terça-feira, maio 24, 2011

DEMÓSTENES TORRES - O mérito, as cotas e o racismo


O mérito, as cotas e o racismo
DEMÓSTENES TORRES

FOLHA DE SÃO PAULO - 24/05/11

Em audiência no STF, defendi as cotas sociais, em vez das raciais, para a ação afirmativa atender a quem dela precisa: os pobres de todas as cores

O reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, José Vicente, me acusa de um delito, o racismo, que teria sido cometido em audiência no Supremo Tribunal Federal, em 2010.
Nela, defendi as cotas sociais, em vez das raciais, para a ação afirmativa atender a quem realmente precisa: os pobres de todas as cores.
Em nenhum trecho falei o que Vicente alega em artigo publicado nesta Folha no dia 19 de abril ("É o racismo, estúpidos!", "Tendências/Debates").
Naquele e em outros debates sobre cotas me vali das ciências, como a biologia e a história. Citei dados para embasar afirmações como a de que só existe uma raça, a humana. Nas vagas de cotas, qual critério usar? A cor da pele?
Pesquisa do projeto Raízes Afro-brasileiras mostrou que os genes do sambista Neguinho da Beija-Flor são 67,1% europeus e 31,5% africanos. O país inteiro é assim. O sangue é tão misturado que um laboratório é incapaz de identificar a coloração da epiderme que picou para extraí-lo. Só sabe que foi bombeado por um coração brasileiro.
Há filhos do mesmo pai, da mesma mãe, em que um é negro e o outro é branco. Gêmeos idênticos, cor de pele igual, foram divididos por universidade cotista: "Esse é negro, esse é branco". É a diversidade de um país que celebra Pelé e Clarice Lispector, Machado de Assis e Patrícia Pillar. Isso acabou evitando, no texto de que fui relator e do qual resultou o Estatuto da Igualdade Racial, a implantação de uma guerra que o povo nunca travou.
Ao contrário. A legislação, ao longo dos anos, tem sido implacável com o racismo. No artigo, Vicente me acusa de "destilar em praça pública os venenos que reservava para ambientes privados". Membros de ONGs acreditaram na matéria e a distribuíram via e-mail e em sites, blogs e perfis nas redes sociais. Começou com premissa não checada por um reitor, e o efeito viral tornou um parlamentar o racista da vez.
Quem, então, "destila veneno"?
O rosário vai do jogador Roberto Carlos aos brutamontes que brigam em estacionamento.
O propósito da colagem de manchetes é dar a impressão de que a apologia ao mérito tem o efeito de formar gangues. E sou eu o acusado de usar "retórica dissimulada".
Ao abrir, do alto do prestígio do jornal e da massificação da internet, o travesseiro com as penas das inverdades, Vicente me obriga a recolhê-las, uma a uma, como no tradicional exemplo dos crimes contra a honra. E sou eu quem "faz mau uso do direito de expressão pra fins pessoais inconfessáveis".
Nos comentários dos leitores virtuais, sobraram xingamentos raivosos. E sou eu quem "fomenta, de modo irresponsável, o ódio racial".
Os dados sem checagem o fizeram errar nome de congressista (confunde o deputado Júlio Campos com o senador Jayme Campos) e enxergar ligação entre a defesa do mérito e a "perseguição, a agressão e a eliminação de negros, de judeus e de homossexuais". Não há qualquer relação com esses absurdos. O que celebrei foi o painel multicor que torna tão belo e rico este Brasil heterogêneo.
A intolerância se disfarça dos mais nobres sentimentos, nutre-se do senso comum e, espalhando-se pelo politicamente correto, "tateia sutilmente pelas frestas e se mistura sinuosamente com naturalidade cotidiana". A saída é a educação.
Inclusive na Zumbi, mas quando se trabalhar para tirá-la do 1.568º lugar entre as faculdades e da nota 2 no índice de cursos.
Melhorar dá trabalho, mas é mais eficiente que achincalhar honra, crime que devemos "repudiar e combater sem trégua e sem piedade, sem diminuí-lo e sem ignorá-lo", exatamente como agimos nos casos de racismo.

O VERDADEIRO CHEFE DA QUADRILHA

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA


Parece, mas não é
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 24/05/11

Na véspera da votação do Código Florestal, o governo entrou em campo ontem para tentar desfazer a impressão, consolidada no Congresso, de que teve de ceder na negociação do texto para aliviar a pressão sobre o ministro Antonio Palocci, na berlinda depois da revelação do salto em seu patrimônio.
Dilma passou parte da manhã debatendo o código. Pediu aos ministros de partidos aliados que agissem e disse divergir da proposta costurada na semana passada. Ainda que o gesto tenha impacto duvidoso no plenário hoje, a ordem é evitar que se fixe a ideia de que o Planalto negligenciou a votação, mesmo discordando de pontos defendidos pela maioria ruralista.

Tenho dito 
No encontro de ontem com ministros de partidos aliados, um dos presentes quis colocar o caso Palocci na pauta. Dilma reagiu na hora: "Não quero tratar deste assunto. Não vou misturar os temas".

Reflexões 
De um senador aliado, sobre as reações da base governista à crise na Casa Civil: "Há uma diferença entre apoio e solidariedade. Apoio é o aplauso na hora do acerto. Solidariedade é o apoio na hora do erro. Por ora, o governo tem tido apoio. Até porque nunca foi solidário com ninguém".

Base 1 
Administrador da empresa de Palocci até dezembro passado, Celso dos Santos Fonseca é hoje chefe de gabinete da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), subordinada ao Ministério da Ciência e Tecnologia. O presidente do órgão, Glauco Arbix, também é ligado ao chefe da Casa Civil, assim como o diretor de inovação, João Alberto De Negri.

