domingo, julho 31, 2011

JANIO DE FREITAS - As marcas do atraso

As marcas do atraso
JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 31/07/11

Privilégios resolvidos há tanto tempo nos países medianamente civilizados ainda são inamovíveis aqui


SOB A CHUVA DE gente do Ministério dos Transportes, ocorre, quase em silêncio, uma tripla coincidência muito representativa do que ainda é este Brasil que já se acha entrado no mundo desenvolvido.
Os exatos 50 anos do escândalo de indignação nacional causado pela aprovação do recesso parlamentar remunerado, que os congressistas se deram em 1961 nos então cafundós de Brasília, ocorre quando os congressistas de hoje voltam de um desses recessos. E, de quebra, o próprio presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça, Cezar Peluso, propõe, sob protestos da classe, a redução dos 60 dias de férias+recesso do Judiciário para os 30 dias de férias comuns aos demais que trabalham (categoria, está visto, em que não se incluem, com duas dúzias de exceções, os congressistas).
Diz-se que 50 anos são um nada na história. Mas a transformação pode dar-se em 50 anos é toda uma história. A aprovação do recesso parlamentar remunerado se fez sob estímulo de Juscelino interessado em aplacar, por acúmulo de benesses e privilégios, as iras de políticos, funcionários e famílias com a mudança precipitada para a Brasília ainda em andaimes. Como reação, por ser o projeto considerado inconstitucional, o presidente da Comissão de Constituição e Justiça, deputado Oliveira Brito, um dos mais importantes no partido de Juscelino, renunciou ao cargo. E, pelo mesmo motivo, foi seguido por todos os componentes da comissão.
Agora, mas não de hoje, só se imaginariam renúncias contra o fim, em perfeita harmonia com a Constituição, de um qualquer dos privilégios componentes do acúmulo indigno gozado pelos congressistas.
Já quanto ao recesso do Judiciário, os argumentos das associações de magistrados contrárias à iniciativa do ministro Peluso estão longe de convincentes. As tensões e responsabilidades dos que julgam são acompanhadas, por exemplo, pelas dos cirurgiões, as dos que ficam 12 e mais horas no desconforto e nas apreensões de uma cabine de pilotagem, as dos obstetras, e as de tantas outras atividades em que mal há as férias normais. E, entre estas, aquelas nas quais os vencimentos e as aposentadorias integram as formas de injustiça e mesmo de humilhação.
Apesar disso, o princípio de apoio à proposta de Cezar Peluso, constatável pelas cartas de leitores aos jornais, só será justo -como convém em relação ao Judiciário- caso se desenvolva sem deixar intocado o recesso remunerado dos congressistas. Estes, que já se davam poucos ares de quem está ocupado com sua atividade formal, na atual legislatura reduziram ainda mais a sua presença semanal em Brasília. E, se lá estão, é sobretudo para buscar e transacionar cargos no governo, de ministro às terceirizações de serviços modestos. Votações? Não importa em que sentido, só se já passadas por transações que não dependem do teor e dos efeitos da coisa a ser votada.
As disparidades, privilégios e deformidades mais simplórias, resolvidas há tanto tempo, senão séculos, nos países medianamente civilizados ou mais, ainda são inamovíveis no Brasil que se regozija é com a exportação de soja, os lucros dos bancos e da Vale, e, claro, com o cassino da Bolsa e do dólar -como atestam, todo dia o dia todo, TV, rádios e jornais.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Batismo de fogo
RENATA LO PRETE
RANIER BRAGON - INTERINO
FOLHA DE SP - 31/07/11

Na imersão a que pretende submeter Fernando Haddad nas zonais paulistanas, o PT cuidará de aproximá-lo de líderes católicos para eliminar vestígios do boicote pregado por parte da cúpula da Igreja aos petistas na campanha de 2010 -subestimado pelo partido à ocasião. Já próximo do padre Rosalvino Viñayo, de Itaquera, o ministro da Educação estará com d. Angélico Bernardino, da Brasilândia.

A despeito da resistência interna à candidatura de Haddad à prefeitura da capital, dirigentes avaliam que Lula, seu mais obstinado cabo eleitoral, ainda não entrou em campo para colocá-lo definitivamente no páreo. "Quando ele mergulhar de cabeça, ninguém segura", afirma um grão-petista.

Parceria 
Os presidentes do DEM, José Agripino (RN), e do PSDB, Sérgio Guerra (PE), vão se reunir para discutir a política de aliança entre os dois partidos nas eleições municipais e a estratégia de atuação no Congresso até o fim do ano.

Lupa 
A fama de detalhista de Dilma Rousseff se espalha. Assessores garantem que são poucas as listas que não passam por sua mão: de convidados a almoços a acompanhantes nas viagens no Aerolula. Em alguns casos, ela mandou desconvidar assessores previamente escalados para reuniões.

Balanço 
Restou apenas um nome indicado por Alfredo Nascimento no Ministério dos Transportes, em Brasília, a chefe da Consultoria Jurídica, Yolanda Corrêa Pereira. Nos Estados, continuam os afilhados Sílvio Romano (Docas do Maranhão), Afonso Lins (Dnit do Amazonas) e Sebastião Reis (Hidrovias e Portos da Amazônia).

A sós 

O presidente de Furnas, Flávio Decat, conversou com Edison Lobão (Minas e Energia) na quinta. Quem sabe do riscado afirma: Decat já avisou a Luiz Hamann, diretor financeiro de Furnas e ligado ao líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), que é grande a pressão para substitui-lo por Paulo Sérgio Petis.

Na gaveta 

O senador Walter Pinheiro (PT-BA) disse que vai cobrar em plenário, nesta semana, que o governo coloque para votar ou retire o regime de urgência do projeto de acesso à informação, que acaba com a possibilidade de sigilo eterno de documentos. A tramitação do texto está barrada por Fernando Collor (PTB-AL), presidente da Comissão de Relações Exteriores.

Delay 
Foi na sexta-feira de manhã que Nelson Jobim (Defesa) deu os primeiros sinais de que a "ficha" caíra. Até então, quando questionado sobre a declaração de voto em José Serra, ele se limitava a rebater com um "o que eu fiz de errado?".

Documento 

Diante da movimentação de Paulo Skaf para se firmar como "Plano B" do PMDB para a eleição paulistana, a direção do partido em São Paulo pretende cobrar do presidente da Fiesp uma declaração pública, gravada, de apoio à pré-candidatura de Gabriel Chalita à prefeitura.

Fiel da balança 
Se o câmbio é o problema do momento para Dilma, a valorização do real ajuda o governo paulista a fechar no azul. Projeções da equipe econômica de Geraldo Alckmin indicam sobra orçamentária de R$ 2,9 bilhões em 2011. O incremento na receita se deve, em grande parte, ao ICMS recolhido sobre importações.

