segunda-feira, maio 30, 2011

CARLOS ALBERTO DI FRANCO - MEC não quer ensinar


 MEC não quer ensinar
CARLOS ALBERTO DI FRANCO

O Estado de S.Paulo - 30/05/11

Acabo de ler duas instigantes obras de Zygmunt Bauman: Amor Líquido e Modernidade Líquida. Bauman, um dos mais originais e perspicazes sociólogos da atualidade, vai fundo nos paradoxos da modernidade líquida. Vivemos um tempo de incertezas, de sinais confusos, de ausência de vínculos duradouros. Mas, ao mesmo tempo, o comportamento fluido e relativista acaba, frequentemente, em arrebatos de dogmatismo ideológico. O relativismo, facilmente, transforma-se em autoritarismo.

Recentemente, a imprensa noticiou que, para evitar discriminações, o Ministério da Educação (MEC) quer renunciar ao dever de ensinar. Por exemplo, entende que pode promover o preconceito a explicação em sala de aula de que a concordância entre artigo e substantivo é uma norma da língua portuguesa. Dessa forma, o MEC aconselha a relativizar. Segundo o Ministério, a expressão "os carro" também seria correta. A sociedade, quando se deu conta do que o MEC estava propondo, foi unânime na sua indignação. Afinal, a oportunidade de aprender bem a sua língua deve ser um direito de todos.

Nesse caso, no entanto, penso que está em jogo mais do que a norma culta da língua portuguesa. Implicitamente, o MEC nos diz: na busca por um "mundo mais justo" (sem preconceitos) pode ser aconselhável dizer algumas mentiras. Na lógica ministerial, o conhecimento é munição para a discriminação.

Vislumbra-se aí uma visão de mundo na qual o critério político prevaleceria sobre a realidade das coisas, sobre a verdade. E aqui reside o ponto central, cuja discussão é incômoda para uma sociedade que não deseja utilizar o conceito "verdade". Este seria apropriado apenas para uma agenda conservadora; os contemporâneos não deveriam utilizá-lo mais.

Mas por que será que a "verdade" é tão incômoda? Porque ainda estamos imersos no sofisma moderno que confunde "ter um conhecimento certo sobre algo" com "ser dono da verdade". O engano está em equiparar "conhecimento limitado" - que é onde sempre estaremos - com "todo conhecimento é inválido".

Outro influente motivo para evitar o uso do conceito "verdade" é a aspiração por liberdade. As "verdades" tolheriam a nossa autonomia, imporiam uns limites indesejáveis; no mínimo, acabariam diminuindo a nossa liberdade de pensamento. O MEC - de fato - entende assim: numa sociedade plural, não se poderia ter apenas uma única norma culta para a língua portuguesa. Deixemos os nossos alunos "livres" para escolherem as diversas versões.

Não será que ocorre exatamente o contrário? Quem conhece bem a língua portuguesa tem a liberdade de escolher qual forma - num texto literário, por exemplo - expressa melhor a sua ideia. E pode até abrir mão da norma culta, num determinado momento. Só terá a segurança dessa escolha quem conhecer a norma culta, caso contrário, serão tiros no escuro.

Entre liberdade e verdade não vige uma relação dialética. Elas andam juntas. O que pode provocar um antagonismo com a liberdade é uma versão absolutista de verdade, encarnada pelo sujeito que entende ser o "dono da verdade". Mas a verdade não é um objeto que se possui. A verdade é o mundo, é a realidade, são os outros. É uma porta que se abre para fora, não para dentro, e por isso pode ser contemplada por todos. Ela é democrática: está acessível a todos.

Já não será hora de superarmos a disjuntiva moderna e estabelecermos uma relação amigável com a "verdade"? Não significa fazer um pacto "espiritual" com o universo ou assinar uma espécie de declaração de alienação, abdicando do uso da inteligência e da crítica. A proposta que aqui se faz nada mais é do que buscar uma relação de honestidade intelectual com a realidade e com os outros.

Penso que essa relação de honestidade intelectual está na origem da cultura ocidental, ainda lá com os gregos. É um processo de aprendizagem, que leva a reconhecer os próprios erros, a revisar as condutas e, ainda que não seja retilíneo, trouxe indubitáveis bens (ainda não plenamente alcançados, mas que indicam a meta): o reconhecimento da dignidade da pessoa humana, o respeito e a valorização da mulher, a rejeição da escravidão, a democracia como expressão dessa dignidade, a tolerância, a compreensão, etc.

Aquilo de que mais nos orgulhamos não foi alcançado brigando com a "verdade", dizendo que tudo era relativo, que dava na mesma A ou B. Nesta lógica aparentemente ampla - mas que no fundo é estreita (porque não está aberta à realidade e aos outros, impera o subjetivo) -, quem ganha é o mais forte, aquele que grita mais alto. Já não existe um referencial adequado para o diálogo. Ficam as versões. Ficam os discursos. E ficamos à mercê dos Sarneys... E agora também dos Paloccis.

Só mais um último aspecto, agora do ponto de vista pedagógico. A visão do MEC sobre a educação corrobora a constatação feita pela pediatra norte-americana Meg Meeker. Ela considera que as principais dificuldades da educação dos jovens de hoje não são causadas por eles. Na visão dela, o problema não são os jovens - como muitas vezes os moralistas de plantão ou os saudosistas de outros tempos querem culpá-los.

A dra. Meg Meeker, com a experiência de mais de 20 anos atendendo adolescentes e pais no seu consultório, diz que a causa está nos próprios adultos, que diminuíram as expectativas da educação em relação às novas gerações. "Eles não conseguirão fazer isso..." Ou: "É impossível que ajam dessa forma..." Os próprios educadores nivelam por baixo - como se o comportamento ético fosse hoje em dia irrealizável - e depois se dizem decepcionados com os jovens.

Ministério da Educação: os alunos saberão fazer bom uso das regras de português. Não lhes impeça o acesso ao conhecimento e, principalmente, não lhes negue um dos principais motores para o crescimento pessoal: a confiança.