Base 2
Foi na Finep que o governo acomodou Luiz Azevedo, que deixou a Secretaria de Relações Institucionais após encaminhar a líderes partidários a nota na qual se procurou justificar o salto patrimonial de Palocci com base em exemplos de administrações passadas.

Que frio! 
O sistema de ar-condicionado do Palácio do Planalto voltou a incomodar Dilma ontem. No final da manhã, a presidente, que ainda se recupera de uma pneumonia e vinha preferindo trabalhar no Palácio da Alvorada por causa do ambiente mais arejado, reclamou da baixa temperatura do equipamento.

Samba no pé 

Contundido desde a semana passada, Orlando Silva (Esporte) apareceu ontem no Planalto para a reunião sobre o código numa cadeira de rodas. Colegas logo quiseram saber se o ministro havia se machucado no samba, já que é assíduo frequentador das casas do gênero em Brasília.

In pectore 
Nas mais recentes conversas no Bandeirantes, Geraldo Alckmin sinaliza simpatia pela candidatura de Bruno Covas à prefeitura paulistana, caso José Serra não entre no páreo.

Vigilância 
Após instalar na CDHU um aliado de Paulo Maluf (PP), o governo paulista criou núcleo na Corregedoria Geral para monitorar a Secretaria da Habitação.

Bola da vez 
Hoje com seus principais assessores envolvidos no escândalo das fraudes em licitações da empresa municipal de saneamento, o prefeito de Campinas, Dr. Hélio (PDT), tinha seu passe disputado até bem pouco tempo por dirigentes do PSD, PTB e PSB.

Visita à Folha 

Clovis Torres, vice-presidente da Bahia Mineração, visitou ontem a Folha. Estava com Amine Darzé, gerente de comunicação, Beth Alves e Andrew Greenlees, da CDN Comunicação Corporativa.

tiroteio
"Vou defender nosso espaço até a última hora. São Paulo não ficará de lado. Serra está preparado para a presidência, o ITV ou qualquer cargo importante no partido."
DO PRESIDENTE DO PSDB-SP, PEDRO TOBIAS, criticando o que chama de tentativa de isolamento dos paulistas na convenção tucana.

contraponto

Olho clínico
Durante audiência pública na Câmara sobre novas regras para os planos de saúde, Silvio Costa (PTB-PE) questionava duramente as margens de lucro das operadoras, que, na sua avaliação, estariam em patamar muito acima do aceitável.
Subitamente, o deputado, incomodado com o silêncio na mesa, dirigiu-se ao representante dos convênios médicos presente ao evento e disparou:
-Cuidado, em olho grande só entra cisco!

DORA KRAMER - Duvidoso, e daí?


Duvidoso, e daí? 
DORA KRAMER
O ESTADO DE SÃO PAULO - 24/05/11

O governo está atuando nitidamente em duas frentes para transitar com o mínimo de danos possíveis pelo pantanoso terreno da trajetória financeira da empresa de consultoria do ministro Antônio Palocci: Congresso e imprensa.

É onde identifica que pode haver confusão. Na verdade, mais na imprensa que no Congresso.

Junto ao Legislativo faz o jogo bruto da manipulação dos instrumentos de poder: cobra fidelidade dos aliados, ameaça os infiéis e insinua a todos, correligionários e adversários, aquele tipo de retaliação contida na nota alegadamente involuntária sobre os negócios paralelos de quase 300 parlamentares.

Junto à imprensa faz operação mais sutil nos veículos que lhe parecem ameaçadores, valendo-se das boas amizades, não só do ministro, mas também dos envolvidos no suporte de comunicações que monitora a crise e de pontes anteriormente construídas e solidificadas no trânsito de informações.
Nenhuma ilegalidade ou amoralidade. Apenas um jogo de convencimento.

Antonio Carlos Magalhães dizia que há jornalistas que gostam de dinheiro e jornalistas que gostam de informação. O segredo de uma proveitosa relação, segundo ACM, seria saber distingui-los e principalmente nunca confundi-los.

É uma lição que o poder nunca esquece.

Com o Parlamento controlado e a sociedade anódina, o governo é sensível à evidência de que denúncias hoje só prosperam por meio do trabalho da imprensa, que, no entanto, não pode se substituir a tudo o mais.

Há novas notícias a dar, novos assuntos a serem tratados. Numa situação normal, isso não deveria fazer com que outros setores se mantivessem paralisados, indiferentes a ocorrências ainda não esclarecidas.

Mas, como se esperam sempre “fatos novos”, se não há novidades sobre o episódio revelado a tendência é que seja dado como superado por obra e graça da passagem do tempo.

É com isso que Palocci e o Planalto contam: à exceção das que renderam processos, há inúmeros exemplos de denúncias cujo destino foi o esquecimento mediante o arrefecimento do noticiário. Quando não há “fatos novos” nem eleições, o governo faz como aquele notório deputado: se lixa para a opinião pública.

Não havendo agravamento apontado pelos meios de comunicação fica consignada a inexistência de gravidade. Por mais grave que continue sendo o fato original. No momento, a recusa de esclarecimento sobre o cada vez mais suspeito enriquecimento do ministro da Casa Civil.

A deformação não está na ofensiva de defesa do governo. Esta por si só dá nitidez ao quadro: Palocci não pode se defender sozinho pelo método mais simples da comprovação de que não usou de sua condição pública para patrocinar favorecimentos privados. Dele mesmo e de seus clientes.

A distorção reside no conformismo geral diante de uma manifestação de arrogante indiferença por parte do governo e da infantilizada expectativa de que a imprensa assuma o papel de palmatória e faça frente a questões que são da responsabilidade de todos.

Dura Lex

Por mais que haja algumas incongruências no caso do ataque do ex-diretor do FMI Dominique Strauss-Kahn à camareira do hotel em Nova York, há o histórico de comportamento abusivo agora relatado por alguns dos “alvos” ao longo dos anos.