Do contra 
Depois da CUT anunciar que recorrerá à Justiça contra a concessão de aeroportos à iniciativa privada, proposta anunciada pelo governo Dilma, a Força Sindical prepara um documento a favor da medida.

com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio
"O PR e o PMDB são aliados há anos, mas fica claro que o PMDB não é o PR. Como o PR poderá não ser o PMDB em 2012."
DO DEPUTADO LUCIANO CASTRO (PR-RR), sobre manifestações de peemedebistas tentando desvincular a sigla do PR, alvo da faxina promovida pela presidente Dilma Rousseff nos Transportes.

contraponto
Mamão com açúcar

Em reunião na quinta-feira para tratar da melhora nas condições de trabalhadores arregimentados para grandes obras, como as das hidrelétricas de Rondônia, o ministro Carlos Lupi (Trabalho) recebeu da associação das empresas de construção e de centrais sindicais proposta conjunta de portaria com as novas regras. Bem-humorado, parafraseou o ex-chefe, inclusive imitando o tom de voz de Lula:
-Nunca antes na história desse país isso aconteceu: eu receber uma portaria tão de mão beijada!

BRAZIU: O PUTEIRO

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - Fada Boa contra Fada Má

Fada Boa contra Fada Má
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
O GLOBO - 31/07/11

O jantar anual da associação dos correspondentes estrangeiros em Washington é uma oportunidade para políticos locais dizerem coisas que normalmente não diriam e rirem de si mesmos. Começando pelo presidente da república, que é sempre convidado a falar e sempre fala no tom auto-depreciativo que se espera de um cara legal, gente como a gente. Num desses jantares mostraram um clip, especialmente gravado para a ocasião, do George Bush no gabinete da presidência olhando dentro de gavetas, atrás das cortinas e embaixo dos móveis e dizendo “Aquelas armas de destruição em massa têm que estar em algum lugar...”. Seria mais engraçado se a invasão do Iraque ordenada por Bush, motivada pelas armas de destruição em massa que não estavam lá, já não tivesse matado alguns milhares de pessoas. No mesmo jantar Bush fez outra piada simpática. Falou da elite econômica americana, dos milionários e dos arrogantes barões de Wall Street, “que vocês chamam de gatos gordos e insensíveis e eu chamo de...meu eleitorado”. Risos. Palmas. O cinismo faz muito sucesso nos tais jantares.
Bush não decepcionou seu eleitorado. Foi fiel à tese de que deixando os gatos gordos se lambuzarem com concessões e privilégios, como cortes dos seus impostos e pouco controle dos seus excessos, algum benefício escorreria para a maioria. A famosa “trickle-down economics” da era Reagan ainda perdura, e Bush tornou o melado ainda mais doce para os ricos. Essa briga entre os republicanos e o Barack Obama sobre elevar ou não o teto para o endividamento americano e como fazer para diminuir o deficit nacional é – ou era, imagino que já tenha se resolvido, ou dado empate – entre o legado de Bush e a mínima obrigação do Obama de defender o seu eleitorado do poder da ganância. Um lado quer diminuir o deficit cortando gastos sociais e mantendo intocados os privilégios dos ricos, o outro quer manter os gastos sociais e taxar mais os ricos.
O Obama não está sendo, no governo, exatamente o que seu eleitorado esperava. Compreende-se, tem que ser mais flexível do que coerente para lidar com um congresso hostil e cuidar da sua sobrevivência, não só política mas – a julgar pela retórica cada vez mais furiosa da direita contra ele – física também. Mas na questão de quem deve pagar pelo deficit nenhuma flexibilidade era possível. Tratava-se de escolher entre leite para crianças e mais lucro para banqueiros, Fada Boa contra Fada Má.
Mas estou escrevendo antes do desfecho da briga, não sei se o Baraca cedeu. As Fadas Boas andam em recesso no mundo todo.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Diz que está torcendo pelo companheiro, mas quer que se contunda”
EX-PRESIDENTE LULA, AO AFIRMAR QUE A OPOSIÇÃO NÃO PODE AJUDAR O GOVERNO

BRASIL PERMITE A “INVASÃO” COLOMBIANA 
As forças policiais da Colômbia e do Brasil poderão fazer operações em territórios alheiros, inclusive aéreas, na faixa de 150 km de fronteira, nos casos de perseguições e outras ações. É um dos acordos que serão oficializados no Plano Nacional de Fronteiras nos dias 4 e 5 de agosto. O vice-presidente Michel Temer vai à Cabeça do Cachorro, no Noroeste do Amazonas, para assinar o tratado com autoridades do país vizinho.

LÁ E CÁ 
O maior objetivo do tratado é coibir o trânsito livre de traficantes de drogas na região, que andam e voam tranquilamente por lá.

¿Y YO? 
O perigo é o porralouca do Hugo Chávez, da Venezuela, querer um trato. Seus caças russos Sukhoi são mais potentes que os teco-tecos da FAB.

CONTA SUJA 
Novo golpe na internet: link malicioso em e-mails e redes sociais para acessar supostos dados confidenciais de Dilma, hackeada mês passado.

RIO ABERTO 
Hotéis do Rio estão mais interessados no turismo gay. Nos Estados Unidos, o turismo LGBT movimenta US$ 70 bilhões anualmente.

JOBIM SE LIGOU A GRUPO DO PMDB CONTRA DILMA 
Além de elogiar FHC e de revelar que votou no tucano José Serra, o ministro Nelson Jobim (Defesa) há algum tempo faz o que a presidente Dilma chamou de “provocação idiota”: frequenta reuniões de um grupo de senadores do PMDB que se opõe ao governo. O sonho de Jobim é ser lançado pelo séquito à Presidência. Mas Nelson Jobim também é considerado “inconfiável” pelas novas vestais do PMDB.

VESTAIS 
Fazem parte dos “puros” do PMDB Pedro Simon (RS), Luiz Henrique (SC), Eduardo Braga (AM) e Jarbas Vasconcelos (PE), entre outros.

DIFERENÇA$ 
No primeiro semestre de 2011, os homens com educação superior completa ganharam em média R$ 3.015,23. Elas, R$ 1.818,14. 

ZERO KM 
Os senadores vão trocar de carro, de novo. Os 81 Fiat Marea, de 2003, a maioria em ótimo estado, vão ser leiloados até dezembro.

EDUCAÇÃO PARA TEMER 
Ronda o imaginário palaciano que o plano do vice Michel Temer (PMDB) para Gabriel Chalita, ao lançá-lo pré-candidato a prefeito de São Paulo, é herdar o Ministério da Educação num acordo futuro com petistas, que lançarão na disputa o atual ministro da pasta, Fernando Haddad.

ANOTE AÍ! 
Ex-diretora da Anac, Solange Vieira pressiona o atual chefe da agência, Marcelo Guaranys, para nomear seu amigo José Carlos Ferreira para um cargo de superintendente no órgão, o altar para um servidor de carreira.

