sábado, agosto 27, 2011

MERVAL PEREIRA - Distorções


Distorções
MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 27/08/11

Antes mesmo de se discutir uma reforma que dê mais sentido ao nosso sistema político, é preciso considerar que, no presidencialismo, o presidente é o chefe do Executivo, e a "direção" do país é indicada pelo Congresso. É possível dizer que o presidencialismo é o "inventor", ou o melhor tradutor, do princípio da independência entre os Poderes, base do sistema de pesos e contrapesos da democracia.

A Constituição não prescreve o emprego de membros do Legislativo como auxiliares do Executivo; essa prática exacerbada em nosso "presidencialismo de coalizão" é um desvio de finalidade, e os efeitos estão à vista de todos.

Está faltando a nossos políticos a noção de que o Executivo presidencialista ter de nomear deputados e senadores como seus ministros é, como diz um amigo meu, uma "novidade tropical", e como tal só pode redundar em distorções da função pública, tornada o mais das vezes em função que atende a interesses privados.

A briga no Congresso por vagas no Ministério, da maneira como se dá, é uma deturpação dos valores do presidencialismo, sintoma de tendência ao patrimonialismo e ao fisiologismo.

Um parlamentar que vai para o Ministério abre mão de exercer seu mandato como membro de um dos Poderes da República para aceitar papel secundário em outro poder, a maioria das vezes com interesses subalternos, como está se revelando rotineiramente nesses primeiros meses de governo Dilma.

Não é que não houvesse essa deturpação em governos anteriores, mas desestruturação cada vez maior dos partidos políticos, e a sempre ampliada base governista, formam um agrupamento que não faz liga programática e levam a que a composição ministerial obedeça cada vez mais a interesses esparsos e pessoais - e os políticos se tornem posseiros de "feudos" onde reinam, soberanos, não para implementar projetos, mas para se beneficiar, e aos seus apaniguados.

O próprio aumento do número de ministérios colaborou para a redução da importância deles, que se transformaram em grande parte em fontes de negociatas.

Como não estamos no parlamentarismo, onde os programas de governo são defendidos pelos partidos que ganharam a eleição, a maneira como os partidos aqui negociam seus pedaços de poder os transforma em atores que não desejam opinar nas diretrizes que vierem a ser adotadas pelo governo a que aderiram por mero desfrute.

Todos os políticos que se digladiam por uma vaga na Esplanada dos Ministérios deveriam, em teoria, renunciar aos mandatos, não podem servir ao Poder Executivo no exercício do cargo para o qual foram eleitos.

Mas apenas se licenciam, e têm a prerrogativa de retornar ao Congresso quando deixam o Ministério, além de continuar a receber o salário de parlamentar, maior que o de ministros, como aconteceu recentemente com o senador Alfredo Nascimento, saído dos Transportes e devolvido sem honra ao plenário do Senado.

O sistema presidencialista oferece ao chefe do Poder Executivo muitas alternativas legais para contornar o Legislativo, e os presidentes têm mais flexibilidade para montar seus ministérios.

Enquanto no parlamentarismo os governos são organizados essencialmente pelos componentes dos partidos que formam sua base parlamentar, no presidencialismo é possível escolher ministros de acordo com critérios próprios, e até mesmo levando em conta apenas as relações pessoais.

Na teoria, uma das virtudes que devem ser evitadas ao se montar uma boa equipe de governo é, paradoxalmente, a lealdade do escolhido, o que leva inevitavelmente a que pessoas não qualificadas, mas leais ao presidente da República, assumam postos importantes nos governo com o único compromisso de que não se voltarão contra quem os escolheu.

Há quem defina o hiperpresidencialismo como uma ditadura disfarçada, cuja fronteira para a ditadura de fato é a liberdade de imprensa, que geralmente não existe em países que já adotam esse sistema de governo, como a Venezuela e a Rússia.

A partir do caso da Rússia, os estudiosos dos sistemas de governo dizem que a fragmentação partidária pode levar a que o Executivo estimule uma maioria circunstancial que favoreça a aprovação de sistemas autoritários.

Seria o mesmo fenômeno que acontece na América Latina, com governos se utilizando dos mecanismos democráticos para aprovar leis que lhes conferem superpoderes, colocando o Executivo acima dos outros Poderes, fazendo com que o sistema democrático perca sua característica de contrapesos.

Nós ainda estamos em um estágio anterior, em que essa desagregação dos partidos facilita apenas o predomínio do Executivo sobre o Legislativo às custas de vantagens fisiológicas que estão sendo reveladas quase que cotidianamente.

É o que chamo de uma "maioria defensiva", que só serve mesmo para evitar a convocação de ministros, a realização de CPIs e, no limite, processos de impeachment.

E, mesmo quando o Legislativo decide "mostrar a sua força", o faz quase sempre na base da chantagem política, e não na defesa de uma posição ideológica ou programática.

No presidencialismo, deputados e senadores eleitos governam o país no Parlamento, no Congresso, como parte principal de um dos Poderes da República.

Abrindo mão do mandato, passam a exercer papel secundário do Poder Executivo, mais secundário ainda quanto mais forte for o presidente da República.

Mas raros são os que têm essa percepção ou essa visão da política para rejeitar essa submissão. A maioria, infelizmente, quer usufruir as vantagens que a "lealdade" ao poder central lhe garante.

BOTA O MARRONE!


FELIPE SALTO e JOSÉ EMYGDIO DE CARVALHO NETO - Pelo voto distrital no Brasil


Pelo voto distrital no Brasil
 FELIPE SALTO e JOSÉ EMYGDIO DE CARVALHO NETO
FOLHA DE SP - 27/08/11

Somos contrários à proposta de reforma do sistema eleitoral do deputado Henrique Fontana (PT-RS), pois, se aprovada, pioraria os já conhecidos problemas de nosso sistema eleitoral. Segundo a proposta, o eleitor votaria duas vezes.

O primeiro voto seria computado como hoje; no segundo voto, em lista, o eleitor perderia o direito de eleger diretamente seus candidatos. Mas quem escolheria essa lista? Os caciques dos partidos.

A proposta não parece ser produto de estudos de sistemas eleitorais, mas de uma tentativa de acomodação de interesses.

Nossa proposta é bastante distinta e com objetivos bem claros.

Vemos no voto distrital uma poderosa ferramenta para reduzir o custo das campanhas eleitorais e motivar uma maior fiscalização por parte do eleitor sobre o trabalho do político. A sociedade tem se mostrado propensa a esse debate. Tal propensão ao "novo", como temos chamado, é o que se vê no movimento #EuVotoDistrital.

O sistema eleitoral proporcional, que é o atualmente empregado no Brasil, permite que votemos em candidatos a deputados federal, estadual e a vereador, mas também em suas legendas, se desejarmos.

Extremamente confusa, a mudança para proporcional misto só pioraria um sistema em que já é difícil entender como nosso voto contribui para eleger representantes.

Com o voto distrital, seria fácil entender os caminhos do voto, e o custo de acompanhar o processo eleitoral, pela facilidade do sistema (o mais votado em dois turnos ganha no distrito), seria bem menor.

Na prática, o eleitor precisaria acompanhar apenas um representante. Também o eleito teria incentivos para lutar pelas demandas do distrito, aproximando representante e representado.

Pelo lado dos custos das campanhas, os candidatos não teriam que percorrer todo o Estado, mas apenas uma região muito menor (o distrito), de modo que a demanda por financiamento cairia, segundo alguns estudos, de 50% a 70%.

Como funcionaria o sistema distrital (ou majoritário)? O país todo seria dividido em distritos -áreas com limitações geográficas parecidas e número similar de eleitores - de acordo com o número atual de deputados a que cada Estado tem direito. São Paulo, por exemplo, continuaria a eleger 70 representantes para a Câmara (70 distritos, sendo um por distrito).

Aliás, estamos às vésperas das eleições municipais. Por que não alterar nosso sistema eleitoral para a escolha dos próximos vereadores? Funcionaria como no caso dos deputados federais. Isto é, o eleitor escolheria seu representante distrital como se fosse o vereador do bairro (ou regiões que englobariam alguns bairros).

A sociedade quer e busca a mudança. Ela se organiza para isso. Diretas-Já, Ficha Limpa e tantos outros exemplos. Resta-nos potencializar a força que emana desse novo poder, dessa força pela mudança e pela Política (com "P" maiúsculo).

Eis a inflexão que queremos ver na política nacional -fruto de uma nova postura, que é a expressão do desejo de construir um país melhor.

É essa a causa que guarda e defende o movimento livre, apartidário, que surgiu da sociedade civil e que nesse momento angaria assinaturas - o #EuVotoDistrital (www.euvotodistrital.org.br).

Milhares de cidadãos de todos os Estados do Brasil já se apresentaram para essa mudança. Agora, buscamos seu apoio para que o Congresso seja compelido a realizar a verdadeira reforma política e, acima de tudo, para que façamos da nova política que queremos ver a próxima grande mudança liderada pela sociedade em benefício da democracia no Brasil!
FELIPE SALTO, economista pela EESP/FGV-SP e mestrando em administração pública e governo também pela FGV, é analista da Tendências Consultoria e cofundador do Instituto Tellus.
JOSÉ EMYGDIO DE CARVALHO NETO, formado pela FGV em administração pública e graduado pela Universidade Georgetown (EUA) em seu Global Leadership Program, é cofundador do Instituto Tellus e coordenador de mobilização do Centro de Liderança Pública. Ambos são membros do movimento #EuVotoDistrital.

FERNANDO DE BARROS E SILVA - ABC da miséria nacional


ABC da miséria nacional
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SP - 27/08/11 

SÃO PAULO - Pela primeira vez, uma pesquisa de âmbito nacional mediu conhecimentos básicos das crianças que acabaram de concluir o 3º ano do ensino fundamental (antiga 2ª série). Os resultados obtidos pela Prova ABC (Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização) são muito desanimadores.

Metade das crianças do país não aprendeu o mínimo esperado para essa etapa de sua formação. Apenas 43% tiveram rendimentos satisfatórios em matemática; 53% em escrita; 56% em leitura. Em termos concretos, metade dos alunos não identifica o tema e os personagens centrais de um texto, não consegue ler as horas num relógio digital, não reconhece o centímetro como medida de comprimento.