Do ponto de vista da política não é isso que chama atenção no caso e sim o sentido de igualdade presente no cotidiano do tão criticado público americano.

A gerência do hotel não hesitou em chamar a polícia diante do relato da funcionária nem se intimidou com a estatura profissional da excelência envolvida.

O que por muita gente é tido como excesso decorrente de mentalidade puritana pode também ser visto como obediência ao preceito de que a lei é igual para todos. Nesses casos os poderosos acabam pagando mais caro porque despertam interesse e seus infortúnios viram notícia.

A tese da conspiração peca entre outros por um detalhe: a polícia só localizou DSK no avião pouco antes da decolagem para Paris porque ele telefonou atrás do celular que havia esquecido no hotel, e informou onde estava.

GOSTOSAS

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Companhia pretende crescer com novas aeronaves
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 24/05/11

Depois de quase três anos sem aumentar a frota, a Avianca Brasil recebe até agosto cinco Airbus A318, o menor avião da fabricante europeia, com 120 lugares.
O primeiro já está na frota, voando de Porto Alegre a Salvador, com escalas em Guarulhos e Brasília. O segundo está previsto para semana que vem.
Segundo o presidente da Avianca Brasil, José Efromovich, a empresa planeja incorporar mais cinco A318 no ano que vem, e outros cinco em 2013.
Efromovich refuta críticas de que se trata de uma expansão lenta diante do forte crescimento do setor, que no ano passado cresceu mais de 20%. Enquanto a empresa patina em 2% de participação, a Azul, em menos de três anos, já detém 7,7%.
"Nós não temos pressa para crescer. Tampouco vamos comprar participação de mercado, ou estamos aqui para perder dinheiro", diz.
O empresário diz que, quando os cinco A318 estiverem em operação, a oferta de assentos da companhia será quase 70% maior do que era um ano atrás.
Mesmo com a chegada das novas aeronaves, os 14 Fokker 100 e os três A319 da empresa aérea continuarão a fazer parte da frota.

INFRAESTRUTURA
O empresário disse ainda que o Grupo Synergy, dono da Avianca, tem interesse em investir em infraestrutura aeroportuária no Brasil.
"Dependendo de como serão as regras, podemos participar", afirma.
Ele lembra que a Avianca colombiana é concessionária de um terminal de passageiros no aeroporto de Bogotá. "Temos experiência nessa área. Infraestrutura é um negócio do grupo."


FÁBRICA NO MAPA
A Hyundai Heavy Industries escolheu o Rio de Janeiro para realizar a construção de sua fábrica no Brasil.
A decisão acaba de ser tomada na Coreia, pela divisão da companhia para máquinas e equipamentos de construção, como escavadeiras.
Da disputa para abrigar o empreendimento, que receberá investimentos de aproximadamente US$ 150 milhões, participaram Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo.
A implementação da fábrica, cujas obras começam em julho, é feita em parceria com a BMC (Brasil Máquinas), atual distribuidora da marca no país.
"Esta será a primeira fábrica de coreana a ser instalada no Rio de Janeiro", afirma Felipe Cavalieri, diretor-presidente da BMC.
A divulgação do nome do município será feita apenas depois da assinatura definitiva do contrato para o terreno, segundo Cavalieri.
A planta terá capacidade para produzir anualmente cerca de 5.000 escavadeiras e pás-carregadeiras, de acordo com a BMC, que registrou faturamento de R$ 600 milhões no ano passado.
A empresa representa outras marcas no país.

ADULTO E INFANTIL
A marca de moda masculina Mr. Kitsch vai mudar seu posicionamento para chegar a cem unidades no país até 2012.
Com quase 50 lojas atualmente, a empresa pretende também atender um novo canal, por meio de multimarcas.
Nos planos da marca -que acaba de trazer um novo executivo, Tiago Torres, vindo do grupo de Carlos Miele para comandar as mudanças- está o retorno da Kitsch Kids, linha infantil, segundo o empresário e ex-modelo Heraldo Mazza, fundador da marca há cerca de 20 anos.
"O objetivo é que a Kitsch Kids saia com 30 franquias até o fim de 2012."
Para o processo de reestruturação da marca, também está sendo estudada a entrada no segmento de moda feminina.
Com a expansão, a expectativa da empresa é a de triplicar o faturamento.

Pneu... 
A ArcelorMittal Monlevade, fabricante de molas de suspensão no Brasil e na Argentina, produziu, em 2010, cerca de 90 mil toneladas de fio-máquina para a produção de molas automotivas. O número é quase o dobro do fabricado em 2009.

...de aço 
Metade da produção é destinada à ArcelorMittal Sabará, na Grande BH. O restante fica na própria usina. Entre 6% e 10% do que é produzido vai para outros setores, como indústrias ferroviária, mecânica, agrícola e ligada à mineração.

Reajuste na indústria virá acima do ganho de produtividade
Aumentos salariais na indústria superiores ao crescimento da produtividade devem agravar ainda mais a pressão inflacionária.
No primeiro trimestre deste ano, os custos da folha de pagamento cresceram 2,4% em relação ao quarto trimestre de 2010, segundo a consultoria Tendências, com base em dados do IBGE.
A produtividade do setor, por sua vez, subiu apenas 0,4% na mesma comparação, o que elevou o CUT (Custo Unitário do Trabalho) industrial em 2% no trimestre.
"O quadro deve se manter nos próximos meses. A produção industrial continuará estagnada", diz Rafael Bacciotti, da Tendências.
O aumento dos salários deve ficar acima da inflação no final do ano, segundo Marcelo Moura, do Insper.
"Com o desemprego baixo, a economia aquecida e gargalos, trabalhadores ficam em melhor posição para negociar." Para Luis Braido, da EPGE/FGV, com a competição externa, a indústria tem mais dificuldade em repassar a alta do custo, "mas não deixa de ser um sinal de alerta".