CAMINHO DO MAL 
O Ministério Público Federal denunciou o prefeito de Sena Madureira (AC), Nilson Areal. Ele não prestou contas de R$ 1,7 milhão recebidos do Dnit. A verba foi usada – ou não – na urbanização da BR-364.

BOLETIM VERMELHO 
Dilma concede mais bolsas, mas a situação é preocupante. Só 170 mil brasileiros concluíram o ensino superior através de bolsas do Prouni, do total de 863.778 bolsas distribuídas. Ou seja, apenas 19%. 

GLEISI DE SAIA JUSTA 
A ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) está numa saia justa. Foi à Federação das Indústrias do Paraná ciceroneada pelo presidente da entidade, Rodrigo Rocha Loures, candidato à reeleição em agosto. Mas o concorrente é o ex-federal Ricardo Barros (PP), também aliado do PT.

FESTA NO “APÊ” 
Contam os convivas que o superintendente do Aeroporto de Brasília, Antonio Erivaldo, realiza todos os dias ao fim do expediente rodadas de uísque, vodca e vinho na sala de autoridade do aeroporto. 

TOBOGÃ PALACIANO 
Até o ministro Orlando Silva (Esporte) está empurrando morro abaixo o presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Incentivando o subordinado, com um sorriso de cândida aeromoça, está a presidente Dilma Rousseff.

SEM DIVISAS 
Ao almejar a prefeitura de Luziânia (GO), o ex-governador do DF Joaquim Roriz mira também o governo de Goiás. Ele ainda estuda se filiar ao PSDB ou PMDB. Até o fechamento da coluna, estava no PSC.

PENSANDO BEM... 
O Dnit deveria ser Demitidos Não Interrompem Trambicagens. 

PODER SEM PUDOR
CONSPIRAÇÃO 
O senador José Jorge (PFL-PE) usava a palavra, na CPI dos Bingos, mas parecia querer a atenção do relator da comissão, senador Garibaldi Aves (PMDB-RN), que conversava com o colega e conterrâneo Agripino Maia (PFL). José Jorge não perdeu a piada:
– Devem estar conspirando contra o Fernando Bezerra (senador do PTB-RN), para ver quem será o governador...

DOMINGO NOS JORNAIS

- Globo: Quatro órgãos públicos repetem vícios do Dnit

- Folha: Comando do Exército é alvo de ivestigação

- Estadão: País não pode 'ficar para trás' na guerra cambial, diz Mantega

- Correio: O sonho de ser brasileiro

- Estado de Minas: As vítimas de Julho

- Jornal do Commercio: Usuário vira refém de planos de saúde

- Zero Hora: Polícia desativa primeiro laboratório de óxi no RS

sábado, julho 30, 2011

CELSO MING - Um plano para o calote

Um plano para o calote
CELSO MING
O ESTADÃO - 30/07/11
Algumas pessoas ficaram escandalizadas com a disposição do governo dos Estados Unidos de dar prioridade ao pagamento dos credores e de deixar para saldar as demais despesas com o que sobrasse das receitas.


Para melhor entender o que aconteceu: na última quinta-feira, porta-vozes do Tesouro dos Estados Unidos avisaram que, em caso de fracasso do governo americano em obter do Congresso uma autorização até a data limite, a próxima terça-feira, para elevar o teto atual da dívida federal, de US$ 14,3 trilhões, seria instituído um plano de contingência para enfrentar a pilha de despesas. O Tesouro arcaria primeiro com todas as suas obrigações com pagamento dos juros e resgate de títulos. Se faltar dinheiro, os compromissos com a dívida não seriam caloteados.


Quem achou esquisita essa política de eventual contingenciamento entendeu que o governo americano prefere atender aos interesses imediatos dos banqueiros e aplicadores do mercado financeiro em títulos do Tesouro, deixando para atender às necessidades dos mais pobres somente quando for possível.


Antes de mais nada, não está claro ainda se haverá calote e nem se este seria preferencialmente aplicado sobre as despesas sociais. De tudo quanto se conhece, os últimos pagamentos a fazer seriam os de fornecedores de serviços contratados. Afora isso, é um equívoco compreender que o pagamento aos credores financeiros caracterizasse uma perversa inversão de prioridades.


Nas condições atuais, o Tesouro dos Estados Unidos, organismo que lida com a arrecadação e com o pagamento das despesas, opera com um rombo de mais de US$ 100 bilhões por mês, que é o quanto as despesas excedem as receitas. Para cobrir a diferença, o governo americano tem de levantar empréstimos, o que se faz pela emissão de títulos ou notas do Tesouro. Mesmo que a gestão Barack Obama consiga aprovar um programa de austeridade, o déficit vai continuar, ainda que, provavelmente, alguma coisa mais baixo.


A partir do momento em que fosse criado o precedente de que o Tesouro dos Estados Unidos deixasse de honrar títulos de sua dívida, uma profusão de investidores deixaria de manter esses títulos em carteira. Ou seja, a capacidade de colocação de títulos da dívida americana ficaria, irremediavelmente, danificada e, nessas condições, mais prejudicada ainda seria a capacidade de o governo americano executar quaisquer políticas, inclusive as sociais.


Um leitor pergunta: "Se possuem a moeda mais respeitada do mundo, por que os Estados Unidos não pagariam o déficit com emissão de dólares?".


Bem, não é o Tesouro que emite dólares. É o Federal Reserve (Fed, o banco central americano). É claro que, numa emergência, o Fed poderia instalar um dolarduto entre ele e o Tesouro e instituir, dessa maneira, uma espécie de conta movimento - que era o que existia no Brasil até 1986, entre o Banco Central e o Banco do Brasil - este último encarregado de pagar as contas do governo federal. Mas, além de uma feroz inflação, estaria encarecendo os títulos de dívida (que se tornariam mais escassos em relação ao volume de dólares disponíveis no mercado).


A dívida pública do Brasil continua caindo em relação ao PIB. No entanto, como o PIB deste ano não vai mais avançar tão rapidamente como em 2010 (deve ficar nos 4%), mais à frente, a dívida pública tende a crescer.


Foi pior. Além de apontar um avanço do PIB americano no segundo trimestre mais baixo do que o esperado, o Departamento do Comércio dos Estados Unidos apontou uma revisão para baixo do crescimento do PIB em 2008 (-0,3%, em vez de 0,0%) e em 2009 (-3,5%, em vez de -2,6%).