Se o resultado do conjunto é ruim, são as disparidades entre as regiões e entre os ensinos público e privado que revelam o tamanho real do buraco educacional do país.

Enquanto nas escolas particulares 79% dos alunos têm desempenho satisfatório em leitura, nas públicas eles são apenas 49%. O mesmo abismo se reproduz em relação à escrita (82% contra 44%) e à matemática (74% contra 33%).

É preciso ter claro que, dos 32 milhões de alunos matriculados no ensino fundamental, 88% estão concentrados na rede pública. Os filhos do ensino privado pertencem a uma pequena elite nacional.

As diferenças entre regiões também são escandalosas. Por exemplo: na rede pública do Nordeste, apenas 21% dos estudantes foram aprovados no teste de escrita. No Sudeste, 54% conseguem passar. Mas, na rede privada do próprio Sudeste, a aprovação é de 98%!

Para o leigo, fica a sensação de que a pesquisa vem confirmar aquilo que já sabemos: o país é muito desigual, as crianças mais pobres recebem uma educação de péssima qualidade e mesmo entre os mais ricos há razões para preocupação.

Sabemos também que essa situação já foi pior. Mas, diante da tragédia disponível, seria cínico demais dizer que isso serve de alento.

MARCELO RUBENS PAIVA - Dar: o dilema



Dar: o dilema
MARCELO RUBENS PAIVA
O Estado de S.Paulo - 27/08/11

Peço desculpas ao leitor. Pensei muitas vezes no verbo a ser utilizado no relato abaixo. "Ceder" seria menos ofensivo. Mas "dar" foi exaustivamente utilizado pelas personagens em questão. É com ele que elas costumam pontuar suas aventuras e seus segredos.

Numa mesa de bar com três mulheres: uma carioca, uma mineira e uma paulista. Na faixa dos 30 anos. Profissionais liberais, que moram sozinhas, donas de si. Rodadas. Com alguns matrimônios interrompidos nas costas.

A mineira teorizou. Se você sai com um carinha três vezes, terá que dar na quarta. Seria uma afronta às regras da corte. Afinal, há uma ética no jogo da sedução.

Ela aprendeu com a mãe que é sempre vantajoso para o espelho ter uma legião de admiradores. Mulheres adoram ser paparicadas, lembrou. Se rolar a quarta vez, seu papel de diva a obrigará a ceder aos óbvios interesses masculinos. Se não, perde-se o trono. E, para o horror das mulheres, a maior heresia: será malvista.

A paulista contou. Que no começo do ano saiu com um cara, mas não ficou tão a fim. Não rolou nada. Ele insistiu para que houvesse um outro encontro. Ela dispensou com carinho e educação. Porque sabia que, se desse, ele poderia se apaixonar, e ela não conseguiria encarar tamanho paradoxo. Então, quebrou o encanto já na raiz.

A carioca contou. Que tem filhos, ex-maridos, dois empregos, o que filtra consideravelmente o assédio, para o bem. Se depois de todas as informações, o carinha continua a saga da conquista e ultrapassa as etapas da prova, ela dá. Afinal, um cara como esse merece consideração.

E ela não se preocupará com o grau de paixão do admirador, pois os filhos, os ex-maridos e os dois empregos já trarão muito trabalho pela frente, e será natural o termômetro do amor cair ao nível baixo. Ela dará e se esquecerá naturalmente. E esperará que ele também siga por outra trilha.

As três falavam sem parar o que para elas seguia uma lógica incontestável, comum, apesar do UF de seus documentos serem distintos. Cigarros e mais chopes contribuíam para a enumeração das convicções femininas. Contavam casos esdrúxulos com carinhas sem noção, experiências fracassadas, xavecos tolos, excessos improdutivos.

Enquanto eu, pasmo, só acompanhava em silêncio, com muita pena da minha categoria, dos meus camaradinhas, aprisionada pelas garras da lógica feminina, perdida num mar sem vento. Até a carioca contar a sua última bizarrice:

Foi muito cortejada por um músico que não se dispensa. Daqueles que manipulam as palavras e ideias com capricho, para obter o suspiro incontrolável de uma garota carente, viciada em elogios doces e pensamentos bem encaixados.

Carinha com um tremendo prestígio no meio, idealista, que milita em causas justas. Que se educou no exterior. Cuja produção é sempre bem recebida, premiada, elogiada, invejada. E que fala da alma da mulher, consegue penetrar no desconhecido, seduzir e encantar.

Ela saiu com ele duas vezes. Descobriu, como ela descreveu, que era meio "afeminado", termo incorreto que só utilizamos quando o grau de álcool no sangue beira o nível de ser repreendido numa blitz da Lei Seca. O que foi uma surpresa, já que o currículo do carinha era digno de matéria de capa da revista Vogue. Aliás, ilustrada por algumas de suas conquistas.

Apesar de não corresponder aos elementos da paixão, nem de estar tanto a fim, acabou vencida pela curiosidade. Foi a um motel com o músico-poeta, quando, não mais que de repente, o sangue dele parou de fluir nos dutos do desejo, impedindo a vascularização das veias dorsais e da artéria profunda do seu membro.

O prepúcio não se deslocava, nem a glande se expunha, levando pânico ao córtex cerebral dele, induzindo a uma infeliz, incontestável e categórica broxada!

Dilema da minha amiga. Mesmo não querendo, refletiu diante do fracasso, terei que sair com ele outra vez, não poderei deixar uma mácula no seu inconsciente, sua produção artística será afetada, decairá, seu talento passará a ser questionado, o mercado o considerará o artista promissor que, de repente, do nada, perdeu o eixo.

Ela saiu com ele de novo. Quase por obrigação. Foram ao mesmo motel. Escolheram o mesmo quarto e, no mesmo ambiente, repetiram a coreografia da cobiça. Dessa vez, o chamado corpo cavernoso, ou esponjoso, foi preenchido devidamente pelo pulsar e sangue do macho. Rolou. Ele cumpriu o seu papel. Ela, idem, e disse um penoso adeus, convicta de que a arte não imita a vida.

Neste momento, elas pararam de falar e me olharam indignadas com o meu "não acredito!" Pediram explicações diante da minha exclamação. Queriam minha opinião a respeito do que acabara de ouvir.

Eu disse, sem pestanejar: "Como vocês racionalizam o sexo! Sempre têm explicações, motivos extras. Não é tesão que comanda? Não basta se sentir atraída, ir lá e, como vocês dizem, dar?"

Se seguiu aquele blablablá sonolento das diferenças de gênero, que uma mulher tem que ceder, um homem, apenas penetrar, que uma mulher tem que se abrir, um homem, introduzir, e por aí foi, o mesmo de sempre, apesar de vivermos numa nova era, de a emancipação comandar grandes transformações.

As revoluções não mudaram as explícitas diferenças entre querer e poder. Aliás, qual homem já não escutou "quero, mas não posso", e, em seguida, a promessa de quem sabe numa outra ocasião?

Quantos questionamentos, indecisões, cálculos. O amanhã é muito mais importante para as mulheres do que para nós, machos ligados no aqui e já. Ainda bem que existe a diferença. Se não, esta aliança não teria tanta graça.

Narrei a conversa para uma campineira esclarecida, estudante de filosofia da Unicamp, lésbica, conhecedora do gênero; já foi casada com outra garota.

"Ah, mulher é tão maternal...", justificou. E contou que estava numa festinha de universitários esclarecidos de Barão Geraldo, louca para fumar um baseado. Descobriu que um carinha tinha. Foram até o carro dele, cometer o ato ilícito. No caminho, ela pensava, "terei que dar". Seria uma troca de gentilezas. E foi o que aconteceu. Mulheres...

RUBENS FIGUEIREDO - A presidente Dilma e o governo-conluio



A presidente Dilma e o governo-conluio
RUBENS FIGUEIREDO
O Estado de S.Paulo - 27/08/11

Nem tudo que é bom para o Brasil é bom para o governo. A presidente Dilma Rousseff, ao se empenhar em resgatar princípios republicanos, promovendo a famosa faxina nos ministérios, certamente beneficia o País. Mas, ao mesmo tempo, expõe o ex-presidente Lula e o PT, gerando, de quebra, um imenso descontentamento nos partidos da base aliada. E passa para a sociedade a ideia de um governo instável, imerso em corrupção.

Dilma é cria de Lula, o presidente ídolo, o presidente show, o rei dos discursos, o comunicador talentoso e o pai moderno dos pobres. Em pouquíssimo tempo, Dilma conseguiu imprimir uma marca à sua gestão e criou um estilo todo próprio de conduta. Para alguém que sucede a um fenômeno e era totalmente desconhecida pelo eleitorado há um ano, trata-se de verdadeira epopeia.

O quadro é complexo. A presidente ganhou a simpatia da classe média tradicional, aquele conjunto de cidadãos de escolaridade mais alta e mais informado sobre política. Sua avaliação, entretanto, piorou no conjunto da sociedade, segundo todas as pesquisas recentes divulgadas. Ainda é alta, pois Lula entregou o governo nos píncaros da glória. Mas caiu.

A performance de um governo, entretanto, não é medida apenas pela ação do chefe de governo. Precisa ter projetos, prestar bons serviços, melhorar a vida das pessoas, aprovar leis importantes. Num sistema político de presidencialismo de coalização, no qual os governos são formados com a participação de partidos coligados, fazer uma boa administração significa ter uma excelente relação com os grupos aliados. Um governo paralisado ou em "marcha lenta" jamais será inscrito no rol dos mais eficientes.

Isso criou, no Brasil, a ideia do governo-conluio. Em nome da governabilidade, aceita-se uma pletora de nomeações de políticos de caráter duvidoso e cria-se uma espetacular rede de proteção corporativa, que nos governos anteriores era capitaneada pelo próprio presidente. Combater corrupção, as pesquisas mostram, não é prioridade para a ampla maioria dos eleitores. Pode vir a ser, se a presidente Dilma conseguir dar às suas ações um caráter educativo e convencer a sociedade de que, pelo menos no caso da sua faxina, o que é bom para o Brasil pode ser bom também para o governo.

GOSTOSA


MÔNICA BERGAMO - MARINA NO NINHO

MARINA NO NINHO
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 27/08/11

Marina Silva tenta fortalecer seu projeto político em SP. Ela agendou para a próxima semana conversa com Walter Feldman. Fundador do PSDB, ele anunciou há alguns meses, com estardalhaço, que deixaria o partido. Os dois vão conversar sobre os planos da ex-presidenciável, que devem desembocar na criação de uma nova legenda. Da qual Feldman provavelmente fará parte.