Consumismo 
A Fundação Getulio Vargas participará nesta semana de painel sobre regulação financeira e defesa do consumidor em encontro da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), em Paris.

Gestão 
Será lançado hoje um novo programa para o gerenciamento de empresas do setor de saúde, como hospitais e farmácias. O Topgesto, mesmo nome da empresa produtora, terá investimento de cerca de R$ 10 milhões em 2011.

Coletivo... 
A CNI lançará um clube de benefícios, que vai funcionar por meio de um portal de negócios e relacionamentos do setor. Mais de 600 mil indústrias poderão obter descontos e vantagens em compras corporativas.

...industrial 
O foco da iniciativa será a área de serviços, como a aquisição de software e a locação de automóveis. O projeto visa atender micro e pequenas indústrias, que têm menor acesso a condições de compra semelhantes.

com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK, VITOR SION e MARIANA BARBOSA

PAUL KRUGMAN - Quando a austeridade fracassa


Quando a austeridade fracassa 
PAUL KRUGMAN
O Estado de S.Paulo - 24/05/11
Se os bancos gregos entrarem em colapso, isso obrigará o país a sair da zona do euro, o que daria início à queda dos dominós financeiros em grande parte da Europa

Muitas vezes eu me queixo, e com razão, sobre o estado em que encontra a discussão da economia nos EUA. E a irresponsabilidade de alguns políticos - como esses republicanos que afirmam que um calote da dívida americana não seria um grande problema - é assustadora.

Mas pelo menos entre os membros do "grupo da dor, defensor do rigor ", para quem elevar as taxas de juro e cortar as despesas do governo diante do desemprego em massa de alguma maneira deixarão as coisas melhores, não piores, estão sendo obrigados a um certo recuo por parte do Federal Reserve e o governo Obama.

Na Europa, ao contrário, esse "grupo da dor" está no comando há mais de um ano, e insiste que uma moeda sólida e orçamentos equilibrados são a resposta para todos os problemas. Uma insistência que tem por base fantasias econômicas, em particular a crença na fada da confiança, ou seja, a crença de que um corte de gastos criará de fato postos de trabalho, porque a austeridade fiscal reforçará a confiança do setor privado.

Infelizmente a fada da confiança continua se recusando em se mostrar.

E uma disputa sobre como lidar com a inconveniente realidade ameaça fazer da Europa o ponto de ignição de uma nova crise financeira.

Depois da criação do euro, em 1999, nações europeias que antes eram consideradas de risco e que, por isso, só podiam tomar emprestado até um determinado limite, começaram a experienciar enormes entradas de capital. Afinal, os investidores devem ter pensado, Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha, eram membros de uma unidade monetária europeia, então o que poderia dar errado? Hoje, a resposta a essa pergunta está penosamente aparente. O governo da Grécia, não conseguindo levantar empréstimos a taxas ligeiramente mais altas do que as obtidas pela Alemanha, endividou-se demasiadamente. Os governos da Irlanda e Espanha não chegaram a tanto (Portugal está numa posição intermediária) - mas seus bancos estão bastante endividados já que o boom de 1999-2007 deixou os preços e custos nos países devedores bastante desalinhados com os dos seus vizinhos.

O que fazer? Os líderes europeus ofereceram empréstimos de emergência para as nações em crise, mas em troca de promessas de que seriam implementados programas de austeridade cruéis, que consistiam principalmente de enormes cortes de despesas. As objeções de que tais programas seriam contraproducentes, - não só infligiriam um sofrimento direto, mas provocariam uma piora da crise econômica, reduziriam receitas - foram desconsideradas. A austeridade na verdade provocaria uma expansão, pois melhoraria a confiança.

Ninguém acreditou na doutrina da austeridade expansionista com mais confiança do que Jean-Claude Trichet, presidente do BCE. Sob a sua direção, o banco passou a pregar a austeridade como o elixir econômico que deveria ser imposto imediatamente e em todas as partes, incluindo países como Grã-Bretanha e Estados Unidos, que ainda contabilizam um alto índice de desemprego e não estão enfrentando nenhuma pressão dos mercados financeiros.

Mas, como disse, a fada da confiança não se manifestou. Os países endividados da Europa estão, como era de esperar, sofrendo um novo declínio econômico graças aos programas de austeridade implementados, e a confiança está naufragando, em vez de aumentar. É evidente, agora que Grécia, Irlanda e Portugal e não podem e não se dispõem a resgatar suas dívidas, embora a Espanha possa conseguir enfrentar a situação.

Realisticamente, então, a Europa precisa se preparar para uma redução da dívida, que envolveria uma combinação de ajuda das economias mais saudáveis e a imposição aos credores privados de "reduções parciais" do seu crédito, aceitando menos do que emprestaram. Mas parece que está faltando um pouco de realismo.

De um lado, a Alemanha adotou uma posição dura contra qualquer coisa que se assemelhe a uma ajuda para seus vizinhos em dificuldades, mesmo que uma razão importante para um programa de socorro seja tentar proteger os bancos germânicos de prejuízos.

Já o BCE age como se determinado a provocar uma crise financeira. Começou a elevar as taxas de juro, não obstante o terrível estado de muitas economias europeias. E executivos do banco vêm advertindo contra qualquer forma de alívio da dívida - na verdade, na semana passada, um membro do do BCE sugeriu que mesmo uma reestruturação moderada dos títulos gregos levaria o BCE a deixar de aceitar esses papéis como garantias de empréstimos a bancos gregos. O que equivale a uma declaração de que, se a Grécia buscar um alívio da sua dívida, o BCE retirará toda a ajuda para os bancos gregos, que dependem de maneira crucial desses empréstimos.

Se os bancos gregos entrarem em colapso, isso obrigará a país a sair da zona do euro - e é muito fácil ver como isso pode dar início à queda dos dominós financeiros em grande parte da Europa.