JORGE BASTOS MORENO - NHENHENHÉM - A Dilma que "eles" escondem da gente


A Dilma que "eles" escondem da gente
JORGE BASTOS MORENO - NHENHENHÉM
O Globo - 30/07/2011

Todos vocês já devem ter visto aquele famoso vídeo do YouTube da Dilma dando a maior bronca no Guido Mantega, com o bordão "engole o choro". Todos nós nos perguntamos: qual teria sido a reação da Dilma? Ela vê essas coisas? A própria presidente conta para vocês aqui:

- O Guido veio despachar comigo e abriu o laptop: "Quero te mostrar uma coisa." Achei que era mais um desses gráficos que ministros adoram mostrar para presidente ver que eles estão trabalhando mesmo. Mas, para minha surpresa, era esse vídeo do YouTube, que eu ainda não tinha visto. Quando comecei a ver e ouvi o "engole o choro", fiquei numa saia-justa: não sabia se ficava séria ou caía na gargalhada. Não resisti. Pessoas às vezes chegam aqui até indignadas: "Você viu sua imitação neste ou naquele programa de televisão?" Eu adoro! Chico me botando para cobrar pênaltis foi o máximo.

- Só não pode baixar o nível - ponderou a ministra Helena Chagas, a dos cabelos cacheados.

- Mas, Helena, a própria sociedade reage a isso. Não porque seja eu. Com todos a sociedade reagiria da mesma forma. Ela não aceita isso. Então, não somos nós, governos, que vamos tentar controlar isso.

Isso soa Mônica Salmaso aos ouvidos da democracia.

FH

O fato político mais importante destes sete meses do governo Dilma, para mim, é esta resposta de FH à citação de seu nome na entrevista da presidente a esta coluna.

Na resposta, FH pede que o PSDB apoie o governo Dilma no combate à corrupção.

"Também eu, nas conversas que tive com a Dilma, sempre a notei atenciosa, gentil e diria mesmo que simpática. Talvez tenhamos menos divergências políticas do que ela supõe.

"No caso da faxina, por exemplo, estou do lado dela e acho que seria um erro o PSDB deixar de reconhecer o esforço para conter a corrupção. Assim como a Dilma acha que cabe a ela, como presidente, ouvir a todos, penso que um ex-presidente, embora mantendo-se alinhado com seu partido, não deve usar viseira. Precisa estar aberto a conversar com quem estiver disposto a bem encaminhar os problemas do país, seja de que partido for, sem esquecer os que não pertencem a partido algum."

Lula

Lula respondeu o que repetiu ontem na Escola Superior de Guerra:

"Vou dizer uma coisa definitiva aos que tentam me intrigar com a Dilma: se ela, por acaso, criticar o meu governo ou a mim, individualmente, saibam que eu estarei sempre errado, e a Dilma estará com a razão. Desistam!"

Fernanda Montenegro

Se eu não fosse modesto, repetiria o adjetivo generoso com que a Fernanda Montenegro referiu-se a mim. Fiquemos com a sua resposta a Dilma:

"Estive com a presidente Dilma apenas umas três vezes no período em que ela era ministra. Vi nela uma pessoa franca, direta, forte e bonita. Como presidente, acho que ela vai muito bem. É uma mulher íntegra e consequente.

"Agradeço as referências que ela fez à minha pessoa. Quem vai ficar mais nervosa e, claro, reverente sou eu no dia em que a encontrar, agora com a investidura presidencial."

Caetano Veloso

"Dilma presidente é melhor que candidata. Fiquei contente de a presidente falar em mim justamente quando eu tinha mandado meu artigo para O GLOBO em que exorto meus leitores a apoiá-la nas ações anticorrupção. Eu e meus poucos acompanhantes sabemos como esse é um tema difícil de ser enfrentado. Mas preferimos confiar. Como todos sabem, não votei nela, e sim em Marina Silva. Mas disse de público que, no segundo turno, preferia que Dilma ganhasse. E gostei mais dela como presidente do que como candidata. Honra-me que ela tenha vontade de conversar comigo. Quando ela tiver um tempo calmo e puder me convidar, eu voltarei ao Alvorada: a coisa mais bonita da entrevista que ela te deu foi a história da filha de Obama dizer que esse palácio é "a coisa mais bonita" que ela já viu. Que Dilma tenha se emocionado com isso, destacado isso para contar na entrevista, nos enche de esperanças."

Mariana Ximenes

Fala, Mari: "Fiquei lisonjeada de ter sido citada no jantar da presidente.

"Sobre a deliciosa entrevista, além da faxina, que me parece ter o apoio unânime da sociedade, fiquei muito feliz em ver a presidente falar que acredita na convivência dos contrários, na união e não fragmentação. Fiquei com muita vontade de tomar um café com ela para falar de Caetanos, Chicos, Mônicas, novelas, teatros..."

Chico Buarque

Chico Buarque fez jus à fama de gênio: foi no meu ego.

Procurado, declarou-se leitor fiel desta coluna e de todas as outras bobagens que escrevo no jornal.

Fiquei tão emocionado que me esqueci de perguntar sobre a entrevista da Dilma.

Ricardo Tozzi

"Muito bom saber que eu, através do Douglas, consigo divertir a nossa presidente."

ZUENIR VENTURA - A convergência Dilma-FH


A convergência Dilma-FH
ZUENIR VENTURA
O Globo - 30/07/2011

Estávamos no Cafofo do Moreno à espera da Mariana Ximenes, que faria sua primeira aparição depois que foi personagem da entrevista em que o anfitrião conseguiu dois feitos. O primeiro foi transformar uma conversa que costuma ser chata, sem graça, num papo agradável e divertido com uma Dilma que poucos conheciam: antenada, noveleira, fã de artistas, faceira e sobretudo simpática. Nunca pensei. O segundo foi conseguir falar mais do que a entrevistada. Houve momentos em que os dois se confundiam. Talvez tenha sido a primeira vez em que os sapatos de um entrevistador viraram notícia e polêmica. Presentes de sua musa, seriam eles Ferragamo ou Prada? A República se pergunta até hoje.

Éramos uns 20 convidados num miniapartamento que comporta uns dez, mas onde cabe sempre mais um, ou melhor, uma. Havia, como sempre, belas caras e pernas. Trata-se de um point político-cultural às vezes mais animado do que o Baixo Leblon. Aguardava-se, além da estrela da noite, a chegada de Mautner e Caetano para servir os incríveis pratos da chef Carlúcia: galinhada, bacalhau, filé com alho, arroz piemontese, farofa, entre outras delícias.

De repente, Moreno pediu silêncio e se dirigiu ao computador para ler o e-mail que FHC lhe mandara em resposta ao que a presidente dissera dele na entrevista. Era um furo de reportagem que generosamente ele dividiu comigo (na sua coluna vai sair melhor, claro). Além de elogiar a presidente - "atenciosa, gentil e diria mesmo simpática" - o galante sociólogo declara que talvez haja entre eles menos divergências políticas do que ela supõe. "No caso da faxina, por exemplo, estou do lado dela e acho que seria um erro o PSDB deixar de reconhecer o esforço para conter a corrupção."

Depois dessa chamada aos brios dos colegas tucanos, ele continuou: "Assim como a Dilma acha que cabe a ela, como presidente, ouvir a todos, penso que um ex-presidente, embora mantendo-se alinhado com seu partido, não deve usar viseira (a indireta seria para o Lula). Precisa estar aberto a conversar com quem estiver disposto a bem encaminhar os problemas do país, seja de que partido for, sem esquecer dos que não pertencem a partido algum."