GOSTOSA

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE


"Latin lover? Não dou um cara... para isso"
SONIA RACY

O ESTADÃO - 30/05/11

Inteligente e articulado, Antonio Banderas mostra a razão de seu sucesso


Foi depois de uma maratona de 120 entrevistas em Cannes, para divulgar seu novo filme e uma sequente bateria de compromissos no Rio em razão do lançamento do seu perfume Secret, que Antonio Banderas recebeu a coluna na sexta-feira, no Copacabana Palace. Em seu último compromisso oficial antes de deixar, maravilhado, a cidade onde pisou primeira vez. Visivelmente cansado, quase sem voz, seu profissionalismo falou alto. Respondeu às perguntas, ora em inglês ora em espanhol, pacientemente, sem demonstrar pressa. Afinal, seus assessores o fizeram por ele...

Içado à fama por meio de uma parceria com o então desconhecido Pedro Almódovar, o ator falou durante meia hora sobre o novo filme que o levou a trabalhar novamente com o consagrado diretor, também espanhol, depois de um longo hiato de 22 anos. "Nossas agendas coincidiram". Também opinou sobre os problemas do País Basco, "uma coisa deles, que têm que resolver entre eles mesmos." Bem como deu pinceladas os últimos acontecimentos políticos na Espanha.

Durante a conversa, Banderas sinalizou que sabe o que fazer com que ganha na indústria cinematográfica. Dono de cinco casas diferentes pelo mundo, tem optado pela parceria em seus trabalhos. "Dividimos lucros e riscos". E no caso da produção de seus perfumes, não licenciou seu nome. É dono da própria marca.

Abaixo, alguns trechos da entrevista:

Você voltou a trabalhar com Pedro Almodóvar. Como foi esse processo?

Ele me ligou porque tinha um papel para mim. Já tínhamos tentado outros trabalhos juntos, mas eu estava ocupado com outros longas. Sempre programei minha vida em Hollywood com uma antecedência de três anos, o que me impediu de aceitar alguns filmes. Então surgiu essa oportunidade. E o processos foi forte, intenso e difícil como sempre.

O filme é um suspense...

É um pouco mais do que isso. É complexo em termos de moralidade. O que eu posso te dizer é que eu faço o papel de um cirurgião plástico. Que é um monstro. E usa um ato de vingança para mostrar o que há dentro dele, que é profundamente obscuro.

Acredita que os filmes de Almodóvar projetam atores espanhóis em Hollywood, como por exemplo Penélope Cruz e Javier Bardem?


São meus grandes amigos. Não sei. Penélope estava nos EUA antes de trabalhar com Almodóvar, mas é claro, ganhou um nominação ao Oscar por Volver. Javier, não. Ele fez um filme com Almodóvar há muitos anos que não teve projeção. Ele chegou aos EUA, por conta de um diretor fabuloso Julian Schnabel.

Você se interessa por política? Como vê as últimas manifestações fortes que estão ocorrendo na Espanha?


Eu apoio as manifestações. Acho que é um movimento que não se restringe à Espanha. O que vemos é raiva. Porque a população está entendendo que no poder não estão aqueles que votamos, mas o dinheiro, a mídia e pessoas que não escolhemos. São eles que estão com as rédeas da situação. Por essa razão, as pessoas estão reagindo em nome de uma democracia real agora.

Você vive nos EUA, país considerado uma real democracia. O que pensa de Obama?


Eu gosto muito dele. Entretanto, sei que ele tem de lidar com tudo isso que eu estou falando: as grandes corporações, os lobistas e pressões de todos os lados. Ele tem que ser um político. Saber jogar o jogo.

Você usaria, como Arnold Schwarzenegger, sua visibilidade para entrar na carreira política?

Não, nunca. Para ser político há que ter uma vocação clara para a vida pública. Para servir uma população. Eu não tenho isso. Minha habilidade e talento são para fazer o que eu faço, que é contar histórias.

E emprestaria sua imagem para campanhas filantrópicas?

Ah sim. Além de uma organização a favor do oceano, trabalho em diversas vertentes. Para uma fundação que cuida de crianças com câncer. Em Málaga, presido uma fundação de bolsas de estudos para universitários de baixa renda E minha empresa Antonio Banderas Fragances trabalha junto à Unicef no Chile, Argentina, entre outros países.

Então você está pronto para ser político. Isso não é uma vocação pública?

Sim, mas não a ponto de eu me envolver na bagunça que é o meio político. Infelizmente, talvez pela pressão que os políticos sofrem, os bons cérebros não bancam a vida política. Quem está lá é quem quer poder. Aqueles que não tem nada a perder. E isso é um problema.

E qual é a sua opinião sobre o conflito do País Basco?

Acho que o tema dos bascos é mais do que um conflito entre eles e a Espanha. É um problema deles com eles mesmos. Porque a sociedade basca está dividida pela metade. Aproximadamente 50% quer ser independente. E quase a mesma quantidade quer ser basco -espanhol. Fazer um referendo seria complicado. Porque uma decisão desta não pode ser baseada em uma vontade de metade da população, como indicam pesquisas preliminares. É necessário 80% ou 85% de aprovação para legitimar um pedido de independência de um país.

Essa situação, na sua opinião, irá ser resolvida como?

Está se resolvendo. Durante os últimos oito anos de Zapatero, aconteceram pouquíssimos crimes do ETA. Registrou-se o menor número na história da democracia espanhola. A cúpula do ETA foi capturada, criminosos foram presos. O tribunal constitucional espanhol determinou que Bildu, partido político que comunga com a independência, tem direto de participar das eleições. Só esses já são passos importantes.

Você afirmou ser muito ligado às suas raízes da Andaluzia.

Nasci na cidade de Picasso, Málaga. Sou muito orgulhoso da minha terra. É um lugar de pintores, de poetas, artistas. De Federico Garcia Lorca, Velázquez, Bartolomé Esteban Murillo. Me identifico demais muito com essa cultura flamenca, com os costumes. Amo meu povo, sem deixar de reconhecer nossos defeitos.

Você é espanhol, mora em Los Angeles e está inserido na indústria cinematográfica americana. Nunca sentiu nenhum preconceito? Como lida com os conflitos culturais que acontecem no cotidiano?