NINHO 2
Feldman integra a equipe do prefeito Gilberto Kassab. Ele é secretário da Articulação de Grandes Eventos. Está em Londres para estudar a preparação da cidade para a Olimpíada. Desembarca de lá na próxima semana para a conversa com Marina.

UMBIGO
José Dirceu foi internado anteontem no hospital Sírio-Libanês. O ex-ministro fez cirurgia para a retirada de uma hérnia umbilical.


Operado por Raul Cutait, já recebeu alta.

SOA O GONGO
Deve acontecer em dezembro a luta entre o americano Evander Holyfield e o brasileiro Raphael Zumbano. O lutador que teve um pedaço da orelha arrancada por Mike Tyson é esperado para defender seu título da Federação Mundial de Boxe contra Zumbano, primo de Éder Jofre. A equipe do brasileiro negocia com patrocinadores para que o combate ocorra em São Paulo ou no Rio.

MENINAS DA VILA
Em seminário sobre adoção na FMU, em SP, o padre Júlio Lancelotti criticou a abordagem do caso das meninas detidas por furto na Vila Mariana. "Estão mais preocupados com a Vila Mariana do que com as meninas, porque ninguém fala das meninas de Cidade Tiradentes, do Campo Limpo, do Jardim Brasil [bairros da periferia]."

SEGUNDA LEVA
A Secretaria de Desenvolvimento quer lançar mais 30 mil vagas no programa Via Rápida Emprego. Os primeiros 30 mil alunos, já selecionados, começarão os cursos de capacitação até setembro.

O TABU PARTE DOIS
Fernando Henrique volta a falar sobre o tema drogas em outro filme, "Cortina de Fumaça", de Rodrigo Mac Niven. "Quando a sociedade começar a discutir mais abertamente a questão das drogas, o político vai sentir a necessidade de se posicionar. Hoje a necessidade dele é de se omitir, não falar na droga. E quando fala é para repetir o tabu", diz o ex-presidente. O longa estreia no dia 15.

DANDO PINTA
O artista Nate Lowman, de 32 anos, ex-namorado da atriz Mary Kate-Olsen, desembarca em SP no fim de setembro. Ele montará a exposição "Em Nome dos Artistas - Arte Contemporânea Norte-Americana na Coleção Astrup Fearnley", na Bienal. Apresentará 15 obras, entre instalações e pinturas que mesclam linguagens e referências da cultura pop.

GLOBAL
A atriz Ana Petta participará da próxima novela das 18h da TV Globo, "A Vida da Gente", dirigida por Jayme Monjardim.

SOM CUBANO
O festival TelefônicaSonidos contou com apresentações do cubano Chuco Valdés e Hamilton de Holanda no seu primeiro dia, na quarta-feira, no Jockey. Os atores Leonardo Miggiorin e Bianca Comparato conferiram os shows.

ROCK NO PALCO
O musical "Hedwig e o Centímetro Enfurecido", com direção de Evandro Mesquita e adaptação de Jonas Calmon Klabin, estreou anteontem no Teatro Frei Caneca.

CURTO-CIRCUITO

A ceramista Hideko Honma e o banqueteiro Viko Tangoda comandam hoje, às 18h30, sopa em prol da Associação Travessia, no Jardim Petrópolis.

Ricardo Kalili faz show hoje na Livraria da Vila do shopping Cidade Jardim.

O bingo da Obra do Berço será amanhã, no Itaim.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

LUIZ VIANNA WERNECK - Quando o passado deixa de iluminar o futuro



Quando o passado deixa de iluminar o futuro
LUIZ VIANNA WERNECK 
O Estado de S.Paulo - 27/08/11

Não foram poucas as vezes em que a obra de Marx e a herança do seu pensamento foram declaradas como peremptas e anacrônicas, não sendo capazes de explicar a natureza do nosso tempo. A queda do Muro de Berlim significaria a demonstração fática de que o augúrio de tantos afinal encontrava a sua confirmação: na melhor das possibilidades, Marx seria um pensador prisioneiro das circunstâncias do século 19 e da filosofia da história de Hegel, com a qual, apesar dos seus esforços, jamais teria conseguido romper.

Sobretudo estaria por terra o princípio que, na sua teoria do materialismo histórico, assentava o primado da instância econômica na determinação da vida social, cujo desenvolvimento o levou a seus estudos sobre o capitalismo em sua obra maior, O Capital, quando identificou o processo de subsunção da economia real ao sistema financeiro como o foco de crises especulativas que o ameaçariam persistentemente de colapso.

Estamos bem longe da queda do Muro e, apesar do diagnóstico, ora vencedor, que condenou Marx ao anacronismo, desde o setembro negro de 2008 o mundo parece estar fora dos seus eixos, vítima dos mecanismos da intermediação financeira, pondo em xeque hegemonias, moedas, conquistas sociais e políticas. Este pós-2008 é diverso dos acontecimentos dos idos de maio de 1968, pois, em vez de gravitar em torno de valores culturais, trata-se de uma crise que, sem deixar de incluí-los, tem o seu epicentro na natureza do sistema capitalista e nas dificuldades que enfrenta para a sua reprodução ampliada. O seu tema dominante não é o dos libertários que, em 1968, bradavam que "é proibido proibir", e o papel dos seus filósofos de ontem tem encontrado o seu equivalente funcional nos economistas de hoje e nos comentaristas versados na crítica da sociabilidade. A matéria é outra: é econômica, falta de emprego e de oportunidades de vida.

Não há observador qualificado da cena contemporânea que se recuse à hipótese de que estamos diante de uma mudança epocal. O capitalismo, mais uma vez, poderá sair renovado da crise atual, mas o preço da sua reprodução parece exigir algo bem além de uma retomada do experimento keynesiano. Os custos de uma saída para os ciclos depressivos se tornam cada vez mais pesados, e já importam a necessidade de uma inédita ordenação do sistema financeiro em escala mundial, com a efetivação de mecanismos de cooperação internacional que a todos obrigue. Estamos longe dos tempos de Hegel, quando se podia conceber a transferência da tocha da civilização de um Estado para outro, e, definitivamente, a China não parece ser o lugar mais adequado para o seu novo endereço.

Aqui, do extremo Ocidente onde nos situamos, e do alto da nossa História bem-sucedida, com seus valores de paz, de comunidade, que, bem ou mal, tem resistido aos avanços da mercantilização da vida social, muito particularmente pela convivência que se soube criar entre diferentes etnias e religiões, todas protegidas constitucionalmente, e pelo fato capital dos nossos êxitos no processo de modernização, estamos dotados de condições para o exercício de voz nos desafios ora presentes no mundo.

Nossas credenciais têm, portanto, um duplo registro: o das ideias e o dos interesses. E o que ainda nos falta é um projeto de nação que se afirme de baixo para cima, rompendo com décadas de modernização pelas vias do pragmatismo, de Vargas a Lula, passando por JK e pelo regime militar, sempre em busca de ajustamento ao mundo. A linguagem da modernização foi e segue sendo a da economia, tudo o mais devendo ceder lugar a ela e aos imperativos de luta contra o tempo na superação do atraso de suas forças produtivas. O desenvolvimento político e social seria sucedâneo do sucesso no front econômico, com que se justificava uma política de tutela das associações dos trabalhadores e o autoritarismo político que confiava às elites na chefia do Estado a missão de nos conduzir, com o pé no acelerador, a novos patamares de acumulação.

A nova época que se abre diante de nós, se imediatamente promete ser de escassez e de destruição criadora de ativos, como dizem os economistas, também pode ser a da oportunidade para a política e para a reconstituição do tecido social, esgarçado depois de décadas de exposição nua aos automatismos do mercado. O tempo é de riscos e de novos rumos. Como disse um grande autor, na História de um povo há momentos em que o passado deixa de iluminar o futuro, como agora, em que a tradição do nosso processo de modernização não nos serve para o enfrentamento da crise atual, que está a exigir um novo repertório, uma vez que o antigo, que nos levaria a uma tentativa de fuga solitária, nos pode excluir ou subalternizar a nossa presença nos fóruns de cooperação internacional de onde deve sair uma nova engenharia para a operação da economia-mundo.

Tal repertório é o do moderno, estimulada a autonomia dos seres sociais e o adensamento da sua participação na esfera pública, especialmente os de origem subalterna, com uma radical desprivatização do Estado, lugar do interesse público e da universalização de direitos, e da afirmação, inclusive no cenário internacional, da democracia como um valor universal. Ainda imersos em trevas, como na metáfora de Tocqueville, o autor há pouco citado, aqui e ali se distinguem riscas de luz, tênues, é verdade, como na liberação de poderes públicos capturados, por meio de uma intermediação política não republicana, por interesses privados, e no encontro, em São Paulo, da presidente Dilma com líderes e importantes personalidades da oposição.

Aí podem estar sinais de que a estratégia da presidente estaria considerando a possibilidade de fazer frente à crise com a política do moderno.

O CRIME COMPENSA!


SERGIO AUGUSTO - O Grande rio dos mitos



O Grande rio dos mitos
SERGIO AUGUSTO 
O Estado de S.Paulo - 27/08/11

Tomo emprestado o título de um recente artigo do poeta, ensaísta e romancista colombiano William Ospina sobre o rio Amazonas e seu "descobridor", o conquistador espanhol Francisco de Orellana, cujos 500 anos não estão passando em branco na Espanha, nem em alguns dos nove países que integram a região amazônica. Apesar de ter ficado com o maior quinhão da jungla, o Brasil não é um deles. Nestas paragens, o único Orellana de quem ainda (e cada vez menos) ouvimos falar é o homônimo bode da caatinga criado pelo Henfil.

Somos um povo desmemoriado e acintosamente ignorantes do passado de nossos vizinhos, mesmo daqueles também banhados pelas águas do rio-mar. Se muitos de nós conhecem a origem cita da palavra Amazonas e a identidade de quem assim o batizou (o rei espanhol Carlos I), bem menos gente sabe que, além de Rio Grande e Mar Dulce, o Amazonas também foi chamado de Rio da Canela. E a Amazônia, por conseguinte, de País da Canela.