Não sei, mas pode ser que esteja surgindo senão um movimento ou uma campanha, pelo menos uma tendência, ainda incipiente e hesitante, liderada pelos dois em direção à convergência. É possível que Dilma e FH estejam dando início a algo inédito num país em que a política vem sendo praticada quase que exclusivamente na base da divergência e do antagonismo ideológico. Ou então do cambalacho fisiológico. Seria uma bela novidade se viesse a ser criada uma frente comum, reunindo os homens de bem de todos os partidos - e certamente os há - contra a corrupção. Ou isso é um sonho?

ANCELMO GÓIS - SOBROU PARA O FRACO

SOBROU PARA O FRACO 
ANCELMO GOIS
O GLOBO - 30/07/11

Hoje, por causa do fechamento do Santos Dumont das 14 às 18 horas para o sorteio dos grupos das Eliminatórias da Copa, na Marina da Glória, 162 trabalhadores de companhias aéreas terão de rumar para o Galeão-Tom Jobim e cobrir 43 voos transferidos para lá.
A turma terá de pagar o deslocamento do próprio bolso.

FIM DE LINHA 
A MTA (Master Top), empresa brasileira de carga aérea, fechou as portas.
Ano passado, a cargueira se envolveu num escândalo que derrubou Erenice Guerra da Casa Civil de Lula.

É QUE... 
A Veja revelou que Israel Guerra, filho da ministra, tinha feito lobby junto à mãe por contratos da MTA com os Correios.

PETRODEUS 
De Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras, diante da insistência de coleguinhas que perguntavam quando a estatal vai poder reajustar a gasolina:
– O futuro a Deus pertence.
Ou seja: não é nada, não é nada... não é nada.

PAÍS DOS GORDINHOS 
A Sextante comprou os direitos de publicação no Brasil do livro Dieta dos 17 Dias, do médico americano Mike Moreno, há 19 semanas na lista de mais vendidos do New York Times. Sai em setembro.

NO MAIS 
Gilberto Carvalho disse que o PR é feito por gente idônea.
Menos, ministro, menos...

VIVA LENY! 
Leny Andrade, a grande cantora, faz show hoje no Birdland, em Nova York, sob uma chuva de (merecidos) elogios feitos pelo Wall Street Journal.
Disse o jornalão que a brasileira tem voz “enorme, dotada de grande personalidade”.

DUELO NO CAMPO 
O deputado federal Ivan Valente pediu que o Conar tire do ar a campanha “Sou agro”, que defende o agronegócio, tendo como garotos-propagandas Lima Duarte e Giovana Antonelli. Sustenta que o comercial, ao não identificar quem divulga a ideia, fere o código de publicidade do País.

NA VERDADE... 
A ação do deputado do PSOL é um novo capítulo do duelo entre ruralistas e ambientalistas. O embate foi marcado pela vitória dos ruralistas no primeiro semestre, com a aprovação na Câmara do novo Código Florestal.

PRESTÍGIO CONTINUA 
Lula foi convidado para assistir à abertura da Assembleia Geral da ONU, em setembro, em Nova York.

MELHOR ASSIM 
A direção da Biblioteca Nacional “lamenta e repudia” que a deficiente visual Camila Araújo Alves tenha sido barrada por um guarda na instituição, quarta, por estar com seu cão-guia.
A BN afirmou em nota que advertiu a empresa de segurança que lhe presta serviços.

CALMA, GENTE 
Ontem, por volta de 5 horas, uma turma assistia animada, no Jobi, no Leblon, no Rio, ao VT do jogão Santos 4 x 5 Flamengo.
Quando Ronaldinho marcou o gol da virada, os clientes comemoraram aos gritos. O dono do bar, um português que torce pelo Botafogo, não gostou do barulho – e mandou desligar a TV.

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Bala na agulha
SONIA RACY
O ESTADÃO - 30/07/11

No embate irracional entre democratas e republicanos nos EUA, ninguém se lembra de uma possibilidade concreta que Obama tem: a de poder aumentar o limite dos gastos do país sem perguntar ao Congresso.

"A emenda 14 da Constituição americana lhe dá essa prerrogativa", explica Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington.

Até agora, o presidente americano descartou a possibilidade. "Ele não coloca isso na mesa para não parecer que está abrindo mão da negociação", pondera Barbosa. Sendo a disputa por lá ideológica, sobre o peso e papel do Estado, usar a emenda só dificultaria ainda mais a vida de Obama.

Crise na Europa

O quarto de Thereza Collor e Gustavo Halbreich no Hotel Splendido, em Portofino, foi assaltado com direito a maçarico no cofre. Levaram joias étnicas avaliadas em 300 mil euros, conforme antecipou o blog da coluna, ontem. A diária? 2 mil euros.

Contrataram advogado contra a rede Orient Express.

Ninho


Kassab escolheu o Joelma, no centro de São Paulo, como sede do futuro PSD.

O pessoal que recebe e cadastra as fichas de inscrição tem dado expediente por lá.

Iceberg gordo

Aprovado pela Anvisa, apareceu uma "saída" para quem tem medo de cirurgia plástica: a máquina CoolSculpting. Paula Chebl, do Espaço N.O., explica que o método passa por "congelamento" de células de gordura.

A paciente não precisa se cortar, mas passa um frio...

Sinceridade

Enquanto todo o mercado de câmbio bate na formatação das medidas cambiais, reconhecido e tradicional banqueiro opta pela mão contrária: "Eles não tinham outra opção".

E avisa: "Ninguém percebeu, mas acabou o sistema de câmbio flutuante. O governo controlará a cotação do dólar aumentando ou diminuindo o imposto. Com a vantagem de não ter de gastar dinheiro para tanto".

Sinceridade 2

De NY, fonte da coluna enviou e-mail com discurso de março de 2006, feito por Obama durante debate sobre aumento do limite do teto da dívida americana, no Congresso. Altamente crítico, o então senador classificou a discussão como sinais de "falência de liderança", "de que o governo não consegue pagar suas dívidas" e "de irresponsabilidade fiscal". E acusou Washington de "jogar o peso de suas más escolhas nas costas de nossa crianças e netos".

Terminou com um "a América merece mais".

Sinceridade 3


Mente quem diz que sabe avaliar o que vai acontecer com o dólar caso os EUA entrem em default. "É a mesma coisa de perguntar se Deus existe. Moeda é questão de fé", avalia banqueiro católico. [17 E 18/12]Amém.

Arte para pisar

De passagem por SP para lançar obra assinada para a Casa Vogue, o italiano radicado nos EUA Gaetano Pesce conversou com a coluna. O designer criou um piso intitulado "Mosaico Brasileiro", a ser leiloado em prol da Instituição Associação Aquarela.

O senhor ainda considera o design italiano como referência mundial?