A sociedade hispânica ganhou terreno nos EUA. Em virtude de algumas gerações que sofreram e trabalharam duro, conseguindo colocar seus filhos nas universidades. Eu vi essa mudança. Hoje, os latinos em Hollywood, não interpretam apenas os papéis de delinquentes. Acho que ajudei um pouco a comunidade com a minha projeção.

A personalidade forte em um ator ajuda ou atrapalha na hora de encarnar o personagem?

São anos de treinamento. Aprendemos a controlar as nossas energias, emoções. No teatro, por exemplo, você planeja e se prepara- durante o dia inteiro- para o momento que as cortinas se abrem. Mesmo que isso seja feito de maneira inconsciente. Quando eu estava em cartaz com uma peça na Broadway e viaja para Espanha aos finais de semana, acordava no meio da madrugada. Exatamente na hora da peça em NY. Porque meu corpo estava condicionado para essa atividade.

Como escolhe seus papeis?


Não existe uma regra. Ás vezes escolho pelo diretor, ou algum ator que eu quero trabalhar. Mas na maioria das vezes escolho pelo roteiro.

Com quem ainda gostaria e pretende trabalhar?

Um ator que eu adoraria trabalhar junto é Robert De Niro. Na categoria diretores, com Oliver Stone e David Lynch.

Você já dirigiu dois filmes. Como foi essa experiência?


Quando você está do outro lado aprende muito sobre atuação (risos). Como ator, preciso de um olhar externo para me orientar. Que tenha objetividade. Porque nós perdemos isso. Você tem que sempre ter um pouco de si mesmo olhando de fora para te chamar a atenção.

A pergunta clássica, como encara o título de "Latin Lover"?

Posso responder em espanhol? Na verdade, não dou um "cara..." para isso.

MARIA INÊS DOLCI - Milhas explosivas

Milhas explosivas

MARIA INÊS DOLCI 

FOLHA DE SÃO PAULO - 30/05/11

A dificuldade para resgate dos pontos mostra que, definitivamente, nossos céus não são de brigadeiro


OS PROGRAMAS de milhagem das companhias aéreas foram criados por razões óbvias: fidelizar os clientes, ou seja, mantê-los vinculados às empresas, por intermédio do acúmulo de pontos, trocados por passagens gratuitas. O sucesso desses programas fez com que se multiplicassem as formas de obter milhas, como as compras com cartões de crédito, ou convênios com estabelecimentos comerciais, turísticos, restaurantes etc. Nos últimos meses, contudo, tenho recebido relatos de problemas na hora de resgatar os pontos que dificultam a obtenção das passagens. Ou seja, a quebra unilateral dos contratos firmados com os que se inscreveram nesses programas.
E, pior ainda, em muitos casos, depois de transferirem a pontuação obtida em cartões de crédito.
Além disso, recentemente, a TAM enviou correspondência digital para informar que passaria a exigir 15 mil pontos -e não mais apenas 10 mil- em trechos da América do Sul.
São, portanto, duas infrações aos direitos dos consumidores: complicar o resgate da milhagem, por meio de artifícios burocráticos, e mudar as regras com o jogo em andamento.
Por que as companhias agem assim? Provavelmente, em função do aquecimento do mercado do uso de aviões em viagens interestaduais, provocado pela ascensão das classes C e D. E do próprio crescimento dos negócios em geral, especialmente no ano passado.
Um exemplo estava no e-mail que recebi de um cliente do Programa TAM Fidelidade. Angelo Gaiarsa Neto, o consumidor em questão, interrompeu suas atividades profissionais devido a problemas de saúde, e passou a usar o e-mail pessoal em lugar do endereço eletrônico de trabalho. Não conseguira resgatar os mais de 60 mil pontos acumulados até o início deste mês. Pediu alteração do e-mail e da senha, mas foi "enrolado pelo atendente". A situação não havia sido solucionada até o último dia 16.
Também, em consulta simples nos buscadores da internet, é fácil encontrar reclamações contra a Gol. Uns, porque alegam jamais conseguir resgatar seus pontos. Outros, aludindo a viagens não creditadas na milhagem. Há, ainda, sumiço de milhas, dentre outras denunciadas pelos participantes do programa de fidelidade da Gol.
Somem-se a isso os costumeiros atrasos nos voos e a queda da qualidade dos serviços nos aeroportos, a menos de três anos da Copa do Mundo em nosso país.
A gestão federal nessa área é lamentável. Infraero e Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) continuam batendo cabeça. Houve um momento em que foram emitidos sinais positivos, por meio da Anac, mas que se esfumaçaram com o tempo, sem resultados práticos. Uma ou outra medida mais positiva, mas o conjunto ainda é rigorosamente caótico.
As dificuldades para o resgate dos pontos nos programas de milhagem aérea, portanto, estão em linha com o panorama de tudo o que ocorre com quem resolve utilizar o avião como meio de transporte no Brasil.
As únicas iniciativas das empresas aéreas têm sido cobrar os lanches e vender mercadorias durante o voo. Ou seja, nada que resulte em mais qualidade, mais conforto e mais segurança para o passageiro. Como o duopólio (TAM e Gol) que divide o mercado não tem de se preocupar com as autoridades, o descaso só aumenta. Não é uma prática exclusiva das empresas aéreas, como já deixamos bem claro neste espaço várias vezes, mas sim um comportamento empresarial e governamental de confronto ao Código de Defesa do Consumidor.
Como isso poderia mudar? Sem a participação dos três Poderes, dificilmente haverá avanços para os cidadãos. A esperança é o Ministério Público, e a expectativa de maior disputa no mercado aéreo. Pode ser, também, que a aproximação não somente da Copa do Mundo, mas da Olimpíada de 2016, no Rio, provoque algumas medidas para mudar esse quadro.
Cabe ao consumidor reclamar, ingressar na Justiça e apoiar as entidades de defesa dos seus direitos, nessa luta tão desigual.
Nossos céus, definitivamente, não são de brigadeiro.

O IDIOTA E A MENTIROSA

RICARDO YOUNG - Fora de controle?


