sábado, maio 21, 2011

JORGE BASTOS MORENO - NHENHENHÉM - Plano de saúde


Plano de saúde
JORGE BASTOS MORENO 
 O GLOBO - 21/05/11



 Palocci anda a mil.

‘Parla’, Palocci
 Como já dizia minha saudosa avó, “Deus não deu asa à cobra para não voar”. Palocci, um conhecido língua- presa, dobrou o patrimônio só com a fala. Imagine se ele tivesse a língua solta!

Isonomia
 Quem ganha com a desgraça do Palocci?
O PMDB, naturalmente, que tinha a sua lista de nomeações barradas pelo ministro palestrante. Para evitar CPIs, o PMDB agora quer dobrar também o seu patrimônio fisiológico. 

Contra a corrupção 
 Sábia decisão dos peemedebistas éticos que estão espalhados entre os governistas, dissidentes e os loucos. Resolveram se unir.
O inimigo não é Dilma. 

O bem-amado
 E lá se foram os “éticos” para uma reunião na casa do sisudo senador dissidente Jarbas Vasconcelos. No início da reunião, Requião
avisa: 
— Sarney tem muitos erros, mas quero confessar aqui que eu gosto dele mesmo assim. Eu amo Sarney! Se eu estivesse lá, gritaria: — Então somos dois! E aí o senador contou que, antes de sair da sessão para ir a essa reunião, Sarney o chamou à Mesa e cochichoulhe aos ouvidos: 
— Você também está indo para o jantar do Jarbas, né? Cuidado, o cardápio lá é “Sarney ao molho pardo”!
Jarbas e Sarney não se falam e, quando se cruzam, olham para o outro lado e com a cara feia. Continuaram assim depois do jantar, mas com uma diferença: 
— Agora, quando eu o encontro, só me lembro do “molho pardo” e não consigo esconder o riso — confessa o
senador pernambucano.

STF legisla pelo CN, barra Manu e gera crise
 Não fosse a humildade da deputada Manuela D’Ávila, o país estaria hoje mergulhado numa grande crise institucional. Barrada na histórica sessão do Supremo que consolidou a união gay, Manuela voltou cabisbaixa ao Congresso, confirmando o provérbio popular do “caminho de gente feio é por onde veio”. 
Se alguém merecia estar naquela sessão era ela, eleita presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara e deputada federal mais votada da História do Rio Grande do Sul, justamente por liderar essa luta.
O Congresso sentiu-se ultrajado com o episódio e, já machucado pelo fato de o STF estar legislando no seu lugar, exigiu explicações do Judiciário. 
Criou-se, então, o gabinete de crise, com representantes dos Três Poderes: senadores Aécio Neves, Pedro Taques, Vanessa
Grazziotin e Lindbergh Farias, e os deputados Aldo Rabelo, Osmar Junior, Marcus Pestana, Gabriel Chalita, Jô Moraes, Alice
Portugal e Jean Wyllys, pelo Legislativo; pelo Executivo, a ministra Helena; e, pelo Judiciário, o ex-presidente do Supremo Gilmar Mendes. A vítima estava representada pela advogada Mayra Cotta, aluna de pós-graduação da Uerj, tão feia como a sua cliente (segue nos próximos blocos à direita).

Grande Gilmar
 Gilmar Mendes explicou que a deputada foi barrada porque não estava usando blazer, exigido pela casa. E apressou-se a dizer que
vai apresentar uma “emenda Manuela” ao Tribunal liberando o traje 

Barradas no baile 
 A maioria dos representantes foi escolhida porque também já fora barrada. Aécio, por exemplo, foi barrado pelo Serra; Chalita,
por Kassab; e Aldo, pelos ambientalistas. Duas histórias, porém, comoveram: Nesse mesmo dia, Jô Moraes foi para uma audiência
com o presidente do INSS, mas foi barrada:
— Não tenho cara de deputada. Acharam que eu era assessora e disseram que eu só podia subir junto comigo. Helena foi barrada no próprio Planalto. Tímida que é, só subiu depois que disse que era ministra. E o segurança: “A senhora é muito bonita para ser ministra.”

Vovó zangada 
 A minha presidente continua dodói. Está zangada porque não pode brincar com o neto, Gabriel. Com agenda reduzida, ocupa-
se com filmes e com a biografia de De Gaulle.

Amor que fica
 Cabral, apresentando Pezão ao ministro do Comércio de Israel:
— Este homem tem duas coisas grandes: o pé e um imenso... coração. 

Competência disputada
 Diferentemente do que disse aqui Aécio Neves, o secretário de Desenvolvimento de BH, Marcello Faulhaber, não foi escolhido
pela internet. Mas por ser reconhecido como um dos mais competentes gestores do mercado. Aécio acertou na essência: Faulhaber foi nomeado pelo critério da meritocracia. Se o prefeito não se cuidar, logo, logo Aécio ou Anastasia tomam Faulhaber dele.

AUGUSTO NUNES - O caseiro do Piauí e a camareira da Guiné


O caseiro do Piauí e a camareira da Guiné
AUGUSTO NUNES


VEJA ONLINE

Nascido no Piauí, Francenildo Costa era caseiro em Brasília. Em 2006, depois de confirmar que Antonio Palocci frequentava regularmente a mansão que fingia nem conhecer, teve o sigilo bancário estuprado a mando do ministro da Fazenda.
Nascida na Guiné, Nafissatou Diallo mudou-se para Nova York em 1998 e é camareira do Sofitel há três anos. Domingo passado, enquanto arrumava o apartamento em que se hospedava Dominique Strauss-Kahn, foi estuprada pelo diretor do FMI e candidato à presidência da França.
Consumado o crime em Brasília, a direção da Caixa Econômica Federal absolveu liminarmente o culpado e acusou a vítima de ter-se beneficiado de um estranho depósito no valor de R$ 30 mil. Francenildo explicou que o dinheiro fora enviado pelo pai. Por duvidar da palavra do caseiro, a Polícia Federal resolveu interrogá-lo até admitir, horas mais tarde, que o que disse desde sempre era verdade.
Consumado o crime em Nova York, a direção do hotel chamou a polícia, que ouviu o relato de Nafissatou. Confiantes na palavra da camareira, os agentes da lei descobriram o paradeiro do hóspede suspeito e conseguiram prendê-lo dois minutos antes da decolagem do avião que o levaria para Paris ─ e para a impunidade perpétua.
Até depor na CPI dos Bingos, Francenildo, hoje com 28 anos, não sabia quem era o homem que vira várias vezes chegando de carro à “República de Ribeirão Preto”. Informado de que se tratava do ministro da Fazenda, esperou sem medo a hora de confirmar na Justiça o que dissera no Congresso. Nunca foi chamado para detalhar o que testemunhou. Na sessão do Supremo Tribunal Federal que julgou o caso, ele se ofereceu para falar. Os juízes se dispensaram de ouvi-lo. Decidiram que Palocci não mentiu e engavetaram a história.
Depois da captura de Strauss, a camareira foi levada à polícia para fazer o reconhecimento formal do agressor. Só então descobriu que o estuprador é uma celebridade internacional. A irmã que a acompanhava assustou-se. Nafissatou, muçulmana de 32 anos, disse que acreditava na Justiça americana. Embora jurasse que tudo não passara de sexo consensual, o acusado foi recolhido a uma cela.
Nesta quinta-feira, Francenildo completou cinco anos sem emprego fixo. Palocci completou cinco dias de silêncio: perdeu a voz no domingo, quando o país soube do milagre da multiplicação do patrimônio. Pela terceira vez em oito anos, está de volta ao noticiário político-policial.
Enquanto se recupera do trauma, a camareira foi confortada por um comunicado da direção do hotel: “Estamos completamente satisfeitos com seu trabalho e seu comportamento”, diz um trecho. Nesta sexta-feira, depois de cinco noites num catre, Strauss pagou a fiança de 1 milhão de dólares para responder ao processo em prisão domiciliar. Até o julgamento, terá de usar uma tornozeleira eletrônica.
Livre de complicações judiciais, Palocci elegeu-se deputado, caiu nas graças de Dilma Rousseff e há quatro meses, na chefia da Casa Civil, faz e desfaz como primeiro-ministro. Atropelado pela descoberta de que andou ganhando pilhas de dinheiro como traficante de influência, tenta manter o emprego. Talvez consiga: desde 2003, não existe pecado do lado de baixo do equador. O Brasil dos delinquentes cinco estrelas é um convite à reincidência.
Enlaçado pelo braço da Justiça, Strauss renunciou à direção do FMI, sepultou o projeto presidencial e é forte candidato a uma longa temporada na gaiola. Descobriu tardiamente que, nos Estados Unidos, todos são iguais perante a lei. Não há diferenças entre o hóspede do apartamento de 3 mil dólares por dia e a imigrante africana incumbida de arrumá-lo.
Altos Companheiros do PT, esse viveiro de gigolôs da miséria, recitam de meia em meia hora que o Grande Satã ianque é o retrato do triunfo dos poderosos sobre os oprimidos. Lugar de pobre que sonha com o paraíso é o Brasil que Lula inventou. Colocados lado a lado, o caseiro do Piauí e a camareira da Guiné gritam o contrário.
Se tentasse fazer lá o que faz aqui, Palocci teria estacionado no primeiro item do prontuário. Se escolhesse o País do Carnaval  para fazer o que fez nos Estados Unidos, Strauss só se arriscaria a ser convidado para comandar o Banco Central. O azar de Francenildo foi não ter tentado a vida em Nova York. A sorte de Nassifatou foi ter escapado de um Brasil que absolve o criminoso reincidente e castiga quem comete o pecado da honestidade.