Atrás da cobiçada especiaria cingalesa, também abundante naquela região segundo a lenda, aventureiros e emissários reais viraram comida de onça, piranha e silvícolas. Baseado nos relatos que testemunhas oculares como o frei dominicano Gaspar de Carvajal legaram aos pósteros, William Ospina escreveu O País da Canela, segundo volume de uma trilogia sobre as primeiras viagens dos conquistadores ibéricos pelo Amazonas no século 16, prêmio Rómulo Gallegos de Ensaio em 2009. O anterior, Ursúa, publicado quatro anos antes, tampouco foi traduzido aqui.

Apesar de protagonista do segundo volume, Orellana é, cronologicamente, o primeiro "herói" da trilogia. Em vez de ir só atrás da canela, como seu chefe Gonzalo Pizarro (meio-irmão mais jovem de Francisco Pizarro, conquistador do império incaico), Orellana enfrentou mil e um perigos, inclusive as flechas venenosas das icamiabas, as guerreiras da Amazônia (e futuras "destinatárias" daquela satírica carta de Macunaíma), na tentativa de descobrir e subjugar Akator, a mítica Cidade de Ouro, vulgarmente conhecida como Eldorado. É uma proeza lato sensu fabulosa, iniciada em Quito e fermentada por uma traição, que terminou em novembro de 1546, quando Orellana morreu refazendo o caminho inverso, a partir da foz do Amazonas.

Vinte anos depois da expedição de Orellana, veio a de Pedro de Ursúa, que cometeu dois erros: levar a bordo de seu bergantim a mulher mais bonita do Peru, a mestiça Inês de Atienza, com suas donzelas, e o nada confiável Lope de Aguirre, que afinal sublevou a tripulação, provocando a morte de Ursúa e Inês. Essa sangrenta aventura deu início ao ciclo literário de Lope de Aguirre, inspiração de inúmeros poetas e cronistas (destaque para o jesuíta equatoriano Juan de Velasco e para o sevilhano Juan de Castellanos, autor do poema mais extenso da língua espanhola, Elegías de Varones Ilustres de Índias), escritores (Ramón J. Sender, Miguel Otero Silva), historiadores (Ospina, Cristóbal de Acuña) e até cineastas (Werner Herzog e Carlos Saura).

Os filmes chegaram até nós, e pelo menos o de Herzog (Aguirre, A Cólera dos Deuses) circula agora em DVD; dos livros, porém, só encontrei o de Acuña, Novo Descobrimento do Grande Rio das Amazonas, 1641, traduzido pela Agir 17 anos atrás, já esgotado.

Atrás de Eldorado também veio o coronel britânico Percy Fawcett, já no século passado, quando exploradores e arqueólogos haviam tomado o papel dos conquistadores. Instigado pelo documento de um anônimo bandeirante do século 18 sobre a existência de uma cidade de ouro no meio da floresta, Fawcett desapareceu misteriosamente em 1925, sem achar a sua "lost city of Z". Em 1952, o então repórter Antonio Callado foi ao Xingu verificar se uma ossada lá encontrada era mesmo do coronel (não era), resultando dessa incursão uma bela reportagem ensaística, Esqueleto na Lagoa Verde, editada pela Cia. das Letras, que também traduziu Z, A Cidade Perdida, do americano David Grann, prestes a virar filme com Brad Pitt no papel de Fawcett.

A literatura do labirinto amazônico é um amplo diálogo de mitologias, que começa na antiga Grécia (com o mito das amazonas) e termina em Hollywood (com Indiana Jones e seu "muiraquitã" de cristal, em forma de caveira, não de jacaré). Com heróis e vilões reais e imaginários, sucessores de Orellana, Ursúa e Aguirre, entre os quais se sobressai a figura de Luís Galvez, autoproclamado "imperador do Acre" na virada do outro século, nenhuma outra selva atraiu tantos visionários, predadores, estudiosos (o naturalista berlinense Alexander von Humboldt, o etnólogo alemão Theodor Koch-Grünber, que inspirou Mário de Andrade a escrever Macunaíma, o antropólogo canadense Wade Davis, autor da mais caudalosa história do rio, One River) e influenciou tantos artistas (de Julio Verne a Vargas Lllosa, passando por Villa-Lobos, Rómulo Gallegos e os demais já citados).

Davis teve seu esplêndido ensaio sobre o vodu no Haiti, A Serpente e o Arco-íris, editado pela Zahar em 1986, mas One River, já no Kindle por US$ 11.99 e há tempos acessível em língua espanhola, permanece inédito na língua de Ceci. Nesse limbo acumulam-se obras que Ospina considera fundamentais para um melhor entendimento do multilinguístico e superlativo mundo que espanhóis e portugueses encontraram entre as geladas montanhas andinas e as águas do Atlântico e tentaram dominar a ferro e fogo, obras que nunca lemos e provavelmente nunca leremos.

MARCO AURÉLIO NOGUEIRA - Oito meses e alguma turbulência



Oito meses e alguma turbulência
MARCO AURÉLIO NOGUEIRA
 O Estado de S.Paulo - 27/08/11

Há bons motivos para avaliarmos positivamente os primeiros meses do governo Dilma Rousseff, sobretudo se se considerarem as reais possibilidades de atuação com que contou. Empurrado e legitimado pelas urnas de 2010, ele se iniciou num momento em que o País estava com a moeda estabilizada, reduzindo a miséria e expandindo o mercado interno, graças à ampliação do crédito popular, aos programas de transferência de renda e à recuperação do emprego. Encontrou, portanto, uma sociedade animada pelos mecanismos consumistas típicos da modernidade atual, ou seja, uma sociedade menos solidária e mais competitiva, que extrai desta sua nova condição o oxigênio necessário para se relacionar de outro modo com o Estado. É uma sociedade que continua pedindo garantias, direitos e proteção, mas também aprofunda sua inserção nas trilhas da despolitização e passa a ver o mundo em termos mais mercantis, aliviando parcialmente a pressão sobre o Estado.

A face política e administrativa do Estado, por sua vez, se não corrigiu por inteiro seus problemas crônicos (ineficiência, inchaço, custo elevado, despreparo), também não piorou. A representação continuou como sempre, com uma classe política que deixa a desejar. A administração permaneceu contagiada pela dinâmica gerencial que se vem afirmando desde a reforma de 1994. Além do mais, está hoje submetida a um maior grau de fiscalização por parte da opinião pública, fato que a torna mais transparente e mais passível de controle. A corrupção não cresceu, mas sua percepção aumentou, o que faz com que denúncias se sucedam e o combate a ela passe a fazer parte da agenda pública e da agenda governamental.

Não é por outro motivo que os oito meses iniciais do novo governo foram vividos sob o signo da instabilidade ministerial. A fraqueza da equipe é flagrante. Ministros saíram por motivos relacionados a desvios de conduta ou a inabilidade. O Ministério não parece funcionar.

Parte dessa instabilidade se vincula à herança recebida por Dilma, que está longe de ser uma "herança maldita", como se ouve dizer em alguns ambientes. De qualquer modo, é um fardo. Aquilo que beneficiou a então candidata nas eleições de 2010 - o apoio de Lula, as realizações governamentais, as alianças feitas com o intuito de fornecer "governabilidade", a base parlamentar -, tudo isso, de repente, parece voltar-se contra o novo governo, dificultando sua arrumação. Afinal, cada presidente precisa imprimir sua própria marca ao governo que dirigirá, e nesse terreno não pode haver simples transferência de esquemas ou continuidade passiva, por mais que Dilma e Lula sejam carne da mesma carne e integrem o mesmo partido.

Não deveria estranhar, portanto, a existência de certos "ajustes de contas" entre os apoiadores do novo governo ou mesmo entre alas do PT. Nos primeiros oito meses esses ajustes foram tão intensos e eloquentes que ofuscaram planos e programas de ação do governo. O quadro acabou por ensejar certa confusão. O Brasil sem Miséria, por exemplo, complementa ou compete com o Bolsa-Família, é uma sua requalificação ou representa a abertura de outra frente de batalha, com distinta lógica e distintos protagonistas?

O legado dos oito anos de Lula não deu trégua aos oito meses de Dilma. Não poderia ter sido diferente. O período Lula imprimiu uma inflexão na vida nacional, seja pelo choque simbólico derivado da biografia de Lula e de seus traços carismáticos, seja pelas novas alianças que produziu, especialmente as que levaram a uma espécie de pacto informal entre o trabalho e o grande capital, seja, enfim, por sua própria agenda pessoal. Não deve ser fácil governar com a sombra de uma liderança popular que se recusa a sair de cena e espera o momento certo para retornar ao palácio. O esforço para se livrar dessa sombra ou, ao menos, neutralizá-la deve ter consumido boas horas de sono no Palácio do Planalto.

Muita gente acreditou que poderia pautar o governo com a ideia de "limpeza ética". A presidente reagiu à altura, e não sem razão. A meta de seu governo, disse, não é fazer "faxina" em ministérios suspeitos de corrupção, mas "fazer o País crescer e combater a pobreza". Há quem pense que o combate à corrupção deveria ocupar o centro da ação governamental, como se só pudesse haver bom governo depois que todos os corruptos fossem presos. Alguns se esquecem de olhar para o próprio quintal e outros imaginam que o governo é a fonte geradora de tudo o que há de errado no País. Falta bom senso por aí.

Uma coisa é combater a corrupção, outra é transformá-la na razão de ser da ação governamental. No primeiro caso, faz-se uma luta política cotidiana que não paralisa o governo. No segundo, o combate é moralista e "espetacular", atrapalhando a ação governamental. Achar corruptos é fácil, governar bem, difícil. Uma coisa não explica a outra. Um governo não é bom só porque combate a corrupção e não é mau só porque mantém prudência na luta contra ela. Como tudo na vida, virtus in medio est.

O equilíbrio demonstrado até agora pelo governo tem sido seu melhor alimento. A situação não lhe é totalmente favorável, há ventos soprando forte pelos lados da economia, a maioria parlamentar não é confiável e falta ao governo maior poder de articulação, seja em seu próprio interior e no âmbito das relações com os demais poderes, seja junto à opinião pública e à sociedade civil. O barco conta com uma timoneira tecnicamente qualificada e disposta a liderar o período governamental que terá pela frente. Sua densidade política, porém, ainda é baixa e ela dispõe de poucas bases próprias. Trata-se de uma situação que talvez nos ajude a entender as razões que mantiveram o governo enredado num matagal de pequenas questões.