Sim. Por várias razões. O design não trata somente da criação, mas de bons industriais e vendedores. Isso é tradição na Itália. Por esse motivo, há séculos artistas vão estudar lá. Desde Rubens, El Greco... todos.

Como pensou em fazer essa obra homenageando o Brasil?

Há mais de vinte anos me interesso pelo Brasil. É um país que está explodindo e pronto para receber o que há de melhor no mundo. Pensei em criar um piso personalizado, usando a miscigenação brasileira.

E por que fazer um piso?

Porque um pavimento é o máximo que a arte pode produzir. O conceito de que produtos artísticos devem ser práticos não é recente. Para fazer esse trabalho, por exemplo, fui buscar referências em pisos romanos de mosaico feitos no século 17. Representavam a vida cotidiana das pessoas que pisavam neles. A arte sempre foi útil. Não é só para olhar, é também para usar.

O que você destaca do design brasileiro?

Gosto dos Irmãos Campana. Compartilhamos a ideia de que o design não é apenas funcional, mas um veículo cultural.

/MARILIA NEUSTEIN

Na frente


Thomas Shannon, embaixador americano, e Thomas Kelly, cônsul, dão jantar, quarta-feira, para representantes das comunidades religiosas em SP - em função do fim do Ramadan. Tema? Diálogo sobre tolerância religiosa.

Ana Rüsche, escritora, embarcou ontem com 32kg de livros brasileiros para Maputo. Vão para o Centro Cultural Brasil-Moçambique e para instituições indicadas pelo Movimento Kuphaluxa.

Erasmo Carlos é hoje o hóspede mais amado do hotel Zagaia, em Bonito. Pelas gorjetas de até.... mil reais.

GOSTOSA

ROBERTA PENNAFORT - Ney Matogrosso a olho nu

Ney Matogrosso a olho nu
ROBERTA PENNAFORT
O Estado de S.Paulo - 30/07/11


Ele faz 70 anos e não quer saber de tributos: quer é cantar, dançar, atuar e dirigir

Quase 40 anos saracoteando nos palcos, e o introspectivo Ney Matogrosso revela: é desses que não suportam Parabéns Pra Você. Sente-se constrangido. Segunda-feira, não vai soprar as 70 velinhas a que tem direito neste aniversário. Vai esperar a sexta-feira, quando recebe para jantar os amigos mais próximos. Só cedeu à festa porque pensou bem e concluiu que a idade - inacreditável - é cabalística (dez vezes o número sete).

Fabio Motta/AE
Fabio Motta/AE
Ney. 'Sou feliz com minha vida'
A carreira de quase 40 anos se mantém no topo, o público o acarinha nos shows e nas ruas do Leblon, a voz está ótima, o manequim, estacionado em 38. Não há crise. "Nos 60 anos, tive uma insegurança idiota em relação a como agir, o que vestir. Depois vi que não mudava nada, porque serei a mesma pessoa até morrer", ele contou, em entrevista em casa, há cinco dias. Nem a perda de cabelo, que o deixa cada vez mais parecido com o avô, assombra Ney, que já teve seus dias de rabo de cavalo. "Entre ficar careca e brocha, é melhor careca..."
O cantor sabia que o gancho da conversa era a data festiva, mas não se incomodou. Já homenagens... "Não gosto, fico com vergonha. Chegaram propostas mirabolantes. Sei que é uma idade que chama a atenção, especialmente porque estou chegando nela muito bem. Desde que você queira, isso é possível: se não fumar, se não comer que nem um animal... Os 70 são os novos 55."
Esta semana, antes de cantar no Festival de Inverno de Bonito, em seu Mato Grosso do Sul natal, que o homenageia nesta 12.ª edição, certificou-se de que não haveria placa comemorativa envolvida. Na abertura, entretanto, teve de subir ao palco com o governador, André Puccinelli, que o festejou: "Agora ele é Ney Mato Grosso do Sul".
Bonito assistiu ao show Beijo Bandido, que vem rodando há dois anos. Ney se surpreende com a longevidade do trabalho, de tom menos exuberante e com repertório que mistura composições de duplas como Herivelto Martins e Marino Pinto (Segredo, sucesso de Dalva de Oliveira de 1947) e Herbert Vianna e Paula Toller (Nada Por Mim, hit de Marina Lima nos anos 80).
Desde 1973, quando os Secos & Molhados chegaram para arrebatar o Brasil, com o disco que tinha Sangue Latino, O Vira e Rosa de Hiroshima, foi um CD por ano. Para o próximo, que será "mais pop", já tem escolhidas músicas de Jards Macalé, Vitor Ramil, Itamar Assumpção e do grupo carioca Tono. Como pensa sempre primeiro no espetáculo, e não no CD, quer chegar a 20 faixas antes de ir a estúdio.
O CD novo deve ficar para 2012, ano de outra efeméride: os 40 anos de vivência artística - iniciada em A Viagem, adaptação para o teatro d"Os Lusíadas. Foi durante a montagem que Ney descobriu que, além da voz rara, de tenor para contralto, e do talento como ator, tinha o pendor para a dança. Tendo "a libido como arma" contra o status quo, viraria figura central do grupo-fenômeno, que duraria só até 1974.
Filmes. A entrada em circuito do filme Luz Nas Trevas - A Volta do Bandido da Luz Vermelha, com roteiro de Rogério Sganzerla e direção de Helena Ignez e Ícaro Martins, também é esperada para 2012. A sequência de O Bandido da Luz Vermelha, com Ney como o mítico criminoso, ganhou prêmio da crítica no Festival de Locarno, ano passado.
Um pouco antes, deve vir a público o documentário Olho Nu, de Joel Pizzini, que revela seu pensamento. O Canal Brasil vai exibir uma série, com caráter mais cronológico. Ney repassou à equipe mais de 600 horas em VHS (já digitalizadas) com programas de TV, clipes, entrevistas, gravações caseiras. A pesquisa durou três anos, e incluiu varredura em arquivos de TVs.
O filme levou Ney de Souza Pereira de volta à sua pequena cidade, Bela Vista. Era para ser um presente de aniversário, mas, para finalizá-lo, falta captar mais recursos.
Uma raridade é uma entrevista rápida de 1984 dada com seu pai, hoje falecido, na saída de um show. Ney não a conhecia e se emocionou. Militar, ele não via com bons olhos o filho quase nu nos palcos. "No começo, não gostava. Não estava acostumado com um homem rebolando. Agora sou o fã número dois; a número um é minha mulher." A mãe, de 89 anos, mora no sítio do cantor, na Região dos Lagos, no Rio, e vem para o jantar dos 70 anos.
O Estado assistiu a um trecho. É saboroso rever o Ney superexótico, maquiando o rosto todo, os figurinos absurdos, o requebrado, a declamação de poesias. Saltam da tela a visão libertária, a coerência, o discurso antirrótulos - ele nunca quis ser estandarte da causa gay, por exemplo. "Brinco que ele deu uma única entrevista a vida inteira", diz Pizzini. "O filme traduz suas personas. É um artista completo. Estou evitando o tom nostálgico. Ney é supervivente."
A faceta diretor de teatro pode ser conferida no Sesc Pinheiros, onde está em cartaz até o fim de agosto Dentro da Noite, monólogo com Marcus Alvisi. 