RUTH DE AQUINO - A camareira subversiva


A camareira subversiva

RUTH DE AQUINO

REVISTA ÉPOCA


Época
RUTH DE AQUINO é colunista de ÉPOCA
raquino@edglobo.com.br
Ela jamais sonhou com a fama. No espaço de uma vida, não se tornaria uma celebridade nem em seu bairro, o Bronx – quanto mais no mundo. Africana, muçulmana, mãe de uma adolescente, a camareira de 32 anos que limpava as suítes do Sofitel em Nova York já achava seu green card um privilégio. Pelas fotos divulgadas na internet, não é especialmente bonita. Mas, para brancos poderosos e prepotentes, reúne qualidades de sedução particulares: é jeitosa, negra e faxineira. Nunca denunciaria um ataque sexual. Conhece seu lugar.
Nafissatou Diallo é o nome da camareira que derrubou o francês Dominique Strauss-Kahn, ex-diretor-gerente do FMI e pré-candidato socialista à Presidência na França. Algemado e com a cara de tédio típica dos parisienses, DSK deixou pelos fundos o palco das finanças e da política (leia mais) . Ele se diz inocente. Mas, pelo encontro casual com Nafissatou em sua suíte de US$ 3 mil, encara agora sete acusações, de crimes sexuais a cárcere privado. Seria a camareira uma arma secreta de Sarkozy, o futuro papai do bebê de Carla, para tirar do páreo um adversário perigoso?
O FMI nomeará um novo diretor, quem sabe uma diretora, se quiser evitar mulherengos. Os socialistas franceses estão escandalizados, mas na direção oposta. Criticam o abuso da polícia americana contra DSK, presumidamente culpado com base na palavra de uma empregada.
Eles são brancos e não se entendem. Existe um oceano, físico e cultural, entre os Estados Unidos e a França. A mídia francesa é leniente com os desvios na vida particular de seus políticos. Se DSK fosse denunciado por uma camareira em Paris, em nenhuma hipótese seria detido antes de ser julgado, por presunção de inocência. Nos EUA, há a presunção inicial de que a vítima fala a verdade.
Me interesso mais pela camareira do que por DSK. Vi muitos se perguntando: será que o ex-diretor do FMI, conhecido pela habilidade em negociações, seria tão idiota e tresloucado a ponto de atacar a moça ao sair nu do banheiro? Mas começam a emergir casos semelhantes de mulheres menos corajosas que a africana. A loura jornalista francesa Tristane Banon, afilhada da segunda mulher de DSK, tinha 22 anos em 2002 quando diz ter sido atacada por ele: “Parecia um chimpanzé no cio”. Kristin Davis, ex-cafetina americana, afirmou que uma prostituta brasileira a aconselhou a não mandar mais mulheres para ele: “É bruto”.
Africana e muçulmana, a mulher que derrubou Strauss-Kahn desafiou as regras dos poderosos
Nafissatou não sabia que aquele senhor de cabelos brancos era DSK. Está com medo, escondida, sob a proteção da polícia de Nova York. Queria ficar anônima, mas seu nome e fotos se espalharam. É filha de um comerciante da etnia peule – 40% da população da Guiné, na África Ocidental. Emigrou com o marido para os EUA em 1998. Separada, vive sozinha com a filha de 15 anos num conjunto popular no Bronx. Há três anos trabalha no Sofitel da Times Square. Tem fama de trabalhadora e séria. Uma prima, Mamadou Diallo, afirmou: “Ela é uma boa muçulmana. Realmente bonita, como várias mulheres peules, mas não aceitamos esse tipo de comportamento em nossa cultura. Strauss-Kahn atacou a pessoa errada”.
Para quem alega ser improvável que um homem tente obrigar uma mulher estranha a fazer sexo oral – afinal, é arriscado colocar-se dentro de uma boca relutante, cheia de dentes –, é bom lembrar que DSK é francês. Sexo oral na França é tão popular que, no ano passado, uma ex-ministra da Justiça de Sarkozy, em entrevista na TV, quis dizer “inflação”, mas trocou por “felação”. Ela desculpou-se dizendo ter falado “muito depressa”, mas a gafe correu mundo.
Um quarto de hotel num país estrangeiro é um hiato na vida. Artistas, políticos e executivos nômades podem interpretar suítes de hotel como lugares tão solitários e protegidos que convidam a transgressões. Estão de passagem. O mais provável é que DSK tenha se apoiado em sua soberba e na presunção de impunidade para dar vazão a seus instintos. Julgava saber de cor o manual da supremacia e da submissão. DSK não imaginava que aquela camareira fosse subversiva. Como poderia aquela emergente inverter as regras e desafiar o poder?

EDITORIAL - O ESTADO DE SÃO PAULO - O que o ministro oferecia



O que o ministro oferecia 

EDITORIAL
O ESTADO DE SÃO PAULO - 21/05/11

O então deputado federal e ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci faturou muito mais do que os cerca de R$ 7,5 milhões gastos com os dois imóveis comprados em nome da Projeto, a empresa de consultoria que abriu em 2006 e transformou em administradora de bens no final de 2010, dias antes de assumir a Casa Civil da presidente Dilma Rousseff, de quem tinha sido coordenador de campanha. Nesse período, portanto, ele multiplicou o seu patrimônio declarado por muito mais do que 20 vezes.

Palocci se recusa a falar em números, a identificar clientes e a descrever a natureza dos serviços que lhes prestou. Mas o texto produzido por sua assessoria para orientar os líderes da base parlamentar do governo na sua defesa - e que, por inadvertência, foi amplamente difundido - argumenta que, "no mercado de capitais e em outros setores, a passagem por Ministério da Fazenda, BNDES ou Banco Central proporciona uma experiência única que dá enorme valor a esses profissionais no mercado", citando ex-autoridades da área que prosperaram na iniciativa privada.

