação de UPP no Complexo do Alemão até o final de 2010. Agora vai?

PENSANDO BEM... 
...Se o mundo não acabar de novo hoje, Osama, ao contrário de Elvis, morreu mesmo. 

PODER SEM PUDOR
SOLUÇÕES À BRASILEIRA 
reso durante o regime militar por ordem de um coronel Epitácio, delegado do DOPS, o saudoso jornalista Carlos Castello Branco assistiu a uma cena histórica: a chegada do valente advogado Sobral Pinto à delegacia, aos berros, arrastado por policiais. O coronel arrogante falava muito, até mencionar a expressão “soluções à brasileira”. Sobral perdeu a paciência:
– Agora chega, seu coronel, porque não existem “soluções à brasileira”. O que existe apenas é peru à brasileira!

DOMINGO NOS JORNAIS


Globo: Rio passa São Paulo e já atrai mais investimentos

Folha: Ministério Público teme explosão de gastos com a Copa

Estadão: Indústria brasileira está sem crescer há três anos

Correio: Álcool seduz jovens e até crianças no DF

Estado de Minas: Sofrimento sem fim

Jornal do Commercio: 11 nordestinos 10 anos depois

Zero Hora: Aumentam ataques a mulheres ao volante