Então, o que o BCE anda pensando? O meu palpite é que o banco não está disposto a encarar o fracasso das suas fantasias. E se isso soa algo incrivelmente insensato, bem, quem disse algum dia que a sensatez rege o mundo? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

BRAZIU: O PUTEIRO

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE


Reservas reservadas
SONIA RACY
O ESTADO DE SÃO PAULO - 24/05/11

O governo Dilma pensa em uma nova utilização para as reservas externas brasileiras que hoje já ultrapassam a casa dos US$ 300 bilhões. Usá-las, segundo revela um integrante do governo muito próximo a Dilma, para comprar ativos no exterior. Tudo em parceira com grupos da iniciativa privada, envolvendo o BNDES.

Desta maneira, explica a mesma fonte, o Brasil ajudaria na internacionalização das empresas e, ao mesmo tempo, otimizaria a rentabilidade destes recursos brasileiros.

Reservas 2
Essa ideia, entretanto, segundo players de peso do mercado financeiro ouvidos pela coluna, não tem como sair do papel sem uma mudança significativa das atuais leis que regem o uso das reservas externas.

Microscópio
O Instituto Butantã abriu sindicância para apurar a situação de Irina Kerkis, chefe do departamento de genética da instituição. Quer descobrir se ela exerceu atividade remunerada fora do órgão, já que recebe bônus por dedicação exclusiva.

A pesquisadora foi apontada pela revista Época como ex-colaboradora da clínica de Roger Abdelmassih em período coincidente com suas atividades no Instituto.

Grandes negócios
Luiz Barretto, do Sebrae, tenta emplacar micro e pequenas empresas nos negócios gerados pela Copa e Olimpíadas.

Ele apresentou um "mapa de oportunidades" para Orlando Silva, do Esporte, e Jandira Feghali, relatora da medida provisória que vai definir as regras de licitação para obras dos dois eventos.

Olé
Adriana e Mario Cohen serão anfitriões de seleto almoço hoje, no Rio, em torno de Antonio Banderas. Na cozinha, Rogério Fasano. E na mesa, vinhos produzidos por Banderas e azeite Punta Lobos, feito por Cohen.

Já confirmaram presença Milton Nascimento, Ana Maria Braga, Bruno Barreto e turma de peso São Paulo-Rio.

Gene literário
Violante Saramago Matos, filha de José Saramago, mostrou que filha de peixe lagartixa não é. Estreia na literatura com um livro infantil, O Quinas Ganha Nova Casa. Publicado, por enquanto, só em Portugal.

Fogo Cruzado
Depois de conversar com a bancada do PT em São Paulo, o vereador José Américo decidiu. Vai requerer hoje informações da Secretaria de Finanças da Prefeitura. Desconfia que de lá vazaram informações sigilosas sobre o ISS da consultoria de Antonio Palocci. O petista quer saber quais e quantos funcionários têm acesso aos dados. Se houver indício de irregularidade, promete convocar os envolvidos para se explicarem na Câmara.

Acionada, a Prefeitura afirmou estar disposta a esclarecer qualquer informação solicitada pela Casa.

Desagradável
O caso de uma barata dentro de uma lata de leite condensado da Nestlé chegou ao STJ.

A ministra Nancy Andrighi confirmou decisão do Tribunal de Justiça de Minas, condenando a empresa a pagar R$ 15 mil ao consumidor.

Ponte aérea

Ashton Kutcher volta ao Brasil em junho. Posará para a Colcci no Rio e passará pela SPFW.

Mecenas
A Associação de Amigos do Museu de Arte Moderna do Rio prepara uma série de atividades para celebrar o trabalho de Adriana Varejão. Com destaque para mostra com 80 trabalhos da artista. Ana de Hollanda, da Cultura, liberou para captação, via leis de incentivo, quase R$ 2 milhões para que o projeto saia do papel.

Na frente


Ney Matogrosso é tema de um dos ambientes da Casa Cor e também iluminador do projeto. Hoje, no Jockey Club de São Paulo.

Acontece, quinta-feira, Leilão de Vinhos Raros. No Hilton do Morumbi.

Suzy Gheler fechou parceria com a Lindt para o Dia dos Namorados. Criará caixa de bombons personalizada.

O Itaú Cultural promove seminário e mostra Filme Vídeo Arte - Compartilhando Experiências. Amanhã.

Coca Rodriguez Coelho abre mostra Mapas Imaginários - Terra Incógnita. Quinta, na AC Galeria.

A Chanel apresenta sua coleção primavera-verão. Hoje, no Cidade Jardim.

Cesar Cunha Campos e Renato Flores representam a FGV no fórum da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Hoje e amanhã, em Paris.

O Vini Vinci, evento bienal da importadora com a participação de 40 vinícolas, acontece hoje e amanhã. No Hyatt.

Quietinha estava Maria Gadú no show de Dani Black, sexta. Low-profile, a cantora sentou-se no chão e cantou todo repertório, prestigiando o parceiro musical.

ELIANE CANTANHÊDE - Palavras forjadas, crise ao vento


Palavras forjadas, crise ao vento
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SÃO PAULO - 24/05/11

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, resumiu o escândalo que atinge o chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, como ‘palavras ao vento’.
José Dirceu, ex-chefe da Casa Civil de Lula, saiu da toca uma semana depois para dizer que se trata de uma ‘crise forjada’.

Os cinco governadores do PT se reuniram e desdenharam: é tudo um jogo político da oposição.

O presidente do Conselho de Ética, Sepúlveda Pertence, de bela biografia, não estranhou nada na evolução patrimonial do ministro.

O procurador da República, Roberto Gurgel, primeiro disse que não havia o que apurar e depois encaminhou umas perguntas para Palocci. Aguarda a resposta.