Qual será o valor de mercado de quem tem a oferecer, além da "experiência única", a credencial de ter permanecido como protagonista de primeira grandeza na esfera das decisões do governo? Palocci sabia não apenas como funciona o poder, mas que rumos o poder tencionava tomar em matérias de interesse direto do empresariado e do sistema financeiro. O escândalo da quebra do sigilo bancário do caseiro que testemunhou as visitas do então titular da Fazenda a uma mal-afamada casa de Brasília custou-lhe o posto, mas não o prestígio.

Enquanto dava lá as suas disputadas consultorias - a carteira de clientes da Projeto incluía pelo menos 20 formidáveis corporações -, ele continuava a ser interlocutor privilegiado do presidente Lula e da elite lulista, no Executivo, na administração indireta e no Congresso. Quando chegou a hora, tornou-se fiador da candidata Dilma Rousseff junto ao grande capital. Dizer, como o aide-mémoire que vazou para todos os lados, que 237 parlamentares exercem atividade econômica é querer jogar areia nos fatos. O deputado Palocci esteve longe de ser mais um.

Relator do projeto social do pré-sal e da proposta de prorrogação da CPMF, presidente da comissão da reforma tributária e membro da comissão do Orçamento, lembra a colunista Maria Cristina Fernandes, do jornal Valor, além de diretamente envolvido na regulamentação da previdência complementar, ele estava em posição de antecipar tendências aos seus consulentes, um certo número dos quais há de ter contribuído para a sua campanha, e de levar em conta os seus interesses. Não está claro em que medida isso estava no cerne de suas consultorias - se é que estava. Mas os ganhos da Projeto são compatíveis com oportunidades dessa magnitude.

Significativamente, talvez, a firma não tinha nome na praça, ao contrário de congêneres como a LCA e a Tendências (de que é sócio o ex-ministro Mailson da Nóbrega, citado como exemplo de sucesso na nota da Casa Civil). Segundo a Folha de S.Paulo, profissionais do setor "nunca ouviram falar da atuação da empresa de Palocci". O jornal equipara o faturamento da Projeto ao daquelas com uma centena ou mais de clientes - um número bem maior que os do ministro - e dezenas ou uma centena de funcionários. O quadro de pessoal da Projeto é desconhecido.

Em documento enviado à Procuradoria-Geral da República para se antecipar a um eventual pedido de esclarecimento sobre os seus negócios, conforme revelou o Estado, Palocci cita apenas o seu sócio (com 1% do capital da consultora) Lucas Martins Novaes. Por ser ele economista, o ministro - médico de formação - podia ter uma empresa de "prestação de serviços, palestras, análise de mercado". A explicação é supérflua. Obviamente, nenhuma empresa capaz de pagar o que a Projeto cobrava iria preteri-la em razão das origens profissionais do seu sócio titular.

Nem ele deve tê-la criado para lavar "recursos não contabilizados", como diriam os seus companheiros petistas ao tempo do mensalão. A lógica dos fatos indica que o ilícito que se poderia atribuir a Palocci, levando às alturas o seu patrimônio, chama-se tráfico de influência.

MARCELO RUBENS PAIVA - Mineira é melhor que baiana



Mineira é melhor que baiana 

MARCELO RUBENS PAIVA
O ESTADO DE SÃO PAULO - 21/05/11

Na minha infância, era comum ouvir o comentário de que mineiras eram melhores do que baianas. Na sala de estar de uma residência de Higienópolis, Jardins, Ipanema ou Leblon, no papinho entre familiares e amigos.

Melhores no quê?

No passar, arrumar e cozinhar. No tanque. Agachadas com um pano no piso. Penduradas com um espanador nas janelas.

No quartinho dois metros por dois, cheirando a perfume, esmalte e sabonete baratos, forrado por pôster de um galã bem penteado, com sucessos do brega no dial - Antônio Marcos, Fábio Júnior, Odair José, Nelson Ned, Waldick Soriano...

Que falavam de amor e um mundo melhor para emigrantes anônimas e solitárias, que passavam mais tempo com os filhos da patroa do que a própria.

E com quem muitos meninos da geração pré-revolução sexual deram os primeiros passos na escorregadia e excitante trilha da iniciação sexual.

Meninas que não conheciam a cidade acordavam antes de todos e dormiam exaustas de luz acesa. Que não tinham aonde ir nos fins de semana. A não ser que um porteiro as convidasse para um passeio pelo bairro.

É, as domésticas mineiras desbancaram a hegemonia baiana. Falavam delas como da chegada nas prateleiras de um novo produto de limpeza que rendia mais.

E o ciclo do novo "tráfico" seguiu a mesma rota: a empregada de uma amiga chamava por carta uma parente ou colega lá do interior de Minas.

Obrigações: ser honesta, limpinha, com bons antecedentes, e entrar pelo elevador de serviço, pois aqui é assim, existem as entradas de serviço e social. Por favor, não errar de elevador. Sim, "social" é para a patroa e filhos.

Detalhe: nos apartamentos, também há duas portas, a da cozinha e da sala; entrar pela cozinha.
Garantias da lei: carteira assinada, décimo terceiro e férias. Diferentemente de outras profissões, o Fundo de Garantia é opcional. Afinal, é uma outra categoria de trabalho. É "apenas" doméstico.

***
Hoje, a rota da doméstica segue pelas linhas do transporte coletivo urbano. Não é preciso importar mão de obra. Ela está disponível nas favelas e morros que cercam os bairros de quem consegue pagar.
Delfim Netto disse na semana em que passou em branco o 13 de maio, no programa Canal Livre, da Band, "quem teve este animal, teve, quem não teve nunca mais vai ter".

Indicava que a mudança da estrutura salarial do setor de serviços está tornando mais difícil encontrar domésticas disponíveis no mercado.

Delfim, ou melhor, "professor Delfim", pediu desculpas depois pela gafe.

Foi o mentor econômico do "milagre brasileiro" no período da ditadura e da tese que atribuía ao crescimento da economia o papel de distribuir a renda. Se o bolo crescesse, todos sairiam ganhando automaticamente uma fatia maior.

O governo Lula, com quem Delfim se aliou, pôs em prática a receita, mas interferiu no cozimento.
Não basta assistir ao crescimento pela janela do forno. O Estado deve intervir para dividir a renda. Não apenas com programas de combate à fome e miséria, mas com crédito subsidiado, barato e diminuição de impostos de produtos para as classes C e D.

O PT trouxe para o consumo aqueles que antes nem chegavam perto e transformou a rotina da patroa, que não consegue mais pagar por um "animal" doméstico.

Talvez ela consiga pagar por uma diarista, que graças aos chineses pode usar genéricos das mesmas grifes, escutar Racionais no seu MP3 ou DVD pago em 36 vezes no feirão das Casas Bahia, símbolo do lulismo econômico.

Deve-se combinar o serviço pelo celular, símbolo do privatismo tucano.

A profissional doméstica agora prefere não dormir no serviço, provavelmente estuda à noite e se transformou no novo e poderoso nicho das grandes marcas de perfumes, sabonetes e esmaltes.
Só a renda distribuída fará o Brasil parar de dividir seus cidadãos em "social" e "serviço". Ou em humanos e animais.

***
Foi uma semana marcada pelo protesto da gente diferenciada e gafes nas redes sociais, que têm 600 milhões de vigilantes no Facebook e 120 milhões no Twitter. Postaram:

Rafinha Bastos, no dia das mães: "Ae órfãos! Dia triste hoje, hein?"

Danilo Gentili, sobre os "velhos" de Higienópolis que temem uma estação de metrô: "A última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz."

Amanda Régis, torcedora do Flamengo, time eliminado da Copa do Brasil pelo Ceará: "Esses nordestinos pardos, bugres, índios acham que têm moral, cambada de feios. Não é à toa que não gosto desse tipo de raça."