O momento é de atenção. Tanto porque as águas em que navega são turbulentas quanto porque amigos, inimigos e adversários estão à espreita, prontos para subir ao palco.

GOSTOSA


RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA


De Gleisi para o PGR
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 27/08/11

Em carta enviada ontem ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, Gleisi Hoffmann pergunta se foi lesiva ao erário a operação que lhe permitiu receber R$ 41 mil de multa ao deixar a diretoria de Itaipu, em 2006, para concorrer pela primeira vez ao Senado pelo Paraná. O valor, equivalente a 40% do saldo de seu Fundo de Garantia à época, foi liberado embora a petista tenha saído da empresa por iniciativa própria.
Na consulta endereçado ao PGR, a ministra da Casa Civil se declara disposta a devolver o dinheiro, se o Ministério Público entender que houve prejuízo aos cofres públicos. Nesse caso, ela pede ainda que se defina o índice de correção para a restituição.


Vacina Com a medida, Gleisi se antecipa à bancada do PSDB na Câmara, que na próxima semana entrará com representação na Procuradoria-Geral acusando a ministra de ter se beneficiado de pagamento indevido. Para o líder tucano, Duarte Nogueira, a prática configuraria improbidade e peculato.

Números Pouco mais de duas semanas após ter reunido seu conselho político para tratar da crise financeira internacional, Dilma voltou a convocar o colegiado de líderes e presidentes de partidos aliados para uma conversa, nesta segunda. Espera-se que a presidente exponha as linhas básicas do Orçamento-2012, a ser enviado ao Congresso dois dias depois.

Senta aqui Diante da romaria de autoridades do governo, petistas e aliados ao QG de Lula, a sede do instituto do ex-presidente começa a ser conhecida como "sofá-geral da República".

Pano rápido Como voar a bordo de jatinhos de empresários é prática disseminada entre parlamentares, há um esforço geral para minimizar a revelação de que Marco Maia (PT-RS) circulou pelo país a bordo de aeronaves da Unimed. Em privado, porém, os colegas criticam o presidente da Câmara por ter apresentado diferentes versões para se justificar.

Cadeado Com a votação suspensa por falta de quórum, a proposta que retira a Corregedoria da Polícia Civil do gabinete do secretário Antonio Ferreira Pinto (Segurança Pública) tranca a pauta da Assembleia paulista e ameaça adiar a discussão de projetos de interesse de Geraldo Alckmin (PSDB). Na fila estão os reajustes salariais dos policiais e dos servidores das escolas técnicas.

Onde pega O texto que exige mais celeridade é o do aumento da remuneração da polícia, já que o índice será retroativo a julho.

Chave Para desobstruir os trabalhos, o governador terá de apelar ao aliado Campos Machado (PTB). Autor do projeto que rachou a base governista, o deputado é quem pode pedir sua retirada temporária da pauta.

Base legal O governo paulista dispõe de parecer, redigido pela Procuradoria Geral de Justiça, que sustenta a legalidade do decreto assinado por José Serra e que determinou a transferência da corregedoria, até então acoplada ao delegado-geral, para a alçada do secretário.

Calendário Apesar de prometido por Alckmin para 2015, o trem regional SP-Jundiaí consta no plano plurianual enviado pelo governador à Assembleia com apenas 13% de meta de implantação no atual mandato.

Pop O ministro Alexandre Padilha (Saúde) será a estrela do ato festivo no qual o PT de Ribeirão Preto filiará hoje o juiz aposentado João Agnaldo Gandini, ex-algoz de Antonio Palocci e hoje pré-candidato à prefeitura.
com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio

"A derrubada do veto criará uma cisão entre vitoriosos e vencidos, com reflexo em outras votações de interesse do governo. O caminho tem de ser o do entendimento."
DO GOVERNADOR RENATO CASAGRANDE (PSB-ES), sobre a preocupação dos Estados produtores de petróleo com possível mudança na divisão dos royalties.

contraponto

Eterno picadeiro


Durante a recente cerimônia de relançamento da Frente Parlamentar do Esporte, o deputado Popó de Freitas (PRB-BA), uma vez empossado presidente, quebrou o protocolo e chamou o colega Tiririca (PR-SP), que estava na plateia, para compor a mesa.
O palhaço dirigiu-se ao palco, cumprimentou o boxeador e, tomando o microfone, repetiu um dos seus bordões mais conhecidos:
-Eu fui convidado a subir aqui e não poderia deixar de aceitar, senão eu iria mooooorrreerrr!

MÍRIAM LEITÃO - Um erro perigoso



Um erro perigoso
MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO - 27/08/11

A inflação está em 7,1% em 12 meses. A de serviços chegou a 8,8%, sem contar alimentação fora de casa. Se isso entrar na conta, a taxa vai a 9,4%. No ano que vem o País terá um choque de custos pelo aumento de 14% do salário mínimo. Mesmo assim, há uma coalizão de ministros da área econômica - com reforços de economistas até de fora do governo - querendo pressionar o Banco Central a baixar os juros já.

Os juros deveriam cair, eles de fato estão muito altos. O Brasil perdeu boas oportunidades de derrubar mais as taxas. Contudo, a presidente Dilma não deve passar a ideia de que os juros são decididos em outras instâncias ou esferas que não o Banco Central; nem que ela decide aconselhada por economistas que têm histórico de pouco se importar com a alta da inflação. Esse erro ela não deve cometer porque seria um bumerangue. Se ficar consagrada a impressão de um BC dócil a outros ministérios ou submetido a análises de pessoas estrangeiras ao governo, a aposta será em inflação cada vez mais alta. Se todos apostarem que não há Banco Central e que a taxa vai subir, ela subirá. A presidente perderá todo o esforço, que custou muito, de criação de reputação do Banco Central autônomo em seu governo. Os juros subiram cinco vezes em cinco reuniões. Infelizmente, não é ainda a hora de derrubar a taxa.

A inflação em 12 meses vai cair no último trimestre do ano. Essa é a previsão de todos, inclusive do Banco Central. Só que depois virá o ano que vem, com a pressão da fórmula negociada do salário mínimo que, inevitavelmente, impactará a inflação de serviços e os gastos previdenciários. A fórmula prometida tem sim que ser cumprida. O que o governo precisa é dimensionar o impacto do choque na inflação e nas contas públicas, para neutralizar com corte em outros gastos.

O ideal é que não corte em investimentos mas em gastos de custeio. Dos investimentos, o País precisa para manter o crescimento, de preferência que sejam investimentos com uma análise mínima de custo/benefício. Algumas das obras do governo não fizeram tal exercício e podem virar buracos sem fundo e sem juízo.

A hora não é de cometer erros. O mundo está em meio à turbulência e no terreno da incerteza. Os Estados Unidos estão com baixo crescimento; a Europa, com risco de calote; o Japão, em recessão. Nós estamos dependentes de que a China continue encomendando preços altos de commodities, porque isso mantém o superávit comercial. Por mais desejável que seja a alta do dólar, se acontecer de repente ela pode provocar vários efeitos colaterais. O economista José Roberto Mendonça de Barros analisou, num vídeo que sua consultoria disponibilizou, que hoje muitas empresas brasileiras estão mais dependentes de componentes e matérias-primas importados. Caso haja uma virada brusca do câmbio, muitas empresas, inclusive indústrias, serão prejudicadas. O melhor é que um novo patamar do câmbio se dê mais devagar, como consequência da queda de juros. O problema é que a taxa não pode ser decidida de nenhuma outra forma que não seja autonomamente pelo Banco Central, para que o efeito não seja oposto ao desejado.

Um dos argumentos dos que defendem a pressão sobre o Banco Central é que, como o crescimento está caindo, o problema inflacionário está resolvido. Infelizmente, não é simples assim. Uma das piores conjugações que acontecem na economia é de crescimento em queda e inflação em alta. Ocorre com frequência. A queda do ritmo do PIB por si só não garante que a inflação ficará controlada. Do contrário, ela não estaria subindo na morna economia dos EUA.

O remédio agora é fiscal. O Brasil não deve se enganar com a alta do superávit primário divulgado ontem. Nem tudo que reluz é ouro. O superávit subiu porque as receitas subiram e em alguns casos com arrecadação extraordinária, como os quase R$ 5 bilhões pagos pela Vale na discussão judicial que a empresa decidiu abrir mão. Os gastos que caíram foram apenas os investimentos. E isso não é bom. Uma das razões da redução do investimento foi a paralisia nos Transportes, provocada pelas demissões em série no DNIT e a queda do ministro.

Há quem garanta que a situação fiscal é excelente porque relativamente a outros países o Brasil parece sólido. Mas é bom lembrar que ele permanece tendo déficit, mesmo no ano passado, em que cresceu 7,5%. O Brasil não aproveitou o melhor momento para zerar o déficit. Deveria ter feito isso, porque agora teria mais espaço para a política fiscal.

Este é um ano em que a conjuntura internacional está mudando constantemente e os riscos são desconcertantes. O mundo das moedas e dos ativos financeiros oscila ao sabor das corridas das grandes massas de capital, formando bolhas. A ameaça de uma recessão global é concreta. O governo deve controlar seus gastos - que já subiram 11% este ano - reforçar investimentos, abrir espaço para a queda dos juros. O que não pode é seguir a receita de achar que o problema inflacionário está resolvido, reduzir os juros para garantir o crescimento, e achar que os indicadores fiscais - porque estão melhores que em tantos países - são sustentáveis. Nenhum país pode elevar indefinidamente as despesas do governo acima do crescimento PIB.

BRAZIU: O PUTEIRO


CELSO MING - A classe média ganha força



A classe média ganha força
CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 27/08/11

O tão esperado pronunciamento de Ben Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), feito ontem em Jackson Hole, espalhou desapontamento pelos mercados. Ele não prometeu nenhuma novidade capaz de virar o jogo perdedor da economia americana. Apenas repetiu o que o último comunicado do Fed já apontara: caso seja necessário, colocará em marcha os mecanismos disponíveis.