E Dilma? Continua calada, enquanto os petistas, que subiram na vida apontando o dedo na cara dos outros, cuidavam de fechar as brechas contra Palocci.

Do outro lado, o presidente da OAB, Ophir Cavalcanti, acha ‘muita coincidência’ Palocci ganhar tudo o que ganhou justamente quando ganhou.

E os senadores Jarbas Vasconcelos (PMDB), Álvaro Dias (PSDB), Demóstenes Torres (DEM) e Ana Amélia (PP) pedem o afastamento de Palocci até explicar as coisas. PSDB, DEM, PPS e PSOL tentam uma CPI. Dependem de dissidentes como Jarbas e Ana.

A estratégia do governo vai dando certo: bate pé na versão de ‘jogo político’, enquanto distrai a plateia com o antidebate da regulamentação do lobby e da criminalização de patrimônios esquisitões de funcionários. Cortinas de fumaça.

As versões se fortalecem, os fatos se enfraquecem. Palocci ganhou pelo menos R$ 20 milhões no ano eleitoral com uma empresa de um funcionário só, R$ 10 milhões deles já como chefe da transição de Dilma e virtual todo-poderoso.

Ele não explica que fantástica consultoria era essa, nem para quem. Mas, se os fatos não correspondem à versão que interessa ao governo, danem-se os fatos.

GOSTOSA

CARLOS HEITOR CONY - "O PT profundo"


"O PT profundo"
CARLOS HEITOR CONY

FOLHA DE SÃO PAULO - 24/05/11
RIO DE JANEIRO - Pelo menos três leitores não compreenderam bem a minha crônica anterior, em que transmiti uma informação certamente não privilegiada sobre a possibilidade de uma renúncia de nossa presidente, motivada por problemas de saúde. Deus é testemunha do quanto torço para que ela supere esses trancos humanos e dê a ela a energia e a sabedoria que nunca lhe faltaram.
Contudo a situação neste início de governo não é muito tranquila. Tivemos tragédias naturais e temos a ameaça de uma inflação que um entendido por aí já estimou em dois dígitos até o final do ano.
Além disso, a presidente parece que não teve sorte quando formou a sua equipe de trabalho mais próxima. No passado recente, quando chefiava a Casa Civil, teve um problema com o seu braço direito, que aliás não era braço mas "braça", pois se tratava de uma mulher.
Em contexto semelhante, apenas em dimensão maior, tem problemas agora com o seu braço direito, que está atravessando uma fase bastante esquerda e insuficientemente esclarecida. Aceita-se, por ora, a explicação oficial de Antonio Palocci, que garante nada ter feito de ilegal e contra a ética.
Por coincidência, ou simetria de fatos, o atual chefe da Casa Civil, tal como Dilma, teve um problema que o retirou do ministério que ocupava no governo Lula.
A secretária Erenice e o caseiro Francenildo, cada qual a seu modo, foram manchetes recentes e ainda não absorvidas.
Tem mais: alguns setores da atual administração enfrentam turbulências que tornam tensas as condições de voo de alguns ministros. Não foi à toa que Dilma chamou às pressas o escolado Franklin Martins.
O perigo que ronda a presidente não vem da oposição em berrante minoria no Congresso. Vem do chamado "PT profundo", que Lula soube tão bem administrar.

CLÁUDIO HUMBERTO


“Condenações públicas sem provas eu acho uma perversidade”
JOSÉ EDUARDO CARDOZO CUMPRINDO A TAREFA DE DEFENDER PALOCCI

LULA LEVA 9 SEGURANÇAS AO CARIBE, E VOCÊ PAGA 
O ex-presidente Lula fará um novo passeio internacional, durante uma semana, a partir do dia 28, e será protegido por nove seguranças, todos militares das Forças Armadas, cujas passagens e diárias vão ser pagas pelo contribuinte. O tour inclui as Bahamas, paraíso caribenho, continua em Caracas (Venezuela), onde Lula subirá no palanque do semiditador Hugo Chávez, e se encerra em Havana (Cuba), dia 5.

AUTORIZAÇÃO 
A viagem dos militares que atuarão como seguranças de Lula foram autorizadas pelo chefe do Gabinete de Segurança Institucional.

A FIRMA É RICA
Para quem embolsa entre R$ 200 mil e R$ 500 mil por palestra, Lula poderia dispensar o contribuinte de pagar seu novo passeio ao exterior.

PAÍSES BAIXOS 
O governo quer difundir em calcinhas e sutiãs a importância dos exames preventivos. Faltou alertar para o perigo de dólares em cuecas. 

ENTALOU NA GARGANTA 
A presidente Dilma ainda pragueja pelo fato de ter sido “obrigada” por Lula a receber o presidente do PT, Rui Falcão, que nela inspira repulsa.

PALOCCI ESTAVA NOMEADO, AO FATURAR R$ 10 MILHÕES 
O ministro Antônio Palocci (Casa Civil) já estava nomeado para chefiar o chamado governo de transição, após a eleição presidencial, inclusive recebendo salários de R$ 11.179,00, quando sua empresa Projeto faturou R$ 10 milhões, nos últimos dois meses de 2010. A nomeação dos integrantes da equipe de transição foi publicada no Diário Oficial da União. A equipe recebeu verba de R$ 2,8 milhões, prevista em lei.

PAPAGAIOS PETISTAS 
Os senadores do PT têm cafezinho marcado nesta terça, na liderança do partido. Vão receber o script de suas falas em defesa de Palocci.

SEM APITO 
A Funai impediu uma líder Kainkang de falar na ONU contra a obra da hidrelétrica de Belo Monte (PA). Mandou dois servidores a Nova York.

DEMOROU 
O governo do DF levou vinte horas para divulgar uma nota em que o governador Agnelo Queiroz lamentava o naufrágio no lago Paranoá.