Ed Motta, ao chegar a Curitiba: "O Sul do Brasil como é bom, tem dignidade isso aqui. Sim porque ooo povo feio o brasileiro rs. Em avião dá vontade chorar rs. Mas chega no Sul ou SP gente bonita compondo o ambiance rs."

Quando um leitor replicou que Motta não era "um arquétipo de beleza", ele respondeu que estava "num plano superior". "Eu tenho pena de ignorantes como vc... Brasileiros...", escreveu. "A cultura que eu vivo é a CULTURA superior. Melhor que a maioria ya know?"

E na MTV, a Casa dos Autistas, quadro humorístico, chocou pelo mau gosto.

Todos pediram desculpas depois. Danilo, um dos maiores humoristas de stand-up que já vi, recebeu telefonema do departamento comercial da Band, pedindo para tirar o comentário. Ed Motta se revoltou contra a imprensa. Pergunta se temos o direito de reproduzir seus escritos particulares.

A internet trouxe a incrível rapidez na troca de informações e espaço para exposição de ideias. Alguns se lambuzam. Dizem que são contra as patrulhas do politicamente correto.

Mas como ficam as domésticas ofendidas, os órfãos recentes, aqueles que perderam parentes em Auschwitz, os nordestinos e os pais de autistas?

Tomara que, depois do pensamento grego, democracia, Renascença, a revolução industrial e tecnológica nos iluminem. O preconceito não é apenas sintoma de ignorância, mas lapsos de um narcisista. Ele nunca vai acabar?

***
Enquanto no Itaú Cultural, um símbolo de excelência em apoio às artes e alta tecnologia, em plena Avenida Paulista, uma mãe foi expulsa por amamentar o filho em público na exposição do Leonilson, artista que sofreu inúmeros preconceitos, morto vítima da aids. Os ânimos estão acirrados.

O HOMEM DE 20 MILHÕES DE DOLARES. OU MAIS

ROBERTO RODRIGUES - Conexões


Conexões

ROBERTO RODRIGUES 
FOLHA DE SÃO PAULO - 21/05/11


Já houve acordo entre os partidos da base aliada e o Código Florestal deverá ser votado na terça-feira


NESTA SEMANA que está terminando tivemos dois importantes fatos ligados à agropecuária: um razoável e outro muito positivo. O razoável foi a postergação, mais uma vez, da votação, na Câmara dos Deputados, do projeto do Código Florestal. Realmente, foi uma pena. Não apenas pelo lado da insegurança jurídica, já por si um sério problema: no dia 12 de junho, sem uma legislação clara sobre esse tema, grande parte dos produtores rurais brasileiros estaria na ilegalidade, pelas mais diversas razões.
Mas a mais importante delas diz respeito à linha do tempo. Isso quer dizer que muita gente fez as coisas de acordo com a legislação em vigor na época e agora ficaria fora da lei sem o código definido.
A semana termina com a notícia de que a votação vai acontecer na próxima terça-feira, dia 24, e que já houve acordo entre os partidos da base aliada. Tomara, porque o pior de não ter havido a votação é o sinal negativo dado à democracia.
Há 18 dias, em 3 deste mês, a mesma Câmara aprovou, por 399 votos contra 18, o regime de urgência para a votação do Código. Isso significa que a matéria deveria entrar na pauta para votação rápida. Se for votada na terça-feira que vem, conforme está sinalizado, a "pressa" terá sido de três semanas.
É uma pena, uma vez que a maioria decidiu pela urgência, mas a minoria a impediu... Mas vamos apostar no bom senso e na rápida aprovação pelo Senado para imediata sanção presidencial.
Por outro lado, o governo anunciou uma importante e profunda reforma nas regras do crédito rural, tendo em vista a sustentabilidade da produção agropecuária, tanto do ponto de vista ambiental como do econômico (garantia de renda ao produtor) e do social (controlar a inflação dos alimentos).
Trata-se de muito bem-vinda iniciativa governamental, uma vez que nossa legislação de crédito rural data de 1965 e nem é preciso fazer muito esforço para entender o enorme progresso que o agro viveu desde aquele tempo, no século passado, até os dias de hoje.
As ideias anunciadas são muito interessantes e vão desde a equiparação de produtores de alimentos básicos aos de commodities exportáveis para fins de limites de crédito até o apoio às cooperativas de crédito rural. A desburocratização e a simplificação de acesso ao crédito estão no cerne das boas mudanças.
Diante desse avanço iminente a ser anunciado nas próximas semanas, vale a pena colocar um tema meio esquecido e que liga o Código Florestal ao crédito rural sob o conceito de modernização.
Aparentemente, a área econômica do governo não aceitou a proposta de deduzir das dívidas dos agricultores inadimplentes os investimentos que fizessem na recomposição da área de preservação permanente ou da reserva legal.
Isso traria benefícios em geral, uma vez que ambientalistas teriam o seu projeto de recomposição atendido e os ruralistas abateriam os gastos com isso de suas dívidas.
Um interessante argumento a ser avaliado é o seguinte: tecnologia sofisticada vai ficando cada vez mais cara, mas não há competitividade sem ela. Às vezes, pode ficar mais barato desmatar um cerrado legalmente do que incorporar as tecnologias de ponta.
Houve um tempo em que a declaração de IR dos agricultores tinha uma Cédula G. Nela, o produtor descrevia -com documentos- tudo o que havia gasto em tecnologia: semente certificada, fertilizante recomendado, máquinas agrícolas mais modernas, sistemas de irrigação, tudo, enfim, que representasse um avanço tecnológico.
Cada um desses itens tinha um peso pelo qual o valor de aquisição era multiplicado, deduzindo-se o número assim obtido da renda bruta. E, com isso, o imposto a pagar era menor.
Em outras palavras, a Receita Federal estimulava a incorporação de novas tecnologias, melhorando produtividade e competitividade. Conectar tudo isso -Código Florestal, crédito rural, sustentabilidade e avanço tecnológico- seria uma excelente frente de trabalho para todo mundo: governo, Legislativo e setor privado.

PATRICIA PALUMBO - Essa é pra tocar no rádio?



Essa é pra tocar no rádio?
PATRICIA PALUMBO

O Estado de S.Paulo - 21/05/11

Meu colega de Ouvido Absoluto, Gilberto Mendes, escreveu aqui nesse espaço sobre a saudade do rádio que ouvia nos anos 30. Fiquei emocionada e solidária com sua nostalgia e pensando sobre o que se ouve hoje. Eu fui uma ouvinte com esse espírito de que fala nosso maestro nos anos 70, época fundamental para minha formação. Gosto de brincar que nasci junto com a Jovem Guarda, em setembro de 65, o que é verdade. Apresento as provas nas fotos de vestidinho curtíssimo, sapatinho boneca e meias brancas até os joelhos que usava aos 4 anos de idade. Sou fã de Roberto e Erasmo até hoje, assistia suas aventuras na Sessão da Tarde, achava Jerry Adriani o homem mais lindo do mundo e tinha minha própria guitarrinha de plástico azul.

O rádio fazia parte de nossas fantasias lá em casa através das histórias que minha mãe contava. Ela fugia pra ouvir as novelas que minha vó proibia. E canta até hoje os sucessos de Noel Rosa e Custódio Mesquita que ouvia sem parar e que todos os seus filhos sabem de cor. Meu pai, carioca da Tijuca de Tim Maia, foi ator bissexto de radionovelas e é um obcecado pelo aparelhinho. Me apresentou à FM numa viagem de carro para o Rio de Janeiro, me ensinou a "zapear"estações e a ouvir ondas curtas.

Muitos anos mais tarde fiz pra BBC de Londres um programa chamado Don''t Touch That Dial mostrando música brasileira em transmissão mundial. Recebi de volta um envelope gigante recheado de mensagens dos remetentes mais improváveis, incluindo cartões postais de um convento em Singapura. Pelas ondas sonoras da BBC encontrei freiras apaixonadas pela canção do Brasil.