Fora de controle?
RICARDO YOUNG
FOLHA DE SÃO PAULO - 30/05/11

O que faz com que o prefeito de uma das maiores cidades do mundo consiga, em pouco mais de dois anos, fazer a sua popularidade cair a 29%, perder a central de imprensa da Copa do Mundo de 2014, a cidade não mais constar na lista das que irão receber a Copa das Confederações e ainda estar atrasado em mais de 30% nas metas apresentadas no início do seu governo?
A resposta é clara: achou que a popularidade inicial, conquistada nos anos de mandato-tampão, seria suficiente para cacifar a ambiciosa tarefa de criar um novo partido às custas das prioridades da cidade. Paradoxalmente, foi exatamente depois de eleito que sua popularidade começou a despencar.
Ora, se um prefeito é gerente de um programa de governo, o de São Paulo deveria ser megagerente. É seu dever coordenar uma enorme equipe de secretários e um exército de funcionários para fazer com que esta megacidade seja minimamente funcional. Mas a agenda política tomou conta da agenda administrativa e a cidade vem colhendo derrotas e mais derrotas.
No caso da exclusão da Copa das Confederações, o atraso das obras do estádio de São Paulo para a Copa foi o estopim. É inacreditável que uma cidade que desfila feitos como a ponte estaiada, a ampliação das marginais e o Rodoanel não consegue resolver os impasses em torno de um estádio de futebol!
Quando o interesse político prevaleceu, várias das obras citadas aconteceram. Agora que o interesse político mudou de campo e as relações da prefeitura e do governo do Estado azedaram, a cidade paga humilhada.
São Paulo já paga muito caro pelas suas sociopatias, seu trânsito saturado, suas enchentes intermináveis, sua ausência de creches, além do descaso das políticas públicas com os princípios de sustentabilidade. Resta à cidade, o que não é pouco, seu dinamismo, sua robustez econômica, sua vitalidade financeira, sua economia criativa e seus serviços cosmopolitas. Mas parece que estas vantagens comparativas não contagiam nosso alcaide.
Estaria o governo da cidade perdendo o controle? Como pode uma sucessão tão grande de más notícias em um espaço de tempo tão curto? E a Rio+20, em 2012, evento igualmente planetário em que São Paulo parece estar passando em brancas nuvens?
Não dá! Prefeitura é coisa séria. Em São Paulo, é coisa seríssima. Foco, competência, compromisso, presença, liderança, capacidade articuladora e popularidade são ingredientes indispensáveis a uma gestão bem-sucedida.
Gilberto Kassab ainda tem tempo para mostrar-se à altura das expectativas dos 71% dos paulistanos que acreditam que seu governo é ruim, péssimo ou só regular. Mas... parece não precisar mais.

FERNANDO DE BARROS E SILVA - Festinha do PSDB


Festinha do PSDB
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SÃO PAULO - 30/05/11

SÃO PAULO - Vista de perto, a crise dos tucanos é ainda mais constrangedora. Estive anteontem na convenção do partido. As palavras de ordem mais ouvidas na entrada do evento eram "Brasil, urgente, Marconi presidente!". Repetida entre apitaços pela militância amarelinha de Goiás, a gritaria contratada não deixava de ser um retrato do ponto a que chegou o PSDB.
Horas antes da convenção, já na madrugada de sábado, Serra, de São Paulo, ameaçava não ir a Brasília. Havia convencido Alckmin e FHC a acompanhá-lo no boicote. Do outro lado, Sérgio Guerra e Aécio Neves insistiam em dar a presidência do ITV (Instituto Teotônio Vilela) a Tasso Jereissati.
Assim foi feito. Mas não sem uma nova discussão a portas fechadas entre os caciques, da qual Serra saiu direto para a convenção na condição de presidente do conselho político que o partido inventou para acomodá-lo. Não se pode dizer que o grupo de Aécio ganhou a disputa interna de lavada porque o tal conselho recebeu atribuições maiores (na definição de alianças e candidaturas, por exemplo) do que havia sido previsto inicialmente.
O que chama atenção nisso tudo é o caráter cada vez mais paroquial da fogueira das vaidades entre os tucanos. No meio da crise envolvendo Palocci, na semana em que o governo escancarou a debilidade da sua articulação política, o PSDB esteve se engalfinhando para... saber quem vai controlar o ITV. "Brasil, urgente, Marconi presidente!".
Como se fosse possível animar o encontro, havia no salão um grupo de batucada com meia dúzia de meninotas sambando descalças. Eram as representantes do "povão".
No final, depois do teatro dos discursos que exaltaram a "unidade do partido", Aécio pegou o microfone e puxou um "Parabéns a Você" em homenagem a FHC, que fará 80 anos em junho. Todos cantaram meio sem jeito. Fiquei com a sensação de que, se houvesse um bolo ali, a tucanada iria disputar no tapa para ver quem apagava as velinhas.

GOSTOSA

RUY CASTRO - Irrealismos


Irrealismos
RUY CASTRO
FOLHA DE SÃO PAULO - 30/05/11

RIO DE JANEIRO - Nos filmes da Hollywood clássica (leia-se, do cinema surdo a, no máximo, 1965), ninguém trancava a porta do carro ao estacionar. Aliás, era tranquilo estacionar. Não se sabe por quê, todo mundo entrava ou saía do carro pelo lado do motorista. E, se o sujeito tinha de pagar o táxi, já tirava do bolso o dinheiro certo, sem olhar, e nunca esperava o troco.
Idem quanto à conta do restaurante ou do bar -era só deixar o dinheiro na mesa ou no balcão, e sair. Moeda para dar gorjeta ou para falar ao telefone não era problema -bastava enfiar a mão no bolso. Era também do bolso (do paletó, de preferência) que saía o cigarro -solto, avulso-, não de um maço ou cigarreira. O fósforo era aceso na sola do sapato ou na parede. E fumar consistia em acender o cigarro, dar uma tragada, lembrar-se de algo urgente e jogar o cigarro fora.
Mesma coisa, comer. O personagem sentava-se à mesa, punha o guardanapo no colo, dava uma garfada, e um importante compromisso obrigava-o a levantar-se e sair correndo. Fazer a barba, também. O galã ensaboava o rosto, aplicava a navalha uma ou duas vezes e, por qualquer motivo, tinha de interromper. Limpava a espuma com a toalha e, ora, veja, já estava barbeado por baixo.
Outra cena clássica era a de bater no gancho do telefone para recuperar a linha. O sujeito estava falando e a ligação era cortada. Dava, então, várias pancadinhas no gancho. Mas a linha nunca voltava. E este era o único traço de realismo naqueles filmes em que as mulheres, mesmo depois de ir para a cama sofrendo e chorando, acordavam prontas, maquiadas e lindas.
Em Brasília, também é assim. Depois de ir para a cama rindo, feliz e exultante, qualquer político importante, mesmo acusado de grossas e cabeludas falcatruas que constrangem a nação e abalam o equilíbrio político, continua acordando rindo, feliz e exultante.