Na verdade, é improvável haver mecanismos disponíveis fora ou dentro do Fed. O Tesouro americano, por exemplo, está paralisado pelo endividamento excessivo e a alta dos impostos parece difícil, numa paisagem em que o consumidor também está atolado em dívidas. Já o Fed está paralisado por não poder injetar ainda mais recursos nos mercados: os juros rastejarão, ao menos, até meados de 2013 e isso já indica enorme abundância de dinheiro na economia. Como não conseguem ou não querem correr o risco de elevar ainda mais o crédito, os bancos americanos estão guardando US$ 1,6 trilhão no próprio Fed. Ou seja, novas injeções de recursos na economia não acionariam nem o consumo nem o setor produtivo; tenderiam a parar no caixa dos bancos que, por sua vez, aumentariam suas reservas no Fed.

Como fica o Brasil ante a estagnação dos países ricos, portanto, ante sua baixa capacidade de importar? Dá para contar com as encomendas de alimentos e matérias-primas da China, se a própria China apoiou o crescimento de sua economia nas exportações para o Primeiro Mundo?

Ontem, no 5.º Congresso Internacional de Mercados Financeiro e de Capitais, realizado pela BM&FBovespa em Campos do Jordão, o ex-diretor do Banco Central e economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, explicou que a China e outros emergentes tendem a desenvolver mais seu mercado interno do que a seguir voltados para as exportações. E isso pode indicar que as exportações brasileiras, fortemente voltadas para os asiáticos, não serão gravemente prejudicadas pela paradeira dos países ricos. Mas ele não descartou um cenário de ruptura da economia global que imponha um custo mais alto, também, para a economia brasileira. Isso aconteceria se sobreviesse um grave naufrágio bancário na Europa como o do Lehman Brothers, de 2008.

Bem mais otimista, o professor Marcelo Cortes Neri, da Fundação Getúlio Vargas, avisou que, desde 2003, nada menos que 50 milhões de emergentes - "mais do que uma Espanha" - foram incorporados ao mercado de consumo. Só no Brasil, 13,3 milhões de pessoas não só aumentaram seu poder aquisitivo, mas também melhoraram a qualidade de vida, com incremento da educação, acesso à informação e emprego com carteira de trabalho assinada. Para Neri, não é uma mudança episódica, mas, sim, uma virada consistente, que garante uma capacidade de resistência sólida dos emergentes à crise mundial.

Assim, o Brasil tem uma peculiaridade especial: ser o campeão da tabela de felicidade futura. Forte otimismo e alto grau de confiança permeiam a sociedade brasileira e ajudam a empurrar a economia.

Mas há um lado ruim. Difundem certa aversão às reformas e à necessidade de preparar a economia para os próximos anos. Pior: tendem a estimular demais o consumo e a desencorajar a poupança. Por isso, tendem a reduzir a capacidade de investimento que, em seguida, garantiria maior capacidade de crescimento econômico e de emprego.

CLAUDIO J. D. SALES - Verdades inconvenientes



Verdades inconvenientes
CLAUDIO J. D. SALES
O Estado de S.Paulo - 27/08/11

Um dos temas mais polêmicos que recaem sobre o governo atual envolve a definição sobre o que será feito com as concessões de energia que começam a vencer a partir de 2015. São inúmeras usinas, linhas de transmissão e distribuidoras que carecem de rápida definição sobre seu destino porque suas concessões envolvem planejamento e financiamento de longo prazo.

Conceitualmente, o governo tem duas alternativas: renovação da concessão para o atual concessionário ou relicitação da concessão para empresas estatais e privadas, dentre as quais o atual concessionário poderia ser um dos competidores.

Seria bom que o processo de tomada de decisão governamental fosse baseado em alguns princípios: contestação pública, respeito a contratos e à regulação vigente, isonomia competitiva e promoção da eficiência. Tudo em prol de um princípio maior: o interesse público.

Se o governo puser o interesse público como prioridade, sua decisão precisa sair da arena política e se basear em critérios técnicos e econômicos, porque cada tipo de concessão (geração, transmissão ou distribuição) implica uma análise diferente.

Para a geração e transmissão de energia, talvez seja mais fácil para o governo argumentar a favor da retomada da concessão seguida de licitação, porque para esses dois elos um leilão seria um mecanismo de contestação pública que permitiria verificar se há outros interessados em operar aquela usina ou linha de transmissão por menor custo. Aliás, é sempre bom deixar a ideologia de lado e esclarecer que: 1) licitar não é "privatizar", porque uma estatal pode ser a vencedora do leilão; e 2) o próprio concessionário atual poderia vencer o leilão.

Mas isso não quer dizer que os "cálculos" propagados por alguns grupos de pressão estejam corretos. Cada concessão é um caso diferente e seu valor de reversão (valor que é devolvido ao concessionário atual no caso de retomada da concessão pela União) precisa cobrir os investimentos ainda não amortizados. O valor de reversão precisa ficar longe de palanques eleitorais.

No caso das distribuidoras de energia, o raciocínio pode ser diferente, porque as distribuidoras já têm sido submetidas, a cada quatro anos, a um processo de contestação pública: as revisões tarifárias periódicas conduzidas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Como não haveria rendas inframarginais a serem extraídas numa eventual licitação, para esse elo da cadeia haveria um argumento a favor da renovação. Se esse for o caminho, o governo novamente precisará olhar para cada concessão de forma individual e, se optar pela renovação onerosa, deverá calibrar muito bem a regra para definir a tarifa de forma a manter a concessão equilibrada e capaz de fazer frente às necessidades de investimento.

Como se vê, a decisão é complexa e não é possível criar uma regra geral. Cada concessão precisará ser individualmente analisada. Talvez seja por isso que o governo esteja sendo cauteloso nas suas declarações, atitude louvável porque dá indícios de que não haverá politização da questão.

A sobriedade e a serenidade do governo, no entanto, contrastam com o comportamento de outros grupos, e o assunto começa a tomar uma direção perigosa: o populismo em prol de interesses eleitorais e pessoais. Mas isso não é surpresa: o mesmo grupo de pressão que acaba de iniciar massiva campanha publicitária já deu mostras no passado de que, quando se trata de assuntos do setor elétrico, sua estratégia é a de nutrir os mitos, porque a realidade não atende a seus interesses.

Os formuladores de políticas públicas precisam se isolar das pressões de pequenos grupos e pensar com um olhar de longo prazo que beneficie toda a sociedade. O governo tem uma ótima oportunidade para provar que fatos ainda valem mais do que slogans de campanhas publicitárias milionárias e para dar um sinal inequívoco: o setor elétrico não deve ser plataforma de alguns políticos em busca de uma "causa" para as próximas

WALTER CENEVIVA - Ficção no equilíbrio dos Poderes



Ficção no equilíbrio dos Poderes
WALTER CENEVIVA
FOLHA DE SP - 27/08/11

O artigo 2º da Constituição Federal afirma um belo ideal, mas a prática diária não o confirma


O ARTIGO 2º da Constituição Federal diz que, no Brasil, os Poderes da União (Legislativo, Executivo e Judiciário) são independentes e harmônicos entre si. A regra vale, em cada Estado, para sua organização interna e seus municípios. Pergunto ao leitor: em sua opinião, o que a Carta Magna afirma é verdade para o país, para seu Estado ou para seu município? Em outras palavras: é verdade que deputados e senadores, no nível federal, que deputados e vereadores, na órbita estadual e municipal, agem em favor do bem comum, livres de toda ingerência pelo Executivo, assim preservada a harmonia?
Tendo submetido a questão, sinto-me obrigado a antecipar minha opinião. Entendo que o artigo 2º da Constituição Federal afirma um belo ideal, mas a prática diária não o confirma. A história da política nacional -que no Império sustentava o predomínio do imperador, sendo, por isso mesmo, muito criticado- continua valendo, embora em outro regime. Na atualidade, o Legislativo (nos três níveis de governo) tende a aceitar a ingerência do Executivo e a se compor com ele. Quando vereadores, deputados e senadores se candidatam, nos Estados, a maioria deles afirma sua independência em face dos futuros presidente, governador e prefeito. Já tive ocasião de dizer que, eleitos, logo passam -seja qual for seu partido, salvo poucas exceções- a se compor com o Executivo. Estimulam trocas para satisfação dos desígnios deste, mudando a lei como quem muda de camisa. Parece exagero, mas, do menor município ao Estado mais rico, é frequente que, instalados os respectivos órgãos do Legislativo, logo seus componentes passem a "jogar" com o Executivo. Daí saem dois grupos estando com a maioria e a minoria dos que aprovam tudo.
Se no seu município e no seu Estado a perspectiva desenhada no parágrafo anterior for verdadeira, o resultado estará a dizer que a tripartição dos poderes não é suficiente para assegurar a efetiva representação do interesse dominante. Aquele no qual o leitor dedicou seu voto, como vigoroso oposicionista, "troca" (digamos assim) posições e aprovações por cargos e outras vantagens, as mais diversas, algumas até mesmo legítimas.
Se for verdade que o Legislativo -das Câmaras municipais, das Assembleias estaduais e dos órgãos federais-"compõe" com os desejos e com as forças do Poder Executivo, a tripartição dos poderes é sistema superado, jogo de palavras a ser corrigido. E a relação do Executivo com o Judiciário? O juiz atua sempre com olhos para a prática da Justiça, quando está em jogo o interesse definido pela autoridade administrativa? Por exemplo, ao impor que o Poder Público pague suas dívidas?
Reconhecido que os três Poderes não são harmônicos e independentes entre si (ressalvadas sempre as proverbiais exceções), teremos de admitir que a repartição deles em três segmentos já não satisfaz o interesse do povo, cuja garantia democrática depende, de modo imperativo, da livre autoridade entre os que legislam, os que executam as leis e os que julgam. Independência para aprimorar ideias.
Nesse caso, a Constituição estaria afirmando uma realidade inexistente. Realidade que todos nós temos o dever de corrigir, mudando o sistema ou sanando os defeitos do atual. Como? A resposta só em outra coluna.