TUTTY VASQUES - Sandy: evasão de privacidade


Sandy: evasão de privacidade
TUTTY VASQUES
O ESTADÃO - 30/07/11

Quem mais sofre na família quando Sandy sai do armário de boneca pra dizer coisas cabeludas em público é seu irmão, Júnior. Repara só! Toda vez que ela tenta quebrar sua imagem de moça certinha com declarações do tipo "não sou mais virgem", "falo palavrão", "estou lutando boxe" ou "já tomei um pileque", o testemunho do jovem baterista da família Xororó é evocado na repercussão que o assunto ganha na imprensa e, em especial, nas redes sociais.

Agora mesmo, a propósito do ponto mais delicado da entrevista da irmã à Playboy, especula-se por aí na maior sem-cerimônia se Sandy e Júnior pensam igual a respeito.

Não tem sido fácil pro cara se descolar da dupla. Bem mais rápido até que a irmã, ele venceu o estigma de cantor sertanejo tocando muito soul, funk, heavy metal e Jimi Hendrix em circuitos alternativos. Mas, não tem jeito, sempre que a Sandy cutuca o próprio karma com vara curta, Júnior volta a ser lembrado como o bom e velho irmãozinho dela. Invadem a privacidade do rapaz pela porta que a cantora escancara para evadir suas intimidades de mulher madura. Vão acabar brigando por causa disso!


Caloteiro velho

Barack Obama completa 50 anos na próxima quinta-feira, dois dias depois do
fim do prazo para os EUA se livrarem da moratória.

Isso quer dizer o seguinte: em 48 horas o presidente poderá se transformar
num velho caloteiro, e vice-versa.


Bolsa de apostas

Quem voltará antes a jogar bola no Brasil: o imperador Adriano ou o fabuloso Luís Fabiano?



Tentação

A Grã-Bretanha convidou rebeldes líbios a ocupar a embaixada do país africano em Londres. O último a chegar é mulher do padre! Periga não sobrar ninguém no front contra Kadafi.

Boato infame

Ao contrário do que a turma do Serra anda espalhando por aí, embora o número de casos da doença tenha crescido significativamente em Minas Gerais, Aécio Neves não pegou catapora! E não se fala mais nisso, ok?

Intenção de voto útil

Confirmado que, se Fernando Haddad concorrer pelo PT à sucessão de Kassab, o PC do B desiste de lançar Netinho de Paula na disputa pela Prefeitura de SP, ponto para a candidatura do ministro da Educação.

Imprensa na parede

O parecer da advocacia do Senado que livrou a cara de Roberto Requião estabelece um novo patamar no chamado decoro parlamentar, pelo menos no que se refere ao trato com jornalistas que cobrem o Congresso. Vale agora tomar gravador e ameaçar dar uns catiripapos nos engraçadinhos.

Fora do Clube 27

Fãs de Sandy só relaxaram depois de conferir no Google: a cantora nasceu no dia 28 de janeiro de 1983, ou seja, escapou no início de 2011 à maldição dos 27. Ufa!!!

IVAN ÂNGELO - Seja homem


Seja homem
IVAN ÂNGELO
REVISTA VEJA SP

Não ganhei flores no Dia Nacional do Homem. O dia terminou sem que me desse conta de que ele havia sido um pouco meu, e só no fim da noite soube por um noticiário da televisão que a data fora comemorada no metrô da Sé com exames gratuitos de glicemia, medição da pressão arterial e da circunferência abdominal dos homens.

Amigos, consideremos os fatos. Se eu tivesse sabido da data, teria passado durante o dia pelas femininas pessoas com um olhar pedinte: como é, nem um sorriso solidário? Não se toca no assunto? Não mereço uma cervejinha? Teria comparado, com umas sombras de inveja: no dia delas telefono, mando e-mails, distribuo uns beijinhos de simpatia, às vezes mando flores, quando suspeito que alguma dama anda precisada. Não sabendo eu de nada, nem elas, nem eles, pude passear pelas ruas ignorante e digno como se não fosse o Dia Nacional do Homem.

Companheiros, não vamos cair na armadilha das queixas. A verdade é que a data não entrou ainda no sistema do consumo, por isso não aparece nas vitrines nem na mídia. Não vamos levar essa indiferença para o lado pessoal.

Andei perguntando, no dia seguinte, aqui e ali, se alguém sabia dessa comemoração. Ninguém sabia, nem homem, nem mulher; a homenagem, no geral, revelou-se quase secreta. Quanto à medição da circunferência abdominal, olha, melhor mesmo que fique assim, entre discreta e secreta. A fita métrica não foi feita para humilhar ninguém.

Já vão me acusar de não entender o espírito da coisa. Percebo, sim, a preocupação com a saúde, mas, me desculpem, no dia da mulher não tem fita métrica. Caros, caríssimos, atenção. Fiquei sabendo que um dos objetivos desse dia é promover a igualdade entre gêneros.

Se ainda não perceberam, algumas das antigas ditas qualidades masculinas estão em baixa no mercado: autonomia, agressividade, independência, força de vontade, racionalidade — que podem ser interpretadas como dificuldade para trabalhar em grupo, teimosia, arrogância, insensibilidade — e estão em alta a flexibilidade, a adaptabilidade, a observação, a emoção, qualidades ditas femininas. É bom haver um dia para pensarmos nisso, pensarmos em não esconder nossas emoções, como qualquer mulher, qualquer criança, qualquer gente boa.

Outro objetivo, caros e caras, é melhorar a relação entre gêneros. A velha agressividade já não tem abrigo, nem na lei nem nas famílias. O machão, o grito, a ira, a vítima sem saída, a impossibilidade de mudança, a opressão, o faço e aconteço são aberrações. É verdade que tudo isso floresce como se fosse norma geral nas telenovelas mais tardias, mas o que seria destas sem aquelas aberrações, alimentando-se mutuamente?

Na busca de informações, fiquei sabendo que existe, além do Dia Nacional do Homem, 15 de julho, um Dia Internacional do Homem, 19 de novembro, e que o Brasil é um dos 43 países que o adotam. Olhem só: eu, que achava que só havia o Dia Internacional da Mulher, de uma semana para outra fico sabendo que existem dois dias do homem. Ambos, sem nenhuma repercussão, sem vitrines gulosas do comércio, sem e-mails graciosos, sem beijinhos, mas com fita métrica. Impossível não comparar. Somos desimportantes, é isso?

Se acontecer de novo essa indiferença, recomendo com certo ar passadista: seja homem, levante a cabeça, não ligue para isso.