MÔNICA BERGAMO - LIVRO EM MOVIMENTO


LIVRO EM MOVIMENTO
MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SÃO PAULO - 30/05/11

"Todos os quartos de hotel são essencialmente iguais." A frase estava em livro de Virgínia Rey, escritora que nunca publicou, achado por acaso pelas brasileiras Isabel Teixeira (à dir.) e Simone Mina em uma caixa. As duas transformaram a frase na performance "H.tel&Soul", que ocupará dois quartos de um prédio em Mannheim, na Alemanha, a partir de sexta. A filha de cinco meses de Isabel, Flora, está na obra.

CLUBE FECHADO


O médico Ricardo Tapajós, que luta para que o clube Paulistano reconheça seu companheiro, Mário Warde, como sócio-dependente, pretende fazer valer a decisão do Supremo Tribunal Federal que estende à união estável de homossexuais os mesmos direitos dos casais heterossexuais. Ele processa a agremiação. "Se perdermos, vamos invocar a decisão do STF para recorrer", diz.

DUAS FRENTES
Além da ação judicial, o caso também originou um processo administrativo na Secretaria da Justiça, movido pela Defensoria. O órgão pede que o clube receba uma advertência e seja multado em até R$ 17,4 mil -dinheiro que, neste caso, não seria pago para o casal, mas ao Estado. Tapajós, por enquanto, não planeja exigir indenização do Paulistano. "A gente até faz jus, mas a ideia não é essa. Não quero hostilizar o clube, e sim que ele reconheça o meu direito."

TUDO JOIA

O shopping Cidade Jardim promoveu o desfile de moda Fashion Day, em que a designer Sabrina Gasperin lançou linha de joias. Passaram por lá a modelo Paula Mott e as empresárias Marina Mantega e Cristiana Neves da Rocha.

ESTÁ NA REGRA?
Em nota, o Paulistano, um dos clubes mais tradicionais de São Paulo, afirma que "não sustenta situações de preconceito de nenhuma espécie contra qualquer pessoa. A instituição apenas segue a legislação brasileira e, em segunda instância, o estatuto vigente".

MARISA VEM AÍ
A cantora Marisa Monte volta aos palcos em agosto. Ela fará uma participação no show da mexicana Julieta Venegas na próxima edição do festival Telefônica Sonidos, que acontece de 24 a 27 de agosto no Jockey Club de São Paulo.

HOTEL NEYMAR
A decoradora Camilla Matarazzo criou uma suíte de hotel inspirada em Neymar para a Casa Cor. "Ele gostou tanto que pediu para eu fazer a mesma coisa na casa que acabou de comprar." Como o craque gosta de assistir a filmes, ela colocou um box de chuveiro com uma película que permite ver TV no banho.

PIADA DE IRANIANO

O Salão do Humor de Piracicaba, em agosto, terá uma mostra de trabalhos de cartunistas iranianos. Um deles, Massoud Shojai Tabatabai, fará parte do júri do evento.

VIAJADA

A americana Audrey Niffenegger, do romance "A Mulher do Viajante do Tempo", participará da Bienal do Livro do Rio, em setembro.

INICIAÇÃO CIENTÍFICA

Fiéis como Tom Cruise não deram ibope à Igreja da Cientologia no Brasil. O livro "Dianética", espécie de Bíblia da filosofia religiosa, vendeu 5.000 exemplares no país desde 2004. No mundo, a cifra supera 20 milhões. A igreja planejava lançar neste mês DVD da obra em português brasileiro. Desistiu.

CRISTO AMEAÇADOR
Há entulho nas escadas ao redor do Cristo Redentor, no Rio. Na semana passada, turistas subiam até a estátua em meio a placas de vidro quebrado. A administração do Parque Nacional da Tijuca, onde fica o monumento, diz estar "em finalização de obras", o que "infelizmente causa transtornos".

COISA DE GRINGO


O fotógrafo austríaco Martin Ogolter se mudou para o Rio em 2003. Ele, que já clicou capa de discos para bandas como Led Zeppelin e Bush, inaugurou mostra individual na Pequena Galeria 18, em Copacabana. Estão expostas 17 fotos que giram em torno do tema sexo.

CURTO-CIRCUITO

O site oficial do longa "Cilada.com", de José Alvarenga Jr., está no ar: www.ciladao filme.com.br

Sergio Adorno participa de debate do Núcleo de Estudos da Violência da USP amanhã a partir das 14h30 na Fundap.

O Instituto do Câncer do Estado de São Paulo abriu as inscrições para o Prêmio Octavio Frias de Oliveira.