GOSTOSA


PAULO PICCHETTI - Alta externa de commodities impacta a inflação no Brasil


 Alta externa de commodities impacta a inflação no Brasil
PAULO PICCHETTI
 FOLHA DE SP - 27/08/11

A possibilidade de nova recessão nas grandes economias tomou um papel central na discussão de conjuntura nas últimas semanas. Um dos desdobramentos desse cenário seria a reversão na tendência de aumentos dos preços das várias commodities no mercado internacional.
A desaceleração já ocorre, com diferentes intensidades, refletindo fundamentos dos mercados distintos.
De forma geral, podemos olhar para um indicador agregado como o Índice Reuters-CRB de Commodities (CCI), composto pelos preços internacionais de produtos agrícolas, metais e combustíveis.
Para separarmos variações de curto prazo de tendências mais representativas, podemos olhar para variações nos valores mensais comparados com os mesmos períodos de anos anteriores.
Na crise de 2008/9, por exemplo, o CCI chegou a cair 30,7% em abril de 2009 ante o mesmo mês de 2008. A recuperação de 2010 devolveu parte dessa queda: em abril de 2010, o CCI estava 29,5% acima do de abril de 2009.
Esse movimento de alta continuou forte até maio de 2011, quando o CCI mostrou elevação de 43,1% sobre o mesmo mês do ano anterior.
Desde então, as variações mensais com ajuste sazonal acumularam queda de 6,3% entre maio e julho, sendo o acumulado em 12 meses até julho 29,4% maior do que o de julho de 2010.
Uma questão importante são os desdobramentos desse movimento de preços externos sobre os preços internos. A relação mais direta pode ser sentida no Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPPA), um dos componentes do Índice Geral de Preços (IGP) da FGV.
Em termos quantitativos, podemos estimar o impacto desse movimento dos preços internacionais das commodities sobre os preços no atacado no Brasil, usando um modelo econométrico especificado de forma a captar as relações dinâmicas entre o IPPA e seu próprio passado, e com os valores contemporâneos e defasados do CCI.
Com uma amostra de janeiro de 1999 a julho de 2011, esse modelo mostra que os impactos das variações do CCI sobre as variações do IPPA são distribuídos ao longo de cinco meses, ao término dos quais o IPPA absorve 58% das variações do CCI.
As perspectivas do impacto da redução do crescimento econômico mundial sobre a desaceleração dos preços internacionais têm então um desdobramento positivo pelo menos na dinâmica esperada da evolução dos preços no Brasil.
O desafio da política econômica é aproveitar esse lado positivo do cenário internacional de forma a minimizar os efeitos negativos da desaceleração do nível de atividade associados a ele.

PAULO PICCHETTI, 48, doutor em economia pela Universidade de Illinois, é professor da EESP/FGV e coordenador do IPC-S/Ibre/FGV.

PAUL KRUGMAN - O problema Perry de Bernanke



O problema Perry de Bernanke
PAUL KRUGMAN
O Estado de S.Paulo

Uso o governador do Texas como símbolo da intimidação política que está matando nossa última esperança de recuperação econômica


No momento em que escrevo isto, investidores de todo o mundo estão ansiosamente à espera do pronunciamento de Ben Bernanke na reunião anual do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) em Jackson Hole, Wyoming. Eles querem saber se Bernanke, que é o presidente do Fed, anunciará novas políticas que poderiam tirar a economia americana do que está parecendo, cada vez mais, um estado quase permanente de demanda deprimida e desemprego alto.

Mas eu levarei um susto se Bernanke propuser alguma coisa significativa - isto é, alguma coisa capaz de causar um sério impacto no desemprego ou oferecer algum impulso sério ao crescimento.

Por que não espero muito de Bernanke? Em duas palavras: Rick Perry.

Ok, não pretendo dizer que Perry, o governador do Texas, está pessoalmente bloqueando o caminho de uma política monetária eficaz. Não ainda, pelo menos. Estou usando Perry - que famosamente ameaçou Bernanke com consequências pessoais tétricas se ele der prosseguimento à política monetária expansionista antes da eleição de 2012 - como um símbolo da intimidação política que está matando nossa última esperança de recuperação econômica.

Para entenderem o que estou falando, perguntemos que políticas o Fed realmente deveria estar seguindo neste momento.

Obviamente, a economia americana permanece deprimida, e, em condições normais, poderíamos esperar que o Fed a estimulasse cortando juros. Mas as taxas já estão perto de zero. Então, o que o Fed pode fazer? Bem, em 2000, um economista chamado Ben Bernanke apresentou algumas propostas para uma política no "limite zero". É bem verdade que o estudo estava focado na política do Japão. Mas os EUA estão hoje numa armadilha econômica muito parecida com a do Japão, só que mais grave. Assim é que aprendemos muito ao perguntar por que Ben Bernanke 2011 não está seguindo o conselho de Ben Bernanke 2000.

Naquela época, Bernanke sugeriu que o Banco do Japão poderia colocar a economia do país em movimento com várias políticas não convencionais.

Essas poderiam incluir: compras de dívida do governo de longo prazo; um anúncio de que os juros de curto prazo permaneceriam perto de zero por um longo período; um anúncio de que o banco estava buscando uma inflação moderada, o que estimularia o empréstimo e desencorajaria as pessoas de entesourarem dinheiro; e "uma tentativa de conseguir uma desvalorização substancial do iene".

Estaria Bernanke no caminho certo? Penso que sim - e deveria pensar, já que seu estudo se baseou em parte sobre meu próprio trabalho anterior. Então, por que o Fed não está seguindo a agenda que seu presidente um dia recomendou ao Japão?

A resposta maior passa ao largo da pressão política. No ano passado, o Fed realmente instituiu uma política de comprar dívida de longo prazo, conhecida como "afrouxamento quantitativo". Mas ele enfrentou um tranco político absolutamente desproporcional a seu efeito modesto sobre a economia, culminando na declaração de Perry de que um novo afrouxamento monetário antes da eleição de 2012 seria "quase traiçoeiro", e que se Bernanke fosse em frente e o fizesse, "nós o trataríamos muito mal lá no Texas".

Agora imaginem só a reação se o Fed agisse nas outras e, possivelmente, mais importantes partes daquela agenda de 2000 de Bernanke, mirando uma taxa mais alta de inflação e saudando um dólar mais fraco. Com republicanos proeminentes como o deputado Paul Ryan já denunciando políticas que alegadamente "desvalorizam o dólar", um incêndio político estaria garantido.

Portanto, agora vocês veem por que não espero algum anúncio de política substancial em Jackson Hole. Em 2000, Bernanke acusou o Banco do Japão de sofrer uma "paralisia autoinduzida". Bem, agora o Fed está sofrendo uma paralisia externamente induzida. Aliás, ele tem sido politicamente intimidado a se omitir enquanto a economia estagna. E isso é uma coisa muito, mas muito ruim.

A oposição política aleijou a política fiscal. Em vez de ajudar a criar empregos, o governo está recuando, agindo como um obstáculo à produção e ao emprego. Com o Fed intimidado até a inação, é difícil ver algum fim para o desastre econômico em curso. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

DILMA CABEÇA OCA


SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Porta fechada?
SONIA RACY
O ESTADÃO - 27/08/11

A Comissão de Ética Pública ligada à Presidência enviou recomendação a BC, BB, CEF e BNDES. Nela, pede para que seus servidores, quando afastados por qualquer justificativa, não atuem em consultorias privadas. E avisa que, se o fizerem, poderão sofrer punições.

O objetivo é impedir o repasse de informação privilegiada.

Porta 2

A recomendação vai bater fundo. Qualquer servidor licenciado não poderá mais trabalhar fora do sistema público, por exemplo.

O que a comissão quer é inibir a chamada porta-giratória, caracterizada como "exercício de atividades profissionais realizado de forma intermitente".

Porta 3

Diferentemente do que se pensa, a comissão lembra que defendeu a instauração de procedimento administrativo contra Palocci.

Número 2

Depois de Marisa Letícia, especula-se, em São Bernardo do Campo, que Luís Cláudio, filho de Lula, seria candidato a vice de Luiz Marinho em 2012.

Alta fonte da prefeitura garante, porém, que não há qualquer discussão nesse sentido. A tendência é manter Frank Aguiar, apesar do assédio dos demais partidos aliados.

De placa

Santista, Alckmin foi ontem à festa de 97 anos do Palmeiras. E levou a tiracolo seus sete secretários alviverdes. Para reunir a porcada, convocou um corintiano roxo, Fábio Lepique, seu secretário particular.

Gasparzinho

Braço direito de Marina Silva, Alfredo Sirkis, que continuou no PV para não perder o mandato, vem sendo perseguido pela direção nacional do partido.

Foi vetado de participar de programa de TV dos verdes no Rio.

Gasparzinho 2

Mesmo tendo hostilizado os tucanos em breve período como governador, Claudio Lembo intercedeu para que inaugurassem seu retrato no mural do Bandeirantes.

Vai entrar para a história na quinta-feira.

Arte ilimitada

Bernardo Paz está em costura avançada para transformar Inhotim em polo cultural mais acessível do que é hoje. Quer montar estrutura turística com rede hoteleira e aeroporto. O idealizador do museu a céu aberto tem conversado com empresas interessadas no projeto. As obras do primeiro hotel já estão em curso.

Paz quer fazer também um centro de convenções, um teatro e uma concha acústica.

Back on track

Luis Fabiano está ansioso para voltar aos gramados. A depender do otimismo da equipe que cuida do jogador, sua reestreia não deve demorar. A previsão é que o "Fabuloso" seja escalado semana que vem.

Tríade dura

Emma Thompson, Kate Winslet e Rachel Weisz se engajaram a favor do envelhecimento natural. As atrizes inglesas criaram a Liga Britânica Contra a Cirurgia Plástica e andam anunciando, em alto e bom tom, que jamais cederão ao bisturi.

Tipo exportação

Rodrigo Pederneira, coreógrafo do Grupo Corpo, empresta seus talentos à Limón Dance Company. A trupe dança no Sesc Vila Mariana neste fim de semana, como parte do Teatro Stage Fest.

Os ensaios começam no dia 28 de novembro, em Nova York.

Na Luz

Grande mostra de Saul Steinberg está prestes a chegar a São Paulo, mais precisamente à Pinacoteca. Cerca de 100 desenhos, incluindo quatro murais, serão exibidos em conjunto pela primeira vez no Brasil.

24 horas

Parece que começa a dar certo. Desde que o telefone do Disque-Denúncia foi estampado nos caixas eletrônicos, o serviço recebeu 48 ligações anônimas relacionadas a ataques contra as máquinas. A média é de um chamado por dia.