Essa é a magia do rádio. Eu falo aqui e alguém vai me escutar a milhas de distância. E quando eu digo alguém pode ser um milhão de alguéns, em horários diferentes, em lugares diferentes. Eu amo as ondas curtas que contrariando a sua própria definição são as que vão mais longe.

Pra quem faz música esse meu objeto de reflexão, quero crer, ainda é importante. Mesmo que já tenha sido mais poderoso e democrático nesse País. Foi-se o tempo em que cabeças como as de Caetano Veloso e Maria Bethânia eram "feitas" pelo rádio. Era daquela caixinha que saiam as vozes de João Gilberto, de Orlando Silva, de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga. Foi ouvindo rádio que Luiz Melodia percebeu que sua música era pop e universal porque misturava a música negra norte americana com o samba do Estácio. Na época da Rádio Nacional, Dalva de Oliveira cantava no Rio ao vivo e era ouvida na Paraíba, no Recôncavo Baiano, nos pampas gaúchos.

Com 13 anos do programa Vozes do Brasil (na internet também, pelo endereço http://patriciapalumbo.com) consegui fazer uma redinha para o programa com a vontade de multiplicar a informação. Estou no ar em emissoras públicas e universitárias em Salvador, Brasília, Curitiba, Belo Horizonte e São Paulo. Toco artistas de Belém do Pará como o excelente Arthur Nogueira, que lançou o CD Mundano; Patricia Polayne, que usou as células rítmicas do coco de de Aracaju no seu Circo Singular; os poemas de Arruda na voz paulistana mato-grossense de Alzira E; músicas de todo canto desse País com a maior diversidade possível de gêneros, épocas e estilos. E todo mundo quer tocar no rádio, quanto a isso não há dúvida. A quantidade insana de discos que recebo não me deixa mentir. Mas diante da massificação do dial, fico imaginando a angústia do compositor. Que rádio vai tocar a minha música?

Quando Gilberto Gil - o autor da deliciosa canção que dá nome a esse artigo - assumiu o ministério da Cultura, tive esperança de que ele mexesse nesse vespeiro que é a concessão pública de rádio e a horrorosa e emburrecedora prática do jabá. Esboçou-se naquele momento uma tentativa de fazer virar crime a compra de horário comercial para tocar música. Não vingou. Continuamos ouvindo figurinhas repetidas, a mesma música, o mesmo artista, nos mesmos horários. Tudo igual. Como se esse País imenso só fizesse música sertaneja ou religiosa.

Eu sempre recomendo para o músico brasileiro as emissoras segmentadas. São muitas e, juntas, tem grande audiência. Ainda assim para alguns a internet é a saída, o meio, o fim. Estamos de fato todos conectados e para ouvir a diversidade da música popular brasileira de verdade, a sintonia também está na web. Eu descubro muita música boa navegando pela internet e já joguei meu programa na rede - o rádio de ondas curtas da nossa era. Livre, poderosa, democrática. E vai longe.M

GOSTOSA

CELSO MING - Boom ou bolha?



Boom ou bolha? 
CELSO MING
O ESTADO DE SÃO PAULO - 21/05/11

Fatos estranhos levam os analistas financeiros do mundo a advertir para a iminência do estouro de nova bolha financeira da internet.

Na semana passada, a revista The Economist publicou matéria de capa intitulada A nova bolha tech, que organizou e aprofundou o assunto preocupante. Há 12 dias, a Microsoft pagou US$ 8,5 bilhões pela Skype, serviço gratuito (de telefonia) pela internet de faturamento insignificante. E, nesta semana, o LinkedIn, rede social em que qualquer um pode divulgar, também de graça, sua ficha profissional (curriculum vitae), transformou-se num retumbante sucesso de valorização na Bolsa de Nova York depois de abrir seu capital. Seu valor inicial de mercado foi por si só surpreendente: US$ 4 bilhões ou quase 16 vezes seu faturamento anual. Ainda assim, suas ações se valorizaram 106% nos dois primeiros dias de negociação (quinta-feira e ontem) e o valor da empresa passou dos US$ 8 bilhões.

Feitas as contas pelos mesmos critérios (cotações de suas ações em Bolsa), o valor de mercado do Twitter supera os US$ 4,5 bilhões e o do Facebook, os US$ 65 bilhões. As receitas deste último se limitam a alguma publicidade. Não incluem prestação de serviços, como a das empresas de telefonia. A espanhola Telefónica, uma das maiores do mundo, por exemplo, com 300 milhões de clientes, fatura cinco vezes mais do que o Facebook, que aponta como principal patrimônio as fichas de 600 milhões de navegadores.

São distorções assim que levam os analistas a perguntar se não vai sendo reeditado o estouro de bolha das "ponto com" do ano 2000, que o então presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Alan Greenspan, denunciava como "exuberância irracional". Naqueles dias, centenas de empresas se valorizaram milhares de vezes praticamente do nada e, lá pelas tantas, reduziram-se a respingos de sabão que aniquilaram patrimônios de bilhões de dólares.

Mais tarde, o próprio Greenspan foi acusado de ter proporcionado a criação dessas bolhas por manter por muito tempo os juros básicos dos Estados Unidos em torno de 1% ao ano. Havia abundância de dinheiro à procura de retorno e boa parte dele inflou ações dessas empresas.

Há mais de dois anos, os juros básicos nos Estados Unidos beiram o zero por cento e, além disso, o Fed despejou outros US$ 1,9 trilhão para tentar reerguer a economia. Esse canudão segue soprando bolhas sem parar, avisam os críticos.

Em todo o caso, entre essa bolha e a provável bolha seguinte, há diferenças a levar em conta. No ano 2000, só entre 4% e 6% da população mundial navegava na internet. Hoje, 2 bilhões dispõem de banda larga e 4 bilhões carregam um celular. O Facebook, o Skype e o iPhone não existiam nos tempos da primeira grande bolha e, no entanto, hoje mobilizam multidões, como as que acontecem nesta Primavera Árabe ou nas manifestações de jovens neste mês em Madri.

Foram, também, o Facebook e a internet que tornaram possível a enorme gozação de uma semana atrás em São Paulo, por ocasião do churrasco com farofa que celebrou os protestos da "gente diferenciada" contra a construção da estação do metrô do bairro de Higienópolis.

As enormes valorizações do momento imaginam que essas forças impressionantes de comunicação, cedo ou tarde, serão importante fonte de faturamento. É o pote de ouro enterrado onde o arco-íris se encontra com a linha do horizonte.

MERVAL PEREIRA - Decisões paulistas



Decisões paulistas 

MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 21/05/11

A divisão interna do PSDB está impedindo que o partido dispute com chances a prefeitura de São Paulo, pela primeira vez em muitos anos. Mesmo tendo chegado apenas uma vez ao poder, com José Serra em 2004, o partido, que assim como o PT tem sua base no estado, sempre disputou a prefeitura com seus nomes mais destacados, como foi o caso de José Serra em 1988, 1996 e 2004, e de Geraldo Alckmin em 2000 e 2008.

Anteriormente, ainda no PMDB, Mario Covas fora prefeito em 1983, e Fernando Henrique Cardoso fora candidato à prefeitura em 1986, tendo perdido para Jânio Quadros por pouco mais de 1% dos votos.

Como se vê, todas as principais lideranças tucanas passaram pelo teste da disputa da prefeitura paulistana antes de chegar ao governo estadual ou, no caso de FH, à Presidência da República.

O candidato natural neste momento é o ex-governador e ex-prefeito José Serra, mas dificilmente ele aceitará a tarefa, pois essa decisão representaria abandonar o sonho de ainda disputar a Presidência da República em 2014.