O torneio beneficente
Polo Einstein será realizado no próximo dia 25 de junho no Helvetia Polo Country Club, em Indaiatuba.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA, THAIS BILENKY e CHICO FELITTI

GOSTOSA

JOSÉ ROBERTO BATOCHI - A notícia, o sigilo e a lei



A notícia, o sigilo e a lei

JOSÉ ROBERTO BATOCHIO

Folha de S. Paulo - 30/05/2011


No caso do ministro Antonio Palocci, a ninguém é dado ignorar que a lei impõe sigilo total a contratos em que há cláusula de confidencialidade

Muita falação se tem deitado sobre o fato de o ministro Antonio Palocci ter participado de uma sociedade de consultoria empresarial que, em quatro anos, teria auferido recursos suficientes para a aquisição de um escritório para sua sede e, como investimento, um apartamento em área nobre de São Paulo.
Desabou o mundo com a divulgação do fato pela Folha, reeditando-se, em quase todos os meios de comunicação, o fenômeno caracterizador dos que querem aceitar o pior para o seu semelhante: a suspeita gratuita, a maledicência temerária e a condenação sumária.
Tal postura não é nova e seria imanente à idiossincrasia da opinião pública (ou da opinião publicada que a deforma?), já que, nestes tempos bicudos de delatores premiados e de denuncismo avassalador, nenhum êxito pessoal é facilmente aceito como legítimo fruto de trabalho honesto e competente.
Há quem pense que por trás de todo sucesso há sempre um crime ou, no mínimo, "flexibilizações" éticas. Trata-se aqui do "pesadelo brasileiro", êmulo do "sonho americano", que condena à execração o sucesso individual, mesmo que seja o resultado de árduo labor e do mais inquestionável talento.
A despeito de gerar riquezas e criar postos de trabalho, o empreendedor é logo apontado como desonesto ou sonegador. A razão da deformidade se explica por se mostrar doloroso à mediocridade assistir à eficiência e à competência dos que logram construir e edificar no plano material ou intelectual.
Daí o "delenda Cartago" imediatamente lançado, qual irrevogável "sharia", contra os que têm a audácia de trilhar o caminho da ascensão. No caso da consultoria em questão, os suspicazes de plantão afirmam ser intolerável que possa ter tido um faturamento bruto de R$ 20 milhões num período de quatro anos (ou seja, 48 meses).
Tal quantia, dividida pelos meses indicados, resultaria em uma receita mensal bruta de R$ 416 mil, dos quais se deduzem impostos, contribuições, taxas, salários etc.
Há, na iniciativa privada, remunerações muito maiores, máxime no setor da comunicação de massa.
Por quê, então, a devastação moral se não há notícia do mais tênue elo entre a consultoria e qualquer atividade pública? O estrépito se dá pela visibilidade do personagem?
Entende-se o propósito demolitório da oposição. É o jogo político da busca do poder pelo poder. Com o que não se atina, porém, é a volúpia sem freios com que outros setores da sociedade se dedicam à faina demolitória da honra das pessoas.
Seria cultural isso? Schopenhauer aludia a uma palavra -intraduzível em português- que definiria a disposição exterminadora do presente e do futuro das pessoas: "schadenfreude". Significa um sentimento de genuína felicidade que se experimenta pelo infortúnio e pelo sofrimento do próximo.
Aqui, "schadenfreude" explica?
Se não, parece adequada uma mudança de atitude, consistente na verificação mais acurada dos fatos (e boatos) antes de se propalarem leviandades, repercutirem imputações destituídas de fundamento e vociferarem inconsequências.Tanto mais avulta tal responsabilidade quanto intocável se mostra o direito à livre informação. No caso específico aqui versado, a ninguém é dado ignorar que a lei impõe sigilo total a contratos em que se acha estipulada cláusula de confidencialidade, definindo a sua violação como crime punido com prisão (artigo 154 do Código Penal), além de sujeitar o violador à indenização para reparação de danos materiais e morais sofridos pela parte inocente.
Por fim, para os que insistem que sejam violadas as cláusulas de sigilo, essa mesma lei penal (artigo 286) adverte: "Incitar, publicamente, a prática de crime: pena-detenção de três a seis meses e multa". A lei, não se deve olvidar, é a medida de todas as coisas.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA


Vício de origem
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 30/05/11

A despeito de uma agenda de encontros e oportunidades de foto, a ser executada ao longo desta semana com o objetivo de desanuviar o ambiente e demonstrar entendimento entre a presidente e seu vice, os mais próximos manifestam, em privado, sérias dúvidas quanto à possibilidade de melhorar substancialmente a relação Dilma Rousseff-Michel Temer.
O motivo seria a arraigada desconfiança da presidente, que enxerga o vice como parte de um trio de peemedebistas -completado pelos deputados Henrique Alves e Eduardo Cunha - decidido a conspirar contra ela. A votação do Código Florestal foi mais um episódio ao qual Dilma aplicou essa interpretação.

Telefonia 
Na operação quebra-gelo iniciada no sábado, primeiro Temer ligou para Dilma. Ele estava na espera quando a ligação caiu. Ela então ligou de volta.

Risco gaveta 

A oposição teme que a proximidade da sucessão na Procuradoria-Geral da República e o pleito de Roberto Gurgel por um novo mandato, a ser decidido pela caneta da presidente da República, joguem contra o empenho elucidativo da multiplicação patrimonial de Antonio Palocci.

Porta-voz 

Com Palocci no banco, cresce a visibilidade do secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho.

Plutônio 1 

A lista de políticos apreensivos com o escândalo de corrupção em Campinas é longa e vai além das fronteiras do PT. Velho amigo de Lula, o prefeito Dr. Hélio (PDT) tem conexões nas mais variadas siglas. Recentemente, foi convidado a ingressar no PSD de Gilberto Kassab. Declinou da oferta.

Plutônio 2 
Nos preparativos para a sucessão paulista de 2010, uma ala do PT lançou na praça a ideia de patrocinar a candidatura de Dr. Hélio ao governo. Indagado a respeito, um cardeal do partido foi direto: "Ele não aguenta uma semana de exposição no noticiário".

Gritaria 

Em reunião na semana passada, a bancada do PMDB se derramou em críticas ao relatório do colega Ricardo Ferraço (ES) sobre o projeto de reforma administrativa do Senado. Foi especialmente combatida a ideia de reduzir o número de funcionários concursados nos gabinetes. Presente, José Sarney (AP) pouco falou.

A luta continua 
Por mais alinhada com Aécio Neves que seja a nova direção do PSDB, José Serra saiu da convenção de anteontem tão disposto quanto antes a voltar a disputar a Presidência em 2014. Nas palavras de quem os conhece bem, ambos seguem determinados e "com o mesmo sentimento de eliminar o outro".