Batizado

Mais um posto de gasolina de São Paulo foi cassado anteontem pela Operação De Olho na Bomba. Segundo a secretaria da Fazenda, já são 68 as autuações este ano por causa de combustível adulterado no Estado.

Como ainda estamos em agosto, a marca de 2010 (66 postos autuados) pode deixar saudade...

Direto de Miami

Paula Barreto havia prometido um roteiro perfeito para entregar a Sonia Braga. Revelou à coluna, em Miami, durante o Brazilian Film Festival, que encontrou. Acaba de comprar os direitos de A Casa dos Budas Ditosos, que terá roteiro do próprio autor, João Ubaldo Ribeiro. Direção? O escolhido foi Roberto Talma.

E Fabio Barreto começa a recuperar os movimentos das mãos e do tronco. O diretor de Lula, o Filho do Brasil está em coma desde dezembro de 2009, quando sofreu um acidente de carro.

Adriana Dutra, da produtora Inffinito, lança em setembro o Midiafundmarket, site de crowdfunding voltado exclusivamente ao mercado audiovisual. Como funciona? Produtores postam seus projetos e buscam gente interessada em patrociná-los. "Uma alternativa para pequenos e médios investidores", explica.

Assunto mais comentado do festival? O furacão Irene. Toniko Melo, diretor do filme VIPs, andava tão nervoso que até ameaçou "fugir" para NY. Ou seja, justamente para onde a tempestade está indo... Por aqui, a "moça" só assanhou o mar e provocou um dia inteiro de chuva.

Convidados que seguiam de van para a exibição de filmes do festival testemunharam o terror de Ney Latorraca. "Gente, me convidaram para gravar um programa dia 11 de setembro... em Nova York", anunciou, quase saltando da poltrona. E emendou: "Acho que não vou, não! Vou tentar transferir para dia 10 ou dia 12".

Já Maria Arlete Gonçalves, presidente do júri do festival, machucou o pé. E teve de voltar para casa antes do fim do evento. Vai acompanhar tudo à distância.

Na frente

Denise Fraga lê poemas hoje no lançamento da revista IDE Psicanálise e Cultura, na Livraria da Vila da Lorena. Publicação editada pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

A trajetória de Cledorvino Belini, Fábio Barbosa e Luiz Seabra virou três livros. Lançamento segunda, no Grand Hyatt.

Fause Haten abre Fause em Curtas, hoje, no MIS. Idealizada pelo estilista, a mostra faz parte da programação do Festival Internacional de Curtas-Metragens de SP.

O bar Original comemora 15 anos, segunda-feira, com festa fechada.

Da internet: revelado o motivo pelo qual o MAC/USP não quer mudar sua coleção para o prédio do Detran. Corre o risco de ela sair do anonimato e ser descoberta pelo público.

FERNANDO RODRIGUES - Imagem é tudo

Imagem é tudo
FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 27/08/11

Acabou a faxina que foi sem nunca ter sido. Ficou o ganho de marketing para a presidente Dilma Rousseff. Publicações internacionais andam infestadas de interpretações sobre a atitude 'firme' da petista na sua luta contra a corrupção e os maus costumes. Quem anda por Brasília por dever do ofício sabe que as demissões de ministros e de servidores ocorreram mais por inevitabilidade do que por desejo específico e determinação do Palácio do Planalto.

Dos quatro ministros demitidos, um (Nelson Jobim) caiu por falar em demasia e desagradar a presidente. Os demais saíram por terem as entranhas reveladas pela mídia e não por investigação do governo. Aliás, os fatos pendentes no Ministério do Turismo e no das Cidades têm octanagem equivalente aos "malfeitos", como prefere Dilma, dos já demitidos. Mas agora, basta. A presidente mudou a escala com a qual mede a corrupção.

Brasília entrou numa fase de boatos e expectativas. Não há meio de antever o resultado de inúmeras investigações em curso. Fatos graves ficaram mais visíveis durante a fase "política zero" de Dilma. A presidente se eximiu de arbitrar as desavenças do cotidiano da micropolítica. As informações tomaram seu curso natural, até a mídia. Aos poucos, tudo será apurado e publicado – quando houver veracidade. O efeito é imprevisível. Daí o clima de fim do mundo às vezes sentido entre os políticos no Congresso.

É cedo para fazer juízos definitivos. A força centrípeta do Planalto é imensa. O negócio do governo, qualquer governo, é produzir adesões em série. Mas quem imaginaria em janeiro que Antonio Palocci cairia da Casa Civil em junho? Por enquanto, resta apenas o ganho de imagem para Dilma. Ao produzir a miragem de que faria uma faxina sem limites, a presidente atraiu o apoio até de tucanos ilustres, como FHC e Alckmin. Com uma oposição assim, tão dócil, fica bem suave a tarefa de governar.

CLÁUDIO HUMBERTO


"Faxina na pobreza substituirá faxina na corrupção?”
SENADOR ÁLVARO DIAS (PSDB-PR) QUESTIONANDO A PRIORIDADE DA PRESIDENTE DILMA

MAIA ‘DO JATINHO’ RECEBEU CHEFÃO DA UNIMED
A opção preferencial pelo jatinho da Unimed para uma suposta viagem  grátis pode ser só uma coincidência na vida do presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS). Ao se defender das acusações, afirmou desconhecer dirigentes da gigante dos planos de saúde, mas ele recebeu no gabinete, em fevereiro, o presidente da Federação das Unimeds, José Abel Ximenes, e noticiou a reunião no site da Câmara.

TRÊS PODERES
Ximenes apresentou o novo “modelo de atuação” da Unimed no Legislativo, Executivo e Judiciário, seja lá o que isso signifique.

MILHAGEM 
Maia justificou que vai pagar a conta do voo particular na Uniair, a transportadora da Unimed, que também freta jatinhos a particulares.

PENSANDO BEM... 
...o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), usou jatinho da Unimed para uma “emergência parlamentar”.

CASA ARROMBADA 
O governo federal gastou R$ 2,3 milhões com chaveiros em 2010, segundo o Portal da Transparência. A tendência é aumentar muito.

ESPORTE: MINISTÉRIO PREFERE FORNECEDOR MAIS CARO 
O Ministério do Esporte vai pagar R$ 58 milhões para o consórcio Johnson-Controls/Dex instalar câmeras de vigilância nas arquibancadas dos estádios para a Copa de 2014. O curioso é que o segundo colocado, uma empresa brasileira, ofereceu o mesmo serviço e de qualidade similar por R$ 13 milhões a menos. O ministério informou que a escolha foi feita “por combinação entre técnica e preço”.

APITO FINAL 
A FGV foi contratada para os serviços de planejamento, orçamentação, seleção e acompanhamento da execução de estudos.

PARA ESCANTEIO 
A comissão de licitação fez diligências nas ofertas e escanteou a Fundação Getúlio Vargas, cujos relatórios não tiveram vez no leilão.

CIRURGIA 
O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu se submeteu em São Paulo a uma pequena cirurgia de hérnia inguinal. Recebeu alta e está em casa.

DECISÃO TOMADA 
O governador do DF, Agnelo Queiroz, bateu o martelo: vai ordenar o início da construção do centro administrativo entre Taguatinga e Ceilândia, a 26 km de Brasília. A obra será tocada em parceria público-privada. O governo pagará R$ 12,6 milhões mensais por vinte anos.

NATUREZA MORTA 
A influência do ex-ministro Antonio Palocci continua viva no Palácio do Planalto. Petistas o chamam de “nosso melhor quadro”, mas Dilma não quer manter o quadro na parede. Não gosta de natureza morta.

RODA BAIANA 
Um deputado do PMDB comentou, desolado, que Dilma não rodou entre todas as mesas, durante o jantar no Palácio do Jaburu. Deu só adeuzinhos de longe. “Pelo menos não rodou a baiana”, consola-se.

USO E ABUSO 
Lula ensinou a seus ministros a voarem daqui para lá em jatinhos. É campeão nesse abuso. Mas como ele prescreveu a última edição do Código de Ética do Funcionalismo Público, não é mais abuso. É uso.

É DE ARAQUE
A Câmara Legislativa do DF decretou fim do nepotismo, dois anos depois da decisão do Supremo Tribunal Federal, mas a medida só vale para parentes de servidores estáveis. Parentes comissionados serão poupados, como a assessora do presidente cuja tia é concursada.

VOA QUEM PODE 
A portaria 3016/88 determina que inspetores da aviação devem viajar como tripulantes, sem pagar passagem. Já a Anac, compra passagens nas agências de viagens contratadas. Sem “vaga”, há dias, um inspetor “achou” voo e passagem no mesmo dia, pela internet. Na Continental.

TEORIA DA EVOLUÇÃO
O deputado estadual Magno Bacelar (PV-MA) defendeu o uso do helicóptero, perguntando se Sarney iria “andar em jumento”. Seria caso para criação de uma CPI de Darwin, se ocorresse o contrário.

POR QUE NÃO TE CALAS? 
O líder do PT na Câmara, Cândido Vacarezza (SP), teve seu momento Ofélia na tribuna da Câmara, há dias, dizendo que nem na época do pré-impeachment de Collor o plenário convocou ministro a depor.

PENSANDO BEM... 
...há mais políticos no ar que aviões de carreira.

PODER SEM PUDOR
VINGANÇA 
Líder do PTB na Assembleia Legislativa de São Paulo anos atrás, Campos Machado fazia marcação cerrada a parlamentares ligados ao MST. Um dia, um deputado do PT ligado aos sem-terra resolveu ir à forra:
– O pessoal vai invadir a sua fazenda, lá em Lins...
– Como vocês sabem que tenho fazenda em Lins?
– Temos as nossas informações... – respondeu o petista, sorrindo.
– Então invadam! – desafiou o líder do PTB.
De fato, no dia seguinte o MST invadiu a tal fazenda em Lins, depredando tudo. achado se divertiu muito: sua fazenda era outra, no Vale do Ribeira.

SÁBADO NOS JORNAIS


O Globo: Interventor encontra ralos para corrupção na Conab

FOLHA: Alerta sobre furacão tira 272 mil de casa em NY

O Estado de S. Paulo: Prefeitura de SP sofre fraude recorde

Correio Braziliense: Justiça proíbe Câmara de pagar supersalário

Estado de Minas: 100 anos de perigo

Zero Hora: Protesto e vandalismo de PMs por salários constrangem quartéis