CASO VILLELA: NOVA VITÓRIA 
A defesa de Adriana Villela – acusada de mandar matar os pais, José Guilherme e Maria Villela, em Brasília – obteve nova vitória no Tribunal de Justiça do DF: o advogado Antonio Carlos de Almeida Castro obteve habeas corpus garantindo acesso às provas antes de o processo seguir

NOSSOS BENS 
Em carta à presidenta Dilma, o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) denunciou a pressão de ONGs internacionais contra o novo Código Florestal e lembrou o Padre Vieira, que alertou em um dos seus sermões: “Não vem cá buscar nosso bem, vem buscar nossos bens.”

DECIFRA-ME 
O vice-presidente Michel Temer não poderia ter sido mais claro no “affair Palocci”, ao admitir que já passou da hora de regulamentar a atividade de lobista. “Loffista”, no caso do ministro da Casa Civil. 

RUA PRIVATIZADA EM BH 
O prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB), fez a Câmara local mandar às favas os interesses dos munícipes para aprovar a doação de um trecho de rua que separa dois terrenos, no valorizado bairro Santa Lúcia, para a rede Hyatt construir ali um hotel de cinco estrelas.

DF: CPI SE BENEFICIOU... 
O ex-secretário de Desenvolvimento do governo do DF Moacir Vieira revelava à CPI do Pró-DF os políticos se apropriaram do programa, que subsidia lotes para empresas, quando a presidenta, deputada Eliana Pedrosa (DEM), confessou que sua família também foi beneficiada.

...DO QUE INVESTIGA 
Integrante da cúpula da CPI do Pró-DF o vice-presidente, deputado distrital Olair Francisco (PRTB), também recebeu lote, e o relator Aylton Gomes (PR), está enrolado até o pescoço no mensalão do DEM.

ROBALO FRITO 
Ex-secretário de Transportes de Campinas (SP), José Evaldo Gonçalo virou vice-ministro da Pesca após ameaças de morte por tentar a tarifa única. Durou 40 dias no cargo: trombou com os principais secretários da ministra Ideli Salvatti, que preferiu sacrificá-lo. Ficou muito esquisito. 

SABATINA 
A Comissão de Constituição e Justiça do Senado vai sabatinar nesta terça, às 11 horas, o promotor Tito Souza do Amaral, de Goiás, e o desembargador federal José Lázaro Alfredo Guimarães, indicados para compor o Conselho Nacional do Ministério Público.

PENSANDO BEM... 
...derrotado na eleição municipal na Espanha, o presidente de governo e amigo de Lula, José Luis Zapatero, deverá se candidatar a “tornero”. 

PODER SEM PUDOR 
AS PODAS DO GENERAL 
Às vésperas do golpe militar de 1964, o saudoso José Aparecido de Oliveira era secretário do governador de Minas, Magalhães Pinto, e vizinho de um general Guedes, em Belo Horizonte. O militar tinha o hábito de podar, ele mesmo, as roseiras que separavam as casas só para bisbilhotar o vizinho, seus encontros e telefonemas. Após o golpe, ele tentou prender e cassar Aparecido, que foi salvo pelo chefe. Guedes foi à forra: usando a mesma tesoura de podar as roseiras, ele – literalmente – cortou a linha telefônica tão apreciada pelo secretário do governador.

DOENTE

TERÇA NOS JORNAIS

- Globo: Principal assessor de Palocci mantém consultoria privada
- Folha: Petistas saem em apoio a Palocci para esfriar crise
- Estadão: Dilma ameaça vetar se Código Florestal anistiar desmatador
- Correio: Mortes e mistério no fundo do lago
- Valor: Começa nova corrida ao óleo na Amazônia
- Estado de Minas: Perueiros de luxo invadem Confins
- Jornal do Commercio: Segurança reforçada na porta do Fórum
- Zero Hora: Ligações entre 31 cidades terão custo de chamadas locais

segunda-feira, maio 23, 2011

FERNANDO CANZIAN - Palocci e apatia nacional


Palocci e apatia nacional
FERNANDO CANZIAN
FOLHA ONLINE

Nada mais simples para a compreensão do que um imóvel.

São dois no centro do "Paloccigate". Ambos próximos da av. Paulista, em São Paulo. Um de cada lado da avenida, adquiridos praticamente à vista. Ao custo de R$ 7,4 milhões.

Como todo mundo, o agora ministro da Casa Civil gostava de trabalhar perto de casa. Morava em um e despachava do outro.

Muitos no Brasil ainda perdem imóveis e bens de uma vida em minutos de enchente. Outros, passam décadas financiando sua primeira moradia.

Um trabalhador que recebe o salário mensal médio no Brasil demoraria 410 anos, sem poder gastar um tostão, para comprar o que Palocci adquiriu em meses.

Palocci é a segunda pessoa mais poderosa da República. E um dos novos milionários do Brasil.

Sua experiência vale muito, resume sua assessoria.

É inaceitável a falta de explicações do ministro. E o silêncio de sua chefe, a presidente Dilma Rousseff.

Quem pagou essa dinheirama a Palocci? O que ele fez para merecê-la?

Por algo menos concreto, os espanhóis estão acampados em Madri há dias contra o "clima de corrupção" no país. Sem verbalizar direito o que desconfiam, sentem um cheiro ruim.

A partir das redes sociais e por motivos distintos, pessoas de diferentes países estão determinadas a desafiar suas autoridades.

Nunca o ambiente foi tão favorável a isso, dada a abrangência e poder dessas redes.

Em São Paulo, vimos duas pequenas amostras do que é possível com elas: a manifestação a favor do metrô no bairro de Higienópolis e, agora, a controversa mobilização da Marcha da Maconha.

Dizem que o Brasil é o país da jabuticaba.

Mas, quando as maças de um pé amadurecem, alguma tem de cair primeiro.

As outras deveriam vir depois.

RENATO JANINE RIBEIRO - O PT vai encarar a corrupção?