Se elegendo prefeito paulistano em 2012, seria impossível a Serra repetir a manobra de renunciar ao cargo para disputar a Presidência um ano depois, como fez em 2006 para ser governador de São Paulo.

Serra só aceitará disputar a prefeitura se se convencer de que não terá a mínima chance de disputar a Presidência, ou pelo PSDB ou, numa manobra mais radical, pelo PSD, que o seu aliado Gilberto Kassab está organizando.

O mais provável, neste momento, é que ele permaneça dentro do PSDB tentando marcar seu espaço político, jogando em eventuais erros do senador Aécio Neves que possam inviabilizar sua candidatura, que parece ser a natural dentro do partido.

Serra pode jogar com o tempo, pois tem a chance de decidir encerrar sua carreira política como senador, na eleição de 2014, e não precisa antecipar uma decisão em 2012.

Se fosse o candidato a prefeito de São Paulo, Serra uniria o PSDB paulista e teria o apoio do partido de Kassab, tornando-se o favorito na disputa, contra possivelmente um candidato do PT - a senadora Marta Suplicy ou o ministro Aloizio Mercadante - e o candidato do PMDB, o deputado federal Gabriel Chalita, que está de saída do PSB.

Para enfrentar Serra, é até possível que PT e PMDB cheguem a um acordo, fazendo uma composição partidária. O ex-presidente Lula chegou a pedir ao presidente do PMDB que não lançasse a candidatura de Chalita, para permitir um acordo com o PT.

O PMDB, no entanto, considera que, em caso de uma composição, o cabeça de chapa tem que ser Chalita, com o PT dando a vice.

Se José Serra não aceitar ser candidato, aí mesmo é que os dois partidos apresentarão chapas diferentes, com acordo de apoio no segundo turno, pois as chances de vencer aumentam.

O PSDB não tem candidato alternativo forte para substituir Serra, e qualquer um da estrutura regional poderá surgir desse impasse. O deputado federal do DEM Rodrigo Garcia, que assumiu uma secretaria no governo Alckmin recentemente, pode ser o escolhido.

Essa indefinição fortalece a possibilidade de que o verdadeiro candidato do governador Geraldo Alckmin seja Chalita, que mesmo tendo saído do PSDB continua muito ligado ao governador tucano, que o considera "um predestinado".

Chalita, aliás, deixou o PSB por não ter garantias de que seria candidato à prefeitura.

Já o prefeito Gilberto Kassab tem várias alternativas para a disputa, embora seu partido não tenha tempo de televisão e precise fazer alianças políticas para suprir essa deficiência.

Por isso mesmo o ex-deputado Eduardo Jorge, do PV, secretário municipal de Meio Ambiente, é uma dessas alternativas, sendo a outra o vice-governador Guilherme Afif, que deixou o DEM para seguir Kassab no PSD.

Esse quadro partidário confuso e indefinido por parte dos que detêm o poder no estado - PSDB e futuro PSD - começou a se delinear na disputa da prefeitura em 2008, quando o ex-governador Alckmin teimou em disputar a eleição contra Kassab, então do DEM, que havia assumido o cargo com a saída de Serra para disputar e vencer o governo de São Paulo.

Kassab, que já detinha a máquina municipal, contou com o apoio da máquina estadual e derrotou Alckmin, que era o candidato oficial do PSDB, mas não tinha o apoio do governador.

Mesmo fenômeno que pode acontecer na próxima eleição, com o governador Geraldo Alckmin dando um apoio "branco" a Gabriel Chalita do PMDB, não por divisão política, mas por não haver um candidato forte nas hostes do PSDB.

Mesmo tendo sido convidado por Serra para fazer parte de seu secretariado depois da derrota, o grupo de Alckmin e o de Serra dentro do governo paulista nunca mais se entenderam, embora entre os dois a relação política esteja normalizada.

Essa relação, porém, limita-se à compreensão da importância política de um e outro, e não se espalha entre os dois grupos, que vivem às turras.

Essa disputa abre condições de o PT reassumir a prefeitura da capital paulista, que já comandou em 1989, com Luiza Erundina, e em 2001, com a atual senadora Marta Suplicy.

Ganhar a prefeitura de São Paulo é parte de um plano estratégico do PT coordenado pelo ex-presidente Lula para tomar o comando político do PSDB, que está no poder estadual há 16 anos seguidos, tendo iniciado sua hegemonia em 1995 com a eleição de Covas.

A reorganização da direção partidária está se encaminhando para definir quem tem mais força política, com o grupo do senador Aécio Neves empenhado em manter suas posições: deve reeleger o deputado Sérgio Guerra na presidência e pretende manter na secretária-geral o deputado mineiro Rodrigo Castro. O grupo serrista está lançando a candidatura do ex-governador Alberto Goldman.

E até mesmo a direção do Instituto Teotonio Vilela entrou na disputa, com o ex-senador Tasso Jereissati tendo o apoio dos senadores do partido com exceção de Aloysio Nunes Ferreira, que apoia José Serra.

A situação do PSDB no estado continua sendo bastante forte devido ao controle da máquina pelo grupo do governador Geraldo Alckmin, que é o favorito para se reeleger em 2014, mas a disputa da prefeitura e a da direção nacional do partido devem explicitar as fraquezas tucanas, que, se não forem superadas, certamente retirarão do partido a possibilidade de disputar a sucessão de Dilma com algum sucesso.

GOSTOSA

CORA RÓNAI - A vida com os tablets


A vida com os tablets 
CORA RÓNAI
O GLOBO - 21/05/11

Uma das perguntas mais frequentes que me fazem é se um tablet como o Xoom ou o iPad pode substituir um notebook. A resposta no atacado é "não", mas, dependendo do uso que o cidadão faz do seu notebook, pode ser "sim".

Para quem faz uso intensivo do notebook, escreve, vive às voltas com planilhas, programa bancos de dados ou usa editores de música ou vídeo - isso para ficar só na ponta elementar do iceberg -, mesmo os próprios notebooks deixam a desejar. É por isso que os desktops ainda existem, e continuarão a existir, pelo menos nas suas pontas essenciais de input e output para o usuário, ou seja, teclado e monitor, respectivamente.

Para quem usa o notebook de vez em quando, em geral em viagens rápidas ou de férias, para acessar a internet e responder a um e outro e-mail, um tablet dá conta do recado, ainda mais se for acompanhado de um tecladinho Bluetooth. Há também certos tipos de trabalho em que tablets funcionam melhor do que os notebooks, pela extrema portabilidade.

A questão fundamental com todas essas máquinas é que, no fundo, nenhuma vem para substituir a outra. Cada uma tem um uso específico, embora muitas partes do uso geral se sobreponham.

Outra pergunta frequente, depois que explico isso: entre o notebook e o tablet, com qual eu ficaria? Resposta impossível. Quando viajo, o notebook é indispensável, porque preciso escrever de verdade e, eventualmente, tratar fotografias. Já tentei viajar a trabalho levando só o iPad e seu teclado Bluetooth, e não me dei bem. Por outro lado, enquanto estou no Rio e tenho acesso constante ao desktop, o notebook fica guardado, sem uso, e o tablet me acompanha o dia inteiro. Não há nada que eu faça no tablet que não pudesse fazer no notebook; se não soubesse que tablets existem, seria perfeitamente feliz com ele. Mas, já viciada nos tablets, não consigo mais voltar atrás.

Um tablet vale o que pesam seus aplicativos. Quais são essenciais à felicidade do usuário? Essa é, novamente, uma questão muito pessoal. Os meus favoritos para um Android bem equipado:

- Dropbox, a perfeição em forma de app. O que é que ele faz? Funciona como uma caixa na qual se guardam arquivos de todos os tipos, textos, músicas, fotos, o que for. E funciona em todas as plataformas. Tenho um Dropbox no desktop para onde arrasto arquivos que quero ter sempre ao meu alcance. Pois esses arquivos, que ficam armazenados na nuvem, podem ser acessados de qualquer aparelho, dos meus tablets Android ou iOS, ou de qualquer dos meus celulares. Uma pasta pública, separada, permite que outras pessoas tenham acesso ao que estiver lá.