EMPATA FODA

MARCELO RUBENS PAIVA - O Nobel brasileiro


O Nobel brasileiro 
MARCELO RUBENS PAIVA
O ESTADÃO - 30/07/11

Quando o longa argentino O Segredo dos Seus Olhos ganhou o Oscar de filme estrangeiro em 2010, escrevi num post idiota que los hermanos conquistaram dois Oscars (A História Oficial, em 1985) e um Nobel (Pérez Esquivel), mas que nós, brasileiros, faturamos mais Grammys e Copas do Mundo.
Comentário de um invejoso que não aceita como um país de um PIB cinco vezes menor consegue premiações de maior visibilidade.

Fui prontamente corrigido por um leitor. Na verdade, além de Esquivel, eles ganharam mais quatro: Bernardo Houssay, Nobel de Medicina por seus trabalhos sobre as causas da diabete; Luis Leloir, Nobel de Química por pesquisar a fabricação de hidratos de carbono; César Milstein, Nobel de Medicina pela elaboração artificial de anticorpos; e Saavedra Lamas, Nobel da Paz ao mediar a Guerra do Chaco.
Três escritores de países vizinhos, Pablo Neruda, García Márquez e Vargas Llosa, ganharam Nobel de Literatura.

João Cabral de Melo Neto foi um candidato forte. Assim como Carlos Drummond. Guimarães Rosa, coitado, foi pessimamente traduzido; tirando a edição alemã. Se o leram, leram mal.
Oswald e Mário de Andrade mereciam reconhecimento. Como os fundadores da poesia concreta, os irmãos Campos e Décio Pignatari. Herméticos demais?

E quem garante que os versos de Vinicius e Jobim, músicas que mais recolhem direitos autorais do mundo, não são comparáveis aos de um épico narrativo?

A barreira da língua era uma desculpa muito utilizada, até Saramago ganhar o seu. Mas não se mede a inteligência de um povo pelos prêmios conquistados. Nosso autor mais popular, Paulo Coelho, não tem o perfil de um Prêmio Nobel. Muito exotérico, palatável e comercial para a Academia Sueca.
Chico Buarque poderia ganhar um. Por seus belos olhos e por ser o coroa mais enxuto da humanidade. Mas nem ele sabe se na sua carteira de trabalho vem preenchido "escritor" ou "músico".

No país de Carmem Miranda e balangandãs, tivemos algumas pérolas garimpadas do fundo do poço, como Carlos Gomes e Villa-Lobos.

Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha são dois arquitetos reconhecidos e aclamados. O segundo ganhou o Prêmio Pritzker, criado pela Fundação Hyatt, considerado o Nobel da Arquitetura.
Sebastião Salgado é um artista renomado. Como foram Portinari, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, Lasar Segal e, atualmente, Romero Britto e Victor Meirelles.

Hélio Oiticica e Flávio de Carvalho eram dois provocadores que não conseguiram penetração na lógica viking. Mas o que estou escrevendo? Não existe Nobel de Artes Plásticas.

Como não existe de Mulher Mais Bonita, Piloto de Fórmula 1 Mais Carismático. O Nobel de Melhor Boleiro, bem, os argentinos contestariam, mas seria nosso sem sombra de dúvidas.

A cirurgia plástica sempre foi considerada uma prática fútil, apesar de o maior legado de Ivo Pitanguy ter sido a cirurgia reparadora e de queimaduras.

Santos Dumont teve sua invenção contestada por dois irmãos que consertavam bicicletas e saíram voando graças a uma catapulta. Mas parece que, enquanto o "nosso" avião subiu alguns centímetros, o dos gringos deu rasantes, piruetas, voou em círculo, deixando Paris atônita. Até hoje é controversa a paternidade da aviação.

Os irmãos Villas-Boas, estes sim, inovaram, ousaram, reescreveram a antropologia, mereciam crédito. Ou Mãe Menininha. Mas se apoiaram em cultos reservados ao inconsciente coletivo que não se enquadram na alta cultura do racionalismo anglo-saxão.

Talvez o Nobel não tenha importância alguma. Nem reflita o nosso índice de educação, que deixa a desejar - a USP foi colocada na faixa do 400.º lugar num ranking de melhores universidades do planeta.
Ou nós, brasileiros, que somos incompreendidos pela investigação racional dominante.

Do Oscar, chegamos perto. Glauber Rocha era muito inovador. Aliás, ele sempre desprezou o cinema norte-americano. Apesar de convidado para dirigir em Hollywood, preferiu passar uma temporada em Cuba e filmar na África (O Leão de Sete Cabeças).

Cidade de Deus, com quatro indicações, perdeu para mais um drama sobre o holocausto. E Babenco chutou na trave. Seria interessante ele ganhar, e termos de disputar a nacionalidade do mérito com nossos vizinhos, onde o cineasta nasceu.

Tudo bem, podem nos desprezar. Mas o Prêmio de Melhor Acarajé, Tutu de Feijão, Peixe na Telha, Arroz Tropeiro, Buchada de Bode, Tacacá são nossos. Biscoito Globo ganharia fácil a categoria doce e salgado. E o pastel de feira não tem concorrência na gastronomia mundial.

***
O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis arregimenta torcida para ganhar um Nobel.
Seus trabalhos lembram pesquisas do auge da Guerra Fria: mover objetos com o poder da mente. Não se trata de mais um Uri Geller a entortar talheres. Ele recebe verbas da Darpa (Defense Advanced Research Projects Agency), agência militar americana.

Em 2008, conseguiu que o cérebro de um macaco na Universidade Duke movesse as pernas de um robô em Kyoto via internet.

Para Nicolelis, entramos numa era em que as mentes serão conectadas a computadores. E tem proferido que o pontapé inicial da Copa do Mundo de 2014 seja dado por um tetraplégico, uma jogada de marketing que demonstraria ao mundo que o Brasil "é capaz de grandes e inesperadas coisas no campo da ciência".

Seu ousado projeto Walk Again (Voltar a Andar) desenvolve um "exoesqueleto" movido por motores hidráulicos e sinais do cérebro.

O problema é saber se um tetraplégico prefere andar neste traje robótico ou numa famigerada cadeira de rodas.

No passado, a medicina costumava enfiar paralisados em estruturas metálicas, as chamadas botas ortopédicas, com dobras e fechos, para que deficientes pudessem "voltar a andar".
Acontece que o trambolho feria as juntas do corpo e era difícil de "vestir". No mais, as muletas deslocavam os ombros. Nenhum paraplégico queria andar naquilo. Preferiam uma compacta, ágil e universal cadeira de rodas.

O mesmo pode ocorrer com o traje robótico. Ou ele virá com uma equipe para, todas as manhãs, acoplá-lo no corpo do tetraplégico?

O projeto Walk Again serve aos olhos de quem não aceita a diferença e deseja reabilitar o deficiente sem considerar a praticidade. Belo marketing. Mas pouco funcional.