Nem te conto
Anfitrião da extenuante reunião em Brasília na qual foi definida a cúpula tucana, o deputado Duarte Nogueira (PSDB-SP) brincou que irá ceder o imóvel para refilmagem de "Se Meu Apartamento Falasse".

Eu? Imagine... 

Depois de passar as últimas semanas apertando todos os botões possíveis na tentativa de assegurar a presidência do Instituto Teotônio Vilela, que no final lhe foi negada pelos aecistas, Serra reagiu mal quando abordado por repórteres na saída da convenção tucana: "É ridículo imaginar que eu disputaria o ITV".

Parou por quê? 

O governo de SP congelou a liberação de novas linhas de ônibus intermunicipais até que todos os lotes sejam submetidos a processo licitatório, conforme exige a lei desde dezembro passado. O pedido para regularizar o sistema foi enviado ao PED (Programa Estadual de Desestatização). Antes, haverá uma rodada de audiências públicas.
com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio

"A convenção do PSDB não foi uma disputa entre paulistas e mineiros, como querem alguns. Foi apenas um momento para mostrar que a fila andou."
DO SECRETÁRIO DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE MINAS, NÁRCIO RODRIGUES, expoente da tropa de choque de Aécio Neves, comentando o evento no Twitter.

Contraponto

Regime Disciplinar Diferenciado

No sábado, quando já estavam reunidos havia três horas na tentativa de costurar um acordo para a composição do comando do PSDB, o mineiro Antonio Anastasia desabafou com o colega Geraldo Alckmin:
-Acho que é mais fácil administrar os nossos Estados do que chegar a um entendimento aqui...
O governador paulista, que já havia encarado outra rodada de negociação madrugada adentro, foi além:
-Acho que é mais fácil debelar uma rebelião num presídio de segurança máxima!

MELCHIADES FILHO - Os miseráveis


Os miseráveis
MELCHIADES FILHO
Folha de S. Paulo - 30/05/2011

BRASÍLIA - O Planalto comete um erro e uma injustiça ao tratar o Brasil sem Miséria como item da "agenda positiva" para diminuir o desgaste político do "Paloccigate".
Colocar de pé o principal projeto de Dilma na área social é algo mais difícil, e mais importante, do que tentar justificar as peripécias financeiras do ministro da Casa Civil.
Primeiro, porque o governo fixou meta ambiciosa, embora aquém da prometida na campanha eleitoral: em quatro anos, tirar da extrema pobreza 16 milhões de brasileiros.
Segundo, porque, ao menos na largada, o Brasil sem Miséria tem baixo potencial publicitário: não se presta a pirotecnias nem pode ser vendido como "inovador".
O plano, a ser anunciado na quinta-feira, apoia-se em três eixos:
1) Inclusão produtiva: no campo, por exemplo, prevê ampliar o fornecimento de água, dar sementes de qualidade e alinhar os novos agricultores ao setor atacadista.
2) Transferência de renda: aumentar o valor do Bolsa Família e incluir 800 mil lares no benefício.
3) Mobilização do Estado: identificar, contatar e cadastrar 16 milhões de pessoas hoje distantes das cadeias econômicas e dos serviços públicos básicos (mais da metade em área rurais e no Nordeste).
Oito anos atrás, essas iniciativas seriam recebidas com descrença. Hoje, graças ao sucesso do Bolsa Família e à expectativa de outro programa tão transformador, elas soam modestas. Um plano guarda-chuva, lastreado em conceitos como "transversalidade" e "multidisciplina", e dependente da motivação do funcionalismo? Só isso?
A equipe do Brasil sem Miséria conhece o país. Foi quem criou o Bolsa Família e desenhou o projeto do biodiesel (que, se não obteve muito impacto social, implantou do zero uma nova rede produtiva).
Mas ela tem pela frente um enorme desafio de comunicação -desafio que o governo, emudecido pelo enriquecimento de Palocci, não parece em condições de enfrentar.

GOSTOSA

LUIZ FELIPE PONDÉ - "Leave the kids alone"


"Leave the kids alone"
LUIZ FELIPE PONDÉ
FOLHA DE SÃO PAULO - 30/05/11

O Estado deve dar o direito aos gays de viverem como os héteros. Não deve dizer o que é normal