- Evernote, um sistema parecido com o Dropbox, mas mais estruturado, praticamente uma área de trabalho, com pastas separadas para notas, fotos, marcadores, blocos de notas. Funciona da mesma forma que o Dropbox, sincronizando automaticamente tudo em todos os lugares.

- IMDB, um filhote da versão completa para browser da grande base de filmes. Com um senão: teima em se instalar nos sistemas brasileiros na versão portuguesa, em que há variações nos títulos traduzidos dos filmes.

- VPlayer, que aceita a maioria dos formatos de vídeo, e que ainda não falhou comigo uma única vez.

- Worldmate, o aplicativo ideal para viajantes, com conversor de moedas e previsão meteorológica, além de ferramentas para reservar voos e hotéis.

- QuickPic, compartilhador de fotos que permite distribuição ampla e irrestrita do material arquivado para sistemas como Bannka, Dropbox, Evernote, Facebook, Gmail, Picasa, PicPlz, Seesmic, Twitpic e o que mais houver no tablet.

- Opera Mini, o melhor browser para tablets, que chega com muitos anos de experiência em celulares.

-- Beautiful Widgets, sem qualquer utilidade prática a não ser tornar a interface mais bonita.

- Kindle, o leitor da Amazon.

- Pulse, um ótimo agregador de notícias.

- Fruit Ninja, joguinho viciante, para alternar com...

- Angry Birds, claro!, o jogo mais divertido para tablets.

Isso, claro, para começar os serviços. Tem muito mais coisa: semana que vem.

DRAUZIO VARELLA - O ataque à camareira


O ataque à camareira
DRAUZIO VARELLA 
FOLHA DE SÃO PAULO - 21/05/11

Pena o ex-dirigente do FMI não ter amigos dos EUA , eles o teriam advertido para não dar mole ao azar


NOS HOTÉIS, os homens americanos tomam a precaução de sair quando a camareira entra para arrumar o quarto.
Vão tomar um café, dão a volta no quarteirão, aproveitam para comprar o jornal, ver o sol, a neve ou os carros que passam, mas no quarto não ficam de jeito nenhum. Estão cansados de saber que no país deles acusação de assédio sexual dá cadeia.
Uma pena o ex-diretor-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional) não ter amigos americanos. Eles o teriam advertido para não dar moleza para o azar; teriam dito que Nova York não é local seguro para realizar fantasias sexuais, nem mesmo para o futuro presidente da França.
Para não negar ao acusado o benefício da dúvida, sou tentado a imaginar que ele tenha sido vítima de alguma armação ou de um "jet lag" internacional.
Homens que viajam muito correm risco de momentaneamente perder a noção do lugar em que se encontram. Digo por experiência própria, já perdi tempo em Salvador procurando uma livraria de Recife.
Ludibriado pelos fusos horários e pelo fato de todos os hotéis de luxo serem iguais, quem sabe não julgou estar no Brasil ou em outro país permissivo como o nosso, no qual um homem endinheirado pode atacar as mulheres mais humildes com total liberdade.
Infelizmente para ele, nos Estados Unidos assalto sexual é considerado crime grave. Lá, dão voz de prisão, algemam e mandam o agressor para a cadeia. Seja quem for. O policial tem autoridade para prender e o juiz para julgar sem que o Poder Executivo ouse interferir, especialmente nos casos rumorosos.
Se tal incidente tivesse acontecido no Brasil, qual a probabilidade de um Don Juan fora de forma, com as ligações políticas e as características socioeconômicas do protagonista, ir parar no Centro de Detenção Provisória do Belém ou no cadeião de Pinheiros? O que diriam do passado e da conduta moral da camareira? Seria ela processada por falso testemunho?
Anos atrás visitei o presídio de Rykers Island, em Nova York. É um complexo formado por vários edifícios, bem organizado, com mais de 10 mil prisioneiros distribuídos de acordo com a faixa etária, o grau de periculosidade e o tipo de crime cometido. Faz parte do conjunto um navio antigo adaptado para funcionar como prisão, ancorado na ilha.
Pela fotografia publicada na Folha, a cela individual designada para o nosso personagem me pareceu decente: bem iluminada, com pia, vaso sanitário, cama com colchão, lençol, cobertor e travesseiro e uma prateleira para servir de apoio. De fato, é mais acanhada do que a suíte presidencial ocupada por ele dias atrás, mas não posso compará-la às dos nossos Centros de Detenção Provisória, com quatro beliches de alvenaria para mais de 20 presos.
Ao chegar a um desses xadrezes, sua excelência não contaria com o privilégio da espuma de borracha amarrotada de uma das camas, muito menos com travesseiros, lençóis, sabonetes e outros luxos, iria diretamente para a "praia", nome dado ao chão duro.
É lógico que não teria direito de escolher o canto que lhe parecesse mais aconchegante: seria obrigado a dormir junto ao "boi", o vaso sanitário usado pelos 25 ocupantes, até que um companheiro recém-chegado o substituísse.
Na manhã seguinte seria abordado pelo "piloto", o manda-chuva do raio, que lhe solicitaria amavelmente uma contribuição semanal para ajudar os irmãos que não recebem visitas, manter o programa de cestas básicas para os familiares da irmandade e cobrir as despesas de viagem das mães e esposas que visitam seus entes queridos nas cadeias do interior do Estado.
Não acho que o ex-futuro presidente da França se negaria a colaborar, é provável que até agradecesse a Deus por sua esposa não depender de auxílio da irmandade para viajar nem para receber a referida cesta, em Paris.
As autoridades brasileiras não teriam como resistir à pressão da opinião pública internacional e do governo francês para libertar seu compatriota, aprisionado em condições tão desumanas.
Por isso, caro leitor, perca as esperanças. Enquanto nossas prisões forem o que são, será mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um homem rico e influente ficar preso numa cadeia brasileira.

GOSTOSA

ILIMAR FRANCO - Termômetro


Termômetro 
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 21/05/11

A base aliada estava preocupada ontem com a perspectiva de enfrentar mais uma semana monopolizada pela crise envolvendo o ministro Antonio Palocci. Parlamentares que, esta semana, saíram em defesa de Palocci dizem que vão mergulhar, temendo ser surpreendidos por novos fatos. Na Câmara, a polêmica deve paralisar, mais uma vez, as comissões, nas quais a oposição tenta aprovar requerimento para ouvir o ministro.

Em alerta com o PMDB
O governo está de orelha em pé com a possibilidade de os senadores dissidentes do PMDB assinarem o requerimento da oposição para criar uma CPI contra Palocci. No Senado, são necessárias 27 assinaturas. O senador Pedro Simon (PMDB-RS), que faz parte desse grupo, disse ontem, no entanto, que o pedido é precipitado. Ele defendeu que se espere a manifestação do procurador- geral da República, Roberto Gurgel. “No meu tempo, CPI era coisa séria. Hoje tem sido blá-blá-blá”, afirmou Simon, que pretende procurar Gurgel na segunda-feira. O senador Eduardo Suplicy (PTSP) também disse achar prudente esperar a PGR.

"Somos cobrados, então temos que fazer o gesto político” — Álvaro Dias, líder do PSDB no Senado, sobre a tentativa de criar uma CPI contra Palocci, mesmo sem a oposição ter número suficiente de assinaturas.