O PT vai encarar a corrupção?
RENATO JANINE RIBEIRO
Valor Econômico - 23/05/2011

Podemos resumir assim a questão do ministro Antonio Palocci: se, nos últimos anos, ele usou o conhecimento intelectual que obteve como ministro para aconselhar empresas, não cometeu falha legal nem, provavelmente, ética. Nossa lei não impõe quarentena após o exercício de cargos públicos. Mas, se ele empregou conhecimentos (ou relações) no governo para favorecer tais empresas, está errado moralmente e talvez também do ponto de vista legal. Como está errado se o que recebeu estes anos foi em recompensa por benefícios eventualmente concedidos a empresas.

O problema é descobrir em qual hipótese está Palocci. Ele se recusa a abrir o nome de seus clientes. Isso deixa a questão em aberto. Se ele é honesto, publicar a relação de seus clientes viola um princípio básico da relação empresarial - o do sigilo entre as partes. Nenhuma empresa ou indivíduo é obrigado, em condições normais, a revelar com quem tem negócios ou amizade. Só o fisco tem direito a saber que clientes a consultoria Projeto teve. Essa informação não pode ser repassada a ninguém.

Mas a grande dúvida está aí. Sem conhecer seus clientes e os serviços que lhes prestou, não sabemos se Palocci agiu bem ou não. É um círculo vicioso. Se ele divulgar a clientela, violará um preceito fundamental de confiança nos negócios, publicando um assunto privado. Mas, se não divulgar, não saberemos se o assunto era mesmo privado - ou se entrou em jogo o meu, o seu, o nosso dinheiro. O que fazer?

Tenho uma proposta. Por que não confiar essas informações, hoje sigilosas, a uma comissão de pessoas que conheçam bem o mundo dos negócios e mereçam nosso pleno respeito ético? Não é impossível encontrar três notáveis, em cuja palavra possamos confiar, e que prometam guardar total segredo sobre o assunto - a não ser, claro, que concluam pela culpa do ministro. Porque, hoje, a situação é ruim. O ministro e o governo, não fornecendo detalhes sobre o caso, expõem-se à suspeita. O interesse do ministro, e sobretudo do governo, deveria estar em eliminar as desconfianças. Até agora, não conseguiram. Dizer que foi a empresa que enriqueceu, e não o dono de 99% dela, ou lembrar que seus antecessores no ministério também lucraram depois de sair do governo, não convence os desconfiados de que Palocci tenha agido corretamente. Por isso, sugiro: busquem-se três pessoas dignas, sem compromisso com a oposição nem o governo, que possam examinar o caso.

Na verdade, e aqui mudo completamente de patamar, há muita preocupação de gente que simpatizou com o PT ou mesmo o ajudou a fundar, com a leniência do partido com a corrupção. Deixo claro que não saberia julgar o caso Palocci - nem a culpa ou inocência de Delúbio Soares. Mas conto uma história. Em 2010, durante a campanha eleitoral, encontrei um amigo. Ele estava irritadíssimo com o que chamou a corrupção no PT. Quando alguém lhe disse que os demais partidos agiam do mesmo modo, ele respondeu: "Mas o que PMDB, PSDB e DEM fazem ou fizeram não me importa! Não votei neles. Nunca tive esperança nenhuma neles. Agora, do PT, esperei que fosse um partido honesto. Não me decepciono com os outros. Com ele, sim".

Já ouvi comentários dessa ordem. Quando fui diretor da Capes, alguns de meus colaboradores, servidores do Estado e não do governo, inclusive detentores de cargos de confiança, me diziam: "Sempre votei no PT mas, desde 2003, me desapontei; não voto mais nele". O estranho é que, na discussão política atual, essa voz "do meio" é pouco mencionada. Há pessoas que, porque o governo Lula introduziu definitivamente em nossa agenda política a questão social, relevam a complacência com a corrupção. E há quem, para condenar o governo petista, usa qualquer argumento, mesmo a mentira e o absurdo. Vemos defesa e ataque incondicionais. O que menos aparece são os matizes da decepção, de quem reconhece os ganhos sociais, mas lamenta o declínio moral.

Porque o PT, durante vinte anos, foi o partido que unia ética e justiça social. Promover a justiça social era um imperativo ético. Ganhar eleições era secundário, o fundamental era mudar o país, a sociedade, acabar com a miséria e com a corrupção. Um bordão como o da oposição em 2006 - "Por um país decente, Alckmin para presidente"-, opondo a ética ao PT, seria impensável meros três anos antes.

Esta não é a opinião apenas de inimigos do PT. Foi o que levou um dos ativos morais petistas, Helio Bicudo, a deixar o partido. Mesmo quem faz uma avaliação muito positiva do governo Lula, como Candido Mendes em seu Mudança e subcultura - por que me envergonho do meu país, afirma que houve corrupção. Mesmo quem avalia de maneira razoavelmente positiva as ações de Lula, como Perry Anderson, uma das referências da esquerda mundial, diz que houve corrupção. E não é porque o PT, desde 2002, ganhou votos entre os pobres que devem ser desdenhados seus antigos eleitores que se decepcionaram com ele no governo. Essas questões precisam ser tratadas a sério, sem se reduzir ao jogo político entre governismo e oposição.

Concluo, dado que falei em Delúbio Soares, pela questão do "mensalão". Sabemos que logo prescreverão algumas acusações contra os indiciados. Mas por que o PT não tomou a dianteira e não confiou, a pessoas respeitadas pela gente de bem que há no Brasil, uma apuração independente, ética, do caso? Uma coisa é o que diga a Justiça, na qual há prazos, protelações e formalismos. Outra é o que a consciência ética conclua. É pena, e ouço amigos meus dizerem isso com freqüência, que o casamento que parecia indissolúvel do PT com a ética tenha se tornado uma relação frouxa.