DE FATO existem pessoas racistas. Homofóbicas, antissemitas (que hoje em dia se escondem atrás do antissionismo), que não gostam de pobres e de nordestinos. Pessoas assim barateiam o debate contemporâneo, assim como as que simplificam as trincheiras teóricas em que vivemos nos últimos anos, jogando tudo no mesmo saco do "reacionarismo". Como se o mundo permanecesse nos limites de um "centro acadêmico em guerra contra a repressão da ditadura".
Acho que muita gente tem saudades dos tempos da ditadura porque se sabia onde estava o mal. Será mesmo? Nem tanto. Muita gente ainda não sabe que a luta armada no Brasil foi feita por pessoas que queriam fazer do país uma ditadura de esquerda. Tivessem eles vencido, estaríamos hoje numa grande Cuba.
Mas como seria bom se o mundo fosse simples assim, preto no branco, amigos e inimigos, bons e maus. Não é. Na maior parte do tempo é cinza e confuso.
O debate ao redor do "politicamente (in)correto" incendeia a mídia. Pessoas querendo "mudar" Monteiro Lobato, querendo "curar" gays e "decretar" que não devemos corrigir o português dos pobres porque isso é ruim pra autoestima deles.
Tenho preconceito contra essa gente que vive pensando na "economia da autoestima", sorry...
Tomemos como exemplo o debate sobre a luta pelos "direitos gays".
O STF aprovou a união civil dos homossexuais. Vou mais longe: acho que deveriam ter o direito de se casar também e de ter filhos. E de ir às reuniões chatas de "pais e mestres". E de ficar pobres como os héteros por causa dos filhos. E de descobrir que pouco importa sua "visão de mundo", você estará sempre errado diante de um filho que cresceu.
Acho que quem "bate em gay" deve pagar não porque bateu num gay, mas porque gay é gente como todo mundo. Sou contra leis especiais que protejam gays. Complicado? Sinto muito.
Se um professor interrompe um menino e uma menina que se beijam na sala de aula é ok, mas, se fossem dois meninos, seria "homofobia"?
Hoje os jovens (e todo mundo) têm medo de dizer qualquer coisa que não seja "gay é lindo". Não há nada de revolucionário em ser gay, nem existe uma "comunidade gay". Gays são pessoas atoladas nas mesmas misérias e erros humanos. Neuróticos, como todo mundo, com sofrimentos específicos.
E aí chegamos a uma questão que me parece muito representativa dos equívocos do debate ao redor da "questão gay" (um belo exemplo do fascismo do politicamente correto): o pretenso direito de o Estado querer discutir "a heterossexualidade como normatividade sexual".
Intenções como essas representam a tendência totalitária do Estado moderno em querer se meter em assuntos que não são da sua competência.
O governo não tem que se meter a dizer a ninguém o que é "sexualidade normal". Isso é um crime contra a liberdade. E isso vai acabar "batendo" na sala de aula. E, como ninguém sabe direito o que está fazendo na sala de aula, essa nova "modinha" vai pegar.
Já disse em outras ocasiões que sou contra a tal da educação sexual quando pretende discutir "ideologias sexuais". Como pai, tenho todo o direito de suspeitar da sanidade mental de uma professora de educação sexual, porque em matéria de sexo todo mundo é mal resolvido.
Se as famílias são um lixo e por isso exigem das escolas o que elas não podem dar, as famílias das professoras também são um lixo.
Imaginemos uma aula de educação sexual na qual vá se "questionar a normatividade" (ou normalidade) da heterossexualidade. Como seria uma aula dessas?
Que tal assim? Meninos e meninas colocando com a boca uma camisinha num pênis de plástico para, quem sabe, perceberem que meninos também podem gostar de fazer sexo oral em meninos.
Ninguém tem o direito de fazer isso. Nem pai, nem mãe e muito menos professores que, provavelmente, ao se dedicarem a isso, "provam" suas pequenas taras.
O Estado deve dar o direito aos gays de viverem como os héteros e mais nada. Não deve se meter a dizer o que é normal. As pessoas têm o direito de sentir o mal estar "que quiserem". E deixem os filhos dos outros em paz.

CLÁUDIO HUMBERTO


" (o juiz ) Tem que aprender que 
jornalista não é inimigo" 

Ministro Cezar Peluso, presidente do STF,
defendendo o Judiciário mais comunicativo

Lula usou ex-ministro para intimidar
A audiência da presidenta Dilma ao ex-jornalista e ex-ministro Franklin Martins foi uma jogada de Lula para tentar estancar o sangramento de Antônio Palocci e calar emissoras de rádio e tevê, que, para ele, faziam "campanha" para derrubar o ministro da Casa Civil. A notícia da "iminente nomeação" de Martins para o Ministério das Comunicações foi uma ameaça velada às emissoras, que têm pavor à ideia.


Troca-troca

O plano de Lula, "vazado" para a imprensa, seria deslocar Paulo Bernardo para a Casa Civil e nomear Franklin Martins em seu lugar.


Deu chabu

O "plano maquiavélico" de Lula falhou porque as emissoras não se intimidaram com Franklin Martins, que prega o controle da imprensa.


Garotinho

O ex-presidente Lula anda preocupado com o crescimento do prestígio do deputado Anthony Garotinho (PR-RJ) na Câmara. Não confia nele.


Bolsa remédio

O governo encomendou pesquisa nacional para avaliar o que pensa o povão da Farmácia Popular. No Rio, o programa naufraga célere.


Lindberg ataca

O senador Lindberg Farias (PT-RJ) resolveu atacar o Código Florestal, aprovado na Câmara, mas ninguém acredita em suas supostas convicções ambientalistas. Lideres do PT já "captaram a mensagem": ainda sem apoio no partido para disputar o Governo do Rio em 2014, ele tenta colocar os petistas contra a parede flertando com o PV, para insinuar aliança com Marina Silva, que derrotou Dilma no Rio, em 2010.


Infiel militante

Os petistas não duvidam das ameaças de Lindberg Farias: ele já se filiou ao PCdoB, PSTU e PT. PV seria mais um.


2º escalão

Petista histórico, Duncan Semple deixou a assessoria especial da Presidência da República. É amigo de Lindberg Farias.


Porto-alegrense

O vice-presidente da TAP, Luiz da Gama Mór, receberá em 14 de junho o titulo de cidadão honorário de Porto Alegre.


De vidro

O líder do Governo Dilma na Câmara, Candido Vaccarezza (PT-DP), vai entrar na linha de tiro do "fogo amigo": é acusado no Planalto de dedicar tempo demais a sua construtora (que um dia foi vidraçaria).


O conto do PAC

Inaugurada por Lula e Dilma em 2009, a Estação de Tratamento de Esgoto de Anhumas, em Campinas (SP), recebeu recursos do PAC através da Caixa. A Constran, envolvida no escândalo do suposto "mensalinho" na prefeitura, tocou parte da obra de R$ 56,3 milhões.

PODER SEM PUDOR

Quando um 'animal' fala...
Interventor de Minas Gerais, Benedito Valadares era conhecido pelo vocabulário esquálido e os gestos pouco elegantes. No início dos anos 40 do século passado, em visita a Manhuaçu, na zona da mata, ele discursou:
- Manhuasuínos! Não vos desanimeis. Animais, como eu...
Um apavorado assessor o interrompeu para informar, baixinho, que a palavra correta era "manhuasuenses". Era tarde: a multidão, ofendida, já iniciara a debandada.

SEGUNDA NOS JORNAIS

Globo: Governo prepara ação contra onda de assassinatos no campo
Folha: Brasileiros não fazem planos para se aposentar
Estadão: Fundos de FGTS da Vale e da Petrobrás encolhem R$ 1,6 bi
Correio: Condomínios têm processo suspenso
Valor: China age para vetar Brasil no Conselho de Segurança
Jornal do Commercio: Mortes, tensão e reação
Zero Hora: Contrabando e desvio de explosivos ampliam o poder de quadrilhas