PASSIVO DEMOCRÁTICO. O governo quer votar na Câmara, logo após o Código Florestal, a criação da Comissão da Verdade. O ministro Nelson Jobim (Defesa), na foto, almoçou anteontem com parlamentares do DEM para discutir o assunto. Pelo PSDB, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso já deu sinal verde, mas Jobim ainda vai conversar com as bancadas tucanas. A expectativa é que a comissão sistematize os documentos já revelados sobre a ditadura, verifique as contradições e lacunas, e faça uma prestação de contas à sociedade.

Brasil-China

● O ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) e o ministro de Comércio da China, Chen Deming, acertaram, segunda-feira, a
criação de uma câmara bilateral para agilizar investimentos. As reuniões ocorrerão a cada dois meses.

Vacas magras

● O Ministério da Justiça desistiu de construir, neste ano, o quinto presídio federal em Brasília. Com o corte de R$ 1,5 bilhão em seu orçamento, a pasta está pechinchando até para contratar uma consultoria para melhorar sua gestão.

Jogando a toalha
● Sem maioria no Congresso, os ambientalistas já jogaram a toalha na votação do Código Florestal e vão começar a pressionar a presidente Dilma Rousseff para vetar artigos incluídos no texto pelos ruralistas. Tudo o que o Palácio do Planalto não quer é ficar com esse ônus. Por isso, estica ao máximo as negociações, que já paralisam a Câmara dos Deputados há três semanas, sem sinal de entendimento.

Rompendo a polarização
Em meio à queda de braço entre o ex-governador de São Paulo José Serra e o senador Aécio Neves (PSDB-MG), tucanos de outros estados tentam romper a polarização entre Minas e São Paulo e garantir um lugar na nova Executiva. Argumentam que o PSDB precisa virar um partido nacional. Os tucanos não têm deputados federais em oito estados, precisam se fortalecer no Nordeste e se reestruturar no Rio. A convenção nacional será no próximo dia 28.
 SINCERIDADE 1. Ao apresentar seu secretárioexecutivo, Carlos Gabas, em audiência no Senado, quarta-feira, o ministro peemedebista Garibaldi Alves (Previdência) disse que, quando assumiu, ficou preocupado em ter um adjunto do PT.
 SINCERIDADE 2. E prosseguiu: “Logo no primeiro encontro eu disse a ele que, se ele tinha vindo para me vigiar, porque era do PT, eu tinha trazido do meu estado dois para vigiá-lo”, disse o ministro, em tom de brincadeira.

JOSÉ MIGUEL WISNIK - Dona Norma



Dona Norma
JOSÉ MIGUEL WISNIK

O GLOBO - 21/05/11

O imbróglio da vez é a discussão sobre o manual de ensino da língua portuguesa distribuído pelo MEC, chamado "Para uma vida melhor", da autoria de Heloisa Ramos. Li na imprensa, vi nos blogs e ouvi no rádio do carro vozes, desde sentenciosas a sardônicas e sarcásticas, dizendo que se tratava de uma descarada proposta de ensino do português pelo método invertido, preconizando o erro de concordância, o desvio sintático e o assalto à gramática. Criticava-se a adoção do "lulês" como idioma oficial da escola brasileira. Leio o capítulo do livro em questão e vejo, no entanto, que a autora se dedica nele, a maior parte do tempo, a mostrar a importância da pontuação, da concordância e da boa ortografia na língua escrita. Onde está o erro?

Bater em teclas equivocadas é quase uma praxe do debate cultural corrente, com ou sem rendimento político imediato. Na verdade, o livro assume, para efeitos pedagógicos, uma noção que se tornou trivial para estudantes de Letras desde pelo menos quando eu entrei no curso, em 1967. Os estudos linguísticos mostravam que a prática das línguas é sujeita a muitas variantes regionais, sociais, e que a chamada "norma culta", preconizada pelos gramáticos, é uma entre outras variantes da língua, não necessariamente a mais, ou a única "correta". Desse ponto de vista, científico e não normativo, procura-se contemplar a multiplicidade das falas, reconhecidas na sua eficácia comunicativa, sem privilegiar um padrão verbal ditado pelos segmentos letrados como único a ser seguido.

Discutirei adiante algumas consequências pedagógicas disso. Mas a que me parece inquestionável, e adotada com propriedade no livro de Heloisa Ramos, é a importância de não se estigmatizar os usos populares da língua, reconhecendo em vez disso a validade do seu funcionamento. É nessa hora que ela dava como exemplo a famigerada frase "Nós pega o peixe", ou, então, "Os menino pega o peixe". A autora não diz que é assim que se deve escrever. Mas também não deprecia a expressão: preconceitos à parte, é preciso reconhecer que no seu uso comum a frase funciona, porque a marca do plural no pronome ou no artigo é suficiente para indicar que a ação é exercida por um conjunto de meninos, e não por um só. Desse ponto de vista, eminentemente pragmático, nenhum erro.

A seguir, no mesmo espírito pragmático, o livro afirma claramente a importância de que a escola promova o domínio da norma culta, ligado à língua escrita, justificado pela sua necessidade em situações específicas (aqui virá a minha discordância). Dá exemplos de como corrigir um texto mal escrito, mostrando, dentro dos melhores critérios, como ele deve ganhar coesão interna, articulação sintática, clareza nos seus recortes (pontuação) e seguir os critérios ortográficos.

A grita contra o livro, por aqueles que, imagino, não o leram, é uma estridente confirmação, em primeiro lugar, daquilo que o próprio livro diz e, em segundo lugar, daquilo que ele não diz, mas que deveria dizer.

Afirmar cegamente, com alarme e com alarde, que o livro é um atentado, tornado oficial, à língua portuguesa, pelo respeito localizado que ele dá às variantes populares de fala que não usam extensivamente as flexões, isto é, as normas letradas de concordância, é um sintoma ignorante e disseminado de que se concebe a língua como um instrumento de prestígio, de privilégio e de poder.

Mais que isso, a defesa exaltada e capciosa da suposta correção linguística, desconsiderando todo o resto, é uma desbragada demonstração de ignorância em nome da denúncia da sua perpetuação. Culta, neste caso, é de uma incultura cavalar. O tom desinformado e espalhafatoso da denúncia encobre, mal, aquilo de que ele tenta fugir: o nosso analfabetismo crônico, difuso, contagiante.

Hélio Schwartsman, em compensação, assim como Cristovão Tezza no programa de Monica Waldvogel, disseram coisas importantes e equilibradas. Hélio lembra que a passagem do latim às línguas românicas, o português incluído, só se deu graças às províncias que passaram a falar um latim tecnicamente estropiado, sem as suas declinações clássicas. Sem essa dinâmica e o correspondente afrouxamento flexional, estaríamos até hoje falando latim e usando as cinco declinações.

O inglês, por sua vez, é muito menos flexional que o português. A frase "the boys get the fish", por exemplo, que funciona perfeitamente para marcar o plural, é, do ponto de vista estrutural, uma espécie de "nós pega o peixe" institucionalizado.

O horizonte do pragmatismo é o que me parece estreito, no entanto, no livro do MEC. O domínio da norma culta é justificado, nele, para que o falante tenha "mais uma variedade" linguística à sua disposição, para que não sofra preconceito, para que se desincumba em situações formais que assim o exigem. É muito pouco. A norma culta não é nem um mero adereço de classe nem apenas uma variedade à disposição do aluno para ele usar diante de autoridades ou para preencher requerimentos. A educação pela língua não pode ser pensada apenas como um instrumento de adaptação às contingências. A escrita é um equipamento universal de apuro lógico, que está embutido na estrutura de uma língua dada. Mergulhar nela e nas exigências que lhe são inerentes é um processo de autoconsciência e um salto mental de grandes consequências.

Não se pode fazer por menos. Além de "Para uma vida melhor", tem que ser também "Para uma vida maior".

Bater em teclas equivocadas é quase uma praxe do debate cultural corrente